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BOLETIM DA CMF Nº 38 AGOSTO 2007 ISSN: 1516-1781

EDITORIAL .............................................................................................................................................................................. 2
SUMÁRIO

Semana de cultura popular 2007 ................................................................................................................................................ 2


O cuxá ......................................................................................................................................................................................... 3
Zelinda Machado de Castro e Lima
O Cuxá na cultura maranhense e seu registro como patrimônio cultural brasileiro ............................................................... 6
Mundicarmo Ferretti
A cultura local através do artesanato. Cultura popular ou folclore: arte ou artesanato? ......................................................... 8
Francisca Ester de Sá Marques
Turismo Cultural: ecos da memória e do patrimônio ................................................................................................................ 9
Karoliny Diniz Carvalho
O Folclore arrozeiro .................................................................................................................................................................. 11
Maria de Fátima Sopas Rocha
Migração religiosa do pentecostalismo para a umbanda ......................................................................................................... 15
Paulo Jeferson Pilar Araujo
Vamos brincar de boneca ou dançar tambor de crioula? ......................................................................................................... 17
Maria do Socorro S. Aires
JANELA DO TEMPO: Festa de São João .............................................................................................................................. 19
FulgencioPinto
Culinária Maranhense: receitas tradicionais .......................................................................................................................... 21
Mundicarmo Ferretti
NOTÍCIAS ............................................................................................................................................................................... 22
Roza Maria dos Santos
PERFIL POPULAR
Raimunda Menezes de Aguiar - Diquinha .............................................................................................................................. 24
Josimar M. Silva
ENCARTE – Doçaria e culinária maranhense: receitas (reprodução)

COMISSÃO MARANHENSE DE FOLCLORE - CMF


EDIÇÃO:
CNPJ 00.140.658/0001-07 CONSELHO EDITORIAL:
Maria Michol P. de Carvalho
Carlos Orlando de Lima Mundicarmo M. R. Ferretti
DIRETORIA
Maria Michol Pinho de Carvalho Roza Maria Santos
Presidente: Maria Michol P. de Carvalho
Mundicarmo Maria Rocha Ferretti
Vice-presidente: Roza Maria Santos REVISÃO DE TEXTO:
Roza Maria Santos Antonio Regino de Carvalho Neto
Secretária: Nizeth Aranha Medeiros
Sérgio Figueiredo Ferretti
Tesoureira: Lenir Pereira dos S. Oliveira VERSÃO PARA A INTERNET:
Zelinda de Castro de Lima www.cmfolclore.ufma.br

CORRESPONDÊNCIA
COMISSÃO MARANHENSE DE FOLCLORE As opiniões publicadas em artigos
Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho assinados são de inteira
responsabilidade de seus autores,
Rua do Giz (28 de Julho), 205/221 – Praia Grande CEP 65.075–680 – São Luís – Maranhão
não comprometendo a CMF.
Fone: : (0xx98) 3218-9924
2 Boletim 38 / agosto 2007

SEMANA DA CULTURA POPULAR 2007 TEMA: “DO COFO AO


Editorial PRATO: COMIDA MARANHENSE QUE DÁ ÁGUA NA BOCA”
O número 38 do Boletim de Folclore traz o sabor da culiná- PROGRAMAÇÃO
ria maranhense e, como não poderia deixar de ser, do cuxá. 20 a 24 de agosto de 2007
Essa ênfase foi desencadeada pela tramitação do pedido de
registro do cuxá como patrimônio cultural nacional, encami- 20 de agosto (segunda-feira) cio-MA e pela Fundação Municipal de
nhado ao IPHAN pela CMF, em 2005. Mas tem muito a ver Dia do Visitante Cultura
com a temática central da Semana do Folclore 2007, promovi- 09:00 às 19:00 h -Abertura excepcional Lançamento de Concurso de Redação
da pela Superintendência de Cultura Popular da Secretaria de para visitação da Casa da FÉsta, Casa sobre os ofícios dos mestres homena-
Estado da Cultura, cuja programação foi aqui apresentada. de Nhozinho e Casa do Maranhão geados
Em decorrência disso, o trabalho de Josimar Silva sobre Diqui-
Casa da FÉsta/Centro de Cultura 18:30 h – Comédia e Serê (de Centro
nha, uma das grandes especialistas em comida típica do Mara-
Popular Domingos Vieira Filho Grande/Axixá)
nhão, publicado em Perfil Cultural, e 50% dos artigos e notíci-
as incluídos nesse número giram direta ou indiretamente em Abertura da Semana da Cultura Popu- 20:00 h - Show musical com o Grupo
torno daquele “carro chefe” da culinária maranhense que às lar 2007 Urubu Malandro
vezes aparece também como “arroz de cuxá”, tanto em relatos 18:00 h - Abertura da Exposição Foto- Lançamento da edição nº 03, do Jornal
e documentos de tempos que já se foram como nos atuais, gráfica “Pra comer com os olhos: o “Na Ponta do Giz”, da Superintendên-
sempre como um pirão de farinha de mandioca com camarão, cofo e o cuxá” (com fotografias de cia de Cultura Popular / SECMA - Sa-
vinagreira e gergelim, servido com arroz branco e peixe frito e Margareth Figueiredo e cofos do acer- lão de Eventos
que, portanto, não pode ser confundido com o “arroz de batipu- vo da Casa de Nhozinho)
ru” ou “arroz de vinagreira” - risoto encontrado em alguns res- Demonstração do processo de confec- 23 de agosto (quinta-feira)
taurantes típicos de São Luís com a denominação “arroz de ção do cofo Paracafu, por Arlindo Sou- Casa da FÉsta/Centro de Cultura
cuxá”. za (de Santo Amaro do Maranhão) Popular Domingos Vieira Filho
O artigo de Fulgencio Pinto sobre Festa de São João, publi- 19:00 h – Mercado do Giz (com exposi- 17:00 h – Roda de Conversa “Palha &
cado na seção “Janela do Tempo”, faz a ligação com o número ção e venda de comida, bebida e arte- Cia”, com participação de Sonia Espín-
anterior. Os trabalhos de Ester Marques, sobre artesanato, e de sanato) dola (coordenadora), Graça Maria Oli-
Karoline Carvalho, sobre turismo cultural, nos convidam a uma Participação da Associação de Feiran- veira, João Carlos Pimentel Cantanhe-
reflexão sobre o lugar e a importância da cultura popular. tes da Praia Grande
de, Marcelo Costa Medeiros e artesão
Zelinda Lima e Mundicarmo Ferretti tratam especificamen- 19:30 h – Apresentação dos repentis-
Antonio Carlos de Carvalho
te sobre o cuxá: o que é, quais os seus ingredientes, como se tas Antonio Joaquim dos Santos (de
Lançamento do projeto “Nordeste Cri-
prepara, qual o seu contexto antropológico e como ele é conhe- Caxias), Antonio Raimundo da Silva (de
ativo – I Mostra de Artesanato do Nor-
cido por pessoas de diversas faixas etárias, níveis de renda e de Timon) e Tibúrcio Bezerra (de São Luís)
20:00 h – Show “Sotaque Maranhense deste” - Auditório Rosa Mochel
diferentes regiões do estado.
Fátima Sopas discorre em seu artigo sobre um produto de na Arte de Cozinhar”, com Wellington Casa de Nhozinho (entrada pela Rua
grande importância na alimentação do maranhense e extrema- Reis e José Ignacio de Nazaré)
mente associado ao cuxá, o arroz, daí porque aquele prato Galeria Zelinda Lima e Pátio Valdelino 18:00 h – Espetáculo “Borboletando”,
típico, feito basicamente com vinagreira, gergelim, camarão e Cécio com Carina Nascimento
farinha de mandioca, é também conhecido por “arroz de cuxá”, 19:00 h – Baião Cruzado, de Dona
em alusão ao seu acompanhamento indispensável, o arroz bran- 21 de agosto (terça-feira)
Maria da Paes (da Vila Ivar Saldanha)
co. Casa do Maranhão
20:00 h – Dança do Coco (de Riacho
Nesse número do Boletim foram fornecidas receitas de cuxá, 14:00 às 17:00 h – Oficina de Paracafu:
Seco/Rosário) - Área de Convivência
de arroz de batipuru e de algumas bebidas tradicionais na culi- um cofo especial com o artesão Arlindo
nária maranhense, inclusive a do mocororó, que já foi muito Souza (de Santo Amaro do Maranhão)
24 de agosto (sexta-feira)
vendida em São Luís e que parece ter desaparecido. Essa bebi- Casa da FÉsta/Centro de Cultura Casa do Maranhão
da, no entanto, levada no passado para o Amazonas, por mães- Popular Domingos Vieira Filho 14:00 às 17:00 h – Laboratório de Culi-
de-santo, é hoje tomada ritualmente em terreiros de mina ama- 17:00 h – Exibição de documentários nária Maranhense, com a Cooperativa
zonenses ligados à tradição do Maranhão. Nessa edição esta sobre o Cuxá, da CMF e do SESC/MA de Serviços de Gastronomia Típica do
sendo também distribuído um encarte com receitas fornecidas Roda de Conversa “Folclore no prato”, Bairro do Desterro
na Exposição sobre Doçaria e Culinária Maranhense, organiza- com participação de Maria Raimunda
da em São Luís, pela Fundação Cultural, hoje Secretaria de 18:00 h – Tambor de Crioula (de Santa
Araújo (coordenadora), José Inácio Mo- Rita do Vale/Santa Rita)
Estado da Cultura, com apoio de várias instituições, no período raes Rego, Zelinda Lima, Fátima So-
de 20 a 30 de agosto, de 1976. 20:00 h – Conjunto Pau Furado (de Pi-
pas e Elir Jesus Gomes (expositores) e nheiro)
Várias notícias transmitidas por Roza dos Santos mostram a Admée Duailibe e Nizeth Aranha (de-
atuação de técnicos, instituições e “mestres de cultura” do Mara- Lançamento do Boletim nº 38, da Co-
batedoras) missão Maranhense de Folclore
nhão e de outros estados em prol do reconhecimento da cultura 19:00 h – Dança do Lili e outras danças
popular, e algumas delas atestam o apoio da comunidade mara- Salão de Eventos
(de Caxias)
nhense ao pedido de registro do cuxá como patrimônio cultural Auditório Rosa Mochel e Pátio Valdeli-
nacional. De 21 a 24 de agosto (terça a sexta-
no Cécio
Saindo um pouco da culinária, o Boletim nº 38 da CMF traz feira)
dois artigos sobre as relações entre religiões afro-brasileiras e Casa da FÉsta/Centro de Cultura
22 de agosto (quarta-feira) – Dia In-
outras religiões no Maranhão: o de Paulo Jéferson Araújo, que ternacional do Folclore Popular Domingos Vieira Filho
versa sobre pentecostalismo e religião afro-brasileira (“duplo per- Casa do Maranhão 10:00 e 15:00 h – Cine Popular, com
tencimento” e mudança de uma dessas religiões para a outra); e 17:00 h – Roda de Conversa “A Lei dos documentários de Cultura Popular
o de Socorro Aires, que trata sobre rituais de cura/ pajelança e Mestres e o Projeto Tesouro Vivo”, com Auditório Rosa Mochel
suas relações com o tambor de mina no Terreiro Fé em Deus, em participação de Ester Marques (coor-
São Luís. denadora), prefeito de São Luís Tadeu Projeto Sabença: museu-escola
Palácio, Clay Lago, Joãozinho Ribeiro, Tema: Bumba-meu-boi
ERRAMOS Adirson Veloso, vereador Joberval Ber- 13 a 16 de agosto: Unidade Integra-
toldo e deputada Helena Heluy da Alberto Pinheiro – Turno Vesper-
Boletim 37 – Janela do Tempo, p. 14, nota 25. Após a pala-
Homenagem aos “Mestres do Ano” com tino
vra original deveria ter sido acrescentado: publicado em Sema-
nário Maranhense, São Luís, 05/07/1868, Ano I, nº 45, p. 7-8. entrega de placa e de prêmios a dois 27, 28 e 30 de agosto: Unidade Integra-
mestres pelo Serviço Social do Comér- da Miguel Lins – Turno Vespertino
Boletim 38 / agosto 2007 3

O CUXÁ1
Zelinda Machado de Castro e Lima2

Dentre os muitos pratos da variada esculentos L.). Estudo do Sr. Francisco Nunes Pereira, sobre os costumes e
cozinha do Maranhão, avulta com me- Tenreiro, citado por Cascudo, informa práticas da Casa das Minas, o mais anti-
recido relevo, o cuxá, tornado já um sím- que da América, e principalmente via go culto afro-brasileiro de São Luis, ex-
bolo da hospitalidade maranhense. Brasil, recebeu a ilha de São Tomé, no plica:
golfo da Guiné, a pimenta malagueta
O QUE É: A vinagreira, conhecida noutras áreas pela
(Capsicum frutescens), mandioca (Ma-
Uma espécie de bobó (esparregado)3 denominação popular de azedinha, é bas-
nihot esculenta), abacate (Persea ame-
de folhas de vinagreira, engrossado com tante apreciada e consumida, quer – após
ricana), ananás (Anona muricata), pa- cozimento – misturada ao arroz, quer iso-
Farinha de Mandioca, Gergelim e Ca- paia (Carica papaya), anona4 (Anona
marão Seco. ladamente; sua determinação científica é
Glabra), sape-sape5 (Anona muricata), Hibiscus sardarifera L., pertencendo à
Vinagreira: Arbusto da família das
cacau ( Theobroma cacao ), cajueiro família das Malváceas. Paul Lê Cointe
Malváceas, originário da África Orien-
(Anacardium occidentalis), tomates e aponta essa planta com o nome de azeda-
tal Tropical (Hibiscus Sabdariffa L.) qua-
se sempre com cerca de 2 m, folhas den- batata andina. Daí ser difícil estabele- da-Guiné. No entanto, tão apreciada como
cer com certeza a origem da vinagreira. é, não pode ser consumida em certa fase
tadas, flores sésseis, axilares, róseas ou
Mesmo porque a África conhecia o do ano. E, note-se, ela entra no preparo
púrpuras, bastante disseminado nos pa-
bobó, o esparregado de folhas diversas. do famoso prato chamado ARROZ-DE-
íses tropicais e subtropicais. Também CUXÁ, orgulho da culinária maranhense
conhecido como caruru-azedo, em ou- Na África Oriental faz-se o esparregado (PEREIRA, 1979, p. 153)
tros países seus frutos são empregados com folhas de abóbora, mandioca, feijão,
no fabrico de geléias e doces. batata, gimboa (uma espécie de bredo, Gergelim: Planta anual, o gergelim
Amaranthus Linn.,) mulembo ou kixara- ou zerzelim é uma planta anual da fa-
nana (Curchorus olitorius Linn) e na mília das Pedaliáceas, cientificamente
Guiné usam folhas de cito, boabá (Adau- chamada Sesamo indicum L., segundo
sionia digitata), e os fulas do Gabu utili- os botânicos. Tem raízes em forma de
zam as ervas bagitx, denominando-o fole- nabo, caule ereto, cilíndrico, de mais de
rê. Comumente não fervem as folhas e
1 m de altura.
sim esmagam-nas no pilão, obtendo uma
massa verde, como mingau espesso. Quan-
do há sal, temperam com sal, pimenta,
esta preparada e posta quando o esparre-
gado está quase pronto.

Verduras à venda no
Mercado Central de São Luís

Quanto à sua origem, há dúvida so-


bre se a vinagreira veio da África ou se
para lá foi levada pelos portugueses,
“agentes distribuidores de espécies ali- Gergelim à venda na feira
mentares com surpreendente eficiência”
, como os classifica Câmara Cascudo, Das suas sementes, torradas e piladas, de
acrescentando: “Na proporção que o sabor apreciadíssimo, é que o referido pra-
português familiariza-se com a flora bra- to maranhense ganha justo renome, pro-
Verduras à venda no veniente do seu já salientado sabor e ines-
sileira, tenta aclimatar raiz ou fruto Mercado Central de São Luís
numa paragem distante onde também quecível aroma.
estivesse servindo a El-Rei. E conduzia Porções de sementes dessa planta, isola-
O chikwangue sudanês, a essuanga damente ou associadas a camarões secos
os sabores estrangeiros para a ementa ha-
banto, são herdeiros legítimos da mani- e farinha, dita suruí, são levadas a cozi-
bitual.”
oca, com folhas tenras da mandioca. Nos nhar, com boa porção de folhas de vina-
A intensificação do tráfico de escra-
greira, cozidas à parte, antecipadamente.
vos naturalmente favoreceu e incentivou dialetos ganguelas é motombo e tcha-
Também é justo reconhecer-se que, des-
a troca de plantas alimentares da África muanga, que vale dizer “bom”, ensina sa combinação requintadíssima, resultou
para o Brasil e daqui para a África, no- Luís Figueira, em Raças e Tribos de An- o mérito do aludido prato regional, sem-
tadamente as do gênero Hibiscus, a vi- gola. Como se vê destas descrições, será pre acrescido se o consomem com a car-
nagreira (Hibiscus sabdariffa), o quiabo temerário dizer se a vinagreira é brasi- ne do peixe-pedra, peixe da família He-
de Angola, caruru da Guiné (Hibiscus leira ou africana. mulidae, estudado pelo ictiólogo brasilei-

1 Texto encaminhado pela CMF ao IPHAN, em 03/06/05, com pedido de registro do cuxá como patrimônio cultural imaterial brasileiro. Fotos de Margareth Figueiredo.
2 Zelinda Machado de Castro e Lima é pesquisadora e estudiosa da Cultura Popular, e autora de “Pecados da Gula, comeres e beberes da gente do Maranhão”.
3 Esparregado. Esparregar: Guisar ervas, cozendo-as bem, e depois de picadas, e espremidas, se tempera com molhos etc.
4 Araticum.
5 Idem.
4 Boletim 38 / agosto 2007

CONTINUAÇÃO
ro Alípio de Miranda Ribeiro. pão da terra em sua legitimidade funci- secos e enlatados. São muito procurados
A carne do peixe-pedra é delicada e sabo- onal”, unanimemente louvada por cro- os camarões do Maranhão. Entre nós são
rosa como a da pescadinha. nistas e visitantes, de Nóbrega e Anchi- classificados, conforme o tamanho, em
O prato “que acontece”, conforme expres- camarão-lagosta, camarão comum e ca-
eta, de Abbeville e Devreux a Marcgra-
são do acadêmico Odylo Costa Filho, não
ve a Thevet. Nem seria por outro motivo marão-piticaia, o menor. O camarão
pode ser comido, entretanto, pela gente
da Casa das Minas, durante o mês de que o botânico austríaco João Emanuel constitui, com o peixe frito e o cuxá, o
maio, por motivos seguramente ligados ao Pohl classificou-a como utilíssima. trio de ouro da culinária maranhense.
culto dos voduns mina-jejes. Entre a farinha e o beiju desenvol- O arroz completa o prato típico – o
O óleo que se extrai das sementes da plan- veu-se o que se poderia chamar de com- arroz de cuxá. Do árabe Ar-ruzz, é grão
ta gergelim dá ao peixe frito um sabor que plexo da mandioca, pois se a primeira produzido pela gramínea de igual nome,
não se pode obter mesmo com os melho- representa o pão da terra, complemen- nativa da África, Índia e Indochina. Na
res azeites de Portugal e Espanha. América havia o arroz vermelho, em es-
to indispensável de todas as comidas, o
Produto da indústria doméstica da gente tado silvestre, e no Maranhão, esse ar-
maranhense, já não é, porém, encontrado outro fornece a matéria prima das bebi-
das, além de garantir a sobrevivência nas roz vermelho, ou de Veneza, segundo Je-
facilmente nos mercados de São Luís. rônimo Viveiros, alimentício e saboroso,
A João Cariolla Tierno devo a revelação longas jornadas de guerra, ou servir de
embora miúdo e quebradiço, foi de uso
de que, além de quatro ou cinco nomes oferenda generosa aos amigos de paz.
corrente por mais de um século. No en-
mais que lhe dão, o gergelim tem o de Outras modalidades, porém, apresenta
“alegria” e o de “sésamo” (PEREIRA, 1979, tanto, não agradou ao europeu, substitu-
a mandioca, como os mingaus e pirões,
p. 153-154). ído, enfim, pelo arroz branco, também
que seria desnecessário expor aqui, por
chamado arroz de Carolina. Tão apreci-
Do árabe jurgulan, é natural da Ín- enfadonho. Repitamos, apenas, para
ado era o arroz vermelho que foi preciso
dia, conhecido desde remota antiguida- encerrar o assunto, o ditado popular: proibir seu cultivo por meio de pregão
de, bastante disseminado pelo mundo e Com mulher e pirão, faz-se a função. público, ameaçando de cadeia, multa e
cultivado, principalmente, nos países in- trabalhos os que ousassem desobedecer.
tertropicais da Ásia, África e América.
É planta de 1 m de altura, ereta, robusta,
Provavelmente foi trazida da África pe-
folhas de ápice prolongado em ponta, e
los portugueses. Sesamum orientale, suas flores em espiguetas muito compridas; o
sementes pequenas, ovóides e achatadas, fruto é cariopse coriáceo. Espécie de ex-
brancas, amareladas ou escuras, segun- traordinária importância econômica, vem
do as variedades, comestíveis e medici- sendo cultivada há cerca de 5.000 anos.
nais, são usadas torradas, em pães, doces No Brasil sua cultura foi iniciada em me-
e salgados, e é o gergelim, que os árabes ados do século XVII, em Iguape, São Pau-
chama Simsim e os africanos Beni, que lo, e no séc. XVIII no Maranhão, registra
a Enciclopédia Mérito.
dá o sabor característico ao cuxá.
Mandioca: Daniel de La Touche, fun- Venda da camarão seco Feitas estas considerações, passemos
dador da cidade de São Luís, encontrou, ao cuxá. Para Câmara Cascudo é acepi-
provou e aprovou a mandioca e a farinha Camarão: Pequeno animal artrópo- pe tradicional do Maranhão e a quem o
de pau dos índios Tupinambás. E Jerôni- de, crustáceo da ordem dos Decápodes, ilustre folclorista Domingos Vieira Filho
mo de Albuquerque, que o expulsou do marinhos ou de água doce, da subordem forneceu uma receita para o preparo do
Maranhão, escreveu: “Somos homens que dos Macrurus e da família dos Peneíde- prato. Jacques Raimundo, em O Ele-
um punhado de farinha e um pedaço de os. Os camarões de água salgada brasi- mento Afro-negro na Língua Portugue-
cobra, quando as há, nos sustentam.” D. leiros são de três espécies: camarão-rosa, sa, assevera ser cuxá vocábulo da Guiné
José de Souza Coutinho, em 1797, reite- camarão-branco e camarão-de-areia, ou Superior. Matthias Röring Assunção
rava ao governador D. Antônio Fernando de sete-barbas. Os primeiros atingem o acha que o cuxá é
de Noronha a recomendação do Rei para comprimento de até 20 centímetros, sen-
que fosse facilitada e incentivada a cul- um possível legado mandinga, como su-
do os últimos bem menores, de apenas 7 geriu Antônio Carreira. Kutxá designa,
tura da mandioca, cuja farinha era já ou 8 cm. Um dos pescados de maior nesse idioma, o quiabo-de-Angola ou vi-
conhecida e apreciada em Portugal. importância comercial, consumido em nagreira (Hibiscus sabdariffa, Lin.), cujas
Planta leitosa da família das Eufor- grandes quantidades, frescos e salpresos, folhas verdes são usadas para um prato
biáceas, originária da América do Sul “de sabor acidulado, muito apreciado por
(Manihot utilíssima Pohl), cujas grossas quase todos os povos da Guiné. (Carreira,
raízes tuberosas, ricas em amido, têm As Companhias Pombalinas).
emprego na alimentação. Há duas espé- COMO SE FAZ:
cies de mandioca: mandioca amarga e A receita que, a seguir oferecemos, é
mandioca doce (macaxeira, aipim). Câ- de uma emérita quituteira, D. Aniceta,
mara Cascudo, em História da Alimen- de saudosa memória, tal qual nos trans-
tação no Brasil, denomina-a “A Rainha mitiu à viva voz:
do Brasil”, tão importante seu papel na
6 maços de vinagreira
alimentação do indígena, do português ½ kg de camarão seco (descascado)
colonizador e do escravo africano, “ali- ¼ kg de farinha seca
mento regular, obrigatório, indispensá- ¼ kg de gergelim
vel aos nativos e europeus recém-vindos, Detalhes do camarão seco
2 dentes de alho
Boletim 38 / agosto 2007 5

CONTINUAÇÃO

cebola, cheiro verde, pimenta de cheiro,


sal a gosto. Ora, qual clima! qual nada!
Torra-se o gergelim e soca-se no pilão, jun- É o mesmo quitute, creio;
tamente com o camarão, a farinha (se for Falta-lhe apenas o meio;
grossa deve ser peneirada), a cebola, o Nos seus domínios não está.
cheiro verde, a pimenta e o alho. No Maranhão preparado
Cozinha-se a vinagreira (sem os talos) se- Naturalmente acontece
paradamente e bate-se bem, depois de Que sendo o mesmo, parece
escorrer a água. Ser outro arroz de cuxá.
Com a mistura pilada faz-se um angu, no
fogo, e junta-se, por último, a vinagreira. Eu, quando o como, revejo
Servir com arroz branco à maranhense, Detalhe do prato de cuxá Entre a cheirosa fumaça,
peixe-frito, torta (fritada) de camarão... Visconde de Beaupaire Rohan, com mi- Passado que outra vez passa
nuciosa descrição. Com que eu não contava já;
Portanto não me perguntes...
Alvo de pesquisas de antropólogos e
Não me perguntes, amigo,
sociólogos, a exemplo de Câmara Cas- Se eu quero amanhã, contigo,
cudo, Nunes Pereira, Mathias Röhrig Comer arroz de cuxá.
Assunção e muitos outros; o cuxá carre- (...)
ga uma tradição secular afro-brasileira,
e tem sido louvado em prosa e verso, haja Portanto, o cuxá não é apenas um
vista o extenso e apaixonado poema que prato exótico da cozinha do Maranhão,
lhe dedicou Arthur Azevedo, e no qual, mas tem um significado que extrapola
do Rio de Janeiro, reivindicava, há mais sua importância culinária para tornar-
de século, a naturalidade maranhense se quase um estado de espírito, um bra-
Refeição de peixe frito com cuxá do cuxá, e do qual transcrevemos o se- são de cidadania da gente do Maranhão.
guinte trecho6 : E por estar, no presente, sofrendo
Do arroz à maranhense, Domingos
Perdigão dá a receita: crescente descaracterização, mesmo por
(...)
Porque –deixa que t’o diga – parte dos restaurantes que se dizem tí-
Estando a água a ferver, limpa-se o arroz Esse prato maranhense picos, urge a providência do registro que
pilado, tirando-lhe todas as impurezas; Ao Maranhão só pertence ora pleiteamos. Prato trabalhoso, requer,
lava-se bem em água limpa e deita-se na E n’outra parte não há. dos que se propõem a confeccioná-lo,
panela a ferver, onde se conserva ferven- Aqui fazem-no bem feito
do por mais cinco minutos, depois do que
cuidado e paciência, amor e dedicação,
(Negá-lo não há quem ouse);
se escoa a água; deixando uma pequena Mas... falta-lhe “quelque chose”;
para fazê-lo nos moldes tradicionais a
quantidade dela, põe-se novamente ao Não é arroz de cuxá. que deve obedecer. É preciso usar os in-
lume brando, cobrindo bem a panela e gredientes com maestria, pois o menor
deixa-se cozer até ficar seco e próprio para Pois aqui há bom quiabo deslize pode por a perder o prato.
servir. Este arroz, também conhecido como E bem bom camarão seco; “Quando dá certo, é de se comer de joe-
arroz branco, serve para se comer com qual- Há vinagreira sem peco;
lhos”, diz o Dr. Fernando Mascarenhas,
quer outro alimento, para se temperar com Bom gergelim também há!
E o prato aqui preparado, médico, em seu site na Internet.
caldo de legumes cozidos, ou com mantei-
ga, constituindo os saborosos pratos – ar- Do nosso mal se aproxima! Confiantes, pois amparados em todas
roz de legumes e arroz de manteiga. No Acaso também o clima as razões expostas, esperamos o atendi-
Maranhão, o arroz usa-se em todas as re- Influi no arroz de cuxá? mento deste nosso empenho.
feições. É o pão do maranhense.
BIBLIOGRAFIA
Este cuxá, prato típico do Maranhão
para o qual pleiteamos o registro como ASSUNÇÃO, Matthias Röring. Maranhão, terra de mandinga. In: AZEVEDO, Izaurina (Org.).
Olhar, memória e reflexões sobre a gente do Maranhão. São Luís: CMF, 2003.
bem cultural imaterial, porque não se
CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. Rio de Janeiro: Edições de Ouro,
trata tão somente de um acepipe comum 1949.
da culinária maranhense, é nosso retra- ————. História da alimentação no Brasil. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia, 1983.
to, nossa cara, nossa identidade, resultante DUAILIBE, Admée. A história da arte culinária. São Luís: s/e, 2004.
do caldeamento indígena, português e ————. Receitas deliciosas. São Luís: s/e e s/d.
africano nesta parte do Brasil, entre a INSTITUTO HOUAISS. Dicionário houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva,
2001.
Amazônia e o Nordeste, participante de
ENCICLOPÉDIA BRASILEIRA MÉRITO. São Paulo: Rio de Janeiro: Ed.Mérito, 1958.
ambos e deles tão diferente, “um corpo LIMA, Zelinda Machado de Castro e. Pecados da gula: comeres e beberes das gentes do
social e etnicamente à parte”, circunstân- Maranhão. São Luís: SBPC, 1998.
cia que se reflete em sua cozinha, nem ORICO, Osvaldo. Cozinha amazônica. Belém: Universidade do Pará, 1972.
nordestina, nem amazônica, o cuxá – PEREIRA, Manoel Nunes. A Casa das Minas: culto dos voduns jeje no Maranhão. 2. ed.
único no Brasil - carro-chefe de sua opu- Petrópolis: Vozes, 1979.
SOUTO MAIOR. Alimentação e folclore. Rio de Janeiro: FUNARTE/ Instituto do Folclore,
lenta culinária, e que já figurava, em 1889,
1988.
no Dicionário de Vocábulos Brasileiros do
6 Arthur Azevedo apud ORICO, Osvaldo. Cozinha amazônica. Belém: Universidade do Pará, 1972, p. 163-165.
6 Boletim 38 / agosto 2007

O cuxá na cultura maranhense e seu


registro como patrimônio cultural brasileiro7
Mundicarmo Ferretti8

A culinária é um dos aspectos mais


resistentes da cultura de um povo.
Enraizada nas condições naturais e elabora-
Até pelo menos meados do século XX o
cuxá era vendido com tainha frita e arroz
branco, principalmente por mulheres ne-
como a casa de dona Constância e de Seu
Augusto Aranha, na rua do Coqueiro, o que
tornou sua preparação mais rápida e fácil, já
da por gerações e gerações num processo gras, nas portas de suas casas ou em tabulei- que a vinagreira é encontrada em muitos
onde criação, tradição e adaptação andam ros armados nas praças e locais onde circula- quintais e, em São Luís, pode ser comprada
juntos, ela tem sido reproduzida por popu- vam muitas pessoas (OLIVEIRA, 1997, até em supermercados. Adicionando-se à
lações diversas e em regiões onde, às vezes, p.174). Fala-se que era também vendido por farinha de cuxá água, folhas de vinagreira
os seus ingredientes básicos não são conhe- meninos (“moleques”) e por homens adul- aferventadas e batidas no liquidificador, al-
cidos ou não podem ser produzidos. Um tos, que percorriam as ruas de São Luís car- guns temperos e levando-se essa mistura ao
exemplo desse processo de difusão e adapta- regando sobre a cabeça panelas com aquela fogo até engrossar, qualquer um pode prepa-
ção é a denominada comida baiana, de ma- comida e seus acompanhamentos básicos: rar, em pouco tempo, um bom cuxá.
triz africana (acarajé, caruru, vatapá etc), in- peixe frito (tainha e depois serra, peixe pe- Hoje o cuxá é indispensável nas barracas
timamente associada ao culto a divindades dra, pescada) e arroz branco, e apregoando de comida típica da temporada junina, das
africanas, que, há muito, entrou no cotidia- “arroz de cuxá”. feiras dos estados e os maranhenses que re-
no dos brasileiros e tornou-se nacional. Preparado com produtos abundantes na sidem fora, quando voltam à terra natal, são
Em sociedades pluriculturais ou marca- região - farinha de mandioca, socada no pi- recepcionados por parentes e amigos com
das por grandes desigualdades sócio-econô- lão com gergelim torrado, camarão seco, pi- um cuxá com peixe frito, torta (fritada) de
micas uma comida típica de um segmento menta de cheiro e folhas de vinagreira afer- camarão e arroz branco. É curioso que fora
populacional pode vir a ser apropriada por ventadas e batidas - o cuxá era e continua do Maranhão e das reuniões de maranhen-
outro. Assim, iguarias de populações subal- sendo muito apreciado pelos maranhenses ses não se costuma comer cuxá, nem mesmo
ternas podem chegar à mesa das elites e vice- e adequado ao poder aquisitivo da maioria no Piauí e no Pará - estados vizinhos, daí
versa. No Brasil é bem conhecido o caso da da população de São Luís e de outros muni- porque ele se transformou em símbolo da
“ascensão social” da feijoada que, há muito, cípios. Alguns cuxás, como os que tinham cultura maranhense e em instrumento de
deixou de ser “comida de pobre”, produzida fama de serem muito asseados ou prepara- afirmação da identidade dos nascidos na-
com feijão e partes da carne de porco não dos por detentoras de segredos culinários quele estado.
apreciada pelos ricos (rabo, orelha, pé etc.) nunca repassados, eram mais procurados. Embora existam nas culinárias africana
para, após passar por um processo de enri- Uns levavam também quiabo, que era bati- e brasileira várias comidas que lembram o
quecimento e sofisticação, com a introdu- do junto com a vinagreira; outros eram tem- cuxá do Maranhão nos seus ingredientes ou
ção de ingredientes caros e acompanhamen- perados com alho, cebola e cheiro verde; e na sua preparação, como: a matapa dos tson-
tos novos, tornar-se um prato apreciado pe- muitos passaram a ter mais um acompanha- ga, do Sul de Moçambique - preparada com
las elites e classes sociais altas e apresentado mento, a torta de camarão (uma espécie de folha de mandioca e amendoim cru socados
como “cartão postal” do Brasil. fritada), hoje quase obrigatório. Quando no pilão com camarão seco, cozida com pou-
O cuxá, comida típica maranhense, é um destinado à alimentação cotidiana de famí- ca água, e servida com pirão de farinha de
angu de farinha de mandioca (produto indí- lias de baixa renda, o cuxá pode ter uma milho, que substituiu o sorgo após a coloni-
gena) com folhas de vinagreira (Hibiscus Sa- preparação mais rápida e ser feito com in- zação9 ; o efó (guisado de folhas de língua-
bdariffa L.) - também conhecida como aze- gredientes. Alguns são feitos socando no de-vaca ou taioba com camarão seco, sal, pi-
dinha, quiabo-de-Angola e denominada ku- pilão todos os ingredientes de uma só vez; menta e dendê), típico da Bahia (PESSOA
txá na África, entre os mandinga (ASSUN- outros, tal como também acontece em São DE CASTRO, 2002, p.226); o bobó (de jon-
ÇÃO, 2003, p. 63) -, temperado com gerge- Luís com o vatapá, aproveitando as cabe- gomo, vinagreira e quiabo), e o esparregado
lim torrado (muito usado por negros islami- ças e cascas de camarão seco utilizado em (batido de folhas de vinagreira e jongomes
zados – mandingas, auças), camarão seco (de- outros pratos ou substituindo-o por uma com ovo) da cozinha maranhenses, o cuxá
nominado poti no Maranhão do século porção de farinha (ou farelo) de camarão, tem sua especificidade.
XVII (LISBOA, 1998, p. 24), pimenta de vendida nos mercados, preparada com o que A constatação da presença tradicional do
cheiro, sal, cheiro verde, alho e cebola (esses é desprezado, quando ele é descascado para cuxá apenas no Maranhão e de sua difusão
últimos difundidos no Brasil pelos portu- ser vendido. atrelada à migração de maranhenses tem le-
gueses). Com o crescimento urbano e a maior di- vado a especulações em relação à sua origem
Recebeu influência das culinárias indí- versificação da população de São Luís, o cuxá e a da população daquele estado. Conside-
gena e portuguesa, mas surgiu com a forma deixou de ser vendido em tabuleiros nas por- rando os seus ingredientes básicos, pode se
que tem hoje na cozinha de populações ne- tas das casas, nas praças e nas ruas, a não ser afirmar que o cuxá é negro, branco e cabo-
gras de baixa renda (ver NUNES PEREIRA, na temporada junina, mas continuou a ser clo como o povo do maranhense. Mas, le-
1979, p. 42, 153), mas há muito tempo tor- consumido pelas famílias maranhenses, prin- vando em conta sua vinculação maior à po-
nou-se tradicional no Maranhão, entrando cipalmente na Semana Santa, e a ser prepa- pulação negra, tanto no passado como na
na mesa das famílias mais ricas, como regis- rado em restaurantes especializados em co- atualidade, pode se dizer que o cuxá é uma
trou Astolfo Serra (1965, p. 187), e hoje faz midas típicas, muito procurados por turis- produção cultural da população afro-brasi-
parte do menu de restaurantes turísticos de tas. Tornaram-se também conhecidos em leira do Maranhão, que vem sendo cada vez
São Luís, como vem sendo lembrado por São Luís alguns pontos de venda de “fari- mais assimilada pela sociedade maranhense
Zelinda Lima (LIMA, 1998). nha de cuxá” (com camarão seco e gergelim), mais ampla e já se transformou em símbolo

7 Baseado em justificativa antropológica elaborada em 11/2005 para o pedido de registro co cuxá como bem cultural brasileiro, apresentado ao IPHAN, pela CMF.
8 Dra. em Antropologia; membro da CMF.
9 Informação da pesquisadora Zelinda Lima.
Boletim 38 / agosto 2007 7

CONTINUAÇÃO

daquele estado. O cuxá foi e continua sen-


do uma prática cultural enraizada no cotidi- ANEXO: Cuxá - depoimentos
ano maranhense, uma forma de sociabilida- Vendido na porta toda noite pera ai criança que eu vou fazer depressinha
de reiterada em festas e celebrações (Sema- Na minha casa, que me criei se vendia (...) um cuxázinho pra nós". Pegava no quintal
A velha fazia pra vender o peixe frito com, umas folhas de vinagreira, torrava o gergelim,
na Santa, temporada junina), e uma prática
arroz de cuxá na panela de barro. Botava na socava no pilão com farinha e camarão, tudo
coletiva enraizada no cotidiano de grupos porta, tinha um cofo, fazia assim como um junto. Depois botava no fogo com água até
sociais, especialmente da população negra, ninho, sentava a panela ali dentro (...) Cada ficar como um angú... Ficava muito gostoso.
construída nos processos de sobrevivência, qual fazia seu ponto. Ainda faziam isso: agar- Não botava pimenta porque era para criança.
através de apropriação e transformação dos rava um pau, fazia um quadrado e botava um (Domingas, nasc. em 1958 - Bequimão).
recursos naturais e de criação e adaptação papel encarnado e colocava na porta. Aí já
sabia que ali tinha arroz de cuxá com peixe Arroz de cuxá - cuxá com arroz
de tradições culturais. O arroz de cuxá que era vendido por ne-
Por reconhecê-lo como um saber herda- frito (...) todas as noites (...). E tinham vária
mulheres que vendiam peixe (...) alí na Praia gros na porta de casas e pelas ruas de São
do de antepassados que marca a identidade Luís, nas primeiras décadas do século XX,
do Caju (...) quem eu encontrei aqui no Mara-
cultural dos maranhenses, que deve ser pre- nhão vendendo peixe era mulher, não era ho- não era um risoto, como o que é servido atual-
servado e que merece ser reconhecido como mem. Os pescadores traziam e as mulheres mente em alguns restaurantes, mas uma co-
elemento formador da diversidade cultural vendiam... (Lúcia Oliveira/C. Nagô, 102 anos mida servida com arroz e comida com tainha
brasileira, a Comissão Maranhense de Fol- - São Luís; Memória de velhos, v. I, p.174) frita. Nos anos 70, o restaurante "Frango de
clore considera importante o seu registro Ouro" fazia um arroz de vinagreira com cama-
Vendido na rua por pretas velhas rão muito gostoso, denominado "arroz de bati-
pelo IPHAN como bem cultural imaterial. Tinha as velhas doceiras, eram umas pre- puru". Não sei se já era conhecido em alguma
tas que vendiam doces nas esquinas, a noite região do estado. Era um acompanhamento,
REFERÊNCIAS (...). Tinha as vendedeiras de mocororó (...) as como o "arroz de cuxá" que é servido hoje em
de peixe (...). Teve também a época que ven- vários restaurantes (Mundicarmo - São Luís).
ASSUNÇÃO, Matthias Rohrig. Mara- dia peixe frito e arroz de cuxá nas portas e
muitas famílias deixavam de fazer o jantar para Farinha de cuxá
nhão, terra de mandinga. In: NUNES, Eu e minha mãe tivemos a idéia de fazer
mandar comprar (...). O peixe frito, o que indi-
Izaurina de A. Olhar, memória e refle- farinha de cuxá para vender já na década de
cava, era uma lanterna com um papel verme-
xões sobre a gente do Maranhão. São lho, era uma lanterna vermelha, aí sabiam, ali 1990, para facilitar a preparação e perpetuar
Luís: CMF, 2003, p. 57-63. tem peixe frito. Agora o arroz de cuxá, então esse prato da culinária maranhense, porque
CUXÁ – prato típico tradicional do era gritado. O grito era esse, eu gritei muitas no cuxá é o mais difícil e trabalhoso. Botamos
Maranhão. Vídeo Documentário. Dire- vezes: "Arroz de cuxá! Chega freguês, ta quen- uma placa na porta, copiamos a receita para
tinho!" Aí vinham, traziam os pratos e a gente distribuir aos interessados e as pessoas come-
ção Cícero Silva. São Luís: CMF, 2006.
botava (Augusto Aranha, nasc. 1907 - São çaram a comprar os pacotes de 250gr, 500gr...
16´. Tinha gente que comprava sempre para man-
O CUXÁ. Vídeo Documentário. São Luís; Memória de velhos, v. II, p.177-178).
dar para maranhenses que moravam fora do
Luís: SESC-MA, 2007. Play-Video Pro- Vinagreira também é cuxá estado, como Sonia Duailibe, em Brasília... Na
duções. Cuxá em algumas regiões do Maranhão é Quaresma a procura aumentava muito. Nun-
LIMA, Zelinda M. de Castro e. Pecados a erva (vinagreira); cuxá é também o batido ca vendemos para restaurante. A nossa fari-
da gula: comeres e beberes das gentes do das folhas junto com quiabo ou jongome. Cuxá nha de Cuxá é feita no pilão com: farinha seca
em São Luís é um prato, uma espécie de angu mimosa, camarão seco, gergelim torrado. De-
Maranhão. 2 v., SÃO Luís: CBPC, 1998.
e que tem (...) farinha de mandioca, camarão, pois é só juntar um batido de folhas de vina-
MEDEIROS, Augusto Aranha. Depoi- gergelim torrado e socado (...). A minha avó, que greira do talo roxo com parte da água em que
mento. In: Memória de Velhos, V. 2. De- era filha de escrava, já fazia. (...) Nós quando foi cozida, e levar ao fogo para engrossar. Não
poimentos – uma contribuição à memó- nascemos já encontramos a tradição de se co- precisava botar essa farinha no freezer, ela
ria oral da cultura popular maranhense. mer cuxá na nossa família. (...). Se fazia durante deve durar pelo menos um mês. Nunca fiquei
São Luís: SECMA, 1997 (p. 177-178). a Semana Santa pra comer com peixe frito e a muito tempo com ela porque sai muito. Uma
OLIVEIRA, Maria Lúcia de. Depoi- minha mãe (de 1920) conta que passava à noite vez fizemos um panelão e saiu tudo... Em
um senhor chamado Dijalma Grande - era um Bacabal cuxá é o nome da vinagreira. As fo-
mento. In: Memória de Velhos, V. 1. De-
negro alto - com taboleiro, vendendo, e ele grita- lhas mais tenras são as melhores. (Nizeth
poimentos – uma contribuição à memó- Medeiros - São Luís, 2007).
va "tem arroz de cuxá". (..) Nesse taboleiro trazia
ria oral da cultura popular maranhense. um caldeirão com arroz, um caldeirão com cuxá,
São Luís: SECMA, 1997 (p. 165). Comida de todo dia
e tainha frita. E ele, pra chamar os fregueses,
LISBOA, Frei Cristóvão de. História Quando cheguei aqui em São Luís ate
apregoava: "tem arroz de cuxá e tainha frita".
estranhei. Em Codó todo quintal tem vina-
dos animais e árvores do Maranhão. 3ª (Mundinha Araújo - São Luís - Vídeo CMF:
greira e cuxá é comida de todo dia... (Paulo
ed., São Luís: ALUMAR, 1998. (Docu- Cuxá, prato típico tradicional do Maranhão). Jeferson - Codó, 2007).
mentos maranhenses-2).
Cuxá na Madre Deus Pedido de registro do Cuxá
NUNES PEREIRA, Manoel. A Casa das Dona Maria (de 1927) conta que perdeu o
Minas: contribuição ao estudo das so- Em São Luís não existe um maranhese
pai aos 10 anos e a mãe dela, que cozinhava que não conheça ou que não tenha apreciado
brevivências do culto dos voduns do muito bem e que era acostumada a comer cuxá um cuxá. Nesse sentido, a Comissão mara-
Panteão daomeano no estado do Mara- em Guimarães, onde nasceu, como alternativa nhense de Folclore fez um pedido de registro
nhão. 2ª ed., Petrópolis: Vozes, 1979. de sobrevivência, passou um tempo fazendo (do cuxá) como patrimônio imaterial nacional
PESSOA DE CASTRO, Yeda. Falares cuxá para vender na Madre Deus (1937?), e principalmente objetivando dois motivos: pri-
africanos na Bahia : um vocabulário que ela (dona Maria), como já era alfabetizada, meiro para que o cuxá, que é a cara do mara-
afro-brasileiro. Rio de Janeiro: Academia tomava conta do dinheiro. Conta também que nhense, seja conhecido nacionalmente como
em Codó, onde morou depois de casada, cuxá uma identidade do nosso estado; o segundo
Brasileira de Letras/ TOPBOOKS,
era o que ela conhecia como bobó - batido de motivo é o processo de descaracterização que
2001. vinagreira, jongomo etc. (Jacira - São Luís). alguns restaurantes típicos da cidade tem fei-
SERRA, Astolfo. Guia Histórico e Sen- Cuxá para criança to na manipulação da confecção desse alimen-
timental de São Luís do Maranhão. Rio Minha mãe só ia pra roça levando todas as to tão maranhense (Margateth Figueiredo -
de Janeiro: Civilizações Brasileiras, 1965. crianças e, às vezes, quando voltava, dizia "es- São Luís; Vídeo SESC-MA: O Cuxá,2007).
8 Boletim 38 / agosto 2007

A CULTURA LOCAL ATRAVÉS DO ARTESANATO


CULTURA POPULAR OU FOLCLORE: ARTE OU ARTESANATO?
Francisca Ester de Sá Marques10

ARTE OU ARTESANATO? do cultural e a leitura que o autor quer passar dual, ele é sempre tomado pelo coletivo em fun-
de sua obra. ção das significações e ressignificações que são
Pensar o artesanato como uma produção ar- Diferentemente da produção industrial ca- estabelecidas pela dinâmica da cultura.
tística significa pensá-lo a partir de matrizes te- racterizada pela estandardização, serialização, Nesta transmutação produtiva, o que era
óricas diferentes das tradicionais que, ao longo desidentificação e desumanização, a produção autêntico – inspiração, duração material e tes-
dos séculos, separaram a arte do artesanato artesanal é ainda hoje uma criação pessoal, ca- temunho histórico do objeto-, esforço concen-
como dois campos diferentes do saber: um for- racterizada pela repetição elaborada do mesmo trado de um momento único e intransferível,
mal e outro informal. Deste modo, a ultrapassa- produto que funciona como fonte de inspira- torna-se vulgar pela funcionalização e pelo ano-
gem teórica que proponho permite repor o diá- ção contínua e incessante. Deste ponto de vis- nimato, torna-se mais um no consumo da expe-
logo a partir de critérios mínimos que possam ta, enquanto a reprodução industrial desclassi- riência genérica da vida. É isso que torna a re-
responder ao questionamento principal deste fica o produto por retirar-lhe a aura que o confi- petição meticulosa do artesanato, ao mesmo
debate e que interessa a todos os presentes: o gura como único e específico dentro de um tempo, a sua morte momentânea e a sua vida
artesanato é arte? Se é arte, de que ela é com- universo maior de objetos tornando-o sem me- recomeçada pelo esforço renovado de recupe-
posta? Como se caracteriza? O que a diferencia mória, a reprodução artesanal garante a auten- ração da aura perdida ou mesmo do afeto des-
das outras artes? ticidade do objeto desde que a cópia seja uma prendido, já que segundo a artesã Marliete Ro-
Podemos inicialmente começar por dizer reelaboração permanente do original com vista drigues da Silva do Alto do Mouro (PE), área de
que o artesanato é uma arte utilitária, com um à sua perfeição. produção do Mestre Vitalino:
caráter funcional ritualístico ou não, um saber- Isto significa que a criação artesanal envol-
“No começo, inclusive, quando eu fazia uma
fazer que, através da elaboração meticulosa- ve integralmente as duas dimensões da cultura
cena, eu não conseguia vender, porque ficava
mente repetida, pretende chegar à perfeição (a material e a simbólica) porque a sua estética com pena. Não queria entregar para as pesso-
estética manual da forma e do conteúdo. Por funcionalista reflete de algum modo o processo as que compravam, porque eu tenho muito
isso, o artesão é um criador coletivo que soma artístico que a gerou e o caráter devocional que carinho pelas coisas que faço e fico com pena
ao seu processo de criação, tanto a sua inspira- a sustentou como fonte de inspiração. Assim, de ver meu trabalho indo embora. Mas isto
ção artística, fonte de sua capacidade de per- por exemplo, uma imagem de São Francisco de também tem um lado bom, que é ver nossa
cepção do mundo, quanto à experiência cotidi- Assis ou um pandeirão do boi de zabumba jun- peça sendo levada e guardada por pessoas que
também gostam das coisas que a gente faz.
ana adquirida através da tradição, isto é, do sa- tam, no mesmo olhar, o uso e a devoção, isto é,
Por isto, também não tenho interesse em fa-
ber passado através dos tempos e sempre (re) a função e a fruição. Nestes dois objetos, o sa- zer as peças em grande quantidade para as
atualizado pela prática do fazer repetido. ber do artista se confunde com o fazer do arte- lojas, porque minha produção é toda feita com
Sendo assim, o artesão vale pela sua eficá- são e, deste modo, por mais que o pandeirão amor para ser conservada”.
cia no trabalho, vale pela dedicação com que seja semelhante a tantos outros modelos que
elabora sempre e sempre a sua obra, numa re- circulam na cultura, sempre há algum vestígio É nesta busca incessante entre o mesmo e o
petição metódica cuja criação permite não so- da criação única e específica que o gerou, seja diferente que o artesanato mantém-se no mun-
mente o aprofundamento da técnica, mas o seu pela curtição diferenciada do couro, seja pela do criativo do folclore de onde retira a sua pere-
aprimoramento até chegar ao que chamamos emoção do artesão no momento da produção, nidade, credibilidade e sustentação e onde se
de savoir-faire específico, distinto. Por sua vez, seja pelo processo com que esse objeto chega nutre de inspiração sagrada e, no mundo da
o artista vale pelo seu poder de renovação e ao público. cultura popular, por onde circula como parte de
invenção, já que trabalha o tempo todo sob a O artesão vale pela sua capacidade de pro- um processo mais amplo de trocas simbólicas
pressão da genialidade e da criatividade, em duzir não somente o objeto, mas as técnicas com as outras áreas artísticas, com outros obje-
função da exigência de uma estética simbólica que permitem a produção, num processo per- tos que fazem parte do mundo da cultura. Com
do novo, do inédito, do autêntico, do único e manente de superação de dificuldades. A cada o folclore, o artesanato sustenta uma relação de
indivisível capaz de ultrapassar tempos, espa- vez que um objeto é reproduzido artesanalmen- continuidade da tradição no tempo pretérito/
ços, escolas, tendências e modelos. te todo o processo de criação recomeça num presente, gerando através da transmissão do
Neste caso, o artesão tem mais liberdade no ciclo interminável de vida e de morte que exige conhecimento artesanal uma memória lúdica,
seu processo de criação porque trabalha ao mes- um permanente esquecimento/naturalização permanente, uma espécie de fio de Ariadne que
mo tempo com a experimentação e com a expe- do saber-fazer, mas, ao mesmo tempo, uma aten- mantém viva a história dos seus produtores e
riência, isto é, com o mesmo e com o diferente, ção constante para que a técnica e os proble- dos seus objetos. Com a cultura popular, o arte-
capaz de suportar portanto todas as possibili- mas que a envolvem sejam solucionados para
sanato legitima o seu papel de produtor, a partir
dades criativas, enquanto o artista trabalha com melhorar as condições de trabalho (produção,
da lógica de consumo e de circulação de obje-
o bom senso, o racional a partir de uma linha de comercialização e circulação).
tos no mundo globalizado.
raciocínio que pressupõe uma leitura das con- Isto quer dizer que o processo de criação é
dições de produção e do mercado. Nesta mes- também um processo de aperfeiçoamento, cujo Com o folclore, o artesanato pereniza-se
ma lógica, o artesão trabalha com as regras do planejamento depende das circunstâncias do como fonte permanente de conhecimento e ins-
senso comum, com o que é plausível, verossí- momento que podem ser sazonais ou não, dos piração. Com a cultura popular, amplia-se para
mil, ou seja, com uma espécie de virtude co- custos de produção, da sua função ritualística, fazer-se visível, volúvel, mutável e circunstan-
mum que junta a todos no mesmo gosto e na dos materiais utilizados, da capacidade de re- cial. Sendo arte e técnica ao mesmo tempo, ul-
mesma estética para além e para aquém do mer- cepção dos objetos na cultura e também da ma- trapassa antigas rivalidades com outros conhe-
cado. Ao contrário, o artista elabora a sua obra a leabilidade com que esses objetos são refuncio- cimentos e mantêm-se vivo e cada dia mais di-
partir de uma estética própria e de um gosto nalizados na vida cotidiana. Portanto, por mais nâmico como parte do patrimônio material da
individual que leva em consideração o merca- que o processo de criação artesanal seja indivi- humanidade.

10 Professora da UFMA: Graduada e pós-graduada em Comunicação; diretora do SESC-MA; membro da CMF.


Boletim 38 / agosto 2007 9

Karoliny Diniz Carvalho11

A terminologia patrimônio, derivada


do latim patrimonium, esteve asso-
ciada primordialmente à herança familiar,
sociais o sentimento de pertença a uma so-
ciedade, por conseguinte, de territorializa-
ção.
TURISMO E PATRIMÔNIO CULTURAL

Remata-se que o Patrimônio Cultural, O arrolamento evidenciado entre Turis-


ao colecionamento e à propriedade de bens
evocativo das memórias coletivas, constitui- mo e Patrimônio Cultural é por vezes carac-
materiais. Decorre dessa concepção a deno-
se ainda símbolo da historicidade constituí- terizado por sua complexidade e ambigüida-
minação de patrimônio histórico que englo- de, no que concerne aos efeitos benéficos e
bava prédios, museus, centros culturais, e da e reconstruída permanentemente pelos
grupos sociais - face à aceleração do tempo nefastos decorrentes do processo de visita-
demais artefatos materiais depositários da ção. As relações decorrentes entre Patrimô-
ancestralidade e da essencialidade dos gru- histórico e às vicissitudes humanas - e da
identidade coletivas, posto que memória e nio Cultural e Turismo podem ser elucidati-
pos sociais e, portanto, suscetíveis de salva- vas em termos de resgate da memória coleti-
guarda. Conforme Camargo (2002, p. 95), identidade são esferas que se co-determinam
e se engendram reciprocamente. Nas pala- va, de contribuições para a emergência de
patrimônio no conceito clássico designa práticas de restauração e preservação na
vras de Le Goff (1996, p. 476, grifo do au-
“bens culturais ou monumentos de excepci- medida em que, resgatando a memória e iden-
tor).
onal valor histórico e artístico nacional (...) tidade coletivas por meio da visitação, essa
traçado urbano, Centros Históricos, cida- a memória é um elemento essencial do que se atividade contribui para o ingresso de par-
des Históricas e monumentos isolados”. costuma chamar identidade, individual ou celas significativas da população local e dos
coletiva, cuja busca é uma das atividades fun-
Durante o processo de formação dos Es- órgãos públicos e privados em iniciativas ca-
damentais dos indivíduos e das sociedades de
tados Nacionais, essa denominação confun- hoje, na febre e na angústia. pazes de garantir a salvaguarda e a integrali-
diu-se com a própria noção de identidade dade dos bens culturais, bem como de sua
nacional, sendo o patrimônio histórico o Pode-se constatar a busca pelo restabele- integração à vida contemporânea.
referencial para a compreensão dos fatos cimento do equilíbrio identitário, por exem- Por outro lado, a excessiva comercializa-
históricos e sociais, e considerado portador plo, nas estratégias de restauração e revitali- ção da memória e do patrimônio em prol da
de uma memória e de uma identidade cole- zação de acervos arquitetônicos - presentes captação de fluxos turísticos, pode impedir
tivas, adquirindo, por conseguinte, uma in- nos núcleos urbanos iniciais de diversas ci- que a comunidade receptora o perceba
tensa conotação política. dades históricas. Seu objetivo consiste no como parte integrante do seu convívio soci-
Entretanto, as asseverações relativas ao resgate e na salvaguarda de um passado his- al, atribuindo-lhe um caráter eminentemen-
patrimônio histórico edificado foram revi- tórico instituído e impresso sob o signo da te econômico. Nesse caso,
sitadas em meados dos séculos XIX e XX, autenticidade. Para Baudrillard (1993), o
os monumentos e o patrimônio histórico ad-
sendo substituídas por uma noção mais objeto antigo reveste-se de uma aura que quirem dupla função - obras que propiciam
abrangente – a de Patrimônio Cultural. Esta remete aos indivíduos o valor da transcen- saber e prazer, postas à disposição de todos;
passa a contemplar, além dos artefatos mate- dência, nesse caso, os monumentos são apre- mas também produtos culturais, fabricados,
endidos como portadores de uma ancestra- empacotados e distribuídos para serem con-
riais, o meio ambiental e os elementos origi- sumidos (CHOAY, 2001, p.211).
nários da cultura intangível ou imaterial que lidade, e das origens míticas dos preceden-
compunham e particularizam as diferentes tes. Daí advém o apelo adjunto que o Patri- Nesse sentido, perde-se a noção de con-
sociedades. Nesse contexto, torna-se interes- mônio Cultural exerce, enquanto esfera to- tinuidade sócio-cultural dos bens culturais,
sante explicitar a noção contemporânea de talizadora e reveladora deste passado. uma vez que estes são vistos como necessá-
Patrimônio Cultural, dada por Pelegrini Fi- As cidades cuja evolução social urbana e rios exclusivamente para a fruição turística
lho (1997, p.94). cultural apresentam-se materializadas em ar- de uma localidade.
tefatos possuem um grau elevado de recep- Torna-se compreensível que a herança so-
Modernamente se compreende por patrimô- tividade para o Turismo, especificamente o cialmente arregimentada serve, em alguns
nio cultural todo e qualquer artefato humano
destinado à esfera cultural. O Turismo Cul- casos, para fins de significação local, e em
que, tendo um forte componente simbólico,
seja de algum modo representativo da coleti- tural, ou no dizer de alguns autores, Turis- outros, consubstancia-se numa estratégia de
vidade, da região, da época específica, permi- mo Urbano ou Turismo Histórico, pode ser homogeneização cultural, no intuito de ga-
tindo melhor compreender-se o processo his- definido como sendo a prática de turismo rantir o revide financeiro e econômico de-
tórico. condicionada aos atrativos originários da correntes da especulação imobiliária, e da
Originário das construções sociais e sím- cultura material - museus, conjuntos arqui- gentrificação ou nobilitação dos sítios ur-
bolo da historicidade construída permanen- tetônicos, igrejas e demais edificações, e banos através de sua inclusão no Turismo
temente pelos diferentes grupos sociais, o imaterial, resultante das singularidades co- Cultural.
patrimônio arquitetônico e urbanístico tidianas e dos modos de vida de um povo - as Dessa forma, como símbolo, o patrimônio
constitui-se testemunho ou indício das ex- danças e folguedos populares, os rituais de permite várias leituras de seu significado: para
periências coletivas, portanto, evocativo das passagem, as festas sagradas e profanas, a gas- o poder oficial, representa a história e a me-
memórias individual e coletiva; no que tan- tronomia, dentre outros. O objetivo funda- mória da nação [...] acrescentando-lhe o valor
de capital [...] e, para os moradores, significa
ge a construção de elementos identitários mental desse Turismo consiste em permitir
uma memória construída para ser agenciada
entre os membros de uma determinada rea- um intercâmbio cultural e, conseqüente- para o turismo – eles reconhecem a prática
lidade social, os artefatos materiais aludem mente, acrescer o nível de compreensão en- preservacionista, mas não se julgam alvo dela.
às reminiscências que conferem aos grupos tre membros de diferentes culturas. (LÓPES, 2001, p.80).

11 Professora da UFMA: Graduada e pós-graduada em Comunicação; diretora do SESC-MA; membro da CMF.


10 Boletim 38 / agosto 2007

CONTINUAÇÃO

O resultado desses artifícios consiste na de propor um crescente interacionismo en- sibilitando a emergência de memórias diver-
própria transgressão aos bens patrimoniais, tre estes e os turistas que visitam a região. sificadas, nas quais se possam arrolar varia-
com a substituição de seu significado histó- das leituras e interpretações dos bens cultu-
Para as cidades preservadas, faz-se necessário
rico e cultural, e de um crescente processo que a comunidade se (re) aproprie de seus va- rais, passíveis de serem amalgamadas à ativi-
de cenarização do Patrimônio Cultural. Tra- lores culturais, preparando-os para conforma- dade turística.
ta-se, na visão de Motta (2000), de um mode- rem à oferta turística. O conhecimento da Entendemos que a comunidade local deve
lo globalizado de intervenção e tratamento história, o entendimento do significado dos participar do processo de amalgamação dos
lugares e a sua correta interpretação contribu- recursos culturais para o turismo, contribuir
do patrimônio urbano, no qual os projetos em para a garantia da preservação do lugar (...)
urbanísticos seguem a perspectiva de mer- para a disseminação de sua memória e para a
Se o turismo sobrepuser-se à cultura local e
cado de consumo serializado, como nos exem- fizer com que esta cultura se descaracterize, revitalização dos espaços urbanos testemu-
plificam a ressemantização empreendida nos ele fará por extinguir a própria razão de ser nhos de sua história. Nesse âmbito a cidade
bairros Pelourinho e Recife Antigo nos es- naquele lugar. (SIMÃO, 2006.p.97). será vista “como construção histórico-cultu-
ral, como patrimônio de seus moradores,
tados de Bahia e Pernambuco,
como espaço de memória” (MENESES, 2004,
respectivamente.(BARBOSA, 2001). Partindo-se desse princípio, Murta (1995)
p.86), e, por conseguinte, de identidade.
O processo de revitalização desses sítios salienta que a emergência de um novo dire-
urbanos para o Turismo ocasionou uma per- cionamento para o uso racional do Patrimô-
da dos laços afetivos e dos referenciais sim- nio resulta de um processo de interpreta- REFERÊNCIAS
bólicos entre a comunidade local e os ambi- ção, o qual consiste em “adicionar valor à
BARBOSA, Yacrim. O despertar do Tu-
entes requalificados. No que concerne ao experiência de um lugar por meio da provi-
rismo: um olhar crítico sobre os não-luga-
imperativo de inserir a comunidade nos me- são de informações e representações que
res. São Paulo: Aleph, 2001.
canismos de gerenciamento dos bens patri- realcem sua história e suas características
BARRETO, Margarita. Turismo e legado
moniais, a desterritorialização cultural inci- culturais e ambientais”, ou seja, maximizar
cultural: as possibilidades do planejamen-
de-se nas práticas de preservação impetra- as potencialidades do meio-ambiente natu-
to. São Paulo: Papirus, 2000.
das ao patrimônio edificado pelos residen- ral e cultural, através de uma metodologia
BAUDRILLARD, Jean A sociedade de
tes. O convívio com as novas paisagens ur- que identifique os atrativos e sua importân-
consumo. Rio de Janeiro: ed. Elfos, 1995.
banas provoca um estranhamento e o não cia, estabeleça relações entre os fatos histó-
reconhecimento destes espaços enquanto ricos que os circunscrevem e a sociedade
CAMARGO, Haroldo Leitão. Patrimônio
referenciais de memória e identidade para atual, bem como forneça aos visitantes uma
Histórico e Cultural. São Paulo: Aleph,
comunidade local experiência particular, agregando valor às ca-
2002.
racterísticas e peculiaridades da cultura, me-
CHOAY, Françoise. Alegoria do Patrimô-
INTERPRETANDO MEMÓRIAS NA diante uma proposta didático-pedagógica
nio. São Paulo: UNESP, 2001.
que permita o estabelecimento de um vín-
CONSTRUÇÃO DOS ATRATIVOS TURÍSTICOS FREIRE, Doia; PEREIRA, Lígia Leite.
culo estreito entre o Patrimônio e os mora-
História Oral, Memória e Turismo Cul-
A partir disso, as ações direcionadas para dores, e conseqüentemente entre este e os
tural. In: MURTA, Stela Maris. Interpre-
a viabilização técnica e financeira do Patri- turistas.
tação do Patrimônio para um turismo sus-
mônio Cultural, notadamente o que corres- Isso pode se exeqüível através de técnicas
tentado: um guia. Belo Horizonte: Terri-
ponde aos monumentos arquitetônicos ou diversificadas, tais como trilhas interpretati-
tório Brasilis, 1995.
edificados, devem abranger uma nova con- vas naturais e ambientais, site museus, ence-
LE GOFF, Jacques. História e Memória.
ceptualização dos bens culturais, a qual se nações com guias locais, e outras tecnologias, Campinas: Unicamp, 1996.
refere à necessidade de inseri-los dentro da na busca pela valorização e diferenciação dos LOPES, Tânia. Fragmentando os rotei-
dinâmica própria de uma sociedade. Para recursos que compõem a oferta turística lo- ros turísticos sobre Ouro Preto. In: JÚ-
Barreto (2000), o processo de ressemantiza- cal. Embora recebendo críticas de diversos NIOR, Álvaro Banducci; BARRETO,
ção, atrelado à mecanismos de conservação setores da sociedade civil, no que se refere ao Margarita (orgs). Turismo e Identidade
e revitalização, surge como alternativa viá- caráter de mercantilização dos fatos históri- Local: uma visão antropológica. São Pau-
vel, pois permite que a comunidade local re- cos em prol do Turismo, fenômeno denomi- lo: papirus, 2001.
conheça a importância do Patrimônio His- nado de “industrialização do passado” (URRY, MENESES, José Newton Coelho. His-
tórico no qual está inserida, e ainda, possibi- 1996), essa iniciativas podem contribuir o tória e Turismo Cultural. Belo Horizon-
lita o seu reaproveitamento para finalidades resgate da identidade sócio-cultural por par- te: Autêntica, 2004.
turísticas e recreacionais. te da população. Nesse sentido, Barreto (2000, MOTTA, Lia. A apropriação do patrimô-
Exemplos significativos podem ser elen- p. 47) nos assegura que: nio urbano: do estético estilístico nacio-
cados de regiões que por meio da revitaliza- nal ao consumo visual global. In:
A recuperação da memória coletiva, mesmo
ção, tornaram-se importantes centros cul- que seja para reproduzir a cultura local para os ARANTES, Antônio A. (Org). O Espaço
turais, de lazer e entretenimento, reabilita- turistas, leva, numa etapa posterior, inexora- da diferença. São Paulo: Papirus, 2000.
dos tanto por parte da população local, quan- velmente, à recuperação da cor local, e num p.256-287.
to por parte da demanda turística. Porém, ciclo de retroalimentação, a uma procura por PELEGRINNI FILHO, Américo (org).
para que a revitalização de áreas urbanas e recuperar cada vez mais esse passado. Ecologia Cultura e Turismo. São Paulo:
naturais se traduza em benefícios para as Além de proporcionar a valorização dos Papirus, 1997.
comunidades residentes e flutuantes, faz-se atrativos naturais e culturais pelos membros SIMÃO, Maria Cristina Rocha. Preser-
mister a existência de planos e programas de uma coletividade, a interpretação ambi- vação do Patrimônio Cultural em cida-
voltados para a valorização da memória e da ental propicia a sustentabilidade financei- des. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.
identidade locais, situando-os dentro de uma ro-econômica das populações locais, decor- URRY, John. O olhar do turista: lazer e
perspectiva que promova uma nova concep- rente do processo de visitação, além de inse- viagens nas sociedades contemporâneas.
ção dos bens culturais para a sociedade, além rir as reminiscências dos grupos sociais, pos- São Paulo: EDUSC, 1996.
Boletim 38 / agosto 2007 11

O FOLCLORE ARROZEIRO Maria de Fátima Sopas Rocha12

O arroz, alimento de ricos e pobres, ao seu amigo Jovino Costa, que o convi- No Rio Grande do Norte
esteve desde cedo presente na mesa bra- dara a ir saboreá-lo em sua casa (ver Jerimum e violão,
Em Goiás moça bonita
sileira, sob diversas formas. É o que re- ANEXO). Mais recentemente, Zeca Ba- E rapaz sem coração.
gistra Carlos de Lima, afirmando que o leiro e Chico César, na música Pedra de
que se fala de Recife, aplica-se ao Ma- Responsa, referem-se a ele: “Quando fui Não são apenas os autores de reno-
ranhão e ao Brasil: na ilha maravilha / fui tratado como um me que falam do arroz. Ele está nas
paxá / me deram arroz de cuxá / água quadrinhas como a que segue:
Com respeito à alimentação, podemos dizer
que os ricos comiam perus, galinhas, frutas, o gelada da bilha / cozido de jurará / ala- Preto que vendes aí?
famoso queijo-do-reino, passas, biscoitos, sal, vantu na quadrilha” (cf. NAVARRO, É arroz do Maranhão,
manteiga, bacalhau, presunto e carnes impor- 2004, p.41). Que Sinhá mandou vender
tadas, bebiam vinhos, café, chá, licores, etc.; Mota (1991, p. 393) registra a seguin- Na casa do Salomão. ( LIMA, Z, v.2, 1998, p.
os pobres farinha de mandioca, fubá de arroz 76)
e de milho, feijão preto, toucinho, carne sal- te estrofe, que data dos primórdios da
gada; cachaça e chibé, além de largo uso de República, em que enunciam-se as es- Câmara Cascudo (2004, p. 858) re-
batatas-doces, goiabas, ananases, melancias, pecialidades dos Estados da Federação gistra:
laranjas (FREYRE apud LIMA, C de, 1998, brasileira;
p.340). O sr. Assis Iglesias ouviu em Caxias, Mara-
S.Paulo para café, nhão, fevereiro de 1919, o cego Raimundo
Leão de Sales entoando a cantiga original, e

Reprodução de Pecados da gulha, de Zelinda Lima.


para mim única na espécie, o traje feito de
alimentos, aprendida com um cearense tam-
bém cego.
Mandei fazê um liforme
Bem feito com perfeição,
Mó de botá na cidade,
No dia de uma enleição,
E o qual admirô
A toda população.
O chapéu de arroz-doce,
Forrado de tapioca,
As fitas de alfinim
E as fivelas de paçoca
E a camisa de nata
E os botões de pipoca.
A ceroula de sôro
E a calça de coalhada,
O cinturão de mantêga
E o broche de carne assada,
O sapato de pirão
E a biqueira de cocada.
As meias de mingau
E os véus de gergelim,
E as aspas de pão-de-ló
E o anelão de bulim,
As fitas de gordura
E as luvas de toicim.
O colete de banana,
O fraque de carne frita,
O lenço de marmê
E o lecre de cambica,
O colarim de bolacha
Ceará pra valentão E a gravata de tripa.
Na culinária não há como deixar de
Piauí pra vaca brava, O relógio de queijo,
referir o arroz de cuxá, que mereceu Pernambuco pra baião, A chave de rapadura,
poesia e é razão de manifestação de sau- Rio Grande pra cavalo, A caçuleta de doce
dade de todo o legítimo maranhense re- Paraná pra chimarrão. E o trancelim de gordura.
sidente longe do estado natal. Zelinda Em Minas carne de porco, Quem tem um liforme deste
Pode julgar-se enfartura.
Lima (1998, v.1, p.22) afirma que o ar- Rio de Janeiro eleição,
roz de cuxá é um prato que tem mais de Alagoas povo macho, O sr. Iglesias explica que bulim é bolinho, toi-
Mato Grosso pra brigão, cim, toicinho, marmê, farinha puba, farinha
100 anos, pois já “figurava, em 1889, no fermentada, cambica é vinho da palmeira bu-
Amazonas pra borracha,
Dicionário de Vocábulos brasileiros, do riti, Mauritia vinifera. Uniforme, roupa exte-
Paraíba pra algodão,
visconde de Beaurepaire Rohan, com mi- Pra castanha o Pará,
rior masculina, é o liforme. A Antigüidade
dos versos denuncia-se no relógio de algibeira
nuciosa descrição”. Artur Azevedo (apud Para arroz o Maranhão, ter ainda chave para dar corda. E o uso do
LIMA, Z, v.2, 1998, p. 78) dedica ao ar- Bahia para mulata, trancelim. E a caçoleta, pendente do trance-
roz de cuxá um longo poema, enviado Sergipe cana e feijão, lim ornamental.

12 Especialista em Lingüística, professora do Departamento de Letras da UFMA e pesquisadora do Atlas Lingüístico do Maranhão - ALIMA.
12 Boletim 38 / agosto 2007

CONTINUAÇÃO

Alguns pratos de arroz têm designa- Outros pratos são servidos com acom- O uso medicinal do arroz não é mui-
ções curiosas, como é o caso do “maria- panhamento à base de arroz, como é o to corrente no Maranhão, entretanto,
zabé” ou “maria-isabel”, prato de carne caso do Amalá – comida feita com quia- Zelinda Lima (1998, p.115) registra:
cozida com arroz; do “arroz –de-puta”, bos (caruru), carne de peito de boi ou
Dieta de criança enferma: água-de-arroz.
ou “arroz-de-puta-pobre”, uma espécie rabada, com pirão de farinha de arroz Para hemorragia: água-de-arroz adoçada.
de arroz de carreteiro feito com lingüi- ou de mandioca; do Anguzô – esparre- É boa também para os intestinos.
ça no lugar do charque tradicional (cf. gado de ervas, semelhante ao caruru, que Para a pele: pó da última lavagem do arroz.
se come com angu de arroz; do Badofe Para engasgo; comer arroz ‘pegado’ (quei-
FISCHER, 2000, p. 36); do “arroz –de- mado).
– prato da cozinha afro-brasileira, uma
viúva – prato da culinária baiana, à base
espécie de massa comestível à base de Obrigatório na mesa do brasileiro,
de arroz com sal e leite de coco. O Dici-
taioba que se come com arroz de deixou marcas, também, no folclore, e
onário Aurélio traz esta citação: ‘Após o haussá;do Mindim – prato regional do não apenas no Brasil, manifestando-se,
ofício, voltava a imagem em procissão Piauí, que consta de arroz com costelas sobretudo, no uso de frases feitas e ex-
para a nossa casa, onde era servida lau- de porco (cf. LIMA, C., 1999). pressões populares, nas crendices e su-
ta mesa de doces, cuscuz, arroz-doce, Muitos outros pratos regionais e tra- perstições.
arroz-de-viúva, aipim com manteiga, dicionais são compostos com a lexia ar- Muito conhecido é o hábito de lan-
bolos , queijos e café com leite’ Itagipe, roz. Entre eles, destaca-se: o arroz cai- çar arroz sobre os noivos, na saída da igre-
Hermano Requião” (apud NAVARRO, pira – prato da região sudeste, de arroz ja. Representa esse gesto um voto de pro-
2004, p.41). Em outros estados é conhe- e frango; o arroz com banana – prato da digalidade e fartura para a vida a dois,
cido como arroz-de-leite. região do Rio de Janeiro que consiste em sem problemas financeiros, mas também
São freqüentes os pratos e bebidas banana-da-terra cozida na panela de para a fertilidade do casal, a ser aben-
com nomes cuja sonoridade denuncia arroz; o arroz com suã – encontrado em çoado com muitos filhos. É também em
sua origem africana, como é o caso de.; São Paulo, Mato Grosso e Goiás, consis- razão da associação com a riqueza e a
te em arroz com uma parte específica fertilidade que “ao dinheiro se chama por
Afurá – bolo de arroz fermentado. Ser- do porco; o arroz de haussá – arroz cozi- vezes, na gíria bem imaginosa, arroz (gri-
ve-se com água açucarada, na qual se dis- do com água e sal, como um purê; o ar- fo da autora), arame, tinta, massa, ca-
solve, formando uma bebida refrescan- roz de piqui – tradicional em Goiás; o bedal, milho, painço, bago, metal, etc.”
te, apreciada na África e, igualmente, arroz-de-carreteiro – típico da região sul, (AMARAL, 1950, p. 91)
pela população baiana de outrora. com carne-de-sol ou carne-seca; o arroz As expressões mais freqüentes com-
Aluá – ou aruá é uma bebida fermentada em panela de pedra – de Minas Gerais postas com a palavra arroz são utiliza-
da casca do abacaxi ou do milho cozido e que, depois de cozido, como o nome in-
das em relação direta com a sua presen-
açúcar. Pode ser preparado com arroz e dica, em panela de pedra, leva cubos de
ça à mesa de todos, em todos os momen-
adoçado, também, com rapadura. queijo fresco; o baião-de-dois – tradicio-
tos. Assim, levantou-se o seu registro em
Maniquera – aguardente extraída da nal no Ceará e que consiste em arroz e
diversos dicionários regionais:
mandioca chamada maniocaba, cujo cal- feijão cozidos juntos.
do, tirado da massa, é cozido com arroz. Também são designadas como espé-
- Arroz de casca – diz-se de uma pes-
Mocororó – bebida do sumo do caju com cies de arroz outras plantas como o “ar-
soa que se susceptibiliza por qualquer
quatro dias de fermentação ao ar livre, roz-bravo”, uma gramínea de folhas pla-
coisa. Abon. ‘Não compre um substi-
no Ceará. No Maranhão, é bebida feita nas e ásperas e “arroz –do-mato” também
tuto. Cá não sou arroz de casca’. Ar-
com mandioca ou arroz. conhecido como capim rabo de macaco
thur Azevedo, ‘Carapuças’, 17. (VI-
Acaçá – prato da cozinha afro-brasileira, (cf. SERAINE, 1959, p. 25).
EIRA FILHO, 1958, p. 13)
é um bolo de massa fina de milho ou fubá São freqüentes os registros do apeli-
- Arroz doce de pagode – indivíduo que
de arroz. Depois de pronto, enrola-se, em do de papa-arroz, designando os mara-
nhenses. Os maranhenses dão esse nome não perde festa. (MOTA, 1991, p.349)
porções, em folhas de bananeira.
a um passarinho, comum nas regiões ar- - Acabar-se como arroz doce em pago-
Xiró – caldo de arroz temperado com sal.
Cuscuz – prato de mouros e árabes, tam- rozeiras. Em Sertão alegre, Leonardo de (adverte-se a quem se mete em em-
bém preparado com outros cereais (cf. Mota (MOTA, 2002, p. 172) afirma: “O presas arriscadas. (MOTA, 1991, p. 431)
LIMA, C., 1999). piauiense chama o maranhense de papa- - Arroz-de-festa – a sobremesa conhe-
Mungunzá – milho cozido com leite de arroz. Este, em represália, chama o piau- cida por nós como arroz-doce era cha-
vaca ou de coco. Com fubá de arroz, cra- iense de capa-garrote e, sobretudo de mada de ‘arroz-de-festa’ em Portugal,
vo, canela, açúcar, sal, manteiga, engros- espiga”. Outro registro interessante, do onde nas famílias ricas o doce era pre-
sado, faz-se o mungunzá de colher e tor- mesmo livro, pode explicar a designa- sença obrigatória em dias de festa.
nando-o ainda mais denso, mungunzá de ção de arroz escoteiro, muito comum no Depois a expressão passou a ser usa-
cortar (cf. CÂMARA CASCUDO, 2004, Maranhão, para o arroz simples, comi- da para definir uma pessoa que não
p.843). do sem acompanhamento. No capítulo falta em nenhum evento social. (DU-
A respeito do Mocororó, Câmara Cas- Linguagem popular, Mota (2002, p.227) ARTE, 2003, p.169)
cudo (2004, p.832), comentando o aluá registra: “Na água e no sal – escoteiro; - Arroz-doce-de-pagode – pessoa in-
ou aruá afirma: “Jacques Raimundo cita exclusivamente. Exs.: Os soldados se falível nas festas. Sempre visível em
o mocororó do Maranhão como equiva- queixam de que só comem feijão na água qualquer solenidade, havendo dança
lente mas Domingos Vieira Filho diz ser e no sal. Trabalhei e no fim do mês ele e comidas. ‘Foi arroz-doce de quan-
‘uma espécie de mingau feito à base de me deu cinco mil réis na água e no sal to pagode de truz se fez pelo sertão
arroz’”. por todo o meu serviço.” do Tietê’ Valdomiro Silveira, Os Ca-
Boletim 38 / agosto 2007 13
CONTINUAÇÃO

boclos, 133, S.Paulo, 1920). Gulodi- - dar o arroz – dar o correctivo Acredita-se ainda que “faz mal comer
ce indispensável e preferida ao pala- - cantigas de arroz pardo – Ora arroz com casca, cria pedra na vesícula”
dar português, fidalgo e plebeu, e adeus!; mentiras. ( SIMÕES, 1993, (LIMA, C., 1999, p.173), que “não se bate
brasileiro desde o séc. XVI. O Vea- p.86; 155; 213) com a colher na panela de arroz ou de
dor de dona Luísa de Gusmão, Rai- - Prato de arroz-doce – Ostentação. canjica, porque queimará inevitavelmen-
nha de Portugal, esposa d´El-Rei Ser prato de arroz-doce – chamar te”, que “inchar as bochechas, quando o
D.João IV, na sua folha de pagamen- atenção, querer sobressair-se. ( LIMA, arroz estiver fervendo, fa-lo-á crescer” e
to tinha: ‘e de arros doce que tem 1998, p. 62) que “a grávida ajuda a crescer a massa
por dia a rasão de duzentos reis’. O - arrozais de Pendotiba – coisa ine- de bolos, arroz, cozidos com verduras,
Prato de Arroz-Doce é o romance xistente, imaginária ou falsa. Quan- mas não deve assar coisa nenhuma, res-
histórico de A. A. Teixeira de Vascon- do Nilo Peçanha, que foi Presidente seca ou incha sem tomar tempero”
celos, referente à revolução do Por- da República, como sucessor de (LIMA, C., 1999, p.182).
to, 1846, publicado em 1862. Na His- Afonso Pena, voltou a governar, após Na literatura popular, registra-se a
tória da Alimentação no Brasil (2.ed. a passagem pelo Catete, a arruinada presença do arroz em duas parlendas que
Itatiaia—Edusp, 1983), registei a bi- terra fluminense, procurou fazer um têm como objetivo a memorização dos
ografia do Arroz-Doce, e como se di- empréstimo externo, dando como números:
vulgou em Portugal, trazido para o garantia a produção agrícola do Es-
Brasil na época do povoamento, e ain- Um, dois: camarão com arroz;
tado do Rio. Viriato Corrêa, num jor- Três, quatro: feijão no prato;
da constituindo a sobremesa famili- nal carioca, atribuiu-lhe um expedi- Cinco, seis; olha o freguês;
ar. ‘Cheiroso como um tabuleiro de ente, para enganar os representantes Sete, oito: olha o biscoito;
arroz-doce!’ Pagode é reunião jubilo- dos banqueiros da City, vindos da In- Nove, dez; traz os pastéis
sa. O ‘arroz-Doce-de-Pagode’ será ou:
glaterra. Numa viagem de trem, Nilo Um, dois – feijão com arroz,
uma ‘permanente’ nessas ocasiões, ca- Peçanha lhes teria mostrado o capin- Três, quatro – arroz no prato,
racterizando o indivíduo de teimosa zal bravio de Pendotiba, dizendo: Cinco, seis – o ovo indez,
freqüência (- “Nem arroz! – Nenhu- ‘Vêem os senhores? Só a produção Sete, oito – café com biscoito,
ma resposta. Ouvir sem redargüir. destes arrozais daria para garantir o
Nove, dez – lave seus pés. (LIMA, Z, v.2, 1998,
Não dar importância. ‘Sô coronele p. 84)
empréstimo...’ A maliciosa anedota
Canaro ralhô cô ieu, mas porém ieu Também se registra uma quadrinha,
perseguiu aquele político até o fim
nem arroiz’, diz em Canudos, 1950,
da vida e foi acolhida por seu recen- quando se faz, à mesa, o ‘capitão’ de arroz, ou
o matuto Lalau ao pintor Funchal
te biógrafo, Brígido Tinoco, em ‘ A pirão, isto é, a porção amassada com os dedos
Garcia ( Do Litoral ao Sertão, Bibli-
vida de Nilo Peçanha’, onde se lê, à para ser levada à boca, recita-se:
oteca do Exército editora, Rio de Ja- Rei, capitão,
página 86: ‘Pelo bem do Brasil não tre-
neiro, 1965.) Não será arroz, que não soldado, ladrão,
pidava em mentir. Diante de comissão
dá sentido, mas arriós, bolinha, pe- menino, menina,
estrangeira, em visita à baixada flumi- macaco Simão” (LIMA, Z, v.2, 1998, p.87).
lourinho de pedra usado no jogo qui-
nense, transformou subitamente, en-
nhentista do alguergue, para ponto A riqueza do folclore arrozeiro está
vergonhado com a pergunta indiscre-
no tabuleiro marcado. ‘Nem arriós’, presente também em cantigas, de que
sem reação `a jogada do adversário,
ta, os extensos campos de capim-jara-
guá, de Pendotiba, em luxuriantes plan- se tem notícia por terem sido referidas
ausência de parada, sem retorquir, por algumas das pessoas entrevistadas
indiferença, abandono, pouco-caso. tações de arroz [...]’ (MAGALHÃES
JÚNIOR, 1974, p. 32) nos municípios maranhenses em que o
Calado por resposta. (CÂMARA Atlas Lingüístico do Maranhão – Proje-
CASCUDO, 1986, p.200) - ARROZ
[...] de festa. Pessoa que está presen- to ALiMA realiza pesquisas sobre a lín-
- Dar o arroz – Dar o correctivo (SI- gua falada no Maranhão, e ainda por pes-
MÕES, 1993, p. 213). te a todas comemorações ou eventos
importantes; pessoa que comparece quisadores, mas das quais ainda não foi
- Arroz – homem que anda com mui- possível obter nenhum registro.
tas mulheres mas não namora nenhu- a qualquer tipo de recepção seja ou
ma. ‘Igual a arroz, só serve pra não convidada.
[...] doce de função. Pessoa que com- REFERÊNCIAS
acompanhar’.(GADELHA, 2000, p. 21)
- Arroz doce – pessoa que está em parece a todas as festas. (PUGLIE-
AMARAL, Vasco Botelho do. Mistérios
toda festa ou em todo lugar, que está SI, 1981, p.11)
e maravilhas da língua portuguesa. Porto:
em todas. (LARIÚ, 1991, s/p.) Livraria Simões Lopes, 1950.
- Arroz-doce – vulgar, presente em No âmbito das crendices populares, CÂMARA CASCUDO, Luís da. Locu-
todas as festas: prato de arroz-doce. diz-se que “arroz quente posto na nuca ções tradicionais do Brasil: coisas que o
(LIMA, Z, v.2, 1998, p.54) da criança gaga, num instante solta a povo diz. Belo Horizonte: Itatiaia; São
- Papa-arroz – o natural do Maranhão. língua” (Jangada Brasil, 2005, p.2) Paulo: Edusp, 1986.
(CÂMARA CASCUDO, 2004, p.867) E ainda: “Durante a gravidez mulher _________. História da alimentação no
- arroz com pernas - piolho não deve comer resto de arroz que ficou Brasil. São Paulo: Global, 2004.
- arrroz – pancada; piolho; dinheiro grudado na panela – o pegado – senão a DUARTE, Marcelo. O guia dos curiosos.
- arroz fingido – acção sexual não con- placenta fica presa no útero, sem sair, São Paulo: Panda, 2003.
sumada após o parto. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holan-
- arroz queimado – aquilo que suce- Arroz jogado no chão é sinal de far- da. Novo dicionário da língua portugue-
de muitas vezes tura!” (LIMA, Z, v.2, 1998, p.29). sa. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 1975.
14 Boletim 38 / agosto 2007

CONTINUAÇÃO

FISCHER, Luís Augusto. Dicionário


de porto-alegrês. Porto Alegre: Artes e
Ofícios, 2000.
Poema de Artur Azevedo13
GADELHA, Marcus. Dicionário de ce- Como o nosso Manoel Costa Aqui fazem-no bem feito
Mandou pelo Macieira (Negá-lo não há quem ouse);
arês. Fortaleza: Multigraf, 2000.
Um molho de vinagreira mas... falta-lhe “quelque chose”;
JANGADA Brasil: superstições e cren- Lá de Jacarepaguá, não é o arroz de cuxá.
dices. Disponível em: < http:// Num delicado bilhete
www.jangadabrasil.com.br/revista/ Me perguntas, caro amigo, Pois aqui há bom quiabo
agosto69/pn69008c.asp.> Acesso em: Se quero, amanhã, contigo, E bem bom camarão seco;
Comer arroz de cuxá. Há vinagreira sem peco;
5 out 2005. Bom gergelim também há!
LARIÚ, Nivaldo. Dicionário de baianês. Que pergunta! Pois ignoras E o prato, aqui preparado,
Salvador: Empresa Gráfica da Bahia, Que sou, por este petisco, Do nosso mal se aproxima!
1991. Homem de andar ao lambisco, Acaso também o clima
Ora aqui, ora acolá? Influi no arroz de cuxá?
LIMA, Carlos de. Vida, paixão e morte
Pois não sabes que, apenas
da cidade de Alcântara - Maranhão. São Eu me apanhei desmamado, Ora, qual clima! qual nada!
Luís: SECMA, 1998. Me atirei como um danado É o mesmo quitute, creio;
LIMA, Cláudia. Tachos e panelas: his- Ao belo arroz de cuxá? Falta-lhe apenas o meio;
toriografia da alimentação brasileira. Re- Nos seus domínios não está.
Gosto do peru de forno No Maranhão preparado
cife: Brasil, 500 anos, 1999.
Gosto de bofes de grelha, Naturalmente acontece
LIMA, Zelinda Machado de Castro e. E tenho uma paixão velha Que sendo o mesmo, parece
Pecados da gula: comeres e beberes das Por torradinhas com chá; Ser outro arroz de cuxá.
gentes do Maranhão. São Luís: CBPC, Mas nos pitéus e pitanças
1998. 2 v. Que custam tanto e mais quanto, Eu, quando o como, revejo
Nunca achei o mesmo encanto Entre a cheirosa fumaça,
MAGALHÃES JÚNIOR, R. Dicioná-
Que achei no arroz de cuxá. Passado que outra vez passa,
rio brasileiro de provérbios, locuções e Com que eu não contava já;
ditos curiosos, bem como de curiosida- Visitei o velho mundo Portanto, não me perguntes...
des verbais, frases feitas, ditos históri- E, nos restaurantes caros, Não me perguntes, amigo,
cos e citações literárias, de curso corren- Os acepipes mais raros Se eu quero amanhã, contigo,
Comi que nem um paxá; Comer arroz de cuxá.
te na língua falada e escrita. Rio de Ja- Mas, quer creias, quer não creias,
neiro: Documentário, 1974. Nenhum achei mais gostoso, Pergunta se quer o espaço
MOTA, Leonardo: Sertão alegre: poesia Mais fino, mais saboroso O passarinho que adeja;
e linguagem do sertão nordestino. 3. ed. Que o nosso arroz de cuxá!
Pergunta se a flor deseja
Rio de Janeiro; São Paulo; Fortaleza: O sol que a vida lhe dá;
A tua “Mulata Velha”
ABC Editora, 2002. Pergunta aos lábios se um beijo
É com razão orgulhosa
_________. Adagiário brasileiro. Forta- Aceitam, quente e sincero;
Da moqueca apetitosa,
Mas não perguntes se eu quero
leza: BNB, 1991. Do doirado vatapá;
Comer arroz de cuxá.
NAVARRO, Fred. Dicionário do Nor- Mas, baiano, tem paciência;
Forçoso é que te executes!
deste: 5.000 palavras e expressões. São Como a criança quer leite,
Nada valem tais quitutes
Paulo: Estação Liberdade, 2004. Ao pé do arroz de cuxá. Jóias a dona faceira,
PUGLIESI, Márcio. Dicionário de ex- Fitas a velha gaiteira,
Eu tenho muitas saudades E um maridinho a sinhá;
pressões idiomáticas: locuções usuais da
Da minha terra querida... Como o defunto quer cova,
língua portuguesa. São Paulo: Parma, Quer o macaco pacova,
Onde atravessei a vida
1981. O melhor tempo foi lá. Eu quero arroz de cuxá.
SERAINE, Florival. Dicionário de ter- Choro os folguedos da infância
mos populares: registrados no Ceará. E os sonhos da adolescência; Febricitante, impaciente,
Rio de Janeiro: Simões Editora, 1959. Mas... choro com mais freqüência Cá fico as horas contando!
O meu arroz de cuxá. Do bolso de vez em quando
SIMÕES, Guilherme Augusto. Dicio-
O meu relógio sairá,
nário de expressões populares portugue- Porque – deixa que t´o diga – E amanhã, às seis em ponto,
sas. Lisboa: Publicações Dom Quixote, Esse prato maranhense Irei, com toda a presteza,
1993. Ao Maranhão só pertence A tua pródiga mesa
VIEIRA FILHO, Domingos. A lingua- E n´outra parte não há. Comer arroz de cuxá.
gem popular do Maranhão. São Luís do 13 Artur Azevedo apud ORICO, Osvaldo. Cozinha amazônica. Belém: Universidade do Pará,
Maranhão: Tipogravura Teixeira, 1958. 1972 apud LIMA, Zelinda. Pecados da gula. V. 1. São Luís: CBPC, 1998. p. 78-82.
Boletim 38 / agosto 2007 15

MIGRAÇÃO RELIGIOSA DO
PENTECOSTALISMO PARA A UMBANDA14
Paulo Sérgio Pilar Araújo15

INTRODUÇÃO em visitas e participações de trabalhos de mesa com visões e outros fenômenos, ele e sua famí-
(similares às sessões de mesa branca do karde- lia buscaram de pronto a igreja. Provavelmente
Neste trabalho nos ocupamos da passagem cismo, mas nas quais se manifestam além dos ele teve que se afastar da família quando saiu
de ex-evangélicos para as religiões afro-brasilei- desencarnados, entidades caboclas, índios, pre- de casa, convidado para ser cantador, tendo
ras, especificamente das igrejas pentecostais e to-velhos etc.) e com entrevistas formais do pe- talvez que se afastar também da congregação
neopentecostais para a umbanda, buscando en- ríodo de 06 a 12 de fevereiro de 2002. na qual participava como membro. Seu Fran-
tender os motivos da mudança de religião e o Como pré-requisitos para a escolha das pes- cisco não especificou como foi a sua vivência
posicionamento do indivíduo diante de sua atual soas entrevistadas utilizamos alguns pontos do durante esse período, disse-nos, entretanto, que
situação religiosa e da antiga. Tal fenômeno nos mesmo roteiro que os alunos dos cursos de Ge- já aos vinte anos era dirigente de uma congre-
chama a atenção por serem as igrejas evangéli- ografia e História da UEMA usaram para um gação da Igreja Cristã Evangélica na cidade de
cas as grandes opositoras das manifestações trabalho de campo da disciplina de Antropolo- Rosário/MA. Assim ele relata como foi a sua
afro-brasileiras e por ser crença geral de que gia, coordenados pela então professora Mundi- saída da igreja:
apenas praticantes de religiões afro-brasileiras carmo Ferretti: o tempo de permanência na igre-
se convertem ao pentecostalismo, daí uma das ja evangélica (se a pessoa teve tempo suficiente “Depois de ter apanhado que nem cachorro,
os irmãos (os encantados) me mostraram que
expressões muito comuns em terreiros de mina para se “edificar” nas doutrinas da igreja), bem
não ia adiantar continuar no meio daquele
e umbanda quando algum filho-de-santo deixa como o papel desempenhado por ela na antiga
bando de hipócritas, que andam com a Bíblia
o terreiro: “virou crente”. Procuramos entender, denominação (se chegou a ser dirigente, diáco- debaixo do braço e não seguem nada do que ta
ainda, o fator mais comum ou justificável para a no, líder de mocidade etc.); o período de transi- ali. Eles sabiam que eu trabalhava (na magia) e
iniciação de ex-evangélicos como pais e mães e ção da igreja para o terreiro; e a permanência continuava indo pra igreja, até que eu vi: ou
filhos-de-santo. por parte do indivíduo na nova fé. eram um ou outro”. (Entrevista – 06/02/
Achamos necessário fazer uma pequena 2002?).
distinção na terminologia utilizada: transição, CONSIDERAÇÕES SOBRE A PASSAGEM
migração e mudança religiosas. Após algumas DE PENTECOSTAIS PARA A UMBANDA Seu Francisco afirma que a sua saída da
considerações, concluímos ser mais adequado igreja não foi brusca, passou um tempo se con-
usar o termo trânsito religioso quando há a par- Foto acervo de Mundicarmo Ferretti gregando e trabalhando com os encantados
ticipação, ou seja, a “transitação” de indivíduos meio às escondidas antes de decidir-se definiti-
entre duas ou mais denominações religiosas di- vamente.
ferentes, sendo que ele se autodenomina de Esse momento de transição acontece como
uma só, o que não o impede de participar de um reconhecimento de terreno ou uma manei-
outra também. Talvez este termo seja o mais ra de não ser desprezado ou discriminado pelos
apropriado para o caso dos evangélicos que fre- antigos “irmãos” de congregação, o que aconte-
qüentam várias denominações, os transeuntes ce cedo ou tarde. Sabemos que deve ser muito
que não se fixam por muito tempo numa deter- difícil para um ex-pentecostal, mesmo estando
minada denominação religiosa. Prandi16 citado muito tempo fora da igreja, aceitar de imediato
por Karla Santos (2002), afirma não ser preciso tudo aquilo que durante o seu tempo de igreja
sair da religião de origem para provar da mu- era condenado euforicamente como coisa do
dança religiosa. Já o termo migração seria quan- demônio. Já na conversão de umbandistas ao
do os indivíduos abandonam a sua última de- pentecostalismo existe uma espontaneidade
nominação devido a algum desconforto ou em maior, o indivíduo diz aceitar a Jesus como seu
busca de melhoras não encontradas na primei- salvador, a igreja ora por ele e com a sua confis-
ra, fixando-se na segunda alternativa. Mudan- são pública passa a ser um novo membro da co-
ça é um termo mais ambíguo, podendo ser en- munidade (geralmente, na maioria das igrejas
tendido como a mudança da religião em si, na evangélicas, o batismo em água é a “oficializa-
sua dinâmica social ou a mudança de adeptos
ção” da pessoa como membro, tendo um peque-
de uma para a outra.
no período de acompanhamento no qual é cha-
Tal análise visa contemplar um fenômeno
mado de novo convertido). Nas religiões afro-bra-
difícil de ocorrer ou detectar, mas não inexis-
sileiras, a pessoa após identificada como médium
tente entre os praticantes de duas das princi-
deve passar por um longo período de iniciação,
pais religiões populares no Brasil (FRY & Entrevista com Seu Francisco
HOWE, 1975), servindo de subsídio para uma dependendo do grau de mediunidade.
análise posterior mais detalhada. O motivo apontado por Fry e Howe (1975,
A partir da história de vida do Sr. Francisco O caso do seu Francisco é um dos mais ob- p. 75) para a conversão de uma pessoa ao pen-
Sousa ou seu Francisco como é mais conheci- servados na história da maioria dos pais-de-san- tecostalismo ou à umbanda seria a aflição:
do, da cidade de Codó (cerca de 300km de São to que já foram evangélicos. Descobrindo-se Enquanto as agências seculares (médico, advo-
Luís), nos propomos a analisar tal fenômeno. médiuns, a primeira reação é a não aceitação, gados etc.) tratam de sintomas específicos, as
Como apoio, utilizaremos também outras en- depois a tentativa de fuga, e como vimos, as religiosas pretendem oferecer soluções para
trevistas com pais e mães-de-santo sobre o as- igrejas pentecostais ou evangélicas surgem todas as aflições em geral. Entre as respostas
sunto. como a melhor saída para essa situação. religiosas, a umbanda e o pentecostalismo se
Boa parte das informações a que tivemos De início o seu Francisco nos contou que opõem às demais no seu modo de recrutamen-
acesso foi adquirida em conversas informais, desde os primeiros sinais de sua mediunidade, to, que é feito geralmente através da aflição.

14 Retoma trabalho apresentado no 10º Congresso Brasileiro de Folclore (São Luís-MA, 2002) e relatório de pesquisa apoiada pelo PIBIC-FAPEMA e orientada pela professora
Mundicarmo Ferretti.
15 Licenciado em Letras; aluno do Mestrado em Linguística da USP.
16 PRANDI, Reginaldo. Religião, Biografia e Conversão:escolhas religiosas e mudanças de religião. Rio de Janeiro:1999.
16 Boletim 38 / agosto 2007

CONTINUAÇÃO

Para nossos entrevistados, um

Foto acervo de Mundicarmo Ferretti


dos motivos para que houvesse a
mudança entre essas duas religiões,
dentre outros, seria a insatisfação
com a atual religião. No caso de
pentecostais aderirem à umbanda,
uma das respostas apontadas pelos
que passaram por essa experiência
é a mesma dada por dona Socorro,
mãe-de-santo de Codó da Tenda
Espírita de Umbanda São Jorge:
Crente vira macumbeiro por-
que o lugar dele é aqui, pode
andar por onde quiser, mas se
for médium de verdade, o lugar
dele é trabalhando com os en-
cantados dele.

Como vemos, além da insatis-


fação com a religião, a mediunida-
de aparece como determinante da
passagem de pentecostais para a
umbanda. Isso é como se a pessoa
já entrasse sabendo-se portadora
de um dom, a capacidade de co-
municar-se com os espíritos, e por-
tadora de uma entidade que lhe
protege. Diferentemente, no pen-
tecostalismo, no qual o dom do Es-
pírito Santo é recebido após a con-
versão em um longo e difícil cami-
nho de santificação.

AS RELIGIÕES ANTIGA
E ATUAL
Altar do salão de Seu Francisco
Para o seu Francisco, os seus
Geralmente os umbandistas que a pessoa pertence a esta reli-
vinte anos na igreja foram uma pro-
ex-pentecostais não gostam de fa- gião e não àquela. REFERÊNCIAS
va à qual ele teve que passar, feita
lar da igreja. Sempre falam que É de se esperar que à medida
por seus guias:
sofreram algum tipo de discrimina- que a umbanda vai se comportan- FRY, Peter Henry; HOWE, Gary
ção por parte dos antigos irmãos. do e desenvolvendo uma postura Nigel. Duas Respostas à Afli-
Agora tô satisfeito e enquanto
Isso é devido à organização pente- mais cristã, fica mais fácil obser-
vida Deus me der eu vou conti- ção: Umbanda e Pentecostalis-
costal ser mais policiada, cada varmos um movimento migratório
nuar trabalhando com os irmãos
entre adeptos dela e outras religi- mo. Debate e Crítica. N. 06, jul.
(os encantados). (Entrevista em adepto exercendo o papel de vigia
ões de forte caráter mítico. Entre- 1975. p. 75-94.
06/02/2002). do seu irmão (ROLIM, 1987), sen-
tanto não sabemos até onde irá KARDEC, Allan. O livro dos
do que o desviar-se da fé é quase
parar essa guerra entre pentecos- Espíritos. (trad. Guillon Ribei-
Quase todos os umbandistas que uma traição. Já na umbanda,
constituída principalmente por gru- tais e umbandistas (guerra decla- ro) – 6 ed. de bolso. Rio de Ja-
que passaram por igrejas evangéli- rada pelos pentecostais?). Consta- neiro: Federação Espírita Brasi-
cas vêem de forma semelhante o pos pequenos, a repercussão não
é tão grande ou escandalosa se um tando ainda que, mesmo assim, o leira, 2001.
seu tempo de igreja. Porém para os grau de semelhança entre ambas
filhos-de-santo se converte ao pen- PRANDI, Reginaldo. Religião
líderes pentecostais essas pessoas tem aumentado, como podemos
tecostalismo, pois todos sabem que Paga, Conversão e Serviço. Ver.
não “nasceram de novo” ou não “re- observar em algumas reuniões da
mais cedo ou mais tarde ele vai ter Novos Estudos: CEBRAP. N.
sistiram ao diabo”, entre outras ex- Igreja Universal do Reino de Deus:
que voltar para os seus guias. 45, JUL. 1996, P. 65-77.
plicações do “fracasso” dos seus ex- sessões de descarrego, quebra de ROLIM, Francisco Cartaxo. O
adeptos. maldição, oração em roupa ou per-
Existem outros casos difíceis de CONCLUSÃO que é Pentecostalismo . São
tence de pessoas para livrar do mal,
detectar de umbandistas converti- Paulo: Brasiliense, 1987.
etc., assim como sessões em tem-
dos, mas que continuam pratican- A mediunidade foi o fator mais plos de umbanda nos quais o pai- SANTOS, K. G. V. Umbanda e
do suas obrigações às escondidas, comum indicado pelos umbandis- de-santo canta “hinos” doutrinári- Pentecostalismo: alternativas
como já visto no caso de seu Fran- tas ex-pentecostais como a causa os da umbanda, faz preces e dá religiosas populares no Mara-
cisco. Muitos deles tem medo de de aderirem à umbanda, e há testemunhos, à moda de um tem- nhão. 2002. 100f. Monografia
mostrarem-se fracassados para particularidades, por exemplo, plo evangélico, como o observado (Conclusão de Curso de Ciên-
seus “irmãos” de igreja e temem ser nem todos os médiuns terão que na Tenda São Sebastião do pai-de- cias Sociais) - Universidade Fe-
descobertos e sofrer discrimina- fazer cabeça (serem iniciados), de- santo Sebastião do Coroado. deral do Maranhão. São Luís.
ções. Num artigo ainda inédito de pendendo do grau de mediunida- A migração de pentecostais VALLE. Edênio. Conversão: da
Mundicarmo Ferretti, ela nos fala de da pessoa, de acordo com seu para terreiros umbandistas é um noção teórica ao instrumento de
como os encantados de filhos-de- Francisco, seguindo claramente a fenômeno que aos poucos deixa pesquisa. Disponível em
santo que ficam entre o templo e o doutrina kardecista encontrada no de ser exceção e vai se tornando <http://www.pucsp.br/rever/
terreiro encaram essa situação ao Livro dos Espíritos (KARDEC, mais comum, mesmo indo contra rv2/e-valle.htm> Acesso em 12
dizerem: “ele (o filho-de-santo) é Alan, 2001). A mediunidade assim o senso de que só “macumbeiro vira
que é crente, não sou eu”. de maio de 2002.
é vista como um sinal de Deus, de crente”.
Boletim 38 / agosto 2007 17

VAMOS BRINCAR DE BONECA OU


DANÇAR TAMBOR DE CRIOULA?
A Cura de dona Troirinha e a de Pedrinho no Terreiro Fé em Deus
Maria do Socorro Rodrigues de Souza Aires17

No universo das religiões afro-brasileiras em Fatores como o tamanho da população negra pela polícia. Uma situação que os estudiosos
cada terreiro o culto aos orixás, voduns, cabo- em relação à de brancos e de índios, a influên- afirmam (Maria do Rosário C. dos Santos e
clos e encantados se expressa em rituais peculi- cia de determinadas etnias, a repressão ao cul- Manoel dos S. Neto, 1989) que obrigou os cura-
ares. Os terreiros representam a variedade do to, as condições urbanas e outros, fizeram com dores a desenvolverem mecanismos que lhes
culto de matriz africana no Brasil que por outro que os cultos apresentassem características re- permitissem continuar com os cultos às suas
gionais próprias, sendo alguns conhecidos em entidades de cura e com o passar do tempo,
lado, tem em comum, práticas religiosas muito
uma região e desconhecidos em outras. Assim, tornou-se uma prática comum em alguns terrei-
festivas.
variações regionais do rito jeje-nagô podem ser
O estudo dos rituais religiosos, já foi objeto ros de mina do Maranhão.
encontradas em todo o Brasil, como no can-
de estudo de pesquisadores na busca de com- Segundo o estudioso e pai-de-santo Jorge
domblé na Bahia, no batuque no Rio Grande
preender as práticas sociais humanas. Podemos do Sul e no Xangô de Pernambuco.
Itaci de Oliveira (1989, p.36), “em face à grande
observar a clássica perspectiva de Durkheim influência de mina, no rito do Pajé. É que hoje
(2003, p. 337) quando este estudioso afirma que No Maranhão, esta religião é mais conheci- estes mesmos caboclos dançam nos tambores
os rituais religiosos expõem antagonismos e rom- da como tambor de mina e os terreiros realizam Nagôs, em pé de igualdade com os Orixás africa-
pimentos por que: “há dois sistemas de estados rituais derivados dos desdobramentos históricos nos”. Na concepção da mãe-de-santo Elzita do
de consciência que estão orientados e orientam e contextuais da inserção do negro escravo, que Terreiro Fé em Deus, no ritual da cura, a dan-
nossa conduta para dois pólos contrários”. Nesse segundo e estudo de Sérgio Ferretti (1996) e Vag- çante recebe muitas entidades porque: “a cura é
sentido, a afirmação de Durkheim classifica a ner da Silva (1994), possuem particularidades ´linha´. Ela vem do rio, ela vem do astro, ela vem
porque se referem ao culto do vodun na Casa do mar também, mas ela é mais´linha´. ´Linha´
conduta social em ações ordenadas a determina-
das Minas, terreiro considerado o mais antigo da porque entra um e sai outro. É uma ´linha´ 18 ”. E
dos espaços e ocasiões, em um mundo bipolar
cidade de São Luis. Mas, segundo Mundicarmo acrescentou que: “a mina não gosta da cura, eu
de coisas sagradas e coisas profanas. No entan-
Ferretti (2001, p. 59, 60), “apesar da hegemonia faço aqui as duas coisas, porque eu tenho parte
to, esta perspectiva não orienta a análise dos ritu-
da mina... Os terreiros de mina de São Luis, da cura”. Nas palavras de dona Elzita: “se o cura-
ais afro-brasileiros, nos quais observamos que as
embora influenciados pela Casa das Minas-Jeje dor disser: eu vou curar em tal lugar, ele vai”, no
representações religiosas e a linguagem ritual são
e pela Casa de Nagô, alguns apresentam muitas tambor (de mina) não se faz isso por causa do
práticas estreitamente integradas ao cotidiano assentamento19 ”. No entanto, ela também nos
características estranhas a elas... muitos deles
dos adeptos do culto e faz parte da vida de cada falou que realiza esse ritual em seu terreiro em
tem linha de mina e de cura ou pajelança”. É
um. Isso porque nessas religiões prevalece o es- homenagem à princesa Troirinha20 , a sua “pa-
precisamente sobre o ritual da cura ou pajelança
pírito religioso e a visão sagrada do universo dos troa” porque tem a ver com o início da sua vida
realizada no Terreiro Fé em Deus, no bairro Sa-
adeptos do culto, quando estes afirmam que “fo- religiosa e com certo número de suas filhas-de-
cavem, que gostaríamos de refletir sobre a reli-
ram escolhidos” pelas entidades que “recebem” santo que possuem mediunidade para as enti-
gião do tambor de mina no Maranhão.
e se consideram portadores de uma missão. dades da linha de cura. E também para o cabo-
A cura é um sistema de crenças, no qual, se
Assim, quem já observou os rituais afro-bra- clo Pedrinho21 uma entidade que é recebida
observa a representação simbólica de muitas
sileiros nos terreiros de São Luis, concorda que em seu terreiro. (Entrevista em 21/06/06).
entidades encantadas em diversos lugares da
se trata de uma manifestação religiosa extrema- Quando é realizado o ritual da Cura no Ter-
natureza que são recebidas, uma de cada vez,
mente complexa, na qual a tradição dá ênfase reiro Fé em Deus, a brincante recebe a entida-
(Mundicarmo Ferretti, 2000) por uma única
aos deuses de origem, privilegiando o culto aos de curadora chefe da linha, do lado de fora do
pessoa em transe, durante várias horas. Em es-
orixás e voduns, herança que os adeptos preser- barracão quando esta recebe das mãos de sua
tudo sobre o tema, Vagner da Silva afirma que
varam através dos séculos pela via da transmis- se trata: “de uma religião de caráter essencial- assistência, o penacho, o maracá e a purifica-
são oral e da observação direta dos rituais que mente mágico-curativa, baseada no culto dos ção com o incenso (Mundicarmo Ferretti, 2000).
somados as influências nativas e européias, pro- mestres, entidades sobrenaturais que se mani- A entidade, através da brincante, vem fazer a
cessou-se em numerosas formas e expressões re- festam como espíritos de índios (caboclos), de abertura do ritual e anunciar ao público presen-
ligiosas. Em estudo, sobre o tema Vagner da Silva animais ou de antigos chefes prestigiados do te, através de cânticos, que vai trazer a sua linha.
(1994, p. 82,83), observa que há diversas denomi- culto” SILVA, 1994, p. 88). No entanto, no pas- Além da entidade chefe da linha que é a “anfi-
nações para o culto afro no Brasil porque: sado essa prática religiosa foi muito perseguida triã” da festa e a primeira a comparecer ao ritual,

17 Concludente de Ciências Sociais – UFMA; membro do GP-Mina.


18 Entendemos a expressão da mãe-de-santo Elzita quando ela se referiu ao ritual da Cura como “uma linha”, depois de realizarmos uma entrevista no Terreiro Fé em Deus
com a dançante Maria Auxiliadora, conhecida como Rôxa, em transe com o caboclo Pedrinho, na qual a referida entidade explicou:
“Na minha corrente é assim: primeiro vem à linha do mar, depois vem a linha do astro, depois vem a linha da mata, depois vem a linha da água doce, que é a mãe d’água
e vai lá pro fundo. Ai depois vem à linha de cobra. Todo curador tem essa corrente. Ai é que eu vou fechar. Toda linha tem um chefe. Agora eu sou o chefe de tudo. Na
minha linha é assim. Eu tenho uma entidade responsável por tudo. Porque eu não posso, na hora de fazer uma cura, passar todo mundo do mar, porque senão vai ser
só do mar. Então eu tenho um tanto de gente do mar e tem uma pessoa responsável pelo mar. Eu abro a minha cura depois eu chamo o chefe que é o seu Banzeiro. Seu
Banzeiro vem trazendo todos que ele pode trazer. Não é pra ele trazer tudo da leva dele, não. Aí quando passa pra mata, vem os caboclos. Nesses, não tem chefe, eles vem
sozinhos, porque eu acho que só tem que ter chefe quando é uma corrente certa, como o mar. Mas no mato o que vier de doido esse fica. Aí tem a parte do astro, que é a
parte dos passarinhos e a chefa é a dona Arara Cantadeira. Ai tem a corrente da água doce que é com mãe d’água e depois a linha de cobra, ai eu vou fechar. É 70 linhas
que eu tenho. Ai tem que escolher os que não são muito doidos, os que vão, porque os que são doidos não vem, pra não ficar judiando dona Rôxa, jogando ela pra cá e
pra ali. Por isso só vem os que são bons. Ela é boa de mim” (Entrevista em 13/12/06).
Percebemos que a palavra linha é utilizada para referir-se a categorias de entidades. Para uma melhor compreensão, ver (FERRETTI, M. 2000, p. 226).
19 Segundo dona Elzita:

“o assentamento é o fundamento e isso é coisa de segredo, são coisas ocultas e o que a gente pode saber é o que está do lado de fora, mas do lado de dentro não. Então,
você só pode ter um terreiro de mina quando você tem suas filhas-de-santo, porque você não pode abrir o tambor sozinha. É preciso mais ou menos umas cinco pessoas,
várias dançantes pra fazer aquela roda. Mesmo que eu abra o Imbarabô, a dançante logo tem que cantar. O tambor sempre começa com o Imbarabô, mas não em todos os
terreiros. Existem outros que abrem de outra forma, logo tem o Candomblé, tem a Umbanda, tem a mina Nagô que, é a daqui, então é com o Imbarabô e se cantam várias
doutrinas, durante quase uma hora e só depois disso vira para as entidades. Na cura, não é assim. O curador, ele cura em qualquer lugar, mas no tambor (de mina), não.
Ele tem que ter um lugar. É outro chefe de um terreiro que vem assentar a pessoa que vai abrir um terreiro”. (Entrevista em 12/08/06).
20 Entidade chefe da linha de cura e patroa de dona Elzita, também participa da mina como rainha Doralice.
21 Mensageiro do Rei Surrupira, chefe de Maria Auxiliadora, filha-de-santo de dona Elzita.
18 Boletim 38 / agosto 2007

CONTINUAÇÃO
observa-se através dos cânticos muitas linhas de Rôxa, é que possuem entidades chefes de “cor- ritual de cura, o momento do brinquedo é um
entidades que também participam, se manifes- rente ou linha”22 de cura e realizam esses ritu- dos mais esperados porque no segundo dia, esta
tam e incorporam na brincante por alguns mo- ais no terreiro, em épocas diferentes. entidade oferece uma festa de tambor de criou-
mentos para cantar, dançar e depois ir embora, Há diferenças, entre os dois rituais de cura la em homenagem a São Benedito.
para que outras entidades compareçam. realizados no Terreiro Fé em Deus, muito em- A presença do tambor de crioula na cura da
A entidade, quando incorporada, conta a sua bora, podemos dizer que tenham o mesmo sen- entidade Pedrinho acontece porque segundo
história em forma de cântico ou doutrina e geral- tido, o de receber em um terreiro de mina, ou- dona Roxa, quem o recebe no Terreiro Fé em
mente faz referência a lugares e qualidades que tras categorias de entidades para realizar traba- Deus, “O tambor de crioula vem pelo santo dele,
supostamente representam a sua origem. Logo lhos de curar doenças, abrir caminhos, descar- que é São Benedito, então, geralmente, todo o
todos os presentes ouvem em silêncio e em se- rego e também, de certa forma, divertir-se. O invisível que pertence pra linha pra São Bene-
guida repetem o cântico ao som dos instrumen- ritual da cura evidencia alguns aspectos peculi- dito, a festa, é tambor de crioula”. (Entrevista
tos utilizados para acompanhar os cânticos, en- ares de algumas entidades que também são ho- em 19/10/06). No dia 22 de Outubro de 2006,
quanto a entidade, incorporada na brincante que menageadas no tambor de mina naquele terrei- quando os brincantes chegaram ao terreiro, não
está em transe, dança no meio do barracão. ro e consiste em duas representações de um demorou muito para começar a festa. A parelha
No Terreiro Fé em Deus, os instrumentos mesmo fenômeno religioso. O estudo de Mun- de tambor foi colocada ao fundo do barracão e
que são utilizados no ritual são: três tambores, dicarmo Ferretti sobre o tema mostra que: logo se formou uma roda de dançantes e Pedri-
sendo, dois pequenos que são tocados, na mai- nho em dona Rôxa começou a dançar no meio
oria das vezes, por adolescentes e até por crian- Embora na Cura não se costume entrar em da roda enquanto segurava a imagem de São
ças que ficam sentadas em uma cadeira com os transe com divindades africanas e, normalmen- Benedito, que depois foi repassada para as ou-
instrumentos apoiados entre os joelhos e um te, não se cante ali para voduns e orixás, algu- tras brincantes. Durante todo o dia o grupo do
outro, bem maior, chamado de tambor da mata, mas entidades recebidas na Mina, como di- Tambor de Crioula animou a festa da entidade
que é suspenso por um cavalete de madeira, vindades africanas, podem ser invocadas na Pedrinho que falou: “Eu estou feliz”!
disposto na posição inclinada e geralmente é abertura e no encerramento do ritual, quando
No Terreiro Fé em Deus, o momento “brin-
tocado por um adulto experiente. O público realizados em terreiro de Mina, e fala-se que
quedo” da Cura da princesa Troirinha, que tem
participa acompanhando os cânticos, tocando são às vezes, recebidas por pajé durante a Cura.
na boneca a sua representação, assim como o
matracas, batendo palmas e pandeiros. (FERRETTI, M., 2000, p. 228)
Tambor de Crioula, que o caboclo Pedrinho ofere-
O barracão é preparado de acordo com a Desse modo, os dois rituais possuem algu- ce a São Benedito, são momentos em que pode-
entidade chefe da linha que vem comandar o mas características semelhantes, porque essas mos refletir a respeito do que Durkheim (2003, p.
ritual e geralmente é adornado com muitos ba- entidades curadoras que também são recebi- 412), denominou de “mentalidade ritual” porque:
lões. Para a princesa Troirinha, a cor utilizada é das nos toques de mina, realizam dois dias de “se propõem unicamente redespertar certas idéias
o verde e para o caboclo Pedrinho é o amarelo. cura, com a passagem de muitas entidades em e certos sentimentos, ligar o presente ao passado, o
Essas cores, entre outros elementos, represen- transe curtos, entre outros elementos, como os indivíduo à coletividade”. As diferenças entre a re-
tam a origem ou domínio da entidade, isto é, o objetos que a brincante utiliza, durante o ritual. presentação desses dois rituais de cura realizados
elemento da natureza ao qual ela pertence, ge- O que se faz peculiar a cada ritual é o brinque- no Terreiro Fé em Deus, expressam as representa-
ralmente enfatizadas também na decoração do ções dos seus agentes em relação às entidades prin-
do que ocorre no segundo dia do ritual.
altar que é enfeitado com flores, santos católi- cesa Troirinha e o caboclo Pedrinho. Configuram
No brinquedo realizado na cura da entidade
cos, velas acesas e objetos que a brincante uti- ainda, as diversas formas de expressão da fé desses
princesa Troirinha, ela reúne o maior número
liza durante o ritual. agentes e refletem também as características des-
possível de meninas de aparentemente 10 anos
No decorrer do ritual, fica disponível no al- sas entidades no cotidiano de dona Elzita e dona
de idade para fazer uma roda e brincar de bone-
tar o azeite de dendê, os cigarros feitos artesa- Roxa, nas suas relações com o grupo do terreiro e
ca. Ela se põe no meio da roda e começa a passar
nalmente pelas pessoas da casa, três copos, um no cumprimento das suas obrigações religiosas, ou
a boneca para cada menina. Segundo dona Elzi-
contendo água, outro álcool e o terceiro vinho, seja, o espírito religioso se materializa em festa de
ta: “foi aos dez anos que dona Troirinha se mani- tambor de crioula e na roda de boneca em um
que são utilizados por algumas entidades que festou na minha cabeça”. Parece-nos que o brin-
comparecem ao ritual para atender as pessoas terreiro de tambor de mina.
quedo na cura da princesa Troirinha rememora
com problemas de saúde. Um pequeno punhal, esse fato e de certa forma é uma homenagem à REFERÊNCIAS
colocado ao lado dos copos, que também é uti- criança que a entidade escolheu, no caso, a dona
lizado nos trabalhos das entidades. Ainda não Elzita, para poder vir a este mundo e romper os DURHKEIM. E. As Formas elementares da vida
presenciamos nos rituais que assistimos no Ter- limites da encantaria, que pode ser uma criança, religiosa. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2003.
reiro Fé em Deus, o uso do punhal, mas este é FERRETTI, Mundicarmo. Desceu na Guma.
um homem... A verdade é que, como observou
São Luis: EDUFMA, 2000.
um dos objetos que as entidades utilizam para Durkheim (2003, p. 21), “também os deuses tem ————. Terecô, a linha de Codó. In: PRAN-
resolver determinadas situações (Mundicarmo necessidades dos homens: sem as oferendas e DI, Reginaldo (Organizador). Encantaria brasi-
Ferretti, 2000) ou problemas que as pessoas os sacrifícios, eles morreriam”. O brinquedo, na leira – O Livro dos Mestres, Caboclos e Encanta-
buscam resolver com as entidades da cura. cura da princesa Troirinha, pode suscitar muitas dos. Rio de Janeiro: Pallas, 2001, p.59-73.OLI-
No Terreiro Fé em Deus esse ritual é reali- reflexões. Inspira certa áurea de formalidade - VEIRA, Jorge Itaci. Orixás e Voduns no Terreiro
zado duas vezes por ano, naquela irmandade, mesmo brincando de boneca com as crianças, a de Mina. São Luis: VCR Produções e Publicida-
como o grupo se autodenomina. No mês de entidade mantém uma postura contida e discre- de Ltda, 1989.
Maio, nos dias 21 e 22, o ritual da cura é realiza- ta, diferentemente do brinquedo na cura da en- SILVA, Vagner G. Candomblé e Umbanda: ca-
do para homenagear a entidade princesa Troiri- tidade Pedrinho que é uma longa festa. minhos da devoção brasileira. São Paulo: Selo
nha, que é chefe da linha de cura na cabeça da A entidade Pedrinho é o caboclo que vem Negro, 1994.
mãe Elzita. Por sua vez, no mês de Outubro, na crôa ou cabeça de dona Rôxa e, apesar dele SANTOS, Maria do Rosário C. e SANTOS
nos dias 21 e 22, o ritual é para a linha do cabo- descer nos toques de mina, ele nos disse que na NETO, Manoel dos. Boboromina: Terreiros de
São Luis uma interpretação sócio-cultural. São
clo Pedrinho, que vem na cabeça de sua filha- verdade “é mesmo um curador”. Segundo ele, o
Luís: SECMA/SIOGE, 1989.
de-santo Rôxa. Há no terreiro, algumas pessoas seu ritual de cura no Terreiro Fé em Deus foi
ENTREVISTAS
com mediunidade, que também participam do uma “permissão dos donos da casa”, a princesa
(com dona Elzita e Maria Auxiliadora, no Terrei-
ritual recebendo entidades da linha de cura, Troirinha e o caboclo Surupirinha, o mensagei-
ro Fé em Deus).
mas somente dona Elzita e a sua filha-de-santo, ro do terreiro que tem “status” de dono. No seu

22 Segundo dona Elzita nos informou, quando perguntamos a ela sobre esta forma de classificar essas manifestações religiosas em linha e corrente:
“A linha de cura passa de parte da linha que vem do astral para o mar. A linha da cura é porque sai um entra outro. Ai vem do mar, vem da mata, vem do rio, vem
da maré. E corrente é porque tudo que vem do astro é corrente, corrente astral, mas nem todo mundo pertence, cada um é de uma maneira. Eu sou dessa maneira,
mas têm outros que não, nós não somos iguais”. (Em 05/02/07).
A partir das informações de dona Elzita, podemos inferir que linha se refere a uma categoria de entidade mais gerais ou comuns, que vem de todo lugar, e corrente se
reporta a uma determinada categoria de entidade. Será que pode ser considerada de nível mais alto dentro dos cultos e que, quando ela diz que “corrente é tudo que vem
do astro”, está se dizendo que vem do céu, que é sagrado, puro e está em outro plano, hierarquicamente superior?
Boletim 38 / agosto 2007 19

JANELA DO TEMPO

FESTA DE SÃO JOÃO23


Fulgêncio Pinto24

D as festas tradicionaes que ain-


da perduram nos costumes pi-
torescos do matuto maranhense, a do
Arvoredos altissimos, como por en-
canto trocam as roupagens. Symbolizam
um templo druidico, para receber a vi-
Junho
***

Os ensaios das batucadas estão se ani-


bumba-meu-boi é a mais interessante sita do sol americano que se arroja no mando pelos sitios de além.
pelo cunho caracteristicamente regional coração da matta com o seu cortejo lu- A matraca retine. Os pandeiros afi-
que ella encerra. minoso, para officiar os mysterios de nados a fogo, repimpam rufos assanha-
No interior da Ilha de São Luiz do uma religião agreste, e glorificar Pan no dos. A lufa-lufa cresce. Informações cu-
Maranhão com a belleza dos seus pano- santuario de ensinamentos divinos. E riosas correm de bôcca em bôcca. De
ramas pompeantes e a pujança verde de nessa invasão triumphal e gloriosa, elle vem em quando chega um matuto fala-
suas arvores millenares, ella exerce um vae despertando forças sagradas que ali dor para contar as noticias mais frescas
poderoso fascinio na alma do ilheu inte- se occultam, forças que hão de gerar da época joanina: - um baile em pers-
llingente, alegre e sapateador. uma arte verdadeiramente nacional, para pectiva na casa de fulano; um baptisa-
Nas ante-vesperas desse folguedo guiar o Brasil, atravez do sentimento da do turuna do filho de cicrano, na cape-
campesino, tão popular entre nós, vae belleza dos seus esthétas, á finalidade lla, de siô Augusto Almeida, puxado a
se notando que a ilha passa por uma de uma literatura propria, curiosa, de cavaquinho, violão e tiquira bôa do
transformação radical. imaginação e realidade, que assombra- Munim, com mesa de dôce e duas noi-
As casas mudam de aspecto. Os cer- rá pela sua originalidade as élites intel- tes de arrasta-pé; o levantamento de um
cados de pau-a-pique soffrem reformas. lectuaes do velho mundo. E em torren- mastro no tereiro de Dona Chiquinha
Todo mundo trabalha cantando, na re- tes impetuosa de imagens phantasticas, Major, no Tapiracó. E relata risonho e
modelação dos casebres, á espera do mez a luz se lança em projecçoes magneti- compenetrado, transbordante de con-
de junho que se approxima. Não chove cas sobre o rendilhado das ramagens, tentamento, a combinação feita em se-
mais. A invernada escaceia com os ulti- para ascultar a alma dos deuses selva- gredo, entre as morenas do Timbúba e
mos aguaceiros de maio. gens que celebram o ritual de sua litur- do Primirim, que estão no firme propo-
Surgem as manhãs luminosas de um gia tellurica no seio uberrimo daquella sito de dar uma tunda mestra de danças
encanto indescriptivel. selva povoada de divindades pagãs. puladinhas e valsas corridas, nos pilin-
Os ventos geraes infiltrando-se pelas Carro de boi grunindo saudades, lá tras impalamados do Mocajutúba, no
ramalheiras floridas, annunciam a mu- se vão atulhados de môças e rapazes forrobodó de André Cavallo de Sorte, até
dança da estação. A temperatura é agra- cheios de vida, cortando os areiaes dos deixarem os cabras moles de cansaço,
davel e tem qualquer coisa communica- atalhos ensombrados de folhas de pin- sujos de poeira, derreados de somno.
tiva que nos dá vontade de voltar ao tem- dobeira. E’ gente da capital que foge
po de criança, ás doces quadras de um do calor da cidade, para respirar o ar puro - Cabôco de Cajitúba, só tem que amuli-
passado feliz. do campo, em demanda de logares dis- cê na chuva cumo bêjú
Êrre diacho, bamo vê quem tem roupa na
Nas encruzilhadas dos caminhos, tantes, de vivendas apraziveis, a fim de
fonte !
amontoam-se toros de Aricurana, de ve- gosar dias de delicioso veraneio, em con-
lhos Cajueiros, roidos pela lepra do cu- tacto directo com esse reinado prodigio- ***
pim-assú, aguardando o lume, de onde so de folhagens, do meu berço abençoa- Chapéus ornamentados de fitas se
irão se levantar grossas labaredas chame- do que recebeu os mais enthusiasticos derramando em flabelos multicores, ao
jantes para alegrar a noite decantada de louvores de Daniel de La Touche, o en- lado dos gibões de belbutina azul e es-
S. João, o santo mais querido dos cabôclos viado especial de S. Magestade Henri- carlate, estendem-se ostensivamente nos
de minha terra formosa. que IV, el-rei de França e Senhor de peitoris das janellas e nos paus dos cer-
O povo começa a trançar sem descan- Navarra. cados.
ço pelo pizo das estradas. O formigueiro Nas fontes estouram as mopongas de A’ sombra dos piquizeiros, raparigas
humano espalha-se em todas as direcções. sons cavos. travessas, impando de mocidade, fuxi-
E a ilha heraldicamente remoçada, na Aqui serpeia um arrojo murmurante, cam, discutem por qualquer tuta-e-meia.
imponencia de sua vegetação brasilica, despejando as suas aguas christalinas E de dedal e agulha, ali ao ar livre, vão
numa festa de arte decorativa que seduz, para o bôjo de uma cacimba encanta- desenhando signos de Salomão, meias-
offerece á vista deslumbrada os forastei- da. Ali se nos depara risonha, prasentei- luas, estrellas mal ageitadas, crivando de
ros que passam, o esplendor de seus con- ra, uma casa de fôrno encaixilhada num lantejoulas douradas, fios de aljofares e
tornos, o quadro maravilhoso de seus po- terreiro tapetado de relva macia. contas de malacacheta, os mantos ver-
mares ramalhantes. Todos se alegram. Ha sorrisos de sa- melhos de pelucia dos namorados pai-
Ha contrastes de luz e epopéas de tisfação emoldurando os labios das ca- xólas, amos, primeiro rapaz e vaqueiros
corês. bôclas bonitas. do bumba-meu-boi de João Citóla, do

23 Revista ATHENAS, Junho de 1940, p. 10-15. Foi respeitada a grafia original.


24 Folclorista maranhense destacado nas décadas de 1930 e 1940, influenciado pelo modernismo (informação de Antonio Evaldo A. Barros).
20 Boletim 38 / agosto 2007

CONTINUAÇÃO

Jusaral. E ellas exhibem tudo Arriba siriba arriba, tigos, descorados, com chape- Oh! Lua cheia qui alumeia o
aquillo por pabulagem, so- Quero vê minha Yayá. letas de metal azinhavrado, má,
A noite é bella pra quem
mente para azer propaganda *** um arsenal emfim de de ve- sabe amá,
dos nomes seus preferidos e La vem um boi de cambu- lharias, para fazer alarde nes- Adeus morena que eu já vou-
deixar com agua na bocca, a lhada com os seus figurantes. sa noite de musicatas en- me embora,
gentalha invejosa da visinhan- Os enfeites prateados desta- cantadoras, em que se sente a Adeus, adeus, minha na-
ça, cujos parentes faltos de cam-se á luz dos faróes. Bri- alma da patria vibrar atravez morada,
recurso, não poderam prepa- “Terrô da Ilha” vae se arritirá.
lham as lantejoilas, as franjas das nossas cantigas folk-loricas.
rar-se para figurar ao lado dos douradas. Cabôclos reaes ves- Emquanto o boi dança no
companheiros, no folguêdo E longe, perdida nas bre-
tidos de pennas, tomam a di- terreiro a criançada no alpen-
desse anno. nhas, escuta-se a cantoria de
anteira do desfile pitoresco, dre tóca bichinhas de estra-
*** um outro bumba que segue
estrondando o pé rachado de los e brinca descuidada o Pa-
Noite de S. João. rumo differente:
areia quente, no chão plaina- dre Cura, o Peixinho de Mu-
Ardem as fogueiras aver- do a soquête. O amo, o pri- quem. Moças e rapazes sal- Cabôco cummerciá,
melhadas nos arraiaes. meiro rapaz, pai Francisco, tam a fogueira, dizendo com Vae dipressa no Ariá,
Foguetões estouram prô mãe Catharina, ou doutores, volupia no olhar: P’ra chegá e vortá,
lado das baixadas e dos ala- os vaqueiros e o resto do cor- Levá esta carta,
gadiços. E’ o signal de come- dão, carnavalescamente ves- S. Pedro, S. Paulo, Para aquelle cantadô,
ço da fuzarca de dona Chi- tidos, cantam toádas, interes- S. Felippe, S. Thiago Mais que elle mande a repós-
Todos os santos da côrte do ta,
quinha Major. O mastro já santes e saudosas de seu ri-
céu, Pelo memo portadô.
está plantado em frente de mance campeiro. E’ “Não Servirão de testemunhas,
uma palhoça enfeitada de Intica”, o boi mais afamado Como seu Fulano é minha A festa de S. João, é uma
ariry, rebocada de tabatinga, do lugarejo: sympathia. das mais lindas reliquias do
cheia de luz e atopetada de
sincretismo religioso afro-lu-
mulheres barafundeiras. Não Intica já chegou, Nas casas grandes, onde se
Não Intica qué brincá, sitano, transplantada para o
No altar illuminado, re- aboletam pessôas que foram
Morena chega á jinélla, Brasil pelos primeiros povoa-
pousa o santo da devoção. da capital, na maior intimi-
Vem vê boi balanciá. dores vindos de alem-mar.
Dá-se inicio á ladainha dade da familia maranhense
cantada com musica do com- Nessas noites concorridas
Este anno se ajuntemo, ainda apegada os usos e cos-
positor popular maranhense, P’ra fazê bella união, tumes de outr’ora, faz-se a de junho, de minha terra na-
Pedro do Rosario. Não Intica, é resorvido, sorte de S. João. E’ ôvo que- tal, noites cheias de musica,
Todos dois já são ermão. brado no copo d’agua. A faca cantares e poesia, sob o ple-
Santa, Dona Mundica mandou me nilunio dos tropicos, é que a
virgem que passada na fo-
Santa Maria, pedi, alma simples do matuto vibra
Não Intica, gueira de palha benta de Do-
Santa Dei Genitrix, de emoção.
Pr’eu levá boi, móde ella oiá, mingo de Ramos e cravada no
Santa Virgo Virginum,
Passa bahia, não tenho ca- tronco da bananeira, ao ser No dia seguinte ao raiar do
Mater,
Mater Christe... nôa, retirada deste, trará na lami- sol, a ilha de S. Luiz, mostra-
Ai meu Deus ! na, segundo a crendice inge- se mais formosa ainda no rei-
Quem me déra eu sabê nadá.
E o côro: nua do brasileiro nortista, as nado das suas clorophilas,
*** iniciaes ou o nome por intei- com a pompa atica e estesi-
Ora pró nóóó... bis... A patuleia anda sem direc- ro, do futuro espôso daquella ante dos seus pindoramas so-
ção, vinda dos recantos lon- que praticou a operação. A berbos.
Mais e mais cresce o rumo ginquos da ilha: do Turú, da pimenteira do quintal, em que E nesse dealbar de ma-
nas estradas. Gritos e vivas es- Inhaúma, do Cumbique e de a menina casadoira, de olhos nhãs pantheistas, ella se en-
poucam no ar. tantos outros lugares distan- vendados vae tirar o sortilegio, feita de gemas de luz colorin-
Festeiros barulhentos an- tes. E se tresmalha pelos ca- sob o commentario malicioso do os arvoredos. E expõe ao
dam em busca de batuca- das velhas e zumbaias das forasteiro, habitos invetera-
minhos e enviézos em que a
gés, esgoelando-se ao som companheiras: se apanhar dos, typos do meio ambien-
algidez do luar desdobra a
dos instrumentos de corda e uma pimenta madura, casar- te, os mais interessantes; sce-
alchimia maravilhosa do seu
percussão: se-á com um ancião narigudo, narios bucolicos, dentro de
manto de luz.
feio e ranzinza; si uma verde, um mundo botanico, supera-
Pára p’ra beber, Para essas festas desenter- terá por marido, um rapaz for- bundante de bellezas sump-
Paroára ! ram-se dos bahús de lata, pa- te, bonito e endinheirado. tuarias, sempre e sempre re-
Ora pára p’ra beber, letós curtos, sapatos janambú-
Paroára ! Ao terminar a demorada re- novadas aos olhos dos filhos
ras de elastico e bico arrebi- presentação, o boi se retira para queridos que amam o regio-
Valei-me Nossa Senhora, tado, ressequidos, besuntados dar lugar a um outro que já nalismo e cultuam as tradi-
S. José de Arribamá, á ultima hora, com azeite de vem perto, matraqueando, ções populares maranhenses,
Quem me dé tomem apanha, peixe-boi. De cima dos giráos onde repousam as revivescen-
afim de evitar as brigas perigo-
Qui outro reméido não á.
e do alto das tacaniças, são sas tão usuaes nesses encontros. cias totemicas do negro Ban-
Arriba siriba arriba, retirados das copas de jornal O amo canta a despedida tú, e as energias ingenitas da
Cajueiro, cajuá poeirento, guarda-chuvas an- saudosa: raça Tupinambá.
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CULINÁRIA MARANHENSE:
RECEITAS TRADICIONAIS Mundicarmo Ferretti
CUXÁ DE DONA CONSTÂNCIA 10 a 20 maços de cheiro ver- Preparação Fazer o arroz branco apro-
(Porção para 12 pessoas)25 de Cozinhar a vinagreira, es- veitando a água que cozinhou
Ingredientes ½ kg de cebola correr, reservando a água do a vinagreira. Quando come-
250 gramas de gergelim ½ kg de tomate cozimento para fazer o arroz, çar a secar, juntar o camarão
250 gramas de farinha seca 250 gr de pimentão e bater numa tábua com a com o gergelim, misturar e
mimosa (fina) pimenta de cheiro faca ou no liquidificador. adicionar a vinagreira batida.
250 gramas de camarão seco 1 pimenta murici Refogar o toucinho com os Abafar e servir quente.
2 maços de vinagreira Preparação temperos, misturar o arroz e
temperos: cebola, tomate, Cozinhar o jongome com o camarão, acrescentar parte Gengibirra (Nizeth
óleo e sal a gosto a vinagreira, escorrer, bater da água do cozimento da vi- Medeiros)28
Preparo da farinha numa tábua com a faca ou no nagreira completando com 1 kg de gengibre; 2 litros
Lave bem o gergelim e tor- liquidificador com parte da outra a água do arroz, para de água; açúcar a gosto.
re. Soque no pilão juntamen- água do cozimento, reservan- Coloque o gengibre de
não ficar muito azedo, com-
te com a metade do camarão do a água restante. Torrar o molho por um período de três
pletar o sal, caso necessário,
seco. Misture com a farinha gergelim com cuidado para dias, para facilitar a remoção
pois o camarão é salgado, jun-
seca mimosa e o resto do ca- não ficar muito escuro, socar da pele, que deve ser feita
tar o batido de vinagreira e
marão. no pilão ou passar no liquidi-
abafar. raspando-se com uma faca.
Preparo do cuxá ficador com a farinha e o ca-
Cortar em pedaços para ba-
marão comprado á descasca-
Tire as folhas da vinagrei- “Arroz de cuxá” ou batipu- ter no liquidificador com um
do. Cortar os temperos bem
ra do talo e cozinhe-as com ru (Admée Duailibe)27 pouco de água. Depois de
miudinho, bater ligeiramen-
água pura. Retire do fogo, Ingredientes batida, esprema para separar
te no liquidificador com um
escorra a água, que não deve 1 Kg de arroz branco o suco do bagaço com o auxí-
pouco da água da vinagreira,
ser jogada fora. Use uma faca 10 maços de vinagreira lio de uma peneira. Junte o
a pimenta de cheiro e uma
para bater a vinagreira sobre 500 gr de camarão seco (des- restante de água e o açúcar.
pitada de sal. Botar na pane-
uma tábua. Refogue a vina- cascado) Caso fique forte (ardor) colo-
la, juntar o batido de vinagrai-
greira com a cebola, tomate, ra e jongome, a farinha com 250 gr de gergelim que mais água. Sirva bem ge-
um pouco de óleo e sal a gos- o camarão e o gergelim, par- 1 cebola grande picadinha lada.
to. Junte água pura e um pou- te da água da vinagreira, do- 1 tomate picado
co da água que cozinhou a vi- sando a primeira para o cuxá 1 pimentão picado Mocororó ou Macururu
nagreira. Vá juntando aos não ficar muito azedo, outra (Zelinda Lima)29
2 maços de cheiro verde
poucos a farinha até formar água. Experimentar o sal, jun- Semear, com antecedên-
4 dentes de alho socados
uma papa rala (ao esfriar en- tar a pimenta murici machu- cia, 1 ou 2 punhados de arroz
com sal
grossa). Molhe um pouco a cada sem semente e o cama- em casca e aguardar a germi-
Modo de fazer
farinha antes de misturar, rão inteiro descascado, um nação. Quando germinado,
Tirar os talos da vinagrei-
para não embolar. Deixe para pouco de massa de tomate e preparar, à parte, um mingau
ra e colocar em uma panela
colocar o sal no final devido de óleo. Não deixar cozinhar bem grosso de fubá de arroz
com água para cozinhar. Tor-
ao camarão seco. muito para não amargar e e deixar esfriar. Tomar então
rar o gergelim e socar em um
nem parar de mexer para não as sementes germinadas, la-
O CUXÁ DO RESTAURANTE pilão ou passar no liquidifica-
ficar preto. var, cuidadosamente, os bro-
TÍPICO “A DIQUINHA”26 dor. Reservar
tos, pisá-los em um pilãozinho
Ingredientes “Arroz de Cuxá” (batipuru) Lavar o camarão em vári-
de madeira, coando o sumo
50 maços de vinagreira da Diquinha as águas, temperar com cebo-
resultante, que é vertido no
150 gr de farinha seca (bem Ingredientes la, tomate, pimentão, cheiro boião no qual já se encontra
fina) 15 a 20 maços de vinagreira verde e alho socado com sal. o mingau. Por ao abrigo da luz
250 gr de gergelim 1/2kg de arroz Refogar bem e reservar. e do calor e aguardar a fer-
½ kg de camarão seco já des- camarão seco descascado Escorrer a vinagreira, que mentação que, em geral, dura
cascado toucinho cortado bem miudi- deve estar cozida, aproveitan- 48 horas. Está pronta a bebi-
250 gr de camarão seco com nho do a água para fazer o arroz, da, já adoçada pelo açúcar
casca temperos (cebola, tomate, passar no liquidificador com nascente da fermentação do
3 maços de jongome (só para alho, pimentão, cheiro verde um pouco de água em que foi amido e ligeiramente alcoó-
ajudar a ligar) picados) cozida e reservar. lica.

25 Colaboração de Nizeth Medeiros – professora da UFMA; membro da CMF.


26 As duas receitas de Diquinha foram fornecidas a Josimar Silva, em entrevista realizada em 8/6/2007.
27 Baseado em receita fornecida em www.admee.hpg.ig.com.br
28 Transcrita do Boletim de Folclore nº 22 – julho de 2002 - encarte, p.2.
29 Transcrita do livro Pecados da gula: receitas (LIMA, 1998, v.2, p. 100) como bebida de origem indígena. A receita foi obtida por Zelinda Lima de Ana Amélia Lima. Augusto

Aranha faz referencia ao mocorroró em Memória de Velhos, v. II (p. 177), como bebida gelada, adorável, vendida por mulheres pretas que passavam nas ruas gritando:
“mocororó, mocororó!”.
22 Boletim 38 / agosto 2007

NOTÍCIAS
Roza Maria dos Santos30

Tesouro Vivo da Cultura PPopular


opular Lei incentiva o reconhecimento
do TTesouro
esouro Vivo
O reconhecimento e a valorização dos mestres da cul-
tura popular do Maranhão estão presentes no “Tesouro
Vivo”, um projeto do Serviço Social do Comércio-SESC, compro-
Criado oficialmente através da Lei nº 4.652, de 21 de agosto de
2006, o programa “Registro dos Mestres da Cultura Tradicional
metido com o fortalecimento das raízes culturais da população ma- Popular da Cidade de São Luís” (PRMCTP-SL) é fruto de uma
ranhense, em parceria com a Comissão Maranhense do Folclore, iniciativa do vereador Joberval Bertoldo e se propõe a valorizar a
Secretaria Municipal de Cultura e a Câmara dos Vereadores de São cultura popular de São Luís, preservando as tradições locais, através
Luís, que será realizado no período de setembro a outubro de 2007. do registro de pessoas que tenham técnica necessária para a produ-
O projeto visa homenagear àqueles que durante grande parte de ção e a preservação dos saberes culturais, que fazem parte da memó-
suas vidas desempenharam e desempenham importante papel nas ria oral da sociedade.
tradições populares maranhenses. Para participar do programa, os mestres, também conhecidos
O reconhecimento e a relevância dos mestres da cultura popular como “Tesouros Vivos da Cidade de São Luís”, precisam ser brasi-
para a sociedade maranhense já estão presentes em algumas inicia- leiros, residentes em São Luís há mais de 20 anos; comprovar a
tivas, como é o caso da Lei 4.652, sancionada pela Prefeitura Muni- participação em atividades culturais há mais de 20 anos; serem ca-
cipal de São Luís, que criou o Programa “Registro dos Mestres da pazes de transmitir seus saberes para as gerações futuras (esta exi-
Cultura Tradicional Popular da Cidade de São Luís”. A lei tem entre gência poderá ser dispensável em caso de doença comprovada por
outros objetivos, assegurar aos mestres e mestras um auxílio finan- perícia médica) e terem vida e obra relevante para a cultura local, já
ceiro e atribuir deveres de repasse de seus conhecimentos para gera- que o reconhecimento público é importante.
ções futuras. Os mestres reconhecidos como “Tesouros Vivos da Cidade de
O projeto “Tesouro Vivo” é, portanto, uma decorrência da lei e, São Luís” terão seus nomes registrados no livro “Registros dos Mes-
mais um importante esforço de valorização dos guardiões dos sabe- tres da Cultura Popular da Cidade de São Luís” e um auxílio finan-
res populares, funcionando como um benefício social e pedagógico ceiro de um salário mínimo mensal a ser pago pelo Executivo Muni-
na medida em que divulga e cria fundamentos de estímulo à produ- cipal, para garantir a estes cidadãos uma qualidade de vida digna da
ção intelectual sobre os mestres e suas obras culturais. sua sabedoria.
O projeto inclui uma ampla programação com homenagens, di- No intuito de preservar os saberes, para que não se percam pela
vulgação e transmissão do trabalho desses mestres para as gerações falta de registro ou qualquer outro problema, os mestres deverão se
futuras, além de pesquisas, organização de um banco de dados sobre comprometer a repassar seus conhecimentos e técnicas para apren-
a produção cultural popular do Maranhão, seminários, palestras, dizes participantes de programas de ensino organizados pelos ór-
exposições, apresentações culturais e artísticas, concursos de reda- gãos específicos de difusão da cultura local, a serem fiscalizados pelo
ção, registros áudio-visuais e sonoros, entre outras atividades. Estu- município.
dantes, professores, associações culturais, comerciários e pessoas
interessadas podem participar do projeto.
LANÇAMENTO DE MULHERES
NOVA DIRETORIA CMF NEGRAS DO BRASIL
Eleita a nova diretoria da Tesoureira - Lenir Pereira dos San-
O livro Mulheres Negras do Brasil, de Schuman Schumaher e
CMF para o biênio 2007/2008: tos Oliveira. A eleição e posse da
Érico Vital Brazil, publicado pelo SENAC Nacional, em parceria
Presidente - Maria Michol Pinho diretoria foi realizada dia 11 de
com a REDEH-Rede de Desenvolvimento Humano, foi lançado em
de Carvalho; Vice-Presidente - julho, às 9:30 horas, na Sala de
São Paulo, no dia 23 de abril de 2007. A obra, que tem 496 páginas,
Roza Maria dos Santos; Secretá- Reunião da CMF, Casa de Nhozi-
ria - Nizeth Aranha Medeiros; nho, Rua Portugal, 185 - Centro. agrupa imagens e informações que estavam dispersas em arquivos,
instituições, coleções particulares, livros, teses, periódicos e na lem-
MORRE O PAI-DE-SANTO brança das pessoas. Disponibiliza para as próximas gerações, dados
fundamentais ao entendimento e à justa valorização das múltiplas
ZÉ PINHEIRO funções exercidas pelas mulheres negras na edificação do Brasil.
Morreu aos 67 anos de idade, por insuficiência respirató- Imagens e informações sobre mulheres negras do Maranhão podem
ria, José de Ribamar Pinheiro, dia 02 de julho. Zé Pinheiro, ser encontradas nos seguintes capítulos: As mulheres sagradas: mães
que nasceu em 16 de agosto de 1939, foi o quarto chefe do de santo, mães de tantos - fotos da casa de Maximiniana; Casa das
Salão Pedra de Mirá - situado à Rua Nossa Senhora da Vitó- Minas; Casa de Nagô; Mundica Estrela - Terreiro do Justino; Terrei-
ria, 16B – Miritiua/Ribamar - terreiro de culto afro-maranhense ro da Turquia; Mundica Tainha; Casa Fanti-Ashanti; Denira; Elzi-
centenário (faz 100 anos em 2008). Ele acumulava a atividade de ta; Margarida Mota; Terreiro de Iemanjá; Mariinha – Tenda Santa
pai-de-santo com a função de Diretor para assuntos de culto-afro, Terezinha; Antoninha – Codó; Izabel Mineira – Cururupu; No
junto à Federação de Umbanda, Espírita e Cultos Afro-Brasilei- mundo da política: do sufrágio à tribuna - foto de Maria Aragão; Lia
ros do Estado do Maranhão, da qual foi oito anos presidente. Na Varela; Mulheres negras em movimento: um breve panorama das
vida civil era reformado da Polícia Militar do Maranhão e foi De- últimas três décadas - grupo Mãe Andresa; Maria de Lourdes Si-
legado de Polícia em vários municípios como: Miranda, Alto Ale- queira; Mundinha Araújo; Cultura: as que tecem valores - grupo de
gre, Pindaré, São Luís Gonzaga, entre outros. Tambor de Crioula (1938); Caixeiras de Alcântara; Pelos palcos da
vida - Alcione; capa de livro de Maria Firmina, com o pseudônimo
30 Bacharel em Comunicação; membro da Comissão Maranhense de Folclore. “Uma Maranhense”.
Boletim 38 / agosto 2007 23
CONTINUAÇÃO

JORNADA COMEMORTIVA DOS 34 ANOS DO MHAM


Para comemorar 34 anos de de inclusão social. Para cumprir da – Patrimônio Cultural, coor- Sérgio Ferretti. Dia 27 - Museus
criação do Museu Histórico e Ar- a Jornada, de 24 a 28 de julho, denada pela Mestre Grete Pflue- e Educação em pauta na mesa-
tístico do Maranhão, a equipe foram realizados conferências, ger (UEMA), teve como debate- redonda coordenada pelo Prof.
do MHAM abriu debate sobre o mesas-redondas, comunicações dores: Historiador Ananias Mar- Dr. Paulo Rios (CEMOC-
papel dos museus na atualidade. orais, exposição de painéis, ofi- tins; Profa. Mestre Claudecy TRT/MA), com os debatedores:
Pesquisadores, representantes cinas, exibição de documentári- Costa (MHAM); Prof. Mestre prof. Dr. João de Deus (UFMA);
do poder público e estudantes os, programação cultural e cir- Klantenis Guedes (UFMA). No Davi Rego (pesquisador); Arte-
debateram sobre museus como cuito de visitas. A abertura da dia 26 - mesa-redonda - Negras educadora Elisene Matos
espaços de comunicação, como Jornada, dia 24, foi feita pela Co- Memórias, coordenada por Ci- (MHAM). A conferência de en-
não só os acervos dos museus, ordenadora de Conservação do bele Bittencourt (MHAM), ten- cerramento - Museu como lu-
mas também, os programas, pro- Museu Nacional de Belas Artes/ do como debatedores: Prof. Dr. gar de Memória - dia 28, foi pro-
jetos e ações podem ser utiliza- IPHAN/MinC, Nancy de Cas- Josenil Pereira (UFMA), Magno ferida pelo arqueólogo, Deusdé-
dos como recurso educacional e tro Nunes. Dia 25 – mesa-redon- Cruz (membro/CCN) e Prof. Dr. dit Carneiro Filho.

IMAGEM DE SÃO 30º GUARNICÊ PREMIA


BONIFÁCIO DO MARACU DVD SOBRE CUXÁ
O Comitê de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Pai-
sagístico e do Meio Ambiente de Viana solicitou tombamento
da imagem de São Bonifácio do Maracu junto ao IPHAN, como
C uxá: prato típico tradicional do Maranhão – vídeo docu-
mentário realizado pela Comissão Maranhense de Folclore
para o registro do Cuxá como patrimônio imaterial do Maranhão
relíquia de inestimável valor histórico-cultural a ser defendido e ganhou prêmio na 10ª Mostra Refestança do 30º Guarnicê de Cine-
preservado. A imagem foi presente do Papa Urbano VIII aos pa- ma, pelo juri popular. Direção: Cícero Silva; Roteiro: Cícero Silva e
dres das Companhia de Jesus, trazida de Roma pelo Padre Mano- Zelinda Lima; Argumento: Zelinda Lima e Mundicarmo Ferretti;
el de |Lima, desembarcou em São Luís em 1652. Segundo a me- Edição e Finalização: Roberta Azzolini. O DVD pode ser adquirido
mória oral vianense a imagem de madeira policromada chegou à no Bazar do Giz (no Centro de Cultura popular Domingos Vieira
Baixada Maranhense pelas mãos dos próprios jesuítas no final Filho).
do século XVII.
SESC-MA APÓIA REGISTRO DO CUXÁ
MOSTRA CULTURAL
DO PIQUI DA RAMPA O SESC-Regional do Maranhão produziu em DVD um do
cumentário reforçando seu apoio ao pedido de registro do
cuxá como patrimônio imaterial do Maranhão. O DVD Cuxá tem
A Associação Comunitária do Povoado de Piqui da Rampa/ Roteiro e Direção Geral de Cláudio Farias; Produção Executiva e
Vargem Grande-MA, realizou Mostra Cultural do Piqui da Ram- Edição de Joan Santos; Assistente de Produção: Dida Magalhães;
pa, em São Luís (dia 28 de junho) e nos municípios de Itapecuru- Imagens de César Santos; Assistentes: Domingos Mendes e Cha-
Mirim (29) e Vargem Grande (30). O objetivo é possibilitar a cir- guinha Costa; Fotografia: Caio Márcio; Direção de Imagens e Mu-
culação do produto cultural regional, romper o isolamento da sical: Cláudio Farias.
comunidade e criar condições de visibilidade e articulação com
outros grupos de tambor, outras associações e representações do CULINÁRIA NO ARMAZÉM
movimento negro em São Luís. Durante a mostra foram realiza-
das palestras, exposição de artesanato, lançamento o livro Tam-
bores de Piqui, Cartas de liberdade: memória de trajetória da
comunidade de Piqui da Rampa e apresentação do tambor de
O Espaço Armazém, na Praia Grande, está apresentando até
o dia 26 de agosto, a exposição fotográfica Culinária de
Wilson Marques, Nael Reis e Edgard Rocha. A exposição está aberta
crioula de Piqui. Em São Luís o evento aconteceu no Museu ao público de Segunda a Sexta, das 10h às 21h e no Sábado, das 16h
Histórico e Artístico do Maranhão. às 22h. Culinária faz parte da série de exposições inspiradas no pro-
jeto Perfil Cultural e Artístico do Maranhão, realizado pela AMAR-
TE – Associação de Apoio à Música e à Arte do Maranhão, com o
GRANDES RELIGIÕES NAS patrocínio da Companhia Vale do Rio Doce.

BANCAS DE JORNAIS HOMENAGEM A


A Revista História Viva, da Duetto, lançou a série Grandes AUGUSTO ARANHA MEDEIROS

O
Religiões – uma visão histórica das principais tradições religiosas
centenário do nascimento de Augusto Aranha foi come
do mundo. Em seu sexto número - GRANDES RELIGÕES - morado com uma celebração eucarística realizada no dia
CULTOS AFROS: A Sagração do Sincretismo - tem como con- 11/08, na Capela da Irmandade de Bom Jesus dos Navegantes, insti-
sultor Vagner Gonçalves da Silva e textos assinados por Sérgio tuição a que se dedicou por 70 anos. A comemoração, que foi orga-
Ferretti, Mundicarmo Ferretti e Norton F. Corrêa (professores nizada por sua filha e sucessora, Nizeth Medeiros - professora da
da UFMA), Luiz Assunção, Roberto Motta, Rita Amaral, Ari UFMA e membro da Comissão Maranhense de Folclore -, reuniu
Pedro Oro, Alejandro Frigerio, Padre Clóvis Cabral e vários pelo grande numero de amigos que conviveram com ele em diversos mo-
próprio Vagner. mentos dos seus quase 93 anos de vida.
24 Boletim 38 / agosto 2007

Perfil Popular
Raimunda Menezes de Aguiar – Diquinha30
Josimar M. Silva31

R aimunda Menezes de Aguiar, mais co-


nhecida como Diquinha, nasceu no
município de Codó, no dia 10 de agosto de 1933.
Morou com a avó até os 13 anos, quando a mes-
ma morreu e ela ficou só, pois todos os seus fami-
liares já eram falecidos. Começou então a traba-
lhar em casa “de família” como empregada do-
méstica. Mais tarde foi tecelã na fábrica de teci-
dos daquela cidade, de propriedade dos Archer.
Casou com o comerciante José Domingos de
Aguiar enfrentando preconceitos de alguns pa-
rentes dele, pois alegavam que ela não tinha fa-
mília. Depois de casada, com o apoio do marido, disse que nunca vi, ela comprou uma porção e
aprendeu a costurar e bordar, tornando-se profis- trouxe pra eu olhar; fica uma coisa feia, mas
sional do ramo. Costurava para a família de Se- cada um tem seu jeito de cozinhar”...
bastião Archer, que foi governador do Maranhão Com a ajuda de amigos da Caixa Econômi- O Restaurante Típico A Diquinha é famo-
e para as mulheres “da vida” (meretrizes), que ca, que lhes deram tábuas e outros materiais, so pela gostosa carne-de-sol, produzida pela
muito a ajudaram em uma fase difícil de sua melhorou a barraca, mas, como na compra da própria dona Diquinha e servida com cuxá. Ela
vida, quando o marido foi enganado pelo sócio, barraca não foi passado recibo, a antiga dona conta que começou a servir esses dois pratos
perdeu tudo o que tinha, e foi para São Luís, voltou a ficar com ela, apesar dela ter reagido juntos a partir da década de 1980, quando seus
onde esperava ter melhor condição de vida. fortemente e de ter passado quase seis meses clientes começaram a pedir carne de sol com
Depois que o marido arranjou emprego, veio indo à Policia, tentando continuar com a barra- cuxá. Aliás, ela afirma que eles comem tudo
para São Luís com o filho de 9 meses e uma ca. Em 1967 alugou um ponto comercial na Rua com cuxá: torresmo, tripinha frita, carne de por-
menina que deveria ficar em casa com ele para do Poço, no bairro da Floresta, onde ampliou co assada, isca de peixe etc. e que às vezes
ela poder trabalhar. O marido entrou para o Cor- sua venda de refeições fazendo: peixe frito, di- pedem cuxá como entrada. O cuxá é o “carro
po de Bombeiros e depois foi para a Policia. versos tira-gostos, pato, sarrabulho, mocotó, tri- chefe” do restaurante da Diquinha, e ela escla-
Foram tempos difíceis, lembra que quando ele pinha e torresmo. Comentando agora o seu su- rece: “quando não tem cuxá eu não vendo nada”.
falava em ir embora, para procurar trabalho em cesso declarou: “eu não sabia trabalhar com Dona Diquinha conta que o senador Sarney,
outra cidade, ela dizia: “estamos atravessando a comida, aprendi a cozinhar fazendo e experi- sempre que está em São Luís, manda comprar
mentando, mas o cuxá eu aprendi em Codó”. cuxá no seu restaurante para o banquete fami-
nossa ‘baía’, nós vamos atravessar juntos; te-
Em São Luís, morou em vários bairros até liar e que em junho passado, Dona Marly Sarney
mos que criar nosso filho juntos”... Mas, reme-
que se mudou para a casa onde reside atual- encomendou a ela uma quantidade substanci-
morando essa passagem, exclamou: “os dois
osa de cuxá para ser vendido em barraca bene-
morreram, mas enquanto estavam vivos eu não mente e funciona o Restaurante Típico “A Di-
ficente. E acrescenta que Pergentino Holanda,
me separei deles”. quinha” (Rua João Luís, nº 62 – Diamante). Em
Alcione, Fred e Alfredinho Duailibe, Dr. Fran-
Chegando à cidade, dona Diquinha, como 1972, no período junino, conheceu Dona Zelin-
co, Dr. Fonseca, entre outros, são pessoas que
seu marido não aceitava que ela colocasse na da, que trabalhava na MARATUR, quando foi
sempre prestigiam a sua comida, às vezes co-
porta a tradicional placa “costura-se para fora” convidada por ela a participar com uma barra- mendo no restaurante A Diquinha e outras ve-
(que na gíria, significa “trair o marido”), passou a ca de comidas típicas no arraial do Parque do zes levando para casa.
costurar para as camisarias da Rua Grande e Bom Menino. Nessa época começou a fazer Para os freqüentadores do restaurante da
para as “mulheres da Rua Vinte e Oito” - “mu- cuxá para vender. Já estava com o restaurante Diquinha ou que costumam encomendar a ela
lheres da vida” (prostitutas) no linguajar mara- na rua João Luís, bairro do Diamante, chamado pratos da culinária maranhense, a comida de
nhense - que lhe pagavam um preço melhor. de “Base da Diquinha”, onde cozinhava e ven- dona Diquinha é inigualável. E ela, apesar da
Esse dinheiro ajudava a pagar o colégio do fi- dia cerveja. Na barraca as comidas principais sua simplicidade, tem orgulho de exibir na pare-
lho, que estudava no Zuleide Bogéa. Como era do seu cardápio eram: sarrabulho, mocotó, cari- de um quadro com um certificado de qualidade
“bem relacionada”, conseguiu comprar tecidos ru, bobó, cuxá e baião-de-dois. Afirma que em do seu restaurante, avaliado como “quatro estre-
e fazer roupas para vender, tendo o senhor Maia, Codó, na sua época, quase toda casa tinha pé las”, que informa ter recebido de Sarney, quando
dono do Hotel Central, como avalista. Conta de cuxá (vinagreira) e que a comida denomina- ele era Presidente da República. E esclarece: “o
que só deixou de costurar quando foi operada, da cuxá era feita para consumo caseiro, não era espaço já não é quatro estrelas, mas a comida,
com hemorragia interna, por causa de “filho na vendida. Falando a respeito de comida típica principalmente o cuxá, continua sendo”.
trompa”. Passou também a vender comida: tor- dona Diquinha explica que existe o cuxá (como Diquinha é uma mulher otimista, batalha-
resmo, tripinha, café, leite. Depois comprou o que serve em seu restaurante) e o “arroz de dora, que gosta de trabalhar e que lutou muito,
uma barraca na Praia Grande passando a fazer cuxá” (arroz de vinagreira), que faz por enco- mas conseguiu viver com a sua família e ser
comida para o pessoal da Alfândega e para os menda, e acrescenta: “uma moça me disse que reconhecida como uma das maiores especialis-
estivadores. comeu ´arroz de cuxá´ com gergelim e, como eu tas em comida típica do Maranhão.
30 Baseado em entrevista realizada em 8 de junho de 2007 e em informações fornecidas pela pesquisadora Roza Maria dos Santos - CMF. Fotos de Margareth Figueiredo.
31 Licenciada em História; pesquisadora de cultura popular; membro da CMF.

www.culturapopular.ma.gov.br