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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL


FACULDADE DE EDUCAÇÃO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO - PPGEdu

Celine Lehmann Escher Almeida

A propósito da leitura de altas verdades vitais:  

impressão, difusão da palavra escrita em língua alemã e práticas


de leitura do almanaque Der Familienfreund  

(RS, 1912-1956)  

Porto Alegre
2015
  3    

Celine Lehmann Escher Almeida

A propósito da leitura de altas verdades vitais:  

impressão, difusão da palavra escrita em língua alemã e práticas


de leitura do almanaque Der Familienfreund  

(RS, 1912-1956)  

Dissertação de Mestrado apresentada ao


programa de Pós-graduação em Educação da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul,
como requisito parcial para obtenção do título
de Mestre em Educação.

Orientadora: Profª Maria Stephanou

Linha de pesquisa: História, Memória e


Educação

Porto Alegre
2015
CIP - Catalogação na Publicação

Lehmann Escher Almeida, Celine


A propósito da leitura de altas verdades vitais:
impressão, difusão da palavra escrita em língua alemã
e práticas de leitura do almanaque Der Familenfreund
(RS, 1912-1956) / Celine Lehmann Escher Almeida. --
2015.
139 f.

Orientador: Maria Stephanou.

Dissertação (Mestrado) -- Universidade Federal do


Rio Grande do Sul, Faculdade de Educação, Programa de
Pós-Graduação em Educação, Porto Alegre, BR-RS, 2015.

1. História da leitura. 2. História da educação. 3.


Leitura de almanaques. 4. Leitura na família. I.
Stephanou, Maria, orient. II. Título.

Elaborada pelo Sistema de Geração Automática de Ficha Catalográfica da UFRGS com os


dados fornecidos pelo(a) autor(a).
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Celine Lehmann Escher Almeida

 
 
 

A propósito da leitura de altas verdades vitais:  

impressão, difusão da palavra escrita em língua alemã e práticas


de leitura do almanaque Der Familienfreund  

(RS, 1912-1956)  

Dissertação de Mestrado apresentada ao


programa de Pós-graduação em Educação da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul,
como requisito parcial para obtenção do título
de Mestre em Educação.

 
 
 
 
 
_____________________________________________________________________________________________  
Profa. Maria Stephanou – Orientadora

______________________________________________________________
Profa. Dóris Bittencourt Almeida – PPGEDU/UFRGS

______________________________________________________________
Profa. Patrícia Weiduschadt – UFPel

______________________________________________________________
Profa. Larissa Camacho Carvalho - UCS

   
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À minha família, a de origem e a que estou construindo com o Felipe.


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AGRADECIMENTOS

Nestes dois anos de estudo, reflexão e escrita, muitas pessoas auxiliaram esta
pesquisa de diversas formas, e cabe aqui um momento especial para agradecê-las.
Inicialmente, agradeço ao meu marido, grande amor e parceiro da minha vida, pela
cumplicidade também na vida acadêmica, pela escuta amiga e pelo constante incentivo.
Aos meus pais e irmã, pelo amor, apoio e compreensão nas horas de ausência. Aos
meus pais, pelo incentivo a voos corajosos e constante torcida. À minha irmã, pela
parceria e amizade que fazem-se essenciais na minha vida. Aos meus familiares, aos
presentes e aos que não estão mais aqui, por todos os ensinamentos e exemplos de vida
que tive o prazer e a sorte de conhecer.
À minha orientadora, Profª Maria Stephanou, pela orientação zelosa, escuta e
leituras atentas, pelo incentivo em todas as etapas destes anos de estudo, por partilhar
tanta sabedoria em encontros de orientação que sempre inspiraram novas leituras e
reflexões. Além da vida acadêmica, agradeço pela convivência e amizade, em momentos
repletos de carinho e afeto, bem como pelo grande exemplo de pessoa que tenho a
oportunidade de conviver.
Às colegas e amigas Carolina, Carine, Patrícia, Mariana, Viviane, Caroline e Letícia,
e também aos demais colegas do PPGEdu, em especial à Nara e Natália, pela relação
fraterna e pelas trocas que foram um incentivo nesse percurso. Aos colegas e associados
da ASPHE, pelos encontros produtivos e inspiradores para o estudo em História da
Educação.
Às minhas colegas de trabalho, professoras e amigas que com certeza me
auxiliaram no ofício docente, em uma convivência prazerosa e cooperativa,
consequentemente contribuindo à escrita acadêmica também.
Ao professor René Gertz, primeiro contato que tive e que abriu um horizonte de
possibilidades entre os impressos no Acervo Benno Mentz, pelas sugestões e
informações partilhadas, ao sempre atento e cordial retorno das minhas dúvidas, meu
sincero agradecimento. À equipe do espaço Delfos, principalmente à Kátia e ao Lucas, e
também à equipe do acervo Benno Mentz, em especial à professora Gislene, ao Daniel e
à Carolina, por toda a atenção e disponibilidade durante as minhas idas ao Acervo.
    7  

Ao irmão Celso, pelo incentivo e interesse, pelas indicações e contatos preciosos


para que eu compreendesse mais sobre o impresso estudado. Ao senhor Egon, pelas
informações também essenciais, às respostas atenciosas e cordiais, assim como pelo
auxílio especial para algumas leituras do almanaque.
Ao professor João Rudimar, um feliz reencontro que tive durante a pesquisa,
agradeço pela acolhida e atenção. À equipe do Memorial Jesuíta, pela disponibilidade, e
aos leitores entrevistados, em especial ao senhor Roque, pela prontidão, assim como pelo
interesse partilhado pela temática.
Ao Programa de Pós-graduação em Educação da UFRGS e seus professores,
agradeço, primeiramente, pela possibilidade de estudo e aprimoramento. Um
agradecimento especial também aos funcionários do programa, por todos os auxílios que
foram essenciais para a conclusão destes dois anos de estudo.
Às professoras Dóris Bittencourt Almeida, Maria Helena Camara Bastos e ao
professor René Gertz, pela leitura atenta e sugestões no momento de qualificação.
Novamente à professora Dóris, às professoras Patrícia Weiduschadt e Larissa Camacho
Carvalho por aceitarem ler a dissertação e participar e partilhar seus conhecimentos no
momento de defesa final.
    8  

RESUMO

A dissertação examina o almanaque Der Familienfreund – katholischer hauskalender


und wegweiser (O amigo da família – almanaque católico e guia), um impresso
produzido e em circulação no Rio Grande do Sul entre 1912 e 1956, redigido
majoritariamente em língua alemã em todas as suas edições. Este almanaque foi
editado pela Tipografia do Centro e idealizado por Hugo Metzler,. Na idealização deste
impresso, esteve presente o vínculo com a igreja católica, mais especificamente com os
Jesuítas. O estudo adota os pressupostos teóricos da História Cultural e da história da
cultura escrita, sob inspiração dos estudos de Roger Chartier. São analisadas as trinta e
oito edições do almanaque e estabelecidas relações com outros impressos. Como
documentação complementar, foram produzidos documentos orais a partir da realização
de entrevistas com dois leitores do impresso e com pessoas que tiveram o contato com
o mesmo ou familiaridade com os impressos produzidos em língua alemã no Rio Grande
do Sul. A partir do corpus empírico, a análise intentou compreender seus contextos de
produção e circulação, bem como os usos desse impresso. Com esta finalidade, fez-se
uma aproximação à materialidade das edições, ou seja, dos suportes nos quais os
textos são organizados, os dispositivos textuais e tipográficos, os protocolos de leitura,
em especial as imagens e as escolhas editoriais. Constatou-se que as marcas editorias
do gênero almanaque caracterizam fortemente este impresso. A temática religiosa
apresenta-se recorrente, como também temáticas diversas. A importância do impresso à
sua comunidade de leitores pôde ser percebida nas entrevistas realizadas, assim como
a sua circulação nas cidades do interior, especificamente na região de Arroio do Meio. A
aquisição deste por meio de um empréstimo consignado, em casas de comércio ou na
própria escola, pode ser afirmada, inferindo-se também uma possível circulação entre as
autoridades religiosas. A influência religiosa, assim como a semelhança com
almanaques editados na Alemanha, foram igualmente constatadas. Os protocolos de
leitura enunciados nas capas de algumas edições do almanaque foram reafirmados nas
entrevistas realizadas, que ressaltaram a leitura compartilhada e, também, o acesso da
família ao impresso, ou seja, prevaleceu a ideia de ser um impresso destinado a toda a
família, sem conteúdo impróprio para crianças. A relação entre o impresso e a
preocupação de membros da comunidade católica com o que consideravam leitura “má”
e leitura “boa” para suas comunidades de leitores foi evidenciada. Para além do caráter
religioso, o almanaque Der Familienfreund cumpriu a função de oferecer leituras
instrutivas, formativas e servir de instrumento de coesão étnico-cultural junto às
comunidades dos teuto-católicos. Disseminou informações diversas. A importância que
o gênero impresso estudado e, especificamente, o almanaque Der Familienfreund teve
em sua área de circulação pôde ser considerado com esta dissertação: este foi um
artefato de informação e entretenimento, com caráter moralizador e com a intenção de
unir e informar a comunidade teuto-católica, uma das poucas opções de leitura de sua
comunidade de leitores.

Palavras-chave: História da leitura, história da educação, leitura de almanaques, leitura


na família.
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ABSTRACT

This thesis examines the almanac Der Familienfreund - katholische haus kalender und
wegweiser (The Family Friend - Catholic Almanac and Guide), which was produced and
published in Rio Grande do Sul between 1912 and 1956. With almost all its editions in
German, this almanac was published by Tipografia do Centro and was designed by Hugo
Metzler. Its idealization involved the Catholic Church, more specifically the Jesuits. The
study adopts the theoretical assumptions of Cultural History and History of Written
Culture, assuming Roger Chartier’s studies. Thirty eight almanac editions and other
relevant material were analyzed. To help the analysis, interviews with two readers of the
almanac and with people who had contact with it or with other printed material in German
were carried out. From that, oral documents were produced. The empirical corpus
analysis aimed to understand the almanac’s contexts of production and circulation, as
well as its uses. With this objective, the analysis attempted to comprehend the utilization
of this material, the textual and typographical devices, the reading protocols, and
especially the images and editorial choices. It was noticed that editorial marks of this
genre strongly characterized this almanac. Religious and various other themes were
present in this material. The importance of the almanac to its community of readers could
be noticed in the interviews, as well as in its circulation in the countryside, especially
around Arroio do Meio, Rio Grande do Sul. The acquisition of the almanac through a
payroll loan in trading houses or at schools could be claimed, as well as the circulation
among religious authorities. The religious influence and its similarity to almanacs
published in Germany could be noticed. The reading protocols in the cover of some
editions were reinforced in the interviews, emphasizing the reading was shared among all
the family. In this sense, the idea of being an almanac to the whole family prevailed,
since there was no inappropriate content for children. It was observed that there was a
relation between the almanac and what the members of the Catholic community
considered "bad" and "good" reading. In addition to the religious feature, the almanac Der
Familienfreund fulfilled its function of offering instructive readings and it was an ethno-
cultural cohesion instrument in the German-Catholics communities, also spreading
information. This thesis highlights the importance of the studied genre and the value of
Der Familienfreund almanac in its circulation area: the almanac was a mean of
information and entertainment, with a moralizing feature and the intention to unite and
inform the German-Catholic community, since it was one of the few reading options at
that time.

Keywords: History of reading, History of education, almanacs reading, reading in family.

 
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LISTA DE FIGURAS

Figura 1 – Capa do exemplar de 1955 do almanaque Der Familienfreund..................... 20

Figura 2 – Folha avulsa do exemplar de 1942 recomendando a leitura do jornal “A


Nação”............................................................................................................................... 46

Figura 3 – Texto de Dom João Becker em português e alemão (Der Familienfreund, 1942,
p. 25).................................................................................................................................. 59

Figura 4 – Imagens das edições de 1914 e de 1925 do almanaque Der


Familienfreund....................................................................................................................74

Figura 5 - Capa da primeira edição do almanaque Der Familienfreund,


1912....................................................................................................................................76

Figura 6 - Capa da segunda edição do almanaque Der Familienfreund,


1913....................................................................................................................................78

Figura 7 – Contracapa da edição de 1931, com o brasão em destaque...........................78

Figura 8 - Capa da terceira edição do almanaque Der Familienfreund, 1914...................79

Figura 9 - Capa da décima terceira edição do almanaque Der Familienfreund, 1925 ......81

Figura 10 - Capa da vigésima quinta edição do almanaque Der Familienfreund, 1937....83

Figura 11 - Capa da edição de 1949 do almanaque Der Familienfreund..........................84

Figura 12 - Capa da edição de 1950 do almanaque Der Familienfreund..........................85

Figura 13 - Capa da edição de 1951 do almanaque Der Familienfreund..........................86

Figura 14 - Capa da edição de 1952 do almanaque Der Familienfreund..........................88

Figura 15 - Capa da edição de 1953 do almanaque Der Familienfreund..........................89

Figura 16 - Capa da edição de 1954 do almanaque Der Familienfreund..........................90

Figura 17 - Capa da edição de 1955 do almanaque Der Familienfreund..........................91

Figura 18 - Página do calendário do mês de Julho da edição de 1931 do Der


Familienfreund....................................................................................................................95

Figura 19 - Calendário avulso da edição de 1940 do almanaque Der Familienfreund......96

Figura 20 - Espaços para o registro da família – Exemplar de 1912 (à direita) e de 1931 (à


esquerda) do almanaque Der Familienfreund ...................................................................97
   
11  

Figura 21- Página destinada à escrita (almanaque Daheim Kalender für das Deutsch
Reich – Leipzig – 1914) .................................................................................................... 98

Figura 22- Página do calendário (almanaque Canisius Kalender de 1927 – München Wien
- impresso da rede Jesuíta) .............................................................................................. 98

Figura 23 – Página de enigmas presente na edição de 1914 (Der Familienfreund)........101

Figura 24- Página do almanaque com humor e enigma – (Schwaben, Sttugart, Alemanha,
1933).................................................................................................................................103

Figura 25 – Página com espaço de resposta ao enigma, (Schwaben, Sttugat, Alemanha,


1933).................................................................................................................................104

Figura 26 – Páginas 60 e 61 do Leselust – Neue Fibel für Deutsche Schulen in Brasilien,


1937..................................................................................................................................105

Figura 27 – Páginas 100 e 101 do Leselust – Neue Fibel für Deutsche Schulen in
Brasilien, 1937................................................................................................................. 106

Figura 28 – Narrativa apresentada na edição de 1914 do almanaque Der


Familienfreund..................................................................................................................109

Figura 29 – Capa do livro de Mathias Josef Gansweidt editado pela Tipografia do


Centro...............................................................................................................................110

Figura 30 - Imagem e dado biográfico de Mathias Josef Gansweidt presente no


livro...................................................................................................................................110

Figura 31 - Poesia de Saudação de Ano Novo presente na edição de 1931 do Der


Familienfreund................................................................................................................. 113

Figura 32 – Poesia apresentada no almanaque Der Familienfreund de 1931................ 114

Figura 33 – Páginas das edições de 1931 e 1949 do almanaque Der Familienfreund...116

Figura 34 – Charge de humor presente na edição de 1931 do almanaque Der


Familienfreund..................................................................................................................117

Figura 35– Narrativa apresentada no almanaque Der Familienfreund........................... 119

Figura 36 – Narrativa árabe presente no almanaque Der Familienfreund de 1942........ 123

Figura 37 – Páginas da edição de 1930 do almanaque Der Familienfreund...................124


    12  

LISTA DE TABELAS

Tabela 1 – Informações sobre as entrevistas realizadas sobre o almanaque Der


Familienfreund....................................................................................................................27

Tabela 2 – Características físicas do almanaque Der Familienfreund (edições localizadas


no Acervo Benno Mentz)....................................................................................................53

Tabela 3 – Informações sobre gêneros textuais e espaços para escrita encontrados nos
exemplares do almanaque Der Familienfreund..................................................................65

Tabela 4 – Imagens presentes no almanaque Der Familienfreund....................................67

Tabela 5 - Informações presentes nas capas das edições do almanaque Der


Familienfreund....................................................................................................................72

Tabela 6 – Título e subtítulo dos principais textos presentes na edição de 1912 do


almanaque Der Familienfreund.........................................................................................121
   
13  

SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO........................................................................................... 14  
1.1. TRAJETÓRIA DA PESQUISA............................................................. 18  
1.2. UMA ESCRITA HISTÓRIOGRÁFICA – CAMINHOS TRAÇADOS ..... 22  
1.2.1 METODOLOGIA................................................................................ 24
 
2. O ALMANAQUE DER FAMILIENFREUND: GÊNERO IMPRESSO
ALMANAQUE E IMPRENSA EM LÍNGUA ALEMÃ NO RIO GRANDE DO
SUL ................................................................................................................ 29  
2.1 A IMPRENSA EM LÍNGUA ALEMÃ NO RIO GRANDE DO SUL ........ 29  
2.2 O LIVRO DOS LIVROS – O ALMANAQUE ......................................... 35  
2.3 PRODUÇÃO DE ALMANAQUES EM LÍNGUA ALEMÃ NO RIO
GRANDE DO SUL...................................................................................... 38  
2.4 HUGO MENTZLER E A IMPRENSA CATÓLICA EM LÍNGUA ALEMÃ44
 
3. ALMANAQUE DER FAMILIENFREUND - APROXIMAÇÕES AO OBJETO
DE ESTUDO .................................................................................................. 51  
3.1 NOVAS APROXIMAÇÕES: GÊNEROS TEXTUAIS E IMAGENS
APRESENTADAS ...................................................................................... 62  
3.2 CAPAS DOS EXEMPLARES DO ALMANAQUE DER
FAMILIENFREUND .................................................................................... 69
 
4. MARCAS EDITORIAIS E PRÁTICAS DE LEITURA IMPLICADAS NO
ALMANAQUE DER FAMILIENFREUND ...................................................... 93  
4.1 A NECESSIDADE DE MARCAR O TEMPO – O CALENDÁRIO ......... 94  
4.2. A INTERAÇÃO DO LEITOR – OS ENIGMAS ................................... 100  
4.3. OS CARACTERES GÓTICOS .......................................................... 105  
4.4 OS TEXTOS, OS AUTORES E AS LEITURAS ................................. 111
 
CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................ 128
 
REFERÊNCIAS ........................................................................................... 131
 
APÊNDICES ................................................................................................ 138  
  14  

1. INTRODUÇÃO

O que é importante é um exame cuidadoso


da especificidade de
cada forma de transmissão textual.
(CHARTIER, 2014, p.107)
 
Esta dissertação de mestrado realiza um estudo sobre o impresso intitulado Der
Familienfreund, um almanaque escrito em língua alemã, produzido, impresso e em
circulação no Rio Grande do Sul entre 1912 e 1956.
As descrições realizadas do material analisado, assim como as reflexões tecidas,
inspiram-se nos pressupostos teóricos da história cultural, especificamente nos estudos
acerca da história da cultura escrita. Para Sandra Pesavento (2008), a história cultural
seria um espaço de tensão e uma basculante entre territórios de percepção distintos.
Dispondo-se a examinar o sistema de representações que os homens construíram, em
distintas épocas, para explicar o mundo e lhe atribuir significado, a história cultural
conjectura a abertura à interdisciplinaridade e à comunicabilidade entre diferentes
discursos que falam do real (PESAVENTO, 2008, p. 181). Uma das pretensões do estudo
inspirado nesses pressupostos é “associar a análise das formas de composição, de
publicação e de circulação de determinadas obras com o estudo da maneira pela qual
elas incorporam, segundo seus fins estéticos, os objetos, as normas e os gestos da
cultura escrita de seus tempos” (CHARTIER, 2011, p. 48).
A relação entre a materialidade do suporte ao texto, a sua circulação e a forma com
que este está relacionado às suas utilizações em seu determinado tempo histórico é
importante para pesquisas realizadas sobre a história da cultura escrita, com o objetivo de
realizar uma aproximação às práticas de leitura. Os impressos são assim compreendidos
como práticas culturais significativas para sua comunidade de leitores.
Para Roger Chartier (2004), as práticas de leitura e escrita são práticas culturais, “já
que traduzem em atos as maneiras plurais como os homens dão significação ao mundo
que é seu” (CHARTIER, 2004, p. 18). Para Pesavento (2008), “a cultura diz respeito à
atividade humana expressa na capacidade imaginária de atribuir significados à realidade
e que se manifesta através de palavras, textos, imagens, sons, práticas sociais e ritos”
  15  

(PESAVENTO, 2008, p. 180). Estas produções, assim, fazem parte da vida da


comunidade de leitores, sendo compreendidas como uma das maneiras plurais de
significação do mundo.
A pesquisa realizada constitui uma imersão no objeto de estudo, o almanaque Der
Familienfreund (DFF)1 um artefato cultural que possui características singulares. Como
almanaque, é um impresso de caráter popular com uma significativa diversidade de
características, textos e usos. Destaca-se, também, por ter sido redigido, durante
décadas, em língua alemã e publicado no sul do Brasil.
Importa frisar que a busca maior do estudo não enfatiza a análise específica do
conteúdo dos textos presentes no almanaque em sua totalidade, embora em alguns
momentos a referência aos conteúdos não tenha sido descuidada. A análise principal
voltou-se a sua materialidade, produção e circulação, ou seja, uma maior compreensão
acerca das práticas editoriais e de leitura que envolvem o impresso.
Este almanaque em língua alemã, editado e em circulação especialmente no sul do
Brasil, ainda merece destaque por ser uma produção que apresenta a influência de duas
culturas, expressas nas ilustrações e atributos tipográficos associados à cultura alemã,
como será apresentado na análise, e também com influências expressivas da cultura
teuto-brasileira (dos descentes de alemães), não só com relação à língua escrita (textos
escritos em ambas as línguas ou palavras e enunciados em português), como também
imagens e informações típicas da cultura local.
Segundo Voigt (2007), a formulação do termo teuto-brasileiro foi um conceito
sociológico criado por Emílio Willems (1946), designativo das populações de imigrantes
alemães e seus descendentes no Brasil. O termo teuto-brasileiro, assim, representa a
influência de ambas as culturas anteriormente citadas, em que há a valorização da cultura
germânica mas em outro ambiente, no Brasil.
Em estudo sobre cultura e docência teuto-brasileiro-evangélica no Rio Grande do
Sul, Dagmar Mayer (2000) afirma que muitos estudos que se ocupam da temática da
imigração alemã referem-se à cultura “teuto-brasileira” percebendo esta como uma
reprodução linear de um conjunto de crenças, valores, tradições e práticas que os
imigrantes alemães “trouxeram” de sua terra natal a qual corresponderia ao que é
nominado de sua "bagagem cultural” (MEYER, 2000, p. 36), posicionamento

                                                                                                               
1  Como o título do almanaque estudado será referenciado em diversos momentos da escrita, DFF será
utilizada como abreviatura criada para o presente estudo de modo a designá-lo: Der Familienfreund
  16  

problematizado pela autora, que afirma não ser esta uma reprodução linear. Em suas
palavras,

A “cultura teuto-brasileira” poderia ser entendida, pois, como campo de um


duplo processo de diferenciação/ identificação: um processo em que um
grupo buscava construir sua especificidade fixando/manejando
semelhanças e diferenças tanto ao que lhe foi apresentado como sendo
cultura alemã, quanto ao que lhe foi apresentado como sendo cultura luso-
brasileira. (MEYER, 2000, p. 67)

A identidade cultural e o sentimento de pertencimento de imigrantes e de seus


descendentes são temáticas importantes quando estes estão relacionados ao estudo
realizado. Mesmo não sendo o foco de pesquisa, estes são significativos aspectos sobre
a comunidade de leitores do almanaque, uma vez que este grupo tinha um sentimento de
duplo pertencimento, pois estava inserido e valorizava a cultura alemã, mas também
pertencia à cultura brasileira, principalmente as gerações que nasceram no Brasil e
muitas vezes tinham as informações e a valorização da cultura germânica, mas suas
vivências já estavam imbricadas à cultura local.
Para Seyferth, é importante o olhar para os usos de identidades indicadoras de
duplo pertencimento a partir da noção de “grupo de interesse”, percebendo a dinâmica da
recriação contínua do pertencimento grupal por intermédio de novas experiências, mesmo
quando os descendentes de imigrantes, por exemplo, já não apresentam a maior parte
dos vínculos culturais que os distinguiam dos outros, neste caso, brasileiros. Segundo a
autora, “a identidade (étnica) permite associar o indivíduo, ou o grupo, a um passado,
uma cultura compartilhada, suscita sentimentos de pertença, mas o interesse comum
também une, permitindo laços concretos de comunidade” (SEYFERTH, 2011, p. 55)
Para Anthony Woodbury (2003), em estudo linguístico sobre línguas em extinção,
muito da vida cultural, espiritual e intelectual de um povo é transmitido pela língua: rezas,
mitos, cerimônias, poesia, oratória, vocabulário técnico, saudações, despedidas, registros
conservacionais, humor, maneiras de falar com as crianças, e os termos para hábitos,
comportamentos e emoções (WOODBURY, 2003, p. 39). A escolha da língua utilizada,
falada e escrita por uma comunidade, está relacionada ao seu sentimento de
pertencimento a uma cultura, assim como às suas habilidades e aprendizagens.
Assim, como a língua utilizada no impresso – o idioma alemão -, as materialidades
são significativas para a presente pesquisa. Analisar as materialidades através das quais
  17  

os textos são dados a ler constitui uma tarefa importante à compreensão da história das
práticas de leitura, mas também, e por extensão, à História da Educação. Segundo Maria
Helena Camara Bastos e Maria Stephanou (2011), o campo de pesquisa em História da
Educação é multifacetado e pluridisciplinar. Abarca várias temáticas e objetos de
pesquisa e, entre estes temas, a história do ensino e a história do livro e da leitura estão
presentes (STEPHANOU; BASTOS, 2011, p. 427).
O horizonte da pesquisa é tomado numa perspectiva inserida no campo da História
da Educação, em especial nos estudos acerca da história da cultura escrita, e também é
imbricado à estreita relação entre a imprensa e a educação. O almanaque examinado
efetivamente exercia um papel educativo junto a sua comunidade de leitores. Segundo
Bastos:

Um dos dispositivos privilegiados para forjar o sujeito/cidadão é a imprensa,


portadora e produtora de significações. A partir da necessidade de informar
sobre fatos, opiniões e acontecimentos, a imprensa procura engendrar uma
mentalidade – certa maneira de ver – no seu destinatário, constituindo um
público-leitor. (BASTOS, 2002, p. 151-152)

A relação do impresso estudado com a educação, além do caráter instrutivo,


informativo e formativo, como será abordado posteriormente, também está imbricada à
educação escolar das comunidades de imigrantes alemães. Em estudos anteriores
(RAMBO, 1994; KREUTZ, 1994), dados publicados em edições do DFF sobre as escolas
alemãs nas regiões da colônia do Rio Grande do Sul são utilizados para as pesquisas,
reafirmando a relação do impresso com a escola, uma das temáticas relevantes à
comunidade de leitores. Além da temática, a aprendizagem da língua alemã, assim como
a leitura e escrita em letra gótica, eram aprendidas na comunidade escolar e, simultânea
ou exclusivamente, na família.
Na literatura, também é destacado o caráter moralizador do gênero impresso
almanaque. De acordo com Imgart Grützmann (2005), autora que estuda os almanaques
editados em língua alemã no Brasil e também em outros países da América Latina,

(...) Os almanaques em geral ainda desempenham um papel relevante na


formação e no controle dos leitores, mediante a normatização de sua
conduta e através da construção e reprodução de identidades sociais,
religiosas e étnicas, representações essas vinculadas aos pressupostos e
às diretrizes dos ideários e/ou instituições que orientam seu programa
editorial ou dos quais são porta-vozes diretos. (GRÜTZMANN, 2004, p.70)
  18  

Mesmo que o discurso presente seja moralizador e que haja uma intenção normativa
em suas produções, a leitura não é submissão ao mecanismo textual. Segundo Michel de
Certeau (2012), ler é peregrinar por um sistema imposto, em que o leitor inventa nos
textos outra coisa que não aquilo que era a “intenção” deles (CERTEAU, 2012, p. 241). A
intenção da pesquisa realizada, assim, é compreender sobre as práticas editoriais e de
leitura que envolvem o impresso, com o entendimento do caráter inventivo e os diferentes
usos e significados que o contato com o impresso podem ter para sua comunidade de
leitores .

1.1. TRAJETÓRIA DA PESQUISA

Para a análise, fez-se necessária uma revisão bibliográfica acerca da imprensa em


língua alemã no Rio Grande do Sul, importante durante décadas no Estado, assim como
sobre o artefato cultural intitulado “almanaque”, com o intuito de conhecer sobre sua
historicidade e relevância como artefato de uma época. De modo particular, também
buscou-se conhecer sobre a produção de almanaques em língua alemã na América
Latina o que, segundo a literatura encontrada, teve uma expressividade significativa no
período de estudo.
Comecei a pesquisa para esta Dissertação a partir de um “rastreamento” inicial de
acervos que possuíssem impressos publicados em língua alemã3 no Rio Grande do Sul e
também de referências de outros estudos sobre a temática. A partir destes movimentos,
começaram a ser delineados alguns caminhos, um deles, por sugestão do Professor
René Gertz, professor de História aposentado da UFRGS e atualmente professor da
PUCRS, referência nos estudos sobre a imigração alemã no Rio Grande do Sul, a

                                                                                                               
3Esta pesquisa faz parte do TRANSFOPRESS Brasil, grupo que pesquisa a imprensa periódica publicada
em língua estrangeira no Brasil. Este grupo congrega pesquisadores de várias instituições brasileiras,
oferecendo às pessoas nele envolvidas um quadro no qual a reflexão sobre a importância desta imprensa
pode ser conduzida. Vinculado ao projeto internacional TRANSFOPRESS-Transnational network for the
study of foreign language press (XVIIIth-XXth century).
(http://transfopresschcsc.wix.com/transfopress#!transfopress-brasil/c13en )  
  19  

realização de uma visita ao Acervo Benno Mentz 4 , localizado junto à biblioteca da


PUCRS, no espaço Delfos5.
Segundo Eduardo Kersting (2004), em capítulo sobre a imprensa em língua alemã
no Acervo Benno Mentz, tal Acervo constituiu-se de uma reunião de diversos
documentos, em uma concepção abrangente do termo, significativa para a “compreensão
de como se encaminhou a presença alemã no Rio Grande do Sul, já que reúne
documentos, jornais, almanaques, revistas, livros, fotografias, enfim, um rico material”. O
autor acrescenta que este material possibilita examinar diferentes dimensões da presença
alemã no estado (KERSTING, 2004, p. 157).
Agendada a primeira visita, dirigi-me àquela biblioteca no intuito de identificar
impressos que pudessem de alguma forma auxiliar este olhar que me propusera a fazer;
um olhar sobre impressos que talvez ainda não tivessem sido analisados na perspectiva
da História Cultural, especificamente da história da cultura escrita, com o intuito de
contribuir à história da leitura destes impressos, saber por que foram publicados em
língua alemã no Estado do Rio Grande do Sul, a quem se dirigiam, o que tematizavam,
como era sua apresentação gráfica, entre tantas outras indagações.
Nesta primeira visita, assim, busquei listar conjuntos de impressos que, naquele
Acervo, estivessem praticamente completos em suas edições. Alguns materiais foram
identificados, selecionados e fotografados e, em uma segunda visita, após encontros de
orientação, um destes impressos, em particular, foi definido.
Entre os diversos periódicos escritos em língua alemã que encontram-se
conservados no Acervo, constam almanaques e revistas para as famílias escritos em
alemão, sendo um intitulado Der Familienfreund. Este almanaque logo chamou a minha
atenção, pois possui uma cena de leitura, em uma impressão colorida, na capa do
primeiro exemplar que selecionei, datado de 1955.
Na figura 1, apresento a capa referida de 1955 do almanaque DFF:

                                                                                                               
4
O Acervo Benno Mentz “abriga coleções de documentos, jornais, almanaques, revistas, fotografias, mapas
e materiais diversos que servem como fonte de pesquisa para a compreensão da trajetória dos imigrantes
alemães e de seus descendentes no sul do Brasil.” (http://www.pucrs.br/delfos/?p=mentz) [Acesso em
28/09/2014] O acervo está localizado no espaço Delfos na Biblioteca da PUCRS, entre outros acervos
existentes no mesmo espaço.
5
Espaço de Documentação e Memória Cultural que tem como objetivos “preservar, classificar e
disponibilizar (…) as coletâneas, arquivos, bens e objetos que digam respeito à cultura sulina, e que sejam
de propriedade da PUCRS ou estejam sob sua guarda e responsabilidade.”
(http://www.pucrs.br/delfos/?p=objetivo) [Acesso em 15/09/2014]
  20  

Figura 1 – Capa do exemplar de 1955 do almanaque Der Familienfreund

Na segunda visita ao Acervo, pude manusear todos os exemplares desse


almanaque constantes nesse local. Estes vieram em uma caixa, bem arquivados e
organizados, alguns deles encapados com capas duras, outras já envelhecidas pelo
tempo. Neste momento, tive contato com dez exemplares anuais, havendo de algumas
edições dois ou três exemplares, e dois deles encapados juntamente com outra edição.
Os exemplares disponíveis foram publicados nos anos de 1939, 1940, 1949, 1950, 1951,
1952, 1953, 1954, 1955 e 1956. Nesta visita ao Acervo Benno Mentz, constatei o intervalo
entre 1940 e 1949 sem qualquer exemplar presente no conjunto conservado.
Após a referida visita, o material inicialmente identificado foi objeto de algumas
inferências sobre suas edições anteriores, o que me levou a procurar novas informações
sobre o almanaque. Através de uma busca na internet, encontrei estudos bastante
significativos para a pesquisa, de autoria de Imgart Grützmann (2005, 2006), já citada
anteriormente, sobre a edição de almanaques em língua alemã no Brasil, Argentina e
Chile, e outro sobre a edição de almanaques em língua alemã em Santa Catarina. Neste
último, a autora menciona a importância desses impressos e o quanto foram relevantes
no Rio Grande do Sul, mencionando alguns deles, inclusive o DFF, nos seguintes termos:
  21  

Além desses almanaques, ainda havia o Der Familienfreund. Katholischer


Hauskalender und Wegweiser (O Amigo da Família. Almanaque do Lar
Católico e Guia), editado em Porto Alegre, em circulação no período de
1912-1918; 1920-1942, que também atendia os leitores católicos de Santa
Catarina. Dessa forma, esses almanaques também supriram as
necessidades de leitura e de divulgação do público leitor catarinense e, com
isso, restringiram o mercado local de edição desses periódicos.
(GRÜTZMANN, 2006b, p. 73)

Esta referência sinaliza a importância que estes impressos representaram para a


comunidade de leitores a qual se destinavam, reafirmando a importância de um estudo
sobre a história da leitura do impresso, especificamente o almanaque DFF.
A partir dessas referências, comecei a formular hipóteses acerca das edições
anteriores, como eram, semelhanças e diferenças entre as edições anteriores e as que
tivera em mãos no Acervo Benno Mentz. A informação que conseguira até então afirmava
que o período de circulação fora de 1912 a 1918, e de 1920 a 1942. Como havia
observado e fotografado edições até 1956, sabia que este poderia ser o último ano de
edição, mas não conhecia a história do almanaque a partir de 1912.
Uma nova visita ao Acervo, no entanto, trouxe uma feliz surpresa, daquelas que
possivelmente somente os pesquisadores dedicados à pesquisa em acervos têm o prazer
de vivenciar. Nesta trajetória de pesquisa, em muitos momentos me senti inspirada pela
leitura do livro O sabor do arquivo, da historiadora francesa Arlette Farge (2009). Não
sendo uma historiadora de formação acadêmica, muitas ideias sobre conceitos e
metodologia aplicadas na área trazidos pela autora foram relevantes para o meu estudo.
Farge (2009) disserta sobre o fazer do historiador, o gosto pelo arquivo, em alguns
momentos adota uma escrita mais narrativa, literária, em outros momentos aborda
conceitos e questões teóricas sobre a atividade do historiador e o trabalho em arquivos.
Ressalto esta leitura, pois ela foi fundamental para a minha trajetória em busca do arquivo
a ser pesquisado. A sensação de encontrar algo “novo”, algo arquivado e que, guardado,
estava apenas “à espera” de alguém que lançasse um novo olhar foi um grande estímulo
para a curiosidade e imersão no Acervo Benno Mentz.
Através de uma metáfora, a autora destaca que “o essencial nunca surge de
imediato; é preciso ler, ler de novo, afundado em um pântano que nenhuma rajada venha
distrair a menos que o vento se levante. Isso acontece às vezes, quando menos se
espera” (FARGE, 2009, p.64). Mesmo tendo uma visão empolgada e motivadora sobre
esta busca pelo e no arquivo, a autora destaca, muitas vezes, a atividade trabalhosa e
desafiadora quando se está imerso num estudo específico.
  22  

Na terceira incursão ao Acervo, não estava presente o bolsista que me antedera nas
outras visitas, mas outra bolsista estava em seu lugar, e não havia materiais separados
para a minha consulta. Foi então que solicitei à bolsista que me ajudasse a localizar a
caixa de materiais anteriormente manuseada. Ela, assim, me trouxe uma caixa e qual foi
a minha surpresa: esta era uma caixa que eu desconhecia. Intitulada DFF, possuía
exemplares do mesmo almanaque, dos anos de 1912 a 1926.
No momento em que percebi que eram as primeiras edições, consultei a bolsista se
não havia mais caixas. Esta, então, encontrou realmente mais outras duas caixas no
Acervo, havendo a coleção completa das edições referidas, com uma caixa de
exemplares de 1927 a 1938 e outra de 1941 e 1942, pois o restante (de 1939 e 1940 e de
1949 a 1956) constava na caixa da primeira consulta. Após as constantes idas ao Acervo,
porém, constatei que apenas o exemplar de 1919 não integra o Acervo, os demais estão
todos conservados.
Numa fase posterior de pesquisa, outras idas ao Acervo Benno Mentz foram
importantes, incluindo a identificação e manuseio de outros almanaques publicados em
língua alemã em outros países. Além deste Acervo, outros foram consultados, sendo
estes o Arquivo histórico dos Jesuítas em Porto Alegre6 e o Memorial Jesuíta7. Esta
trajetória de pesquisa continuou em caminhos metodológicos específicos, e outros
avanços foram feitos com o objetivo de compreender a história da leitura do DFF.

1.2. UMA ESCRITA HISTÓRIOGRÁFICA – CAMINHOS METODOLÓGICOS


TRAÇADOS

Que fabrica o historiador quando “faz história”? Em que trabalha? Que


produz? Interrompendo a sua erudita deambulação pelas salas dos
arquivos, afasta-se, por um instante, do estudo monumental que o
classificará entre os seus pares e, saindo para a rua, interroga-se: Que
ofício é esse? Interrogo-me sobre a enigmática relação que mantenho com
a sociedade presente e com a morte, pela mediação de atividades técnicas.
(CERTEAU, 1977, p. 17)

                                                                                                               
6  Localizadono prédio da Associação Antônio Vieira em Porto Alegre.
7
Acervo composto de obras editadas entre os séculos XV e XX, sobretudo no que diz respeito à memória e
história da atuação dos jesuítas na América Latina. Este acervo se localiza na Biblioteca Unisinos em São
Leopoldo.
(http://unisinos.br/biblioteca/index.php?option=com_content&task=view&id=171&Itemid=196&menu_ativo=a
ctive_menu_sub&marcador=196 )
  23  

Em uma pesquisa inserida no campo da História da Educação, fazem-se presentes e


necessários o estudo e a reflexão sobre o fazer historiográfico. Como Certeau (1977)
indaga, o historiador possivelmente se questiona, em seu fazer historiográfico, sobre o que
produz e a sua relação entre o presente e o passado. Relembrar e compreender o passado,
buscando a verossimilhança e a maior aproximação possível do mesmo são, assim, alguns
desafios do historiador.
Para Chartier (2008), a intenção de verdade é constitutiva do discurso histórico,
também entendido como uma escrita construída a partir de figuras retóricas e de estruturas
narrativas que são igualmente as da ficção. Inferir possibilidades entre os documentos
encontrados em arquivos, compreendendo que seu ofício produz um olhar possível ao
objeto a ser estudado é um dos desafios ao historiador.
Arlette Farge (2009) disserta sobre o estudo em arquivos históricos e a relação entre
pesquisador e arquivo consultado e menciona, acerca do passado, que “a questão reside na
difícil interpretação de sua presença, na busca de seu significado, na localização de sua
“realidade” em meio a sistemas de signos dos quais a história pode tentar ser a gramática.”
(FARGE, 2009, p.19). A gramática, no campo linguístico, é o estudo que busca a
compreensão e o registro de algo humano e, assim, inventivo e mutável: a linguagem. Neste
sistema de signos em que há tantas variáveis, o estudo historiográfico é, para a autora,
comparável ao estudo da gramática, que entre prescrição e descrição tenta compreender o
fenômeno da comunicação pela linguagem.
É importante para o pesquisador, desse modo, perceber sua responsabilidade, pois a
interpretação que fará é fundamental para a elaboração de significados e sentidos ao que
encontra. O objetivo, como a autora destaca, é tomá-lo como suporte que possibilite ao
historiador procurar outras formas do saber que carecem ao conhecimento, diferindo de uma
visão de descobrir um tesouro enterrado, numa metáfora da própria autora (FARGE, 2009,
p.58).
Em uma entrevista concedida ao também historiador Robert Darnton, Roger Chartier
(2012) defende uma das tarefas cruciais do historiador: a de achar um objeto histórico e
analisá-lo de uma forma diferente, procurando novas abordagens que permitam
compreendê-lo e explicá-lo. Nas palavras do autor,

(...) para nós, enquanto historiadores, historiadores dos textos, historiadores


das práticas, dos discursos ou das imagens, das situações ou dos
comportamentos, o ponto fundamental é encontrar, construir um objeto
  24  

histórico, se possível um que ainda não tenha sido realmente analisado, ou,
se foi, analisá-lo de forma diferente, ou seja, mobilizar recursos, a começar
pelas fontes e pelas abordagens que permitam explicá-lo. (CHARTIER, 2012,
168)

O autor está incentivando, primeiramente, a pesquisa de objetos novos, em especial


aqueles que uma vez possam ter sido vistos como não importantes pelos historiadores ou
pela sociedade como um todo. São estes objetos que muitas vezes podem oferecer
diversas “pistas” sobre as relações sociais e sobre a relação destes com os objetos, neste
caso objetos escritos, que circularam e que em muitos momentos passam desapercebidos.
Não é por acaso a utilização, por Chartier, da palavra “construir” após usar a palavra
“encontrar”. Há de se perceber e valorizar a construção do objeto pelo historiador, uma vez
que ele não está guardado intacto como uma fonte de informações à espera que o
historiador a encontre. Ele será encontrado sim, aleatoriamente ou já arquivado, mas o
processo da pesquisa historiográfica também contempla a construção deste objeto aos
olhos do pesquisador.
O historiador da leitura e da escrita, especificamente, está desafiado a compreender
sobre as práticas de leitura dos impressos produzidos, compreensão dificultada tanto pela
raridade dos vestígios diretos quanto pela complexidade da interpretação dos indícios
indiretos (CHARTIER, 2011, p. 77). Mesmo com a dificuldade em relação aos vestígios e
suas interpretações, alguns caminhos são possíveis.

1.2.1 METODOLOGIA

Com o objetivo de compreender aspectos relacionados à história da leitura do


almanaque Der Familienfreund, um conjunto de escolhas teóricas e empíricas constituem o
estudo. As trinta e oito edições do impresso são o objeto central da pesquisa, que por uma
descrição densa de suas materialidades, a análise das imagens presentes nas capas e a
análise das intervenções editoriais pretende demonstrar protocolos de leitura e aproximar-se
às práticas de leitura envolvidas com o impresso. Estas foram consultadas em visitas à dois
acervos específicos, o Acervo Benno Mentz e o Arquivo histórico dos Jesuítas de Porto
Alegre.
Em um primeiro momento, fez-se uma aproximação às trinta e oito edições do
almanaque, com um olhar especial à materialidade do impresso. Para a análise do conteúdo
dos textos e imagens presentes nas páginas do almanaque, algumas edições específicas
  25  

foram selecionadas, a fim de uma melhor compreensão e organização da análise. Assim, as


edições de 1912, 1931, 1940, 1941, 1942, 1949 e 1956 foram as edições mais manuseadas
e analisadas. A primeira (1912) e a última edição (1956) publicadas e as edições que
antecederam (1940, 1941 e 1942) e sucederam (1949) o intervalo das edições durante a
campanha de nacionalização, foram escolhidas. A edição de 1931 foi a edição com mais
páginas do almanaque e, pelo contato com todas as edições, constatou-se ser uma edição
com uma diversidade de imagens e informações.
É importante frisar que, como pesquisadora, tenho conhecimento sucinto da língua
alemã e a decodificação dos caracteres góticos. Tenho familiaridade com a língua e
compreensão, mas para a leitura de textos específicos recorri à tradução destes.
Especialmente a edição de 1931 foi em grande parte digitalizada e organizada em formato
livro, a fim de uma melhor leitura, tradução e organização.
Ao longo da análise do material, também fizeram-se necessários contatos para além
do que as materialidades do impresso pudessem revelar, neste caso, o contato com alguns
sujeitos que pudessem auxiliar a compreensão sobre as práticas de leitura do almanaque.
Busquei, assim, o contato com pessoas que tivessem familiaridade com impressos em
língua alemã produzidos no estado, especialmente o almanaque DFF.
Esta busca fez-se por um fazer historiográfico, expondo a temática de pesquisa por
diversas redes de relações a fim de encontrar possíveis leitores do almanaque. No conjunto,
foram realizadas seis entrevistas, todas gravadas e transcritas, em que o objetivo era a
compreensão sobre as práticas de leitura imbricadas ao almanaque DFF, assim como
aspectos relacionados à sua edição e circulação. Assim como na dissertação de mestrado
intitulada “Pastoral da Juventude & Imprensa Estudantil nos anos 1980 a 1990”, de Patrícia
Vieira (2014), realizei entrevistas compreensivas, com o objetivo de compreender as práticas
relacionadas às leituras do impresso. Para Nadir Zago (2003), uma das características da
pesquisa qualitativa e, junto a esta, da entrevista compreensiva, “é permitir a construção da
problemática de estudo durante o seu desenvolvimento e nas suas diferentes etapas. Em
razão disso, a entrevista compreensiva não tem uma estrutura rígida, isto é, as questões
previamente definidas podem sofrer alterações conforme o direcionamento que se quer dar
à investigação” (ZAGO, 2003, p. 295).
  26  

Para as entrevistas, especialmente com possíveis leitores do impresso, sete questões


iniciais foram formuladas para conduzir a conversa. As questões foram:
 
a) lembranças sobre leitura do almanaque DFF e/ou outros impressos em
língua alemã

b) Relação da família com a leitura/o impresso

c) Hábitos de leitura – leitura em voz alta, entre os familiares, leitura


individual

d) Lembrança de gêneros textuais lidos – contos, conteúdo religioso,


anedotas, etc.

e) Lembrança da aquisição do almanaque

f) Lembranças sobre a relação da família com a religião e a escola

g) Aprendizagem e leitura dos caracteres em gótico


 

Estas questões foram propostas ao longo das entrevistas e, conforme a fala dos
sujeitos, novas indagações foram realizadas. O contato com os entrevistados possibilitou
novos caminhos da pesquisa e novas informações, assim contribuiu significativamente às
aproximações realizadas. Dois dos entrevistados, particularmente, foram leitores do DFF e
partilharam, durante as entrevistas, suas memórias de leitura. Estas, assim, são evocadas
no último capítulo, a fim de estabelecer a relação entre a materialidade do impresso e as
práticas de leitura. Segue a seguir um quadro com a apresentação dos entrevistados.
  27  

Tabela 1 – Informações sobre as entrevistas realizadas sobre o almanaque Der Familienfreund


SUJEITO DATA DA OBJETIVO LOCAL DA
ENTREVISTA ENTREVISTA
Professor René 24/03/2015 Informações PUCRS, Porto
Gertz sobre a Alegre
imigração alemã
no Rio Grande
do Sul

Referências
Sr. Egon 17/06/2015 Entrevista Em sua
compreensiva residência , Porto
Atual revisor do sobre memórias Alegre
FamilienKalender8 de leitura de
(Aproximadamente impressos em
70 anos) língua alemã
Entrevista
Sr. Celso 17/06/2015 compreensiva Na residência do
sobre memórias Sr. Egon, Porto
Irmão da Rede de leitura de Alegre
Jesuíta impressos em
(Aproximadamente língua alemã
70 anos)
Sacerdote e dois Informações Livraria Padre
conhecedores 09/07/2015 sobre editorias e Réus, Porto
das publicações e sobre os Alegre
edições de impressos da
anuários e revistas Rede Jesuíta
jesuítas
Entrevista
Sr. Roque compreensiva Em sua
22/08/2015 sobre memórias residência em
Leitor do de leitura do Arroio do Meio
almanaque almanaque Der
(Aproximadamente Familienfreund
70 anos)
Entrevista
Dona Cecília compreensiva Asilo, em Arroio
22/08/2015 sobre memórias do Meio, em que
Leitora do de leitura do a entrevistada
almanaque almanaque Der reside
(104 anos) Familienfreund

                                                                                                               
8  Segundo Arthur Rambo (2003) o almanaque Ignacius Kalender, desde 1933, publicado pelos

jesuítas do sul do Brasil, continua como Familien-kalender até os dias atuais.  


 
  28  

As entrevistas foram realizadas diretamente com os entrevistados. Apenas a


entrevista realizada com a leitora do almanaque foi mediada, pois a entrevistada
apresentava maior fluência na língua alemã e, por sua idade, apresentou algumas
dificuldades de comunicação. Contudo, suas lembranças sobre as leituras foram
específicas e muito enriquecedoras. Desta forma, a entrevistada respondia as indagações
que foram mediadas pelo Sr. Roque. Durante a entrevista com o senhor Roque, estas
respostas foram retomadas afim de proceder ao seu registro.
O senhor Roque mora em Arroio do Meio, filho de professores, e tem uma
lembrança de infância que contempla a leitura do almanaque DFF. Seu pai distribuía o
almanaque Ignacius Kalender, outro almanaque da rede Jesuíta, na escola em que era
professor. Atualmente, o sr. Roque está interessado em recolher impressos diversos na
comunidade.

Eu devo dizer que meu pai devia fazer uma intermediação, não lembro do pai
desempacotar, lembro de tê-los em casa e eu manuseá-los, lê-los desde os seis anos de
idade até que depois que fui para o internato. Evidentemente, o pai deveria intermediar,
ver se alguém queria (na escola). Em todo caso, na comunidade que meu pai atuou, que
meus pais foram professores, eu recolhi exemplares do Familienfreund, mas bem menos
que o almanaque dos jesuítas (Ignacius Kalender). Recolhi mais que o dobro do
Ignacius, aqui ele teve este apelo dos jesuítas. (Roque, entrevista em 22/08/2015)
 

  O contato com o senhor Roque possibilitou a entrevista com a Dona Cecília. Quando
percebeu meu interesse pela temática, o entrevistado sugeriu que fôssemos até sua
amiga, que também havia sido uma leitora do almanaque. Sobre Dona Cecília, ele afirma
que:

Dona Cecília estudou mais de quatro anos, foi para Estrela, foi para o colégio
que recebia internas (...) na época só gente de muitas posses poderia fazer isso, ou
que fosse para o seminário (...) mas ela não terá passado de seis, sete anos de
escolaridade (...) A sua família tinha uma casa de negócios e recebia o almanaque
Familienfreund em consignação. Ela lia e vendia. (Roque, entrevista em 22/08/2015)
 

Todas as entrevistas ampliaram conhecimentos sobre a temática e auxiliaram a


compreensão das práticas que envolvem a história da leitura do almanaque DFF.
Especificamente, algumas das contribuições dos leitores do impresso serão retomadas no
último capítulo.
  29  

2. O ALMANAQUE DER FAMILIENFREUND: GÊNERO IMPRESSO ALMANAQUE E


IMPRENSA EM LÍNGUA ALEMÃ NO RIO GRANDE DO SUL

O impresso estudado faz parte do gênero impresso almanaque produzido em língua


alemã no Rio Grande do Sul. Nesta seção, são contextualizadas temáticas relacionadas
ao gênero em estudo: a imprensa em língua alemã no Rio Grande do Sul, em um sentido
mais amplo, incluindo a imprensa jornalística; após, o conceito de almanaque, assim
como estudos de autores que pesquisaram o artefato sob diferentes perspectivas, a
produção de almanaques em língua alemã no Rio Grande do Sul e a imprensa católica
em língua alemã produzida no estado.

2.1 A IMPRENSA EM LÍNGUA ALEMÃ NO RIO GRANDE DO SUL

Segundo Gertz (2004), quando a temática é imprensa em língua alemã no período


anterior a 1941, deve-se atentar para, no mínimo, três tipos de publicações: almanaques,
revistas e jornais. O autor destaca que “os jornais que se auto-intitulavam políticos eram
os mais importantes no sentido de fomentar o estabelecimento da cidadania e de fazer os
teutos cidadãos plenos no Brasil”, porém, afirma que a classificação do que seja um jornal
político em língua alemã não é uma tarefa simples (GERTZ, 2004, p. 103).
Uma obra destacada por Gertz (2004) é a tese de doutorado de Hans Gehse,
publicada em 1931, na Alemanha, intitulada “A imprensa alemã no Brasil, de 1852 até a
atualidade”. Gehse (1931) destaca três instituições como sendo fundamentais para a
construção de uma sociedade de alemães e descendentes no Brasil: a igreja, a escola e a
imprensa. Na sua opinião, a importância desta última está no fato de que ela

Defende os interesses dos imigrantes alemães frente ao governo e frente ao


contexto luso-brasileiro: dentro das colônias mantém vivo o sentimento de
pertencimento ao grupo étnico alemão e estabelece a ligação com a antiga
pátria. Além disso, sua importância se estende justamente aos alemães das
colônias novas, onde, ao lado de algum eventual livro popular trazido por
um vendedor ambulante, a Bíblia e o jornal constituem a única leitura.
(GEHSE apud GERTZ, 2004, p.107)
  30  

A importância da imprensa, segundo o autor, está relacionada ao seu sentimento de


pertencimento ao seu grupo e também à defesa de seus interesses. Ainda destaca a
relevância dos impressos como possibilidade de leitura que, juntamente com um livro
eventual e a Bíblia, representam leituras únicas e restritas. Este destaque às poucas
possibilidades de leitura remetem à leitura intensa e repetida, sendo assim, à leitura
intensiva. Segundo Chartier (2011), um estilo antigo de leitura, característico das
sociedades europeias até a metade do século XVIII, é o estilo em que o leitor é
confrontado com um número reduzido de livros (a Bíblia, as obras de piedade e o
almanaque) “que perpetuam os mesmos textos ou as mesmas formas, que fornecem às
gerações sucessivas referências idênticas” (CHARTIER, 2011, p. 86).
Neste contexto, a leitura pessoal encontra-se imbricada à uma rede de práticas
culturais apoiadas sobre o livro: a escuta de textos lidos e relidos oralmente, na família ou
na igreja, a memorização desses textos ouvidos, mais reconhecidos do que lidos, sua
recitação para si ou para os outros. Segundo o autor, na Alemanha reformada, assim
como na América puritana, a Bíblia constituiu o primeiro alimento dessa prática plural do
escrito. Nesta intensa leitura há reverência e respeito pelo livro porque ele é raro, está
carregado de sacralidade mesmo quando é profano, pois ensina o essencial. Ele torna-se
uma referência familiar, em que “as fórmulas dão as formas às maneiras de pensar e de
contar, uma relação atenta e deferente liga o leitor àquilo que lê, incorporando em seu ser
mais íntimo a letra do que leu” (CHARTIER, 2011, p. 86).
Da mesma forma, a leitura de periódicos também é valorizada, sendo muitas vezes
o único meio de informação de algumas comunidades. Gehse (1931) continua sua
afirmação afirmando,

Para o colono solitário, que haure do jornalzinho que lhe vem, às vezes,
uma vez ao mês pelo correio ou que toma emprestado ao vizinho, todos os
seus conhecimentos, para ele esse jornal simplesmente significa aquilo que
o livro didático significa para a criança. Deve-se se levar isso em
consideração se se quer aprender em sua plenitude a importância dos
jornais alemães no Brasil e a responsabilidade que lhes cabe. (GEHSE
apud GERTZ, 2004, p. 107)

A relação estabelecida entre o jornal e o livro didático remete à informação e à


aprendizagem, sendo importante àqueles que quisessem se manter informados. A
afirmação do autor também remete aos usos dos impressos, sinalizando as possibilidades
  31  

encontradas pelos colonos, que poderiam receber pelo correio os impressos e também
partilhá-los em comunidade com vizinhos.
Jean Roche (1969), na obra intitulada “A colonização alemã e o Rio Grande do Sul”,
dedica um capítulo à imprensa dos teuto-rio-grandenses. Segundo o autor, esta contribuiu
para que os colonos sentissem que possuíam em comum um patrimônio cultural, graças
ao conhecimento e à conservação da língua de origem, o que reforçou uma solidariedade
que ultrapassava o plano linguístico e cultural e atingia imediatamente o domínio cívico e
político. O autor ainda aborda a relação entre o urbano e o rural com relação à imprensa,
destacando que “a imprensa é um fenômeno eminentemente urbano. Convém, todavia,
estudar sua difusão no meio rural, sua influência na evolução dos grupos teuto-brasileiros
e seu papel na evolução da noção de grupo” (ROCHE, 1969, p. 659).
Francisco Rüdiger, no capítulo “Imprensa e esfera pública” do livro “Nós, os teuto-
gaúchos”, afirma que quando o historiador francês Jean Roche escreveu as palavras
acima, o fenômeno mencionado já havia passado (RÜDIGER, 1996, p.131). Nas palavras
de Jean Roche também já constava esta perspectiva, pois o autor afirma que, “na época
contemporânea [década de 60], a leitura limita-se comumente a de um almanaque, só se
estendendo, algumas vezes, a de um jornal semanal: falta muito para que todas as
famílias sejam assinantes” (ROCHE, 1969, p. 664).
Para Rüdiger (1996), o declínio da imprensa em língua estrangeira, ao final dos anos
cinquenta, costumeiramente é atribuído à nacionalização determinada pelo Estado Novo a
partir de 1937. Sobre a campanha de nacionalização presente na época do Estado Novo
no Brasil, Giralda Seyferth (1999), em seu estudo sobre os imigrantes e a campanha de
nacionalização do Estado Novo, afirma:

O primeiro passo para a intervenção, além da escola devia ser a proibição


geral de línguas estrangeiras em público, principalmente nas regiões
coloniais do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, consideradas
potencialmente mais perigosas “pela densidade dos seus elementos étnicos
uniformes e compactos”. (SEYFERTH, 1999, p. 219)

A autora ainda refere a reforma educacional como ponto de partida na campanha de


nacionalização de 1937, sendo a comunidade teuto-brasileira uma das preocupações do
Estado. A partir de 1939, houve a exigência de “abrasileiramento”, o que criou
dificuldades para toda a organização comunitária étnica de diversos grupos imigrados.
Dessa forma, progressivamente, as publicações em língua estrangeira foram se
extinguindo, principalmente a imprensa étnica, embora algumas sociedades recreativas,
  32  

esportivas e culturais não aceitassem as mudanças. O uso de línguas estrangeiras em


público também foi proibido, inclusive nas atividades religiosas. A participação do Brasil
na Guerra, a partir de 1942, acirrou as animosidades, pois a ação nacionalizadora se
intensificou junto aos imigrantes (e descendentes) alemães, italianos e japoneses —
transformados, também, em potenciais “inimigos da pátria” (SEYFERTH, 1997, p. 96-97).
Em tese sobre o Centro de Pesquisas e Orientação Educacionais do Rio Grande do
Sul, Claudemir de Quadros (2006) tematiza a nacionalização do ensino,e assinala que ,

Embora por motivações variadas, o discurso da nacionalização do ensino foi


formulado, principalmente, a partir do perigo que a ação política dos
estrangeiros, junto às escolas, representava para a formação de um espírito
nacional, informado pela unidade e pela homogeneidade, e pelo projeto
nacionalista do Estado Novo que propunha a uniformização, a padronização
cultural e a supressão de formas de organização autônoma da sociedade.
(QUADROS, 2006, p. 54)

Para Gertz (2005), não há dúvidas de que os “alemães” constituíram a preocupação


central do projeto de “nacionalização” no Rio Grande do Sul. Segundo o autor, foi o
imaginário a seu respeito que forneceu a justificativa para a campanha. “A existência de
uma ideologia e de um discurso do “perigo alemão” estava difundida entre uma parte
muito significativa da população rio-grandense (e brasileira) praticamente desde que os
primeiros alemães chegaram no estado, em 1824” (GERTZ, 2005, p. 155).
Percebe-se, assim, que um dos focos de preocupação da campanha de
nacionalização foi o idioma utilizado pelos imigrantes e seus descendentes, com um
projeto de unificação do idioma utilizado. Segundo Alexandre Bueno (2013), em estudo
sobre língua, imigração e identidade nacional, historicamente, a língua é um dos pilares
simbólicos na construção das nações e para a delimitação de fronteiras entre elas. Essa
função da língua auxilia a criação de um sentido de homogeneidade de uma nação e de
valores internamente aceitos e reproduzidos pela elite política de cada país. Essa seria
uma das funções da língua nacional, ou seja, criar os limites de uma identidade coletiva
que se contrapõe a outras identidades (igualmente coletivas) exteriores a ela (BUENO,
2013, p. 37). Há uma significativa relação da língua ou línguas utilizadas com os
sentimentos de identidade, afinidade e pertencimento a um grupo, assim como há uma
estratégia de homogeneidade de uma nação quando proíbe a utilização de outras línguas
que não aquela oficialmente utilizada no país. Eis porque a campanha de nacionalização
atingiu tão dramaticamente os impressos em língua alemã em todo o Brasil.
  33  

Para Rüdiger (1996), a relação feita entre o declínio da imprensa em língua alemã e
a campanha de nacionalização deve ser amplificada, pois, nas primeiras décadas do
século XX, os imigrantes haviam se tornado brasileiros, plenamente integrados aos
costumes políticos da terra, e a religião aos poucos foi deixando de ser um motivo
legítimo de disputa nas comunidades (RÜDIGER, 1996, p. 131). O autor disserta sobre
quando a imprensa em língua alemã tornara-se significativa no Estado:

(...) os colonos possuíam bons motivos para criar seus próprios meios de
publicidade. O estranhamento diante do novo mundo, a manutenção da
identidade, as divisões internas e o desafio da integração política eram
geradores de um conjunto de problemas peculiares, que estão na base da
formação de uma esfera pública alemã no Rio Grande do Sul. (RÜDIGER,
1996, p. 132)

Segundo estudos realizados (GERTZ, 2004) (ROCHE, 1969) (RÜDIGER, 1996),


diversos periódicos em língua alemã foram publicados e estiveram em circulação no Rio
Grande do Sul, desde a segunda metade do século XIX e as primeiras décadas do século
XX, entre eles, Der Colonista, Der Deutche Einwanderer, Deutsche Zeitung, Koseritz –
Deutsche Zeitung, Kulturkampt, Deutsches Volksblatt, Deutsche Post, Die Serra Post,
Sonntagsblatt, são alguns dos títulos, diversos com uma vida mais efêmera, enquanto
outros foram editados durante algumas décadas. Estes, mesmo tendo em comum a
língua alemã, apresentavam algumas importantes diferenças, como suas características
gráficas e suas filiações políticas ou religiosas. É o caso do jornal Deutsches Volksblatt,
organizado por jesuítas, e portanto um impresso católico, e o Deutsche Post, elaborado
por protestantes. O Der Colonista é um exemplo de impresso que começou a ser editado
com uma proposta de facilitar a adaptação dos imigrantes e acabou por se tornar um
jornal com fins mais políticos (RÜDIGER, 1996, p. 132).
A finalidade política consta em alguns dos periódicos publicados. Rüdiger afirma que
“os periódicos também eram a expressão das profundas divisões políticas e de crenças
Roche (1969) da mesma forma menciona este aspecto, afirmando que, independente das
divergências dos descendentes de imigrantes, foram os jornalistas que lhes deram
consciência coletiva, que enunciaram o problema teuto-brasileiro e que propuseram
soluções.
Para Emílio Willems (1946), em seu livro “A aculturação dos alemães no Brasil”, a
imprensa periódica em língua alemã inúmeras vezes tornou-se cenário de conflitos
violentos entre clericais e anticlericais, liberais e conservadores, socialistas e nazistas,
  34  

teuto-brasileiros e imigrantes e, sobretudo, entre católicos e protestantes (WILLEMS,


1946, p. 554).
Rüdiger (1996) ainda acrescenta que, na virada do século XX, os capitalistas
alemães possuíam jornais não apenas em sua própria língua, mas tinham o controle, total
ou parcial também, de grandes jornais em língua portuguesa. Para o autor, “a
comunidade alemã não só era respeitada em sua identidade cultural como tornara-se um
dos centros da vida social no Estado” (RÜDIGER, 1996, p. 135). No período de maior
circulação da imprensa em língua alemã, as assinaturas passaram de seis para vinte mil
exemplares, entre 1890 e 1915. Nesta época, havia cento e cinco jornais em circulação
no Rio Grande do Sul, sendo que, entre esses, dez eram em língua alemã (RÜDIGER,
1996, p. 135). Gertz (2004) destaca que encontram-se grandes polêmicas entre os jornais
sobre os verdadeiros números de suas edições. Estes eram invariavelmente inflacionados
para atrair publicidade (GERTZ, 2004, p. 112).
É perceptível, pela bibliografia analisada, a influência que a imprensa em língua
alemã teve para com suas comunidades de leitores, distintas em filiações políticas e
ideológicas, mas todas mantendo uma característica comum, o uso partilhado da língua
alemã em seus impressos.
Entre a diversidade de filiações e impressos ofertados à leitura em língua alemã, as
publicações periódicas que se mantiveram mais duradouras foram os almanaques que,
“editados ou por jornais, ou por casas especializadas, ou principalmente por associações
religiosas, continuaram a tradição iniciada por Koseritz em 1874” (ROCHE, 1969, p. 661).
Segundo Roche, o jornal Deutsche Zeitung “não progrediu senão a partir de 1864, quando
se confiou sua redação à Karl von Koseritz, a mais eminente e interessante personalidade
dos quadros de colonização alemã no Rio Grande do Sul, até o fim do Império” (ROCHE,
1969, p. 659). Este importante jornalista para a imprensa em língua alemã no estado
também publicou um almanaque em língua alemã intitulado   Koseritz Deutscher
Volkskalender.
  35  

2.2 O LIVRO DOS LIVROS – O ALMANAQUE

É que o almanaque contém essas verdades iniciais que a humanidade


necessita saber, e constantemente rememorar, para que a sua existência,
entre uma natureza que a não favorece e a não ensina, se mantenha, se
regularize, e se perpetue. A essas verdades chamam os franceses, finos
classificadores, verdades de almanaque. São as altas verdades vitais. O
homem tudo poderia ignorar, sem risco de perecer, excepto o mês que se
semeia o trigo.
Eça de Queiróz (1896)

Valendo-me da expressão proposta por Chartier (1999) na introdução do livro


“Histórias e Leituras de Almanaques no Brasil” (PARK, 1999) que designa o almanaque
como “o livro dos livros” e das palavras de Eça de Queiróz, passo a discorrer sobre o
gênero impresso almanaque. Durante muito tempo, segundo Chartier (1999), mesmo
antes do século XVII, o almanaque é um gênero não só literário, mas uma fórmula
editorial que reúne textos muito diversos entre si e possivelmente isso explica seu
sucesso, o modo como entrou em relação com públicos leitores muito variados. As
“verdades de almanaque”, utilizando a expressão de Eça de Queiróz, são as informações
importantes para o cotidiano, assim, um impresso próximo à vida de seus leitores. Este
gênero impresso representou, historicamente, um veículo importante de disseminação de
informações, diversas e, por sinal, marcado pela característica significativa de ser “um
livro destinado a todos e que todos, mesmo os menos letrados ou analfabetos, podem
“ler” ” (CHARTIER,1999, p. 9).
Em uma perspectiva literária, Machado de Assis criou o conto Como se inventaram
os almanaques (1890), em que o Velho Tempo apaixonara-se pela jovem Esperança,
criando assim uma chuva de almanaques, para que ela acompanhasse o tempo passando
e, quando mais velha, casasse com ele. Assim é um fragmento da narrativa do autor:

O tempo inventou o almanaque; compôs um simples livro, seco, sem


margens, sem nada; tão somente os dias, as semanas, os meses, os anos.
Um dia, ao amanhecer, toda a terra viu cair do céu uma chuva de folhetos;
creram a princípio que era geada de nova espécie, depois, vendo que não,
correram todos assustados; afinal, um mais animoso pegou de um dos
folhetos, outros fizeram a mesma coisa, leram e entenderam. O almanaque
trazia a língua das cidades e dos campos em que caía. Assim toda a terra
possuiu, no mesmo instante, os primeiros almanaques. Se muitos povos os
não têm ainda hoje, se outros morreram sem os ler, é porque vieram depois
dos acontecimentos que estou narrando. (ASSIS, 1890)
  36  

O conto criado por Machado de Assis inspira esta investigação acerca de um


almanaque. Este sugere a expressiva circulação do impresso almanaque como artefato
imemorial que, na narrativa criada pelo autor, se aproxima a uma criação dos deuses
mitológicos, especificamente, do Tempo. A escolha de seu criador não é aleatória, pois a
passagem do tempo, materializada no calendário, é a característica central do
almanaque. Machado de Assis cria na sua história uma chuva de folhetos, e toda a terra
possuiu, no mesmo instante, os primeiros almanaques. Segundo a narrativa, o almanaque
trazia a língua das cidades e dos campos em que caía e, assim, faz a alusão à
aproximação que o impresso tinha para com seus leitores, tanto no campo quanto na
cidade. Como artefato, o gênero almanaque é um impresso de difusão mundial, cuja
relevância à história da leitura é indiscutível.
De acordo com Grützmann (2005), há características marcantes que distinguem os
almanaques como impressos peculiares:

No âmbito da imprensa escrita, a designação almanaque (Kalender) refere-


se a um meio de comunicação de massa, editado anualmente, que se utiliza
da linguagem verbal e não-verbal, destinado à informação, ao
entretenimento e à formação. Este tipo de impresso apresenta como
características estruturais básicas o calendário, a prática e as opções de
leitura em sentido restrito (GRÜTZMANN, 2005, p. 1).

Segundo Mateus Pereira (2009), em pesquisa sobre o almanaque Abril, até o século
XX os almanaques foram, junto com a Bíblia, um dos impressos mais utilizados no
Ocidente. Dada sua origem remota, sua extensa difusão e sua longevidade, não é fácil
definir esse gênero textual. De acordo com o autor, o termo “almanaque” é utilizado,
desde meados do século XVII, para designar diversas publicações articuladas em torno
do calendário (PEREIRA, 2009, p. 34).
Sobre a história do almanaque, o mesmo esteve presente no cotidiano de diversas
culturas. Segundo Vera Casa Nova (1996), o almanaque era de uso comum entre
egípcios, gregos, romanos, hindus e chineses, por exemplo. Durante a Idade Média, em
países cristãos, eram colocados entre as páginas dos livros da Igreja ou copiados com o
objetivo de informar os feriados, dias de festas, além do ciclo lunar e solar (NOVA, 1996,
p. 18).
Durante o século XVIII, diversos almanaques surgiram em toda a Europa. Entre eles,
os mais conhecidos são: Le Grand Calendrier Compost des Bergers (século XV), Le
  37  

Messager Boiteux, de Strasbourg (século XVII), o Poor Richard`s Almanak (século XVIII),
publicado por Benjamin Franklin, e o Almanaque das Musas (NOVA, 1996, p. 18).
Compreender a historicidade do impresso almanaque é fundamental para analisá-lo.
Nova (1996) menciona que os almanaques do século XVIII, produzidos na Europa, podem
ser percebidos como os precursores da revista moderna. Partindo inicialmente do formato
jornal (uma folha de papel dobrada duas vezes), eles eram organizados em
aproximadamente quinze páginas. No entanto, foi no século XIX que esta modalidade de
literatura se expandiu e diversificou: almanaques cômicos, proféticos, pitorescos,
astronômicos, astrológicos, anedóticos, poéticos, farmacêuticos e outros que, nas
palavras da autora, “tentavam levar a sério alguns assuntos e responder a necessidades
básicas do leitor” (NOVA, 1996, p. 21).
O estudo de Margareth Brandini Park (1999) recai pontualmente na análise de
almanaques de farmácia produzidos no Brasil. Contudo, a autora também faz uma
menção à historicidade do impresso produzido na Europa. Park comenta sobre a trajetória
dos almanaques franceses dos séculos XVII e XVIII, que poderiam ser agrupados em
diferentes temáticas: tempo, previsão, eclipses, fases da Lua, calendários, festas
religiosas, signos astrológicos, anedotas, fábulas, contos, conselhos para bem viver, fatos
estranhos e admiráveis da natureza, saúde, conselhos culinários, divertimentos, religião,
vida-morte, corpo-alma, orações, provérbios, História, entre outros (PARK, 1999, p. 59).
Especificamente sobre estes almanaques de farmácia produzidos no Brasil, em seu
estudo Park (1999) ressalta a característica de serem constituídos por diversas tipologias
textuais, além de imagens e propagandas. Compostos por textos diversos, muitos deles
não podem ser caracterizados como populares, assim como o caso da “Bibliothèque
Bleue” (PARK, 1999, p. 58), que valeu-se de obras clássicas para imprimi-las em edições
mais baratas, em circulação na França entre 1660 e 1780. Para a autora,

Os textos veiculados não são, em si, populares. Muitos deles são eruditos,
novelas, contos de fada, que são lidos não só por um segmento da
população que seria “menos letrada”. São textos lidos por todos. Histórias
delimitadas de um grupo em contato com um determinado material
impresso, naquele momento sócio-histórico. (PARK, 1999, p. 58)

Para Park (1999), estes mesmos temas são encontrados nos almanaques brasileiros
do século XX, com maior ou menor ênfase em algumas temáticas, conforme a época.
Assim, “se os temas não se modificam, serão as modificações tipográficas que se
enquadrarão aos modelos e aos conceitos de cada época” (PARK, 1999, p. 59).
  38  

No Brasil, Park (1999) analisa, entre os almanaques de farmácia produzidos no país,


o Almanaque Iza, produzido pelo laboratório Kraemer, da cidade de Taquari, Rio Grande
do Sul. Este almanaque tem a sua primeira edição em 1912 e é produzido para o Brasil
com o título de Almanaque Iza, redigido em português, e é intitulado Kometen Haley`s Iza-
Kalender para a sua edição em alemão, também para o Brasil (PARK, 1999, p. 79).
A data de início da impressão do Almanaque Iza, produzido em português e em
alemão, coincide com a data de início da produção do almanaque analisado no presente
trabalho, Der Familienfreund, que também teve sua primeira edição no ano de 1912. As
primeiras edições do Almanaque Iza foram impressas em português e em alemão, sendo
que a última edição produzida em alemão foi em 1939. O almanaque DFF teve sua última
edição em 1956, sendo em todo o período publicado em alemão.

2.3 PRODUÇÃO DE ALMANAQUES EM LÍNGUA ALEMÃ NO RIO GRANDE DO SUL

Os almanaques são os artefatos impressos mais cultivados aqui porque cada


colono no fim, mesmo que more nas mais distantes picadas e sequer leia um
livro ao longo dos anos, talvez nem mantenha com os outros um jornal, mas,
seguindo uma longa tradição, acaba comprando um almanaque com o
intuito de se manter informado sobre a época das festas, as fases da lua a
muitas outras coisas (VERBAND Deutcher Vereine. Hundert Jahre
Deutschtum in Rio Grande do Sul. Poa. Tipografia do Centro, 1924, p. 281)
(grifos meus)

O excerto retirado da edição comemorativa de cem anos da imigração alemã no Rio


Grande do Sul apresenta elementos importantes sobre a importância do almanaque nas
regiões do interior do estado. A dificuldade de acesso ao impresso fica nítida, sendo
ressaltado que, em lugares distantes, o acesso ao livro e ao jornal era difícil e que para
muitos a leitura destes não era um costume. A aquisição do almanaque, seguindo uma
longa tradição, para a informação de datas e muitas outras coisas, estava presente.
A produção de almanaques em língua alemã, segundo Grützmann (2005, 2006),
representa um capítulo importante na história da imigração alemã na Argentina, no Brasil
e no Chile. Sua produção constituiu-se em “uma das principais produções culturais
impressas destinadas aos imigrantes e seus descendentes no Brasil” (GRÜTZMANN,
2005, p.1). Este tipo de produção também foi publicada no Rio Grande do Sul pelo menos
desde a década 1850, com a publicação, em Porto Alegre, do Der neue hinkende Teufel.
Deutscher Volkskalender für die Provinz S. Pedro do Sul, destinado aos anos de 1856 à
1858 (GRÜTZMANN, 2006a, p. 14).
  39  

De acordo com a autora, esses periódicos ainda serviam como guias práticos de
consulta ao longo do ano, transmitiam diversas informações úteis pensadas para otimizar
o dia-a-dia dos leitores do campo e da cidade. Entre essas informações, estavam tabelas
de pesos e medidas, taxas postais e telegráficas, orientações para o trabalho agrícola e a
criação de animais (GRÜTZMANN, 2006a, p. 14).
Estes almanaques ainda apresentavam outras tipologias textuais, como textos
literários, entre eles aforismos, poemas, contos, novelas, principalmente de autores da
literatura alemã e da literatura de expressão alemã na Argentina, no Brasil e no Chile.
Havia, também, matérias de cunho histórico, cultural, político e econômico, relatos de
viagens, reminiscências, retrospectiva anual, produções humorísticas, imagens e
fotografias (GRÜTZMANN, 2006a, p. 14).
Erich Fausel (1956), docente da escola de teologia de São Leopoldo, disserta sobre
a literatura rio-grandense em língua alemã na Enciclopédia Rio-grandense. No capítulo, o
autor destaca que o imigrante alfabetizado não levava consigo só a língua dos
antepassados, mas também certas formas de expressão literária. “Quanto mais elevado
seu nível cultural, mas intensivo será seu desejo de representação própria de sua
mentalidade e de seu pensamento” (FAUSEL, 1956, p. 223). Segundo o autor, os
anuários (almanaques) foram as publicações de caráter singular e típico de sociedades
agrícolas, de influência duradoura e intensiva. Em sua escrita, o autor adota um
posicionamento pejorativo sobre a cultura literária dos imigrantes. Nas palavras de Fausel
(1956),

A maior parte destes imigrantes, ainda que fossem alfabetizados, não


trouxe cultura literária alguma, mas originou-se das camadas mais simples e
pouco desenvolvidas do povo alemão. Suas necessidades literárias
limitavam-se geralmente à Bíblia, ao hinário religioso e, talvez, a anuários
ou alguns livros escolares para o ensino elementar. (FAUSEL, 1956, p. 223)

Nas palavras de Fausel, “o jornal não tem vida longa, o anuário, entretanto,
substituiu o livro, que o colono comprará só raras vezes e, assim, adquire uma
importância multilateral na formação da mentalidade colonial. A Bíblia e o anuário são, de
fato, os verdadeiros livros do colono de outrora” (FAUSEL, 1956, p. 225). Este
posicionamento sobre a importância do almanaque junto à Bíblia é sinalizado em vários
estudos já destacados. Fica clara a dificuldade de aquisição de material impresso, e que o
almanaque havia conquistado uma comunidade de leitores que, todos os anos, adquiriam
o seu almanaque seguindo a longa tradição. Esta tradição, como já referi, não era uma
  40  

tradição criada no sul do Brasil, pois até o século XX, os almanaques foram, junto com a
Bíblia, um dos impressos mais utilizados no Ocidente (PEREIRA, 2009). Esta afirmação
sugere que o costume da aquisição e leitura do almanaque por imigrantes e
descendentes de imigrantes alemães era um costume importado ou possivelmente
inspirado em vivências de gerações anteriores. Sobre o conteúdo dos almanaques,
Fausel pontua,

O anuário traz toda a informação prática para o colono sobre tempo e


técnica, plantas e plantações, criação e cuidado de animais, higiene e
educação. A vida política e a cultura geral em resumo, a arte e a história
fazem parte do anuário bem organizado. Nos anúncios encontram-se as
informações comerciais necessárias; mas antes de tudo, o anuário é o
berço e o receptáculo da quase totalidade das produções literárias.
(FAUSEL, 1956, p. 227)

Para o autor, o anuário pode criar uma tradição e construir os alicerces morais e
mentais das populações trabalhadoras, produtivas e pacíficas do interior, destacando três
anuários de maior influência nos primeiros noventa anos de imigração: o Koseritz
Deutscher Volkskalender (Krahe e Cia), desde 1874; o Kalender fuer die Deutschen in
Brasilien (Rotermund e Cia), desde 1881, e o Familienfreund-Kalender, desde 1912 (Hugo
Metzler). Segundo Fausel, os anuários refletiram também a formação tripartida da
mentalidade colonial. “O ativismo secular e o liberalismo filosófico de Koseritz foi
contrariado pelo espírito protestante e cristão dum Rotermund até que, em época menos
agitada e combativa, os católicos de língua alemã se juntaram ao concerto” (FAUSEL,
1956, p. 227).
Segundo Arthur Blásio Rambo (2003), autor que disserta, entre outras temáticas,
sobre a história da imprensa teuto-brasileira e sobre os Jesuítas no sul do Brasil, no
decorrer das décadas de 1850 e 1860, definiram-se três vertentes de pensamento
presentes entre os teuto-brasileiros: a católica romana, com a chegada dos padres
jesuítas alemães em 1849; a protestante, com a vinda dos pastores alemães ordenados e
os primeiros passos para organização do Sínodo rio-grandense; e a liberal, com a fixação
definitiva dos Brummer9 depois de desmobilizados, tendo Karl von Kozeritz como porta-

                                                                                                               
9  Segundo Kreutz (1994), os Brummers eram os questionadores da ordem vigente e incentivadores de
novos empreendimentos em favor do desenvolvimento cultural e econômico. Em sua maioria, haviam
participado de movimentos liberais na Europa, antes de 1848. Chegaram e radicaram-se no Rio Grande do
Sul a partir de 1852.
  41  

voz mais conhecido. Consequentemente, a imprensa produzida por estes três grupos
estava engajada em seus interesses e ideais (RAMBO, 2003, p. 60).
Como indiquei na seção 2.1, foram três as principais modalidades de imprensa
oferecidas: os jornais, as revistas e os almanaques. Os liberais, os protestantes e os
católicos mantinham, respectivamente, um jornal e um almanaque. Protestantes e
católicos ofereciam ainda, cada um, uma publicação periódica (RAMBO, 2003, p.78).
Grützmann (1996) analisa a literatura produzida para imigrantes e ressalta que,
“dentre as publicações destinadas aos imigrantes e seus descendentes foram os anuários
(Kalender) que obtiveram maior repercussão junto ao público e com maior regularidade
divulgaram a literatura” (GRÜTZMANN, 1996, p. 99).
Para a autora, apesar da representatividade das produções culturais destinadas aos
imigrantes e seus descendentes, o estudo sobre os almanaques editados no Brasil,
principalmente em Santa Catarina, no Paraná e em São Paulo; na Argentina e no Chile,
ainda parece lacunar:

Embora a historiografia voltada para o estudo da imigração alemã na


América Latina tenha registrado a presença dos almanaques e de suas
opções de leitura, a história destes distintos impressos e dos ideários que
veiculam ainda continua uma faceta pouco explorada pelos investigadores.
(GRÜTZMANN, 2006a, p. 14)

Conforme Grützmann (2006), a história dos almanaques produzidos em língua


alemã na América Latina continua pouco estudada pelos investigadores, mesmo que sua
presença seja conhecida. O estudo proposto sobre as práticas de leitura do almanaque
DFF, desta forma, é inédito nos estudos acadêmicos.
Nas palavras da autora, “a prática de leitura de almanaques constitui parte
significativa do processo (i)migratório na Argentina, no Brasil e no Chile, visto que esses
periódicos foram uma das principais possibilidades de acesso à palavra impressa pelos
imigrantes de fala alemã e seus descendentes.” A edição destes almanaques foi realizada
em distintos momentos do século XIX e da primeira metade do século XX, intensificando-
se, nos três países já mencionados, nas décadas de 1920 e 1930. No Brasil, como referi
anteriormente, a produção desses periódicos concentrou-se especialmente no Rio Grande
do Sul onde esta atividade, iniciada na década de 1850, apresentou uma extensa
regularidade e continuidade, atingindo várias décadas ininterruptas (GRÜTZMANN,
2006b, p. 71).
  42  

Um exemplo de edição de almanaque no Rio Grande do Sul é o apresentado por


René Gertz (1998). O autor disserta sobre a história do pastor Wilhelm Rotermund, doutor
em Teologia, que chegou em 1874 a São Leopoldo, cidade de colonização alemã próxima
à Porto Alegre, para exercer funções pastorais na comunidade evangélica. O pastor
pretendia uma estada temporária, mas esta acabou transformando-se num projeto de vida
e Rotermund permaneceu em São Leopoldo até sua morte em 1925. Sobre as
publicações do pastor, Gertz (1998) afirma que muito cedo ele organizou uma editora
para publicar livros para as atividades pastorais e educacionais nas comunidades
protestantes do Brasil. Sua concepção era de que o protestantismo luterano só podia ser
vivido em solo brasileiro estreitamente vinculado à etnia alemã (uma percepção muito
comum entre líderes religiosos protestantes vindos da Alemanha). Isso levou-o a lançar,
em 1881, um almanaque chamado Kalencler far die Deutchen in Brasilien (Almanaque
para os alemães no Brasil), que teve muito sucesso e que na década de 1920 chegou a
publicar edições anuais de 30.000 exemplares (GERTZ, 1998, p. 44). O pastor Rotermund
também dirigiu o jornal protestante Der Bote em 1874 e fundou, em 1877, uma tipografia e
casa editora enquanto o jesuíta Feldhaus fundou, em 1871, em São Leopoldo, o Das
Deutsche Volksblatt (ROCHE, 1969, p. 664).
Segundo Willems (1946), a imprensa católica, considerando jornais e almanaques,
apresentava um número maior de assuntos relativos ao Brasil, incluindo também a
publicidade feita em português, frente aos assuntos referentes à Europa, ou seja, a
imprensa teuto-brasileira, em geral, ocupou-se não só com a perpetuação da cultura
germânica, mas igualmente com a introdução de valores da cultura brasileira.
Dissertando sobre os jesuítas no sul do Brasil, o padre Jorge Alfredo Lutterbeck
(1977) dedica um capítulo do seu livro sobre O apostolado da pena e da palavra – a
necessidade de escrever, com o exemplo dos escritos sacros, e afirma que a Igreja
sempre praticou o apostolado da imprensa ou da palavra escrita. O autor destaca que
“várias associações, fundadas ou mantidas por padres jesuítas do Brasil Meridional,
constituíram um convite tácito para escrever, pois era necessário manter um elo íntimo
com todos os seus membros através de publicações periódicas” (LUTTERBECK, 1977, p.
141).
Um dos exemplos que menciona é também o Deutsches Volksblatt, jornal em língua
alemã inicialmente fundado e publicado pelo padre Guilherme Feldhaus, Superior da
Missão dos Jesuítas no Rio Grande do Sul, em 1871, em São Leopoldo. O autor afirma
que um dos objetivos desta edição era rebater os ataques públicos que, segundo
  43  

Lutterbeck (1977), naqueles anos, eram contínuos à Igreja e à Companhia de Jesus,


sendo os adversários quase todos os demais periódicos (LUTTERBECK, 1977, p. 144).
Esta afirmativa confirma as afirmações anteriormente destacas sobre as divergências
existentes entre os impressos publicados (RÜDIGER, 1996, p. 134). Segundo Lutterbeck:

Em 1890, o Deutsches Volksblatt mudou de sede, passando de São


Leopoldo a Porto Alegre, e foi entregue às mãos de leigos alemães ou de
origem alemã. Em questão de uns poucos anos veio a constituir-se numa
verdadeira empresa jornalística e editora, sobretudo a partir de 1894,
quando, além do jornal alemão, ela publicou, por alguns anos, outro jornal
em vernáculo e ainda outro em língua italiana. Embora a Tipografia do
Centro – este o nome que tomou – progredisse continuamente até por volta
de 1940, os padres jesuítas lhe deram a sua constante contribuição,
máxime através do suplemento dominical, que gozou de crescente apreço
durante vários decênios. (LUTTERBECK, 1977, p. 143)

Em 1895, H. Metzler se tornou co-proprietário e, mais tarde, o único proprietário da


Tipografia do Centro. Segundo Roche (1969), “ele conservou o jornal e fê-lo crescer de tal
forma que a “Tipografia do Centro” é, ainda hoje, [anos 60] uma das principais casas
teuto-brasileiras de edição” (ROCHE, 1969, p. 660).
Hugo Metzler, citado por Roche e indiretamente por Lutterbeck (1977), é o editor do
Der Familienfreund. Segundo Braun (2011), em estudo sobre as memórias do povo
alemão no Rio Grande do Sul, Hugo Metzler foi um imigrante da Alemanha, jornalista,
escritor e diretor do jornal Deutsches Volksblatt e autor de diversos livros relacionados à
germanidade.
Assim como o pastor Rotermund, Hugo Metzler (1869 - 1929) também editou, além
de jornais, um almanaque em língua alemã no Rio Grande do Sul. Como será abordado
na próxima seção, nas edições encontradas no Acervo Benno Mentz, consta em 1912 a
1930 como editor do DFF Hugo Metzler e, após, de 1931 a 1939, passa a constar como
editora a Companhia Metzler Ltda. – sucessora de Hugo Metzler. Nas últimas edições, de
1940 a 1956, consta a Typographia do Centro S.A como a responsável por sua edição.
Na edição de 1942, passa a constar, na página final, como redator responsável Dr. Franz
Metzler, o filho de Hugo Metzler.
  44  

2.4 HUGO MENTZLER E A IMPRENSA CATÓLICA EM LÍNGUA ALEMÃ

Para compreender sobre a organização das edições do almanaque DFF, é


necessário o conhecimento acerca da comunidade de leitores visada, sendo esta a
comunidade de descendentes de alemães católicos no Rio Grande do Sul.
Segundo Chartier (1999), um texto só existe se houver um leitor para lhe dar um
significado. No caso do impresso almanaque pesquisado, os textos diversos publicados
no DFF existiam em circulação entre sua comunidade de leitores. Para o autor, uma
história das maneiras de ler deve identificar as disposições específicas que distinguem as
comunidades de leitores e as tradições de leitura. Esta investigação pressupõe o
reconhecimento de várias séries de contrastes; entre as competências de leitura, entre as
normas e as convenções de leitura e entre os diversos interesses e expectativas com os
quais os diferentes grupos de leitores investem a prática da leitura (CHARTIER, 1999, p.
13). Interesses, competências e convenções de leitura relacionadas aos leitores do
almanaque são percebidos na análise da materialidade do impresso.
No caso do almanaque DFF, a literatura e a investigação realizadas permitem
afirmar que os leitores visados pela ação editorial eram os descendentes de imigrantes
alemães residentes no Rio Grande do Sul e também no restante da região sul do Brasil,
incluindo Santa Catarina e Paraná. Os residentes em regiões do interior do estado eram
majoritariamente os mais visados, o que não descarta uma leitura frequente em regiões
urbanas.
Para André Werle (2004), em pesquisa acerca das discussões sobre imprensa nos
congressos católicos organizados pelos jesuítas alemães entre 1898 e 1940, no que se
refere ao Rio Grande do Sul e ao oeste catarinense, os religiosos que mais tiveram
destaque foram os jesuítas alemães, principalmente pelas atividades desenvolvidas junto
aos imigrantes da Alemanha. Estas eram práticas e instruções que não se referiam
abertamente à vida religiosa dos fiéis, mas eram direcionadas à sua vida social,
econômica e cultural (WERLE, 2004, p. 123).
Werle (2004) disserta sobre os congressos católicos organizados pelos jesuítas
alemães entre 1898 e 1940, eventos que constituíam-se de cerimônias religiosas,
palestras e debates de questões trazidas por representantes de diferentes colônias, como
também de atividades recreativas.
  45  

A ideia norteadora era que todos os aspectos da vida e, de forma muito


especial, as relações sociais deviam ser regidas pelos princípios católicos
(...) as palestras não tratavam somente da imprensa católica, mas
principalmente acerca das leituras dos imigrantes e seus descendentes, o
que incluía ao mesmo tempo um incentivo para a leitura e a compra dos
jornais católicos e a advertência contra a leitura da má imprensa. (WERLE,
2004, p. 124)

Havia, desta forma, uma valorização da leitura como instrumento de instrução, mas
também uma preocupação com as informações veiculadas nos impressos lidos pela
comunidade católica. Em dissertação intitulada “Regulação da leitura e da literatura
infanto-juvenil, no Rio Grande do Sul, na década de 1950: interdição, triagem e
intervenção das autoridades”, Eliana Ventorini (2009) investiga os movimentos das
autoridades públicas na direção de regulação dos impressos e das práticas de leitura.
Segundo a autora, estes discursos e intervenções estavam também relacionados à Igreja.
Em suas palavras,
A mobilização da Igreja em direção a uma atuação mais intensa na
sociedade iniciou ainda nos anos1920 e se intensificou a partir da década
de 1930, não só na capital do país, através da articulação de lideranças
eclesiásticas como D. Leme, mas também no Rio Grande do Sul, com os
arcebispos D. João Becker e, a partir de 1947, D. Vicente Scherer. (…) Em
linhas gerais, a Igreja buscava o fim da laicidade republicana e educativa,
considerada a “grande heresia dos tempos modernos”. (VENTORINI, 2009,
p. 96)

O arcebispo D. João Becker, citado por Ventorini, foi autor de um texto escrito em
português no exemplar de 1941 do DFF, em posicionamento sobre a campanha de
nacionalização. Em uma folha avulsa apensa à na edição de 1942 do DFF, o mesmo
arcebispo, juntamente com quatro bispos e um vigário, recomendava a leitura do jornal “A
Nação”, jornal impresso pela Tipografia do Centro em português e que possuía uma
coluna semanal em alemão. Na Figura 2, é apresentada esta carta de recomendação.
  46  

Figura 2 – Folha avulsa do exemplar de 1942 recomendando a leitura do jornal “A Nação”

Este movimento assinalado por Ventorini (2009) pode ser percebido na


recomendação apresentada na folha avulsa. A distinção entre a leitura boa e a leitura má
é nítida, assim como a valorização da comunidade católica e a importância da valorização
do impresso que “foi criado e se mantém com grandes sacrifícios”. É importante ressaltar
a data em que esta recomendação é veiculada no impresso, pois esta é a última edição
publicada do almanaque DFF antes da campanha de nacionalização. Isto sugere uma
preocupação que os leitores do DFF ainda tivessem uma opção de leitura católica, pois o
jornal “A Nação” era publicado em português. Segundo Rüdiger (1996), na época da
campanha de nacionalização a Tipografia do Centro foi atacada e destruída por
populares, forçando uma suspensão temporária do diário A Nação.
  47  

Ainda sobre os congressos católicos, alguns assuntos frequentemente se faziam


presentes nos encontros, por exemplo, as discussões sobre a escola e a educação dos
jovens, da agricultura e novas colonizações, assim como a imprensa e as leituras. A
atenção sobre a imprensa e as leituras não se restringiu aos congressos, mas também
nas próprias publicações organizadas por jesuítas, como o St. Paulusblatt, o Deutsches
Volksblatt e o Familienfreund Kalender, nos quais frequentemente apareciam referências
ao assunto (WERLE, 2004, p. 130).
Pela organização dos congressos católicos e pelas temáticas debatidas e apontadas
por Werle (2004), percebe-se a organização e o interesse da comunidade católica em ter
meios para uma influência assídua junto às famílias católicas, sendo a leitura um dos
focos de interesse. Segundo Rambo (2001), no 9o Congresso dos Católicos, realizado em
1912, em Venâncio Aires, Hugo Metzler e o Pe. Theodor Amstad se pronunciaram sobre o
interesse no nível cultural dos católicos teuto-brasileiros, demonstrando preocupação
sobre o mesmo. Metzler se pronunciou com um posicionamento preocupado com a
escolaridade dos teuto-católicos:

A deficiência de um nível de escolaridade à altura é a primeira responsável,


porque nós, alemães católicos do Rio Grande do Sul, não temos acesso às
profissões rentáveis na proporção esperada pela nossa presença numérica
(...) devido à ausência de uma formação mais aprimorada, melhor dito, por
falta de homens portadores de uma formação de nível mais elevado,
explica-se também o fato de não termos representantes nos círculos de
intelectuais influentes nos assim chamados círculos de “homens formados”,
como costuma dizer o brasileiro. (...) Não faltarão também aqueles que
acham as palavras duras e não estão dispostos a ouvi-las. Não tenho outra
saída e não disponho de outro remédio, senão nos reunirmos e com séria
determinação, a fim de repararmos os danos sociais causados em nosso
meio. (METZLER apud RAMBO, 2011, p. 235)

Metzler expôs com estas palavras sua posição quanto ao nível de escolaridade dos
“alemães católicos”, associando-a à falta de acesso às profissões mais rentáveis e aos
chamados círculos de homens formados. Nesta fala, fez claramente uma relação entre a
escolaridade e “uma promoção esperada”, ao acesso a posições que exijam uma maior
formação. Na ocasião, Metzler sugeriu dois caminhos complementares para reverter a
situação: que os sacerdotes despertassem o interesse pela cultura e a incentivassem
junto à população, e que a escola assumisse o papel decisivo no estímulo e no interesse
pela cultura. Pode-se relacionar, também, o início da produção do almanaque Der
Familienfreund com este momento, sendo que sua primeira edição foi no ano de 1912,
  48  

mesmo ano em que Hugo Metzler, seu editor, declarara publicamente sua preocupação
com relação à cultura dos teuto-brasileiros católicos e às opções de leitura.
Em uma publicação de 1899, editada pela Typografia do Centro, Metzler já havia
redigido: Um antigo provérbio dizia: “Dize-me com quem andas e eu te direi quem és.”
Hoje em dia eu acrescento: “Dize-me o que lês e eu te direi quem és e o que será de ti!”.
(METZLER apud WERLE, 2004, p. 123). A manifestação do editor pode ser relacionada
ao caráter formativo do impresso almanaque, destacado por Grützmann (2004) como
tendo um papel significativo na formação e no controle dos leitores, com a intenção de
normatização de suas condutas através da construção e reprodução de identidades
sociais, religiosas e étnicas, representações vinculadas aos ideários e/ou instituições que
orientam seu programa editorial ou aos quais estão relacionados diretamente
(GRÜTZMANN, 2004, p. 70).
Mesmo sendo claras estas intenções editorias, elas não devem ser concebidas
como apropriações diretas e literais dos leitores, lembrando que estas muitas vezes
“escapam completamente do controle ou previsões significativas do texto, submetendo-o
a desvios semânticos e imprevistos pragmáticos notáveis. As apropriações dos textos
pelo leitor implicam sempre a consciência de que a possibilidade de leitura efetua-se por
um processo de aprendizado particular, de que resultam competências muito diferentes”
(CHARTIER, 2011, p. 13).
Nas primeiras páginas do DFF, em sua primeira edição, de 1912, o editor Hugo
Metzler disserta sobre os motivos da publicação do almanaque, e porque esta leitura seria
escolhida entre outras opções.

Para aqueles que, com a minha apresentação, formularem a pergunta:


porque entre tantos almanaques alemães no Brasil, mais este? Eu
respondo: nós católicos alemães, numerosos no campo e na cidade,
espalhados por muitos lugares no chão da pátria brasileira, queremos ter e
ler o nosso próprio almanaque. Assim nos conheceremos mutuamente,
tomaremos consciência de quantos são os que pensam como nós e
encontraremos um lugar para nos manifestar abertamente sobre aquilo que
a cada um interessa, podendo dispensar os meios de comunicação com
outra orientação. O Familienfreund, este é o nome do almanaque, está
destinado a exercer o papel de elo de união entre os católicos de
descendência alemã no Brasil, ao promover a compreensão e a união
mútua. Esta é a sua missão. (FAMILIENFREUND, 1912 tradução RAMBO,
2003, p. 75)
  49  

Além de uma preocupação demonstrada entorno às leituras dos teuto-católicos,


possivelmente uma motivação para a edição do DFF, o editor expunha a intenção de
promover a integração da comunidade dos “católicos alemães”.
Como referi anteriormente, Hugo Metzler fundou em 1912 o DFF mesmo ano em
que se pronunciara no Congresso Católico como representante das lideranças leigas,
juntamente com o Pe. Theodor Amstad, que representara a liderança religiosa. Segundo
Lutterbeck (1977), o Pe. Amstad fundou, em 1900, o jornal-revista Der Bauernfreund para
a Liga Agrícola e, em 1913, o St. Paulusblatt para a Sociedade União Popular10, impresso
que ele mesmo redigiu por 25 anos ininterruptos11. Segundo Lutterbeck, ao perceber a
importância que o calendário, anuário ou almanaque tinha para as Colônias, o Pe. Amstad
fundou, em 1913, Der Familienfreund (O amigo das famílias), cuja redação também
esteve por mais de um quartel de século a seu cargo, podendo contar, contudo, com a
colaboração de outrem, máxime de jesuítas (LUTTERBECK, 1977, p. 144).
Pela literatura já citada anteriormente, o idealizador e fundador do DFF foi Hugo
Mentzler em 1912. A contribuição do Padre Amstad, contudo, também é assinalada. Para
Haike Kleber da Silva (2000), autora que dissertou sobre as representações de humor no
imaginário teuto-brasileiro analisando o humor presente no almanaque Der
Familienfreund, é difícil precisar o quanto da publicação do almanaque pode ser remetido
a seu redator, Pe Amstad, ou a seu editor, Hugo Mentzler. Segundo a autora, o que
parece certo afirmar é que a influência católica ocorreria de qualquer forma (SILVA, 2000,
p. 35).
Segundo Aloysio Bohnen (2000), em estudo sobre o Pe. Teodoro Amstad, além de
redigir grande parte do St. Paulusblatt, o Pe. Amstad também escreveu inúmeros artigos
para o almanaque DFF (BOHNEN, 2000, p. 26). Esta afirmativa evidencia a intensa
vinculação dos jesuítas com a edição do almanaque estudado.
Para Silva (2000), este impresso pode ser considerado um rico material para o
estudo da história dos teuto-brasileiros católicos, como também para a história da Igreja
católica entre os teutos. Segundo a autora, “para a população que lia em sua fase de
publicação, ele servia para o entretenimento, a informação dos acontecimentos mundiais

                                                                                                               
10  Em1912, foi criada a Sociedade União Popular, o “Volksverein” – tomando lugar da Associação Rio-
grandense de Agricultores. A sociedade tinha por finalidade promover o bem-estar tanto material como
espiritual dos católicos de descendência alemã no Rio Grande do Sul (RAMBO, 2011, p. 239).
11
Sobre o associativismo cristão e desenvolvimento comunitário no sul do Brasil, há maiores informações
na obra de Erneldo Schallenberger (SCHALLENBERGER, 2009).
  50  

mais importantes, dos acontecimentos eclesiásticos a nível nacional e regional, para


assistência jurídica e a orientação moral, entre outros” (SILVA, 2000, p. 25).
É inegável a importância do gênero almanaque produzido em língua alemã no Rio
Grande do Sul no final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX. Sendo uma
das poucas opções de leitura da sua comunidade de leitura, a aquisição do almanaque
anualmente tornou-se um hábito entre seus leitores. Especificamente o almanaque Der
Familienfreund foi o almanaque católico que possibilitou a leitura de entretenimento e
informação para aquela comunidade de leitores.
  51  

3. ALMANAQUE DER FAMILIENFREUND - APROXIMAÇÕES AO OBJETO DE


ESTUDO

Para a aproximação das edições do almanaque Der Familienfreund sob a


perspectiva da história da cultura escrita, um aspecto significativo à análise é a
materialidade do suporte do impresso. Lembrando as palavras de Roger Chartier (1999),
“as formas produzem sentido e um texto, estável por extenso, passa a investir-se de uma
significação e de um status inéditos, tão logo se modifiquem os dispositivos que convidam
à sua interpretação” (CHARTIER, 1999, p. 13). As formas escolhidas para a organização
dos textos e informações presentes no impresso, assim, são significativas às atribuições
de sentido no ato de leitura, assim como evidenciam intenções editoriais específicas.
Conforme Martyn Lyons (1999), a história do livro e da leitura abrange o estudo da
evolução de formas materiais do livro. Segundo o autor, “a forma física do texto, na tela
ou no papel, seu formato, a disposição do espaço tipográfico na página são fatores que
determinam a relação histórica entre o leitor e seu texto (...) O historiador da leitura tenta
elucidar as relações entre o texto, sua forma física, os meios de circulação e seu público
eventual” (LYONS, 1999, p. 12). As formas que os textos chegam aos seus leitores
interessam ao historiador da leitura. O suporte em que ele é veiculado, as imagens e a
organização tipográfica influenciam a relação entre leitor e texto, assim como evidenciam
estratégias editoriais em sua formatação. O editor também é, antes de tudo, um leitor, e
suas escolhas são influenciadas, além de fatores externos como suas opções editorias,
por sua leitura.
Para estabelecer a relação entre o texto, sua forma física, sua circulação e a
comunidade de leitores a qual se destinava é necessário aproximar-se da materialidade
do impresso. Relembrando os estudos sobre almanaques (PARK, 1999; GRÜTZMANN,
2004, 2005; NOVA, 1996), estes eram impressos de caráter popular que utilizavam
linguagem verbal e não-verbal, apresentavam textos de diferentes fontes, eram
organizados com uma diversidade de gêneros textuais e tinham como característica
fundamental a marca da passagem do tempo, o calendário. Estas características fazem
  52  

do almanaque um impresso que era destinado a circular ao longo do ano, com leituras e
utilizações diversas com significativas escolhas editoriais. Pode-se, assim, inferir uma
atenta intervenção editorial.
Nesta seção, será apresentada a análise sobre a materialidade do impresso
estudado, com a intenção de compreender mais sobre suas características físicas, sobre
os gêneros textuais presentes e sobre as imagens organizadas nas edições. As escolhas
tipográficas, letra, imagem, organização do espaço gráfico das páginas entre outras
intervenções editoriais estão em jogo no processo da atribuição de sentido realizada pelo
leitor. Sendo assim, para o estudo do DFF, fez-se necessária a análise das formas sob as
quais ele se apresenta e como organiza os diversos textos que veicula. Nas palavras de
Chartier (1999) “manuscritos ou impressos, os livros são objetos cujas formas comandam,
se não a imposição de um sentido ao texto que carregam, ao menos os usos que podem
ser investidos e as apropriações às quais são suscetíveis” (CHARTIER, 1999, p.8).
Assim, pensar a história da leitura do DFF implica observar e caracterizar sua
materialidade como impresso, uma vez que os efeitos das formas materiais ocupam um
lugar central dentre os diferentes aspectos em jogo na atribuição de sentido do que é lido.
Como Chartier (1999) argumenta:

Mais do que nunca, historiadores de obras literárias e historiadores das


práticas e partilhas culturais têm consciência dos efeitos produzidos pelas
formas materiais. (...) Daí, então, a atenção dispensada, mesmo que
discreta, aos dispositivos técnicos, visuais e físicos que organizam a leitura
do escrito quando ele se torna um livro. (CHARTIER, 1999, p. 8)

Para esta aproximação às edições do almanaque Der Familienfreund12, realizou-se


primeiramente uma organização geral que tabulou suas características, o que gerou a
elaboração de quatro tabelas (ver Tabelas 2 a 5), com o intuito de proporcionar um olhar
panorâmico sobre todos os exemplares e, em um momento posterior, focar a análise em
algumas características e edições específicas.
A primeira tabela (Tabela 2) apresenta as características físicas do suporte, tais
como as dimensões, juntamente com o ano de publicação, o número de páginas de cada
edição, idioma (s) dos textos e tipo de caractere utilizado nos textos.
                                                                                                               
12
Para a pesquisa, como indiquei na Introdução desta dissertação, três acervos foram consultados; o
Acervo Benno Mentz, o Memorial Jesuíta Unisinos e o Acervo Histórico dos Jesuítas em Porto Alegre. Nos
três acervos há a coleção completa do almanaque Der Familienfreund. Nos Acervos, muitas edições estão
preservadas com mais de um exemplar e, por vezes, um destes encontra-se encadernado juntamente a
outra edição. Em geral, as edições encadernadas (com capa dura como um livro) estão mais bem
conservadas do que as que foram mantidas apenas com a capa original.
  53  

A segunda tabela organizada (Tabela 3) apresenta informações sobre as tipologias


textuais presentes no almanaque. Segundo Grützmann (2004), nos almanaques há de
tudo um pouco para alcançar diferentes tipos de leitores e esse repertório inclui diversas
formas textuais. Para perceber a recorrência de alguns gêneros textuais, a Tabela 3 foi
organizada.
A terceira tabela (Tabela 4) demonstra a recorrência de imagens existentes no
impresso. Nos primeiros contatos com o impresso, logo percebeu-se a utilização
recorrente de imagens entre os textos, entre fotografias, mapas, ilustrações, entre outros.
A quarta e última tabela (Tabela 5) apresenta as informações e características das capas
dos exemplares, o que possibilitou uma atenção às imagens presentes nas capas,
percebidas como uma possibilidade de exploração do objeto empírico. Nesta seção,
apresento cada tabela e uma explanação sobre as aproximações realizadas que
abrangem as trinta e oito edições do almanaque Der Familienfreund.
Segue, assim, a Tabela 2:

Tabela 2 – Características físicas do almanaque Der Familienfreund (edições localizadas no Acervo


Benno Mentz)

Ano de Número de Páginas Idiomas Caracteres


Dimensões

Publicação

1912 18X25cm 119 + anúncios Alemão Gótico (anúncios com letra de


imprensa)
1913 17X24cm 144 + 64 de anúncios Alemão (anúncios com Gótico (anúncios com diferentes
(LXIV) algumas poucas fontes)
TOTAL = 208 traduções para o
português)
1914 17X24cm 160 + 72 de anúncios Alemão (anúncios com Gótico (anúncios com diferentes
(LXXII) português) fontes)
TOTAL = 232
1915 17X24cm 160 + 64 de anúncios Alemão (anúncios com Gótico (anúncios com diferentes
TOTAL = 224 português) fontes)
1916 17X24cm 176 + 72 de anúncios Alemão (anúncios com Gótico (anúncios com diferentes
(LXXII) + 7 páginas português) fontes)
Adresskalender
TOTAL = 255
1917 16X23cm 136 + 64 de anúncios Alemão (anúncios com Gótico (anúncios com diferentes
(LXIV) português) fontes)
TOTAL = 200
1918 17X24cm 132 + 58 de anúncios + Alemão (anúncios com Gótico (anúncios com diferentes
9 p. “Adresskalender” português) fontes)
TOTAL = 199
1919 - - - -
1920 16X23cm 127+48 de anúncios Alemão (anúncios com Gótico (anúncios com diferentes
TOTAL = 175 português) fontes)
1921 16X24cm 172 com anúncios + 10 Alemão (anúncios com Gótico (anúncios com diferentes
  54  

de endereços português) fontes)


TOTAL = 182
1922 16X23cm 168+ 48 de anúncios Alemão (anúncios com Gótico (anúncios com diferentes
TOTAL = 216 português) fontes)
1923 17X24cm 168 + 60 de anúncios + Alemão (anúncios com Gótico (anúncios com diferentes
10 informações português) fontes)
TOTAL = 238
1924 17X24cm 176 + 44 de anúncios Alemão (anúncios com Gótico (anúncios com diferentes
TOTAL = 220 português) fontes)
1925 17X24cm 176+38 de anúncios +1 Alemão Gótico (anúncios com diferentes
de informações (anúncios com fontes)
TOTAL = 215 português)
1926 17X24cm 176+34 de anúncios e 1 Alemão Gótico (anúncios com diferentes
de informações (anúncios com fontes)
TOTAL = 211 português)
1927 17X24cm 176+62 de anúncios e 1 Alemão Gótico (anúncios com diferentes
de informações (anúncios com fontes)
TOTAL = 239 português)
1928 17X24cm 176+55 de anúncios e 1 Alemão Gótico (anúncios com diferentes
de informações (anúncios com fontes)
TOTAL = 232 português)
1929 17X24cm 176+55 de anúncios e 1 Alemão Gótico (anúncios com diferentes
de informações (anúncios com fontes)
TOTAL = 232 português)
1930 186+ 16 (no início) e 36 Alemão Gótico (anúncios com diferentes
17X24cm (no final) de anúncios e (anúncios com fontes)
1 de informações português)
TOTAL = 239
1931 224 + 36 (no início, Alemão Gótico (anúncios com diferentes
17X24cm fonte azul) e 80 (no (anúncios com fontes)
final) de anúncios português)
TOTAL = 340
1932 17X24cm 184 + 16 (no início, Alemão Gótico (anúncios com diferentes
fonte azul) e 48 (no (anúncios com fontes)
final) de anúncios português)
TOTAL = 248
1933 17X24cm 176 + 12 (no início, Alemão Gótico (anúncios com diferentes
azul) e 36 (no final) de (anúncios com fontes)
anúncios português)
TOTAL = 224
1934 17X24cm 176 + 6 (no início, em Alemão Gótico (anúncios com diferentes
azul) e 30 (em preto) e (anúncios com fontes)
mais 8 (em azul), no português)
final, de anúncios
TOTAL = 220
1935 16X23cm 175 + 16 (início, azul) Alemão Gótico (anúncios com diferentes
48 (final, preto) de (anúncios com fontes)
anúncios português)
TOTAL = 239
1936 16X23cm 159 + 48 de anúncios Alemão Gótico (anúncios com diferentes
(anúncios com fontes)
TOTAL = 207 português)
1937 16X23cm 160 + 56 (no final) + 8 Alemão Gótico (anúncios com diferentes
(no início) de anúncios (anúncios com fontes)
TOTAL = 224 português)
1938 16X23cm 160+56 (no final) + 8 (no Alemão Gótico (anúncios com diferentes
início) de anúncios (anúncios com fontes)
TOTAL = 224 português)
1939 21X27cm 160 + 48 (no final) + 16 Alemão Gótico (anúncios com diferentes
  55  

(no início) de anúncios (anúncios com fontes)


TOTAL = 224 português)
1940 176 Alemão, com um texto Gótico (anúncios com diferentes
21X27cm final escrito em alemão fontes) e a escrita em português
e em português com letra de imprensa
1941 17X24cm 207 Alemão com um Gótico nos textos em alemão, de
primeiro texto em imprensa no texto em português
português
1942 16X20cm 320 Alemão com um texto Gótico nos textos em alemão, de
em português imprensa no texto em português

1949 18X24cm 236 Alemão Gótico (anúncios em diferentes


(anúncios com fontes)
português)
1950 18X24cm 300 Alemão Gótico (anúncios em diferentes
(anúncios com fontes)
português)
1951 17X23cm 256 Alemão Gótico (anúncios em diferentes
(anúncios com fontes)
português)
1952 17X23cm 272 Alemão Gótico e de imprensa em textos.
(anúncios com
português)
1953 18X24cm 224 Alemão Gótico (anúncios de diferentes
(anúncios com fontes)
português)
1954 18X24cm 224 Alemão Gótico (anúncios de diferentes
(anúncios com fontes)
português)
17X23cm 200 Alemão Gótico (anúncios de diferentes
1955 (anúncios com fontes)
português)
1956 18X25cm 208 Alemão Gótico e de imprensa em textos
(anúncios com
português)
Fonte: Tabela organizada pela pesquisadora

Com relação à Tabela 2, é importante ressaltar que, sobre o número de páginas, o


registro na tabela seguiu as informações que constavam no próprio impresso; daí porque
elas variam, em algumas páginas estão registradas em algarismos arábicos e em outros
em números romanos, no caso dos anúncios. Esta distinção fez-se comum nas edições,
uma numeração para as páginas do corpo principal e outra numeração para as páginas
de anúncios e propagandas, como se constituíssem um suplemento. Mesmo assim, as
propagandas não deixam de constar, em menor quantidade, ao longo das páginas do
almanaque, mas em sua maioria localizam-se ao final de cada edição. Há também
edições em que constam anúncios no início e no final do exemplar, algumas vezes
mudando a coloração da impressão de preto para azul. Nas últimas edições localizadas
(de 1940 a 1942 e de 1949 a 1956) a numeração das páginas passa a ser considerada
uma só. Também estão destacadas, na Tabela 2, as páginas de conteúdos informativos,
  56  

além de endereços comerciais que figuram como “Adresskalender”, um guia telefônico do


próprio calendário, característica que consta em algumas edições.
Sobre o idioma dos textos impressos, prevalece a publicação em alemão, embora há
edições em que constam textos em português, especificamente em duas há um texto todo
em português e o mesmo texto em alemão, lado a lado, o texto em português, em letra de
imprensa, e de outro escrito em alemão, em letra gótica. Sendo assim, para a
organização da tabela considerei relevante atentar para a recorrência ou não da utilização
de ambos os idiomas, em um impresso que apresenta a característica de ser redigido em
língua alemã, editado e impresso no Brasil por tantas décadas.
A apreciação da Tabela 2, ainda, leva a observar recorrências às suas
características principais que atribuem-lhe uma singularidade. Em sua maioria, os
impressos foram redigidos em letra gótica, principalmente os textos narrativos. Em
algumas edições, também aparece a letra de imprensa, utilizada para os textos
informativos, que estão acompanhados por retratos da comunidade, fotos de regiões do
sul do Estado, ilustrações de mapas ou figuras políticas da época.
Diante da importância que a observação dos dispositivos técnicos, visuais e físicos
representa para a atribuição de sentido, tornou-se significativa sua descrição para a
compreensão da relação prática que liga um impresso a seus leitores. O tamanho e a
materialidade similares ao formato livro, a divisão entre os textos e os anúncios, os
caracteres escolhidos relacionados ao idioma principal. Majoritariamente, quando
reproduzido em alemão, o texto está impresso em gótico e, quando escrito em português,
com os caracteres de imprensa. Tais características sugerem protocolos de leitura e
evidenciam a íntima relação da comunidade de leitores almejada com escolhas
tipográficas, imagens e características associadas à cultura alemã, mas igualmente à
cultura brasileira.
Além da aproximação à materialidade do impresso, a organização da Tabela 2
possibilitou algumas observações. Entre elas, o número de páginas do almanaque que,
seguindo as informações tabuladas, pode-se perceber que aumentaram
consideravelmente em tamanho em algumas edições nas décadas de 30 e 40, chegando
a trezentas e quarenta páginas na edição de 1931, edição que apresenta o maior número
de páginas das trinta e oito edições. Uma observação mais focada no número de páginas
por exemplar leva a constatar uma variedade significativa, não havendo, nas décadas de
30 e 40, uma regularidade. Na década de 50, contudo, há apenas uma diminuição no
número de páginas editadas e não uma variação como nas décadas anteriores.
  57  

Outra constatação a partir da Tabela 2 refere-se aos textos em português a partir do


período da campanha de nacionalização. Três edições em particular apresentam textos
também em português, sendo que em duas trata-se do mesmo texto impresso em dois
idiomas, português e alemão, impressos no almanaque nos anos de 1940, 1941 e 1942,
anos que antecederam a campanha de nacionalização.
A edição de 1940 é uma das edições que apresenta textos bilíngues, diferenciados
pelo uso dos caracteres em gótico para o alemão e caracteres de imprensa para o
português, apresentados nas mesmas páginas, lado a lado. Este texto tem como título
“Rundschau”, que poderia ser traduzido como “Vista Panorâmica”. Sua temática é uma
visão global sobre os anos anteriores, de 1938 e 1939, cujo tema aborda os conflitos e
avanços de diversas civilizações mundiais. Este texto sobre os acontecimentos,
principalmente políticos e econômicos, abrange da página 139 à 167 da edição, e é
assinado com as iniciais Fr. M. O. P.
Na edição de 1941, o primeiro texto apresentado na publicação intitula-se “A pátria”,
de autoria do arcebispo João Becker13, apresentado inicialmente em português e, após,
em alemão. Já a edição de 1942 apresenta outro texto em português entre suas páginas,
que se intitula “O tio do calendário”.
As datas em que estas edições foram impressas e colocadas em circulação, assim
como as temáticas abordadas nos textos, demonstram uma relação dos textos publicados
em português com a campanha de nacionalização. Lembrando as palavras de Seyferth
(1997), na campanha de nacionalização de 1937, a comunidade teuto-brasileira foi uma
das preocupações do Estado. A partir de 1939, houve a exigência de “abrasileiramento”,
sendo um dos aspectos visados o idioma praticado nas comunidades imigrantes.
Na edição de 1941 do almanaque, no artigo intitulado “Mensagem ao Clero e as
Católicos sobre a Pátria e o Patriotismo” o autor, o Arcebispo da região Metropolitana de
Porto Alegre, D. João Becker, disserta sobre os sentimentos patrióticos em um
posicionamento contra a ideias “anti-brasileiras”, ele afirma:

Pela inocência de uns e talvez pela maldade de outros, está se criando uma
atmosfera prenhe de hostilidades, um ambiente perturbador da necessária
tranquilidade social e favorável à proliferação de idéias perniciosas e anti-
brasileiras. Tenhamos diante de nós a imagem da Pátria e obedeçamos às
ordens do nosso patriótico Governo que decretou neutralidade completa no
atual conflito e quer que todos os brasileiros guardem, com vigilância e
                                                                                                               
13
Em 1912, o bispo Dom Cláudio José, primeiro Arcebispo da Arquidiocese de Porto Alegre, nomeou
Dom João Becker como seu sucessor para o cargo de reger o Arcebispado na cidade. (BALÉN, 1956,
p. 22)
  58  

serenidade, os postos que lhes são confiados. Por isso, depois de


invocadas as luzes do céu, resolvi dirigir ao Clero e aos fiéis a presente
Mensagem sôbre a Pátria e o Patriotismo. (DER FAMILIENFREUND, 1940,
p. 17)

Este texto, especificamente, está impresso em português e em alemão, apresentado


nas primeiras páginas do almanaque, sendo exposto primeiramente em português em
caracteres de imprensa e, após, em alemão em caracteres góticos, possivelmente já
evidenciando uma relação entre o idioma e o patriotismo, mesmo que a utilização do
alemão não seja uma temática abordada no texto. O arcebispo finaliza estabelecendo
uma relação entre religião e sentimento patriótico quando afirma “cimentemos a nossa
união nacional na justiça e na caridade e sejamos católicos fervorosos, afim de sermos
ótimos brasileiros” (Der Familienfreund, 1941, p. 25). É sugestivo inferir sobre a relação
da escolha da apresentação bilíngue do texto e a campanha de nacionalização do período
histórico da publicação. Ao publicar o texto em ambos os idiomas, possivelmente visava-
se responder à censura imposta, ao possibilitar que brasileiros que não soubessem ler em
alemão compreendessem o texto, além de demonstrar uma valorização da língua
nacional. Outra possibilidade para a utilização do português é a marca geracional pois,
nas últimas décadas em que o almanaque foi editado, já havia gerações de descendentes
que não tinham o pleno domínio da idioma alemão.
  59  

Figura 3 – Texto de Dom João Becker em português e alemão (Der Familienfreund, 1942, p. 25)

Outro texto apresentado em português, sem uma versão em alemão, é o que se


intitula “O tio do Calendário”, apresentado na edição de 1942, sendo esta a última edição
em circulação antes do intervalo de sete anos em que o almanaque não foi publicado. No
  60  

texto, o autor utiliza como pseudônimo “O tio do calendário”, título do texto, em que
explica e justifica a pausa das edições do almanaque.

Sim, o “Familienfreundkalender” (Anuário Amigo das Famílias), que durante


a longa série de 30 anos acompanhou seus amigos pela vida, animando-os
sempre a confiar em Deus as esperanças do futuro, ele fala hoje aos seus
leitores, primeiramente, em despedida. Este ano ele surge
antecipadamente. Mal passou a primeira metade do ano (...) e já o “Amigo
das famílias” tem pressa em chegar aos seus amigos. Sim, tem pressa por
chegar em tempo, porque breve, muito breve lhe estará barrado o caminho,
ser-lhe proibido chegar novamente (DER FAMILIENFREUND, 1942, p.51)

Sim, se o amigo das famílias fosse velho e decrépito – se tivessem morrido


os seus amigos, de sorte que ninguém mais tivesse algo de dizer e levar,
então seu destino teria que ser considerado como inevitável, se poderia
concordar que chegara a sua hora. Mas o “Amigo das Famílias” não está
velho e decrepito, nem só e abandonado. Está no vigor dos seus anos e
todos os anos um grande número de amigos, a quem ele tem muito a dar, o
espera. Por isso o Tio do Calendário diz que a despedida do Amigo das
Famílias não é inevitavelmente necessária. Pelo contrário: deixando de
aparecer no ano vindouro, ficará sensível lacuna. Isso pensa e diz o Tio do
Calendário. Mas pode também suceder que os acontecimentos passem por
cima da opinião do Tio do Calendário, apesar de todas boas razões dessa
sua opinião. Então não sairá mais o “Amigo das Famílias” ano que vem.
(DER FAMILIENFREUND, 1942, p. 52)

O autor apresenta suas ideias através da personificação do “Amigo das Famílias” e


adota um pseudônimo também de caráter familiar, o “tio”. Faz uso de um estilo de escrita
de aproximação com o leitor, possivelmente querendo enaltecer o caráter familiar do
anuário, que “nunca fez mal a ninguém, sempre espalhou alegria [...] dando indicações e
instruções para a vida prática e conselhos para a vida moral. O Tio do Calendário nem
pode imaginar-se a quem ele possa ter ofendido, para que, em atitude inimiga, se lhe
cortem os passos” (DER FAMILIENFREUND, 1942, p. 62). Imediatamente após estas
afirmações, o autor expõe a determinação apresentada no Diário Oficial no dia 21 de
fevereiro de 1941, em que consta a proibição da publicação da imprensa em língua
estrangeira, sendo só permitida a publicação em língua brasileira.
O texto também apresenta uma valorização dos primeiros imigrantes vindos para o
Rio Grande do Sul, enaltece as dificuldades passadas, relaciona a importância das
escolas na região da colônia e a alfabetização realizada e demonstra a preocupação
sobre a leitura dos colonos alemães. Esta referência à cultura escolar pode evidenciar
ainda mais a relação que o impresso estabelecia, além daquela com a Igreja Católica,
com as escolas. Nas palavras presentes no almanaque:
  61  

No entanto, se já é injusto querer censurar as escolas primitivas de épocas


passadas na região colonial pela sua incapacidade em levar para o seio do
povo o conhecimento e o uso do vernáculo, ainda mais errado é querer
fazer reparos e responsabilizá-la pela linguagem corrente das populações,
às quais servia. Nas colônias, para as quais o amigo das famílias tem em
vista sua difusão, não se fala alemão porque existiram e existem escolas
particulares, mas porque elas foram desbravadas pelos imigrantes alemães
que, no isolamento dos seus postos avançados na mata virgem, não
podiam, com a melhor boa vontade, adquirir outros conhecimentos
linguísticos. (DER FAMILIENFREUND 1942, p. 60)

Esta afirmação evidencia uma outra importante questão: a quem era destinado o
DFF? Mesmo que fosse elaborado e impresso pela Typografia do Centro, em Porto
Alegre, era idealizado para os leitores das colônias, como o próprio texto do almanaque
argumenta. Como já expus, possivelmente, este também possuía leitores assíduos na
capital e regiões próximas, como por exemplo, Novo Hamburgo e São Leopoldo, cidades
de forte imigração alemã, mas, pelos indícios a grande parcela de leitores localizava-se
nas regiões coloniais.
No texto “O tio do calendário”, o autor deixa clara a relação entre a leitura do alemão
e as escolas que os imigrantes alemães construíram nas terras que povoaram. Segundo
Kreutz (2008), as colônias “alemãs”, “polonesas”, “italianas” e “japonesas” foram colônias
isoladas por um longo período, assim, empreenderam ampla estrutura de auxílio ao
processo escolar, religioso e sociocultural, com características de seus países de origem.
Os grupos de imigrantes, especialmente os que vieram ao Brasil no século XIX,
normalmente conservavam formas de identificação étnica em relação ao idioma, à
organização religiosa, associativa e escolar de origem. Kreutz (2008) ainda afirma que “a
maior parte dos imigrantes alemães – próximo a 90% - vieram alfabetizados ao Brasil.
Estavam conscientes da importância da escola para seus projetos sociais, políticos e
culturais. Não foi o único grupo étnico a organizar escolas, mas foi quem as organizou em
maior número e com mais ampla estrutura de apoio.” Entre estas escolas, 90% se
estabeleciam em núcleos rurais (KREUTZ, 2008, p. 25).
Estas escolas, majoritariamente organizadas nos núcleos rurais, eram organizadas
pelas próprias comunidades, com uma relação também a grupos religiosos. Ao publicar o
texto “O tio do calendário”, a edição ressalta que, nessas regiões, não havia muitas
opções para a aquisição de novos conhecimentos linguísticos, pois o idioma
compreendido e utilizado era o alemão. Rambo (1994) também destaca que não havia
falta de interesse dos colonos de origem alemã para a integração dos imigrantes na
comunidade nacional. Para o autor, fatores como as terras oferecidas para os imigrantes,
  62  

que inicialmente apresentavam obstáculos, e o isolamento que dificultava o


desenvolvimento das comunidades teuto-brasileiras contribuíram para uma continuidade
em suas tradições.
Kreutz (2008), em contrapartida, destaca o projeto sócio-cultural e religioso que as
lideranças da igreja da imigração desenvolviam, em que era considerado importante zelar
pela preservação da língua de origem, da tradição religiosa com características étnicas e
da escola com espaço privilegiado para a formação. Entre as dificuldades encontradas
para a aprendizagem do idioma português e da importância dada à preservação do
idioma e das tradições do país de origem, imigrantes alemães e seus descendentes
preservaram a utilização do idioma alemão, posteriormente junto ao português, e eram
estes imigrantes e descendentes de imigrantes alemães, especialmente os católicos, a
quem o almanaque Der Familienfreund se destinava.

3.1 OUTRAS APROXIMAÇÕES: GÊNEROS TEXTUAIS E IMAGENS


APRESENTADAS

Como destaquei antes, a análise proposta nesta dissertação não tem o objetivo
específico de examinar o conteúdo dos textos publicados no DFF. Embora reconheça a
importância de uma análise de conteúdo, aqui as edições foram examinadas através de
um conhecimento geral dos assuntos abordados, pois o foco principal do estudo deteve-
se na materialidade do impresso e na caracterização de suas edições, da circulação e
produção de sentido junto à comunidade de leitores.
Contudo, pôde-se perceber, no contato com o material, a recorrência de certos
gêneros textuais, muitas vezes até seguindo uma mesma organização espacial e
sequência entre os textos apresentados nas edições do almanaque. Na contracapa, por
exemplo, uma imagem religiosa; nas primeiras páginas, o calendário e espaços para
anotações, seguidos por um poema ou uma oração. Os contos e narrativas constam, em
geral, nas páginas seguintes, e as notícias e informações diversas na sequência. Entre
estes, há a inserção de textos humorísticos, mapas e imagens, havendo uma diversidade
significativa de imagens e textos dados a ler e interpretar na maior parte das edições.
É importante ressaltar que, apesar de haver um extenso período histórico abarcado
pelas trinta e oito edições do almanaque, ou seja, quarenta e quatro anos, as decisões
  63  

tipográficas e a materialidade do suporte se mantiveram muito semelhantes em todo o


período. Há algumas diferenças específicas que serão abordadas posteriormente, como,
por exemplo, as capas coloridas ou a quantidade de imagens reproduzidas nas edições,
mas pode-se afirmar que há regularidades constantes no conjunto e as semelhanças na
organização dos gêneros textuais e informações diversas presentes no almanaque são
recorrentes. Uma relação que pode-se fazer à característica do gênero impresso
almanaque, pois, segundo Park (1999):

Ao elaborar este trabalho, estudando almanaques, talvez o que me tenha


mais chamado a atenção é que todos eles, sem exceção, desde os mais
antigos até os atuais apresentam um só tipo de organização. Esta
organização está sempre relacionada ao tempo, à lua, ao mês, podendo
estar vinculada ao horóscopo, aos signos, aos calendários agrícolas ou não.
Em outras palavras, o que pretendo assumir como hipótese aqui é que o
calendário representa a ligação estabelecida entre o homem e sua
organização de espaço e tempo. (PARK, 1999, p. 35)

Park (1999) estabelece a relação entre as regularidades na organização editorial do


almanaque e a ligação entre o homem e a sua organização de espaço e tempo. A marca
do tempo é presente no gênero almanaque que, como gênero impresso, apresenta
recorrências em sua organização e que o caracterizam como almanaque. Pode-se inferir,
também, que algumas destas escolhas editorias sejam marcadas por próprias limitações
editorias e, também, pelas expectativas do público leitor.
Mesmo que haja mudanças ao longo das trinta e oito edições, algumas delas
relacionadas às tecnologias disponíveis para impressão em cada momento, como a capa
em diversas cores nas últimas edições e um maior número de fotografias ao longo do
tempo, há significativas recorrências. Para Grützmann (2004), a repetição das
particularidades estruturais do almanaque, como as rubricas, a sequência dos assuntos, a
divisão interna e as formas literárias instauram uma prática cultural conservadora e
ritualística. A autora atribui esta familiaridade com o modelo editorial e com o impresso
como um dos fatores responsáveis pela sua recepção favorável (GRÜTZMANN, 2004, p.
51).
A seguir, é apresentada a tabela organizada como instrumento de análise para a
primeira aproximação dos textos impressos no DFF. É importante reafirmar que, ao longo
das edições, não só os gêneros textuais foram recorrentes, como sua organização gráfica
nas páginas do almanaque também. Desta forma, a sequência com que os textos,
  64  

espaços para escrita, calendários e anúncios estão organizados mantém-se na maior


parte das edições, havendo poucas mudanças.
Para a organização da Tabela 3, utilizou-se a nomenclatura “gêneros textuais”.
Segundo Luis Antonio Marcuschi (2002), em estudo sobre gêneros textuais e ensino, os
gêneros são fenômenos sócio-históricos e culturalmente sensíveis, assim, não há como
estabelecer uma lista fechada de todos os gêneros. Para o autor, gênero pode ser
considerado uma noção vaga de textos materializados, uma forma de realizar
linguisticamente objetivos específicos em situações sociais particulares (MARCUSCHI,
2002, p. 29).
Mesmo sendo abrangente a definição de gêneros textuais, pode-se realizar algumas
aproximações entre os textos. Para a organização da tabela, foram escolhidas seis
denominações de gêneros textuais: notícias, contos/ histórias narrativas, poemas/
orações, piadas/humor, carta ao leitor e anúncios/ propagandas. Foram escolhidas
definições abrangentes, visando um mapeamento geral. O objetivo central nesta
classificação foi perceber se em todos os exemplares havia a diversidade de gêneros
textuais atribuída ao gênero impresso almanaque, entre notícias informativas, narrativas
de cunho literário, entre outros. Nesta tabela 2, também consta a informação sobre os
espaços de escrita destinados ao registro da família, que foram encontrados em todos os
exemplares.
  65  

Tabela 3 – Informações sobre gêneros textuais e espaços para escrita encontrados nos exemplares do
almanaque Der Familienfreund

Contos/ Histórias

Piadas/ Humor

Carta ao leitor

Propagandas
Narrativas

Anúncios/
Poemas/
Orações
Notícias
14
Ano de publicação Espaços para anotações

1912 X X X X Gedenkblatt
1913 X X X X Gedenkblatt
1914 X X X X X Gedenkblatt
1915 X X X X X Gedenkblatt
1916 X X X X X Gedenkblatt
1917 X X X X X Familien-register
1918 X X X X X Familien-register
1919 - - - - - - -
1920 X X X X X Familien-register e outros
1921 X X X X X Familien-register
1922 X X X X X Familien- register e outros
1923 X X X X X Notizen (mensal)
Familien-register entre
1924 X X X X X
outros
1925 X X X X X Familien-Register
1926 X X X X X Familien-Register
1927 X X X X X Familien-register
1928 X X X X X Familien-register
Familien-register entre
1929 X X X X X
outros
1930 X X X X X Familien-register
1931 X X X X X Familien-register
1932 X X X X X Familien-register
1933 X X X X X Familien-register e outros
1934 X X X X X Familien-register
1935 X X X X X Familien-register
1936 X X X X X Familien-register e outros
1937 X X X X X Familien-register
1938 X X X X X Familien – register e outros
1939 X X X X X Familien-register e outros
15
1940 X X X X X X Familien-register e outros
1941 X X X X X Familien-register e notizen
1942 X X X X X Familien-register e notizen
1949 X X X X X Familien-register e notizen
1950 X X X X X Familien-register
1951 X X X X X Familien-register, outros
Familien-register, outros
1952 X X X X X
(notizen)
1953 X X X X X Familien-register, outros
Familien-register, outros
1954 X X X X X
(notizen)
1955 X X X X X Familien-register, outros
1956 X X X X X Familien-register
Fonte: Tabela organizada pela pesquisadora

                                                                                                               
14
Os títulos das páginas para registro da família podem ser traduzidos da seguinte forma: “Gedenkblatt”– Folha
comemorativa, “Familienregister” – Registro da família e “Notizen” – anotações.
15
Carta avulsa.
  66  

A partir da tabela 3, percebe-se a recorrência entre os gêneros textuais, pois em


todos os exemplares há textos de cunho narrativo e também notícias e informações
diversas. Entre os textos mais extensos, há piadas e charges de humor, apenas na edição
de 1912 não há nitidamente uma seção de humor. Poemas e orações também são
gêneros textuais recorrentes, assim como os anúncios e propagandas. Apenas a carta ao
leitor, que inicialmente era uma hipótese ser recorrente, foi impressa apenas na edição de
1940.
Os espaços para anotações também são recorrentes: em todas as edições há uma
página após o calendário destinada à escrita da família, com três opções de títulos:
anotações, registro da família e folha comemorativa. Na tabela 3, em alguns anos consta
“outros”, pois nessas edições foram encontrados outros espaços de escrita entre as
páginas, especialmente enigmas, em que há um espaço para a escrita da resposta.
Após os dois primeiros mapeamentos apresentados nas tabelas 2 e 3, outra tabela
fez-se necessária a fim de uma melhor compreensão sobre o material analisado, a tabela
4. Nas primeiras consultas, folheando os almanaques, percebeu-se uma recorrência de
imagens, ilustrações e fotografias das comunidades ou das regiões do Rio Grande do Sul.
De acordo com Grützmann (2004), os editores dos almanaques oferecem opções
acessíveis aos menos letrados e aos analfabetos, mediante a inserção de fotografias e
ilustrações. Para verificar a recorrência destas em todas as edições do almanaque Der
Familienfreund, foi elaborado um levantamento para verificação da existência de
fotografias, ilustrações e mapas entre as páginas do almanaque, uma vez que foram os
elementos que chamaram a atenção e apresentaram recorrência.
  67  

Tabela 4 – Imagens presentes no almanaque Der Familienfreund


Ano de Fotografias Ilustrações de Mapas
Publicação narrativas

1912 Sim Não Não


1913 Sim Sim Sim
1914 Sim Sim Sim
1915 Sim Sim Não
1916 Sim Sim Sim
1917 Sim Sim Sim
1918 Sim Sim Sim
1919 - - -
1920 Sim Sim Sim
1921 Sim Sim Não
1922 Sim Sim Não
1923 Sim Sim Não
1924 Sim Sim Sim
1925 Sim Sim Sim
1926 Sim Sim Sim
1927 Sim Sim Sim
1928 Sim Sim Sim
1929 Sim Sim Não
1930 Sim Sim Sim
1931 Sim Sim Sim
1932 Sim Sim Sim
1933 Sim Sim Não
1934 Sim Sim Sim
1935 Sim Sim Não
1936 Sim Sim Sim
1937 Sim Sim Sim
1938 Sim Sim Não
1939 Sim Sim Sim
1940 Sim Sim Não
1941 Sim Sim Não
1942 Sim Sim Não
1949 Sim Sim Não
1950 Sim Sim Não
1951 Sim Sim Sim
1952 Sim Sim Sim
1953 Sim Sim Não
1954 Sim Sim Não
1955 Sim Sim Não
1956 Sim Sim Não
Fonte: Tabela elaborada pela pesquisadora

Observou-se, ainda, que o número de fotografias em cada edição foi ampliado ao


longo dos anos de publicação. Na primeira edição, por exemplo, há apenas duas
fotografias em folha branca, diferentes das demais folhas da edição. Nas demais
publicações, contudo, as fotografias passam a ser mais utilizadas, constando com
frequência entre os textos ofertados a ler.
  68  

Três edições demonstram os aspectos acima referidos: o primeiro exemplar, de


1912, com 199 páginas mais anúncios; o décimo oitavo exemplar, de 1931, com 340
páginas, e o último exemplar publicado, de 1956, com 208 páginas. A primeira edição,
1912, apresenta duas fotografias em uma folha diferenciada. A edição, de 1931,
apresenta 42 ilustrações e 127 fotografias e, na edição de 1956, há 37 fotografias e 15
ilustrações. Esta quantidade de imagens reproduzidas na edição de 1931, assim como a
riqueza de seus detalhes, podem remeter à relação de cada década com as
possibilidades (ou impossibilidades) de utilizar diversas imagens no impresso. Em outras
palavras, remetem à discussão sobre o acesso da indústria tipográfica e editorial à
aquisição e à utilização de imagens na impressão.
Vale ressaltar que o decréscimo de imagens apresentadas nos exemplares pôde ser
percebido no manuseio dos últimos exemplares, não somente no de 1956. Esta
quantidade inferior de imagens da última edição analisada - 1956 - pode estar relacionada
a uma menor circulação do impresso, lembrando que, a partir de 1942, a língua alemã
passou a não ser ensinada nas escolas e sua imprensa viveu uma interrupção durante
anos. Lembrando as palavras de Roche (1969) “na época contemporânea [década de 60],
a leitura limita-se comumente a de um almanaque, só se estendendo, algumas vezes, à
de um jornal semanal: falta muito para que todas as famílias sejam assinantes” (ROCHE,
1969, p. 664).
Entre as imagens do DFF, a reprodução de fotografias, ilustrações e mapas é
recorrente, o que demonstra uma atenção editorial à diversidade de textos e imagens,
assim como reafirma as características da tipologia do impresso, um almanaque,
impresso popular que abarca uma diversidade de textos e imagens, lembrando as
palavras de Chartier (1999), “um livro destinado a todos e que todos, mesmo os menos
letrados ou analfabetos, podem “ler” (CHARTIER,1999, p. 9).
As tabulações realizadas permitem afirmar a diversidade de gêneros textuais e
imagens presentes no almanaque DFF, assim como a recorrência de escolhas
tipográficas e linguísticas, como a utilização dos caracteres gótico para o idioma alemão e
para os caracteres de imprensa ou diferentes fontes para textos no idioma português.
Percebe-se, também, a escolha dos caracteres de imprensa para notícias, muitas vezes
acompanhadas por fotografias, e dos caracteres gótico para contos e textos narrativos,
geralmente acompanhados de ilustrações.
  69  

3.2 CAPAS DOS EXEMPLARES DO ALMANAQUE DER FAMILIENFREUND

Segundo Chartier (1994), a compreensão de um texto, qualquer ele seja, está


imbricada às formas através das quais ele atinge o seu leitor. As formas escolhidas e
organizadas pela edição, assim, são relevantes para a apropriação de sentido de quem
interage com o impresso através da leitura.
Um dos aspectos relevantes à apropriação de sentidos é a utilização das imagens
selecionadas a figurarem os impressos. O almanaque, como já fora exposto no capítulo 1,
impresso de caráter popular que possibilitava a leitura dos menos letrados e alfabetizados,
utiliza uma variedade significativa de imagens em suas publicações.
Especificamente as capas do almanaque DFF demonstram haver um cuidado editorial
com relação à escolha de suas imagens, sendo assim, as capas são percebidas como uma
possibilidade de exploração do objeto empírico. Estas ilustrações são, também, o primeiro
contato visual do leitor. Portanto, a atenção deste capítulo recai à análise das capas do
almanaque DFF, capas que demonstram muitos elementos em jogo na sua composição e
auxiliam na compreensão sobre a história da leitura do almanaque analisado.
As capas de cada edição do almanaque apresentam muitos elementos elaborados,
demonstrando haver um cuidado significativo para com elas e para com o conjunto de cada
edição. A análise de suas imagens, assim, é significativa, pois estas são, muitas vezes,
uma proposta ou um protocolo de leitura 16 e representam valores significativos à sua
comunidade de leitores. No caso das capas escolhidas para figurarem as capas do
impresso, estas também já anunciavam ao leitor protocolos de leitura específicos,
intenções editoriais e elementos relevantes à sua comunidade de leitores.
Para Chartier (1998), a imagem é muitas vezes uma proposta ou um protocolo de
leitura, sugerindo ao leitor a correta compreensão do texto, pretendendo auxiliar na
atribuição de sentido. A imagem também sugere possibilidades na utilização do suporte,
principalmente imagens que apresentem cenas de leitura. O autor também assinala a
possibilidade de uma utilização autônoma da imagem que, no interior ou no exterior do
livro, pode adquirir uma função própria, tornando-se um objeto ritual ou uma imagem de
devoção.

                                                                                                               
16
Adoto o conceito de protocolo de leitura na acepção que lhe é conferida pelo autor Roger Chartier, como
“protocolos depositados no objeto lido, não somente pelo autor que indica a justa compreensão de seu texto,
mas também pelo impressor que compõe as formas tipográficas, seja com um objeto explícito, seja
inconscientemente, em conformidade com os hábitos de seu tempo” (CHARTIER, 2011, p. 78).
  70  

A imagem encontra-se investida de uma carga afetiva para quem a possui. Sendo
assim, esta pode conquistar a adesão de quem a olha e, mais ou melhor do que o texto e o
suporte a que está associada, pode produzir persuasão e crença. A imagem pode ser
contemplada no impresso e, também, pode ser retirada, recortada e utilizada em outro
impresso ou em outro ambiente.
Segundo Chartier (1998), tanto no exterior quanto no interior do livro, a imagem
impressa é igualmente suscetível de uma utilização autônoma, que lhe confere uma função
própria, tornando-a um objeto ritual, podendo estar investida de uma carga afetiva e de um
valor existencial que a tornam única para quem a possui.
A importância que a materialidade do artefato ofertado à leitura representa às
significações atribuídas pelo leitor faz com que as imagens escolhidas para figurarem na
capa de cada edição do almanaque Der Familienfreund sejam significativas. As escolhas
tipográficas e imagens selecionadas sugerem uma relação entre os valores importantes à
comunidade de leitores e as escolhas editorias. As imagens representam, muitas vezes,
valores cristãos e cenas de leitura, o que instiga uma análise mais aprofundada sobre as
mesmas.
Segundo Knauss (2006), não podemos deixar de reconhecer o potencial de
comunicação universal da imagem, pois “ela é capaz de atingir todas as camadas sociais
ao ultrapassar as diversas fronteiras sociais pelo alcance do sentido humano da visão.”
Para quem adquiria o DFF, ou mesmo para quem tinha-o em mãos, a imagem escolhida
para figurar na capa era o primeiro contato visual com as significações e intenções
editoriais.
As capas e ilustrações, assim, consistem em dispositivos que convidam à sua
interpretação. Muitas delas, como protocolos de leitura, sugerem a imagem da família
reunida lendo o livro, assim como elementos possivelmente significativos para a
comunidade de leitores são apresentados em diversas capas. Para Chartier (2011), “todo
autor, todo escrito impõe uma ordem, uma postura, uma atitude de leitura.” Nas palavras do
autor,

Que seja explicitamente afirmada pelo escritor ou produzida mecanicamente


pela maquinaria do texto, inscrita na letra da obra como também nos
dispositivos de sua impressão, o protocolo de leitura define quais devem ser a
interpretação correta e o uso adequado do texto, ao mesmo tempo que
esboça o leitor ideal (CHARTIER, 2011, p. 20)
  71  

O leitor ideal, no caso acima mencionado, que também contempla o leitor ideal
católico, que conhece o alemão e o gótico, é aquele que lê no seio da família e nos grupos
de sua convivência e religião. É importante ressaltar, contudo, que, mesmo que estas
pretensões sejam percebidas, ainda há o caráter inventivo da leitura, pois, “cada leitor, a
partir de suas próprias referências, individuais ou sociais, históricas ou existenciais, dá um
sentido mais ou menos singular, mais ou menos partilhado, aos textos de que se apropria”
(CHARTIER, 2011, p. 20).
Nesta seção, através da tabela 5, são apresentadas as características gerais das
capas de todos os exemplares localizados no acervo pesquisado. Apenas para ano de
1919 não há informações, pois constatou-se que esta edição não foi produzida.
A análise procurou verificar em todas as edições se havia cenas de leitura ou imagens
religiosas entre as imagens das capas (visto que era percebido serem estas recorrentes), a
coloração, o preço informado e a informação sobre a edição (editor ou tipografia).
  72  

Tabela 5 - Informações presentes nas capas das edições do almanaque Der Familienfreund
Ano de Imagem Imagem Coloração Preço Editor
Publicação de leitura religiosa
1912 Sim Sim Azul e branco 1$000 Hugo Metzler
1913 Não Sim Vermelho e verde 1$000 Hugo Metzler
1914 Não Sim Azul e vermelho Sem preço Hugo Metzler
1915 Não Sim Azul e vermelho Sem preço Hugo Metzler
1916 Não Sim Verde e vinho 1$000 Hugo Metzler
1917 Não Sim Colorido Sem preço Hugo Metzler
1918 Não Sim Colorido Sem preço Hugo Metzler
1919 - - - - -
1920 Não Sim Colorido 1$300 Hugo Metzler
1921 Não Sim Colorido 1$400 Hugo Metzler
1922 Não Sim Colorido Sem preço Hugo Metzler
1923 Não Sim Colorido 1$400 Hugo Metzler
1924 Não Sim Colorido 1$400 Hugo Metzler
1925 Sim Sim Azul, preto e vermelho 1$600 Hugo Metzler
1926 Sim Sim Azul, vermelho e amarelo 2$000 Hugo Metzler
1927 Sim Sim Vermelho, azul e amarelo Reis 2$000 Hugo Metzler
1928 Sim Sim Vermelho e azul Réis 2$000 Hugo Metzler
1929 Sim Sim Verde, preto e amarelo Réis 2$000 Hugo Metzler
1930 Sim Sim Preto, vermelho e azul Réis 2$000 Hugo Metzler
1931 Sim Sim Colorido Réis 2$000 Companhia Metzler
1932 Sim Sim Colorido Réis 2$000 Companhia Metzler
1933 Sim Sim Azul e vermelho Réis 2$000 Companhia Metzler
1934 Sim Sim Azul e vermelho Réis 2$000 Companhia Metzler
1935 Sim Sim Azul e vermelho Réis Companhia Metzler
2$000
1936 Sim Sim Azul e vermelho Réis Companhia Metzler
2$000
1937 Sim Sim Azul, verde e branco Rs.2$000 Companhia Metzler
1938 Sim Sim Azul e vermelho Réis 2$000 Companhia Metzler
1939 Sim Sim Preto e branco Rs. 2$500 Companhia Metzler
1940 Sim Sim Azul e vermelho Rs. 2$500 Typographia do Centro
S.A.
1941 Sim Sim Azul e vermelho Réis 3$000 Typographia do Centro
S.A.
1942 Sim Sim Azul e vermelho Sem preço Typographia do Centro
S.A.
1949 Sim Não Colorida Sem preço Typographia do Centro
S.A.
1950 Sim Não Colorida Sem preço Typographia do Centro
S.A.
1951 Não Não Colorida Sem preço Typographia do Centro
S.A.
1952 Sim Não Colorida Sem preço Typographia do Centro
S.A.
1953 Não Sim Colorida Sem preço Typographia do Centro
S.A.
1954 Não Sim Colorida Sem preço Typographia do Centro
S.A.
1955 Sim Sim Colorida Sem preço Typographia do Centro
S.A.
1956 Sim Sim Colorida Sem preço Typographia do Centro
S.A.
Fonte: Tabela elaborada pela pesquisadora
  73  

Sobre as informações editoriais, há três modificações ao longo do período de


produção do impresso no que se refere à responsabilidade pela edição. As primeiras
edições figuram como sendo Hugo Metzler o editor. Isso se modifica em 1931 quando
passa a constar Companhia Metzler Ltda. – sucessora de Hugo Metzler e, em 1940, muda
para Typographia do Centro S.A.
As edições publicadas do almanaque DFF apresentam capas diferentes ao longo de
sua circulação, embora algumas tenham se repetido durante alguns anos, alterando
apenas a cor escolhida ou um pouco a organização do espaço gráfico da página (imagem
menor, letra diferente, etc.). Há, no levantamento realizado, doze capas que podem ser
consideradas diferentes com relação a suas imagens e organização gráfica, sendo assim,
estas terão maior destaque na análise.
As capas que diferem, pelo conjunto de elementos existentes em suas imagens,
sugerem um cuidado editorial nas escolhas, havendo elementos significativos para a
comunidade de leitores. Com exceção de uma capa, todas elas apresentam alguma
imagem em boa resolução e elementos relevantes à uma análise da materialidade do
impresso.
É perceptível, na análise das capas, a expansão das opções editorias com relação às
cores utilizadas, assim como a utilização de diferentes imagens. Nas primeiras décadas, as
mesmas imagens, duas em particular, foram utilizadas diversas vezes, alterando a
combinação de cores, muitas vezes restritas a duas ou três cores. Contudo, as oito últimas
edições organizadas, que correspondem aos anos de 1914 e 1925, apresentam diferentes
imagens em cada uma, seguindo um padrão de imagem em preto e branco em uma
moldura e entorno coloridos, com diversas cores.
  74  

Figura 4- Imagens das edições de 1914 e de 1925 do almanaque Der Familienfreund

Segundo Mauad e Lopes (2014), as imagens despertam julgamentos estéticos e


críticas filosóficas, sempre imbricados com as culturas dos que as produzem e de seus
leitores, seja no período histórico que caracterizou o tempo de sua criação e articulação,
seja no tempo em que elas se tornam fontes e documentos. “Os meios pelos quais elas
circulam redefinem seus usos, funções e significados” (MAUAD e LOPES, 2014). Nesta
análise, tentar-se-á compreender possíveis significados relevantes à comunidade de
leitores, embora seja reconhecido o olhar contemporâneo dirigido a elas.
Pode-se sugerir que algumas das imagens selecionadas possivelmente foram
inspiradas ou retiradas de outros impressos, como as fotografias ou imagens de santos que
demonstram haver um aspecto religioso católico que pode ter sido associado a outros
impressos, cartazes ou folhetos da Igreja católica. Outras imagens, contudo, apresentam
aspectos típicos da região sul do Brasil, o que pode indiciar uma relação específica com o
local, a comunidade, podendo ser a ilustração de um artista regional ou mesmo uma
encomenda específica para a capa do almanaque.
No conjunto de capas, podem ser sinalizadas duas características gerais: a presença
de símbolos e estilos religiosos e a presença de cenas de leitura em muitas das edições,
principalmente nas edições mais recentes. A capa da primeira edição, de 1912, como se
pode ver na figura 5, apresenta em letra cursiva um adornado o título Der Familienfreund e
a imagem de uma cruz com quatro figuras distribuídas; uma criança e um adulto lendo,
uma mãe com uma criança no colo, um homem segurando o que possivelmente seria uma
ferramenta para o trabalho e um brasão. Impresso no espaço interior da cruz consta escrito
  75  

Katholischer haushalender und Wegweiser fur das jahr 1912– Erster Jahrgang Auflage
5000, que pode ser traduzido como “ O Amigo da Família – Almanaque e guia do lar
católico para o ano de 1912 – Primeiro ano de edição”. Em volta da cruz, há uma guirlanda,
todos os símbolos em azul escuro.
As imagens selecionadas para constarem na capa do primeiro exemplar do
almanaque representam valores significativos para a comunidade de leitores.
Primeiramente, um símbolo religioso como símbolo de destaque, e nele quatro outras
imagens. Acima, um adulto e uma criança lendo, lembrando as palavras destacas por Hugo
Metzler (RAMBO, 2001) sobre a importância da leitura e, essencialmente, da leitura guiada.
À esquerda, uma mulher e um bebê, aquela em uma postura maternal de cuidado,
remetendo à família; à direita, um homem com uma ferramenta, símbolo do trabalho braçal,
podendo-se estabelecer uma relação com o trabalho do campo.
  76  

Figura 5 - Capa da primeira edição do almanaque Der Familienfreund, 1912, com imagens menores
destacadas

Como afirma Lúcio Kreutz (2008), os imigrantes alemães no Rio Grande do Sul
investiram intensamente na elaboração e produção de livros didáticos, providos de uma
tradição já secular em relação à importância da literatura escolar. A igreja, a escola e a
leitura, assim, poderiam ser destacadas como algumas das referências e preocupações
que os imigrantes alemães tinham, havendo, na capa acima, símbolos religiosos e uma
imagem de leitura de um adulto juntamente com uma criança, o impresso como objeto de
uma leitura partilhada.
Até a redação desta dissertação, ainda não haviam sido encontradas informações
sobre o brasão escolhido como uma das imagens da capa de 1912. Nenhum dos
  77  

entrevistados, assim como a bibliografia consultada, pôde informar sobre este brasão, que
figura na edição de 1912, e também consta em outras capas e contracapas de diversas
edições do almanaque, como no ano de 1931. Algumas hipóteses foram elaboradas, como
podendo ser um símbolo ligado à ordem dos Jesuítas ou à Sociedade União Popular, mas
nenhuma pode ser confirmada.
Na primeira edição, reproduzida acima, o título é redigido em uma letra adornada,
com certa semelhança ao estilo gótico. Na capa constam as seguintes informações abaixo
da imagem: a redação de Leopold Petry; o local, Lomba Grande, Município de São
Leopoldo, Rio Grande do Sul; impressão e publicação de Hugo Metzler e Comp., Porto
Alegre. Na capa consta ainda a informação do preço da edição, o que é recorrente na
maior parte dos exemplares analisados.
A segunda edição apresenta uma capa (Figura 6) com menos imagens, há uma
moldura em verde com flores vermelhas nos quatro cantos. Consta o mesmo brasão da
edição anterior, disposto após o título e a data da edição, e as informações assemelham-
se. Este brasão acompanha algumas edições seguintes na contracapa (figura 7),
demonstrando haver uma forte relação com a identidade assumida pelo impresso e/ou com
sua comunidade de leitores. Dentre todas, esta pode ser considerada a capa com menos
elementos decorativos. Apresenta uma estética sóbria com moldura e flores, porém sem
imagens.
  78  

Figura 6 - Capa da segunda edição do almanaque Der Familienfreund, 1913

Figura 7 – Contracapa da edição de 1931, com o brasão em destaque

Scanned by CamScanner
  79  

A terceira capa que difere é de 1914, e esta se repete nas edições até 1925 (Figura
8). Uma imagem religiosa é apresentada, com diversos detalhes no desenho. Essa mesma
capa, entre 1914 e 1925, difere apenas quanto a cor da imagem e das letras, porém com
os mesmos elementos e a mesma distribuição no espaço gráfico da cobertura. Há uma
frase inicial, na parte superior da capa, onde consta escrito Gott zum Gruss!, e que pode
ser traduzido como “Deus como saudação!”. A imagem parece ser de um anjo, uma
imagem religiosa, com muitos elementos em seu entorno, como livros e, abaixo, um
desenho de flor que pode ser considerada um brinco de princesa, símbolo do Rio Grande
do Sul. Esta imagem se repete mais nitidamente em algumas edições posteriores a 1914.

Figura 8 - Capa da terceira edição do almanaque Der Familienfreund, 1914


  80  

Para Christian Jouhaud (1998), a imagem pode ter uma dupla função na prática
religiosa. Serve de palavra ao iletrado, quando é suficiente vê-la para compreender e
torna-se, então, um poderoso meio de ensino e de conversão. Além disso, é também um
trampolim para a contemplação, relacionada com um mistério sagrado que só aqueles
que possuem um conhecimento prévio conseguem compreender. Segundo o autor, a
virtude do primeiro tipo de imagem é esclarecer; a do segundo é dissimular. Assim, “as
imagens vulgares são aquelas imediatamente legíveis por toda a gente, ou antes, não
precisam ser lidas, enquanto as eruditas postulam a existência de dois tipos de leitores:
os que vão conseguir decodificá-la e os que vão falhar” (JOUHAUD, 1998, p. 308).
Para uma decifração específica, ao leitor é necessária uma aproximação anterior à
cultura religiosa referida, no caso do almanaque, aquela da Igreja Católica. Para Jouhaud
(1998), entre a decodificação bem sucedida e a decodificação falha, há lugar para um
grande número de sucessos parciais, de desvios e de apropriações contraditórias.
Especificamente sobre o leitor do almanaque DFF, sua aproximação à religião católica e à
compreensão dos valores abordados no impresso, assim como a comunidade de leitura
em que está inserido poderiam ser indiciados no contato visual com a capa. Além disso,
esta novamente reproduz um livro entre as figuras estampadas, o que aproxima o
impresso às práticas de leitura.
Outra imagem que acompanha diversas edições seguintes é a de 1925, que é
constante na capa das edições até 1942. Nela, comparecem muitos elementos
significativos aos valores religiosos cristãos e à família católica. Nesta imagem (figura 9 ),
uma família lê um impresso, possivelmente uma representação do almanaque; um homem,
uma mulher e duas crianças estão entorno à leitura; um menino e uma menina, o menino
acompanha a leitura ao lado do pai e a menina escuta a sua frente, ao lado da mãe. Atrás
da família, há um crucifixo e dois quadros com imagens religiosas, portanto, uma família
cristã.
  81  

Figura 9 - Capa da décima terceira edição do almanaque Der Familienfreund, 1925

Por algum motivo, seja pela opção ou necessidade editorial, seja pelo significado da
imagem para a comunidade de leitores do almanaque, esta continua integrando as
estampas das capas do almanaque durante vinte anos consecutivos, com apenas uma
mudança em seu tamanho na edição de 1937 (Figura 9), uma edição especial que está
destacada por ser a vigésima quinta edição do almanaque. Aliada ao uso de cores mais
vibrantes, a mesma imagem está impressa no canto direito da capa.
A ilustração da leitura na família apresenta traços significativos que sugerem
protocolos de leitura e a difusão de valores significativos à comunidade de leitores que
estabelecem associações entre o impresso e a prática da leitura religiosa, permitida,
legítima. Há algumas possibilidades da composição da família retratada, podendo ser o
avô, uma tia, e não unicamente o pai e a mãe, mas pode-se inferir ser o pai, a mãe e os
  82  

filhos. A família se reúne entorno ao impresso para partilhar a leitura, possivelmente uma
leitura oralizada. O homem tem o impresso em mãos e o observa juntamente com a criança
menor, um menino, mas também partilha a leitura com a mulher a e menina, a criança
maior.
Para Chartier (1999), ler não se restringe apenas à decifração dos códigos escritos,
mas ver ler e ouvir também são atos de leitura. Na imagem antes descrita, todos os
membros da família integram a cena de leitura, mesmo que alguns não a acompanhem
com os olhos. Alguns protocolos de leitura podem ser assinalados nesta imagem: a leitura
partilhada por toda família sugere ser o impresso indicado para todas as idades, não
havendo restrições para as crianças. Sugere ser esta uma intenção editorial, que a família
se reúna para a leitura e também que partilhe a leitura do impresso, que este possa passar
entre todos.
Há, também, a escolha de imagens religiosas para figurarem em um segundo plano,
um crucifixo e imagens de santos católicos fixados na parede do cenário. Fica evidente a
relação estabelecida: família, religião e leitura estão em íntima relação, visível mesmo
àqueles menos familiarizados com os valores da comunidade de leitores.
Até 1942, as edições são numeradas, inicialmente com a palavra escrita em alemão
(primeira edição, segunda edição – ErsterJahrgang, ZweiterJahrgang) e após representada
com o numeral escrito. Com o intervalo entre a edição de 1942 e 1949, relacionado à
proibição do uso da língua alemã devido ao Estado Novo (1937-1945), a edição seguinte é
a de 1949. Esta, assim, não apresenta mais a numeração, apenas o ano, “Für das jahr
1949”.
  83  

Figura 10 - Capa da vigésima quinta edição do almanaque Der Familienfreund, 1937

Em 1949, é impressa a primeira capa (Figura 10 ) com imagem de diferentes cores,


com uma representação de família, em que todos, o homem, a mulher e as crianças, estão
lendo juntos o almanaque. Visivelmente, o impresso que o homem tem em mãos é o DFF
de 1949, pois o título e um pouco do desenho pode ser deduzido. Esta característica
sugere que esta imagem possivelmente tenha sido encomendada para o almanaque, não
sendo, portanto, uma imagem importada de outro impresso. A fonte utilizada nas letras é
mais moderna, aproximando-se dos padrões estéticos e gráficos relacionados às décadas
de 40 e 50.
A imagem sugere a intenção de apresentar a mesma concepção de família dividindo a
leitura do almanaque presente nas capas de 1925 até 1942, mas em uma versão mais
moderna, seguindo os padrões da época. Na imagem, a família é composta por cinco
  84  

integrantes, pai, mãe e três filhos, um menino menor e duas meninas mais velhas. Na
imagem, todos estão se aproximando para um contato visual com o almanaque, alguns
mais distantes e outros mais próximos. Não há, nesta capa, a escolha de um símbolo
religioso, apenas a família reunida para a leitura do mesmo. A fonte da letra também pode
ser considerada mais moderna, não seguindo a tradição do estilo gótico ou estilos
semelhantes a ele. Seus textos, no entanto, seguem os padrões estéticos e as escolhas
editoriais semelhantes às demais edições.

Figura 11 - Capa da edição de 1949 do almanaque Der Familienfreund

Nesta imagem, a leitura em família como protocolo de leitura, ilustra diferentes


gerações em o contato com o impresso, distinta de uma proposta de leitura individual. A
família é apresentada em contexto de leitura, uma vez que não só a perspectiva de uma
  85  

leitura para toda a família é proposta, em que há a tutela da leitura pelos adultos, mas
também uma leitura que toda a família realiza reunida.
A capa de 1950 (Figura 12) também apresenta diferentes cores, apenas a imagem é
em preto e branco. Este estilo da capa seguirá pelas edições seguintes: título em letra
gótica, uma moldura em torno de uma imagem em preto e branco e um buquê de flores do
lado inferior esquerdo, com destaque para a flor brinco de princesa, símbolo do Rio Grande
do Sul. Na imagem, uma senhora lê um livro extenso, de muitas páginas, pesado, disposto
sobre uma mesa. A leitora está, supostamente, sentada. Na lateral direita, uma pequena
legenda intitulada “Die Mutter betet”, significando “a mãe reza”, e um pequeno poema
relacionado a uma leitura religiosa, narrando a situação da mãe rezando um pai nosso em
uma noite de tempestade. Texto e imagem tematizam, assim, a leitura religiosa.

Figura 12 - Capa da edição de 1950 do almanaque Der Familienfreund


  86  

Novamente, valores significativos à comunidade de leitores são reforçados, sobretudo


a leitura e a prática religiosa. O conhecimento e a leitura intensiva da Bíblia apresentam-se
importantes para os católicos. Relembrando as palavras de Fausel, “a Bíblia e o anuário
são, de fato, os verdadeiros livros do colono de outrora” (FAUSEL, 1956, p. 225).
A capa de 1951, como foi anteriormente referido, segue com o mesmo estilo da
edição de 1950, apenas modifica a coloração escolhida e a imagem da moldura, também
em preto e branco. A ilustração escolhida que é apresentada na Figura 13 é um desenho
que retrata um campo, onde duas crianças posam para o ilustrador enquanto uma família
segue caminhando, um homem, uma mulher e outras duas crianças ao colo. Abaixo, está
impressa a legenda em que consta escrito “Blühendes Glück”, o que pode ser traduzido por
“felicidade florescente” e, abaixo, “Zeichnung von Ludwig Richter”, desenho de Ludwig
Richter.
Figura 13 - Capa da edição de 1951 do almanaque Der Familienfreund
  87  

Observa-se que as quatro pessoas mais distantes são, possivelmente, uma família,
dois adultos, um homem e uma mulher, e duas crianças, uma segurando a mão do
homem e a outra no colo da mulher (estes não posam para o ilustrador, estão
caminhando, enquanto duas meninas posam para imagem, com flores nas mãos). A
imagem e a frase parecem estabelecer uma relação entre a vida no campo e a felicidade,
possivelmente fazendo uma relação com a simplicidade da vida no campo. Relembrando
as palavras de Hugo Metzler, idealizador do almanaque, este era destinado para as áreas
rurais de colonização alemã (DFF, 1942, p. 60).
Nesta edição aparece pela primeira vez a autoria da imagem, diferentemente de
todas as anteriores, o que é relevante à análise. Ludwig Richter (1803-1884) foi um pintor
e desenhista alemão famoso pelos seus quadros de cunho popular, também dedicado ao
paisagismo. Seu nome é ainda fortemente associado à recepção dos contos de fadas,
pois forneceu ilustrações (xilogravuras) para várias coletâneas de contos, entre elas a de
Ludwig Bechstein17 A introdução de sua biografia, em edição de 1909, inicia ressaltando a
importância do pintor para o povo alemão, assinalando como ele fora conhecido como o
“pintor do mundo pequeno-burguês alemão”, “o retratista da aconchegante vida familiar” e
“o ilustrador do conto de fadas para o povo”, sendo estas algumas descrições de seu
trabalho. (AVENARIUS, 1909, p. 5).
A partir destas informações, pode-se inferir que tal imagem tenha sido importada,
possivelmente de outro impresso, e sua autoria nesta edição foi informada. Em A ordem
dos livros (1999), Chartier disserta sobre as figuras do autor, e sobre como a autoria das
obras literárias fora vivida, especialmente no século XVIII, quando a legitimação da
propriedade literária foi apoiada sobre uma nova percepção estética, que designou a obra
como uma criação original, identificável pela especificidade de sua expressão, afastando-
se de uma ideia anterior que relacionava-a à uma presença divina, ou à tradição ou ao
gênero.
A profissionalização da atividade literária transcorreu em meados do século XVIII.
Para Chartier (1999), as compreensões sobre a figura do autor, sua relação com a
divindade e a morarquia estavam imbricadas também às relações comerciais, às leis do
mercado e aos interesses editorias. Mesmo sendo uma imagem e não um texto literário, a
utilização desta imagem no almanaque editado no Brasil demonstra haver uma
importação da imagem de um famoso ilustrador alemão para a edição de 1951 do
                                                                                                               
17
Informação retirada do site: http://volobuef.tripod.com/pintura_romantismo.htm, pesquisa realizada em 02
de Outubro de 2015.
  88  

almanaque havendo, pela primeira vez em suas edições, a preocupação de informar a


autoria.
A edição 1952 (Figura 14) possui em sua capa uma imagem também em preto e
branco, e o entorno é similar às edições de 1950 e 1951. Tal imagem apresenta uma
menina tocando piano, com uma das mãos no piano e outra na partitura. Não há
explicações, como nas edições anteriores e, abaixo da imagem, há duas frases; “Stille
Nacht! Heilige Nacht!”, “Noite silenciosa! Santa Noite!”, em alusão à música natalina
“Noite feliz”. Nesta ilustração, a situação de leitura é de outro tipo de impresso, a partitura,
devendo-se notar a postura da menina acompanhando a partitura com uma das mãos,
possivelmente na aula de música.

Figura 14 - Capa da edição de 1952 do almanaque Der Familienfreund


  89  

As imagens escolhidas para figurarem nas capas de 1953 e 1954 apresentam


características comuns, uma vez que ambas relacionam-se especificamente com os
aspectos religiosos. A capa de 1953 (Figura 15) apresenta uma coloração muito próxima
às três anteriores, com a mesma disposição dos desenhos, escritas e imagens. A imagem
apresentada na moldura é uma imagem religiosa, ilustração de Maria circundada por oito
anjos. Abaixo, está impresso um texto em letra gótica, iniciado pela palavra “Maria”,
disposto junto à imagem e inserido na moldura. A capa de 1954 (Figura 16) também
segue a mesma disposição, assim como a mesma temática religiosa associada à
imagem. Esta apresenta o que parece ser uma ilustração de escultura de igreja. Após a
leitura do trecho de sua legenda, esta hipótese se confirma, pois consta tratar-se da
imagem de Maria com o menino Jesus, de 1524, do altar da catedral Ulmer Münster,
situada na cidade de Ulm, Alemanha.

Figura 15 - Capa da edição de 1953 do almanaque Der Familienfreund


  90  

Ambas as imagens das capas de 1953 e 1954, assim, são imagens da figura de
Maria, mãe de Jesus, imagem valorizada pela comunidade católica. A imagem do
exemplar de 1953 parece ser uma ilustração, enquanto a do exemplar de 1954 uma
fotografia. A autoria da imagem de 1953 não é identificada, e na imagem de 1954 há a
informação da fonte, demonstrando novamente uma relação com a Alemanha. Esta
poderia também ter sido adquirida por outro impresso ou também em um contato mais
próximo com a Alemanha pelos responsáveis pela edição.

Figura 16 - Capa da edição de 1954 do almanaque Der Familienfreund

A última capa a se diferenciar nas edições é a primeira capa que selecionei no contato
inicial com o Acervo Benno Mentz, sendo, portanto, a edição que chamou muito minha
atenção entre os primeiros materiais selecionados no momento inicial da pesquisa. Esta
  91  

apresenta uma imagem (Figura 17) representativa do interior do Rio Grande do Sul, assim
como relacionada aos elementos considerados significativos nas imagens das edições
anteriores: a religião católica e as práticas de leitura.
Nesta imagem, está representada uma família, pai, mãe e crianças, possivelmente
voltando da missa, pois há a imagem de uma Igreja atrás do caminho percorrido. No
desenho, constam elementos da vegetação típicos do interior do Rio Grande do Sul,
campos largos com pouca vegetação alta e apenas uma grande araucária bem destacada,
árvore típica do sul do país. Mais próxima, há a figura de uma senhora lendo um livro na
varanda da casa.

Figura 17 - Capa da edição de 1955 do almanaque Der Familienfreund


  92  

Esta imagem, assim como outras selecionadas e já descritas, instiga à reflexão


acerca de alguns elementos sobre a edição de um impresso. A relação principal dirige-se
ao público a que era destinado o almanaque que, afirmado por Hugo Metzler, era
especialmente pensado para as regiões conhecidas como colônias dos imigrantes
alemães. Relembrando a afirmação de Roche (1969), mesmo a imprensa sendo um
fenômeno eminentemente urbano, convém estudar sua difusão no mundo rural, sua
influência na evolução dos grupos teuto-brasileiros, seu papel na evolução da noção de
grupo (ROCHE, 1969, p. 658). Muitas das capas do almanaque DFF possuem elementos
que se aproximam com do campo e da vida rural, assim como aos valores religiosos e à
leitura.
De qualquer modo, esta secção intentou demonstrar o quanto as capas, pensadas
como protocolos de leitura, possibilitam pensar sobre o público leitor e suas práticas e usos
desse impresso. As capas não são mero adorno ilustrado ou apenas cobertura de proteção
do texto, mas estratégias discursivas da elaboração editorial. A leitura em família, diversa
da leitura individual, assim como a leitura em voz alta, fazem-se presentes nas capas.
A recorrência à reprodução de imagens religiosas também demonstra a relação da
comunidade de leitores com a religião, sendo recursos de fácil acesso aos menos letrados.
Está presente, também, o cuidado editorial em reproduzir elementos típicos do Rio Grande
do Sul, através da utilização de imagens e escolhas tipográficas típicas da cultura alemã,
mas também estabelecendo uma relação entre estas e elementos do sul do Brasil,
tornando nítida a relação dos teuto-gaúchos com ambas as culturas.
  93  

4. MARCAS EDITORIAIS E PRÁTICAS DE LEITURA IMPLICADAS NO


ALMANAQUE DER FAMILIENFREUND

Nesta secção, serão apresentadas diferentes aproximações exercitadas com vistas


a compreender a história da leitura do objeto de análise, o almanaque DFF. O foco da
discussão são as práticas de leitura, a circulação e a produção do impresso analisado.
Nesta análise, a literatura, informações e características das páginas do DFF e a fala dos
leitores do almanaque são utilizados e relacionados entre si a fim de estabelecer
sucessivas aproximações.
Para operacionalizar esta análise, fez-se necessária a organização de eixos iniciais
de atenção, a saber: o calendário, os espaços destinados às escritas dos leitores, a
utilização da letra gótica, a relação entre as imagens escolhidas e os textos apresentados,
as escolhas tipográficas e as informações sobre a autoria dos textos. Além destes eixos
centrais, algumas lembranças significativas dos leitores entrevistados são destacadas a
fim de alcançar uma maior aproximação às práticas de leitura.
É importante assinalar que foram escolhidas figuras em que são apresentadas
páginas do almanaque que possuem os atributos acima listados de forma bem explícita,
embora possamos encontrá-los em boa parte dos textos organizados nas páginas do
impresso, podendo-se afirmar serem frequentes e constituírem marcas específicas de
todos os números editados do DFF.
Brevemente, também, foram realizadas algumas aproximações de edições do
almanaque DFF com edições de almanaques produzidos na Alemanha no mesmo
período, a fim de observar similitudes, diferenças, a existência de marcas editoriais,
importações e inspirações para a edição do almanaque. Também outros impressos
publicados em língua alemã pela Tipografia do Centro foram apresentados a fim de
estabelecer relações e exemplificar aspectos importantes para a comunidade de leitores.
Como foi destacado anteriormente, os atributos recorrentes estão relacionados a
características próprias ao gênero almanaque, em geral conhecidas dos leitores. Tais
atributos eram reconhecidos pelos leitores deste gênero impresso, como a diversidade de
  94  

gêneros textuais, a estética da página, em geral presentes nas edições de anos


anteriores. Assim, as informações veiculadas no calendário, a oração, a imagem religiosa
e os anúncios podem sem considerados relevantes para a identidade do impresso e para
a comunidade de leitores em todos os seus anos de publicação, havendo uma recorrência
marcante. Mesmo que tenham sido constatadas variações na forma impressa, como o
espaço dedicado às anotações ou a coloração das letras de um determinado anúncio, por
exemplo, além da variação no conteúdo dos textos apresentados, pode-se afirmar que há
uma recorrência das escolhas tipográficas, lembrando as palavras de Chartier (2011), há
sucessivas referências idênticas.

4.1 A NECESSIDADE DE MARCAR O TEMPO – O CALENDÁRIO

Segundo Nova (1996), a necessidade de medir o tempo foi sentida desde os


primórdios da civilização. O ser humano nunca escapara deste encontro final, por isso,
criou sistemas, apelou para a lua, as estrelas, os astros, no esforço de conhecer, medir,
controlar o tempo. O anuário apresenta, em sua organização tipográfica, a valorização do
calendário e das marcas do tempo a serem organizadas e consultadas em determinado
ano de edição, sendo sua característica distinta de outros impressos.
O calendário constitui o ponto central e a seção permanente do almanaque desde
sua invenção como artefato, em geral localizado nas páginas iniciais da publicação. Ele
apresenta o ano ordenado em dias, semanas e meses, complementado pelas
informações acerca das fases da lua, dos dias dedicados aos santos, das datas festivas e
todo o tipo de informação que concerne à divisão do tempo. Junto ao calendário, ainda há
vinhetas e/ou ilustrações e, em alguns casos, as Monatbilder (imagens do mês) com
cenas pertinentes ao calendário mensal (GRÜTZMANN, 2004, p. 49).
  95  

18 - Página do calendário do mês de Julho da edição de 1931 do almanaque Der Familienfreund

Entre as informações presentes no entorno do calendário, especificamente do DFF,


como impresso católico, destacam-se os dias dos Santos, sendo que estas informações
não se alteram no suceder dos anos e constam reproduzidas, assim como o calendário
Lunar, os signos e descrições mais extensas de alguns santos. Estas são as informações
significativas para a comunidade de leitores visada, de forma especial descendentes de
imigrantes alemães católicos do interior do Rio Grande do Sul. Para estes, as datas
religiosas e as informações que auxiliam as atividades agrícolas e eram pertinentes e
relevantes aos seus interesses.
  96  

Figura 19 - Calendário avulso da edição de 1940 do almanaque Der Familienfreund

Como já assinalei a partir da Tabela 3, nas primeiras páginas de todos os


exemplares consultados, após o calendário do ano, há um espaço para a escrita da
família, destinado aos registros manuscritos sobre acontecimentos daquele ano,
organizado com uma moldura, pautado e, em algumas edições, acompanhado de uma
imagem. Com títulos emblemáticos, como pôde ser apresentado na Tabela 2, os espaços
destinados à escrita intitulam-se Familien-register, Notizen ou Gedenkblatt. Dois exemplos
são reproduzidos a seguir: o espaço destinado à escrita da edição de 1912 do DDF, com
o título Gedenkblatt (Folha comemorativa), moldura e o espaço em branco para registros
e o espaço de registro da família da edição de 1931, com o título Familien-register
(Registro da família), com imagens religiosas acima e um espaço em branco para
anotações.
  97  

Figura 20 - Espaços para o registro da família – Exemplar de 1912 (à direita) e de 1931 (à esquerda)
18
do almanaque Der Familienfreund
 

Estas características tipográficas, contudo, não estão restritas a este almanaque em


particular, pois constam em outros almanaques produzidos em língua alemã. Esta mesma
página para anotações acompanhava o calendário, assim como a página do calendário
também apresenta-se semelhante em outros almanaques. Pode-se perceber uma
recorrência da proposta editorial quanto à possibilidade de escrita da família juntamente
ao calendário, tornando-o ao mesmo tempo ligado às festividades e informações comuns
à comunidade de leitores, como também específico da família que adquiriu-o para leitura
e com a intenção de registro de informações específicas da mesma.

                                                                                                               
18  Em
tradução livre: “Registro da Família” – 1931 e “Folha comemorativa - Comemorando o dia de alegria e
tristeza, que nos concedeu amor e providência de Deus em 1912”  
  98  

Figura 21- Página destinada à escrita (almanaque Daheim Kalender für das Deutsch Reich – Leipzig –
1914)
Figura 22- Página do calendário (almanaque Canisius Kalender de 1927 – München Wien - impresso da
rede Jesuíta)

As páginas apresentadas nas figuras 21 e 22 são páginas de dois diferentes


almanaques produzidos na Alemanha. O DFF apresenta semelhanças nos atributos
tipográficos e de organização da página com relação a estes almanaques. O almanaque
Canicius Kalender, constitui um almanaque impresso também ligado à rede jesuíta,
apresenta imagens de cunho religioso e adornos. A página destinada à escrita do
almanaque Daheim Kalender für das Deutsch Reich, de 1914, segue a proposta da escrita
do leitor após o calendário, assim, apresenta a mesma proposta encontrada no
almanaque DFF.19
Estes breves exemplos sugerem que, além do idioma alemão e de elementos
culturais associados a esta etnia, as escolhas tipográficas possivelmente também eram
inspiradas em alguns impressos produzidos na Europa, especificamente na Alemanha.
Relembrando o estudo apresentado por Nova (1996), durante o século XVIII surgiram e
foram difundidos em toda Europa muitos almanaques, de diferentes formatos e tipologias.

                                                                                                               
19
Nos anexos, é apresentada uma aproximação realizada a algumas edições de almanaques publicados na
Alemanha no século XX.
  99  

Com relação às páginas destinadas à escrita, como já discutido por Almeida e


Stephanou (2015), em todos os números publicados do almanaque DFF, há na
organização editorial do almanaque a intenção da inserção de registros manuscritos,
como parte do mesmo impresso destinado à leitura da família. Constam em todos os
exemplares, logo após o calendário com as informações comuns a todos os leitores,
espaços para anotações da família. Tal aspecto pode ser relacionado à mesma
característica apontada por Stephanou (2002) ao analisar os rituais de escrita nos álbuns
de bebê. A autora assinala que estes “impressos constituem, a um só tempo, suporte de
práticas de leitura e suporte de práticas de escrita pessoal, ambas no espaço familiar,
doméstico, da vida cotidiana” (STEPHANOU, 2002, p. 2). Da mesma forma, a intenção
editorial é clara nas páginas iniciais de todas as edições do almanaque Der
Familienfreund. Após o calendário comum da comunidade de alemães e descendentes de
alemães católicos, havia um espaço exclusivo para as anotações da família, tornando
único cada exemplar possuído, pois nele seriam acrescidos registros da família que o
possuía.
Os espaços em branco ainda possibilitavam outras utilizações, pois em sua maioria
não eram pautados. Esta característica possibilitava a utilização do espaço para colagens,
por exemplo, de fotos ou recortes de jornais, pequenas anotações ou uma organização
que pudesse ser feitas pelos próprios leitores.
Na entrevista com o Senhor Roque, leitor do almanaque na infância, ele sugere que
este espaço de escrita não era muito aproveitado pela comunidade de leitores de seu
conhecimento em Arroio do Meio. Afirma:

Tenho muitos destes almanaques guardados e não me lembro de ter visto algum
com este espaço de escrita aproveitado (...) Dona Cecília também foi reticente sobre
a lembrança da utilização do espaço de escrita. (Roque, entrevista em 22/08/2015)

Sua afirmação pode estar relacionada ao fato de que, para muitos leitores, o
impresso, mesmo apresentando a possibilidade de registros escritos, ainda representasse
algo sagrado, raro, que deveria ser cuidado e não rasurado. Lembrando as palavras de
Fausel (1956) “a Bíblia e o anuário são, de fato, os verdadeiros livros do colono de
outrora”. Contudo, a afirmação de que este espaço de escrita não era utilizado não pode
ser confirmada. Primeiramente, este espaço continuou sendo proposto em todas as
edições do almanaque, sugerindo uma intenção proposta a seus leitores. Além disso, os
  100  

exemplares utilizados para a pesquisa foram exemplares de Acervos e, por isso, neles
não constam manuscritos20.
Sobre os impressos de grande circulação nas sociedades europeias do século
XVIII, Chartier (2011) assinala que, entre esses, o almanaque, objeto de manipulações
frequentes, de repetidas consultas e de referências familiares, possibilita, seguramente,
leituras intensas não comparáveis à apropriação puritana da Bíblia, mas suficientemente
fortes para moldar as maneiras de pensar e de contar. Suas divisões e seus referenciais
organizam, portanto, a escrita íntima, como atesta o exemplo de numerosos jornais e
memórias que inscrevem os acontecimentos da existência pessoal ou familiar nos
calendários e mapas astronômicos oferecidos pelo almanaque (CHARTIER, 2011, p.
88).
Esta utilização apontada por Chartier sugere o uso de espaços de escrita nos
almanaques europeus do século XVIII. Contudo, segundo Foisil (2009), no capítulo “A
escritura do foro privado”, não é fácil penetrar na vida privada nem na vida íntima
localizada no interior da vida cotidiana. Portanto, persiste uma espécie de mistério
quanto aos registros manuscritos em almanaques: quantos, quais e com que propósitos
foram inscritos ou omitidos nos almanaques?

4.2. A INTERAÇÃO DO LEITOR – OS ENIGMAS

No almanaque examinado, outra seção que apresentava um destino à escrita é a


página de enigmas a serem desvendados. Esta página está presente em muitas edições
do DFF, onde constam enigmas e, abaixo, um canhoto para ser destacado com a
resposta correta escrita. No verso, há espaço para os dados de identificação, de modo
que o canhoto possa ser enviado com a resposta. No espaço de escrita, o enunciado
pode ser traduzido como “A minha opinião sobre a solução para o quebra-cabeça!”. A
figura a seguir reproduz uma página de enigmas do DFF:

                                                                                                               
20
Os exemplares consultados para a presente pesquisa são de acervos oficiais, por este motivo não foram
localizadas escritas.
  101  

Figura 23 – Página de enigmas presente na edição de 1914 (Der Familienfreund)

Scanned by CamScanner

Na figura 23, é apresentado o Rätsel (enigma) e o Preisrätsel (enigma “premiado”)


da edição de 1914. Como parte das memórias de infância, as páginas de enigma estão
presentes na narrativa acerca da leitura de almanaques do Sr. Roque, possivelmente por
ser a lembrança de um leitor, na época, mais jovem, e, portanto, constituía-se atrativo o
espaço para a solução do enigma.
  102  

Quando menino, lembro de ler o humor em quadrinhos, o “você sabia que”


(curiosidades), charadas e também as cartas enigmáticas (...) os que mandavam a
resposta concorriam a prêmios (...) Isso eu gostava muito de ler (...) Assuntos técnicos
ou extensos na época não eram meu forte, eu era criança. Particularmente, uma
lembrança que ficou muito forte é da época em que eu ficava doente e acamado, um
divertimento era folhear o almanaque. (Sr. Roque, entrevista em 22/08/2015)
 

O sr. Roque estabelece uma comparação entre as leituras propostas no almanaque


e sua idade na época. Como sua lembrança de leitura está relacionada à infância,
menciona que os textos mais extensos não lhe atraiam. O humor e os enigmas, contudo,
o interessavam. O sr. Roque, durante a entrevista, afirma que entre os impressos escritos
em alemão que circulavam em sua casa, o DFF não era um impresso lido oralmente por
algum membro da família. O almanaque, no entanto, estava ao alcance de sua leitura,
como um impresso destinado a toda a família, e sua lembrança pontual é dos momentos
em que estava doente e um entretenimento era folhear o almanaque.

Quanto ao Familienfreund, não havia alguém que lesse para gente, o pai
fazia isso com textos do Paulusblatt, que tinha romances. (Sr. Roque, entrevista
em 22/08/2015)
 

A interação proposta ao leitor, através dos enigmas, e possibilitada pelos espaços


para a escrita da resposta e, no verso, para os dados de identificação parece ter sido
marcante, pois esta foi uma memória significativa para o leitor entrevistado. A proposta
também estabelecia uma relação entre editores e leitores, pois criava uma expectativa
quanto à resposta ao enigma oferecida pelos editores.
Novamente, esta é uma característica editorial que aproxima a leitura e a escrita e,
assim como o espaço destinado às anotações da família, apresenta um espaço específico
para a resposta do enigma, embora as intenções dos registros sejam distintas.
Estas são também características de outros almanaques, reafirmando novamente
alguns traços comuns aos impressos desse gênero. Observei que quanto aos espaços de
textos e escrita, também há uma aproximação editorial a outro almanaque editado na
Alemanha, Schwaben Kalender, edição de 1933, impresso em Stuttgart, Alemanha,
apresentado nas figuras 24 e 25, também consta juntamente com a seção de humor, um
conjunto de imagens que compõem o enigma e, após, um espaço para registro e envio da
resposta do enigma ao editor.
  103  

Figura 24- Página do almanaque com humor e enigma – (Schwaben, Sttugart, Alemanha, 1933)
  104  

Figura 25 – Página com espaço de resposta ao enigma, (Schwaben, Sttugat, Alemanha, 1933)

As comparações realizadas entre diferentes almanaques, produzidos na Alemanha e


no Brasil, demonstram recorrências das características do gênero de uns a outros. A
interação com o leitor pode também ser relacionada ao fato de o almanaque ser uma
proposta de leitura popular, em que a dimensão lúdica e a aproximação do leitor com o
impresso e com os responsáveis por sua edição eram significativas.
  105  

4.3. OS CARACTERES GÓTICOS

Segundo Rambo (1994), um dos exercícios do segundo ano primário na escola


comunitária teuto-brasileira católica era a conversão da escrita latina impressa para a letra
ou grafia alemã manuscrita (RAMBO, 1994, p. 135). Tradicionalmente, os caracteres
góticos são conhecidos como caracteres típicos da escrita alemã. Eram ensinados nas
escolas das comunidades de origem alemã no Rio Grande do Sul, assim como os
caracteres de imprensa e a escrita cursiva.
 
21
Figura 26 – Páginas 60 e 61 do Leselust – Neue Fibel für Deutsche Schulen in Brasilien, 1937

Este impresso, intitulado Leselust – Neue Fibel für Deutsche Schulen in Brasilien -
Herausgegeben und verlegt vom Deutschbrasilianischen katholischen Lehrerverein von
Rio Grande do Sul, pode ser traduzido como “O prazer de ler - Nova cartilha para as
escolas alemãs no Brasil - Editado e publicado pela Associação Alemã de Professores
Católicos do Brasil, Rio Grande do Sul”, foi publicado pela Tipografia do Centro, em 1937,
                                                                                                               
21  “O prazer de ler - Nova cartilha para as escolas alemãs no Brasil - Editado e publicado pela Associação
Alemã de Professores Católicos do Brasil, Rio Grande do Sul”  
  106  

mesma tipografia que editava o almanaque DFF. O exemplar consultado, cuja página
aparece aqui reproduzida, é da primeira edição.
Nas páginas da cartilha, as leituras iniciam com caracteres em cursiva e imprensa,
primeiramente o alfabeto junto a imagens e sílabas. As imagens representam animais e o
meio rural. Pequenos textos passam a figurar nas páginas seguintes, em caracteres de
imprensa e, a partir da página 60, o alfabeto é apresentado sob três caracteres: gótico,
cursiva e de imprensa. Após, exemplos de palavras são apresentados com todo o
alfabeto em gótico e, da página 70 à 100, os textos apresentados são redigidos em gótico.
As últimas páginas, páginas 100 e 101, apresentam o alfabeto completo nos três
caracteres.

Figura 27 – Páginas 100 e 101 do Leselust – Neue Fibel für Deutsche Schulen in Brasilien, 1937
  107  

A organização da cartilha sugere que a alfabetização nas escolas teuto-brasileiras


católicas era realizada inicialmente com a letra cursiva para depois serem introduzidos os
caracteres de imprensa e gótico. A leitura mais extensa, contudo, concentra-se, no
impresso, em caracteres góticos, o que sugere uma aproximação e aprendizagem
efetivas do aluno à leitura dos caracteres referidos. Sobre a aprendizagem do gótico, os
entrevistados manifestaram muitas recordações. Destacam-se:

Para as pessoas de idade, é um brinco mostrar que sabem escrever em gótico (...)
Tenho cartas em gótico que meu avô se correspondia com um sobrinho da Alemanha que
os familiares da Alemanha trouxeram para cá. –(Sr. Roque, entrevista em 22/08/2015)
 

Meu pai sabia ler e escrever em gótico, minha mãe nunca demonstrou muito que
escrevesse em gótico, mas é claro que ela aprendeu também. A mãe foi cedo para um
orfanato, se escolarizou a partir de 16 [anos], em um colégio de freiras em Estrela, e lá já
havia a influência da necessidade de escolarização em português (...) Tem cadernos de
caligrafia dela em que ela escrevia em gótico linhas duplas, pena de aço (...) eles
treinavam isso no capricho, praticavam isso muito no gótico. – (Sr. Roque, entrevista em
22/08/2015)
 
A mãe me ensinou o gótico quando eu era pequeno e depois com o padre eu
aprendi a escrever, as cartas que eu escrevia para mãe e ela para mim eram em gótico.
Ela tinha uma letra muito bonita e estudou até o quarto ano primário. – (Sr. Egon,
entrevista em 17/06/2015)
 

A aprendizagem da letra gótica, de sua leitura e escrita, foi uma reminiscência dos
entrevistados, lembranças de suas aprendizagens ou de seus familiares. Em seus
depoimentos, pode-se inferir que a aprendizagem e a utilização dos caracteres góticos
eram, juntamente com a língua alemã, uma aproximação da comunidade teuto-brasileira à
cultura de origem, também sendo uma aprendizagem partilhada e valorizada entre a
comunidade.
Para Bastos e Stephanou (2008), caligrafia “é a arte de escrever com letra bela e
bem formada (...) busca aperfeiçoar e afinar os sentidos da mão e a ortopedia do corpo,
condições fundamentais para desenvolver hábitos de ordem, disciplina e estética do texto”
(BASTOS e STEPHANOU, 2008, p.2). O Sr. Roque cita os cadernos de caligrafia de sua
mãe, escritos em gótico em linhas duplas, com pena de aço, assim como o sr. Egon
valoriza a letra bonita de sua mãe, ressaltando sua escolaridade até o quarto ano
primário. Os caracteres góticos são caracterizados por terem muitos detalhes, o que leva
a uma associação à escrita bonita, repleta de pequenos detalhes.
  108  

Os entrevistados também assinalaram a escrita em gótico em cartas a familiares.


Segundo Carla Gastaud (2011), em estudo sobre as materialidades da escrita epistolar, “a
materialidade da carta pode (ou antes, pretende) conformar a leitura que será feita pelo
destinatário ao induzir tal ou qual compreensão, insinuar o indescritível, expor
determinadas impressões e sentidos. Pode, ainda, expressar a posição (social,
econômica, política, inferior, superior) dos interlocutores do pacto epistolar.” A escolha
pela escrita em letra gótica, assim, não era aleatória, mas uma preferência entre os
correspondentes citados pelos entrevistados. A cartilha elaborada para as escolas teuto-
brasileiras católicas demonstra que praticava-se a aprendizagem dos três caracteres
simultaneamente: as letras imprensa, cursiva e gótico. A escolha da escrita em gótico em
cartas, assim, sugere uma aproximação e valorização da cultura alemã e, principalmente,
um estilo de capricho e “caligrafia bonita”, com detalhes e adornos, associados à
identidade teuto-brasileira.
O uso da letra gótica, como assinalado na Tabela 1, era assíduo nos textos
apresentados no almanaque DFF, principalmente aqueles narrativos, poesias e de cunho
religioso (em algumas edições, diferenciando-se dos textos informativos em que havia a
opção de caracteres de imprensa; em outras, porém, apenas alguns títulos apresentavam
outros caracteres, sendo toda a edição redigida em gótico).
Na figura 28, consta a página inicial de um texto narrativo da edição de 1914 do
DFF, intitulado Die Verkannten, que pode ser traduzido como “O mal entendido” ou
“Avaliações incorretas”, onde se pode observar a utilização dos caracteres góticos, a
ilustração centralizada e a moldura para o título. Após o título, a informação de autoria
consta como “História original para o “Familienfreund” sobre a vida de colonos alemães no
Brasil, de W. I. Gansweidt”. A imagem ilustrada apresenta como cenário o meio rural, que
acompanha uma história em que uma senhora é isolada do meio social da colônia por um
mal entendido. Abaixo da imagem, está escrito “Ela ama o assassino de seu pai”. A
imagem, o subtítulo e o texto confirmam a aproximação da história apresentada com a
vida dos colonos alemães no Brasil. Esta figura, além de exemplificar uma narrativa
redigida em caracteres góticos e associada ao meio rural, também representa um texto
impresso cuja autoria é informada. Além desta autoria, com iniciais e sobrenome, ainda
esclarece tratar-se de uma história redigida especialmente para o almanaque Der
Familienfreund.
  109  

Figura 28 – Narrativa apresentada na edição de 1914 do almanaque Der Familienfreund


  110  

O autor do texto em gótico reproduzido na figura 28 é Mathias Josef Gansweidt. Ele


produziu, além de histórias para o almanaque DFF, uma novela em capítulos publicada no
jornal “A nação”, produzido pela Tipografia do Centro, em que havia um suplemento
semanal em língua alemã. Neste suplemento, foi publicada a história “Luis Buger und die
Opfer seiner Rache”, que poderia ser traduzido por “Luis Buger e as vítimas de sua
vingança”. O enredo desta história apresenta uma situação de conflito entre índios e
imigrantes alemães, sendo a família imigrante sequestrada pelos indígenas. A história é
dividida em capítulos no suplemento daquele jornal e, posteriormente, foi publicada em
livro pela mesma tipografia. Na figura 29, é apresentada a capa do livro referido e, na
figura 30, a imagem e uma breve descrição do autor. Nesta, há a informação de
Gansweidt ter nascido na Alemanha e ter estudado na Holanda, na Bélgica e no Brasil.
Nos dois exemplos de suas obras, na história apresentada na edição de 1914 e no
romance dividido em capítulos, pode-se perceber que estas eram histórias escritas por
um autor alemão que, no Brasil, escreveu textos com a temática da vida dos imigrantes
alemães no sul do Brasil, o que é ratificado pelo subtítulo da história reproduzida no
almanaque.
Figura 29 – Capa do livro de Mathias Josef Gansweidt editado pela Tipografia do Centro
Figura 30 - Imagem e dado biográfico de Mathias Josef Gansweidt presente no livro
  111  

Estas aproximações sugerem, primeiramente, a valorização da aprendizagem e


utilização dos caracteres góticos pela comunidade teuto-brasileira, presente em materiais
didáticos e também em outros impressos para leitura, como o DFF. Além de constar nos
materiais de leitura, esta valorização foi percebida, nas entrevistas, também nas práticas
de escrita epistolar. A análise das informações presentes na narrativa da edição de 1914
(Figura 28) também possibilitou a informação sobre a autoria de um texto publicado no
almanaque DFF, uma das indagações da presente pesquisa. Esta aproximação
demonstrou um exemplo de texto redigido especialmente para o impresso, escrita
produzida aqui no Brasil e pensada para a comunidade de teuto-brasileiros.

4.4 OS TEXTOS, OS AUTORES E AS LEITURAS

Como mencionei anteriormente, os almanaques se popularizaram em uma época


que não havia muitos impressos à disposição para a leitura. Sobre estilos de leitura
característicos das comunidades europeias até o século XVIII, Chartier (2011) aponta
que, inicialmente, o leitor era confrontado com um número reduzido de livros, reduzido,
em comparação à quantidade e diversidade de impressos a que estamos expostos no
século XXI. Antes foi assinalado que este número reduzido significava a Bíblia, os álbuns
de piedade e o almanaque, que perpetuam os mesmos textos ou as mesmas formas, que
oferecem às gerações sucessivas referências idênticas (2011, p. 86).
Como consequência, na maior parte das vezes e durante muito tempo, a leitura
familiar continua sendo aquela de poucos textos, bem conhecidos, que habitam o espírito
(2011, p. 87). Esta raridade dos impressos possibilitava uma leitura intensiva, realizada
diversas vezes, em geral memorizada, oralizada e, possivelmente, partilhada. A leitura
intensiva, assim, possibilita um contato intenso, tanto com o texto quanto com o impresso,
ambos visualizados e memorizados em especial suas imagens e escritas, também
utilizando-os de diferentes formas.
Essa leitura intensiva produz a eficácia do livro, seus textos tornam-se uma
referência à família e suas fórmulas dão forma às maneiras de pensar e de contar (2011,
p. 86). Nesta definição de leitura intensiva, que assegura uma eficácia ao texto, por um
trabalho de apropriação lento, atento e repetido, compreende-se que esta eficácia está
relacionada à aproximação do leitor ao texto, à temática e a todas as relações
  112  

estabelecidas com o objeto impresso, não relacionando-a à uma definição de


interpretação única do texto lido.
Retomando mais uma vez as palavras de Pereira (2009), os almanaques foram,
junto com a Bíblia, um dos impressos mais utilizados no Ocidente (PEREIRA, 2009). Esta
afirmação sugere que o costume da aquisição e leitura do almanaque por imigrantes e
descendentes de imigrantes alemães era uma prática cultural do grupo étnico,
possivelmente inspirado em vivências de gerações anteriores. Pode-se inferir, também,
que algumas escolhas editoriais e usos realizados pelos leitores também sigam as
escolhas de gerações anteriores.
Segundo Grützmann (2004), nos almanaques “os editores oferecem opções
acessíveis aos menos letrados e aos analfabetos, mediante a inclusão de fotografias e
ilustrações” (GRÜTZMANN, 2004, p. 50). É necessário o conhecimento da leitura em
língua alemã e também o reconhecimento do formato da letra gótica para a compreensão
do texto em sua totalidade, porém, há inferências e compreensões acessíveis ao leitor
antes de sua leitura ou mesmo àqueles que não conseguiriam compreender todo o texto
escrito.
A figura 31 reproduz a página de saudação de ano novo de 1931 do DDF com uma
poesia em que a temática são os desejos para o ano que se inicia. A imagem que a
antecede e também faz parte da moldura do texto é a de um anjo que em uma das mãos
segura um buquê de flores e na outra um impresso. Pelo contexto, podemos inferir que o
impresso que o anjo posta em mãos está ligado à religiosidade católica. Fica claro ao
leitor, mesmo o menos familiarizado com a língua alemã, que se trata de um texto
religioso, uma mensagem religiosa. A imagem impressa próxima do texto auxilia a
compreensão do mesmo, além de compor, juntamente com a letra gótica e a disposição
do texto, na página, uma estética característica deste almanaque para a família católica
alemã. A intervenção tipográfica, desta forma, joga com a atribuição de sentidos pelo
leitor.
Estas imagens, especialmente as religiosas, são reaproveitadas pelos editores ao
longo de diferentes edições. As escolhas de suas disposições, contudo, não são
aleatórias. Percebe-se o cuidado editorial ao aproveitar uma imagem religiosa juntamente
a textos e informações religiosas, como consta na Figura 31.
  113  

Figura 31 - Poesia de Saudação de Ano Novo presente na edição de 1931 do almanaque Der Familienfreund

O recurso da imagem religiosa é nitidamente utilizado no almanaque DFF. Esta


utilização sugere uma valorização das imagens que acompanham os textos,
especialmente aquelas que concernem à religiosidade e que constituem a identidade do
público leitor. Relembrando as palavras de Hugo Metzler (METZLER apud WERLE, 2004,
p. 123), sua preocupação estava relacionada à uma associação de leitura boa e leitura
má, uma relação à religiosidade, em especial, o catolicismo.
  114  

Figura 32 – Poesia apresentada no almanaque Der Familienfreund de 1931


  115  

A Figura 32 também apresenta um texto religioso, sem autoria informada, e uma


imagem que o acompanha. Possui uma moldura na margem superior, assim como adota
a impressão em letra gótica. Como temática, a figura de Roque Gonzales e outros dois
padres, Afonso Rodrigues e João de Castilho, conhecidos na história da região onde
foram fundadas as primeiras reduções jesuíticas no Rio Grande do Sul22.
O texto apresentado não é propriamente um texto narrativo ou informativo sobre a
vida dos padres jesuítas, mas um poema, o que demonstra a variedade de tipologias
textuais que são escolhidas para a composição do almanaque. O texto informativo sobre
a história dos três padres sucede o poema. Este último tematiza o sino do padre Roque
Gonzales. A imagem religiosa que o acompanha sugere serem figuras de padres, com a
imagem de uma igreja simples à direita, o sino à esquerda e uma imagem de Maria ao
centro, como se estivesse fixada a uma árvore. Os símbolos religiosos representados lado
a lado com a figura dos três padres, levam a crer que não seria necessário o
conhecimento de toda a história dos religiosos no Rio Grande do Sul para a compreensão
de algumas informações oferecidas ao leitor. A imagem pode ser considerada, na Figura
32, elucidativa ou antecipatória ao leitor, no intuito de modificar e auxiliar sua
compreensão do texto apresentado. Para Chartier, “as estruturas do livro são dirigidas
pelo modo de leitura que os editores pensam ser o da clientela almejada”, o que parece
tratar-se no exemplo acima referido (CHARTIER, 1999, p. 20).
As imagens, como referiu-se anteriormente, em alguns momentos são
reaproveitadas. A imagem dos três padres jesuítas, por exemplo, foi identificada nas
edições de 1931 e de 1949. Como a temática dos textos é a história de Roque Gonzales,
Afonso Rodrigues e João de Castilho, a imagem foi aproveitada em ambas edições.

                                                                                                               
22
Segundo Rambo, os primeiros jesuítas nativos vieram de Asunción, Paraguai, entre eles Roque
Gonzáles. Para o autor, os jesuítas tiveram presença em todo Brasil, tendo como uma das atividades a
catequese entre os índios e filhos de colonizadores. (RAMBO, 2013, P.7)
  116  

Figura 33 – Páginas das edições de 1931 e 1949 do almanaque Der Familienfreund

A veiculação de textos variados e imagens nos impressos já foi assinalada como


características específicas dos almanaques. O texto humorístico é uma das tipologias
textuais presentes em todos os exemplares do DFF. Estes, normalmente, além de
apresentarem escritas, apresentam figuras que se assemelham a charges, relacionadas
ao sentido a ser atribuído aos textos que acompanham.
Segundo Heike Kleber da Silva (2000), o humor existente no DFF visava um público
leitor constituído em sua maioria de colonos, mas não tematizava, propriamente, sua
realidade. Buscava ridicularizar comportamentos e costumes que não eram os seus,
identificados como dos habitantes das cidades, castigando estes costumes e atitudes. O
efeito disso, segundo a autora, era o de reforçar uma identidade de colono, tão valorizada
e idealizada pelo romantismo (SILVA, 2000, p. 16).
Para a autora, além desta constatação, a procedência das histórias humorísticas
também pôde ser evidenciada. Ou seja,

Com a leitura do material, constatei que tanto personagens, ambientes,


referências políticas e econômicas, como a própria linguagem não se
relacionavam, de forma imediata, com a vida dos teuto-brasileiros,
principalmente do público leitor dos almanaques: os colonos. Todos
indícios levam à conclusão de que o humor contido no Familienfreund não
era produzido no Brasil, sendo, portanto, um humor importado da
Alemanha. (SILVA, 2000, p. 12)

Há, na imagem apresentada na Figura 34, uma charge em que as imagens são
contundentes quanto ao sentido e chegam a prescindir da leitura do texto. Com o título “A
vingança do corvo”, a história em quadrinhos retrata uma situação em que os pássaros
  117  

comem todo o alimento que estava em um saco carregado por um homem. Este é um dos
exemplos de humor baseado na imagem e presente nas páginas do almanaque, mas
todas as edições do mesmo também apresentavam pequenas histórias de humor escritas,
algumas vezes acompanhadas de imagens.
Segundo Rambo (2003), o humor constitui um recurso pedagógico de inegável
eficácia para os leitores dos almanaques, ou seja, o humor “fustigava os vícios, os
desvios de comportamento e as atitudes não aceitas pela sociedade de então, numa
forma jocosa, tanto do agrado dos leitores” (RAMBO, 2003, p. 72).
Figura 34 – Charge de humor presente na edição de 1931 do almanaque Der Familienfreund
  118  

Segundo Nova (1996), o leitor de almanaque, preso às ilustrações por necessidade,


ou por não saber ler (no sentido de simples decodificação), por ler pouco, ou mesmo pela
rapidez da leitura que realiza, fixa sobretudo as imagens, os signos icônicos. No caso do
almanaque DFF, possivelmente esta não seria uma leitura rápida, mas as escolhas
tipográficas sugerem uma significativa relação entre as imagens e os textos escolhidos,
demonstrando haver a importância das imagens para a apropriação do sentido dos textos.
Quanto à figura 35, na página a seguir, imediatamente percebe-se que a narrativa
do texto associa-se à religião. A história intitulada “A vítima”, escrita por P. Wehme, está
acompanhada de muitos símbolos religiosos. Na moldura adornada acima, está escrito
“Em nome do pai, do Filho e do Espírito Santo”. A imagem da moldura também apresenta
a Santíssima Trindade, desta forma, escrita e estão integradas.
A imagem ocupa grande parte da página e apresenta uma jovem rezando diante do
altar de uma igreja ou capela, altar em que há uma cruz e a imagem de Maria com o
menino Jesus. Segundo Chartier (1998), a imagem impressa tem um caráter próprio que
a faz diferir de todas as outras, pois ela é uma imagem próxima e não vista à distância e é
facilmente manipulável. “Ela também é muitas vezes uma proposta ou protocolo de
leitura, sugerindo ao leitor a correta compreensão do texto, seu justo significado”
(CHARTIER, 1998, p. 16). A imagem apresentada contextualiza o início da narrativa: uma
jovem vai rezar na capela à noite e faz muitas referências a sua fé em Maria. Para os
menos familiarizado com a leitura, a imagem auxilia a compressão, novamente jogando
com os sentidos atribuídos pelo leitor. A imagem, assim, elucida ao leitor o primeiro
momento da narrativa: a jovem e seu diálogo com Maria em uma oração.
  119  

Figura 35– Narrativa apresentada no almanaque Der Familienfreund

Segundo Rambo (2003), em relação à organização do almanaque, sua parte


formativa era composta por contos, ensaios e sobretudo poesias, muitas poesias. “Para
  120  

preencher os espaços entre as matérias de tamanho maior ou completar páginas,


colocavam-se peças de humor ou provérbios (RAMBO, 2003, p.72). Esta informação
assinala o fato de que, a organização tipográfica e as opções da época levaram a que,
muitas vezes, em uma mesma página um espaço fosse preenchido com um provérbio, um
poema ou mesmo uma imagem que não necessariamente guardavam relação com o texto
da página. Há, contudo, nesses casos, uma marca estética, uma moldura que auxilia o
leitor a perceber que aquele é uma outro texto, mesmo que compartilhe a mesma página.
Entre as narrativas impressas no DFF, a autoria é informada de formas diversas e,
às vezes, não é informada. Assim, quando a autoria é informada, às vezes são
apresentadas apenas as iniciais do autor, outras vezes as iniciais com o sobrenome final
completo, e algumas vezes com a autoria completa e ainda uma explicação (como é o
caso do texto die Verkannten, apresentado na figura 28).
Para elucidar a diversidade de textos e de informações sobre a autoria
correspondente, foi organizada a Tabela 6, que contempla uma breve aproximação aos
títulos e subtítulos apresentados na edição de 1912, primeira edição publicada do Der
Familienfreund.
  121  

Tabela 6 – Título e subtítulo dos principais textos presentes na edição de 1912 do almanaque Der
Familienfreund
Título em português (tradução simples) Subtítulo /Autor Página

Uma resposta como prefácio - p.17


Cheio ou meio Franz Eichert p.18
A palestra do velho professor no Berichtet von B. H. p.19
calendário
A graça - p.20
O fazendeiro e sua poesia Vozes poéticas dos tempos atuais p.22
A vingaça A história de vida de colonos - de F.B. p.25
Regras de ouro para pais e - p.29
educadores
Imagens da vida dos primeiros Von F. W. p.30
imigrantes alemães no Rio Grande
do Sul
Rinaldo Meyer H.W. (Brenen) p.38
Origens dos nomes e pré nomes alemães
História de um escravo da Argélia De acordo com registros do Barão agosto p.39
V. Harthausen, tio da grande poeta alemã
Annette von Droste Hülshoss que têm o
mesmo impacto na história, provavelmente,
muitos leitores já conhecido :. "O Livro
sobre os judeus" editado
A fofoca - p.44
Língua mãe, entonação da mãe Mar V. Schenkendors p.45
Um irmão Um premiado conto de humor militar von p.46
Maximilian Schmidt
O sino de Dunbar Von Alice von Gaudn p.52
Como o coração da mulher foi -
baleado p.53
Procissão no Grão- ducado do Von Carl Schliss, S. J. p.54
Luxemburgo
Os cuidados de saúde - p.65
A luta contra a tuberculose -
Agrícola - Zusammengestellt p.69
Algo sobre a realização de novas (compilado) von P.K.
variedades de frutas a partir de
sementes
Brasil, a nossa casa F.D p. 74
Pátria antiga Nicolaus Lenau p. 74
Sem Fins Lucrativos - - p.75
A nova lei cambial brasileira
Correios - p.78
Telégrafo - p.80

Pôr ao sol – nascer - p.81


A igreja católica no Brasil - p. 85
Alemães católicos na Diocese de S. - p.87
Pedro do Rio Grande do Sul
Volta ao mundo - p.89
Fonte: Tabela elaborada pela pesquisadora

Percebe-se nesta Tabela 6 que sobre a autoria não há um padrão, às vezes esta é
indicada completamente, às vezes ela não é mencionada. Voltamos, novamente, à figura
do autor, que historicamente foi se firmando e criando uma importância maior à
  122  

divulgação da autoria. Pode-se inferir, pela presença e ausência de informações sobre a


autoria dos textos impressos neste almanaque que, algumas vezes, os textos eram
especialmente produzidos para o impresso, por autores conhecidos do público leitor e que
suas histórias poderiam ganhar certa repercussão. Outros textos, porém, podem ter sido
importados de outros impressos, outros almanaques ou outros impressos religiosos, ou
mesmo histórias produzidas para o almanaque, mas que não informavam a autoria, às
vezes podendo ser escritores e redatores da própria tipografia. Interessa perceber que, de
forma geral, os últimos textos informativos, como tabelas com horários, leis ou
informações diversas eram apresentados sem atribuição de autoria ou a informação de
onde foram retirados dados apresentados, talvez porque muitos dos textos eram
folclóricos e compilados.
Um exemplo de narrativa sem autoria informada é o texto “Die drei
Buckelmännchen”, que pode ser traduzido como “Os três corcundas”, difundido na edição
de 1942. Neste texto, o subtítulo é “uma narrativa árabe, exemplo de texto sem
informação de autoria, mas com informação de procedência. Tal procedência sugere ser
este um texto transcrito de outro impresso, ou redigido novamente para o DFF, mas com
a referência de tratar-se de um conto árabe conhecido em alguma forma de intercâmbio.
Esta história também apresenta uma imagem elucidativa à narrativa, que representa três
homens corcundas realizando um trabalho manual e três meninos no entorno destes,
também uma alusão ao trabalho artesanal e à aprendizagem deste.
  123  

Figura 36 – Narrativa árabe presente no almanaque Der Familienfreund de 1942

Nas lembranças de leitura do DFF pela leitora Dona Cecília, ao ser interrogada
sobre os textos que lembrava de ter lido, disse que lia todos, sempre leu todas as edições
do impresso.  

Eu lia todo o livro, meu marido não lia, preferia jogar cartas (risos). Eu lia à
noite em voz alta para o meu filho, em geral de noite. Na livraria Selba comprávamos
o Deustche Voltsblatt e o Paulusblatt. O Familenfreund é o que mais lembro, lembro
muito do humor presente. Lembro das fotos de família que eram publicadas, que era
considerado um status ter a foto da família publicada – em geral, de famílias
numerosas. (Dona Cecília, entrevista em 28/08/2015)
 
  124  

Esta lembrança de Dona Cecília de ler o DFF à noite ao seu filho remete à imagem
de capas de algumas edições do impresso: um adulto lendo para a criança um texto do
impresso. As narrativas mais extensas presentes nas edições do DFF sugerem serem
estes alguns dos textos propostos a uma leitura em família, em uma relação entre a
religiosidade e histórias, contos com personagens variados para o entretenimento de seus
leitores. Lembro de um excerto de Chartier (2011) em que afirma que na representação
da vida camponesa ideal, idealizada por uma elite letrada, a leitura comunitária significa
uma realidade em que nada é ocultado, o saber é fraternalmente partilhado e onde o livro
é reverenciado. Esta leitura seria oposta à leitura citadina, individual e silenciosa. As
representações da leitura no campo e na cidade do século XVIII da Europa podem levar a
refletir sobre as práticas de leitura entorno ao DFF. Os protocolos de leitura e a
especificidade de um impresso destinado a toda a família de teuto-brasileiros católicos
sugerem ser uma leitura partilhada aquela a ser acionada diante deste impresso, ao
alcance de todos os membros da família.

Figura 37 – Páginas da edição de 1930 do almanaque Der Familienfreund


  125  

A memória de Dona Cecília também reporta-se às fotografias de famílias publicadas


no impresso. Estas eram recorrentes e, segundo a leitora, fotos de famílias numerosas
geralmente eram exibidas nas edições.

(...) Lembro também de textos sobre fatos relacionados às famílias, fotos de uma
família, era um status aparecer a família no almanaque, eram normalmente famílias
numerosas que apareciam no Der Familienfreund (...) (Dona Cecília, entrevista em
28/08/2015)
 

Relembrando as palavras escritas por Hugo Metzler na edição de 1912, um dos


objetivos da organização de um almanaque aos católicos teuto-brasileiros era viessem a
se conhecer mutuamente e tivessem espaço para se manifestarem abertamente sobre o
que os interessava. (DFF, 1912 tradução RAMBO, 2003, p. 75). Por meio das fotos de
famílias de outras regiões do sul do Brasil, os leitores do almanaque poderiam conhecer
uns aos outros, na perspectiva de uma união e uma identidade compartilhada. Vale
destacar que o Padre Amstad, que se manifestou no congresso católico de 1912, assim
como Hugo Metzler, é conhecido pela organização da Sociedade União Popular e pelas
iniciativas ao cooperativismo, considerado o percursor no Brasil (BOHNEN, 2000).
A iniciativa de promover e união entre as comunidades de teuto-brasileiros,
especificamente os católicos, pode ser relacionada ao projeto dos jesuítas no sul do Brasil
no século XX. A relação entre Hugo Metzler e os jesuítas foi destacada anteriormente.
Pode-se inferir que a relação entre o editor, Metzler. e os padres jesuítas se concretiza
pela preocupação destes com os teuto-brasileiros católicos, especialmente quanto às
opções de leitura que estes poderiam proporcionar nas cidades pequenas e distantes da
capital. Na entrevista com Dona Cecília, ela comentou sobre a leitura em bibliotecas.
Questionei, assim, o sr. Roque para saber da existência de bibliotecas na época
examinada.

Minha família tinha uma casa de negócios e recebia o almanaque


Familienfreund em consignação. Eu lia e vendia, encontrava os livros também nas
bibliotecas ( A entrevistada citou o nome e sobrenome de algumas pessoas a que se
refere como “leitores fanáticos). – (Dona Cecília, entrevista em 28/08/2015)
 
  126  

A relação inicial é com os jesuítas. Entrou um padre que se formou com os


jesuítas, muito vinculado à cultura dos jesuítas. O carro chefe foi nitidamente a
educação, padre dentro da escola, pro bem e pro mal, padre mandava na escola, não
se botava nem tirava professor sem o padre, ele incentivou até a guerra essas
bibliotecas, elas nasceram como iniciativa dos jesuítas.(Sr. Roque, entrevista em
28/08/2015)
 

Primeiramente, a informação sobre a comercialização do almanaque em uma casa


de negócios, um armazém de propriedade da família de Dona Cecília, é significativa. As
entrevistas indicam que estes impressos eram comercializados muitas vezes sob
consignação. Em um local comercial, na escola ou talvez através das lideranças da
comunidade (o padre ou o professor, por exemplo), estes almanaques eram
comercializados. Segundo Sr. Roque, seu pai professor fazia a distribuição do Ignacius
Kalender, mas de alguma forma comprava para a sua família o Familienfreund também.
Já a informação de Dona Cecília é que o DFF era vendido no comércio de sua própria
família. Sobre as bibliotecas, o Sr. Roque relata:

(...) Isto foi trabalho orientado pelos religiosos, os jesuítas começaram, ficaram até 28
[1928], Arroio do Meio foi paróquia com os jesuítas durante 12 anos. (...) Havia como
uma biblioteca em Arroio do Meio que tinha até nome, SEDE SAPIENTHIA, em latim,
sede da sabedoria, que tinha postos em Forqueta, Travesseiro, Capitão, Arroio
Grande Foqueta Baixa, no mínimo meia dúzia de picadas que havia um acervo, em
geral na escola, que tinha um armário em que estavam os livros da biblioteca. Era
tudo muito precário. (...) Em Arroio Grande tinha entrepostos para aproximar mais os
livros dos leitores em casas de negócios, vendas. (Sr. Roque, entrevista em
28/08/2015)
 

Sr. Roque refere-se à influência dos padres na escola e também quanto às leituras.
Após a alfabetização, havia a intenção que houvesse opções de leitura, não qualquer
leitura, mas a leitura de impressos ligados à fé católica, relembrando as palavras
impressas em 1942 pelo arcebispo D. João Becker e demais bispos e vigário que
recomendavam o jornal “A Nação” (Figura 2) e condenavam a imprensa “má e profana”
que, segundo eles, representava um perigo. Ou seja, impressos como o jornal “A Nação”
e outros impressos católicos deveriam ser lidos pela comunidade teuto-brasileira católica.
Segundo o relato do Sr. Roque, este pode ser considerado um exemplo do projeto
jesuíta junto à comunidade do interior do Rio Grande do Sul, possivelmente inspirado
  127  

pelas mesmas preocupações expostas no Congresso Católico realizado em 1912


(WERLE, 2004). A preocupação quanto às leituras condizentes com a religião católica e
que fossem acessíveis aos teuto-brasileiros do sul do Brasil e também o incentivo à
cultura dos teuto-brasileiros podem ter sido motivadores para a organização das
bibliotecas referidas nas entrevistas com a Dona Cecília e com o Sr. Roque.
Uma reflexão proposta por Chartier parece ser instigante para pensar o caso do
DFF. Para o autor, as autoridades como a família, a Igreja e a escola por muito tempo
atribuíam-se o poder de guiar e selecionar as leituras permitidas (CHARTIER, 1998,). A
iniciativa das bibliotecas referida por pela Dona Cecília como memória de leitura e,
depois, explicada pelo Sr. Roque, demonstra esta relação do projeto dos Jesuítas com as
possibilidades de práticas de leitura na comunidade de leitores de Arroio do Meio e
demais municípios do entorno, uma das possibilidades existentes na região naquela
época. A intenção de aproximar a comunidade dos livros e trazê-los em armários para
escolas e casas de negócios parece ter sido uma estratégia de aproximação àquela
comunidade de leitores. Isso possibilitou uma aproximação aos livros em comunidades
interioranas e aos leitores menos familiarizados com a leitura.
Este foi, assim, um impresso acolhido por uma assídua comunidade de leitores, que
vislumbrava e alcançava especialmente as pequenas comunidades do interior do Rio
Grande do Sul e, pelos dados informados, de Santa Catarina. Com o objetivo de ser uma
opção de leitura de comunidades em que havia pouco acesso a outros impressos, assim
como relacionado ao projeto dos jesuítas e à influência católica, este também manteve a
utilização do idioma alemão e a identidade cultural dos teuto-católicos, com uma
valorização da cultura germânica e também a informações diversas e à cultura brasileira
 
  128  

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O processo de pesquisa que sustentou esta dissertação pautou-se pelo esforço em


produzir um trabalho historiográfico com intenção de verdade e em busca de uma
verossimilhança sobre a história do almanaque Der Familienfreund, sua produção,
circulação como impresso, bem como as práticas de leitura que suscitou. Sabemos que o
passado não pode ser inteiramente retomado, tampouco conhecido como uma única
verdade. Esse não foi o propósito, mas tampouco diminuiu o desafio e o trabalho de
pesquisa em imersão que foi investido quando me lancei no estudo sob a perspectiva da
História da Educação.
Com o objetivo de contribuir à história da leitura e, por extensão, à história da
educação, o objeto de pesquisa relaciona-se à leitura fora da escola, pouco tematizada
em estudos sobre educação. A análise atentou a um impresso com uma diversidade de
textos organizados e ofertados à leitura, considerado popular e com a característica de
publicar textos em alemão e ser impresso no sul do Brasil. O DFF teve trinta e oito
edições impressas, sendo ofertado a leituras simultâneas de diferentes gerações, leituras
que fizeram parte da instrução e informação de sua comunidade de leitores.
Quando é chegado o momento de um balanço do que foi realizado ao longo do
estudo, algumas considerações podem ser feitas. Em uma aproximação à materialidade
do impresso, pude perceber significativas características que o identificam como um
impresso do gênero almanaque. Destinado a ser utilizado ao longo de um ano em uma
comunidade de leitores específica, visava atingir aqueles lugares em que a circulação de
impressos não era abundante, assim como tratava-se de outro momento histórico do
mercado editorial. O DFF constituiu um exemplo de impresso sujeito a uma leitura
intensiva, era lido e relido diversas vezes, num mesmo ano ou em anos seguintes e,
possivelmente, era objeto de uma leitura oralizada e partilhada, na família, entre vizinhos,
em grupos de proximidades e sociabilidades diversas, notadamente a religião católica.
Nesta dissertação, pude reafirmar algumas afirmações de estudos anteriores sobre
o DFF. As marcas editoriais do gênero almanaque, como a diversidade de gêneros
  129  

textuais e a presença de ilustrações como características centrais foram igualmente


constatadas. A temática religiosa é recorrente, mas também temáticas diversas, como
conteúdos informativos gerais (correios, telégrafo, fuso horário, impostos, notas
promissórias, etc.), assim como temáticas relacionadas aos cuidados de saúde, questões
agrícolas, enfim, uma variedade de temas que é própria ao gênero impresso almanaque.
Pude reafirmar a importância do impresso à sua comunidade de leitores nas
entrevistas realizadas, assim como a sua circulação nas cidades do interior,
especificamente na região de Arroio do Meio. A aquisição deste por meio de empréstimos
consignados, em casas de comércio ou na própria escola pode ser afirmada, inferindo-se
também uma possível circulação entre as autoridades religiosas. A influência religiosa,
assim como a semelhança com almanaques editados na Alemanha, também foram
destacadas.
O DFF não ficou imune aos dilemas de seu tempo. A relação entre o impresso e a
preocupação de membros da comunidade católica com o que consideravam leitura “má” e
leitura “boa” para suas comunidades de leitores foi evidenciada nos editoriais, entrevistas,
artigos publicados e, sem dúvida, é um aspecto que não deve ser negligenciado para uma
compreensão acerca da história da leitura desse almanaque.
Qualquer impresso é idealizado por pessoas e/ou organizações que lhe conferem
uma identidade. No caso do almanaque DFF, seu idealizador foi Hugo Metzler, imigrante
alemão, editor da Tipografia do Centro e que mantinha uma intensa relação com os
jesuítas alemães. O padre Theodor Amstad também é considerado um dos idealizadores
deste almanaque e contribuiu com diversos textos em diferentes edições. Possivelmente,
percebeu que o impresso possuía muitas possibilidades de influenciar a comunidade
teuto-católica e circular duradouramente entre ela.
Para além do caráter religioso, o DFF cumpriu a função de oferecer leituras
instrutivas, formativas e servir de instrumento de coesão étnico-cultural junto às
comunidades dos teuto-católicos. Disseminou informações sobre questões financeiras,
notícias mundiais diversas até informações sobre plantações, conselhos médicos e
ocupação sadia do tempo livre. O impresso apresentava a característica que, sob uma
perspectiva literária, Eça de Queirós (1896) denominou como a leitura de “altas verdades
vitais”. Nos textos diversos que colocou em circulação, em alguns consta a autoria, em
outros não. Alguns autores de artigos demonstravam manter uma nítida relação com a
comunidade de leitores do impresso, podendo-se afirmar serem estes autores brasileiros
ou imigrantes estabelecidos no Brasil.
  130  

Outros textos que compunham uma determinada edição, contudo, traziam


informações ou assuntos relativos a outros lugares, e pude inferir a influência ou a
importação de textos de outros impressos. O conto árabe da edição XX, por exemplo,
apresenta uma informação de origem do texto, o que permite afirmar que havia
intercâmbio de textos. As imagens impressas em suas páginas também têm esta
característica. Em algumas consta a autoria, em outras não. A ilustração de Ludwig
Richter, presente na capa de 1951, demonstra esta importação, pois uma imagem do
pintor alemão não fora, como outras, produzida especialmente ao DFF, assim, pode-se
inferir que tal imagem provavelmente tenha sido importada, possivelmente de outro
impresso, e sua autoria foi informada
Os protocolos de leitura que figuram nas capas das diferentes edições do DFF
foram reafirmados nas entrevistas que realizei: a leitura oralizada era uma prática de
Dona Cecília, que lia à noite para o seu filho as narrativas presentes no Der
Familienfreund. O sr. Roque, embora não tenha mencionado uma leitura partilhada,
lembra o acesso livre ao impresso, o entretenimento com o humor e os enigmas que lia e
procurava decifrar nos momentos de doença na infância. Reafirmou a ideia de que o DFF
era um impresso destinado para toda a família, sem qualquer conteúdo impróprio para as
crianças.
Dentre algumas aproximações que puderam ser feitas ao impresso e à história da
leitura do mesmo, novas propostas de análise e indagações fazem-se ainda presentes. A
influência que a edição do DFF mantinha com relação a outros impressos do gênero,
tanto do Brasil como em outros países pode ser melhor investigada, assim como uma
análise mais abrangente sobre as práticas de leitura envolvendo o Der Familienfreund.
O estudo sobre o DFF com exemplares efetivamente manuseados e utilizados, na
época, pela comunidade de leitores é uma possibilidade de objeto de estudo a possível
para próximas pesquisas, almejando compreender ainda mais sobre as utilizações do
objeto impresso DFF.
A importância que o gênero impresso estudado e, especificamente, o almanaque
Der Familienfreund teve em sua área de circulação pôde ser considerado com esta
dissertação: o DFF foi um artefato de informação e entretenimento, com caráter
moralizador e com a intenção de unir e informar a comunidade teuto-católica, uma das
poucas opções de leitura de sua comunidade de leitores.
 
  131  

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  138  

APÊNDICES
Principais títulos presentes na edição de 1931 do almanaque Der Familienfreund
Título em português Subtítulo /Autor Página
Saudação de ano novo -

O sino do Padre Roque Gonzales de S. Cruz -


Os mártires do Rio Grande do Sul p.25
Os mártires de Caaró e Assunção -
No estado do Rio Grande do Sul, Brasil p.26
Terrível Castigo - p. 29
Sem Deus Palavras para o tempo de Wilhelm p.30
Emmanuel von Ketteler para
Grinnerung para o 50º aniversário do
grande Bispo em 13 de julho, 1927
Sérios e pesados golpes do destino Von Anna Wagner p. 33
Humor - p.46
O principal ladrão – Lampião e seus feitos - p.48
O balaio - p.53
Vocês vivam a nossa religião - p. 56
Algo sobre o uso do poder da água - p.57
Edificação da primeira colônia alemã de Santa Catarina - p. 65
Peregrinação a Angelina Ferdinand Knoll p. 70
Um natal vermelho - p. 73
Como um tolo ludibriou um inteligente - p. 74
Rosas - p.76
O caçador aos domingos Von Josef Kemper p. 77
A partir do canto nordeste do nosso estado Von F. W. R. p.81
Poema de Natal - p.84
Estatística dos alemães no estado de Santa Catarina - p. 87
Da Alemanha Transporte - p. 89
Um exemplo instrutivo - p. 92
(Dinamarca e o alcoolismo)
Variedades -
O casal mais antigo da colônia - p. 100
Estilo de vida saudável -
Agricultura - p. 106
O desenvolvimento do arado -
p. 110
Informações legais sobre o inventário -
p. 111
Escola em Santa Cruz
Tabela - escolas p. 115

Para o melhor de todas as mulheres que sofrem -


Padres alemães Catedrais Diocese p.34
S. Pedro do Rio Grande do Sul
Fuso Horário p. 139
Impostos
Notas promissórias
duplicatas
Construção das índias - Jaipur p. 154
Bispo de Berlim
Máquina de cortar fumo p.203
Expia – informativo p.204
Humor – o novo corvo p.204/205
Jubileu de diamante p.211
Fonte: Tabela elaborada pela pesquisadora
  139  

 
Comparativo – impressos alemães
Características

Número de
publicação

impressão

Tamanho
Local de

páginas
Letra gótica
Ano de

Acervo
Impresso Textos e imagens
Espaço de escrita
Calendário

Impresso da Rede Jesuíta


Sem anúncios, letra gótica
Familiaridade com
Memorial
München Familienfreund com relação às
Canisius Kalender 1927 15X21 200 Jesuíta
Wien imagens, utilização das páginas
Unisinos
(imagens), temática religiosa,
sem espaço para o leitor
escrever
Letra de imprensa, calendário
Basel Memorial com espaço pequeno (para
Katholischer
1940 18X25 132 Jesuíta escrita?),
Volkskalender
Unisinos Formato mais largo – revista

206
Anúncios nas últimas páginas
nume- Memorial
Gartenlaube Letra gótica
1897 Leipzig 13X19 radas + Jesuíta
Kalender Sem espaço de escrita
anún- Unisinos
cios

Katholischer
Memorial
eltern kalender Letra gótica
Jesuíta
1922 München 15X21 80 Espaço de escrita
Unisinos

Daheim Kalender
Anúncios nas últimas páginas
für das Deutsche Memorial
Letra gótica
reich Jesuíta
1914 Leipzig 14X21 132 Com espaço de escrita
Unisinos
Algumas imagens coloridas

Letra gótica
Sem Acervo
Schwaben- Espaço de escrita
1933 Stuttgart 17X23 numera Benno
kalender Textos e imagens
ção Mentz

Acervo Letra de imprensa


Schwäbischer 1958 Stuttgart 17X23 Benno Espaço de escrita
128
Mentz Diversos textos e imagens

Fonte: Tabela organizada pela pesquisadora