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JUVENATRIX

JUVENATRIX – Fanzine de Horror & Ficção Científica


ANO 27 – Número 190 – OUTUBRO 2017
JUVENATRIX – Desde Janeiro de 1991 – total 4.571 páginas
“A morte é apenas o começo... de uma eterna vida de dor...”
Editor – Renato Rosatti
Capa e contra capa – Angelo Júnior
INTERNET
Blogs: www.infernoticias.blogspot.com.br & www.juvenatrix.blogspot.com.br
E-mail: renatorosatti@yahoo.com.br / Twitter: www.twitter.com/juvenatrix

Lançamento dessa edição: 28/10/2017 – São Paulo/SP


Distribuição gratuita – Solicite o envio do arquivo PDF por e-mail

HORROR E METAL EXTREMO


Música: Black Metal / Banda: Venom (Inglaterra) / Álbum: Black Metal (1982)
Black is the night metal we fight. Power amps set to explode. Energy screams magic and dreams. Satan records their first note.
We chime the bell chaos in hell. Metal for maniacs pure. Fast melting steel fortune on wheels. Brain haemorrhage is the cure.
For BLACK METAL. BLACK METAL. BLACK METAL. BLACK METAL. BLACK METAL. Lay down your soul to the
gods rock `n' roll. Freaking so wild nobody's mild. Giving it all that you've got. Wild is so right metal tonight. Faster than over
the top. Open the door enter hells core. Black is the code for tonight. Atomic force feel no remorse. Crank up the amps now it's
night. BLACK METAL. BLACK METAL. BLACK METAL. BLACK METAL. BLACK METAL. Lay down your soul to the
gods rock `n' roll. Metal ten fold through the deadly black hole. Riding hell's stallions bareback and free. Taking our chances
with raw energy. Come ride the night with us. Rock hard and fight. United my legions we stand. Freak hard and wild for us.
Give up your souls. Live for the quest Satan's band. Let's go. Against the odds black metal gods. Fight to achieve our goal.
Casting a spell leather and hell. Black metal gods rock `n' roll. Building up steam nuclear screams. Warheads are ready to fight.
Black leather hounds faster than sound. Metal our purpose in life. BLACK METAL. BLACK METAL. BLACK METAL.
BLACK METAL. Lay down your soul to the gods rock 'n' roll. BLACK METAL.

“Suffocation” (EUA): show no Manifesto Bar (Itaim Bibi, São Paulo/SP) em 30/09/17

“Venom” (Inglaterra): show no Carioca Club (Pinheiros, São Paulo/SP) em 22/10/17


R.I.P. Martin E. Ain (21/10/2017) ex-Celtic Frost / ex-Hellhammer (Suiça)

DIVULGAÇÕES & CURIOSIDADES


Fanzine: “Jornalzine Underground” número 0 (Setembro de 2017)
(mensagem de divulgação)
“JORNALZINE UNDERGROUND - EDIÇÃO ESPECIAL”
Cinema / Música / Quadrinhos
Ibiúna/SP, Brasil
# 0 (Set/2017) - A4 (21x29,7 cm)
6 Páginas - xerox - tiragem indefinida (sob demanda)
Versão física/impressa/paga acompanha um dvdzine (dvd-r)
Versão digital em arquivo pdf distribuída gratuitamente via e-mail (ou pelo facebook/messenger)
Editado por: Androdead Bathory & Julie Albuquerque
Site: facebook.com/PlanetDeadTV
e-mail: Kathoeyqueerpunk@gmail.com

A/C Julie Albuquerque – Rua Zico Soares, 129 – Biblioteca Municipal – Centro – Ibiúna/SP – CEP 18150 - 000
―Fanzine feito às pressas pelos editores para ser um presente de despedida ao casal de amigos Bruci & Kátia (ambos artistas
e moradores de Ibiúna), que foram morar temporariamente na Bahia e cursar uma Faculdade por pelo menos uns dois anos.‖

Fanzine “Quadrinhos Independentes” 147


―Quadrinhos Independentes‖
Foi lançada a edição 147 (Setembro / Outubro de 2017), editada por Edgard Guimarães, com 32 páginas, formato meio ofício
e impressão digital.
Conteúdo: quadrinhos, artigos, anúncios, ilustrações, seção de cartas dos leitores e divulgação de fanzines.
Traz também os encartes:
―Artigos Sobre Histórias em Quadrinhos‖ número 8 – ―Os Três Cães Mais Famosos do Cinema‖, de Carlos Gonçalves, 12
páginas.
―Pequena Biblioteca Sobre Histórias em Quadrinhos‖ número 4, de Edgard Guimarães, 78 páginas.
Contatos: A/C Edgard Guimarães – Rua Capitão Gomes 168 – Brasópolis/MG – CEP 37530-000
e-mail: edgard.faria.guimaraes@gmail.com

A casa assombrada de Amityville (EUA), desenho experimental em aquarela da artista


mirim Vanessa Rosatti (12 anos)
CONTOS

A Biblioteca de Mabel
por Fernando Sorrentino (Argentina)
Tradução para o português de Regina Drummond (regina-drummond@web.de)

1
Afetado por uma certa mania de classificar as coisas, desde adolescente costumo catalogar os livros da minha
biblioteca.
Quando passei para o terceiro ano do Ensino Médio, já contava com uma razoável —para a minha idade— quantidade
de volumes: chegava perto de seiscentos.
Eu tinha um carimbo com a seguinte legenda:

BIBLIOTECA DE FERNANDO SORRENTINO


VOLUME N.º ______
DATA DE AQUISIÇÃO: ______

Mal um livro novo entrava, eu o carimbava —sempre com tinta preta— na primeira página; dava-lhe, então, o número
sequencial e anotava a data da aquisição —sempre com tinta azul—. Em seguida, imitando o antigo catálogo da Biblioteca
Nacional, copiava os dados em uma ficha de cartolina, que arquivava em ordem alfabética.
Minhas fontes para adquirir informações literárias eram os catálogos das editoras e o Pequeno Larousse Ilustrado. Por
exemplo: em várias coleções de diversas editoras se encontrava: Atala, René. As Aventuras do Último Abencerrage. Instigado
por essa profusão e porque Chateaubriand parecia, nas páginas do Larousse, revestido de muita importância, adquiri o livro na
edição da Coleção Austral, de Espasa-Calpe. Apesar dessas precauções, achei as três histórias tão insuportáveis quanto
desprovidas de interesse.
Como contrapartida desses fracassos, obtive grandes êxitos: na coleção Robin Hood, fiquei fascinado por David
Copperfield e na Biblioteca Mundial Sopena, por Crime e Castigo.
Em uma determinada altura da avenida Santa Fe, um pouco antes de chegar à rua Emilio Ravignani, ficava a Livraria
Muñoz: escura, funda, úmida e mofada, com pisos de madeira listrada que rangiam um pouco. Seu dono era um espanhol de
uns sessenta anos, muito sério, com o rosto um pouco macilento.
O único funcionário do lugar era quem costumava me atender: jovem, calvo, cometia erros e não tinha grande
conhecimento dos livros que lhe eram pedidos ou de sua localização. Chamava-se Horacio.
No momento dessa tarde em que eu acabava de entrar no local, Horacio se encontrava remexendo nas diversas
estantes, em busca de sabe-se lá qual título. Segundo pude deduzir, era algo solicitado por uma garota alta e magra, que,
enquanto isso, passeava os olhos pela ampla mesa onde estavam expostos alguns volumes de segunda mão.
Das profundezas da loja chegou a voz do proprietário:
—O que você está procurando agora, Horacio?
O advérbio agora indicava certo mau humor.
—Não encontro Don Segundo Sombra, don Antonio. Na estante de Emecé não está.
—É um livro de Losada, não de Emecé. Veja na parte da Contemporânea.
Horácio mudou o lugar de suas buscas e, após uma extensa exploração, virou-se para a jovem e disse:
—Não, sinto muito, não temos nenhum Don Segundo.
Ela ficou chateada, disse que precisava do livro para a escola, perguntou onde poderia conseguir um exemplar.
Horácio, atordoado ante aquele enigma insondável, abriu muito os olhos e levantou as sobrancelhas.
Por sorte, don Antonio tinha ouvido a pergunta.
—Por aqui —explicou— é difícil. Não há boas livrarias. Você teria de ir ao centro, a ―El Ateneo‖, ou alguma outra da
rua Florida ou da Corrientes. Se não encontrar nelas, procure perto das ruas Cabildo e Juramento.
A decepção turvou o rosto da garota.
—Desculpe-me por me meter —eu disse a ela—. Se você promete tratá-lo com cuidado e me devolver, posso lhe
emprestar Don Segundo Sombra.
Senti que fiquei vermelho como se tivesse incorrido em uma audácia inconcebível. E, ao mesmo tempo, experimentei
um desgosto contra mim mesmo por ter-me deixado levar por um impulso que se opunha ao que realmente sentia: amo meus
livros e detesto emprestá-los.
Não sei exatamente o que a garota me respondeu, mas após alguns resmungos, terminou por aceitar meu oferecimento.
—Preciso lê-lo imediatamente para a escola —disse como se se justificasse.
Ela me contou que cursava o terceiro ano do colégio em uma escola para garotas da rua Carranza e eu lhe propus que
me acompanhasse até minha casa para pegarmos o livro em questão. Eu lhe disse meu nome e ela me disse o seu: Mabel
Mogaburu.
Antes de sairmos, porém, cumpri com o objetivo que me havia levado à Livraria Muñoz: comprei Os Crimes da Rua
Morgue. Eu já tinha lido Histórias Extraordinárias e, encantado, decidi voltar a ler Edgar Allan Poe.
—Não gosto dele —disse Mabel—. É cruel e cheio de truques. Sempre com essas histórias de assassinatos, mortos,
caixões… Não acho graça em cadáveres.
Enquanto caminhávamos pela Carranza até a rua Costa Rica, Mabel falou com entusiasmo e sinceridade sobre sua
afeição (ou melhor, paixão) pela literatura. Nesse ponto, tínhamos uma grande afinidade, embora, desde o começo, ela
mencionasse autores que ora convergiam ora divergiam com os nossos respectivos amores literários. E, apesar de eu ser dois
anos mais velho do que ela, tive a impressão de que ela tinha lido muito mais do que eu.
Ela era morena, mais alta e delgada do que tinha me parecido na livraria. Uma certa elegância difusa a adornava. O
matiz azeitonado do seu rosto parecia atenuar uma palidez mais profunda. Seus olhos escuros se cravavam diretamente nos
meus e me era difícil sustentar a intensidade daquele olhar meio parado.
Chegamos à porta da minha casa na rua Costa Rica.
—Espere por mim aqui. Em um minuto trago o livro.
Com efeito, eu o encontrei em um instante, pois, por uma questão de homogeneidade, eu tinha (e ainda tenho) os livros
agrupados por coleções. Assim, Don Segundo Sombra (Biblioteca Contemporánea, Editorial Losada) se achava entre A
Metamorfose, de Kafka, e A Inocência do Padre Brown, de Chesterton.
Ao voltar à rua, percebi —ainda que nada saiba sobre moda— que Mabel se vestia de uma maneira, digamos, um
pouco antiquada, com uma blusa cinzenta e uma saia escura.
—Como você vê —eu disse a ela—, este livro está brilhando de novo, como se eu o tivesse comprado a um segundo
atrás, na livraria de don Antonio. Por favor, cuide dele, ponha uma capa nele, não dobre as páginas para marcar nada e,
sobretudo, de maneira alguma escreva uma única vírgula nele.
Ela pegou o livro —tinha mãos bonitas e fortes— com o que me pareceu um certo respeito brincalhão. O volume, com
sua cor alaranjada impecável, parecia recém-saído da gráfica. Ela o folheou por um momento.
—Mas vejo que você, sim, escreveu no livro —ela disse.
—Certamente, mas faço isso a lápis, com letra pequena e delicada: são notas e observações úteis para enriquecer a
minha leitura. Além do mais —acrescentei, um pouco irritado— o livro é meu e eu lhe dou o uso que quiser.
Me arrependi do rompante na mesma hora, pois vi mortificação no rosto de Mabel.
—Bem —disse ela—, se você não confia em mim, prefiro que não me empreste o que é seu!
E me devolveu o livro.
—Não, não, de maneira nenhuma. Apenas cuide dele. Confio em você.
—Oh! —ela estava olhando a primeira página—.Você cataloga os seus livros?
E disse em voz alta, sem gozação:
—―Biblioteca de Fernando Sorrentino. Volume número 232. Data da aquisição: 23/04/1957‖.
—Sim. Comprei-o quando estava no primeiro ano. O professor de espanhol recomendou esta obra para ser trabalhada
durante as aulas.
—Li alguns contos de Güiraldes e eles me pareceram bem pobres… Por isso, nunca tinha pensado em comprar Don
Segundo.
—Acho que você vai gostar dele. Não tem caixões nem casas malditas ou gente enterrada viva… Quando acha que vai
me devolver o livro?
—Em menos de quinze dias você o terá de volta, tão radioso —ela frisou o adjetivo— quanto você o está me
entregando neste momento. E, para que fique tranquilo, vou lhe dar meu endereço e telefone.
—Não precisa —eu disse, por educação.
Tirando da bolsa uma caneta e um caderno escolar, ela escreveu algo na última página, que arrancou e me entregou.
Aceitei. Para maior segurança, eu também dei a ela o número do meu telefone.
—Bem, fico muito agradecida. E vou para casa, agora.
Ela apertou a minha mão (na época, não era costume que as pessoas se beijassem como atualmente) e caminhou em
direção à esquina da Bonpland.
Uma certa inquietude me assaltou. Será que não tinha cometido um erro, ao emprestar um livro querido a uma pessoa
de quem nada sabia? O endereço que ela tinha me dado… Não seria falso?
A folha do caderno era quadriculada; a tinta, verde. Procurei o nome Mogaburu na lista telefônica. Suspirei, aliviado:
um tal Honorio Mogaburu morava no endereço dado por Mabel.
Entre A Metamorfose e A inocência do Padre Brown coloquei uma ficha com a seguinte legenda: FALTA DON
SEGUNDO SOMBRA, EMPRESTADO A MABEL MOGABURU, NA TERÇA-FEIRA, DIA 7 DE JUNHO DE 1960. ELA
PROMETEU DEVOLVÊ-LO NO MÁXIMO NA QUARTA-FEIRA, DIA 22 DE JUNHO. Embaixo, acrescentei o endereço e
o telefone dela.
Em seguida, na página da minha agenda correspondente ao dia 22 de junho, escrevi: MABEL. NÃO ESQUECER:
DON SEGUNDO.
2
A primeira semana passou e logo a segunda a seguiu. Desenvolvi as minhas atividades habituais —em geral, não
desejadas— de um aluno do último ano do Ensino Médio.
Estávamos na tarde da quinta-feira, dia 23. Como costuma acontecer comigo até os dias de hoje, faço anotações na
agenda que me esqueço de ler. Mabel não tinha feito contato para devolver o livro ou, se fosse o caso, pedir prorrogação do
empréstimo.
Disquei o número do telefone de Honorio Mogaburu. Do outro lado da linha, a campainha tocou pelo menos dez vezes
sem que ninguém atendesse. Desliguei e voltei a chamar, muitas vezes e em horários diferentes, com o mesmo resultado
infrutífero.
O processo se repetiu até o final da tarde da sexta-feira.
Na manhã de sábado, me dirigi à casa de Mabel, à rua Arévalo, entre a Guatemala e a Paraguay.
Antes de tocar a campainha, observei o imóvel a partir da calçada. Era uma construção típica do bairro Palermo Viejo,
com uma porta no meio da fachada e uma janela de cada lado. Por uma delas se via um facho de luz: estaria Mabel exatamente
naquela sala, entregue à leitura…?
A porta foi aberta por um homem alto e moreno, que imaginei ser o avô de Mabel.
—O que você deseja?
—Desculpe-me. É aqui que mora Mabel Mogaburu?
—Sim, mas ela não está. Sou o pai dela. O que você quer com ela? É urgente?
—Não, não é urgente nem muito importante. Eu emprestei um livro para ela e… enfim, estou precisando dele para —
procurei uma razão plausível— …uma prova que terei de fazer na escola, na segunda-feira.
—Entre, por favor.
Em seguida ao hall de entrada, surgiu uma salinha que me pareceu pobre e antiquada. Flutuava no ar um odor
desagradável, mistura de molho de tomate estragado com inseticida. Sobre una mesinha estava aberto o jornal diário La Prensa
e havia também um exemplar da revista Mecánica Popular.
O homem se movimentava com extrema lentidão. Ele era muito parecido com Mabel, com a mesma tez azeitonada e
os mesmos olhos parados.
—Qual o livro que você emprestou para ela?
—Don Segundo Sombra.
—Vamos ao quarto dela, para ver se o encontramos.
Senti um pouco de vergonha por incomodar aquele senhor, que julguei infeliz, vivendo em uma casa tão triste.
—Não se preocupe —eu disse a ele—. Posso voltar outro dia, quando Mabel estiver em casa. Não tenho pressa.
—Mas você não disse que precisa do livro sem falta para segunda-feira?
Ele tinha razão. Preferi não acrescentar mais nada.
A cama de Mabel estava coberta por uma colcha sem brilho, cor de vinho.
—Esses são os livros dela —ele me levou até uma biblioteca minúscula, com apenas três fileiras—. Veja se encontra o
que busca.
Não acreditaria que ali estivessem sequer cem volumes. A maioria era da Editorial Tor, entre os que reconheci —
porque eu também tinha a edição de 1944— O Fantasma da Ópera, com aquela ilustração pavorosa na capa. Identifiquei ainda
outros títulos comuns, sempre em edições bastante antigas.
Mas Don Segundo não estava ali.
—Eu disse a você para vir aqui para que ficasse calmo —disse o homem—. Mas já faz anos que Mabel não traz livro
algum para esta biblioteca. Você reparou que eles são bem velhos, não é?
—Sim. Estranhei um pouco por não ver edições mais recentes…
—Se você estiver de acordo e tiver tempo e vontade —ele cravou em mim aqueles olhos parados e me obrigou a
abaixar os meus—, vamos agora mesmo dar um ponto final a esse assunto. Iremos buscar o livro na biblioteca de Mabel.
Ele colocou os óculos e balançou um chaveiro.
—De carro chegaremos em menos de dez minutos.
O automóvel era um DeSoto grande e preto, imagino que um modelo 1946 ou 47. Quando entrei, um bafo de coisa
fechada misturado com tabaco velho me recebeu.
Mogaburu deu a volta na quadra e tomou a rua Dorrego. Logo estávamos na Lacroze, na Corrientes, na Guzmán, e
entrávamos nas ruas internas do cemitério da Chacarita.
Descemos e nos pusemos a caminhar sobre o calçamento de paralelepípedos. Minha bendita (ou maldita) curiosidade
literária me impelia a segui-lo sem fazer perguntas, agora margeando as criptas. Diante de uma onde se lia MOGABURU, ele
introduziu uma chave e abriu a porta de ferro preto, dizendo:
—Venha. Não precisa ter medo.
Apesar de não querer, obedeci, pois sua alusão ao meu presumido medo me incomodou. Entrei na cripta e descemos
uma escadinha de metal. Vi dois caixões.
—Neste aqui —o homem mostrou o que estava na prateleira inferior— descansa María Rosa, minha mulher, que
faleceu no mesmo dia que Frondizi se tornou presidente.
Com os nós dos dedos ele deu pequenos golpes na tampa.
—E este outro pertence à minha filha Mabel. Morreu, a pobrezinha, tão jovem… Só tinha quinze anos, quando se
elevou a Deus, em maio de 1945. No mês passado completou quinze anos de sua morte: agora ela teria trinta.
Inclinando-se um pouco sobre o caixão, ele sorriu como quem compartilha uma delicada confidência:
—A morte injusta não conseguiu separá-la de sua grande paixão: a literatura. Ela continuou, incansavelmente, lendo
livro atrás de livro. Percebe? Aqui fica a outra biblioteca de Mabel, mais completa e atualizada do que a que está em casa.
Com efeito, uma parede da cripta estava coberta, do chão ao teto, com centenas de livros, quase todos —por falta de
espaço, deduzi— na horizontal e em fila dupla.
—Metódica como era, ela foi enchendo a estante de cima para baixo, e da esquerda para a direita. Portanto, seu livro,
como é de empréstimo recente, deve estar na metade da estante da direita.
Uma força desconhecida me levou ao local assinalado. E lá estava Don Segundo.
—Em geral —continuou Mogaburu— não vem muita gente reclamar os livros emprestados. Vê-se que você gosta
muito dos seus.
Meus olhos estavam pregados na primeira página de Don Segundo. Um enorme X verde cobria meu carimbo e minhas
anotações. Logo abaixo, com a mesma cor e uma cuidadosa letra de imprensa, se liam três linhas:

BIBLIOTECA DE MABEL MOGABURU


VOLUME 5328
7 DE JUNHO DE 1960

―Que vaca‖, pensei. ―Recomendei-lhe tanto que não escrevesse sequer uma vírgula!‖
—Bem, no final, assim são as coisas — disse o pai—. Você vai querer levar o livro ou vai doá-lo à biblioteca de
Mabel?
Fiz um gesto brusco e repliquei com raiva:
—Claro que vou levar! Não gosto de me separar dos meus livros.
—Faz bem —concordou ele, enquanto subíamos a escada—. De qualquer maneira, não será difícil para Mabel
conseguir em seguida outro exemplar.

CINEMA

Blade Runner – O Caçador de Andróides


por E. R. Corrêa
―Blade Runner, O Caçador de Androides‖ (Blade Runner, 1982), entre outras coisas, já foi destrinchado até em teses
acadêmicas, e se existe algo a seu respeito que ainda não foi dito, esse algo pertence ao fantasioso mundo da imaginação.
Mesmo para aqueles que possuem apenas o mais remoto interesse pelo cinema, é famosa aquela história das ―duas versões‖ que
foram feitas pelo diretor Ridley Scott a pedido dos chefões da Warner (circulam boatos na internet de que existiriam ainda
outros finais não revelados para o filme, alguns chegando a citar sete ou oito finais alternativos, mas isso tudo é muito
provavelmente bobagem): a primeira versão (que só apareceu no começo dos anos 90) seria a original, rejeitada pelo estúdio na
época por ser demasiadamente sombria, por que desconfortavelmente aberta, talvez, e, por isso mesmo, comercialmente
inviável (nesta versão, somente a cena em que Deckard aplica o teste Voigt-Kampff em Raquel, nos escritórios da Tyrell
Corporation, é filmada à luz do dia); e a segunda versão, remexida no contexto central e modificada completamente na
conclusão, em relação à primeira, foi aquela que apareceu e que, desafortunadamente, acabou por se transformar num enorme
fracasso de bilheteria, completamente imprevisto.
Imprevisto porque Ridley Scott vinha do recente sucesso de público e crítica ―Alien, o Oitavo Passageiro‖ (Alien,
1979) – sucesso que, não por acaso, fez com que os chefões da Warner lhe dessem carta branca para orquestrar o ―Blade
Runner‖, outra inteligente e empolgante história de FC que, segundo eles, tinha tudo para arrecadar milhões (assim, podemos
conjeturar: se não tivesse existido o ―Alien‖, ou se ele tivesse redundado em um enorme fracasso, talvez o ―Blade Runner‖
jamais tivesse existido). O que houve, porém, foi exatamente o contrário; assim como o ―2001, Uma Odisséia no Espaço‖
(2001, A Space Odissey, 1968), de Stanley Kubrick, a película de Scott se revelou cerebral demais para repetir a façanha
anterior, mesmo com aquela versão medíocre e rotineira que apareceu originalmente, narrada em Off por um Harrison Ford
puto da vida.
Normal, para uma produção até hoje repleta de controvérsias e pontos em falso. Também houve aquela história
relativa a plágio, alegada pela revista francesa de HQ‘s ―Metal Hurlant―, de que Scott e seus produtores teriam deliberadamente
copiado, sem autorização, o visual futurista de uma das histórias do consagrado desenhista Moebius, ―The Long Tomorrow―,
para a caracterização do filme. Coisa nem confirmada, nem desmentida.
Com roteiro de Hampton Fancher e David Peoples, o filme foi baseado no romance ―O Caçador de Andróides‖ (―Do
Androids Dream of Eletric Sheep?‖, de 1968), um dos melhores trabalhos de Philip K. Dick e uma das mais aclamadas,
consistentes e perversas visões à cerca do futuro do homem e seu relacionamento com a tecnologia. Dick, mais esperto do que
nunca, cria andróides revoltados não especificamente com sua condição de andróide – dá a entender que isso, para eles, é
indiferente – mas sim com o fato de que, a despeito das memórias falsas que carregam, viverão por apenas quatro anos, por
―motivos de segurança―. E, o que é pior, na condição de escravos: são os instrumentos perfeitos para os perigos da exploração
espacial, em colônias distantes da Terra, já que são mais fortes fisicamente e no mínimo tão inteligentes quanto os engenheiros
genéticos seus criadores (nem no livro, nem no filme sabemos qual tipo de tratamento tais andróides recebem nas colônias, mas
é fácil adivinhar). Outro parêntese: os produtores do filme preferiram abordar essas criaturas como ―replicantes―, ao em vez de
―andróides―, na intenção óbvia de aproximá-los ainda mais dos seres humanos, já que o termo ―andróide―, já completamente
assimilado tanto dentro da cultura ficcional quanto fora dela, é próximo demais do termo ―robô―, pesado e repulsivo em sua
totalidade inumana, rapidamente lembrando uma coisa insólita e artificial, o que apagaria, ou neutralizaria, a intenção do filme
de fazer com que o público simpatizasse com os ―replicantes‖ ou, no mínimo, adquirisse uma espécie de empatia para com eles.
O caso é que em nenhum momento do filme é utilizada a palavra ―andróide―. ―Monstrengo‖ é outro termo utilizado,
ironicamente.

Um grupo de Nexus-6 (andróides de última geração) se revolta com sua condição e, após um motim sangrento numa
das colônias espaciais, resolve voltar a Terra – o que lhes é proibido – em busca de respostas; já que seus criadores se deram ao
trabalho de criá-los com inteligência o suficiente para indagar os por quês da questão – agora que aguentem as consequências.
Mas os criadores não aguentam as consequências e por isso preferem jogar a sujeira para debaixo do tapete, quando ela surge.
Unidades especiais chamadas de ―blade runner‘s‖ são encarregadas de ―retirar‖ os replicantes invasores, da mesma forma que
apertamos sem cerimônia o botão ―power‖ do computador quando dá um treco no windows e ele trava – mas talvez esse não
seja um exemplo sensato, pois, quando nosso computador trava, ficamos com remorso de desligá-lo sem recorrer ao método
padrão de desativá-lo antes; nesse mundo caótico de valores duvidosos, os blade runner‘s não sentem remorso. Ou, ao menos,
não sentiam…
Rick Deckard (interpretado por Ford, num papel que era originalmente destinado a Dustin Hoffman), a despeito de
tudo, ainda é um dos principais blade runner‘s em circulação e por isso é recrutado à força para se livrar do caso, o mais
discretamente possível. No livro, Deckard é um sonhador, disposto a tudo para conseguir dinheiro suficiente para comprar um
animal verdadeiro, já que sua ovelha elétrica só traz aborrecimentos e risos desaprovadores dos vizinhos; somente aos poucos
ele percebe que o que está fazendo é uma incongruência das mais absurdas: retirar andróides inteiramente capazes de especular
a respeito da própria existência somente para satisfazer a seu ―ego pseudo-ecológico‖ (seria na verdade um assassino?, ele se
pergunta, lembrando das reprimendas da esposa e dos conselhos de Mesmer, o guru). No filme ele é um misantropo
completamente indiferente, uma espécie de Humphrey Bogart com excesso de melancolia (se é que isso é possível), e solteiro;
enquanto tenta dar início a um almoço rápido num botequim superlotado de Chinatown é abordado estupidamente por Gaff
(Edward James Olmos), um oficial de polícia que, a mando do chefe de polícia Bryant (M. Emmet Walsh), o quer novamente
recrutado como um blade runner. Gaff utiliza um dialeto estranho, indefinido, conhecido principalmente no meio policial, e
Deckard finge não entendê-lo. Mas o balconista do botequim traduz para ele e diz, sorridente: ―Ele disse que está preso, senhor
Deckard―. O detetive dirige-se então à central de polícia e ali recebe sua nova missão. Ele recusa-se de início a voltar ao oficio
de exterminador de andróides, mas, acuado pelo ex-chefe, não vê outra alternativa – ele sabe que não tem escolha. E então ele
vai em frente, recolhe as pistas, como um verdadeiro detetive solitário e sorumbático dos anos 40 (tipo Sam Spade, ou Philip
Marlowe) e inicia o processo de retirada dos ―produtos‖ ilegais em circulação na obscura e poluída Los Angeles de 2019. Até
que se envolve emocionalmente com Raquel (Sean Young), uma Nexus-6 que, numa reviravolta, acaba lhe salvando a vida.
E é aí que a fragilidade da situação começa a se revelar com mais intensidade. Fragilidade que culminará no
salvamento de Deckard por um de seus próprios perseguidos, o replicante Roy Betty (Rutger Hauer), o cabeça do levante
andróide, numa das cenas mais fortes e envolventes da sétima arte. É quando Deckard se pergunta até onde vai a moral do
criador para determinar limites para sua criação – o complexo de Frankenstein em versão ―cyberpunk―. ―Nada pior que a
coceira que não se pode coçar―, a certa altura diz Leon (Brion James), um replicante.
Mas se esta situação é densa e enigmática por si só, resta ainda lembrar o destino do próprio Deckard; Raquel, graças
às memórias implantadas que utilizava, afinal de contas, só ficou sabendo que era uma replicante depois que lhe contaram.
Durante todo o filme o oficial de polícia Gaff se divertia fazendo pequenas dobraduras de papel e palitos de fósforo, e nós,
bestalhões, acreditávamos que isso não passava de uma excentricidade neurótica típica da vida urbana, mas a coisa,
aparentemente tão simples e banal, carregava consigo – agora sabemos – um significado espantoso e revelador.
É como se os personagens fossem, todos eles, anti-heróis indiferentes: no fundo, é difícil simpatizar com um ou com
outro, apoiar uma ou outra causa, pois tudo se dilui num plot de complexidade sufocante, até culminar num dado momento em
que todos percebem que, qualquer que tenha sido o vencedor, esse vencedor não terá nada além do que teve o perdedor, se é
que é possível diferenciar um do outro. Aliás, o paralelo que se faz com esse filme e os filmes de detetive dos anos 40, os films
noir, geralmente inspirados em obras de mestres do romance policial como Dashiell Hammett e Raymond Chandler, oriunda
não somente de seu visual sombrio e depressivo, mas principalmente desse fato: a quase ausência de uma ―moral‖ clara,
límpida, tal como a que aprendemos a reconhecer – os ―heróis―, vira e mexe, se apresentando como vilões, e os ―vilões‖
fazendo as vezes de heróis, tanto uns como os outros unicamente em busca da solução de seus próprios problemas, sabendo
que, no fundo, no fundo, é só isso que realmente importa.
―Blade Runner, O Caçador de Andróides‖, apesar de não ser exatamente fiel ao romance que o inspirou, é,
definitivamente, um dos filmes mais espetaculares da história do cinema; um filme único que não terá substitutos ou ―parentes
próximos―. Rapidamente envolvente em seu clima de policial noir (a começar pelo título, tomado de empréstimo de um dos
livros do escritor William S. Burroughs), é dono de uma plasticidade comovente, um mosaico futurista que vai de encontro
certeiro à música espantosamente apropriada do mestre Vangelis; um trabalho que remodelou a ficção científica no cinema, não
só do ponto de vista técnico, mas também conceitual, assim como o ―2001‖, de Kubrick, fizera em 1968 – um rompimento com
a ingenuidade. Um trabalho que, visual e esteticamente falando, parece ter sido feito ontem.
Trabalha apenas com um nível do romance, é verdade, aquele que pode ser descrito, com reservas, como a parte
aventureira da história, deixando de lado as outras implicações; principalmente as religiosas, um tema subsidiário sempre
explorado por Dick em suas obras, e que aqui se apresenta através das aparições esporádicas do guru messiânico Mesmer e sua
doutrina empática de redenção e perda, o mesmerismo. Se no livro o mesmerismo, então a religião dominante, tinha um papel
fundamental para o desenvolvimento da trama, no filme vemos o aspecto religioso, em sua conotação literal, sendo substituído
por um apelo comercial metaforicamente ambíguo: néons ultracoloridos e insinuantes que se espalham por todos os cantos da
cidade, invadindo mesmo até a privacidade dos lares, enquanto enormes plataformas de anúncios ambulantes (patrocinadas por
coisas como Coca-Cola e JVC) sobrevoam a cidade lembrando a todo tempo os benefícios de se mudar para uma colônia
planetária, ―a chance de começar de novo, num mundo de maravilhas e descobertas―. Como em ―Os Mercadores do Espaço‖
(―The Space Merchants‖, 1953), de Frederick Pohl e Cyril M. Kornbluth, a propaganda é levada às últimas conseqüências, num
mundo superpovoado e sem qualquer esperança (isto porque, antes de fazer carreira no cinema, Ridley Scott era um famoso
diretor de comerciais de TV).
Assim, mesmo substituindo um tópico importante por outro, o filme materializa de forma sensacional a visão dickiana
do futuro. Num artigo para a ―Starlog‖ número 64 (novembro de 1982), diz Norman Spinrad: ―Blade Runner é uma tradução
essencialmente verdadeira de ‗Do Androids Dream of Eletric Sheep?‘, um filme sério para adultos, um filme de ficção
científica mais verdadeiro do que quase qualquer outra coisa já feita no gênero. Torna inválido a todos, é uma pequena obra
prima no mínimo, e qualquer um que procure uma ficção científica real, com intenções realmente sérias, deveria vê-lo―. E olha
que ele falava daquela versão truncada e superficial que apareceu originalmente.
O caso é que tudo conspira para tornar a obra realmente épica e mítica: a futurística e chuvosa Los Angeles é uma
megalópole terrível e ao mesmo tempo fascinante, palpável, crua, tão assustadoramente real quanto os coloridíssimos néons
que a enfeitam; a mais completa e verdadeira já imaginada pela FC em película (cortesia de Douglas Trumbull e Syd Mead,
gênios na área dos efeitos visuais). Cyberpunk, como preferem alguns. O pano de fundo perfeito para o desenrolar do drama
complexo e sufocante dos andróides invasores em busca de sua identidade, enquanto são caçados impiedosamente por um
blade runner que nem ao menos sabe por que está fazendo aquilo. Um blade runner que descobre, espantado, que ele mesmo
pode ser um replicante. Quem irá caçá-lo?, nos perguntamos naturalmente, mas a moral é clara: quem não for um replicante que
atire a primeira pedra.

Comentários de Cinema – Parte 35


Ataque Alienígena (Alien Attack, Inglaterra, 1976)
La Maldición de la Bestia (Night of the Howling Beast, Espanha, 1975)
Maldição de Zachary, A (Slime City, EUA, 1988)
Possessão (Witchboard III – The Possession, EUA / Canadá, 1995)
Terror Mortal (Deadly Strangers, Inglaterra, 1975)
* Ataque Alienígena (1976)

Telefilme formado pela compilação de 2 episódios da série de TV ―Espaço 1999‖

―Espaço 1999‖ (1975 / 1977) é uma série de TV de ficção científica com produção inglesa de Gerry e Sylvia
Anderson, e que teve duas temporadas com 48 episódios de 50 minutos. Alguns episódios foram compilados e transformados
em telefilmes de longa metragem nos anos seguintes. Um desses filmes para a televisão é ―Ataque Alienígena‖ (Alien Attack,
1976), dirigido por Charles Crichton, Lee H. Katzin e Bill Lenny, numa reunião dos episódios número 1 ―Breakaway‖ e
número 4 ―War Games‖.

―Desde o início dos tempos quando o Homem olhou para o Universo, nossa galáxia foi dominada pela Lua, o grande
satélite natural da Terra. Essa obsessão levou às explorações em meados do século XX, culminando na base lunar de hoje. Um
instrumento complexo e adiantado, auto-suficiente em todos os aspectos. O centro de comando, Base Lunar Alfa, é uma estação
bem colonizada, monitorada regularmente e funcionando bem. Sua existência foi possível pela alimentação com lixo nuclear da
Terra. Desta base as fronteiras podem se estender e a busca por outras formas de vida tornou-se possível. Recebemos agora
sinais do planeta Meta, que podem ser seres inteligentes. A missão: sondagem com homens. A nave está pronta, a tripulação
completa o seu treinamento. O ano: 2100.‖

Com essa introdução narrada, tem início ―Ataque Alienígena‖, com a curiosidade de alterar o ano de 1999 (da série de
TV) para 2100, numa tentativa dos produtores em dar mais credibilidade para os avanços tecnológicos. Na Terra, o Comissário
Gerald Simmonds (Roy Dotrice), nomeia o Comandante John Koenig (Martin Landau, 1928 / 2017) para chefiar uma base
científica na Lua com 300 homens e mulheres, e tentar descobrir a causa misteriosa da morte de vários astronautas, com danos
cerebrais graves sem recuperação, causando surtos seguidos de morte, podendo ter alguma relação com o lixo tóxico vindo da
Terra e armazenado na Lua. Seu objetivo também é liderar uma equipe de sondagem do planeta Meta. Para ajudá-lo, ele conta
com o apoio da responsável pela equipe médica, a Dra. Helena Russell (Barbara Bain), e também o cientista Prof. Victor
Bergman (Barry Morse).
Porém, ocorre uma explosão nuclear de grandes proporções com os resíduos tóxicos estocados no lado oculto do
satélite, tirando-o da órbita da Terra rumando para o espaço infinito, carregando a base Alfa e impossibilitando alguma ação de
resgate, sendo considerada perdida. Uma vez viajando sem destino, eles entram em contato com um planeta misterioso e um
confronto bélico é inevitável. De um lado, os humanos procurando um novo lar, e do outro, os alienígenas bem mais
avançados, representados por um humanoide macho (Anthony Valentine) e uma fêmea (Isla Blair), que não querem ser
importunados pelos intrusos da Terra.
A primeira parte de ―Ataque Alienígena‖ é mais arrastada, com o foco na investigação do Comandante Koenig sobre o
mistério da radiação magnética que está levando os astronautas da base lunar à loucura e depois morte, até a ocorrência da
explosão que lançou a Lua sem rumo no espaço. Depois, na segunda metade, com as ações de batalha espacial entre os
humanos e os alienígenas o ritmo narrativo ganhou intensidade com tiroteios, explosões de bombas, naves destruídas e
incêndios nas instalações de ambos os lados da guerra.
Os efeitos especiais são datados dos anos 1970 e considerados ótimos para os padrões da época, com naves espaciais e
instalações da base lunar em miniaturas, além de cenários e figurinos futuristas, tudo sem o apoio da computação gráfica que
auxilia na concepção dos efeitos do cinema moderno do século XXI.
Curiosamente, ―Ataque Alienígena‖ foi distribuído no Brasil em vídeo VHS pela ―Office‖ e outros filmes de longa
metragem também foram lançados com compilações de episódios da série ―Espaço 1999‖, como ―Journey Through the Black
Sun‖ (1976), ―Destination Moonbase-Alpha‖ (1978) e ―A Princesa Cósmica‖ (1982).
(RR – 30/09/17)

* La Maldición de La Bestia (1975)

Oitavo filme de Paul Naschy como o lobisomen Waldemar Daninsky mistura diversos clichês do
gênero
Dono de uma carreira voltada para o divertido cinema fantástico bagaceiro, o multifuncional espanhol Paul Naschy
(1934 / 2009) é um dos cultuados nomes do gênero e criador do lobisomem Waldemar Daninsky, atuando como esse
personagem em 13 filmes entre 1968 e 2004. O oitavo da série recebeu vários nomes diferentes, desde o original espanhol ―La
Maldición de la Bestia‖ até alguns títulos ingleses como o estranho ―The Werewolf vs. the Yeti‖ e o sonoro ―Night of the
Howling Beast‖. Dirigido por Miguel Iglesias (creditado como M. I. Bonns) em 1975, o roteiro também é de Paul Naschy
(creditado como Jacinto Molina), numa mistura com vários clichês do gênero, abordando licantropia, vampirismo, canibalismo
e até o folclórico ―Yeti‖, mais conhecido na cultura pop como o ―abominável homem das neves‖.
O aventureiro Waldemar Daninsky (Paul Naschy) se encontra com o Prof. Lacombe (Josep Castillo Escalona) e sua
bela filha Sylvia (Mercedes Molina, creditada como Grace Mills), para formar uma expedição científica nas montanhas do
Himalaia, Tibet, para tentar localizar o lendário homem das neves, também conhecido como ―Yeti‖. Faz parte também do
grupo, entre outros, o jovem Larry Talbot (Gil Vidal). Daninsky encontra uma misteriosa caverna nas montanhas geladas, com
um antigo santuário budista em seu interior, protegida por duas belas guardiãs que se revelam vampiras demoníacas e canibais.
Elas aprisionam Daninsky como escravo sexual e através de uma mordida ele é transformado em lobisomem nas noites
de lua cheia. Após conseguir escapar do cativeiro, ele ainda tem que enfrentar um tirano sádico, Sekkar Khan (Luis Induni),
que lidera um grupo de bandidos violentos, juntamente com a perversa feiticeira Wandesa (Silvia Solar), e que seqüestraram os
membros da expedição científica do Prof. Lacombe. Seu objetivo agora é lutar para salvar a bela Sylvia das garras do vilão,
mas seus problemas se intensificam ainda mais ao cruzar o caminho do ―Yeti‖ e confrontá-lo numa luta mortal.
Os efeitos de trucagem na transformação de Daninsky em lobisomem são muito interessantes, e a maquiagem tosca
tanto do lobisomem quanto do ―Yeti‖ são bem divertidas, analisando dentro do contexto do cinema bagaceiro de horror. O
filme tem muitas mortes sangrentas, apesar de pouco gráficas. E um destaque certamente é uma cena de tortura de uma mulher
que tem parte da pele das costas arrancada brutalmente para servir de tentativa de alívio num tratamento alternativo das
terríveis dores causadas por feridas nas costas do vilão Sekkar Khan.
Curiosamente, o nome do personagem Larry Talbot é o mesmo do filme ―O Lobisomem‖ (The Wolfman, 1941), da
produtora americana ―Universal‖, com Lon Chaney Jr. interpretando o papel do homem que se transformaria em lobisomem.
A opção de enfatizarem a criatura mítica ―Yeti‖ em títulos alternativos do filme parece nitidamente oportunista para
chamar a atenção do público, pois o homem das neves aparece pouco, apenas rapidamente no início do filme, e depois no
desfecho, na luta com o lobisomem.
Uma das taglines promocionais, que numa tradução literal seria algo como ―duas feras sanguinárias num combate
mortal‖ é bem sensacionalista, uma vez que o tal confronto só acontece no final e de uma forma que pode ser considerada
discreta e decepcionante. ―La Maldición de La Bestia‖ é basicamente um filme tosco de lobisomem com quase nada de ―Yeti‖.
É evidente a boa tentativa de horror dos realizadores, mas mesmo com resultados apenas medianos, o filme ainda fez
parte da lista de produções banidas na Inglaterra (os chamados ―vídeos nasty‖) na década de 1980, pelo conteúdo de violência.
(RR – 06/10/17)

* A Maldição de Zachary (1988)


Sangue, tripas e gosmas do cinema bagaceiro de horror dos anos 80
Lançado em vídeo VHS no Brasil pela ―Lamy Filmes‖, ―A Maldição de Zachary‖ (Slime City, 1988), com direção e
roteiro de Gregory Lamberson, é o típico filme bagaceiro de horror dos anos 80, nitidamente datado, com as trilhas sonoras da
época e efeitos especiais sem as facilidades da computação gráfica, com várias cenas de mortes sangrentas, tripas expostas e
gosmas coloridas para todos os lados.
Na história, Alex Carmichel (Craig Sabin) é um estudante e aspirante a pintor que se muda para um apartamento na
tentativa de ficar ainda mais próximo da namorada e colega de escola Lori (Mary Huner). No mesmo prédio moram outros
jovens estranhos como Roman (Dennis Embry) e a bela Nicole (também Mary Huner), além das idosas Ruby (Bunny Levine),
que convenceu Alex a alugar o apartamento, e Lizzy (Jane Doniger Reibel), a proprietária do prédio. Roman logo oferece ao
novo inquilino um misterioso caldo gosmento para se comer como iogurte, e a bela Nicole, que está sempre pouco vestida com
roupas de couro, logo utiliza seu charme e sensualidade para seduzir Alex.
A Sra. Lizzy é filha de Zachary Devon, um antigo feiticeiro conhecedor de alquimia e ocultismo, que liderava uma
seita satânica onde todos os seguidores se suicidaram e tentavam retornar do mundo dos mortos se apossando do corpo dos
jovens que moravam no prédio. O bruxo deixou como legado um misterioso líquido verde, armazenado em garrafas no porão,
mantido por Lizzy e oferecido como um elixir para Alex beber. O rapaz então se transforma numa criatura deformada e
gosmenta, ávida por matar, derretendo um líquido viscoso de seu corpo. E com o desaparecimento de suas vítimas, entre
mendigos, prostitutas e até os próprios amigos como Jerry (T. J. Merrick), ele acaba despertando a atenção da polícia
incompetente, através da investigação do detetive Irish (Dick Biel), incapaz de descobrir qualquer coisa e impedir as ações do
assassino.
Se por um lado o filme tem a tradicional história clichê do homem transformado em monstro assassino, com atuações
inexpressivas do elenco, podemos enaltecer os efeitos especiais, mesmo numa produção de baixo orçamento. Eles são muito
divertidos, principalmente nas cenas violentas no desfecho do filme, com banhos de sangue, tripas dilaceradas e cérebro
rastejante sem CGI. Temos até cabeça separada do corpo e membros decepados que continuam vivos e ansiosos para sangrar a
mocinha.
Curiosamente, percebemos influências de outros filmes divertidos do horror bagaceiro como ―O Incrível Homem Que
Derreteu‖ (1977), ―A Coisa‖ (1985) e ―Street Trash‖ (1987), entre outros. Teve uma continuação em 2010, ―Slime City
Massacre‖, também do diretor e roteirista Gregory Lamberson e com o mesmo ator Craig Sabin.
(RR – 13/10/17)

* Possessão (1995)
Terceiro filme da franquia “Witchboard” é apenas mais do mesmo, ruim e dispensável
―No primeiro contato que tive com o tabuleiro Ouija, conhecido nos tempos antigos como a tábua da bruxa, julguei
que fosse só um brinquedo, um desses jogos que fingia invocar os espíritos dos mortos. Eu estava mortalmente errado. A tábua
Ouija é um portal para o outro mundo, que chama tanto bons como maus espíritos. Foi azar chamar o espírito de Nagor e seu
culto de fertilidade. Meu nome é Francis Redmond e estou atualmente morto.‖
Essa é a introdução de ―Possessão‖ (Witchboard III – The Possession, 1995), lançado no Brasil em vídeo VHS pela
―Canyon International‖, sendo o terceiro filme de uma franquia que ainda conta com ―Espírito Assassino‖ (Witchboard, 1986),
lançado em VHS por aqui pela ―Look‖, e ―Entrada Para o Inferno‖ (Witchboard 2: The Devil´s Doorway, 1993), em VHS pela
―Mundial‖. Como cada filme foi lançado por uma distribuidora diferente, termos uma imensa confusão de títulos nacionais,
dificultando ainda mais o árduo trabalho de pesquisa e catalogação dos colecionadores.
Dirigido por Peter Svatek e com Kevin S. Tenney como um dos roteiristas (ele foi o diretor dos dois primeiros filmes
da série), a história clichê é sobre a manjada tábua Ouija, já explorada à exaustão no cinema, um artefato mágico que permite a
comunicação com os mortos.
A bela Julie (Locky Lambert) é casada com Brian (David Nerman), um corretor de ações que está desempregado e
com dificuldades para encontrar uma recolocação no mercado. Eles moram de aluguel num apartamento cujo prédio é de
propriedade do misterioso Francis Redmond (Cedric Smith), um senhor idoso solitário que coleciona objetos antigos de
bruxaria e ocultismo, incluindo um tabuleiro Ouija. Ele logo convida Brian para participar de uma sessão com a ―tábua da
bruxa‖ (―Witchboard‖, do título original da franquia), mostrando como incentivo o fato de ter enriquecido no mercado de ações
com informações privilegiadas obtidas através de um espírito.
Porém, o contato com os mortos trouxe graves conseqüências para a vida de Brian, relacionadas com o nome do filme,
trazendo para o nosso mundo o espírito de um demônio à procura de uma mulher fértil que pudesse gerar seu filho. A esposa
Julie percebe as mudanças estranhas no comportamento de Brian, que inclui brincadeiras desagradáveis com uma amiga dela, a
igualmente bela Lisa (Donna Sarrasin), e tenta descobrir a verdade para salvar o espírito atormentado do marido, preso em
outra dimensão.
―Possessão‖ é apenas mais um filme comum e arrastado utilizando o tema da tábua Ouija, e que com a simples menção
de seu nome já se imagina o roteiro clichê. Um espírito maligno é invocado, se apossa do corpo de um homem, e temos um
demônio na Terra para colocar em prática seu plano de reprodução. Nada mais óbvio e desgastante. O filme é datado dos anos
90, com efeitos especiais toscos e típicos dos filmes bagaceiros daquele período. Talvez o espectador até consiga obter alguma
diversão rápida, não com a história patética, mas nos momentos de aparição do demônio em sua forma real. No mais, trata-se
apenas de outro filme que nasceu para se perder no limbo.
(RR – 22/10/17)

* Terror Mortal (1975)


Nem todos os pesadelos acontecem enquanto você dorme
―Terror Mortal‖ (manjado título nacional escolhido para o original ―Deadly Strangers‖) é um thriller inglês de 1975
que era exibido na televisão nas madrugadas da TV Globo, na sessão ―Corujão‖.
Dirigido por Sidney Hayers, a história mostra a fuga de um paciente de um hospital psiquiátrico numa cidade no
interior da Inglaterra, aproveitando uma oportunidade de distração no atendimento de uma enfermeira. A polícia então logo
inicia o processo de procura do fugitivo louco e informa a ocorrência na região, alertando para a ameaça de segurança e o
perigo mortal que representa o paciente do hospício solto nas ruas.
Enquanto isso, uma bela jovem, Belle Adams (Harley Mills), está numa lanchonete de estrada tentando conseguir
carona para pegar um trem numa estação ferroviária próxima. Depois de um incidente desagradável com o motorista do
caminhão que decidiu levá-la inicialmente, ela aceita depois o convite de carona no carro de Stephen Slade (Simon Ward), um
misterioso vendedor que passa a maior parte do tempo viajando, e que exagera no consumo de bebida alcoólica e demonstra
um comportamento estranho de ―voyeur‖. E as coisas se complicam bastante após um confronto indesejado com dois
motoqueiros arruaceiros na estrada e a presença de um psicopata assassino nas redondezas.
―Terror Mortal‖ é uma produção de baixo orçamento nitidamente datada dos anos 70 do século passado, um thriller
com elementos de ―road movie‖ que apesar dos inevitáveis clichês até consegue manter uma relativa atenção nas ações do casal
recém formado, as constantes fugas pelas estradas do campos ingleses, a ameaça do fugitivo do asilo de loucos e a dúvida de
sua identidade, a tradicional incompetência da polícia, que nunca consegue impedir os assassinatos e sempre está atrasada nas
investigações, além de uma interessante reviravolta no desfecho. O filme tem uma história simples, mas eficiente, sem
barulheira, tiroteios e ação desenfreada que mais cansam do que instigam. Ao contrário, o roteiro aposta em suspense sutil e
insinuações que presenteiam o espectador com uma diversão rápida e a nostalgia da década de 1970.
Tanto Hayley Mills quanto Simon Ward eram atores bastante conceituados na época e suas performances são
convincentes e de grande valor para o filme, cuja história simples poderia transformá-lo apenas em outro exemplo descartável
do estilo. E curiosamente, o veterano ator americano Sterling Hayden (1916 / 1986) teve uma participação pequena como um
excêntrico galanteador que também oferece carona para a mocinha.
(RR – 20/10/17)
“A morte é apenas o começo... de uma eterna vida de dor...”

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