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“A Relíquia” desnuda a construção de

verdades

Narrado em primeira pessoa, o romance conta o episódio de uma desastrosa troca de embrulhos feita pelo personagem Teodorico

A irreverência, o humor e o questionamento das verdades no cotidiano do

romance A Relíquia, considerado um dos mais polêmicos de Eça de Queirós


(1845-1900).

Segundo o professor da USP Helder Garmes: “É preciso tomar cuidado


para não aderir às teses do protagonista, todas elas de alguém que não tem
a menor consideração por valores sociais e coletivos”.

Para orientar a leitura, segundo o professor Helder Garmes, “Apesar da


distância temporal e do português do século 19, o leitor vai se divertir bastante
com a história de Teodorico.” O professor, no entanto, faz uma ressalva: “É
preciso tomar cuidado para não aderir às teses do protagonista, todas elas de
alguém que não tem a menor consideração por valores sociais e coletivos.”
Lançado em 1887, o livro foi publicado na cidade do Porto, em Portugal. “É sem
dúvida uma obra muito importante do autor, mas gerou uma grande polêmica,
quando a Academia Real de Ciências de Lisboa abriu um concurso literário no
qual o texto de Eça foi preterido”, conta Garmes. “Grande parte da crítica
literária considera que A Relíquia foge um pouco ao gênero do romance realista,
sobretudo por conta do episódio fantástico que ocorre no meio do livro, quando
Teodorico, em sua viagem para Jerusalém, vive uma espécie de retorno para o
passado e assiste pessoalmente a todo o sofrimento de Jesus Cristo, descobrindo
que não ressuscitou, e sim morreu de fato.”
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A surpresa de Titi ao se deparar com a camisola, em vez da
esperada relíquia – Reprodução do livro A Relíquia, publicado pela
Ateliê Editorial
O episódio, no entanto, instiga e passa.

“O restante da trama do romance é marcado por uma linguagem e


ações realistas, com críticas severas à Igreja, à corrupção, à manipulação da boa-
fé dos indivíduos, à desfaçatez do homem capitalista do século 19, que não
valoriza mais nada além de dinheiro e prestígio social, sem qualquer princípio
ético. O autor narra em um tom muito leve e divertido, que ganha facilmente a
simpatia do leitor.”.
O tema é a questão central da construção de verdades religiosas, sociais e políticas,
que estão na pauta do nosso dia a dia.”
É essa trama de A Relíquia que compõe um retrato da sociedade contemporânea.
“A decisão da Fuvest de incluir esse livro foi muito acertada, sobretudo porque
tem como tema central a questão da construção de verdades religiosas, sociais e
políticas, que estão na pauta do nosso dia a dia”, observa Helder Garmes.
O professor destaca que o estudante verá a realidade brasileira refletida na
história de Eça. “Tem relação direta com temas como as fake news, os processos
de corrupção que temos visto ocorrer no Brasil, onde cada um procura provar sua
verdade, deixando de lado qualquer princípio ético, além do crescimento
exponencial de religiões que manipulam seus fiéis da forma mais abjeta.”
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Em sua obra, Eça faz uma crítica às verdades religiosas. À direita, Titi, uma
mulher muito devota que impõe uma educação religiosa ao sobrinho órfão –
Reprodução/ Livro A Relíquia, Ateliê Editorial
.
O leitor, com certeza, vai ter muito para refletir e criticar. Garmes faz uma
síntese do enredo: “O livro narra a história de Teodorico, cujo avô era um padre e
o pai, tendo se beneficiado dessa influência, conseguira um bom emprego, o que
lhe possibilitou transitar em um meio social endinheirado e casar-se com uma das
filhas do comendador Godinho. No entanto, a mãe de Teodorico morre logo após
o parto, seguida pelo avô e pelo seu pai. O menino fica totalmente órfão aos sete
anos de idade. Vai morar com a tia, Dona Maria do Patrocínio, mulher muito
devota. Passa a ter uma educação religiosa, que nada se coaduna com sua
personalidade.”

Estátua de
autoria de Teixeira Lopes em homenagem a Eça de Queirós
– Reprodução/ Livro A Relíquia, Ateliê Editorial
Teodorico faz uma falsa coroa de espinhos para entregar como relíquia à tia.”
Teodorico sonha em conhecer Paris, porém, sua tia considerava aquela cidade
como um lugar de perdição. “Para conseguir maior liberdade, resolve propor que
a tia, ou Titi, financiasse uma peregrinação para Jerusalém. A beata consente e
lhe pede para que traga uma relíquia”, conta Garmes. “Nessa viagem, conhece a
inglesa Miss Mary, com quem tem um caso. Quando se separam, ainda no meio
da viagem, ela lhe dá de presente sua camisola embrulhada em um pacote.”
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Capas de diferentes edições de A Relíquia, de Eça de Queirós – Reprodução
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A peregrinação continua. “Teodorico faz uma falsa coroa de espinhos para
entregar como relíquia à tia. No meio do caminho, uma mendiga pede uma
esmola e o rapaz entrega a camisola. Mas, quando chega em Portugal, há uma
grande cerimônia pública para a entrega da coroa de espinhos. Porém, a tia, ao
abrir o pacote, se depara com a camisola. Titi fica humilhada e rompe relações
com o sobrinho, deserdando-o de toda a fortuna da família.”.

Eça de Queirós com sua esposa Emília – Foto:


Reprodução/ livro A Relíquia, Ateliê Editorial
O protagonista aprende o valor de uma coroa de espinhos. Mas nem tanto.
Lamenta por não ter dito que a camisola era de Maria Madalena. “Teodoro chega
à conclusão de que, se tivesse afirmado a mentira com a devida convicção, todos
acreditariam nele, pois as verdades são feitas somente de convicções fortes e
nada mais”, diz Garmes. “Com isso, suprime a ética como um bem social, ou
seja, a necessidade de um conjunto de valores, regras, preceitos, importantes para
se viver bem e em paz na sociedade.”
O livro A Relíquia, de Eça de Queirós, está disponível para download em
http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/eb000017.pdf
Para quem prefere a edição impressa do livro, há a publicação da Ateliê
Editorial, com apresentação e notas de Fernando Marcílio Lopes Couto e
ilustrações de Marco Aurélio Silva S. de Aragão, com 368 páginas. Preço:
R$ 35,60.