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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS

FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS


DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
DISCIPLINA: PROCESSO DE EMANCIPAÇÃO POLÍTICA DO BRASIL: "PAÍS", "PÁTRIA" E "NAÇÃO"
PROFESSOR: ADRIANA ROMEIRO
ALUNO: LEONARDO VINÍCIOS KOPKE DA ROCHA

O LEGADO DE UMA NAÇÃO: Uma Análise Bibliográfica sobre a Construção do


Imaginário na Sociedade Brasileira.

Buscando atender ao trabalho final desta disciplina, pretende-se analisar 3 (três) obras
propostas como leitura complementar no plano de curso desta disciplina:

 “Formação das Almas: O Imaginário da Republica no Brasil” de José Murillo de


Carvalho
 “Rubro Veio: O Imaginário da Restauração Pernambucana” de Evaldo Cabral de
Mello
 “Idéias de Revolução no Brasil: (1789 – 1801)” de Carlos Guilherme Mota

De modo geral, apesar de as obras selecionadas abordarem temas diversificados em


períodos distintos, podemos compreender que os caminhos percorridos pelos autores se
convergem quando buscam entender a perspectiva do imaginário popular diante de um
determinado momento na história brasileira.
Constituindo a trama das ideologias como eixo articulador dos livros, embarcamos numa
análise de elementos ideológicos e iconográficos que passa a interpretar símbolos, imagens,
alegorias e mitos da época. E por fim, avaliar de que maneira as concepções dos temas
discutidos pelos autores extravasaram o círculo restrito das elites e alcançaram as massas
populares da sociedade brasileira.
Em “Formação das Almas”, o título da obra dá a pista: formar a alma, o princípio vital
que constitui a identidade brasileira, por meio de arsenal de heróis, hinos, mitos e bandeiras
que transbordaram no país no final do século XIX, na luta pela conquista do imaginário
popular republicano. Não obstante, o autor parece concluir que não foram bem sucedidos os
construtores da nova forma de governo, ao tentarem construir um imaginário próprio. Prova
essa assertiva o farto material iconográfico posto sob análise – monumentos, caricaturas de
jornais, obras de arte – que reflete as incoerências da República brasileira e a do próprio ícone
Tiradentes.
Ao longo do tempo, o mártir teve sua imagem, história de insurgente e atitude religiosa
questionadas por grupos de ideologias diferentes e até opostas, o que acentuou a ambigüidade
do símbolo. O governo republicano tentou dele se apropriar; os governos militares recentes
declararam-no patrono cívico da nação brasileira; o Estado Novo o exaltou; o pintor José
Walsht, positivista, representou-o como um militar de carreira; e até as esquerdas, desde os
republicanos jacobinos até os movimentos guerrilheiros da década de 1970, dele não abriram
mão.
Já na introdução, Murilo de Carvalho delineia os assuntos de que tratará nos capítulos
que se seguem. O autor: 1 – discutirá as ideologias que disputavam a definição da natureza do
novo regime – o jacobinismo, o liberalismo e o positivismo; 2 – abordará o tema do mito da
República e o estabelecimento de um mito de origem; 3 – tratará do mito do herói, também de
longa tradição na história; 4 – desenvolverá o tema da aceitação popular da alegoria da
República na figura da mulher, na França, e de sua rejeição, no Brasil, mediante a comparação
por contraste, entre aspectos das duas sociedades e das duas repúblicas; 5 – discutirá os
simbolismos da bandeira e do hino; e 6 – se dedicará aos positivistas ortodoxos, os mais
articulados manipuladores de símbolos do novo regime, superando, na organização e na
perseverança, os jacobinos.
O livro destaca-se em relação à historiografia tradicional ao fazer uso de diversos
elementos formadores deste imaginário nacional principalmente quando retrata o cenário da
Proclamação da República. Deste modo, o que está em jogo não é a proclamação em si, e sim
sua construção, mediada politicamente, enquanto memória. Os modelos políticos-filosóficos
ou as utopias republicanas confrontam-se em todos os momentos da construção do imaginário
e dos símbolos da República do Brasil. Assim, o passado palpável se perde para dar espaço às
suas representações, para usarmos uma expressão remetida a Roger Chartier1.
Entram em cena não só os elementos mais tradicionais, de cunho discursivo, como
também elementos geralmente desvalorizados, como imagens visuais, literatura, música,
charges etc. Enfim, elementos ligados à produção cultural. Aliás, a qualidade e a quantidade
das imagens selecionadas é algo que merece muita apreciação dos leitores, uma vez que
permite uma melhor compreensão da obra. Carvalho, no entanto, apresenta as imagens com
uma certa autonomia, porém sempre presas à aplicação e à explicação de determinado
discurso ideológico, diga-se de passagem muito bem elaborado.

1
Conferir: CHARTIER, Roger. História Cultural: entre práticas e representações. 1990. Lisboa, DIFEL.
Por fim, na conclusão, Carvalho afirma que a corrente vitoriosa não obteve êxito em
criar um imaginário popular republicano. Honrosas exceções feitas, paradoxalmente, àqueles
aspectos mantidos da tradição imperial ou dos valores religiosos. O esforço empregado não
fora suficiente para envolver a população, alijada do processo de implantação do novo regime.
Por todo o exposto, verifica-se que José Murilo de Carvalho, empreendeu, com sucesso,
tarefa inédita, ao interpretar símbolos incorporados pela nova forma de governo – a República
-, no que tange ao sentimento demonstrado pelas diversas formas de expressão artística. No
Brasil, os ícones oficiais adotados, inspirados naqueles franceses das revoluções de 1789,
1830, 1848 e 1871, que, por sua vez, foram inspirados nos da Roma Clássica, não
repercutiram no imaginário nacional. O autor aponta elementos e conseqüências desse debate
que perduram ainda no modelo liberal-democrático vigente.
O livro se encerra com a retomada das questões anteriores, principalmente a aplicação
dos modelos filosóficos comtianos no Brasil, com a finalidade de promover uma reflexão
sobre a construção de um imaginário da República capaz de “amalgamar” e agregar as
diversas realidades brasileiras em torno de um sentido único de Nação, isto é: enquanto
“comunidade de sentido” ou “comunidade imaginada”, numa expressão de Benedict
Anderson2
O autor termina de forma bastante emblemática; ao rediscutir os símbolos utilizados
para representar a República e a nação, o autor afirma o seguinte:
“Falharam os esforços das correntes republicanas que tentaram expandir a
legitimidade do novo regime para além das fronteiras limitadas em que a encurralara
a corrente vitoriosa. Não foram capazes de criar um imaginário popular republicano.
Nos aspectos em que tiveram êxito, este se deveu a compromissos com a tradição
imperial ou com valores religiosos. O esforço despendido não foi suficiente para
quebrar a barreira criada pela ausência do envolvimento popular na implantação do
novo regime. Sem raiz na vivência coletiva, a simbologia republicana caiu no vazio,
como foi particularmente o caso da alegoria feminina” (CARVALHO, 1990:141).

Em relação à figura de Tiradentes como símbolo da República, o autor tece as seguintes


considerações:
“A falta de uma identidade republicana e a persistente emergência de visões
conflitantes ajudam também a compreender o êxito da figura de herói personificada
em Tiradentes. O herói republicano por excelência é ambíguo, multifacetado,
esquartejado. Disputam-no várias correntes; ele serve à direita, ao centro e à esquerda.
Ele é o Cristo e o herói cívico; é o mártir e o libertador; é o civil e o militar; é o
símbolo da pátria e o subversivo. A iconografia reflete as hesitações. Com barba ou
sem barba, com túnica ou de uniforme, como condenado ou como alferes, contrito ou
rebele: é a batalha por sua imagem, pela imagem da República.
Ele se mantém como herói republicano por conseguir absorver todas essas fraturas,
sem perder a identidade. Ao seu lado, apesar dos desafios que surgem nas novas
correntes religiosas, talvez seja ainda a imagem da Aparecida a que melhor consiga
dar um sentido de comunhão nacional a vastos setores da população. Um sentido que,
2
Conferir: ANDERSON, Benedict. Nação e consciência nacional. 1989. São Paulo, Ática.
na ausência de um civismo republicano, só poderia vir de fora do domínio da política.
Tiradentes esquartejado nos braços da Aparecida: eis o que seria a perfeita pietà
cívico-religiosa brasileira.
A nação exibindo, aos pedaços, o corpo de seu povo que a República ainda não
foi capaz de reconstruir” (CARVALHO, 1990: 141-2) (grifo meu).

Em linhas gerais, para Carvalho, a despeito da ironia da frase acima, o Estado deve
reconstruir o corpo de seu povo, a Nação. Quando se fala em reconstruir pressupõe-se que
algo existia antes; o Estado deverá reconstruir uma nação esquartejada pela República – o que
pode contribuir para uma interpretação que aponte, com certo saudosismo, a defesa da política
monarquista, ou pelo menos de seu relativo sucesso em construir uma identidade nacional.
Seguindo a mesma linha apresentada por Carvalho em “Formação das Almas”, Evaldo
Cabral de Mello traça em “Rubro Veio” um panorama das deformações que o nativismo
impôs à visão local da experiência holandesa. Trabalhando com a idéia de “imaginário
social”, pode-se englobar “uma ampla faixa de conteúdos ideológicos que inclui desde a
invenção absoluta, com a falsificação histórica, até os simples deslocamentos de significado,
mediante os quais o simbólico, linguagem do imaginário, vai criando uma sucessão
interminável de conotações”(MELLO,2008, p. 29).
Neste sentido, são construídas variadas versões acerca dos acontecimentos históricos,
que nada mais refletem do que o desejo de um povo, o que ele gostaria de ser ou de ter sido,
atribuindo, à sua própria história, fatos fantásticos, grandes heróis, entre outros elementos,
como forma de engrandecimento e formação de sua identidade.
Assim, o nativismo pernambucano estudado por Mello considera-se herdeiro da
restauração, momento no qual teria germinado o sentimento de liberdade entre os
pernambucanos. Neste sentido, uma visão recorrente nas construções posteriores à restauração
é a de que esta havia sido alcançada, como bem coloca o autor, “à custa de nosso sangue,
vidas e fazendas”, isto é, mediante a mobilização exclusiva ou predominante dos recursos
escassos da sociedade açucareira e escravocrata do Nordeste. Segundo Evaldo Cabral, a noção
segundo a qual a restauração fora empreendida e sustentada pela gente da terra representou o
tópico fundamental, a matriz ideológica a partir da qual se construiu toda a visão nativista do
“tempo dos flamengos”.
É importante não se apressar em caracterizar a obra como um exemplar da história das
mentalidades. Não há que se reduzir a ação de todos os agentes históricos a uma única e
determinada forma de interpretação desse contexto social. Ou seja, a análise do autor não se
limita a investigar um suposto nexo subjetivo e emocional dos pernambucanos em relação ao
período histórico; ao contrário, Cabral de Mello pretende expor os elementos objetivos do
passado que contribuíram para essa construção. Reconhecida a influência do pensamento
iluminista e anti-absolutista, o autor atenta para a importância de não perder de vista os
fatores e elementos específicos da Revolução Pernambucana.
Em "Rubro Veio", o autor pretende verificar o papel da restauração pernambucana no
imaginário nativista e a singularidade da relação estabelecida entre Pernambuco e o Brasil. Na
medida em que os pernambucanos, a partir da lógica nativista, consideravam-se a
continuidade da restauração, fundavam uma identidade própria que vislumbrava a província
como mais liberal e progressista que o resto do país. Nesse processo, a identidade dos
pernambucanos era fundada na contraposição à imagem do brasileiro.
O constante resgate de um evento passado compartilhado pela comunidade como ponto
inaugural é realizado através da tradição oral, de monumentos, das festividades, de contos e
lendas, da produção iconográfica, artística e literária que remete ao período. Fatos históricos e
elementos lendários e religiosos se misturavam para desenvolver um conjunto de memórias
coletivas enaltecedoras da restauração, como demonstra de forma espetacular o capítulo VIII
da obra.
Nesse sentido, todas as demais batalhas e revoltas ocorridas em Pernambuco se
apresentariam como a continuidade de uma mesma e longa luta dos pernambucanos por
liberdade, constituindo o nativismo como força política-ideológica fundamental até o final do
século XIX. Sob o Império, a província era encarada com desconfiança pelo governo central,
identificada como tendente ao separatismo e ao republicanismo, mesmo com a derrota da
revolução praieira.
Entretanto, na década de 70 dos oitocentos, o autor aponta para a percepção
generalizada de que Pernambuco teria abandonado sua postura mais agressiva e adotado uma
conformação moderada, limitando-se a emitir juízos favoráveis à colonização holandesa,
sobretudo a administração de Nassau, contrapondo-a à portuguesa de cuja linha descendia o
Império Brasileiro. Segundo apontado pelo autor, a adesão de camadas populares ao
nativismo na primeira metade do século XIX contribuiu pela saída dos grandes proprietários e
seu alinhamento com a elite portuguesa e imperial.
O nativismo contribuiu para que Pernambuco construísse uma história própria
fundamentada no imaginário da restauração, marcando assim sua distinção em relação ao
restante do país. Afinal de contas, uma história brasileira só seria pensada a sério a partir do
Império, reforçando assim seus objetivos de manutenção de uma unidade nacional. Nesse
sentido, cabe questionar se a construção de uma identidade nacional só é possível a partir da
supressão de identidades regionais e locais.
Ao analisar sua própria obra, o autor diz:
A leitura de Rubro Veio pode criar a falsa impressão de que o autor contribuir para
literatura sociológica e antropológica que se afana em perseguir e descrever
identidades regionais e locais. Não foi essa a intenção. A reconstrução do imaginário
da restauração pernambucana pressupôs apenas que as representações, verdadeiras ou
falsas, de um grupo social acerca do seu passado podem ser relevantes para explicar
seu comportamento quanto seus interesses materiais. (MELLO, 2008, p.19)

Já em, “Idéia de Revolução no Brasil” o autor Carlos Guilherme Mota traz uma
discussão em torno da construção ideológica no imaginário da sociedade brasileira das
insurreições coloniais entre os anos de 1789 à 1801, com destaque para a análise das
inconfidências mineira e baiana. Como parâmetro de análise, o autor coloca em foco as
classes sociais e econômicas envolvidas nos dois eventos históricos para revelar as distinções
entre eles: os objetivos políticos, a natureza dos problemas em questão, as influências, etc.
Localizada a discussão em uma dimensão mais ampla, Mota coloca em evidência a
importância da “situação colonial” no processo de “tomada de consciência” dos agentes
históricos. Reconhecida a impossibilidade de se mesurar quantitativamente esse processo, o
autor pretende analisar o pensamento, as expressões e os conceitos que permearam as
inconfidências.
Situada na linha da História das Mentalidades, metodologia particularmente
proeminente na época de edição da primeira edição, a obra em análise procura evitar a
interpretação dos conceitos como reflexos diretos da realidade.
A preocupação em relacionar constantemente metodologia histórica e conteúdo
histórico, já apontada na apresentação, constituirá o fio condutor de toda a obra, culminando
na apresentação de conclusões das duas naturezas.
Destaca-se em sua análise a centralidade do “viver em colônia”, pressuposto sobre o
qual todos os demais elementos – propriedade, sistema econômico e social, etc. – deveriam
ser pensados. Nesse sentido, a análise apresentada deve se ater às especificidades da colônia e
evitar transposições indevidas e precipitadas de conceitos europeus. Alerta também para a
necessidade de se pensar as ideologias e pensamentos em relação com as realidades
econômicas e sociais – sem, entretanto, se resumir a elas.
Assim, e a partir dessas bases metodológicas, o autor conclui que o sentido da
inconfidência mineira , a partir da análise da composição social de seus membros, apresenta a
propriedade como questão central e segue o modelo de outra área colonial: os EUA. Por sua
vez, a inconfidência baiana, orientada por pequenos artesãos, ex-proprietários de lavouras,
militares de baixo escalão, componentes do baixo clero, a natureza central do conflito é a
opulência dos poderosos contra a opressão e miséria da população, identificando-se com um
modelo não colonial da Revolução Francesa.

As três obras analisadas contribuem para refletir sobre a tensão que constitui o processo
de construção das identidades comunitárias, regionais e nacionais. Ao constituir um processo
que seja capaz de fazer com que diferentes indivíduos se reconheçam como iguais, é preciso,
inevitavelmente eleger elementos que comporão esse conjunto simbólico. Dessa forma,
fatores são incluídos – tais como língua, auto-imagem de alegria, determinadas expressões
culturais, memória coletiva – e outros fatores são excluídos. Pensar e repensar sobre esses
fatores, sobretudos aqueles que foram excluídos do processo, constitui tarefa infindável do
historiador.

REFERENCIAS BIBLIOGARFICAS

CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas: o imaginario da Republica no Brasil.
São Paulo: Companhia das Letras, 1990. 166p.
MELLO, Evaldo Cabral de. Rubro veio: o imaginário da restauração pernambucana. 3.ed.
rev. São Paulo: Alameda, 2008. 473p.
MOTA, Carlos Guilherme. Ideia de revolução no Brasil : (1789-1801) : estudo das formas de
pensamento.3.ed. São Paulo: Cortez, 1989 131p.