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TRAUMATISMOS CRÂNIO-ENCEFÁLICOS

A inclusão deste tema num seminário do Curso Intensivo de Medicina Legal deriva da frequência de abordagem de
múltiplas questões com ele relacionadas nos tribunais. Com simplicidade, destacam-se as múltiplas lesões a nível da
neurologia neurocirurgia psicologia e psiquiatria e outras especialidades na área da saúde para avaliação legal da
repercussão na pessoa humana.

Os traumatismos crânio encefálicos (TCE) constituem uma entidade de relevância em saúde pública com repercussão
legal em conformidade com a previsão normativa de cada país.

Do TCE podem resultar deficiências psicofísicas quando a morte não surge contrapondo-se aos casos mortais nas lesões
encefálicas mais graves.

No vivo, a depressão, a epilepsia, as psicoses e as demências são quatro a cinco vezes mais frequentes no caso de
sequelas de TCE.

Calcula-se cerca de um milhão de novos casos por ano na União Europeia. Entre estes contam-se os acidentes de viação
sobretudo por excesso de velocidade ou consumo de álcool, as quedas, as agressões em geral e os maus tratos infantis
em particular.

Numa perspetiva pedagógica, para mais facilidade de compreensão do tema, classificam-se as lesões cerebrais em focais
e difusas. Focais são as que atingem uma determinada parte do encéfalo de extensão variável mas sem atingir a sua
totalidade. Serão c quando se encontram fora do tecido nervoso (hematoma epidural, hematoma subdural).
Dizem-se intra-axiais quando se situam no próprio tecido nervoso lesionando-o ou destruindo-o. É o caso das contusões
cerebrais e as hemorragias constituindo os hematomas intraparenquimatosos.

As lesões difusas afetam mais ou menos a generalidade do encéfalo. Não é necessário que atinjam todo o tecido cerebral,
mas os seus limites não são definidos como nas lesões focais e revestem mais a forma microscópica do que macroscópica
isto é, facilmente observáveis à vista desarmada.

Um TCE pode resultar da ação de um objeto provido com energia cinética, isto é, em movimento, com produção de lesão
craniocerebral.

A resistência do crânio é ultrapassada num determinado ponto, com afundamento da parte óssea externa (tábua externa)
e muitas vezes também da tábua interna.

No caso dos ferimentos por arma de fogo, pelo contacto com o exterior, há grande probabilidade de infeção.
É para notar que um TCE pode ser “aberto” quando embora fechado haja contacto do circuito cefalorraquidiano (LCR)
com o exterior. É o caso de muitas fraturas do frontal e têmporas que provocam a saída de LCR pelo nariz ou pelos
ouvidos, o que transforma os TCE fechados em abertos.

O principal inconveniente nestes casos é o risco de meningite.

Professor Doutor J. Pinto da Costa 1


Os ferimentos por armas de fogo constituem o paradigma das lesões crânio-centrais na sua produção xx e sequelas
clínicas.
Dum modo geral, as fraturas podem ser lineares e deprimidas quanto à sua morfologia.

Nas causas de morte atendíveis oficialmente para registo oficial, o TCE tem situação determinada.

Quando o diagnóstico de uma fratura craniana não é atempadamente feito, pode haver lugar a responsabilidade médica.
A experiência prática de autópsias médico-legais por acidentes de viação, evidencia as lesões hemorrágicas como
fundamento da morte nas mais variadas expressões morfológicas agudas ou crónicas.

Do ponto de vista médico-legal para mais fácil apreciação estatística, as sequelas dos TCE classificam-se em neurofísicas,
motoras e sensitivo-sensoriais, neurológicas pós traumáticas, dolorosas, da conduta e afetivas.

O prognóstico das sequelas é muto difícil porque as variáveis são múltiplas como a idade, existência prévia de outras
doenças, o abuso de álcool e de outras drogas, o tipo de traumatismo e a sua gravidade.

Por sequelas neurofísicas entendem-se as deficiências relacionadas com a cabeça, extra ou intracranianas, mas sempre
fora do sistema nervoso central.

As sequelas motoras, sensitivas e sensoriais, compreendem as hemiplegias, hemiparesias, monoplegias, paraparesias,


tetraplegias ou tetraparesias, hemideficientes sensitivos, hemianopsias, anosmias, diplopias, cegueira, paralisia ou
paresia de pares cranianos e outras alterações dos aferentes ou eferentes do sistema nervoso central.

Tais sequelas, para efeito de reparação jurídica, devem ser consideráveis e relevantes na diminuição que provocam na
capacidade humana considerada normal.

Além dos AVC de causa espontânea, por alterações anátomo-patológicas variadas como arteriosclerose, alcoolismo,
aneurismas e outras, o AVC pode resultar de traumatismo crânio-encefálico normalmente devido a lesão mecânica
vascular, a vaso espasmo, a embolia gasosa, a embolia gorda e a enfarte cerebral por isquemia.

A alteração da circulação normal do líquido cefalorraquidiano pode resultar de hidrocefalia normotensiva ou de


siringomielia. Inclui-se nos TCES a designada siringomielia traumática cujo diagnóstico diferencial se impõe para a
distinguir da espontânea. A siringomielia carateriza-se pelo aparecimento de cavidades na medula.

É importante sublinhar que a esclerose múltipla, uma doença natural grave, também pode ser consequência de um
traumatismo crânio-encefálico. Ainda que raramente, um TCE pode relacionar-se com o desenvolvimento de tumores
cerebrais, designadamente meningiomas e glioblastomas.

São consequências de TCE a epilepsia pós-traumática, a produção de movimentos anormais como o tremor e distonias.

Sequela frequentemente encontrada nos TCE é a dor cuja apreciação é difícil, pela subjetividade de quem se queixa.

A síndrome subjetiva dos traumatizados de crânio é definida por cefaleias, vertigens, fobias e alterações do caráter como
as mais frequentes.

A depressão e a mania manifestam-se em muitos pacientes após um traumatismo crânio-encefálico.

A valorização das sequelas é feita de acordo com as normas em vigor.

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