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Berlim em tempo de cinema

Flávio Aguiar dá início à sua tradicional cobertura do


Festival Internacional de Cinema de Berlim!

Publicado em 15/02/2019 // 3 comentários

(https://boitempoeditorial.files.wordpress.com/2019/02/berlinale_aguiar.jpg)

Por Flávio Aguiar


(https://blogdaboitempo.com.br/category/colunas/flavio-aguiar/).

Parodiando dito de meu colega de USP e amigo Peralta sobre a faca, Berlim é uma cidade de muitos
gumes, todos cortantes.

Saia à rua: segundo os próprios berlinenses mais argutos, Berlim é uma cidade cariada. Ao lado do
prédio inteiramente novo, encontra-se o antigo. Este sobreviveu aos bombardeios da Segunda
Guerra; aquele ergueu-se sobre os escombros do que desapareceu em fogo e fumaça. E há os
novíssimos: Berlim no momento virou um imenso canteiro de obras. Ou ali está outro que tem ar de
novo, pelo estuque externo, mas de antigo, pelo tamanho das janelas: trata-se de prédio que
sobreviveu mas com o estuque original afrouxado devido ao impacto próximo das bombas. De vez
em quando descobre-se uma delas que não explodiu e permanece soterrada. Segundo as estatísticas,
na Alemanha deve haver entre 95 e 250 mil toneladas de  bombas que não explodiram e dormem
quietamente sob a superfície de terras e águas.

Disse um prefeito progressista de Berlim que esta cidade era “pobre porém sexy”. Pobre: Berlim tem
uma lata taxa de desemprego, um grande número de sem teto e sem nada. Sexy: nenhuma cidade da
Alemanha ou da Europa desfrutas da pulsante vida noturna de Berlim. Talvez alguns bairros de
Londres, ou de Paris, e algumas cidades da Espanha, onde nada funciona antes das dez da manhã, e
janta-se às onze da noite. Berlim está deixando de ser “pobre”, graças ao boom imobiliário e de preços.
Esperemos que permaneça sexy.

Mas a noite berlinense é dos jovens. Curioso: a capital alemã é “feita para jovens”, embora ela tenha
uma das populações, em média, mais idosas do país.

Explica-se: ao final da Segunda Guerra sobraram com vida em Berlim muitas mulheres e idosos. Os
jovens morreram na Guerra. Instalada a Guerra Fria, Berlim Ocidental tornou-se uma ilha cercada de
comunistas por todos os lados. Para atrair jovens, ergueu-se uma política de atividades culturais
profusas, gratuitas, atraentes, além de atrativos como a isenção do serviço militar para quem nela
viesse morar. Criou-se uma nova universidade, já que a tradicional, a Humboldt, ficara “do outro
lado”. E gratuita, coisa que vale até hoje.

Resultado: Berlim tornou-se, mesmo depois da reunificação, ou melhor, da anexação da comunista,


derrotada, pela Alemanha capitalista, uma cidade “de esquerda” no espectro político do país.
Atualmente, é um dos poucos espaços políticos onde subsiste uma aliança, ainda que precária, entre
os partidos da social-democracia (SPD), da ecologia (os Verdes) e a Linke, considerado de “extrema-
esquerda moderada”. Parece Portugal, com sua “Geringonça” que, como o besouro, aparentemente
não poderia voar, devido à fragilidade das asas diante do peso do corpo, mas que no entanto avoa,
graças à velocidade com que as bate.

Em Berlim o cinema faz parte desta velocidade das asas. Berlim tem uma longa tradição
cinematográfica, tanto à direita (Leni Riefenstahl) quanto à esquerda (Fritz Lang, embora ele fosse
austríaco). Na  década de 50 esta tradição foi revigorada, e um dos seus esteios foi a criação da
Berlinale, que se transformou no maior e melhor organizado Festival de Cinema da Europa (opinião
minha), fazendo parte, com Cannes e Veneza, do chamado “Trio de Ouro” do cinema deste
continente.

Como um polvo benigno, a Berlinale espalha seus tentáculos por toda a cidade e por todas as idades.
Hei programs especiais para crianças e adolescentes. Estes têm um júri próprio, que também atribui
prêmios de primeira grandeza. Na edição deste ano, a 69a. desde sua criação em 1951, a Berlinale
expõe mais de 400 películas, entre as que disputam o Urso de Ouro (14) e os outros Ursos de Prata, e
as que fazem parte de mostras paralelas, incluindo retrospectivas (com homenagem desta vez a
Luchino Visconti) e uma seção curiosa chamada de “Cinema Culinário”, que foca o tema nas telas e
fora delas, com “chefs de cuisine” com reputação inabalável preparando refeições ao findar das
exibições.

E há seminários dedicados a jovens cineastas do mundo inteiro também. Esperam-se 500 mil
visitantes neste ano, além de centenas, talvez mais de um milhar, de jornalistas dos quatro cantos dos
ventos cardeais.

Enfim, durante a Berlinale, Berlim é uma festa, apesar do inverno (aliás, muito suave neste mês de
fevereiro, com temperaturas e chuvas que lembram as de Porto Alegre em junho, sem sombra ou luz
de neve).
O Brasil está presente com 12 filmes, 11 longas e um curta. Há produções inteiramente nacionais e co-
produções com outros países, como Alemanha, França, Cuba, por exemplo.

Ah sim, uma observação muito importante: nos 404 filmes exibidos, segundo as sinopses disponíveis,
não há um único que se dedique à campanha de salvacionismo da civilização-cristã-ocidental,
apanágio de Trump, Orban, Salvini, além de Bolsonaro e famiglia, Araújo, o chanceler aloprado,
Vélez, Delamares, Salles, Moro e o ministro da Casa Civil que anda perigosamente armado com
liquidificadores. Nem mesmo entre os brasileiros: provavelmente por este motivo, a Embaixada do
Brasil neste ano cancelou a tradicional recepção que oferecia aos cineastas, atores, atrizes, jornalistas,
produtores do Brasil todo ano durante a Berlinale.

Sinal dos tempos.

***

Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua
como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica
literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do
Livro, sendo um deles com o romance Anita
(http://www.boitempoeditorial.com.br/v3/titles/view/8#.UmACo_mkqjg) (1999), publicado pela Boitempo
Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o
aprendizado, A escola e a letra (http://www.boitempoeditorial.com.br/v3/titles/view/245#.UmACwfmkqjg)
(2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés
(http://www.boitempoeditorial.com.br/v3/Titles/view/281#.UmADFPmkqjg) (2011) e o recente lançamento A
Bíblia segundo Beliel (http://www.boitempoeditorial.com.br/v3/titles/view/330#.UmAC2Pmkqjg)
(2012). Seu mais novo livro é O legado de Capitu
(http://www.boitempoeditorial.com.br/v3/Titulos/visualizar/o-legado-de-capitu5), publicado em
versão eletrônica (e-book). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

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3 comentários em Berlim em tempo de cinema

1. jose fernando junqueira // 15/02/2019 às 12:27 pm // Responder


Parece qui o “mocho de Minerva ” ainda não alçou vôo da noite escura para a clara luz de novos
horizontes na história , por isso continuamos a espreita de novos resultados .

2. Mouzar Benedito // 15/02/2019 às 9:25 pm // Responder


Oi, Flávio…eu ia sugerir para essa turma do poder atual o film
“Marcelino,Pão e vinho “, e no nível dele não é? Mas ia desagradar boa parte dos bolsonaristas:
:Marceilino era católico…
Abraços.
Mouzar

3. Rivelino Batista // 18/02/2019 às 6:20 am // Responder


Você aí, Flávio, com os filminhos ruins brasileiros (nenhum brasileiro aprecia ou vê):

Você — Aguiar — com seu textinho é semelhante ao:


«Viva toda a velocidade do 4.5G, Vivo» (quá-quá-quá)
«O que nós podemos fazer por você, hoje? Santander.» [buá, buá, buá]

«Não é cliente? Então vem! Itaú» [mi, mi, mi. Conte outra mentira].

E a dilma, hein?

Só publicidade & propaganda. O me engana que eu compro. O Páááátria Educadôôôôra!

Ganhadora do Oscar?…

Dilma? A baranga de BELO Horizonte?


A bregaça do Maletta? Kuá, kuá, kuá!

O PT e manezões vivem de enganar e seduzir as muitas gentes com frasinhas mentirosas e textos
picaretas como os de cima. Ao estilo de:

«Viva toda a velocidade do 4.5G, Vivo» (quá-quá-quá]

«O que nós podemos fazer por você, hoje? Santander.» [buá, buá, buá]

«Não é cliente? Então vem! Itaú» [mi, mi, mi. Conte outra mentira].

Me engana que eu compro o barangaço do PT!

O PT e todos que o ama são barangonas. E barangões. Baranguérrimos políticos.

“ A Cerveja que Desce RedondO”.

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