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Prof.

Alessandro Lima

A Graça, a Fé, as Obras e a


Salvação

1a. Edição

2
Direitos do Autor

Lima, Alessandro Ricardo. 1975-


A Graça, a Fé, as Obras e a Salvação.
Brasília: 2007

(1ª edição, 27 páginas)

Bibliografia.

1. Teologia; 2. Cristianismo; 3. Vida cristã; I. Lima, Alessandro


Ricardo; II. Título

CDD – 234.1

Índices para Catálogo Sistemático:


1. Graça: Teologia dogmática cristã 234.1

Capa: Sílvio Medeiros.

Copyright © 2007. Todos os direitos reservados.


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conjuntamente com busca e apreensão e indenizações diversas (artigos
102, 103 parágrafo único, 104, 105, 106 e 107 itens 1, 2 e 3, da Lei nº
9.610, de 19.06.1998 [Lei dos Direitos Autorais]).

3
"Por ele [Cristo] é que tivemos acesso a essa graça, na qual
estamos firmes, e nos gloriamos na esperança de possuir um
dia a glória de Deus" (Rm 5,2).

4
5
Dedicatória,

A Deus,
à minha família,
aos meus irmãos de Apostolado,
e a todos os meus leitores.

6
Sumário

Sobre o Autor ............................................................ 8


Introdução ................................................................. 9
Capítulo 1 ................................................................11
O que é ser salvo pela Graça mediante a Fé?..........................11
“A Letra Mata, só o Espírito vivifica”....................................... 12
Capítulo 2 ................................................................19
Colaboramos ou não para nossa salvação?.............................19
Capítulo 3 ................................................................25
A doutrina luterana da salvação............................................. 25
Conclusão ................................................................28
Outras informações ................................................ 29

7
Sobre o Autor

A lessandro R. Lima, casado e pai, nasceu em Brasília/DF. Vindo de


uma família de classe média de quatro filhos, o pai (falecido) funcionário
público e mãe dona de casa.
Formado em Tecnologia em Processamento de Dados pela União
Educacional de Brasília (UNEB/DF) e pós-graduado em Gerência de
Projetos em Engenharia de Software pela Universidade Estácio de Sá/RJ.
Trabalha como Professor Universitário e Consultor de Engenharia de
Software.
Desde 1999 dedica-se ao estudo da Fé Cristã dos primeiros séculos; pelo
qual foi levado a deixar o protestantismo e ingressar na Igreja Católica, no
final de 2000.
Em 2002, juntamente com Carlos Martins Nabeto fundou o apostolado
católico Veritatis Splendor (http://www.veritatis.com.br) – considerado um
dos maiores sítios católicos em língua portuguesa - onde desde então,
além das suas atribuições familiares e seculares, dedica-se à publicação de
artigos referentes ao Cristianismo primitivo e à defesa da Fé Católica nas
questões mais difíceis.
Introdução

E stas foram as palavras que nos foram dirigidas pelo Apóstolo S. Tiago
(irmão de S. Judas Tadeu) em sua epístola universal: "Mostra-me a tua fé
sem obras e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras" (cf. Tg 2,18).
Nestas pouquíssimas palavras está presente uma teologia muito profunda
acerca da Graça, a Fé, as Obras e a Salvação.
Equívocos que atravessaram os séculos levaram muitas pessoas a
pensarem que por causa destas palavras a Igreja Católica ensinava que a
prática das obras de piedade é que conduzem o crente à salvação, quando
na verdade ela nunca deixou de ensinar que alguém que venha a ser salvo
o será por Graça de Deus, mediante a Fé em Jesus Cristo. Isto significa
que o homem não é capaz de salvar-se por si próprio, como ensinam as
religiões espiritualistas (hinduísmo, vedas, budismo e etc) e espíritas
(kardecismo, umbanda, candomblé e etc).
No combate àquilo que se julgava ser a doutrina católica, o protestantismo
elaborou uma fórmula forense para a salvação, onde se crê que o crente é
salvo por decreto de Deus mediante sua crença em Jesus Cristo. Logo
existe entre católicos e protestantes um grande mal entendido sobre o que
significa ser salvo pela Graça de Deus mediante a Fé em Jesus Cristo.
Este trabalho pretende esclarecer o que ainda está em confusão. Propomos
discorrer sobre o assunto respondendo às seguintes perguntas: 1) o que
significa ser salvo pela Graça de Deus mediante a Fé em Cristo? 2) a
salvação do crente depende ou não de seu testemunho de vida? 3) o crente
pode ou não perder a sua salvação? Por último faremos considerações
acerca da doutrina de Lutero sobre a salvação, por ser ela a tradição na
qual os protestantes se fundamentam para interpretar a Escritura sobre
este tema.
Espero sinceramente que este pequeno livro seja de grande valida para
você meu irmão que ama e quer servir verdadeiramente o Senhor Jesus, o
que só pode se dar na Verdade.
Capítulo 1
O que é ser salvo pela Graça mediante a Fé?

A doutrina do pecado original ensina que por causa do pecado do


primeiro casal toda a sua descendência ficou sujeita ao pecado. É o que
ensina S. Paulo aos Romanos: "Por isso, como por um só homem entrou o
pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim a morte passou a todo o
gênero humano, porque todos pecaram..." (Rm 5,12).
Com o pecado original, a natureza humana perdeu sua dignidade, pois
Deus a fez perfeita. O pecado entrou no mundo não por criação de Deus,
mas pelo uso indevido da liberdade praticado pelos nossos primeiros pais
(Adão e Eva). Daí se conclui que o homem não nasceu para a morte, mas
para a Vida Eterna. Por causa disto tudo, nós descendentes de Adão e Eva
precisamos ser salvos, isto é, recuperados de nossa atual condição de
pecado e morte para vivermos eternamente com Deus em santidade.
Esta recuperação não é possível por nosso próprio esforço ou mérito. Claro
que por nós mesmos somos capazes de melhorar a nossa condição, mas
longe de devolvê-la à plenitude que possuía antes. Somos como um vaso
quebrado. Por nossos próprios esforços somos até capazes de juntar
alguns cacos, porém um vaso colado jamais será como era antes. E ainda,
sendo colado pode voltar a quebrar, seja porque a cola não foi boa, ou
porque o ajuntamento de cacos não foi ideal, ou pela força do tempo e etc.
Isto se deve porque, depois do pecado original, nossa natureza não é como
antes. Nossa vontade ficou defeituosa, tendendo a coisas que não agradam
a Deus. Por isso, na maioria das vezes o bem que devemos e até queremos
fazer, somos incapazes de fazê-lo, como confessava S. Paulo: "Não entendo,
absolutamente, o que faço, pois não faço o que quero; faço o que aborreço.
[...] Eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita o bem, porque o
querer o bem está em mim, mas não sou capaz de efetuá-lo”. (Rm 7,15.18).
Estas palavras de S. Paulo expressam que na vontade humana há o querer
e o poder. Quando desejamos fazer alguma coisa aí se demonstra o querer
da vontade. Quando somos capazes de fazer alguma coisa aí se demonstra
o poder da vontade. Desta forma, o querer e o poder da vontade são coisas
distintas, embora estejam associadas.
Alguém pode ter o desejo de fazer alguma coisa, porém a capacidade de
executá-lo nem sempre está em seu poder. Por exemplo: alguém que
deseja largar um vício tem o desejo de tornar-se livre dele, porém por
causa da dependência química ou psicológica é incapaz de realizá-lo.
Alguém pode não ter o desejo de fazer alguma coisa, porém a capacidade
de executá-lo está em seu poder. Por exemplo: um chefe não deseja demitir
um funcionário, porém por alguma razão o faz.
Dito isto, é possível entendermos melhor o que S. Paulo quis dizer com “o
querer o bem está em mim, mas não sou capaz de efetuá-lo”, isto é, sua
vontade tinha o querer, mas não o poder fazer o bem, ao mesmo tempo
que não tinha o querer mas o poder fazer o mal (“pois não faço o que quero;
faço o que aborreço”).
Este paradoxo da vontade humana se deve porque depois do pecado
original ficamos sujeitos à lei da carne, da nossa natureza decaída. Por
isso mais adiante conclui o Apóstolo: "Os que vivem segundo a carne não
podem agradar a Deus" (Rm 8,8), pois não está em seu poder cumprir a
vontade do Divino Criador.
Desta forma, devido à nossa própria incapacidade só podemos agradar a
Deus, se formos ajudados por Ele. E de que forma Deus nos ajuda a
agradá-Lo?

“A Letra Mata, só o Espírito vivifica”


Alguns dizem que Deus nos ajuda ensinando a Sua vontade. Com efeito,
saber qual é a vontade de Deus é algo necessário para agradá-Lo, pois sem
o conhecimento de Sua Lei não teríamos conhecimento do que devemos
cumprir, no entanto isto não é suficiente.
Não basta saber que é proibido adulterar, se nossa vontade é incapaz de
cumprir o mandamento. A Lei de Deus nos dá ciência do que devemos
fazer, porém ela não ajuda a nossa vontade a fazê-lo.
Na antiguidade cristã a heresia pelagiana 1 ensinava que o homem através
do conhecimento da vontade de Deus era capaz por seu livre-arbítrio

1
Sobre a heresia pelagiana é recomendável o livro A História das Heresias, de Roque
Frangiotti. São Paulo: Ed. Paulus, 1995. Pg 113-122.
agradá-Lo. Desta forma, segundo os pelagianos, Deus ajuda o homem
quando através do ensino elimina a ignorância, e o homem mediante sua
liberdade pode vir a merecer a salvação se cumprir os desígnios de Dele.
Esta doutrina era extremamente perigosa porque de forma velada negava
que a Graça fosse necessária ao homem para agradar a Deus. Note que o
pelagianismo confiava totalmente nos méritos do homem para alcançar a
salvação, reduzindo a ação de Deus somente à transmissão da Revelação,
sugerindo que a vontade humana por si mesma fosse capaz de cumprir o
que Deus desejava, o que é totalmente falso. Por isso Santo Agostinho se
opôs fortemente contra os pelagianos confirmando a Doutrina de Sempre
nos tempos da aurora da Santa Igreja. Contra a doutrina de Pelágio certa
vez ele escreveu:
“Nós, pelo contrário, asseveramos que a vontade humana é de tal
modo ajudada por Deus para praticar a justiça, que, além de o
homem ser criado com o dom da liberdade e apesar da doutrina que o
orienta sobre o modo de viver, receba o Espírito Santo, que infunde em
sua alma a complacência e o amor do Bem incomunicável, que é Deus,
mesmo agora quando ainda caminha pela fé e não pela visão. Desse
modo, com o penhor da graça recebido gratuitamente, anseie aderir
ao Criador e anele vivamente aproximar-se da participação daquela
Luz verdadeira, e, assim, proceda a felicidade daquele de quem
recebeu o ser”2.
O que Santo Agostinho nos ensinou nas linhas acima é que pela Graça do
Espírito Santo que nossa vontade é curada, tornando possível ao homem
ser cumpridor da Lei de Deus. Isto não significa que a Graça elimine a
liberdade do homem, não! Ela simplesmente devolve à liberdade toda sua
plenitude, à semelhança da liberdade que Adão e Eva tinham antes de
pecarem deliberadamente. Em resumo é pela Graça de Deus que a vontade
humana adquire o poder em fazer o bem.
Por isso S. Paulo ensinou que "a letra mata, mas o Espírito vivifica" (cf.
2Cor 3,6). Pois, a letra da Lei não concedia ao judeu o poder em cumpri-la
(embora lhe concedesse o querer cumpri-la), tornando-se para ele Lei de
condenação. Ao passo que o Espírito Santo que é dado por mediação de
Cristo, nos torna capazes (nos concede o poder) de sermos cumpridores da

2
SANTO AGOSTINHO. A Graça (I). Tradução de Agustinho Belmont. São Paulo: Paulus,
1998. (Patrística; 12). 2a. Edição. Pg 20.
Lei. Por esta razão S. Paulo chamava a Lei que não justificava de lei de
condenação, ministério da morte (cf. 2Cor 3).
Com efeito, sobre isso também ensinou S. Paulo: "O que era impossível à
lei, visto que a carne a tornava impotente, Deus o fez. Enviando, por causa
do pecado, o seu próprio Filho numa carne semelhante à do pecado,
condenou o pecado na carne, a fim de que a justiça, prescrita pela lei, fosse
realizada em nós, que vivemos não segundo a carne, mas segundo o
espírito" (Rm 8,3-4).
Desta forma compreendemos porque o Santo Apóstolo ensinando aos
Colossenses sobre a Graça que nos é concedida, afirmou que Deus por
intermédio de Cristo cancelou "o documento [A Lei] escrito contra nós, cujas
prescrições nos condenavam. Aboliu-o definitivamente, ao encravá-lo na
cruz" (Cl 2,14).
Sem a Graça de Deus é impossível à vontade humana ser verdadeiramente
livre, pois sem aquela esta não pode cumprir a Lei de Deus. Somente com
a Graça que vem do Espírito Santo por meio de Cristo (cf. Jo 15,26) é que
nos tornamos capazes de cumprir a Lei. Por isso que depois de auxiliados
pela Graça, o S. Tiago pode dizer aos cristãos: "Sede cumpridores da
palavra e não apenas ouvintes; isto equivaleria a vos enganardes a vós
mesmos" (Tg 1,22).
Por isso S. Agostinho também escreveu contra os pelagianos:
“[...] Portanto, não se pode dizer que Deus nos ajuda a praticar a
justiça e opera em nós o querer e o operar [o poder] conforme o seu
beneplácito (Fl 2,13), somente pelo fato de fazer soar aos nossos
sentidos os preceitos da justiça. Ele dá o crescimento interiormente
(1Cor 3,7), difundindo a caridade em nosso coração pelo Espírito
Santo, que nos foi dado (Rm 5,5)” 3
Percebemos assim que a Graça de Deus é regeneradora, pois recupera o
homem de sua condição de submissão à lei da carne (sem poder cumprir o
que Deus deseja) conduzindo-o de forma gradual (a começar pelo
recebimento do batismo) à plenitude da natureza humana, conforme foi
criada e desejada por Deus.
Por isso S. Paulo escreveu aos Gálatas: "Antes que viesse a fé, estávamos
encerrados sob a vigilância de uma lei, esperando a revelação da fé. Assim
a lei se nos tornou pedagogo encarregado de levar-nos a Cristo, para sermos
justificados pela fé. Mas, depois que veio a fé, já não dependemos de

3
Ibidem, pg. 64-65.
pedagogo, porque todos sois filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo. Todos
vós que fostes batizados em Cristo, vos revestistes de Cristo" (Gl 3,23-27).
“O Justo viverá pela Fé”
Sabemos agora que após o pecado original nossa vontade tornou-se
deficiente, logo incapaz por si mesma de fazer o que deveria, e por isso
mesmo ela precisa ser ajudada pela Graça de Deus, que a regenera para
torná-la cumpridora de Sua vontade (não pelo temor do castigo, mas pelo
amor à justiça). Se o cumprimento da Lei de Deus dependesse somente da
ciência da Lei, a salvação de Deus viria da observância da Lei e não da
Graça em Jesus Cristo.
Sobre isso escreveu S. Paulo: "[...] Se fosse dada uma lei que pudesse
vivificar, em verdade a justiça viria pela lei; mas a Escritura encerrou tudo
sob o império do pecado, para que a promessa mediante a fé em Jesus
Cristo fosse dada aos que crêem." (Gl 3,21-22).
Ora, a promessa a que S. Paulo se refere é a salvação do homem prometida
por Deus desde o Gênesis (cf. Gn 3,15). Salvação que se dá por meio de
Sua Graça regeneradora “mediante a fé em Jesus Cristo”. Logo, a salvação,
a justiça de Deus vem pela Fé em Jesus Cristo. Por isso, S. Paulo escreveu
aos Romanos que “o justo viverá pela fé" (cf. Rm 1,17).
S. Paulo escreveu esta expressão em grego, e nesta língua ela é assim:

Em Rm 1,17 S. Paulo fazia referência ao seguinte trecho do Profeta


Habacuc: “mas o justo vive por sua fidelidade" (cf. Hab 2,4). S. Paulo
estava citando o texto do Profeta Habacuc que consta na Septuaginta
(LXX)4, onde encontramos:

Agora vamos comparar as expressões gregas de Habauc 2,4 e Rm 1,17


respectivamente:

O termo significa fidelidade, fé, firmeza e compromisso. Este


termo grego vem traduzir o hebraico ‫ אמונה‬que além das significações
acima, também significa plantado em Deus.
4
Tradução do AT para o grego. Foi feita no II século antes de Cristo.
Logo, o termo “fé” conforme empregado por S. Paulo não se resume ao ato
de crer, ato de assentimento da inteligência à Revelação, mas também ao
ato da vontade (querer e poder), sem o qual é impossível ser fiel a Deus.
Daí deriva o ensino que está na carta aos Hebreus: “Ora, sem fé é
impossível agradar a Deus” (cf. Hb 11,6).
Tudo isso corrobora com o que antes aprendemos: não basta o ato da
inteligência para que sejamos capazes de agradar a Deus (crer), se assim
fosse a justiça viria da Lei, entretanto "se é pela graça, já não o é pelas
obras [da Lei]; de outra maneira, a graça cessaria de ser graça" (Rm 11,6).
É pela fé que recebemos a Graça e é pela fé que a Graça permanece em
nós e nos torna cumpridores da Lei.
Neste ponto vale fazer o mesmo questionamento de Santo Agostinho:
“Aquele Testamento era antigo, porque este é novo. Mas por que
aquele é antigo e este novo, se pelo Novo se cumpre a mesma lei que
disse no Velho: Não Cobiçarás? (Ex 20,17)”.
A resposta vem do próprio Doutor da Igreja:
“Responde o profeta [Jeremias]: Porque eles violaram a aliança; e por
isso fiz sentir sobre eles o meu poder, diz o Senhor. Portanto, aquele é
chamado Antigo devido à ferida do homem velho, a qual não se
curava pela letra que manda e ameaça; este é denominado Novo, pela
novidade do Espírito, que cura o homem novo do pecado velho”5.
Se a fé em Jesus Cristo não fosse capaz de transformar o velho homem
(escravo do pecado) em novo (cumpridor da Lei), através da Graça
Santificante, não haveria verdadeira salvação para os filhos de Adão e Eva.
Significa que Deus não salva o homem por um decreto (justiça forense),
mas o salva renovando-o a cada dia por meio da Graça. Com efeito, foi isso
que ensinou o Apóstolo: "É por isso que não desfalecemos. Ainda que
exteriormente se desconjunte nosso homem exterior, nosso interior renova-se
de dia para dia" (2Cor 4,16). E esta renovação é a santificação do homem,
pois a Lei também diz "sede santos, porque eu, o Senhor, vosso Deus, sou
santo" (Lv 19,2).
Logo, a santificação gradual do homem que se dá por meio da Graça
mediante a Fé em Cristo, conduz sua natureza à sua plenitude querida por
Deus desde a criação. Isso também se confirma nas palavras de S. Paulo:
"nem vos enganeis uns aos outros. Vós vos despistes do homem velho com
os seus vícios, e vos revestistes do novo, que se vai restaurando
5
Ibidem, pg 56.
constantemente à imagem daquele que o criou, até atingir o perfeito
conhecimento" (Cl 3,9-10).
Creio que neste ponto temos a resposta à primeira pergunta: o que
significa ser salvo pela Graça de Deus mediante a Fé em Cristo?
 “ser salvo”: significa ser recuperado da condição de escravo do
pecado para o estado original da natureza humana que era capaz de
agradar a Deus.
 “pela Graça de Deus”: significa que a salvação se dá por meio da
Graça de Deus porque sem ela o homem decaído não é capaz de
recuperar-se; pois, seus próprios esforços são incapazes de lhe
devolverem o estado original do gênero humano; sua cura só pode
vir de Deus.
 “mediante a Fé em Cristo”: significa que a Graça Santificante é
concedida primeiramente pelo ato da inteligência que assente à
Verdade (como um doente que só se submete a um tratamento se
estiver convencido de que será curado). Depois a Graça permanece
ou aumenta pelo ato de assentimento da vontade capacitando-a em
cumprir e ter deleite na Lei do Senhor, aumentando também o
assentimento da inteligência e assim por diante. Este é o ato de Fé
(assentimento das duas faculdades humanas: inteligência e
vontade). Em muitos casos a Graça é necessária até mesmo para
que alguém possa dar o assentimento da inteligência.
Concluímos que Deus nos salva para sermos santos, isto é, cumpridores
das boas obras da Lei, que expressam a vontade de Deus para nós. Por
isso S. Paulo escreve aos Efésios: "Somos obra sua, criados em Jesus Cristo
para as boas ações, que Deus de antemão preparou para que nós as
praticássemos" (Ef 2,10).
Sendo assim o que acontece se alguém recebendo a Graça não cumpre as
boas obras? Está ele salvo?
Capítulo 2
Colaboramos ou não para nossa salvação?

V imos que Deus nos salva, isto é, nos recupera para sermos santos,
fiéis cumpridores de Sua vontade. É para esta santificação que a Sua
Graça nos é concedia por meio da Fé em Jesus Cristo. Esta ação da Graça
de Deus O faz real salvador do homem.
Um médico que aceita receber um doente e diz a ele “você não está mais
doente” sem tê-lo curado realmente não foi médico para aquele doente.
Ainda, um mecânico que aceite receber um carro cheio de problemas, não
foi mecânico se não tiver concertado o que havia de errado no carro.
O médico que cura o doente o faz esperando que ele viva uma vida
saudável. Nenhum médico visa a plena saúde do enfermo para que este se
entregue a uma vida desregrada. Também o mecânico quando concerta
um carro, visa o seu bom funcionamento na mão de seu dono. Por isso que
S. Paulo disse que o justo é obra de Deus para as boas obras (cf. Ef 2,10).
Conseqüentemente aquele que tem fé em Jesus Cristo e recebeu a Graça
de Deus para cumprir as boas obras da Lei e não as cumpre, não pode ser
considerado justo, mas culpado. Isso podemos testificar na carta de S.
Paulo aos Romanos: "Porque diante de Deus não são justos os que ouvem a
lei, mas serão tidos por justos os que praticam a lei" (Rm 2,13).
A Graça de Deus não tolhe o livre-arbítrio do homem, isto é, ela não age no
homem de forma imperativa. A ação regeneradora da Graça, isto é,
santificante, ajuda a vontade humana a cumprir a vontade de Deus, para
que o homem querendo fazer o bem possa realmente fazê-lo, mas pelo ato
livre de sua vontade. Por isso dizemos que a Graça não elimina a liberdade
da vontade, mas a torna realmente livre.
Portanto, se o cumprimento da Lei depende da livre vontade do homem
(ajudada pela Graça), este pode ou não colaborar para a sua justificação 6.
6
O termo “justificação” pode ser usado em dois sentidos. O primeiro é quando Deus
perdoando os pecados do homem o declara seu amigo, isto é, justo. O outro é quando o
Justo é aquele que cumpre a Lei
Nesta disposição das coisas percebemos a sabedoria de Deus. Se a
justificação dependesse somente do homem e não também da Graça que é
concedida mediante a Fé em Jesus Cristo, o homem poderia gloriar-se de
si mesmo e Deus não seria seu salvador. Se a Graça age de forma
imperativa no homem, aqueles que não creram poderiam dizer que não são
culpados, pois Deus não lhes concedeu a Graça de crer e cumprir a Sua
justiça. Porém, a Sua Graça Deus concede a todos e esta respeita a livre
escolha de cada um.
Devemos lembrar que a Graça não santifica totalmente o homem de uma
hora para outra, esta regeneração é gradativa, “nosso interior renova-se de
dia para dia" (cf. 2Cor 4,16).
Como vimos é justo aquele que cumpre a Lei (cf. Rm 2,13), não somente
aquele que crê. A colaboração do homem para a sua justificação é ainda
mais clara aqui:
"A circuncisão, em verdade, é proveitosa se guardares a lei. Mas, se
fores transgressor da lei, serás, com tua circuncisão, um mero
incircunciso. Se, portanto, o incircunciso observa os preceitos da lei,
não será ele considerado como circunciso, apesar de sua
incircuncisão? Ainda mais, o incircunciso de nascimento, cumprindo a
lei, te julgará que, com a letra e com a circuncisão, és transgressor da
lei. Não é verdadeiro judeu o que o é exteriormente, nem verdadeira
circuncisão a que aparece exteriormente na carne. Mas é judeu o que
o é interiormente, e verdadeira circuncisão é a do coração, segundo o
espírito da lei, e não segundo a letra. Tal judeu recebe o louvor não
dos homens, e sim de Deus" (Rm 2,25-29)
Lembremos que esta colaboração só se dá com verdadeira liberdade da
vontade, o que depende da Graça de Deus e não dos méritos próprios do
homem (para que este não se glorie).
A Graça nos regenera e renova pela ação do Espírito Santo. É através do
Espírito Santo que somos revestidos pela Glória de Deus, ação esta que
nos devolve a dignidade perdida no Éden.
É isto que S. Paulo ensina a seu discípulo Tito:

homem já se encontra salvo, isto é, quando a justiça de Deus lhe alcançou. É neste
último sentido que o termo é aqui empregado.
"[Somos justificados] E, não por causa de obras de justiça que
tivéssemos praticado, mas unicamente em virtude de sua
misericórdia, ele [Cristo] nos salvou mediante o batismo da
regeneração e renovação, pelo Espírito Santo" (Tito 3,5).
Alguém poderia pensar que S. Paulo esteja eliminando até mesmo as obras
realizadas com a ajuda da Graça. Veja que o Apóstolo usa o verbo no
passado (“tivéssemos praticado”), fazendo referência às obras praticadas
antes da Fé. Devemos lembrar que o próprio apóstolo diz que ninguém é
justo se não praticar as obras da Lei (cf. Rm 2,13.25-29).
Vejamos agora um interessante trecho da carta de S. Tiago:
“Crês que há um só Deus. Fazes bem. Também os demônios crêem e
tremem. Queres ver, ó homem vão, como a fé sem obras é
estéril? Abraão, nosso pai, não foi justificado pelas obras, oferecendo
o seu filho Isaac sobre o altar? Vês como a fé cooperava com as
suas obras e era completada por elas. Assim se cumpriu a
Escritura, que diz: Abraão creu em Deus e isto lhe foi tido em conta de
justiça, e foi chamado amigo de Deus (Gn 15,6). (Tg 2,19-22) (grifos
meus).
Aqui também as obras a que S. Tiago se refere são as obras motivadas pela
fé, e não as obras antes da fé. Isto atestamos nas palavras “vês como a fé
cooperava com as SUAS OBRAS e era completada por elas”.
A mesma catequese é confirmada por S. João: "Mas aquele que pratica a
verdade, vem para a luz. Torna-se assim claro que as suas obras são feitas
em Deus" (Jo 3,21).
A Graça nos encaminha à salvação na Fé em Jesus Cristo concedendo à
natureza humana o poder de cumprir a Lei. Por isso mais uma vez ensinou
S. Paulo: "Poderoso é Deus para cumular-vos com toda a espécie de
benefícios, para que tendo sempre e em todas as coisas o necessário, vos
sobre ainda muito para toda espécie de boas obras" (2Cor 9,8). Ainda em
Hebreus: "Olhemos uns pelos outros para estímulo à caridade e às boas
obras" (Hb 10,24).
Por isso Cristo se manifestou, porque sem Ele a Graça não viria e as obras
da carne não seriam destruídas. É o que nos ensina S. João: "Aquele que
peca é do demônio, porque o demônio peca desde o princípio. Eis por que o
Filho de Deus se manifestou: para destruir as obras do demônio" (1Jo 3,8).
Vê-se desta forma que as obras da Fé fortalecem a Fé, colaborando para a
salvação. Não que tenhamos que completar alguma coisa ao Sacrifício de
Cristo, mas a porta do céu aberta pela morte e ressurreição do Senhor,
espera que o homem por sua livre-vontade e colaboração (auxiliadas pela
Graça) queira nela adentrar. É desta forma que a nossa salvação também
depende de nós.
Ora, se somos obras de Deus criados para a prática das boas obras (Ef
2,10) e só é justo quem for cumpridor da Lei (cf. Rm 2,13.25-29),
conseqüentemente Deus nos julgará por nossas obras na fé, pois são elas
que dão testemunho de nossa fé em Jesus Cristo (cf. Tg 2,19-22).

O Juízo de Deus
Certa vez Nosso Senhor disse: "Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o
agricultor. Todo ramo que não der fruto em mim, ele o cortará; e podará todo
o que der fruto, para que produza mais fruto" (Jo 15,1-2).
As palavras acima são fabulosas, pois nelas se encontra o centro da
teologia da Graça e da Justificação.
Elas ensinam que os cristãos dão frutos por estarem ligados a Cristo.
Como já vimos é a Graça do Espírito Santo que possibilita esta ligação,
pois sem ela ninguém é cumpridor da vontade de Deus. Também ensinam
que “todo ramo que não der fruto [em Cristo][...] ele o cortará”.
Ainda: "O machado já está posto à raiz das árvores. E toda árvore que não
der fruto bom será cortada e lançada ao fogo" (Lc 3,9).
Ora, isto mostra o que é avaliado por Deus para condenar ou salvar
alguém: as suas obras motivadas pela Fé em Cristo.
Como se vê isto não tem nada a ver com uma “doutrina do galardão” (cf.
Lc 6,23), muito difundida entre os protestantes, onde Deus recompensará
uns e outros conforme o que receberam e fizeram. Com efeito, os salvos
serão recompensados segundo suas obras (cf. Mt 16,27; Ap 22,12). Porém,
TODOS serão julgados conforme as obras que fizeram (cf. Mt 25; Lc 12,36-
59).
Neste contexto Deus agirá como alguém que premia atletas. Nem todos os
competidores serão considerados vencedores, tudo dependerá da forma
como correram. Porém, os vencedores são premiados conforme sua vitória
(medalha de ouro, prata ou bronze).
O fato do organizador da prova recompensar na justa medida os
vencedores (galardão), não significa que todos que aceitaram correr serão
vencedores (salvação).
Por isso S. Paulo ensinou: "Assim, eu corro, mas não sem rumo certo. Dou
golpes, mas não no ar. Ao contrário, castigo o meu corpo e o mantenho em
servidão, de medo de vir eu mesmo a ser excluído depois de eu ter pregado
aos outros" (1Cor 9,26-27)7.
O Apóstolo também sabia que o juízo de Deus se daria conforme as obras
na fé em Cristo:
"Mas, pela tua obstinação e coração impenitente, vais acumulando ira
contra ti, para o dia da cólera e da revelação do justo juízo de Deus,
que retribuirá a cada um segundo as suas obras: a vida eterna
aos que, perseverando em fazer o bem, buscam a glória, a honra e a
imortalidade; mas ira e indignação aos contumazes, rebeldes à
verdade e seguidores do mal" (Rm 2,5-8) (grifos meus).
S. João também confirma este ensinamento:
"Se invocais como Pai aquele que, sem distinção de pessoas, julga
cada um segundo as suas obras, vivei com temor durante o tempo
da vossa peregrinação" (1Pd 1,17) (grifos meus).
O próprio Senhor confirma no Apocalipse:
"Vi os mortos, grandes e pequenos, de pé, diante do trono. Abriram-se
livros, e ainda outro livro, que é o livro da vida. E os mortos foram
julgados conforme o que estava escrito nesse livro, segundo as suas
obras. O mar restituiu os mortos que nele estavam. Do mesmo modo,
a morte e a morada subterrânea. Cada um foi julgado segundo as
suas obras" (Ap 20,12-13) (grifos meus).
"Farei perecer pela peste os seus filhos, e todas as igrejas hão de
saber que eu sou aquele que sonda os rins e os corações, porque
darei a cada um de vós segundo as suas obras" (Ap 2,23) (grifos
meus).
Como se vê é claríssimo na Escritura a catequese sobre o juízo de Deus,
que avalia as obras de cada um.
Logo a única garantia que podemos ter de nossa salvação é a perseverança
na Graça de Deus. Com efeito, também disse o Senhor: "Então ao
vencedor, ao que praticar minhas obras até o fim, dar-lhe-ei poder
sobre as nações pagãs" (Ap 2,26) (grifos meus).

7
Alguns dizem que S. Paulo se refere aqui não à sua salvação, mas ao seu ministério.
Porém no verso 25 ele mostra o alvo da corrida - "uma coroa incorruptível" – forte alusão
à salvação, conforme atestamos também em Ap 2,10.
Desta forma, “Vedes como o homem é justificado pelas obras e não
somente pela fé? Do mesmo modo Raab, a meretriz, não foi ela justificada
pelas obras, por ter recebido os mensageiros e os ter feito sair por outro
caminho? Assim como o corpo sem a alma é morto, assim também a fé
sem obras é morta" (Tg 2,19-26) (grifos meus).
Penso que já termos repostas suficientes às últimas perguntas: 2) a
salvação do crente depende ou não de seu testemunho de vida? 3) o crente
pode ou não perder a sua salvação?
Se você ainda tem dúvida, S. Tiago ainda tem uma palavra para você: "De
que aproveitará, irmãos, a alguém dizer que tem fé, se não tiver obras?
Acaso esta fé poderá salvá-lo?" (Tg 2,14).
Capítulo 3
A doutrina luterana da salvação

M artinho Lutero era um monge católico da Ordem de Santo Agostinho,


também conhecida com Ordem dos Agostinianos. Muito se tenta combater
os ensinamentos de Lutero com base numa análise de sua vida e
temperamento. Não faremos isso neste trabalho, pois acreditamos que os
próprios ensinamentos do Pai da Reforma já dizem muito sobre si mesmos.
Lutero não compreendia a Doutrina Católica acerca da salvação, a qual
ensinava que as obras na fé em Cristo colaboram com a Graça que nos
salva.
Transcreveremos esta doutrina conforme consta no Catecismo Tridentino,
pelo fato deste estar mais próximo da catequese católica dos tempos de
Lutero:
“[...] Tudo atribuindo à Sua bondade [de Deus], agradecemos sem
cessar Áquele que nos comunicou o Seu Espírito, por cuja valia nos
encorajamos a chamar ‘Abba, Pai!’
Depois, consideraremos, seriamente, o que nos toca fazer, e o que nos
toca evitar, a fim de conseguirmos o Reino do céu. Com efeito, Deus
não nos chamou para a inércia e preguiça, porquanto chegou até a
dizer: ‘O Reino do céu cede à violência, e são os esforçados que o
arrebatam’ [Mt 11,12]. E noutra ocasião: ‘Se queres entrar para a
vida, observa os Mandamentos’ [Mt 19,17]
Por conseguinte, aos homens não lhes basta pedirem o Reino de Deus,
se de sua parte não houver zelo e diligência para o alcançar; precisam
pois, colaborar vigorosamente com a graça de Deus [1Cor 3,9], e
manter-se no caminho que conduz ao céu”8

8
Catecismo Romano. Edições Serviço de Animação Eucarística Mariana. Tradução de Frei
Leopoldo Pires Martins, O. F. M. Pg 526-527.
Lutero tinha muito medo de não ser aceito por Deus, e não via nas obras
de piedade que praticava qualquer ajuda em vencer as próprias inclinações
pecaminosas. Sabemos ainda que ele foi levado ao convento não por
vocação, mas para cumprir uma promessa que havia feito. Esta situação
colaborava ainda mais para agravar sua vivência na religiosidade católica.
Por isso ele achava que as obras eram inúteis. Com efeito, úteis são
somente as obras motivadas pela Graça mediante a fé em Cristo, conforme
já vimos.
Sua situação lhe desmotivava cada vez mais, causando sérias angústias,
até que um grande alento lhe veio quando leu Rm 1,17. A expressão
paulina “o justo viverá pela fé” lhe foi suficiente para conceber que a
salvação vem somente pela fé, e não depende das obras motivadas por ela.
A partir de então Lutero ensinava que bastava a Fé para que alguém
estivesse salvo. Para ele Deus decretava a salvação do crente mediante a
sua confissão de Fé em Jesus Cristo. Pelo fato de outros jovens estarem na
mesma condição que ele, não foram poucos os adeptos de sua doutrina.
Já fora da Igreja Católica, Lutero na sua tradução da Bíblia para o alemão,
adulterou Rm 1,17 adicionando o advérbio “somente” à expressão “o justo
viverá pela fé”, ficando assim “o justo viverá somente pela fé”.
Estava lançada então a base da doutrina luterana da salvação, de forte
caráter forense, pois nela Deus salva o homem por decreto e não por ação
da Graça do Espírito Santo. Daí deriva a doutrina protestante pentecostal
de que basta “aceitar” Jesus para estar (não ser) salvo. Para o protestante
a Fé no Senhor não o levará à salvação, ela já salva, isto é, o crente não
será salvo, mas já está salvo por causa de sua fé.
Lutero chegava mesmo a ensinar:
“Se és um pregador da graça, então pregue uma graça verdadeira, e
não uma falsa; se a graça existe, então deves cometer um pecado
real, não fictício. Deus não salva falsos pecadores. Seja um pecador e
peque fortemente, mas creia e se alegre em Cristo mais fortemente
ainda…Se estamos aqui (neste mundo) devemos pecar…Pecado
algum nos separará do Cordeiro, mesmo praticando fornicação e
assassinatos milhares de vezes ao dia”9.
Claro que Deus quando começa a nos salvar por ação de Sua Graça, nos
aceita do jeito que somos, com todas as nossas falhas e pecados. Pois só se
9
Carta a Melanchthon, 1 de agosto de 1521 (American Edition, Luther’s Works, vol. 48,
pp. 281-82, editado por H. Lehmann, Fortress, 1963).
salva o que precisa de salvação, se fôssemos perfeitos não precisaríamos
de sermos recuperados por Deus. Com efeito, disse o Senhor: "Eu não vim
chamar os justos, mas os pecadores" (cf. Mt 9,13).
Aqui se encontrava mais um equívoco do ex-monge católico derivado da
leitura de Rm 5,20: "Sobreveio a lei para que abundasse o pecado [pois sem
lei não há transgressão]. Mas onde abundou o pecado, superabundou a
graça".
Ora, no trecho acima S. Paulo não está ensinando que quanto à salvação
Deus será indiferente aos pecados de quem confessou Jesus como Senhor
e Salvador, mas que quanto maior for o pecado de alguém maior será a
ação da Graça do Espírito Santo nele.
São Paulo está se referindo à ação santificante da Graça de Deus. O
mesmo faria um médico ao se referir à ação curativa de um tratamento,
dizendo: “onde abundou a doença, superabundou o remédio”. É o mesmo
que dizer: a eficácia de um remédio depende do grau do mal que cura.
O proprio S. Paulo refuta Lutero em Rm 6. Porém, este capitulo da carta
aos Romanos Lutero preferiu ignorar, como também ignorava a Epístola de
S. Tiago, chamando-a de “epístola de palha” 10, pois ela era frontalmente
contra sua doutrina de justificação somente pela fé.
Na sua tradução da Bíblia para o alemão, Lutero renegou esta carta a um
apêndice, juntamente com os deuterocanônicos11.
Mais tarde, na versão bíblica protestante KJV (King James Version) ou
Versão do Rei Tiago, edição de 1611. A adição do “somente” em Rm 1,17
foi retirada, e a Carta de S Tiago, bem como os deuterocanônicos 12
voltaram à bíblia protestante.
Mesmo assim a “hermenêutica” luterana do “somente pela fé” ainda é a
tradição na qual o protestantismo se fundamenta na sua elaboração da
doutrina da salvação.

10
'Preface to the New Testament,' ed. Dillenberger, p. 19.
11
Sete livros do AT rejeitados por Lutero. São eles Tobias, Judite, 1 e 2 Macabeus, Baruc,
Sabedoria e Eclesiástico. Além dos acréscimos gregos de Daniel e Estér.
12
Porém, no início do século XVIII os deuterocanônicos foram finalmente retirados das
edições protestantes da Bíblia Sagrada.
Conclusão

A Salvação é algo que se espera. Certeza devemos ter de que Deus


julgará a todos com justiça, porém a Sua Misericórdia é ainda maior que a
Sua Justiça. Devemos, portanto colaborar com a Graça de Deus, graça que
nos foi concedida pela mediação única de Cristo (cf. 1Tm 2,5) para que
sejamos capazes de cumprir Sua Vontade, e então considerados justos.
A Graça do Espírito santo concedia mediante a Fé em Jesus Cristo é que
nos regenera, nos salvando, pois no céu, só entrará quem estiver com as
vestes brancas (cf. Ap 3,5; 7,9.13-14; 22,14. Clara alusão ao estado de
santidade dos justos).
Talvez esta obra tenha lhe dado alguns esclarecimentos e suscitado novas
dúvidas. Uma delas poderia ser: e se o pecado não entra no céu, o que
será daqueles cristãos que morreram em pecado ou com inclinações ao
pecado, já que a grande maioria não morre em santidade?
Estas e outras questões muito importantes quanto à salvação e ação da
Graça do Espírito Santo, nós trataremos em trabalhos futuros. Por ora, já
é um grande passo entendermos que a salvação é esperança e não
confiança, pois devemos colaborar com a Graça de Deus se desejamos ser
salvos e reunidos ao redil dos santos. O bom exemplo vem do próprio
Apóstolo:
"Anseio pelo conhecimento de Cristo e do poder da sua Ressurreição, pela
participação em seus sofrimentos, tornando-me semelhante a ele na morte,
com a esperança de conseguir a ressurreição dentre os mortos. Não
pretendo dizer que já alcancei (esta meta) e que cheguei à perfeição. Não.
Mas eu me empenho em conquistá-la, uma vez que também eu fui
conquistado por Jesus Cristo. Consciente de não tê-la ainda conquistado, só
procuro isto: prescindindo do passado e atirando-me ao que resta para a
frente, persigo o alvo, rumo ao prêmio celeste, ao qual Deus nos chama, em
Jesus Cristo. Nós, mais aperfeiçoados que somos, ponhamos nisto o nosso
afeto; e se tendes outro sentir, sobre isto Deus vos há de esclarecer.
Contudo, seja qual for o grau a que chegamos, o que importa é prosseguir
decididamente" (Fl 3,10-16).
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Bíblico – A Origem da Lista dos Livros Sagrados”.
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A Resenha da obra elaborada por D. Estevão veja em
http://www.veritatis.com.br/article/4516.