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RASTREANDO UMA UNIDADE DE TRABALHO NA EDUCAÇÃO FÍSICA1

Ednaldo da Silva Pereira Filho

A busca por certezas e convicções no campo da Educação Física Escolar tem


deixado muitos/as professores/as inquietos/as e incomodados/as quanto ao conhecimento a ser
tratado, a sua distribuição nas diferentes séries e aos procedimentos para ensiná-lo.

Cabe registrar, que a realidade objetiva da Educação Física nas escolas dá-se
enquanto atividade curricular e não como disciplina. Isto significa que, ainda legalmente e de
fato, as aprendizagens desenvolvidas cotidianamente são marcadas pelas experiências
oferecidas em situações concretas, e não, pela apresentação sistemática dos conhecimentos.

E o que se identifica nestas sugestões de experiências, propostas ou impostas, pela


maioria dos/as professores/as de Educação Física, aos/as alunos/as é que as mesmas são
delimitadas basicamente pela pura e simples preferência do/a professor/a; satisfação da
vontade dos/as alunos/as ou restringe-se à adequação dos parcos espaços físicos e materiais da
escola.

Em suma, a ausência de clareza do que seja a Educação Física na escola e da


importância de seus conhecimentos na formação do/a cidadão/ã faz com que impere o mais
absoluto senso comum na prática pedagógica dos/as professores/as.

A falta de referência conceitual do que seja a Educação Física, atividade ou


disciplina curricular, não permite que se desvende a lógica estrutural dos currículos. Portanto
impede que desocultemos essa forma de poder e adentremos nesta estrutura social existente.

Acredito que só, cientes do que somos, poderemos conquistar a liberdade e o poder
de construir o que queremos ser.

Desta forma, na perspectiva de transformar a Educação Física em disciplina


curricular, pontua-se a difícil trajetória a ser percorrida, tendo em vista a complexidade da
tarefa de identificar sua área de estudo; selecionar seus conteúdos considerando sua

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Texto publicado no livro: SANTOS. Edmilson Santos dos (Org.). Educação Física Escolar: por uma cultura
desportiva. Porto Alegre: Sulina, Novo Hamburgo: FEEVALE, 1998.
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relevância, contemporaneidade e adequação, bem como a necessidade de organizá-los e


sistematizá-los de maneira a garantir coerência lógica ao longo da escolarização e conectadas
intimamente ao projeto político-pedagógico da escola.

O presente trabalho visa, de maneira resumida, apresentar esta trajetória, ainda


inconclusa, porém já iniciada por mim e alguns colegas.

Para facilitar a compreensão deste relato de experiência, desenvolvo o texto em duas


abordagens: a primeira, retratando o plano da teorização, onde apresento, em linhas gerais,
uma proposta de circunscrição da Educação Física Escolar, elaborada por um Coletivo de
Estudos2, ao qual fazia parte. E a última, relatando o redimensionamento necessário desta
teorização junto a outros/as professores/as de Educação Física, e desenvolvida nos anos de
1995 e 1996, na Rede Pública de Porto Alegre, através da Escola Lidovino Fanton, no bairro
da Restinga Velha.

1.Circunscrevendo a Educação Física Escolar

Acreditávamos que caberia à Educação Física, durante o processo de escolarização,


dar oportunidade ao/a aluno/a, através do desporto3 incorporar valores e habilidades que
possam contribuir para que venha a elencar como um dos elementos de sua qualidade de vida
a “plena atividade física”. E que através desta, possa semear relações interpessoais que
auxiliem na construção de uma compreensão que supere as contradições existentes entre o
lazer e o trabalho na sociedade contemporânea.Erro! Indicador não definido.

Assim o/a professor/a deveria elencar como objetivos gerais:

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CEEFE - Coletivo de Estudos sobre Educação Física Escolar, composto por mim, Antônio
Luís Carvalho de Freitas, Cláudio Marques Mandarino, Edmilson Santos dos Santos, Maria
da Conceição Porciúncula, Núbia Medianeira Comaretto e Regina Duarte Sherer , de
caráter auto-gestionário e que trabalhou, sistematicamente, e principalmente, aos domingos,
durante os anos de 1991 a 1994.
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desporto entendido no sentido amplo, para além da lógica restritiva do desporto rendimento.
Ver conceituações e manifestações preconizadas na “LEI PELÉ”. Poderia dizer, que se refere
o que alguns/mas autores/as chamariam de Cultura Corporal.
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a) Compreender os limites/possibilidades da Educação Física no espaço escolar durante


o processo ensino-aprendizagem;

b) Desenvolver práticas sociais que valorizem a coexistência entre as diferenças


evidenciadas durante a escolarização;

c) Identificar e desenvolver habilidades que possibilitem entender, praticar, organizar e


explicar o desporto, buscando construir o exercício da cidadania.

O trato do conhecimento seria representado pelos conteúdos da Aptidão Física e das


Culturas Desportivas (Ginástica, Jogo, Luta, Dança e Esporte Formal), onde três Eixos
Temáticos os englobariam:

a) A Educação Física e o Corpo Humano;

b) O movimento humano em diferentes ritmos;

c) Competição e participação nos Jogos e Esportes formais.

Como procedimentos metodológicos deveriam ser privilegiados os trabalhos em


grupos (duplas, trios, etc.) nas diversas atividades desenvolvidas (vivências, provas, trabalhos
em casa, testes físicos, etc.).

A utilização dos critérios para escolha dos grupos deveriam ser diversificados
durante os bimestres da escola. Exemplos: Escolha livre; sorteio dos “cabeças” com
respectivas escolhas dos demais; guri escolhe guria e vice-versa; cada um escolhe o seu
próximo, etc.

Essencial a elaboração de textos específicos para cada assunto trabalhado, onde o


professor deveria, após abordar o tema em sala de aula, baseado nas expressões manifestadas
pelos/as alunos/as, confeccionar como materiais didáticos, textos em forma de polígrafos, que
facilitariam o contato permanente com a informação construída no contexto escolar.

Era fundamental que os/as alunos/as tivessem acesso prévio de toda a programação e
proposta a ser desenvolvida pela Educação Física, durante o ano letivo.

A presença, ausência, escassez e má qualidade dos recursos materiais deveriam ser


considerados também como elementos integrantes da aprendizagem, muitas vezes
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constituindo-se como verdadeiros desafios para superação dos chamados


limites/possibilidades da Educação Física no espaço escolar.

E finalmente, o processo de avaliação que era preconizado como de domínio de


todos/as alunos/as, ou seja, já que todos/as tinham conhecimento da programação, a mesma
não deveria ser novidade para ninguém, assim como, os critérios estabelecidos para
quantificar (elemento, conscientemente, presente na avaliação) o processo de ensino-
aprendizagem que pela sua transparência, poderiam inclusive ser questionados e aceitos, com
clareza e significado.

Destacávamos como instrumentos avaliativos possíveis: provas escritas (em duplas,


para ser feita em casa, etc.); Entrega da Ficha Biométrica; Participação nas aulas, Presença em
aulas; e outros trabalhos, de acordo com o enfoque do bimestre.

Vale destacar, em letras garrafais, que todas estas fundamentações não eram
reflexões assépticas do cotidiano escolar. Foram todas elas, “costuras e alinhavadas” ao longo
do exercício pedagógico de 04 anos, principalmente na Rede Pública Municipal de Gravataí,
com alunos/as de 5ª a 8ª séries.

2. Redimensionando na tentativa de uma unidade de trabalho

A partir daqui, passo a relatar a necessidade de redimensionar toda uma


implementação de Educação Física, sem abrir mão de princípios básicos anteriormente
concebidos, para poder garantir as primeiras aproximações de um trabalho coletivo com
outros/as professores/as de olhares diferentes, na tentativa maior, de iniciar uma caminhada na
construção de uma proposta pedagógica escolar com uma Educação Física engajada.

O elemento motivador de todos/as nós professores/as era o entendimento que a não


sistematização dos conhecimentos da Educação Física dificultava, a compreensão e
apropriação de conhecimentos, habilidades, atitudes, valores e hábitos veiculados nas aulas da
Educação Física, bem como, a nossa localização no tempo e espaço escolar quanto aos
elementos desenvolvidos por nossos/as colegas. Éramos verdadeiros/as alienígenas!
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Este profundo desconhecimento, desarticulação e descompasso entre nós, nos


moveu na tentativa de uma maior troca de experiência e construção, primeiramente, de uma
unidade mínima de trabalho com os alunos/as de 5ª a 8ª séries, para ser desenvolvida durante
o ano letivo de 1995, na Escola Municipal Deputado Lidovino Fanton, em Porto Alegre.

Metodologicamente, iniciamos o planejamento desde o final de 1994, quando em


reuniões semanais da área da Educação Física já se apontava para a garantia prévia de
algumas medidas organizativas, tais como:

a) ADOÇÃO DE TURMAS MISTAS - sendo assegurada a manutenção da


composição da mesma turma de classe para as aulas de Educação Física,
desfazendo assim, um costume antigo na escola que era as turmas homogêneas
( Só guris, ou só gurias).

b) PERÍODOS DE AULAS “CASADOS” - na distribuição dos 3 períodos


semanais, deveria ser assegurado junto à Supervisão da Escola no momento da
composição de todo o Quadro de horários das disciplinas, dois períodos juntos
de aulas para todos/as professores/as de Educação Física de 5ª a 8ª séries, como
justificativa de estratégia pedagógica para aumentar o tempo no trato com o
conhecimento, melhorando assim a qualidade didática da exposição, discussão,
vivência e conclusão das aulas;

c) SOLICITAÇÃO DE COMPRA E AQUISIÇÃO DE MATERIAIS - com a


clareza do que seria desenvolvido no ano letivo, e quando precisamente, o
sentido/significado da presença e necessidade de providência destes materiais
didáticos, passava a ser uma cobrança coletiva de professores/as e alunos/as,
bem como reconhecida como justa e prevista pela Direção da Escola;

d) PREVISÃO COLETIVA DA OCUPAÇÃO DOS ESPAÇOS FÍSICOS DA


ESCOLA - como a escola só comportava um espaço, “classicamente”
adequado, para as aulas da Educação Física, todos/as professores/as e alunos/as
o reivindicavam. Assim, fora construído, pelos/as professores/as, de comum
acordo, um Calendário Coletivo de utilização deste espaço que garantisse a
todos o direito e privilégio, acordado antecipadamente, de sua ocupação;
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e) GARANTIA DAS “FOLGAS” DOS PROFESSORES DE EDUCAÇÃO


FÍSICA EM DIAS DIFERENTES - este foi um dos mecanismos utilizados
para facilitar a composição do Calendário Coletivo de utilização dos espaços
físicos;

f) GARANTIA DAS REUNIÕES SEMANAIS DA EDUCAÇÃO FÍSICA -


também garantido no Quadro de horários das disciplinas, junto à Supervisão da
Escola, assegurando, assim a permanente troca de experiências,
acompanhamento, controle e correções desta iniciativa de unidade de trabalho.

No que diz respeito à seleção, propriamente dita, dos conteúdos a serem


desenvolvidos durante os bimestres deste ano letivo, tomou-se como base:

1- Adequação de espaços físicos e recursos materiais existentes;

2- Conhecimento e habilidades dos/as professores/as de Educação Física;

3- Possível aceitação cultural dos/as alunos/as.

Resultando enquanto conteúdos comuns e mínimos a serem desenvolvidos, os


seguintes, com as suas respectivas distribuições:

1º Bimestre - Voleibol

2º Bimestre - Futsal

3º Bimestre - Atletismo

4º Bimestre - Handebol

Como foi mencionado, eram conteúdos comuns acordados, porém cada professor/a
poderia, assegurada sua autonomia didático-pedagógica ampliar seus trabalhos, inclusive
acrescentando a esses, outros conteúdos se assim o considerassem viáveis.

No meu caso particular, eram desenvolvidos complementarmente:

1º Bimestre - Ginástica, onde toda fundamentação do Eixo Temático sobre “A


Educação Física e o Corpo Humano” continuava sendo desenvolvida, e se prolongava por
todo ano letivo, com o controle e desenvolvimento de elementos (Resistência Aeróbica, Força
e Flexibilidade) da Aptidão Física;
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2º Bimestre - Continuação da Ginástica;

3º Bimestre - Capoeira;

4º Bimestre - Danças, onde o Eixo Temático sobre “O movimento Humano em


diferentes ritmos” era abordado com a vivência, discussão e interpretação coreografada de dez
ritmos e danças diferentes: o samba, o reggae, a valsa, o vaneirão, o frevo, o afro, o baiano, o
forró, a lambada e a moda funk.

Foi adotado enquanto estratégia de “globalização” e culminância dos trabalhos


realizados em cada bimestre, os TORNEIOS dos conteúdos comuns.

Concluo, apontando como resultados desta experiência, mudanças de


comportamentos dos/as alunos/as, possíveis de serem observáveis nitidamente, quando:

a) Antes da adoção de turmas mistas, observava-se um nível de agressividade e disputa


elevado entre guris e gurias. Após, identificamos uma maior sociabilização entre eles/as;

b) Era muito comum encontrar guris jogando futebol, e gurias, voleibol, ao ponto inclusive de
rotular o futebol como “coisa de guri” e voleibol, “coisa de guria”. Após, isso apresentou-
se totalmente superado, passou a ser comum nos momentos “livres” da escola,
encontrarmos guris e gurias jogando futebol, voleibol e handebol, sem qualquer
discriminação de sexo. Aqui se registra a mudança de hábito, significado maior da
aprendizagem.

c) Os torneios serviram para evidenciar os desejos, as dúvidas, as certezas, as angústias, a


colaboração, a discriminação, enfim as mais diversas manifestações autênticas dos/as
alunos/as e professores/as, oportunizando a vivência de um espaço contraditório, porém
bastante real e significativo para a continuação das reflexões, ações, reflexões, ações...

Porto Alegre, 02 de junho de 1998.

Sobre o autor:
Ednaldo da Silva Pereira Filho é licenciado em Educação Física, desempenha a profissão
como Professor do Curso de Educação Física da UNISINOS (Universidade do Vale do Rio
dos Sinos), nas disciplinas de Diretrizes Atuais da Educação Física, Didática da Educação
Física, Ginástica Evolutiva I e II, e também Metodologia do Ensino da Educação Física para o
Curso de Pedagogia, além de coordenar a área da Educação Física no SAPECCA (Serviço de
Atenção, Pesquisa e Estudos com Crianças e Adolescentes). Atualmente em licença da Rede
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Pública de Educação do Município de Porto Alegre para estudos, pois é Mestrando em


Educação, também na UNISINOS.