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A

capa
Quanto temos? Quanto queremos?
Quanto damos e quanto recebemos?
Os adultos sempre querem muito. Querem ou reclamam? Difícil saber. O fato é que buscamos
e ansiamos sem mesmo mensurar o que dispomos para alcançar nossos objetivos. A relação
sutil do movimento de dar e receber de cada indivíduo na vida e o quanto a nossa energia vital
se esvai nos processos é quando essa relação se desequilibra, abrindo o espaço para a
doença como uma brecha na alma.
Quando uma criança estende a mão para receber algo, ela se prepara e se entrega para o
que vai receber. Presente e inteira, ela acolhe e absorve para então devolver ao mundo suas
impressões sem segundas intenções. Um movimento fluido e equilibrado de receber e dar que
deveríamos aprender mais.
Este livro propõe originariamente a termoterapia como recurso terapêutico da fonoterapia.
Não há como não relacionar a termoterapia, terapia que dá ou retira calor do corpo a um sutil
movimento de dar e receber. Diante de um estímulo térmico externo, o corpo modifica toda a
sua fisiologia na busca do equilíbrio e homeostase. De forma muito semelhante é o que
fazemos diante dos desafios da vida, oscilando entre o movimento de dar e receber no mundo
(alguns de forma equilibrada, outros menos).
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Inovar é fazer conexões!


E é dessa forma que a mineira Janaína Pimenta, mestre e graduada em fonoaudiologia e
diretora do Espaço da Voz (BH/MG) constrói sua história unindo prática e teoria, consultório e
estrada. Com 20 anos de experiência como Vocal Coach de grandes vozes da música
brasileira como Ivete Sangalo, Michel Teló, Milton Nascimento, Cesar Menotti e Fabiano, Luan
Santana, Victor e Léo, Nívea Soares, Aline Barros, entre outros, o livro O quente e o frio da
voz é a colheita de um trabalho embasado em pesquisas, com a certeza de que a prática
exercida em trios elétricos e muitos shows ao longo desses anos aponta a obra como leitura
obrigatória para aqueles que querem usar essa ferramenta tão poderosa: a voz.
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Será possível fazer 240 shows no ano sem acabar com sua voz? Dá para imaginar terminar
um show sem ficar rouco? E cantar em um show de 2 horas, ou melhor, 3 horas, e em cima de
um trio elétrico? O que eu posso usar para melhorar minha voz?
E se para todas essas perguntas existisse um recurso, um método não baseado em achismo,
mas em pesquisas que comprovassem a sua eficácia?
É nesse intuito que este livro propõe o uso da Termoterapia - tanto no que se refere à
hipertermoterapia como à Crioterapia - como recurso terapêutico no tratamento vocal.
Partindo da literatura esportiva, na qual a termoterapia já é um recurso extremamente utilizado,
a autora toma por base quatro pesquisas e faz pela primeira vez na literatura uma proposta
metodológica para o uso da Termoterapia no atendimento de profissionais da voz e com
alterações vocais.
Buscando aproximar a teoria à pratica, O Quente e o Frio da Voz conta com depoimentos de
cantores profissionais em evidência no mercado e que fizeram uso da técnica, expondo um
universo muito particular do canto e do fonoaudiólogo atuante.
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Janaína Pimenta
Fonoaudióloga clínica
Mestre em fonoaudiologia pela Universidade Veiga de Almeida do Rio de Janeiro
Especialista em Voz pelo CEFAC
Diretora do Espaço da Voz
Vocal coaching de cantores profissionais de alta performance.
Membro da Sociedade Brasileira de Laserterapia
Coordenadora da disciplina de Fonoaudiologia da Sociedade Brasileira de Laser e tecnologia
Pesquisadora em fisiologia da voz humana e medicina do esporte, desenvolveu recursos para
canto de alta performance. Certificada pelos métodos LSTV (Lee Silverman Voice Treatment),
LMRVT (Lessac Madsen Resonance Voice Therapy), Kinesio Tapping Association International.
International Certificate Dynamic Taping.
Contato com a autora
espacodavoz@espacodavoz.com.br
janaina@espacodavoz.com.br

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COLABORADORES
Aleida Nazareth Soares
Graduada em Estatística pela UFMG (1999). Especialista em Administração com ênfase em
Logística e Pesquisa Operacional (2002). Mestrado em Estatística (qualificação: dez/2007).
Mestrado em Ciência da Saúde Linha de pesquisa Epidemiologia (defesa: out/2011).
Doutorado em Ciência da Saúde (qualificação: dezembro/2015). Tem experiência como
docente em universidades de Minas Gerais a nível de graduação e pós-graduação lato sensu e
stricto sensu. Consultoria estatística em diversas áreas.
Alexandre Cavallieri Gomes
Graduado e mestre em fisioterapia pela Universidade Federal de São Carlos (SP). Sócio
proprietário e diretor clínico do Espaço Saúde Figueiras – Santo André (SP). Docente
convidado em pós-graduações da UNIP, UNICID, Metodista, UNIMEP, UNIFESP, entre outras;
Líder do programa de padronização de condutas para as Olimpíadas de 2016 na área de
eletroterapia, pela SONAFE. Sócio fundador e especialista em fisioterapia esportiva da
SONAFE Brasil.
Aline de Oliveira Pimenta
Fisioterapeuta pós-graduada em Ortopedia e Esportes pela UFMG, Certificação Internacional
no Método Pilates pela Universidade de Madri, International Certificate Dynamic Taping,
Instrutor Pleno no Método STS – Strength Training Strategies de Musculação Terapêutica,
Certificação em Podoposturologia, pós-graduanda em Acupuntura pelo INCISA/IMAM.
Andréa Moreira Veiga de Souza
Médica Otorrinolaringologista. Mestrado em Medicina pela Faculdade Ciências Médicas pela
Santa Casa de São Paulo.
Fernanda Ferreira da Silva
Fonoaudióloga Clínica do Espaço da Voz. Especialista em Voz pelo CEV - SP (Centro de
Estudos da Voz). Certificada pelo método LSTV - Lee Silverman Voice Treatment.
Gabriel Rabelo Guimarães
Médico Otorrinolaringologista e cirurgião de cabeça e pescoço do Hospital Felício Rocho.
Girlandia Maria de Souza Goepfert
Médica otorrinolaringologista. Especialista em cirurgia plástica e estética da face.
Julya Macedo
Fonoaudióloga especialista em voz e motricidade oral pelo CFFa. Mestre em Ciências da
reabilitação pela UEL/UNOPAR. Coordenadora e professora do Departamento de
Fonoaudiologia da Faculdade Global de Umuarama (PR) - 1ª Articuladora Regional do
Departamento de Voz da SBFa (3ª Região).
Karine V. Gonçalves de Oliveira
Médica Otorrinolaringologista. Membro titular ABORL-CCF.
Nicole Pimenta Araújo
Graduanda em Psicologia na PUC Minas.

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DEDICATÓRIA
Noite e dia
Sol e lua
Quente e frio
O princípio do prazer e da realidade
A punção de vida, a punção de morte
A felicidade e a dor extrema
A experiência da dor e a libertação de temores da alma
E, então, a certeza de que estamos inseridos em algo maior.

Vocês me fizeram desabrochar para a vida!


Dedico este livro aos meus filhos:


João (sol que aquece meu coração diariamente)
e
Antônio (in memorian) (lua que lembra a minha alma de sua liberdade)

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AGRADECIMENTOS
A minha mãe, que do nada me deu tudo. Meu amor!
A meu pai pela vida, carinho e respeito.

Ao Márcio, meu companheiro, amigo. Só com a sua leveza, alegria e carinho! Meu forte
homem!

A João Cabral Pimenta, por sua presença tão ativa em cada passo da minha vida e suas
pontuações
tão sábias e sensíveis.

A Lúcia, pelo carinho, disponibilidade e paz que me proporciona.


Aos meus pacientes, grandes encontros que a vida me proporciona! Minha verdadeira
inspiração!
A vocês, todo o meu carinho e dedicação.

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AGRADECIMENTO ESPECIAL
Ivete Sangalo - À sua força, persistência, amizade e, principalmente, oportunidade,
reconhecimento e confiança.

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PREFÁCIO
A voz! Meu maior termômetro das emoções.
E por conta dessa conexão total com ela, busquei cuidar direito desse bem maior. Foi aí que
me encontrei com Janaína.
A princípio eu tinha a ideia de que alguns cuidados eram suficientes, mas aconteceu o
inesperado: o meu absoluto interesse sobre o assunto. A responsabilidade dessa curiosidade
vem dela, Janaína.
Muito prazeroso ver um profissional não se acomodar e buscar sempre novos caminhos. Foi aí
que vivi na pele os resultados das pesquisas que ela desenvolvia e traziam na prática grandes
resultados para a minha cantoria.
Neste livro, Jana traz o frescor da busca para o melhoramento do seu trabalho e a vasta
experiência de quem vive cercada de grandes vozes. A pesquisa é seu forte! Ela é inquieta e
muito curiosa! Este livro é o resultado de parte do que ela guarda na manga! O calor e o frio
têm sido aliados na minha rotina vocal. Sinto-me confortável e segura.
Assim como ela faz, este livro nos leva a um universo curioso, onde o aprendizado é para toda
a vida!
Ivete Sangalo
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NOTA DA AUTORA
ONDE TUDO COMEÇOU
Cantor atleta e o Espaço da Voz
A escrita deste livro se iniciou em 1996, quando entrei pela primeira vez em um trio elétrico
para acompanhar um cantor disfônico, cujo tratamento fonoaudiológico no consultório auxiliava,
mas não sanava o problema. Resolvi checar o que afinal ele fazia de errado, pois certamente
eu, uma recém-formada, seguidora à risca de todas as cartilhas, não estaria equivocada.
Então, munida de todas as supervisões e cursos de aperfeiçoamentos com as doutoras mais
recomendadas da época, segui firme e cheia de mim a fim de descobrir o culpado.
Eu tinha que agir rápido. O carnaval, a festa em que os cantores sofriam abuso vocal por
cantar longo tempo, provavelmente umas 3 horas - pensava inocentemente a mineirinha recém-
aportada - estava às vésperas.
Lá fui, animada, toda equipada com minha máquina fotográfica e computador pouco prático
debaixo do braço, que totalizava uma bagagem de mão certamente acima de cinco quilos, o
que não me assustava, pois eu queria registrar tudo sem perder nenhum detalhe com meu
jovem espírito pesquisador.
Logo ao entrar no trio fiquei estranhamente confusa, mal conseguia conversar ou articular as
palavras, tamanha era a potência do som. Tudo acontecia ao mesmo tempo e a prática era
muito diferente da teoria. Alguns conceitos de limite e repouso vocal, dias de descanso e
fragilidade vocal foram ficando para trás. Havia uma distância muito grande entre o ideal e a
realidade e tive que adaptar e criar recursos. Houve muitos momentos em que diante do que
me deparava e da minha formação, a minha conduta deveria ser: Cancele o show! Pare tudo!
Faça repouso vocal! Está tudo errado!
Foram momentos difíceis e de muitos questionamentos profissionais. Qual era a minha
verdadeira função? Nessas horas, se assim tivesse agido, o que teria acontecido?
Provavelmente os cantores teriam continuado a se machucar, a ficar roucos e de alguma
maneira alguma solução dariam. A que preço, não é possível dizer. Mas certamente não
parariam, pois na maior parte dos casos era a chance profissional da vida deles em um país
com poucas oportunidades. Então resolvi me adaptar, criar recursos, acreditar que se tinha
alguém que poderia criar algum caminho naquele momento, eu estaria mais bem formada para
tal, afinal não era essa a função do fonoaudiólogo? Fui atrás dos recursos que tanto me
faltavam nessas situações extremas.
O cantor de trio é um artista com um nível muito alto de exposição, improviso e demanda . É
como se estivesse em um programa de TV ao vivo sem corte o dia todo. O artista deve lidar
com muitos aspectos da sua imagem, da sua comunicação com o público e meios televisivos,
ao mesmo tempo em que canta e deve se preocupar com a sua performance propriamente
dita (aspectos vocais e musicais) em condições, na maioria das vezes, inadequadas
(condições climáticas, logísticas, entre outras). Não há cortes ou edição. E como o tempo é
muito longo (podendo chegar a 7 horas de duração a depender das intercorrências do próprio
percurso), ele deve ter preparo, força e resistência tanto vocal, quanto física e psíquica. Uma
verdadeira maratona atlética.
E foi por isso que desde então o meu trabalho se estruturou sobre os alicerces propostos no
atendimento de atletas de alta performance. Desse modo e nessa visão de atleta de alta
performance, deve-se ter como meta que ele atinja todo seu potencial para desfrutar de tudo
que suas habilidades possam proporcionar, para isso cabe aos profissionais envolvidos dar
todo o suporte a esse cantor atleta. Foi dentro desse contexto que senti a necessidade de
criar um espaço para a voz, no qual se pudesse criar caminhos para essa população em
questão, utilizando de todos os recursos disponíveis na ciência e focando no aumento da
performance dos cantores (atingir o potencial máximo) e na recuperação destes. Cria-se,
então, o Espaço da Voz.*
Foi e ainda é um trabalho árduo. A literatura fonoaudiológica era muito escassa e tendia muito
mais a caracterizar uma determinada patologia ou perfilar a população com um distúrbio
específico do que explorar os recursos terapêuticos. E em se tratando de um contexto tão
específico, de cantores com uma demanda intensa, ela se tornava ainda mais restrita. Qual
outro lugar do mundo há um evento tão longo em que cantores se submetam a cantar por sete
horas seguidas nas condições que o carnaval aqui impõe? Essa situação extrema muito me
ensinou e ensinar a auxiliar no atendimento dos cantores de uma maneira geral. Tem-se um
imenso campo de estudo pela frente e, acredito, cheio de possibilidades. Há de se ter
fundamentação, pesquisa, observação, ética, trabalho e muita coragem. Acredito que dei um
passo importante. Que sirva de inspiração...
* O Espaço da Voz foi criado pela fonoaudióloga Janaína Pimenta e hoje conta com uma
equipe de fonoaudiólogas e tem parceria com vários profissionais como fisioterapeutas,
nutricionistas, professores de canto, ortodontistas, otorrinolaringologistas, psicólogos,
audiologistas, entre outros, que realizam um atendimento personalizado para o cantor, dentro
de uma visão deste profissional como atleta de alta performance.

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APRESENTAÇÃO
A disfonia aguda constitui frequentemente uma “emergência” e motivo comum de consulta em
serviços de laringologia e voz, principalmente por pessoas que utilizam a voz profissionalmente.
Tratamentos rápidos e eficazes em casos de comprometimento da voz são essenciais para
profissionais da voz, que na maioria das vezes não podem se afastar de suas atividades ou
manter-se em repouso vocal. Os tratamentos descritos na literatura são escassos e pouco
eficientes para a emergência que a situação profissional exige.
As propostas da literatura fonoaudiológica para as situações de laringite aguda, decorrentes
de uso extremo da voz, além de escassas, tendem a levar o indivíduo a um novo padrão
fonatório mais adequado, livre de esforço, associado aos conceitos de repouso e saúde
vocal(1, 2, 3 ,4, 5, 6).
Pouco ou nada se fala de atletas de alta performance, cantores atingindo seu potencial
máximo e, principalmente, em recursos terapêuticos que auxiliem a recuperação vocal em um
período mais breve, que é às vezes essencial para a manutenção da carreira profissional do
indivíduo.
Diferentemente, há cinco décadas, a Fisioterapia vem apresentando muitos avanços,
principalmente no que se refere a recursos terapêuticos, o grande foco de suas pesquisas.
Tais avanços podem muito auxiliar à Fonoaudiologia, ciência ainda recente e em fase de muitas
descobertas. Entre as condutas terapêuticas utilizadas na Fisioterapia, a termoterapia é
frequentemente apontada por sua grande difusão na medicina do esporte, com literatura
extensa, além de seus notáveis resultados.
É de senso comum que a temperatura provoca alterações vocais. O uso do calor e frio são
recomendações frequentes a cantores por seus resultados ora benéficos, ora maléficos.
Ninguém sabe ao certo o que faz bem ou o que faz mal, mas todos têm uma opinião a dar.
Tome algo quente antes de cantar! Tome algo gelado! Entretanto, nenhuma referência é feita
na literatura à termoterapia.
Diante da ausência da termoterapia na literatura fonoaudiológica, este livro foi estruturado a
partir de quatro pesquisas:

- Pesquisa 1
Uso do calor úmido no tratamento da disfonia aguda por laringite.

- Pesquisa 2
Ação do frio em pregas vocais de cães.

- Pesquisa 3
Avaliação perceptiva e acústica da voz após a aplicação do frio sobre a pele do pescoço.

- Pesquisa 4
A eficácia da Crioterapia na prevenção de edema de pregas vocais após alta demanda vocal.

Assim, pôde-se, a partir da Pesquisa 1, documentar a primeira relação da fonoaudiologia com


a hipertermoterapia e comprovar seus benefícios como importante recurso terapêutico. E nas
Pesquisas 2, 3 e 4, criar os primeiros instrumentos para fundamentar o uso da Crioterapia na
voz como um recurso terapêutico dentro da terapia fonoaudiológica.

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TERMOTERAPIA PARTE 1
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TERMOTERAPIA
A termoterapia é a aplicação de qualquer substância ao corpo que resulta no aumento ou
diminuição da temperatura dos tecidos corporais estimulando a termorregulação corporal, a
qual ocorre a partir de respostas fisiológicas específicas, podendo ser utilizada com intuito
terapêutico. A terapia com o calor é chamada de Hipertermoterapia e a terapia com o frio é
denominada Crioterapia.
Relatos da utilização do uso do calor ou do frio como forma de aliviar inúmeros incômodos
corporais, entre eles, a dor, sucedem desde os nossos antepassados. Atualmente, esse uso
se apresenta como modalidades terapêuticas extremamente úteis, se aplicadas
apropriadamente.
A efetividade dessa ferramenta é limitada ao conhecimento e à experiência do terapeuta que
deverá escolher a modalidade, o momento certo e a forma de aplicá-la a partir das opções
disponíveis em determinada situação clínica, ou seja, não há um livro de receitas predefinido,
mas um terapeuta que baseado em evidências científicas tenha uma boa capacidade de
tomada de decisão(6).
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HIPERTERMOTERAPIA
INTRODUÇÃO E LITERATURA
“O calor tem sido usado para apaziguar as dores desde que o homem experimentou pela
primeira vez o que o calor do sol poderia fazer por ele.” Licht S.(7). Em climas frios o calor é
sempre um conforto, mas mesmo em locais com temperaturas quentes as pessoas se expõem
ao sol, demonstrando ser o uso do calor uma experiência desejada, uma terapia instintiva,
como Sigerist, 1951, o denominou(8).
Hipertermoterapia significa terapia com calor. É a aplicação de qualquer substância que
provoque o aumento da temperatura dos tecidos, estimulando a termorregulação corporal. O
calor é usado há séculos para alívio da dor, espasmo muscular e aumento do fluxo sanguíneo.
Os efeitos dependem dos agentes de calor escolhidos para o programa de terapia. Existem
inúmeras modalidades terapêuticas, cujo objetivo é o aumento da temperatura tecidual,
entretanto, a escolha desta dependerá dos objetivos diante da situação deparada, uma vez
que diferentes modalidades produzem diferentes padrões de aquecimento com picos de
temperaturas variados e consequentemente diferentes resultados terapêuticos. Pode-se dizer
que os agentes térmicos são divididos em duas categorias: calor superficial (bolsa quente,
banho de parafina, hidroterapia, lâmpadas infravermelhas, entre outros) e o calor profundo
(ondas curtas, ultrassom e outros). De uma maneira geral, sabe-se que o calor pode produzir
os seguintes efeitos terapêuticos desejáveis:
aumento do fluxo sanguíneo;
aumento da extensibilidade do tecido colágeno;
diminuição da rigidez;
alívio da dor;
diminuição do espasmo muscular;
auxílio na resolução da inflamação e edema(9, 10, 11).
Entendendo os efeitos da elevação da temperatura
O aumento da temperatura corporal pode ocasionar muitas reações aos tecidos, tais reações
dependem da quantidade de calor aplicada, volume do tecido exposto, tipo de energia
utilizada. As alterações fisiológicas podem ocorrer no local, em áreas remotas e até alterações
sistêmicas, a depender do volume do tecido exposto ao calor. As mudanças mais relevantes a
abordar incluem alterações na atividade metabólica, função hemodinâmica, a resposta neural,
atividade músculo esquelética e as propriedades físicas do tecido colágeno.
REAÇÕES METABÓLICAS
Todas as reações químicas nas células do corpo são influenciadas pela temperatura. As
atividades químicas nas células e as respostas metabólicas aumentarão de 2 a 3 vezes a cada
10 graus de aumento de temperatura, tendo porém um ponto limite em torno de 45 a 50 graus,
a partir do qual pode haver prejuízo ao tecido que provavelmente se queimará, visto que a
atividade metabólica necessária para repará-lo não é capaz de manter-se com desnaturação
de proteína induzida termicamente. Desse modo, o calor provoca estímulo geral do
metabolismo celular, com aumento da síntese proteica e da atividade enzimática com
modificações da permeabilidade da membrana celular. Essa situação pode significar um efeito
positivo importante, como a maior captação de oxigênio pelos tecidos e mais nutrientes que
estarão disponíveis quando for necessário promover a reparação e cicatrização destes, ou um
efeito negativo, quando o calor aumentar o edema devido à ampliação da reação inflamatória
pelo mesmo aumento da permeabilidade dos capilares que foi tão benéfico na situação
anterior. Portanto, a escolha do momento correto para a aplicação do calor é de fundamental
importância para o alcance de seus benefícios.
RESPOSTAS VASCULARES
O uso do calor tem como efeito o aumento do fluxo sanguíneo devido a sua propriedade
vasodilatadora. Entretanto, vale lembrar que os mecanismos de controle do fluxo sanguíneo se
diferem a depender das estruturas como, por exemplo, na pele, se comparada aos músculos
esqueléticos. As respostas à mudança de temperatura não são sempre as mesmas, se têm a
mesma direção podem variar na magnitude. A pele, por exemplo, apresenta um importante
papel na nutrição e manutenção constante da temperatura corpórea. Desse modo, é única a
medida que apresenta vasos especializados, anastomoses vasculares, que têm fundamental
papel na perda de calor. Na temperatura normal do corpo os nervos vasoconstritores
simpáticos mantêm as anastomoses quase totalmente fechadas, mas quando o tecido
superficial é aquecido, o número de impulsos simpáticos é extremamente reduzido para que as
anastomoses dilatem e permitam que grande quantidade de sangue flua para os plexos
venosos. Essa atividade aumenta o fluxo sanguíneo, o que pode promover a perda de calor
por parte do corpo. A modificação do fluxo sanguíneo na pele pode ser causada por um
mecanismo local ou reflexo. A vasodilatação ocasionada pelo calor pode ser proporcionada por
três fatores: um axônio reflexo, liberação de mediadores químicos secundários à elevação da
temperatura, reflexos medulares locais.
Já nos músculos esqueléticos, o que parece é que alterações no fluxo sanguíneo são mais
influenciadas por regulação metabólica, demonstrando maior resposta com o aumento do nível
de exercício. Em estudo realizado por Greengerg (1972), comparou-se o aumento do fluxo
sanguíneo após uso de bolsa quente, exercício e a combinação das duas técnicas, chegando à
conclusão de que o exercício foi mais eficiente para aumentar o fluxo sanguíneo no músculo,
se comparado à bolsa quente, mas essa resposta era muito maximizada se associasse as
duas técnicas(12, 9, 13).
Terapeuticamente isso pode ser benéfico inclusive para a dor, no espasmo muscular e nos
estados de tensão.
EFEITOS NEUROMUSCULARES
O calor é usado terapeuticamente para promover analgesia, redução de dor e espasmo
muscular. Entretanto, não se sabe ao certo como se dá fisiologicamente esse processo, talvez
pela ação das endorfinas, ou pela teoria de comporta de modulação da dor. Desse modo, o
calor é aplicado em distúrbios musculoesqueléticos e neuromusculares, tais como torções,
tensões, problemas articulares, espasmos musculares. Produz um efeito de relaxamento,
modificando o estado de tensão, o que possibilita manter uma atividade prolongada; Em
contrapartida, reduz a proteção do músculo esquelético, o que deve ser avaliado, minimizando
riscos de lesão.
EFEITOS NOS TECIDOS CONJUNTIVOS
Ao que tudo indica o uso do calor aumenta muito a extensibilidade do tecido. Outro ponto
verificado em vários estudos, entre eles um estudo realizado em tendões(13), é que se
combinar a elevação da temperatura a um alongamento do tecido, amplifica-se ainda mais a
extensibilidade deste, assim como pode-se alterar suas propriedades viscoelásticas,
permitindo um alongamento residual, ou seja, uma deformação plástica do mesmo. Quando
cargas diferentes foram aplicadas no tendão em 45° C, notou-se que com maior carga houve
maior alongamento residual. Em comparação, a mesma carga não produziu nenhum
alongamento residual quando o material manteve-se em temperatura normal. Se a temperatura
foi elevada, mas nenhuma carga aplicada, nenhum alongamento residual foi observado.
Terapeuticamente tal fato tem a implicação de que o estresse nas estruturas durante ou
imediatamente após o calor é necessário, pois sem isso não se observa nenhum efeito de
alongamento tecidual. Esse experimento demonstrou que menor força é requerida para ganhar
alongamento, quando o calor é aplicado.
Outro ponto importante estudado foi a influência da quantidade de calor adicionado ao tecido e
seu posterior alongamento. Observou-se que em temperaturas mais altas o tecido necessitava
ser mais alongado para ocorrer ruptura(10, 14, 15).
Terapeuticamente falando, parece diminuir a resistência ao movimento, o que pode dar a
sensação de maior conforto ao paciente quando essa resistência está aumentada por alguma
razão, facilitando sua recuperação.

CONTRAINDICAÇÕES E PRECAUÇÕES AO USO DA TERMOTERAPIA


Antes da tomada de decisão do uso da termoterapia, cabe ao terapeuta avaliar as condições
circulatórias, sensibilidade para temperatura e dor, evitando assim riscos de queimadura. É
contraindicada a aplicação do calor em(9):
áreas com falta de sensação térmica intacta;
regiões com alguma insuficiência vascular ou doença vascular;
áreas com hemorragia recente ou potencial hemorrágico;
áreas com malignidade conhecida, uma vez que o calor pode ativar ou movimentar células
malignas;
áreas com inflamação aguda, uma vez que o calor potencializa a resposta inflamatória;
áreas infectadas, onde a infecção pode se espalhar correndo risco de contaminação cruzada;
áreas com feridas abertas ou problemas de pele (banho de imersão frios e banhos de
contraste);
o calor profundo é contraindicado em casos de gravidez, portadores de marca-passo, casos
de Tromboflebite e em áreas como olhos e órgãos reprodutores.
HIPERTERMOTERAPIA E VOZ
O uso do calor para alívio de sintomas da laringite, gripe, obstrução nasal, dor de garganta,
tosse e rouquidão é frequente entre as indicações caseiras, desde as formas de chá quente,
gargarejos, até banhos quentes e vaporização do ambiente. Apesar de ser senso comum, não
há referências na literatura dos reais benefícios provocados pelo uso do calor, corroborando
com os achados de Franco e Andrus (2007), que fazem ressalva na revisão sobre diagnóstico
e tratamento sobre a má documentação a respeito da prevalência dos tratamentos nos
processos inflamatórios da laringe, relatando ainda que acometem principalmente profissionais
da voz. Estes, por sua vez, necessitam de melhora imediata, como é o caso dos cantores,
atores e ministros de igrejas(16). Watts (2001), diante da escassez da literatura laringológica,
propõe a seguir o primeiro estudo de hipertermoterapia e voz, objetivando mensurar os efeitos
do calor na qualidade vocal e como recurso para o tratamento no controle dos efeitos do
processo inflamatório(17).

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PESQUISA 1 – Uso do calor úmido no tratamento da disfonia aguda por laringite


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Janaína Pimenta de Oliveira *


Andrea Moreira Veiga de Souza**
Fernanda Ferreira da Silva***

Trabalho realizado no Espaço da Voz.


* Fonoaudióloga, especialista em voz pelo CEFAC e Conselho Federal, mestre pela
Faculdade Veiga de Almeida no RJ, Diretora do Espaço da Voz e Vocal Coach de cantores
profissionais.
**Médica Otorrinolaringologista. Mestre pela faculdade Ciências Médicas pela Santa casa de
São Paulo.
***Fonoaudióloga Clínica do Espaço da Voz. Especialista em Voz pelo CEV.
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RESUMO
A laringite aguda é muito frequente em profissionais da voz e os tratamentos descritos na
literatura são escassos e pouco eficientes para a emergência que a situação profissional
exige. O objetivo deste estudo foi verificar a eficiência do vapor quente no tratamento da
laringite aguda.
Material e Método
Foram avaliados 43 indivíduos com quadro agudo de disfonia por laringite. Todos foram
submetidos à avaliação videolaringoestroboscópica e à avaliação perceptiva-acústica da voz
antes e após 30 minutos da aplicação de inalação do vapor quente.
Resultados
Na avaliação videolaringoestroboscópica, 100% dos indivíduos apresentaram melhora
estatisticamente significativas nos parâmetros de hiperemia, edema, movimento muco-
ondulatório e coaptação glótica. O mesmo ocorrera nos parâmetros perceptivos auditivos
obtidos pela escala GRBAS. Nesta observou-se melhora significativa das medidas de G, R, S,
o que corrobora com os achados acústicos de melhora de Jitter, Shimmer, NNE e HNR.
Conclusão
A utilização do calor úmido como tratamento auxiliar da disfonia aguda por laringite pareceu ser
um método eficaz e rápido, merecendo mais estudos.

INTRODUÇÃO E REVISÃO
O calor quando acrescentado à matéria gera inúmeros fenômenos físicos em decorrência da
elevação cinética de sua microestrutura. Entre eles pode-se citar: elevação da temperatura,
expansão do material, mudança no estado físico, aceleração das reações químicas, produção
de uma diferença de potencial elétrico, produção de ondas eletromagnéticas, redução da
viscosidade dos fluidos, entre outros(18).
No corpo humano o aquecimento dos tecidos traz à tona os mesmos efeitos físicos do calor
sobre a matéria. O calor gerado no âmbito de qualquer tecido não fica confinado àquele
tecido, mas, ao contrário, se distribui pelas partes adjacentes de acordo com as leis do fluxo
térmico e pelas mudanças do fluxo sanguíneo local, sendo tal distribuição influenciada por
inúmeros fatores como dimensão da área aquecida, profundidade de absorção de uma
radiação específica, duração do aquecimento, intensidade de irradiação, métodos de
aplicação(18).
Abramson e Col., (1965), sugerem que o calor seco pode elevar a temperatura superficial em
grau ligeiramente mais elevado, enquanto o calor úmido pode levar a elevações da
temperatura em níveis mais profundos(19).
Existem vários métodos de aplicação do calor superficial: cera, coxins e compressas térmicas,
ar aquecido, hidroterapia, fluidoterapia.
Os efeitos terapêuticos do calor local aplicado são: alívio da dor, relaxamento muscular,
redução do espasmo, promoção do fluxo sanguíneo, aumento do metabolismo, facilitação da
cicatrização dos tecidos e uma redução na rigidez articular e aumento da elasticidade
muscular(20, 21, 22, 11).
A temperatura exerce uma influência direta na função celular, mas a lesão térmica pode
ocorrer em muitos locais. As membranas celulares são particularmente sensíveis. A estrutura
lipoproteica das membranas pode tornar-se mais fluida com a elevação da temperatura,
causando uma solução de continuidade na permeabilidade (23). Desse modo, o calor deve ser
aplicado com cautela, levando em consideração, principalmente, os riscos de queimadura e
casos em que ele se torna contraindicado como em pacientes com falta de sensibilidade
térmica, circulação comprometida, áreas de sangramento ou hemorragia recente, feridas
abertas, pele desvitalizada, como nos casos de tratamento profundo por raios-X(9, 11).
A aplicação tanto do frio quanto do calor em processos inflamatórios são frequentes,
entretanto, deve-se levar em consideração o estágio da inflamação. Dessa forma a utilização
do frio é preferível durante o estágio agudo da inflamação para alívio da dor e redução
possível do edema. O calor, ao contrário, pode exacerbar o processo inflamatório inicial, mas
acelera o processo cicatricial. Isso ocorre devido a um aumento da taxa metabólica e fluxo
sanguíneo local.
A taxa metabólica pode sofrer uma elevação de 13% para cada elevação de 1° C na
temperatura do tecido, e o aumento do metabolismos será maior na região onde é gerada a
maior parte do calor. A elevação da temperatura em um tecido produz um incremento na
atividade enzimática até um valor de pico, seguida de um declínio, e finalmente a abolição da
atividade enzimática. Assim, a presença do aquecimento faz com que mediadores químicos,
como as bradicininas e histaminas afetem a permeabilidade dos capilares e das vênulas pós-
capilares. Essa possibilidade, com a pressão hidrostática capilar, pode resultar em edema. É
por essa razão que se deve evitar a aplicação do calor local nos primeiros estágios de um
trauma. Apesar disso, deve-se levar em consideração que ocasionando o calor local uma
elevada demanda do tecido por oxigênio e nutrientes e, consequentemente, aumento da
eliminação dos produtos do catabolismo, teria-se um método terapêutico auxiliar no
tratamento de lesões, infecções, embora em estágio mais avançado do processo inflamatório,
no qual o edema já estivesse instalado(26).
O aumento do fluxo sanguíneo local oriundo da aplicação do calor é essencial, uma vez que
garante uma boa irrigação sanguínea para a cura, cicatrização e, caso esteja ocorrendo
infecção, o aumento no número de leucócitos e de exsudado fluido, ajudando a destruir as
bactérias.
Outro efeito fisiológico importante é o aumento da extensibilidade dos tecidos colágenos, o que
resulta na possibilidade de um estiramento maior desses tecidos, sendo capaz de produzir
maior alongamento deste sem tanta resistência. Além disso, deve-se considerar que o
aumento da temperatura reduz a viscosidade dos fluidos, minimizando ainda mais a resistência
ao movimentos dos tecidos.
Portanto a utilização do calor como um recurso para auxílio no processo inflamatório é uma
das indicações frequentes da hipertermoterapia na medicina do esporte.
Entre os profissionais da voz, processos inflamatórios na laringe, as laringites são muito
comuns nessa população(16). Já em 1988, Gray e Titze revelaram os danos laríngeos da
hiperfonação em estudo experimental em cães, demonstrando que as pregas vocais já
apresentavam vários prejuízos em sua superfície, gerando edema mais importante naqueles
grupos submetidos à hiperfonação por períodos superiores a duas horas(24).
Mishra et al. (2000) revisaram exames videolaringoestroboscópicos de 40 cantores com
problemas agudos de voz, antes de uma apresentação, e a maioria apresentava sinais de
processo inflamatório, principalmente o edema das pregas vocais (18 pacientes) e o edema
pré-nodular no 1/3 médio (5 pacientes), entre outros achados, como aumento de
vascularização nas pregas vocais, nódulos e a hemorragia de prega vocal. Encontraram exame
normal em 25%, constatando que os cantores percebem alterações na voz antes mesmo de
elas serem detectáveis na videolaringoestroboscopia. O mesmo estudo chama a atenção para
a falta de padronização quanto ao tratamento para tais casos(25).
Klein et al. (2007), em um artigo descritivo abordando emergências vocais, relataram as várias
situações que podem levar à disfonia aguda e resultar em emergência vocal. Citaram a
hemorragia vocal, as laringites agudas, o fonotrauma, a ruptura de mucosa, o edema agudo,
as infecções do trato respiratório superior, alergias, refluxo gástrico e alterações hormonais.
No edema agudo ocorre um acúmulo de líquido no espaço de Reinke, com aumento de massa
e consequente irregularidade de vibração das pregas vocais e alteração da voz. O autor
também chama atenção para o tratamento descrito básico, que é o repouso vocal, o que nem
sempre é possível para os profissionais da voz(26).

MATERIAL E MÉTODO
Esta metodologia foi baseada no protocolo proposto por Dejonckere et al.(27) para avaliação
funcional de vozes alteradas e seus tratamentos.
Participaram desse estudo 43 cantores populares de 20 a 45 anos (25 mulheres e 18 homens)
com quadro de disfonia aguda por laringite.
Os critérios de exclusão foram pacientes com doenças sistêmicas com impactos vocais,
doenças motoras, psiquiátricas e neurológicas diagnosticadas, portadores de paralisias
laríngeas e hematomas de pregas vocais, além de pacientes que estivessem dentro das
contraindicações para o uso da hipertermoterapia, seguindo os preceitos de Michlovitz, SL,
1996(9).
Todos os pacientes foram submetidos à avaliação laríngea (videolaringoestroboscopia) e vocal
(avaliação perceptiva e acústica) antes e após aplicação de 30 minutos de calor úmido, por
meio de vaporizador da marca Vick, localizado a 40 cm dos informantes, encaixado a um cano
PVC joelho de 100 mm e 90 graus, direcionando melhor o vapor para a boca e nariz do
informante, evitando assim a perda do calor.
A videolaringoestroboscopia foi realizada com laringoscópio JC Biocam e registrada em DVD
para posterior análise dos seguintes dados: presença ou ausência de hiperemia das pregas
vocais, presença ou ausência de edema das pregas vocais e movimento muco-ondulatório
(MMO) das pregas vocais: normal ou alterado. Considerou-se MMO alterado qualquer
alteração na regularidade e/ou simetria do mesmo. Os exames foram realizados por um único
médico otorrinolaringologista e o paciente foi orientado a emitir a vogal [ɛ] prolongada em voz
habitual.
Após a realização do exame videolaringoestroboscópico, foi realizada a gravação da voz por
um fonoaudiólogo especialista em voz.
A captação das vozes foi feita em ambiente silencioso, com ruído inferior a 50 dB, monitorado
por decibelímetro (marca Radio Shack), a partir de microfone Shure SM HeadSet, condensado
unidirecional Shure, posicionado a 45 graus e a 5 cm de distância da boca do indivíduo,
diretamente no computador Vaio (Sony) e registradas no programa de avaliação acústica,
FonoView (CTS informática, 2.6). Ao coletar as amostras vocais, os especialistas
(fonoaudiólogos) procuraram estar atentos em não dar um modelo vocal e se a emissão das
vogais sustentadas dos informantes mantinham-se dentro do tom natural destes, evitando
assim que imitassem a voz dos avaliadores ou produzissem uma amostra muito distante do sua
fala espontânea, uma vez que vale ressaltar aqui que se estava diante de profissionais da voz
e por isso pessoas supostamente com bastante destreza vocal. Manipulação dessas amostras
poderiam influenciar muito o resultado final da pesquisa.
Após a captação, as amostras vocais antes e após aplicação do calor, assim como a
realização do exame da laringe, foram editadas aos pares, descartando-se o início e final da
emissão, a fim de se eliminar sua parte mais instável e, em seguida, apresentadas de forma
aleatória aos avaliadores que deveriam aplicar a escala GRBAS. Para avaliação acústica,
utilizou-se a mensuração dos parâmetros de F0, Shimmer e Jitter, com o programa Voxmetria
(CTS informática), extraídos também da emissão da vogal sustentada.
Os registros videolaringoestroboscópicos de cada sujeito foram apresentados para dois
otorrinos experientes para análise.
Os resultados foram submetidos a um tratamento estatístico e adotou-se nível de significância
estatística de 0,05 (5%).

RESULTADOS
Em um primeiro momento a análise objetivou a caracterização da amostra total. Para isso,
usaram-se as tabelas de frequência para as variáveis categóricas e as medidas descritivas
(média, mediana, percentis 25 e 75, mínimo, máximo e desvio-padrão) para as variáveis
quantitativas.
Antes de iniciar qualquer análise, testou-se a distribuição dos dados para definir qual classe de
testes estatísticos iria ser realizada. O teste de Kolmogorov-Smirnov foi utilizado para testar a
normalidade dos dados.
Após realização do teste de Normalidade, verificou-se que a distribuição das variáveis
quantitativas HNR, NNE seguem distribuição "Normal", portanto, usou-se a classe dos testes
paramétricos para as comparações. Já as variáveis F0, Jitter e Shimmer não seguem
distribuição "Normal," portanto, foram usados os testes não paramétricos.
Todas as variáveis do estudo foram comparadas em relação a gênero, a fim de se verificar o
comportamento dos parâmetros nessa relação. O teste utilizado foi o T de Student e o teste
de Mann-Whitney. Somente F0 apresentou comportamento diferente em homens e mulheres,
portanto, todas as análises referentes a essa variável estão estratificadas pelo gênero.
Para a comparação das variáveis HNR e NNE antes e após o calor, usou-se o Teste T pareado
e, para comparação de F0, Jitter, e Shimmer foi usado o Teste de Wilcoxon.
Para a comparação das variáveis qualitativas Hiperemia, Edema, MMO e Fenda antes e após
o calor, usou-se o teste de Mc Nemar.
Em todos os testes estatísticos, o nível de significância utilizado foi de 0,05%, ou seja, testes
com valor p inferior a 0,05% foram considerados significativos.
O software utilizado para análise foi o SPSS versão 20.0.
A comparação estatística das avaliações perceptiva-auditiva pela escala GRBAS evidenciou
diminuição significativa nos parâmetros de de G (Grade, grau geral), R (Rough, rugosidade) e
S (Strain, que corresponderia à tensão), o que não pode ser verificado nos parâmetros B
(Breath, soprosidade) e A (Asthenic, astenia). Este apresentou valor zero em todos os
indivíduos antes e após o vapor, não havendo teste estatístico para aplicar a tal situação e
aquele que houve uma resposta variável após o vapor, na qual se pôde verificar diminuição da
percepção de soprosidade (Breath) em 26% nos indivíduos, aumento em 16% e percepção
inalterada deste valor em 25% dos participantes (Tabelas 1, 2, 3, 4, 5).
Os resultados da videolaringoestroboscopia evidenciaram melhora estatisticamente
significativa em todos os parâmetros analisados como hiperemia, edema, movimento muco-
ondulatório e coaptação glótica como pode ser verificado nas tabelas 6, 7, 8, 9.
Houve inclusive uma porcentagem importante de casos em que a hiperemia e o edema
desapareceram completamente, assim como a normalização completa do movimento muco-
ondulatório e adução glótica.
Na análise dos resultados acústicos, houve melhora estatisticamente significativa dos
parâmetros de Jitter, Shimmer, NNE e HNR, após o uso do vapor, o que não ocorreu com a
frequência fundamental, conforme ilustrado (Tabelas 10, 11, 12, 13).

DISCUSSÃO
Nosso corpo está sujeito a todas as mudanças de temperatura a que somos submetidos e a
nossa voz não é diferente, por isso os conselhos tão antigos dos nossos antepassados sobre
o uso do calor para rouquidão ainda perduram tanto. A melhora de todos os parâmetros
avaliados na videolaringoestroboscopia corroborou com os efeitos fisiológicos do calor já
descritos na literatura do esporte (20, 21, 22, 11).
A utilização do calor úmido pareceu elevar a temperatura profunda dos tecidos das pregas
vocais(18), gerando provavelmente vasodilatação e consequentemente aumento do
metabolismo dos tecidos, ocasionando aumento da drenagem. Tal fato possibilitou a evolução
no processo inflamatório e minimização da resposta inflamatória, o que explica a diminuição
dos parâmetros de hiperemia e edema que se pôde observar tão evidentemente neste estudo.
Com o menor edema, ou seja, menor quantidade de líquido do exsudado celular somado a
menor viscosidade e resistência ao movimento ocasionado pelo aumento da temperatura,
haveria liberação do movimento muco-ondulatório, o que também foi um resultado verificado
nesta pesquisa.
Fisiologicamente, o que define a qualidade vocal rouca é uma alteração na mucosa da prega
vocal e/ou uma fenda maior ou igual a 0,05 mm, segundo Hirano. Após a aplicação do calor, a
diminuição do edema constatada poderia explicar a melhora desse parâmetro perceptivo,
assim como um equilíbrio muscular mais adequado devido a um relaxamento e,
consequentemente, fechamento glótico com simetria do movimento muco-ondulatório mais
próxima da normalidade, que poderia ser alcançada após a hipertermoterapia. Outro
parâmetro perceptivo que merece destaque na escala GRBAS foi a diminuição do grau de
tensão, o que também corrobora com o efeito fisiológico de relaxamento do calor já descrito
na literatura. Tal fato pode explicar a causa do aumento do parâmetro de soprosidade em
alguns casos após o uso do vapor, ou seja, a diminuição do edema associado a um
relaxamento muscular poderia ter gerado uma qualidade vocal com a percepção de B maior
em alguns casos, em que os ajustes laríngeos para a adução não foram suficientes após
modificações fisiológicas que a termoterapia tenha gerado. Esse fato, entretanto, não fora
estatisticamente significativo, correspondendo a apenas uma porcentagem dos participantes.
Os outros participantes tiveram esse parâmetro, ora diminuído, ora mantido, o que faz
questionar a necessidade da análise das condições laríngeas que antecedem a aplicação do
calor no que se refere à presença de edema, lesões e fendas e o quão brusca as variações
ocorreram após o vapor e a capacidade de realização de ajustes eficazes capazes de
mascarar a soprosidade.
A melhora no parâmetro de rouquidão e consequentemente no grau geral da voz na escala
GRBAS, fortemente observado no estudo, corrobora com os parâmetros acústicos de Jitter e
Shimmer, que são parâmetros de ruído que só poderiam diminuir se houvesse uma melhoria
nas condições vibratórias das pregas vocais e MMO das mesmas, assim como os parâmetros
de NNE e HNR, o que ocorreu. As medidas de frequência fundamental não tiveram um
aumento estatisticamente significativo e vale aqui lembrar que apesar desta ser uma medida
robusta, a população utilizada nesta pesquisa foi de cantores, o que pressupõe indivíduos com
um controle e percepção de tonalidade vocal maior, o que poderia ter influenciado esse
parâmetro.
CONCLUSÃO
A utilização do calor úmido gerou melhora importante nos parâmetros vocais e laríngeos
estudados, o que demonstra ser a hipertermoterapia um possível recurso terapêutico auxiliar
para o tratamento da disfonia aguda por laringite, parecendo ser um método eficaz, com baixo
custo, merecendo mais estudos.


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TERMOTERAPIA PARTE II
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CRIOTERAPIA
Introdução
COMO SURGIU A CRIOTERAPIA
Um perspectiva histórica
Antes de 1750 o gelo artificial era desconhecido, mas já nesse período há referências da
utilização da neve e do gelo natural para benefícios de nossos antepassados. Galen (1571)
recomendou o uso do gelo para azia e desordens estomacais e notou que peixes envoltos em
neve não se decompunham(28). O gelo era indicado para todos os tipos de lesões
acompanhadas de sensação de queima entre elas, abscessos, erisipela e inflamações mais
profundas como pneumonia, meningite e até para dor de garganta era prescrito mastigar
neve(29, 30, 31). Mas foram os relatórios de Curries de 1798, descrevendo bons resultados
de banhos frios para febres que renovaram a terapia do frio na virada do século XVIII(32).
Muitos livros, artigos e teses de doutorado começaram a aparecer sobre o assunto.
Em 1824, Tanchou(33) escreveu um livro sobre o uso do gelo terapêutico, mas um
considerável interesse pelo assunto surgiu em 1832, a partir dos relatos de Edward, quando
observou que, se uma mão fosse mergulhada em água fria, após certo tempo a temperatura
da mão oposta também cairia, configurando aqui os primórdios das hipóteses de queda
metabólica com o uso do frio(34). A partir de então o gelo se tornou popular, sendo indicado
para todos os tipos de inflamação e dor. Foram estudados métodos de resfriamento
evaporativo com ajuda de várias substâncias, mas apenas por volta de 1850, com a invenção
da máquina de gelo, então comercialmente disponível nos EUA, sua utilização se popularizou.
CONCEITO E REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
Crioterapia: bases científicas
A Crioterapia pode ser definida como terapia com o frio ou terapia fria. Todo e qualquer uso de
gelo ou aplicação de frio que resulte em remoção do calor corporal, diminuindo, assim, a
temperatura dos tecidos para fins terapêuticos é Crioterapia. Estudada há décadas, é muito
explorada na fisioterapia, na medicina do esporte, clínicas de reabilitação, centros cirúrgicos,
clínicas de dor, entre outros, que a utilizaram para o tratamento não apenas de lesões agudas
como crônicas e pós-operatório.
Swenson, Sward e Karlsson (1996), traçando um panorama geral sobre a Crioterapia,
apontaram seus três principais efeitos: o efeito analgésico, a resposta vascular e o
hipometabolismo, que serão descritos a seguir(35).
EFEITO ANALGESIA
Em relação ao efeito analgésico, os autores relatam que há uma diminuição da condução
nervosa com a queda da temperatura, induzindo à analgesia. A forma como ocorre esse
processo ainda é pouco conhecida, mas a literatura é unânime em demonstrar que a
Crioterapia diminui a velocidade de condução dos nervos sensoriais e motores.
Knight (2000) descreve, em uma visão geral, que o mecanismo envolvendo a analgesia pelo
resfriamento dos terminais sensoriais periféricos parece mudar o equilíbrio das influências
facilitatórias inibitórias nas células do corno anterior, reduzindo, em consequência, a resistência
do músculo ao estiramento(36).
Em relação à rigidez, o autor relata que esta aumenta no tecido conjuntivo e sua
extensibilidade diminui com o declínio da temperatura. Tentativas de estendê-lo forçadamente
podem gerar rupturas neste. O tecido conjuntivo precisa ser reaquecido antes de ser
alongado. A rigidez muscular ocorre devido a maior viscosidade das fibras musculares:
conforme a temperatura diminui, a força muscular decresce tanto na produção isométrica
quanto na isocinética. A rigidez articular também aumenta e isso se deve a inúmeros fatores
concomitantes relacionados, como deterioração das funções dos músculos que circundam a
articulação, menor elasticidade do tecido conjuntivo e maior viscosidade do líquido sinovial da
articulação.
RESPOSTA VASCULAR
A resposta vascular à aplicação do frio parece ser complexa e, em decorrência disso, há ainda
muita confusão durante o atendimento imediato e a reabilitação. A existência da vasodilatação
ou vasoconstrição, o aumento ou a diminuição do fluxo sanguíneo após a aplicação do frio, são
questões que perduram nesse sentido e ocasionam controvérsias.
Knight (2000), buscando solucionar as incertezas ao redor da resposta vascular da
Crioterapia, realizou extensivo levantamento bibliográfico e inúmeras pesquisas no sentido de
reafirmar e compreender os diversos achados da literatura. Concluiu que há vasoconstrição e
diminuição de fluxo sanguíneo, principalmente no início do período de resfriamento(36).
O autor sugeriu ainda desconsiderar os efeitos circulatórios do frio e concentrar os objetivos
terapêuticos nos efeitos metabólicos e analgésicos deste. No atendimento imediato, maximizar
a redução do metabolismo*1 seria o grande benefício e, na reabilitação, a minimização da dor
pelo efeito analgésico do frio, permitiria a introdução de exercícios mais vigorosos mais
precocemente.

*1 O hipometabolismo é outro efeito frequentemente apontado, uma vez que induz à


diminuição da resposta inflamatória, o que acaba gerando menor extensão da lesão. Isso
ocorre porque a redução metabólica e, em consequência, a atividade enzimática reduzida
ocasionada pela aplicação do frio, permite que as células das áreas adjacentes à lesão
sobrevivam com um menor nível de oxigênio(36, 38, 39, 40).

VARIABILIDADES DO MÉTODO
Tempo de aplicação
A aplicação do gelo provoca a mudança da temperatura dos tecidos tratados. A literatura
mostra que ocorre uma diminuição da temperatura na pele, nas articulações e nos músculos
após a aplicação do gelo, entretanto, o grau da queda da temperatura parece depender do
tempo e da modalidade de aplicação.
Bancroft e Edholm (1943) concluem que, quanto mais prolongada a aplicação do frio, maior o
tempo existente para a troca de energia e, consequentemente, mais calor será removido do
corpo(37).
Desse modo, possivelmente na busca de um parâmetro comparativo, parece haver um
consenso entre a maioria dos autores para a aplicação do frio por um período de 20 a 30
minutos, tempo em que haverá maior efeito na temperatura tecidual(41, 42).
MODALIDADE DA APLICAÇÃO
Existem numerosas técnicas de aplicação do frio. A escolha correta de uma determinada
técnica tem fundamental importância para o resultado final do tratamento.
Há inúmeras modalidades de aplicação do frio, como compressas de gelo, compressas de gel
frio, compressas de cubos de gelo artificial, compressas frias químicas, imersão em gelo,
piscinas geladas, massagem com gelo, aparelhos de frio, spray refrigerante, bandagens com
spray refrigerante.
Knight (2000) enfatizou a superioridade das compressas de gelo que, devido sua alta
capacidade térmica, podem retirar muito mais calor do corpo do que as compressas de gel
frio. Estas precisam ser resfriadas muito abaixo de 0° C a fim de que sua capacidade seja
suficiente para resfriar com um quarto da efetividade da compressa de gelo. Tal fato pode
ocasionar ulcerações produzidas pelo frio, caso fique em contato com a pele.
Em relação às compressas de cubos de gelo artificial, o autor comenta que estas funcionam
tão bem quanto as compressas de gelo, com a vantagem de terem uma distribuição mais
uniforme, mesmo quando são aplicadas em posições pendentes, e com a desvantagem de não
serem tão disponíveis como as compressas de gelo. Ele desaconselha, ainda, as compressas
frias químicas que, além de não poderem ser reutilizadas, podem causar queimaduras
químicas.
Quanto aos sprays refrigerantes, esses evaporam muito rápido, não diminuindo a temperatura
dos tecidos adjacentes. Todas as outras práticas citadas apresentam objetivos adicionais,
além de retirar o calor do corpo, e devem ser utilizadas avaliando as metas específicas
daquele momento.
A respeito das variáveis na aplicação do frio, ressaltou-se que a velocidade de condução, ou
seja, a velocidade de decréscimo da temperatura do tecido, depende da interação de muitos
fatores, como diferença de temperatura entre o corpo e a modalidade de frio, recuperação do
calor corporal e modalidade de resfriamento, região do corpo em contato com o frio, duração
da aplicação, dimensão da modalidade e variabilidade individual(36, 42, 43).
LOCALIZAÇÃO DO TECIDO
A área e a profundidade do tecido envolvidas na crioterapia também devem ser consideradas.
Hartviksen (1962) correlacionou a queda da temperatura do tecido subcutâneo e intramuscular
(2,3 cm de profundidade) do músculo gastrocnêmico, após a aplicação de pacote frio por 20
minutos, e pôde observar queda de 16° C no tecido subcutâneo e 2,7° C no tecido
intramuscular. Contudo, após a remoção do frio, foi observada recuperação da temperatura
mais rápida no tecido subcutâneo, se comparado ao tecido mais profundo, cuja temperatura
continuou a cair por mais vinte minutos aproximadamente, chegando a um platô com posterior
reaquecimento(44). Abramson (1965) relata que a magnitude das respostas dos tecidos é
proporcional a sua profundidade. Entretanto, a manutenção dos efeitos provocados pelo frio,
após a sua remoção, é mais prolongada em tecidos mais profundos(19).
Knight (2000) diferenciou a queda da temperatura dos tecidos superficiais dos tecidos
profundos e temperatura intraarticular, assim como o reaquecimento após a aplicação do frio.
Sobre a temperatura superficial, afirmou haver um declínio imediato e rápido desta: a
velocidade de resfriamento diminui constantemente até que a temperatura de superfície
chegue afinal a um platô, alguns graus acima da temperatura da modalidade. A resposta dos
tecidos profundos ao resfriamento superficial depende da profundidade e do tipo do tecido.
Assim, a reação dos tecidos subcutâneos é a mesma apresentada pela pele, embora com
menor magnitude; Já os tecidos mais profundos só começam a diminuir a temperatura alguns
minutos depois da aplicação do frio. Tanto a resposta tardia quanto a menor magnitude de
alterações de temperatura nos tecidos mais profundos resultam do tempo que o calor leva
para ser conduzido entre as várias camadas de moléculas do tecido na tentativa de repor o
calor perdido superficialmente, ou seja, o calor é conduzido dos tecidos profundos para os
tecidos mais superficiais. Após a aplicação do frio, a temperatura do tecido profundo continua
a baixar e, nesse momento, quem protegerá esses tecidos do resfriamento será o tecido
adiposo, isolando-os.
Em relação às temperaturas intra-articulares, o autor relatou que elas diminuem mais do que
as do músculo adjacente e, como ocorre em outros tecidos profundos, a temperatura mínima
só é atingida depois que a compressa de gelo é removida: quanto mais prolongada a
aplicação, maior a redução da temperatura. Já o reaquecimento parece ser mais demorado
que o resfriamento e isso provavelmente se deve ao menor fluxo sanguíneo que acompanha a
queda da temperatura. Quanto mais tempo o frio for aplicado e mais profundo estiver o tecido,
mais lento será o reaquecimento(36).
Rodrigues (1995) descreve outras variáveis na aplicação da Crioterapia. Entre elas, cita a
temperatura ambiente como uma variável a ser verificada no processo terapêutico, indicando a
temperatura em torno de 22° C a 23° C como a ideal para a aplicação da técnica. Aponta,
ainda, que as temperaturas da pele e a duração são inversamente proporcionais ao
resfriamento da área de aplicação. A idade e o sexo do indivíduo também foram mencionados
como variáveis importantes, observando que a mulher apresenta melhor condutância ao frio do
que o homem e um atleta reposição mais rápida de calor devido à alta taxa metabólica. O
autor relata que o ser humano, quando protegido, suporta variações na temperatura ambiente
entre 50° C e 100° C, porém uma pessoa só tolera uma variação de aproximadamente 4° C na
temperatura interna, sem alterar suas funções vitais. As variações de temperatura, dentro
desses limites, alteram a função biológica sobre as taxas de reação química (efeito geral) e
efeitos sobre funções especializadas (atividade elétrica de tecidos excitáveis)(45).
CONTRAINDICAÇÕES E PRECAUÇÕES
Ainda que problemas resultantes da Crioterapia sejam raros, eles podem ocorrer (Knight,
2000). Entretanto, o medo dos problemas leva muitos clínicos a adotarem posturas muito
conservadoras, impedindo que o paciente se beneficie realmente da técnica. Algumas
contraindicações como: “Não se aplica compressas de gelo diretamente sobre a pele” não têm
nenhum embasamento científico que justifique, é pura teoria. Não se deve ser tão liberal de
modo a provocar lesões nos pacientes, nem tão conservador a ponto de que ele receba
benefícios abaixo do ideal(36).
Algumas considerações serão feitas a seguir em relação a ulcerações e paralisias, descritas e
temidas por muitos clínicos como efeitos da Crioterapia, nas quais a não compreensão
adequada os impede de utilizar de forma satisfatória a técnica. A ulceração causada pelo frio é
o congelamento localizado do tecido, podendo ser superficial ou profunda. Frequentemente há
recomendações do uso de uma toalha entre a compressa de gelo e a pele. Essa postura pode
ser muito conservadora, uma vez que aplicações breves de gelo, ou seja, menores que 1 hora,
não causam ulcerações pelo frio. O que não se pode dizer nos casos de aplicações contínuas
e prolongadas de gelo (24 a 74 horas) ou em aplicações de compressa de gel frio, que geram
mais ulcerações(46). Então, surge a pergunta: qual é a temperatura que ocorre dano tecidual?
Esta não é uma resposta simples, uma vez que a temperatura não é o único fator envolvido. O
ponto fundamental para a resposta é a quantidade de perda de calor que sofre o tecido, o que
é influenciado por inúmeros fatores, entre outros: duração da aplicação, área do corpo, o
método do resfriamento, compressão externa e pigmentação(47). Ao que se sabe, por
exemplo, que tempo de exposição deve ser considerado, uma vez que quanto maior a duração
da aplicação, mais alta será a temperatura que provoca ulceração pelo frio. Da mesma
maneira, quando a pele é resfriada pelo contato com um objeto frio, ela congela em
temperaturas superiores do que quando é resfriada por exposição ao ar frio, uma vez que os
resultados do contato ocasionam maior perda de calor. Em relação à área do corpo, há
grande distinção quanto à perda de calor, já que a temperatura de congelamento é
diferenciada em células distintas, o que as condiciona a níveis de predisposição diferentes a
ulcerações(48). Os indivíduos de raça negra são mais suscetíveis à ulceração produzida pelo
frio em comparação à raça branca, o que corrobora com estudo realizado em cobaias, nas
quais as de pele mais pigmentadas sofreram também mais ulcerações(49). Desse modo, a
perda de calor dos tecidos parece ser influenciada por muitos fatores que devem ser levados
em consideração para a tomada de decisão exata, a fim de que o paciente se beneficie da
técnica sem risco de lesões sérias. Grande parte das técnicas atuais de Crioterapia
provavelmente não é fria o suficiente para causar dano tecidual, a menos que sejam
empregadas continuamente por uma hora ou mais, ou sejam combinadas com pressão.
Atenção específica deve ser dada às compressas de gel saídas do congelador, visto que são
muito mais frias que as de gelo picado e podem causar ulceração pelo frio artificial,
principalmente se aplicadas sob bandagem elástica.
A paralisia nervosa é outro efeito questionado por clínicos. Entretanto, os relatos desse efeito
após a Crioterapia causada em atletas são de baixíssima incidência, sendo em todos os casos
descritos as funções foram restauradas com rapidez(36). Outro ponto importante é que todos
os atletas que tiveram o efeito da paralisia foram submetidos à Crioterapia associada à
compressão, o que faz muitos autores concluírem ser a pressão a causa da paralisia, uma vez
que esta resulta em diminuição do fluxo sanguíneo e isquemia do nervo. Se por um lado o frio
nos casos de uso concomitante à pressão pode agravar a isquemia devido à vasoconstrição
induzida pelo frio, por outro lado, a redução do metabolismo do nervo devido à Crioterapia
pode permitir que ele resista a um tempo maior de isquemia induzida por pressão. Muitos
estudos ainda devem ser realizados nessa área, mas já se concluiu que a função é restaurada
com rapidez conforme a recuperação do resfriamento ocorre, caso não tenha havido necrose.
A Paralisia de Bell, uma paralisia do nervo facial que resulta na inabilidade de controlar os
músculos faciais do lado afetado, é frequentemente associada a mudanças bruscas de
temperatura. Entretanto, a paralisia de Bell, definida como paralisia do nervo facial unilateral
idiopática (sem causa conhecida), é provavelmente viral de início rápido, geralmente em 2
dias. O que a literatura tem correlacionado a questões climáticas é que estas podem reativar
infecções latentes do vírus, sendo esta ainda uma hipótese.
Há casos, entretanto, em que a Crioterapia é contraindicada(11, 35, 36):
distúrbios vasoespásticos como Doença de Raynaud, Livedo reticular, Acrocianose;
hipersensibilidade ao frio, podendo gerar urticária e dor forte após a aplicação;
distúrbios cardíacos com comprometimento da circulação local;
não aplicação de qualquer tipo de Crioterapia à pele por mais de uma hora, o que poderia
causar ulceração pelo frio;
nunca deve ser usado antes de exercícios vigorosos, uma vez que o frio aumenta a rigidez das
fibras colágenas, resultando em um decréscimo da flexibilidade muscular.
Mesmo que todas as contraindicações da Crioterapia para determinados pacientes tenham
sido excluídas, várias precauções devem ser tomadas para evitar lesão grave como:
ter cuidado ao aplicar compressas de frio diretamente sobre a pele por mais de vinte minutos.
O gelo apresenta efeito anestésico, permitindo que o paciente consiga realizar vários
exercícios que antes da aplicação não suportaria executar devido à dor. Esta é uma das
funções terapêuticas do gelo, mas se não forem feitas com cautela e acompanhamento,
podem provocar outras lesões.
Seja cauteloso com a terapia fria ao tratar indivíduos:
que apresentem afecções reumatoides;
estejam paralisados ou em coma;
tenham doenças na artéria coronária ou certas doenças hipertensivas.
CRIOTERAPIA E VOZ
Apesar de tantos efeitos benéficos da Crioterapia, descritos em literatura extensa, não há
qualquer referência científica de que tal tratamento tenha sido utilizado na área da
Fonoaudiologia, especialmente na prevenção do edema, que parece ser o vilão carreador dos
distúrbios vocais por uso intenso e prolongado da voz. Todavia, entre cantores, há menções do
uso do gelo a fim de melhorar a performance vocal. Esses relatos, porém, são vagos, uma vez
que não há especificações de como, quanto ou quando deve-se utilizar o gelo. Além disso não
se sabe ao certo se há indícios de melhora real ou se o procedimento funciona apenas como
um efeito placebo. Já outros profissionais do canto referem piora significativa da voz após o
uso de qualquer bebida gelada. Desse modo, o que se tem publicado são apenas menções
pouco específicas a práticas empíricas e achados casuais sem nenhum valor científico.
A presença de lesões agudas e de edemas nas pregas vocais, principalmente entre os
profissionais da voz é, frequentemente, a preocupação de terapeutas da voz e
otorrinolaringologistas, que utilizam condutas terapêuticas variadas a fim de solucionar tais
problemas. Sabe-se que o uso de uma técnica vocal adequada tende a reduzir a quantidade
de lesões nas pregas vocais, entretanto, esse recurso torna-se insuficiente quando a demanda
vocal aumenta, tornando-se superior a duas horas consecutivas(24). Desse modo, seja por
alta demanda ou uso vocal abusivo, a presença de lesões e edemas nas pregas vocais são
comuns e alteram a qualidade vocal de muitos indivíduos em graus variados, sendo a grande
questão entre os profissionais da voz, especialmente entre cantores, cujas performances
vocais poderiam ser prejudicadas por quadros de disfonia.
Desse modo, diante da escassez de referências no uso da Crioterapia para tratamento de
disfonia, foram realizadas três pesquisas, descritas a seguir, a fim de se estabelecer o ponto
inicial para embasamento teórico e para se poder utilizar a Crioterapia como recurso
terapêutico na fonoterapia.

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Pesquisa 2 – Ação do frio em pregas vocais de cães
Estudo experimental

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Janaína Pimenta de Oliveira *


Gabriel Rabelo Guimarães***
Gabriel Rabelo Guimarães **
Trabalho realizado na faculdade de veterinária da UFMG.
* Fonoaudióloga, especialista em voz pelo CEFAC e Conselho Federal, mestre pela Faculdade
Veiga de Almeida no RJ, Diretora do Espaço da Voz e Vocal Coach de cantores profissionais.
** Médico Otorrinolaringologista e Cirurgião de cabeça e pescoço do Hospital Felício Rocho.

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RESUMO
A Crioterapia tem sido um método antigo e eficaz na fisioterapia para prevenção de edemas
em tecidos moles. Não há referências, porém, da utilização de tal método na laringologia.
Objetivo
Verificar a queda da temperatura das pregas vocais de cães e como se dá esse processo
após utilização do frio sobre a pele do pescoço.
Materiais e Métodos
Participaram da pesquisa 4 cães adultos (2 machos e 2 fêmeas) sem raça definida, em que os
dois de sexos distintos foram submetidos à aplicação de frio sobre a pele do pescoço por
período de 30 minutos após anestesiados e os outros dois foram submetidos aos mesmos
procedimentos do primeiro grupo, com exceção da aplicação do frio. Após extraída a medida
corpórea dos espécimes, realizou-se a extração da temperatura de suas pregas vocais com
termômetro clínico digital AG-2000 nelas posicionado. Tal procedimento foi realizado sete
vezes na pesquisa a partir da aplicação do frio (tempo zero) e nos tempos 5, 10 ,15, 20, 25 e
30 minutos.
Resultados e Conclusão
Pôde-se verificar a queda gradativa da temperatura das pregas vocais com a aplicação do frio
sobre a pele do pescoço durante os 30 minutos de aplicação do gelo, se comparado aos
espécimes em que não houve aplicação do gelo. Entretanto, os estudos estatísticos não
chegaram a um resultado estatisticamente significante, apenas a uma tendência para tal
conclusão. Tal fato pode ser ocasionado pelo valor pequeno da amostragem, o que demonstra
necessidade de estudos mais amplos e aprofundados, objetivando principalmente verificar se
tal declínio de temperatura seria suficiente para se atingir os efeitos terapêuticos esperados na
Crioterapia.
INTRODUÇÃO
A Crioterapia, ou também citada como terapia com o frio, é referida a qualquer forma de
aplicabilidade de substância que leve à diminuição da temperatura dos tecidos com a retirada
de calor do corpo. Segundo Diniz (2001), após 15 a 20 minutos do início da aplicação da
Crioterapia, com a diminuição da temperatura tecidual, ocorre diminuição do fluxo sanguíneo
na região e como consequência diminuição metabólica, o que minimiza danos teciduais
ocasionados pela a hipóxia(50). A Crioterapia apresenta inúmeros efeitos fisiológicos que têm
grande potencial terapêutico, como referido na literatura(35, 40, 50, 51, 52, 53).
Apesar de tantos efeitos benéficos, não se tem conhecimento do uso desse recurso na
laringologia. A utilização de uma técnica eficiente para prevenção de edemas em tecidos
moles, como ocorre na Crioterapia(54), seria de extrema valia nessa área.
Para tal, ressalta-se uma primeira questão: os métodos de aplicação preconizados na
fisioterapia(36, 41, 42) seriam eficientes para retirada de calor das pregas vocais? Essa
questão procede, uma vez que entre as pregas vocais e a pele do pescoço encontram-se
outras estruturas que poderiam impedir a penetração do frio de forma mais profunda.
Há muitas variáveis a serem consideradas na aplicação do frio, ou seja, a velocidade de
decréscimo da temperatura do tecido alvo depende da interação de muitos fatores, como
diferença de temperatura entre o corpo e a modalidade de frio, facilidade na recuperação do
calor corporal, modalidade de resfriamento, região do corpo em contato com o frio, duração
da aplicação e variabilidade individual. A magnitude das respostas dos tecidos é proporcional à
sua profundidade, entretanto, a manutenção dos efeitos provocados pelo frio, após a sua
remoção, é mais prolongada em tecidos mais profundos(19).
Esses dados se coadunam com os do estudo de Hartviksen (1962), em que o autor verificou a
queda da temperatura dos tecidos subcutâneo e muscular do músculo gastrocnêmico (2,3 cm
de profundidade), após a aplicação de pacote frio por 20 minutos; essa queda chegou a 16° C
no tecido subcutâneo e a 2,7° C no tecido muscular. Contudo, após a remoção do frio, foi
observada recuperação da temperatura mais rapidamente no tecido subcutâneo se comparado
ao tecido mais profundo, cuja temperatura continuou a cair por mais vinte minutos, chegando a
um platô com posterior reaquecimento(44).
Outra variável importante na aplicação da Crioterapia refere-se à temperatura ambiente: as
temperaturas em torno de 22° C a 23° C são ideais para a utilização da técnica(45). O autor
faz pontuações importantes quanto ao sexo e as características metabólicas do indivíduo na
condutância do frio, referindo ter a mulher menor resistência ao frio e os atletas, ao contrário,
reporiam o calor mais rapidamente devido a sua alta taxa metabólica. Além disto,
corroborando com Knight (2000), o autor refere aproximadamente 4° C como limite de
variação da temperatura interna sem que houvesse alteração das funções vitais.(36).
As variações de temperatura, dentro desses limites, alteram a função biológica sobre as taxas
de reação química (efeito geral) e efeitos sobre funções especializadas (atividade elétrica de
tecidos excitáveis). Entretanto, deve-se ressaltar que existe variabilidade individual e uma
especificidade que faz com que tipos de células diferentes tenham temperatura de
congelamento distintos, o que avigora com estudo em coelhos, cuja duração de exposição
necessária para congelamento variou muito de um animal para o outro, de uma pata traseira
para a outra no mesmo animal, e de um dedo para o outro na mesma pata(55).
Em uma revisão bibliográfica, Swenson et al., em 1996, chega a um consenso sobre a duração
da terapia fria que é normalmente fixado em 20-30 minutos, afirmando ainda que esse período
de tempo pode ser estendido para, pelo menos, 45 minutos, sem risco de congelamento ou
lesão(35).
Diante de tantas variáveis na aplicação do frio, o estudo de como se dá esse processo em
tecidos específicos, como nas pregas vocais, torna-se fundamental para viabilizar a utilização
da Crioterapia na laringologia. Portanto, este estudo objetivou verificar a queda da temperatura
das pregas vocais de cães e como se dá esse processo após utilização do frio sobre a pele
do pescoço.
MATERIAL E MÉTODOS
Devido à semelhança anatômica e histológica entre as laringes de cães e as humanas,
participaram da pesquisa 4 cães adultos (2 machos e 2 fêmeas) sem raça definida, mas sem
quaisquer evidências de lesão ou cicatriz cervical ou lesão laríngea .
Inicialmente foi realizada a medição da temperatura ambiente e da temperatura corpórea dos
animais. Todos os animais, posicionados em decúbito dorsal e com patas fixadas, foram
submetidos à anestesia geral endovenosa (Thionembutal) com intubação orotraqueal, mantidos
em respiração espontânea, sem uso de nebulização ou qualquer gás inalatório que pudesse
influenciar a temperatura das pregas vocais. Para medição da temperatura das pregas vocais
dos animais foi feita a colocação nestas de um eletrodo de contato posicionado no terço médio
anterior das mesmas, englobando a região de maior movimento vibratório. A colocação do
eletrodo foi realizada com pinça de microcirurgia monitorada por laringoscópio de suspensão
de Hollinger. Após serem anestesiados e realizada a colocação do sensor na prega vocal dos
animais, fora extraída nova temperatura corpórea e a primeira medida de temperatura das
pregas vocais com o termômetro clínico digital AG-2000.
Nos dois primeiros animais de sexos diferentes, na porção ventral do pescoço do cão, na
altura da cartilagem tireoide, foi realizada tricotomia em área ampla, se estendendo do
segundo terço da mandíbula até o meio do pescoço, uma vez que a posição anatômica da
laringe do cão situa-se ventralmente ao pescoço entre a primeira e segunda vértebras
cervicais. Desse modo, após realizada a primeira medida da temperatura das pregas vocais,
estes animais foram submetidos a aplicação de bolsas de gelo picado na temperatura de
congelamento no pescoço, em região previamente preparada, seguindo o método de aplicação
de Jordan H., Kleinschmidt J., Drexel H. (1977)(56).
Optou-se pela aplicação do gelo por período de 30 minutos como preconizado por Meeusen
R., Lievvens P., 1986; Barcroft G., Edholm O., 1943; Grana W.,1994,(41, 57, 42) evitando,
desse modo, a aplicação por tempo muito prolongado que poderia causar efeitos
desagradáveis como escoriações da pele e até um aumento de edema devido a prejuízos dos
vasos linfáticos. Medições repetidas foram feitas em intervalos de 5 minutos, baseando-se no
estudo de Ho SSW, Illgen RL e Meyer RW (1995)(58).
Os dois outros animais também de sexos distintos foram igualmente preparados, não
realizando apenas a aplicação do frio. Desse modo, pôde-se monitorar a temperatura
corpórea e temperatura das pregas vocais dos cães que não foram submetidos ao
resfriamento do pescoço, a fim de controlar a influência da anestesia na temperatura corpórea
e laríngea dos espécimes devido à diminuição do metabolismo ocasionado por esta.
Obtiveram-se, então, sete medidas de temperatura das pregas vocais dos animais, colhidas
da seguinte forma: A primeira medida antes da colocação da bolsa de gel e as seguintes no
5º, 10º, 15º, 20º, 25º, 30º minutos após a aplicação inicial do frio juntamente à temperatura
corpórea dos animais extraídas no início e final do experimento. Esses dados foram tabulados
objetivando correlacionar a temperatura inicial das pregas vocais e sua possível redução por
meio de aplicação do frio no pescoço, de acordo com o tempo de exposição.
Todo o procedimento de anestesia, intubação, colocação de laringoscópio e eletrodo foi
realizado por equipe composta por médico veterinário, otorrinolaringologista e fonoaudiólogo
no Hospital Veterinário da Universidade Federal de Minas Gerais.
Após realizada a pesquisa, os animais foram devolvidos ao local de origem, uma vez que o
estudo não trouxe nenhuma alteração à anatomia e à fisiologia destes.
RESULTADOS
As tabelas 1 e 2 mostram todas as temperaturas das pregas vocais e corporais colhidas no
experimento em todas as etapas do estudo. Em relação à temperatura corpórea pode-se
observar tendência à queda em todos os espécimes. A mesma tendência pode ser observado
em relação à temperatura das pregas vocais que começa a diminuir logo após a anestesia.
Essa queda referida de temperatura fora diferenciada entre os animais como se pode verificar
nas tabelas 1, 2 e 3. Observa-se que apesar de ter havido diminuição da temperatura
corpórea em todos os espécimes, naqueles submetidos à aplicação do frio sobre a pele do
pescoço a queda tendeu a ser um pouco maior. Em relação à temperatura das pregas vocais,
houve diminuição gradativa desta em todas as laringes mensuradas, entretanto a média da
queda nos animais submetidos à aplicação do frio tendenciou a ser maior, embora essa
tendência não tenha representado uma medida estatisticamente significativa, provavelmente
devido ao pequeno tamanho da amostra (Teste T de Student) (Tabela 2, 4, 5, Gráfico 1).


DISCUSSÃO
Apesar de não se chegar a resultados estatisticamente significativos nem com relação à
temperatura corporal, nem com relação às temperaturas das pregas vocais, provavelmente
devido à pequena amostragem, vale a pena fazer uma análise detalhada de alguns resultados.
Os resultados do presente estudo demonstram tanto a tendência à queda da temperatura
corporal como a laríngea em todos os espécimes. A queda da temperatura corpórea pode ser
atribuída à lentificação metabólica ocasionada pela anestesia geral. Observa-se que essa
propensão à diminuição da temperatura foi discretamente superior nos animais submetidos à
aplicação do frio, justificado pela maior perda de calor. Em relação às pregas vocais, a
redução da temperatura foi geral, o que pode ser também justificado pelo efeito do anestésico.
Entretanto, nos espécimes em que se usou gelo, essa queda foi oito vezes maior, havendo
aumento médio de 4,45° C, indicando que a aplicação do gelo sobre a pele do pescoço retira
calor das pregas vocais em uma quantidade que, segundo Rodrigues (1995)(45), seriam
suficientes para causar modificações nas funções biológicas, como diminuição do metabolismo,
efeito muito visado na Crioterapia(51,40,35,52). tal dado faz supor ter sido a aplicação do frio
suficiente para causar alguma mudança metabólica nas pregas vocais.
Em estudo (Hartviksen, 1962) realizado na musculatura gastrocnêmica, muito citada na
literatura devido aos óti-mos resultados da Crioterapia, a redução da temperatura
intramuscular alcançada após a aplicação do frio foi de 2,7° C, com queda de 16° C no tecido
subcutâneo, decréscimo este de temperatura suficiente para os efeitos terapêuticos
objetivados na Crioterapia. Levando-se em consideração ser este um mús-culo relativamente
profundo, se comparado à localização das pregas vocais, pode-se concluir que a aplicação do
gelo no pescoço pareceu ter um alcance satisfatório, uma vez que a queda média de
temperatura nas pregas vocais foi de 3,3° C e 5,6° C em cada um dos espécimes submetidos
ao gelo, ou seja, maior que a queda de temperatura observada no músculo gastrocnêmico(44).
Abramson (1965) relata que a magnitude das respostas dos tecidos é proporcional à sua
profundidade e que a manutenção dos efeitos provocados pelo frio, após a sua remoção, é
mais prolongada em tecidos mais profundos. Em estudos futuros esse ponto deve ser
investigado com o intuito de se verificar se o resfriamento das pregas vocais se assemelha ao
resfriamento dos tecidos profundos(19).
CONCLUSÃO
Embora não se tenha conseguido alcançar resultados estatisticamente significativos,
provavelmente devido ao número da amostragem, este trabalho configurou um estudo
preliminar da Crioterapia na fonoterapia, demonstrando uma tendência estatística à queda da
temperatura das pregas vocais e corpórea em alguns espécimes, inclusive dentro do que se
propõe para resultados terapêuticos efetivos. Entretanto, devem ser realizados estudos
adicionais com amostragem maior a fim de se adentrar aos detalhes de como se dá o
processo de resfriamento das pregas vocais.
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Pesquisa 3
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Avaliação perceptiva e acústica da voz após a aplicação do frio sobre a pele do pescoço
Janaína Pimenta de Oliveira*
Ciríaco Cristóvão Tavares Atherino**

* Fonoaudióloga, especialista em voz pelo CEFAC e Conselho Federal, mestre pela Faculdade
Veiga de Almeida no RJ, Diretora do Espaço da Voz e Vocal Coach de cantores profissionais.
** Professor Associado da Disciplina de Otorrinolaringologia na Faculdade de Ciências
Médicas da UER. Mestre em Otorrinolaringologia pela Escola Médica de Pós-Graduação da
PUC-RJ. Doutor em Otorrinolaringologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São
Paulo.
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A Crioterapia, terapia fria, frequentemente presente no tratamento das lesões esportivas
devido a seus grandes benefícios, como efeitos analgésicos, resposta vascular e
hipometabolismo, pode se estender a outras áreas, como na fonoterapia, que muito se
beneficiaria da técnica.
Objetivo
Este trabalho tem como objetivo verificar, perceptiva e acusticamente, as modificações na
qualidade vocal de informantes, sem alterações ou queixas vocais, após a aplicação do gelo
sobre a pele do pescoço.
Material e métodos
Participaram deste estudo 16 indivíduos adultos sem queixa vocal ou história de disfonia, que,
após coletadas amostras vocais de vogal sustentada e fala encadeada, foram submetidos à
aplicação de gelo sobre a pele do pescoço por 20 minutos, seguido de nova coleta de amostra
vocal. Tais amostras foram submetidas à análise perceptiva, tendo como parâmetros de
avaliação a qualidade vocal, pitch e loudness pré e pós-frio e análise acústica. A análise
acústica foi realizada pelo programa computadorizado de voz Praat, versão 4.2 no qual a partir
das amostras de vogal sustentada [a] e [ɛ] pré e pós-aplicação do frio, foram extraídas as
medidas da frequência fundamental média e a partir da análise da intensidade do primeiro
harmônico e a intensidade máxima e mínima dos harmônicos situados ao redor de cinco
oitavas acima da frequência fundamental, pôde-se fazer uma estimativa da perda média de
energia por oitava nos diferentes momentos da pesquisa.
Resultados e Conclusão
Pôde-se verificar que a aplicação do gelo sobre a pele do pescoço por um período de 20
minutos gera resfriamento nas estruturas fonatórias devido a alterações de parâmetros
perceptivos e acústicos, o que sugere indícios de modificações fisiológicas. Na análise
acústica, observou-se aumento da frequência fundamental média após a aplicação do frio e o
declínio espectral menos íngreme, sugerindo uma estimativa de menor decréscimo de dB por
oitava, ocasionado pelo incremento de energia nas regiões agudas do espectro. A avaliação
perceptiva sugeriu aumento do loudness, pitch e melhora da qualidade vocal após resfriamento
do pescoço. Diante dos resultados alcançados, vale enfatizar que a utilização do gelo sobre a
pele do pescoço antecedendo as performances vocais, apesar da melhora na qualidade vocal,
seria contraindicada sob o risco de ruptura dos tecidos colágenos. Entretanto, o seu uso após
as performances, objetivando a prevenção do edema, deve ser considerado, merecendo
estudos futuros.

INTRODUÇÃO E LITERATURA
A Crioterapia, terapia fria, utilizada para o tratamento de lesões agudas, crônicas e no pós-
operatório, tendo em vista todas as suas contraindicações, abrange grande quantidade de
técnicas específicas que utilizam o frio nas formas líquida, sólida e gasosa, com o objetivo
terapêutico de retirar calor do corpo(35, 36, 40, 50, 51, 52, 53).
A perda de calor do corpo se difere, entre outros fatores, com as regiões, tipo celular, assim
como sua capacidade de reaquecimento. Em estudo realizado no músculo gastrocnêmico,
observou-se queda muito maior do tecido subcutâneo se comparado ao tecido intramuscular,
mais profundo, entretanto, aquele apresentou recuperação mais rápida da temperatura do que
este, cuja temperatura continuou a cair, chegando a um platô com posterior reaquecimento(19,
44). Essa diferenciação da queda da temperatura dos tecidos superficiais, dos tecidos
profundos e temperatura intra-articular, assim como o reaquecimento após a aplicação do frio,
também foi bem explanada por Knight (2000), que afirma ser similar a reação dos tecidos
superficiais aos profundos, com a diferença da resposta ser mais tardia e com menor
magnitude nos tecidos profundos, resultado do tempo que o calor leva para ser conduzido
entre as várias camadas de moléculas do tecido na tentativa de repor o calor perdido
superficialmente, ou seja, o calor é conduzido dos tecidos profundos para os tecidos mais
superficiais. Como consequência da perda de calor, há um possível enrijecimento tecidual
devido a alterações nas propriedades elásticas dos tecidos colágenos(36), o que deve ser
levado em consideração durante intensa atividade física, interferindo na função normal, o que
predispõe a lesões adicionais(51).
A voz humana apresenta, originalmente, intrínseca relação com o funcionamento
anatomofisiológico profícuo do aparelho fonador, mais especificamente, as pregas vocais.
Estas exibem uma composição histológica complexa, como descrita por Hirano (1982, 1988,
1996)(59, 60, 61). Nesses trabalhos o autor relata que a prega vocal humana é constituída por
camadas, sendo elas: epitélio escamoso, membrana basal, camada superficial, intermediária,
profunda da lâmina própria e o músculo vocal. A camada superficial apresenta poucos
fibroblastos, o que lhe confere grande flexibilidade. Já a camada intermediária compõe-se de
fibras elásticas e maior quantidade de fibroblastos. E a camada profunda apresenta fibras
colágenas e muitos fibroblastos. O músculo vocal encontra-se logo abaixo da lâmina própria.
Tal composição torna-se fundamental, pois garante que as pregas vocais perfaçam uma
movimentação mecânica própria e eficiente. Para descrever esse movimento, Hirano e Bless
(1993) dividem as pregas vocais segundo suas propriedades mecânicas em corpo (ligamento e
músculo vocal) e cobertura (epitélio, membrana basal e camada superficial da lâmina própria).
Essa divisão se deu levando em consideração as mudanças graduais de rigidez desde a
camada superficial bastante flexível da lâmina própria até o músculo vocal bastante rígido.
Essas graduações de níveis de rigidez resultam em diferentes propriedades mecânicas e
consequentemente diferentes características vibratórias. Um elemento importante da estrutura
da camada é o muco, que funciona como uma camada adicional, garantindo a lubrificação da
estrutura e, portanto, condições para a ocorrência do movimento vibratório(62).
A onda mucosa será mais ou menos eficiente conforme o grau de viscosidade do muco e do
tecido. Fisiologicamente, Verdolini et al. (1990) relatam que, para que ocorra mudança na
viscosidade das secreções que banham as pregas vocais, é necessário que a entrada de
fluido afete a quantidade de água no sangue, produzindo mudanças no conteúdo do tecido,
ativando a ação osmótica. Com isso o maior consumo de líquidos de baixa viscosidade tende a
diminuir a resistência do tecido ao movimento(63).
O grau de viscidez do tecido parece também ser modificado com alteração da temperatura em
uma relação inversa. Klingholz et al. (1991), por meio de ressonância magnética e utilizando
técnica específica, puderam verificar que a temperatura das pregas vocais aumenta cerca de
quatro graus após fonação prolongada(64). Já em se tratando do aquecimento vocal,
Sundberg (1987), ao questionar o que poderia ocorrer neste, levanta a hipótese de que, sendo
a prega vocal formada em sua maior parte por um músculo, assim como qualquer outro
músculo depende de uma circulação sanguínea eficiente a fim de garantir o bom funcionamento
e sua viscosidade normal(65).
Além da manutenção das estruturas e condições adequadas para a ocorrência do movimento
muco-ondulatório, o equilíbrio e a sintonia de toda musculatura intrínseca tornam-se essenciais
para o funcionamento eficaz da fonte, responsável pelo controle direto de inúmeros parâmetros
vocais, como a intensidade e a frequência fundamental vocal*2. Sobre o mecanismo de
elevação desta, Zemlin (2000) acredita que o aumento da tensão das pregas vocais seja o
único agente responsável pelos aumentos da frequência vocal e que a mudança de
comprimento e espessura é simplesmente resultado do tecido elástico das pregas vocais, o
qual contribui para o aumento marcante da tensão(66). Le Huche e Allali (1999), ainda, fazem
uma ressalva no que se refere à variabilidade sobre a participação do músculo da prega vocal
(corpo) no movimento vibratório, que pode ser totalmente bloqueado, deixando vibrar apenas a
mucosa, ou ocorrer somente na franja do bordo livre da prega vocal, como na produção do
fry(67).
*2 A musculatura intrínseca participa do delicado mecanismo laríngeo atuando na adução e
abdução glótica. Desequilíbrios desta musculatura geram fendas glóticas, como descrito por
Pinho e Pontes,1991(68).
Falamos aqui que a musculatura intrínseca da laringe tem papel fundamental na modificação
da intensidade e frequência da voz. Em uma emissão vocal forte (intensa), há maior ativação
do músculo tireoaritenoideo, especificamente seu feixe externo, que, ao contrair, produz maior
firmeza glótica. Já o músculo cricotireoideo é responsável pela retificação da borda e
alongamento das pregas vocais atuando na emissão dos tons agudos(5).

Depois de explorados aspectos anatomofisiológicos fundamentais na fonte glótica, retoma-se a


produção vocal global que, apesar de ser oriunda deste local, não se finda aí. A fonação, mais
especificamente a produção dos sons ressonantes, é o resultado de um processo complexo
que se inicia na ação das pregas vocais, as quais funcionam como fonte sonora. Na tentativa
de explicar como se dava esse processo de longo trajeto. Fant (1970), a partir da combinação
das referências teóricas do sistema de ressonância e de fontes sonoras na produção da fala,
cria o modelo fonte-filtro. Tal modelo possibilita a decomposição do sinal da fala, revertendo
aos vários segmentos do aparelho fonador (pregas vocais e trato supraglótico), que colaboram
para a qualidade vocal final.
Desse modo, a fonte glótica produz um “buzz” laríngeo, composto pela frequência fundamental
da onda sonora e seus harmônicos (múltiplos inteiros da F0). Tal material sonoro pode ser
representado por um espectro harmônico que, quando expresso em decibéis, apresenta um
declínio linear, revelando um decréscimo de energia na proporção de 12 dB por oitava.
Esse sinal glótico sofrerá a função de transferência do trato vocal, que é seletivamente
definida pelas características ressonantais do mesmo. Finalmente, a ação dos lábios sobre o
material sonoro resultante configurará a radiação, caracterizada pelo efeito físico da difração,
levando a um ganho de 6 dB por oitava, o que facilita a propagação no meio externo(69).
Nesse contexto, outros autores passaram a abordar os componentes espectrais das
alterações vocais visando estabelecer correlações entre a qualidade vocal e o padrão de
distribuição de energia acústica.
Frittzell et al. (1974), ao caracterizarem as vozes de indivíduos com paralisia laríngea após a
injeção de teflon, enfatizam que o declínio da energia no espectro de longo termo acima de 3
KHz depende basicamente das características acústicas do som oriundo da vibração das
pregas vocais. Segundo os autores, uma emissão eficiente e normal configura o declínio de
energia mais suave, diferentemente das situações em que se tem uma coaptação glótica
ineficiente, na qual o espectro apresenta uma fundamental com menos parciais e de menor
amplitude(70).
Pickett (1980) afirma que o declínio espectral será influenciado pelo tipo de voz e pelo esforço
vocal no sinal sonoro. Portanto, uma redução no esforço vocal leva a um decréscimo do nível
de harmônicos, ocasionando declínio espectral mais abrupto estimado em 15 dB/oitava, ao
contrário do declínio menos acentuado, se for aumentado o nível de intensidade de voz por
esforço vocal, previsto para 9 dB/oitava, devido ao aumento da pressão subglótica(71).
Gauffin e Sundberg (1980) ressaltam a importância das medidas da amplitude da fundamental
(LO) no espectro e sua correlação à amplitude dos harmônicos, especialmente a amplitude do
primeiro formante. Para os autores, na fonação ótima, espera-se um equilíbrio entre L0 e L1,
diferentemente da voz soprosa, na qual a amplitude da fundamental é maior que L1(72).
Sundberg (1987) relata que o espectro vocal fornece a informação sobre em quais frequências
há parciais sonoros e quão fortes estes componentes são. Ao que parece, a amplitude dos
parciais da F0 apresenta maior ou menor amplitude de acordo com o timbre vocal
apresentado.
Desse modo, a amplitude dos parciais depende do coeficiente de fechamento, que, quando
aumentado, amplifica especialmente os harmônicos de alta frequência. Essa situação acústica
associa-se a um aumento da sensação do som na parte frontal da face, o que muitos
professores de canto nomeiam como som na máscara.
O autor também ilustra a diferença acústica com a mudança de timbre, como é o caso do
timbre escuro no qual ele pode observar maior amplitude nos parciais mais baixos do espectro,
se comparado a uma voz com timbre claro.
Em relação à qualidade vocal, o autor diferencia a fonação fluida da fonação tensa, afirmando
que naquela a importância do efeito de Bernoulli parece predominar, ao contrário da fonação
tensa, que tem como base a força de adução. O autor ressalta, ainda, que uma menor
pressão subglótica, associada a uma adução moderada, parecem render um maior output
vocal caracterizado por maior loudness(65).
Figueiredo (1993), em um trabalho que buscou analisar a eficácia do espectro de longo termo
na identificação de falantes, propõe a medida de declínio de retas ajustadas às faixas
definidas (método dos mínimos quadrados), obtendo o decréscimo de energia espectral por
oitava(73).
Holmberg et al. (1995) fazem referência à relação entre a configuração glótica, fluxo aéreo e
declínio espectral, caracterizando alguns estados glóticos com diferentes ajustes de adução e
abdução. Em situações de fechamento glótico incompleto, ao que parece, gera-se um
espectro acústico, cujo primeiro harmônico apresenta amplitude relativamente alta e um
declínio espectral global mais íngreme. Já em situação de maior adução, caracterizada por
alta velocidade de fechamento das pregas vocais e redução abrupta do fluxo aéreo, tal queda
espectral torna-se menos íngreme. Desse modo, a velocidade do fechamento glótico
apresenta influência significativa na energia espectral das altas frequências. Os autores
afirmaram, também, que as mensurações de H1-H2 podem ser usadas como substitutas para
avaliação do coeficiente de adução nos casos em que as medidas da forma da onda glotal são
difíceis de serem obtidas por insucesso da filtragem inversa(74).
Na tentativa de caracterizar perceptivamente qualidades vocais específicas, alguns autores
utilizaram-se de adjetivos bastante subjetivos para nomear tipos vocais, como voz clara, voz
macia, solta, fácil, entre outros. Isso se deu devido à dificuldade em se classificar tais vozes
por ausência de escalas que graduem qualidades vocais dentro da normalidade.
Pinho (1998) define a voz clara como um termo frequentemente utilizado no canto, que significa
projeção vocal anteriorizada (na face) e articulação bem aberta(5).
Le Huche e Allali (1999), ao se referirem ao timbre da voz, relatam que este depende de dois
aspectos: das características anatômicas das caixas de ressonância e da modalidade de
aproximação das pregas vocais que podem ser mais ou menos firmes. Quando o fechamento
entre elas aumenta, o timbre torna-se mais rico e, em consequência, a voz adquire
“mordiente”. Fisiologicamente, as aberturas glóticas seriam mais bruscas e breves, o que se
traduz acusticamente em um “enriquecimento em termos agudos” do espectro sonoro, ao
contrário de um timbre pobre, cuja aproximação das pregas vocais é relaxada ou
incompleta(67).
Behlau (2001) define a voz fluida como um estágio de contração glótica intermediária entre a
voz neutra e a voz soprosa. Do ponto de vista auditivo, esta é percebida como uma emissão
agradável, solta e relaxada. A laringe é baixa, com amplo movimento da mucosa(75).
A percepção diferenciada da qualidade vocal está relacionada com a distribuição de energia no
espectro. Tal fato ocorre devido à peculiaridade das preferências perceptivas do ouvido
humano. Isso é descrito por Fletcher (1953), que demonstra a interrelação entre a
inteligibilidade de fala e as faixas de frequência, enfatizando a importância das frequências
altas. Segundo ele, abaixo de 500 Hz, embora se concentrem nessa faixa 60% da energia, a
contribuição na inteligibilidade de fala é de apenas 5%; Entre as frequências de 500 Hz e 1.000
Hz, essa contribuição aumenta para 35%. Já acima dessa faixa, apesar de a contribuição de
energia ficar apenas em torno de 5%, seu impacto na inteligibilidade de fala sobe para 60%
(76).
Este trabalho objetiva verificar, perceptiva e acusticamente, as modificações na qualidade
vocal de informantes, sem alterações ou queixas vocais, após a aplicação do gelo sobre a pele
do pescoço. Tal estudo torna-se essencial, uma vez que, ao se quantificar as variações
acústicas e perceptivas ocorridas em vozes normais após aplicação do gelo, poder-se-ão
fundamentar futuras pesquisas em indivíduos com alterações vocais e, enfim, questionar se os
benefícios que a Crioterapia oferece à fisioterapia podem se estender à fonoaudiologia.
METODOLOGIA
Participaram deste estudo 16 indivíduos adultos (nove mulheres e sete homens), com idade
entre 20 e 30 anos, não fumantes, sem queixa vocal ou história de disfonia. Nenhum
participante possuía qualquer tipo de treinamento vocal para o canto. Nos informantes
femininos foi verificado em que período do ciclo menstrual se encontravam, sendo excluídas
deste trabalho as mulheres no período menstrual e em período pré-menstrual, fase de até
cinco dias antes da menstruação. Durante a realização de toda a pesquisa a temperatura
ambiente foi controlada com termômetro clínico digital AG-2000, mantendo-se a 24° C.
Os participantes, ao chegarem ao local da pesquisa, foram instruídos a ficarem calados por
um período de 20 minutos e a ingerirem 120 ml. de água em temperatura ambiente a fim de
uniformizar as condições vocais prévias, uma vez que poderiam ter tido demandas fonatórias
de graus variados(63). Após esse período, os informantes foram orientados a realizar
emissões de fala predefinidas para posterior análise perceptiva e acústica.
As gravações das amostras vocais dos informantes foram capturadas em ambiente silencioso,
com ruído inferior a 50 dB, monitorado por decibelímetro (Marca Radio Shack), a partir de
microfone condensado unidirecional marca LeSon, posicionado a 45 graus e a 10 cm de
distância da boca do indivíduo, diretamente no computador laptop (Pentium 4, placa de som
Sound Blaster 32 da Creative Labs). As amostras vocais colhidas dos informantes foram
compostas de vogal sustentada [a], [ɛ], contagem de 1 a 10. Instruiu-se aos indivíduos que
realizassem as tarefas de forma espontânea e natural.
Após a coleta da primeira amostra vocal, os informantes foram posicionados em decúbito
dorsal sobre colchonetes. Na porção anterior de seus pescoços, na altura da cartilagem
tireoide e segunda vértebra cervical, aplicou-se compressa de gelo diretamente sobre a pele.
A compressa fria consistia em oito cubos de gelo de 50 ml colocados em saco plástico e foi
aplicada por um período de 20 minutos. Optou-se pela aplicação do gelo por esse período
seguindo o que preconizava a literatura mais conservadora, evitando, desse modo, a aplicação
por tempo muito prolongado que poderia ter efeito desagradável, como escoriações da pele e
até um aumento de edema devido a prejuízos dos vasos linfáticos(36, 41, 42, 43, 48, 57, 77).
Durante o procedimento descrito, os participantes permaneceram sem qualquer atividade
fonatória, uma vez que sua presença poderia aumentar a temperatura das pregas vocais(64).
Após a aplicação do frio foi realizada nova coleta de amostra vocal, seguindo o mesmo
procedimento da primeira.
Na avaliação das amostras vocais, a análise perceptiva contou com três ouvintes experientes,
que pontuaram comparativamente as amostras de vogal sustentada e fala encadeada pré e
pós-aplicação de compressa fria, levando em consideração o pitch, o loudness e a qualidade
vocal. Para as medidas de pitch e loudness, verificou-se a ocorrência de aumento, diminuição
ou manutenção desses parâmetros pré e pós-aplicação do frio, que foram pontuados com
sinais de (+), (-), (=), respectivamente. Já para a avaliação da qualidade vocal e, em se
tratando de um parâmetro subjetivo de difícil análise para vozes normais, os ouvintes também
deveriam verificar ausência de qualquer variação, o que eles pontuariam com o sinal de (=) ou
presença de alguma variação. Nesse caso, eles deveriam pontuar com o sinal (+) se, segundo
percepção própria, a qualidade vocal tornara-se melhor, mais agradável, ou com o sinal (-), se
a mesma houvesse piorado.
Além dessas pontuações, os ouvintes deveriam caracterizar as modificações vocais, podendo,
para isso, utilizar adjetivos que julgassem mais adequados, mesmo que subjetivos, como voz
mais clara, mais seca, mais fácil.
As amostras vocais foram apresentadas de forma randômica para os ouvintes experientes.
A análise estatística de todos os dados deste trabalho foi baseada na caracterização da
amostra investigada, sendo construídas tabelas de frequência, além da utilização de medidas
síntese de tendência central e de variabilidade das variáveis investigadas. Com o teste não
paramétrico de Wilcoxon, verificou-se as diferenças entre as variáveis de interesse antes e
após o uso do frio. Considerou-se em todos os testes estatísticos um nível de significância de
5%, sendo diferenças estatisticamente significativas aquelas cujo valor p fosse inferior a 0,05.
As análises foram realizadas no software 11.5 Inc. (Statistical Package for Social Sciences).
Para a análise estatística da avaliação perceptiva, criou-se um escore único para cada
parâmetro de interesse, a partir da combinação dos dados colhidos pelos três ouvintes
experientes. Os valores de 1 a 3 indicaram melhora; Os valores de -1 a -3 indicaram piora e o
zero indicou que não houve mudança na medida avaliada.

A análise acústica foi realizada com o programa computadorizado de voz Praat, versão 4.2. O
programa fora configurado para análise de todos os dados acústicos, fixando-se os ajustes de
frequência de amostragem em 22.050 Hz, número de pontos de FFT em 1.024, ocorrendo um
erro no posicionamento do cursor em aproximadamente 5Hz.
A partir das amostras de vogal sustentada [a] e [ɛ] pré e pós aplicação do frio, foram
extraídas as medidas da frequência fundamental média. Para tal, selecionou-se apenas o meio
da emissão, removendo os 200 ms iniciais e finais.
Posteriormente, por meio da espectrografia acústica e a partir das amostras de vogal
sustentada [ɛ], [a] pré e pós-uso do frio, fez-se a análise a fim de estimar a queda de dB por
oitava, já que a realização da filtragem inversa não era possível devido a seus altos custos e à
inexistência de maquinário adequado e potente o suficiente para o procedimento. Desse modo,
selecionaram-se em cada amostra dois pontos de aproximadamente 3 ms de duração, nos
quais eram medidas a intensidade do primeiro harmônico e a intensidade máxima e mínima dos
harmônicos situados ao redor de cinco oitavas acima da frequência fundamental, baixando
essa posição para quatro oitavas nos casos em que a visualização em torno da quinta oitava
era difícil. Assim, pôde-se tirar a média dessas mensurações em cada vogal e fazer uma
estimativa da perda média de energia por oitava nos diferentes momentos da pesquisa.
As medidas e os dados obtidos foram organizados em gráficos e analisados estatisticamente
seguindo a metodologia estatística anteriormente descrita.
Todos os sujeitos foram previamente informados da pesquisa, obtendo-se destes o
consentimento para sua participação por meio de termo assinado.
RESULTADOS
Neste capítulo apresentam-se os resultados deste estudo, os quais serão expostos e
estruturados em tabelas, a partir das medidas de interesse descritas no capítulo anterior.
Inicialmente, descrevem-se os resultados providos da avaliação perceptiva das vozes dos
informantes pré e pós-aplicação do frio, e, posteriormente, os dados resultantes das
avaliações acústicas.
1 ANÁLISE PERCEPTIVA
As Tabelas 1 a 6 descrevem os resultados obtidos a partir da análise de três ouvintes
experientes. Pode-se observar que todas as medidas perceptivas avaliadas (Loudness, Pitch,
qualidade vocal) sugerem uma melhora qualitativa dos resultados, independendo da vogal
utilizada, uma vez que não houve escores com valores abaixo de 0, o que indicaria piora do
parâmetro avaliado, em nenhuma variável de interesse. Além disso, a frequência dos escores
com valores acima de zero foi bem maior do que os escores com valor zero, pontuação usada
quando não havia alteração do parâmetro observado. Tais dados estão expostos nas tabelas a
seguir.

As Tabelas 7 a 15 mostram a caracterização da qualidade de voz dada aos informantes em


estudo pelos três ouvintes. De maneira geral, verificam-se, nas classificações feitas pelos
ouvintes, modificações consideradas positivas da qualidade vocal após o uso do frio.


2 ANÁLISE ACÚSTICA
As Tabelas 16 e 17 mostram os valores descritivos para as medidas acústicas mensuradas.
Em relação à estimativa da queda de dB por oitava, pode-se observar que os valores médios
da perda de dB por oitava apresentaram-se menores antes da utilização do gelo, ou seja,
houve menor perda de energia por oitava após o frio. Constatou-se também que a frequência
média sofrera um aumento após a aplicação do frio.

2.1 Comparação do parâmetros de interesse


Comparação dos resultados antes e após o uso do gelo
Para avaliar a existência de diferença entre as medidas feitas antes e após os uso do gelo, foi
realizado o teste não paramétrico de Wilcoxon, cujos resultados são mostrados na Tabela 18.
Pode-se observar que existe diferença estatisticamente significativa entre as medidas
realizadas antes e após o uso do gelo (Valores p inferiores a 0,05).

DISCUSSÃO
Os efeitos crioterápicos na fisioterapia são indiscutíveis, conforme exposto anteriormente(35,
40, 51, 52). Questiona-se, aqui, se tais efeitos podem se estender à laringologia. Entretanto,
para se alcançar esse nível de discussão, deve-se levantar questões primárias básicas de
como e quanto a aplicação do frio, conforme tempo e princípios estipulados na literatura,
sobre a pele do pescoço, poderia influenciar as vozes de indivíduos normais, ou seja, alterca
se o uso do gelo sobre o pescoço geraria perda de calor nas pregas vocais, estrutura
relativamente profunda e localizada sob tantos tecidos e cartilagens, e como isso se
procederia em relação às características acústicas e perceptivas da voz.
No presente trabalho, pode-se constatar, a partir dos achados, modificações importantes nos
parâmetros perceptivos e acústicos avaliados, fazendo-se supor que estes apresentam
relação intrínseca com as alterações fisiológicas das pregas vocais ocorridas após a aplicação
do frio.
Na avaliação acústica, verificou-se a existência de diferença estatisticamente significativa entre
as medidas de frequência média das vogais sustentadas e estimativas de queda de dB por
oitava antes e após o uso do gelo. Em relação à frequência fundamental média, observou-se
um aumento significativo desta entre os informantes. Tal fato pode ser atribuído à musculatura
intrínseca da laringe, especialmente, aos músculos cricotireoideo e tireoaritenoideo, devido ao
possível aumento de tônus destes, o que é diferente da maior ação de contração. Esse
aumento de tônus após o resfriamento foi referido por Mc Master (1977) quando relatou que o
frio gera alterações nas propriedades elásticas dos tecidos colágenos, ocasionando o seu
enrijecimento(51). Desse modo, voltando-se à laringe, essa maior rigidez dos tecidos oriunda
do resfriamento, acaba por ocasionar a elevação da frequência fundamental média da voz,
resultante do aumento de tensão das pregas vocais que seria, conforme descreve Zemlin
(2000), o único agente responsável pelos aumentos da frequência vocal, sendo a mudança de
comprimento e espessura das pregas vocais apenas consequência desse efeito(66).
Nas mensurações acústicas que objetivavam estimar a perda de energia por oitava, pôde-se
constatar que, no segundo momento da pesquisa, houve menor queda de dB por oitava devido
ao aumento da amplitude dos harmônicos de frequências mais agudas no espectro. Essa
característica acústica corresponderia, no que se refere à mecânica vibratória das pregas
vocais, a um fechamento glótico mais rápido, ocasionado fisiologicamente por um aumento do
tônus muscular, por uma mucosa mais flexível ou por ambos. Conforme descrito anteriormente,
o aumento do tônus muscular resultante da rigidez tecidual ocasionada pelo frio é uma possível
explicação fisiológica para os achados do presente estudo(51). Entretanto, não se pode deixar
de levantar a possibilidade da ocorrência de aumento da flexibilidade na mucosa das pregas
vocais. Isso seria viável partindo-se inicialmente do princípio de que, seguindo os preceitos da
literatura, a grande variação no declínio médio da temperatura e o processo de como essa
queda se dá dependem do tipo tecidual em questão(19, 35, 36, 44). Assim, esse resfriamento
diferenciado poderia ocorrer dentro da própria fonte glótica, pois, segundo o descrito por
Hirano (1988,1996)(60, 61), as pregas vocais apresentam composição histológica
diferenciada ao longo de suas camadas, o que lhes confere, inclusive, propriedades mecânicas
distintas(62). Desse modo, considerando as pregas vocais com suas variações histológicas,
poder-se-ia dividi-las em duas porções, sendo elas: o corpo (ligamento e músculo vocal), mais
rígido e profundo, e a cobertura (epitélio, membrana basal e camada superficial da lâmina
própria) e pressupor, então, que exista uma variação no processo de resfriamento nos
diferentes pontos dessas duas porções. Tal fato é caracterizado por Knight (2000), quando
distingue a queda da temperatura dos tecidos superficiais em comparação aos tecidos
profundos, assim como seu reaquecimento após remoção do frio(36).
De acordo com a literatura, a temperatura da superfície da pele apresenta um declínio
imediato e rápido até que se chegue a um platô; o comportamento dos tecidos subcutâneos é
similar ao da pele, embora com menor magnitude. Já nos tecidos profundos a temperatura só
começa a cair depois de alguns minutos de aplicação do frio, como é o caso da temperatura
intramuscular; apesar disso, após a sua remoção, diferentemente dos tecidos mais
superficiais, a temperatura tecidual continua a cair. Esse efeito ocorre porque, após a retirada
do gelo aplicado, o tecido profundo começa a repor o calor perdido nos tecidos mais
superficiais, o que ocasiona continuação do seu resfriamento(19, 35, 36, 44). Desse modo,
assim como o resfriamento gera rigidez tecidual, o aquecimento pode gerar maior
maleabilidade dos tecidos. Portanto, ao que parece, logo após a remoção do frio, as
estruturas mais profundas da prega vocal, como é o corpo, reduzem ainda mais a sua
temperatura, mantendo a maior rigidez adquirida, e as estruturas mais superficiais, como a
cobertura, passam a aumentar continuamente a sua temperatura, o que gera uma
normalização do tônus do local que, nesse caso, é mais flexível. Tal situação provoca, então,
um distanciamento da relação de flexibilidade entre corpo e cobertura, na qual a cobertura não
aumenta a rigidez proporcionalmente ao aumento desta no corpo, o que pode originar uma
maior soltura da mucosa.
Os resultados da análise perceptiva demonstram alterações nos parâmetros de pitch, loudness
e qualidade vocal, após a aplicação do gelo, comentados a seguir:
O pitch foi caracterizado pelos ouvintes como mais alto após a aplicação do frio na maioria dos
informantes, o que corrobora com os achados acústicos de aumento da frequência
fundamental média e menor queda de decibéis por oitava. Essa conjectura entre os achados
acústicos e o parâmetro perceptivo em questão se dá, pois, sendo o pitch uma medida
subjetiva de frequência da voz, o aumento real desta na fonte, como acontecido, acaba
ocasionando uma percepção da voz mais aguda. Além disso, segundo Fletcher (1953), o
ouvido humano apresenta maior sensibilidade para as frequências mais altas, portanto, o
incremento de energia nas regiões mais agudas do espectro poderia conceber grande impacto
ao ouvido humano e indução da percepção de um pitch mais elevado(76).
Ao aumento do loudness descrito pelos ouvintes, atribui-se o maior tônus por elevação da
rigidez em resposta ao frio, como relatado anteriormente, especificamente do músculo
tireoaritenoideo, responsável por maior adução glótica. Essa maior adução das pregas vocais
foi lembrada por Pinho (1998) como uma das causas para o aumento da intensidade e,
consequentemente, percepção de loudness ampliado(5).
Por outro lado, ressaltando os estudos de Holmberg et al. (1995), o declínio de decibéis por
oitava é um indicativo dos estados glóticos de adução e abdução, podendo inclusive ser usado
como um substituto para avaliação do coeficiente de adução nos casos de insucesso da
filtragem inversa. Os autores relatam ainda que, em situações de maior adução, caracterizada
por alta velocidade de fechamento das pregas vocais e redução abrupta do fluxo aéreo, a
queda espectral torna-se menos íngreme(74). E é essa medida de maior firmeza no
fechamento das pregas vocais que gera um aumento da percepção de uma voz mais
projetada, caracterizada por maior fechamento glótico, declínio espectral mais tênue e,
consequentemente, maior loudness(65, 70, 71, 72).
A qualidade vocal foi outro parâmetro avaliado pelos ouvintes que descreveram melhora
importante. Analisando esse achado, fez-se necessário referenciar as questões levantadas por
Le Huche & Allali (1999). Segundo os autores, o timbre da voz está relacionado não só às
possibilidades ressonantais do trato vocal como também à modalidade de aproximação das
pregas vocais mais ou menos firme. Assim, quando o fechamento entre elas aumenta, o timbre
torna-se rico e a voz mais agradável, com maior “mordiente”(67). Possivelmente esse fato
justificaria a melhora na qualidade vocal após a aplicação do gelo, referida pelos ouvintes
sobre maioria significativa dos informantes.
A melhora na qualidade vocal foi verificada na pesquisa. Contudo, para caracterizá-la, devido à
ausência de escalas de graduação de normalidade, os ouvintes se utilizaram de adjetivos que
julgassem mais adequados para expressar as suas impressões. Desse modo as vozes foram
nomeadas como mais clara, mais fluida, mais brilhante, mais fácil, mais ressonante, mais
projetada. Na tentativa de compreender melhor o significado de tais adjetivos, buscou-se na
literatura maior detalhamento quando estes foram citados para assinalar vozes normais.
A voz clara definida por Pinho (1998) como uma voz com maior projeção anteriorizada foi,
acusticamente, caracterizada por Sundberg (1987) por uma maior amplitude nos parciais mais
agudos do espectro, podendo ser denominada também como uma voz mais ressonante e mais
brilhante(5, 65).
A voz fluida foi distinguida por Behlau (2001) por sua facilidade maior de emissão, uma voz
mais fácil, com emissão mais solta, relaxada e mucosa mais flexível, que gera incremento de
energia nos harmônicos agudos(75).
A caracterização das vozes como mais sonora, audível, nítida, também pode ser definida por
maior energia nas frequências mais agudas(76).
Desse modo, observa-se que todos os adjetivos, apesar de descreverem sensações
particulares dos ouvintes, representam situações acústicas muito similares, ou seja, maior
amplitude das frequências agudas do espectro, achado estatisticamente significativo
encontrado neste trabalho.
Contudo deve-se ressaltar que, embora os resultados do presente trabalho pareçam mostrar
uma melhora na qualidade vocal após a aplicação do frio, não se aconselha o uso da técnica
antes das performances vocais. Isso porque, com o resfriamento, a extensibilidade do tecido
conjuntivo diminui e tentativas de alongá-lo, algo frequente nas performances vocais de
cantores, sem seu reaquecimento podem causar rupturas deste. Além disso, a maior
viscosidade das fibras musculares e o decréscimo da força muscular isométrica e isocinética
resultante do resfriamento dificultariam a realização da atividade, o que poderia promover uma
sobrecarga das estruturas fonatórias na tentativa de alcançar o gesto motor solicitado, mesmo
que de forma inadequada. Desse modo, o uso do gelo não em períodos que antecedem a
performance vocal, mas posteriormente a ela, objetivando a redução metabólica e,
consequentemente, prevenção de edemas nas pregas vocais, deve ser considerado.
Entretanto, para o uso do frio deve-se ressaltar a importância de se estar atento a todas as
contraindicações, como a hipersensibilidade ao frio, a doença de Raynaud, as doenças
vasoespásticas, as alterações circulatórias locais, além do melhor método e tempo de
aplicação, como proposto na literatura(42, 48, 77).
Diante dos resultados aqui apresentados após a aplicação do gelo sobre a pele do pescoço,
observou-se que a utilização da eletroglotografia seria de grande valia na complementação e
no esclarecimento dos resultados, estimulando estudos futuros para maior exploração do tema
e contando com outras formas de mensurar as mudanças fisiológicas nas pregas vocais.
CONCLUSÕES
No presente estudo pode-se concluir que:
a aplicação do gelo sobre a pele do pescoço por um período de 20 minutos gera resfriamento
nas estruturas fonatórias devido a alterações de parâmetros perceptivos e acústicos, o que
sugere indícios de modificações fisiológicas;
as medidas acústicas de frequência fundamental média em diferentes vogais sustentadas
apresentaram aumento após a aplicação do frio;
o declínio espectral nas amostras de vogais sustentadas variadas tornou-se menos íngreme,
sugerindo uma estimativa de menor decréscimo de dB por oitava, após a aplicação do frio,
ocasionado pelo incremento de energia nas regiões agudas do espectro;
os resultados perceptivos colhidos sugerem um aumento do loudness, pitch e melhora da
qualidade vocal após resfriamento do pescoço;
a utilização do gelo sobre a pele do pescoço antecedendo as performances vocais, apesar da
melhora na qualidade vocal, seria contraindicada sob o risco de ruptura dos tecidos colágenos.
Entretanto o seu uso após as performances, objetivando a prevenção do edema, deve ser
considerado, merecendo estudos futuros.

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Anexos
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Anexo 1
Termo de Consentimento
Carta para obtenção do consentimento livre e esclarecimento para participação em pesquisa
Caro(a) Senhor(a):
Eu, Janaína Pimenta, fonoaudióloga, portadora do CPF: (...) , RG: (...), estabelecido(a) na
Rua (...), Cep: (...), na cidade de Belo Horizonte, cujo telefone de contato é (...), venho por
meio desta solicitar a sua participação em pesquisa intitulada “Avaliação perceptiva e acústica
da voz após aplicação do frio sobre a pele do pescoço.”
Este estudo tem como objetivo verificar as modificações vocais ocorridas após a utilização do
frio aplicado sobre o pescoço, buscando assim um embasamento científico para uma receita
popular frequentemente difundida.
A sua participação nesta pesquisa é voluntária e a avaliação clínica não determinará qualquer
risco.
Não existe outra forma de obter dados com relação ao procedimento em questão e que possa
ser mais vantajoso.
Informo que o Sr.(a) tem garantia de acesso, em qualquer etapa do estudo, sobre qualquer
esclarecimento de eventuais dúvidas. Se tiver alguma consideração ou dúvida sobre a ética da
pesquisa, entre em contato com o Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Veiga
de Almeida, situado na (...), fone (...) e comunique-se com (...).
Também é garantida a liberdade da retirada de consentimento a qualquer momento e deixar de
participar do estudo.
Garanto que as informações obtidas serão analisadas em conjunto com outras pessoas, não
sendo divulgada a identificação de nenhum dos participantes.
O Sr.(a) tem o direito de ser mantido atualizado sobre os resultados parciais das pesquisas e,
caso seja solicitado, darei todas as informações.
Não existirão despesas ou compensações pessoais para o participante em qualquer fase do
estudo, incluindo exames e consultas. Também não há compensação financeira relacionada à
sua participação. Se existir qualquer despesa adicional, ela será absorvida pelo orçamento da
pesquisa.
Eu me comprometo a utilizar os dados coletados somente para pesquisa e os resultados serão
veiculados através de artigos científicos em revistas especializadas e/ou em encontros
científicos e congressos, sem nunca tornar possível a sua identificação.
Anexo está o consentimento livre e esclarecido para ser assinado caso não tenha ficado
qualquer dúvida.

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Termo de Consentimento
Livre e Esclarecido
Acredito ter sido suficientemente orientado a respeito das informações que li ou que foram
lidas para mim, descrevendo o estudo “Avaliação perceptiva e acústica da voz após aplicação
do frio sobre a pele do pescoço”.
Eu discuti com a fonoaudióloga Janaína Pimenta de Oliveira sobre minha participação nesse
estudo. Ficaram claros para mim quais os propósitos do estudo, os procedimentos a serem
realizados, seus desconfortos e riscos, as garantias de confidencialidade e de esclarecimento
permanente.
Ficou claro também que a minha participação é isenta de despesas e que tenho garantia do
acesso aos resultados e de esclarecer minhas dúvidas a qualquer tempo. Concordo
voluntariamente em participar deste estudo e poderei retirar meu consentimento a qualquer
momento, antes ou durante o mesmo, sem penalidade ou prejuízo ou perda de qualquer
benefício que eu possa ter adquirido, ou no meu atendimento neste serviço.
______________________________ Data: ____/____/____
Assinatura do informante:
Nome:
Endereço:
RG:
Fone:
_____________________________Data: ____/____/____
Assinatura da Pesquisadora
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Pesquisa 4
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A eficácia da Crioterapia na prevenção de Edema de pregas vocais após alta demanda vocal

Janaína Pimenta de Oliveira**


Girlândia Maria de Souza Goepfert**
Karine V. Gonçalves de Oliveira***
* Fonoaudióloga, especialista em voz pelo CEFAC e Conselho Federal, mestre pela Faculdade
Veiga de Almeida no RJ, Diretora do Espaço da Voz e Vocal Coach de cantores profissionais.
** Médica otorrinolaringologista. Especialista em cirurgia plástica e estética de face.
*** Médica otorrinolaringologista. Membro titular ABROL-CCF
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RESUMO
A exposição com alta demanda vocal durante dias seguidos entre cantores são recorrentes e
casos de laringites nestas situações são comuns. Minimizar danos e buscar tratamentos
eficazes tornam-se mandatórios.
Objetivo
Verificar os efeitos da Crioterapia em cantores como uma forma de prevenir ou minimizar
prejuízos vocais após a hiperfonação.

Materiais e métodos
Participaram deste estudo 4 cantores populares em intensa atividade vocal (duas horas de
show) em três dias consecutivos. Os mesmos foram acompanhados por duas semanas
subsequentes, sendo que na segunda semana foi aplicado gelo sobre a pele do pescoço dos
participantes logo após o término dos shows por período de 30 minutos. Para comparação
dos resultados intrasujeitos com e sem aplicação da Crioterapia foi realizada avaliação
perceptiva, videolaringoestroboscopia e autoavaliação vocal no início e final de cada semana
estudada.
Resultados
Apesar da amostragem muito pequena, os resultados após a aplicação da Crioterapia tiveram
melhor condições em praticamente todos os parâmetros perceptivos e visuais. Desse modo,
novas pesquisas e a continuidade deste trabalho são fundamentais para que se possa
aprofundar estes estudos.
INTRODUÇÃO
Edemas de pregas vocais decorrentes de uso abusivo e alta demanda vocal são frequentes e
fonte de preocupação entre cantores. Tais condições podem causar importante impacto não só
financeiros como na imagem destes, uma vez que tem como consequência a rouquidão,
chegando até a cancelamento de shows. Estudo experimental em cães revelaram que a partir
de duas horas de hiperfonação, as pregas vocais já apresentavam vários prejuízos em sua
superfície, gerando edema mais importante naqueles grupos submetidos à hiperfonação por
períodos superiores a duas horas. Gray e Titze (1988) demonstraram a veracidade desse fato
ao criarem, em estudo experimental, um modelo eficiente de pregas vocais caninas após
hiperfonação, a fim de verificar as consequências histológicas da alta demanda vocal em
função do tempo. Observaram que, a partir de duas horas de hiperfonação, as pregas vocais
já revelavam vários prejuízos em sua superfície, extravasamento de líquido extracelular,
ruptura de desmossomos e hemidesmossomos, gerando o edema, ainda mais importante, nos
grupos submetidos a maior tempo de hiperfonação(24).
As lesões musculares podem ocorrer em esportistas profissionais e atletas ocasionais. Tanto
por esforço repetitivo, por exemplo, originando fadiga (acúmulo de ácido lático e consequente
lesão), ou por alongamento excessivo e incorreto. O exercício excêntrico excessivo pode levar
à desorganização de fibras musculares(78). Tanto em indivíduos sedentários ou atletas almeja-
se a recuperação rápida de lesões e de qualidade, de modo a reaver a condição pregressa.
Com cantores profissionais a situação é muito semelhante, uma vez que apresentam alto
desgaste vocal tanto pelo uso abusivo como pela alta demanda, o que os coloca em uma
situação muito próxima a de um atleta. São atletas vocais, expostos a edemas e lesões de
pregas vocais, similares a que ocorrem com esportistas, salvo algumas particularidades
histológicas da laringe.
Diante da emergência, a Crioterapia demonstrou ser um recurso eficaz na inflamação e
edema, principalmente se aplicado logo após o trauma, sendo ainda superior principalmente no
que se refere à analgesia como se verificou em estudo que compara três protocolos:
cinesioterapia, cinesioterapia mais gelo e cinesioterapia associada a ondas curtas(54, 79). Ao
verificar as propriedades mecânicas do músculo gastrocnêmico lesionado por impacto direto,
tratados com a Crioterapia, analisando a carga no limite máximo, alongamento máximo e
rigidez, observou-se que os músculos lesionados sem tratamento apresentaram diminuição de
todas as propriedades mecânicas, já o grupo submetido à Crioterapia em sessões de imersão
imediata após a lesão mostraram melhora em todas as propriedades mecânicas. Chieragato
M. J. et al., 2008; Brancaccio N. et al., 2005, buscaram verificar por meio de estudo
histológico o curso da lesão muscular aguda em ratos treinados e sedentários, submetidos e
não submetidos à Crioterapia, chegando-se à conclusão de que a Crioterapia se mostrou
benéfica para a recuperação de lesão muscular em ratos treinados, devido ao aumento no
número de celular de defesa assim como na diminuição de edema(53, 80).
Diniz (2001). A diminuição da temperatura tecidual leva à diminuição do metabolismo,
minimizando os danos teciduais ocasionados pela hipóxia, tanto pelas ações químicas celulares
como pelos valores de oxigênio e nutrientes. Por meio dessas ações ocorre limitação do
edema, diminuição da liberação de histamina, diminuição das atividades de neutrófilos,
diminuição da ação da colagenase e leucócitos sinoviais(50).
MATERIAL E MÉTODO
Todos os participantes assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido.
Foram critérios de exclusão os preceitos sugeridos por Knight (2000), como contraindicações
da Crioterapia(36). Além disso, os cantores não poderiam estar com nenhuma virose ou
problema de saúde, devendo ser eliminado o fim de semana em que não se sentiam bem,
adiando para outro fim de semana com a mesma quantidade de dias sequenciados para
realização da pesquisa.
Participaram da pesquisa 4 cantores populares (quatro homens), que cantavam três dias
consecutivos, semanalmente, por período de duas horas. Estes foram acompanhados por
duas semanas subsequentes nos dias em que o repertório de cada participante era similar. Na
primeira semana e antecedendo aos dias de show, os cantores foram submetidos à avaliação
perceptiva de suas vozes, avaliação videolaringoestroboscópica e autoavaliação vocal.
A videolaringoestroboscopia foi realizada com laringoscópio Ecleris/Ferrari e registrados em
DVD para registro e posterior análise dos seguintes dados: presença ou ausência de
hiperemia das pregas vocais, edema e movimento muco-ondulatório (MMO) das pregas
vocais; graduados de 0 a 3. Considerou-se MMO alterado qualquer alteração na regularidade
e/ou simetria deste; presença ou ausência de espessamento, hemorragia e lesões nas pregas
vocais. Os exames foram realizados por um único médico otorrinolaringologista e o paciente
foi orientado a emitir a vogal [ɛ] prolongada em voz habitual.
Após a realização do exame videolaringoestroboscópico foi realizada a gravação da voz por
um fonoaudiólogo especialista em voz.
A captação das vozes foi feita em ambiente silencioso, com ruído inferior a 50 dB monitorado
por decibelímetro (Marca Radio Shack) a partir de microfone Shure Headworn, condensado
unidirecional, posicionado a 45 graus e a 5 cm de distância da boca do indivíduo, diretamente
no computador Vaio (Sony) e registradas no programa de avaliação acústica FonoView (CTS
informática, 2.6). Ao coletar as amostras vocais, os especialistas (fonoaudiólogos) procuraram
estar atentos em não dar um modelo vocal e se a emissão das vogais sustentadas dos
informantes mantinham-se dentro de seu tom natural, evitando assim que imitassem a voz dos
avaliadores ou produzissem uma amostra muito distante da sua fala espontânea, uma vez que
vale ressaltar aqui que se estava diante de profissionais da voz e, por isso, pessoas
supostamente com bastante destreza vocal. Manipulação destas amostras poderiam
influenciar muito o resultado final da pesquisa.
Para avaliação perceptiva foi utilizada a escala GRBAS.
Os registros videolaringoestroboscópicos de cada sujeito foram apresentados para dois
otorrinos experientes para análise, que após analisarem de forma aleatória os exames,
deveriam pontuar os parâmetros para que se pudesse fazer uma comparação intrasujeitos,
caso houvesse.
O exame foi feito sem anestesia tópica, exceto nos pacientes com exame difícil, reflexo de
vômito exacerbado, ou que relataram muito incômodo. Para esses pacientes foi utilizada
xilocaína tópica em spray a 10%. O exame seguiu o protocolo de exame videolaringoscópico
(anexo 2) e foram analisados por uma comissão de dois otorrinolaringologistas com
experiência na área de voz, sendo as análises feitas conjuntamente, em consenso entre juízes,
para garantir fidedignidade dos julgamentos.
Os julgadores realizaram análise do exame, baseada nos parâmetros de simetria, hiperemia,
edema, lesões de borda. Aos participantes foi solicitado responder a um questionário de
autoavaliação vocal (anexo 3).
Ao findar as quatro apresentações, os participantes foram submetidos às mesmas avaliações
no dia seguinte da última apresentação. Na semana seguinte, no dia em que antecedia as
apresentações, novamente as avaliações foram aplicadas. Os informantes fizeram as quatro
apresentações com repertório similar à primeira semana com a diferença de que estes
deveriam aplicar gelo no pescoço por 30 minutos logo após o término da apresentação,
durante a qual os cantores deveriam permanecer calados. No dia que se seguia a
apresentação, as mesmas avaliações foram aplicadas seguindo o mesmo protocolo da
semana anterior.
Para cada sujeito da pesquisa foi solicitado o preenchimento do consentimento livre e
esclarecido ao participante deste estudo (anexo 1).
RESULTADOS
Na análise comparativa dos achados da videolaringoestroboscopia, pode-se observar que ao
se comparar os achados do pósshow na primeira gravação com os achados do pós-show
após a utilização da Crioterapia, verificou-se que neste último todos os parâmetros
encontravam-se em melhor condições se comparados ao pós-show sem a utilização do
recurso terapêutico em questão, como se pode ver nas tabelas 1, 2 e 3.
Desse modo, a hiperemia verificada foi menor no pós-show após o uso do frio em 75% dos
informantes (tabela 1), assim como o edema (tabela 2). O MMO não apresentou uma piora
tão expressiva se comparado ao pós-show sem a utilização da Crioterapia. (tabela 3).

Na análise perceptiva a partir da escala GRBAS, pôde-se verificar que os parâmetros de
G,R,B tiveram uma piora menor quando utilizado o gelo se comparado ao momento em que
houve a ausência desse recurso, como ilustrado nas tabelas 4, 5 e 6.

Na autoavaliação, verificou-se unanimidade na percepção de maior rapidez na recuperação
vocal no dia seguinte ao show em que fora utilizada a Crioterapia (tabela 7).

Na autoavaliação, verificou-se unanimidade na percepção de maior rapidez na recuperação


vocal no dia seguinte ao show em que fora utilizada a Crioterapia (tabela 7).
DISCUSSÃO e CONCLUSÃO
Realizou-se a análise descritiva dos resultados encontrados uma vez que em decorrência do
tamanho da amostra utilizada, não se pode afirmar que esta apresenta poder suficiente para
generalizá-la para uma população. Desse modo, novas pesquisas e a continuidade deste
trabalho são fundamentais para que se possa aprofundar estes estudos. Entretanto, ainda
assim, a exposição dos dados desta análise torna-se de grande valia, uma vez que
originariamente busca-se registrar e mensurar a melhoria, tão frequentemente referida, por
profissionais da voz após o uso da Crioterapia na prática clínica, o que corrobora com os
achados da fisioterapia esportiva, já descritos na literatura. Além disso, deve-se ressaltar que
a metodologia proposta reúne particularidades que aumentam muito as variáveis que podem
influenciar no processo, o que torna uma tarefa árdua reunir uma amostragem tão específica
sem tantas variáveis excludentes.
Assim, os achados da laringoscopia demonstraram que ao utilizar o frio não foi observada
uma piora tão grande nos parâmetros. Tal fato pode ser explicado pelo melhor controle das
respostas inflamatórias de edema, hiperemia e, consequentemente, melhor MMO com a
Crioterapia, como descreve a fisioterapia esportiva com os achados perceptivos(50, 53, 54,
78, 80). Isso pode ser extremamente valioso para os profissionais da voz que utilizam a voz
em alta demanda por períodos maiores e em dias sequentes, necessitando de uma
recuperação mais breve(24, 50).
Deste modo, a que tudo indica, conclui-se que a Crioterapia parece ser um recurso simples
para o controle das respostas do processo inflamatório e, consequente, melhoria deste, mas
que merece novos estudos, especialmente pela novidade do tema dentro da laringologia e
fonoaudiologia.
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Anexos
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ANEXO 1
Termo de Consentimento Livre e Esclarecido ao Participante Deste Estudo
O Sr.(a) está sendo convidado a participar da pesquisa intitulada “A Eficácia da Crioterapia na
prevenção de edema de pregas vocais após alta demanda vocal”. O objetivo deste estudo é
avaliar os efeitos da Crioterapia (na prevenção de edemas) de pregas vocais de cantores
submetidos à alta demanda vocal. Caso aceite participar como sujeito desta pesquisa, você
passará pelo seguinte protocolo de avaliação: Avaliação videolaringoestroboscópica, realizada
pelo otorrinolaringologista, avaliação perceptiva e computadorizada da voz, realizada pela
fonoaudióloga e gravada no computador e preenchimento de questionário de autoavaliação
vocal. A pesquisa será realizada durante duas semanas de alta demanda vocal (duas horas de
show em quatro dias consecutivos), em que, na segunda semana, será aplicado gelo sobre a
pele do seu pescoço logo após o término dos shows por período de 30 minutos. Durante a
pesquisa, haverão quatro momentos para aplicação do protocolo de avaliação: primeira e
segunda semana, no dia em que antecede e o dia que segue os dias de intensa atividade
vocal.
A videolaringoestroboscopia é um exame simples e rápido, realizado em consultório médico,
em que é feita uma pequena tração da língua e uma ótica, acoplada a uma microcâmera, que
é introduzida na boca até permitir a visualização da laringe e das pregas vocais. O exame não
exige qualquer preparo e somente em raros casos necessita o uso de anestesia tópica
(xilocaína spray 10%).
A gravação da voz também é realizada em consultório fonoaudiológico, que consiste na
gravação por meio de um microfone ligado ao computador.
O uso do gelo com fins terapêuticos, Crioterapia, é uma técnica eficaz e superior a outros
recursos descritos na medicina do esporte para a prevenção de edema logo após o trauma.
Apresenta riscos limitados e controlados descritos na literatura e é contraindicada nos casos
de Distúrbios vasoespásticos como: Doença de Raynaud, Livedo reticular, Acrocianose;
hipersensibilidade ao frio, podendo gerar urticária e dor forte após a aplicação; distúrbios
cardíacos com comprometimento da circulação local; antes de exercícios vigorosos, uma vez
que o frio aumenta a rigidez das fibras colágenas, resultando em um decréscimo da
flexibilidade muscular.
Não há riscos físicos ou morais nestes exames e não existem benefícios financeiros para os
pesquisadores nem para os participantes desta pesquisa.
Sua participação irá auxiliar-nos a avaliar o efeito da Crioterapia nas pregas vocais,
proporcionando novos conhecimentos no tratamento de indivíduos que, como você, necessitem
da voz profissionalmente.
Após a conclusão desta pesquisa, os dados estarão disponíveis para os participantes que se
interessarem. Em hipótese alguma os participantes desta pesquisa serão identificados. Os
resultados deste estudo serão utilizados somente para fins de pesquisa e atividade acadêmica.
Fica claro que sua participação é voluntária, não sendo obrigado a realizar nenhum
procedimento da pesquisa caso não queira, mesmo que já tenha assinado este consentimento
. Você fica livre para, em qualquer momento, retirar o seu consentimento e deixar de participar
da pesquisa, tendo a garantia de que seus dados não serão utilizados e que em nenhum
momento será prejudicado, bem como seu tratamento.
Em caso de dúvidas ou intercorrências, você poderá contatar Janaína Pimenta, fonoaudióloga,
CRFa (...), nos números (...) ou (...) ou no Espaço da Voz (Av. ...)
Eu compreendo meus direitos como sujeito de pesquisa e voluntariamente consinto em
participar deste estudo. Compreendo sobre o que, como e por que este estudo está sendo
feito. Estou ciente de que poderei retirar meu consentimento a qualquer momento, sem
nenhum prejuízo no meu atendimento nesta clínica.

Belo Horizonte, de de 2016.


_________________ _________________
Participante Pesquisador

ANEXO 2
Protocolo de Avaliação Videolaringoscópica
NOME (iniciais):__________________________________

SUJEITO No:_____________________________________

DATA: __________________________________________

EXAME REALIZADO POR :________________________



Lesões (descrever):_________________________________

Estroboscopia:
( ) Simetria ( ) Assimetria

Amplitude de vibração diminuída:


( ) D ( ) E

Aperiodicidade:
( ) D ( ) E

Rigidez :
( ) D ( ) E
Localização :____________________________________

Fechamento glótico:______________________________

Sinais de refluxo:
( ) Sim ( ) Não
Qual:__________________________________________

Fonação inspiratória:_____________________________
______________________________________________
______________________________________________
______________________________________________
______________________________________________
______________________________________________
______________________________________________
______________________________________________

ANEXO 3
Questionário de Autoavaliação Vocal
NOME (iniciais): __________________________________

SUJEITO No:_____________________________________

DATA:__________________________________________

1- Voz Falada
Como está sentindo sua voz para falar?
( ) Boa ( ) Levemente cansada
( ) Cansada ( ) Muito cansada
2- Sente esforço para falar?
( ) Nenhum esforço ( ) Esforço leve
( ) Esforço ( ) Muito esforço
3- O ar acaba rápido para falar e tenho que respirar mais vezes?
( ) Sim ( ) Não

4- Voz Cantada
4.1- Como está sua extensão vocal - Alcance de notas agudas:
( ) Bom ( ) Um pouco reduzido
( ) Reduzido ( ) Muito reduzido
4.2- Alcance de notas graves:
( ) Bom ( ) Um pouco reduzido
( ) Reduzido ( ) Muito reduzido

5- A voz está
( ) Sem Brilho - Graduação: (1) (2) (3) (4)
( ) Abafada - Graduação: (1) (2) (3) (4)
( ) Soprosa - Graduação: (1) (2) (3) (4)
( ) Rouca - Graduação: (1) (2) (3) (4)
6- Notou piora na sua voz após os shows
( ) Sim ( ) Não
7- A partir de qual dia notou piora ?
( ) 1 dia de show ( ) 2 dias de show
( ) 3 dias de show ( ) 4 dias de show
8-Sentiu a voz melhor após o uso do gelo?
( ) Sim ( ) Não
9-Teve alguma dificuldade para aplicar o gelo?
( ) Sim ( ) Não
10- Efeitos negativos e colaterais observados
________________________________________________
________________________________________________
11- Efeitos positivos observados após o uso do gelo:
________________________________________________
________________________________________________

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TERMOTERAPIA PARTE III
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Criando o método de termoterapia no tratamento vocal

A termoterapia tem se mostrado um recurso terapêutico eficaz e, em determinadas situações,


até mais eficiente do que outros propostos na medicina esportiva(54, 79). A questão que deve
ser levada em consideração é a expertise do terapeuta para a sua tomada de decisão a fim de
escolher o melhor recurso para o momento correto. Este parece ser o grande diferencial no
sucesso do tratamento. Entre os profissionais da voz, isso não é diferente.
Partindo da necessidade de se criar soluções para a alta incidência das laringites entre os
profissionais da voz, primariamente se deve conhecer um processo inflamatório e suas etapas,
seja ele qual for no corpo para, então, identificado o momento em que se encontra o processo,
fazer a escolha da técnica mais adequada.
O PROCESSO INFLAMATÓRIO
Inflamação é a reação do organismo a um fator irritante que se dá a fim de defendê-lo contra
substâncias estranhas, de remover o tecido morto para que a cicatrização aconteça e ocorra a
regeneração do tecido normal. São sinais de inflamação: dor, edema, rubor, calor, perda de
função. É importante compreender a diferença entre o processo inflamatório e as respostas
inflamatórias. Estas são sinais que indicam que o processo inflamatório está ocorrendo, por
exemplo, o edema, controlá-lo é benéfico, o que não quer dizer que o processo inflamatório
não está em andamento. Desse modo, usar o gelo para controlar a dor e o edema é benéfico;
limitar a inflamação não é.
A inflamação apresenta 8 fases, sendo elas:
Fase 1 - Lesão
Fase 2 - Alterações ultraestruturais
Fase 3 - Alterações metabólicas (hipóxia)
Fase 4 - Ativação de mediadores químicos
Fase 5 - Alterações hemodinâmicas
Fase 6 - Alterações de permeabilidade
Fase 7 - Migração de leucócitos
Fase 8 - Fagocitose
Lesão
Qualquer evento que danifique a estrutura ou função dos tecidos, impedindo as células de
realizarem seus mecanismos homeostáticos normais, ocasiona a resposta inflamatória. São
causas das lesões:
macrotraumas (impacto) ou microtrauma (uso excessivo, atrito);
agentes físicos (queimadura e radiação);
agentes biológicos (bactérias, vírus e parasitas);
agentes químicos (ácidos, gases, solventes orgânicos e substâncias químicas no interior do
corpo);
fatores metabólicos (hipóxia).
Alterações ultraestruturais
São resultantes diretamente do trauma e/ou secundários à hipóxia, ocasionadas pela baixa
liberação de oxigênio para tecidos periféricos devido a desequilíbrios metabólicos oriundos da
lesão primária ou lesão enzimática secundária, quando as enzimas liberadas dos lisossomos
das células mortas, ao entrarem em contato com as células vivas, passam a degradar suas
membranas, levando a mais morte de mais células.
Alterações metabólicas
Para que uma célula funcione, ela necessita de energia, que é gerada pelo metabolismo
aeróbio. Sem oxigênio a célula entra em metabolismo anaeróbio, utilizando a glicose para
produzir energia. Entretanto, a manutenção desse metabolismo tem como consequência a
acidose intracelular prejudicial à integridade da membrana celular e à diminuição gradativa da
produção de energia, visto que não se consegue manter o metabolismo anaeróbio por muito
tempo. A diminuição de produção de energia leva a uma diminuição das funções da membrana
basal (responsável pela bomba de sódio-potássio), que acaba por elevar a concentração de
sódio no interior da célula com consequente edema desta, provocando seu rompimento. Deve-
se lembrar que os lisossomos são umas das organelas responsáveis por fornecer enzimas
que digerem material estranho retido nas células. Caso as membranas dos lisossomos sofram
rompimento repentino devido à acidose ou à insuficiência da bomba de sódio, seu conteúdo
começará digerir outros componentes celulares, inclusive a membrana celular.
Ativação de mediadores químicos
A histamina, a bradicinina e outras substâncias têm como função avisar o organismo que suas
células foram lesadas, regular a resposta inflamatória, a fim de neutralizar a lesão e co- meçar
a remover os detritos celulares para que a reparação aconteça. Essas substâncias são
ativadas quando ocorre uma alteração ultraestrutural.
Alterações hemodinâmicas
Quando ocorre uma alteração ultraestrutural, há uma mobilização para que mais sangue
chegue ao local da lesão. As artérias, capilares e vênulas se dilatam aumentando o fluxo de
sangue para o local da lesão. A velocidade desse fluxo no vaso, entretanto, diminui. Isso
acontece para que os leucócitos se movam do centro do vaso para sua parede e, enfim, o
endotélio fique pavimentado com essas células. Os mediadores químicos atuam como guardas
de trânsito a fim de mobilizar e atrair leucócitos para os tecidos lesados.
Alterações da permeabilidade
A histamina e a bradicinina aumentam a permeabilidade de pequenos vasos sanguíneos. As
células endoteliais dos vasos parecem contrair-se ou acumular, distanciando-se uma das
outras e deixando lacunas para que os leucócitos aglutinados possam sair do vaso, indo ao
local da lesão. Embora essa permeabilidade aumente, sobretudo, para permitir que os
leucócitos se movam para a lesão, também possibilita a saída de maiores quantidades de
líquido rico em proteínas. Isso resulta em aumento da viscosidade do sangue, às vezes a
ponto de bloquear a circulação, tão compactas ficam as células.
Migração de leucócitos
Os leucócitos migram para o local da lesão, ficando em maior concentração em locais onde há
maior dano tecidual. Os leucócitos com importante papel na inflamação são os neutrófilos e os
macrófagos.
Os neutrófilos são menores e chegam primeiro ao local da lesão. Duram cerca de 7 horas e
quando morrem liberam mediadores químicos que atraem macrófagos.
Os macrófagos vivem por meses, reproduzem-se e são responsáveis pela fagocitose e por
liberar enzimas potentes que podem destruir o tecido conjuntivo, que se somam à lesão,
liberam mediadores químicos que prologam a inflamação, liberam fatores responsáveis pela
cicatrização e secretam proteínas importantes para os mecanismos de defesa.
Fagocitose
É o processo de digestão de detritos celulares e de outros materiais estranhos em fragmentos
pequenos suficientes para serem retirados do local da lesão pelos vasos linfáticos. Quando o
conteúdo do fagossoma é degradado em minúsculas proteínas (proteína livre), ele vai para o
espaço intracelular, o que aumenta a pressão oncótica do tecido com consequente aumento do
edema.
Inflamação crônica
Quando a resposta inflamatória é incapaz de eliminar a causa da lesão e restaurar a função
normal do tecido ferido, sobrevém a inflamação crônica. Os macrófagos proliferam e liberam
mediadores químicos que atraem mais macrófagos. Quanto mais macrófagos se acumulam,
mais fácil é para manter o processo, ou seja, uma atividade que em geral não é traumática
transforma-se em um estímulo inflamatório.
A cicatrização
O processo da reparação inicia-se quando ocorre a remoção suficiente dos detritos lesados,
no qual as células mortas serão substituídas por células sadias.
Essa substituição pode ser feita por células idênticas às danificadas ou por células mais
simples. A reconstituição imperfeita acontece quando as células danificadas são substituídas
em parte por células idênticas e algumas células de tecido conjuntivo, formando o tecido
cicatricial.

Fases da reparação
Fase 1 - Fase celular
Fase 2 - Resposta vascular
Fase 3 - Colagenização
Fase 4 - Contração e reestruturação
Fase celular
Nesse momento, os macrófagos recolhem os detritos celulares e os sistemas circulatório e
linfático drenam os resíduos, pequenas partículas de proteínas livres. Quanto mais proteínas
permanecerem, maior será a cicatriz. Desse modo, quanto mais eficiente for a drenagem
linfática, menor será a cicatriz.
Resposta vascular
É a fase na qual são formados muitos capilares que levam até a região da lesão grandes
quantidades de oxigênio e nutrientes necessários para a reparação. É um processo de
brotamento capilar a fim de que mais sangue possa fluir até o local da lesão, podendo estes
mesmos se atrofiarem nas fases mais avançadas da reparação.
Colagenização
É o processo de produção e deposição do colágeno no espaço da lesão que resulta em
cicatriz. Primeiramente, os fibroblastos migram para a região lesada, depois começam a
produzir faixas de colágenos. Quatro a seis dias depois da lesão, o grau de vascularização e
taxa de colagenização são máximos. A maioria do colágeno deposita-se em quinze a vinte dias
após a lesão. O ferimento, entretanto, só se reforça quando o colágeno se realinha em
paralelo com as fibras de força, um processo que pode levar até um ano.
Esse processo requer muito oxigênio e estudos demonstram que a quantidade de colágeno
acumulada em uma região lesada e a força tensiva das lesões da pele relacionam-se
linearmente com o oxigênio disponível na lesão. Nesse mesmo estudo, foi observado que entre
cinco e quinze dias após a lesão, quanto maior a porcentagem de oxigênio do ar inspirado por
ratos de laboratórios, maior a força tensil de suas lesões.
Contração e reestruturação
Esse processo deixa o tecido cicatricial menor e mais pálido. Assim, há uma reorganização
das fibras de colágeno em paralelo às linhas de força. Isso faz com que além da cicatriz fique
mais compacta, esta torna-se mais resistente.
A reestruturação do colágeno ocorre em resposta à força exercida sobre a cicatriz. Conforme
a parte do corpo se move, a cicatriz capta a direção do movimento e alinha a maioria das
fibras de colágeno em paralelo com as linhas de força. Assim, o exercício ativo é necessário
para a fase final de cicatrização, embora a atividade muito vigorosa e precoce promova o
rompimento da cicatriz imatura.
ENTENDENDO AS LESÕES VOCAIS
Da inflamação à cicatrização. Em que momento encontra o problema?
Partindo do princípio de que o uso da voz por um período prolongado pode gerar lesões em
sua superfície, verificado por Gray & Titze (1988)(24), comprovando os danos gerados na
hiperfonação, explica-se o motivo de os cantores sentirem alterações vocais mesmo antes de
serem detectáveis nos exames de laringe(25); Pode-se, então, considerar o início do processo
inflamatório não apenas quando se depara com uma lesão vocal, mas quando se tem qualquer
evento que danifique a estrutura dos tecidos como, por exemplo, os microtraumas gerados
pelo uso após período de show acima de duas horas. Estaria-se diante do início de um
processo inflamatório. O tamanho e a magnitude deste, porém, dependerá de inúmeros
fatores, inclusive, do quão exposto ficou o cantor, de sua habilidade técnica, dos recursos
técnicos para ele disponíveis com retorno de voz, de suas condições físicas iniciais, ou seja,
lesões vocais e patologias já instaladas, entre outros.
Nesse momento, seja apenas em um pequeno grupo celular ou em uma grande área, o
processo inflamatório foi disparado e como tal terá respostas inflamatórias, só será
solucionado quando chegar na sua fase de cicatrização. O sucesso do tratamento será não
impedir que ele ocorra, mas que ele seja rápido, eficiente e que tenha como resultado a menor
cicatriz e com maior eficácia possível, ou seja, menor e mais próxima das células originais,
tanto em forma quanto em função, se aproximando de uma restauração.
Assim, logo após a ocorrência de uma lesão, a fim de minimizar os danos teciduais, deve-se
diminuir o metabolismo celular para que as funções celulares se reestabeleçam, os
mediadores químicos neutralizem a lesão e não haja necessidade de muito oxigênio, o que
geraria mais perda celular e consequentemente mais edema e aumento do processo
inflamatório. Desse modo, o recurso mais indicado nesse momento e que geraria esses efeitos
é a Crioterapia, ideal logo após o trauma, no caso, após o show.
Já na fase do processo inflamatório, em que a fagocitose se inicia e a primeira fase do
processo de cicatrização ocorre, em que há a remoção dos detritos, a otimização da
drenagem linfática influencia diretamente na eficiência do processo como um todo. Portanto,
nesse momento, qualquer recurso que otimize a drenagem seria de extrema valia. Seria,
então, o momento ideal para a escolha da hipertermoterapia na forma do calor úmido, por
exemplo, na qual se alcançaria uma vasodilatação e aumento do metabolismo, o que aceleraria
a remoção dos detritos.
Nas fases mais tardias do processo de cicatrização, a colagenização e a contração e
reestruturação, indica-se também a hipertermoterapia, porém, agora com o objetivo um pouco
diferente. Nessa etapa foca-se em aumentar o metabolismo para melhor nutrição e oxigenação
dos tecidos, o que levaria a uma cicatriz de melhor qualidade, segundo Enwemeka 1989 e
Ligocki C.; Branco A.; Groth A., 2007(81, 82). Além disso, o calor possibilita o aumento da
extensibilidade dos tecidos colágenos, principalmente se associados aos exercícios fonatórios,
que dariam a direção às fibras do movimento, diminuição da viscosidade e resistência ao
movimento, o que tem demonstrado maior eficiência na cicatriz final (figura 2)(83, 84).

TERMOTERAPIA E O MOMENTO DO SHOW:
Qual recurso usar?
A performance é o momento em que o cantor quer aparecer com uma qualidade vocal boa, às
vezes, a qualquer preço. Deve pensar não apenas em iniciar o show com uma boa voz, mas
terminar e assim permanecer. E como um atleta, de nada adianta um nadador iniciar a
competição com poderosas braçadas e não chegar na metade da piscina. Seria preferível ter
feito braçadas mais econômicas e chegado em primeiro lugar. O cantor não é diferente e
alguns recursos podem prejudicá-lo se usados no momento errado.
Desse modo, levando em consideração a qualidade vocal, observa-se sua melhora após o uso
do frio(85). Apesar disso, o uso desse recurso em momentos que antecedem uma
performance vocal não deve ser indicado, uma vez que o frio diminui a extensibilidade do tecido
colágeno e tentativas de alongá-lo podem gerar danos irreparáveis por compensações
abruptas e daninhas que o cantor, no intuito de alcançar efeitos sonoros que o repertório exige,
realiza mesmo no início da apresentação. A Crioterapia seria mais indicada após o show,
funcionando como um recurso a ser usado no pós-trauma, a fim de minimizar as respostas
inflamatórias sem impedir o processo inflamatório que deve ocorrer da forma mais rápida e
eficiente possível.
A hipertermoterapia pode ser um recurso interessante para melhora da qualidade vocal para o
show, mas a sua utilização deve ser avaliada levando em consideração cada caso e suas
particularidades. Nos casos de pregas vocais com muita hiperemia e vasos muito dilatados, ela
pode ser utilizada com algumas ressalvas sem tantos exercícios associados durante a
aplicação do calor e logo após. De uma maneira geral, a hipertermoterapia sobre a forma de
vapor, calor úmido, naqueles casos de edema por uso abusivo da voz, além de hidratar,
aumenta o metabolismo e drenagem, podendo levar à diminuição do edema, aumento do
movimento de muco-ondulatório, o que pode trazer benefícios para o cantor antes do show.
Entretanto, deve-se levar em consideração que o calor apresenta também como efeitos
fisiológicos o relaxamento da musculatura e a vasodilatação, o que em momentos logo antes
da apresentação, talvez não fossem muito adequados, sendo mais indicado ao aplicá-lo, dar
um intervalo maior para a performance, quando o cantor deve realmente realizar um
aquecimento vocal, a fim de deixar as estruturas vocais em estado de prontidão para o canto.
Entretanto, não logo após o show, mas quando o processo inflamatório já mais instalado em
etapas mais avançadas, provavelmente, no dia seguinte ao show, o vapor quente pode
novamente ser um excelente recurso para relaxamento e drenagem.
Aquecimento vocal
O aquecimento muscular tem como objetivo um funcionamento mais dinâmico do organismo,
como maior irrigação sanguínea da musculatura a ser recrutada, suprindo-a com mais oxigênio
e possibilitando-a de alcançar uma temperatura ideal(86). O aquecimento vocal, descrito na
literatura de uma maneira geral, consiste em fazer uma transição entre a vocalização e o
canto(87, 88, 89). Desse modo, buscam na maioria das vezes uma coaptação adequada das
pregas vocais, gerando qualidade vocal com maior componente harmônico, maior flexibilidade,
maior projeção, melhor articulação dos sons, ou seja, buscam uma formatação do trato mais
livre de tensões a fim de se alcançar uma qualidade vocal ressonante e projetada,
característica do Bel Canto*3.

*3 “Belo canto”, em italiano, denomina toda uma tradição vocal, técnica e interpretativa da
ópera italiana, a qual se originou no fim do Século XVII e alcançou seu auge no início do
Século XIX durante a era da ópera de Bel Canto. Durante muito tempo, foi visto apenas como
uma escola que enfatizava, acima de tudo, o mero virtuosismo vocal, em detrimento do drama
e do canto expressivo. A base técnica do Bel Canto reside na ênfase do controle da
respiração, no aperfeiçoamento do legato, na precisão e flexibilidade da coloratura, na
ausência de transições bruscas entre os registros, no controle sobre uma longa extensão
vocal.

Para a autora deste livro, o aquecimento vocal apresenta duas funções básicas:
aumentar a temperatura das estruturas a serem utilizadas nas funções específicas
propriamente ditas, diminuindo assim o risco de lesão e a resistência ao movimento que deve
ser fluido a fim de evitar gestos motores compensatórios;
mapear os gestos motores, trazendo para uma ação voluntária e estratégica saudável os
ajustes fonatórios que se pretende alcançar livre da situação de estresse a ser enfrentada.
Assim, para esse fim de aquecimento vocal, a hipertermoterapia até aumentaria a temperatura
dos tecidos, entretanto, ela traria um relaxamento muscular e vasodilatação que não seriam
tão benéficos para o momento da performance. O cantor deve ter no palco um relaxamento
ativo, ou seja, deve estar livre de tensões mas com um tônus corporal tal capaz de responder
prontamente aos estímulos recebidos sem perder a dinâmica do show. Imagine um goleiro tão
relaxado que leve um gol. Ele não precisa estar tenso, mas tem que ser capaz a reagir, a
responder ao estímulo prontamente. As suas pregas vocais devem se comportar da mesma
maneira. Devem ter tônus e serem capazes de fazer ajustes rápidos e eficazes que
acompanhem toda a performance.
Dessa forma, sugere-se para o aquecimento vocal nos momentos que antecedem o show
maior hidratação, podendo ser utilizado para isso, aspiração de soro fisiológico, aparelhos de
nebulização (hidratação em temperatura ambiente), evitando os vaporizadores. Existem no
mercado alguns portáteis que podem auxiliar muito na logística dos shows.
Associado à hidratação e objetivando o aumento da temperatura das estruturas, o profissional
da voz tem a possibilidade de associar alguns exercícios corporais para o aquecimento vocal
para trabalhar alguma função fonatória específica, como exercícios focando o apoio
respiratório ou até um simples exercício corporal (grandes músculos, exercícios aeróbicos),
objetivando o aumento da temperatura corporal e, consequentemente, o aumento da
temperatura das pregas vocais, o que poderia funcionar como um bom auxílio, especialmente
em dias com o clima mais frio, reafirmando as tendências dos estudos antigos da medicina do
esporte, que modificavam seu programa de aquecimento muscular de acordo com as
condições climáticas(84, 90, 91, 92, 93, 94, 95).
Buscando-se alcançar o segundo objetivo do aquecimento vocal, ou seja, a fim de mapear os
ajustes fonatórios, evitando as compensações danosas, pode-se realizar exercícios vocais
específicos que devem ser desenvolvidos levando em consideração os repertórios, as
características vocais, dificuldades, extensão, efeitos vocais. A escolha das atividades
fonatórias ou sons para se realizar os vocalizes deve possibilitar ao indivíduo treinar os ajustes
fonatórios que serão necessários no momento do show. Por exemplo, a utilização de sons que
anteriorizem a língua naqueles casos em que se está diante de uma ressonância muito
posteriorizada com tensão de base de língua ou sons que estimulem a elevação do palato para
aqueles casos em que exista uma grande nasalidade, por exemplo, entre muitos outros.

A autora ressalta também a importância de verificar os aspectos nutricionais no aquecimento
de voz que, se não levados em consideração, podem invalidar todo o trabalho realizado com o
cantor. A nutrição pode ser apenas um suporte para o trabalho com cantores, mas nessa visão
do cantor atleta ela é fundamental, funcionando como recurso para o profissional de alta
performance(96). Assim, se bem orientado por profissional competente, o cantor pode muito
se beneficiar com a nutrição adequada, uso de suplementações dentro da proposta de se
alcançar a sua potencialidade máxima.

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DEPOIMENTOS
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O uso do calor e/ou do gelo


Quais suas impressões vocais após o uso desses recursos?
“A recuperação vocal é mais rápida e no dia seguinte a voz fica menos cansada e menos
edemaciada. E aí quando vou cantar, eu sinto mais conforto, não perco as frequências, não
perco graves e agudos por conta de edema. A voz fica mais limpa. Eu me sinto muito melhor”.
Ivete Sangalo

Quais os benefícios que a fonoaudiologia lhe trouxe na sua vida prática, no show, na sua
maneira de cantar?
“A fonoaudiologia me trouxe a consciência da forma correta de tratar a voz. Desde instruções
primárias, como o aquecimento e desaquecimento nos shows, até terapias mais elaboradas
em caso de alguma situação inesperada”.
O uso do calor e/ou do gelo
Quais suas impressões vocais após o uso desses recursos?
“O uso do calor através do vaporizador é muito eficaz pra mim. Me traz um benefício quase
imediato. Muitas vezes, estou um pouco rouco com as cordas vocais fadigadas. Faço a terapia
com vapor à tarde e à noite no show percebo a voz recuperada. Quando a Jana me
apresentou o tratamento com gelo me causou estranheza, pois sempre ouvi dizer que gelo e
frio são prejudiciais para a voz. Mas após passar por um problema e me submeter a um
tratamento diário com gelo tive um resultado surpreendente. Hoje, o gelo faz parte do meu
cuidado com a voz.”
Algum caso engraçado com os exercícios vocais?
“Eu sou estabanado e vou confessar que Janaína Pimenta também... (risos). Quanto fazíamos
fonoterapia no seu consultório, quase sempre quebrávamos alguma coisa, derrubávamos a
água ou um dava pancada no outro na hora de executar os exercícios... (risos)”.
Ingredientes básicos de uma fonoaudióloga
“Uma fono tem que ter sede de conhecimento, confiança e audácia. Isso porque exercícios que
envolvem sons estranhos, caras e bocas podem parecer que não darão os resultados
buscados. E a audácia e o conhecimento atualizado transmitem a segurança que o paciente
precisa para confiar nessas técnicas que a princípio parecem estranhas”.
Curiosidades na sua história vocal
“Passei uma situação delicada. Fiquei rouco e os procedimentos normais que fazia, associados
com medicação, não estavam dando resultado. Permaneci uma semana rouco, até que
procurei um médico considerado um dos melhores do Brasil. Fiz o exame e foi constatado um
grande pólipo. A sentença do médico foi uma cirurgia urgente, pois seria a única forma de
tentar recuperar a voz que, segundo ele, ia piorar a cada dia. Procurei uma segunda opinião
com outro especialista renomado e o diagnóstico foi o mesmo. Fiquei desesperado, 20 shows
foram cancelados. Liguei para Janaína e contei tudo o que tinha acontecido. Marcamos um
encontro e levei os exames para que ela avaliasse. Após uma avaliação, ela disse: César, se
acalme, confie em mim e me dê trinta dias de tratamento intensivo. Saí de lá ainda com o
assombro do médico ecoando em minha mente, mas entreguei a situação para Janaína.
Fizemos os trinta dias de terapia intensiva com calor, gelo, massageador e exercícios vocais
em seus consultórios. Durante o tratamento minha voz já foi melhorando. Após os trinta dias
fizemos um novo exame e para minha surpresa aquele pólipo que só sairia com cirurgia havia
desaparecido de minha corda vocal. Não tenho dúvida que o conhecimento e a audácia da
Jana foram instrumento que Deus usou pra me trazer a alegria de ter minha voz
reestabelecida. Sou testemunha da eficácia da fonoaudiologia”.
César Menotti
“Quando comecei fazer o acompanhamento com a fono, eu passei a sentir segurança, pois
sempre que terminava o show, saía com a voz cansada, preocupado com o próximo show.
Depois que comecei os exercícios de aquecer e desaquecer, não tive mais esse problema. E
passei a entender melhor o uso da corda vocal, respiração, e aí passei a não forçar tanto a
voz e ao mesmo tempo consegui cantar notas altas sem esforço.
Comecei a sentir uma recuperação mais rápida. Como se o desgaste tivesse sido menor e
com maior facilidade para cantar.
O que acontece é que, às vezes, você esquece que está em determinados lugares e começa
algum exercício que o povo não está acostumado a ver, e ficam te olhando sem entender
nada.
Para mim, o fonoaudiólogo deve ter mais amor, carinho e dedicação com o paciente!!! Só
assim”.
Fabiano Menotti

Quais os benefícios que a fonoaudiologia lhe trouxe na sua vida prática, no show, na sua
maneira de cantar?
“Como eu pulo muito igual pipoca, movimento-me bastante, a fonoaudiologia me trouxe um
maior condicionamento vocal, que me possibilita cantar e pular e me mover no palco sem que
eu me sinta cansada ou transpareça o cansaço na voz. Melhorei muito na respiração, na força
vocal e em detalhes que fazem diferença, já que eu uso no palco a voz cantada e falada”.
O uso do calor e/ou do gelo
Quais suas impressões vocais após o uso desses recursos?
“Melhoras instantâneas!!! Eu percebo com essas técnicas quando me sinto rouca ou com
fadiga na voz”.
Algum caso engraçado com os exercícios vocais?
Vários!!! Se fizer perto de alguém sempre vai ter alguém rindo porque a gente faz cada cara ...
Minha filha, então, se diverte me imitando!”.

Aline Barros

Quais os benefícios que a fonoaudiologia lhe trouxe na sua vida prática, no show, na sua
maneira de cantar?
“Quando eu comecei a cantar profissionalmente, por estar passando por um período de
mudança de voz, pois eu comecei a cantar muito novo, eu me acostumei a cantar jogando
muito o som para o nariz. A fonoaudiologia me ajudou muito nisso. Se eu tivesse que citar a
coisa mais importante que eu aprendi depois da Jana foi tirar mais a voz do nariz. Só colocar
no nariz quando realmente precisar. Por que tem momentos da música, dependendo da
canção, que fica legal colocar no nariz. E também cuidado. Eu não sabia que podia ter cuidado
com a voz. A fonoaudiologia me mostrou que isso é possível sim, e não só com ela, mas com
seu corpo todo (com sua saúde), é o seu instrumento de trabalho. Eu não tinha essa coisa de
aquecer, desaquecer. Eu ia na teoria popular. Ah! Gelado faz mal para voz! (risos) E isso fez
muita diferença na minha vida vocal. Além de fazer o show melhor desde a primeira música,
porque antigamente, antes de aprender a aquecer, eu ficava confortável com a voz somente no
meio do show. Eu perdia a qualidade do início todo do show, quando não aquecia. E aprender
desaquecer, eu percebia que no dia seguinte eu ficava bem melhor do que quando eu não
desaquecia.”
O uso do calor e/ou do gelo
Quais suas impressões vocais após o uso desses recursos?
“Quando eu uso vaporizador, no outro dia, eu sinto como se ele zerasse, deixasse novo. Como
nós temos uma rotina diferente dos gringos, de outros países que os caras têm um espaço
entre um show e outro, entre uma turnê e outra, aqui no Brasil é diferente, temos show todos
os dias, então, se a gente não tiver cuidado com a voz, realmente a gente não aguenta. Então,
o vapor me fazia me sentir bem, chegava no outro dia zerado. A diferença era tanta que
quando eu não usava eu achava que o show era ruim.”
Luan Santana

Quais os benefícios que a fonoaudiologia lhe trouxe em sua vida prática, no show, na sua
maneira de cantar?
“A fono realmente, mudou a minha vida. A partir do momento em que eu comecei a fazer fono,
eu estava me lançando em carreira solo e tinha que assumir o show inteiro sozinho, cantar no
palco sozinho, fazendo três, quatro shows por semana, e para mim sem fono estava realmente
muito difícil. Eu cansava muito rápido, a recuperação de um show para o outro era muito
complicada, né? E aí todos os exercícios e todas as técnicas que a Janaína me passou,
realmente, mudaram a minha vida”.
O uso do calor e/ou do gelo
Quais suas impressões vocais após o uso desses recursos?
“A recuperação depois de um show. Aquela voz cansada que você termina o show, e no outro
dia, aquele grave estranho, além de ter que cantar de novo, o vapor realmente me ajudou
muito. A gente fazendo 240 shows em um ano, aí realmente precisa desse auxílio. E realmente
o vapor, o quente e o frio, quando a garganta está muito cansada, salva a vida da gente. O
vapor quente, a impressão que tenho, é que desincha minha prega vocal. Se não existisse
vapor eu não conseguiria cumprir a minha agenda na época de mais shows na minha vida. Hoje
é o recurso natural que serve para salvar minha voz para não precisar apelar para nenhum
remédio.”
Ingredientes básicos de uma fonoaudióloga?
“Acho que tem que ser uma pessoa que realmente tenha amor pela profissão, conhecimento
técnico, experiência, e querer realmente fazer a diferença, no nosso caso, nos cantores. Acho
que é isso: o conhecimento, o amor, a vontade de cada vez se atualizar mais, isso é
importantíssimo”.
Michel Teló

Quais os benefícios que a fonoaudiologia trouxe na sua vida prática, no show, na sua maneira
de cantar?
“Acima de tudo, a fonoaudiologia me trouxe disciplina. Sou muito intensa no meu campo de
trabalho. Por isso sofri diversas lesões durante minha trajetória. O tratamento fonoaudiológico
me trouxe a disciplina necessária para que eu fizesse meu trabalho sem sofrer danos nas
regas vocais e sem perder a minha identidade”.
O uso do calor e/ou do gelo
Quais suas impressões vocais após o uso desses recursos?
“Creio que o uso do calor e do gelo foi um anti-inflamatório maravilhoso em situações de
trabalho intenso”.
Algum caso engraçado com os exercícios vocais?
“Tenho filhas gêmeas de dois anos de idade, sempre que faço exercícios vocais elas me
imitam. Fazem aquecimento comigo. É muito lindo!”.
Ingredientes básicos de uma fonoaudióloga
“O estudo constante é fundamental para a formação de um bom fonoaudiólogo”.
Curiosidades
“O hábito do aquecimento e desaquecimento vocal ainda é bem desconhecido, principalmente
entre os cantores cristãos. Por isso ainda existe um estranhamento quando as pessoas veem
cantores cristãos aquecendo suas vozes”.
Nívea Soares


“A fonoaudiologia me trouxe o poder de falar e trabalhar outra vez. Sou atriz e tinha voltado de
duas cirurgias das cordas vocais e estava muda. Eu não falava mais, como iria trabalhar? Foi
indicada nova cirurgia. Resolvi consultar outro especialista que me aconselhou a não operar e
a consultar com outro médico em São Paulo. Também me aconselhou a não operar e procurar
uma fonoaudióloga. Era uma caso difícil e não parecia que eu teria jeito. Já não sabiam o que
fazer.
Indicaram a Janaína Pimenta, que ficou penalizada com meu caso e se pôs a me cuidar.
Ficávamos fazendo exercícios vocais no vapor. A voz foi saindo devagar e com o tempo sem
dor, porque no início eu até chorava para falar.
O vapor me acalmava e ajudava minha voz a ir saindo. Ela inventava aqueles aparelhos de
PVC com tubos para eu vaporizar e o ar quente não escapar. E depois de um tempo de
exercícios no teclado, era hora de colocar compressas de gelo. Janaína me colocava as
compressas de gelo e eu me sentia cuidada.
Sensação de carinho era o que eu sentia.
Amor pelo que faz.
Talento e dedicação.
E principalmente uma vontade enorme de me curar, de me fazer falar de novo com voz
saudável.
Me emociona falar de Janaína Pimenta.
Devo ao seu conhecimento, sua dedicação e seu amor.
Estar trabalhando com teatro, cinema e usando de novo a minha voz.
OBRIGADA! DEUS A ABENÇÕE!”.
Teuda Bara


Quais os benefícios que a fonoaudiologia lhe trouxe na vida prática, no show, na sua maneira
de cantar?
“Incontáveis. Além de a fonoaudiologia ter se unido à minha prática e técnica como cantor, de
forma imensurável, o gesto da manutenção sempre foi primordial, em nível de prevenção e
melhor uso a cada tempo.
Tive problemas que teriam sido praticamente irresolúveis, não fosse a prévia e o
acompanhamento”.
O uso do calor e/ou do gelo
Quais suas impressões vocais após o uso desses recursos? Foram benéficos para sua
performance? Como percebeu isto?
“Para minha experiência, uma espécie de mágica. O calor me trouxe uma sensação imediata
de aspereza, seguida de alívio e nítida melhora, uma vez que seu uso se deu em tratamento
de voz cansada. Em tempo recomendado e previsto, o som vocal se refez de forma
espantosa”.
Quais os ingredientes fundamentais de um fonoaudiólogo?
“O conhecimento teórico e prático são a base, mas a voz, que vem da alma, exige
conhecimento e respeito pela alma. Acho que o fator psicológico é incidente e o profissional
fono deve levar isso profundamente em conta”.
Conte um pouco sobre seus cuidados vocais, alguma dica que acha fundamental para um
cantor.
“Cada cantor tem um tom, uma cor, uma extensão, um olhar e somando a tudo isso, terá uma
forma de emitir sua voz. A voz que vai, leva a alma e o fundamental é cuidar dessa forma:
descobrir seus atributos morfológicos, seus limites, seus aquecimentos e desaquecimentos, a
respiração e o respeito a si, uma vez que a voz é o próprio cantor”.
Victor Chaves

Quais os benefícios que a fonoaudiologia lhe trouxe na vida prática, no show, na sua maneira
de cantar?
“Foram inúmeros benefícios. A base de tudo relacionado à música e à interpretação e ao
canto. Por que existem outros lados em uma carreira musical que são as questões
empresariais, as decisões tomadas, a administração, a gestão, mas sob o ângulo da música,
que é o mais importante na carreira, o que justifica tudo, a fonoaudiologia é a base de tudo,
pois nos dá segurança. Com isso você tem segurança com relação ao seu instrumento que é a
voz e, com segurança, podemos arriscar, temos mais capacidade de inovar. Eu acho que
artistas que se arriscam mais, que se dão o direito de se repaginar, são mais originais hoje em
dia, tendem a ter um melhor resultado na música. Sobre o palco, se você estiver em cima do
palco preocupado em não forçar a voz, não conseguimos prestar atenção em outros aspectos
importantes como a interação com o público, a própria performance. Então a fonoaudiologia
lhe dá essa liberdade. Com relação à técnica para cantar, a fonoaudiologia é essencial, pois
os exercícios facilitam o canto, te dão mais ferramentas para utilizar nos improvisos, nos
drives. Eu tive a oportunidade de trabalhar com uma fonoaudióloga que enquadrava tudo isso
dentro da fonoaudiologia. O que fez a diferença. Então não estudávamos apenas sobre saúde
vocal, mas entravamos em outros âmbitos, como por exemplo a interpretação, técnica vocal,
expressão corporal. Era um conjunto que fez total diferença na minha carreira”.
O uso do calor e/ou do gelo
Quais suas impressões vocais após o uso desses recursos? Foram benéficos para sua
performance? Como percebeu isto?
“O uso do gelo e calor foi uma quebra de um tabu que a Janaína Pimenta me mostrou e que
me surpreendeu muito fazendo toda a diferença na minha vida vocal. Eu usava o gelo após os
shows, o que me fazia recuperar mais rápido. Eu, no início da minha carreira, tinha muita
rouquidão e isso me auxiliou muito. Para mim, após o gelo, eu tenho a sensação que desincha
e relaxa a musculatura e isso me faz muito bem. É a minha sensação”.

Ingredientes básicos de uma fonoaudióloga?


“Existem fonoaudiólogos que abrangem várias áreas, é uma dimensão muito maior que pode
tomar esse trabalho, especialmente aqueles que se permitem estudar um pouco de canto e
técnica vocal. A Janaína Pimenta é um exemplo desse tipo de profissional. Eu aprendi com ela
não só a cuidar da minha saúde vocal, como várias outras questões relacionadas com a
interpretação, expressão corporal, performance, aquecimento antes do show, não apenas das
cordas vocais, mas do corpo, que lhe dão mais segurança e que lhe soltam, além de técnica
vocal. A Janaína Pimenta é uma fonoaudióloga, mas foi com ela que eu aprendi as melhores
dicas de técnica vocal e nuances do canto. A saúde vocal, foi ela quem me deu a base, mas
também a Janaína me mostrou um universo muito mais amplo, dinâmico, me fez conhecer
alguns estilos que eu não tive noção na minha infância. A Janaína Pimenta fez muita diferença
na minha carreira”.
Leonardo Chaves

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