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Capa

«MAGNIFICO!»

Library Journal

«EMPOLGANTE!»

Publishers Weekly

THRILLER HISTÓRICO

O Mistério das Lágrimas da Virgem

Alana White

MARCADOR

Badana da capa

A paixão de Alana White pela Itália Renascentista levou-a inúmeras vezes


a Florença para pesquisar sobre as famílias Vespucci e Medici. Lá, pelas
ruas de seixos centenários, segue o seu rasto, ao som das vozes
imaginárias de Guid'Antonio Vespucci, Sandro Botticelli, Miguel Angelo e
Lorenzo de' Medici. Este livro, protagonizado pelo advogado florentino do
século XV, Guid'Antonio Vespucci, uma personagem real, e o seu sobrinho
favorito, Amerigo Vespucci, foi um dos finalistas do Macavity Award.
Alana White faz parte do Authors Guild, da Sisters in Crime, da Women's
National Book Association e da Historical Novel Society. Alana adora
ouvir a opinião dos leitores e, se assim o desejar, pode contactá-la na
sua página web, em: www.alanawhite.com. Aqui, encontrará Guid’Antonio,
conforme o seu contemporâneo Domenico Ghirlandaio o retratou na Capela
Sistina, assim como outras imagens e narrativas da Itália do século XV.

Badana da contracapa
O Mistério das Lágrimas da Virgem é uma intriga maravilhosamente tecida
que agradará aos amantes dos romances históricos e policiais medievais e
renascentistas.

Seguindo um rasto de pistas aparentemente desconexas - um nome sussurrado


no mercado por um monge encapuzado, uma mensagem secreta pintada por
Sandro Botticelli num mural da capela da família Vespucci -, Guid’Antonio
percorre Florença, passando pelas oficinas de Leonardo da Vinci e
Botticelli, e pelas igrejas de onde os frescos parecem simplesmente estar
a desaparecer das paredes, descobrindo a perturbadora verdade sobre a
rapariga desaparecida e sobre as intrigantes e milagrosas lágrimas da
Virgem, enquanto se debate com os seus próprios demónios pessoais.

Contracapa

UM NOME ESCONDIDO

UM MONGE SEM ROSTO

UMA MENSAGEM SECRETA

Verão de 1480. O aclamado advogado florentino Guid'Antonio

Vespucci regressa a Itália depois de uma missão governamental,

mas encontra frustrados os seus sonhos de paz.

Saqueadores turcos terão raptado da cidade uma jovem e bonita

rapariga, e tê-la-ão vendido como escrava. Além disso, um dos

quadros da capela da família de Guid’Antonio mostra agora uma

Virgem Maria a chorar.

Os florentinos, zangados e receosos, interpretam estes acontecimentos


como sinais da fúria de Deus perante o seu apoio

ao líder da cidade, Lorenzo de' Medici, e à recusa de Lorenzo em

acabar a guerra com o papa.

Na iminência de perder o controlo sobre a cidade, Lorenzo

encarrega Guid'Antonio, seu amigo e fiel aliado político, da

investigação do misterioso quadro e do desaparecimento da bela

rapariga.
«Um romance histórico empolgante desde a primeira página.»

Publishers Weekly

«Intriga, mistério, perigo... Historicamente fascinante... Magnífico!»

Library Journal

Folha de rosto

O Mistério das Lágrimas da Virgem

Alana White

Tradução de Ana Mendes Lopes

MARCADOR

Ficha Técnica

A presente edição segue a grafia do novo Acordo Ortográfico da Língua


Portuguesa.

info@marcador.pt

www.marcador.pt

facebook.com/marcadoreditora

©2013

Direitos reservados para Marcador Editora

uma empresa Editorial Presença

Estrada das Palmeiras, 59

Queluz de Baixo

2730-132 Barcarena
Copyright © 2012 by

Título original: The Sign of the Weeping Virgin

Autora: Alana White

Tradução: Ana Mendes Lopes

Revisão: Joaquim E. Oliveira

Paginação: Maria João Gomes

Capa: Dinis Marinhos/Marcador Editora

Personagem de capuz: © Stephen Mulcahey/Arcangel Images

Outras imagens: © Shutterstock Images

Impressão e acabamento: Multitipo - Artes Gráficas, Lda.

ISBN: 978-989-8470-96-6 Depósito legal: 363 252/13

1ª edição: setembro de 2013

Para o meu marido, que me deu de presente o tempo

AGRADECIMENTOS

A minha vida tem sido abençoada pelas bibliotecas. Ficaria por isso em
dívida se não expressasse a minha mais absoluta gratidão pela calma e paz
constantes que nela reinam. Elas foram o meu porto seguro, o meu paraíso
em tempos de maiores dificuldades. Na minha infância, abasteceram-me de
livros — de graça. Mais tarde, mostraram-me o mundo do Renascimento
Italiano quando comecei a explorar essa época histórica colorida e
complexa. Abençoado seja o Intercâmbio entre Bibliotecas que fez com que
fosse possível ter nas minhas mãos livros escritos por estudiosos do
Renascimento Italiano, do passado e do presente, cujo trabalho não
estaria disponível de outra forma. Gostaria de agradecer em particular à
Biblioteca Pública de Nashville por me facultar a utilização em privado
de uma das suas adoráveis e sossegadas salas de escrita: uma secretária,
um candeeiro, uma estante e eu. O paraíso.

Quero agradecer ao meu grupo de escrita, a Aliança de Escritores de


Nashville, por muitos anos de críticas coerentes, principalmente a Sallie
Bissell e Madeena Nolan, que me deram sugestões preciosas a respeito das
primeiras fases deste livro. Por fim, quero agradecer a todos os membros
do grupo a sua amizade duradoura e todo o apoio. A família é tudo.

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CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA

Em 1480, Florença era um dos cinco centros de poder que dominavam Itália,
então retalhada em cidades-Estado independentes. Situadas na região norte
da península soalheira em forma de bota, encontram-se Veneza e Milão.
Veneza, uma oligarquia no mar Adriático onde um doge era nomeado
governador vitalício, tinha como principal atividade o comércio marítimo
— de especiarias, de escravos, de metais preciosos e de sedas luxuosas;
esta economia foi ameaçada pelo avanço firme dos turcos otomanos que, em
1460, invadiram de modo significativo vários territórios europeus em nome
da jihad, a sua guerra santa.

A oeste de Veneza localiza-se Milão, reduto dos duques Sforza. A mudança


de alianças e as quezílias familiares ensombraram a sucessão ducal. As
relações entre o Ducado de Milão e o Leão do Adriático eram hostis, com
cada um dos governos a aspirar ao alargamento das suas fronteiras às
custas do adversário.

Mais para sul, junto ao tornozelo da bota italiana, o rei Fernando


governava Nápoles. O seu filho mais velho, o príncipe Alfonso (também com
o título de duque de Calábria), era um soldado profissional com uma
predisposição para usar a sua superioridade militar napolitana em prol do
domínio da casa da família (a Casa de Aragão) sobre Itália.

A norte de Nápoles ficavam os Estados Papais, presididos em Roma pelo


papa Sisto IV. Enquanto construía a Capela Sistina e aumentava a
biblioteca do Vaticano, Sisto IV mergulhou na política. Com uma grande
quantidade de sobrinhos e imensamente dedicado ao nepotismo, nomeou seis
deles cardeais.

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Para o seu favorito, Girolamo Riario, Sisto IV queria nada mais nada
menos que uma suserania num dos Estados Papais, onde, na verdade, o papa
governava apenas em nome. Embora bajulassem a autoridade papal, as
famílias locais governavam as cidades daquela província desordenada.

Localizada nas colinas verdejantes e ondulantes do vale do Arno,


Florença, construída numa antiga povoação romana, era uma república cujos
cidadãos se mantinham fiéis aos meandros de um governo democrático desde
finais do século XIII. Para eles não existiam reis, senhores ou duques.
Para evitar que o poder ficasse cativo de qualquer homem, o governo
mudava com uma velocidade estonteante, à medida que os membros dos
comités devidamente eleitos eram substituídos por novos homens que se
qualificavam por meio de um sorteio. Ironicamente, o que os florentinos
ferozmente democráticos tinham criado fora um governo que mudava tão
frequentemente que os restantes grandes poderes de Itália procuravam um
homem ou uma família para enfrentar, por considerarem que Florença era um
alvo fácil.

A conceção instável do governo florentino também enfraquecia a república


na própria cidade. Ao longo do tempo, uma classe política sele-ta
constituída por várias centenas de famílias chegou ao poder dentro das
muralhas. Em meados do século XV, estas famílias eram então governadas
por cerca de quinhentos homens e audaciosamente localizada no epicentro
deste grupo encontrava-se a família Medici, que governava do seu palácio
na Via Larga; eram eles os líderes não oficiais, ou de facto, de
Florença. Por que motivo se viraram os líderes estrangeiros e os cidadãos
de Florença para uma família para representar a cidade? Porque lidar com
uma família — um homem, uma fação, uma voz — era o único recurso quando o
governo mudava praticamente de dois em dois meses.

Durante cinquenta anos, houve apenas uma ocasião em que o poder dos
Medici foi verdadeiramente desafiado; isto aconteceu, conforme relatado
no Mistério..., pela mão de uma família rival em 1478, que tentou livrar
Florença do seu líder, o brilhante humanista renascentista, poeta e
estadista não eleito, Lorenzo de' Medici, e os seus apoiantes — eleitos
ou não.

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PRÓLOGO

Guid'Antonio entrou na Catedral de Florença no fim da manhã de Domingo de


Páscoa, pestanejando quando a porta da frente se fechou e o sol se perdeu
na escuridão. Dentro do santuário, atravessou a nave por entre as tochas
sibilantes, afastando homens da sua frente, numa irritação crescente. A
voz única e doce do coro era apenas um murmúrio e as pessoas curvavam as
cabeças, esperando pela Elevação da Hóstia. Determinado, abriu caminho
por entre a multidão até chegar ao vulto escuro e musculado de Lorenzo
de' Medici, perto do lado sul do altar, onde tinham combinado encontrar-
se naquela manhã, mas recuou ao vislumbrar o irmão de Lorenzo, Giuliano,
estranhamente isolado com Francesco de' Pazzi e Bernardo Bandini, no lado
oposto da igreja, perto da Via Servi. Aqueles três não eram amigos.
Francesco, hirsuto e de cabelo claro, parecia nervoso, com o braço
pousado sobre os ombros de Giuliano e lançando olhares furtivos para um
lado e para o outro.
Os olhos de Guid’Antonio desviaram-se para Lorenzo e novamente para o
outro lado. Não viu o machado de Bandini até que a lâmina brilhou com a
luz das velas e cortou a cabeça de Giuliano. Depois disso, o tempo
abrandou, como se se desenrolasse languidamente numa longa e negra fita.
Giuliano caiu de joelhos, com a cabeça a jorrar sangue. Francesco saltou
para cima dele com uma excitação selvagem e espetou-lhe uma faca na carne
suave do pescoço desnudo. Perto deles, um rapaz gritou:

— A cúpula vai cair!

Homens, mulheres e crianças atrapalharam-se e caíram numa nova onda de


medo e pânico.

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— Não! — gritou Guid'Antonio. — Giuliano! — Tentou avançar, mas perdia


repetidamente terreno, como se mãos fantasma lhe agarrassem no manto
carmesim e o puxassem para trás pela bainha. — Giuliano! — O seu bom e
jovem amigo, esfaqueado repetidamente como se de um boneco de trapos se
tratasse e não de um corpo feito de músculos rijos e ossos.

Assassinado, enquanto Guid'Antonio observava à distância.

Como podia ter sido tão impotente?

Ouviu o som da trovoada a rugir no exterior do apartamento no castelo, em


Plessis-les-Tours, e escutou o vento francês a gemer e a uivar. Inquieto
e transpirado, atirou os lençóis para trás e ficou a olhar para o vazio,
agarrado às memórias que cravavam nele as suas garras sem jamais o
largarem.

Vinte e seis de abril de 1478, dois anos antes. Ainda conseguia sentir o
ar fresco do interior da Catedral de Florença e cheirar o aroma residual
do inverno. Conseguia ouvir o tinir do sino do padre. O que via quando
ficava acordado de noite era a imagem de Giuliano de' Medici no chão da
igreja, com o sangue a jorrar-lhe da cabeça.

A dor dilacerava o peito de Guid’Antonio. Porque não percebera o que


estava a acontecer quando viu Giuliano com Francesco de' Pazzi e Bernardo
Bandini, aqueles dois insurrectos? Por que motivo uma voz não gritou
sinais de alarme dentro de si? As famílias Medici e Pazzi não eram
amigas. As suas casas eram demasiado antigas, bem conhecidas e ricas. A
rivalidade entre ambas era feroz. Porém, até àquela manhã de abril, as
duas grandiosas casas florentinas tinham conseguido gerir as
animosidades. Nadando à superfície das águas espelhadas, nenhuma das duas
se afundava. Eram mentiras em cima de mentiras.

Por que motivo não tinha ido para junto de Giuliano quando o viu na
igreja? Porque não ficou ao lado dele a rezar? Mas não. Não. Em vez de
salvar o filho favorito de Florença, ajoelhou-se ao lado do seu corpo
mutilado no chão de pedra fria da igreja e ergueu as mãos para o céu na
mais completa e crua incredibilidade. Deitara-se à sua frente,
protegendo-o da debandada de gente de sandálias, de botas e de pés
descalços. Tinha ajudado os monges a embrulhar o corpo de Giuliano no
manto de veludo preto do jovem Medici; ficara profundamente grato por
Lorenzo ter conseguido escapar ao padre armado que o atacou, conseguindo
apenas fazer-lhe um golpe superficial no pescoço — isto, se o que os
monges afirmavam era a verdade.

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Como podiam saber? Os dedos manchados de tinta dos monges estavam tão
trémulos como os de Guid'Antonio.

Tinha acompanhado Giuliano até casa, no Palácio Medici, através de ruas


fedorentas e vielas abandonadas, enquanto outros apoiantes dos Medici
perseguiam os conspiradores e os abatiam nas ruas, como porcos. E agora?
Perguntara-se Guid'Antonio. E agora? Tinha recebido a resposta
rapidamente sob a forma de um cargo de embaixador na corte francesa. Era
a sua recompensa pela amizade firme e a lealdade para com os Medici, que
era a primeira família de Florença, embora oficiosamente. Mas seria a
recompensa realmente merecida? De vez em quando, tentava contar a Lorenzo
o que acontecera naquele domingo sangrento. E de cada uma das vezes
encerrara as palavras dentro de si, consumido pela culpa. Desde a morte
de Giuliano na catedral, o rosto de Lorenzo de' Medici era mais atento e
a pele cor de azeitona tornara-se sobrenaturalmente pálida.

Na verdade, todos os homens tinham os seus segredos.

Os seus aposentos estavam agora mais quentes, a atmosfera bastante mais


leve, embora do lado de lá das janelas o céu sobre Plessis-les-Tours
parecesse sombrio e húmido. Era de manhã. Dezanove de junho de 1480. Daí
a instantes o seu sobrinho, Amerigo Vespucci, entraria nos aposentos
ricamente decorados que o rei Luís XI atribuíra a Guid'Antonio, muito
animado, com entusiasmo e energia, ansioso por começar a viagem através
dos Apeninos que desciam até à península de Itália e até à Toscana.

- Andiamo, tio Guid'Antonio! Vamos! Mal posso esperar por deixar este
tempo francês que nos encolhe as partes baixas!

E foi assim que o embaixador Guid'Antonio Vespucci balançou os pés para


fora do colchão de penas e pegou na camisa e nas calças de viagem. Ao
levantar-se, viu-se a si próprio e a Amerigo a sair para a chuva que caía
lá fora e a correr até aos estábulos, onde Amerigo já tinha os dois
cavalos selados e à sua espera. Viu-se a sacudir o manto e a puxar o
capuz para cima da testa, com as bainhas oleadas a pender sobre o rosto.
Desconfortável e com o espírito atormentado, viu o chão a mover-se por
baixo de si enquanto olhava de relance para as nuvens que escureciam e
cavalgou pela tempestade dentro.
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Página em branco

Capítulo UM

Florença, três semanas mais tarde.,. Guid'Antonio sentia-se como um


fantasma a pairar junto ao portão do pátio, nas etéreas horas que
antecediam o alvorecer. Mergulhadas na neblina, as oficinas dos
fiandeiros, dos tintureiros e dos construtores de teares que se alinhavam
na Borg'Ognissanti, a Rua de Todos os Santos, estavam silenciosas e as
águas dos moinhos paradas. O único som que se ouvia era o eco débil dos
cascos dos cavalos a bater nos seixos molhados da estrada, enquanto um
cansado mas satisfeito Amerigo levava Flora e Bucephalus para o outro
lado do Palácio Vespucci, em direção aos estábulos da família. Mas não,
afinal não estava assim tudo tão silencioso, nem tão desprovido de
movimento. Do local onde estava parado, como um vulto hesitante junto do
portão de ferro forjado, conseguia ver o fontanário no jardim do palácio
e ouvir o suave gorgolejar da água que escorria pela boca do leão de
pedra. De cada um dos lados do portão ardiam tochas. Sob a luz difusa,
procurou a chave na bolsa. Por entre o tilintar de moedas, os seus dedos
encontraram a chave; introduziu-a na fechadura apenas para constatar que
não funcionava. Deu-lhe uma volta, retirou-a, soprou-lhe e tentou girá-la
novamente na fechadura, sem sucesso.

— Oh, Deus — murmurou.

- Mestre Guid'Antonio - murmurou o vulto, afastando-se das sombras do


jardim. - Estou aqui. Só um momento, por favor.

Não era Deus, mas o criado de Guid’Antonio, Cesare Ridolfi, que


destrancou a fechadura e abriu o portão fazendo ranger as dobradiças. Um
sorriso caloroso iluminou o rosto do jovem homem.

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— Mestre Guid'Antonio, bem-vindo a casa.

— Obrigado — agradeceu Guid'Antonio, abraçando Cesare e dando-lhe uma


palmadinha nas costas. — Mas o que é isto? — Gesticulou em direção à
fechadura, questionando-se que força sobrenatural teria murmurado ao
ouvido de Cesare Ridolfi que o mestre Guid'Antonio e Amerigo chegariam a
casa tão cedo naquele dia. Mais do que isso, que Guid'Antonio precisaria
de que lhe abrisse o portão do pátio.

— Mudou — disse Cesare. — Como tantas outras coisas. — Abriu os braços,


abarcando o alvorecer e as estrelas que apareciam por detrás das nuvens
escassas. — Mas agora já está em casa. Quer tomar um banho para começar
este dia interminável?

Interminável? Guid'Antonio sentia-se demasiado cansado para fazer


perguntas.

— Não. Vou começar por ver a minha mulher.

— Ah. — Com um sorriso ligeiro, Cesare voltou a mergulhar nas sombras de


onde tinha saído.

— Maria?

Languidamente, Maria voltou-se na cama de dossel, com o cabelo a formar


uma cortina negra e a camisa de dormir enrolada sobre as coxas bem
feitas. Levantou os braços num gesto ensonado de boas-vindas.

E depois os olhos abriram-se lentamente.

— Guid'Antonio?

Sim. Guid'Antonio. Parou por instantes junto à porta do quarto de ambos,


ainda com as botas e as esporas calçadas, sem gostar do rumo que os seus
pensamentos estavam a tomar.

— Não posso acreditar! — Maria sentou-se na cama e, enquanto ele


atravessava o quarto, segurou o olhar dele com o dela. Ele tirou o manto
de viagem ensopado e sentou-se na cama, a tremer.

— Não sabia quando devia esperar-te — disse ela. — Exatamente, quero eu


dizer. — Os seus olhos perscrutaram os dele como se pudessem ser os de
uma aparição.

— Queria fazer-te uma surpresa — disse ele.

— E fizeste! — Maria riu-se com prazer absoluto. O seu rosto brilhava sob
a luz difusa dos candeeiros de bronze espalhados um pouco por todo o
quarto.

Um sorriso aflorou os lábios de Guid'Antonio. Era tão encantadora a sua


mulher, com a pele cor de azeitona escura, que brilhava contra a
tonalidade rubi das cortinas de seda da cama.

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A luz dos candeeiros, o cabelo de Maria brilhava como o requintado ébano
que os ambiciosos comerciantes de madeiras transportavam, vindo de portos
longínquos, preto e docemente suave ao toque.

- És linda - disse ele, admirando a sua figura na cama, as longas e


graciosas pernas que fluíam suavemente das ancas curvas. Agora que estava
ali com ela, ao fim de dois anos, sentia-se tímido.

- O que esperavas? - perguntou ela. - Que enquanto estiveste longe me


tivesse transformado numa bruxa velha? - As lágrimas tomaram-lhe os
olhos, lagos negros e profundos salpicados de ouro. - Houve alturas em
que temi que nunca mais voltasses para casa.

- Queria voltar. - Afastou-lhe os cabelos com os dedos, deliciando-se com


o prazer do toque dela quando lhe acariciou o rosto, detendo-se enquanto
ela traçava a linha do maxilar e as pequenas rugas que irradiavam do
canto dos seus olhos.

Os dedos de Maria subiram até às têmporas dele. Suavemente, segurou--lhe


o rosto entre as mãos. O que via ela? Um homem já avançado nos anos que
se saciava na perfeição da sua jovem mulher? O que pensava ela? Não só
esteve longe durante dois anos, como já não é o homem de que se lembrava?

Logo depois, ela baixou-se à sua frente, com os joelhos despidos


comprimidos contra o chão de mármore frio. Tirou-lhe uma bota, a seguir a
outra. Levantou-se como se fosse Afrodite a erguer-se das águas, com os
olhos fixos nele e as mãos a percorrer as suas coxas. Em cima, com os
polegares por dentro, acariciando-o. Ali.

O seu corpo foi percorrido por um arrepio. Guid'Antonio tirou-lhe a


camisa de dormir e voltaram a deitar-se nos lençóis. Beijou-lhe as
pestanas, a boca e os seios.

- Amo os teus olhos - disse ela. - São de um cinzento tão meigo; quase
consigo ver através deles.

- Nonparlare, baciami. Não fales, beija-me.

Maria beijou-o, com a boca quente e sedenta contra a dele.

- Achas que ainda me consegues satisfazer, embaixador Guid'Antonio


Vespucci?

- Sempre consegui.

- Estás terrivelmente confiante.

- Pois estou — disse ele.

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Nem um pouco, pensou, e logo a seguir: Mas, quando se trata de amor, como
poderia estar?

— As mulheres da corte do rei Luís deviam andar meio loucas de amores por
ti. — Mordeu-lhe o lábio com meiguice.

— Meio não, completamente loucas — disse ele, e Maria deu-lhe um murro a


brincar. Guid'Antonio sentiu a sua paixão a aumentar. — Não comigo -
emendou -, mas com o Amerigo.

Estava a mentir. As mulheres francesas namoriscavam incansavelmente com


ambos, principalmente quando se mudaram de Paris para o castelo isolado
do rei Luís em Plessis-les-Tours, no centro oeste de França. Lá todos,
incluindo o rei, se reuniam para jogos de cartas e saraus de música
depois do jantar. E todas as noites, quando o som das gargalhadas e do
passos diminuía e a comitiva do rei se deitava (almofadas revoltas,
coberta atiradas para trás e saias de vestidos de cetim levantadas), ele
ia para a cama sozinho.

Puxou a camisa húmida por cima da cabeça. O rugido do sangue que lhe
ecoava nos ouvidos quase abafou o suave arrastar da porta do quarto que
se abria. Quase. Maria retesou-se, pressionando os dedos na carne dele.
Guid’Antonio virou-se. A sua mão encontrou o cinto caído na colcha da ama
e pegou no punhal com um único movimento fluido.

Um menino pequeno estava à porta, com o rosto composto numa expressão de


puro terror. Era o filho de ambos, Giovanni.

— Mamã! — gritou o menino, e a vela que trazia na mão tremia


violentamente. — Porque está esse homem a magoar-te?

— Guid’Antonio, deixa-me levantar! — Maria pegou no lençol e atravessou o


quarto num instante. Guid’Antonio escondeu o punhal por baixo da colcha
enrolada, com o coração a bater-lhe contra as costelas.

Maria pegou na vela. Curvou-se desajeitadamente e, com o círio a arder


numa das mãos, abraçou o menino.

— Giovanni, onde está a tua ama? Não tenhas medo, pequenino. Este não é
um homem qualquer — é o teu pai!

Os dedos de Maria flutuaram até aos lábios e, à luz dos candeeiros, a cor
rosada das suas faces transformou-se num tom mais brilhante.

— Quero dizer, ele não estava a magoar-me, Giovanni, estamos apenas muito
felizes por o teu pai ter chegado a casa depois de passar tanto tempo em
França. Vai cumprimentá-lo, meu bebé precioso. — Maria sorriu
encorajadoramente para o menino.

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Pequenino? Bebé precioso? O menino tinha quase cinco anos. Não seria
Giovanni demasiado crescido para ser apaparicado como se tivesse um ano
de idade? Guid'Antonio estendeu a mão para o seu único descendente, o
presente que Maria del Vigna lhe dera finalmente depois de meia década de
casamento: um filho homem. Precioso e importante, era até agora o único
herdeiro de Guid'Antonio.

Giovanni afastou o cabelo dos olhos, joias negras com fagulhas de ouro,
como os da sua mãe. Observou Guid'Antonio com curiosidade.

- Não.

Guid'Antonio levantou-se instintivamente, embora não soubesse para fazer


o quê. Giovanni recuou, com o rosto toldado pelo medo. Guid'Antonio
reagiu de imediato.

- Desculpa, Giovanni. Maria, o menino e eu somos como dois estranhos.


Maria segurava o menino nos braços.

- Ele precisa de tempo, Guid'Antonio.

- Sim, e eu também. — Dirigiu-se às janelas, nu. As primeiras luzes do


dia entravam agora pelas ranhuras das portadas de madeira. Guid'Antonio
abriu-as e levantou-as com as barras de ferro. Um vapor suave erguia-se
dos telhados de telhas de barro que se estendiam à sua frente como um mar
castanho-avermelhado por todo o distrito florentino de Santa Maria
Novella. A chuva que fustigara Guid'Antonio e Amerigo quando entraram
pelo Portão Prato poucos instantes antes tinha agora parado de cair,
deixando a manhã envolta numa leve neblina.

- Guid'Antonio?

Ele virou-se, arqueando uma sobrancelha negra salpicada de prata.

- Agora que estás em casa, temos todo o tempo do mundo. Embora julgue que
tudo aquilo de que eu precisava era de mais um instante.

Todo o tempo do mundo. A semelhança de Amerigo, Maria tinha apenas vinte


e seis anos e confiava plenamente naquelas palavras. Guid'Antonio
conseguiu sorrir, sentindo o peso dos seus quarenta e quatro anos.

- Espero que sim, Maria.

- Não te mexas! Vou chamar a Olímpia — disse ela.

- Olimpia?...

- A ama do Giovanni. — Maria franziu o sobrolho. — Escrevi-te a contar. A


velha Silvana morreu. Volto num instante, para te mostrar tudo o que
perdeste enquanto estiveste fora. — Saiu apressadamente, puxando Giovanni
pela mão e olhando feliz por cima da linha esguia do ombro.

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Sozinho no quarto, Guid'Antonio ouviu gargalhadas suaves, movimentos,
vozes indistintas e passos ligeiros. O palácio estava a ganhar vida.
Inspirou profundamente, com os olhos fechados. Depois abriu as portas do
sacrário que estava fixo à parede do quarto e, ajoelhando-se perante o
quadro de Nossa Senhora e os Magos a Adorar Cristo, ofereceu a alma a
Deus. Depois de recitar algumas orações, tomou banho com o sabonete de
ervas e água tépida que Cesare, como que saído do ar da manhã, trouxera
para o quarto assim que Guid'Antonio proferira a palavra «Ámen».

— Cesare, olha só para ti. Não me apercebi antes, mas tu cresceste. —


Guid'Antonio gesticulou com ambas as mãos.

Uma expressão satisfeita aflorou os lábios maravilhosamente esculpidos de


Cesare.

— Estou mais alto, sim.

Um jovem esguio com o cabelo preto e brilhante que formava caracóis até
às orelhas, Cesare mantinha uma postura perfeita enquanto olhava para
Guid'Antonio. Mesmo durante o pino do verão, usava uma túnica roxa, de
veludo, sobre a camicia. Mas a cor suave favorecia o espantoso azul-
violeta dos seus olhos. Ah, a juventude, pensou Guid’Antonio. E franziu
levemente o sobrolho. Onde diabo estava Maria?

- Já completaste dezanove anos - disse.

— Sim, no mês passado. Gostou do sabonete?

— Neste momento, acho que gostaria de qualquer sabonete. Mas sim, gostei.
É de quê?

— De tomilho-limão. É bom para confortar o coração. Guid’Antonio deu uma


gargalhada seca.

— Então compra um balde cheio deles aos vendedores de sabonetes, por


favor.

Cesare entregou-lhe uma toalha de linho e com um único movimento pegou


numa túnica de algodão de uma arca de madeira de cipreste, sacudindo-a
para retirar os vincos.

— Se não me engano, vai para a Câmara Municipal.

— Ambos sabemos que é impossível enganares-te no que quer que seja —


disse Guid’Antonio.

Uma expressão estranha, que se assemelhava invulgarmente a pena, cruzou o


olhar de Cesare.

— O que foi? — Perguntou Guid'Antonio.


22

- Digo-lhe apenas uma coisa: nos últimos dois anos, não foi apenas a
fechadura do seu portão que mudou em Florença. — Pegando na roupa suja
com um braço, Cesare dirigiu-se para a porta e sorriu de modo
encorajador, antes de desaparecer no corredor.

Guid'Antonio contorceu-se com desconforto, o rosto composto numa


expressão sisuda, enquanto pegava no manto pendurado num gancho de parede
e saía do quarto. Os archotes nas paredes do corredor, que alguém acabara
de apagar, ainda deitavam fumo. Cesare tinha desaparecido como aparecera,
num piscar de olhos.

E no seu lugar estava Maria, de pé, no meio da escuridão, no topo das


escadas. Viu o manto carmesim que Guid'Antonio levava no braço e os seus
ombros descaíram.

- Vais deixar-nos agora porquê, embaixador Vespucci?

- Vou só à Câmara Municipal entregar as minhas credenciais.

- Credenciais? — Deu uma gargalhada suave. — Estiveste ausente durante


dois anos, chegaste a casa há instantes, depois de uma viagem dura, e mal
podes esperar por partir novamente?

- Maria... - fez um gesto impaciente. - Estou de volta ao meio-dia,


prometo. Mas Amerigo já enviou um mensageiro para avisar os magistrados
de que chegámos. Aposto que já está no pátio, a questionar-se quanto ao
meu paradeiro.

- Bem, não queremos causar incómodos a Amerigo, pois não?

O maxilar de Guid’Antonio contraiu-se e humedeceu os lábios, sedento,


desejando ter alguma coisa para beber.

- Ainda há poucos instantes disseste que tínhamos todo o tempo do mundo.

- Por favor não voltes as minhas palavras contra mim - disse Maria. -É
insultuoso. Queres anunciar a tua presença, fazer saber aos magistrados
que estás de regresso e que és uma força a ser levada em consideração.

Bem, sim.

- Quero apenas concluir alguns assuntos, Maria.

- E quanto ao que eu quero? Embora o meu marido esteja sempre fora?

Jesus, Maria e José.

- Sempre não, Maria.

- Sempre sim! - Maria empinou ligeiramente o queixo. - Desta vez foi em


França. Antes disso, estiveste quatro meses em Roma a lutar com o papa.
23

— Não estive a lutar, Maria. O Giuliano tinha acabado de ser chacinado. A


minha missão em Roma era impedir que a guerra entre nós e o papa Sisto IV
estalasse, uma vez que foi o sobrinho dele que planeou o assassinato de
Giuliano e Roma é uma força que tem de ser levada em consideração seja
qual for a circunstância.

— E ainda assim falhaste — disse Maria.

Quando falou, os lábios de Guid'Antonio estavam retesados.

— Eu tentei, Maria. O governo confiou-me o bem-estar do nosso Estado.

— Queres dizer que Lorenzo de' Medici te confiou esse bem-estar. O


governo florentino faz tudo o que ele manda, assim como tu, embora ele
nada tenha que ver com o Estado.

— Nada?

— Sabes bem o que quero dizer.

Sim, Guid'Antonio sabia. Aos trinta e um anos, Lorenzo de' Medici não era
um governante eleito da República Florentina, mas, seguindo os passos do
pai e do avô, era o chefe da família Medici e do poderoso círculo que a
rodeava, tanto na esfera social como na política. O círculo de
Guid'Antonio. A semelhança do que acontecia com Lorenzo de' Medici, quer
tivesse uma posição oficial ou não, Guid'Antonio tinha tudo que ver com o
Estado Florentino, e este com Guid'Antonio.

Uma imagem desagradável dos criados e familiares de ouvidos colados às


paredes do palácio, à escuta daquela conversa, cruzou a mente de
Guid’Antonio.

— Maria, o nosso corredor não é o local indicado para termos esta


conversa — disse ele.

— Podes ter a certeza de que sei bem disso. A única coisa que quero é que
fiques um pouco comigo.

Tudo o que ele queria era passar rapidamente por ela e descer as escadas
até ao portão do jardim. Queria tratar das preocupações políticas
primeiro, depois regressar a casa e... o quê? Discutir novamente com ela?
Não. Queria resolver tudo. Recordou-se de que era um doutor de Direito,
na verdade um doutor de Direito bastante aclamado. Já não tinham conta as
vezes que estivera nos tribunais, perante os magistrados, a tratar de
casos difíceis. Retirar-se não lhe valia de nada enquanto enviado
especial de Florença a Roma, a França ou a qualquer outro lugar. Retirar-
se também não lhe valeria de nada ali.
24

Ainda assim.

- O tempo e os magistrados não esperam por ninguém, Maria. Nem mesmo por
mim.

Uma expressão de profunda mágoa tomou conta do rosto dela.

- Nestes dois últimos anos, houve alturas em que precisei


desesperadamente de ti. Em vez disso, tive de recorrer aos teus parentes
para tudo e mais alguma coisa. Até para lhes pedir permissão para comprar
lençóis novos para as nossas camas. Tu nunca estiveste presente.
Continuas a não estar. Tudo o que resta de ti é a carcaça vazia onde
antes costumava existir um homem.

- O quê? — perguntou ele, fitando-a e recuando. — O que disseste?

- Nada.

- Disseste, sim. Uma carcaça vazia? Eu sou o embaixador de Florença em


França, por amor de Deus. Trabalhei arduamente para a família Vespucci...

- Para o Lorenzo — disse Maria.

- Ambos formam um só — respondeu sobriamente Guid'Antonio. — Vou-me


embora.

- Não estava à espera de que ficasses.

Com a cabeça desesperadamente erguida, Maria passou por ele e entrou no


quarto. Guid'Antonio ouviu os seus passos aproximarem-se do lavatório,
ouviu o cabelo de Maria a estalar quando começou a escová-lo. E ouviu o
som das suas lágrimas silenciosas.

Desceu as escadas rapidamente, com os calcanhares das botas a baterem


contra a pedra, e saiu para o pátio, onde, junto ao fontanário, encontrou
Amerigo à sua espera, com a sacola de couro puído, que continha as
canetas e tinta, a tiracolo.

— Andiamo, Amerigo — disse. — Vamos. Não é sensato deixar a República de


Florença à nossa espera.

25

Página em branco

Capítulo DOIS
- Louvado seja Deus, é bom estar em casa - disse Amerigo, com a voz plena
de entusiasmo, quando ele e Guid'Antonio saíram pelo portão do Palácio
Vespucci e caminharam ao longo da Borg'Ognissanti, a Rua de Todos os
Santos.

- Sim.

- O que se passa?

- Nada.

Guid'Antonio sentiu o olhar cético de Amerigo. A carcaça vazia de um


homem? Deus todo-poderoso, o que acabara de acontecer entre ele e a sua
mulher? O que queria ela dizer com aquilo? Recordar as palavras de Maria
fez com que as faces lhe ardessem com o calor da fúria. Por que motivo
ficara naquele corredor e lhe permitira que falasse com ele daquela
forma? Poucos homens o fariam. Mas também eram poucos os homens que
tinham mulheres como a sua bela, brigona e teimosa Maria del Vigna. 0 seu
tabelião não o tinha avisado em relação a ela quando Guid’Antonio o
abordou para que arranjasse o casamento?

- Ela é uma mulher autoritária! Uma rapariga de dezasseis anos com


vontade própria! Não admira que ainda não esteja prometida a ninguém.
Mestre Vespucci, ela sabe ler e escrever!

- As minhas irmãs também sabem. E a minha primeira mulher também sabia —


respondera na altura Guid’Antonio ao pequeno homem.

Ao seu redor, a Rua de Todos os Santos estava agora a encher-se de vida.


Os comerciantes bocejavam enquanto abriam as portas e erguiam as portadas
frágeis de madeira.

27

Os toldos estendiam-se e os raios de sol aqueciam a vasta praça entre a


Igreja de Todos os Santos e o rio Arno. Guid'Antonio inspirou
profundamente, interiorizando as imagens e sons familiares que eram como
um bálsamo para a sua alma.

— Amerigo... - começou por dizer, mas parou quando um monge de manto


negro saiu apressado do jardim da igreja e bateu de cabeça contra eles.

Amerigo escorregou num monte de bosta brilhante.

— Cristo! — gritou, esbracejando para afastar as moscas verdes que


esvoaçavam perto dos seus olhos e nariz.

— Eu... oh! — O monge parou e fitou brevemente Guid'Antonio. — Mestre


Vespucci! — Gritou e desatou a correr pela rua fora.
— O que diabo foi aquilo? — perguntou Amerigo, sacudindo a túnica.

— Não «o que», mas «quem» — disse Guid'Antonio. — A avaliar pelo manto


negro, é um dos nossos e... — naquele preciso instante, dois outros
monges da Ordem Beneditina saíram pelo portão da igreja em direção a
eles. — Por Deus! — exclamou Guid'Antonio, recuando rapidamente para a
rua. — Vejam lá por onde andam!

— Mil perdões - disse o mais alto dos dois jovens. - Oh, mestre Vespucci!
É o senhor. — Uns olhos azuis alarmados brilharam nas feições estreitas
do monge. A tonsura compunha uma franja prateada em volta do seu rosto.

— Sim — rosnou Guid'Antonio. Não tinha tempo para aquelas coisas.

— Para si é embaixador Vespucci — disse Amerigo. — Agora saiam da frente


para podermos ir à Câmara Municipal entregar as nossas credenciais.

— O quê? — O monge mais alto atrapalhou-se para encontrar palavras. O que


sabia ele a respeito de credenciais ou sobre o Palácio da Senhoria? —
Quero dizer, o senhor não me conhece, mestre Vespucci, mas eu sei que a
Igreja de Todos os Santos é a igreja da sua família. — Gesticulou na
direção do templo. — Todos o sabemos perfeitamente. — Recuperando a sua
dignidade, endireitou-se na sua considerável altura. - Sou o irmão Paolo
Dolci e este é Ferdinando Bongiovi.

Ferdinando espreitou por trás de Guid'Antonio.

— Irmão Martino! — gritou, desviando-se deles para desatar a correr em


direção ao Portão Prato, com o irmão Paolo atrás.

— Que Deus tenha misericórdia das vossas almas — gritou para eles.

— Das nossas almas? Que tenha misericórdia da sua primeiro! — exclamou


Amerigo, praguejando e limpando a bota com uma mancheia de palha que
forrava a estrada.

28

- O que queria ele dizer com aquilo? Se deito a mão ao malandro que vai à
frente nesta perseguição idiota, terá bons motivos para correr. Acabei de
limpar três semanas de viagem destas botas e agora estão cobertas de
bosta. Monges!

Guid'Antonio matutou sobre o medo e a excitação brilhantes que acabara de


ver nos rostos dos três jovens religiosos.

— Quem sabe? Quanto ao irmão Martino, toda aquela emoção deve advir de um
fardo pesado. Senão, por que motivo fugiria dos seus irmãos beneditinos?

Meteram por um atalho tão estreito e com paredes tão elevadas que algumas
delas nunca chegavam a sentir o sol.
— Bah — disse Amerigo. — Aqui está uma viela que fede a mijo e aos
fígados de pombo cozidos na semana passada.

Guid'Antonio abrandou o passo, e o seu corpo pareceu viajar no tempo. No


fundo daquela viela estava o local onde Giuliano de' Medici tinha caído
de joelhos, com o manto a compor uma nuvem negra que ondulava em seu
redor. O sangue jorrava da sua cabeça. Guid'Antonio arquejou, olhando
fixamente enquanto um lago escarlate se espalhava em volta do corpo
arruinado de Giuliano.

— Tio! O que foi? — perguntou Amerigo.

Guid'Antonio virou subitamente a cabeça na direção do sobrinho. Quando


voltou a olhar para o fundo da viela, Giuliano já tinha desaparecido.

— Nada — disse, engolindo com dificuldade por cima do nó que se alojara


no fundo da sua garganta. - Pensei que... - Voltou a empurrar a imagem
para o buraco negro onde pertencia. — Estou apenas cansado da viagem.

— Também eu — disse Amerigo. — Nestas últimas três semanas houve alturas


em que achei que o meu traseiro se ia desfazer na sela. Lembra-se daquela
noite que passei a conversar com o velho monge em Piacenza?

— Claro que sim. Começámos atrasados na manhã seguinte.

Guid'Antonio recomeçou a andar, profundamente abalado pela imagem


fantasmagórica de Giuliano. Em França, as memórias dolorosas tinham-no
atormentado, aparecendo-lhe pela calada da noite como ratazanas. Mas
nunca tinha tido visões de Giuliano de' Medici. Agora que estava em casa,
será que ia ser completamente devorado pela culpa e pela mágoa, quando
tudo o que queria era paz no seu coração? Ao pensar em Maria, abafou uma
gargalhada.

29

— O velho homem não se calava com a chegada de um novo céu e uma nova
terra. O que acha que queria dizer com aquilo?

— O Annius de Viterbo tem tido premonições sobre a derrota dos turcos —


disse Guid'Antonio. — Sobre a construção de cidades santas e uma nova
Jerusalém.

— Louvado seja Deus por um milagre! E por um pouco de sol também — disse
Amerigo enquanto entravam na Praça da Trindade sob um raio de luz solar.

— É essa a previsão do profeta. Os turcos otomanos embarcaram numa


epopeia de conquistas em nome da religião há séculos. Duvido que venham a
abandonar a sua missão nos tempos que se aproximam.

— O Islão — disse Amerigo.


— Sim. Poucos foram capazes de os segurar.

— Vlad, o Empalador, foi capaz. — Vlad Dracula, o príncipe da Valáquia,


perto do reino da Hungria.

— Sim, é bem verdade — concordou Guid’Antonio.

Um homem solitário com um avental de couro inteiriço passou


apressadamente por eles em direção à Ponte Santa Trindade, à sua direita.
Duas mulheres, com os rostos de pele esticada e corada a brilhar sob os
capuzes negros, entraram na Igreja da Trindade, que ficava na mesma
praça. Iriam rezar perante o crucifixo milagroso da Trindade? Bem,
Guid’Antonio já não acreditava em milagres. Certamente não no que dizia
respeito aos turcos. Em 1453, os soldados de Mehmed II conquistaram
Constantinopla e chacinaram o rei Constantino XI, assim como o seu
exército de cristãos. Depois daquele rude golpe no mundo cristão, o jovem
sultão fez, no chão ensanguentado da Catedral de Santa Sofia, em
Constantinopla, uma oração de agradecimento: Não há outro deus senão Alá
e Maomé é o Seu Profeta! Mehmed proclamara que a igreja passaria a ser
uma mesquita e nomeou a cidade vencida como a capital do Império Otomano;
assim permanecera durante os últimos trinta anos.

O olhar fixo de Guid’Antonio desviou-se para a rua larga que se estendia


à sua esquerda. Se virasse naquela direção iria parar à Catedral de
Florença. O seu estômago encolheu-se até formar uma bola comprimida. Não
entrava naquele lugar sagrado desde a primavera de 1478. O corpo desfeito
de Giuliano aparecia-lhe em sonhos; como poderia encarar mais uma vez a
aterradora imagem dentro daquelas paredes? Não podia. Encarava um espaço
imenso e crepuscular agora habitado por um fantasma.

30

Uma alma perdida e errante, à espera da salvação. Talvez até por lá


andasse mais do que uma.

Um portão vermelho abria-se na Praça da Trindade para a Via Porta Rossa.


Guid'Antonio abriu o portão, deixou a trave de madeira cair para trás com
um baque surdo e começou a caminhar rapidamente por baixo dos toldos
carmesins caídos do Palácio Davizzi.

— Por vezes, Amerigo, acreditar ou não no facto de Deus nos ter concedido
um milagre depende apenas do lado em que estamos — disse.

— Raspas de sabão! Calções usados!

— Tartes de esquilo, tartes de pombo, comprem as minhas tartes, que só


têm um dia!
— O que é isto? — perguntou Amerigo enquanto caminhavam pelo mercado,
onde os comerciantes faziam os seus pregões em bancas improvisadas. — E
dia de pechinchas no Mercado Novo?

— Parece que sim. — Em redor da praça, bandeirolas e fitas ensopadas


pingavam das balaustradas das varandas. Os estandartes estavam caídos,
pendurados em postes. Proeminente por entre todas as bandeiras estava o
estandarte pessoal de Lorenzo de' Medici, que mostrava um falcão preso
numa rede dourada. Sempre parecera a Guid'Antonio que aquela era uma
imagem estranha para representar Lorenzo.

— Graças a Deus que o nosso Lorenzo continua a dar-se bem com as famílias
Soderini, Rucelli e todas as outras — disse Amerigo, com uma voz grave. —
Se Francesco de' Pazzi tivesse levado a sua avante, os seus delfins
andariam agora a tentar passar por cima de nós. Maldita seja a sua alma
por ter planeado o assassinato de Giuliano.

Um músculo saltou no maxilar de Guid'Antonio.

— Sabes bem que Francesco não o planeou sozinho.

Os factos que rodearam o assassinato de Giuliano de Medici tinham sido


lentamente esclarecidos — um interrogatório difícil aqui, uma aplicação
de pinças incandescentes nas partes privadas ali — e tinham levado a uma
descoberta espantosa, já que implicavam os poderosos vizinhos do sul de
Florença, de Roma e de Nápoles. Com Francesco de' Pazzi a servir de peão,
a queda da casa dos Medici tinha sido planeada pelo sobrinho do papa
Sisto IV, o conde Girolamo Riario, com a bênção integral do papa. Medo.
Inveja. Ganância. A posição de Lorenzo como governante não oficial de
Florença causava grande ressentimento à família Pazzi, principalmente a
Francesco.

31

Francesco estava convicto de que a sua família tremendamente abastada de


banqueiros internacionais se equiparava aos Medici da Via Larga. Não era
ele o líder dos negócios dos Pazzi? Não tinha ele conseguido arrancar
traiçoeiramente a tão importante conta papal das mãos de Lorenzo e tomado
conta dela em Roma? E em retaliação pela perda da tal conta tão lucrativa
— que a família de Lorenzo detinha há anos —, não tinha Lorenzo tentado
enganar a família Pazzi para que perdessem a receita beneficente que
estavam à espera de recolher?

Era uma questão pessoal: um ultraje que não podia ser tolerado. Girolamo
Riario entendia isto. E também entendia as motivações de Francesco.
Agindo a partir do Vaticano, Girolamo apelara ao ego exagerado de
Francesco, às suas fúria, inveja e frustração. Se fosse bem-sucedido no
assassinato de Lorenzo e do seu único irmão, a família Pazzi nunca mais
viveria sob o polegar dos fedelhos Medici. Se fosse bem-sucedido, as
tropas mercenárias de Sisto IV e de Girolamo Riario aproximar-se-iam das
fronteiras de Florença como parte de um esquema privado para fortalecer a
presença da sua própria família no centro de Itália. Para este fim,
tinham conseguido granjear a ajuda do rei de Nápoles, que tinha a sua
própria visão mental do lugar que devia ocupar em Itália.

— Girolamo Riario foi condenado há dois anos, e atrás dele o seu tio, o
papa — disse Guid'Antonio. — E Francesco está morto. — Ainda o corpo de
Giuliano não estava frio na Via Larga, e já Francesco tinha sido
arrancado, despido e a sangrar, do esconderijo que tinha em sua casa no
distrito de Santa Cruz e atirado de uma janela da Câmara Municipal com as
mãos atadas atrás das costas e um nó corrediço à volta do pescoço. A
medida que as notícias da morte de Giuliano e o ataque falhado a Lorenzo
começaram a correr as ruas de Florença, a população florentina não se
insurgiu contra Lorenzo nem acolheu a família Pazzi como sua libertadora,
como o cabeça de alho chocho do Francesco tinha esperado. Não: em vez
disso, marcaram Francesco como um traidor que andava a conspirar para
entregar a cidade aos seus inimigos e reforçaram o seu apoio a Lorenzo,
que aparecera à frente da população na varanda do Palácio Medici, com o
pescoço envolto numa ligadura manchada de sangue: era o representante
ferido e único da sua família enlutada.

Guid'Antonio sorriu para consigo. Oficioso, pois sim.

— Tartes de esquilo! Tartes de corvo, baratas!

— Pelo cheiro, aquelas tartes parecem estar aqui há uma eternidade —


disse Amerigo. — Até queria comer um pouco, mas agora fiquei sem apetite.

32

— Pões-me isso por escrito, por favor?

— Nonna! — Amerigo chamou a velha avó que vendia as pequenas e trágicas


tartes. — Chama tartes a esses pergaminhos velhos?

A vendedora assumiu uma expressão carrancuda, com os olhos furiosos


enquanto Amerigo passava pela sua banca.

— Tenho uma pergunta melhor para ti, fedelho rico: será que a tua barriga
suave aguenta com elas? — Mordeu uma das tartes recessas e atirou-a para
Amerigo, a sorrir, mostrando as raízes negras e podres dos dentes. A
crosta partiu-se e uma perna queimada de corvo saiu da tarte.

— Pelos tornozelos de Cristo! — Amerigo atirou a tarte para o chão, onde


um cão de pelo amarelo-torrado, só pele e osso, a apanhou, a rosnar.

Guid'Antonio olhou de relance para o sol.

— Andiamo, Amerigo. Já estamos atrasados.


— Jesus! Nunca vi um cão com as costelas tão salientes! Até podia tentar
tirar-lhe a corda do pescoço, mas ele havia de me morder a mão para comer
alguma coisa doce. Para ele não há coleira de couro fino, nem agora nem
nunca.

— Deve ter lutado contra os ursos e depois deixaram-no a apodrecer.

— Mesmo assim, conseguiu sobreviver. E fugir.

— É florentino. — A par da voz do sobrinho, Guid'Antonio ouvia a


respiração ofegante do cão e, quando entraram numa ruela lateral,
cheirou-lhe a urina de gato e a pão bolorento.

— Sabe que ele vem atrás de nós — disse Amerigo. — Que tipo de rafeiro é
ele?

Guid'Antonio olhou de relance para trás. O cão era enorme. Tinha o


focinho negro, orelhas cortadas, o pelo curto, denso e sarapintado, e
unhas em forma de garra.

— É um mastim, que numa vida melhor já foi um cane corso italiano.

— Ainda é mais triste. Que pobre destino para um cão magnífico.

— Vá lá! — Guid'Antonio enxotou o animal. — Dá-lhe um pouco de comida e


vamos tê-lo para sempre atrás de nós.

— Ele já comeu um pouco de comida. A imundice que passava por tarte,


lembra-se? Por falar em imundice, consegui tomar um banho rápido hoje de
manhã, uma vez que nos vamos encontrar com os magistrados. Mas mesmo
assim, o meu corpo parece tão batido quanto o daquele cão, que, já agora,
continua a seguir-nos a uma distância segura. — Amerigo olhou de esguelha
para Guid'Antonio. — Ele ainda não se foi embora.

33

— Au contraire — disse Guid'Antonio.

Entraram no Mercado Velho, onde a luz do dia se resumia a uma nesga de


céu pálido por cima das suas cabeças, e o estômago de Amerigo roncou de
fome.

— Ao que parece, não obstante a tarte queimada, não perdeste o apetite -


disse Guid'Antonio.

— Embora envergonhado, confesso que não.

A Câmara Municipal não ficava muito longe dali. Daí a instantes, o


conselho de governação da república ia reunir no Grande Salão para ouvir
Guid’Antonio a apresentar o seu relatório sobre a missão em França. Ao
seu lado, o estômago de Amerigo roncava.
— Pronto, está bem. — Comemos qualquer coisa pelo caminho — disse
Guid'Antonio.

— Grazie! Já comi a minha quota-parte de cassoulet com porco e ameixas em


França. Apetece-me qualquer coisa satisfatória. Qualquer coisa italiana.

— A mim também — concordou Guid’Antonio. Aproximaram-se de uma banca de


fruta, uma triste aglomeração de madeiras podres pregadas umas às outras
que compunham uma sugestão de prateleiras prestes a desmoronarem-se. Um
homem idoso apareceu vindo de trás de uma pilha de cestos, com olhos de
furão e uma expressão penetrante que os observava atentamente.

— O que desejam? — perguntou o homem, com uma mão calejada a empurrar o


capuz do manto rudemente urdido.

Guid'Antonio recuou. O camponês fedia a ovelhas e suor.

— Duas maçãs e um pouco de pecorino — pediu, abrindo a bolsa e tirando


uma moeda de prata.

Os dedos retorcidos do camponês pegaram avidamente na moeda. As maçãs que


entregou a Guid'Antonio estavam tão acastanhadas e mal tratadas como o
rosto do homem, e o queijo de ovelha que Guid’Antonio ainda trincou
estava rançoso.

— Blhac! — exclamou, cuspindo o queijo para o chão.

O cão vadio lançou-se para a frente e precipitou-se para a refeição


inesperada. Duas vezes no mesmo dia? Inacreditável! Rosnando
profundamente e com um olho virado para cima, o mastim observava
atentamente os acontecimentos.

Repugnado com o sabor intragável do queijo estragado, Guid'Antonio limpou


os lábios com um lenço branco como a neve.

34

— Se não gosta das minhas mercadorias, pode voltar para as cozinhas do


seu palácio — disse o camponês. — Nos mercados não vai ter muito mais

por onde escolher.

— Muito mais? A mim parece-me que já não há nada de jeito — disse

Amerigo. — O que está à espera que comamos?

O olhar fixo do homem era tão desdenhoso como duro.

— E acham que me preocupo com isso? Do que estavam à espera em

tempos de guerra?
Amerigo abriu a boca para falar; suavemente, Guid'Antonio tocou-lhe

no braço.

— Tudo vai melhorar, amigo, agora que a guerra já terminou e estamos

de novo em paz.

O velho deu uma sonora gargalhada.

— Onde é que andou a esconder a cabeça? No poço da sua casa de campo:

Amerigo arquejou.

— Velhote! Tenha cuidado com o que diz!

— Mestre Vespucci! — chamou uma voz amistosa no meio da praça. - E


Amerigo! — Um homem entroncado encaminhou-se na direção deles, segurando
a bainha da sobrecasaca castanha para a manter tão limpa quanto possível
enquanto contornava apressadamente o poço de água no centro do mercado. —
Bem-vindos a casa, bem-vindos!

— Que bom vê-lo, Luca. — Era verdade, mas, por Cristo, mais um

motivo para se atrasar.

— Quando chegaram?

— Hoje, ao nascer do dia.

— E já andam pela cidade a tratar da vida. Bem, não há descanso para

os cansados.

— Pois, parece que não.

Guid’Antonio conhecia Luca Landucci melhor do que a maior parte dos


homens que não fazia parte da elite governativa da cidade. Quando estava
em Florença, visitava muitas vezes a boticária de Luca, O Sinal das
Estrelas, para comprar medicamentos para a família e por vezes para pedir
a ajuda do boticário num ou noutro caso privado que Guid’Antonio
estivesse a investigar.

— Senhor Landucci — cumprimentou Amerigo —, como está o desempenho do


Gostanzo nas corridas de cavalos deste verão? Entusiasmante, como sempre?

35

Guid'Antonio ouviu distraidamente, consciente do desdém do camponês, do


cão miserável que se esforçava por vomitar para a terra e das sombras que
se moviam lentamente à sua volta pelo mercado, enquanto Luca falava
alegremente do seu irmão mais novo, Gostanzo Landucci, do seu cavalo de
Barbaria, Il Draghetto, o Pequeno Dragão, e das corridas de cavalos que
se realizavam na Toscana durante todo o ano. Prato, Montepulciano, Santa
Liperata e Cartona: com as suas pequenas e apertadas praças. Os cascos
troantes dos cavalos escorregavam nos seixos soltos. Os cavalos
tropeçavam nas pedras e caíam sobre as paredes das lojas, deixando os
animais e os seus cavaleiros num emaranhado de ossos, sangue e suor. Qual
era o objetivo? Um cobiçado lugar na corrida principal do campeonato, em
agosto. «Palio!»

— Nem o meu irmão Gostanzo nem qualquer outro homem consegue ganhar
quando Lorenzo de' Medici põe um dos seus cavalos na competição

— resmungou Luca. — Não há dúvida de que no mês que vem vai voltar a
reclamar o grande prémio. — Luca murmurou qualquer coisa sobre os juízes.

— Mas, enfim, mestre Vespucci. Então, e agora, durante quanto tempo vai
abençoar Florença com a sua presença?

— Não voltarei a partir. Amerigo levou uma mão ao peito.

— Pelos ossos de Cristo! E Lorenzo sabe disso?

— Neste momento, Luca, vamos a caminho de nos encontrarmos com os


magistrados — disse Guid'Antonio.

O velho camponês esquecido cuspiu um escarro para os pés de Guid’Antonio.

— Magistrados? São uns bastardos, isso sim! Quando encontrar aqueles nove
idiotas, diga-lhes para saírem às ruas para podermos dar-lhes cabo dos
seus canastros Medici!

Amerigo estava incrédulo.

— Mas o senhor quer passar o resto dos seus dias na prisão? Guid’Antonio
olhou para os olhos furiosos do camponês.

— Por que motivo está tão zangado?

— Você é um palleschi! — exclamou o camponês, referindo-se ao emblema da


família Medici, que continha um número variável de palle, ou bolas,
vermelhas sobre um fundo dourado. - É um Medici nascido e criado.

— Sim — disse Guid’Antonio, com a confiança nascida da aliança da sua


família com a dos Medici, que já durava há meio século.

36

— Por causa do Lorenzo, entrámos em guerra com Deus!

— A guerra não foi com Deus — contrapôs Guid'Antonio. — Mas sim com o
papa Sisto IV.

— O papa e Deus são um só! — disse o camponês a tremer.


— Não. - Guid'Antonio abanou a cabeça. - Quem nos declarou guerra, quando
a conspiração do seu sobrinho para enfraquecer o nosso governo falhou,
foi Sisto IV, não Deus. Agora temos um tratado com o papa. — Certamente
aquele velhote sabia disso?

A multidão tinha começado a reunir-se aos primeiros sinais de discussão,


o que naquelas ruas não era invulgar.

— O que temos — gritou um homem da multidão — são os turcos à nossa


porta! — O mastim sentou-se nas pernas traseiras e olhou sombriamente
para a assembleia.

A mão de Amerigo voou em direção ao rosto.

— Os turcos? Não.

— Não há turcos em Itália — disse Guid'Antonio.

Uma mulher de vestido negro, tão robusta como um dos barris de cereais
vazios do mercado, espetou o dedo na direção dele.

— Está errado, mestre Seja-Lá-Qual-For-o-Nome, com o seu elegante manto


vermelho! Eles querem capturar-nos e vender-nos como escravos, exatamente
como fizeram com a doce Camilla Rossi da Vinci! — Gritos de alarme
apoiaram a voz estridente da mulher.

Guid'Antonio e Amerigo trocaram um olhar cauteloso. Aquela multidão


estava dominada pelo medo e por meias verdades. Guid'Antonio virou-se
para Luca.

— Do que falam eles?

O mastim, desviando o seu olhar remeloso de Guid'Antonio para o boticário


e vice-versa, deslizou o corpo ossudo para o chão, preparando-se para
escutar e esperar.

Luca endireitou os ombros.

— Há pouco mais de uma semana, uma jovem mulher saiu daqui em viagem
quando os turcos a apanharam.

Não podia ser verdade. Com Constantinopla a servir-lhe de base, Mehmed II


continuara a sua campanha de conquistas com o objetivo de converter almas
ao Islão, sim. Como parte da sua guerra santa, o líder otomano tinha
alargado o seu império na Europa até ao Danúbio e o mar Egeu, reforçado o
controlo do mar Negro e dado início a uma guerra de dezasseis anos com a
República do Vaticano, a maior potência naval do Mediterrâneo.

37
Mas essa guerra tinha acabado há apenas dois meses. Os turcos tinham
apenas conseguido penetrar no extremo norte da península, mas nunca mais
se aventuraram a entrar em Itália. Se o tivessem feito, Guid'Antonio
sabê-lo-ia. Certamente.

— E quem relatou o caso? — perguntou.

— A ama de lady Camilla e o seu criado. Louvado seja Deus, a velha mulher
e o rapaz conseguiram escapar aos infiéis e viver para contar o que
aconteceu.

— Rapaz? Refere-se ao filho de Camilla? — Por toda a praça, as pessoas


iam-se aproximando e empurrando para ouvirem a conversa de Guid'Antonio e
Luca, com expressões sombrias nos rostos.

— Não, não. Ela tem dezasseis anos, é casada mas não tem filhos. Quero
dizer o rapaz do país das teste nere.

— Um rapaz negro? Veio da Etiópia, então. - Os olhos de Amerigo brilhavam


de espanto. — E bastante longe. Deve ter atravessado o mar verde-escuro
até ao mercado de escravos em Lisboa. Ele fala italiano?

— Amerigo — Guid'Antonio levantou um dedo, um pedido gentil para que


Amerigo se calasse. Depois disse para Luca: — Então o rapaz é escravo da
senhora.

— Sim.

— Que idade tem?

Luca encolheu os ombros.

— Deve ter uns doze anos. Os três saíram de Florença e pararam em San
Gimignano antes de anoitecer. No dia seguinte, estavam na estrada de
Bagno para Morba quando os turcos os atacaram.

Os Banhos de Morba ficavam no sopé dos montes Apeninos. Um pensamento


cruzou a mente de Guid’Antonio, que não foi capaz de o conter.

— Porque dizem que são turcos? — perguntou.

— Porque se anunciaram com espadas brilhantes e ameaças em nome do Islão.

Não fazia muito sentido. Mas Guid’Antonio sabia que para as pessoas que
escutavam atentamente cada uma das suas palavras ali no Mercado Velho,
não era bem assim.

— O nome dela é Camilla? — perguntou Amerigo.

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— Sim. Camilla Rossi da Vinci. Casada com o comerciante de vinhos
Castruccio Senso, do distrito Dragão Verde. — Luca estava a referir-se a
Santo Spirito, o distrito de Florença que ficava do outro lado do rio, na
povoação cimeira de Vinci.

— Não a mataram, mas fizeram dela escrava e prostituta! — gritou um homem


na multidão, um talhante, a avaliar pelo avental manchado de sangue.

Guid’Antonio soltou um grunhido. Achava mais provável que Camilla Rossi


tivesse fugido com um jovem amante persuasivo do que tivesse sido
assassinada ou escravizada por quem quer que fosse.

— Foi feita alguma investigação? Luca acenou com a cabeça.

— Palla Palmieri levou a cabo uma investigação, mas não apurou nada.
Guid’Antonio pensou brevemente na questão. Se o seu ocasional aliado,

se não mesmo amigo, Palla Palmieri, o chefe da polícia de Florença, não


tinha conseguido descobrir nada sobre a rapariga, era bem provável que
aquele caso tivesse sido dado como encerrado e esquecido pelas
autoridades, ainda que o mesmo não tivesse acontecido com o popolo
minuto, as pessoas nas ruas. Um velho monge grisalho deu um passo em
frente.

— Mestre Vespucci, a invasão turca é um sinal de Deus. Então agora já era


uma invasão.

— Um sinal de quê? — perguntou Guid'Antonio, ferozmente consciente de que


o tempo lhe estava a fugir por entre os dedos.

— Do Seu profundo desapontamento com Lorenzo de' Medici por nos ter
levado para a guerra contra a Sua Igreja Sagrada — entoou o monge, com
uma voz mais santa que as coisas santas e uma expressão piedosa no rosto
enlouquecido.

— Nós não estamos em guerra com a Igreja. Nunca estivemos — declarou


Guid’Antonio. — Só com o papa. E não foi Lorenzo quem nos arrastou para a
guerra. Foi exatamente ao contrário.

— Blasfémia! — gritou o monge, agitando o punho. — Por causa de Lorenzo,


fomos atirados para o Inferno! — As pessoas, já amontoadas,
comprimiram--se ainda mais, com os olhos a brilhar com um medo que raiava
a loucura. O mastim debateu-se para se levantar, mas manteve-se firme,
com os dentes arreganhados e a rosnar ameaçadoramente.

Guid'Antonio sentiu o bafo quente dos descontentes a bater-lhe no rosto e


estava a começar a recuar quando um homem escondido por entre a multidão
gritou:

39
— Que direito tem Lorenzo para agir como nosso líder? Ele não é nenhum
duque nem rei! Mais valia ter morrido com o irmão!

Por um instante, Guid'Antonio fitou a multidão, sem palavras.

— Quem falou? — perguntou, com a voz a tremer de fúria. Não foi apenas a
fechadura do seu portão que mudou em Florença, dissera-lhe Cesare naquela
manhã. — Acuse-se!

Surgiu uma agitação inquieta nos olhos das pessoas.

— Cobardes! — exclamou, caminhando para o meio das pessoas. Amerigo olhou


de relance para Luca.

— Cá vamos nós.

As pessoas encolheram-se e recuaram, de olhos arregalados e tementes.

— E capaz de falar mal de Lorenzo, de o denegrir? — perguntou


Guid'Antonio, com as palavras a ecoarem pela praça, ressaltando e
rodopiando contra a pedra. — É capaz de ignorar e fazer pouco de tudo o
que a família Medici fez por nós nos últimos cinquenta anos? O que fez
pela nossa cidade, enviando milhares de florins para os conventos e
mosteiros? Sim, daqui até Jerusalém! Como se atreve a insinuar que
Giuliano mereceu o destino que teve? Ele era um inocente! — A cabeça de
Guid'Antonio estava a latejar, prestes a explodir.

Um sino solitário começou a repicar algures, como se estivesse em


perfeita consonância com as suas palavras,

— Não é duque nem rei, disse? E ainda assim, quem a Europa considera como
a voz da República Florentina? - A França, a Espanha, até o rei de
Inglaterra, Eduardo IV. Já para não falar dos duques Sforza de Milão, do
rei Ferrante de Nápoles, do papa e do doge que governa Veneza. Lorenzo! E
você, onde quer que esteja escondido, tem coragem para desafiar isto?
Lamente-se o dia em que um duque ou um rei governar esta cidade! Ou um
papa! Neste momento, temos a voz mais sonora e a mão mais firme entre nós
e eles.

Ali perto, Amerigo continuava com uma expressão solene no rosto e imóvel
como um carvalho, com as pontas dos dedos a tocarem no punho do punhal. O
olhar de Guid'Antonio varreu a multidão, com os pulsos a latejar
fortemente. Olhos redondos e brilhantes fitavam-no de volta. Certamente,
o Diabo tinha a alma de Guid'Antonio Vespucci, tal como tinha a do seu
cúmplice, Lorenzo.

40

Um jovem corajoso, que até então se contentara em desperdiçar a manhã a


mandriar na sombra do mercado, aproximou-se.
— Não lhes ligue, mestre Vespucci! — Depois gritou para a multidão: -
Lorenzo não fez mais na guerra do que defender a sua vida e a sua casa!
Culpam-no por continuar a fazê-lo?

Uma interrogação percorreu o corpo de Guid'Antonio. Continuar a fazê-lo?


Como assim?

O velho camponês, que estivera sempre em sentido junto à sua banca de


fruta, falou então:

— Diga o que quiser de Lorenzo, o Magnífico. Vocês são farinha do mesmo


saco. E acha que a minha comida é que está podre? Aqui, na barriga
faminta de Florença, nós sabemos porque chora a Virgem.

O jovem respondeu de modo enérgico:

— E eu bem sei que não é preciso muito!

Um grito coletivo de «Sacrilégio!» ergueu-se da multidão.

— Virgem? — perguntou Amerigo. — Onde?

A chegada de Palla Palmieri, que entrou na praça a cavalo à frente de


cinco homens armados, teve o efeito desejado. Uma rapariga gritou:

— Ufficiale!

E as pessoas recuaram.

— Dispersar! Imediatamente! - O vulto leve de Palla contorceu-se na


cela. O olhar negro demorou-se na multidão, memorizando os rostos.

Seguiu-se um momento de tensão. Logo de seguida ouviram-se palavras


murmuradas entre dentes e um dispersar nervoso. As pessoas abanavam as
cabeças e afastavam-se, embora os seus rostos continuassem inundados de
fúria. Palla cruzou o olhar com Guid'Antonio, sorriu-lhe de modo familiar
e desapareceu tão depressa como tinha aparecido. Um instante depois, o
rapaz arrojado que tinha falado com a multidão estava junto ao poço da
água, com os seus amigos.

Luca expirou profundamente.

— Graças a Deus pelo nosso chefe da polícia. E por si também, mestre


Vespucci. — A preocupação vincava a testa larga do boticário e parecia
prestes a dizer mais qualquer coisa. Em vez disso, encolheu pesadamente
os ombros. — Que a paz esteja convosco.

— E consigo também — disseram Guid'Antonio e Amerigo. — Obrigado por


ficar do nosso lado, Luca — disse Guid’Antonio. — É um bom homem.

Luca abriu um sorriso constrangido.

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— Sou um homem Medici, como vocês. Bem, não exatamente como vocês. De
qualquer maneira, que Deus esteja convosco. E boa sorte para os dias que
se aproximam.

— Jesus! Aquele velho pastor idiota — disse Amerigo assim que se


afastaram do mercado, percorrendo uma rua lateral enlameada. - Que
chorrilho de opiniões e falta de informação! Dispararam flechas verbais
vindas de todas as direções, tentando atingir-nos! «Abaixo os Medici»?
Como se atreve aquele tolo a falar contra nós? Na verdade, como se
atrevem todos, assim tão descaradamente, arriscando os seus pescoços, e
em nome de quê? — Amerigo franziu o sobrolho. — Depois de tudo o que se
passou, continuo tremendamente confuso.

— Eu estou confuso desde que saímos de casa hoje de manhã e quase fomos
derrubados por três monges em fuga — disse Guid'Antonio. Mas depois
pensou: E também antes disso.

Olhou de relance para trás para se certificar de que não havia nenhum
grupo de exaltados na rua a persegui-los com facas, e ficou aliviado por
ver apenas atrás de si o cane corso italiano a babar e a serpentear junto
aos seus pés.

Tomou uma nota mental para pedir a Cesare que matasse o animal do modo
mais humano possível se — quando — o cão os seguisse até casa. Era melhor
do que deixar o cão morrer à fome e o seu corpo apodrecer na rua.

— Durante a guerra, os camponeses viveram de pão feito com cascas de


carvalho — disse. Cansado e desolado, encolheu os ombros para expressar a
sua incompreensão. - Quanto aos comerciantes e todos os outros, estou tão
espantado como tu.

Saíram da viela e atravessaram a Praça da Senhoria na diagonal, apontando


ao edifício adornado com estandartes no canto leste da praça. Uma vez que
era um espaço apenas para pedestres, a praça calcetada estava livre de
cavalos ou quaisquer outras bestas de carga.

Uma ligeira brisa agitou a bainha carmesim do manto de Guid’Antonio e


aligeirou o rubor das suas faces encovadas. Inspirou profundamente,
acalmando os nervos troantes com a imagem da elegante torre do relógio
que se erguia do Palácio da Senhoria, ou Câmara Municipal, em direção ao
céu azul abobadado. Naquela cidade de torres, a de Arnolfo di Cambio era
a maior de todas. A torre do relógio e o edifício semelhante a um forte
da Senhoria dominavam aquela parte do centro de Florença há mais de um
século.

42

As duas estruturas durariam certamente para toda a eternidade.


— Uma virgem que chora e uma mulher casada que desapareceu — disse
Amerigo. — Que conversa estranha para uma reunião pública. E turcos? Por
favor. O que poderá tudo isto querer dizer, em nome de Zeus?

Guid'Antonio acenou para um conhecido que se cruzou com eles na

praça.

— Buon giorno. Bene, grazie, Augustino. — Para Amerigo, disse: — Baixa a

voz, por favor.

— E como disse o tio, o que tem isto que ver com o nosso Lorenzo?

— Amerigo, por favor.

Em silêncio, passaram pelo Marzocco de Donatello, o leão de pedra que


simbolizava a liberdade de Florença; Guid'Antonio questionou-se quantos
outros teriam reparado que o animal tinha os dentes à mostra num rugido

surdo.

— Com o nosso Lorenzo — insistiu Amerigo quando entraram no pátio


sombrio, fresco e rodeado de colunas do Palácio da Senhoria, onde um
guarda com uma faca no cinto montava guarda no fundo das escadas que
davam acesso ao Grande Salão.

— Amerigo, não faço a menor ideia — respondeu Guid’Antonio, vagamente


consciente de que as unhas do mastim debilitado tinham deixado de se
ouvir subitamente na praça atrás deles.

43

Página em branco

Capítulo TRÊS

Dobrando apressadamente a esquina da Praça da Senhoria para entrar numa


rua lateral à sombra, Sandro Botticelli deu um passo atrás, novamente
para o sol. Semicerrando os olhos, observou os dois homens que se
afastavam a passos largos em direção à Câmara Municipal. Um deles usava
um manto leve de verão de cor carmesim, a cor do luxo florentino, dado o
custo elevado da tinturaria produzida por um pó que era importado de
leste, onde era obtido a partir dos corpos moídos dos quermes de carapaça
avermelhada. O seu companheiro usava um dispendioso saio francês lilás,
uma das novas túnicas escandalosamente curtas, por cima de calças justas
castanhas e botas de couro castanho até aos tornozelos.
Sandro inclinou a cabeça. Seria capaz de reconhecer Amerigo Vespucci e o
seu tio, o famoso advogado Guid'Antonio, em qualquer lado. Pois se a sua
família e os Vespucci eram vizinhos no bairro de Unicórnio, em Santa
Maria Novella, desde que Sandro nascera. Amerigo parecia ter adquirido
uma certa pose confiante nos tempos ociosos que passara no Norte. O seu
passo largo acompanhava o do tio e tinha um ar de renovada confiança.

Sandro observou os ombros largos de Guid’Antonio. O chefe da família


Vespucci era um homem extraordinariamente bem-parecido, com uma espécie
de elegância natural e reservada; tinha o pescoço comprido e bonito,
cabelo grisalho cortado um pouco curto de mais em redor do rosto - era um
corte conservador —, maçãs do rosto proeminentes e olhos de um pálido
cinzento. Para Sandro, o estimado e por vezes temido Guid'Antonio
Vespucci era um homem bastante agradável de se admirar.

E, a acrescer a isto, o homem era rico, rico, rico.

45

Sandro mordeu o lábio, questionando-se se acabara de agir um pouco


apressadamente na Igreja de Todos os Santos. Estivera sentado nos
periclitantes andaimes de madeira, com os joelhos a tocar na pedra, a
pensar como pintar a túnica agitada pela brisa, quando ouviu um grito
diabólico.

— Luxúria! Assassinato! Profanei este lugar sagrado!

Sandro virara-se na prancha, semicerrando os olhos por cima do ombro,


para lá do fresco quase acabado de Santo Agostinho, iluminado pelas
tochas que ardiam nos castiçais ao longo da parede. Ali estava! Um vulto
negro saiu disparado de uma das capelas laterais em direção ao altar, com
as vestes a esvoaçar ao seu lado como se fossem enormes asas pretas.

O dervixe negro rugiu.

Sandro observara, horrorizado, quando a criatura parou subitamente em


frente ao altar e bateu no peito, com a cabeça atirada para trás num
abandono desesperado. As velas ardiam e fumegavam, traiçoeiramente
próximas do milagroso quadro da Virgem Maria de Santa Maria Impruneta,
colocado sobre o altar.

— Maria! — gritou o negro, caindo de joelhos. — Provoquei Deus, que se


abaterá sobre nós! Não sou digno de olhar para o vosso rosto. Perdoe-me!
Por favor!

Sandro pestanejou. Desde quando Satã se arrependia? Desde nunca! Mais do


que isso, o vulto agitado tinha o cabelo cortado, com o topo da cabeça
suave como o traseiro de um bebé e a franja como uma coroa negra e
brilhante. Ali não estava nenhum espírito maligno que queria destruir a
Virgem Maria de Santa Maria Impruneta, mas um dos irmãos beneditinos de
hábito negro daquela mesma igreja.

— Oh! — lamentava-se o homem. — Minha Virgem Senhora, quantas vezes


chorou por mim?

Tantas quantas as que lhe apetecera, era a opinião de Sandro. Quem era
aquele homem mortal para questionar o sentido de oportunidade da Virgem?
Mergulhou o pincel e ouviu o som de tumultos a aproximar-se.

— Ferdinando! — chamou uma voz aguda. — Por aqui! O irmão Martino está no
altar! Onde mais poderia estar?

— Sim! Apanhe-o, irmão Paolo! Corra!

O monge negro levantou-se e encarou as vozes que se aproximavam.

— Eu sou irmão de Satanás! Tenho de abandonar este lugar sagrado! —


Virando costas ao altar, correu para a porta dos claustros e saiu para a
galeria do jardim, onde hesitou, com o vulto submerso nos raios de sol.

46

A tempestade que caíra na noite anterior deixara o pátio relvado a


brilhar, uma tela radiante de um verde prateado refulgente. A porta do
claustro fechou-se ruidosamente e a igreja ficou mais uma vez encerrada
na penumbra melancólica.

Sandro olhou novamente para o altar, onde Paolo e Ferdinando pararam


subitamente.

— Ele não está aqui! Ferdinando, consegue ver? Os meus olhos são jovens
mas fracos — a Virgem está a chorar?

A pulsação de Sandro abrandou. A imagem de Maria pintada no quadro do


altar parecia ter chorado pela primeira vez na quarta-feira anterior — ou
pelo menos fora nessa quarta-feira que um rapazinho apontara as lágrimas
da Virgem à sua mãe. Depois disso, tanto comerciantes ricos como
camponeses pobres tinham enchido a Praça de Todos os Santos, emanando
ondas de devoção e de esperança, enquanto o encarregado das esmolas
revirava os olhos em direção ao céu, com os velhos ouvidos afinados com o
ritmo das moedas que tilintavam na sua caixa de peditório.

— Ela chora!

No entanto, as lágrimas da Virgem Maria começaram a abrandar pouco a


pouco até um suave gotejar. No sábado, já estavam completamente secas e
não voltaram a ver-se, tanto quanto se sabia.

O pequeno homem chamado Ferdinando olhou fixamente para o quadro, com o


corpo ligeiramente inclinado para a frente.
— É difícil ver com a falta de luz da igreja. Mas não, irmão Paolo, a mãe
de Cristo hoje não chora.

— Ah, Ferdinando! Obrigado. — O irmão Paolo persignou-se rapidamente, com


o olhar a deslizar pela nave, passando por cima de Sandro. Sandro
Botticelli era apenas um de muitos artistas que ali tinham trabalhado nos
últimos meses. Botticelli, Domenico Ghirlandaio: entravam e saíam de
acordo com as necessidades dos seus ofícios. — Irmão Martino! — chamou
Paolo. — Não há motivo para abandonar este local! O abade disse que Deus
perdoa até mesmo o pecado mais depravado!

Pecado! Pecado! Pecado! A palavra ecoou no vazio e derreteu-se por entre


as sombras.

A expressão que carregava a testa de Sandro aprofundou-se. «Luxúria!


Assassinato!», tinham sido as palavras do irmão Martino. Ele estava
tomado pelo pânico e agitado, sim. Mas seria um assassino? Não.

47

Sandro pegou num pincel limpo e aplicou um contorno dourado ao longo da


volumosa bainha da túnica do santo, com os olhos a viajarem de vez em
quando para os dois monges que tagarelavam como gralhas junto ao altar.

— Apareça, irmão Martino, ou o abade há de querer a minha cabeça! Por


favor! — implorou o irmão Paolo, olhando freneticamente em redor.

O mais provável era que o abade não quisesse apenas a cabeça dele, se
conseguisse deitar mão ao resto. Não era propriamente segredo no distrito
florentino de Santa Maria Novella que o abade Roberto Ughi gostava de
rapazes.

O pequeno Ferdinando estalou os dedos.

— O irmão Martino desapareceu! Puff, numa nuvem de fumo!

— Francamente!

— Bem, é verdade!

O irmão Paolo bufava.

— Mas a questão é: desapareceu para onde? Ferdinando apontou para a porta


dos claustros.

— Foi pelo jardim em direção ao Portão Prato! — Com os hábitos


levantados, lá correram os dois para a rua, para o calor verde brilhante.

O irmão Martino tinha desaparecido tão depressa que até podia ter
ascendido ao céu.
Sandro sorriu, inclinando a cabeça, à escuta: silêncio, finalmente. Nos
seus trinta e cinco anos de vida, tinha testemunhado alguns
comportamentos estranhos, tanto dentro como fora da igreja. Os monges de
Todos os Santos lidariam com os seus irmãos. A mente de Sandro voltou a
concentrar--se no quadro da Virgem montado sobre o altar. Os quadros
choravam, as estátuas de gesso exsudavam lágrimas e sangue e os
crucifixos eram vistos a transpirar. A fúria do Senhor manifestava-se no
mundo de forma bastante invulgar. Alguns anos antes, as gentes da cidade
de Volterra diziam que tinha nascido um menino com cabeça de touro e
garras de leão no lugar dos pés. Sandro estremeceu, imaginando a terrível
figura.

No seu fresco de Santo Agostinho tinha pintado uma prateleira e, em cima


dela, desenhara um livro de Geometria aberto. Num impulso — pensando em
quem repararia numa pequena piada gravada nos detalhes de um fresco
pintado numa velha igreja de Florença, na Rua de Todos os Santos, na
primavera e verão de 1480? «Aqui está outra pintura de Sandro Botticelli.
Bem, bem.» —, mergulhou o pincel no pigmento preto e escreveu quatro
linhas de poesia, em latim, no cimo de uma das margens...

48

Mas agora, depois de ver o puritano Guid'Antonio Vespucci e o seu


sobrinho a entrarem no Palácio da Senhoria, onde desapareceram escadas
acima, Sandro questionou-se se tinha cometido um terrível erro. Quão
zangada ficaria a família Vespucci se algum dos seus membros reparasse na
pequena piada que pintara no seu fresco — que era deles! — de Santo
Agostinho, na parede sul da igreja da família? Feitas as contas, tinha
sido um dos tios de Amerigo, Giorgio Vespucci, a encomendar o fresco.
Apressando-se na viela e a resmungar com os seus botões, Sandro
persignou-se e rezou pelo melhor.

O irmão Martírio está por aqui?

O irmão Martino esgueirou-se por ali.

Esgueirou-se por que lugar?

Pelo Portão Prato, para apanhar um pouco de ar.

49

Página em branco

Capítulo QUATRO
O chanceler Bartolomeo Scala virou-se de costas para o aparador, com um
pergaminho e uma pena nas mãos. O casaco simples, cortado no mais
requintado e brilhante tecido vermelho, levantou-se, revelando as calças
vermelhas a condizer. Bartolomeo tinha cinquenta anos, era um homem
orgulhoso mas também amável, e cumprimentou calorosamente os Vespucci. Os
três homens saudaram-se com beijos no rosto e Guid'Antonio entregou o
manto a Amerigo, que o pendurou num guarda-fatos de pinho colocado contra
uma das paredes.

- Parecem estar com bom aspeto, não obstante os rigores de três semanas
de viagem - disse Bartolomeo.

- E não obstante a receção inflamada com que nos deparámos na rua, também
- disse Guid'Antonio.

O rosto de Bartolomeo ensombrou-se.

- O que aconteceu? Amerigo fez uma careta.

- Tivemos de ouvir relatos sobre o desaparecimento de uma rapariga


florentina e também umas conversas loucas sobre como os infiéis estão
relacionados com o assunto.

- E difamaram Lorenzo - acrescentou Guid'Antonio. Bartolomeo pousou uma


mão na grande mesa de reuniões, com os dedos abertos, como se estivesse a
sentir-se subitamente zonzo.

- Estamos numa posição frágil como vidro. O que dizem as pessoas?

- «Abaixo os Medici». Bartolomeo arquejou.

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— Estarão loucos? Amerigo tocou no peito.

— Foi o que me perguntei também.

— E estão? - perguntou Guid'Antonio. Bartolomeo abanou uma mão para se


refrescar.

— Eu não sou um dos nove magistrados, sou apenas um chanceler da


república, e não me compete discutir assuntos privados de governação com
os meus amigos, por muito queridos e dignos de confiança que sejam. —
Encaminhou-se para o aparador e pegou numa garrafa forrada a palhinha. —
A discrição dita que mais não devo dizer.

Guid’Antonio teve vontade de lhe dar um par de estalos.

— Por que motivo não estão os magistrados aqui?


— Vocês chegaram atrasados. Eles vão voltar, embora ninguém saiba quando.
Que tal é este vinho em comparação com o dos franceses? Eles têm uma
reputação bastante boa.

Mergulhando no poço da paciência, Guid’Antonio respondeu:

— O Chianti representa a pátria. Ao lado dele, o vinho francês


empalidece.

— Amerigo, agora sabes por que razão o teu tio é o nosso diplomata mais
valioso — disse Bartolomeo, sorrindo suavemente.

— Eu já sabia — respondeu Amerigo.

— Ah, Guid’Antonio! O seu sobrinho tem sempre a resposta na ponta da


língua.

— É um florentino e um Vespucci — declarou Guid’Antonio. Bartolomeo


observou o teto abobadado, como se estivesse à procura

de um tema de conversa seguro, ali por entre o padrão de rosetas rodeado


de flores-de-lis.

— E como está a sua adorável senhora, Maria?

Guid’Antonio recordou o calor da pele da mulher contra a sua, enquanto


estavam deitados juntos, com os corpos a tocarem-se, nas horas que
antecederam o alvorecer. Recordou-se também da fúria dela e da sua.

— Na mesma. E Madalena?

— Está à espera de bebé - respondeu Bartolomeo, baixando os olhos,


satisfeito.

Era a sexta adição à casa já cheia de Bartolomeo Scala. Guid’Antonio


acenou com a cabeça.

— Louvada seja Maria.

52

Uma expressão carrancuda ensombrou o rosto do chanceler.

— Deus queira que seja um rapaz.

— Deus queira que sobreviva — disse Guid'Antonio. — Assim como Madalena.

— Sim, claro que sim. - Bartolomeo corou violentamente, recordando--se


sem dúvida da primeira mulher de Guid'Antonio, Taddea, que morrera ao dar
à luz, pouco depois de terem casado, doze anos antes. Taddea e o filho
recém-nascido de ambos, mortos. — Perdoem-me — disse Bartolomeo. - Estão
com fome? Comam qualquer coisa.
— Não tenho fome.

Amerigo escolheu uma maçã vermelha de uma fruteira que estava em cima da
mesa de reuniões e deu uma grande e sumarenta dentada.

— Grazie.

Ouviram-se passos no exterior da sala.

— Mais cedo do que eu pensava — disse Bartolomeo.

A porta abriu-se e um homem magro, de cabelo branco e manto carmesim com


gola e punhos de arminho, pairou em frente deles, com o casaco pelos
tornozelos diferente dos casacos dos restantes oito homens pelo padrão de
estrelas bordadas a fio de ouro. O homem era Tommaso Soderini, o nono
magistrado, e, por isso, o gonfaloneiro de justiça. Sendo o oficial mais
graduado oficialmente eleito pelo Estado Florentino, Tommaso Soderini era
também tio por casamento de Lorenzo de' Medici.

— Guid'Antonio - disse Tommaso com um sorriso soturnamente paciente. -


Finalmente temos notícias suas.

A missão que Guid’Antonio levara a cabo ao viajar de Itália para França


em outubro de 1478 consistira em reunir apoio para o governo florentino
na guerra que o papa lhes declarara depois de perceber que a conspiração
do seu sobrinho para se livrar de Lorenzo e de Giuliano de' Medici tinha
falhado em metade dos seus objetivos - a metade mais importante, o
cidadão Lorenzo de' Medici, sobrevivera, com vinte e nove anos. Como se
atrevera Florença a decapitar o comandante geral do exército do papa e a
enforcar não apenas o seu banqueiro, Francesco de' Pazzi, mas também o
arcebispo de Pisa? Não importava que o general, o banqueiro e o clérigo
fossem culpados de conspirar - e, no caso de Francesco, de cometer - um
crime numa cidade mais conhecida pelos seus artesãos e estudiosos dotados
do que pelos seus assuntos de Estado.

53

De qualquer maneira, as políticas de Florença eram mais confusas do que


propriamente uma ameaça para outros que não a própria cidade. Era uma
democracia, uma república com oficiais eleitos, mas que na verdade era
governada por uma família, os Medici, há meio século. Em todo o lado
menos em Itália, as pessoas coçavam a cabeça, igualmente divertidas e
confusas com a capacidade que Firenze — a Cidade das Flores, por amor de
Deus — conseguia manter-se como uma das cinco mais poderosas da península
italiana.

Da segurança do Vaticano, Sisto tinha-se virado contra Florença,


excomungando-a num gesto de feiticeiro enraivecido e armado com uma
espada flamejante. Ninguém dentro das muralhas da cidade, nem mesmo dos
territórios limítrofes, podia casar-se pela Igreja. Os mortos tinham de
ser enterrados em campos e valas. As igrejas foram fechadas. Certamente
que o medo pela imortalidade das suas almas viraria as pessoas contra o
espinho cravado na obra de Deus, Lorenzo. Para evitar a guerra com Roma,
a única coisa que Florença tinha de fazer era entregar Lorenzo a Sisto,
para que fosse devidamente castigado.

— E porquê? — perguntara Lorenzo na carta que escrevera ao seu aliado, o


rei Luís XI de França. — Por me recusar a morrer na igreja ao lado do meu
irmão?

- Não - responderam os magistrados de Florença. Consideraram a tentativa


de assassinar os representantes da família Medici um ato de guerra. Mas a
excomunhão constituía um problema sério. Como podiam empinar os seus
narizes perante Roma, se isso significava condenar as suas almas ao fogo
eterno do Inferno? Não podiam. Consultando textos tão antigos que os
pergaminhos se desfaziam em pó por entre os dedos, o clero florentino
determinou que o papa tinha excedido a sua autoridade. Por isso, emitiu
um comunicado excomungando o próprio papa e os padres continuaram a
desempenhar os rituais cristãos como sempre tinham feito.

Em Bolonha, Milão e Lyon, discutindo a situação até à exaustão no seu


papel de orador do governo, Guid'Antonio argumentara perante a assembleia
do Conselho Geral que Sisto IV devia ser deposto e uma reforma devia ser
levada a cabo na Igreja.

Enquanto isto, no território em redor de Florença os soldados mercenários


do papa roubavam cavalos, incendiavam moinhos, queimavam povoações e
chacinavam homens, mulheres e crianças. Os refugiados de Brolio, Radda e
Castellina, em Chianti, chegavam aos magotes à cidade.

54

Quando o segundo inverno de guerra se aproximava, Florença tinha pela


frente a derrota certa às mãos dos exércitos romano e napolitano, este
último equipado pelo rei Ferrante, o rei de Nápoles, que se tinha aliado
ao papa provavelmente para conseguir expandir o seu próprio poder
privado.

Dentro de Florença, um outro inimigo mortal circulava pelas ruas.

Alguém encontrou um homem morto pela peste num dos bancos da Igreja de
Santa Maria Novella. Quando um rapaz doente foi encontrado numa praça
próxima dali, as pessoas abandonaram-no lá, relutantes em tocar na
criança e levá-la para o hospital. Carroças carregadas com cadáveres
atravessavam ruidosamente a cidade pútrida.

O que começara como uma escaramuça privada entre o papa Sisto IV e


Lorenzo de' Medici estava a levar a República de Florença à ruína: não
havia fruta e carne frescas, havia muito pouco pão e as ratazanas corriam
velozes nas margens lamacentas do Arno. Quando a situação italiana
parecia estar impossivelmente gelada e Paris estava envolta num manto
profundo de neve, em janeiro de 1480, Guid'Antonio, ainda em França,
recebera notícias espantosas de Bartolomeo Scala: um mês antes, Lorenzo
tinha viajado para Nápoles para apresentar ao rei Ferrante o seu plano
pessoal para a paz.

A iniciativa de Lorenzo era atrevida. Se funcionasse, privaria Sisto IV


do seu aliado mais poderoso. Mas o jovem e informal líder de Florença nas
mãos do rei napolitano? Só a ideia fez Guid'Antonio transpirar de medo
pelo amigo e pelo futuro da cidade de ambos. Lorenzo e o rei Ferrante
tinham beneficiado de relações amistosas no passado, mas os relatos da
crueldade do rei corriam velozes por toda a Itália. Dizia-se que Ferrante
embalsamava os corpos dos inimigos nas caves do Castelo dell’Ovo, na baía
de Nápoles. Em França, Guid'Antonio benzeu-se e receou pela segurança de
Lorenzo. Se perdessem Lorenzo, Florença ficaria aberta ao papa e ao seu
sobrinho, que muitos pensavam ser o seu próprio bastardo, o ganancioso e
insaciável Girolamo Riario.

Numa certa tarde do início de abril de 1480, um mensageiro encontrara


Guid'Antonio em Paris, enquanto este passeava com Ameliane Vely, uma das
jovens mulheres da corte, nos jardins do rei Luís XI, nas margens do rio
Sena. Ameliane encontrara Guid'Antonio por acaso, como acontecia tantas
vezes, fosse ali entre os caminhos ondulantes ou nos corredores do
palácio real. Quase sem se atrever a respirar, Guid'Antonio leu a última
missiva que Bartolomeo Scala lhe enviara de Itália. Duas semanas antes,
no meio do mês de março, Lorenzo chegara a casa vindo de Nápoles, com um
tratado de paz legitimado pelo selo real do rei Ferrante.

55

O céu parisiense que pairava sobre Guid'Antonio ficou ainda mais azul, o
sol mais brilhante e as nuvens impossivelmente fofas e brancas. Ele
sorriu deliciado, abraçou Ameliane e beijou-a na boca.

Ameliane corou.

— Boas notícias?

— Oui! A guerra acabou.

— Louvados sejam Deus e todos os Santos.

— Louvados sejam Deus e Lorenzo — disse Guid'Antonio, a sorrir.

O sorriso brilhante dela estremeceu em direção às roseiras que ladeavam o


caminho do jardim, cheias de bolbos maduros, prestes a florescer.

— E agora, embaixador Guid'Antonio Vespucci, o senhor já não é obrigado a


ficar aqui em França?
— Não, não por muito mais tempo. — Depois de ter perdido o seu maior
aliado para Lorenzo, o papa não teria outro remédio senão mandar recolher
as suas tropas. Roma detinha grande poder, mas nem mesmo Roma podia lutar
sozinha. Ainda a sorrir, Guid'Antonio beijou as pontas dos dedos de
Ameliane. — Tenho de ir contar a Amerigo. Excusez-moi, s'il vous plaît.

— Naturellement — Ameliane fez uma pequena vénia com a cabeça. Quando


levantou os olhos, o embaixador italiano já estava a desaparecer pelo
caminho, um fantasma de Guid'Antonio em animada cavaqueira com o
mensageiro cujas boas e inesperadas notícias trouxeram um raro e adorável
sorriso à boca voluptuosa do embaixador.

— Mas também já sabem de quase tudo — disse Guid’Antonio, recostando--se


na sua cadeira numa das extremidades da mesa de reuniões, com o olhar
fixo no presidente Tommaso Soderini. Entregou as credenciais, escritas em
pergaminho, em latim, ao chanceler Bartolomeo Scala, assim como um
relatório das suas despesas, per diem.

Tommaso concordou com um ligeiro aceno de cabeça. De cabelo branco como a


neve, com ossos tão frágeis como os de um tordo, a pele pálida de Tommaso
contrastava com o manto carmesim vivo.

— Grazie, Guid'Antonio. Os seus serviços serão devidamente incluídos nos


registos oficiais. — Um sorriso minúsculo aflorou os lábios de Tommaso. —
Talvez a temporada que passou em França prove que continua a ser fiel a
Florença.

Os restantes magistrados, que até então olhavam impacientemente em redor


do salão, ficaram de súbito muito atentos. Ao lado de Guid’Antonio,
Amerigo retesou-se.

56

Sentado no pódio sob as janelas que davam para a Praça da Senhoria — as


mesmas janelas onde Francesco de' Pazzi tinha sido enforcado —, o
assistente de Bartolomeo Scala, Alessandro Braccesi, suspirou
profundamente.

Continuar a ser fiel? Guid'Antonio podia ensinar meia dúzia de coisas a


Soderini sobre a lealdade. No entanto, disse para si próprio que devia
ser cuidadoso. Tommaso tinha mel na boca e um punhal no cinto.
Guid'Antonio disse:

— E eu, como o senhor, aprecio que Lorenzo continue a confiar em ambas as


nossas casas. Não obstante os traidores que de vez em quando por lá
habitam.

O lorde magistrado António Capponi deu uma gargalhada, estendendo a mão


para um jarro de vinho próximo.
— Ora aí está uma bela resposta, Guido! A sua saúde, meu amigo. — O
casaco vermelho de magistrado de Capponi estava aberto por cima dos
ombros, revelando a jaqueta preta acolchoada e a camisa de algodão
cinzenta: as cores da família Capponi.

Em frente a Capponi, os olhos do magistrado Pierfilippo Pandolfini


irradiavam impaciência. Três peixes de esmalte dourado, incrustados numa
pedra azul, decoravam o anel de Pierfilippo: o símbolo dos Pandolfini.

— Guid'Antonio — disse Pierfilippo — acabou de chegar de viagem. Ainda


não deve ter ouvido as últimas notícias de Roma.

Roma, Roma, Roma.

— Claro que não. Não.

— Florença continua excomungada. Guid'Antonio recostou-se pesadamente na


cadeira.

— Impossível. Tanto o rei Ferrante como Sisto assinaram o tratado de


Lorenzo.

— Há sempre algumas complicações — disse Tommaso Soderini, sorrindo


debilmente.

A mente de Guid'Antonio começou a rodopiar. Se Sisto não tinha levantado


a interdição a Florença, todos os rituais da Igreja continuavam vedados
aos cidadãos florentinos. Não admirava que as pessoas no mercado
estivessem tão receosas e zangadas. Não podiam celebrar-se casamentos,
batizados ou enterros em solo sagrado.

— Porquê? — perguntou. — Não faz sentido.

— Porque não cumprimos a última exigência do papa — disse Tommaso.

57

— Que era?...

Secos e com um tom roxo próprio da idade, os lábios de Tommaso ergueram-


se num sorriso rasgado.

— Mandarmos Lorenzo a Roma para se encontrar com o papa. Guid'Antonio


levantou-se com um salto e deu um murro na mesa.

— Mas a guerra começou porque não entregámos Lorenzo! Os últimos dois


anos não significaram nada para aquele louco do Vaticano? — Inspirou
profundamente. - E quanto a Lorenzo? O que disse ele?

— O que diz sempre — respondeu António Capponi. — Que não. Ele fará tudo
o que for necessário para preservar a República de Florença. Mas não
hoje. Nápoles está num extremo, Roma noutro completamente diferente. Ele
podia realmente morrer em Roma.

— Tommaso — disse Guid'Antonio, voltando a sentar-se. — O que o


aconselhou a fazer?

O homem mais velho fez um grunhido.

— Que selasse o cavalo e cavalgasse até à Praça de São Pedro como se o


Diabo o perseguisse.

— O quê? Isso é uma novidade! - exclamou Pierfilippo Pandolfini. - Mas a


que custo? Para ser assassinado assim que entrar na Cidade Eterna? Seria
eterno, sem dúvida!

O lorde magistrado Piero di Nasi, um homem calado por natureza,


contorceu-se na cadeira.

— Vamos lá. Não é muito provável que isso venha a acontecer.

— Também não era muito provável que Giuliano fosse assassinado na


catedral — disse Guid'Antonio, com o temperamento a rugir, enquanto se
debatia com memórias tão vívidas que ameaçavam despedaçá-lo até ao âmago.

Os dedos de Tommaso acariciaram o aquecedor de mãos, o frasco cilíndrico


de estanho, polido para se assemelhar a prata, cheio com carvões
incandescentes, que usava mesmo no calor do verão.

— O tratado de Lorenzo é impopular — disse.

— Impopular? E então? Porquê? — perguntou Guid'Antonio.

— Para começar, porque permite que o príncipe de Nápoles continue


acampado junto à nossa fronteira sul — disse Tommaso.

— Em Siena?

Tommaso encolheu os ombros.

— Claro.

58

Guid'Antonio estava demasiado atordoado para pensar. O príncipe Alfonso


de Nápoles era o mais velho dos dois filhos do rei Ferrante. Um soldado
habilidoso, Alfonso tinha capitaneado as tropas romanas e napolitanas na
guerra contra Florença. E Lorenzo permitia que o príncipe guerreiro
continuasse estacionado a cinquenta quilómetros do Grande Salão no
Palácio da Senhoria, onde muitos — a maior parte — dos governantes de
Florença estavam agora reunidos? Certamente que Alfonso não empreenderia
um ataque surpresa contra eles.
Tommaso espalhou queijo creme numa fatia grossa de pão.

— O rei Ferrante quer o filho a pouca distância de nós. Caso a


oportunidade venha a apresentar-se, creio eu. Lorenzo concordou com a
exigência para poder trazer o tratado assinado.

António Capponi soprou uma madeixa de cabelos louros do rosto.

— O que acontece é que, quando se soma a presença contínua do príncipe


Alfonso, com os turcos que estão a bater-nos à porta e com a interdição
constante do papa, se obtém uma cidade que está na iminência de explodir,
como a carroça da Praça do Duomo em Domingo de Páscoa. Só que,
naturalmente, essa ocasião deve ser festiva.

Bateu com as mãos:

— Bang!

Ao lado de Guid'Antonio, Amerigo sobressaltou-se.

— Mas não há turcos em Itália — disse Guid’Antonio.

— Não houve durante muito tempo — concordou Piero di Nasi. — Mas os seus
navios já foram avistados na costa de Rodes, no mar Mediterrâneo.

Amerigo emitiu um guincho, perturbado.

— Mas isso é a última morada dos cruzados cristãos! Não teriam a menor
hipótese contra as legiões de Mehmed, o Conquistador... — Os nove homens
da Senhoria, assim como o chanceler Bartolomeo Scala e o seu assistente,
Alessandro Braccesi, fitaram o sobrinho de Guid'Antonio, que tinha um
papel a desempenhar naquela reunião oficial do governo: fazer de giovane,
o secretário do tio.

— Sabemos que a ilha que lhes serve de fortaleza se localiza ali — disse
suavemente Piero di Nasi. — Servem-se dela há mais de um século.

— As pessoas estão sempre a ver turcos — disse Guid'Antonio.

— Isso é porque sabem que Mehmed II continua de olho no Oeste — disse


Tommaso Soderini.

— Talvez, mas os turcos na Toscana não são reais.

59

— São como as lágrimas do vosso quadro que chora — disse António Capponi
a sorrir amplamente. - São falsas - ou assim esperamos - acrescentou,
persignando-se.

— Do nosso quê? — perguntou Guid'Antonio.


— Ele está a falar do quadro que retrata a Virgem Maria de Santa Maria
Impruneta, aquele que foi trazido da sua aldeia e colocado sobre o altar
da Igreja de Todos os Santos para as celebrações da primavera —
esclareceu Piero di Nasi. - Na última quarta-feira, as lágrimas começaram
a cair pelo rosto da Virgem abaixo.

— Tem a certeza? — perguntou Guid'Antonio, espantado.

— Ora aí está uma pergunta com pelo menos mil respostas possíveis — disse
Tommaso.

Na minha igreja, pensou Guid'Antonio. Na Igreja de Todos os Santos.

— Amerigo — disse —, reaviva-me a memória: o tempo em França, estava


muito frio e chuvoso? — A pergunta provocou alguns sorrisos retorcidos;
um dos homens deu uma gargalhada, sonora e nervosa.

Para lá das janelas do salão, o sol ardia escaldante enquanto atravessava


o céu. Um corvo grasnou, depois outro. Guid'Antonio estava imóvel. Os
Vespucci tinham-se mudado da vila de Peretola para o bairro de Unicórnio,
no distrito florentino de Santa Maria Novella, quase um século antes.
Desde essa altura que a família e os monges beneditinos da Ordem dos
Humiliati da Lombardia dominavam a região. No final da década de 1380, um
parente afastado de Guid'Antonio, o comerciante de seda Simone Vespucci,
tinha mandado construir o hospital local, Spedale dei Vespucci, a poucos
metros do Palácio Vespucci. Durante todos estes anos, o dinheiro da
família tinha decorado a igreja. Quatro gerações de Vespucci jaziam sob
as capelas sombrias de pedra: a mãe de Guid'Antonio, o pai, a sua
preciosa primeira mulher e o bebé de ambos.

E agora, um dos seus quadros da Virgem chorava na mesma igreja.

Guid'Antonio olhou para os homens que o rodeavam na mesa.

— E então?...

— E então, Guid’Antonio — disse Tommaso Soderini, com uma expressão dura


no rosto —, que estas lágrimas na sua igreja fizeram com que a povoação
acreditasse no facto de a Virgem Maria estar a chorar pelas suas almas
perdidas. Acreditam no facto de Deus estar furioso connosco por termos
ousado desafiar o papa. Seja pela mão de Mehmed, o Conquistador, do
príncipe de Nápoles, do conde Girolamo Riario, ou dos três em conjunto,
as pessoas estão convictas de que Deus quer ver Florença destruída e os
seus cidadãos a arder no Inferno como porcos no espeto.

60

E a quem atribuem as culpas?


Guid'Antonio quase esperava que os magistrados começassem a entoar o nome
num coro sonoro. Em vez disso, o nome circulou pelo salão num murmúrio,
nunca proferido: Lorenzo, Lorenzo, Lorenzo.

Bartolomeo Scala falou de seguida:

— Você é um homem dos Medici, Guid'Antonio. Assim como todos nós. E viu
como isso pesou contra si no meio das ruas. A situação piora a cada hora
que passa.

Tommaso limpou as migalhas da boca com um guardanapo de linho.

— Chegou a altura na qual devemos satisfazer os céus.

— Satisfazer Sisto IV e o seu sobrinho, quer dizer — afirmou


Guid'Antonio, com uma voz sombria. — Como? Servindo-lhes a cabeça de
Lorenzo numa bandeja?

Tommaso deu uma gargalhada amarga.

— Se for preciso servir a cabeça de alguém numa bandeja, duvido que seja
a do meu sobrinho. Ele é demasiado matrei... — Tommaso sorriu
deliberadamente. — É demasiado astuto para isso. No entanto, se não
fizermos alguma coisa para evitar que a guerra civil se instale nas ruas,
serão as nossas cabeças a rolar. No olhar inexpressivo de Tommaso,
Guid'Antonio viu cinquenta anos de incansável serviço à República de
Florença e a frustração amargurada que devia acompanhar o papel de
Tommaso como segundo chefe da família de' Medici, atrás de Lorenzo. E
certamente com uma autoridade mais legítima do que a do seu sobrinho de
trinta e um anos. Por Cristo, à exceção do secretário de Bartolomeo,
Alessandro Braccesi, e de Amerigo, cada um dos homens presentes naquele
salão tinha mais poder oficial do que Lorenzo, embora isso não lhes
servisse de muito. Lorenzo podia não ter coroa, mas era o príncipe da
cidade, a pedra basilar de toda a gente que apoiava a família Medici. Não
tinham eles - os homens presentes no salão — colocado notoriamente o
manto da liderança sobre os ombros de Lorenzo, há quase uma década,
quando o seu pai morreu da debilitante gota? Em dezembro de 1469, Lorenzo
tinha vinte anos e era um jovem robusto mais interessado em poesia e
cavalos do que em política. Agora precisavam de reconhecer o facto de que
o poder lhe assentava como uma segunda pele.

— A alternativa - continuou Tommaso - é que acabemos por dar por nós no


exílio, com outros homens a substituir-nos.

61

— Exílio? — Amerigo ficou pálido como um fantasma. Os Vespucci, os


Soderini, os Medici e os Pandolfini, despojados de toda a sua riqueza e
de todo o seu poder, obrigados a fugir da cidade?
Desta vez, os restantes homens ignoraram a intrusão de Amerigo na
conversa.

— Mais vale atarem-nos blocos de pedra ao pescoço e lançarem-nos ao Arno


- disse Pierfilippo Pandolfini.

— Ou balançar-nos ali daquelas janelas para a Praça da Senhoria —


interrompeu António Capponi. — Exatamente como fizemos a Francesco e ao
arcebispo de Pisa, há dois anos.

O vacca, o grande sino da torre de Arnolfo di Cambio, bateu o meio-dia,


marcando com uma precisão exata o silêncio arrepiante que se instalou no
Grande Salão. Exílio. Quem podia imaginar um destino pior? Não: até a
morte empalidecia quando comparada com o exílio.

Com um ar gracioso impressionante, Tommaso puxou levemente o casaco por


cima dos ombros e levantou-se.

— Não me admiro nada com o facto de a Virgem ter sido vista a chorar. Até
eu já estou saturado deste conflito do meu sobrinho com o papa Sisto IV.

Os olhos castanhos do velho homem procuraram os de Guid'Antonio.

— Devo dizer, antigo embaixador Vespucci, que aprecio bastante os seus


relatórios. Mas, quanto ao resto, se o meu sobrinho não quiser ir a Roma,
não o podemos obrigar. — Parou por um instante, depois ergueu as
sobrancelhas. — Ou podemos?

Guid'Antonio estava a colocar o manto quando Pierfilippo Pandolfini se


abeirou apressado. O homem mais novo abraçou-o, a sorrir, embora os seus
olhos estivessem sombrios e perturbados.

— Guid'Antonio, estou muito contente por o ver de regresso a casa. -


Entredentes, Pierfilippo disse: — Admire as minhas joias, rápido!

— Tem um anel maravilhosamente elaborado. Quem foi o criador? O Andrea, a


avaliar pelo aspeto — disse Guid'Antonio.

— Sim, ou um dos rapazes da sua oficina, embora tenha pago o preço


habitual do próprio Verrocchio. — Pierfilippo baixou a voz. — E verdade
que a corrente se está a virar velozmente contra nós. Mas macacos me
mordam se devemos fazer a vontade a Sisto! Os quatro meses que Lorenzo
passou em Nápoles deram ao seu tio uma liberdade de ação que nunca teria
conseguido alcançar com ele aqui.

62

Um homem matreiro é capaz de atingir qualquer objetivo em menos tempo.


Que melhor oportunidade para começar a tomar a liderança, que toda a
gente sabe que Tommaso sempre desejou? Senhoras desaparecidas, quadros
milagrosos e agitação nas nossas ruas. É um sentido de oportunidade
espantoso, não concorda?

Levantando a voz, Pierfilippo acabou, sorrindo amplamente:

— Que Deus esteja consigo, meu amigo. Temos de nos juntar, para beber um
pouco de vinho. — E, com isto, foi-se embora apressadamente.

Os olhos de Guid'Antonio viajaram até ao mensageiro que acabara de entrar


no salão e que estava a falar com Bartolomeo Scala. Franziu o sobrolho,
matutando nas palavras de Pierfilippo, enquanto Amerigo guardou os
instrumentos de escrita na sacola, fechando-a com tiras de couro. Poderia
Tommaso Soderini estar a incentivar os problemas com o papa, na esperança
de arruinar Lorenzo? Se assim fosse, quem eram os cúmplices de Tommaso?
Estariam as restantes famílias que apoiavam Lorenzo em perigo?
Guid'Antonio esfregou o pescoço para aliviar a dor muscular que o
prendia. Dirigiu-se para a porta, com Amerigo ao seu lado.

- Guid'Antonio - disse Bartolomeo, sorrindo francamente -, está aqui uma


mensagem da Via Larga.

Todos os olhos se viraram naquela direção. Tommaso virou-se e prendeu


Guid'Antonio no seu olhar prateado.

- E? — perguntou Guid'Antonio. Bartolomeo sorriu perante a sua confusão.

— É de Lorenzo. Solicita a sua presença lá.

— Quando?

Bartolomeo hesitou, olhando de relance para o mensageiro, que fez uma


vénia enquanto murmurava: -11 Magnifico não disse.

- Não. Il Magnifico não precisaria de estipular hora, pois não? -


perguntou Guid'Antonio.

E foi assim que Guid'Antonio e Amerigo voltaram à Praça da Senhoria, cada


um imerso nos seus próprios pensamentos; Amerigo ponderando os comos e os
porquês de turcos e virgens, sagradas ou nem por isso, enquanto
Guid'Antonio pensava na complexa natureza do poder, do desejo e da
verdade.

63

Com uma breve despedida, Amerigo dirigiu-se a casa, assobiando surdamente


para si próprio, e Guid’Antonio dirigiu-se para norte, em direção ao
Palácio Medici, no bairro do Leão Dourado, no distrito de San Giovanni da
cidade muralhada, consciente do animal enfraquecido que caminhava atrás
de si, mantendo uma distância segura das suas elegantes botas de couro.
64

Capítulo CINCO

De pé, junto à janela dos seus aposentos no rés do chão do palácio,


Lorenzo olhou em redor com alívio e um sorriso de reconhecimento quando
Guid'Antonio entrou na sala.

— Então — disse, com os olhos castanhos-escuros a brilhar —, devo ir para


Roma ou não?

— Não — respondeu Guid'Antonio. Os dois homens abraçaram-se e


permaneceram unidos durante mais alguns instantes, Lorenzo era tão sólido
e forte como Guid'Antonio se recordava dele. Acordado pela entrada de
Guid'Antonio, o esguio galgo que dormitava em frente à lareira fria e do
tamanho de um homem, levantou a cabeça antes de dar um suspiro profundo e
trémulo e pousar novamente o nariz sobre as patas estendidas. Lembro-me
de ti.

— Guid'Antonio, obrigado por ter vindo — disse Lorenzo. — E tão


prontamente, também.

— Como está, meu amigo?

— Atordoado.

— Sim! — exclamou Lorenzo. — A Virgem Maria de Santa Maria Impruneta está


a chorar em Todos os Santos — a igreja da sua família — e a agitação
encheu as ruas da cidade, enquanto me atribuem as culpas de tudo e mais
alguma coisa. Ou fazem de mim uma parte da solução, enfim.

Lorenzo afastou o cabelo grosso, castanho-escuro, do rosto, segurando-o


no ar antes de o deixar cair novamente para os ombros. Sem ser um homem
bonito, embora não tivesse também mau aspeto, o cabelo de Lorenzo de'
Medici emoldurava feições escuras e irregulares.

65

Usava botas curtas, calças justas cor de cinza e uma túnica larga de
linho branco com um cinto, cujo colarinho parava mesmo abaixo da cicatriz
irregular que se via no seu pescoço. Um pouco mais alto que a média e
bastante ágil, Lorenzo tinha desembainhado a espada assim que o padre o
tentou esfaquear na catedral, naquela manhã sangrenta de domingo, em
abril; lutou contra os seus atacantes, saltou a balaustrada do altar e
encontrou segurança na sacristia, onde, juntamente com três amigos,
trancou a porta que o separava dos homens que o queriam apanhar.
— Mas eu coloquei-me mesmo no meio da barafunda — disse Lorenzo. — Está
com fome? — perguntou com um sorriso rasgado. — Duvido que tenha
conseguido comer alguma coisa enquanto esteve fechado no Palácio da
Senhoria com os nossos nove lordes magistrados.

— Nem uma dentada — disse Guid'Antonio, olhando na direção do aparador de


nogueira encostado a uma das paredes e reparando nos refrescos colocados
em bandejas de prata, nas taças de cerâmica com azeitonas variadas,
azeite fresco, fatias de melão verde brilhante, prosciutto, salame, pão
aromatizado com ervas nas cozinhas do Palácio Medici e queijo acabado de
chegar das quintas de laticínios que Lorenzo tinha em Poggio e Caiano.
Tudo a postos e à espera do amigo de Lorenzo, e seu braço direito,
Guid'Antonio Vespucci.

— Grazie. — Molhou os dedos e secou-os numa toalha de linho. Delicioso,


pensou, enquanto trincava uma fatia grossa de pão de rosmaninho barrado
com uma generosa quantidade de queijo pecorino, cremoso e pálido. Estava
no extremo oposto em relação ao queijo rançoso que o camponês lhe tinha
vendido no mercado, pouco antes. E estava ainda mais afastado da tarte de
corvo queimada da velha mulher.

— Poggio está a funcionar bem? — perguntou. Alguns anos antes, Lorenzo


começara a adquirir propriedades no campo entre Florença e Pistoia, mas
com a morte do irmão e a guerra que se seguiu, o progresso das quintas
estagnara completamente.

— Por obra e graça de algum milagre, está. Ou quase.

O galgo malhado seguiu o pão de Guid'Antonio com os olhos e espreguiçou-


se para se sentar sobre as patas traseiras.

— Tem maneiras, Leporarius — disse Lorenzo. — Terás a tua parte mais


tarde. — Com os olhos praticamente fechados, o galgo voltou a deitar-se
na lareira fria. Era caçador de lebres. Incrivelmente rápido e esguio. —
Lindo menino. Obrigado. — Lorenzo virou-se para Guid’Antonio a sorrir
amplamente.

66

- Há seis meses que não vou a Poggio; passei quatro meses na maldita
Nápoles a cortejar o rei. Mas, pelos olhos de Deus, Guid'Antonio, que
direito tenho de me queixar? Se você passou um ano em França.

— Quase dois — disse Guid'Antonio.

Uma expressão de embaraço cruzou o rosto de Lorenzo.

— Claro. Desculpe.
Ouviu-se uma batida leve e a porta dos aposentos abriu-se; o assistente
de Bartolomeo Scala, Alessandro Braccesi, espreitou pela frincha da
porta.

— Do chanceler. — Alessandro entregou a Lorenzo as notas oficiais que


tirara durante a reunião com os magistrados. — Mestre Vespucci —
cumprimentou, reconhecendo a presença de Guid'Antonio, que lhe acenou com
a cabeça, enquanto pensava: Basta pôr-lhe umas asas nos pés e chamar-lhe
Mercúrio. É o mensageiro especial do deus da Via Larga.

— Alessandro, bebe um pouco de Brolio. Está excelente — ofereceu Lorenzo,


já a passar os olhos pelas folhas de papel que tinha nas mãos.

— Grazie. Já agora, uns rapazitos estavam a atormentar um rafeiro


moribundo junto ao portão principal. Eu acabei com o sofrimento do
animal.

A luz estremeceu em volta de Guid'Antonio.

— Ai sim? — perguntou. Lorenzo levantou os olhos, fitou-o durante um


instante e voltou a baixá-los.

— Bastou uma pancada na cabeça — disse Alessandro. — Com um pedaço afiado


de arenito. Provavelmente a pedra caiu da carroça de algum pedreiro. —
Aqui — debruçou-se na direção de Lorenzo para decifrar uma parte de texto
que estava manchada com um borrão de tinta.

Guid'Antonio sabia que devia estar grato. O secretário tinha-lhe poupado


— ou a Cesare — a maçada de abater o cão. O pobre saco de pelo e ossos
não tinha dono. O mastim nunca teria sobrevivido nas ruas. Massajou a
testa numa tentativa inútil de aligeirar a compressão que ali se reunia;
o seu olhar viajou até à fileira de janelas protegidas com pesadas grades
de ferro forjado ao longo da Via dei Gori, no lado de San Lorenzo do
Palácio Medici. Para lá das janelas gradeadas ouvia-se o barulho de
vozes, de velhos ofegantes a contarem histórias no banco de pedra
construído ao longo de toda a parede que dava para o mercado e para a
Igreja de San Lorenzo.

O olhar de Guid'Antonio recaiu na secretária de Lorenzo. Uma lamparina a


óleo estava pendurada num braço de ferro por cima da estante giratória de
leitura, iluminando os poemas de Catallus, um trabalho antigo perdido
durante séculos até que alguém descobriu o velho pergaminho a servir de
bujão a um barril de vinho em Roma.

67

Ao lado do pergaminho, Guid’Antonio viu uma carta cujo lacre carmesim


estava intacto. A. Poliziano. Lorenzo e Angelo Poliziano eram amigos
íntimos, no entanto Lorenzo tinha deixado a carta de lado, por abrir.
Porquê? E, espalhadas pelo chão, estavam várias páginas escritas com a
caligrafia pequena e precisa de Lorenzo.

Quando Guid'Antonio se virou, constatou que Alessandro Braccesi já se


tinha ido embora e que Lorenzo o observava com franco interesse. O rubor
do embaraço aflorou o rosto de Guid'Antonio.

Lorenzo fitou-o solenemente.

— Ultimamente, até o verso mais simples sai a muito custo. Há mais de um


ano que me debato com esse poema em particular.

— E o que espera, quando se compara a Dante?

— Faço um esforço decente. — A fúria brilhou nos olhos expressivos de


Lorenzo. — Houve uma altura da minha vida na qual considerava as palavras
tão valiosas quanto as espadas. Neste momento, já não tenho tanta certeza
disso. Chacinar Giuliano? Como puderam eles fazer uma coisa tão terrível?
Jesus! O próprio papa! Pela minha alma, a minha honra vacila perante a
ideia de me prostrar aos pés daquele infiel em Roma, mas é o que farei,
se isso significar o levantamento da excomunhão a que nos votou.

Se fosse o Giuliano, a esta hora já lá estava, pensou Guid'Antonio.


Pousou o copo de vinho.

— O que quer Sisto, exatamente?

— Quer-me a mim, de joelhos, à sua frente. Diz ele: o seu servo


tresmalhado humilhado perante o mundo inteiro. Aquele homem louco toma-me
por um idiota. O que ele quer realmente é a minha cabeça. Entretanto, um
rival qualquer aqui na nossa cidade está a conspirar e a colocar a
povoação contra mim.

Do lado de fora das janelas gradeadas, os sinos de San Lorenzo repicaram,


acompanhados pelos sinos das igrejas de toda a cidade e das colinas
vizinhas. Por estar mais perto, Guid'Antonio ouviu o doce toque de Todos
os Santos. De casa. Maria. Encaminhou-se até às janelas e fechou as
portadas, abafando o som dos sinos, e voltou-se novamente, com as botas
firmemente cravadas no coração do bairro florentino do Leão Dourado.

— Quem beneficia mais com a discórdia que grassa nas ruas da cidade? Ao
ponto de estarem dispostos a arriscar os próprios pescoços colocando as
pessoas contra si?

68

Certamente que, quem quer que seja, está metido na questão do quadro que
chora. A fúria de Deus, os malditos milagres...
- Contra nós, quer dizer? — questionou Lorenzo. — Contra as nossas
famílias, o nosso círculo. Os meus espiões dizem-me que o sobrinho do
papa tem andado novamente a bichanar ao seu ouvido.

Girolamo Riario. Se o mal caminhasse por entre os homens, Girolamo seria


a personificação do Diabo.

Há dez anos que Girolamo Riario alimentava as chamas do ódio que o papa
nutria por Lorenzo. Girolamo estava determinado a usar o papado do tio
para adquirir terras, títulos e um principado para si em Itália. Até
àquele momento, estava a dar-se bem.

- Sabe do paradeiro de Girolamo? — perguntou Guid’Antonio.

- Si, Roma. — Junto à lareira, Lorenzo ajoelhou-se e deu um pedaço de


salame a Leporarius. — Porque em Roma, Girolamo consegue estar sempre de
língua enfiada nos ouvidos do papa. Mas, nesta altura, quem sabe onde
possa estar? O bastardo pode ter ido até Imola para desta vez aterrorizar
a infeliz cidade.

- Deus todo-poderoso — disse Guid’Antonio. — Os nossos problemas com


aqueles dois começaram precisamente em Imola, há sete anos. Sete anos -
repetiu, abanando a cabeça.

- Sim, e eles fizeram da cidade um ninho de vespas. — Os dois homens


olharam um para o outro, cada um dos rostos a espelhar a exasperação do
outro; depois, o que mais podiam fazer senão partilhar uma amargurada
gargalhada?

A data da sua eleição como papa Sisto IV, o homem rude e desdentado,
vindo de uma aldeia piscatória da Ligúria, de seu nome Francesco delia
Rovere, tinha começado a promover uma meia dúzia de sobrinhos, com uma
inclinação para o nepotismo que nunca vira igual, nem mesmo em Roma. Para
o seu favorito, Girolamo Riario, Sisto tinha em vista uma suserania no
Estado Papal, uma província irregular do Norte de Itália cujas cidades e
vilas faziam parte do Estado Papal mas que com o tempo passaram a ser
governadas por duques e lordes que bajulavam a Igreja, enquanto ignoravam
as suas exigências por dinheiro e apoio militar.

Uma posição relevante ali daria a Girolamo Riario uma base para reunir
propriedades e apertar o controlo que a família tinha sobre as casas
rebeldes da província. A sua primeira oportunidade chegara quando Imola,
uma pequena cidade na estrada entre Florença e o mar Adriático, na costa
oriental de Itália, fora colocada à venda pelo seu senhorio milanês,
Galeazzo Maria Sforza.

69

Sisto, com cinquenta e sete anos em 1471, e recentemente eleito papa,


decidiu comprar a cidade e oferecê-la a Girolamo. Lorenzo, com vinte e
dois anos e uma posição ascendente em Florença, estava determinado a não
deixar que o chefe do Vaticano conseguisse os seus intentos. De Roma, o
Estado Papal enroscou-se à volta de Florença e das suas cercanias como
uma garra. Se controlassem aquela região, teriam uma boa probabilidade de
controlarem Florença.

Mas no fim, apesar das manobras terrivelmente inteligentes de Lorenzo,


Imola tinha caído nas mãos de Sisto, que nomeou imediatamente Girolamo
como seu amo e senhor. A questão chegou a um ponto insuportável em 1473 e
Lorenzo batalhava com o papa até aos dias de hoje; por trás de cada
tentativa falhada para fazer dos seus familiares os governantes de
Itália, o papa espiava todos os movimentos de Lorenzo. Sete anos antes,
Lorenzo tinha desmascarado Sisto IV e Girolamo Riario como os grandes
jogadores políticos da península de Itália. Tinha desafiado o direito do
papa de controlar o Estado Papal e insultara a sua família. Mais do que
isso, Lorenzo levou a cabo estes atos em público, com toda a península a
observar o papa e o seu sobrinho a fazerem figuras de idiotas.

Giuliano tinha morrido por isso.

A guerra tinha existido por isso.

E era por isso que Florença continuava em guerra com Roma.

Apanhem-me aquele arrogante florentino.

Guid’Antonio recordava-se bem de Girolamo Riario por conta da disputa


sobre Imola, uma vez que tivera de viajar até à pequena e infeliz cidade
enquanto representante legal de Florença no auge da contenda; foi a sua
primeira «missão» em nome do jovem Lorenzo. Girolamo era um rapazito
petulante e esguio, com cabelo cortado pela orelha e lábios húmidos e
afetados.

Guid’Antonio bateu levemente nos lábios com a ponta do dedo, mudando


mentalmente de assunto, pensando nisto e naquilo e voltando à conversa.

— A minha aposta é que a fonte dos nossos problemas é alguém da cidade e


não de Roma. Neste momento, quero dizer.

— O quê? — Uma gargalhada arranhada escapou-se dos lábios de Lorenzo. —


Porquê agora?

70

— Por poder? Por fortuna? Para ter o primeiro lugar na hierarquia da


cidade?

Lorenzo fitou-o com os olhos suavemente castanhos.


— Não estamos a falar do papa nem de Girolamo Riario, mas de outros
homens que me encaram com desconfiança e inveja? Isso incluiria o meu tio
Soderini. — Tommaso Soderini, o porta-voz oficial do governo florentino.

Águas perigosas, muito perigosas.

— Certamente os monges de Todos os Santos estão a prosperar com as


lágrimas da Virgem — disse Guid'Antonio. — Seria a primeira vez que uma
igreja monta um destes embustes para encher a caixa das esmolas? Não.

O monge de cabelo negro cruzou rapidamente a memória de Guid'Antonio,


assim como os dois jovens monges de mantos pretos dos Humiliati que
naquela manhã perseguiam o irmão em direção ao Portão Prato. Irmão
Martino, irmão Paolo e o monge mais novo, Ferdinando Bongiovi. O que
poderia aquele trio ter que ver com o quadro que chorava em Todos os
Santos? Alguma coisa? Nada? E com a rapariga desaparecida — às mãos dos
turcos, como acreditavam alguns cérebros menos iluminados? E com a
exigência cada vez mais sonora para que Lorenzo fizesse as malas e fosse
para Roma? A imaginação, a experiência e as horas que passara nos
tribunais a lidar com toda a espécie de casos complexos e investigações
intrincadas avisavam Guid'Antonio para não excluir nenhuma possibilidade.

— Florença é fértil em monges e milagres — disse Lorenzo. — E nenhum


monge é mais desonesto do que o abade da sua igreja.

Era verdade. Guid'Antonio sabia bem disso devido a todas as experiências


passadas com Roberto Ughi, o arrogante abade de Todos os Santos.

— Já viu as lágrimas? — perguntou.

— Então não vi, sim. Na última quarta-feira, a Virgem Maria de Santa


Maria Impruneta chorava tão copiosamente como se ali estivesse o próprio
Diabo. — O rosto de Lorenzo ensombrou-se. — No entanto, no meu coração,
não consigo acreditar na ideia de que chorasse por minha causa.

— Vai chorar, se partir para Roma. Lorenzo acenou com a mão.

— Certamente, Sua Santidade não seria capaz de cometer um assassinato no


Vaticano.

— Sabe tão bem quanto eu que aquele louco é capaz de qualquer coisa.
Assim como o seu sobrinho. — Guid'Antonio deixou o resto por dizer.
Afinal, com Francesco de' Pazzi a agir como seu peão, assassinaram
Giuliano.

71

— Que outra hipótese tenho senão ir? A única coisa que ouço de Bartolomeo
Scala, o nosso nervoso chanceler, é como está assustado com a sensação de
fatalidade que tomou conta da nossa cidade. Por causa da guerra, o
comércio das lãs e da seda diminuiu drasticamente. E, como muito bem
sabe, é essa a espinha dorsal da indústria florentina. As viagens de
comércio e o emprego também sofreram. E ele fala, fala, até que me farto
de o ouvir. As previsões de revoltas populares e exílio saem diariamente
da pena e dos lábios do bom chanceler.

«Estamos numa posição frágil como vidro», dissera Bartolomeo Scala


naquela manhã.

— Jesus tenha misericórdia, se pudesse ter uma hora de sossego, juro que
nunca mais me queixava de nada! — A frustração na voz de Lorenzo
despedaçou o silêncio como um martelo a partir mármore. Junto à lareira,
Leporarius pestanejou, olhando de um homem para o outro.

— Nem eu — disse Guid’Antonio suavemente.

— A única coisa que quero é paz! Como é que isto aconteceu? — A voz de
Lorenzo quebrou-se, toldada pela emoção difícil de controlar. — Quando
foi a última vez que vivemos em paz? Em mil quatrocentos e cinquenta e
quatro! E nessa altura foi graças aos turcos.

Em 1454, um ano após a queda de Constantinopla para Mehmed, o


Conquistador, a Itália, assustada, uniu-se e formou uma liga de defesa
contra as agressões estrangeiras. Florença, Veneza, Milão, Nápoles e
Roma: todas as cinco cidades mais poderosas de Itália acabaram por se
juntar ao tratado. Isto só depois de os infiéis terem matado o rei
Constantino, lhe terem tirado a pele do rosto e a encherem com palha para
exibir pela cidade de modo triunfante; a seguir chacinaram os homens,
mulheres e crianças cristãos que se aninhavam na Igreja de Santa Sofia.

— Esse foi um tratado sangrento - disse Guid’Antonio.

— E não o são todos? O que me leva a um assunto do qual talvez ainda não
esteja a par.

— Oh, Deus — disse Guid’Antonio, encostando-se à escrivaninha com


Lorenzo, de braços cruzados sobre o peito.

— Os magistrados falaram-lhe de Forli?

— Não. — Os sentidos de Guid’Antonio ficaram alerta, já que previa mais


notícias perturbadoras. A semelhança de Imola, Forli ficava dentro do
Estado Papal, junto à Via Emilia, entre Florença e o Adriático.

Lorenzo pôs Guid’Antonio ao corrente da situação:

72

— O meu agente em Forli mandou notícias na semana passada a informar que


Sinibaldo Ordelaffi está gravemente doente. Em fevereiro último, o pai de
Sinibaldo morreu, deixando-o como o novo senhor de Forli, sendo que o
próprio rapaz está doente. Escrevi uma carta à mãe de Sinibaldo,
avisando-a. Se Sinibaldo morrer desta febre, Girolamo e o tio vão tentar
deitar a mão à cidade. Se a conseguirem tomar, Girolamo estará de pés
fincados na nossa fronteira a norte. — Fez uma pausa quando passos
apressados se aproximaram das portas fechadas dos aposentos.

Os olhos de Guid'Antonio fixaram-se no ferrolho, que não estava

corrido.

— Lorenzo, está à espera de alguém? — perguntou.

-Não!

Endireitaram-se de um salto, com as mãos a voarem para os respetivos


punhais, olhos fixos na única entrada da câmara. Leporarius levantou-se,
rosnou e o seu pelo eriçou-se na parte de trás do pescoço.

Que o próprio Satã se precipite sobre nós, praguejou silenciosamente


Guid’Antonio em direção às portas. E desta vez enterro-lhe a lâmina pelo
pescoço adentro e hei de ver o seu sangue a manchar o chão.

73

Página em branco

Capítulo SEIS

Um rapazinho de faces rosadas e cabelo esvoaçante entrou de rompante nos


aposentos.

— Lorenzo! - Com aquela exclamação tempestuosa, Giovanni de' Medici


correu, a rir, em direção ao pai espantado. Guid'Antonio deu um suspiro
trémulo; ele e Lorenzo guardaram discretamente os punhais e olharam de
forma lúgubre um para o outro.

Baixo e corpulento, Giovanni de' Medici movimentava-se laboriosamente.


Lorenzo levantou o rapaz de nariz arrebitado, com os seus rechonchudos
cinco anos, e andou com ele à roda até o pousar no chão e lhe dar uma
palmadinha carinhosa no traseiro. O olhar de Guid’Antonio desviou-se em
direção à chaminé da lareira e às duas jarras com jaspe e ouro
encrustados que adornavam a prateleira; Leporarius baixou o rabo e saiu
para o corredor.

— Giovanni — disse Lorenzo, a sorrir. — Diz buongiorno a Guid'Antonio


Vespucci.

O rapaz olhou para Guid’Antonio com os olhos semicerrados.


— O senhor é o amigo de maior confiança do meu pai?

— Julgo que sim. Sou.

— O meu pai também diz que é. Buon giorno, senhor Vespucci. — Giovanni
caminhou até ao aparador e, levantando uma mão gorducha, pegou numa
grossa fatia de pão com rosmaninho.

— Giovanni — disse Lorenzo, com um tom de voz exasperado. — Atenção às


maneiras, por favor. No caso de Guid'Antonio, a forma correta de
tratamento é «mestre», uma vez que é advogado. Só o tratarias por
«senhor» se ele fosse um notário ou um comerciante vulgar.

75

— Mi dispiace, mestre Vespucci. — Conseguiu dizer contritamente com a


boca cheia de pão. As migalhas cobriam-lhe a parte da frente da túnica.

O pai alto e musculado de Giovanni olhou para Guid'Antonio e depois para


o teto, como se procurasse orientação divina. O sorriso de Guid'Antonio
desvaneceu-se ligeiramente. Onde estaria o seu Giovanni naquele momento?
A dormir a sesta? A brincar com - com quem brincava o seu filho? Não
fazia ideia.

Depois da entrada ruidosa de Giovanni, os passos de Bianca de' Medici até


à entrada dos aposentos mal se ouviram. Guid'Antonio sobressaltou--se
quando viu a irmã de Lorenzo e viu o rubor súbito que lhe aflorou ao
rosto. Não admirava! Bianca de' Medici sofria a terrível e dolorosa falta
de sorte de ter casado com Guglielmo de' Pazzi, cujo irmão louco,
Francesco, assassinara Giuliano. Depois da conspiração dos Pazzi, Lorenzo
escolhera como castigo para o marido da irmã a incerteza em vez de uma
execução. Agora, Guglielmo de' Pazzi amargava no exílio fora dos muros da
cidade de Florença, condenado a não poder aproximar-se mais de oito
quilómetros, nem a distanciar-se mais de trinta. Era um ato de
misericórdia que Guid'Antonio não aprovava. Deviam acreditar no facto de
Guglielmo de' Pazzi não fazer ideia de que o seu irmão tinha feito uma
aliança negra com o papa e com o sobrinho deste?

As dúvidas de Guid'Antonio ainda persistiam e recusava-se a esquecer o


assunto.

Bianca cumprimentou-o com um ligeiro aceno de cabeça.

— Mestre Vespucci, bem-vindo a casa. — Com uma dignidade calma, virou-se


para Lorenzo. — Allora? Agora?

-Sim.

Bianca saiu momentaneamente da sala. Para lá das portas, Guid'Antonio


ouviu vozes, baixas e sussurradas. Quando a irmã de Lorenzo regressou,
trazia sentado na anca um rapazinho com cerca de dois anos.
— Mestre Vespucci. — A voz de Bianca soava orgulhosa, mas doce. —
Apresento-lhe o filho de Giuliano. Giulio di Giuliano de' Medici.

O menino fixou os olhos castanhos-claros em Guid'Antonio e fitou-o sem


vacilar.

Uma onda de sangue escaldante queimou as mãos e o rosto de Guid'Antonio e


o seu coração bateu mais devagar. Giuliano de' Media não tinha filhos.
Mas a pele do pequeno Giulio parecia ser suave e escura, os olhos mais
escuros ainda e as faces tingidas de um tom rosado.

76

Ao olhar para Guid’Antonio, o menino baixou a cabeça, com um sorriso


envergonhado a iluminar o rosto angelical.

Guid’Antonio moveu os lábios, mas não lhe saiu qualquer palavra. Não, não
havia a menor dúvida: aquele menino brilhante era a cara chapada de
Giuliano, o Belo.

— Como? — conseguiu perguntar, espantado.

A gargalhada suave de Lorenzo não pôde disfarçar a sua profunda emoção.

— Presumo que através do método convencional.

— Mas onde o encontraram?

— Não foi na soleira da porta. Alguns meses depois da morte de Giuliano,


a avó do menino trouxe-o até nós. Foi a primeira vez que ouvimos falar da
sua existência. Afinal, nem tudo estava perdido - disse Lorenzo
calmamente.

Este é o milagre de Florença; este filho secreto ter sido encontrado,


pensou Guid’Antonio, com a cabeça a mil, uma parte de si demasiado
experiente e receosa para acreditar no sucedido.

— Queres vir ao meu colo? — perguntou, estendendo os braços para o


menino, para que Bianca lho entregasse.

O olhar interrogativo de Giulio procurou os olhos da tia, que o pousou


gentilmente no chão.

— Ele sabe andar, mestre Vespucci. Se tiver um bom motivo para o fazer.

E Giulio andou, com os braços estendidos para Guid'Antonio, sorridente e


cheio de confiança. Guid'Antonio pegou no menino ao colo e enterrou o
rosto no emaranhado lustroso dos seus caracóis negros. Enquanto abraçava
o menino, disse suavemente para a sua doce e suave orelha:

— Nunca ninguém te vai fazer mal, meu menino. Juro-te pela minha própria
vida.
A tarde estava praticamente no fim quando Bianca saiu com os dois
meninos; Giovanni de' Medici cantarolava e saltitava ao lado da tia
enquanto o pequeno Giulio, seguro nos braços de Bianca, espreitava por
cima do ombro dela para Guid'Antonio, com os olhos grandes e negros a
brilhar.

— Adeus. — Ouviu-se o suave eco da voz de Giulio enquanto flutuava para


fora dos aposentos com a tia. — Adeus, adeus.

Guid'Antonio sentia fortemente o silêncio que o envolvia, agora que


estava sozinho com Lorenzo, que correu o ferrolho da porta e disse:

77

— O que as pessoas construíram pode ser facilmente destruído por elas.

— Eles não têm motivo para o temer, nem a si nem aos seus.

— Não têm motivo justo, é verdade. Mas também não havia motivo para
matarem o meu irmão, a não ser por orgulho e inveja. No entanto, nos dias
de hoje, mais uma vez, tudo está a ser posto em causa, isto de acordo com
a Câmara Municipal. As nossas vidas, as nossas casas, as nossas famílias
e a nossa cidade. Dizem que a Virgem que chora é uma prova disso. As
pessoas procuram provas, uma e outra vez, procuram sinais e símbolos nos
quais possam acreditar.

— Então é isso mesmo que lhes vamos dar: provas — disse Guid’Antonio. —
Não da nossa culpa, mas da nossa inocência. Não somos nós que lutamos
contra a Igreja. Mas a Igreja que luta contra nós.

As feições escuras de Lorenzo eram como uma máscara sombria.

— A única coisa que peço é a verdade.

— Ainda bem. Porque é a única coisa de que precisamos. Vou descobrir quem
é o responsável pelas lágrimas do quadro; tudo o resto se desenrolará
depois.

Os homens caminharam em silêncio através do jardim do pátio, sob o céu do


fim da tarde, e passaram pela estátua de bronze que Donatello esculpira
representando Judite a matar Holofernes. Com uma mão, Judite segurava na
espada, com a outra agarrava no cabelo de Holofernes, puxando-lhe a
cabeça para trás e expondo-lhe o pescoço e toda a sua vulnerabilidade. Um
arrepio percorreu Guid'Antonio; era a reação exata, presumia, que
Donatello procurara provocar quando esculpiu aquela estátua para o avô de
Lorenzo, Cosimo de' Medici.

Um portão alto de ferro abria-se para a Via dei Gori e para o Mercado de
San Lorenzo. Lorenzo abriu o ferrolho e deu um passo para o lado,
permitindo que Guid’Antonio entrasse na rua. O mercado estava fechado, o
banco de pedra comprido construído ao longo da parede do Palácio Medici
estava vazio e mergulhado na sombra; os mexeriqueiros já tinham ido para
casa, comer papas de milho-miúdo e feijão, isto se fossem homens com
sorte. Guid’Antonio não viu sinais do mastim morto. Mas Alessandro
Braccesi devia ter entrado no palácio pela Via Larga, onde ficava o
portão principal, exatamente como Guid’Antonio fizera ao início da tarde.
Não havia dúvidas de que o cane corso italiano ainda lá estaria, com o
crânio esmagado, a carcaça pisada pelos cascos dos cavalos e esmagada por
sandálias e botas de tacão.

78

Num impulso, Guid'Antonio virou-se para Lorenzo, franzindo levemente o


sobrolho, pensativo e curioso.

- O que pensa daquela jovem senhora que foi capturada pelos turcos? -
Encolheu os ombros e abriu as mãos. - Por muito louco que isso possa
parecer?

Lorenzo pestanejou. E voltou a pestanejar. Recuou um passo e voltou para


a sombra, com as sobrancelhas hirsutas franzidas e juntas sobre os olhos.

- Está a falar de Camilla Rossi da Vinci.

- Conhecia-a?

- Enquanto mulher de Castruccio Senso, sim. Ele é comerciante de vinhos,


Guid'Antonio. De azeitonas e azeite. Recorremos ocasionalmente a ele para
nos vender vinho, mas apenas quando a necessidade o impõe. Trouxe Camilla
aqui há três anos, por ocasião do Natal. Demos um banquete para os nossos
associados comerciais. — Lorenzo encolheu os ombros. - O homem é um
idiota.

Guid'Antonio ergueu o sobrolho num gesto interrogativo. Lorenzo fez-lhe o


seu sorriso mais luminoso.

- É apenas um tonto, Guid'Antonio. Ou talvez não. — O sorriso alargou-se


com um ar descarado. — Nessa noite ele não ficou por aqui durante muito
tempo. A atenção que a sua bela e jovem esposa granjeou deixou-o
desconcertado, creio eu. Num instante estavam aqui, no instante seguinte
tinham desaparecido como fantasmas.

Que analogia interessante, pensou Guid’Antonio.

- Ela é bonita? — perguntou. Lorenzo afastou o cabelo do rosto.

- Como uma papoila. Tem o cabelo preto e brilhante como seda; e as faces?
Quando corava, o rosado natural ficava do mais puro carmesim. E ela
corava com frequência, sempre com um sorriso tímido. Principalmente
quando Giuliano cruzava olhares com ela. Encantadora. Enfim.
Guid’Antonio, que até então observava um jovem solitário a desamarrar o
seu cavalo de uma das argolas de ferro da parede do palácio, olhou
rapidamente para Lorenzo.

- Suspeita de que possa ter sido um amante? — Viu aparecer no rosto de


Lorenzo uma expressão de desconforto. E ficou intrigado.

- Não suspeito de coisa alguma, Guid'Antonio. Mas o que mais explicará o


desaparecimento da senhora?

79

Em sua defesa, direi que me parece ir contra a sua natureza enganar o


marido. Na noite em que esteve aqui pareceu-me extraordinariamente
inocente. Ainda assim, uma rapariga não precisa de se deitar com um homem
para o ver como um meio de fuga.

— «Inocente», como? — perguntou Guid'Antonio.

— Foi uma reunião por alturas do Natal - disse Lorenzo, começando a


evidenciar sinais de impaciência. — Nós, bem, a maior parte de nós,
bebemos, dançámos e cantámos.

— As vossas canções populares? Lorenzo sorriu amplamente.

— Claro que sim. E elas conseguiram trazer um belo fulgor ao rosto de


Camilla.

— Acredito nisso. — Temos umas vagens de feijão, compridas e tenras,


muito firmes e grandes; primeiro pegue na haste, depois esfregue-a
suavemente para cima e para baixo...

— De qualquer maneira — continuava Lorenzo —, pode até descrever-se


Camilla como virginal, não fosse o seu estatuto de mulher casada. — Os
seus olhos castanhos brilhavam com a malandrice. — Ou talvez por causa
disso mesmo, dadas as pernas bambas e o hálito azedo do seu marido,
Castruccio.

— E ela, uma mulher de meios consideráveis, viajava apenas com uma velha
ama e um rapaz escravo? — matutou Guid'Antonio. — Que caminho tomaram?

Lorenzo cruzou os braços por cima do peito.

— De acordo com o que o Palla me disse depois das suas averiguações, a


comitiva de Camilla partiu de Florença e chegou até San Gimi. Foi lá que
pernoitaram. Ao nascer do dia, seguiram para Morba. Não é muito longe,
Guid'Antonio.

Morba: uma pequena povoação de veraneio conhecida pelas suas nascentes de


água termal. Guid'Antonio considerou as palavras de Lorenzo. E sim,
condiziam com as declarações que Luca Landucci fizera naquela manhã, no
mercado. Naquele momento, como já acontecera antes, uma pergunta
tremeluziu brevemente na sua mente; e mais uma vez se evaporou, como se
de fumo ou vapor se tratasse.

— É suficientemente longe para uma velhacaria — disse. Lorenzo encolheu


os ombros, distraidamente.

— Palla investigou o lugar onde se diz que Camilla desapareceu e não


descobriu nada de misterioso. Sinais de viajantes, sim, já que é uma
estrada bastante movimentada. Mas nada que indicasse uma escaramuça com
alguém inclinado a cometer um crime.

80

Certamente não com os turcos. A única coisa que lá havia era uma cruz
tosca feita com juncos que lá foi colocada pelos locais para afastar os
demónios. E antes que me pergunte, sim, Palla interrogou a ama e o rapaz.
Assim como fez um interrogatório extenso ao pai de Camilla, Jacopo Rossi
da Vinci.

Guid’Antonio não tinha qualquer intenção de fazer perguntas sobre a


investigação conduzida pelo chefe da polícia florentina: Luca já lhe
falara dela naquela manhã. Mas Luca não mencionara o pai de Camilla,
Jacopo. Hmmm. Mordiscou o lábio, teimoso e determinado. Fosse do seu
agrado ou não, o desaparecimento da senhora era mais uma acusação que
pendia contra Lorenzo, uma vez que eram muitos os florentinos que estavam
convictos de que Deus tinha colocado os turcos contra eles como castigo
por Lorenzo ter entrado em guerra com a Igreja.

- Ela desapareceu há uma semana? — perguntou Guid'Antonio.

- Pouco mais do que isso. Sim. Perdera-a por pouco. Maldição.

- E quanto ao marido, Castruccio Senso?

- O que tem ele?

- Como encarou o desaparecimento da mulher? Lorenzo resfolegou.

- Como espera que o tenha encarado, sendo ela uma bonita rapariga de
dezasseis anos? Aparentemente, está destroçado. Já o vi na rua depois do
sucedido. E Palla pode corroborar o facto.

- Questiona a sinceridade do comerciante?

- Eu questiono tudo. Assim como você, de acordo com a sua natureza. A


única coisa que sei é a seguinte: não foi encontrado um corpo, não há
provas de deslealdade, não há provas de crime, e ainda assim as pessoas
vão colocar a responsabilidade pelo que aconteceu a Camilla Rossi da
Vinci na soleira da minha porta, como o farão em relação ao quadro da
Virgem que chora.
- Já o fizeram — disse Guid'Antonio, virando-se, mais uma vez.

81

Página em branco

Capítulo SETE

Pouco depois de ter deixado Lorenzo, Guid’Antonio atravessou o jardim do


Palácio Vespucci, com o olhar cansado à procura do scrittoio onde ele,
Amerigo e o irmão deste, António Vespucci, tratavam dos negócios da
família. António tinha carregado o fardo durante os últimos dois anos:
vinho, seda, lã, banca, empreendimentos comerciais em Bruges, Antuérpia e
Ghent. Tratara destes assuntos e de muitos outros, que compunham a
rebuscada rede cujos cuidados meticulosos e constantes providenciavam à
família vastas recompensas financeiras. Naquele momento, a pesada porta
de madeira do scrittoio estava fechada e trancada com cadeado e ferrolho
de ferro.

Guid’Antonio subiu a escadaria de pedra, sentindo a parede fria sob os


seus dedos. Tinha dito a Maria que estaria em casa antes do meio-dia.
Jesus. Imaginava-a no quarto de ambos, pronta para voltar a atacar o
marido. Enfim. Ele ia acabar-lhe com o mau humor, beijar-lhe os lábios e
passar com os dedos pelo seu cabelo sedoso, esperando que ela esquecesse
o que já lá ia. Ia reacender a chama e deixar que o pavio ardesse até ao
fim. Depois, ambos reconheceriam como tinham estado errados ao início do
dia. Deus sabia que Guid'Antonio desejava ter um casamento pacífico com
Maria del Vigna.

O brilho de uma luz surgiu no cimo das escadas.

Apressando o passo, Guid'Antonio entrou no corredor escuro e colidiu com


uma jovem rapariga. Numa das mãos, a rapariga levava uma vela. Com a
outra, segurava a mão de um rapazinho. O seu filho, Giovanni.

A rapariga deu um salto para trás, com as feições assustadas iluminadas


pela luz da vela.

83

— Cristo na Cruz! — exclamou. — Pensei que era uma aparição. Quem é o


senhor? — Franzindo o sobrolho, a rapariga observou o corpo sólido de
Guid'Antonio. - Que direito tem para estar aqui?
A pergunta deixou-o espantado.

— Mi scusi, Signorina. Io sono Guid'Antonio Vespucci.

Os olhos da rapariga ficaram tão redondos como florins, nas sombras do


corredor.

— O senhor? Não! — Atrevidamente, com as faces a brilhar, a rapariga


apreciou-o de cima a baixo. — Ora aí está uma agradável surpresa.

Ele sorriu. Ligeiramente divertido.

— E a menina é? — Claro que sabia que aquela devia ser a ama que Maria
procurara naquela manhã. Olimpia qualquer coisa, a rapariga que
substituía a anterior ama de Giovanni.

— Olimpia Pasquale — disse ela.

Giovanni parecia ter acabado de tomar banho. A camisa de dormir de


algodão do menino pendia-lhe dos ombros em largas pregas e chegava--lhe
até aos pés descalços. Suaves madeixas de cabelo escuro e húmido
encaracolavam-se em redor do rosto recentemente lavado de Olimpia. A
boca, ligeiramente entreaberta, revelava dentes brancos como pérolas.
Fazia Guid'Antonio recordar as beldades etéreas que Sandro Botticelli
tanto gostava de pintar. Sentiu nela e em Giovanni o débil aroma de
maçãs.

— Buona será, Giovanni — Guid'Antonio curvou-se ligeiramente pela


cintura, com as mãos pousadas no cimo das coxas. — Na próxima semana,
gostavas de visitar uma quinta de laticínios onde um bom amigo nosso cria
vacas?

A expressão cerrada de Giovanni encaixava-se primorosamente entre o tédio


e a repulsa.

— Já vi vacas no mercado — disse, com os olhos negros e petulantes.


Olimpia sorriu amplamente.

— E garanhões também. Com éguas. Num desempenho deveras impressionante.

Guid’Antonio deu uma gargalhada aguçada.

— Disso não duvido. Giovanni, vamos acompanhar outros dois rapazes, um


deles da tua idade, e que também partilha o nome contigo.

— Conheço uma mão cheia de Giovannis. — O menino fez beicinho e a


expressão rabugenta aprofundou-se ainda mais. Guid'Antonio espelhou a
expressão do filho.

84
— Este rapaz em particular — informou-o com frieza — é Giovanni di
Lorenzo de' Medici. Acredita em mim, que na tua mão cheia não existe
outro como ele, por muito grande que ela seja. — Virou-se para a
rapariga. - Buona será, Signorina. — Preparou-se para passar por eles,
percorrendo o corredor.

— Mestre Vespucci? - Sim.

— Julgo que andará à procura da sua mulher.

Ele hesitou, sentindo um sinal de aviso a desenrolar-se dentro do seu


peito, como se de uma cobra se tratasse.

— Sim.

— Ela foi-se embora.

Fitou estupidamente a rapariga. Foi-se embora? Aquela hora obscura,


poucos eram os lugares da cidade onde uma mulher de respeito podia ir. A
todas as horas na verdade, à exceção da igreja.

— Foi-se embora para onde? — perguntou.

— Para a casa da mãe. Mona Alessandra del Vigna está doente.

— Doente? — repetiu, querendo abanar a rapariga, sentindo-se como um dos


mimos que repetiam as nossas palavras nas praças nos dias de festa até
termos vontade de lhes dar um belo par de estalos. — O que quer dizer com
«doente»?

— Chegou um mensageiro ao portão. Mona Maria vestiu o manto e apressou-se


pela rua abaixo atrás dele, deixando-me com Giovanni. — Olimpia olhou
para o rapazinho com uma expressão genuína de carinho.

Guid'Antonio esfregou a nuca, pensando.

— Viu Amerigo?

— Hmm-hmm, está na saleta com os seus parentes.

— Mande avisar-me assim que a senhora voltar, se não se importar,


Signorina.

Olimpia fez um beicinho bonito.

— Mas não voltará esta noite, mestre Vespucci. E, muito provavelmente,


também não voltará amanhã.

Não ia fraquejar à frente daquela rapariga.

— E porque não, em nome de Deus?

— A minha avó tem uma dor na barriga — disse Giovanni com a voz
esganiçada.

Já somos dois, pensou Guid'Antonio.


85

— Giovanni — protestou Olimpia, embora suavemente. — Basta dizer que a


tua nonna está gravemente doente.

Guid'Antonio fitou a rapariga.

— Por que motivo Maria não me falou da condição da sua mãe hoje de manhã?

— Porque foi de repente — disse Olimpia. — Talvez a sua senhora não tenha
tido tempo suficiente de manhã. — A expressão dela parecia genuína e
inocente.

Certamente, Deus zombava de si. Gravemente doente, dissera Olimpia.


Guid'Antonio sentia compaixão por Mona Alessandra, sim. Quem saberia
melhor do que ele como a doença e a morte não esperavam por ninguém,
incluindo ele próprio e a sua família? Mas, mesmo assim, sentia a
desilusão.

— Rezo para que a Virgem Maria possa olhar pela nossa família esta noite
— disse, persignando-se.

O olhar de Olimpia desceu pelo peito de Guid'Antonio até às pernas e dali


para as botas, regressando acima lentamente.

— Queria a sua mulher — disse.

— Sim.

— Eu posso aparecer na sua cama esta noite.

Guid'Antonio sentiu um puxão violento nas entranhas. Olhou de relance


para Giovanni, que o fitou sem pestanejar, medindo-o, distante. Não
respondeu de imediato, fortemente consciente da curva dos seios de
Olimpia por baixo da túnica leve de linho: não eram pequenas maçãs.

— Ah, obrigado... mas não. — Um instante depois, acrescentou,


constrangido: — Durma bem, Olimpia Pasquale.

— Vou dormir melhor que o senhor — disse ela, com os cantos da boca
virados para cima num sorriso.

— Sem dúvida. — Virando-se silenciosamente, com o rosto a arder, desceu


até ao jardim, percorrendo novamente as paredes de pedra da escadaria com
os dedos.

Arista alia florentina: lombo de porco temperado com rosmaninho, alho e


cravinho, assado lenta e amorosamente até ficar estaladiço por fora e
sumarento por dentro, com um suave tom rosado, a carne era tão tenra que
se podia cortar com um dos garfos recentemente introduzidos em Florença,
e também na casa dos Vespucci.
86

Guid'Antonio inspirou profundamente, inalando a inebriante fragrância,


enquanto passava novamente pelo fontanário do jardim em direção à
saletta, a sala de jantar informal que ele e os seus parentes partilhavam
quando não recebiam convidados na sala ou num dos aposentos privados do
palácio. As vozes familiares viajavam até ele, elevando-se e caindo com
calorosa camaradagem.

Ao ouvirem o som dos seus passos à entrada, os quatro homens que se


sentavam em redor da mesa de cavaletes uniram-se num coro de boas--
vindas. O sobrinho, António Vespucci, levantou-se e beijou-o em ambas as
faces, de rosto iluminado pela alegria.

- Tio, regressou realmente de França com o meu irmão mais novo! Estava a
começar a duvidar dele.

- E quando não duvidaste? — perguntou Amerigo, provocando as pretendidas


gargalhadas.

Tinha sido um dia difícil, cheio de desilusões, chocante, excitante e


também muito cansativo. Graças a Deus pela família e pelo lar,
principalmente esta noite, pensou Guid'Antonio, tirando o manto carmesim
dos ombros e atirando-o para um dos cabides junto da porta. Os círios
colocados em castiçais de ferro inundavam a saletta de luz, tornando-a
acolhedora e íntima. O fogo que ardia na lareira iluminava as paredes de
mármore ocre e os matizes vermelhos e dourados do intrincado padrão do
chão.

- Irmão Giorgio, Nastagio - disse, cumprimentando o tio e o pai de


Amerigo e António, respetivamente. Ambos os homens sorriram; nenhum deles
se levantou.

António deu uma palmadinha no banco de madeira entre ele e Amerigo e


Guid'Antonio deixou-se cair em cima dele, finalmente ancorado e em
segurança, enquanto agitava a túnica solta de linho: a cozinha estava
quente e as suas axilas molhadas.

- Olha para ti, Guid'Antonio — disse o irmão Giorgio Vespucci. — É um


halo o que trazes à tua volta? Ou, não, é apenas um pouco mais de cabelos
prateados urdidos no meio dos pretos.

- Irmão, eu se fosse a ti não falava muito — disparou Guid’Antonio. — A


franja castanha que antigamente te contornava a cabeça parece ter ficado
branca como uma pomba desde a última vez que te vi. — Por baixo do hábito
de clérigo, o tronco do irmão Giorgio parecia mais redondo e robusto do
que nunca.
O mesmo não se passava com Nastagio Vespucci! Levantando-se da mesa, o
pai de Amerigo e António, que tinha agora cinquenta e quatro anos,
ofereceu a Guid'Antonio um abraço débil.

87

Que horror, pensou Guid'Antonio, voltando a enterrar-se no banco. Era


aquele o seu amigo, o alegre Nastagio Vespucci, um homem cuja reputação
atestava pelo seu gosto pela comida, pelo convívio e pela bebida? Nos
últimos dois anos, Nastagio Vespucci, que era não só irmão de
Guid'Antonio mas também um dos seus amigos mais próximos, tinha
emagrecido e empalidecido desesperadamente. As cartas que António lhe
enviara para França não mencionaram nada disto. Pelo menos era o que
Guid'Antonio presumia; agora que pensava no assunto, quem sabe o que
António Vespucci podia ter escrito nas cartas privadas que enviara ao
irmão, Amerigo?

— Experimente este vinho novo, sugeriu Amerigo. — O Cesare e o Gaspare


vão trazer-nos as saladas.

— Já estou a nadar em vinho — respondeu Guid'Antonio. Amerigo sorriu,


encolhendo os ombros.

— A Itália foi batizada nele.

Guid'Antonio aceitou o líquido vermelho escuro.

— Hmm. Agradável e aveludado, com uma ligeira adstringência na língua. —


Era um Chianti típico, ou um vinho de tipo Chianti. — É das nossas
vinhas?

— Naturalmente — disse António. — Agrada-lhe?

— Absolutamente. — Guid’Antonio observou António com um sorriso afetuoso.


As pessoas confundiam muitas vezes António com Amerigo e vice-versa. Com
apenas três anos de diferença, os jovens eram esguios e tinham um rosto
agradável, com cabelos cor de avelã que lhes caíam até aos ombros. Como o
filho mais velho da família Vespucci, António fora o escolhido para ir
para Pisa, para estudar na universidade; o mesmo não se passou com
Amerigo. Atualmente, à semelhança do que já acontecera com o pai e com o
avô antes dele, António era notário. Assim, além de ajudar nos negócios
da família, que por si só já era uma tarefa desgastante, com Guid’Antonio
e Amerigo longe de casa nos últimos dois anos, António passava
incontáveis horas na Câmara Municipal a certificar e autenticar
assinaturas e documentos, um trabalho que era tão exigente quanto
esclarecedor.

Seria por esse motivo que, por trás dos seus modos naturalmente alegres,
António ganhara agora um novo olhar de alerta?
Quanto a Amerigo, Guid’Antonio duvidava de que o trabalho como seu
secretário e companheiro de viagem o satisfizesse durante muito mais
tempo. E depois, faria o quê?

88

Uma mulher baixa e robusta entrou vinda da cozinha com Cesare, o flexível
criado de Guid’Antonio, atrás de si. Com o rosto corado do calor,
Domenica Ridolfi apressou-se para junto de Guid'Antonio com um jarro de
barro numa mão e um cutelo na outra.

- Já não era sem tempo vir mostrar a sua cara laroca na minha cozinha!

Deliciado por vê-la, Guid'Antonio empurrou o banco para trás e levantou-


se apressadamente com os braços estendidos.

- Domenica, até que enfim que nos vemos.

Sob o som das gargalhadas satisfeitas da mãe, Cesare disse:

- Mestre Guid'Antonio, sobreviveu à Câmara Municipal?

A mente de Guid'Antonio regressou ao Palácio da Senhoria, ao Palácio


Medici e logo de seguida ao quadro da Virgem que chorava em Todos os
Santos.

- Até agora, Cesare. A Câmara e a muito mais.

As sobrancelhas de Cesare ergueram-se com orgulho.

- Bravo. — Começou a pôr a mesa, com um gesto floreado, colocando os


pratos ordenadamente na toalha de linho, virando as lâminas das facas com
precisão para a louça majólica, não fosse alguém sentir-se com vontade de
ameaçar o vizinho.

Guid’Antonio beijou o rosto quente de Domenica. A mulher que cozinhava


para a família Vespucci desde que Guid'Antonio era um menino cheirava a
alho, a azeitonas e a vinho de ameixas, que se agitava perigosamente do
rebordo do jarro. Abraçou-o com uma força que o teria surpreendido, não
estivesse ele já habituado a ela.

- Domenica, imploro-te, cuidado com o cutelo.

- O único homem contra quem seria capaz de o brandir seria o homem que
lhe quisesse fazer mal a si — disse Domenica. Apesar dos seus cinquenta e
seis anos, o lenço simples que trazia atado na nuca mostrava mais
caracóis negros como a noite do que prateados.

- Domenica, lombo de porco, o meu prato favorito. És uma santa.

- O que estava à espera, agora que regressou lá de — acenou com a mão -,


dos lados da Lombardia. — Virando-se para o aparador, cortou uma fatia
grossa de carne e ofereceu-a a Guid'Antonio, espetada na ponta do cutelo.
— É verdade que os franceses comem aves esmagadas?

- Domenica — interrompeu Amerigo, a rir. — Aves esmagadas? E, na verdade,


a França fica mais para norte de onde nos encontramos.

89

Domenica trespassou-o com o olhar.

— O que importa é a direção geral.

— Quando se anda de viagem, não é bem assim — disse Amerigo. Guid’Antonio


inspirou o aroma do suave lombo de porco.

— Não é esmagado, Domenica. Chama-se patê. Buona sera, Gaspare


-acrescentou, vendo o irmão da cozinheira, o homem leve que acabara de
entrar vindo da cozinha e que parecia em perigo de cair para o chão de
mosaicos se alguém espirrasse na sua direção. Gaspare Ridolfi era dez
anos mais velho que Domenica e a diferença notava-se bem na curvatura dos
seus ossos. Tossiu, recuperado, e colocou cuidadosamente uma porção de
salada verde em cada um dos pratos.

— Agora que nos agraciou com a sua presença, posso ir fritar os ravioli.
Gaspare! Cesare! — Domenica acenou para que Guid'Antonio se sentasse
novamente à mesa, onde os familiares o observavam, a sorrir, e depois foi
para a cozinha seguida pelos passos ligeiros do filho e pelo irmão mais
velho e corcunda.

— Serão todos os criados tão atrevidos como os nossos? — queixou-se


Nastagio.

— Sem dúvida — disse António levemente, mas o olhar rápido que dirigiu ao
pai indicou que ouvira o tom truculento da sua voz.

Guid'Antonio temperou a salada verde com azeite e vinagre e pensou


novamente em Olimpia Pasquale. Ali estava o atrevimento em pessoa.
Serviu-se de mais vinho.

— Como estão as vendas deste vinho?

— Suficientemente bem, para aqueles que continuam a poder comprá-lo —


disse Nastagio, contorcendo-se com inquietude.

— Ao que parece, é essa a verdade. - Ainda agora, ao entrar no jardim


pela Rua de Todos os Santos, Guid'Antonio olhou para a janela de venda de
vinho que havia aberta para a rua e reparou que não estavam lá os
clientes que ali se dirigiam habitualmente ao entardecer para encher os
seus jarros a um preço mais baixo.
Cesare, que regressava da cozinha, colocou a carne numa travessa enquanto
a mãe servia os ravioli fritos e Gaspare se arrastava atrás dela,
polvilhando a massa com queijo de Parma ralado.

— Meu Deus — gemeu Guid'Antonio, ao cheirar o soberbo aroma. — Morri e


vim para o céu.

— Não — disse António. — O tio veio para Itália.

90

A boca do irmão Giorgio formou um sorriso tão redondo e vermelho como uma
cereja madura.

- E preciso mais do que a arista e os ravioli fritos de Domenica para


enviar um homem para o céu, Guid'Antonio.

- É a sua opinião — acrescentou calmamente Cesare.

Guid’Antonio sorriu, soprando o vapor dos ravioli na ponta do garfo, para


os arrefecer. Os talheres eram novos. De prata, com florões ornamentados
com a forma de le vespe, ou vespas, de acordo com o nome da família
Vespucci.

- Irmão Giorgio, neste momento em particular, estou muito contente por


estar na terra.

Amerigo ensopou o pão em azeite, com o rosto a reluzir do vinho e de


prazer.

- Eu também. Mas o tio foi ver o Lorenzo esta tarde. O que tinha ele para
lhe dizer?

Junto ao aparador, Cesare deixou a travessa da carne escorregar por entre


os dedos. Pousou-a com cuidado e olhou para Amerigo, com uma expressão de
evidente reprovação.

Nastagio deu uma palmada na mesa.

- Amerigo! O que importa o que Lorenzo, o Magnífico, diz? Ou, mais


importante do que isso, o que ele faz? Ou o que não faz, de acordo com a
sua natureza egoísta?

Seguiu-se um silêncio constrangedor. Amerigo olhou fixamente para o pai.


No meio do silêncio, Gaspare aproximou-se de Guid'Antonio para lhe voltar
a encher o copo.

- No, grazie. — Guid'Antonio colocou levemente a mão por cima do copo,


fitando Nastagio que, ao que parecia, estava tão mal-humorado quanto
debilitado. Nastagio Vespucci, um corajoso apoiante da família Medici a
falar de Lorenzo com tamanha... falta de respeito? O que o incitara à
revolta? Uma doença prolongada? Uma febre violenta?

António contorceu-se no banco.

- Tio Guid'Antonio, Amerigo disse-me que Alessandra del Vigna está


doente.

- Sim. A Maria está em casa da mãe neste momento.

- Que Cristo esteja com a senhora — entoou o irmão Giorgio, persignando-


se.

Guid'Antonio olhou em redor e concentrou-se no confiável Amerigo.

91

— Conseguiste fazer muita coisa hoje de tarde?

— Consegui. O tio Giorgio e eu fomos até Careggi para visitar Marsilio,


que nos acolheu de braços abertos e uma praga de novos manuscritos. —
Marsilio Ficino era o pequeno médico filósofo que também se dedicava à
magia e que — depois de produzir, entre muitos outros trabalhos, uma das
primeiras traduções dos Diálogos de Platão a partir do grego original
para o latim, a pedido do avô de Lorenzo — mantinha uma lamparina de óleo
sempre acesa junto ao busto de mármore de Platão no átrio da sua casa.

Guid'Antonio franziu o sobrolho.

— Queria dizer se fizeste muita coisa aqui em casa, Amerigo. Talvez


amanhã te deva deixar amarrado no scrittoio, onde há certamente um monte
de papelada à tua espera, não vás tu sentar-te com o teu tio Giorgio aos
pés de Toscanelli, envolto nas tagarelices do velho homem sobre a
geografia e os limites dos mares.

Manchas rosadas afloraram o rosto de Amerigo. Olhou de relance para o


irmão Giorgio antes de falar.

— Os escolásticos vêm de toda a Europa até à Universidade de Florença


para frequentar as aulas de Marsilio Ficino. Para nós, basta-nos uma
viagem curta para chegarmos à sua casa. E, sim, como presumiu, amanhã
vamos encontrar-nos com Toscanelli. Paolo pode estar já com mais de
oitenta anos e as suas teorias podem ser arrojadas, mas, como o tio muito
bem sabe, a sua crença na ideia de que podemos chegar ao Oriente
atravessando o mar já deixou as pessoas a conjeturar se tal feito será
possível. Mais do que isso, depois de estar ausente durante quase dois
anos, presumi naturalmente que seria agradável para os dois passarmos
algumas horas na presença de outras pessoas.

Guid’Antonio estava a sentir-se irritado e sabia disso.


— Desculpa - disse. - O dia de hoje foi terrível. Amanhã, quando chegares
a casa, reunimo-nos com António para rever os livros de contas.

— Eu estarei aqui — disse António, suspirando profundamente.

— Por falar nisso — disse o irmão Giorgio, sacudindo migalhas do colo do


hábito enquanto Cesare se atarefava em volta da mesa, a recolher os
pratos —, já pagámos ao Sandro pelo seu trabalho em Todos os Santos?
António?

— Se pagámos! A avaliar pelo seu preço, uma pessoa havia de pensar que
ele é o próprio Masaccio e que pintou os gloriosos frescos na Capela
Brancacci. É mais caro do que as coisas caras e, uma vez que vive mesmo
ali ao virar da esquina, não temos como fugir dele.

92

Esteve aqui hoje ao meio-dia, depois de ter dado as últimas pinceladas no


nosso novo Santo Agostinho. Fugir de Sandro? Guid'Antonio franziu o
sobrolho. Por que motivo havia António de querer fugir de Sandro?

- Sandro Botticelli é o melhor pintor da cidade — disse o irmão Giorgio.


- Talvez até de toda a Itália.

- Principalmente porque Masaccio há muito que está morto e enterrado —


disse Cesare, colocando o último prato em cima do aparador. Enquanto os
outros se riam, colocou sorrateiramente uma grossa fatia de carne assada
numa bolsa de couro que trazia à cintura, uma manobra que Guid'Antonio
observou com interesse. Cesare não tinha necessidade de surripiar comida.
Se por qualquer motivo Cesare desejava a carne que sobrara, porque não
tirá-la simplesmente do aparador ao fim da noite? Porque Domenica podia
ver e perguntar-lhe para que a queria. O que se passava ali? Cesare
endireitou as costas e retirou-se silenciosamente para a cozinha.

Guid’Antonio organizou os seus pensamentos dispersos.

- E quanto aos irmãos Pollaiuolo? Ou Leonardo? Também eles são artesãos


talentosos.

- Da Vinci? Não é nem um pouco confiável. — O irmão Giorgio sacudiu mais


uma boa porção de migalhas da frente do seu amplo hábito. — Quem sugeriu
Santo Agostinho para o fresco de Sandro fui eu. Ghirlandaio completou o
fresco de São Jerónimo numa parede próxima. O que acabou por ser uma bela
competição. Imagino que ainda não viste nenhuma das obras.

- Não — disse Guid'Antonio. — Como também não vi a nossa Virgem Maria que
chora.

Nastagio deu uma gargalhada rude e estridente.


- Ah! Não te preocupes com isso, Guid'Antonio! Com a recusa de Lorenzo em
salvar a república, nos próximos dias terás muitas oportunidades para ver
as lágrimas da Virgem e para testemunhar os sarilhos que daí advirão!

- Pai — disse Amerigo, franzindo o sobrolho —, Lorenzo já nos salvou uma


vez. Ele arriscou o próprio pescoço em Nápoles para assegurar o tratado
de paz com o rei. Ainda assim — Amerigo olhou de relance para
Guid’Antonio —, na Câmara Municipal todos apresentaram a mesma questão.
Deverá Lorenzo viajar agora para Roma para apaziguar o papa?

- Não. Florença não devia ser tão submissa a Sisto IV.

93

O irmão Giorgio olhou para Guid'Antonio com uma expressão sagaz nos olhos
castanhos.

— Por muito que as suas gentes desejem ser submissas à Igreja?

— Pfft! — exclamou Nastagio. — Lorenzo não se importou nada de ir para


Nápoles e por lá se demorar indefinidamente. Quem sabe? Pode ser que em
Roma também encontre as pernas de uma prostituta abertas para si.

A cor no rosto de António aprofundou-se até um roxo escuro.

— Cuidado, pai, rogo-lhe.

A preocupação de Guid'Antonio com Nastagio tornou-se ainda maior. Por


amor de Deus, o que dizia o seu velho amigo?

— Nastagio — disse —, Lorenzo foi para Nápoles com o objetivo de acabar


com a guerra e trazer paz a Itália. E foi isso que fez. — Sentia-se como
se estivesse a falar com uma criança.

— Paz? — gritou Nastagio. — Ele foi para Nápoles para salvar a sua
reputação em Florença.

— O que não é um motivo despropositado, pai — disse António, pesando bem


cada uma das palavras —, uma vez que Lorenzo e Florença são unos. Seria
bom se pudesse recordar-se disso.

Nastagio agitou o braço para a frente com tamanha veemência que derrubou
o jarro de vinho que estava em cima da mesa, entornando o seu conteúdo de
um vermelho profundo para o chão.

— A minha ideia é que o nosso príncipe impostor roubou dinheiro dos


cofres do Estado para o fazer!

— Pai! - exclamou António. - Tenha calma, a não ser que queira que vamos
todos parar à forca!
Guid'Antonio olhou em redor da mesa, observando silenciosamente e
esperando para ver como a questão se ia desenrolar. Exasperado, Amerigo
disse:

— Claro que Lorenzo usou dinheiro do Estado para financiar a guerra. Era
um assunto de Estado levado a cabo para acabar com o nosso conflito com
Sisto e o rei.

— O nosso conflito? — Os olhos de Nastagio escureceram perigosamente. — O


de Lúcifer, queres tu dizer!

Amerigo bateu com ambos os punhos na mesa. Sim, Nastagio era o seu pai.
Sim, ele era um filho respeitador. Mas também era um italiano de vinte e
seis anos.

94

- Lorenzo hipotecou as suas terras no Vale Mugello para financiar a


missão a Nápoles. Fomos derrotados em campo! Os nossos pretensos
comandantes andavam a lutar entre si. O chanceler Scala escreveu-nos a
dizer que se aquilo de que precisássemos para vencer fosse de mandriões,
então teríamos sido vitoriosos em qualquer batalha. — Voltou a sentar-se,
com o peito arquejante.

Nastagio não repreendeu o filho mais novo; em vez disso, ficou a olhar
para ele, com a confusão a ensombrar-lhe o rosto.

Tu és o embaixador, pensou Guid'Antonio. Segundo todas as opiniões, um


agente da paz.

- Nastagio — disse. — Dada a história da cidade, Lorenzo podia ter sido


assassinado em Nápoles. Se não fosse a admiração que o rei Ferrante...

- Admiração? — Nastagio riu-se estridentemente. — Se não fosse pela nora


do rei, queres dizer! — Nastagio agitou impudicamente um polegar para
dentro e para fora de um círculo que fez com os dedos da outra mão.

O irmão Giorgio recuou, horrorizado, segurando a frente do hábito com uma


das mãos.

Guid'Antonio concentrou a atenção em António.

- O que diz o teu pai?

- Ah — António pigarreou, com o rosto tingido de um tom escarlate vivo. —


Circularam — circulam — alguns rumores segundo os quais Lorenzo, enquanto
esteve em Nápoles, cortejou a mulher do príncipe Alfonso. Isto porque
Alfonso estava fora, em Siena, a liderar a guerra contra nós, aqui na
Toscana.
Uma onda de calor percorreu a espinha de Guid'Antonio. Ippolita Sforza e
Lorenzo de' Medici conheceram-se em 1465 quando Lorenzo viajou para
norte, para a corte de Milão, na qualidade de representante de Florença,
para assistir ao casamento de Ippolita com o príncipe Alfonso de Nápoles.
Ippolita fazia vinte anos em maio desse ano, Lorenzo tinha dezasseis e
estava a ser preparado para assumir o papel do pai enquanto líder da
família Medici.

- Lorenzo e Ippolita são amigos dedicados há quinze anos — disse


calmamente.

- Si — concordou Nastagio, batendo nos lábios. Talvez num tom mais leve.

- Nastagio — disse Guid'Antonio —, queres dizer que nesta era do


iluminismo um homem e uma mulher não podem ser amigos?

95

— O próprio Guid'Antonio tinha uma amiga. Amiga. E não seria isto também
uma piada e uma imensa falsidade? O seu nome era Francesca Vernacci e era
a medica di casa, a médica da família, no Hospital Vespucci, que ficava a
escassos passos do local onde agora se encontravam. Não havia ninguém,
além do chefe da polícia Palla Palmieri e de Lorenzo, que soubesse muito
sobre o antigo caso amoroso de Guid'Antonio e da doutora Francesca. A sua
história de amor era uma história plena de tortura que começara doze anos
antes, quando, depois da prematura morte de Taddea, ele se apaixonou
perdidamente por Francesca; Guid'Antonio mostrara-lhe o quão
profundamente a amava uma e outra vez, noite após noite e em alguns dias
também, adorando-a na sua cama. Aqueles dias há muito haviam
desaparecido, enterrados no passado, mas não estavam esquecidos; pelo
menos não por ele. Agora, desde que casara com Maria, só via Francesca
quando ela o assistia em alguma das suas investigações privadas, para,
por exemplo, estabelecer a hora de morte num caso de presumível
assassinato, ou para identificar um determinado veneno, como os cogumelos
venenosos. Amiga? Ele continuava a desejar Francesca, a amá-la
profundamente, com toda a sua alma, não obstante as explicações racionais
que ela lhe dera sobre o facto de não poderem casar-se. Ela era casada
com o hospital (o hospital dele, teve vontade de gritar, mas acabou por
abafar as palavras); Guid'Antonio precisava de um herdeiro e ela já tinha
passado dos vinte e cinco anos. Ele era um homem Medici, o seu mundo era
governado pelo poder e pela política, enquanto o mundo dela se regia
pelas ligaduras e horas tardias, pela doença e pelo cheiro desagradável
dos medicamentos.

— Só lamento não ter podido salvar Taddea e o bebé para ti — tinha dito,
já que fora Francesca quem cuidara de Taddea no fim.

Com o tempo, o desejo de Guid'Antonio por Francesca tornou-se numa sede


que conseguia sossegar só por estar ao lado dela, por respirar o seu
cheiro quando se encontravam nos aposentos dela para discutirem um caso,
mas era uma sede que nunca conseguia saciar completamente.

— Era do iluminismo? — dizia agora Nastagio. — Isto é o método do Diabo,


e tu farias bem em estar atento a ele. Quem viu Niccolò Ardinghelli
ultimamente? É que nas ruas ninguém o viu. Ela enxotou o marido
inconveniente como se fosse uma mosca! Ou uma vespa — disse, com uma voz
acanhada enquanto agitava o dedo a Guid’Antonio. — Uma embaixada pode ser
uma sentença de exílio, tanto quanto pode ser uma honra. O difícil é
saber qual é qual.

96

O rosto de Guid'Antonio ardia-lhe com um calor reforçado. Niccolò


Ardinghelli era casado com Lucrezia Donati. Segundo os mexericos,
Lucrezia era amante de Lorenzo desde os tempos em que eram jovens. As
pessoas abafavam os risos e apontavam o dedo nas costas do embaixador
Niccolò Ardinghelli; Guid’Antonio já os tinha visto e ouvido. Pobre
Niccolò, alvo de troça, que passava mais tempo fora de Florença a cuidar
de assuntos de Estado do que passava em casa, a cuidar do seu casamento.
O eterno e devoto embaixador. Um homem Medici até à medula.

António e Amerigo entreolharam-se. O irmão Giorgio estendeu uma mão para


o fazer parar.

- Nastagio, meu irmão, estás doente, por Deus. Deixa-me levar-te até ao
leito.

- Por amor de quem? — perguntou Nastagio, irado. — De Deus? Ou por amor


daquele anticristo, Lorenzo?

- Que São Lucas nos ajude — murmurou António, cobrindo o rosto com as
mãos.

Recorrendo a toda a sua força de vontade, Guid'Antonio conseguiu manter


os dedos afastados do punhal. Levantou-se com firmeza, mantendo os olhos
fixos no seu amigo de toda a vida.

- Nastagio. — A palavra era como uma pedra na sua boca. — Meu parente ou
não, daqui em diante vais morder a língua quando estiveres na minha
presença, a não ser que queiras que ta corte. Nem vou pestanejar perante
uma traição. Assim como não vou tolerar calúnias de espécie alguma,
principalmente quando houver uma senhora envolvida, não importa quem
seja, seja Ippolita Sforza, Lucrezia Donati Ardinghelli, ou, por muito
retorcido que pareça, a minha própria esposa.

Disparou um olhar fulminante em redor da mesa.

- Irmão Giorgio, para o caso de te teres esquecido, estamos em conflito


com a Santa Madre Igreja porque o papa Sisto IV se declarou inimigo de
Lorenzo e, por isso, inimigo do Estado Florentino. Mais do que isso,
Sisto recusa-se a levantar a excomunhão a que nos votou não porque é o
vigário de Cristo, mas porque é o vigário do bastardo do seu sobrinho.

Antes de qualquer um deles ter oportunidade de falar, Guid’Antonio saiu


da sufocante sala e atravessou a cidade de Florença com passos largos até
ao bairro de Touro, no distrito de Santa Cruz, para encontrar Maria.

97

Página em branco

Capítulo OITO

Quando Guid’Antonio entrou nos aposentos da mãe dela na residência Del


Vigna, Maria estava sentada perto da lareira acesa. Inundado dos odores
espessos do incenso e das velas, o ar no quarto modestamente mobilado era
opressor e quente contra a pele dele. Na cama alta, Alessandra del Vigna
gemia sob um cobertor de lã, enquanto o médico ia espetando o dedo nos
conteúdos granulosos das suas entranhas, numa taça de estanho. Maria
estava de olhos fechados, as mãos caídas inertes no regaço do vestido de
damasco. Certamente estaria a transpirar naquele calor que pretendia
fazer com que a sua mãe expulsasse a doença pelos poros da pele. Ainda
assim, a luz da lareira conferia um brilho adorável ao perfil de Maria.

Guid’Antonio sofria por ela. Iria ajudá-la nos dias que se seguiriam,
apesar de Maria ter de desempenhar sozinha grande parte do seu dever. O
seu pai, o irmão e as duas irmãs tinham morrido da peste que devastara a
cidade de Florença nos meses seguintes ao início da guerra. Nessa altura,
Guid’Antonio observara-a atentamente, enquanto vagueava pelo Palácio
Vespucci envolta na dor, como se fosse um espetro, com a pele
dolorosamente pálida. Comia muito pouco e estava a ficar tão leve e
ausente que Guid’Antonio temeu que se evaporasse perante os seus olhos. A
alma ferida de Maria acabou por aprender a viver com as terríveis perdas
que sofrera; lentamente, Maria regressou à vida. Afinal, ainda tinha a
mãe para cuidar. Tinha Giovanni, que na altura era um menino de apenas
três anos. Tinha-o a ele. Pelo menos durante alguns meses, até que
Guid’Antonio e Amerigo encheram os malotes e dirigiram Flora e Bucephalus
a Paris. Retirou o manto e pousou-o numa arca.

99

- Maria?
Ela sobressaltou-se e olhou para ele quase ao mesmo tempo, com um sorriso
a iluminar-lhe o semblante preocupado. Levantou-se e correu até à porta
para o receber.

- Guid'Antonio.

Ele abraçou-a, segurando-a tão perto de si que conseguia sentir o coração


dela a bater descompassado no peito. O seu corpo era sólido e fogoso sob
os braços dele, a roupa estava quente do fogo da lareira.

- Como está ela? — perguntou.

O suspiro trémulo que Maria deu enquanto recuava disse-lhe tudo. Levantou
o cabelo, deixando-o espalhar-se, preto e brilhante como ónix, sobre os
ombros.

- Só Deus sabe, Guid'Antonio. Há dois dias, quando Giovanni e eu a viemos


visitar, parecia estar bem. Agora, as dores de estômago são ferozes; dá
para ver como procura resistir-lhes. Tem muito frio, até bate os dentes;
no entanto cá estamos, no mês de julho e com o fogo a rugir na lareira. O
dottore Camerlini já a sangrou. Se pelo menos conseguisse dormir...

Como se estivesse determinada a não se entregar à morte, Mona Alessandra


del Vigna debatia-se sob o crucifixo pendurado na parede da cama. Ela vai
dormir, e quanto mais cedo melhor, para seu próprio bem, pensou
Guid'Antonio.

Enterrou o rosto no aroma fumado do cabelo de Maria, roçando com os


lábios no pescoço dela. O contacto da sua boca com a pele dela atingiu--o
ferozmente, como um murro no coração. Queria puxar-lhe o vestido até aos
ombros e beijar-lhe os mamilos até ficarem rosados e duros. Queria cair
de joelhos, levantar-lhe as saias e percorrer-lhe as coxas abertas com as
mãos. Mas libertou-a rapidamente. Não eram pensamentos para ter naquela
altura, nem naquele lugar.

- Guid'Antonio. — A voz de Maria tinha uma nota de preocupação. — Perdoa-


me por esta manhã. Foi a desilusão do próprio Diabo que colocou aquelas
palavras na minha boca. Não tenho o direito — o que deves ter ficado a
pensar quando regressaste da Senhoria e deste comigo desaparecida?

O coração de Guid'Antonio bateu mais devagar. A honra dizia-lhe que desse


um passo atrás e confessasse a verdade: ele tinha-a deixado à espera, ou
pelo menos assim achava. Mas o sentido de autopreservação disse-lhe que
mais valia não se precipitar em explicações. Aos novos começos.

100

- Pronto — disse, segurando-lhe o rosto entre as mãos —, não há nada para


perdoar. E, se houvesse, eras tu quem me devia perdoar a mim.
Um acesso de tosse agitou o corpo de Mona Alessandra. Maria olhou de
relance para a cama.

- Abençoado sejas, Guid'Antonio, e que Deus a ajude. Não a posso deixar


sozinha esta noite. — Olhou para ele e os seus olhos eram lagos negros de
mágoa, toda a energia se esvaíra.

- Não. Claro que não. — Guid'Antonio percorreu com as mãos as mangas


compridas do vestido de Maria: por baixo da seda, a pele dela estava
quente ao toque. Suprimiu um gemido. Deus, como a queria na cama. Ou ali
mesmo, contra a parede quente.

Ao lado da cama, o dottore Camerlini despejou o conteúdo da taça de


vómito de Alessandra del Vigna para o bacio e virou-se para consultar um
manuscrito já muito usado. Para quê? A mãe de Maria ia morrer com aquela
doença que se anunciava através de cólicas agudas no estômago antes de
provocar febre, arrepios e dores penetrantes. Guid'Antonio sabia disso.
Maria sabia disso. E o médico de Mona Alessandra del Vigna, dottore
Camerlini, sabia-o também.

- Eu fico contigo esta noite — disse Guid'Antonio. Mas Maria abanou a


cabeça.

- Vai para casa e descansa. Dentro de pouco tempo precisarei de toda a


tua força.

- Vens lá fora comigo? — pediu.

Guid'Antonio inspirou profundamente nas sombras do jardim Del Vigna,


levando o ar puro para dentro do peito; estava com a mulher sob as
arcadas protegidas, no seu manto carmesim. A noite já caíra completamente
sobre eles e o único som que se ouvia era o da respiração de ambos. A lua
corria por entre as nuvens roxas no distrito de Santa Cruz, nuvens tão
carregadas de chuva que pareciam prestes a rebentar. As chamas dos
archotes que ardiam à volta do pequeno pátio coberto dançavam
incansavelmente, iluminando as paredes cobertas de sujidade e fuligem. O
jardim Del Vigna evidenciava outros sinais de abandono, um vaso de barro
que a neve e o gelo dos dois últimos invernos racharam, a taça do
fontanário que estava seca e esfolada.

Maria tocou-lhe no braço.

101

— Não tenho tido muito tempo para cuidar do jardim, com Giovanni e outros
assuntos em casa, e não gosto de incomodar o António com estas coisas.
Ele já tem tanto que fazer.

— Amanhã mando vir cá os nossos jardineiros — disse.

Grandes gotas de água salpicaram o chão e o fontanário empoeirado.


— Estás à espera de bom tempo, então? — perguntou Maria. — Parece que a
qualquer momento se vai abater sobre nós uma grande tempestade.

Ele percorreu o rosto dela com o dedo.

— Eu não estou à espera de nada, Maria. Tenho apenas esperança — disse e


foi-se embora mais uma vez, com passos largos, um vulto solitário, pela
noite dentro.

Poucos homens sensatos andariam pelas ruas de Florença sozinhos depois de


anoitecer. Mas desde quando era Guid'Antonio Vespucci um homem sensato?
Abriu o portão do jardim e saiu para a Praça de Santa Cruz. O som do
ferrolho de ferro forjado ecoou por entre as casas e lojas de portadas de
madeira já fechadas que ladeavam a praça deserta. Os pingos de chuva
batiam-lhe violentamente no rosto e no cabelo.

Para oeste, do outro lado da praça, na extremidade do grande retângulo, a


Igreja de Santa Cruz erguia-se no céu noturno. Para lá da fachada simples
de tijolo, os frades devotos a São Francisco movimentavam-se por entre as
sombras, passando pelas capelas privadas de várias famílias, decoradas
com frescos sumptuosos pintados por Gaddi, Giotto e Aretino. Guid'Antonio
puxou o manto para junto do rosto e semicerrou os olhos para a escuridão.
Uma pequena cúpula de tijolo erguia-se para lá da parede no lado oeste do
primeiro claustro do mosteiro: era a capela da família Pazzi.

Os Pazzi não tinham usado a capela nos últimos dois anos, embora Deus
soubesse que precisavam de o fazer. Todos, todos tinham sido apanhados
pela onda de castigos violentos que varrera a cidade assim que os joelhos
de Giuliano de' Medici bateram no chão da catedral. Foram todos
esquartejados, decepados, castrados ou enforcados e os seus corpos foram
atirados ao Arno desfeitos em pedaços ensanguentados. Poucos escaparam,
mas um deles fora o marido de Bianca de' Medici, Guglielmo de' Pazzi,
porque era amigo de Lorenzo e tinha festejado, viajado e caçado com eles
em numerosas ocasiões. Impressionante.

O vento começou a soprar. A palha e a terra começaram a levantar-se do


chão das lojas escuras enquanto a chuva leve parecia reunir força e
ameaçava cair em pesados aguaceiros.

102

Guid'Antonio apressou-se a atravessar a praça, mas parou subitamente,


assustado por uma repentina explosão de luz branca que iluminou a
atmosfera. Parou, sobressaltado, a observar como os cristais brilhantes
de neve pura caíam dos céus em cascata. Da luz invernosa, Giuliano saiu a
cavalgar com a sua armadura brilhante como prata. Por baixo de si, o
cavalo empinava-se, prevendo o confronto. Nas bancadas, envolta num manto
forrado a linho, estava a Rainha da Beleza do torneio de Giuliano, a
parente de Guid'Antonio, Simonetta Vespucci, com as faces coradas e tão
suaves como rosas. No estandarte de Giuliano, Sandro Botticelli pintara a
imagem de Simonetta, com o cabelo louro a cair em cascata, preso em
tranças adornadas com pedras preciosas e pérolas; o vestido branco
transparente acariciava-lhe o corpo voluptuoso.

O coração de Guid'Antonio latejou dolorosamente à medida que a imagem do


torneio de Giuliano se desvanecia. Janeiro de 1475. Oh, como gostaria de
eternizar aquela gloriosa manhã de inverno! Talvez devesse consultar o
dottore Camerlini. Uma gargalhada sem alegria escapou-se dos seus lábios.

Com a cabeça curvada e as mãos a tremer, saiu para a chuva. Como podiam
ter sido todos tão loucos que não se aperceberam de que estavam a viver
um sonho, uma bolha cujas forma e cores mudavam constantemente, uma bolha
tão frágil que não havia orações nem magia que a impedisse de rebentar?
Pouco tempo depois do torneio, Guid'Antonio tinha caminhado ao lado de
Giuliano atrás do caixão de Simonetta Vespucci, enquanto as lágrimas
caíam copiosamente e sem vergonha pelo rosto de Giuliano abaixo. A morte
— a vida! — não poupava ninguém, nem mesmo os jovens e os impossivelmente
bonitos, não quando se tratava de uma doença no peito ou da lâmina de um
assassino.

Como era seu dever e seu privilégio, o marido e o sogro de Simonetta,


Marco e Piero Vespucci, também tinham seguido no cortejo fúnebre naquele
dia. Mesmo atrás deles, Guid’Antonio forçara-se a colocar solidamente um
pé à frente do outro e a manter um passo regular. Toda a cidade de
Florença sabia que Simonetta e Giuliano tinham sido amantes, embora
Giuliano de' Medici e Marco Vespucci toda a vida tivessem sido amigos.

Pensamentos negros. Memórias inquietantes.

Atravessou a Praça de Santa Cruz e virou para a esquerda para uma viela
torta. Os archotes nas portas tremeluziam hesitantes à sua passagem.

103

Um gato mergulhou na escuridão à sua frente e desapareceu. Ótimo! Graças


a Deus que o felino escanzelado, assustado com alguma presença oculta,
não dera meia-volta e viera na sua direção. Guid'Antonio abrandou o passo
e pôs-se à escuta antes de sair da ruela apertada, mas não ouviu nada a
não ser o bater da chuva.

Mais uma vez em campo aberto, continuou junto às paredes da Stinche.


Parou brevemente e inclinou a cabeça para o lado. A prisão da cidade era
um edifício enorme com janelas gradeadas tão altas que não se viam da
rua. Sombria e austera, a Stinche continha traidores, assassinos e
ladrões. A lista de traidores incluía o sogro de Simonetta Vespucci,
Piero Vespucci.

Guid'Antonio sentiu um arrepio. Piero Vespucci estava algemado e


acorrentado algures ali dentro. Estugou o passo, com o rosto a incendiar-
se de fúria e vergonha. No dia a seguir à missa do funeral de Giuliano,
Lorenzo e Palla Palmieri interrogaram informalmente Guid'Antonio, mesmo
às portas da Igreja de São Lourenço, onde tinha ido rezar. Os dois homens
dirigiram--se a ele com passos largos, vindos do pátio do jardim dos
Medici, com um ar de determinação grave e com os punhais à vista.

— Encontrámo-lo — disse Lorenzo, com o novo e perigoso tom de voz que


adquirira nos cinco dias que se passaram desde o assassinato do irmão. —
Palla fez mais uma detenção. — Parecia simples e evidente que Lorenzo
mencionasse uma detenção no âmbito da «Conspiração Pazzi».

— Ótimo. Quem? - perguntou Guid’Antonio, astutamente consciente do misto


de fanfarronice e constrangimento de Palla, da maneira como mordia o
lábio e olhava para a praça do mercado. Palla, que no seu papel de chefe
da polícia de Florença encarava até as situações mais extremas com
franqueza, senão mesmo com sagacidade.

— Piero Vespucci — disse Lorenzo. — O seu parente.

— Piero? Porquê? — A surpresa de Guid’Antonio era total. Não havia


qualquer embuste ou subterfúgio.

— Por ter dado guarida a um homem que é suspeito de conspirar contra a


família Medici — disse Palla. — Piero ofereceu refúgio ao idiota.

Suspeito. Era o suficiente para arruinar a família.

— Que idiota? Pensei que tínhamos enforcado praticamente toda a gente.

— Napoleone Francesi.

— Que, graças ao seu Piero, conseguiu fugir à justiça. — A voz de Lorenzo


era perigosamente calma, sem revelar qualquer emoção.

104

- Não conheço esse tal de Napoleone Francesi — disse Guid'Antonio,


levantando ambas as mãos.

- Não? — Os olhos de Lorenzo brilhavam.

- Não. E Piero não é meu. Mal o conheço.

Lorenzo tocou na ligadura que protegia a ferida do seu pescoço, como se


quisesse assegurar-se de que ela ainda estava no sítio.

- Foi o que disse a Palla.

- Não fazia ideia de que Piero Vespucci poderia estar relacionado com a
conspiração para matar Lorenzo e Giuliano? - perguntou Palla, com o
alívio a inundar-lhe a voz.

-Não.
- Nem Marco?

- Marco? Ele também deu guarida a um suspeito? - questionou Guid'Antonio.

Um sorriso contorceu os lábios de Palla.

- Tanto quanto sabemos, não. No entanto... - Encolheu os ombros. Taipai,


tal filho.

- O que vão fazer com ele? - perguntou Guid'Antonio. Não valia a pena
indagar quanto ao motivo. A imagem de Simonetta Vespucci estava entre
eles, ali na Praça de São Lourenço, tão vivamente como se continuasse a
respirar neste reino terreno.

- Vamos ver o que conseguimos descobrir e depois agimos em conformidade.


— Palla sorriu, com um ar matreiro. — Ou vice-versa.

- E onde estão Piero e Marco neste momento?

- Na esquadra da polícia. Isto é, o Piero está lá. Os meus homens foram


buscar Marco a casa.

- Espero que o encontrem lá - disse Guid'Antonio.

- Encontramo-lo onde quer que esteja.

Os três homens atravessaram então a praça, de costas para a igreja onde o


corpo de Giuliano jazia perdido na escuridão, num sarcófago de mármore
cuja superfície brilhante se encontrava iluminada por um mar ardente de
velas. Seis meses depois, em outubro, Guid'Antonio e Amerigo partiram
para França, viajando sob o estandarte da confiança de Lorenzo, enquanto
Marco Vespucci vivia no exílio e Piero apodrecia por trás das paredes da
Stinche, o seu mundo reduzido a um rio negro e fedorento.

105

Passou por cima de um riacho de água da chuva e dos esgotos, e virou para
a Via dei Cartolai, onde se localizavam as lojas dos livreiros,
papeleiros e ilustradores. A trovoada ecoava por cima da sua cabeça. Os
relâmpagos transformavam as gotas de chuva em agulhas de prata e o vento
soprava mais forte, elevando o manto de Guid'Antonio acima dos ombros.
Pelo sangue de Cristo. Estaria ele condenado a ser eternamente perseguido
pelo temporal?

Entrou numa viela escura e de paredes molhadas, pouco mais larga que os
seus ombros, ignorando as ratazanas que lhe passavam por cima dos pés.
Foi nesse momento que um passo abafado se fez ouvir atrás de si.
Guid'Antonio virou-se, com os cabelos da nuca arrepiados. Ficou à escuta
e ouviu a chuva a gorgolejar em remoinhos pelas paredes que o cercavam.
Alarmado, quando chegou à Praça da Senhoria caminhou diretamente para o
meio da chuva. O aguaceiro era agora uma chuva torrencial que lhe
fustigava o rosto. Tocou no punhal que levava por baixo do manto ensopado
e deslizou os dedos pela abertura estreita da bainha, olhando em redor. A
Câmara Municipal erguia-se à sua esquerda; à sua frente localizava-se a
Loggia dei Priori, as arcadas cobertas onde os nove lordes magistrados
recebiam os embaixadores e outros dignitários que visitavam a cidade. Nas
sombras, com a chuva a escorrer-lhes pelas pernas, braços e troncos, a
coleção de estátuas antigas da loggia parecia estranhamente ameaçadora.

Podia passar rapidamente por ali, correr em direção ao rio e virar


bruscamente para a direita, em direção à Rua de Todos os Santos. Não! A
noite, a zona junto ao Arno estava cheia de rufiões que podiam sentir-se
tentados a cortar-lhe o pescoço para lhe roubarem a bolsa do dinheiro,
desesperados por algumas moedas. Era melhor atravessar a Praça da
Senhoria na diagonal e desafiar a sorte nas vielas. A escuridão que
ocultava um homem podia também ocultar outro.

Tinha dado poucos passos em direção à praça quando o som de movimentos


lhe chegou novamente aos ouvidos. Virou-se e viu... nada! Continuou a
andar, com o coração a bater descompassado, mantendo uma segurança
relativa ao caminhar pelo meio da praça larga e aberta, com a mente
sobrenaturalmente alerta. Os relâmpagos estalavam e brilhavam no céu; por
instantes a noite fez-se dia. Sombrio e assustado, Guid'Antonio manteve o
seu passo regular. A sua frente, na extremidade da praça, estendia-se um
corredor de toldos pretos.

106

Caminhou até eles e virou-se para olhar para a praça. Se alguém lá


andava, estava a esconder-se por entre as sombras. Talvez o seu
companheiro tivesse desistido da perseguição naquela noite chuvosa.
Algures no bairro adormecido, um bebé começou a chorar, deixando-o
novamente com os nervos em franja.

Passou por uma curta viela a seguir a outra, reproduzindo a rota que ele
e Amerigo tinham percorrido naquela manhã em direção à Câmara Municipal,
até que passou por baixo dos estandartes encharcados que adornavam o
Palácio Davizzi. Abriu o portão vermelho, deixou cair o braço de madeira
no apoio e entrou para a Praça da Trindade.

Com a misericórdia de Deus, a chuva quase parara de cair; a tempestade


dirigia-se agora para o campo. A Igreja da Trindade era uma imagem bem-
vinda, apesar de estar negra e solitária como uma sepultura. A sua
esquerda, a Ponte da Trindade cruzava o rio até à margem oposta. Tanto a
praça como a ponte estavam desertas. Atrás de si, ouviu o som da trave de
madeira do portão a erguer-se. Jesus Cristo e Maria, Sua Mãe! Assustado,
girou sobre os calcanhares.
- Mostre-se! Apareça! Silêncio.

Sentiu que uns olhos se cravavam em si. O que diabo queria aquele
maldito? Baixou-se por uma passagem ao lado da igreja e encostou-se à
pedra fria e molhada. Ficou ali à espera, de punhal na mão. Ouviu um
movimento súbito, como se alguém se apressasse a correr atrás dele até à
escuridão. Então muito bem: um dos dois ia morrer.

O som de uns cânticos ecoou nos ouvidos de Guid'Antonio. Devia ter


perdido o juízo! Não — os cânticos vinham da direção da ponte,
embriagados e desafinados, acompanhados por um alaúde. Era um grupo de
jovens rapazes que regressavam a casa vindos de uma das tabernas ou casas
de prostitutas que existiam do outro lado do rio. Da ponte, entraram na
praça a rir.

- Woo-hoo, Piccarda! Queres vir brincar?

Encurralado entre a sua presa e os jovens encharcados em água e vinho —


sem dúvida armados até aos dentes e a morrer por uma briga —, o
perseguidor de Guid'Antonio encolheu-se no seu manto.

- Seja quem for, venha — murmurou Guid'Antonio. Fez sinal com a mão que
tinha livre. — Faça-o. Por favor.

O barulho do portão a abrir-se no lado oposto da praça e dos rapazes


embriagados a entrarem disse a ambos que daí a segundos estariam frente a
frente.

107

— Venha!

O vulto encapuzado deu um grito abafado. - Não!

Virou-se e fugiu; a última coisa que Guid'Antonio viu dele foi a bainha
ensopada do manto.

- Mas que diabo? - Guid'Antonio encostou-se à parede, a tremer. O punhal


parecia escorregar-lhe na mão, encharcado em chuva e suor. Recompôs-se,
saiu da viela e avançou para a Praça Goldoni. Por que motivo teria aquele
homem louco andado atrás dele? Para lhe roubar o manto carmesim e depois
o vender aos comerciantes de roupas usadas? Possivelmente. Para o matar?
Porquê? Pelas chagas de Cristo, só tinha chegado a casa há um dia!

Nas horas seguintes ia estar atento e avisar Amerigo para se preocupar


com a sua segurança também.

A Igreja de Todos os Santos estava mesmo à sua direita, um pouco depois


da Via Porcellana, a rua onde Sandro Botticelli vivia com a sua família e
onde mantinha também a oficina, Botticelli e Companhia. Guid'Antonio
passou por baixo da passagem estreita e escura. Sob os seus dedos, a
porta da igreja abriu-se suavemente. O ar fresco atingiu-lhe as narinas.
Incenso, humidade, pedra: o cheiro da solidão. No meio da escuridão
tremeluziam algumas velas colocadas aqui e ali.

Segundo os padrões florentinos, Todos os Santos não era uma igreja


grande. Ainda assim, a presença de Guid'Antonio perturbou o silêncio
quando percorreu a nave com o manto completamente encharcado e tão escuro
como sangue. Àquela hora as capelas laterais estavam vazias, os seus
únicos habitantes eram os corpos dos mortos que jaziam nas caves
subterrâneas. A sua família. A sua direita, quase invisíveis com a falta
de luz, estavam os dois frescos que Domenico Ghirlandaio pintara na
parede exterior da Capela Vespucci, a Senhora da Misericórdia e, mesmo
por baixo desta, O Lamento pela Morte de Cristo, que continha uma
representação de Ghirlandaio de Amerigo e do seu tio de manto negro,
Giorgio Vespucci, que olhavam para Guid’Antonio. A seguir, na parede sul
estava — oh, sim — o Santo Agostinho de Sandro Botticelli, com o velho
santo vestido com um luminoso hábito branco, alaranjado e dourado.
Guid’Antonio reconheceria o trabalho de Sandro em qualquer lado, mesmo
que o irmão Giorgio não tivesse mencionado o fresco naquela mesma noite.
Passou pelo mural sem olhar uma segunda vez, com as botas a chiar
enquanto se encaminhava para os arcos esguios de Todos os Santos em
direção ao quadro que se encontrava pendurado sobre o altar.

108

Ao chegar ao altar, parou, com o olhar fixo na Virgem Maria de Santa


Maria Impruneta.

Rodeada por uma aura de luz difusa, a Virgem olhava inexpressivamente


para o vazio. Guid'Antonio subiu ao estrado do altar, pegou numa vela que
ardia num prato e segurou a chama em direção aos olhos pintados, orbes
secas como pó num rosto insípido. Ao olhar para cima, para o vão que se
erguia, viu apenas escuridão. Não havia cordas ou roldanas, nem qualquer
infiltração do telhado. O que o recordou: que tempo Unha estado na
quarta-feira anterior, quando o quadro chorou pela primeira vez? Estaria
a chover nessa altura? E quanto aos dias que se passaram entre quarta-
feira e sábado, quando as lágrimas abrandaram e secaram de vez?

Guid'Antonio contornou o painel: não havia buracos minúsculos na madeira,


nem nenhum balde de água. Esperara realmente uma solução tão fácil?
Abanou a cabeça para clarear as ideias. Recomeçaria retemperado de manhã.
Ia interrogar as pessoas de modo discreto.

Colocou uma moeda na caixa de esmolas, acendeu uma vela e colocou-a numa
mesa de apoio, ao lado de muitas outras. Ajoelhado no genuflexório, fez
uma oração pela mãe de Maria, enquanto da sacristia à sua direita se
ouviam os suaves sussurros dos irmãos beneditinos dos Humiliati que
provavelmente se dedicavam aos seus rituais noturnos.
Depois ouviu um ruído breve e sibilante e alguma coisa violenta se abateu
por cima da sua cabeça.

- Lúcifer! — Guid'Antonio colocou-se de pé com um salto, escorregou e


bateu na mesa de apoio. As velas acesas inclinaram-se para o chão.
Procurou no altar pelo seu atacante, segurando o punhal com uma das mãos
e a mesa das velas com a outra — Deus! Um incêndio na igreja? Que horror!
Um som repetido bateu em volta dos seus ombros. Guid'Antonio deu uma
palmada no ar e baixou-se. Era um pássaro! Encurralado na igreja e em
pânico, as asas batiam contra o seu corpo com a mesma sensação de terror
que percorria o corpo de Guid'Antonio. O pequeno pássaro voou e
desapareceu com a mesma rapidez com que tinha aparecido. Guid'Antonio
deixou-se cair sobre a balaustrada do altar.

— Guid'Antonio — disse o quadro.

Ele virou-se de repente. As velas colocadas aos pés da Virgem Maria


derreteram e apagaram-se. Os olhos pintados da Virgem observavam-no
inexpressivamente.

109

Deus do Céu. Ele inspirou dolorosamente, uma e outra vez até que
conseguiu abrandar o ritmo da respiração. Não tinha sido naquela mesma
manhã que um monge assustado tinha saído a correr daquela igreja, dando
um enorme encontrão a ele e a Amerigo no meio da rua? O irmão Martino: um
beneditino solitário, com os olhos negros iluminados e a bainha do hábito
a esvoaçar ao seu redor enquanto fugia em direção ao Portão Prato, com
outros dois Humiliati a segui-lo rapidamente. Que loucura. Fora um começo
adequado para um dia que piorara lenta mas firmemente até aos confins do
Inferno.

Perto da frente da igreja, ainda trémulo, Guid'Antonio parou perante o


fresco de Santo Agostinho pintado por Sandro Botticelli.

As pinceladas luminosas de Botticelli em tons de branco, dourado e


carmesim iluminavam a parede sombria. Não que isso o surpreendesse. O
olhar de Guid'Antonio seguiu a linha ascendente do olhar do santo.
Estaria a olhar para quê? Para o céu e para a promessa de salvação?

Mas havia também mais qualquer coisa. Semicerrou os olhos, mas naquela
atmosfera sombria era difícil ver o que quer que fosse. No cimo do
fresco, Sandro desenhara um escudo de cor escarlate com uma faixa azul e,
na faixa, algumas vespas douradas. O irmão Giorgio Vespucci tinha
encomendado o fresco e por isso, naturalmente, Sandro decorara-o com o
selo da família Vespucci. Guid’Antonio distinguiu uma toalha com franja,
alguns livros, um com uma encadernação de couro, o outro aberto numa
página que tinha uns rabiscos com umas marcas estranhas e, escondido como
estava no meio das sombras, algumas palavras que não conseguia
descortinar.
Como acontecia com o espírito de Guid’Antonio, também o resto do trabalho
de Sandro se perdia num mundo de escuridão, pelo que se foi embora.

110

Capítulo NOVE

- Aqui, Tesoro! — chamava lamentosamente Camilla Rossi da Vinci, para


acordar de seguida. Escondida na floresta engolida pela noite
sussurrante, sentou-se direita no estrado, com os braços firmes e a voz
meiga da ama a acalmá-la de imediato, enquanto aproximava Camilla do seu
peito e a abraçava com força, balançando-se suavemente para a frente e
para trás.

— Minha menina, minha doce menina, está tudo bem — arrulhou Margherita —,
minha menina doce e órfã de mãe, estás bem, acalma-te e tenta dormir.

— Dormir? Como, se me mantêm cativa? Onde está Tesoro? Onde? — Camilla


olhou em redor, atordoada. — Ele tirou-me o meu belo tesouro, também? - O
seu corpo minúsculo estremeceu. Estava gelada, não obstante o calor
sufocante; gelava ao lembrar-se dos olhos ferozes do seu captor, que se
incendiaram quando lhe arrancou o lenço que lhe cobria o rosto magoado e
selvagem. Camilla gritara, recordava-se claramente, ou seria o som dos
gritos atuais que lhe perfurava os ouvidos?

— O meu rosto! Viste o meu rosto! Devia matar-te por isso! — vociferara o
homem, agarrando-a violentamente, atirando-a por cima do corcel como se
fosse a saca de penugem de um vendedor de penas. — Eu devia...!

— Sim, foi levado — dizia Margherita agora. — Mas Tesoro está bem. Tenho
a certeza de que o pequeno cavalo está bem.

— Tens a certeza? Mas como? Margherita comprimiu os lábios.

111

Camilla estava sozinha, junto à janela gradeada. Era prisioneira numa


sala escavada na pedra e a bainha do seu vestido tocava-lhe nos pés
descalços. Atrás dela, Margherita estava sentada num banco, perto da
porta de madeira presa no exterior por três linguetas de ferro. A ama
podia sair da cela de tempos a tempos; deixavam-na sair a cada par de
dias para ir buscar comida, vinho e para esvaziar o bacio. E o senhor de
Margherita acompanhava-a sempre, sempre.
O cabelo lustroso de Camilla brilhava na escuridão, grosso e
encaracolado, com um brilho prateado à luz pérola da lua, como a crina
preta azulada de Tesoro. Se Camilla enfiasse a mão pelas grades da
janela, sentiria os dedos açoitados pelo vento cortante e pela chuva. As
lágrimas duras separavam--na de Florença, onde nos últimos anos vivera
com o marido, Castruccio Senso. Mas não valia a pena tentar alcançar as
lágrimas do céu; tinha as suas próprias, as brilhantes poças que lhe
enchiam os olhos azuis. Rendendo-se à dor, chorou.

Na Igreja de Todos os Santos, a porta do santuário fechou-se com um


gemido atrás de Guid’Antonio e as velas do altar incendiaram-se, reunindo
força e lançando sobre a Virgem Maria de Santa Maria Impruneta um véu de
luz amarela brilhante. Lágrimas prateadas e luminosas humedeciam as faces
pintadas da Virgem Maria e um suspiro ergueu-se na igreja vazia. Quem
escutasse ouviria o murmúrio suave e cantado: Louvada Sejas, Virgem
Eterna. Louvada Sejas, abençoada que choras.

112

Capítulo DEZ

Ela perturbava os sonhos de Guid’Antonio, sorrindo-lhe com ternura,


sempre longe do seu alcance. Ele chamava-a, incansavelmente. Conseguia
vê-la no meio da neblina, o cabelo desalinhado a acariciar-lhe os seios
desnudos...

Sentou-se na cama, mais cansado do que repousado depois de uma noite de


sono irregular. O quarto parecia mortalmente silencioso, os lençóis do
outro lado do colchão estavam mornos sob a palma da sua mão estendida.
Dedos cinzentos de luz espreitavam por entre as portadas das janelas.

Abriu as portadas de par em par, lavou-se por baixo dos braços e vestiu a
túnica branca bordada com vespas beges que Cesare ali colocara algures
durante a noite, entrando e saindo com pezinhos de lã. Ou teria Cesare
encontrado uma maneira de se movimentar sem fazer barulho, como um druida
que viajava pela floresta, no meio das árvores, sem ser visto?

Estava a meio das escadas quando ouviu o choro sonoro de uma criança e um
ruído surdo. Saiu para a luz do dia, franzindo o sobrolho. A tempestade
da noite anterior deixara a atmosfera limpa e o céu com um sadio tom
rosado. Estremeceu, recordando o vulto encapuzado que o perseguira no
meio da chuva e como a Virgem dissera o seu nome em Todos os Santos.

Dois batedores de tapetes, homens musculados de rosto corado, tinham


atado uma corda no jardim e estavam a bater os tapetes com vassouras de
palha. O pó batia-lhes no rosto, fazendo-os espirrar. Uma corda de roupa
tinha sido estendida por cima da relva mesmo em frente aos homens.
113

Cesare, que estava a estender o manto de Guid'Antonio para que secasse,


olhou para ele com uma expressão sombria, depois acenou em direção ao
pequeno Giovanni, que chorava ao lado do fontanário.

Guid'Antonio semicerrou os olhos. A mãe de Amerigo, Elisabetta Vespucci,


pairava sobre o menino, com espalhafato, enquanto a ama, Olimpia, estava
de joelhos, com o traseiro para o ar, a procurar no chão por entre os pés
pesadamente calçados da mulher mais velha.

Por baixo da sola das botas de Guid'Antonio a relva estava húmida e


sussurrante. Elisabetta virou-se. Poucos anos mais velha do que
Guid'Antonio, Elisabetta Vespucci governava a casa da família e tudo o
que a ela dizia respeito, exatamente como fazia com o marido, Nastagio, e
os filhos de ambos. Ou pelo menos gostava de acreditar nisso.

O seu rosto comprimiu-se.

— Então, Guid’Antonio Vespucci. Que bondoso da sua parte juntar-se a nós


antes de os sinos baterem o meio-dia.

— Por que motivo chora o meu filho? — perguntou. Os punhos de Elisabetta


voaram até à cintura larga.

— Ele chora como uma menina. E por nada! Devia guardar as suas lágrimas
para a mágoa e a dor verdadeiras.

Giovanni fungou.

— Para mim é alguma coisa.

— Olha, Giovanni! Eu não te disse que a encontrava? — Olimpia levantou-se


com um salto, com um sorriso no rosto corado, endireitando o vestido.
Entregou ao menino o pequeno objeto que apanhara do chão. — Não chores,
meu pequeno cordeiro.

— Ele passa é o tempo a balir — resfolegou Elisabetta.

O olhar silencioso de Guid'Antonio passou por cima da mãe de Amerigo como


se fosse uma brisa fria.

— Filho, o que perdeste?

Os batedores de tapetes praguejaram enquanto se debatiam com uma


tapeçaria de parede pesada que estava pendurada na corda curvada,
manobraram-na até formarem um rolo gordo no chão, levantando-a e
pontapeando as vassouras para longe dos pés descalços. Giovanni olhou
silenciosamente para os dedos dos pés.
— É uma concha, mestre Vespucci. — Olimpia sacudiu relva do corpo do
vestido e espirrou. Os seios agitaram-se. Os batedores de tapetes ficaram
a olhar fixamente. Um deles fez um comentário rude. Cesare aproximou-se
rapidamente, deu um par de estalos a cada um, agarrou-os pela parte de
trás dos colarinhos, empurrou-os até ao portão e atirou as vassouras
atrás deles, para a Rua de Todos os Santos.

114

Um sorriso aflorou aos lábios de Guid'Antonio.

— Cesare! — bufou Elisabetta. — O que julgas que estás a fazer, em nome


de Deus?

— Eu, Signora? — Cesare levou uma mão à anca. — Daqui a um instante vou
sair para encontrar dois batedores de tapetes que saibam que não devem
insultar a nossa casa. Principalmente a... — Olhou para Olimpia de cima a
baixo e levou uma mão ao coração. — Principalmente as belas senhoras que
aqui vivem.

Olimpia corou, levantando os olhos para ele.

— A nossa casa? Cesare Ridolfi, tu és muito presumido! — exclamou


Elisabetta. — Antes de ires a qualquer outro lado, quero perguntar-te o
que aconteceu a um certo cobertor de lã que desapareceu da caixa de
donativos de inverno de Todos os Santos. O cobertor é castanho, com
barras estreitas azuis e amarelas em cada uma das extremidades. Paguei
para que remendassem os buracos das traças e esta manhã o cobertor
desapareceu. — A voz dela baixou ameaçadoramente de tom. — Foi roubado
aos pobres nestes tempos tão difíceis.

O rosto de Cesare empalideceu.

— Não sei nada de cobertor nenhum roubado.

— Não me mintas! — disse Elisabetta, tão alto que todo o bairro do


Unicórnio a devia ter ouvido. — Tu sabes tudo!

Guid’Antonio já estava farto da intimidação de Elisabetta Vespucci.

— Elisabetta — disse, numa voz tão perigosa quanto composta. — Insultou o


meu filho e agora o Cesare, que teve para com esta rapariga um gesto
nobre e que nunca precisou de roubar cobertor nenhum, novo, velho ou de
qualquer outra espécie. — Mas por outro lado, na noite anterior, não
tinha Cesare surripiado lombo de porco que a mãe cozinhara para o jantar?

Guid’Antonio virou-se para Olimpia.

— Agora, por amor de Deus, Giovanni tinha perdido uma concha?


— Mostra-lhe, Giovanni - disse Olimpia, olhando de modo breve e
especulativo para Cesare, que já estava a meio do portão, perseguindo os
homens dos tapetes.

— Só porque me pediste — disse Giovanni.

— Ali está! — exclamou Elisabetta Vespucci. — Vê como ele é um ovo podre?


Eu dou-te nas orelhas mais tarde, Cesare! — Disse em direção do burgo.

115

— Passa-se qualquer coisa indecente nesta casa e não vou descansar até me
confessares o que é!

— Elisabetta — disse Guid'Antonio calmamente —, ora aí está uma batalha


que muita gente pagaria vários florins de ouro para assistir a ela. - Ela
fitou-o, furiosa, com o coração consumido pela raiva, ou assim pareceu a
Guid'Antonio.

Giovanni olhou para Guid'Antonio e para o rosto corado da tia, e vice-


versa.

— Tem o mar cá dentro — disse. Cor de marfim e com uma delicada curva
rosada, a pequena concha cabia na perfeição na mão esticada de Giovanni.

— Ai sim? - Guid'Antonio inclinou-se na direção do menino. - Isso é


maravilhoso. Posso ouvir?

— Não! - Giovanni puxou subitamente a mão para trás, apertando tanto a


concha, que Guid'Antonio temeu que lhe pudesse cortar a mão e fazê-lo
sangrar. — Só a Mama, a Olimpia e eu é que podemos!

— Giovanni — disse Guid’Antonio, mas Elisabetta começou a abanar


vigorosamente o menino.

— Que menino terrível, terrível! Onde estão as tuas maneiras, sua besta
malcriada?

— Onde estão as suas? - rugiu Guid'Antonio. - Largue-o. Imediatamente!


Giovanni deu um pontapé à tia. Olimpia susteve a respiração, com os

olhos castanhos muito redondos e assustados.

— Pelas chagas de Cristo! - gritou Elisabetta. - Este rapaz malévolo


deu-me um pontapé!

Guid'Antonio segurou o filho pelo braço.

— Giovanni! Olha para mim. Eu disse: olha para mim!

Giovanni obedeceu; ainda assim, Guid’Antonio sentia cada fibra do corpo


magro do filho a esforçar-se para fugir à sua mão.
— Giovanni — disse. — Nunca, mas nunca mais batas a um adulto. Se o
fizeres novamente, vais encontrar-te em graves sarilhos.

Giovanni empinou o lábio inferior.

— O Cesare bateu num adulto. Na verdade, em dois, naqueles batedores de


tapetes. Eu vi. E depois pô-los fora do portão e ainda foi atrás deles.

Ainda com a concha na mão, Giovanni olhou furiosamente para o pai, com os
olhos negros a brilharem com tamanha intensidade de emoções que pareciam
a Guid'Antonio muito próximas do ódio.

— Quando é que a minha mãe volta para casa? — perguntou o menino.

116

— Não sei. — Guid'Antonio largou-o. — Cesare Ridolfi é um adulto. É bom


que te lembres disto, Giovanni. Olimpia, leve o meu filho para o quarto.

Os dois subiram as escadas; Giovanni comprimiu a concha contra o ouvido


com uma mão e com a outra agarrou-se firmemente ao vestido de Olimpia.

O olhar branco e inflamado de Guid’Antonio viajou até Elisabetta


Vespucci.

— Elisabetta, se volto a ouvi-la dirigir-se ao meu filho com estes modos,


juro-lhe que a sua recompensa será infinitamente dura.

A mulher retesou-se.

— Como se atreve, seu pretendente arrogante? O chefe desta família não é


o senhor. É o meu marido, Nastagio! E o irmão Giorgio ainda se atreveu a
arrastá-lo daqui hoje ao alvorecer como se ele fosse um... um...

— Nastagio foi-se embora? Para onde? — perguntou Guid'Antonio.

— Para San Felice! Como se não soubesse disso. — A sua voz quebrou-se. —
Como se ele fosse um criminoso comum qualquer, ou um cão que deseja
abater. E porquê? Porquê? Para o impedir de dizer a verdade sobre Lorenzo
de' Medici e assim arruinar todos os seus sonhos de glória. O senhor é o
fantoche de Lorenzo e dança de acordo com os fios do Diabo! Porque não
choraria a Virgem?

Num remoinho de saias negras, Elisabetta Vespucci subiu a escadaria atrás


de Olimpia e Giovanni, atirando um olhar terrível por cima do ombro.

— Diga a Cesare que, se continuar a enganar-me, mando cortar-lhe as


orelhas!

— Bem-vindo a casa — murmurou Guid'Antonio, atravessando o jardim em


direção à cozinha. — Que Deus me ajude.
— É verdade, Tonio...

Amerigo estava encostado à ombreira da porta da cozinha, de costas para o


pátio, a falar com o irmão e a devorar cerejas vermelhas tão rapidamente
quanto Domenica Ridolfi as conseguia lavar e colocar na taça da fruta em
cima da mesa, ao lado de um cesto de cogumelos.

— Por baixo das sedas e dos laços franceses, as mesdemoiselles estavam


madurinhas. Cor de rosa escuro e suculentas, exatamente como estas
cerejas. Claro que era o meu dever arrancar-lhe os pedúnculos.

Guid'Antonio tocou no ombro de Amerigo.

117

— Buona mattina. Amerigo assustou-se.

— Tio! Buona mattina. — Uma onda de rubor aflorou o rosto de Amerigo.

— Domenica, António — cumprimentou Guid'Antonio, a sorrir, não obstante a


agitação que lhe ia no íntimo. A escaramuça verbal que travara com a mãe
de Amerigo e António tinha sido, no mínimo, perturbadora. Domenica,
levantando os olhos do balde de água que estava no lavatório da cozinha,
devolveu-lhe o sorriso; era tão diferente de Elisabetta Vespucci como o
meio-dia era diferente da meia-noite.

Quando fez sinal a Guid'Antonio para que se juntasse à mesa com eles, a
manga larga e vermelha da roupa de trabalho de António caía-lhe pelo
braço em suaves pregas.

— Bom dia, tio. Guid'Antonio puxou um banco.

— Tens um dia ocupado pela frente?

— Como sempre, sim; tenho uns papéis de um comerciante para rever. São
espanhóis. E alguns dos documentos Pazzi ainda estão à espera de
autorização. — Depois da «Conspiração Pazzi», a república nomeara António
Vespucci como curador das propriedades da família Pazzi. Esta distinção
tinha estabelecido António como um jovem bem posicionado no percurso do
governo florentino. Mais um marco importante na família Vespucci e uma
prova de que Lorenzo de' Medici continuava convencido da sua fidelidade.

António sorriu amplamente.

— O meu irmão mais novo estava a contar-me como trabalhou arduamente em


França.

— Árdua e duramente — respondeu Amerigo, com um sorriso travesso.


Domenica resfolegou.
— Olhe mais uma verdade, Amerigo: vai levar uma palmada nas mãos se pegar
em mais alguma das minhas cerejas. Acabaram de chegar da rua e quem ia
dizer que havia algumas para venda, a crer nas pobres condições do
mercado?

Guid'Antonio verteu vinho num copo, adicionou um pouco de água e bebeu,


olhando de relance para os sobrinhos.

— A vossa mãe disse-me que o irmão Giorgio levou Nastagio para fazer uma
visita ao campo.

A atmosfera tornou-se sombria de imediato. António disse:

118

— Sim, hoje, ao nascer do dia. Depois de ter saído da saletta, ontem à


noite, decidimos que uma estadia em San Felice iria beneficiar o nosso
pai nos tempos mais próximos. — San Felice, a casa de campo da família
Vespucci, ficava perto da vila de Peretola, para lá do Portão Prato.

— Por causa da sua saúde? — perguntou Guid’Antonio.

— Por causa da saúde de todos nós. Queira Deus que os ares puros de San
Felice ajudem Nastagio a recuperar o bom senso. Ou pelo menos algum
sentido de perspetiva.

— Perspetiva? — perguntou Amerigo, com um tom de voz desafiador. — O que


pode ser pior do que esta partida forçada da sua própria casa, para o que
é uma espécie de exílio?

— O exílio para ele é o exílio para todos nós — disse Guid'Antonio. — Mas
é melhor uma sentença suave agora do que uma mais severa no futuro.

— Mas a que custo? — perguntou Amerigo. — Pela perda de todo o orgulho e


de toda a honra da nossa família? Porque certamente as pessoas vão
saber...

António interrompeu-o:

— Honra, Amerigo? Caso te tenhas esquecido disso, sou o primeiro da


lista para uma nomeação como notário oficial da Câmara Municipal, o que
já não era sem tempo, se me é permitido acrescentar, embora o meu nome
possa ser riscado da lista a qualquer instante, se perdermos a nossa
posição, por um centímetro que seja. Atreves-te a falar de orgulho e
honra? Tu, que regressaste ontem de uma aventura de dois anos em França,
graças aos bons homens que o nosso pai agora maldiz. — Olhou de relance
para Guid’Antonio. — O tio e Lorenzo, o Magnífico, quero dizer.

Visivelmente incomodado pela fúria do irmão, Amerigo murmurou:

— Mesmo assim, é preocupante.


— Nem me digas nada — respondeu António com brusquidão.

Então: havia mais discussões e divisões na família. Guid’Antonio cobriu a


boca com a mão e inclinou-se para trás no banco, dando a Domenica espaço
para colocar um pedaço de pão em cima da mesa, assim como queijo, maçãs e
peras. Deitou um pouco mais de vinho e passou o jarro.

— António. Na noite passada disseste que Lorenzo hipotecou algumas terras


para financiar a viagem a Nápoles. As suas finanças estão assim tão
instáveis?

— Instáveis? — António deu uma gargalhada seca. — Tio, Lorenzo de' Medici
está falido.

— Jamais — disse Guid’Antonio.

119

Amerigo deu uma palmada na testa.

- Não! Se Lorenzo de' Medici está falido, mostra-me a prisão dos


devedores! Tonio, sabes que ele é o homem mais rico da Europa.

Domenica colocou um frasco de mel em cima da mesa, acabado de chegar das


colmeias dos Vespucci em Peretola.

— Era o homem mais rico — disse ela. — Tonio, o menino ouve-o no Palácio
da Senhoria e na nossa magnífica Câmara Municipal e eu ouço-o no mercado,
aos peixeiros e vendedores de sal. Il Magnifico está a raspar o fundo dos
cofres. — A cozinheira benzeu-se. — É o que as pessoas dizem

nas ruas.

— Não seria a primeira vez que se enganavam — respondeu Amerigo. O olhar


de António dirigiu-se à porta da cozinha e ao pado para lá

dela. A exceção de Domenica, que se atarefava em volta das suas panelas e


frigideiras, estavam sozinhos.

— Sabem, há dois anos, o papa apoderou-se dos bens do Banco Medici em


Roma e de todas as propriedades Medici às quais foi capaz de deitar a mão
— disse.

Guid’Antonio acenou com a cabeça. Essa tinha sido uma parte da estratégia
do papa e, sim, constituíra um golpe financeiro, pessoal, cometido contra
Lorenzo. Com o encerramento do banco em Roma, outras filiais da rede de
bancos Medici, que era provavelmente a maior do mundo, tinham sucumbido.
Entre elas a de Milão e até a de Avinhão, em França.
— Uma vez que temos estado de candeias às avessas com Nápoles, a filial
de lá está a dar as últimas — disse António. — Já circulam rumores sobre
Veneza. E...

— Minha nossa — disse Amerigo, batendo novamente na própria testa.

— ... o dinheiro que Lorenzo emprestou ao rei da Inglaterra, Eduardo IV,


para que este travasse a guerra contra o irmão, Ricardo, também vai ser
um desastre — continuou António —, já que Eduardo não tem como pagar a
Lorenzo. E não é uma triste situação? Um irmão contra outro irmão? De
qualquer maneira, a filial de Londres já fechou. O empréstimo de Lorenzo
a Eduardo não parece ter sido uma decisão muito sensata.

Guid’Antonio olhou de relance em direção ao jardim, onde o fontanário


gorgolejava suavemente.

— Tu tens o dom da retrospeção.

Domenica puxou um banco e limpou as gotículas de transpiração que se


acumulavam na testa com a ponta do avental.

120

— O problema são aquelas pedras preciosas e os manuscritos que ele


coleciona. Também ouvi dizer que não é muito bom negociante. Se lhe derem
a escolher entre um livre de contas e um arco de caça, e ele vai sempre
sorrir e pegar na aljava.

— Domenica - protestou Guid'Antonio, recordando-se dos elaborados planos


que Lorenzo tinha para a quinta de Poggio a Caiano. - António, como estão
as nossas contas? Dissemos que ainda hoje daríamos uma vista de olhos nos
nossos livros.

O sobrinho abriu as mãos.

— Tem tempo agora?

Não. Queria prosseguir com a investigação ao quadro que chorava.

— Claro que sim — disse.

A meio do pátio, António olhou para ele com uma expressão infeliz.

— Bancos que fecham são uma coisa. Mas o que lhe vou contar a seguir é
estritamente confidencial.

Amerigo fez um gemido no fundo da garganta.

— O que foi? — perguntou Guid'Antonio.

— Lorenzo tem andado a gastar o dinheiro da herança dos primos. Amerigo


deteve-se subitamente ao lado do fontanário, do qual jorrava
um borrifo de água.

— Ele está a roubar os bens de Zino e Vanni?

— Amerigo, tem calma — disse Guid'Antonio.

E assim caminharam em silêncio sob o sol que aquecia, Amerigo a resmungar


entre dentes e Guid'Antonio com os pensamentos emaranhados. Não estava à
espera de ouvir uma coisa daquelas. Lorenzo estava falido. E sem
dinheiro, estava a «gastar», como António tão delicadamente formulara, a
fortuna que os seus dois primos mais novos herdariam quando atingissem a
idade adulta. Lorenzino e Giovanni de' Medici eram tutelados legalmente
por Lorenzo, que tinha sido nomeado seu guardião depois da morte dos
rapazes, há quatro anos. Lorenzino, o mais velho dos dois irmãos, devia
ter agora... que idade tinha ele? Dezassete? Não obstante os dez anos que
os separavam, Lorenzino de' Medici e Amerigo Vespucci tinham uma amizade
forte, criada durante as lições do irmão Giorgio. Dante, Petrarca,
Heraclito, Ptolomeu, Ciência e Matemática.

— Tens a certeza? — perguntou Guid'Antonio.

121

— Tanta certeza quanta a que podemos ter quando recebemos notícias de um


amigo de confiança. O total é de cerca de mil florins, usados para
financiar a guerra com Roma — disse António.

— A guerra, a guerra, a guerra — resmungou Amerigo para com os seus


botões.

— Irmãozinho, o dinheiro tinha de vir de algum lado, já que os cofres do


nosso governo estão tão secos como ossos no deserto — respondeu António,
inflamado.

— Oh? Bem, mal posso perguntar a Zino o que acha ele disto - disse
Amerigo.

— Não vais perguntar coisa nenhuma a Lorenzino de' Medici — disse


bruscamente Guid'Antonio —, a não ser que seja o que sente ele em relação
à paz. António, e onde nos situamos nesta rica miséria financeira?

— Já vai ver — disse António.

As paredes do scrittoio eram estreitas e sombrias, a única luz entrava


por uma janela alta e solitária e pela porta que se abria para o jardim
do pátio. Juntos reviram a grande quantidade de registos que António
fazia desfilar à sua frente; Guid'Antonio sentia uma crescente sensação
de mau prenúncio. Na sua ausência, soldados mercenários tinham pilhado as
terras de cultivo dos Vespucci. As vacas, os porcos e o gado que era
propriedade da família tinham sido chacinados ou roubados. As famílias
que viviam nas pequenas casas de pedra e que trabalhavam nas quintas
tinham sido deixadas à fome, assustadas e doentes, até que António
atendeu as suas necessidades. Quem teria cuidado das necessidades das
outras famílias, questionou-se Guid'Antonio? Em alguns casos, ninguém, a
avaliar pela pobreza que testemunhou em Florença desde que chegara, na
manhã do dia anterior.

— As nossas contas domésticas estão equilibradas, como deviam estar —


disse António, com o perfil escuro sob o cabelo castanho caído. — A
comida, as roupas, as reparações e os criados. Não estamos com problemas
de dinheiro, mas temos de gastar com prudência daqui para a frente, caso
venha a surgir uma emergência no futuro.

Como, por exemplo, se fossem obrigados a fugir da cidade por força do que
parecia ser uma legião crescente de descontentes.

— Compreendo — disse Guid'Antonio reparando nos círculos negros por baixo


dos olhos do sobrinho. A guerra, que o obrigou a gerir tudo sozinho,
tinha tido o seu pesado efeito em António di Nastagio Vespucci.

122

Tinha tido um pesado efeito em toda a gente. Era por esse motivo que
todos deviam sentir-se agradecidos por, graças a Lorenzo, a luta ter
finalmente chegado ao fim.

Guid'Antonio caminhou até à porta, com o suor a escorrer-lhe pelas


costelas. No jardim, o sol abatia-se sobre a relva e sobre as ervas
aromáticas de Domenica: manjericão, salsa e alecrim. A água brilhava no
fontanário.

António agitou o manto.

— A boa notícia é que a Inglaterra e a França compraram a nossa lã e o


nosso vinho mesmo durante a guerra.

Guid'Antonio pensou em como o seu escritório de advocacia sofreu com a


sua ausência. E também havia as despesas que tivera com a embaixada. As
viagens, os presentes. Quem sabia quando a república teria dinheiro para
o reembolsar de todos esses artigos, quanto mais para lhe pagar as
despesas per diem? Lorenzo a gastar o dinheiro dos sobrinhos.

— Concordo com o facto de que devemos manter os nossos gastos sob


cuidadosa vigilância. Ao que parece, nem mesmo nós temos bolsos sem
fundo.

António e Amerigo fecharam os livros de contas e guardaram-nos nas


respetivas arcas.

— Os números fazem-me fome — disse Amerigo. — Vamos...


— Não — respondeu António. — Tio, presumo que aceitou ajudar Lorenzo na
nossa crise atual. — A Virgem Maria de Santa Maria Impruneta que chorava
na igreja da família, a rapariga desaparecida, os turcos.

— É verdade.

— Então deve entrar na batalha completamente armado. - António fechou a


porta do escritório, deixando-os quase em completa escuridão.

Aquilo não ia ser bom. Guid'Antonio aguardou em silêncio. Amerigo disse:

— Oh, não.

— O que sabe sobre Piero? — António estava a falar do parente que estava
preso, Piero Vespucci.

A fúria fez a voz de Guid'Antonio acelerar quando falou:

— Sei que arrastou a família com ele quando foi para a Stinche. - Não
mencionou que passara pela prisão na noite anterior, nem que tinha sido
seguido por alguém.

António humedeceu os lábios.

— Piero e a sua filha, Genevra, têm andado a escrever cartas carregadas


de súplicas a Lorenzo e à sua mãe.

123

Amerigo ficou de boca aberta.

— Mon Dieu.

Nos primeiros instantes, Guid'Antonio julgou que certamente tinha ouvido


mal.

— Súplicas por quê? — perguntou.

— Pela libertação de Piero da Stinche.

— E porque não se limitam a atirar-nos pelas janelas do Palácio da


Senhoria agora mesmo e acabava-se com o assunto? — perguntou Amerigo.

— Como sabes disso? — perguntou Guid'Antonio.

— O chanceler Scala mostrou-me as cartas. Lorenzo e a mãe entregaram-nas


à Câmara Municipal. Dada a convenção, que faz de Lorenzo o primeiro
cidadão da república, as cartas são consideradas propriedade do Estado.

Uma onda de vergonha envolveu Guid'Antonio. No dia anterior, no Palácio


da Senhoria, todos sabiam daquilo, menos ele. Para quê falar dos quadros
— quem tinha vontade de chorar era ele. O chanceler Bartolomeo Scala, o
presidente, Tommaso Soderini, o lorde magistrado Pierfilippo
Pandolfini... já para não falar de Lorenzo, quando falaram na Via Larga.

Procurou disfarçar a agitação, consciente do apertado escrutínio de


Amerigo e António. Estava determinado a colocar apenas um pé à frente do
outro, a viver momento a momento.

— O que dizem as cartas?

— A nossa Genevra escreve a Lorenzo a falar da saúde deteriorada do pai e


de como são cruéis os ferros que lhe prendem os pés, enquanto Piero se
dirige diretamente a Lucrezia Tornabuoni de' Medici.

— A mãe de Lorenzo — disse Amerigo. — Jesus. Que cobarde é Piero. E que


idiota!

— Diz que nem ele nem o filho Marco alguma vez pretenderam tocar num fio
de cabeio de Giuliano de' Medici que fosse. E tampouco dariam asilo a
Napoleone Francesi ou a qualquer outra pessoa que lhe quisesse fazer mal.

— Há por aí muitos inocentes malditos que não desejavam mal a Giuliano —


disse Amerigo.

António dirigiu ao irmão um olhar de aviso.

— Piero assegurou à mãe de Lorenzo que ele e Marco sempre nutriram o


maior afeto por Giuliano.

Amerigo riu.

124

— Com Giuliano a fornicar com a mulher de Marco enquanto toda a Florença


sabia o que se passava? Duvido que a generosidade de Marco fosse tão
longe. Talvez devêssemos envenenar Piero.

— Amerigo, já chega! — exclamou Guid'Antonio. — O perigo está em todo o


lado. António, em que pé está a situação neste momento? —Já estava a
questionar e a pensar em antecipação.

— O nosso parente está na Stinche e é na Stinche que deve ficar. Até,


segundo crê o chanceler Scala, Lorenzo decidir mandar soltá-lo.

Até, pensou Guid’Antonio, Lorenzo estar de novo plenamente convencido da


lealdade da família Vespucci à sua casa.

Lá fora, no jardim, ficaram juntos sob a escaldante presença do sol,


protegendo os olhos e pestanejando.

— Não acho que mereçamos esta desconfiança — disse Amerigo. — O que se


segue? Uma praga de gafanhotos para lançar uma sombra ainda mais negra
sobre a nossa família?
Guid'Antonio olhou para o outro sobrinho.

— Tonio, a casa de Maria está um pouco degradada. Diz ao Cesare para


mandar lá os nossos jardineiros para arrancarem pelo menos as ervas
daninhas. Mas primeiro arranja alguns trabalhadores para limparem a casa.
Era para falar eu mesmo com Cesare, mas tenho outras coisas para tratar.

— Eu trato de tudo — disse António, dirigindo-se apressadamente para o


portão. — Tio Guid'Antonio, tenho a mais completa fé numa melhoria da
nossa sorte em todos os aspetos, agora que o tio está em casa. Não apenas
para nós, mas para toda a Florença.

Primeiro Cesare, agora Tonio. Guid'Antonio suspirou, sorrindo suavemente.

— Diz-me, temos negócios com um homem chamado Castruccio Senso? O


vendedor de vinhos que é casado com...

— A rapariga que desapareceu, Camilla Rossi da Vinci. Sim. Ou pelo menos


tínhamos — respondeu António. — Cortámos relações com ele por causa de
umas faturas inflacionadas no fim do ano passado. É um homem baixo,
corpulento, com cabelo ralo castanho-rato.

E era casado com uma rapariga que Lorenzo achava bonita como uma papoila.

— Só mais uma coisa. Na última quarta-feira, quando o quadro chorou pela


primeira vez — estava a chover?

125

- Não, tivemos um tempo muito agradável até vocês terem chegado a casa,
ontem. Depois é que começou a chover a cântaros.

- Ah! Não me surpreende - disse Guid'Antonio. Amerigo observou o irmão a


descer apressadamente a rua.

- Depois de tudo isto, vamos ao Il Leone Rosso para nos fortalecermos com
um pouco de vinho e salsichas?

- Não. Está na altura de fazer frente às circunstâncias. Na verdade, já o


devíamos ter feito. Quero falar com Sandro Botticelli.

126

Capítulo ONZE
Guid'Antonio tinha comichão no nariz: madeira de pinho e choupo, óleo de
linhaça, pasta de farinha e cola feita com as aparas dos focinhos,
cascos, tendões e pele de cabra. As portadas de madeira presas numa
janela que dava para a viela estavam escancaradas. Na nesga de luz que
por ali entrava pairava o vulto sem rosto de um homem vestido com um
manto branco largo. Amerigo deu um salto para trás.

- Tio! O que é aquilo?

— É um manequim de madeira. Para os aprendizes de Sandro treinarem.

— Assustou-me.

- Obviamente.

Dois rapazes estavam sentados em frente ao vulto vestido de branco. Um


dos rapazes inclinava-se para a frente, com o cabelo a lançar uma sombra
espessa sobre o rosto enquanto observava o outro a praticar o esboço da
roupa com todos os seus truques difíceis. Ambos os rapazes levantaram os
olhos, a sorrir. Os dois homens que estavam à sua frente eram potenciais
clientes, ricos, muito provavelmente, a julgar pela elegância do seu
porte e pelas roupas finas; podiam vir contratar um trabalho ao mestre.
Que bom!

Um rapaz de cerca de dez anos estava sentado à parte, dourando uma


moldura com uma tinta do mesmo tom vivo do seu próprio cabelo
encaracolado.

- Giorno — cumprimentou Guid'Antonio. — O vosso mestre está em casa?

— Si. — Virando-se parcialmente no banco, o rapaz gesticulou para a parte


de trás da oficina, onde um homem com uma camisa larga de algodão estava
sentado, curvado sobre um desenho a tinta-da-china e com os pés calçados
apenas com meias, enleados nas pernas do banco.

127

O cabelo de Sandro Botticelli, de um tom alourado rico, chegava-lhe à


nuca. No chão, ao lado dos botins coçados, estava um cinto de couro
largo, que tirara para estar mais confortável.

Era um artesão em pleno trabalho.

Sandro levantou os olhos, franzindo o sobrolho. Reconheceu os visitantes


rapidamente: eram Guid'Antonio e Amerigo Vespucci. Endireitou-se
ligeiramente. A cor desvaneceu-se lentamente do seu rosto. Sacudindo a
túnica, aproximou-se deles com o que Guid'Antonio podia apenas descrever
como sendo nervosismo.

— Já viram o vosso novo Santo Agostinho — disse Sandro com um tom


inexpressivo.
— Não. Pelo menos não claramente. — Guid'Antonio inclinou a cabeça para o
lado. — Porque o menciona?

Sandro hesitou.

— Porque pensei que talvez tivessem reparado no meu... — sorriu, agitando


levemente os dedos no ar. — Não é nada, acreditem. Mas agora estão aqui.

As perguntas corriam velozes na cabeça de Guid'Antonio. Nada? Por que


motivo estava Sandro Botticelli tão nervoso com a presença de ambos na
sua oficina? Eram vizinhos próximos e conhecidos há anos!

— Como tem passado, Alessandro? — perguntou, começando de novo.

— Hoje estou bem. Amanhã logo se verá. — Sandro serviu três copos de
vinho. — O bairro do Unicórnio ganhou vida com as notícias do vosso
regresso. Como aconteceu em toda a Florença, assim espero. Depois de uma
ausência tão prolongada.

Amerigo grunhiu.

— As pessoas mencionaram que o Diabo veio atrás de nós?

— Quando é que Florença foi uma cidade tranquila?

— No meu tempo, nunca — respondeu Guid’Antonio. — A sua família está bem?

— Todos exceto o Mariano. O meu pai está doente.

— Também o meu — disse Amerigo. — Tanto que até foi para San Felice
apanhar um pouco de ar puro. — Um sorriso amargurado tocou os lábios de
Amerigo. — Para não contagiar o resto da família.

— Que Deus o conserve — disse Sandro, benzendo-se.

128

Mas a expressão sagaz dos olhos cor de âmbar de Sandro disse a


Guid'Antonio que o pintor estava a par do êxodo forçado de Nastagio
Vespucci para o campo naquela manhã. Não havia dúvida de que o distrito
inteiro de Santa Maria Novella - na verdade toda a cidade de Florença
-sabia o que acontecera e porquê, assim como sabia por que motivo Piero
Vespucci estava acorrentado nas entranhas da Stinche.

— Sandro, esteve em Todos os Santos nos últimos meses — disse


Guid'Antonio. — Reparou em alguma atividade invulgar por lá?

Sandro fitou-o com um olhar amplo e dourado.

— A Virgem Maria de Santa Maria Impruneta chorou algumas vezes. Fico


satisfeito por dizer que o quadro não é um dos meus.
Amerigo começou a rir, mas recompôs-se, tossindo para o punho ao ver o
olhar reprovador de Guid’Antonio.

— Quando começaram as lágrimas? — perguntou este.

— Faz uma semana amanhã ao fim da tarde. Era terça-feira.

— Então foi na última quarta-feira. — Parecia ser a verdade, uma vez que
várias pessoas lhe tinham transmitido a mesma informação.

— Sim.

— Recorda-se bem.

— Quem não se recordaria?

— Quem o viu primeiro? — perguntou Guid'Antonio.

— Foi um rapazinho — parece que são sempre as crianças, não é? Os


verdadeiramente inocentes — quem viu as lágrimas pela primeira vez. No
instante seguinte, as pessoas encheram a igreja, a rezar e a bater com as
mãos no peito. — Os olhos de Sandro tremeluziram, mas parou por ali.

— Também as viu?

— Claro que sim. Quando ouvi a agitação, apressei-me a ir para Todos os


Santos.

— Não estava lá a trabalhar? Sandro abanou a cabeça.

— Tinha prometido fazer o desenho de um bordado para uma toalha de altar,


e...

— Dirigiu-se rapidamente à igreja, mesmo ali ao lado — disse Guid'


António.

— Sim.

— Que aspeto tinham elas?

129

Sandro encolheu rapidamente os ombros e franziu o sobrolho.

— Tenho pouco a acrescentar ao depoimento oficial que dei a Palla


Palmieri quando veio aqui fazer-me as mesmíssimas perguntas.

Guid'Antonio semicerrou os olhos. Palla tinha estado no Botticelli e


Companhia? O chefe da polícia de Florença a investigar um caso religioso?
Mas, por outro lado, Guid'Antonio presumia haver boa razão para o fazer,
já que as lágrimas da Virgem tinham sido encaradas como um sinal contra
Lorenzo.
— Palla interrogou-o — afirmou.

— Sim. — Sandro olhou impacientemente para os desenhos que estavam em


cima da mesa de pinho. — Ele disse «Sim, não, sim, não», e depois
desapareceu pela viela como se fosse uma brisa, naquele modo de andar
felino dele.

— Disse-lhe que elas se pareciam com o quê? — perguntou Guid'Antonio.


Sandro inspirou profundamente, ao que parecia para evitar ranger os

dentes.

— Com lágrimas, mestre Guid'Antonio. Molhadas e brilhantes à luz das


inúmeras velas. Por entre a agitação, a alegria e a graça reinaram todo o
dia em Todos os Santos.

— Ou uma enorme confusão — disse Amerigo.

— Quando desapareceu Camilla Rossi da Vinci? - perguntou Guid'Antonio.

— A rapariga? Há onze dias, no primeiro dia do mês — respondeu Sandro.

— Mas que precisão.

— Sim.

— Antes de o quadro começar a chorar — disse Guid'Antonio.

— Vários dias antes. E depois? - perguntou Sandro.

— Como se veio a determinar que o desaparecimento de Camilla aconteceu às


mãos dos turcos? — Ao lado de Guid'Antonio, Amerigo contorcia--se com
inquietude. Já tinham debatido aquele assunto.

— A sua velha ama testemunhou o ataque — respondeu Sandro.

Novamente a velha ama. Condizia com a versão de Luca Landucci em

relação aos eventos que rodearam o desaparecimento da rapariga, assim


como com a versão de Lorenzo.

— E as pessoas acreditaram na ama porquê? Sandro levantou as mãos no ar.

— Que motivos teria para mentir?

130

— Dinheiro — disse Amerigo. — Um suborno para encobrir o que


verdadeiramente aconteceu.

— Era isso que eu gostava de saber — disse Guid'Antonio.


— Por que razão desvalorizam a hipótese dos turcos com tanta facilidade?
- perguntou Sandra — Conhecem o seu historial.

— Eu não os desvalorizo, a não ser quando as pessoas os plantam na


soleira da minha porta. Obrigado pelo vinho, Alessandro.

— Sempre às ordens — disse Sandro em vez de «O que diabos vieram aqui


fazer de verdade?»

Guid’Antonio sorriu. Tinha interrogado Sandro acerca das lágrimas e este


respondera o melhor que pôde.

— Parece cansado — disse Sandro, seguindo-os até à porta.

— Também o senhor — respondeu Guid’Antonio. Uma vez lá fora, olhou para


cima e para baixo da rua. A sua direita, um monge apressava-se em direção
à Praça de Santa Maria Novella, passando por entre paredes tão estreitas,
que o hábito castanho do homem roçava as pedras de ambos os lados.

— Un momento, per favore, Messer Guid'Antonio. Guid’Antonio virou-se.

- Sim?

— A necessidade leva-me a lugares onde o meu orgulho preferia não entrar.


Seria capaz de vender a alma para trabalhar na nova capela do papa, em
Roma. O senhor esteve lá antes de ir para França. Sabe se o Santo Padre
planeia avançar com a decoração das paredes sem nós, enquanto a
excomunhão ainda estiver de pé?

Nós. Os pintores mais célebres de Florença: Sandro Botticelli, Domenico


Ghirlandaio, os irmãos Piero e António Pollaiuolo, Cosimo Rosselli e o
novato Leonardo da Vinci.

Guid’Antonio olhou pensativamente para Sandro. Sisto IV tinha começado a


construir a capela ao lado do Vaticano há sete anos, em 1473. Agora,
embora o cavernoso edifício estivesse acabado, as compridas paredes
interiores continuavam em branco por uma razão: como podiam as pinturas
decorativas ser executadas sem os mestres artesãos de Florença, que ali
deviam criar lugares, pessoas e rostos? Era impensável. Embora não fosse
impossível, dada a monumental impaciência de Sisto e a sua determinação
em marcar uma posição com a excomunhão, por muito que a sua nova capela
sofresse.

131

— Não faço ideia do que Sisto pretende fazer — disse Guid'Antonio. — Mas
tem razão, estive em Roma há dois anos. E vi a capela antes de partir.

— Pelas chagas de Cristo — Sandro tocou no peito. — Viu as paredes em


branco?
— Vi, sim. — Em maio de 1478, poucas semanas depois do assassinato de
Giuliano, Guid'Antonio dirigira-se apressadamente a Roma com os
embaixadores de França, de Veneza e de Milão, ansiosos por dissuadir
Sisto de declarar guerra a Florença e Lorenzo. Enquanto Guid'Antonio lá
estava, Bartolomeo Sacchi, o bibliotecário do papa no Vaticano, levara os
visitantes estrangeiros numa visita pela capela, passando por uma cortina
temporária até ao interior do edifício. Ali, os homens tinham espalhado
andaimes, carrinhos de mão, ferramentas e toda a espécie de entulho
enquanto Sacchi lhes mostrava a altura estonteante do teto abobadado —
com quase vinte e um metros de altura —, as janelas e os aposentos dos
soldados por cima do piso subterrâneo. Era óbvio: o papa Sisto IV
pretendia que aquela capela funcionasse como defesa, assim como guarida
para os cardeais durante o conclave que elegeria os seus sucessores. O
edifício estava cheio de operários, carpinteiros e pedreiros, martelos a
bater, colheres de trolhas a atirar massa enquanto circulavam no ar
piadas indecentes e o encarregado gritava ordens e sacudia o pó do
estuque do seu cabelo solto, selvagem e negro.

Guid'Antonio contou tudo isto a Sandro, mas não lhe disse como a capela o
fizera sentir-se desconfortavelmente enclausurado. Como se estivesse no
interior de um túmulo. Encurralado, como o pequeno pardal que batera
freneticamente as asas em Todos os Santos, na noite anterior. A sua
missão a Roma tinha sido breve: era evidente que Sisto IV e Girolamo
Riario estavam determinados a continuar a sua campanha contra Lorenzo.

E assim, quatro meses depois, Guid'Antonio partira da Cidade Eterna,


virando as costas ao Coliseu que se desmoronava e às estátuas gregas e
romanas partidas e às urnas que saíam dos campos circundantes. Os
andaimes acabaram por ser retirados da capela à qual algumas pessoas
chamavam Sistina, devido a Sisto, que a encomendara, mas as paredes
interiores continuavam tão despidas como estavam na tarde em que os
trabalhadores pegaram nas ferramentas e de lá saíram para a taberna mais
próxima, para beberem vinho e comerem sopa de rabo de boi.

— Só o diabólico Girolamo Riario sabe dos pensamentos do Santo Padre no


que diz respeito à capela ou a qualquer outra coisa — disse Guid’Antonio,
na soleira da porta da oficina de Sandro.

132

O artesão gesticulou com a mão, bateu na trave de pedra por cima da sua
cabeça e praguejou. O corvo que andava a procurar migalhas na viela
grasnou, levantando voo por entre os edifícios, em direção à liberdade e
à luz do dia.

— Mais vale tirar da ideia ir para Roma e atirar-me ao Arno! Quem sabe
durante quanto tempo Girolamo Riario vai colocar o tio contra nós?
Guid'Antonio soltou um gemido. Queria que os florentinos trabalhassem na
capela do papa tanto quanto qualquer outro homem. Afinal, o local estaria
ali para os tempos vindouros.

— Não salte ainda, Sandro. Sisto gastou demasiado tempo, esforço e


dinheiro para se contentar com qualquer outra coisa que não o melhor.

— E se também gastou a sua paciência? Vai mandar decorar as paredes não


tarda nada e nós aqui, a braços com esta... esta outra parede que se
ergue como uma montanha entre nós e o Vaticano.

Guid António olhou firmemente para o rosto carrancudo de Sandro.

— São muitas as pessoas que sofreram com isso.

— Nem me diga nada. Bem sei! — Sandro espetou o polegar para trás, em
direção à oficina. — A não ser que as coisas mudem rapidamente, vamos
andar a comer sopa de pedras.

Lorenzo e a guerra. Lorenzo e o papa. O papa Sisto IV tinha na mão um


tesouro de cartas altas, que incluía a capela em Roma. Enquanto Sisto
estivesse em guerra com Florença, nenhum artesão toscano seria chamado a
Roma. Não antes de Lorenzo cavalgar para sul e lhe pedir desculpa pela
sua — quê? Insolência? Mais ainda pela simples presença em terreno
divino. E a única maneira de isso poder acontecer seria passando por cima
do cadáver de Guid’Antonio, com sopa de pedras ou não.

Sandro encheu o peito de ar.

— Entretanto, dou graças a Deus pelo novo trabalho encomendado pelo irmão
Giorgio.

Guid’Antonio olhou de relance para Amerigo, cujos olhos se fixaram


imediatamente no chão húmido da viela estreita.

— Que novo trabalho? — perguntou.

Amerigo coçou o rosto, como se nunca tivesse tido mais comichão na vida.

— Aparentemente, trata-se de um retrato que o tio Giorgio encomendou há


pouco tempo.

— Um retrato de quem? — quis saber Guid’Antonio.

133

— Meu. — Amerigo balançou-se nos calcanhares das botas, fazendo uma


careta. — A ideia não foi minha.

— Esse e o de um São Jorge para Todos os Santos — interrompeu Sandro. — O


último é para homenagear o próprio irmão Giorgio.
Guid'Antonio arqueou uma sobrancelha preta, salpicada de prateado.

— Compreendo. — Talvez devesse mostrar ao irmão Giorgio o livro de contas


da família e ensiná-lo a regra matemática de Três Simples.

Sandro olhou de um lado para o outro, entre o tio e o sobrinho. O seu


olhar pousou pesadamente em Guid’Antonio, com o queixo contraído numa
linha dura e os olhos semicerrados.

— Certamente não pretende cancelar a encomenda.

— Certamente que não. Precisamos de mais um retrato de Amerigo. — O que


estava prometido, prometido estava. Mas, no fundo da sua mente,
Guid’Antonio questionou-se que comissão Giorgio Vespucci aceitara pagar a
Sandro Botticelli. Suspirou interiormente. Fosse qual fosse o preço de
Sandro, a moldura do quadro ainda ia ser mais cara.

— Bene! Otimo! — exclamou Sandro.

— Porque pensou que podia cancelar a encomenda? — perguntou Guid’Antonio.

Sandro deu uma gargalhada amargurada.

— Por causa da guerra? Da peste? Dos impostos a triplicar? Até mesmo as


grandes famílias estão a sentir as dificuldades. Desvalorizando a minha
bolsa leve, sou mais afortunado do que os restantes artesãos. Mesmo
durante a guerra, o jovem Lorenzino de' Medici encomendou-me um grande
painel.

Meu amigo, pensou Guid’Antonio, espero que Lorenzino lhe tenha pago
adiantado. Manteve os olhos afastados de Amerigo, sabendo que não era o
único que estava a pensar na pilhagem que Lorenzo andava a fazer aos
cofres dos tutelados.

Sandro sorriu amplamente.

— Lorenzo, Marsilio Ficino, Angelo Poliziano, toda a gente teve uma


palavra a dar acerca do quadro. Retrata um prado na primavera e é uma
peça muito bonita, se me é permitido. Passou-se antes de Angelo ter
fugido para Mântua.

— Angelo fugiu? — Angelo Poliziano era membro da casa Medici, e fora-o


durante muitos anos. Era um escritor reconhecido, professor de todas as
crianças Medici e amigo pessoal bastante próximo de Lorenzo. No entanto,

134

Guid'Antonio lembrava-se de ter visto a carta de Angelo abandonada em


cima da secretária de Lorenzo, ainda por ler, com o selo de lacre
intacto. Interessante, este detalhe.
— Oh, sim — respondeu Sandro, todo radiante e bem-disposto, agora que a
questão do retrato de Amerigo estava resolvida. — Teve uma discussão
terrível com Lorenzo. Lorenzo deixou-o a falar sozinho daquele modo
gélido e descontraído como só ele sabe fazer, e Angelo a correr atrás
dele pelo meio da rua.

Sandro debruçou-se para a viela e baixou a voz, embora a sua única


companhia fosse uma menina de faces rosadas que saíra de uma porta ali
próxima para brincar com uma bola na ruela suja.

— E, reparem bem, isto depois de Lorenzo o ter chamado de cobarde à


frente do Duomo.

Amerigo fitou-o.

— Deus do céu, porquê?

— Porque Angelo se recusou a ir com ele para Nápoles.

— E Angelo não desembainhou a espada?

— Contra Lorenzo? — Uma gargalhada repentina escapou-se dos lábios de


Sandro. — Não, Amerigo, não a desembainhou. E, de qualquer maneira,
Lorenzo tinha razão. Angelo Poliziano é um cobarde.

Irritado, Amerigo respondeu:

— Angelo Poliziano é um reconhecido poeta e professor. Guid'Antonio olhou


para o pintor com dureza.

— E talvez tenha ficado suficientemente zangado para procurar vingar-se?


Sandro encostou-se descontraidamente à ombreira da porta, por baixo

da placa azul e branca da oficina, que anunciava Botticelli e Companhia.


Na placa havia uma pintura que Sandro fizera de São Lucas, o santo
padroeiro dos talhantes, cirurgiões e artistas.

— Zangado e também humilhado. O espetáculo de ambos foi tão animado como


qualquer um dos teatros encomendados por Lorenzo, se é que o conseguem
imaginar. Na verdade, foi bastante desagradável. — Sandro suspirou
profundamente. — Não duvido de que Angelo se tenha arrependido dos seus
atos. Ele ama Il Magnifico por ser seu amigo, mas também o seu sustento.
Apesar de tudo, o mesmo acontece com todos nós.

Guid'Antonio pensou naquela informação nova. O amor desdenhado em praça


pública. Os sentimentos de afeto magoados — não, esmagados sob as botas
de Lorenzo de' Medici.

135

— O que causou os problemas entre ambos? — perguntou. — Inicialmente.


— Como disse, começou quando Lorenzo pediu a Angelo que o acompanhasse a
Nápoles. Naquela que foi talvez a primeira ação impensada da sua
carreira, o nosso ilustre, porém faminto, poeta atreveu-se a hesitar.
Depois disso, Lorenzo não quis a sua companhia por nada deste mundo.

— Não foi muito inteligente — disse Amerigo. — Se Angelo tivesse ido,


teria podido ver o monte Vesúvio. Podia ter subido até à orla e admirado
a baía de Nápoles. Podia ter saído de barco da cidade e olhado para
oeste, para Portugal e Espanha. Ele...

— Sandro - interrompeu Guid'Antonio. - Mais uma coisa. Sandro estava


prestes a virar as costas e regressar à oficina. -Sim?

— Alguma vez viu o quadro começar a chorar? Os olhos da Virgem estavam


secos como areia e, enquanto os observava, as lágrimas começaram a cair
pelo seu rosto abaixo?

Sandro abanou a cabeça.

— Não. O que não quer dizer que não me tenha aproximado do altar de vez
em quando, na esperança de as ver — bem, quem sabe? Isto quando o
santuário estava vazio. Ah, enfim. Benedetto! — Virou-se para o rapaz de
cabelo dourado que estava debruçado sobre uma moldura também dourada. —
Deixa isso. O sol já vai alto no céu. A esta altura todas as migalhas do
mercado já foram vendidas ou roubadas. Pega em algumas — olhou
significativamente para Guid'Antonio. — Pega em muito poucas moedas da
minha bolsa e vai comprar pão e queijo para mais logo.

As sobrancelhas de Benedetto ergueram-se rapidamente.

— Sim, mestre!

— E despacha-te. Não pares pelo caminho para coscuvilhar.

Mas Benedetto, o Escolhido, já tinha passado pelos outros dois aprendizes


a rir, enquanto se afastava do seu mestre e dos dois Vespucci e se
apressava pela viela como se tivesse asas nos pés. Sandro deu um suspiro
exagerado.

— Mais vale dizer a um florentino: «Não respires».

— Ele estava a esconder qualquer coisa — disse Amerigo enquanto


percorriam a viela em direção à Praça de Santa Maria Novella.

— Obviamente, sobrinho.

— Faz alguma ideia do que seja?

— A mais pálida — respondeu Guid'Antonio.

136
Capítulo DOZE

- Lorenzo de' Medici, uma «montanha»? Onde diabo estava Sandro com a
cabeça? Mais valia ter chamado a Lorenzo o estorvo da

república e a seguir ter marchado para o Bargello e ter deitado a cabeça


no cepo do carrasco.

— Por amor de Deus, fala baixo — ralhou Guid'Antonio.

As vozes reverberavam e ecoavam sonoramente ao longo das velhas paredes


altas de Florença, onde abundavam os ouvidos postos à escuta.

— Sandro mandou a cautela às urtigas. Isso não quer dizer que devas fazer
o mesmo, a não ser que queiras acabar como o teu pai, em San Felice, ou
como Piero, na Stinche, a olhar para as ratazanas.

Amerigo desviou o olhar, sentido e de lábios comprimidos. Não era


frequente sentir-se tão admoestado.

Guid'Antonio tocou-lhe no braço.

— Quero apenas o que é melhor para d. Para todos nós. — Não obteve
resposta. — Na verdade, até fiquei contente por Sandro ter falado tão
abertamente de Lorenzo. Agora sei que estamos deveras em terrenos
escorregadios.

Amerigo olhou para ele de relance.

— E alguma vez duvidou disso?

— Sandro está a ver ser-lhe retirada uma oportunidade única na vida

- disse Guid'Antonio à guisa de resposta. — E está preocupado com a


necessidade de conseguir colocar comida na mesa. — Quão pior estaria o
popolo minuto de Florença, os florentinos pobres que trabalhavam em
misteres menores fora das guildas: os tosquiadores e cerzidores que
dependiam do comércio dos tecidos, os mendigos, os mensageiros, as
prostitutas e os chulos que viviam consoante o que ganhavam e cujos
estômagos eram os que mais sofriam em tempos de peste, fome e guerra.

137

— Sandro deseja um milagre — disse Amerigo.

— Quem não deseja? — Guid'Antonio sentia-se incomodado por toda a gente


que encontrava guardar tamanho ressentimento em relação a Lorenzo —
embora alguns tivessem boas razões.

O sol forte que fustigava a Praça de Santa Maria Novella fê-los


pestanejar. A sua esquerda, a Igreja de Santa Maria Novella erguia-se
imponentemente, com a fachada de mármore verde e branco incrustado
resplandecente sob a luz alva e quente que se espalhava pelas suas
paredes. Simples, elegante e sem complicações. Tão diferente da vida de
Guid’Antonio.

Na praça da igreja, um grupo de rapazes jogava calão, gritando e


pontapeando pó e pedaços de pedra com os pés descalços enquanto
perseguiam a bola. O cabelo húmido esvoaçava em redor dos seus rostos
bronzeados; o suor escorria em remoinhos pelas faces coradas.
Guid'Antonio e Amerigo protegeram os olhos mesmo a tempo de verem a bola
a voar disparada na sua direção.

— Cuidado! — gritou Amerigo. Depois levantou graciosamente os braços e


devolveu a bola com um golpe rápido tão forte que a fez voar por baixo do
hábito amarrotado de um frade dominicano que estava à frente de um grupo
de estudantes espantados à porta da igreja.

O frade deu um salto para trás, com a boca a formar um apertado «o»
enquanto o olhar viajava ameaçadoramente em redor da atarefada praça.

— Oops! — Amerigo escondeu-se atrás de Guid'Antonio.

— Vamos — Guid’Antonio entrou na rua mais próxima. Num instante, viram-se


envolvidos por paredes ocres e o ambiente ensombrou-se.

— Estes clérigos estão por toda a parte — observou Amerigo por cima do
som das botas que batiam no chão de seixos. — Pelas chagas de Cristo,
tio, faz alguma ideia de onde estamos?

Guid’Antonio sorriu.

— Vagamente, apenas.

Perdido na cidade em que nascera — quão ridículo era? Sentia-se


incomensuravelmente cansado, embora o dia ainda fosse uma criança. Na
verdade, o dia mal tinha começado, estava intoleravelmente quente e,
naquela viela estreita, terrivelmente fedorento.

138

Desviou-se de um cão escanzelado que roía um osso salpicado com restos


secos de carne, pensou fugazmente no mastim que Alessandro Braccesi
abatera com uma pedra caída e passou os dedos pelo cabelo.

Apinhado e escaldante, o mercado e loggia de pedra ao longo da Igreja de


São Miguel no Jardim, Orsanmichele, multiplicava-se em gado e humanidade.

— Tio - disse Amerigo, com um tom de voz baixo. Apontou para um corpo
pendurado numa forca na extremidade do mercado, um homem, a avaliar pelos
farrapos que restavam da roupa, já sem os olhos, arrancados pelos corvos
necrófagos.
— Cristo. — Guid'Antonio cobriu a boca. Juntava-se assim o cheiro a carne
podre à coleção de fedores da cidade. Um enforcamento? O que quer que se
dissesse sobre os crimes e os castigos em Florença, a sentença de morte
era rara, exceto quando aplicada a criminosos repetentes, imigrantes,
normalmente homens que vinham do campo para a cidade para roubar aos
pobres os seus parcos proventos. O mais habitual, também, era os
enforcamentos ocorrerem no patíbulo perto do Portão da Justiça, junto ao
exterior das muralhas orientais de Florença e não num dos mercados da
cidade.

Desviou-se de dois homens que estavam agachados de joelhos, a lançar


dados na terra, desprezando a proximidade de toda aquela carne comprimida
num único lugar, de tal forma que mal conseguia respirar.

— Maldito bastardo! — Amerigo virou-se rapidamente, praguejando contra o


homem que lhe pisara com força o calcanhar. Era um vagabundo, a avaliar
pelo saco de buracos que levava às costas. — Afaste-se de mim! Para a
próxima, sou eu quem passa por cima de si!

— Vai para o diabo, lambe botas dos Medici! — gritou o homem. E


desapareceu num instante, engolido pela multidão que o rodeava.

— Amerigo, tem calma. — Guid'Antonio viu medo e ódio nos olhos que os
rodeavam. Avançou aos encontrões por entre pedintes esfarrapados e
camponeses que discutiam com cozinheiros que apertavam os narizes antes
de espreitarem com cuidado para os cestos de verga com os seus produtos.
A sua frente e de Américo estendia-se um mar de cavalos sarnentos,
carroças de burros e carruagens com rodas tortas. Atrás deles ficaram as
abastadas lojas dos fabricantes de seda, de mobiliário e dos ourives de
prata, nas quais nenhum cardador de lã ou tosquiador comum alguma vez
tinha entrado.

139

Nas arcadas da loggia, cheia de cambistas, as mesas cobriam-se com as


toalhas de cor verde brilhante do mister dos câmbios e enchiam a
colunata, espalhando-se para a praça. Guid'Antonio e Amerigo apressaram-
se a entrar para baixo do teto abobadado, Amerigo abanando o rosto e
enchendo as bochechas enquanto se colocavam na fila para a mesa mais
próxima.

- Pelo menos aqui estamos à sombra.

O homem que estava atrás deles deu uma risada.

— Mas cuidado com os ladrões que estão a trabalhar nestas mesas.


Guid’Antonio virou-se ligeiramente para ele. O homem usava o cabelo

penteado para trás, afastado do rosto comprido e estreito, e barbeara-se


há pouco tempo, a avaliar pelos cortes e golpes ao longo dos maxilares e
queixo. Estava decentemente vestido e parecia ter trinta e poucos anos.
Guid’Antonio cumprimentou-o com um ligeiro aceno de cabeça, sorriu para o
menino que lhe segurava na mão e encerrou a interação por ali.

A linha lá se foi arrastando. Guid’Antonio, agitando-se inquieto de um pé


para o outro, olhou na direção da Igreja de São Miguel, deixando a sua
mente viajar até ao interior das paredes de múltiplos andares do sacrário
de Michelozzo, coberto de querubins e incrustado com mármores coloridos,
lápis-lazúli, ouro e vitrais. Tudo aquilo para alojar o altar pintado por
Bernardo Daddi com a milagrosa Virgem Maria que mostrava aos adoradores o
caminho para a salvação através da intercessão pessoal. Sim. Bastava
perguntar-lhes — eles podiam fornecer as provas.

Florença era famosa pelos seus milagres e, ainda assim, Guid’Antonio


pretendia desmascarar o último como um truque levado a cabo por homens
mortais para enganar as pessoas e para lançar uma sombra sobre Lorenzo
de' Medici e os seus apoiantes. Guid’Antonio gemeu interiormente. Já
tinha dado cabo de outras investigações, mas desta vez não podia perder-
se. Estava demasiado em jogo. Carregava sobre os ombros o futuro da sua
família, dos seus amigos e da República de Florença.

Tentando controlar a impaciência — por que motivo escolhia sempre a fila


mais lenta? —, olhou para os nichos com espigões cravados ao longo da
parede mais próxima de São Miguel. Em cada um dos nichos (e havia mais de
uma dúzia em volta da igreja) repousava uma estátua de mármore do santo
padroeiro das principais guildas da cidade, tangíveis, sólidos e fortes:
Santo Elígio de Nanni di Banco, padroeiro dos ferreiros e ferradores, São
Marcos de Donatello que protegia os vendedores de linho e de roupas
usadas, São João Batista de Lorenzo Ghiberti para os importadores de
roupa e São Mateus, também de Ghiberti, santo padroeiro dos banqueiros.

140

Banqueiros. Guid'Antonio virou-se para a lista de taxas colocadas em cima


das mesas do dinheiro. Os preços dos cereais listados eram tão
vergonhosos como as taxas de câmbio de dinheiro. Ao seu lado, Amerigo
murmurou:

— Estas taxas são pazzo, loucas! Ervilhas, cinco liras por oito galões, e
o milho cinquenta e nove soldos? Como é que as pessoas conseguem comer?

— Continuamos a ouvir dizer que não conseguem — disse Guid’Antonio,


avançando um passo.

— É por causa da fome — disse o homem trás dele.

— Desculpe? — Guid’Antonio virou-se para ele.

— Os preços altos — explicou o homem. — Enquanto os bens continuarem a


ser importados, a situação não vai mudar. Naturalmente, a Câmara
Municipal tem andado a fornecer cereais aos que foram mais severamente
afetados pela guerra. Faz-se qualquer coisa para manter a populaça
saciada.

Um pedinte velho, com a carne e os farrapos pendurados no corpo ossudo,


passou silenciosamente entre eles, roçando com o ombro em Amerigo.

— O quê, outra vez? — reclamou Amerigo. O pedinte levantou as mãos para


se defender. Com os ombros curvados, persignou-se e desapareceu
rapidamente.

— Já estou farto disto — disse Amerigo, começando a seguir o homem.

— Deixa-o ir — disse Guid’Antonio.

— O melhor é verificar a sua bolsa — disse o companheiro de fila. — Estes


vermes têm dedos muito ágeis.

— Não o suficiente para manufaturar moedas onde não as há — disse


Amerigo, sacudindo piolhos imaginários do peito. — Não gosto de ser posto
à prova.

— Se não pelas vossas moedas, pelas roupas de baixo — disse o homem.

— Pai... — O rapazinho de olhos negros que segurava na mão do homem olhou


atentamente para cima. — Se calhar o pedinte tinha fome.

— Se calhar o quê? — disse o pai do menino, com um tom tão austero que
muitas pessoas na loggia se viraram para olhar para ele. O menino, com o
braço tão puxado que quase o levantava do solo, arquejou. O rosto fino
contorceu-se com dor.

— Não te avisei já de que deves ficar calado, a não ser que falem contigo
primeiro?

141

Guid'Antonio ainda pensou em dizer ao homem que podia aplicar o mesmo


comportamento à sua própria pessoa. Mas, em vez disso, perguntou:

— Já tive o prazer de o conhecer?

Se o homem usasse chapéu, tê-lo-ia tirado naquele momento. Com um ar de


importante, curvando-se numa vénia floreada, apresentou-se como Senhor
Lodovico Buonarroti Simoni. O menino, com cerca de cinco anos, a mesma
idade do filho de Guid'Antonio, Giovanni, era o segundo mais velho de
Buonarroti. O nome dele? Michelangelo Buonarroti. E sim, o senhor
Buonarroti conhecia o mestre Guid'Antonio Vespucci, mas, para sua grande
pena, apenas por aspeto e reputação. A família Buonarroti vivia no
distrito florentino de Santa Cruz, perto da sogra de Guid'Antonio,
Alessandra del Vigna. Em Florença — e certamente em toda a Toscana! —
qualquer pessoa reconhecia o famoso embaixador jurista Guid'Antonio
Vespucci e o seu fiel sobrinho, Amerigo.

- Fiel sobrinho? - Amerigo rugiu nas profundezas da sua garganta. Quanto


ao senhor Buonarroti, era um homem Medici por preferência e notário de
profissão, assim como o anterior governador de Caprese e Chiusi, duas
povoações a leste de Florença.

— E um idiota insuportável também — disse Guid'Antonio, sotto voce, a


Amerigo, que desviou os olhos, a rir.

A atenção de Buonarroti voltou a concentrar-se no filho.

- Se calhar o pedinte tinha fome - repetiu, imitando a voz fina e


estridente da criança. — Como se isso fosse urna preocupação para homens
como nós! — Buonarroti revirou os olhos. — O meu filho foi amamentado no
campo por gente comum, mestre Vespucci, sob a forma da mulher gorda de um
pedreiro, por isso estou a colher aquilo que semeei. Ainda assim, o que
fazer quando a mãe das crianças é frágil e o seu leite seca? Apesar de
tudo isso, o rapaz é esperto. Com sete anos de idade, o seu irmão
Leonardo parece ser bom para a Igreja. Este aqui, hei de certificar-me de
que se torna num cambista bem-sucedido, para seguir a tradição do seu
bisavô. Ou então num notário, como eu.

Os olhos negros de Michelangelo fitavam o pai, bebendo as suas palavras.


A cada uma que saía disparada da boca do homem, a expressão do rapaz
recolhia-se cada vez mais, embora por um instante parecesse a
Guid'Antonio que ia voltar a reagir. Em vez disso, o menino endireitou os
ombros resolutamente e virou-se para olhar para longe, como se visse uma
batalha mais feroz a aproximar-se e estivesse plenamente armado para a
enfrentar.

142

— Tio Guid'Antonio — Amerigo fez sinal com a cabeça. — Conhece aquele


rufião barbudo que abre caminho na nossa direção? Ele não tira os olhos
de si.

De pele acastanhada, com o cheiro azedo das uvas prestes a serem


esmagadas, o sujeito largo abriu caminho por entre o mercado, observando
Guid'Antonio de esguelha. Os seus olhos pretos brilhavam, plenos de
desprezo que queimava como uma odiosa e ardente chama.

— Nunca o vi antes. — Guid’Antonio susteve o olhar do homem até surgir


entre os dois um esticão de tal forma violento que o corpo de
Guid’Antonio se retesou e cambaleou para trás.

— Tio Guid’Antonio?

— Não, não. Estou bem.


Sorrindo com maldade, o homem desviou o olhar, com o passo seguro e
imperturbável. Parou junto da banca de vinho de toldo roxo e branco,
mesmo ao lado da loggia, e debruçou-se ameaçadoramente em direção ao
vendedor que estava sentado num banco atrás do balcão desdobrável.

Uma sensação de alarme percorreu Guid’Antonio. O que acabara de acontecer


entre ele e aquele sujeito estranho? Tinha visto naqueles pequenos olhos
negros um desafio carregado de ódio.

— Nem todos os ladrões são tão estúpidos como esta barata que aqui foi
enforcada na semana que passou — disse Lodovico Buonarroti.

Guid’Antonio desviou a atenção da banca do vinho.

— Sabe qual foi o crime do enforcado?

— Roubou uma moeda de uma das mesas de câmbio, o idiota.

— E foi enforcado por causa disso? Normalmente as penas mais fortes para
um crime menor são chicotadas ou marcação com ferro quente.

— Não nos dias que correm. A Senhoria tem mostrado muito mais força
ultimamente, e tem feito muito bem, digo eu. Nenhum homem deve ser
autorizado a roubar outro e escapar com uma simples palmada na mão.

O senhor Buonarroti riu-se com satisfação e Guid’Antonio agradeceu


silenciosamente por ele e Amerigo serem os próximos da fila. Mas
Buonarroti ainda não tinha acabado. Debruçando-se para a frente deles,
provocou o funcionário:

— Exatamente como o senhor está prestes a roubar-nos.

— Se não gostar do serviço — disse o funcionário, espetando um polegar


para trás das costas em direção aos guardas musculados e armados com
machados, espalhados pela loggia —, sugiro que se entenda com eles.

143

Buonarroti encolheu-se para o seu lugar. Guid'Antonio alargou as tiras de


couro que prendiam o seu manuscrito. Qualquer que fosse a taxa de câmbio
daquele dia, o vale de viajante que tinha na bolsa valera-lhe, a ele e a
Amerigo, nas últimas três semanas, como segurança perante os ladrões,
enquanto regressavam a casa. Hmm. Ali estava mais uma coisa que precisava
de saber: Camilla Rossi da Vinci levaria dinheiro ou vales consigo, e
teriam desaparecido algumas das suas jóias?

— Gatuno! Ladrão!

Guid’Antonio virou-se subitamente. Na banca do vinho, o estranho que lhe


provocara a desagradável sensação gritou:
— Bastardo! Sabe bem que as minhas uvas valem o dobro desse valor! As
conversas pararam de imediato na loggia.

— Se não gosta dos preços que oferecemos, Jacopo, regresse em outubro


durante as colheitas — sugeriu civilizadamente o comerciante de vinho. -
Neste momento, não há nada...

Jacopo cuspiu um grande escarro que aterrou no local pretendido, mesmo no


rosto robusto do comerciante.

A multidão arquejou. Um dos guardas deu um passo em frente, sorrindo e


mexendo no machado. Junto à banca do vinho, Jacopo gritou:

— Guarde o seu maldito dinheiro, ladrão turco! — Virando-se rapidamente,


abriu caminho aos encontrões por entre a multidão. — Mais depressa vendo
as minhas uvas ao Diabo do que as vendo a si!

— Ao Lorenzo, quer dizer! — gritou alguém. — Ele também não lhe vai pagar
o preço justo!

Então o homem é vinicultor, pensou Guid'Antonio, observando o


insatisfeito aos empurrões pela multidão. A seguir assinou o vale.

— Senhor Buonarroti — disse enquanto contava as moedas que o banqueiro


empurrou por cima da mesa —, quem era aquele homem tão zangado? Conhece-
o, certamente.

— Então e não o conhece toda a gente? Oh! — Fez-se luz para Buonarroti. —
O senhor esteve fora. Aquele era Jacopo Rossi da Vinci, um homem já de si
mal-humorado, mas depois a filha foi raptada e violada pelos turcos, que
a Virgem que chora tenha piedade da sua alma - disse Buonarroti.

— Amerigo! — gritou Guid'Antonio.

Amerigo saiu disparado da loggia e abriu caminho através da massa de


gente.

— O senhor, alto aí!

144

Um camponês conduziu a carroça do burro mesmo em frente ao caminho de


Amerigo. Lançando um sorriso maldoso a Guid'Antonio, Jacopo Rossi da
Vinci desapareceu no meio da multidão em movimento. Amerigo ainda o
perseguiu durante alguns instantes antes de regressar à mesa, de rosto
corado. Curvou-se, pousando as mãos nos joelhos, ofegante.

- Perdi-o.

- A esta altura já ele está a meio caminho do Portão Prato, em direção a


casa, em Vinci. Maldição! - praguejou Guid’Antonio. Segundo Lorenzo,
Palla Palmieri tinha interrogado o pai de Camilla; mas agradava-lhe muito
a possibilidade de ouvir em primeira mão a versão do vinicultor sobre os
eventos que rodearam o desaparecimento da filha. Jacopo Rossi da Vinci
acabara de ser adicionado à lista de pessoas a interrogar.

Guid’Antonio olhou de relance para o pequeno Michelangelo, que estava


muito sossegado ao lado do pai. Estava sossegado, mas, por Deus, aqueles
olhos desafiadores! Guid’Antonio susteve o olhar forte do menino e
sorriu. Em troca, recebeu a centelha de um sorriso que lhe mostrava
fraternidade e reconhecimento.

- Vamos, Amerigo. — Guid’Antonio saiu da loggia a passos largos, pensando


que daria uma pequena fortuna para saber o que ia na cabeça daquela
criança. Nas profundezas dos olhos ensombrados daquele menino tinha visto
o olhar avaliador do seu próprio filho, e sentiu um raio de esperança.

145

Página em branco

Capítulo TREZE

- Que bella!— Amerigo beijou as pontas dos dedos. — Alguma vez viu uma
coisa tão adorável? Guid'Antonio olhou em redor da pequena praceta,
pungente com o cheiro a estrume e a fruta demasiado madura, à espera de
encontrar um vislumbre dos tornozelos de uma donzela bonita.

- Onde?

Amerigo apontou para a carroça da padaria parada junto a um edifício à


sombra.

- Bolos de leite, grandes e frescos. - Deu uma palmada sonora no braço do


tio. — Talvez até cobertos com açúcar.

- Açúcar? — Guid'Antonio espreitou para a carroça, cujo dono os chamou


com ambas as mãos, semicerrando os olhos com esperança astuta e
desafiando qualquer cão, pedinte ou criança esfarrapada para tentar
roubar uma migalha que fosse dos pães que vendia, com ou sem açúcar.

- E melhor rezares, Amerigo. Certamente que um bem tão luxuoso como


açúcar não se encontra assim sem mais nem menos.

- Quer comer alguma coisa? - perguntou Amerigo, já a meio caminho e do


meio da praceta, em passo ligeiro.

Guid'Antonio suspirou, trémulo.


- Nada que esse padeiro venda.

Amerigo regressou trazendo o que Guid’Antonio presumia ser o artigo mais


requintado de todos: um pão polvilhado com canela e a escorrer mel puro e
dourado.

- Impressionante — disse Guid'Antonio.

147

Amerigo agradeceu aos céus com um gesto airoso. Na verdade, tinha


comprado dois pães.

— Não tem açúcar, mas é doce e bom. — E recomeçaram a caminhar.

— A canela é cara, Amerigo, uma vez que vem do Oriente. Havia


certamente... — Guid'Antonio gaguejou, calculando mentalmente quanto
teriam os pães custado a Amerigo — outros prazeres menos dispendiosos.

Amerigo endireitou-se com vivacidade.

— Marco Polo diz que a melhor canela vem de Sumatra.

— Então se o Marco o diz é porque é verdade.

— Tio, para trás! — Amerigo saltou de lado, empurrando Guid'Antonio para


fora da estrada. Um cavaleiro passou velozmente na direção oposta, tão
perto que a cauda do cavalo roçou no rosto de Guid'Antonio. Era um
mensageiro que trazia notícias; a sua ocupação era evidente pela faixa
branca que tinha no braço e pela pena branca do chapéu.

— Cabeça de alho chocho! — gritou Amerigo para o cavaleiro, que o ignorou


e ainda lhe sorriu por cima do ombro, em direção à donzela bonita que lhe
chamara a atenção. Antes de entrar numa viela larga, soprou um beijo à
rapariga.

— Stupido! — exclamou Amerigo. — Tio, está bem? — Um segundo cavaleiro


galopou velozmente, gritando para que os pedestres abrissem caminho.

Guid'Antonio sacudiu o pó da túnica.

— Já sobrevivi a pior do que isto. — Santa Mãe do Céu! Estaria ele sob
cerco? Mas disse: — Questiono-me apenas acerca do que será tão
importante...

— Eu só queria que o primeiro sujeito tivesse caído da sela — o olhar


fixo de Amerigo caíra sob o objeto da atenção do cavaleiro. — Ela é
espantosamente atraente.

Tinha cerca de treze anos e ainda não era casada, já que não usava manto,
mas um vestido cujo tecido branco era tão transparente que parecia urdido
com as asas de borboletas. Seios em botão empurravam uma estreita fira de
renda. Os dedos seguravam um livro de orações adornado com pedras
brilhantes. A criada da rapariga olhou furiosamente para Amerigo e
apressou a menina, que lhe fora confiada, ao longo de uma rua paralela,
em direção à Via Porta Rossa.

— Muito bonita — concordou Guid'Antonio. — Agora, anda.

— Aposto que ela vai à missa à Trindade — disse Amerigo, lambendo o mel
do polegar e do resto dos dedos.

— Mais uma missa à qual não vais assistir — disse Guid’Antonio.

148

— Hoje é uma coisa, amanhã é outra. Se conseguir levar a criada na minha


conversa, as possibilidades são infinitas.

Guid'Antonio olhou para Amerigo com uma expressão cortante.

— Ela vem de uma boa casa, sobrinho. Os seus familiares não vão querer
que brinquem com ela. Experimenta marcar encontros secretos com ela e
vais acabar com a pila enfiada numa funda. — Não era nenhum segredo para
ele como as capelas iluminadas apenas por velas e as naves das igrejas
vazias e sombrias providenciavam lugares recolhidos para encontros
fortuitos. E Deus sabia que Florença era uma colmeia de igrejas. Não
havia como saber quantas juras de amor as suas paredes sagradas tinham
ouvido, quantos suspiros se ergueram por entre as pinceladas de Fra
Angélico, Fra Filippo Lippi, Giotto, Masaccio, Verrocchio, Sandro e, oh,
tantos outros, nem o que aquelas paredes já tinham visto.

Teve um vislumbre momentâneo de santos pintados a olharem para jovens e


donzelas ofegantes e meio vestidas, rapazes nus e padres frustrados.
Sentiu que ficava excitado e parou de andar naquele escaldante dia de
julho. Pigarreou, com uma parte independente de si a questionar-se se
estaria completamente louco. Não, apenas excitado, como um rapaz de
catorze anos. Olhou de soslaio para o sobrinho. Como Amerigo e todos os
outros homens, continuava a respirar.

O toque da campainha anunciou a presença de ambos na boticária de Luca


Landucci, no Canto de' Tornaquinci, a esquina apertada onde a Via delia
Spada e a Via delia Vigna Nuova se encontravam perto do Palácio Rucellai.
No interior de O Sinal das Estrelas, uma das paredes encontrava-se
coberta com cestos de ervas secas, pendurados em vigas de madeira. As
prateleiras exibiam frascos de faiança esmaltada, azul safira, amarelo
dourado e verde-mar, cada um deles etiquetado com a caligrafia primorosa
do boticário. A loja era pequena e aconchegante, com uma única janela,
mas o espaço era razoavelmente iluminado pelo brilho de um par de
lamparinas a óleo, uma de cada lado do balcão, e por velas que ardiam
aqui e acolá.
Guid'Antonio estava prestes a tocar na campainha do balcão quando Luca
saiu apressadamente pela cortina de uma sala dos fundos, com um diário
encadernado a couro numa das mãos. Os seus olhos brilharam com surpresa
quando viu os Vespucci e guardou o diário numa prateleira por baixo do
balcão.

149

Porquê? Questionou-se Guid'Antonio. E: Aquele diário era capaz de ser uma


leitura interessante. Seria curioso conhecer os pensamentos privados de
Luca Landucci durante os últimos dois anos. Agora que pensava nisso, se
alguém fizesse um assalto a cada uma das casas das famílias ilustres de
Florença, ficaria com um relato interessante sobre a história florentina,
uma vez que cada homem que soubesse rabiscar algumas palavras com uma
pena mantinha uma crónica privada de toda a sua vida.

— Certamente nenhum dos dois adoeceu desde que vos vi ontem de manhã no
Mercado Novo? — perguntou Luca.

— Não. Mas a mãe de Maria está doente.

— Lamento saber. E quais são os sintomas? - quis saber Luca, persignando-


se.

— Dores de estômago, febres, arrepios. O dottore Camerlini está a medicá-


la com pérolas esmagadas.

Um murmúrio de descontentamento elevou-se da garganta de Luca.

— Dottore Camerlini! Aqueles medicamentos excêntricos são dispendiosos, é


isso que os médicos fazem hoje em dia! Ele já lhe ministrou clisteres?

— Oh, Deus — arquejou Amerigo.

— Não sei — respondeu Guid’Antonio. Ainda tinha pensado em pedir a


Francesca Vernacci para observar Alessandra del Vigna em Santa Cruz. Mas
depois pensou que talvez fosse melhor não o fazer. Fora egoísta? Sim. Mas
não suportaria estar no mesmo quarto com a boa médica e Maria. Outra vez
não.

Luca levantou as mãos: não importa.

— Tenho a certeza de que ele examinou a urina da senhora. — Olhou de


relance para a balança que estava em cima do balcão e para a pequena
estátua de Hygeia ali colocada. Luca Landucci estava a pensar. Nas
prateleiras por trás do boticário, Guid'Antonio viu um exemplar bastante
usado do Antidotario, o manual por excelência dos boticários.

Luca não se referiu a ele. Em vez disso, tirou debaixo do balcão uma
pequena caixa fechada com barras de ferro estanhado. Abriu a caixa com
uma chave que tirou de uma bolsa de couro, da qual retirou ainda uma
segunda chave. Atrás do balcão, numa fileira ordenada, estavam
recipientes de metal com tampas fechadas. Luca abriu um destes
recipientes e mediu cuidadosamente uma pequena porção de sementes, que
colocou num pacote de papel encerado.

Amerigo, olhando em redor da loja, apontou para os restos de uma


serpente, numa prateleira junto ao seu ombro esquerdo. Cabeça, cauda e
pele, a última tão fina como um murmúrio.

150

— Sim — disse Luca, levantando os olhos da balança —, as entranhas


escorregadias daquela amiga fizeram um belo tónico, depois de lhe ter
retirado o saco do veneno. Mas para a sua sogra, mestre Vespucci, temos
aqui sementes de canábis tostadas. Inalar os seus vapores vai ajudá-la a
descontrair e vai induzir o sono.

— Posso ficar com um pouco para mim? — interrompeu Amerigo


agradavelmente.

Luca entregou a Guid'Antonio o saco de sementes.

— Ainda hoje vou enviar uma conserva de betónica. É bom para todos os
desarranjos. E deve mandar a mulher que trata da sua cozinha — Dome-nica
Ridolfi — misturar um pouco de folhas de manjericão doce no vinho para
servir de tónico e acalmar a senhora.

Guid'Antonio acenou com a cabeça, concordando.

— Obrigado.

Mas Luca ainda não tinha acabado.

— Aqui tem uma pequena porção de acónito misturada com óleos. A sua
mulher, ou a enfermeira, deverá massajar as articulações magoadas da
senhora com ele. — De outro frasco, Luca mediu uma pequena quantidade de
um óleo aromático para um pequeno frasco de vidro que fechou com uma
rolha. — E, vinda de Damasco — disse com um tom reverente —, essência de
rosas. Diga à sua mulher para banhar a pele da mãe com a essência duas
vezes ao dia. Isso, a par dos restantes remédios, deverá trazer o
descanso à infeliz senhora. E com o descanso vem a paz.

Será disso que preciso? — questionou-se Guid'Antonio. De essência de


rosas? Inspirou com timidez e sorriu debilmente.

— Ela já está doente há muito tempo? — perguntou Luca.

— Tanto quanto sei, não — Guid'Antonio encolheu os ombros. — Mas o fim é


certo.
— Tenha fé — disse Luca, e os três homens persignaram-se. — Seria uma
pena perecer agora, depois de sobreviver às provações e atribulações dos
últimos anos.

— Que provações? — questionou Guid’Antonio. — Parecem ter sido tantas.


Luca estendeu as mãos num gesto de consternação.

— O Natal do ano passado foi um verdadeiro desastre! Sabe as casas do


mestre Bongiovanni?

Guid'Antonio acenou afirmativamente. As casas de Bongiovanni


Gianfiggliazzi situavam-se perto da Ponte da Trindade, nesta margem do
rio.

151

— O Arno galgou as margens naquela zona — disse Luca. As sobrancelhas de


Amerigo arquearam-se.

— Outra vez?

— Foi um desastre — disse Luca. — A água inundou os prados ao longo da


Rua de Todos os Santos inteira. As pessoas perderam os seus bens, até as
casas. Um bom número delas teve de fugir. O fedor que se seguiu foi
terrível.

Guid'Antonio franziu o sobrolho.

— Amerigo, sabias disto? Amerigo abanou a cabeça.

— Aparentemente não fomos afetados. Diretamente, quero dizer.

Todos os Santos inundada e ninguém na família falou nisso a qualquer um


deles. Mas também qual teria sido o benefício de trazer à atenção de
Guid'Antonio o assunto da inundação? No último Natal ele estava em Paris,
andando de um lado para o outro e fitando o fogo da lareira, rezando para
que Lorenzo sobrevivesse a Nápoles. De que serviria notificá-lo sobre o
bairro devastado? Sobre a sua casa, a sua igreja e o seu hospital?

— Como se a excomunhão e o terror da guerra não fossem já suficientes,


Deus fez desabar a chuva sobre nós — dizia Luca. — E, desde essa altura,
a nossa situação melhorou? Não.

— No entanto, continua a ser florentino e não napolitano ou romano, como


seria se o rei Ferrante ou o papa Sisto IV tivessem levado a sua avante —
disse Guid'Antonio, fitando-o.

Um ligeiro rubor apareceu sob a pele do outro homem.

— Sim, louvados sejam Deus e Lorenzo.


Guid'Antonio entregou a Luca o pagamento pelos remédios que levava na
bolsa.

— Luca, o que faria um quadro chorar? O boticário arquejou:

— Eu jamais faria uma coisa dessas! Guid'Antonio levantou suavemente


ambas as mãos.

— Estava apenas a questionar-me acerca de como se poderia atingir tal


objetivo.

— O Nosso Senhor tem apenas de o desejar.

— Mas se um ser mortal estivesse envolvido no caso — insistiu


Guid'Antonio. — O que teria de fazer? Alguém que recorresse ao embuste.
Colocando provavelmente água na superfície do quadro.

152

— Isso não seria muito bom, pois não? — disse Amerigo. — Um painel com
séculos...

Guid'Antonio ergueu as sobrancelhas e Amerigo calou-se.

Os olhos de Luca dirigiram-se com nervosismo para as vespas bordadas no


colarinho branco simples de Guid'Antonio e para o debruado dourado da
túnica azul-clara de Amerigo. Endireitando-se completamente, disse:

— Jamais pensaria sequer em cometer um ato tão pecaminoso como esse.

Guid'Antonio sentiu uma pontada de impaciência misturada com uma pitada


de arrependimento. Não desejava intimidar o boticário, que era um homem
justo e bondoso. Não queria fazer o papel de leão, nem fazer Luca
Landucci de rato. A verdade era que precisava da ajuda de Luca, e, de uma
maneira ou de outra, pretendia consegui-la.

— Perdoe-me — disse. — A única coisa que me levou a esse assunto foi a


curiosidade, nada mais. — Não seria aquela uma vergonhosa mentira? —
Conhece as invulgares circunstâncias da Igreja de Todos os Santos. As
lágrimas da Virgem são uma grande fonte de preocupação para Lorenzo e
também para mim. Para todos os florentinos. Para a Toscana. Ninguém
deseja uma guerra civil nas ruas da cidade a não ser os nossos inimigos.

— Sim — concedeu Luca. - Quero dizer, não.

Guid'Antonio começou a encaminhar-se para a porta, sorrindo e despedindo-


se sem cerimónia, como se estivesse arrependido de ter falado da
manufatura dos milagres e estivesse assim a abandonar o assunto. Não
estava.
— Luca — disse, virando-se. — Ontem falou-me do palio. Estou curioso
acerca da montada do seu irmão.

— Desde quando? — perguntou Amerigo.

— Desde agora — disse Guid'Antonio, sorrindo a Luca. — O Gostanzo monta


sempre o Draghetto?

— Sim. — O semblante de Luca iluminou-se consideravelmente. — E um


exemplar equestre absolutamente deslumbrante! — Os olhos castanhos do
boticário semicerraram-se com a mesma rapidez. — Toda a gente conhece o
meu irmão, Gostanzo, e conhecem também o Draghetto. Conhecem o coração
robusto do animal e a maneira como Gostanzo o faz cavalgar. Mas depois
temos Lorenzo, com a sua dúzia de cavalos magníficos. Ou mais do que
isso! Quem sabe que montada vai escolher para o seu cavaleiro em qualquer
corrida, ou como planeia ganhar, mereça o prémio ou não?

O boticário deteve-se, tremendo de indignação.

153

— Este verão, toda a gente na Toscana apostou contra os Landucci.

— Não são parvos de todo — disse Amerigo.

Luca ficou com um ar desgostoso. E disse, lugubremente:

— A corrida final é no mês que vem e o nosso estandarte já está perdido


para 11 Magnifico.

Guid'Antonio discordou.

— Gostanzo é competitivo e o Draghetto é um dos favoritos. Se o seu irmão


soubesse o nome do cavalo de Lorenzo antes da corrida final, podia
planear uma estratégia vencedora.

— Claro que sim — concordou Luca. — Mas ninguém no mundo cristão sabe que
cavalos Lorenzo de' Medici vai levar a determinada corrida, quanto mais
na corrida que resolverá o campeonato.

— Eu sei — disse Guid'Antonio. — Ou poderei saber. — Sorriu com


simplicidade.

Luca pestanejou com surpresa.

— O senhor? - Eu.

Um misto de emoções contraditórias cruzou o rosto de Luca.

— A estratégia é tudo.
— Sim — respondeu Guid'Antonio, virando-se novamente para a porta da
loja.

Ele e Amerigo estavam já na ombreira da porta e a pele da nuca de


Guid'Antonio arrepiou-se quando ouviu a voz de Luca atrás de si:

— Um momento, por favor. Guid’Antonio virou-se. -Sim?

— Se por mero acaso eu conseguir descobrir alguma coisa que possa


eventualmente explicar o funcionamento de certos mistérios em Todos os
Santos, para onde poderia enviar notícias?

— Para mim, para a minha casa — respondeu rapidamente Guid'Antonio. — Se


estiver ausente, instrua o seu mensageiro para comunicar a Amerigo ou a
Cesare que deseja ver-me de imediato. Eu irei ao seu encontro.

— Entrarei em contacto — disse Luca, sorrindo com malícia. — Pode apostar


o seu último florim. Eu farei o mesmo.

— Como em nome de Zeus vai conseguir que Lorenzo lhe diga o nome do
cavalo antes da corrida, para que o possa comunicar ao seu novo cúmplice?
- perguntou Amerigo quando regressaram à rua.

154

- Isto caso Luca consiga descobrir alguma coisa sobre como fizeram o
quadro chorar.

- Vou perguntar-lhe - respondeu Guid'Antonio.

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Página em branco

Capítulo CATORZE

Nas horas cinzentas que antecedem o nascer do dia, Tesoro cavalgou


sonoramente, perdido e sem cavaleiro, pelo Portão Prato e ao longo da via
deserta, onde as casas se erguiam em direção ao céu, rodeadas pelas
estrelas de verão que brilhavam bem alto. Ali perto, aqueles edifícios,
que não se pareciam com as colinas da sua terra, embora despoletassem uma
memória, com o cheiro da pedra em vez do cheiro da erva viçosa e da terra
fértil e castanha. A égua já tinha visto aquele lugar.

Ali perto, demasiado perto, gritos agudos e passos a bater com força um
pouco mais abaixo na rua.
— Para! Para aí!

Mesmo em frente, o fogo contornava uma praça larga. Ouviram-se mais


gritos, que reverberavam nas pedras. Tesoro empinou-se, relinchando
estridentemente, com os cascos a pairar no ar. Para um dos lados havia
uma passagem escura, para o outro o cheiro da água quente do rio.
Cansada. Exausta. Arquejante. A égua revirou os olhos em terror. Onde
estava?

Onde?

Onde?

157

Capítulo QUINZE

Guid’Antonio olhou para o diário com as pálpebras pesadas. Tinha levado o


diário encadernado a couro do quarto de dormir para o pequeno studiolo,
deixando a porta que ligava ambos os espaços completamente aberta, mas
depois deixou a capa fechada. Passara os últimos dois dias a olhar de
modo idiota para as coisas e a interrogar algumas pessoas, mas não sabia
muito mais por isso. Agora, depois de ter aguentado uma reunião,
convocada à pressa pela fação de apoio aos Medici, que durou pela noite
dentro, sentia-se como um homem a cair pela encosta nevada de uma
montanha, enquanto uma avalanche retumbava atrás de si com tanta força,
que parecia destinada a esmagá-lo sob o seu impressionante peso.

Tinha deixado o Palácio Medici nas sufocantes horas depois da meia--noite


e encontrara o caminho para Todos os Santos, com todos os ossos do seu
corpo a suplicarem por descanso, enquanto seguia pelos trilhos tortuosos
através de uma teia de vielas e ruas fedorentas. Na cama, de olhos
arregalados, como se tivessem um palito a segurar as pálpebras, ficara a
olhar para o baldaquino de veludo vermelho cujos franzidos e pregas
pareciam assumir à luz das velas um tom vermelho profundo e mórbido em
vez de um tom escarlate brilhante.

Agora, isolado por entre papéis e livros vagamente iluminados, mergulhou


a pena.

Ao entrar pelo Portão Prato com Amerigo, há dois dias, nunca pensei vir a
encontrar tanta discórdia na senhora minha cidade. Contrariando todas as
expectativas, o papa Sisto IV não levantou as penas eclesiásticas que nos
impôs por ocasião da nossa luta contra ele, contra o seu sobrinho e
contra o seu fero cúmplice, o rei Ferrante de Nápoles.

159
Em vez disso, o pontífice continua a exigir a presença de Lorenzo em
Roma. Como se isso não fosse suficientemente cruel, o príncipe Afonso não
abandonou a nossa fronteira sul em Siena, como esperávamos que fizesse
assim que o tratado de paz que fizemos com o reino do seu pai fosse
assinado. Ao invés, o príncipe napolitano age como se fosse o senhor
daquelas terras sob o disfarce de protetor militar de Florença, enquanto
a sua comissão é paga com o dinheiro dos nossos impostos. É ridículo: mas
é assim que os florentinos fazem as coisas. Mais perto de casa, uma jovem
rapariga foi raptada ou morta às mãos dos turcos, segundo creem alguns
tolos. Desde que a notícia do desaparecimento de Camilla Rossi da Vinci
chegou a Florença, há pouco mais de uma semana, a Virgem Maria de Santa
Maria Impruneta foi vista — uma vez — a chorar na igreja da minha
família, aterrorizando todos aqueles que interpretam as lágrimas como um
sinal da fúria de Deus para com Florença, por estar em guerra com o papa
e pela recusa de Lorenzo em ir para Roma prostrar-se aos seus pés. Uma
pessoa havia de pensar que do céu chove sangue. Disseram-me que, no
início desta loucura sagrada, as pessoas acorreram ao altar da minha
igreja, acendendo velas e derramando os seus próprios dilúvios de
lágrimas, mesmo os desesperadamente pobres ofereceram moedas aos frades,
em vez de alimentarem os seus filhos. No último sábado, as lágrimas
secaram, louvado seja Jesus e Maria Sua mãe. Ainda assim, o popolo minuto
mostra o seu descontentamento e culpa-nos por tudo o que acontece.

Guid’Antonio teve uma visão pouco simpática de si mesmo a dirigir-se para


Todos os Santos e a partir o painel centenário sobre o joelho,
esmurrando-o com ambos os punhos, e abanou a cabeça para a afastar.

Agora, novas tormentas foram entregues na Câmara Municipal por dois


mensageiros que passaram por mim e por Amerigo, ontem à tarde, enquanto
falávamos com Luca Landucci n'O Sinal das Estrelas, para lhe pedir a sua
colaboração na questão de Todos os Santos. Tínhamos acabado a nossa
conversa com ele e estávamos a chegar a Canto Tornaquinci quando Cesare
nos encontrou. «Lorenzo quer vê-lo na Via Larga.» E claro, como bom homem
Media que sou, dirigi-me imediatamente ao Valado Medici. Embora nos
reuníssemos na casa de Lorenzo de' Medici, foi o seu tio, Tommaso
Soderini, quem falou primeiro, informando-nos de que o papa acabara de
unir esforços com Veneza.

160

Olhei de relance para Lorenzo, surpreendido. Sim, disseram-me os seus


olhos negros, fitando-me também: o papa está a avançar.

Juntos, o papa e os venezianos, contribuíram com oitocentos soldados da


infantaria para a segurança da cidade de Forli, na Via Emilia. 0 destino
de Forli é de suma importância para nós, já que nos separa do mar
Adriático. O sobrinho e assassino do papa, Girolamo Riario, lutará para
agregar Forli às suas propriedades assim que o senhor adoentado da
cidade, Sinibaldo Ordelaffi, partir deste mundo. Com as tropas papais e
venezianas sob o seu comando, Girolamo está mais perto de conseguir criar
um Estado próprio independente em Itália, enquanto nos isola na presença
dos nossos inimigos. E tudo isto enquanto o seu tio, o papa, lhe dá
palmadinhas no traseiro e o incita a avançar.

Quando Tommaso acabou de falar, em vez de parecer completamente impotente


perante os arrepiantes avanços de Girolamo, Lorenzo mencionou as
necessidades imediatas da nossa cidade, pedindo maior importação de
cereais assim que fosse possível e que logo de seguida fossem
disponibilizados nos mercados locais por um preço razoável para os
florentinos. Não disse como achava que Tommaso e os restantes lordes
magistrados iam conseguir fazê-lo. Desde o início da guerra de Lorenzo
com Roma que os cofres do Estado estão terrivelmente vazios. Soldados
mercenários, armaduras e armas, compensações por cavalos feridos, mortos
ou capturados em batalha e por aí em diante. «Custe o que custar,
prensamos de manter as pessoas saciadas, para conseguirmos manter a nossa
posição na cidade. Doarei uma boa porção aos hospitais, para que comprem
pão, vinho e azeite», disse Lorenzo. Em redor da mesa, todos murmuraram
como seguiríamos alegremente o seu exemplo. Quanto ao que seria feito
para pôr freio aos avanços constantes de Girolamo, Lorenzo prometeu
pensar em alguma coisa. Não podíamos medir forças contra Roma e Veneza.
Florença já se encontra debilitada. Observei Lorenzo atentamente. Conheço
aquele tom determinado e ouvi a sua voz férrea. As pessoas não lhe chamam
Lorenzo, o Magnífico, à toa. Suspeito de que já traçou um plano para o
futuro, não apenas para Florença, mas para toda a Itália; ou então já
está a formar-se na sua cabeça o começo de uma estratégia.

12 de julho do Ano de Nosso Senhor 1480

Guid’Antonio Vespucci, Florença

161

Guid'Antonio massajou as mãos, a pestanejar, com os olhos a arder sob a


luz vacilante do studiolo abafado. O tratado renegado entre Roma e Veneza
preocupava-o. Tudo o preocupava e o fazia sentir-se desprevenido para o
nascer do dia. Como podiam as coisas piorar? Estava a guardar a pena no
estojo quando ouviu passos apressados, já muito perto de si.
Levantando--se com um salto, pegou no punhal e entrou no quarto de dormir
no preciso instante em que a porta se abriu.

162
Capítulo DEZASSEIS

Amerigo entrou de rompante. - Acorde, tio! Oh! - A visão de Guid'Antonio


à espera com o punhal na mão deteve Amerigo, embora brevemente. - Tio
Guid'Antonio - disse, recuando e estremecendo de nervosismo. - A rapariga
está morta! Assassinada!

— A rapariga? - Guid'Antonio guardou o punhal na bainha e arrumou o


diário em segurança. — Camilla, queres tu dizer? Onde a encontraram? Diz.
- Era impossível! Jamais teria pensado que as coisas chegassem àquele
ponto.

— Hmm — Amerigo vacilou. — Bem, ela não foi exatamente encontrada, tio.
Ainda não.

Guid'Antonio fitou-o.

— Mas assassinada é uma palavra bastante exata, não é?

Gotículas de chuva caíam do manto de Amerigo, formando uma poça no chão.

— Claro que sim - respondeu -, mas o cavalo dela passou a galope pelo
Portão Prato há poucos instantes. Sem cavaleiro, com a sela e o arnês
ensanguentados.

— Fresco ou seco? — perguntou Guid'Antonio.

— O quê?

— O sangue.

A água aromática que Guid'Antonio salpicou no rosto não fez nada para
acalmar o calor que sentia por baixo da pele. Olhou rapidamente em redor.
Onde diabo estava Cesare quando precisava dele?

163

Amerigo entregou-lhe uma toalha.

— Quem sabe? Se o sangue estava fresco ou seco, quero dizer. Guid'Antonio


localizou as botas ao lado da cama.

— E agora a Virgem está novamente a chorar em Todos os Santos. Que


inteligente, e rápida.

— Sim. — Uma ruga instalou-se na testa de Amerigo. — Como sabia que a


Virgem voltou a chorar?

— Pela fé absoluta que tenho na humanidade. E por falar em saber, como te


chegaram estas informações?
Amerigo soprou uma madeixa de cabelo húmida do rosto e sorriu.

— Estive a pé até tarde.

— Mas não porque estivesses sem sono e a escrever no teu diário.

— Decididamente, não. — O sorriso rápido de Amerigo desvaneceu--se. —


Enquanto vinha a pé para casa, deparei-me com uma agitação que nunca
tinha visto nestas ruas. Juro, encostei-me às paredes para evitar ser
esmagado pelos traficantes e embriagados que berravam na rua acerca de um
cavalo ensanguentado, os turcos e a Virgem, que estava novamente a
chorar. Depois apareceu Palla Palmieri a troar no seu cavalo e a gritar
ordens.

Guid'Antonio colocou o manto carmesim por cima dos ombros. A túnica de


algodão branco não estava lavada de fresco, mas por agora tinha de
servir.

— Palla e os seus ufficiale?

— Exatamente. Avisou as pessoas de que se deveriam manter afastadas do


cavalo da senhora. O que foi desnecessário, já que toda a gente que tinha
duas pernas estava a correr para Todos os Santos para adorar o quadro.

Guid'Antonio prendeu a bolsa ao cinto.

— E para atirar moedas para as mãos dos monges. Falaste em sangue. Como,
se, a avaliar pelo teu aspeto, está a chover?

— Só começou a chover nestes últimos instantes, enquanto vinha para casa.


— Amerigo parou, com uma expressão profundamente pensativa. — Ao surgirem
logo após a entrada do cavalo da senhora na cidade, as lágrimas da Virgem
parecem insinuar realmente que alguém próximo teve uma mãozinha no
assunto. Certamente que os monges não iam levar a cabo um esquema tão
maquiavélico para conseguirem algumas moedas a mais na caixa de esmolas.
Desaparecer com a senhora, inventar lágrimas em Todos os Santos...

164

— Muitos homens fizeram pior por menos do que isso — disse Guid'Antonio.
— Palla está mesmo convicto de que o cavalo pertence a Camilla Rossi da
Vinci?

— Sim. No meio da agitação, disse-me que o guarda do portão que apanhou o


cavalo o reconheceu como sendo da senhora e levou-o até ao estábulo
público, onde já costumava ficar.

— Qual deles? — Guid’Antonio soprou as velas e baixou a luz da


lamparina.

— No Cascos e Fenos, mesmo no interior do portão.


— E Todos os Santos?

— Está apinhada como uma lata de sardinhas.

No corredor, Olimpia Pasquale estava em bicos dos pés, a acender os


archotes da manhã.

— Mattina — disse, sorrindo enquanto se virava para os cumprimentar, com


a expressão resplandecente quando olhou fixamente para Guid'Antonio.

— Mattina — respondeu ele, apanhado de surpresa pela reação calorosa que


o sorriso dela provocou em si. — Não está com Giovanni esta manhã?

— Não. — Olimpia esticou-se para acender outro archote, com os seios


espantosamente comprimidos contra o vestido fino do avental. — Giovanni
está com a sua senhora Maria e a mãe dela, já que as próximas horas podem
ser as últimas da sua avó. A sua senhora julgou ser o melhor.

— Maria mandou chamá-lo?

— Hmm-hmm. Eu própria o levei lá. Instruiu-me ainda que regressasse lá


mais tarde, que levasse as coisas deles e que esperasse com eles até...
bem. Entretanto, estou a acender os archotes da manhã.

Guid’Antonio olhou pelo corredor.

— Viu o Cesare?

Olimpia hesitou por um instante.

— O dia acabou de amanhecer, Signore.

— Eu vi. Quando ia a caminho de casa — interrompeu Amerigo. — Descia


apressadamente por uma viela e desapareceu por entre o nevoeiro.

Olimpia fitou a porta, mordendo o lábio.

— Olimpia, diga-lhe... — Guid’Antonio fez um gesto vago. — Olhe, deixe


lá. E com isto, Guid'Antonio e Amerigo desceram apressadamente as

escadas e atravessaram o jardim, em direção à Rua de Todos os Santos.

165

O nevoeiro, brumoso e cinzento, caía sobre a cidade como um véu húmido,


envolvendo os telhados e o Arno, onde os pescadores lançavam as redes a
partir dos seus barcos. Para cima e para baixo na rua, as pessoas
empurravam-se umas às outras para conseguirem entrar em Todos os Santos;
os seus vultos como fantasmagóricas aparições na atmosfera
cinzenta-pálida. Guid'Antonio deu meia-volta nos calcanhares e caminhou
na direção oposta, para o Portão Prato.
— Pelas chagas de Cristo! — exclamou Amerigo. — Não vamos ver o quadro
que chora?

Guid'Antonio abanou a cabeça.

— O cavalo de Camilla Rossi está entre nós, aqui em Florença, e não à


guarda dos seus captores, ou vendido algures? Esse é o verdadeiro
milagre, digo eu. Vamos ao Cascos e Fenos.

— Para trás! — Com os olhos semicerrados e com intenções selváticas, o


corpulento sargento colocado à porta do estábulo público deu um ameaçador
passo em frente.

— Stefano! Recua. — Palla Palmieri saiu do estábulo para a luz do dia,


mastigando uma palha e fixando levemente os olhos em Guid'Antonio.

— Chegou tarde. — O punhal de Palla, guardado na bainha, estava


perfeitamente visível na cintura estreita.

— Cheguei mesmo a tempo de perseguir os fantasmas.

— Pelo menos o cavalo é real. — Palla acompanhou-os para lá do guarda e


para dentro da estrutura de madeira que cheirava a aveia, suor e feno. Um
cavalo castanho colocou o nariz por cima da cerca de cima da primeira
cocheira e relinchou. De outra cocheira chegou-lhes o som de uma pá a
raspar na pedra. — É o encarregado do estábulo — disse Palla.

— Viu o cavalo de Camilla? Está aqui?

— Sim. É uma bonita e elegante égua. — Palla acenou em direção ao fundo


do edifício, para lá da fileira de cubículos estreitos. O local estava
sossegado.

Um homem corpulento com um cabelo preto selvagem que lhe emoldurava uns
olhos turvos e um rosto rosado saiu da cocheira mais próxima, armado com
uma pá cheia de estrume. Disparou um olhar azedo a Palla: Ainda aqui
está? Os seus olhos semicerraram-se ainda mais quando viu os
acompanhantes dele, um deles a usar um manto carmesim e uma túnica
enrugada, bordada com vespas de um branco leitoso, o outro impressionante

nas suas botas de cano alto e túnica lilás aberta no pescoço para mostrar
o farsetto de brocado e a rica camicia de algodão que trazia por baixo.

166

— Então o que é isto? — perguntou o homem. — Quantos cavalos querem?


Dois?

— O senhor é o encarregado do estábulo? — indagou Guid'Antonio.


— Não. Sou o rei Ferrante de Nápoles. Não percebeu? Guid'Antonio disparou
um olhar austero.

— Não precisamos de cavalos. Estamos aqui apenas para inquirir sobre a


montada que foi encontrada hoje à solta na rua.

Os lábios volumosos e vermelhos do homem entreabriram-se, revelando uma


boca cheia de dentes podres.

— A montada da senhora Camilla! — Abanou a cabeça. — Os turcos e os seus


trabalhos sujos. É o suficiente para me deixar enojado. O sangue da
rapariga derramado na sela, o sangue da rapariga derramado no freio, o
sangu...

— Mostre-nos — disse Amerigo.

— Mostro-vos o quê?

— O sangue dela! Imbecil!

Palla desviou o olhar, com um sorriso a erguer-lhe os cantos dos lábios e


os braços primorosamente cruzados por cima do peito e da simples túnica
castanha.

O encarregado do estábulo espetou o dedo ao chefe da polícia, falando


atabalhoadamente.

— Já fiz isso tudo com Palmieri! E tenho trabalho para fazer.

— Mais uma razão para responder rapidamente — disse Amerigo.

— A mando de quem?

— Meu — responderam Guid’Antonio e Palla.

— Primeiro Palmieri, agora vocês, os nossos próprios coscuvilheiros de


bairro, a farejar as portas — disse o homem. — Tão importantes que eles
são, os Vespucci! Sim, sei bem quem são. Quem não sabe?

Guid’Antonio observou-o calmamente.

— Tenha tento na língua, porque um dia pode precisar de mim e descobrir


que não me consegue encontrar.

— Apesar de tudo isso, a resposta é a mesma: da mesma maneira que não


consegui mostrar o sangue da senhora ao nosso bom chefe da polícia,
também não vos posso mostrar a vocês.

— Não pode? Ou não quer? — perguntou Amerigo.

167

O homem presenteou-os com um sorriso castanho nojento.


— Não posso. Já lavei os arreios do animal. A irritação de Guid'Antonio
inflamou-se.

— Mas era uma prova! — Olhou de relance para Palla que, tendo percorrido
aquela lenta e tortuosa estrada poucos instantes antes, ouviu com os
lábios finamente esculpidos compostos num sorriso frio.

— Fi-lo a mando do marido dela — disse o encarregado do estábulo.

— Castruccio Senso já esteve aqui? - perguntou Guid'Antonio.

— Esteve e eu faço o que me mandam — respondeu o homem.

Para quê gastar o seu latim a perguntar a um sujeito tão embrutecido como
aquele coisas complexas como quem, o quê, quando e onde? Em vez disso,
fixando-se no porquê, Guid'Antonio controlou a fúria e perguntou como
soubera Castruccio Senso que o cavalo em questão tinha sido encontrado e
levado para aquele lugar em particular, quando havia inúmeros estábulos
públicos por toda a cidade.

— Tio Guid'Antonio — interrompeu Amerigo —, eu disse-lhe que o guarda do


portão reconheceu a égua e a trouxe até aqui.

Guid'Antonio levantou a mão: agora não.

Os olhos do encarregado iluminaram-se com um certo brilho.

— Porque o cavalo é de Castruccio! — exclamou. — Tesoro. Ou melhor, é da


mulher dele. Ela chama a égua de seu tesouro. Quando o guarda do portão
trouxe o cavalo para aqui, mandei avisar Castruccio na sua casa.

— Reconheceu a égua porque Castruccio Senso tem por hábito alojá-la aqui
— disse Guid’Antonio.

— Sim. — Como podiam ser tão cabeças no ar? E eram aqueles os presumíveis
líderes de Florença? Não admirava que a república estivesse naquele
estado.

— Ela é uma beleza — declarou o encarregado do estábulo. — A égua, quero


dizer. Embora o mesmo se pudesse dizer da senhora Camilla Rossi da Vinci.
Uma verdadeira Madonna, e agora... — Estremeceu. — A seguir os turcos vão
aparecer a voar por cima dos nossos portões com asas incandescentes e
devorar-nos com as suas presas como os lobisomens que caçam nas ruas à
noite. As nossas almas vão passar a eternidade no Inferno, graças ao
anticristo que quer destruir a nossa cidade.

Guid'Antonio cerrou os dentes. Nem valia a pena perguntar-lhe a que


anticristo o sujeito se referia.

— O sangue: estava fresco?

168
— Como assim?

— Se estava fresco em vez de seco — respondeu suavemente Guid'Antonio.

— Sim.

— Como lhe pareceu Castruccio quando viu Tesoro?

— Como me pareceu? — repetiu o homem.

— Se ficou perturbado, por amor de Cristo! — exclamou Amerigo. — Afinal,


a mulher dele está desaparecida e este era o seu cavalo!

Palla deu uma valente gargalhada. O encarregado do estábulo recuou,


ofendido.

— O que acha? Castruccio Senso está terrivelmente mal. Ele queria ver--se
livre do sangue, e depressa. Embora se vá recordar suficientemente bem da
imagem, depois de um caçador qualquer ter tropeçado no cadáver da sua
mulher, ou no que os turcos deixaram dele. — O encarregado persignou-se.

— Parece que «depressa» é uma palavra fundamental neste local — disse


Guid'Antonio, olhando de relance para Palla. — Tesoro ainda está na
cocheira dos fundos?

— Está. Para a manter em segurança. E para evitar futuras manipulações. —


Palla virou-se para Amerigo. — Pode ir buscar o animal, por favor?

Um instante depois, Amerigo estava já a conduzir Tesoro em direção a


eles.

— Olhem só para esta beldade — disse.

Guid'Antonio olhou e fitou a égua. Esplêndida e negra, a égua de Camilla


Rossi da Vinci tinha um pescoço orgulhoso e curvo e uma longa crina,
grossa e encaracolada. A cauda do animal, uma abundante cascata de ondas
de ébano brilhante, afagava o chão do estábulo. Apesar do magnífico
aspeto da égua, os seus olhos tremeluziam, mostrando medo.

— Julgo que é um andaluz — disse Palla.

— Exatamente, é uma raça espanhola. — O entusiasmo fazia a voz de Amerigo


estremecer. — Já ouvi falar deles. — Com mãos gentis, acalmou os
movimentos inquietos da égua, passando com os dedos pelas costas e
cernelhas, descendo depois por cada uma das patas, inspecionando os
cascos e a seguir os dentes. Esfregou suavemente o ombro do animal. —
Está em excelentes condições. Bem alimentado, e tem alguns emaranhados na
extraordinária melena de caracóis da crina e da cauda.

— No entanto, esteve desaparecida e presumivelmente perdida por aí


durante quase duas semanas — disse Guid'Antonio.

O olhar negro de Palla concentrou-se no encarregado do estábulo.


169

— Diga-me, por favor, a sua explicação para este facto.

O homem levantou as mãos, num gesto de abnegada adoração:

— Estamos inundados de milagres.

Palla dirigiu um olhar sorridente a Guid’Antonio.

— É impressionante, não é, como subitamente Ele os faz com tanta


prontidão?

Saíram para a rua. O sol já tinha derretido a maior parte da humidade da


manhã; o dia prometia céu azul e límpido e um escaldante calor de verão.

— Esta última questão apresenta-nos mais perguntas do que respostas

— disse Guid'Antonio, caminhando ao lado de Amerigo e de Palla ao longo


da Rua de Todos os Santos.

Palla concordou.

— Uma coisa é certa: os turcos jamais teriam libertado um animal com esta
qualidade. Poucas pessoas o fariam. Mas, de qualquer maneira, alguém
andou a cuidar de Tesoro durante este tempo todo, até hoje de manhã.

— Como explica o sangue?

Palla deu uma gargalhada ríspida.

— Eu, como o senhor, sei que essa é a principal questão, a par do papel
de Castruccio Senso em tudo isto. Os freios e a sela estão sob minha
custódia, caso deseje examiná-los. Tristemente, já não resta qualquer
indício de sangue.

— Que generoso da sua parte. Palla encolheu os ombros.

— Trabalhamos ambos para o mesmo homem.

— Julguei que o caso de Camilla estivesse encerrado. Oficialmente — disse


Guid António.

— E está. Conto consigo para me informar de qualquer progresso que faça


com a sua investigação particular em nome de Lorenzo. Imediatamente

- disse Palla.

— Sabe que o farei. Palla, Camilla levava algumas moedas ou usava algumas
joias quando desapareceu? Isso constituiria motivo suficiente para alguns
homens a emboscarem.

Palla abanou a cabeça.


— Não. De acordo com o seu cauteloso marido, levava apenas vales de
viajante, que ainda estão para aparecer sob a luz do dia.

Amerigo tocou na manga de Guid'Antonio.

170

— Olhe para aquilo.

A sua frente, a Praça de Todos os Santos era um emaranhado de homens,


mulheres e crianças que abriam caminho à cotovelada para entrarem pela
porta da igreja.

— Ali está uma situação perigosa. Medo, ânimos alterados e uma centelha
de salvação.

— É uma descrição bastante sagaz do papa e de Lorenzo — disse Amerigo.

— Palla — chamou Guid’Antonio. — Tem a certeza de que Tesoro estava com


Camilla quando ela partiu de Florença?

— Tenho. De acordo com a ama e o escravo da senhora, assim como de uma


mão cheia de testemunhas oculares.

— E temos a certeza de que havia sangue nos arreios de Tesoro quando a


égua entrou disparada pelo portão, hoje de manhã?

— O guarda do portão que a perseguiu e apanhou confirmou que sim.

— E o encarregado do estábulo disse que o sangue era fresco?

— Sim. Já tenho um homem a seguir Castruccio — disse Palla. — Assim como


sargentos colocados aqui e acolá. — Gesticulou amplamente, incluindo
Todos os Santos, Trindade e as ruelas secundárias que levavam a Santa
Maria Novella. - E na Via Larga também - disse -, caso as pessoas decidam
levar a sua paixão para lá da sua igreja e até ao Palácio Medici.

Guid'Antonio ainda pensou em contar a Palla sobre o homem que o seguira


pela cidade duas noites antes, na segunda. Em vez disso, perguntou:

— Sabe por onde andou Castruccio Senso na noite passada? Talvez o cavalo
tenha surgido com a intenção de nos levar na direção oposta do seu dono.

— Esteve em casa. O vigia de noite confirmou-o.

O vulto esguio de Palla, com o seu manto castanho, cortou um amplo


corredor no meio da multidão, enquanto se dirigia para Bargello, a cadeia
pública; ao mesmo tempo, a cabeça de Guid’Antonio zumbia com tantas
perguntas, de entre as quais a mais importante era a seguinte: por que
motivo um homem que tinha provas, frescas ou já secas (o homem do
estábulo dissera que eram «frescas», mas como acreditar num néscio
daqueles?), as mandaria eliminar, sendo que estas provas podiam ajudar a
esclarecer o desaparecimento e o possível assassinato da sua mulher, a
não ser que fosse ele mesmo culpado de a mandar matar, ou de a ter matado
com as próprias mãos?

171

O facto de Tesoro ser libertada apenas para ser encontrada dentro das
muralhas da cidade, quando Castruccio Senso estava em casa sugeria que
havia mais forças em funcionamento.

Se o sangue fosse realmente de Camilla... isso queria dizer que a


rapariga fora magoada — arrepiou-o pensar na palavra assassinada —
naquele mesmo dia.

Aquela nova reviravolta no desaparecimento de Camilla Rossi da Vinci


perturbava-o.

Perturbava-o também o que tinha este desenvolvimento que ver com as


lágrimas em Todos os Santos.

172

Capítulo DEZASSETE

A entrada de Todos os Santos, Guid'Antonio e Amerigo encontraram o irmão


Battista Bellincioni, o beneditino robusto da Ordem dos Humiliati que
estava encarregado das esmolas. Alfaiates, vendedores de sedas, ourives
de prata, joalheiros e cirurgiões acotovelavam-se para passarem pela
porta estreita e entrarem na nave, ao lado de cerzidores, tosquiadores e
pobres criadas de cozinha a cheirarem a gordura. Prostitutas com capuzes
verdes e campainhas nos cabelos e pescadores: todos abriam as mãos para
deitar as suas preciosas moedas na caixa de madeira das esmolas de
Bellincioni.

— O prior abade questionou-se quanto tempo passaria até que viesse aqui
meter o nariz — fungou o monge, levantando-se um pouco nas sandálias, com
uma voz contida e arrogante.

— Buona mattina para si também — disse Guid'Antonio. — Ontem à noite


também cá vim meter o nariz. Mas, como é óbvio, já sabe disso. Ouvi dizer
que a Virgem Maria está a chorar.

O rosto de Bellincioni fechou-se numa expressão carrancuda.

— E tem boas razões para o fazer.


Guid'Antonio deu uma cotovelada em Amerigo, que se comprimiu contra as
pessoas que tentavam entrar na igreja.

— E que boas razões são essas? — perguntou Guid'Antonio. O queixo gordo


de Bellincioni ergueu-se ligeiramente.

— Está aqui na qualidade de devoto ou como um espião de Lorenzo, o


Magnífico?

— Estou aqui como alguém que todos os anos gasta milhares de florins na
decoração desta igreja — respondeu Guid'Antonio, gesticulando para a
parede da direita, que ficava a uma curta distância do corpo quadrado do
monge.

173

— Que encomendou, por exemplo, o fresco de Santo Agostinho que Sandro


Botticelli acabou de completar. Ah. Adoro o cheiro da tinta fresca. O
padre não?

Bellincioni enrugou o rosto e estendeu a caixa de esmolas a Guid'An-


tonio.

— Acha que sei de tudo?

— Deus do céu, não. Mas saberá o suficiente para me poder responder. —


Guid’Antonio tirou uma moeda da bolsa e colocou-a na caixa, onde aterrou
com um tilintar metálico.

— Olhe à sua volta — sibilou o monge com os olhos pretos radiantes e


penetrantes. — A nossa Mãe Abençoada está a chorar pelos seus filhos
esquecidos. Não por si nem por nenhum da sua espécie. Foi o senhor e
outros como o senhor que nos enganaram para que comungássemos quando a
Santa Madre Igreja nos proibiu de o fazer. E continua a proibir, embora
ninguém nos tenha dito nada antes ou desde então. São homens como o
senhor que nos tapam os olhos uma e outra vez, que nos enganam para
contrariarmos a vontade de Deus e que querem que as nossas almas sejam
condenadas à eternidade no Inferno!

— Não é a vontade de Deus, mas a do papa — disse Guid’Antonio.


Bellincioni estremeceu com tamanha indignação que as moedas chocalharam
dentro da caixa, como se também elas se sentissem ultrajadas.

— Deus vai castigar-vos! Vai castigar-nos a todos! — exclamou,


balançando-se para cima e para baixo nos dedos dos pés. — Já nos
castigou, com pragas nas ruas e estômagos vazios! A seguir, vai enviar os
infiéis para nos destruírem, como destruíram a inocente senhora. Se é que
alguma vez uma mulher mortal pode ser inocente. É a Cruz versus o
Crescente, na nossa própria cidade. A derrota do cristianismo, graças ao
Diabo que vive enterrado no coração do bairro do Leão Dourado!
— Tenha vergonha, Bellincioni — disse Guid’Antonio, com uma voz ríspida.
— É o senhor e outros como o senhor que mantêm esta miséria florescente.
E o que sabe sobre estômagos vazios? Ao que parece, não anda a saltar
muitas refeições.

— É a boca de Satanás! — O irmão Bellincioni deu meia-volta e apressou-se


a entrar na igreja, procurando o conforto dos seus irmãos beneditinos.

174

Eram perigosos aqueles religiosos, com as suas cabeças rapadas e atitude


de quem se achava melhor do que os outros. Era perigoso o domínio que
tinham sobre o sagrado e sobre os necessitados.

Guid'Antonio esgueirou-se até ao santuário. Um homem cambaleou por cima


dele, levando uma menina pequena pela mão. Um jovem empurrou-o, abrindo
caminho à cotovelada. Os olhos de Guid’Antonio ajustaram-se lentamente à
média luz. No espaço sombrio cheirou-lhe a suor e a almíscar misturado
com... que cheiro era aquele? Era um odor que não conseguia identificar,
qualquer coisa podre que pairava por baixo do cheiro habitual da igreja a
incenso, cera de velas e pedra.

Foi avançando com dificuldade, rodeado de orações que se elevavam em


direção ao teto abobadado.

— Maria, Mãe de Deus, aproximando-nos de ti, chegaremos mais perto de


Deus e do Seu Filho. Maria Amantíssima, intercede por nós, terríveis
pecadores. Madonna, salva-nos da condenação eterna e dos anjos do
Inferno. Nostra Signora dell' Impruneta, prega per noi!

Guid’Antonio suspirou, olhando em direção às vigas do teto, onde não viu


sinal de qualquer pequena andorinha ou de qualquer outra criatura alada
que pudesse investir rapidamente sobre a sua cabeça. Onde estavam os
anjos a cantar? As pombas brancas que traziam os ramos de oliveira da
paz? Cuidado se os vissem. Passou pela Capela Vespucci e pelo idoso santo
de Sandro, um homem de barba branca que, se pudesse falar, diria sem
dúvida que tinha visto tudo. Guid'Antonio desviou o olhar. Mais abaixo na
nave, localizou Amerigo junto à balaustrada do altar e viu-o a ajoelhar-
se e baixar a cabeça para rezar.

A esquerda de Guid’Antonio ficava a porta de madeira que dava acesso ao


jardim da igreja. A porta estava fechada. Para a direita, no lado oposto
do santuário, os hábitos negros dos monges esvoaçavam em redor dos seus
tornozelos enquanto procuravam uma direção, primeiro para um lado, depois
para o outro, passando por capelas construídas por famílias como a de
Guid’Antonio. Os seus pensamentos viajaram até uma outra igreja, num
outro tempo, quando a hesitação e a incredulidade o refrearam até ser
demasiado tarde para salvar Giuliano de' Medici.
O seu estômago ardeu-lhe, como se tivesse ácido. Demasiado tarde.
Demasiado morto. Para!

175

Junto ao altar, o coração de Guid'Antonio sobressaltou-se e parou. Ali,


num círculo de luz, estava o painel pintado: a Virgem Maria de Santa
Maria Impruneta, exatamente como quando o visitara, duas noites antes.
Mas agora, as lágrimas escorriam dos olhos da Virgem até às faces
pálidas. As lágrimas humedeciam as pérolas pintadas e o halo dourado que
rodeava a cabeça de Cristo em menino, sentado no seu colo. Onde antes
vira apenas tinta vermelha e verde esbatida, estava agora uma cor
prateada e húmida das lágrimas. Comprimiu-se ao lado de Amerigo, junto à
balaustrada. Unidos, ficaram de joelhos durante muito tempo, em frente ao
quadro milagroso.

Depois da luz difusa do santuário, a luz da praça fez arder os olhos a


Guid’Antonio. Inspirou profundamente, pestanejando, enchendo o peito de
ar e saboreando a intensidade do sol que lhe aquecia o rosto. Do outro
lado da praça, as águas do Arno brilhavam, douradas e vigorosas.

— É quase meio-dia — disse Amerigo, levantando o rosto para a luz, como


se também ele sentisse necessidade dos poderes curativos do sol sobre as
pálpebras e faces.

Guid'Antonio olhou de relance por cima do ombro, ao ver o substituto do


irmão Bellincioni a empurrar a caixa das esmolas na direção de um mar de
mãos que pagavam o bilhete de entrada na Igreja de Todos os Santos — o
que mais se podia chamar às moedas que as pessoas colocavam na caixa?

— Estes monges são como ervas daninhas — disse. — Quando se arranca um,
aparece logo outro.

Américo riu-se.

— Em breve, os nossos beneditinos serão mais ricos do que o rei Midas. E


onde havia dinheiro havia poder. Guid'Antonio estava prestes a dizê-lo em
voz alta quando uma mulher vestida com farrapos e um bebé à cintura
chocou cegamente contra ele. Os seus olhos, plenos de medo, fixaram-se
nos de Guid'Antonio. Ele deu um passo para o lado e a mulher desapareceu
num instante, com o corpo ossudo a ser engolido pelas sombras da igreja.

— Pobre mulher. Por amor de Deus, o que está acontecer à nossa cidade? A
nossa igreja? — Amerigo estendeu a mão e tocou gentilmente no ombro de
Guid'Antonio. — A Toscana. Quem é o responsável por esta loucura
desenfreada?

Por um instante, Guid'Antonio não respondeu. O seu olhar viajou até ao


Arno, para cima, até à Igreja de São Miniato, empoleirada numa colina
176

com vista para Florença. De onde estava, na Rua de Todos os Santos, o


templo parecia simples e pequeno, quando na verdade a sua fachada era um
gracioso desenho de lustrosos mármores verdes de Prato e brancos de
Carrara. A par do mosteiro e do Palácio do Bispo, os terrenos mantidos
pelos monges Brancos Beneditinos de Monte Oliveto continham muitas
oliveiras, produziam um excelente vinho e mel grosso e dourado.

Deixou escapar um suspiro solto, pensando na mulher esfarrapada que ainda


agora cambaleara ao lado dele. O seu cabelo, que noutra altura talvez
fosse tão grosso e brilhante como o de Maria, caía-lhe agora em redor dos
ombros em madeixas castanho-rato. O rosto dela estava tão seco e a pele
tão pálida, que parecia nem ter sangue. O odor forte que cheirara no
interior da Igreja de Todos os Santos era o fedor a pobreza e a medo.

— Não sei quem é o responsável — disse. — Mas juro, pela sepultura da


minha mãe, que vou descobrir.

Novamente em movimento, viraram para uma passagem ladeada por vendedores


que apregoavam crucifixos de madeira baratos com miniaturas da Virgem
Maria de Santa Maria Impruneta. Recusando as ofertas dos vendedores,
atravessaram uma pequena praça, onde uma mulher cega pedia esmola.
Amerigo tinha a bolsa vazia. Mas Guid'Antonio colocou uma moeda de prata
na mão retorcida da pedinte e continuou a andar em direção ao bairro do
Leão Dourado e ao príncipe da cidade.

— O pequeno cavalo aparece e a Virgem começa a chorar. Quem terá a


inteligência de inventar um esquema tão maquiavélico? E ainda fazer de
mim o Diabo. — No interior do Palácio Medici, Lorenzo caminhava nos
confins do seu studiolo iluminado pelas velas, com os olhos castanhos-
escuros como carvalhos e brilhantes de frustração e fúria.

— A questão é essa — disse Guid'Antonio.

Instantes antes, alertado por um criado, Lorenzo tinha ido ao encontro


dos Vespucci vindo de um jardim interior, com um sorriso brilhante como a
luz do sol que lhe caía sobre a cabeça. Com os tacões das botas a baterem
sonoramente no chão de pedra, atravessou a loggia de arcadas com ambas as
mãos estendidas num cumprimento.

— Benvenuti in questa casa! Obrigada por aparecerem.

Abraçara-os a ambos de modo casual, quase ligeiro, enquanto os peões


acanhados se apressavam na Via Larga, para lá do portão principal do
palácio.

177
— Como estava França, Amerigo? Conheceste Catto? — Angelo Catto,
astrólogo do rei Luís XI.

— Em Paris, sim. — Amerigo respondeu no mesmo tom alegre, enquanto ele e


Guid'Antonio se apressavam a subir as escadarias curvas de pedra atrás de
Lorenzo, até aos aposentos privados da família Medici. — Passámos algum
tempo com Catto no apartamento de monsieur Phillip. Não estávamos na
corte — acrescentou Amerigo apressadamente.

— Phillip de Commines, ora aí está um bom homem. O Catto fez uma leitura
das tuas estrelas? Previu o teu destino?

— Sim. - E?

— Vou viajar para longe neste mundo — respondeu Amerigo.

— Já viajaste — disse Lorenzo, sorrindo, enquanto caminhavam por um


corredor com salas de ambos os lados. — Eu nunca fui a França.

Amerigo lançou um olhar interrogativo a Guid'Antonio. Ele também nunca


tinha estado no primeiro andar do Palácio Medici. Guid’Antonio encolheu
os ombros, presumindo que se dirigiam à Capela Medici, onde poderiam
falar sem receio de serem ouvidos. Deus sabia que já lá tinha estado
inúmeras vezes com Lorenzo. Mas Lorenzo passou pela capela e continuou a
andar, virando-se e indicando-lhes um aposento espaçoso. Passaram por uma
enorme cama, adornada com painéis bordados com um motivo de falcões e
arganazes. Estavam no quarto de dormir de Lorenzo e o anfitrião não
mostrava sinais de querer abrandar o passo.

Guid'Antonio nunca tinha entrado tão profundamente nos aposentos privados


de Lorenzo, embora fossem amigos íntimos. Era intrigante. E lisonjeador,
já que em Florença a posição de um homem era avaliada de acordo com a
intimidade que lhe era permitida ao entrar na casa de outro homem. A
expressão «digno de confiança» surgiu na cabeça de Guid'Antonio.

Lorenzo acendeu lamparinas e velas e as chamas dançaram em redor deles,


banhando a sala onde acabavam de entrar numa luz dourada. Ao olhar em
redor, Guid'Antonio teve a sensação de que entrara numa arca do tesouro.
Por cima das suas cabeças, doze mosaicos Delia Robbia azuis e brancos
envernizados ganharam vida. Nas paredes encontravam-se muitas prateleiras
com livros, alguns deles acabados de imprimir, outros manuscritos de
ilustrações antigos. Camafeus antigos, bronzes, moedas e pedras
preciosas. Jarras brilhantes romanas, bizantinas, persas e venezianas. A
juntar a tudo isto, havia ainda uma elegante secretária de madeira de
nogueira com um candeeiro de bronze polido, suspenso para facilitar a
leitura.

178
Aquele era o refúgio de Lorenzo, o seu lugar mais privado, o seu covil no
coração do bairro do Leão Dourado.

Amerigo tocou cautelosamente num livro colocado à altura dos ombros numa
prateleira.

— Estou quase paralisado de deslumbramento. Tantos livros. E a iluminação


é maravilhosa.

— Obrigado, sim — respondeu Lorenzo, distraído. — Podes levá-los


emprestados sempre que quiseres.

Guid'Antonio semicerrou os olhos. Lorenzo de' Medici não estava


preocupado com os seus bens mais preciosos, mas com um quadro que
chorava, com uma rapariga desaparecida e um cavalo perdido que acabara de
ser encontrado.

Contorceu-se na cadeira de couro rijo junto à secretária enquanto Lorenzo


andava de um lado para o outro no pequeno studiolo.

— O que sabe? — perguntou Guid'Antonio.

— Não o suficiente. Apenas o que ouvi dizer a um criado hoje de manhã


cedo. O cavalo, a Virgem Maria e ainda a ausência de sinais de Camilla
Rossi da Vinci. Jesus, Maria, José. - Por muitas vezes que penteasse os
cabelos para trás com as mãos, Lorenzo não conseguia impedir que lhe
caíssem em asas negras em volta do rosto.

— Palla não esteve aqui? -Não.

— Ele tencionava colocar os seus sargentos na Via Larga. Lorenzo voltou-


se subitamente.

— No meu portão? Que mensagem transmitiria semelhante coisa? Que sou um


cobarde? Não!

Guid'Antonio engoliu um protesto. A exposição pública constante de


Lorenzo preocupava-o. Nas ruas, na Catedral de Florença, Lorenzo aparecia
sempre que lhe apetecia. Guid'Antonio afastou o pensamento daquele vasto
local. Se Lorenzo de' Medici recusava a proteção policial, não havia
muito que pudesse fazer acerca disso. Em vez de insistir no assunto,
explicou detalhadamente como a égua aterrorizada tinha galopado pelo
Portão Prato e como o marido de Camilla, Castruccio Senso, ordenara
imediatamente ao encarregado do estábulo que lavasse a criatura e
esfregasse o corpo ensanguentado.

179

— E ele obedeceu?

— Naturalmente.
— Imbecil! — Lorenzo agitou a mão pelo ar. — Foi essa a reação de
Castruccio Senso? Apagar todas as provas?

— Não queria quaisquer lembranças visíveis do desaparecimento ou possível


morte da esposa. Presumivelmente — disse Amerigo, desviando a atenção de
um exemplar da História Natural de Plínio, o Velho.

— Ignare! Idiota! A cada hora que passa, este assunto fica mais estranho.

— A sombra de Lorenzo elevava-se, volumosa, na parede, enquanto andava de


um lado para o outro. — Passei a manhã inteira a escrever cartas. A reis,
a sacerdotes. Nada de novo. — Massajou as mãos como se lhe doessem e
precisassem de conforto. - Julguei que Camilla estivesse feliz e contente
algures. Como você, Guid’Antonio. Mas agora, com a sela ensanguentada da
sua montada, quão contente estará? Embora o sangue possa ter vindo de
qualquer criatura da floresta, de uma lebre, de uma raposa ou de um
esquilo. O que sei é que ela não se separaria de boa vontade daquele belo
tesouro equino.

Guid’Antonio fingiu calma, como se o seu coração não tivesse começado a


bater mais depressa.

— Conhece o nome do cavalo?

— Tesoro? Naturalmente. Não há em toda a cidade uma égua como aquela. E


como a rapariga também não — acrescentou Lorenzo com um olhar sorridente.

Guid’Antonio ponderou as palavras de Lorenzo e guardou-as.

— Então, seja ou não o seu sangue na sela, a senhora pode ter sido
separada do seu corcel à força.

— É arrojada a noção de um esquema entre ela e um possível amante

— disse Amerigo. — Nenhum homem seria insensato a esse ponto. Se


separarmos uma senhora do seu pássaro ou gato de estimação, é certo que
nos recusará favores. Mas quem será ele? — Tirou o exemplar da História
Natural da prateleira.

Lorenzo deu uma risada.

— Se soubéssemos a resposta para essa pergunta, tínhamos toda a questão


resolvida.

— O marido? - Guid’Antonio desejou que Lorenzo se sentasse. - Espicaçado


pelo ciúme? Um marido enganado. E ainda por cima sendo ele um dos seus
fornecedores.

Lorenzo olhou para ele com dureza.

180
— Já falámos disso. Sim. Castruccio Senso é vendedor de vinho. De vez em
quando, trata também do nosso azeite e do vinho, como acontece na sua
casa, não tenho dúvidas. E não. Nunca seria obra de Castruccio Senso,
fosse qual fosse o motivo. Ele não tem as bolas no sítio, para o fazer.

Guid'Antonio lembrou-se do brasão de Lorenzo: seis palle, ou bolas, cinco


vermelhas e uma azul-safira, brasonada com três flores-de-lis sobre um
fundo dourado, cujo desenho ornamentava tudo, desde as capas dos
manuscritos iluministas de Lorenzo até aos arreios dos cavalos de
torneios, exatamente como os brasões do seu pai e do seu avô marcavam as
paredes do Palácio Medici e de inúmeros edifícios florentinos que tinham
construído, resgatado e renovado. Bolas, deveras.

Sentia que andavam a caminhar em círculos, e que o faziam desde o início


do mistério.

— Então quem será?

— Os monges — disse Amerigo. — Eles têm bolas que se fartam. Lorenzo deu
uma gargalhada.

— Mas terão a inteligência? E, de qualquer maneira, fazer um plano tão


elaborado para ganhar algumas moedas extra? Se for esse o caso, cubro
ducado por ducado, se acabarem com este disparate.

— Se forem eles os culpados, não será apenas pelas moedas, mas também
devido à lealdade em relação ao papa — disse Guid'Antonio.

Lorenzo fitou-o com uma expressão austera nos olhos e na boca.

— Que se enforque o papa. E os monges de Todos os Santos. Guid'Antonio


fechou os olhos por instantes, rezando por alguma

orientação.

— Depois de as coisas acalmarem um pouco, pretendo regressar à igreja e


falar com o abade Ughi.

— Porque não se limita a examinar o quadro? Para ver o que — quem -está a
causar as lágrimas da Virgem, agora que voltaram a cair.

Guid'Antonio deu uma gargalhada.

— E ficar exposto perante os monges, que certamente me saltariam em cima


e fariam troça de mim nas ruas? Não me parece. — Além de que ele já
inspecionara o quadro e, segundo cria, não descobrira nada.

Lorenzo caminhava de um lado para o outro.

— Acredita realmente na ideia de que o abade Ughi, aquele velho devasso,


vai partilhar alguma coisa consigo, a não ser como os seus rapazes são
bonitos?
181

A natureza obstinada de Guid'Antonio veio ao de cima.

— Talvez o faça inadvertidamente. - Não havia apenas um enigma ali, mas


pelo menos dois. — Quem além do marido sabia que Camilla ia sair da
cidade na semana em que desapareceu? — Cristo do céu, estava a começar a
sentir que conhecia a rapariga. Talvez devesse ter examinado a crina e a
cauda de Tesoro, à procura de sinais de arbustos ou ervas, quando teve
oportunidade de o fazer no estábulo Cascos e Fenos. De alguma folhinha
manhosa que crescesse fora do contado. Mas não era jardineiro, nem um
monge ervanário. E de qualquer maneira, era tarde de mais. O maldito e
obediente encarregado do estábulo já tinha tratado da égua.

— Quem não sabia? — Lorenzo incluiu o mundo com um aceno de mão. — Quando
Palla interrogou Castruccio Senso depois do desaparecimento de Camilla,
ele admitiu que tinha dito para quem quisesse ouvir que a mulher ia de
viagem para as termas. Idiota.

Guid'Antonio ficou de boca aberta, enquanto Lorenzo se afastava com as


costas largas viradas para ele.

— Termas? A que termas se refere? Lorenzo virou-se, fitando-o.

— Às nossas, em Morba.

Ali estava o detalhe que nos últimos dias escapara a Guid'Antonio. A


senhora era de Vinci; porém, as pessoas diziam que ela tinha viajado para
Morba. Tanto Luca Landucci como Lorenzo lhe disseram a mesma coisa na
segunda-feira, embora nenhum dos dois tivesse mencionado as termas de
Morba e as suas águas medicinais. Partira do princípio de que Camilla ia
fazer uma visita à família e não pensara muito sobre o seu destino.
Porquê Morba? Porquê umas termas?

E quem era a proprietária da estância, Bagno a Morba, senão Lucrezia


Tornabuoni de' Medici, a gentil e empreendedora senhora que, três anos
antes, alugara as termas, duplicara o fornecimento de água, acrescentara
um hotel e alugava agora as novas acomodações aos visitantes, e que era
nada mais nada menos do que a mãe de Giuliano e Lorenzo de' Medici.
Admirada, como o seu filho e o seu amigo agora posto de parte, Angelo
Poliziano, como uma das mais conceituadas poetisas de Itália. Círculos,
pensou Guid’Antonio. Elos.

— Camilla estava doente? — perguntou, como um homem que vem à tona de um


lago quente e lúgubre.

— Tanto quanto sei, não. Mas também eu não saberia da sua saúde, pois
não? — O comportamento de Lorenzo era absolutamente normal.

182
Uma jovem mulher que ia para as termas de Morba, fosse qual fosse a sua
terra, sem o marido? Que estranho.

— É muito estranho o facto de ter viajado sozinha — disse Guid'Antonio.

— Ela não foi sozinha — disse Amerigo. — Levava a ama e o rapaz escravo
mouro.

— Ainda assim. - Guid’Antonio pensou em tudo aquilo e questionou: -


Lorenzo, alguma vez lidou com o pai de Camilla, Jacopo? Uma vez que é
vinicultor?

— Queira Deus que não! — interrompeu Amerigo. — Ele tem um tremendo mau
feitio. Il Magnifico, ontem à tarde, em São Miguel, Jacopo causou cá uma
comoção...

— Não vale a pena dispersarmo-nos — disse Guid'Antonio, dando uma palmada


leve no lado da perna de Amerigo com as costas da mão.

— Jacopo Rossi da Vinci? - perguntou Lorenzo. - Viram-no aqui em


Florença? O que disse ele a respeito da filha?

— Ele saiu de São Miguel antes de termos oportunidade de lhe falar


-respondeu Guid’Antonio.

— «Saiu»? - Amerigo olhou fixamente para o tio. - Ele praticamente...

— Não importa — disse Guid’Antonio.

Os olhos de Lorenzo viajaram entre Guid’Antonio e Amerigo e vice-versa.

— Não conheço Jacopo. Quem trata desses assuntos são os meus parceiros de
negócios. As nossas lojas de sedas, assim como as de azeitonas e vinhos,
e de tudo o resto que possuímos. Sabe que Palla o interrogou. Na povoação
de Vinci, onde Jacopo vive.

— Sim. E? — perguntou Guid'Antonio. Lorenzo encolheu os ombros.

— Segundo parece, Jacopo Rossi da Vinci falou tanto como um mudo. A


resposta de Lorenzo era no mínimo insatisfatória, uma vez que de

acordo com o que Guid'Antonio testemunhara no mercado, Jacopo, com o seu


olhar penetrante, não era exatamente um homem que se pudesse chamar de
calado. Se, por outro lado, Palla Palmieri tinha ido até Vinci há cerca
de uma semana e declarara que Jacopo não sabia de nada, isso devia
satisfazer Guid’Antonio. Mas não satisfazia.

— Acabaram de vir de Todos os Santos - disse Lorenzo.

— Sabe que sim. - E?

183
— As emoções estão ao rubro, as pessoas estão assustadas e zangadas, as
sementes para uma terrível violência já foram plantadas.

— Por Maria! — exclamou Lorenzo entre dentes. — Eu sabia. Temos de


acalmar Florença.

— E é isso que faremos. Vamos encontrar o culpado e...

— Sim! — concordou Lorenzo. — Mas há uma coisa: temos de ganhar o terreno


perdido na cidade e também dentro do nosso próprio círculo.

Amerigo ergueu o sobrolho e olhou para Guid'Antonio, que abanou a cabeça.


Eu sei onde ele quer chegar com isto, Amerigo. Permanece em silêncio.

Lorenzo virou a cadeira em frente a Guid’Antonio e sentou-se nela ao


contrário, encarando-o do outro lado da secretária.

— Vou falar com franqueza — anunciou.

— Como sempre fala.

Um ligeiro rubor espalhou-se pelas faces elevadas de Lorenzo.

— Quem sabe até onde irão alguns dos nossos amigos enquanto estamos numa
posição fragilizada e quando lhes surge uma oportunidade destas para
apanharem o poder? Vimos o quão longe se pode estender o orgulho com a
arrogante família Pazzi. — Pegou numa medalha de bronze exposta numa
caixa de madeira que estava em cima da secretária e brincou com ela por
entre os dedos.

Era a medalha que Lorenzo encomendara para celebrar o ataque que lhe
fizeram a ele e a Giuliano na Catedral. Pequena, mas muito detalhada, de
um dos lados mostrava Lorenzo a combater os seus atacantes. Do outro
lado, Francesco de' Pazzi erguia o seu punhal por cima de Giuliano, que
jazia morto no chão da igreja.

Guid’Antonio recuou na cadeira, endireitando os ombros. Sentia-se rodeado


de objetos Medici por todo o lado, sem possibilidade de escapar às suas
memórias.

— Escutem — disse Lorenzo —, antes de partir para Nápoles, circulavam


pelas ruas queixumes por causa da guerra. Enquanto lá estive, os nossos
adversários murmuravam que talvez encontrasse a minha morte às mãos do
rei Ferrante. No entanto, aqui estou. Pus a minha própria vida em risco
ao apresentar-me perante Ferrante e ao perseguir a paz, já que isso
significava que relacionava intimamente a minha casa com os problemas
contínuos da cidade. Sei disso e não me arrependo nem um pouco, pois fi-
lo em nome da paz. Não estava certamente à espera de ver que os meus
esforços me seguiram para me morderem o rabo.

184
Amerigo deu uma gargalhada, mas ficou em silêncio quando Guid’Antonio
disse:

— Está convicto de que os queixumes dentro das nossas muralhas constituem


uma ameaça genuína ao regime?

Lorenzo debruçou-se na direção dele, com as faces invulgarmente magras,


quase encovadas, à luz das velas.

— A situação é tão perigosa como quando os homens sem escrúpulos tentaram


substituir o meu pai e o meu avô enquanto líderes da cidade. E, mais
recentemente, a mim.

— Todos falharam miseravelmente — disse Guid’Antonio. As famílias


Albizzi, Pitti e Pazzi.

— Mas não sem custos tremendos. Vivo todos os dias com a morte do meu
irmão no pensamento.

Também eu, pensou Guid’Antonio. E sabe muito bem disso. Lorenzo levou a
medalha aos lábios antes de a devolver à caixa, com a face de Giuliano
virada para cima.

— Esta não é a altura indicada para arrastarmos os pés.

— Tem algum plano?

— Ainda não — Lorenzo desviou o olhar —, apenas algumas ideias que


envolvem mudanças.

Os pensamentos de Guid’Antonio eram como fibras de lã gastas que


procuravam tecer-se num desenho ou padrão.

— Encontrar Camilla, desmascarar o quadro...

— Estou a falar de mudanças no nosso governo e facão — disse Lorenzo


subitamente. — Estou a falar sobre as nossas vidas e as vidas das nossas
famílias. Sobre a nossa iminente ruína. Quando chegar a altura de tomar
uma atitude, preciso de si ao meu lado. — Um sorriso espalhou-se pelos
seus lábios carnudos. — É a minha voz da razão.

O que queria Lorenzo dizer exatamente com «mudanças»?

A resistência trepou pelas pernas de Guid’Antonio e instalou-se no seu


peito, por baixo dos atilhos da túnica encharcada de suor. Embora fosse
digno de admiração, o pequeno escritório sem janelas tornou-se
subitamente tão quente como as próprias chamas do Inferno. Ficou sentado
a pensar, enquanto os segundos passavam, com o olhar fixo na parede, nas
sombras, nas costas de Lorenzo. Ali, numa prateleira, estavam colocadas
pequenas esculturas e jarras e um camafeu de ónix azul e branco numa
moldura: Noé e a Sua família a Saírem da Arca. Os seus olhos viajaram até
uma arca pintada que estava no chão.
185

Em cima do baú de madeira repousava um manto de veludo. Aquele manto era-


lhe familiar. Era preto brilhante com tiras de cetim carmesim cosidas ao
longo das mangas. O mesmo tecido escarlate forrava o capuz e o interior
do manto. Dobrado do avesso, sob a luz difusa do studiolo de Lorenzo, o
seu conteúdo transformava-se num rio de sangue fluido.

Guid’Antonio sentiu-se estremecer. Quantas vezes tinha visto Giuliano com


aquele mesmo manto sobre os ombros enquanto percorria as ruas de Florença
com os seus jovens amigos ou cavalgava com o grupo de caça, fazendo
assobiar a flecha até ao coração robusto de um javali ou de um magnífico
veado? A última vez que o vira, Giuliano estava morto no chão da Duomo.
Guid'Antonio engoliu em seco. Não precisava de ver o manto familiar para
se recordar do corpo inerte de Giuliano, do seu crânio rachado ao meio. A
imagem do cadáver de Giuliano estava queimada no sangue, entranhas e
ossos de Guid'Antonio.

— Quero mostrar-vos uma coisa.

Guid'Antonio vacilou, assustado pelo tom de voz duro de Lorenzo a


interromper-lhe os pensamentos.

Lorenzo soprou as velas, exceto uma, e fez sinal para que os seus
convidados o seguissem.

186

Capítulo DEZOITO

Lorenzo abriu uma porta escondida nos painéis da parede de trás do


studiolo e levou-os ao longo de uma passagem estreita antes de lhes
indicar uma escada de pedra em caracol. Quando chegaram a uma porta de
madeira de carvalho com guarnições de ferro forjado, apagou a vela e
deitou-a para junto de outras, num recipiente de ferro preso à parede.

— A porta para o exterior é aqui. — Quando Lorenzo o puxou, o ferrolho


interior guinchou como um pássaro ferido. Uma onda de calor e uma nesga
de luz do dia entraram pela porta.

Uma vez na rua, enquanto Lorenzo fechava a porta atrás de si com uma
chave, Guid'Antonio olhou em volta, para se situar. Homens de mantos
vermelhos caminhavam apressadamente e um cavaleiro avançava sonoramente
ali perto, quase pisando um moleiro cujo burro ia carregado com uma
preciosa meia saca de farinha. As lojas com portas barradas e janelas
protegidas por portadas ultrapassavam em número as que continuavam a
laborar.

Estavam na Via Larga, a ampla rua principal de Florença. Guid'Antonio


olhou para a direita. Um pouco mais à frente, a meio da rua, um
mensageiro com uma pasta de couro apressava-se em direção ao portão
principal do Palácio Medici. Mantendo-se junto à parede, Lorenzo caminhou
para o lado oposto, para norte, em direção a São Marcos.

- Por vezes, evitar o portão principal dá-nos um pouco de privacidade -


disse Lorenzo, sorrindo com um ar de graça descontraída. Os homens de
mantos vermelhos sorriam-lhe de volta. Os camponeses do contado, os
operários e os criadores de frangos desviavam lentamente os olhos.

187

— Está armado? — perguntou Guid'Antonio.

— Agora? Não.

— Eu estou — disse Amerigo.

Lorenzo tinha dito que evitar o portão principal lhe proporcionava alguma
privacidade, mas naquele dia não havia nem um pouco de privacidade na Via
Larga. Alto e atlético, publicamente brilhante e enérgico, o vulto
singular de Lorenzo de' Medici nunca passava despercebido naquelas ruas.
Exceto, talvez, quando se esgueirava do seu studiolo para Florença na
calada da noite. Para se encontrar com quem, questionou-se Guid’Antonio?
Lucrezia Donati, que era casada com o embaixador Niccolò Ardinghelli,
como Nastagio Vespucci insinuara na segunda-feira à noite? Deus! Apenas
há duas noites. Inacreditável.

Olhando atentamente para Lorenzo, Guid'Antonio abriu a boca para sugerir


que regressassem à segurança do palácio, mas Amerigo estava a meio de
aceitar a oferta de Lorenzo para levar emprestadas algumas páginas
manuscritas do trabalho de Francesco Berlinghieri, Os Sete Dias da
Geografia. Quando fosse publicado, o livro, que era uma tradução para
italiano dos versos de Ptolomeu, Geografia, teria uma introdução de
Marsilio Ficino, assim como mapas atualizados de França, Itália, Espanha
e, aparentemente, da Terra Santa.

Perante o entusiasmo despreocupado dos seus companheiros, Guid’Antonio


sentiu-se um indivíduo miserável, aquele que se preocupava sempre com
tudo e mais alguma coisa; por isso reprimiu o aviso de que deviam
regressar enquanto podiam fazê-lo e guardou os seus medos para si
próprio.

A meio do quarteirão, Lorenzo abriu um portão e entrou para um pátio


relvado que cheirava a rosmaninho, manjericão e às espinhosas rosas
amarelas que cresciam em vasos. Amerigo ficou um passo para trás, olhando
de relance para Guid'Antonio. Lorenzo tinha-os levado até aos aposentos
da cidade do seu tutelado, Lorenzino de' Medici. Lorenzino e o irmão mais
novo, Giovanni, viveram ali quando deixaram a sua villa em Castello e
vieram para a cidade. E sim: Lorenzino e Giovanni eram os mesmos dois
jovens primos Medici cuja herança Lorenzo tinha pilhado para ajudar a
financiar a guerra. Para responder à pergunta silenciosa de Amerigo,
Guid'Antonio podia apenas encolher os ombros; não sabia por que motivo
Lorenzo os levara até ali naquele dia.

Do pátio, passaram para a pequena sala Medici. Tetos altos e abobadados,


tapeçarias de lã e sedas decoradas com flores e folhagem, poltronas de
couro e um aparador carregado de vidros esmaltados, cálices dourados,
talheres de prata, tabuleiros, candelabros e pratos.

188

Sim, sim, sim. Muito impressionante. Mesmo para um Medici.

Lorenzo abriu uma porta de madeira ornamentada e, sem aviso, invadiram o


quarto de dormir de Lorenzino de' Medici. Com dezassete anos e um queixo
fraco, Lorenzino estava sozinho, com o nariz enterrado nas páginas de um
livro enquanto acariciava distraidamente o anafado gato cinzento que
dormitava no seu colo. Lorenzino levantou-se imediatamente com um salto.

— Primo! — Com o pelo eriçado, o gato sibilou e correu pelo chão de


mármore.

— Para com isso, Sua Alteia — disse Lorenzo, abanando o dedo para o
felino irritado. — Não és tão feroz como nos queres fazer crer.

O gato correu para baixo da mesa de pedestal e agachou-se sobre as patas


traseiras, olhando furioso através da toalha de linho. Lorenzo abraçou o
jovem primo contra o peito e beijou-lhe ambas as faces.

— Espero não estar a incomodar-te.

— Claro que não — mentiu Lorenzino, corando até à raiz do cabelo. —


Amerigo! Fico feliz por estares de volta! Já tinha saudades tuas.
Florença tem andado muito sossegada na tua ausência.

— Obrigado, acho eu — disse Amerigo, sorrindo.

Graciosamente, embora um pouco trémulo, Lorenzino ofereceu vinho aos seus


visitantes. Bebericando o Chianti, mais do que ligeiramente embaraçado
pela incursão no espaço privado de Lorenzino de' Medici, Guid'Antonio
reparou nas emoções genuínas que brilhavam através do rosto borbulhento
do rapaz. Surpresa, espanto, ressentimento. Era óbvio que aquele jovem e
pálido Medici sabia dos cinquenta e quatro mil florins que o primo mais
velho pedira emprestado ao seu fundo fiduciário, e do irmão, e não
gostara muito do sucedido.
Enquanto Lorenzo falava com o primo, Guid’Antonio olhou em redor do
quarto, uma divisão muito parecida com tantas outras neste mundo: uma
cama com painéis de verão e uma coberta, um armário de pinho com um
espaldar e uma cornija encostados a uma parede. Na cornija, que servia de
prateleira, Lorenzino tinha reunido uma coleção de astrolábios e modelos
esféricos do universo. Guid'Antonio achou que o enorme armário devia ter
pelo menos nove metros de comprimento.

189

Uma grandiosa imagem da Virgem com o Menino, um quadro redondo com uma
moldura dourada, chamou-lhe a atenção: já tinha ouvido dizer que aquela
forma de quadros estava a ganhar grande popularidade por entre os lares
prósperos.

— Amerigo — dizia Lorenzino —, enviei-te um bilhete esta manhã para te


dizer que estava na cidade.

— Enviaste? Estou em Florença, mas raramente em casa.

— Temos andado muito ocupados — disse Guid'Antonio.

Compreensão e uma centelha de malícia brilharam nos olhos castanhos de


pálpebras pesadas de Lorenzino. O jovem olhou para as mãos. Eram suaves e
rechonchudas, como as de uma criança. E como uma criança, estaria ele
impaciente por se vingar do familiar que lhe andava a meter a mão no
dinheiro? Lorenzino de' Medici tinha boas razões para querer que o seu
magnífico primo passasse por algumas humilhações.

Sorrindo, Lorenzo disse:

— Não vamos tomar muito do teu tempo, primo. Pensei que não te
importasses com a nossa vinda, uma vez que tu e Amerigo são tão amigos. E
queria mostrar-lhes a tua última encomenda. — Gesticulou em direção à
cama de pinho e ao enorme quadro retangular pendurado na parede. — É de
Sandra Uma imagem da primavera. Guid'Antonio?

Na moldura branca por cima da cama de Lorenzino de' Medici estava o


quadro que Sandro mencionara na sua oficina no dia anterior. Guid’Antonio
percebeu instantaneamente que aquela era uma das pinturas mais complexas
que alguma vez tinha visto. Espantosamente belo, o painel horizontal
fazia lembrar uma tapeçaria. Vénus — ou seria a Virgem Maria? — agraciava
o centro de um prado relvado com morangos silvestres, tussilagem e rosas
vermelhas, numa profusão tão vívida que Guid’Antonio seria capaz de jurar
que cheirava a terra e o aroma profundo das flores sobre ela espalhadas.
Ao olhar para o lado esquerdo do quadro, viu as Três Graças com os seus
vestidos fluídos, de mãos dadas e a dançar, os corpos radiantes contra o
fundo negro da floresta. Sandro desenhara a donzela do meio a olhar por
cima do ombro. Era alta e de cabelos dourados, com um sorriso ansioso nos
lábios rosados pálidos: era o rosto de uma jovem demasiado bela para
pertencer completamente a este mundo.

Como, na verdade, não pertencia.

A rapariga era Simonetta Vespucci, a mulher de Marco Vespucci e amante de


Giuliano de' Medici, morta há quatro anos. A. respiração de Guid’Antonio
abrandou enquanto seguia o olhar de Simonetta para a figura de Mercúrio
na extremidade esquerda do quadro.

190

Jovem e bonito, Mercúrio estava despido, à exceção de um curto manto


vermelho preso por cima da anca e de umas sandálias aladas nos pés,
enquanto levantava o braço com o seu caduceu para banir um aglomerado de
nuvens cinzentas no céu: era Giuliano de' Medici perfeitamente
representado por Sandro Botticelli.

— Jesus me ajude — disse Amerigo. — Sandro voltou a colocar Giuliano e


Simonetta neste mundo.

Amerigo falou como se aquilo fosse uma coisa maravilhosa, e Guid'Antonio


presumiu que era mesmo — se uma pessoa não se sentisse consumida pelo
arrependimento e pela culpa de cada vez que via uma imagem de Giuliano
de' Medici. Aquela representação de Giuliano era real, e fez com que
Guid'Antonio estremecesse de desespero.

Lorenzo passou a mão pelo rosto, num gesto de profunda emoção.

— Sandro pintou-o para Lorenzino enquanto todos nós andávamos por outras
paragens. Eu vi-o pela primeira vez quando regressei de Nápoles. O meu
irmão sempre teve uma beleza que não era deste mundo. — As lágrimas
saltaram dos olhos de Lorenzo; ele não pestanejou nem virou o rosto.

E Lorenzino também não, enquanto tagarelava descontraidamente sobre como,


por entre um rio de vinho, Botticelli, o irmão Giorgio António Vespucci -
assim como Marsilio Ficino, Angelo Poliziano e o próprio Lorenzino —
discutiram que o quadro devia ser colocado sobre a nova cama de
Lorenzino.

— A opinião geral foi que, uma vez que estou noivo e vou casar, porque
não uma alegoria do casamento e do amor ardente?

Lorenzino corou profundamente.

— Ou do desejo físico, como Angelo Poliziano o descreveu. — Como se


estivessem à espera da deixa, todos olharam para os vestidos das três
donzelas e para os seus seios tão deliciosamente revelados. Por baixo do
tecido fino os seios delas eram alvos, com mamilos salientes.

Lorenzino dirigiu o olhar castanho ao primo.


— Isto numa altura em que o nosso Angelo ainda era bem-vindo entre nós e
não se encontrava isolado no Norte, em Mântua.

O olhar de Lorenzo sobre o seu jovem tutelado ardeu com uma emoção
sombria.

— Ninguém forçou Angelo Poliziano a fugir para Mântua. Angelo fê-lo de


sua livre e espontânea vontade, em vez de morrer pela cobardia de ter
recusado acompanhar-me até à temível corte do rei Ferrante. Infelizmente,
Lorenzino, para o resto de nós a vida não se resume a prados primaveris.

191

Admoestado, Lorenzino respondeu:

— Claro que não, primo. Perdoe a minha insensibilidade. Guid'Antonio


olhou para Lorenzino, avaliando-o. Por que motivo

Lorenzo os levara ali para ver aquele quadro impressionante? A Primavera


era uma obra gloriosa; no entanto, para Guid'Antonio vibrava com tanta
mágoa e tantas memórias dos mortos. De Giuliano e Simonetta e, por
associação, do marido enganado desta, Marco Vespucci, e do pai
encarcerado de Marco, o familiar de Guid’Antonio, Piero Vespucci. Lorenzo
de' Medici não fazia nada ao acaso.

Despediram-se por entre sinais exteriores de cordialidade. Lorenzino e o


seu gato; este último com o rabo cinzento erguido como um estandarte
sobre as costas peludas, acompanhou-os até ao pátio; o jovem foi
conversando com Amerigo sobre a sua prometida Semiramide d'Appiani e do
casamento de ambos, marcado para daí a dois anos.

— Zino, onde está o teu irmão? — perguntou Lorenzo, com uma mão no
ferrolho do portão.

— Em Castello, com a nossa avó. Ele preferiu ficar lá, em vez de vir para
a cidade esta semana. — Lorenzino pegou no gato e afagou-lhe a cabeça com
o rosto. — Eu queria devolver alguns livros ao irmão Giorgio e entregar-
lhe os meus exercícios de Grego, para ele corrigir. Amerigo, vais lá
comigo amanhã? Podemos divertir-nos com os meus erros e escapar a este
calor.

O rosto de Amerigo iluminou-se com prazer.

— E conto-te tudo sobre França.

— Não contas não — disse Guid’Antonio.

Lorenzino ficou com uma expressão soturna e surpreendida. Amerigo corou.

— Talvez para a semana — disse Guid’Antonio. — Neste momento, a vida


exige a nossa presença aqui.
— Claro que exige — disse Lorenzino, olhando severamente para o seu
tutor.

— Mas só se for conveniente para si e para a sua avó Genevra —


acrescentou Guid’Antonio.

Lorenzino acenou com a cabeça e dirigiu-se ao carrancudo Amerigo.

— Aparece quando fores livre de fazer o que queres. — Acariciando o gato


e sorrindo com malícia, virou-se e foi-se embora.

192

Lorenzo mordeu o lábio.

— Fico contente por vocês os dois serem amigos, Amerigo, sem dúvida. Ele
tem-te como um irmão mais velho. Além de ti, tem apenas o Giovanni, que
só tem treze anos.

— Só? - perguntou Amerigo. - Da última vez que vi Giovanni, tinha ele


acabado de fazer onze anos. — Dirigiu um olhar amuado a Guid’Antonio. —
Já lá vão dois anos.

— Muita coisa muda nesse espaço de tempo — disse Lorenzo, sorrindo


enquanto saíam do jardim e voltavam a entrar na rua. — Os rapazes
transformam-se em homens.

— Mas o mais frequente é não serem reconhecidos como tal — disse Amerigo.

— O reconhecimento é dado quando é devido — disse Guid'Antonio. — E


ganhaste muito em França.

O trio caminhou em silêncio pela Via Larga até ao portão principal de


Lorenzo.

— Bem, amigo — disse ele —, o que vem a seguir na sua lista?

— Tenho na ideia procurar a ama de Camilla — disse Guid'Antonio, com os


olhos de falcão atentos ao cortejo regular de pessoas que passava pela
rua. Algumas viravam à direita na esquina da Via Larga com a Via Gori,
dirigindo-se à igreja e mercado de São Lorenzo; outras seguiam em frente,
na direção da Catedral de Florença. Afastou os olhos cintilantes da
cúpula de tijolo vermelho de Brunelleschi e mirou os vendedores de queijo
e ovos que ofereciam preços baixos no mercado.

— Palla já interrogou a velha mulher. Disse-lho ontem.

— Mas mesmo assim quero falar com ela.

— Só se cavalgar até à quinta dos Rossi, em Vinci, uma vez que é lá que
se encontra.
Um espasmo de irritação sacudiu Guid'Antonio. Por que motivo partira do
princípio de que a ama de Camilla estava em Florença e facilmente
acessível? Porque ela era um membro da casa de Castruccio Senso. Ou pelo
menos assim julgava.

— E o rapaz escravo? — perguntou.

— Também lá está. E agora?

Guid'Antonio tinha apenas uma resposta que queria divulgar:

— Para lá da ama e do rapaz, quero também dar uma vista de olhos mais
atenta em Todos os Santos, ou pelo menos aos bons irmãos Humiliati que lá
vivem.

193

Não podem ser todos tão frios e calados como nos querem fazer crer. Nem
tão inocentes.

Lorenzo deu a gargalhada gutural e baixa que lhe era característica.

— Se inquirir com demasiada atenção, vai acabar por descobrir toda a


espécie de engodos, que nada têm que ver com a Virgem Maria de Santa
Maria Impruneta — disse, inclinando a cabeça. — Rogo a Deus que acabe com
isto depressa, Guid'Antonio mio. Pela minha alma, estou cansado deste
assunto e preparado para me dedicar a outras coisas.

Também eu, pensou Guid'Antonio, olhando para Lorenzo enquanto


cumprimentava alegremente um homem que lavava a arcada da loggia antes de
se apressar a subir a escadaria curva até aos seus aposentos privados. A
questão que agora preenchia a mente de Guid’Antonio era a que outras
coisas se queria dedicar Lorenzo de' Medici - e quando.

— O quadro que Sandro fez para Lorenzino é uma impressionante obra de


arte — disse Amerigo enquanto ele e o tio atravessavam o mercado para lá
da Igreja de São Lourenço. O nosso Botticelli merece os parabéns.

— O mais certo é estar apenas feliz por ter sido pago.

— Reparou no quadro Pallas e o Centauro que estava por cima da porta da


antecâmara do quarto de Zino?

— Como podia não reparar? É mais uma obra de Sandro.

— A figura de Pallas era...

— Sim, Semiramide dAppiano, a prometida de Lorenzino — disse


Guid’Antonio.

— Acha que... - Amerigo parecia perplexo. — Questiono-me se Lorenzino se


importa com o facto de casar com ela. Uma vez que é a sobrinha da nossa
finada Simonetta Vespucci. Finada: que palavra tão interessante! E
Giuliano devia casar com Semiramide. Antes de morrer, quero dizer, uma
vez que Simonetta já estava casada com o nosso Marco. Quiçá Lorenzino
sinta que está a ficar com os restos? Principalmente porque foi Lorenzo
quem arranjou este casamento e não há muito amor desperdiçado entre os
dois. Entre Lorenzo e Lorenzino, quero dizer. Deus! Por que motivo todas
as pessoas que conhecemos têm os mesmos nomes? E depois ainda há as
cartas que Marco e Piero Vespucci mandavam à mãe de Lorenzo. — Amerigo
abanou a cabeça vigorosamente, demonstrando o seu espanto. — Isto é quase
um incesto.

194

Guid'Antonio lembrou-se de inquirir sobre a mãe do bebé Giulio; quem


teria dado a Giuliano a sua cópia, mais um precioso herdeiro Medici? Quem
era ela? E onde estava? Lorenzo não lhe dissera. Ah, bem. Na verdade, que
importância tinha?

— Lorenzino compreende os princípios do casamento — disse Guid'Antonio. —


A sua aliança com Semiramide ajuda a trazer a família Piombino para a
nossa campanha contra o papa. Não tenho dúvidas de que ficarás a saber
exatamente como Lorenzino se sente em relação à jovem senhora quando
fores visitá-lo a Castello.

— Se alguma vez lá for. Quem sabe quando isso pode acontecer? -Amerigo
hesitou. — Tio Guid’Antonio?

— Sim.

— Lorenzo deve ter reparado no facto de o tio não lhe ter dado uma
resposta muito aberta quando ele mencionou que pretendia fazer mudanças
no governo. Acho que ele não gostou da sua falta de entusiasmo.

— Eu também não gosto de ser manipulado — respondeu Guid’Antonio.

Naquela noite, uma noite de quarta-feira de meados de julho, quente e


abafada, enquanto Guid’Antonio se agitava na cama a sonhar com lábios
carnudos e doces que se roçavam nos seus, alguém pintou Lorenzo de'
Medici numa forca na parede do Palácio Medici, mesmo em frente a São
Lourenço, a basílica cristã mais antiga de Florença e, durante mais de um
século, a igreja da família Medici. No banco de pedra por baixo do
desenho imperfeito, o malfeitor depositara um par de chifres arrancados a
uma vaca e escrevera por cima: Vejam aqui os cornos do diabo Lorenzo de'
Medici, que reside para lá deste muro!

As letras eram grandes e grossas. Numa tinta escura que se assemelhava


muito a sangue.
195

Página em branco

Capítulo DEZANOVE

1470

Via Saturnia, Florença

Magnífico Lorenzo, a quem o Céu entregou o destino da cidade e do Estado;


primeiro cidadão de Florença, duplamente coroado com louros pela vitória
em Santa Cruz por entre as aclamações do povo, e pela poesia, por conta
da doçura dos seus versos, escute-me que, bebendo em fontes gregas, me
esforço por colocar Homero em métricas latinas. Este segundo livro que
traduzi (sabe que temos o primeiro de mestre Cario d'Arezzo chega
timidamente à sua porta. Se o acolher, proponho oferecer-lhe toda a
Ilíada. A decisão de ajudar este poeta é sua, que pode fazê-lo. Não
desejo nenhuma outra inspiração que não a da sua pessoa; com a sua ajuda
posso fazer um trabalho que não envergonhará os antigos. Que seja por
isso do seu agrado e de sua vontade considerar Homero...

O seu criado

Angelo Poliziano

Com a sua ajuda.

Bem instalado em Mântua no verão de 1480, Angelo Poliziano não estava


isolado, já que recebera uma colocação na corte de Federico Gonzaga, o
marquês de Mântua. Porém, no seu coração, onde mais importava, Angelo
existia num mundo frio, abandonado e solitário. Não importava que no
jardim ensolarado por baixo da janela da sua villa o perfume cálido das
rosas carmesim e cor de manteiga aromatizassem o ar sob o sol alto e
quente e que nos campos distantes os contadini morenos usassem as mangas
encharcadas arregaçadas enquanto trabalhavam.

197

Desde que fizera apressadamente as malas e saíra de Florença, oito meses


antes, Angelo tinha vagueado sem destino pelo Norte da Itália,
deambulando de Bolonha a Mântua, Verona, Pádua e Veneza, cirandando pelas
bibliotecas e visitando outros estudiosos, até assentar finalmente
naquela cidade comandada pelos senhores Gonzaga: soldados, estudiosos e
padroeiros das artes.

Na secretária de Angelo havia uma taça de peras douradas, do tipo que os


trabalhadores do campo jamais veriam, quanto mais provariam. Comeu o mais
maduro dos frutos sarapintados, pensando numa maneira de acabar com a sua
zanga com Lorenzo de' Medici — mais valia atirar as cartas conciliatórias
que escrevera a Lorenzo para um buraco negro — e regressar em pensamentos
ao último dezembro. Já não podia evitar a realidade de que Lorenzo estava
realmente à espera de que acompanhasse a delegação de emergência a
Nápoles, onde as caves do rei Ferrante escondiam os crânios putrefactos
de muitos homens. Ao contrário de Lorenzo, o Magnífico, Angelo não tinha
um coração valente. Não era um soldado nem um político. Era um poeta
desprotegido.

Sim, a tradução da Ilíada que estava a fazer do grego para o latim


tinha--o ajudado a entrar no Palácio Medici, uma década antes, quando
Angelo tinha apenas dezasseis anos. Carente, com o manto puído e sapatos
em segunda mão, vivia com o tio e a sua família de pedreiros arruaceiros
numa das ruas secundárias de Oltr’Alto. O rosto de Angelo ardia quando se
recordava daquele rapaz magro, desajeitado e perdido. Mas encontrara
Lorenzo e, nele, o seu salvador. Lorenzo possuía uma mente soberba e o
frescor da juventude, e, a meio de janeiro de 1470, era o príncipe da
cidade, com vinte e um anos, após morte do seu pai, um mês antes. Lorenzo
elogiou a tradução de Angelo, levou-o para a sua casa, deu-lhe roupas e
acomodações decentes na Via Larga e providenciou-lhe um dos melhores
tutores de Itália: teve Latim com Cristoforo Landino, tradutor de
Aristóteles e comentador de Dante; Grego com Andronicus Kallistos e
Argyropoulos; e Filosofia Platónica com Marsilio Ficino, tudo no Studio
Florentino, a aclamada universidade de Florença.

Lorenzo dera-lhe um lar, por ter encontrado nele um companheiro próximo


que partilhava os seus interesses pela poesia e pelos estudos; Lorenzo
dera-lhe respeito e amizade, apoiando Angelo até durante a tempestade com
Clarice Orsini, a pequena e patética esposa romana de Lorenzo, e
permitira-lhe que embarcasse na paixão mais arrebatada da sua alma ávida
- a recolha e a tradução dos manuscritos da Biblioteca Medici e o estudo
de moedas e inscrições antigas.

198

Mas Nápoles? Por amor de Deus!

Angelo abominava violência. Só a ideia fazia-o transpirar e mergulhar no


pânico. Havia dois anos, ficara imóvel e ofegante com Lorenzo e mais
alguns amigos na sacristia norte da catedral, onde escaparam aos
atacantes de Lorenzo e fecharam as pesadas portas de bronze enquanto
homens, mulheres e crianças fugiam da igreja, convencidos de que a cúpula
de Brunelleschi lhes ia cair em cima da cabeça. Os desordeiros invadiram
as ruas, armados com tijolos, pedras e lanças.

- Morte à família Pazzi! Medici, Medici! Palle, palle! - gritaram até


ficarem roucos e não conseguirem berrar mais.

Mais tarde naquele dia, já no palácio, a visão do corpo terrivelmente


profanado de Giuliano com sangue de tantas facadas, dezanove no total,
segundo se dizia, tinha feito Angelo vomitar o sangue e o pão do Domingo
de Páscoa. Mais tarde, com as mãos trémulas, não tinha escrito sobre as
matas do bosque, sobre os faunos, as ninfas, nem sobre Simonetta
Vespucci, mas sobre a ganância e a mortandade. Tinha feito aquilo, embora
significasse ter de recuar até uma altura na qual era apenas um menino.
Tinha feito aquilo, embora significasse ter de revisitar a criança
estranha que, aos nove anos, viu, horrorizada, uns rufiões a atirarem o
seu pai ao chão, espetarem-lhe lanças no corpo, cortarem-lhe o pescoço e
a descerem a cidade de Montepulciano, nas colinas, a rir e a
congratularem-se por terem matado o homem que enviara um dos seus
miseráveis parentes para a cadeia. Angelo tinha arrancado a crosta
daquela ferida pútrida e elaborado o seu comentário sobre a «Conspiração
Pazzi», Della Congiura dei Pazzi: tinha feito aquilo como um presente
para Lorenzo, para Florença e para as gerações futuras. Teria alguém
apreciado como aquele esforço lhe dilacerara a alma? Não seria isso
suficientemente valente?

Não sou um cobarde, dizia para si próprio. Os homens reagem de maneiras


diferentes à violência. O rosto ardia-lhe com o calor. Ouvia os mexericos
em cada um dos lábios florentinos: Angelo Poliziano recuou quando toda a
cidade estava em perigo e Lorenzo preparado para colocar a sua vida nas
mãos do rei napolitano.

O som de um esquilo a tagarelar no jardim trouxe-o de novo ao campo de


Mântua. Naquelas tardes prolongadas, normalmente atirava um pouco de
comida ao pequeno animal.

199

E o esquilo olhava agora para ele, com as patas da frente juntas num
gesto de súplica, como se soubesse como rezar.

— Aqui está a tua esmola — disse Angelo sombriamente, atirando-lhe o


caroço branco da pera carnuda. Tudo menos sair dos seus aposentos e
arriscar um encontro com o pintor da corte de Gonzaga, Andrea Mantegna,
um velho homem irritável, mal-humorado e rabugento. Embora, havia que
admiti-lo, fosse um bom pintor.

A única coisa que Angelo queria fazer era escrever, ensinar e partilhar
as suas ideias na companhia de homens bons da Cidade das Flores, onde
circulavam os melhores e mais inteligentes de toda a Itália. Mântua era
uma corte, não um local de encontro de amigos. Em Florença, havia a
Biblioteca Medici. O seu coração afundava-se sempre que pensava na
desordem na qual deviam ter caído os inestimáveis manuscritos de Lorenzo
durante os oito meses da sua ausência. Sentia a fúria a inflamar-se.
Lorenzo simplesmente não entendia como era um erro sério entregar os
manuscritos preciosos a cada pedinte que os quisesse levar emprestados.
Quem mantinha agora registo dos empréstimos? Quem protegia os registos
escritos que Angelo tão laboriosamente criara e mantivera sob vigilância
dia após dia, mesmo que tivesse alunos a bater-lhe à porta e poemas e
cartas a chamá-lo para o seu studiolo, no coração do Palácio Medici?

O olhar arguto recaiu sobre a última carta que recebera de Alessandra


Scala, uma das cinco filhas do chanceler florentino, Bartolomeo Scala.
Alessandra era a querida e devota amiga e aluna de Angelo. Continua caído
em desgraça e não vale a pena regressar para Florença. A minha esperança,
Angelo, é que consiga escrever, escrever e escrever, para sua própria
iluminação e pelo conforto da sua alma.

Não vale a pena, dissera Alessandra. Alessandra, cuja inteligência


fulgurante se equiparava à sua rara beleza, não era mulher para falar com
afetada elegância. Um sorriso triste tocou os lábios cheios e arrebitados
de Angelo. Escreva, dissera ela. A aluna a instruir o mestre. Não era
isso que ele fazia sempre? Podia ter sido pobre, um dia, mas a sua mente
nunca fora empobrecida. Nem o era agora, por muito que o seu coração lhe
doesse quando se lembrava de que ia celebrar — não, meramente observar —
o seu vigésimo sexto aniversário dali a dois dias, numa cidade estranha
situada entre Veneza e Milão. Não em Florença. Embora, justiça fosse
feita à cidade de Mântua, Virgílio tivesse nascido ali perto e S. Andrea,
a antiga igreja de um mosteiro beneditino, possuísse o Preciosíssimo
Sangue, um frasco de sangue retirado do corpo ferido de Cristo.

200

Juntamente com a carta, Alessandra Scala tinha enviado a Angelo um


presente de aniversário, uma minúscula pedra que tirara da frente do
Palácio Medici, um pequeno pedaço de casa. Com os olhos fechados, Angelo
comprimiu a pedra contra os lábios. Alessandra escrevera sobre a agitação
nas ruas e como o tramontano soprava tão ferozmente em direção a Lorenzo,
que ameaçava fazê-lo cair juntamente com os seus apoiantes. Escrevera
também sobre uma rapariga desaparecida e o quadro da Virgem Maria de
Santa Maria Impruneta que chorava na Igreja de Todos os Santos.

Boné Deus! Seria possível que com a morte de Giuliano de' Medici tivessem
também desaparecido os tempos dourados de Florença? Não. Angelo recusava-
se a acreditar naquilo. Não ia acreditar! Nos últimos meses tinha
composto epigramas e versos. Agora tinha em mente uma composição
diferente para o cardeal Francesco Gonzaga, uma peça secular com
acompanhamento musical e talvez até algumas vozes. Composta em italiano,
em vez de latim, para que os espetadores entendessem melhor as palavras.
Lorenzo, que desde os dias da sua juventude encorajava os poetas de
Florença a escreverem em italiano, para trazer a poesia novamente para a
terra e para as pessoas comuns, havia de gostar disso.

Nada como aquela peça na qual estava a pensar, com partes cantadas, tinha
sido feito na história recente. Porque não atirar a cautela ao vento? O
que tinha ele a perder? Dez anos antes, a sua tradução da Ilíada levara-o
através das portas sagradas do Palácio Medici. Talvez Orfeu o fizesse
regressar. Tinha de o fazer, porque só então os sonhos do anjo caído
podiam erguer-se de novo e voltar a caminhar.

201

Página em branco

Capítulo VINTE

- Quem atacar Lorenzo ataca cada um de nós. — O lorde magistrado


Pierfilippo Pandolfini lançou um olhar grave em redor da sala de Lorenzo,
com os olhos negros a brilharem de fúria.

— Atacar? É uma palavra muito forte - disse Piero di Nasi. - Os


libertinos podem ter colocado os chifres no banco. Ou talvez pândegos na
brincadeira.

— Então é uma brincadeira muito perigosa — disse Lorenzo na sua voz

fria e autoritária.

Bartolomeo Scala entrou na sala numa agitação nervosa de mantos e

papéis.

— Madalena está na cama com febres e arrepios. Está de quatro meses. Temo
que... — A pasta do chanceler escorregou-lhe das mãos; as penas
espalharam-se pelo chão.

— Que Deus a abençoe e lhe dê saúde — disse Lorenzo.

Ele está com vontade de partir a mesa com o punho, pensou Guid'Antonio.
Os seus olhos viajaram até aos restantes homens Medici sentados em volta
da mesa. Estava ali uma boa porção dos apoiantes de Lorenzo, assim como
os magistrados, transformando a sala num mar de vermelho.

— O desenho pode ter sido feito por alguém da família Pazzi — disse Piero
di Nasi. — Nem todos estão presos.

— Agora estão — respondeu Lorenzo.


António Capponi deslizou para uma cadeira sem cerimónias.

— Como sempre, é o último a chegar — disse Pierfilippo Pandolfini.

— Diga lá o que quiser — respondeu António. — Lorenzo, agora que o


palácio já está novamente resplandecente, porque estamos aqui?

203

— Naquela manhã, bem cedo, Lorenzo enviara mensagens aos homens da fação
Medici, contando-lhes sobre a efígie sangrenta e solicitando a sua
presença à noite. Não era exatamente uma convocatória, mas ainda assim...
Um músculo pulsou no maxilar de Lorenzo.

— Estamos aqui porque sou um alvo para os homens que me querem destruir.

Piero di Nasi recuou.

— Não saberemos nada até que Palla imponha um recolher obrigatório e


comece a fazer soltar algumas línguas.

— Recolher obrigatório? - Pierfilippo Paldolfmi fungou com desdém. — Isso


vai assustá-los, sem dúvida.

— A violência contra mim é violência contra os senhores — disse Lorenzo.

Tommaso Soderini puxou o manto mais para junto dos ombros.

— Além de reunir e aquartelar todos os homens, mulheres e crianças do


bairro do Leão Dourado, o que sugere que façamos?

— Reformar o governo — disse Lorenzo.

O silêncio fez-se ouvir na sala, com os pensamentos dispersos, a


tropeçarem aqui e acolá. Ahh, pensou Guid’Antonio. E perguntou
cuidadosamente:

— Reformá-lo como? Pretende que os lordes magistrados, muitos deles agora


aqui presentes, convoquem uma balia? — Uma balia era uma comissão
especial criada em tempos de crise extrema e de guerra. Ditatorial, podia
suspender a Constituição florentina e sobrepor-se à lei. Podia nomear
Lorenzo de' Medici como duque ou rei e colocar formalmente Florença, pela
primeira vez na sua história como cidade, nas mãos de um único homem.

— Sim — respondeu Lorenzo.

— Por causa de uma efígie rude? — perguntou Antonio Capponi. — Cristo,


senhor, a que ponto chegámos?

Lorenzo pôs-se de pé num salto e precipitou-se para a frente, como se


pretendesse agarrar António pelo pescoço.

— A minha efígie, António! A minha casa! Da próxima vez, vai o senhor a


Nápoles e eu fico em casa! Fica o senhor a ver o seu irmão a morrer em
nome da república e passa a acordar todas as manhãs a questionar-se se
será aquele o dia em que um louco lhe vai enfiar uma lâmina no corpo!

Lorenzo atirou-se novamente para a sua cadeira, ainda a observar Antonio


Capponi, que se encolheu, com a pela pálida a queimar com o calor.
Seguiu-se um minuto de silêncio.

204

— A nossa cidade e o nosso governo — disse Lorenzo, e na sua voz ouvia-se


ainda uma centelha de fúria. — Estamos enterrados em dívidas. Guerra,
quadros que choram. Quem pode culpar as pessoas por quererem arrancar-nos
as cabeças? Tornámo-nos num emaranhado de ruas curvas e becos sem saída,
em mais do que um sentido.

Os olhos de Pierfilippo Pandolfini viajaram pelos rostos dos restantes


homens.

— Concordo. Está na altura de uma reforma. De mudança.

— Que forma tomaria essa mudança? Exatamente? — perguntou Guid'Antonio.

Um sorriso pairou nos lábios sem cor de Tommaso Soderini. Bravo,


Guid'Antonio. Cava a tua própria sepultura.

— A forma que for necessária para assegurar um governo mais forte —


respondeu Lorenzo.

— Mas uma balia? — disse Tommaso. — Como conseguiríamos fazê-lo? As


pessoas já estão tão descrentes em nós. Vão pensar que estamos a tramar
alguma coisa e que não será boa. — Sorriu afetadamente. — Imaginem bem.

— Mas o que é isto? Sabe bem como funciona. Nós não vamos gerir coisa
nenhuma. Somos uma república, lembra-se? — Lorenzo pegou em duas pequenas
taças de azeite e num grande prato de pão e queijo que estavam à sua
frente e colocou-os numa fila, com o prato ligeiramente afastado. — A
primeira taça de azeite representa os nove lordes magistrados, a segunda
os nossos restantes conselhos legislativos. Antes de mais, a maioria dos
nove teria de aceitar pedir aos restantes conselhos que considerassem a
nomeação de uma comissão especial, a balia.

Bateu com o dedo na segunda taça de azeite.

— A comissão só seria criada se, e apenas se, os conselhos concordassem


com isso. — Tocou no prato. — Por seu turno, essa comissão, constituída
por um grande número de homens, determinaria as reformas a levar a cabo.
Seria esta a forma, exatamente — disse, com os olhos cravados em
Guid'Antonio.

— Mesmo que uma maioria dos nove concorde em com o início da proposta...
— Estendendo o braço, Guid’Antonio fez deslizar a primeira taça de azeite
para longe da outra taça e do prato. — O que o leva a pensar que os
restantes conselhos legislativos votariam a favor da a criação de um
comité de emergência? Podem não concordar com o facto de termos uma crise
extrema em mãos.

Afastou a segunda taça do prato.

205

— E, como Tommaso diz, Deus nos valha se o popolo minuto ficar com a
ideia errada. Se acharem que queremos apoderar-nos do governo, enforcam-
nos a todos, sem fazerem perguntas.

A sala estava silenciosa e tensa. Bartolomeo Scala levantou os olhos das


suas anotações e pousou a pena. Como Guid'Antonio, era apenas membro do
círculo íntimo dos Medici. E, como o resto dos homens, estava disposto a
deixar que fosse Guid’Antonio a confrontar Lorenzo, o Magnífico.

Lorenzo passou as mãos pelo cabelo, afastando-o do rosto.

— Acordei com sangue nos meus muros. Quem se segue? Você, Guid'Antonio? A
sua família? Só estou a dizer que os lordes magistrados devem considerar
tomar uma iniciativa. A única coisa que quero fazer é fortalecer o
governo, não para mim, mas para o povo.

Ensopou um pedaço de pão na primeira taça de azeite e mastigou-o durante


algum tempo.

— Cada um dos magistrados atualmente em funções teria lugar na comissão


final. Assim como um bom número de outros homens qualificados. Muitos
deles estão aqui sentados neste momento.

Sim, naturalmente: era o que dizia a lei. Lorenzo passou os olhos pela
mesa de reuniões.

— O senhor, Capponi. O senhor também, di Nasi. - Lorenzo olhou fixamente


para o tio. — O senhor, Tommaso Soderini. — Os seus olhos detiveram-se em
Guid'Antonio. - E o senhor, assim como todos os presentes e mais alguns
dos nossos amigos próximos.

— Enquanto homens qualificados — disse Guid'Antonio. Os lábios de Lorenzo


compuseram-se num sorriso.

— Sim.

Tommaso virou o prato, a comissão de emergência, a balia, fazendo-o girar


com as pontas dos dedos.

— Certamente que mal não faz pensar no assunto.


Mal não faz pensou Guid'Antonio, uma vez que seremos nós os homens que
mais beneficiarão com qualquer mudança que se faça na república.

— Quanto mais discretamente agirmos, melhor — disse Tommaso. — Isto se


queremos preservar os nossos pescoços.

— E sempre tudo sobre a segurança dos nossos pescoços, não é? — perguntou


Guid'Antonio; as suas palavras morreram no silêncio da vasta sala.

E foi assim que, por entre a luz de muitas velas, os homens se separaram,
reunindo os seus mantos, muitos deles com pensamentos confusos, mas sem
suspeitarem dos verdadeiros motivos de Lorenzo. À porta, Lorenzo disse:

206

— Guid'Antonio, podemos falar um momento a sós, per favore? Guid'Antonio


fechou os olhos, procurando um pouco de descanso, antes de voltar a abri-
los.

— Certamente.

— Sabe que tudo isto se resumirá a números e influências. Isto é, se


conseguirmos fazer a ideia arrancar.

— É quase sempre assim. Que as coisas se resumem a números e influências,


quero dizer. Está preocupado? As pessoas ouvem-no — disse Guid'Antonio.

Lorenzo deu uma gargalhada.

— Já não tanto como antes, como acabou de testemunhar. Por outro lado,
todos valorizam a sua opinião sensata e reparam quando a guarda para si.

— Ainda?

Lorenzo sorriu e tocou-lhe ao de leve no ombro.

— Sabe bem que sim.

Severamente consciente de que a sua sombra era a única que se projetava


na parede, Guid'Antonio atravessou as arcadas da loggia com a luz difusa
dos archotes. A cabeça ressaltava-lhe entre todos os acontecimentos dos
últimos quatro longos dias, a Igreja de Todos os Santos, a Virgem que
chorava e, novamente, Lorenzo. Lorenzo vulnerável, Lorenzo declarando na
privacidade do seu studiolo a firme crença no facto de que a facão Medici
devia fortalecer-se ou enfrentar a ruína da cidade e com ela a ruína das
suas famílias. Lorenzo «enforcado» naquela efígie, o seu palácio manchado
de sangue; e agora Lorenzo a incitar os homens do seu círculo para
ponderarem adulterar a Constituição da República Florentina. Guid'Antonio
inspirou profundamente, desagradado com a direção que os seus pensamentos
tomavam e com a sensação de desânimo que estes lhe provocavam no fundo da
barriga.
Para lá do portão principal, dois guardas estavam de vigia, colocados nos
seus novos postos por Palla Palmieri, ao início do dia. Guid’Antonio
passou pelos homens armados, abrandando perante o vulto de Tommaso
Soderini, tio de Lorenzo, que estava sentado no banco de pedra virado
para a Via Larga e com a cabeça encostada à parede da frente do palácio
do sobrinho.

207

As sombras noturnas abriam sulcos no comprido manto carmesim de Tommaso.

— Porque demorou tanto tempo? — perguntou.

Guid’Antonio sentou-se ao lado dele. A rua estava silenciosa, as portas e


portadas das lojas estavam fechadas, e o ar da noite era quente, mas
agradável. Aquela hora, o Mercado de São Lourenço, mesmo ao virar da
esquina, estava fechado.

— Falei brevemente com Bartolomeo para lhe dizer que rezarei por Madalena
e para pedir ajuda se precisar de alguma coisa — respondeu Guid'Antonio.

— Não o vi.

— Saiu pelo portão do jardim.

— E ela precisa de alguma coisa?

— Só de orações. A filha Alessandra e as quatro irmãs estão a cuidar


dela.

Tommaso acenou com a cabeça, sorrindo.

— Cinco filhas. É impressionante.

— Sim.

— Recorda-se de quando Cosimo de' Medici construiu este palácio?

— Tommaso, eu tinha apenas oito anos, mais ou menos, quando o avô de


Lorenzo começou a construí-lo.

— Deve ser do seu cabelo, essa prata toda que usa agora. E também porque
tenho a sensação de que você andou sempre por aqui. Como um odor
agradável que se demora no ar.

— Obrigado — disse Guid’Antonio. — Acho eu.

— Cosimo encomendou o desenho a Brunelleschi — disse Tommaso. — Demasiado


grandioso, foi a sua opinião! Por isso, acabou por contratar Michelozzo.
Isto depois de Brunelleschi já ter construído a magnífica cúpula de
tijolo da catedral. E depois de Cosimo o ter contratado para construir
São Lourenço. Cosimo entendia os perigos de voar demasiado alto. O
velhote dizia-o muitas vezes. No entanto, dedicou a sua vida não só aos
livros e ao conhecimento, mas também às delicadas habilidades manuais.
Fui dos primeiros a passear por entre as arcadas da loggia que está atrás
de nós. A arquejar perante o pequeno David de Donatello, empoleirado num
pedestal de jardim em toda a sua desnuda glória. Naquele tempo, as
pessoas consideravam aquela deliciosa escultura uma obra pagã.

— E ainda consideram — disse Guid’Antonio.

208

Tommaso deu uma risada.

— Nunca ninguém tinha visto uma coisa assim desde os tempos dos gregos e
romanos. O que era exatamente a ideia. É irónico, não acha, que Cosimo a
tenha mandado fazer para colocar aqui como um símbolo da liberdade de
Florença, uma vez que David derrotou Golias, por isso Florença
derrotaria, blá, blá, blá.

Guid'Antonio descontraiu com as mãos pousadas no colo, satisfeito por


deixar o velho homem regressar às suas memórias. Tinha ouvido dos seus
antepassados histórias suficientes sobre Cosimo de' Medici para encher um
livro. Vários livros. Depois da morte de Cosimo, o governo florentino
tinha-o denominado como o Pai do Seu País e ele, sim... um cidadão
particular.

— Infelizmente, o pai de Lorenzo, Piero, não tinha a energia física para


igualar o fervor de Cosimo no que dizia respeito à reconstrução de
Florença — disse Tommaso. — Mas até Piero entendia a importância política
de manter o statu quo. Se o manipularmos, estamos a arriscar o nosso
pescoço. A nossa família. Tem um filho chamado Giovanni, não tem,
Guid'Antonio?

— Tenho, sim.

— É um bom menino? Seguirá ele os passos do seu pai?

— Ainda não sei - disse Guid'Antonio, guardando o elogio implícito. O


velho homem expirou.

— É melhor descobrir. — Começou a tossir violentamente, fazendo com que


os guardas se mexessem e olhassem na sua direção.

Alarmado, Guid'Antonio virou-se para Soderini.

— Estou bem — disse Tommaso. A tosse tinha-lhe enfraquecido a voz. -


Estamos unidos pelo tempo e pela lealdade, meu amigo. O senhor, o nosso
magnífico Lorenzo e eu. Podemos nem sempre concordar uns com os outros —
conseguiu dar uma gargalhada. — Mas permanecemos no interior do seu
círculo dourado. Sabe porquê? — A pequena gargalhada deu lugar a um novo
ataque de tosse rouca.
— Porquê? - perguntou Guid'Antonio.

Os olhos azuis pálidos de Tommaso arregalaram-se para ele.

— Porque somos os únicos que se atrevem a dizer a Lorenzo que está a


chover quando ele diz que o sol está a brilhar. Dizemos-lhe a verdade. E
ele ama-nos por isso. E por isso que procura a sua aprovação em tudo o
que faz, meu amigo. Por validação e para aliviar a sua consciência para
os dias que se aproximam.

209

Tommaso levantou-se, puxando o manto mais para cima dos ombros. Eram como
asas de um pássaro.

— Tenho quase oitenta anos. O meu sobrinho não tem nada a temer da minha
parte. Quadros que choram para virar a populaça contra ele? Enforcamentos
em efígie? — A boca de Tommaso franziu-se num sorriso. — Não são obras
minhas. — Ergueu a testa. — Já não são obras minhas.

Em silêncio, com Guid'Antonio a servir de escolta, caminharam através das


ruas escuras até à Ponte da Trindade e depois ao longo do rio até à ponte
seguinte, a Ponte alia Carraia. Do outro lado desta passagem ficava o
palácio de Tommaso, no bairro do Dragão Verde, do distrito do Espírito
Santo. Para lá do rio, os archotes ardiam ali e acolá, perseguindo as
sombras das pracetas escuras e ruas desertas.

Guid'Antonio deixou o primeiro oficial eleito de Florença atravessar a


ponte que cruzava a água cálida e negra do Arno sozinho, mas manteve-se
atento ao vulto de Tommaso enquanto este se aproximava do portão do
Palácio Soderini. Satisfeito por ver que o velho homem estava em
segurança, Guid’Antonio virou para Todos os Santos e caminhou na direção
de onde acabara de vir, determinando como seu destino o bairro de Santa
Cruz e a casa Del Vigna.

Ali, através dos portões de ferro, teve uma visão nítida dos jardins de
Maria, iluminados pelo luar. A casa estava escura e silenciosa. Aquela
hora, Maria, a sua ocasional amante, a sua mulher, devia estar a dormir.
Ali estava uma mulher que dava à sua mãe um corajoso conforto; certamente
que, quando o seu tempo chegasse, também ele beneficiaria da devoção de
Maria. Um pouco trémulo e sem ter certeza do motivo que o levara a fazer
aquela visita noturna tão desconfortável, Guid’Antonio retirou-se e fez o
caminho de volta até à sua casa, em Todos os Santos.

210

Capítulo VINTE E UM
- Giorno. - Entrando na cozinha ao meio-dia do dia seguinte, vestido com
roupas de viagem, Guid'Antonio apertou o ombro de Amerigo, beijou
Domenica em ambas as faces e acenou brevemente a Cesare, que tinha visto
nos seus aposentos momentos antes. Olimpia Pasquale levantou os olhos do
lavatório de pedra, a sorrir, abanando manjericão numa taça de água, para
o lavar.

- Gomo - respondeu Domenica. - Que Deus seja louvado por mais um milagre,
o senhor está feliz outra vez! - exclamou, benzendo-se. - Olimpia, pelo
precioso amor de Deus, não esmigalhes as folhas.

- Que diferença faz? - respondeu Olimpia. - Só as vamos temperar.

- A minha felicidade é assim tão rara que merece ser comentada?


-perguntou Guid’Antonio, a sorrir. A cozinha cheirava deliciosamente a
manjericão e alho, pinhões e queijo parmesão.

- Esta semana, sim - respondeu Cesare, afastando-se rapidamente do


lavatório para a lareira fria num movimento calculado para esconder um
objeto volumoso que pairava junto das ferramentas da lareira.

Guid'Antonio semicerrou os olhos, observando o seu flexível - e manhoso?


— criado.

- É ainda mais notável quando se pensa que para os homens Medici não há
sossego — disse Amerigo.

- Mas a cidade inteira sabe da reunião de ontem à noite na casa de


Lorenzo? E do vandalismo que a originou?

Ficaram todos a olhar para ele com espanto, como se tivesse acabado de
perguntar se havia um rio a correr pelo meio da cidade que se chamava
Arno.

211

- A notícia do ataque a Lorenzo e a subsequente reunião espalhou-se por


Florença como se fosse fogo na mata — disse Cesare.

Ataque.

- E? - perguntou Guid'Antonio.

- O popolo minuto está a questionar-se acerca do que vem a seguir, como


sempre faz quando há uma reunião noturna no Palácio Medici. Estão a
chamar ao enforcamento de Lorenzo um ato cometido por Satanás para
reclamar Lorenzo como seu. Dizem que desejavam tê-lo feito com as
próprias mãos, em vez de deixar o assunto nas mãos do Príncipe das
Trevas.
Domenica atirou o pano molhado na direção do filho.

- Cesare, se há um príncipe das trevas em Florença, és tu! Devia colar--


te as orelhas por andares a repetir boatos maliciosos.

- Se o fizer, tenha cuidado com o brinco, Mama, é novinho em folha, do


Verrochio. — Cesare dançou para longe da ira da mãe, sorrindo
descaradamente.

- Domenica - começou por dizer Guid’Antonio, mas hesitou quando o objeto


atrás de Cesare se abanou vigorosamente e se levantou de perto da
lareira. — Deus do céu. O que é aquilo?

Uma expressão de incerteza cruzou o rosto de Cesare. Depois desviou--se


para revelar uma gigantesca criatura peluda e de ombros curvados: era o
mastim que o secretário de Bartolomeo Scala tinha matado. Guid’Antonio
ficou boquiaberto. Milagrosamente, parecia que na última semana o animal
tinha ganho peso; muito pouco, claro, mas, numa espantosa mudança, as
costelas do cão já não pareciam prestes a espetar-se pela sua pele.
Cesare tinha-o escondido. Também lhe tinha dado banho e escovado o pelo.
Apesar de todas as cicatrizes e mazelas, o cane corso italiano estava com
um aspeto espantoso. E então a quem pertencia o rafeiro que Alessandro
Braccesi tinha matado junto do portão do palácio de Lorenzo? Bem,
Florença tinha uma grande quantidade de cães abandonados e famintos.

O animal satisfeito atreveu-se a dar um passo trémulo na sua direção.


Guid'Antonio levantou uma mão.

- Para. — Espantosamente, o bicho obedeceu-lhe. — Guid'Antonio disfarçou


um sorriso.

- Diga-lhe para se sentar - disse Cesare.

Guid’Antonio disse-lhe que se sentasse e o animal obedeceu. Fabuloso.


Guid’Antonio olhou fixamente para Cesare.

- Isto explica o pedaço de carne assada que surripiaste no outro dia. Já


para não falar do cobertor que Elisabetta tinha para os pobres.

212

Cesare enfrentou-o com o olhar.

— Pois explica.

— E tu saíste ontem de manhã quando estava a chover.

— Foi passear o cão — disse Amerigo. — Eu vi-os juntos.

— E ajudaste a encobrir a situação, também — disse Guid'Antonio. Domenica


colocou pinhões num almofariz de cimento e começou a
esmagá-los com o pilão, com uma expressão sombria no rosto.

— Eu avisei o Cesare: se a senhora Elisabetta o descobrisse, esfolava-o


vivo como um coelho para o tacho. Pior do que isso, havia de conseguir
que o fechassem na Stinche.

Cesare levantou o queixo.

— Estou certo que ela seria desautorizada — disse, procurando os olhos


de Guid'Antonio.

— Ninguém será fechado na Stinche — disse ele.

— Exceto, claro, o nosso parente Piero Vespucci — disse Amerigo.

— Amerigo, porque tens sempre de... — Guid’Antonio parou e inspirou


profundamente. — Então achas que a tua mãe não sabe... — gesticulou para
o cane corso italiano — disto?

— Na verdade, a minha mãe sabe — respondeu Amerigo. — Mas de alguma


forma, hmm, ela ficou com a impressão de que o tio tinha autorizado a
permanência do cão cá em casa. Não que esteja muito contente com isso,
claro.

— O pelo dele fá-la espirrar — disse Cesare.

Um raro sorriso espalhou-se pelos lábios de Guid’Antonio.

— Sê bem-vindo — disse para o cão. — Não! Fica longe de mim. Cesare, tu é


que andas a dar de comer ao cão. Por que razão, então, ele olha para mim
com olhos de carneiro mal morto?

— O tio alimentou-o no Mercado Novo — disse Amerigo.

— Eu só cuspi um pouco de queijo estragado para o chão. -Sim.

Cesare virou as mãos para cima num gesto de impotência.

— Ele ama-o incondicionalmente. Um cão.

— Leva-o daqui — disse Guid'Antonio. — O lugar dos cães não é na cozinha


juntamente com... — olhou para a mesa. — Com o pesto.

— Ámen — disse Domenica. — Olimpia! Entornaste o azeite outra vez! Meu


Deus, rapariga!

213

— Seria melhor queimares o cobertor — disse Guid'Antonio para Cesare. —


Não há necessidade de dares a Elisabetta motivos para alimentar a sua
fúria.
— Tenho pena de que a minha mãe seja um osso tão duro de roer — disse
Amerigo. Depois, ao olhar para o cão, riu com malícia. — Trocadilhos à
parte.

— Não te preocupes, não há trocadilho possível. — disse Guid'Antonio. O


cão lá foi andando atrás de Cesare, olhando brevemente por cima

do grande ombro para Guid'Antonio, com o seu sorriso canino amplo e


adorador.

— Amerigo — disse Guid’Antonio —, vamos andando. Temos comida para a


nossa viagem?

Amerigo levantou-se, com as suas botas e calças de couro.

— Embrulhei carne de porco assada em papel vegetal e carreguei os


alforges há horas. Antes de Cesare me informar de que não íamos partir
para Morba ao nascer do dia, conforme planeado. Embora não me tenha dito
por que motivo o tio mudou a nossa hora de partida.

— Estive com Maria — disse Guid'Antonio. Graças a Deus, tinha voltado


para a visitar naquela manhã, depois de abandonar o seu portão sem se
aventurar a entrar em casa na noite anterior.

Olimpia sorriu e Domenica levantou os olhos do almofariz.

— Ah, que bella Maria — disse.

— Isso explica o seu sorriso — disse Amerigo. — E o atraso.

— Como está a mãe? — perguntou Domenica.

Alessandra del Vigna estava tão morta como se já tivesse dado o seu
último suspiro. Na verdade, talvez até já o tivesse dado.

— A senhora está mal — respondeu Guid'Antonio.

Mas nada, nem mesmo a memória da mãe de Maria a sofrer na sua cama, podia
estragar a alegria que sentia por ter passado algumas horas com a mulher
ao início da manhã. Horas que tinha roubado quando, depois de acordar de
repente ao nascer do dia, sentiu o vazio que lhe ia na alma e se
apercebeu de como estava saudoso da sua família. Era ridículo; estava há
quase cinco dias em Florença e não passara tempo significativo com nenhum
deles, malditas fossem as circunstâncias extenuantes.

Vestindo-se rapidamente, voltou a fazer o percurso da noite anterior e


foi até Santa Cruz para estar com ela e com o menino.

214

Saíram do pátio da casa dos Del Vigna e a pequena família de Guid'Antonio


atravessou a praceta, entrando descontraidamente no recinto iluminado
pelo sol, onde naquela manhã não havia sinais de um fantasmagórico
Giuliano de' Medici a celebrar o seu torneio de inverno. Maria levantou o
rosto em direção ao sol, absorvendo os seus raios quentes e calmantes.
Era tão prisioneira na tristeza sombria da casa da sua mãe como o parente
de Guid'Antonio, Piero Vespucci, na noite escura da Stinche.

Ao observar Maria, Guid’Antonio via uma mulher a meio dos vinte anos, com
pestanas grossas e escuras que lhe afagavam as faces e madeixas de cabelo
preto que escapavam por baixo da touca que devia cobrir-lhe a cabeça e o
pescoço dos olhos errantes do público. O amor comprimia-lhe a garganta e
sentia-se grato por Deus ter atrasado a viagem a Morba até mais tarde
naquele dia.

Caminharam sem pressa por entre os vendedores e os rapazes irrequietos


que jogavam à bola, e Guid'Antonio sentia-se tão contente que mal reparou
no aspeto decrépito das pobres casas de madeira e das lojas que rodeavam
a Praça de Santa Cruz. A duas venditrici, mulheres que vendiam no
exterior das lojas pertencentes às guildas, Guid’Antonio comprou um
pacote de agulhas de coser e uma touca de renda para Maria. O presente de
Giovanni foi uma marioneta, pendurada num emaranhado de fios.

— Ora vê, Giovanni. — A rir, Guid'Antonio fez com que as pernas


desengonçadas da aranha de madeira estalassem e dançassem na rua.

O menino olhou atentamente, espantado: não para o brinquedo, mas para o


pai.

— Mama — disse Giovanni. — Ele realmente sabe rir!

O calor atingiu o rosto de Guid'Antonio; o sorriso esmoreceu.

— Giovanni! Claro que sabe! — Envergonhada, Maria colocou as mãos sobre


os ombros de Giovanni; debruçando-se, beijou-lhe o rosto. — Porque não
experimentas mexer a marioneta?

Aos ouvidos de Guid'Antonio, a mulher parecia nervosa e exausta,


demasiado cansada para tolerar muito mais conflitos e tensão. Ele tocou-
lhe no braço.

— Não faz mal, Maria.

— Não. Mas um dia... — Deixou a frase a meio. Um dia, a minha mãe... a


minha presença constante já não será necessária na casa da minha mãe.

Giovanni semicerrou os olhos para olhar para Guid'Antonio.

— Posso brincar com a aranha marioneta?

— Claro que sim. É tua. Tenta não embaraçar os fios.

215
Mas Giovanni já estava concentrado na marioneta e na relação dos fios com
os seus dedos de menino. Os pais aproveitaram a oportunidade para ficarem
sentados juntos no banco de pedra que contornava o fontanário, onde o sol
da manhã os banhava e a água gorgolejava e brilhava, caindo da boca de um
leão de pedra.

— Guid'Antonio, que coisa para Vanni dizer.

— Bem. Se é a verdade.

— Mas não é. — Maria poisou uma mão na coxa dele e Guid’Antonio sentiu um
espasmo de desejo disparar através da virilha, ali, na apinhada Praça de
Santa Cruz, com edifícios castanho-avermelhados a erguer-se em direção ao
céu a toda a volta e com a igreja a observá-los na extremidade da praça.

Um bando de rapazes adolescentes passou por ali. Um deles agarrou o


fundilho das calças:

— Que bella Signora, o melhor era provar aqui desta fruta comprida e

madura!

Com uma expressão dura como pedra, Guid’Antonio libertou o punhal da


bainha. Os rapazes desavergonhados apressaram-se a ir embora, mas não se
sentiram suficientemente ameaçados para evitarem olhar por cima dos
ombros para Maria, sorrindo com malícia.

— Que atrevidos — reclamou Maria. — A andar assim aos magotes, vestindo


as cores uns dos outros e com facas à cintura. Que Deus me ajude se
alguma vez souber que Giovanni anda por aí nestas figuras.

— Não vais — assegurou-lhe Guid’Antonio. — Saber, quero eu dizer. Uma


expressão ligeiramente carrancuda formou-se na testa dela; depois

apercebeu-se do sorriso dele e riu-se.

— Estás a provocar-me.

— Sim.

Com um movimento delicado, Maria tirou a mão da perna de Guid'Antonio.

— Cara, anda cá — disse para Giovanni. — Não vás para a viela.

Obedientemente, o menino afastou-se das sombras de uma rua escondida e


aproximou-se dos pais. No mesmo instante, os sinos de todas as igrejas e
torres de Florença começaram a repicar, dando as horas, alto e bom som,
fazendo estremecer o ar. Era quase meio-dia.

— Amerigo e eu vamos para Morba hoje à tarde — disse Guid’Antonio.

— Para Morba? Não foi aí que a rapariga desapareceu? É uma viagem longa.

216
— Devíamos ter partido ao amanhecer. — Encolheu os ombros suavemente. —
Em vez disso, trouxe-te aqui, com Giovanni. Na verdade, o nosso destino
não é Morba. Só vamos até ao local onde Camilla Rossi da Vinci
desapareceu. De qualquer maneira, vamos ter de parar em San Gimignano e
passar lá a noite; amanhã de manhã bem cedo retomamos a viagem.

Maria protegeu os olhos com a mão, bloqueando o sol.

— Antes de mais, por que motivo estás envolvido na história dela? Claro —
Maria não sabia da sua investigação sobre o desaparecimento

da rapariga e sobre o quadro que chorava. Ela não sabia que, ao que
parecia, alguém andava a usar o desaparecimento de Camilla Rossi da Vinci
para criar um mar de problemas em Florença.

— Estou preocupado com o que lhe aconteceu — respondeu. Linhas finas


apareceram em volta dos olhos escuros de Maria.

— Mas os turcos não teriam deixado rastos. Ele pestanejou.

— Também acreditas na história dos turcos, Maria?

— Pela minha alma, sim. — Maria persignou-se. — Toda a gente sabe que
foram eles. — As lágrimas enchiam-lhe os olhos e a sua voz tinha o tom
frágil nascido da certeza e do medo.

O que podia ele dizer em relação a isto? Não queria fazer pouco de Maria
nem desvalorizar as suas crenças. O que devia fazer era aprender com a
sua expressão de medo.

Apertou-lhe o braço com gentileza. O tecido do seu manto de verão, de


mangas compridas, era quente sob os dedos dele.

— Estou convicto de que estamos a salvo de Mehmed, o Conquistador. Pelo


menos, por enquanto.

— Acreditas nisso? Ainda bem! — Olhou para ele de modo inquiridor,


querendo crer nas suas palavras. Depois franziu o sobrolho. — Mas porque
tens de ir? Certamente, a polícia já lá esteve.

Sim, a polícia já lá tinha estado, na esguia figura de Palla Palmieri. O


local onde Camilla Rossi da Vinci tinha desaparecido ficava a uma
distância considerável de Florença. Ele e Amerigo iam ter de encontrar
alojamento em San Gimi, e depois viajar um pouco mais para ocidente, em
direção à cidade de Volterra. Palla Palmieri inspecionara o local no dia
a seguir às notícias terem chegado a Florença e não descobrira nada.

Mas Guid'Antonio queria ver com seus próprios olhos.

217
Cheirar a atmosfera e tocar com os dedos no sítio onde Camilla Rossi da
Vinci tinha terminado a sua viagem com Tesoro, com a ama e com o seu
rapaz escravo. Queria encher os pulmões com o mesmo ar, sentir os sulcos
gastos da estrada e vaguear pela floresta que a rodeava. Queria verificar
se conseguia sentir o que acontecera ali naquele sábado em particular.
Talvez naquela estrada que ia para Bagno a Morba, casa das medicinais
nascentes de água sulfúrica de Lucrezia de' Medici, ele conseguisse
encontrar a sua própria cura. Tolo. Sorriu para com os seus botões. E
disse:

— Quero apenas ver se consigo descobrir mais informações quanto ao que


poderá ter acontecido à rapariga. Com um pouco de sorte, regresso amanhã
à noite. Entretanto, precisas de alguma coisa? De mais medicamentos para
a tua mãe?

Maria abanou a cabeça, ainda a franzir o sobrolho e olhando para


Guid'Antonio pensativamente.

— Ela agora está mais calma, graças às poções de Luca Landucci. O


acónito, em particular, ajuda-a muito.

Se pelo menos os talentos de Luca se estendessem na descoberta do que


estava a ser utilizado para fazer o quadro da Virgem Maria de Santa Maria
Impruneta chorar! Já tarde, na noite anterior, Cesare entregara a
Guid'Antonio um bilhete selado de Luca, que dizia ter tido uma ideia
brilhante: e se alguém estivesse a usar a bexiga de um porco para
esguichar água para o rosto do quadro em momentos oportunos? Depois de
experimentar em casa e descobrir que funcionava, Luca sugeriu que podia
ir a Todos os Santos e...

Cristo crucificado! Guid’Antonio tinha empalidecido ao pensar no


boticário a entrar sorrateiramente em Todos os Santos e a apontar o órgão
de um animal à Virgem Maria de Santa Maria Impruneta. E se Luca fosse
apanhado? O abade Ughi havia de o mandar arrastar e esquartejar. Luca
também sugerira a utilização de químicos. Um pó de determinada espécie
que se tornava líquido sob as condições certas. Dessa forma, as lágrimas
podiam ser controladas. Mas que pó? E que condições? Luca ainda estava a
trabalhar nisso.

Na sua resposta apressadamente escrita, Guid'Antonio disse ao boticário


que não devia ir para Todos os Santos e conduzir experiências sob
quaisquer circunstâncias. Era demasiado perigoso. E, também, Luca podia
danificar o venerado quadro antigo. Por Deus, Luca Landucci estava
disposto a fazer tudo aquilo para agradar a Guid’Antonio Vespucci e assim
ver Gostanzo ganhar ao palio no mês vindouro?

218
Sim.

— Fico feliz por saber que a tua mãe está a descansar — disse, antes de
se levantar do banco circular de pedra. — Giovanni, vamos.

Agora, com a mulher e o filho em segurança na casa de Santa Cruz, e


Amerigo ao seu lado em direção ao estábulo Vespucci, Guid’Antonio
sentia--se inundado de luz e esperança. Como podiam a suave brisa e o sol
de verão que lhe aquecia os ombros através do tecido da sua túnica
castanha simples e camisa interior de linho ser qualquer outra coisa que
não uma bênção?

As sombras caíam em bandos pela estrada iluminada pelo sol enquanto


viajavam para sul a cavalo de Flora e Bucephalus. Florença não estava
muito longe deles quando a estrada se alargou e os ciprestes em forma de
chama deram lugar às colinas ondulantes forradas com suaves papoilas
vermelhas, ginestra amarelas vivas e flores silvestres de aromas doces,
assaltadas pelas abelhas. Cavalgaram e cavalgaram, com as selas a estalar
agradavelmente, passando por igrejas simples e quintas de pedra.

Ao ver os castelões em ruínas e as aldeias fortificadas que pontilhavam o


campo, Amerigo estremeceu.

— Imagine o que seria viver nos sombrios tempos de outrora. Com um frio
desolador. Ermo. Sem livros para ler. Não que naquela altura houvesse
muita gente que soubesse ler. Ou, se um dia aprenderam, certamente já se
tinham esquecido. Consegue imaginar viver sem um livro na mão?

Guid’Antonio olhou de relance para ele.

— Se colocarmos os tempos numa perspetiva geral, não foi assim há tanto


tempo.

Era a Alta Idade Média, como as pessoas por vezes lhe chamavam, uma
altura no passado sombrio em que a violência rasgou a região campestre da
Toscana como se feita fosse de carne macia. Uma altura na qual a
segurança e o poder dependiam da força individual e as famílias
procuravam refúgio dos seus inimigos de machados, em torres altaneiras e
cidadelas amuralhadas, defendendo-se com uma chuva de pedras e alcatrão a
ferver para cima das suas cabeças. A pele do escalpe de Guid’Antonio
arrepiou-se. Ele vira o machado de Bernardo Bandinni a cortar a cabeça de
Giuliano e Lorenzo a correr em direção à sacristia com Angelo Poliziano
atrás de si. Francesco Nori, gerente da filial do Banco Medici em
Florença, morrera no altar naquele dia. Em vez de correr, Francesco
colocara-se em frente a Lorenzo e fora apunhalado no coração.

219

Guid'Antonio esfregou a cara com a mão. Não fora exatamente na Alta Idade
Média, mas dois anos antes. Nestes tempos, os ricos e celebrados viviam
em plena luz e no novo e florescente génio dos dias, debatendo-se para
manterem o poder e a paz, já para não falar das suas vidas: porque, na
verdade, o truque fundamental continuava a ser simplesmente conseguirem
manter-se vivos.

Aproximaram-se de San Gimignano, construído no cimo de uma colina,


aquando da luz violeta do entardecer.

— Ouça a minha confissão e chame-me pecador — disse Amerigo. — Fico


sempre espantado pelo número de torres que tem esta pequena cidade.

— Sim. Tem setenta, ou mais.

Depois de mostrarem ao guarda as autorizações de viagem, entraram pelo


portão e percorreram uma estrada estreita e irregular ladeada por
oficinas. Uma outra rua estreita levava-os até à Praça do Duomo.
Desmontaram e Amerigo partiu em busca de um estábulo público; prendeu os
cavalos a um bebedouro enquanto Guid'Antonio caminhava pelo crepúsculo em
direção à igreja da praça principal, procurando um lugar relativamente
seguro para encostarem as suas cabeças durante a noite. Depois de
cumpridas as tarefas, procuraram o La Bucca, a taberna da cidade. Olhando
em redor para os rostos preocupados à luz das velas atarracadas colocadas
em cima das mesas do pequeno e quente bar, comeram um reconfortante
jantar de pernil de javali e minúsculas e doces ervilhas, empurradas com
Vernaccia, o vinho branco local, servido em copos de barro.

Guid'Antonio observou de relance o pequeno restaurante: curioso, cada um


dos homens que jantavam e bebiam nas mesas de madeira estava ansioso para
trocar mexericos e informações.

— Ah. Estão de viagem para as águas medicinais de Morba? Tenham cuidado.


A estrada está cheia de malditos infiéis. Sabem, à meia-noite, eles
transformam-se em lobisomens e devoram a vossa carne!

— Sim, sim, Signore. Não vai há muito tempo, atacaram uma inocente. Uma
rapariga! Claro que é disso mesmo que eles gostam, de escravos para
vender nos mercados. E para os servirem.

Guid'Antonio abanou a cabeça, lamentoso.

— Ouvimos falar do ataque. O que aconteceu?

— Vai encontrar o local marcado com uma cruz, dois juncos entrelaçados,
como aqueles que colocamos para proteger as nossas colheitas.

220

Mais tarde, depois de pagarem uma rodada na taberna e de verificarem como


estavam Flora e Bucephalus no estábulo, Guid'Antonio e Amerigo apagaram
as suas velas e caíram exaustos nos estrados do refúgio da igreja
mergulhada na escuridão. Amerigo murmurou, inquieto:
— Tio Guid'Antonio, não consigo dormir.

— Estás exausto, Amerigo. Boa noite. A voz de Amerigo estava animada.

— Não é isso. Como consegue fechar os olhos, rodeado destes frescos


demoníacos? São, são...

— O Julgamento Final de Taddeo di Bartolo — murmurou Guid’Antonio. — O


termo indicado para os descrever é deslumbrantes, embora retratem as
almas dos condenados a serem torturadas no Inferno. Na verdade, os
frescos não estão perto de nós, mas no fundo da igreja, nas paredes mais
afastadas da nave. Além de que está escuro como breu aqui dentro. Aquelas
estrelas douradas pintadas no teto por cima das nossas cabeças não estão
a brilhar sobre elas.

— Vi os frescos de Ghirlandaio na Capela de Santa Fina quando aqui


chegámos esta tarde — disse Amerigo. — A sua representação da piedade da
rapariga é bastante satisfatória.

— Tenho a certeza de que Ghirlandaio ficaria felicíssimo por te ouvir


dizer isso. — Guid'Antonio também tinha visto o círculo de frescos de
Domenico Ghirlandaio na capela e lera as palavras inscritas no túmulo de
Santa Fina: Procuras milagres? Observa aqueles que as vívidas imagens
destas paredes ilustram. 1475.

Sim, pensou Guid'Antonio. Procuro milagres.

— Viu o fresco novo de Ghirlandaio em Todos os Santos? — perguntou


Amerigo.

Guid'Antonio expirou com cansaço.

— O São Jerónimo, perto do Santo Agostinho de Sandro? De passagem, sim.

— Não, não. O do refeitório. A Última Ceia, na parede mais afastada.

— Não. — Guid'Antonio sentia-se como se o seu corpo tivesse sido


chicoteado durante uma semana e depois atirado para cima de uma cama de
pedra. Ora, bem vistas as coisas, estava no chão.

— Eu também não. O tio Giorgio encomendou-o — disse Amerigo.

— Talvez devêssemos começar a chamar ao irmão Giorgio «Irmão Saco de


Dinheiro» — disse Guid'Antonio.

- Tio...

— Amerigo, o Sandro já começou o teu retrato?

221
— Infelizmente, não. Como o tio diz, quem tem tempo para essas coisas?
Embora tenha a certeza de que ele virá atrás de mim em breve, para poder
começar a receber o pagamento. Buona notte, tio. Hmm, amanhã vamos embora
a que horas?

— Cedo, a não ser que queiramos ser pisados pelos frades.

Saíram de San Gimignano envoltos num manto de chuviscos e nuvens brancas


tão espessas que quase não conseguiam ver os focinhos dos cavalos.

— Deus! — exclamou Amerigo. — Eu estava com esperanças de conseguir


produzir um mapa deste lugar. Mas como, se nem conseguimos ver por onde
vamos? — Trincou a maçã que comprara a um vendedor ambulante que montava
a sua banca perto da igreja às primeiras horas do dia.

Guid'Antonio puxou o capuz para a cabeça, para se proteger da humidade da


manhã.

— Pensa apenas como os homens se devem sentir quando se fazem à vela pela
primeira vez num oceano desconhecido, meu amado sobrinho. Não veem nada
senão água e céu até onde a vista alcança. — Sentiu, em vez de ver, o
sobrinho a endireitar-se na sela.

— Já pensei nisso. É no mínimo assustador. — Amerigo hesitou, a pensar. —


Mas há uma escola que...

Guid’Antonio sorriu, deixando Amerigo tagarelar enquanto cavalgavam,


escolhendo o caminho, incitando os cavalos, descendo finalmente de baixo
do véu de nuvens e entrando no verdejante vale. Com os capuzes recuados,
os mantos húmidos, viajaram para oeste através de colinas viçosas e
riachos brilhantes e límpidos, abrandando as montadas quando as árvores
que ladeavam a passagem se tornaram mais espessas e logo depois se
transformaram numa floresta.

— Ali — disse Guid’Antonio, indicando a cruz de juncos espetada na relva


ao lado da estrada.

Desmontaram e tiraram os mantos. Amerigo tirou um pedaço de pão duro do


alforge e partiu-o ao meio, entregando silenciosamente uma das partes ao
tio. Beberam água de um pequeno riacho e comeram salsichas com pão antes
de limparem as mãos às calças e se aproximarem da cruz.

Era imperfeita, sim. Dois juncos, entrelaçados.

De braços cruzados e com o dedo encostado à boca, Guid’Antonio observou o


espaço que os rodeava. A estrada ali era estreita, pouco mais do que uma
passagem salpicada pelo sol.

222
— Há espaço suficiente para uma horda fulminante fazer uma emboscada a
uma jovem mulher sem deixar sinais de comoção? — perguntou Amerigo.

— Não. E, claro, Palla esteve aqui quase imediatamente a seguir e diz não
ter visto qualquer sinal de tumultos.

— Isso é bom, estou certo? Uma vez que prova que Camilla deixou o marido
de livre e espontânea vontade, sem que existisse qualquer não cristão nas
redondezas?

— Com um amante, queres dizer? Amerigo encolheu os ombros.

— O que mais?

— Até agora parece ser uma boa justificação, Amerigo. Mas não tem
qualquer significado no que diz respeito à opinião de pessoas assustadas
que consideram os turcos meios demónios capazes de fazer todo o tipo de
crueldades. E ela também podia ter sido emboscada por meia dúzia de
ladrões normais. Há muito espaço para isso.

Amerigo inclinou a cabeça para o lado.

— Se Camilla realmente partiu de sua própria vontade - e é uma fuga e


tanto para uma senhora —, então e a ama e o rapaz? Foram eles os
primeiros a acusar os turcos.

Um pouco ausente, Guid'Antonio disse:

— Precisamente. — E depois: — O que disseste?

— Que foram eles os primeiros a acusar...

— Não, sobre a senhora fugir. Amerigo estava com um ar impaciente.

— Que rapariga da condição de Camilla Rossi da Vinci sonharia em


abandonar o marido? Bem. — Amerigo sorriu. — Sonhar, podem sonhar muitas,
mas quando é que alguma delas o fez de facto?

Certo. Guid'Antonio questionou-se no que diabo estaria a pensar quando se


precipitou na conclusão de que Camilla Rossi da Vinci tinha fugido por
sua iniciativa com algum robusto e corajoso jovem. Por um lado, este
princípio fazia presumir que ela era infeliz com o marido, Castruccio
Senso. E quem podia dizer com certeza se era este o caso? Por outro lado,
em Florença os divórcios eram possíveis. Ele mesmo tinha tratado de um
caso que acabou por ser bem-sucedido. Mas quando tinha uma jovem senhora
fugido realmente com o seu amado?

223

Na verdade, lembrava-se de vários casos. Mas, em cada um deles, a


rapariga tinha sido perseguida pela família e enviada para um convento,
para lá passar o resto da sua vida. Noutro dos casos, e em desespero pela
sua situação impossível, a rapariga cortou o próprio pescoço.

Então, como? Que outras possibilidades seriam possíveis, ainda que


remotamente? Por que motivo mentiam a ama e o rapaz acerca dos turcos?
Tinha de os interrogar. Mas a cidade de Vinci, à semelhança de Morba,
ficava a uma boa distância de Florença. Guid'Antonio estava cansado de
viajar. Estava cansado de tudo.

Andaram pela floresta, um de cada lado da estrada, e subiram as colinas


cheias de arbustos espinhosos, cheirando o aroma verde dos fenos e o odor
fecundo dos compostos húmidos.

- Nada - disse.

Regressaram para junto dos cavalos e, de pé sob a luz do sol que passava
por entre as árvores, Guid'Antonio inspirou grandes golfadas de ar.
Ajoelhou-se e passou a terra por entre os dedos. Era um lugar tranquilo.
Um lugar seguro, agradável. Pressionou as mãos no chão, cheirando a
mistura de terra com o calor, e durante um maravilhoso momento pareceu-
lhe que sentia, contra as palmas das mãos, o bater do seu coração ligado
à terra, a todos os tempos passados e aos que ainda chegariam.

E foi então que teve a sensação de que alguma coisa tinha, de facto,
perturbado a calma daquele lugar dourado. Alguma coisa... levantou-se,
abanando a cabeça para clarear as ideias.

Alguma coisa terrível e violenta.

- Para onde vamos agora? — perguntou Amerigo. — Para as termas?


Guid’Antonio subiu para a sela de Flora, franzindo o sobrolho, abanando
lentamente a cabeça.

- Por que motivo iríamos até ao fim quando a senhora que procuramos nunca
chegou ao seu destino? Vamos para casa, Amerigo. Para Florença.

224

Capítulo VINTE E DOIS

- Isso no seu manto é chuva? — Os olhos violeta de Cesare olharam


Guid’Antonio de cima a baixo. Aceitou cuidadosamente o tecido encharcado
e pendurou-o sobre a corda do canto do pátio, para secar ao sol. Quando
chegou às escadas que ligavam o pátio ao seu quarto, Guid'Antonio já
tinha puxado a túnica por cima da cabeça.

— Esse manto já valeu bem o dinheiro que me custou, primeiro em França e


agora aqui — disse.
Ao regressar a casa na tarde anterior, ele e Amerigo viram-se apanhados
por uma furiosa tempestade de verão, completada por nuvens negras e
carregadas de chuva acompanhadas de relâmpagos de prata brilhante e do
ribombar dos trovões que fizeram com que Flora e Bucephalus escorregassem
nos seixos enlameados da estrada, revirando os olhos aterrorizados.
Quando se aproximaram de Castellina, no Vale Chianti, entraram na pequena
cidade para procurarem abrigo. Naquela manhã, dirigiram-se a Florença,
para lá dos ciprestes e papoilas escarlates pontilhadas pelas gotículas
de chuva que brilhavam ao sol como pedras preciosas.

Cesare seguia atrás dele nas escadas quando disse:

— Se não regressassem a casa tão cedo, ia reunir um grupo para vos


procurar. Hoje em dia, quem sabe o que esta gente pode fazer?

Guid’Antonio gemeu. Não queria ser confrontado com desgraças e notícias


sombrias de cada vez que chegava a casa — viesse de onde viesse.

— Não me parece que Amerigo e eu estejamos em especial perigo.

— Hmm. — murmurou Cesare. — E por falar nisso, o seu sobrinho, senhor


António Vespucci, foi-se embora.

225

— Foi-se embora? Foi-se embora para onde? - Outra pergunta que fazia com
frequência nos últimos dias. Virou para o corredor que levava ao seu
quarto.

— Para San Felice, ontem. Com a mulher e os filhos, para fugirem ao


calor. - Cesare nem precisava de acrescentar o resto: - E para cuidar do
seu pai, Nastagio Vespucci, que estava a viver na villa desde o seu
regresso às nossas vidas, há uma semana. António deixou-lhe isto. -
Cesare fechou a porta e colocou um bilhete lacrado na mão de
Guid’Antonio.

Guid’Antonio mio:

Enquanto o tio esteve fora, começaram a circular pela cidade rumores


assustadores de uma balia. As pessoas andam a dizer que Lorenzo quer
tornar-se, oficialmente e de uma vez por todas, no príncipe da cidade.
Não me pergunte qual a fonte desta especulação espantosa. Com toda a
honestidade, não sei de onde veio, já que Lorenzo de' Medici é sempre tão
discreto. Também se fala de discórdia entre os lordes magistrados. Alguns
temem que o poder da balia possa prejudicar o nosso Lorenzo. Murmura-se
que Lorenzo pretende que a Senhoria mude as leis para que possa tornar-se
num duque, como o Ercole d'Este em Ferrara ou o Montefeltro em Urbino.
Alguns falam em rebelião armada, caso isto venha a verificar-se, outros
de tropas montadas dos Medici nas ruas. Outros ainda dizem que, de
qualquer maneira, Lorenzo é o nosso príncipe em todos os aspetos menos em
nome, que é um bom homem e, por isso, qual é o mal se a Senhoria o tornar
oficial? Rogo a Maria que se algumas mudanças chegarem a acontecer que
nos favoreçam, uma vez que o futuro da nossa casa depende da manutenção
da nossa posição na república, seja qual for a forma que esta venha a
ter. Destrua este documento, pois ainda não sabemos de que lado estamos.
Fique em segurança.

António di Nastagio Vespucci

Sábado, 15 de julho de 1480

— Queima isto - disse Guid'Antonio.

— Assim farei. Mas também há boas notícias.

— Graças a Deus.

— Sabe que a senhora em Todos os Santos chorou quando o cavalo de Camilla


Rossi da Vinci entrou na cidade, há dois dias. Na noite passada, os olhos
da Virgem Maria ficaram tão secos como as mamas de uma bruxa.

226

Quando entrou na Igreja de Todos os Santos com Amerigo, o cheiro da pedra


antiga atingiu o nariz de Guid'Antonio.

— Vejo que continuam a roubar os proventos às pessoas — disse Amerigo,


dirigindo-se ao irmão Beilincioni, que estava junto da pia de água benta
com a caixa de esmolas na mão. — Mesmo quando a nossa Virgem Maria não
está a chorar.

— O que sabe o senhor de proventos? Pff! — exclamou bruscamente o monge.


— Nenhum dos dois sabe, com as vossas botas de couro fino e ricas roupas.

— Amerigo, não gastes o teu latim — disse Guid'Antonio passando pelo


velho e amargo homem.

Dentro do santuário, olhou em redor e deu um passo atrás. Seria possível?


Oh, alegria, um pouco de sorte, finalmente!

— Amerigo! — chamou. — Olha aqui!

Caminhando apressadamente junto à parede sul iam dois irmãos beneditinos


da Ordem dos Humiliati, o mais pequeno um noviço, o outro o monge mais
alto, que na última segunda-feira saíram dos claustros atrás do seu irmão
de cabelos escuros que fugia, e que tinham embatido em Guid'Antonio.

Era o irmão Paolo Dolci e a sua pequena sombra, Ferdinando Bongiovi.

— Aqui está uma oração atendida. Andiamo, Amerigo. Irmão Paolo, espere!

O irmão Paolo Dolci virou-se lentamente, com uma expressão de espanto no


rosto: o seu nome, chamado na igreja por uma voz ao mesmo tempo
autoritária e desconhecida? Os seus olhos azuis-claros arregalaram-se ao
ver Guid’Antonio e Amerigo Vespucci a abrir caminho por entre as pessoas
que se encontravam no santuário, aproximando-se; o irmão Paolo encolheu-
se.

— Eu não lhe queria fazer mal, mestre Vespucci. Juro! Amerigo irritou-se.

— Fazer-lhe mal? Você'? Seria preciso mais do que o encontrão brusco que
nos deu na semana passada.

— Irmão Paolo - disse Guid'Antonio -, queria apenas dar-lhe uma


palavrinha. Nada mais.

— Oh — disse Paolo. — Pensei que... — Os dedos delicados passaram por uma


madeixa de cabelo que não estava lá; um cabelo fantasma: então, o irmão
Paolo tinha rapado o cabelo há pouco tempo. — Que Deus o abençoe pela sua
piedade — respondeu Paolo, baixando os olhos.

227

— Preciso de falar consigo — disse Guid'Antonio —, mas não aqui. Num


lugar resguardado. Seguro.

— Eu...

— Ele não vai consigo para lado nenhum — bufou Ferdinando Bongiovi. — O
senhor abade diz que vocês estão mancomunados com o Diabo no caminho para
o Inferno. Ele diz que os pecadores podem gastar até ao seu último florim
na igreja, mas jamais conseguirão comprar a entrada no Céu.

— Bem, tio, nesse caso, talvez seja melhor deixarmos de tentar, não acha?
— perguntou Amerigo, sorrindo malevolamente.

— Ferdinando — chamou o irmão Paolo —, por amor de Deus, morda a língua,


ou um dia ainda nos arranja tamanhos sarilhos aos dois que nunca mais
vemos a luz do dia. Ignore-o, mestre Vespucci. É um rapaz ignorante.

Mas, afinal, Guid'Antonio precisava de alguém que tivesse a língua solta.


E parecia-lhe pouco provável que alguma vez conseguisse estar sozinho com
Paolo.

— Ferdinando — disse, dirigindo-se ao rapaz —, já chegámos atrasados para


vermos as lágrimas da Virgem...
— Louvada seja Maria, Eterna Virgem, que nos dá uma alegria esmagadora -
entoou Ferdinando, persignando-se.

— Ferdinando, silêncio — disse o irmão Paolo. — Alegria é o que nos dá a


Virgem — acrescentou, virando-se para Guid'Antonio. — Ainda assim, é uma
alegria triste, aquela que nasce da mágoa e da desilusão que Maria sente
por nós.

— Por nós? — Ferdinando endireitou-se o mais que pôde, embora,


tristemente, não fosse muito alto. — Não. Não por nós, mas por II
Magnifico. O senhor abade diz que Lorenzo e os seus lacaios são os servos
de Satanás.

— Como se atreve, seu pequeno roedor! — exclamou Amerigo.

— Amerigo, não estás a ajudar — interrompeu Guid'Antonio.

— Ferdinando — disse o irmão Paolo —, fique quieto ou enforco-o pelas


orelhas!

— Se o irmão não o fizer, faço eu — disse Amerigo, com a voz a aumentar


de volume. As pessoas olharam na direção deles. Um menino ali perto
começou a chorar.

— Silêncio! — exigiu Guid'Antonio, tomando as rédeas do momento:

— Irmão Paolo: o senhor ou qualquer outro irmão estavam presentes na


igreja quando as lágrimas começaram a cair pelo rosto da Virgem?

228

O irmão Paolo pensou na pergunta como se Guid'Antonio tivesse acabado de


lhe falar numa língua estrangeira.

— Quando começaram a cair?... Não estou a entender. Guid'Antonio rezou


por paciência.

— Entrou no santuário e os olhos da Virgem estavam tão secos como as


mam... como estão secos agora e, de repente, começaram a chorar. —
Gesticulou de modo encorajador.

O desgosto toldou os olhos azuis do monge.

— Tristemente, não. Essa bênção especial pertence apenas ao irmão


Bellincioni e ao nosso abençoado abade.

— Ah. Enfim, talvez um dia - disse Guid'Antonio. Agarrou no lóbulo da


orelha, como se estivesse profundamente imerso nos seus pensamentos e
voltou a olhar para o irmão Paolo. — Alguma vez viu Lorenzo aqui logo
após a Virgem ter começado a chorar?

— Lorenzo? — perguntou Amerigo suavemente.


— Lorenzo? — ecoou o irmão Paolo.

— De' Medici — disse Guid'Antonio, sorrido debilmente. O irmão Paolo


abanou a cabeça.

— Tanto quanto sei, Lorenzo, o Magnífico, esteve aqui apenas numa


ocasião, pouco tempo depois de as lágrimas terem sido vistas pela
primeira vez por um menino da congregação, que as apontou à sua mãe.

Os olhos de Paolo percorreram o santuário enquanto os dedos se dirigiam


ao trinco de ferro da porta da sacristia.

— Rezo por Lorenzo todas as noites. Não acho que ele seja o homem mau que
o senhor abade julga que é.

Ferdinando deu um passo atrás, horrorizado.

— Contradiz o nosso senhor abade? O senhor abade diz que o quadro está a
chorar tanto por causa do diabo da Via Larga como dos pecados do irmão
Martino.

Irmão Martino? Guid'Antonio e Amerigo entreolharam-se.

— Shh, shh, shh! — O irmão Paolo agitou os braços por cima do peito
estreito de Ferdinando, depois agarrou-o e abanou-o vigorosamente. —
Ferdinando, desista! Se alguém o ouve, estaremos em tamanho perigo que
nunca mais nos safamos dele!

— O perigo é o paraíso — disse Amerigo.

— Este irmão Martino é o mesmo sujeito que vocês perseguiam na semana


passada pela Rua de Todos os Santos, não é? — perguntou Guid'Antonio.

229

— Não — respondeu Paolo.

— É sim, senhor - disse Ferdinando. - E desde esse dia que está


desaparecido.

Paolo gemeu, devido à tagarelice de Ferdinando ou ao súbito aparecimento


do abade Roberto Ughi — Guid’Antonio não tinha como saber qual o motivo.
Em silêncio, a porta da sacristia tinha-se aberto para revelar o abade de
Todos os Santos. Homem formidavelmente austero e chefe da Ordem
Beneditina dos Humiliati, Ughi olhou para Guid'Antonio com olhos tão
pálidos e frios como os de um peixe acabado de amanhar.

— Irmão Paolo — disse o abade, com uma voz perigosa e baixa. — Desapareça
daqui. Imediatamente, ou chegará atrasado à oração. Leve o Ferdinando
consigo. Como, se bem lhe pergunto, há de o rapaz ser um monge consigo
como deplorável exemplo?
— Eu... — Os olhos do irmão Paolo brilharam com uma onda de calor.

Ótimo. Não importava que o jovem tivesse abafado a sua paixão


imediatamente, porque por baixo do hábito e da tonsura de Paolo, ainda
ardia uma centelha de fogo.

Com o maxilar cerrado, Paolo fez o que lhe mandavam.

— Para variar, veio visitar-nos em plena luz do dia, mestre Vespucci —


observou causticamente o abade Ughi.

— Na esperança de o encontrar, como habitualmente — disse Guid’Antonio.

Os olhos gelados do abade semicerraram-se. Acrescentasse-se às marcas


negras da alma de Guid'Antonio o pecado da falta de respeito.

— Por que motivo está aqui? — perguntou, com a língua a entrar e a sair
da boca.

— Esta é a igreja da minha família.

— Este é um local sagrado e não o quero aqui a perturbar a paixão dos


nossos jovens monges.

Amerigo fungou com desdém, mas manteve-se calado.

— Farei o que for necessário para compreender melhor o que se passa com
as lágrimas desta Virgem — disse Guid'Antonio.

Os olhos semicerrados de Ughi reconheceram o frasear cuidadoso de


Guid'Antonio.

— Mestre Vespucci — disse, olhando em direção ao quadro e às pessoas


junto ao altar —, misteriosos são os desígnios do Senhor. Porque não
aceita isso?

230

— Não aceito enquanto o senhor for o único beneficiado.

— Vamos lá. Esta igreja não é propriamente uma igreja empobrecida.

— Em grande parte, graças à nossa família - salientou Amerigo.

— Ainda assim — disse Guid’Antonio —, esta controvérsia fortalece Todos


os Santos, não é verdade? Numa cidade onde abundam as igrejas, basta esse
facto para tornar o esforço de fabricar um milagre válido.

Ughi olhou para ele friamente, com uma expressão de pura aversão.

— Controvérsia? Fabricar? Se é assim que descreve o milagre das lágrimas


da Virgem Maria de Santa Maria Impruneta, aconselho-o a cuidar da sua
alma, pois está em severos perigos.
— Sem dúvida — respondeu Guid’Antonio. — Mas, senhor abade — repugnava-o
usar o título do homem, mas naquele caso, se queria ganhar algum terreno,
era necessário que o fizesse. — O quadro chorou em duas ocasiões
distintas. O que acha que o motivou? O que quer a mãe de Cristo? E, se
não oferendas e importância, o que quer o senhor?

Ughi fitou-o furiosamente.

— Ver o demónio maligno em Roma! Guid’Antonio encolheu os ombros.

— Ele já lá está.

Um guincho escapou-se dos lábios perturbados de Ughi.

— Está a referir-se ao nosso Santo Padre, o papa Sisto IV?

— Interprete as minhas palavras como quiser.

O fogo do ultraje rastejou até ao rosto do abade.

— Ouça-me com atenção, mestre Guid’Antonio Vespucci: as lágrimas são um


sinal da fúria de Deus e da glória que há de vir. Enquanto abade da
igreja da sua família, imploro-lhe que se pergunte o seguinte: as
lágrimas da Virgem Maria oferecem-lhe alívio ou vergonha? Ou o senhor,
como Lorenzo de' Medici, acha-se acima de Deus e da Igreja?

Num movimento único e fluido, o abade Roberto Ughi virou-se e marchou em


direção ao altar, com o seu vulto imponente a separar as pessoas à sua
passagem como um navio separava a água do oceano.

— Senhor abade — disse Guid’Antonio atrás dele. — O senhor tem um monge


desaparecido e não comunicou nada a ninguém?

Roberto Ughi retesou-se e virou-se lentamente.

— Não acredite em tudo o que os jovens monges lhe contam. Principalmente


os noviços.

Observando o abade a desaparecer por entre a multidão, Amerigo disse:

231

— Fosse ele outro homem qualquer e sentiria os meus dedos a


comprimirem--se em redor daquele pescoço enrugado.

Guid'Antonio inspirou profundamente, acalmando o pulsar da raiva pura e


ardente que lhe rugia nas veias.

— Chi va piano va sano e va lontano, Amerigo. Aquele que vai lento e


firme ganha a corrida.
— Não admira que o nosso Santo Agostinho esteja de olhos virados para o
Céu — disse Amerigo, espetando o polegar na direção da parede esquerda
enquanto regressavam para a entrada da igreja. — Eu se passasse muito
tempo nesta igreja fazia a mesma coisa. Ou noutra igreja qualquer, na
verdade.

— Hmm? - Quem ocupava os pensamentos de Guid'Antonio era o loquaz


Ferdinando Bongiovi e não o Santo Agostinho de Sandro Botticelli. —
Amerigo, o abade Ughi disse que o quadro estava a chorar pelo diabo da
Via Larga tanto quanto chorava pelos pecados do irmão Martino. Que pecado
tão horrível, pelo menos aos olhos de Ughi, poderá ter comendo este tal
de Martino para fazer o quadro chorar? — Ainda se recordava claramente do
monge jovem de cabelo preto: emoções ao rubro e lágrimas quentes enquanto
o irmão Martino fugia daquele lugar e corria pela Rua de Todos os Santos
abaixo.

— Quem sabe? Roubou um pedaço de manteiga? Bastava isso para o abade


condenar o pobre homem ao fogo dos infernos. — Amerigo ergueu o sobrolho.
— Ou talvez o rapaz tenha fugido do abade por outros motivos, mais
pessoais.

— Por causa de alguma travessura clandestina numa das capelas? —


perguntou Guid'Antonio quando saíram para o calor da Praça de Todos os
Santos.

— Entre ele e um dos outros irmãos?

— Ou com o próprio abade Ughi - Guid'Antonio pestanejou. Na Rua de Todos


os Santos, o céu estava espetacularmente ensolarado e as pedras refletiam
o calor. Para lá do muro à altura da cintura, o Arno brilhava como uma
cintilante serpente prateada entre a cidade de Florença e Oltr'Arno.

— Acho que... — Abrandou o passo, apontando para Il Leone Rosso, O Leão


Vermelho, e o pequeno e atarracado homem que se apressava a descer os
degraus da taberna e a entrar pela porta.

— O que foi? — questionou Amerigo.

232

- A não ser que os meus olhos e a minha memória me enganem, Castruccio


Senso acabou de entrar velozmente n'O Leão Vermelho. O marido de Camilla
Rossi.

233

Página em branco
Capítulo VINTE E TRÊS

O Leão Vermelho era um espaço fumarento, sombriamente iluminado e de ar


espesso e carregado com o odor dos trabalhadores. Eram principalmente
artesãos e vendedores, que comiam pequenos feijões brancos untados com
azeite frutado em taças de barro e empurrados por um espesso vinho tinto.
Guid'Antonio e Amerigo passaram por cima do grande cão amarelo que dormia
na entrada estreita.

- Sogni d'oro, sonhos de ouro, Biscotto - disse Amerigo, esfregando as


orelhas do cão já velho num gesto de afeto.

Os olhos de Guid'Antonio ajustaram-se lentamente à luz difusa da taberna


e estalagem.

Artesãos e lojistas de túnicas simples com cintos e calças remendadas,


enchiam as mesas toscas de madeira e o balcão do bar. Muitos usavam
foggette, os chapéus suaves e moles do popolo minuto. Sentados em bancos
ou de pé junto ao balcão, alguns homens olharam com curiosidade para os
recém-chegados. Um fabricante de bolsas que Guid'Antonio reconheceu do
Mercado de Santa Cruz semicerrou os olhos antes de baixar o olhar. Num
dos cantos afastados, o marido de Camilla Rossi da Vinci, Castruccio
Senso, discutia acaloradamente com um jovem rapaz que Guid'Antonio não
reconheceu.

Acaloradamente, pelo menos da parte de Castruccio Senso. O rapaz


desconhecido, jovem, robusto e de aspeto sujo e desorientado, duas
cabeças mais alto do que Castruccio Senso, ouvia com uma atenção fria o
marido da rapariga desaparecida, curvando os lábios num sorriso
desdenhoso.

235

Junto ao bar, Neri Saginetto, o dono da taberna, atirou o pano de limpeza


para o balcão, aplaudiu com prazer e apressou-se a sair de trás do balcão
para cumprimentar Guid'Antonio e o seu sobrinho.

— Já se passaram dois anos! Mama! Evangelista! Os Vespucci viajantes


estão aqui!

Neri estalou os dedos para a rapariga que estava atrás do balcão a lavar
pratos.

— Traz-lhes um jarro do Chianti que acabámos de comprar, sabes qual é.


Sim! — Neri atirou uma chave a Evangelista. — Ali, no barril de cima.

— Aquela não pode ser a pequena Evangelista! — disse Amerigo.


— A minha filha. Pode e é mesmo.

Evangelista era uma rapariga de beleza simples e os seus olhos negros


brilharam, reconhecendo o elogio que ouviu na voz de Amerigo.

— Já tem catorze anos e não vai ficar muito mais tempo neste lugar
-assegurou-lhe Neri. — É agradável de mais à vista. Sentem-se.
Evangelista vai trazer-vos o vinho.

— E salame? — perguntou Amerigo. — Estou cheio de fome. — Escolheram um


banco vazio e sentaram-se de costas para a parede, dando a Guid'Antonio
uma visão desimpedida de Castruccio Senso e do seu alto companheiro.

Um vulto esguio e negro passou por cima de Biscoito e entrou na taberna.


Palla Palmieri. Guid’Antonio comprimiu os lábios. Palla estava a cumprir
a promessa de seguir Castruccio Senso como uma sombra e estava a fazê-lo
ele mesmo, em vez de deixar a tarefa ao cargo dos seus homens.

Palla olhou em redor do espaço fumarento e viu Castruccio Senso. O seu


olhar acabou por parar em Guid'Antonio, sentado contra a parede. Sorrindo
debilmente, voltou para trás suavemente e passou por cima do cão ao sair
da taberna; a sua saída foi acompanhada por uma descontração generalizada
da tensão por entre os clientes de Neri.

Ao lado de Guid'Antonio, Amerigo, que tinha estado a observar Evangelista


a colocar um prato de salame, assim como algum queijo e pão numa
travessa, suspirou com um deleite indisfarçado, e não apenas pela comida.

— Que diferença que dois anos fazem numa rapariga. Mas, enfim, já que
aqui estamos, onde está o elusivo Castruccio Senso?

— Naquele canto ali, com o tipo de ar perigoso. Amerigo abafou uma


exclamação.

236

— Deus! Aquele sapo gordo? Não admira que a mulher tenha desaparecido.

A idade tinha amarelado o cabelo branco de Castruccio Senso. Usava-o


cortado curto em redor do rosto vermelho coberto de suor. Tinha vestido
um colete simples de um vendedor bem-sucedido, com as dobras castanhas
presas acima da barriga redonda. As pernas eram magras e os joelhos
ossudos com as calças justas castanhas a espetavam-se como dois galhos
por baixo do colete.

— Ele parece mais agitado e zangado do que desgostoso — disse Amerigo.

— Definitivamente.

— Mas está a usar uma faixa negra de luto. Quem é o gigante que está com
ele?
— Boa pergunta, Amerigo.

Quem quer que fosse, era um sujeito grosseiro, que observava Castruccio
Senso com uma calma quase perturbadora, com os braços musculados cruzados
por cima do peito e o calcanhar de uma bota encostado à parede. Uma
cicatriz irregular vermelha percorria a sua cara desde a maçã do rosto
até ao lábio superior. Grosseiro ou não, mantinha um silêncio controlado
perante as explosões agudas de Castruccio.

Evangelista serviu a comida e regressou com dois copos de barro e um


jarro de vinho. Era o vinho tinto que o pai tinha comprado no dia
anterior a Castruccio Senso, o vinicultor, explicou, acenando com a
cabeça em direção ao canto mais afastado da taberna.

— É um Chianti de Montepulciano.

Guid'Antonio pensou fugazmente em Angelo Poliziano. Montepulciano era a


terra natal do poeta, e a cidade localizava-se tão alto nas colinas da
Toscana que, quando se andava nas ruas, caminhava-se por entre as nuvens.

— O Castruccio é um dos fornecedores do teu pai? — perguntou


Guid'Antonio.

— Sim, Signore.

— Conheces o homem que está com ele?

A aversão brilhou nos olhos escuros da rapariga.

— Não. E nem quero conhecer. — Estremeceu, murmurando: — Ele está aqui


hospedado. Embora queira Deus que não por muito tempo.

Não era o vergão no seu rosto que fazia com que Evangelista não gostasse
do rapaz jovem e grosseiro; Guid'Antonio pressentia-o. Não obstante a
vermelhidão irregular da cicatriz, ele tinha um rosto agradável.

237

— Como se chama ele? — perguntou Guid'Antonio.

— Salvestro Aboati — murmurou Evangelista, retirando-se e olhando para


Aboati com uma expressão secreta.

Amerigo deitou azeite no seu salame e no pão.

— Que tipo de negócios terá Castruccio Senso com ele? Aboati não é
certamente um dos seus clientes de vinho e azeite.

— Eu não excluo qualquer hipótese. Uma transação comercial de vinhos que


correu mal, talvez? — Na verdade, Guid'Antonio não acreditava nessa
hipótese.
Castruccio, interrompendo a sua diatribe a meio, olhou em redor da
taberna apinhada e ao encontrar Guid'Antonio recebeu um sorriso e um
suave aceno de cabeça. Castruccio virou-se rapidamente e proferiu algumas
palavras austeras para Aboati, que abriu as mãos num gesto casual de
inocência.

Castruccio espetou-lhe o dedo no peito. Uma vez, duas vezes.

— Ali está um idiota — disse Amerigo.

O sorriso fixo de Salvestro Aboati desvaneceu-se. Deu uma palmada na mão


de Castruccio como se estivesse a afugentar uma mosca, com a cicatriz do
rosto muito vermelha.

Castruccio estremeceu.

— Como se atreve a tocar-me, seu...!

Um pequeno punhal brilhou na mão de Salvestro.

— Sim?

Castruccio deu um pequeno guincho e afastou-se apressadamente do canto,


tropeçando em bancos e mesas. Olhos atentos seguiram o seu voo até à
porta da taberna, onde subiu atrapalhado os degraus de pedra, com o pé a
bater com força nas costelas de Biscoito ao sair.

O velho cão amarelo ganiu de dor e surpresa.

Evangelista, a servir vinho numa das mesas, arquejou. O jarro de barro


caiu ao chão e estilhaçou-se. O vinho tinto salpicou o seu vestido
simples. O homem que segurava o copo de vinho, saltou do banco,
praguejando e limpando a parte da frente da túnica demasiado usada e
difícil de manter limpa.

— Bastardo!— Neri correu atrás de Castruccio. — Você, Castruccio Senso! -


Com o rosto roxo de raiva, Neri ficou junto à entrada de pedra, abanando
o punho e gritando atrás do vendedor de vinhos que agora, e Guid’Antonio
até poderia apostar a sua casa, fugia por Todos os Santos tão depressa
como as pernas escanzeladas lhe permitiam.

238

— Faço um refogado com a sua pila por ter dado um pontapé ao meu cão, seu
filho de um turco assassino! — Neri curvou-se: — Biscoito, estás bem?

O cão, milagrosamente a salvo, lambeu-lhe a mão.

— Da próxima vez que o vir, dou cabo de Senso — jurou um velhote de olhar
duro, um sapateiro ou fabricante de chinelos, a avaliar pela bolsa de
couro que tinha à cintura.
Com todos os olhos postos em si, Salvestro Aboati caminhou até ao balcão,
onde colocou duas moedas e pediu a Evangelista vinho para toda a gente, o
que provocou uma onda de exclamações animadas e alegres. Apoiou as costas
estreitas no balcão, mas não partilhou do vinho. Abafou um bocejo e
estendeu a Evangelista uma moeda que tirou da bolsa:

— Para pagar o teu vestido estragado. — A rapariga ficou a olhar


fixamente para ele, com os olhos brilhantes e curiosos.

— Aceita - disse o pai, com uma expressão sombria.

Toda a gente viu Aboati sair da taberna; os seus dedos afagaram


gentilmente o pelo amarelo de Biscoito enquanto subia os degraus.

— Acha que Castruccio Senso está a salvo com este assassino atrás dele? —
perguntou Amerigo.

— Palla também está atrás de Castruccio — respondeu Guid'Antonio.

Guid'Antonio e Amerigo aproximaram-se do balcão. Neri estava aborrecido,


torcendo furiosamente um pano manchado de vinho, como se fosse o próprio
pescoço de Castruccio Senso.

— Aqueles dois vilões. — Debruçou-se na direção de Guid'Antonio,


oferecendo-lhe um bafo a alho. — Aquele rapaz alto. E do Sul de Itália,
claro. Aposto o meu braço direito que ele vem de Nápoles, embora não fale
muito sobre as suas origens e sobre os motivos que o levam a permanecer
aqui em Florença.

— De Nápoles? — O domínio do rei Ferrante e do príncipe Alfonso, quando


este não andava a conduzir as tropas pela Toscana, para os lados de
Siena.

— Sim - respondeu Neri. - A pronúncia estranha e os modos rudes do


sujeito denunciam-no.

Guid'Antonio questionou-se por que teria um napolitano assuntos pessoais


a tratar com Castruccio Senso. Certamente, Castruccio não andava a vender
vinho a famílias de fora; não tão longe quanto Nápoles, que ficava na
ponta sul de ítalos, para lá de Roma.

239

— Neri, quando foi que Salvestro Aboati apareceu pela primeira vez n'0
Leão Vermelho?

— Há alguns dias.

— E hospedou-se aqui?

— Sim. Ele abre os cordões à bolsa como poucos outros.


— E já cá esteve hospedado antes? — perguntou Guid'Antonio.

— Não, é a primeira vez.

— O Castruccio veio visitá-lo pouco tempo depois de ter chegado?

— Ahh. — Neri baixou a voz. — Os Vespucci estão a investigar qualquer


coisa que envolve estes dois. — Fez sinal para a sala dos fundos. —
Venham.

Para o resto dos clientes, o taberneiro gritou:

— Se algum de vós olha para a minha filha, nem que seja de relance,
torturo-vos com pinças incandescentes e incendeio-vos os pés antes de vos
enforcar!

Guid’Antonio e Amerigo seguiram Neri até à arrecadação como duas crianças


obedientes. Pipas de madeira forravam as paredes. Presuntos inteiros,
prosciutti, estavam pendurados das vigas ao lado do salame gordo
temperado com pimenta preta e alho. Neri fechou a porta por dentro.

— Já sabem tudo o que sei sobre Salvestro Aboati. Quanto a Castruccio


Senso, ele é um homem Medici, não é?

Guid’Antonio fez um som de desvalorização no fundo da garganta.

— Tanto quanto qualquer outro vendedor de vinho que pode fornecer


ocasionalmente a família de Lorenzo.

Neri debruçou-se para a frente, batendo no peito com o punho.

— Eu sou um verdadeiro homem Medici, como o meu pai e o pai dele. Tenho
orgulho em dizê-lo. Por esse motivo, conto-vos o seguinte, mas não
divulgam onde o ouviram: fala-se por aí, em surdina, que gente maldosa
matou a mulher de Castruccio Senso e andam a fazer a Virgem Maria chorar,
tudo para conspurcar o bom nome de Lorenzo. Para livrar Florença dos seus
apoiantes, homens como vocês e eu. Turcos? Uma ova!

— Está a falar de gente maldosa aqui da cidade? -Sim.

— E há muitos que partilham a sua crença? Neri ergueu os ombros.

— Como lhe digo, fala-se em surdina. Ninguém quer correr riscos.


Guid’Antonio acenou com a cabeça. Se fossem espertos não os correriam.

240

— Neri, o que sabe sobre Camilla Rossi da Vinci?

— Mama. — Neri beijou os dedos. — E uma beleza de rapariga. E casada com


um coelho! Se uma mulher daquelas fosse minha, nunca a deixaria sair de
casa, muito menos a colocaria numa estrada sozinha.
— Mas ela levava companheiros de viagem — disse Amerigo.

— Um escravo de doze anos e uma ama meia cega. — Uma velhota em pior
estado do que o meu cão, Biscotto. E ainda há mais. quando está com os
copos, Castruccio gaba-se de brindar a Baco com frequência porque a
primeira vez que viu Camilla Rossi foi enquanto comprava vinho para
revenda na quinta dos Rossi, em Vinci.

— E? — perguntou Guid’Antonio.

Neri pestanejou espantado com a falta de compreensão de Guid'Antonio.

— E ela trouxe com ela um dote considerável. Se quisesse saber quem a


matou, daria uma boa vista de olhos às contas de Castruccio Senso. O
dinheiro agora está livre e acessível, agora que já não tem mulher. E se
calhasse ele dever dinheiro a um patife como Aboati e não lhe pudesse
pagar... — Neri fez um movimento a imitar uma faca no pescoço.

— Por que motivo Castruccio Senso deveria dinheiro a Salvestro Aboati?

- indagou Amerigo. — Como é que os dois se conhecem?

— Isso é para o senhor e o seu tio descobrirem — disse Neri, com as mãos
unidas em oração.

— Neri — disse Guid’Antonio, enquanto pensava que talvez devesse ter


falado mais cedo com ele —, não tem havido boatos de que a senhora
pudesse ter uma ligação de qualquer natureza?

— Uma quê?

— Um caso amoroso — disse Amerigo, piscando-lhe o olho.

— Ah. Que andasse a enganar o marido? — Neri abriu a porta.

- Evangelista!

Mas não, Evangelista Saginetto não tinha ouvido quaisquer rumores daquela
natureza. Na verdade, todas as mães de Florença falavam de Camilla Rossi
da Vinci como um exemplo de virtude: Camilla, de beleza imaculada, com
madeixas de cabelo negro apanhadas numa touca de renda pérola e a
espreitar por baixo do capuz quando se dirigia para a igreja, era uma
esposa obediente e uma cristã devota.

— Mestre Vespucci — disse Evangelista —, as pessoas dizem que, antes de


ter desaparecido, ela passava todos os momentos livres de joelhos na
igreja.

241

E que igreja era essa?


A sua, mestre Vespucci. Todos os Santos.

242

Capítulo VINTE E QUATRO

Quem é o irmão Martino e por que motivo o irmão Paolo me seguiu a coberto
da escuridão na primeira noite depois do meu regresso à nossa cidade
amuralhada? Porque tenho uma forte desconfiança de que foi ele quem me
seguiu. Os modos ansiosos do irmão Paolo, hoje em Todos os Santos,
indicavam culpa em relação a alguma coisa ligada a mim e, embora ele
tenha dito apenas uma palavra naquela viela escura — Não! —, depois de
ouvir novamente a sua voz estou convicto de que encontrei o meu homem.
Porquê seguir-me e arriscar o próprio pescoço? Para murmurar alguma
informação, certamente. Se assim foi, terá o temível abade Roberto Ughi
descoberto a sua intenção? Sendo verdade, não há modo algum, nem aqui nem
no Inferno, de o jovem trémulo voltar a abordar-me, principalmente com
Ferdinando a seguir-lhe todos os passos.

Guid'Antonio parou de escrever e colocou a pena no tinteiro encastrado na


secretária, consciente de que a noite se arrastava firmemente no quarto
de dormir. Ali perto, encontrou um candeeiro de azeite; o pavio
incendiou-se e manteve-se. Uma poça de luz iluminou os seus papéis e nada
mais. Alisou o pergaminho que se enrolava e semicerrou os olhos. Era um
prodígio não estar tão cego como Platão.

Quem está zangado e com medo? O marido de Camilla Rossi da Vinci,


Castruccio Senso.

Porquê?

Quem é Salvestro Aboati?

Quem está a mentir?

Toda a gente, uma e outra vez.

243

Esfregou o rosto. Jesu, estava cansado. Uma lembrança passou-lhe


rapidamente pela cabeça: Palla Palmieri, uma sombra naquela tarde n'O
Leão Vermelho, a entrar e depois a sair calmamente.

A porta do studiolo rangeu e abriu-se de par em par. Guid’Antonio pôs-se


de pé num salto, quase derrubando a cadeira. Os seus olhos prenderam-se
na mulher que estava à entrada. Estava à sua frente com um manto castanho
escuro, o cabelo a espalhar-se para fora do capuz, com as fitas de seda
laças junto do pescoço. Ele pousou o punhal que tinha na mão.

- Estou a sonhar? - perguntou ele. - Como, se nem sequer estou na cama?


Queres dizer que depois de todo este tempo?...

- Estarás a sonhar dentro de um instante, Guid'Antonio. Na cama, quero


dizer.

Desapertando as fitas, ela deixou que o manto deslizasse lentamente para


o chão.

244

Capítulo VINTE E CINCO

Este era o cheiro de Maria, o toque suave da sua carne, os dedos que o
acariciavam no rosto. Ele afagou-lhe o cabelo, a curva dos seios, deitado
com ela num mar confuso de almofadas e lençóis molhados.

— A tua mãe está a dormir?

— Louvado seja Deus, está. Foi imoral da minha parte deixá-la esta noite?
E deixar também o Giovanni, embora a ama e a Olimpia estejam com ele?

— Tenho a certeza de que estão ótimos, Maria. — Beijou-lhe o cabelo, o


pescoço e tocou-lhe nos mamilos com os lábios.

Ela riu-se, ofegante.

- O que mais andaste a fazer, além de viajar até Morba? Descobriste


alguma coisa a respeito da rapariga? — Maria baixou a voz. — Viste algum
turco?

Ele deslizou a mão por entre as pernas dela, até acima.

- Nada de importante. Não vi sinais de turcos ou quaisquer outros. Ela


colocou a mão por cima da dele e deu-lhe um pequeno empurrão,

estremecendo com deleite.

— Não consigo respirar.

Ele moveu os dedos suavemente, com ritmo, para a frente e para trás,
provocando-a.

- Tenho andado a verificar as nossas contas. - Mordiscou-lhe uma orelha.


— E a assistir a reuniões no Palácio da Senhoria.

Maria arquejou de prazer.


- Maria, Mãe de Deus, estás a deixar-me sem ar. - Como resposta, ele
percorreu com a língua a barriga dela, e mais abaixo.

245

- Mais devagar... - pediu.

Não tinha a certeza de quanto mais tempo conseguia esperar. Dois anos era
tempo suficiente. Maria inspirou repentinamente, o riso débil e
satisfeito.

— Oh! — exclamou ofegante, deslizando as mãos pelas costas dele,


puxando--o para si. Ele aguentou, com os membros consumidos pelo calor.
Valia a pena esperar por aquele fogo.

Entrou nela com um movimento rápido e ardente, fazendo-a arquear as


costas; depois moveu-se ao mesmo ritmo dele, fitando-o por entre as
pálpebras meio fechadas, com a cabeça inclinada, para trás. As velas na
mesa de cabeceira brilharam, escorrendo cera derretida. Finalmente
exaustos, deixaram-se cair, cada um para o seu lado.

— Eu desejava-te — disse ele, ofegante.

— E eu a ti. — Maria tocou com os dedos nos lábios dele e sorriu, os


olhos vivos de satisfação. — Já alguma vez te disseram que tens uma boca
linda?

- Já. - À luz das velas trémulas, Guid'Antonio observou o corpo dela, os


círculos rosados que pontuavam os seios nus. — Tu.

Ela aninhou-se na curva do braço dele.

- Nunca chegaste a falar-me de França. Sei que as mulheres lá te


adoravam.

Ele olhou silenciosamente para ela, acariciando-lhe o cabelo brilhante e


preto, surpreendido por ela ter regressado àquele assunto. A bela e jovem
Ameliane Vely estivera meio apaixonada por ele, estava quase disso. Não
ia deixar que os seus pensamentos se demorassem em Francesca Vernacci.
Não quando estava na cama com a sua mulher. Desde que regressara a casa,
não tivera uma desculpa, nem uma razão válida, para consultar Francesca
no Hospital Vespucci.

Sentiu-se a ficar excitado. E tão depressa. Comprimiu-se contra a mulher,


com a pele quente de desejo.

— Elas gostam mais do Lorenzo — respondeu.

— Do Lorenzo? Mas ele nunca lá esteve.

- Onde?
- Em França! - Maria deu-lhe uma palmada a brincar.

— Mas mesmo assim ouviram falar dele. Toda a gente ouviu falar dele. E
admiram-no, também.

Maria beijou um tufo de pelos prateados do peito de Guid’Antonio.

- Mas já ouviram dizer que o coração dele pertence a Lucrezia Donati?


Outra vez a Lucrezia Donati.

246

— Ela é bonita — disse ele, afrouxando os braços em redor de Maria.

— Presumo que sim. Se gostares de louras esguias sem cor. Aparentemente,


o nosso Sandro cobiça-a para os seus quadros, agora que Simonetta está no
seu túmulo.

— Não precisas de ter ciúmes, Maria. — Já não precisas. Ela ofereceu-lhe


um pequeno sorriso.

— Não tenho.

— Eu tenho.

— Sabes que jamais te trairia.

— Nem eu a ti.

O silêncio instalou-se no quarto. E depois:

— Quem me dera que isto pudesse durar para sempre. — Maria gesticulou,
abarcando-o a ele e ao quarto sossegado. — Mas em vez disso... -
Guid'Antonio não ouviu as palavras dela, abafadas contra o seu peito.

Franziu o sobrolho, intrigado.

— O que se passa? — perguntou, acrescentando mentalmente: agora.

— Tenho medo.

— De quê?

— De te perder.

Ele fitou-a, sem entender.

— Por amor de Deus, Maria, o que se passa?

— Tens sempre de responder a uma pergunta com outra pergunta? — disparou.


— Sei que vais voltar a partir. E só uma questão de esperar pelo dia em
que Lorenzo te mande ir em alguma missão em nome dele.
Mama mia.

— Eu já cumpri o meu dever enquanto embaixador — disse ele. — Várias


vezes, como já salientaste. Agora está na altura de ficar a cuidar da
minha casa. O António não pode continuar a cuidar de tudo sem a minha
ajuda, e sem a ajuda do Amerigo, agora que o pai está em San Felice,
incapaz de dar uma mãozinha. — Afastou-lhe o cabelo do rosto e beijou-lhe
a testa. — Não vou voltar a sair de Florença. — Exceto talvez para
viagens curtas, recordou a si próprio.

— E quanto a Lorenzo?

Guid'Antonio encostou-se à cabeceira da cama.

— O que tem ele?

— Vais cuidar dele. Tens obrigações para com ele. Tornadas ainda mais
sérias porque são parte do mesmo grupo, e ele depende de ti.

247

— Assim como acontece com o nosso governo — respondeu Guid'Antonio. - É


essa a minha... - Ia dizer «é essa a minha vida, Maria». Mas disse, ao
invés: — É essa a minha missão nesta vida, Maria. Mas não tenho de sair
de Florença para a cumprir. Não se isso significar que tenho de te deixar
novamente durante tanto tempo. E a Giovanni.

Num dos recantos da sua mente, já estava a percorrer a rua e a atravessar


a cidade em direção ao bairro do Leão Dourado, no distrito florentino de
San Giovanni. A manhã ainda mal começara. Naquele dia queria ir ao
Palácio Medici para falar com a mãe de Lorenzo e Giuliano, Lucrezia
Tornabuoni. Mas iria Lucrezia recebê-lo? Noutros tempos, a ideia de
visitar Lucrezia tê-lo-ia enchido de alegria; gostava muito dele e
apreciava a sua companhia. Era uma mulher bondosa e extremamente
inteligente. Ao longo dos anos, tinham-se tornado bastante próximos.
Agora, a ideia de a encarar provocava-lhe uma dor nas entranhas como a de
uma lâmina afiada. Por sua culpa, Lucrezia Tornabuoni de' Medici tinha
perdido Giuliano, o seu lindo filho mais novo.

— O que foi? — perguntou Maria, com uma expressão atenta no rosto,


enquanto se sentava ao lado dele na cama.

— Nada. Maria, alguma vez reparaste em Camilla Rossi da Vinci na missa de


Todos os Santos?

Se Maria achava a pergunta estranha para aquele momento em particular,


ocultou-o bem.

— Parecia ser uma rapariga doce. Mas triste.

— Triste? Como?
— Os seus movimentos eram melancólicos e olhava em redor com frequência,
como se tivesse perdido alguma coisa.

— O que seria, pergunto-me? Maria sorriu.

— Por que razão uma rapariga, ou uma mulher, está alguma vez triste ou
vigilante, Guid'Antonio, senão por causa de um amor inconstante? Mas,
claro, Camilla era casada.

Sim, claro, e sem uma centelha de imoralidade. Segundo aqueles que


questionara acerca do seu caráter — Lorenzo, Evangelista —, era uma
rapariga decente, até mesmo tímida.

— Tenho uma coisa para ti — disse Guid'Antonio. Era um colar de pérolas


cuidadosamente escolhido no melhor joalheiro de Paris, um homem que
Ameliane recomendara vivamente.

248

Belas na sua simplicidade, com um suave tom de pêssego, as pérolas


brilhavam contra a pele luminosa de Maria.

Foi buscar as pérolas à caixa trancada que guardava na gaveta por baixo
da cama e ofereceu-lhas, sorrindo enquanto Maria arquejava com alegria,
tirando o colar do estojo de veludo preto.

— Guid'Antonio, são lindas! — Apanhou o cabelo e ele colocou-lhe o colar


ao pescoço; as pérolas eram símbolo de pureza, de acordo com os romanos,
os gregos e Ameliane Vely, que o ajudara a escolher o colar.

Beijou a pele suave da nuca de Maria e ela deu uma gargalhada,


estremecendo e tocando nas contas dispendiosas.

— Estão frias contra a minha pele. Ele recuou.

— Oh, não, são adoráveis! — exclamou Maria. — Mas precisamos de mais luz
para as vermos como deve ser.

Maria levantou-se, nua, afastando os lençóis húmidos e emaranhados com


uma das mãos e substituindo as velas curtas ao lado da cama por uma nova,
alta, de cera cremosa de abelhas. Presos na vela como se fossem pedras
preciosas estavam cravinhos para o afeto, folhas de jasmim para libertar
o suave perfume da felicidade e verbena de limão, cujo significado era:
Enfeitiçaste-me. A vela alta ardeu com uma chama de luz pura, sugerindo o
inextinguível, o profundamente encantador. Enxames de abelhas viajaram
longas distâncias para recolher o néctar do cravinho e de outras flores
selvagens para produzirem não só o mel, mas também os favos que davam
origem àquela cara vela de cera.

— É uma vela muito bonita — disse Guid'Antonio, sorrindo. — Onde a


compraste?
— Lorenzo trouxe-a de Nápoles.

No calor abafado do quarto, Guid'Antonio sentiu um arrepio súbito.

— Ai sim?

— Sim, ele chegou a casa com presentes para os seus amigos mais próximos.
- Maria desapertou o colar de pérolas, voltou a guardá-lo e deslizou
novamente para a cama, o seu cabelo um mar de negro que lhe fluía sobre
os ombros. Fizeram amor rapidamente, ofegando no calor escorregadio; o
sangue de Guid'Antonio pulsava enquanto a beijava fervorosamente e
pensava: Um dia devoro-te viva.

Depois, com Maria a dormir nos seus braços, ficou acordado numa névoa
opressiva, a observar a chama firme da vela.

249

Os sinos da igreja bateram ao amanhecer. Estava de pé junto da janela do


quarto, a ouvir a melodia de som enquanto os monges do outro lado da
cidade e nas colinas e nos vales que a rodeavam puxavam em cordas fortes
tecidas em Pisa, com os braços a latejar e os rostos virados para os
primeiros raios de sol do dia. Vindo do sul, um repicar particularmente
suave ecoava a partir do cimo, de San Miniato ai Monte.

Apoiou as mãos no parapeito de pedra da janela e olhou para a igreja,


pensando no soldado grego decapitado que pegara na cabeça e correra com
ela para o outro lado do Arno, até uma colina onde queria que a cabeça
fosse sepultada juntamente com o seu corpo. O que acontecia naquele velho
mosteiro à noite? Ouviriam os monges o fantasma de San Miniato a
percorrer a nave enquanto os seus passos passavam pelas imagens de leões
e cordeiros incrustados no chão de mármore? Ouviriam o soldado há tanto
tempo falecido a descer, passo a passo, os degraus da cripta, onde os
cadáveres humanos apodreciam por entre pó e ossos? Ouviriam os suspiros
dos jovens amantes, destemidos com a paixão, suficientemente
entusiasmados para arriscarem entrar numa das capelas escuras ao abrigo
da noite?; os sentimentos dos jovens eram muitas vezes contrariados por
casamentos arranjados, na maior parte das vezes entre as raparigas de
treze ou catorze anos e homens prósperos e mais velhos, pertencentes às
guildas. A maior parte dos homens, em Florença, não casava antes do fim
dos vinte anos, ou mesmo um pouco depois, daí o estado ainda solteiro de
Amerigo. A cidade fervilhava com raparigas já casadas que floresciam e
jovens fogosos e solteiros. Os recantos e sombras secretas das igrejas
eram locais de encontro ativos. Disso tinha Guid'Antonio certeza.

Mais sinos repicaram e os galos começaram a cantar sonoramente. Olhou


para Maria, que dormia na cama descomposta. O seu rosto parecia pacífico
e desprotegido. Viu-se a ir até junto dela e a beijar-lhe a boca, a sua
amante perfeita e amiga leal. Naquele dia, além de Lucrezia Tornabuoni
de' Medici, Guid’Antonio também queria falar com Luca Landucci, para ver
se o boticário estava a fazer progressos quanto ao possível processo de
manufatura das lágrimas da Virgem, que já tinham caído não uma, mas duas
vezes, embora já tivessem secado, graças a Deus e aos santos. Quando
fosse ao Sinal das Estrelas, ia comprar a Maria um ramo de ervas
aromáticas secas atadas com fitas. Crista-de-galo para o amor eterno,
alfazema para devoção e orégãos — Dás picante à minha vida. Não era
mentira nenhuma.

250

A testa enrugou-se numa expressão preocupada. Picante; seria esse o


ingrediente essencial que lhe faltava? Seria ele demasiado solene?
Demasiado intenso? Demasiado — atrevia-se sequer a cogitar? — recolhido?
Qualquer homem, fosse tintureiro, alfaiate, advogado ou diplomata, podia
ser trabalhador, mas alegre e vivaz também: a luz e a escuridão em igual
proporção. E ele, não podia ser assim? Picante. O que seria então capaz
de alcançar? O quê, se fizesse como os outros homens e insistisse,
exigisse, reclamasse e tomasse?

Dirigiu-se à cama e ouviu uma batida ligeira na porta. Descalço,


encaminhou-se para a porta e levantou o ferrolho.

Cesare olhou para ele das profundezas do corredor, o rosto vivo no brilho
amarelado de um archote solitário. Guid’Antonio saiu para o corredor, com
as solas dos pés sobre o chão de pedra fria.

— A mãe de Maria?

— Sim. Durante a noite. Guid'Antonio persignou-se.

— Como soubeste?

— Olímpia Pasquale veio ter comigo disfarçada de rapaz.

— Olímpia? Tu? — perguntou Guid’Antonio.

— Hmm. Ela é um bom mensageiro. — Cesare comprimiu os lábios em círculo.


— Nada tema. A enfermeira da senhora morta está lá em casa com Giovanni.

Atrás de Guid'Antonio, Maria mexeu-se na cama, inquieta.

— Eu desço já — disse.

Cesare desapareceu pelo corredor. Nas sombras no cimo das escadas, disse:

— O papa tem espiões a vigiar constantemente como Florença respeita a


excomunhão. Nos próximos dias, todos os olhos estarão sobre si.

Não podia haver uma criança batizada, um casal unido no matrimónio dentro
das paredes de um local sagrado, nem nenhum corpo enterrado em solo
abençoado. Feitas as contas, era Guid'Antonio quem estaria sob o foco
atento do papa. Ele sempre soubera que estaria.

O corpo de Maria mexeu-se com calor, com vida, sob os seus dedos.
Lentamente, despertou do sono. E percebeu de imediato. O seu braço caiu
pesadamente para a cama, como se Guid'Antonio se tivesse debruçado e
colocado uma pedra pesada na sua mão.

251

Guid'Antonio molhou uma toalha no lavatório para acalmar as faces


escaldantes de Maria. Teria apostado a sua alma que naquele dia ela ia
chorar furiosamente, berrar e atirar com barros e pratas para o chão num
protesto de raiva e mágoa. Não o fez. Em vez disso, enroscou-se no seu
lado da cama, como se ao tornar-se pequena pudesse desaparecer por entre
os lençóis.

O colchão afundou-se sob o peso dele.

— Lamento — disse Guid'Antonio. — Gostava muito da tua mãe. — Ficaram ali


durante o que lhe pareceu uma eternidade, Guid'Antonio ainda consciente
de que em todo o lado as engrenagens de Florença continuavam a girar com
as notícias da morte de Alessandra del Vigna. As carpideiras da

cidade iam acrescentar o seu nome à lista de defuntos recentes. As


especulações sobre os planos de Guid'Antonio Vespucci para o funeral da
senhora cresceriam exponencialmente.

Ouviu-se uma segunda batida suave na porta. Era a mãe de Cesare,


Domenica, com pão, manteiga de pesto, vinho e queijo. Em silêncio, com
apenas um aceno de cabeça a Guid'Antonio, Domenica entrou e saiu do
quarto de dormir. As sombras desapareceram dos cantos mais afastados e a
luz do sol entrou pelas janelas abertas, inundando o quarto com um mar de
luz branca brilhante. Lá em baixo, na Praça de Todos os Santos, um
cavaleiro passava com alarido e o leiteiro fazia o seu pregão.

— Guid’Antonio? Ele assustou-se.

— Sim? — Num impulso, curvou-se e beijou o ombro de Maria.

— Agora estou completamente sozinha — disse ela, e voltou a adormecer,


exausta.

Guid'Antonio olhou fixamente para a mulher. Certamente, queria dizer que,


com a morte da mãe, ficara sem a sua família natural: o pai, os irmãos e
irmãs e, agora, a sua amada mãe. Todos, todos desapareceram para sempre
do seu lado, enquanto ali, no mundo natural, tinha o marido e o filho.

Então, por que motivo se sentia como se tivesse mergulhado num lago
gelado?
Completamente sozinho. Sim. Ele sabia como ela se sentia.

252

Capítulo VINTE E SEIS

Com o quadro a chorar ou não, parecia a Guid'Antonio que tudo convergia


naquele momento: a doença de Alessandra del Vigna, a sua morte e a
resposta pública que Guid'Antonio iria dar aos olhos de Sisto IV e da
cidade. Nos últimos dois anos, tinham sido levados a cabo rituais
religiosos em Florença, discreta e humildemente. Era uma desobediência em
bicos de pés. Na opinião da cidade, eram os homens como Guid'Antonio
Vespucci e os seus amigos, mais do que quaisquer outras pessoas, que
caminhavam pela perigosa linha que separava o Céu do Inferno. Homens que
mereciam ser derrubados por troçarem não apenas de Roma, mas do próprio
Deus. Deus todo-poderoso, capaz de dilúvios, incêndios e pragas, capaz de
lançar qualquer um nas mãos dos seus inimigos.

Podia providenciar uma missa e um enterro privado para Alessandra del


Vigna em Santissima Annunziata, a igreja da família de Alessandra. Isto
desafiaria os ditames de Sisto IV, mas docilmente; seria uma vénia
parcial à autoridade do papa. Ou podia honrar a morte da senhora com
todas as demonstrações públicas que a mãe da sua mulher merecia: um
cortejo solene de homens poderosos a atravessar a cidade, com cavalos
ajaezados e os estandartes da família Vespucci desfraldados.

Guid'Antonio Vespucci. Desobediente. Rebelde. Orgulhoso. Era destemido?


Não. Deus à parte, havia uma possibilidade real de ser assassinado. Para
quê perder tempo com um quadro que chorava e imagens de enforcamentos
pintadas com sangue, quando o que bastava para mudar Florença para sempre
era uma flecha no coração de um homem, de vários homens, que caminhavam
juntos pelas ruas lentas e tortuosas da cidade, de Santa Cruz à
Santíssima Annunziata?

253

Guid'Antonio e os seus familiares, assim como Lorenzo de' Medici, o


presidente Tommaso Soderini, o chanceler Bartolomeo Scala, os Capponi e
os Pandolfini: os gloriosos e eternos líderes da República Florentina.

Olhou de relance para Maria, na cama. Dentro de um instante, ia deixá-la


ali a dormir e descer até ao jardim, onde encontraria Amerigo e Cesare à
espera das suas ordens. Antes de mais, ia instruir Cesare para que fosse
buscar o enfermeiro de Annunziata para confirmar a morte da senhora e
preparar o corpo para o enterro na cripta da igreja. Depois ia pedir a
Amerigo que dissesse a Lorenzo e aos lordes magistrados que tinha
intenção de observar todas as cerimónias fúnebres públicas adequadas à
condição da sua sogra.

Daí a dois dias, em frente a toda a população de Florença, ia colocar o


Céu à prova. Arriscando-se a si mesmo, à sua família e aos seus amigos,
ia encarar Deus de frente.

254

Capítulo VINTE E SETE

Guid'Antonio semicerrou os olhos para os vultos dos sobrinhos, vestidos


de negro, que se movimentavam contra o céu, protegendo os olhos contra o
brilho ardente do sol, enquanto estes se esforçavam para pegar na liteira
com o corpo de Alessandra del Vigna das mãos da fraternidade religiosa do
bairro e para a pousarem na plataforma forrada a vermelho da carruagem
funerária. Uma ligeira brisa agitou o véu fino da senhora e as mangas do
vestido de veludo carmesim, distribuindo o perfume de rosas brancas e o
fedor da morta por toda a Praça de Santa Cruz.

Os quatro cavalos amarrados à carruagem agitavam-se, inquietos, com os


mantos pretos brilhantes e os arreios decorativos de metal a reluzir,
dispendiosos e magníficos, para o mundo ver e invejar. Resplandecente
numa túnica e numas calças de um castanho rico, Cesare esperava sozinho
em frente aos animais ajaezados, posicionados para liderarem o cortejo
fúnebre na sua longa viagem até à Igreja Sagrada da Anunciação, a
Santíssima Annunziata, assim que Guid'Antonio desse o sinal.

Sapateiros e operários que trabalhavam para os tintureiros e pescadores


em Corso dei Tintori pairavam junto das portas das lojas e casas; homens,
mulheres e crianças que examinavam atentamente o ágil portador do escudo,
os cavalos orgulhosos, o catafalco vestido de escarlate e os mantos
brancos dos homens da confraria, todos em contraste direto com
Guid’Antonio e os seus sobrinhos, em opressores mantos negros. Os mantos
eram peças volumosas, de capuz, cada um deles feito a partir de catorze
braçadas de tecido, ou mais, e o seu valor seria capaz de pôr sopa na
mesa de um operário durante um ano.

255

A mão de Amerigo escorregou.

— Maria Sagrada, ali vai ela!


António estendeu o braço e apanhou a liteira, praguejando entre dentes.
Tinha regressado de San Felice no dia anterior, deixando a mulher e os
filhos para trás com o irmão Giorgio Vespucci. Para que ficassem em
segurança, dissera António.

O suor escorria pelos braços de Guid'Antonio.

— Com calma, aí.

— Podia dizer o mesmo à nossa audiência — disse Amerigo. — Eles estão a


medir-nos, os sapateiros e as prostitutas, ou não me chamo eu Amerigo
Vespucci. Onde estão agora os nossos famosos amigos? Será que todos nos
abandonaram, menos a confraria?

— Sim — respondeu-lhe o irmão.

Não havia ofertas de vinho ou comida.

Não havia lordes magistrados. Não havia Bartolomeo Scala. Nem Lorenzo de'
Medici ao lado de Guid'Antonio Vespucci. No ar, Guid'Antonio cheirava o
bafo da traição e do medo. Um gato branco sarnento passou à sua frente,
em direção aos cavalos. Cesare saltou da frente da carruagem, um
dançarino com sapatos de couro castanhos, e António voltou a praguejar
quando os cavalos se empinaram e relincharam.

— Graças a Deus que o felino assustadiço não era preto!

— Cuidado! — exclamou Guid'Antonio para Cesare, com a voz mais brusca do


que pretendia. Não gostava do frémito de medo que sentia ao pensar em
Cesare a caminhar sozinho na frente da procissão para a Santíssima
Annunziata no bairro de Miniver, no distrito florentino de San Giovanni.
Era uma caminhada de pelo menos meia hora. Só desejava que aquilo
acabasse e que pudessem todos regressar a Santa Cruz. Bem, se o velho
pudesse e o novo quisesse, nada havia que não se fizesse.

Passou os olhos pelas varandas de pedra que contornavam a praça. As


varandas e os telhados pareciam estar em ordem.

— Amerigo, António, podem descer agora,

António saltou para o chão e Amerigo aterrou levemente ao seu lado, com o
manto a rodopiar como uma nuvem negra.

— Sempre temos um amigo. — Espetou o polegar em direção ao cão cor de


fauno que estava sentado nas patas traseiras junto do portão Del Vigna.

Os olhos castanhos suaves do mastim andavam para trás e para a frente


entre Amerigo e Guid’Antonio até que acabaram por se fixar no mais alto
dos dois, com uma expressão de adoração pura.

256
Lavado e escovado, o pelo grosso e curto do cão tinha um brilho vistoso.
E, por Deus, estava a ficar tão grande! Um dia o mastim ainda ia chegar
ao tamanho de dois cães mais pequenos combinados. Ou três!

— Amerigo, nem penses que o animal vai connosco.

Mas Amerigo, apontando para lá do ombro de Guid'Antonio, murmurou:

— Olhe para ali.

Guid'Antonio virou-se. António Capponi atravessou vagarosamente a praça


em direção a eles, com o manto escarlate preso com um alfinete brilhante
de ouro e pedras.

— Surpreendido? — perguntou, dando uma palmada no braço de

Guid'Antonio.

— Aliviado — respondeu-lhe este. Capponi sorriu amplamente.

— Teria chegado mais cedo, mas encontrei um barbeiro e aproveitei para


fazer a barba. — Soprou uma madeixa de cabelo louro do rosto. — Se Deus
me quiser enviar hoje para o Inferno, pelo menos quero estar apresentável
quando cumprimentar Satanás à porta da sua caverna.

O sorriso pretensioso de Capponi desvaneceu-se um pouco.

— Sei o que está a pensar: «Capponi, esperava isto de todos, menos de


si». Mas prefiro cair morto pela mão de Deus, ou ser assassinado pela
multidão, do que agir como um cobarde fraco. — Depois virou-se
parcialmente e gesticulou para a praça. — Por vezes, as pessoas
surpreendem-nos das mais variadas e admiráveis maneiras.

Numa onda de tecido carmesim, Pierfilippo Pandolfini, Bartolomeo Scala e


Piero di Nasi avançaram na sua direção, com os mantos a roçarem nos
calcanhares. Tommaso Soderini não estava com eles. Muito bem. Outra
ausência despedaçou a alma de Guid'Antonio como a ponta de um punhal.

Capponi ergueu o sobrolho.

— Nada de Lorenzo?

— Não. — Consciente dos olhares inquietos e agitados que os observavam,


Guid'Antonio encaminhou-se para a praça para cumprimentar os seus
apoiantes.

Pouco tempo depois, levou a palma húmida da mão de Maria até aos lábios,
enquanto os outros homens murmuravam e se agitavam nos mantos carmesim,
cujas golas estavam encharcadas em suor.

257
Ali na loggia do jardim com ele, Guid'Antonio sentia-se zonzo, com o
coração a bater num ritmo profundo e lento. Daí a alguns instantes daria
início a uma ação que podia acabar com ele e os sobrinhos chacinados e as
suas cabeças expostas em estacas por toda a cidade. Ali estava uma
verdade nova para Guid'Antonio Vespucci: não gostava daquele papel
enquanto líder de outros homens.

Levantou o véu fino e preto de Maria, memorizando a curva firme do seu


queixo. Manchas violeta contornavam a pele delicada dos seus olhos. Teria
ele dito todas as coisas que queria que ela ouvisse?

— Se alguma coisa me acontecer hoje, deves partir de imediato com


Giovanni para San Felice. Lá, o irmão Giorgio vai manter-vos em
segurança. Todas as nossas contas foram temporariamente transferidas para
Urbino. O duque Montefeltro é um homem de confiança; através do seu
banqueiro, vai assegurar-se de que tu e Giovanni têm tudo aquilo de que
precisam.

— Ouvi dizer que o duque luta pelo nosso Santo Padre em Roma — disse
Maria, olhando para ele com olhos turvos e vermelhos.

— Por Roma um dia, por Florença no outro — disse-lhe. — Mas eu conheço


Montefeltro e estou certo de que ele é um homem de palavra, não obstante
quem contrata os seus serviços como condottiero numa guerra ou noutra.

Do manto, tirou uma chave de ferro.

— Esta chave abre a caixa que está por baixo da nossa cama. Os papéis da
família Vespucci e o meu diário estão lá guardados.

— E então?

— Os papéis são para o irmão Giorgio deixar a quem achar mais adequado.
Guarda o diário para Giovanni. Um dia, pode interessar-se por estes
acontecimentos. Ou até, talvez, outras pessoas. — Fez um pequeno sorriso.
— Quem sabe o que algumas pessoas podem achar uma leitura interessante?

Uma expressão perturbada cruzou a fronte de Maria.

— Não faças disto uma piada, Guid’Antonio. Tenho medo. Queria dizer-lhe:
também eu, Maria. Mas em vez disso, respondeu:

— Temos de ser corajosos.

— Para ti é fácil dizeres-me isso.

Não, não é. Reconhece os meus sentimentos, Maria.

— Eu amo-te — disse-lhe.

Ela pegou-lhe nas mãos e beijou-lhas.

258
— É melhor ires.

Ele conseguiu sorrir e acenou com a cabeça.

— Sim. Dada a resistência dos frades de Annunziata a esta cerimónia, o


melhor é não os deixar à espera.

— E também não deves deixar Lorenzo à espera.

Guid'Antonio virou-se. Um homem solitário apareceu na praça, o seu vulto


banhado em raios oblíquos de luz. Gracioso, robusto, alto e vestido com o
tom castanho do luto reservado para os amigos mais próximos da família,
caminhando com grandes passadas em direção a eles no seu manto ondulante,
Lorenzo de' Medici assemelhava-se a um anjo negro que vinha resgatá-los
de todas as maldades do Inferno.

Os murmúrios espalharam-se em redor da praça como um vento ligeiro.

— Lorenzo, o Magnífico.

— Que Deus te guarde, meu amor. — Baixando o véu, Maria entrou em casa
por entre o estalar da dispendiosa seda preta.

Lorenzo abraçou Guid'Antonio, com um sorriso desarmante nos lábios.

— Vejo que precisa de um gesto amigo. A minha mulher encontra-se entre


aquelas pessoas que dizem que nos coloquei a todos no caminho da perdição
e que por isso mais vale fazer as malas e encaminhar-me diretamente para
lá. Mas também, ela é romana, nascida e criada, por isso não valorizo
muito as suas opiniões. Bom dia - disse, cumprimentando as pessoas em
redor, antes de acrescentar em voz baixa para Guid’Antonio: — Tão poucos
apoiantes hoje?

— Assim parece.

— Só lamento estar atrasado. Estaria?

Lorenzo humedeceu os lábios.

— Vamos lá acabar com isto. Sem ofensa para a falecida. — E persignou-se.

— Cesare — chamou Guid’Antonio. — Andiamo, per favore. — Um par de olhos


cravou-se nele. — Pronto, anda lá — disse.

O mastim levantou-se com dificuldade. Aproximando-se, com os maxilares a


babar, o enorme cão castanho colocou-se ao lado da anca direita de
Guid'Antonio e sorriu mostrando os dentes.

259
A carruagem funerária mexeu-se e as enormes rodas estalaram ao começarem
a rodar.

Cesare entrou na praça. O sentimento que reverberava de todos os homens


era agora de extrema cautela. Certamente, as gentes da cidade estavam com
disposição para esperar terríveis castigos da parte do Criador.

Atrás de Guid’Antonio, o passo de Lorenzo parecia seguro e suave, com as


botas um regular passo à frente de Bartolomeo Scala e os três lordes
magistrados que se encontravam espalhados lado a lado atrás do líder de
facto de Florença, como um leque escarlate.

— Mesmo em cheio — murmurou Amerigo quando chegaram ao ponto central da


Praça de Santa Cruz. — Estamos mesmo no meio. Recorde-me lá novamente por
que motivo estamos a fazer isto? — Gesticulou em direção à rua sombria
onde entrariam depois de passarem pela Stinche, à sua esquerda.

— Porque o medo não muda nada, só nos rouba aquilo que temos -disse
Guid’Antonio.

Atrás dele, Lorenzo disse:

— Bem dito, meu amigo. Temos todo o direito de caminhar livremente pela
nossa cidade.

— Também temos o direito de morrer nela — disse Amerigo.

— Sim, isso também — concordou Lorenzo.

Seguiram a carroça desengonçada e entraram na rua, onde as crianças


espreitavam sobre as ombreiras de pedra das portas. Ouviu-se o som de uma
oração abafada vindo de uma oficina. Quando Guid'Antonio se começava a
convencer de que tinham entrado na rua errada e estavam num beco sem
saída, Cesare levou-os novamente até à luz. Pendurado numa varanda, um
lençol de linho tosco estalou com uma rajada de vento. A portada de uma
janela bateu. Amerigo sobressaltou-se. António Vespucci arregalou os
olhos, alarmado. O mastim rosnou.

Guid’Antonio tocou na cabeça do cão.

— Mantenham todos a calma. Não estamos sozinhos.

— Deus tem-nos nas Suas mãos - murmurou Amerigo.

— Queria dizer que Palla está aqui — esclareceu Guid'Antonio. Um pouco


antes, tinha vislumbrado os passos ligeiros de Palla Palmieri a passarem
de esquina para esquina, mantendo um breve avanço sobre eles. Os homens
de Palla espreitavam dos telhados, com os arcos erguidos e as flechas a
postos.

260
— Proteção — disse Lorenzo.

— Esperemos que sim — respondeu Guid'Antonio.

Entraram numa viela tão estreita que a carruagem raspava nas paredes. A
respiração de Guid'Antonio acelerou-se. Não tinha a certeza de Palla
estar ali. Não estava inteiramente seguro de ninguém. Continuou a
caminhar, um passo de bota pesada à frente do outro.

Passou-se uma eternidade. Com uma profunda sensação de alívio, emergiu


juntamente com os outros no ar fresco de um pátio ensolarado onde uma
jovem mulher estava de ombros caídos na ombreira de uma porta, com as
mangas arregaçadas, mostrando os braços vermelhos e endurecidos pelo
trabalho. Os seus olhos passaram pelos enlutados e detiveram-se em
Lorenzo. Curvou-se, murmurando para o menino pequeno que lhe agarrava a
perna. O rapaz recuou, com os olhos castanhos fixos em Lorenzo, com
admiração e medo.

— Gomo — disse Lorenzo, sorrindo para o menino, que baixou a cabeça e


olhou rapidamente para cima, e franziu o sobrolho. E depois um sorriso
apareceu como resposta nos seus lábios.

— Gomo — disse, e estremeceu, sentindo o beliscão da mãe. Lentamente, os


homens viraram à direita e caminharam diretamente

para nordeste com a imponente estrutura da catedral e a enorme cúpula de


tijolo vermelho de Brunelleschi a pairar atrás deles. Guid’Antonio
manteve os olhos fixos em frente. O chão ali era tão irregular que pensou
que Alessandra del Vigna ainda ia cair da carruagem. Ao seu lado, o
mastim mantinha o passo firme.

Ao chegar ao fim da passagem, Cesare parou, ainda satisfeito por estar na


segurança das sombras.

Do outro lado da Praça da Anunciação estava a Santíssima Annunziata, com


a sua fachada austera e firme sob a luz branca e brilhante do sol. Tanto
o relvado como a igreja pareciam estar desertos. Ali já não havia sinais
de Palla e dos seus guardas. Guid'Antonio sentiu o olhar apreensivo de
Amerigo. Com o bater do coração a retumbar nos ouvidos, esperou que
Cesare erguesse o seu estandarte e os levasse para o campo aberto que
constituía a última pernada da procissão. Os cavalos fungaram e
relincharam e Cesare endireitou os ombros. Ao lado de Guid'Antonio, o
mastim aguardou. Baixando o braço, afagou o pelo da cabeça do enorme cão
pela segunda vez naquele dia.

261

Página em branco
Capítulo VINTE E OITO

A carruagem avançou para a luz. Os olhos de Guid’Antonio viajaram para o


lado direito, onde o Ospedale degli Innocenti, o Hospital dos Inocentes,
se localizava por entre as sombras. O hospital, projetado por
Brunelleschi como o primeiro orfanato da Europa, não mostrava sinais de
vida. Um olhar rápido para o outro lado da praça revelou um amontoado de
casas e lojas encostadas umas às outras. Das janelas e portas abertas,
olhos assassinos fitavam o cortejo fúnebre enquanto este começava o lento
progresso pelo meio da praça relvada.

— Estamos novamente a ser observados — disse António Vespucci. Amerigo


deu uma gargalhada oca.

— E isso surpreende-te?

Os habitantes daquele bairro não eram os habilidosos mestres alfaiates


cujas mãos perfumadas trabalhavam com tecidos de damasco e brocados de
veludo, nem com os pequenos ornamentos prateados e as sedas com fio de
ouro que tinham dado grande fama a Florença; eram os pobres fiadores de
lã, os cardadores, os separadores e outros que tais, homens e mulheres
cujo lugar na indústria têxtil da cidade estava firmemente fixado nas
camadas inferiores.

Guid'Antonio concentrou-se na carruagem fúnebre e no rasto que as suas


rodas deixavam na relva. Para lá das paredes do orfanato, um bebé
chorava, incansável e sonoramente.

— Aquela criança chora como se o seu coração tivesse sofrido uma dor
terrível e estivesse agora prestes a despedaçar-se — disse António
Vespucci.

263

— Presumo que tenha e que esteja — disse Guid'Antonio enquanto passavam


pela bacia onde as pessoas deixavam os bebés sem medo de serem vistas.
Eram bocas de mais para alimentar? Não havia medicamentos para todos? Era
uma rapariga e não o ambicionado herdeiro homem? Era melhor ir para o
Ospedale e viver a vida como órfão do que ser sufocado pelas mãos do
próprio pai.

Às portas de Annunziata, Cesare parou, segurando o estandarte dos


Vespucci bem no alto. Passaram-se longos instantes, enquanto o suor
escorria pelo pescoço e pelas costas de Guid'Antonio.

— Onde estão os frades? — perguntou Amerigo. — Parecemos uns tolos aqui


parados.
— Certamente os Servos de Maria não nos vão atraiçoar agora — disse
António Capponi, com a voz inundada de medo.

— Se o fizerem — disse Lorenzo —, hei de recordá-los de que o meu pai


encomendou a Michelozzo o restauro deste local. E o desenho do sacrário
de mármore para o seu próprio quadro da Virgem milagrosa.

Ignorando os restantes, Guid'Antonio colocou-se ao lado da carruagem,


para ver melhor a fachada da igreja. Foi nesse momento que as portas de
Annunziata se abriram e dois Serventes de Maria com os seus hábitos
pretos saíram para o relvado. Por baixo da testa enrugada, o irmão Bardi,
um dos enfermeiros que cuidara do corpo de Mona Alessandra, fitou-o:

— Hoje, Deus observou-o com um olhar cuidadoso.

— Louvado seja — respondeu Guid’Antonio.

O irmão Bardi gesticulou para o seu companheiro, um homem magro e pálido


que encheu as faces cavernosas e começou a missa fúnebre com uma voz alta
e esganiçada.

— Com a graça e a misericórdia de Deus, Mona Alessandra del Vigna partiu


deste mundo blasfemo.

— Blasfemo — disse Amerigo, irritado e indignado. — Ele está a falar de


nós.

— Curva a cabeça — disse Guid’Antonio.

— Porque achas que usam hábitos tão compridos? — murmurou Lorenzo atrás
deles. — Para te poderem pontapear antes de conseguires ver as suas
pernas a mexer.

— Peço a Deus que ele se despache com isto — disse Pierfilippo Pandol-
fini. — Somos alvos fáceis, aqui parados no meio da praça.

— Como sempre, Pierfilippo, obrigado por constatar o óbvio — disse


António Capponi.

264

— ... Ámen. — Os frades viraram-se e desapareceram para dentro da igreja


numa onda de tecido negro.

Amerigo acenou com a cabeça para os cavalos e a carruagem.

— Aposto um florim de ouro em como quando voltarmos os animais já cá não


estão.

Guid'Antonio olhou em redor.


— Tu — gesticulou em direção da carruagem fúnebre: — Vai sentar-te ali.
Fica. — Olhando feliz para ele, o mastim atravessou o relvado com as
grandes patas e plantou-se ao lado da carruagem.

— Muito bem - disse Guid’Antonio. - Lindo menino. Retomando o passo,


Cesare liderou-os através da porta da igreja até

ao Chiostrino dei Voti, onde corpos estavam dependurados das vigas,


atados com cordas castanhas.

— Pelas chagas de Cristo! Isto consegue surpreender-me sempre — disse


Amerigo, olhando para as efígies de cera e madeira encomendadas aos
artesãos como Andrea dei Verrocchio para se assemelharem aos homens, e
depois penduradas no claustro como sinal da sua devoção.

— A mim também — disse Guid'Antonio.

As janelas do santuário estavam protegidas com pesados reposteiros


escuros. Lentamente, os olhos de Guid'Antonio ajustaram-se à atmosfera
sombria que os rodeava. No meio da escuridão da Annunziata, tudo parecia
estar bem. Ainda assim, a igreja parecia fantasmagoricamente silenciosa
para um lugar que albergava vinte homens ansiosos.

Seguiram Cesare para lá das capelas vazias, em direção aos vultos de


capuzes negros posicionados no altar-mor.

— Este lugar parece-me suficientemente seguro — disse Lorenzo.

— Aqui dentro, estamos cegos como ratos de porão — sibilou António


Capponi. — E, contudo, nenhum de nós pensou nisso.

— Pensei eu — disse Palla Palmieri, com o vulto esguio a sair da


penumbra.

— Cristo! — exclamou Pierfilippo Pandolfmi, com uma voz trémula.

— Maria! - Bartolomeo Scala agarrou-se ao peito.

Os dedos de Guid’Antonio tocaram no punhal ocultado sob o manto.

Um sorriso apareceu nos lábios de Lorenzo.

— Agora estamos em plena segurança, meus amigos.

265

Palla gesticulou levemente em direção aos seus sargentos, vultos negros


colocados a espaços nas sombras ao longo das paredes da capela, parecendo
praticamente unos com a escuridão.

— Esperemos que sim — disse, voltando a derreter-se nas sombras da


igreja.
— Convidou-o a vir aqui? — perguntou Guid'Antonio. Lorenzo abanou a
cabeça.

— Acho que está apenas a fazer o seu trabalho.

No altar, os Serventes de Maria olharam para os enlutados com expressões


indiferentes. Ao sinal de um deles, um trio acendeu a vela de oferta da
família Vespucci. As chamas tremeluziram e brilharam e os homens que
estavam junto à parede ao lado de Guid'Antonio ganharam vida.

— Cristo! — gritou ele, chegando-se para trás de repente. António Capponi


deu uma gargalhada sombria.

— Não, é apenas obra de Andrea del Castagno.

Com o coração a bater descompassado, Guid’Antonio observou os homens da


confraria religiosa a pousarem a liteira com o corpo de Alessandra del
Vigna no chão da igreja. Tinha-se esquecido dos expressivos frescos que
«Andrea sem mácula» pintara nas paredes do santuário de Santíssima
Annunziata. São Julião e São Jerónimo. Olhou em redor, com o calor a
subir-lhe à garganta e ao rosto. Nenhum dos outros homens se assustara
com as pinturas.

Ajoelhou-se junto ao altar e na extremidade da balaustrada viu Giuliano


de' Medici de joelhos, a rezar. Uma onda de náusea ameaçou tomar conta
dele.

Ao seu lado, Lorenzo murmurou:

— Não me lembrei de lhe dizer. A imagem de madeira e cera do meu irmão


foi esculpida enquanto esteve fora.

Guid'Antonio levantou-se com os outros, a tremer.

— E é muito parecida.

A estrutura de madeira da figura fora coberta com cera a imitar as dobras


dos tecidos, a cabeça e as mãos copiadas a partir de um retrato pintado a
óleo. Uma melena de lustrosos cabelos humanos da cor dos caracóis negros
de Giuliano de' Medici roçava as faces pintadas da figura. O rosto tinha
a expressão impossivelmente bonita de Giuliano.

Por favor, não olhes para mim, pensou Guid'Antonio, e naquele momento
ocorreu-lhe que estava louco. Na manhã em que ele e Amerigo regressaram a
Florença, não tinha ele visto Giuliano de joelhos na lama, com o sangue a
jorrar da sua cabeça aberta?

266

E, mais tarde nesse dia, não tinha a Virgem Maria de Santa Maria
Impruneta murmurado o seu nome? Agora via santos centenários a saltarem
das paredes de Annunziata e imaginava que a figura ajoelhada junto ao
altar era Giuliano em carne e osso.

Se pelo menos pudesse ser verdade. Se pelo menos Giuliano pudesse acabar
a sua comunicação com Deus, levantar-se e juntar-se aos enlutados de
Alessandra del Vigna à medida que voltavam para a praça luminosa. Não
obstante a semelhança perfeita, as roupas e os cabelos humanos, nem mesmo
Andrea dei Verrocchio conseguia operar aquele milagre em particular.

Com sandálias feitas do melhor couro de vitela, os frades


acompanharam--nos em direção ao Chiostrino dei Morti, o Claustro dos
Mortos, onde a mãe de Maria descansaria eternamente.

- Eu também estou ali - disse Lorenzo, olhando para a imagem alta de cera
que estava de pé junto da do seu irmão ajoelhado na balaustrada do altar,
mas mais profundamente imersa na sombra, vestida com a túnica vermelha
comprida dos cidadãos de Florença. — Para o caso de não ter reparado.

- Oh, já tinha visto. Verrocchio, também?

- Com a sua ajuda, sim.

- Dois Lorenzos, um de cera e outro de carne e osso — disse Guid'Antonio,


ainda um pouco abalado e desconfortável.

- Na verdade, há mais alguns - disse Lorenzo, com um sorriso amplo. - Há


mais um aqui em Florença, na igreja das freiras de Chiarito, em frente ao
milagroso crucifixo, e outro em Santa Maria degli Angeli, em Assisi, em
frente à preciosa Madonna. - Uma centelha de troça por si mesmo animava a
voz de Lorenzo.

No Claustro dos Mortos, a laje de mármore que dava acesso à câmara


subterrânea tinha sido arrastada para o lado, para os receber. Degraus
rudemente esculpidos mergulhavam até à cripta. Os odores desagradáveis
erguiam-se. Guid'Antonio cobriu a boca com a mão. Apercebeu-se naquele
momento de como tinham sido bondosos — já para não dizer corajosos — os
doze homens da confraria religiosa que o acompanharam ali naquele dia. Um
dos homens desceu desconfortavelmente os degraus curtos e íngremes,
segurando um archote aceso, atrapalhado pelo volumoso hábito branco, mas
mesmo assim bem-sucedido. Dois outros, depois de amarrarem o corpo de
Alessandra à liteira com tiras, levaram nas mãos o fardo pesado para a
câmara escura e depois ajudaram o seu irmão a colocar a senhora na sua
cama de pedra.

267

Gemidos e orações suaves flutuaram pelos degraus acima. Num murmúrio,


Guid'Antonio chamou Cesare. Chegara a hora de irem embora, enquanto a
confraria ficava para colocar a laje de mármore de volta ao seu lugar.
Novamente na rua, onde a luz branca inundava a praça, Guid'Antonio olhou
para a carruagem fúnebre. Os quatro cavalos relincharam e ergueram as
cabeças e o mastim fez um sorriso torto, com os maxilares a pingar. No
chão, ao seu lado, alguém colocara uma taça de barro com o rebordo
lascado e a enchera com água para ele beber.

Amerigo olhou em redor da sala apinhada de Maria e disse:

— Em que outra ocasião as pessoas se sentiram tão felizes por terem


sobrevivido a um cortejo fúnebre?

— Nunca, que eu tenha memória. — Uma sensação de profundo êxtase flutuou


até à garganta de Guid'Antonio. No pátio, Cesare tinha recolhido os
mantos suados dos homens. Agora, de pé com Amerigo, a olhar em redor da
modesta sala, Guid'Antonio viu Alessandra Scala a dirigir-se ao pai, Bar-
tolomeo Scala, com o rosto iluminado pela alegria. Madalena Scala, a mãe
de Alessandra, ainda estava de cama, à espera do nascimento da próxima
menina da família.

Numa névoa rodopiante, Guid'Antonio viu as duas irmãs de Lorenzo, Nannina


Rucellai e Bianca de' Pazzi, mas não a mulher dele, a discordante Clarice
Orsini de Roma, que certamente estava convicta de que se Deus não os
tinha derrubado naquele dia era porque ainda não tinha acabado os Seus
assuntos com eles. Viu mesas vestidas de toalhas de linho brancas. Nas
mesas, pequenas jarras de alabastro com laços de fitas de seda amarelas e
cheias de papoilas vermelhas escuras, a cor do sangue. Viu Maria a falar
com António Capponi a caminho da cozinha e ouviu Elisabetta Vespucci a
grasnar:

— Domenica! Rápido, a carne assada! Olimpia! Essa não, sua parola sem
cérebro!

Maria precipitara-se para ele no instante em que entrou em casa,


abraçando-o com os braços vestidos de seda preta.

— Maria seja Louvada, estás são, Guid'Antonio. Ele respondeu-lhe


suavemente:

— Estou aqui e estou inteiro.

268

Agora, Amerigo tocava-lhe no braço.

— Não está a ouvir.

— Não, não completamente.

— Estava a perguntar-lhe que nome vamos dar ao nosso cão.


— Ao nosso cão? Não. Se deres um nome a um animal, ele passa a ser o teu
dono.

Amerigo endireitou os ombros.

— Ele hoje ficou do nosso lado. Como todos os outros.

Não todos, pensou Guid'Antonio. Foram muitos os do círculo íntimo Medici


que não mostraram a sua cara naquele dia, entre os quais Tommaso
Soderini. O seu olhar voltou a concentrar-se nas mesas de pedestal, onde
Olimpia estava a compor as papoilas. Cesare passou por ela e deu-lhe uma
palmada. As pétalas escarlates e a água espalharam-se pela toalha de
linho. Guid'Antonio pestanejou.

— Olimpia! — gritou a mãe de Amerigo com uma voz aguda, espetando a


cabeça pela porta da cozinha. — Anda cá!

— Alexandre, o Grande, deu o nome do seu cão a uma cidade da índia -


insistiu Amerigo.

Do outro lado da sala, Cesare apanhou as flores, sossegou Olimpia e foi


buscar panos lavados sabe Deus onde.

— Alexandre, o Grande, conquistou o mundo. Duvido de que tu ou eu alguma


vez o façamos - disse Guid’Antonio. - O que acabara de testemunhar?
Olimpia e Cesare? A sério?

— Nunca diga «nunca», tio Guid'Antonio. E já agora... - Amerigo se-


micerrou os olhos rancorosamente. — Não queria falar com Lucrezia
Tornabuoni sobre Camilla Rossi da Vinci? Lucrezia está aqui hoje.

Lucrezia Tornabuoni de' Medici: a mãe de Lorenzo e Giuliano.

O corpo de Guid'Antonio ardeu de pavor. Lucrezia era tão pequenina que


não a tinha visto no meio da multidão. Ela e outra mulher estavam junto
do aparador, a olhar diretamente para ele.

— Consegue cheirar aquela comida? - perguntou Amerigo, inspirando


profundamente. — Frango assado com corações de alcachofra. Foi a
Alessandra Scala e o seu bando de irmãs que o trouxeram. Toda a gente
trouxe qualquer coisa, comida, vinho. Mal posso esperar.

— Então não esperes — disse Guid'Antonio, desviando os olhos de Lucrezia


de' Medici, sentindo-se a entrar em pânico, uma sensação relativamente
desconhecida para ele.

269

Cesare voltou à sala seguido de uma falange de jovens rapazes esbeltos


que carregavam nas mãos travessas de prata com comida fumegante. Na
túnica, mesmo por cima do peito, Cesare usava uma papoila atada com uma
fina fita de seda amarela.

Guid'Antonio sorriu levemente antes de se preparar e se virar novamente


para o aparador, depois para toda a sala, observando a multidão. Lucrezia
de' Medici tinha desaparecido, sem deixar sinais de que alguma vez
estivera naquela casa.

Muito bem: a sua próxima paragem seria o Palácio Medici.

Um criado acompanhou Guid’Antonio pelas escadarias de pedra acima e


através do corredor até à Capela Medici. Seria imaginação sua ou uma
sombra cruzou o rosto de Lucrezia quando ele apareceu à porta da capela?
Se assim foi, afastou-a de imediato.

- Guid'Antonio, bem-vindo à nossa casa - disse ela, na voz melodiosa de


que se recordava. — Junte-se a mim.

Ele baixou-se até ao banco em frente ao altar, sentindo-se zonzo agora


que ali estava, envolto na glória da luminosa Adoração dos Magos, de
Benozzo Gozzoli, que contornava as paredes da capela.

- Grazie, Mona Lucrécia.

Lucrezia surpreendeu-o ao esticar a mão e ao pousar os dedos finos no


braço dele, como teria feito antes.

- É bom tê-lo de regresso a casa, Guid'Antonio mio. Meu Guid'Antonio. Ele


guardou as palavras.

- Obrigado, senhora minha. - Qualquer outra palavra seria demasiado


complicada.

- Uma amiga e eu tínhamos prometido entregar comida a alguns dos mais


necessitados hoje à tarde. Não os podíamos desapontar. O banquete já
acabou?

- Ainda não. As pessoas ainda estão junto de Maria. Incluindo o seu


Lorenzo.

Lucrezia olhou para ele com uma expressão curiosa nos olhos castanhos
descaídos e o silêncio encheu a capela. A touca branca que usava
emoldurava um nariz forte, lábios agradáveis e um queixo firme. Embora
fosse pequena, irradiava força. Guid'Antonio pensou que o seu cabelo
escuro já devia ter fios de prata, agora que estava a meio dos cinquenta
anos.

270

— Continua a escrever poesia? — perguntou-lhe.


— Se continuo a respirar? Sim.

Que idiota! Por que motivo achara que ela pudesse ter desistido de
escrever? A semelhança de Lorenzo, Lucrezia Tornabuoni de' Medici era uma
poetisa de considerável talento e amplamente reconhecida. Mas escrevia
apenas poemas religiosos, ao contrário do filho.

— Embora ultimamente ande tão ocupada com tantas outras coisas. Netos. —
disse. — A casa. As cartas que chegam de todo o lado. As madres
superiores que precisam de ajuda, os padres, até a rainha da Bósnia. A
maior parte pergunta o que posso fazer por eles. — Sorriu. — Como fazem a
Lorenzo.

— Bósnia? — repetiu Guid’Antonio. Ela acenou com a cabeça.

— A rainha pediu-me que encontrasse banqueiros que lhe pagassem em


dinheiro e não em tecidos, nestes tempos agitados. — Um pequeno sorriso
rastejou até aos lábios de Lucrezia. — Toda a gente acha que tenho grande
influência sobre o meu filho.

Guid’Antonio descontraiu-se um pouco.

— Toda a gente sabe que tem.

Lucrezia reconheceu-o com uma ligeira inclinação da cabeça. Depois da


morte do marido, Piero, fazia pouco mais de dez anos, e não obstante a
sua natureza tranquila, Lucrezia Tornabuoni de' Medici, a matriarca da
família, sempre fora uma figura notoriamente presente ao lado dos filhos
e filhas, Bianca e Nannina, assim como da filha ilegítima do marido,
Maria. Não era segredo nenhum que o jovem Lorenzo se apoiara na mãe e
dela recebera conselhos. Continuava a fazê-lo. As pessoas pediam a ajuda
de Lucrezia para interceder junto dele a respeito de perdões, caridade e
cartas de recomendação. Este facto, assim como os seus feitos enquanto
escritora, mulher de negócios e mecenas das artes, faziam possivelmente
dela a mulher mais poderosa de Florença. Observando-a agora, Guid’Antonio
tentou não pensar no seu parente Pieri Vespucci e nas cartas suplicantes
que ele escrevera a Lucrezia e Lorenzo da Stinche.

Lucrezia tocou no crucifixo simples de ouro que trazia pendurado ao


pescoço.

— Infelizmente, agora, ao fim deste dia já tão difícil, tenho notícias


esmagadoras para ele. Tommaso enviou-me uma mensagem da Senhoria há pouco
tempo.

271

— O nosso presidente? — Guid'Antonio encostou-se no banco. — O que

disse Tommaso?
— Que Sinibaldo Ordelaffi, o pobre e infeliz rapaz, morreu ontem. Agora,
Girolamo Riario irá brutalizar Forli exatamente como fez com o

nosso Giuliano.

Guid'Antonio susteve a respiração. É claro que Riario o faria. Com a


bênção do papa, Girolamo Riario ia adicionar Forli à lista de cidades na
sua posse e ia ficar à espera de poder caçar mais algumas; enquanto isto,
olharia para Florença com um exército de mercenários saqueadores sob o

seu comando.

O monstruoso sobrinho do papa estava ali na capela com eles, tão


notoriamente como se estivesse à sua frente em carne e osso, conspurcando
tudo o que era belo e bom. Assassino. Provocador. O que podiam fazer
quanto a ele, além de ficarem alerta e tomarem cuidado por toda a

Toscana?

— Lucrezia — disse Guid'Antonio —, naquele dia na catedral... — Parou e

recomeçou. — Devo confessar...

Ela tocou-lhe novamente no braço.

— Não, Guid'Antonio, por favor. Já ouvi confissões suficientes para me


durarem uma vida. Sei que o Senhor dá e o Senhor tira. Sei que Ele tirou
o meu filho do mundo e o deu a Giulio, o meu precioso pequeno neto.
Lamento desiludi-lo, mas não, não é Deus, nem anda próximo da perfeição.
Quem anda, para lá do nosso Pai Sagrado? Não conheço ninguém. Ser bom
deve ser o suficiente.

— Lorenzo disse-me que conheceu Giulio no outro dia — acrescentou

ainda.

Guid’Antonio acenou afirmativamente. Uma segunda oportunidade.

Um sentimento de cura estava a nascer dentro de si.

— Ele é a cara chapada do pai. — Faces rosadas, cabelo negro como a


noite, olhos castanhos e gentis.

— Bianca tomou-o a seu encargo — disse Lucrezia.

— Compreendo que o tenha feito. — Continuaria Bianca a ver o marido


exilado, Guglielmo de' Pazzi? Será que queria vê-lo? Sempre fora uma irmã
tão devotada a Giuliano.

— Como vai o seu menino, Giovanni? — perguntou Lucrezia. Guid'Antonio


contorceu-se no banco.

— Ainda um pouco desconhecido.


272

— É uma resposta honesta. — Inclinou a cabeça, com um sorriso. — Ele há


de habituar-se. E você também. Sempre vai a Poggio com Lorenzo e os
rapazes amanhã de manhã?

Poggio a Caiano. Quase se tinha esquecido da viagem que Lorenzo lhe


propusera no início da semana.

— A Maria acha que devia — disse. — Ela precisa de pôr em ordem a casa da
mãe e acha que a saída seria um tónico para Giovanni e para mim.

— Todos precisamos de descansar — disse Lucrezia. — Incluindo Lorenzo. —


Inspirou profundamente. — Piero e eu tínhamos expectativas tão grandiosas
para os nossos filhos e filhas. As raparigas fizeram bons casamentos.
Bem, no que diz respeito a Bianca e Guglielmo de' Pazzi, o dom da
retrospetiva é tudo. Para os rapazes, nada era impossível. Lorenzo e
Giulia-no cresceram a acreditar no facto de que não havia limite para as
coisas que podiam alcançar. Acha que ele é suficientemente cuidadoso,
Guid’Antonio? Com a sua pessoa, quero dizer?

Pensou em Lorenzo a caminhar pelas ruas naquele dia, a caminho da


Santíssima Annunziata, um alvo em movimento, como qualquer um deles.

— Não — respondeu.

— Fará o seu melhor para o ajudar?

— Sempre fiz. — Ao contrário do que acontecera com Giuliano, com quem


falhara.

Ela acenou-lhe em sinal de gratidão.

— Mas, Guid’Antonio, não veio aqui hoje para termos uma conversa de
amigos.

— Não. Lucrezia, é necessário fazer reserva para ir para as suas termas,


em Morba?

Um sorriso surpreso apareceu nos seus lábios.

— Que repentino. Só é preciso reserva se pretender ficar lá alojado —


disse, de modo levemente trocista. — O local tem sido espantosamente
popular desde que o remodelei. Toda a gente quer mergulhar longamente nas
quentes águas termais. — Massajou as mãos com artrites. — O hotel, para
hóspedes que pagam, está quase sempre cheio. Mas porque pergunta?
Gostaria de lá levar a Maria?

Sentiu-se envergonhado. A coisa na qual menos pensava era numas férias


com a mulher. Ultimamente, era outra a mulher que lhe ocupava o
pensamento. Duas, na verdade: a Virgem Maria de Santa Maria Impruneta e
Camilla Rossi da Vinci. Três, se fosse completamente verdadeiro.
273

— Um dia, talvez - disse. - Mas agora precisava apenas de saber se


Camilla Rossi tinha reserva para lá ficar no dia em que desapareceu. É a
rapariga que...

— Eu sei quem ela é. Ah-ha. — O brilho da compreensão chegou aos olhos de


Lucrezia. — Era para lá que ela devia ir. Se o hotel não estava à sua
espera, podia significar que nunca teve intenção de lá chegar. Dê-me
licença enquanto vou buscar o livro das reservas.

Lucrezia esteve ausente um bom bocado e quando regressou vinha irritada.


Sentou-se abruptamente no banco.

— Desapareceu! Angelo guardava-o sempre na biblioteca. Mas agora que não


cá está, as coisas estão todas numa confusão. Os seus assistentes não
sabem do paradeiro do livro e estavam demasiado assustados para me
dizerem. Meu Deus. Não tenho como saber se o marido de Camilla teve ou
não intenção de a ver chegar ao seu destino.

Novamente Angelo Poliziano.

— A não ser que lhe perguntemos diretamente — disse Guid'Antonio,


acrescentando: — a Castruccio Senso, quero dizer. — Interrogar o marido
de Camilla era algo que queria fazer assim que regressasse de Poggio com
Lorenzo e os rapazes. Como Lucrezia dissera, se não houvesse reserva no
nome de Camilla isso podia querer dizer que Castruccio Senso sabia que a
mulher não chegaria ao seu destino. Era tão simples quanto isso. Eram
provas circunstanciais e jamais seriam válidas em tribunal para condenar
Castruccio do crime de assassinato; mas, num caso com tão poucas e
preciosas provas, podia ser um bom começo.

Questionou-se se Castruccio, partindo do princípio de que era culpado, se


teria apercebido do seu erro e roubara o livro de reservas para se
proteger. As portas da Biblioteca Medici estavam abertas a toda a gente,
uma política que Guid’Antonio sabia que Angelo Poliziano reprovava
veementemente. O livro inteiro, desaparecido. Incontáveis reservas
perdidas, o que originava todo o tipo de complicações para Lucrezia de'
Medici enquanto proprietária do hotel das termas de Morba.

Antes de descer as escadas, olhou para o fundo do corredor, observando a


figura franzina de Lucrezia de' Medici a passar pela porta dos seus
aposentos, e pensou que, naquele momento, não gostaria nada de ser um dos
assistentes do bibliotecário.

274
Sozinha no seu quarto, Lucrezia estava sentada de olhos fechados,
repetindo mentalmente uma passagem de um poema que Angelo Poliziano
começara a escrever para festejar o torneio de inverno de Giuliano, havia
apenas cinco anos. Cinco anos. Era tudo. Como podia ser verdade? As
lágrimas humedeceram-lhe o rosto, enquanto sentia uma pontada tão forte
no ventre, que se debruçou, ofegante. O poema Estrofes sobre ajusta de
Giuliano de' Medici devia ser longo, mas nunca chegara a ser completado,
porque a pena de Angelo nunca mais lhe tocara depois do dia 26 de abril
de 1478.

Nos maravilhosos dias dos seus verdes anos, com as primeiras flores ainda
a desabrochar no seu rosto, o belo Giuliano, ainda inexperiente nos
agridoces cuidados que o Amor proporciona, vivia feliz em paz e
liberdade, cavalgava por vezes um garanhão nobre, a glória das manadas
sicilianas, competindo com os ventos.

275

Página em branco

Capítulo VINTE E NOVE

- Eu podia trabalhar o dia inteiro nos campos de cultivo que nunca


ficaria com aquele ar, — Amerigo engoliu água e olhou de relance para
Lorenzo, que partia pedras no campo atrás da quinta, em Poggio a Caiano.
Lorenzo estava despido da cintura para cima, com os músculos contraídos
ao longo dos poderosos braços e costas, brilhando com a transpiração.

— E ele ainda é mais velho do que eu — acrescentou Amerigo, rezingão.

— Só tem mais cinco anos — recordou-o Guid'Antonio.

— Eu até o ajudava, mas a minha cabeça está a latejar como se me


estivesse a bater com o martelo.

Guid'Antonio aceitou a concha de água e bebeu com satisfação. Era meio-


dia e estava calor; os pássaros chilreavam nas árvores.

— Não me surpreende nada, uma vez que bebeste um jarro de vinho Medici
ontem à noite. De qualquer maneira, acho que ele está a apreciar este
tempo em solidão.

O calor do sol era um bálsamo, tranquilizando Guid'Antonio, acalmando-o.


Mas só até certo ponto. Agora que estavam em Poggio a Caiano, a viagem de
quarta-feira para a Santíssima Annunziata parecia estar já muito longe.
Ainda assim, a viagem longa e a morte de Sinibaldo Ordelaffi ribombavam e
moíam-lhe os pensamentos. Quando Girolamo Riario reunisse as suas forças
e tomasse Forli, como certamente faria, a povoação de Florença ia olhar-
se no espelho da guerra e ver o sobrinho do papa a fitá-la do outro lado.

Tinha viajado até Poggio no fim do dia anterior, de carroça e a cavalo,


encaminhando-se para noroeste em direção à pequena cidade de Pistoia e
para lá dela.

277

Fora uma longa e entediante viagem, mas felizmente feita em segurança,


que Jesus, filho de Maria, fosse louvado; o único aspeto negativo foi
quando Guid'Antonio deixou que as implicâncias dos dois rapazes Medici o
irritassem, como se fossem brotoeja. Mandão e imprudente, o filho mais
velho de Lorenzo, Piero di Lorenzo de' Medici, de oito anos, adorava
mandar nos dois rapazes mais novos, os dois Giovanni, enquanto trotava à
sua frente no pequeno pónei, Bella, e dizia para trás:

— São mesmo como bebés, nem me conseguem acompanhar! — A sua voz era
trocista, uma vez que os meninos iam aos solavancos pelas estradas
campestres na carroça carregada com pequenas arcas de viagem e puxada por
um burro cuja crina estava adornada com fitas cor de rosa e brancas.
Giovanni de' Medici, o filho mais gorducho de Lorenzo, com covinhas no
rosto, deitou a língua de fora ao irmão mais velho, ao passo que Giovanni
Vespucci se ria e encostava a preciosa concha ao ouvido.

Ao entardecer, no cimo de uma colina, Lorenzo virou-se na sela e mandou


calar os dois rapazes. O seu gesto amplo e largo varreu as montanhas
distantes, a curva lamacenta do rio Ombrone e, mais perto, o moinho e o
aglomerado irregular de casas de madeira e pedra aninhadas junto de um
lago rodeado de mato e de campos rugosos.

— Guid'Antonio, Amerigo, eu avisei-vos. Este lugar é rústico. Os olhos de


Lorenzo brilharam enquanto falava e os seus lábios sorriam.

— E é sossegado? — perguntou Guid'Antonio.

— A exceção do galo.

— Nem pergunto mais nada — disse Guid'Antonio.

Lorenzo agarrou no cabresto do nariz do burro e conduziu a carroça com os


rapazes, com cuidado, pela encosta íngreme que levava à quinta, enquanto
Piero de' Medici ia à frente, com o traseiro estreito a balouçar na sela
de couro do pónei.

— Cuidado! — gritou-lhe Lorenzo. — Ainda partes a cabeça e estamos a uma


longa distância do nostro medico. — Como resposta, Piero deu uma palmada
em Bella e desatou a galopar pela colina abaixo.

Guid'Antonio e Amerigo mantiveram Flora e Bucephalus com a rédea curta,


com os olhos fixos em Lorenzo e nas três crianças.
— Estamos aqui sozinhos — disse Amerigo. — No meio do nada, com Lorenzo e
os seus dois primeiros herdeiros.

— E com o meu também. - Não precisava de que Amerigo o recordasse que,


ali na campagna, eram alvos atrativos.

278

Uma pedra saltou atrás deles na estrada.

Flora e Bucephalus assustaram-se; Guid'Antonio e Amerigo viraram-se nas


selas, alarmados. Era apenas uma cabra, separada do resto do rebanho.

Mais tarde, havendo ainda luz no céu ocidental, encontraram lugares para
dormir na casa simples de pedra da quinta e colocaram archotes, mechas e
lamparinas por perto. Depois disso, reuniram-se em volta da mesa de
pedestal à sombra das cerejeiras, perto da porta da cozinha. O ar da
noite estava ótimo. Um cordeiro crepitava no espeto de ferro da fogueira,
com os sucos a fumegarem e a sibilarem no fogo ladeado por troncos de
madeira.

— Deitámo-nos a adivinhar que carne ia cozinhar para nós — disse Lorenzo


ao capataz da quinta, Falcone Bellaci.

— Esta veio dos seus vizinhos — disse Falcone. — Um requintado presente


para dar as boas-vindas de Il Magnífico à sua casa de Poggio. Basta um
pouco de azeite e algumas ervas aromáticas. — Falcone beijou os dedos.

— Piero! — chamou Lorenzo. — Apanhar pirilampos é uma coisa, arrancar--


lhes as asas é outra completamente diferente. Para com isso. — O rapaz
ignorou-o. Lorenzo arrancou-lhe o frasco de barro das mãos e agitou-o
para que os restantes insetos saíssem em liberdade, deixando Piero a
fitar o chão, a arder de raiva.

Guid’Antonio olhou para os dois Giovanni. O par de meninos revezava--se a


segurar a concha contra o ouvido e a escutar o som das ondas a rugir num
porto distante. Qual deles, questionou-se indolentemente?

Na fogueira, o fogo estava a morrer e assumia um brilho mais avermelhado,


com a madeira acinzentada nas extremidades. Foi nesse momento, quando se
acomodavam para comer, que Falcone se decidiu a ser estúpido e
conversador.

— Os turcos já atacaram Rodes? Os nossos Cavaleiros cristãos deram boa


luta ou os infiéis turcos chacinaram-nos como cães? E a rapariga que foi
assassinada? E roubada. Talvez nessa mesma ordem. — Os olhos de Falcone
brilhavam sob o calor que irradiava da fogueira. — Talvez...

— Falcone! — Lorenzo interrompeu o capataz com um gesto súbito da mão. —


A frente dos rapazes não. Não há notícias de Rodes para além do facto de
que os turcos estão a fazer um reconhecimento da ilha. E quanto à
senhora, o que quer que tenha acontecido, não foi às mãos dos infiéis.

— O que quer dizer «fazer um reconhecimento»? — perguntou Giovanni de'


Medici.

279

— Significa estar só a dar uma vista de olhos — respondeu Lorenzo, a


comer a carne com os dedos. — Rapazes, querem mais vinho? Sim?

— Serviu-lhes o vinho das crianças de um jarro à parte, onde a bebida


tinha sido aguada até ser apenas uma água rosada, e mudou o assunto das
campanhas de Mehmed, o Conquistador, para os seus próprios planos para a
quinta de laticínios.

— Mandámos trazer vacas da Normandia. Cem vacas. — Olhou para o filho de


Guid'Antonio. - Giovanni, o Piero já te falou da nossa vitela de
estimação, a Belfiore}

— Si, Il Magnifico. — Giovanni pousou a colher de madeira sobre a mesa. —


Ele disse que íamos comê-la.

Lorenzo arquejou.

— Comê-la? Não!

Giovanni acenou solenemente com a cabeça.

— Piero também disse que o Ombrone tem serpentes e que se tentarmos


nadar, elas vão-nos matar.

Lorenzo dirigiu um olhar cortante ao filho mais velho, que sorria


maliciosamente.

— Piero tem uma imaginação muito selvagem. Temo que um dia venha a ser a
causa da sua ruína. O Falcone encontrou uma pequena e inofensiva cobra
verde junto ao rio e cuidou do assunto. E não vamos comer a Belfiore.

— Pelo menos não hoje — disse Amerigo, só para Guid'Antonio ouvir.

— Pai, porque não matamos também os homens maus? — perguntou Giovanni de'
Medici.

— Giovanni. A que homens maus te estás a referir, exatamente?

— Aos turcos. Toda a gente diz que eles vão matar os Cruzados, que nos
vão esfolar vivos e que a seguir nos dão de comer aos leões, na praça. —
A boca pequena de Giovanni de' Medici, brilhante com gordura, começou a
estremecer nos cantos e a arquear-se para baixo.
Estes miúdos, pensou Guid'Antonio. Os olhos dourados escuros do seu
próprio filho brilhavam com confusão e medo. Estendendo a mão, deu uma
palmadinha no joelho do menino.

— Giovanni, eles estão só a fazer de conta.

— Os turcos estão muito longe, numa outra terra, Giovanni — disse


Lorenzo, dirigindo-se ao filho. — Assim que chegarmos a casa, mostro-te o
mapa.

— Eu quero matar os Pazzi — disse Piero. — Por terem matado o tio


Giuliano.

280

No silêncio súbito que se seguiu, Giovanni de' Medici disse:

— Mas então e o tio Guglielmo de' Pazzi? Também o vamos matar? Isso não
vai deixar a tia Bianca triste? — As lágrimas formaram-se nos seus olhos,
ameaçando cair-lhe pelas faces abaixo. - E o primo Giulio também é capaz
de chorar.

Pelo tio cujo irmão lhe matou o irmão? Guid'Antonio tinha as suas
dúvidas. Olhou então para Lorenzo, que disse, em jeito de protesto:

— Mas que conversa é esta? O tio Guglielmo está em segurança fora dos
portões da cidade. Piero, todos os homens que mataram o teu tio Giuliano
já foram castigados. E, de qualquer maneira, nós não andamos por aí a
matar pessoas sem mais nem menos. Deixamos isso para o papa.

— Os papas são todos maus? — perguntou Giovanni de' Medici.

— Só os que são como Sisto IV.

— O Piero diz que rezar é ilegal.

— O teu irmão está errado - respondeu Lorenzo, já exasperado. - Quase


nunca é errado rezar. Embora dependa daquilo por que rezas. O papa está a
usar esse tipo de linguagem para nos derrubar.

Ao longe, ouviu-se o uivo de um cão, ou de um lobo, e Guid’Antonio pensou


no leal, ainda que grosseiro, cane corso italiano, que ficara em casa, em
Florença. Onde passaria o animal as noites? Junto ao portão do jardim,
alerta e atento, com uma orelha levantada na direção do Palácio Vespucci?

— Acho que está na hora de darmos a noite por encerrada — disse Lorenzo.
- Na verdade, até já passa da hora. Falcone, trate por favor de apagar a
fogueira, sim?

Depois de acenderem archotes para iluminar a noite, Guid'Antonio e


Lorenzo acompanharam os rapazes até à sua camera e colocaram-nos na cama;
para Guid’Antonio a sensação foi muito estranha. Depois, os homens
debruçaram-se apoiados nos cotovelos em cima da mesa de madeira tosca da
cozinha pela noite dentro, a jogar às cartas e a beber vinho tinto
almiscarado enquanto os rapazes andavam às voltas num quarto praticamente
vazio e inundado pelo luar, a imaginarem que os turcos lhes entravam
pelas janelas abertas empunhando baionetas ensanguentadas.

Lorenzo caminhava agora vagarosamente em direção a Guid’Antonio e Amerigo


através do campo fustigado pelo sol, limpando o suor dos olhos com o
antebraço. Pegou numa toalha que estava na mesa de pedestal e limpou
também o tronco.

281

— Então, meus amigos, como estão esta manhã?

— Bene — disse Guid’Antonio. Não tinha dormido um segundo nessa noite.


Passou-a a pensar, repensar e a virar do avesso todos os acontecimentos
dos doze dias anteriores. Inclinando-se primeiro para um lado, depois
para o outro. Indeciso? Não. Sim. Tentou pesar todas as hipóteses, não
apenas para si mas para todas as gerações futuras da família. Naquela
manhã, depois de ir cuidar dos cavalos (dos dois, Flora e Bucephalus, que
Amerigo era um preguiçoso), tinha começado a ler os comentários de
Simplicius à Física de Aristóteles, mas não se conseguia concentrar com a
barulheira que ia nos recantos mais afastados da sua mente. Nos últimos
dias, os lordes magistrados não tinham mexido uma palha para se
aproximarem da proposta de balia aos restantes conselhos. Tinham andado
demasiado ocupados a discutir mesquinhamente a questão entre si. O que
derivaria das mudanças governamentais que Lorenzo queria? Alguma coisa?
Nada?

— Estou à espera de que Sangallo chegue a qualquer momento — disse


Lorenzo, olhando de relance para a estrada, como se esperasse que o seu
mestre arquiteto, Giuliano Sangallo, aparecesse a caminhar na sua direção
por entre a luz difusa da alvorada. — Combinámos para sexta de manhã.

— Já é quase meio-dia — disse Guid'Antonio. — Talvez ele comece o seu dia


tarde.

— Posso ir à procura dele — Amerigo deixou a sugestão no ar.

— Não nos vamos preocupar já. Obrigado. — Lorenzo deitou água do poço
sobre o rosto e o peito. — Onde estão os rapazes?

— A andar na carroça do burro à vez — respondeu Guid'Antonio.

— Os três?

— Não, Piero anda a caçar borboletas com uma rede. Lorenzo suspirou,
abanando a cabeça.
— Esperemos que ele aprecie o desporto por si só e as liberte em breve.
Depois de uma refeição de queijo e paio, foram com os rapazes até ao

estábulo, onde Lorenzo instruiu toda a gente a esperar na rua até ele
sair. Regressou instantes depois, trazendo pela mão um cavalo com um pelo
cor de avelã que brilhava sob a luz do sol vespertino.

— Mas que animal magnífico — disse Amerigo. — Tem o quê, um metro e


sessenta e cinco?

— Exatamente — disse Lorenzo. — Não se aproximem muito, rapazes. Ela está


inquieta. — A égua mexeu os cascos e abanou a cauda, como se quisesse
demonstrar que ele tinha razão.

282

— Eeeeee! — Os dois Giovanni saltaram para trás, guinchando. Piero


afastou-se, intimidado pelo tamanho e pela presença do animal.

— É um segredo — disse Lorenzo.

— Que tipo de segredo? — perguntou Piero.

— Ela vai ser a nossa montada para o palio do ano que vem. Do ano que
vem? Guid'Antonio comprimiu os lábios.

— Uma égua? — questionou Amerigo. Lorenzo sorriu.

— Ponho-a contra dois dos teus garanhões quando quiseres.

— Como se chama? — indagou Giovanni Vespucci.

— La Lucciola. - Pirilampo.

— Porquê?

— Porque quando corre é rápida como um pirilampo.

— O Piero diz que o senhor nunca perde o palio. É verdade? — perguntou


Giovanni Vespucci.

— O que quer dizer com para o ano que vem? — inquiriu Guid'Antonio.

— Quero dizer que La Lucciola não vai para Florença até essa altura e
que, nas finais ào palio, no próximo mês, vou correr com outro cavalo.
Giovanni, para responder à tua pergunta: não, nunca perco. Mais tarde
naquele dia, os três homens estavam num prado coberto de erva, armados
com arcos e flechas, quando um cavaleiro apareceu no cimo da colina e a
desceu a galope em direção a eles. Cavalgava com o corpo curvado para a
frente e com uma mão a prender o chapéu com a característica pena, para
impedir que lhe voasse da cabeça.
Amerigo fez sombra sobre os olhos.

— Mas, por Hades? Não é o seu arquiteto, certamente. Lorenzo baixou o


arco e limpou o suor dos olhos.

— Sangallo? Não. É um mensageiro de Florença, julgo eu. O rapaz deslizou


da sela.

— Il Magnifico! Buon giorno. — Fez uma vénia. — Trago duas mensagens. A


primeira — procurou recuperar o fôlego. — O mestre Giuliano da Sangallo
manda dizer que está doente e não vai poder vir aqui este fim de semana.
Lamenta o inconveniente e falará consigo na cidade.

Lorenzo grunhiu o seu desapontamento.

— E que mais?

— O mestre Guid’Antonio Vespucci está aqui? Guid'Antonio sobressaltou-se.

283

— Estou.

O mensageiro entregou-lhe um bilhete lacrado. Impressas no lacre vermelho


estavam as iniciais LTM. Lucrécia Tornabuoni de' Media.

Lorenzo franziu o sobrolho quando Guid'Antonio quebrou o lacre e leu as


palavras escritas a pena pela caligrafia pequena e firme de Lucrezia.
Grazie Madonna. Lentamente, Guid'Antonio sorriu.

— Boas notícias? — perguntou Lorenzo.

— Sim. O que estava perdido foi encontrado. — Guid'Antonio contou--lhes


sobre o livro de reservas desaparecido, mas que afinal não estava
verdadeiramente desaparecido, apenas fora de sítio. Antes de revelar mais
olhou para Lorenzo, que mandou o mensageiro exausto para a cozinha, onde
Falcone, que já regressara com os rapazes da visita à Belfiore, lhe daria
pão e vinho para se recompor.

— Perguntei à sua mãe se Camilla Rossi da Vinci tinha reserva nas termas
de Morba para a semana em que desapareceu. E não, não tinha. O nome da
senhora não aparece em lado nenhum no livro de reservas.

Amerigo coçou a cabeça.

— Mona Lucrezia enviou-lhe um bilhete por mensageiro só para lhe dizer


isso?

— Mas é um facto da maior importância — disse Guid’Antonio. E passou a


explicar como a falta de reserva sugeria que Castruccio Senso sabia que a
mulher não chegaria às termas.
— Mon Dieu! Aquele sapo velho mandou matar a mulher?

— Talvez — disse Guid'Antonio. — Mas ele pode inventar todo o tipo de


justificações.

Por mútuo acordo, passaram para a mesa à sombra.

— Castruccio não se lembrou de fazer reservas falsas? — perguntou


Lorenzo, com os olhos a brilhar. — É o cúmulo da estupidez. Isso pode ir
longe, como prova de que sabia que a mulher jamais chegaria a Morba.

— As palavras são suas. Castruccio Senso não é um homem muito inteligente


— disse Guid’Antonio. — Ele pode dizer, e sem dúvida que o fará, que se
esqueceu de fazer as reservas antes de a enviar de viagem. Dada a sua
reputação como idiota, o tribunal é capaz de acreditar nele. E, sim,
pretendo pedir a Palla que o detenha imediatamente.

— Mas porque faria mal à mulher:' E culpar os turcos? Ora aí está um


detalhe rebuscado — disse Lorenzo. — Além de que continuamos a ter a ama
e o rapaz escravo. Certamente, não conspiraram com a vilania de
Castruccio.

284

— Já se ouviu falar de coisas mais estranhas — disse Guid'Antonio. —


Quanto ao motivo, Amerigo sugeriu que pudesse estar relacionado com um
novo dote.

— Ou pode haver outra mulher envolvida — disse Lorenzo. — Embora, pensem


bem, isso não implicasse matar a atual mulher.

Guid'Antonio pensou, Amor? Por favor. Luxúria? E o que tinha tudo isto
que ver com o quadro da Virgem Maria de Santa Maria Impruneta da Igreja
de Todos os Santos, se é que tinha alguma coisa que ver?

— E agora? — perguntou Amerigo.

— Quero interrogar o homenzinho o mais depressa possível — respondeu


Guid'Antonio. — Amanhã de manhã vamos diretamente para Florença. — Isto
queria dizer que regressariam no sábado de manhã em vez de no domingo,
como tinham planeado inicialmente. Mas alguma coisa lhe dizia que devia
encontrar-se imediatamente com Castruccio Senso.

— Entretanto — disse Lorenzo —, vou mandar o mensageiro entregar um


bilhete a Palla. Ele saberá o que fazer. Basta aplicar um pouco de
pressão com a corda e Castruccio Senso vai guinchar como um porco.

Guid'Antonio imaginou o corpulento vinicultor despido da cintura para


cima e levantado em direção ao teto com cordas nos pulsos. Até Castruccio
confessar alguma coisa, os homens de Palla dariam fortes puxões às
cordas, os chamados strappado.
— Quero interrogá-lo pessoalmente — disse.

— Então será interrogado pelos dois, por si e pelo Palla. Partimos amanhã
ao nascer da aurora. Se fosse só com Amerigo, eu teria de fazer a viagem
sozinho com os três rapazes. Concordo com a ideia de interrogar
Castruccio de imediato.

Naquela noite, depois de ir ver Giovanni e de dar as boas noites a


Amerigo, Guid'Antonio saiu para o pátio ao lado da cozinha e encontrou
Lorenzo sentado sozinho à mesa de pedestal, sob um céu cheio de estrelas
brilhantes, com o olhar perdido nas colinas distantes. Guid'Antonio
deixou-se cair no banco de madeira ao seu lado, sentindo uma curiosidade
calma.

— Gostava de ir seis meses para um sítio qualquer onde nunca se falasse


das questões italianas — disse Lorenzo. — Até aqui, no campo, é difícil
esquecer Girolamo Riario e o papa. Assim como tantas outras coisas.

Os grilos cantavam e os pirilampos iluminavam o campo, com o seu pulsar


brilhante a desvanecer-se pelos prados.

285

Em cima da mesa, uma vela solitária ardia com a chama amarela pálida. Não
era de cera de abelhas aromatizada, mas um círio barato e simples.

— Está honestamente convicto de que Castruccio Senso mandou matar


Camilla? — continuou Lorenzo. — Quem já ouviu semelhante história? Não é
muito habitual, pelo menos.

— Estou convicto de que deve ser muito mais complicado do que isso —
disse Guid'Antonio. — Espero que o nosso mensageiro não se depare com
nenhum ladrão esta noite.

— Considerando o florim que lhe prometi se o rapaz se apressasse, acho


que nem mesmo La Lucciola seria capaz de o apanhar. Por que razão Camilla
não ficou desconfiada quando Castruccio Senso lhe disse que a ia enviar
para Morba? Pela minha experiência com ele, Castruccio não é um homem
generoso.

Guid'Antonio registou a «experiência» de Lorenzo com um homem que, muito


recentemente, dissera não conhecer além de uma forma casual.

— Que escolha teria ela, senão a de fazer o que lhe mandava?

— Verdade.

Vindas da casa da quinta, ouviram-se gargalhadas abafadas: eram os dois


Giovanni.
— Eles dão-se bem — disse Lorenzo, dando um encontrão a Guid'Antonio e
sorrindo. — Como nós os dois.

— Pois dão — concordou Guid’Antonio. E farei tudo o que puder para os


proteger.

— Em Florença, gostaria de que eles se encontrassem com frequência. Acho


que o seu filho é bom para os meus. — Lorenzo fez um sorriso trocista. —
Talvez até a bondade do seu Giovanni consiga contagiar Piero.

— O meu Giovanni? Bom? Como? Lorenzo deu uma gargalhada gutural.

— Está assim tão surpreendido? Ele é inteligente. E generoso até de mais.


Esta noite deu, bem, emprestou, a sua concha para que Piero pudesse ouvir
o mar antes de adormecer.

— A concha é o bem mais precioso que Giovanni tem — disse Guid’Antonio. —


É um objeto tão pequenino. — Não preferia o puzzle pintado que o pai
trouxera de Paris, nem a marioneta que lhe comprara na Praça de Santa
Cruz.

— Fico muito feliz por ver que ele gosta da concha — disse Lorenzo. —
Trouxe-lha de Nápoles.

286

Guid'Antonio ficou imóvel no seu lugar. Conchas do mar e velas de cera de


abelhas com cravinho, jasmim e verbena limão.

— E generoso de mais da sua parte, Il Magnifico. A boca de Lorenzo


retorceu-se num sorriso.

— Gosto de partilhar.

— Também eu. Mas depende do que se partilha.

Na escuridão que se alargava, Guid'Antonio viu o sorriso de Lorenzo


aumentar.

— Guid'Antonio, trouxe um baú cheio de presentes para as famílias dos


meus melhores amigos. E, devo acrescentar, era um baú bastante pequeno.

Guid'Antonio deixou o assunto ficar por ali. Era um homem Medici. Mais do
que isso, era italiano, tão casado com a terra e as pedras da Toscana
como com a sua mulher e a sua família.

— Quando chegar a Florença, vou falar com Capponi, com Di Nasi e com os
restantes. Para ver se os convenço a votar a favor da comunicação aos
conselhos para levar a sua balia para a frente.

Lorenzo endireitou-se, olhando para ele.


— Maria e os santos. Pensei que...

— Ainda sou capaz de ter alguma influência, uma vez que já fui um deles —
disse Guid'Antonio.

— E voltará a ser. Mas não foi isso que quis dizer. O que o fez mudar de
ideias?

— Quero que Florença fique nas melhores mãos. Nas suas. E nas minhas.

— Todas as decisões serão tomadas por nós, Guid'Antonio — disse Lorenzo


com honestidade.

— Eu sei.

— E sabe também que não tenho o menor desejo de me tornar num lorde. Tudo
o que quero está aqui: esta quinta, a noite pacífica e o tempo para estar
com a minha família e os meus amigos.

— Feitas as contas, é o que todos queremos — disse Guid'Antonio. Agora


que as palavras tinham sido pronunciadas, já não havia como

voltar atrás, sabia-o com absoluta certeza. O seu destino estava unido
aos Medici; fora assim desde o dia em que nasceu e em que foi batizado,
alguns dias mais tarde, na pia batismal da Praça de San Giovanni, a
poucos metros das portas da catedral, no bairro florentino do Leão
Dourado. A pia batismal que os florentinos não podiam, ou não deviam,
agora conspurcar com os seus recém-nascidos por causa da contenda do papa
com Lorenzo.

287

Fossem quais fossem as circunstâncias, Florença, Lorenzo e Guid'Antonio,


os Medici e os Vespucci eram uma única entidade. Não tinha sido para isso
que trabalhara toda a vida? Defender um era defender o outro. Já tinha
caído uma vez, não ia voltar a fazê-lo.

Ficaram sentados em silêncio durante o que pareceu uma eternidade a


Guid'Antonio, a observar os pirilampos, a ouvir os sapos a coaxar no
pátio.

— Já é tarde — disse Lorenzo por fim, bocejando. — O dia não tarda a


chegar.

— Vou ficar mais um bocadinho. Lorenzo virou-se para ir embora.

— Só mais uma coisa — disse Guid'Antonio.

Lorenzo virou-se novamente. Por um instante, à luz pálida da vela


solitária, parecia estar exausto, com os olhos brilhantes de cansaço.
-Sim?
— Se não vai levar La Lucciola, que cavalo vai correr no palio, no mês
que vem? — No final de agosto, com o irmão de Luca Landucci, Gostanzo, a
correr montado no seu dragão pelas ruas apinhadas de Florença, desde a
partida no prado perto da Igreja de Todos os Santos até à meta em San
Piero Maggiore.

— Desde quando se interessa por corridas de cavalos? — perguntou


Lorenzo, inclinando ligeiramente a cabeça para o lado.

— Desde que nasci florentino.

— II Gentile — disse Lorenzo, com um sorriso rasgado. — Está no estábulo


de San Pietro no Grado, na nossa casa a oeste de Pisa. Vai ficar guardado
até à véspera da corrida. Aquele Draghetto de Gostanzo... — beijou os
dedos. — É um cavalo formidável. E não tenho intenções de perder para
ele.

— Tenho a certeza de que não perderá.

O olhar de Lorenzo viajou pela região, pelos campos, pelo rio Ombrone.

— Um dia vou ter lagos com peixes, amoreiras e jardins até onde a vista
alcança. Por enquanto, gosto do facto de este lugar ser rude e livre,
como a minha própria natureza.

— Não é nenhuma das duas.

— Nem você, meu amigo.

Guid'Antonio ficou sozinho na mesa durante muito tempo, a pensar e a


observar relâmpagos secos a espalharem-se pelo céu. Algures, um ramo
estalou.

288

Devia ser um veado ou uma corça. Uma lebre ou uma raposa. Ao longe na
floresta, alguma coisa gritou e teve uma morte lenta. Guid'Antonio
reconheceu o som.

Era uma lebre, afinal.

Na manhã seguinte, sábado, foi o filho de Lorenzo, Piero, quem primeiro


viu o cavaleiro. O pequeno grupo partira de Poggio pouco depois de
amanhecer e já estavam há várias horas na estrada. Agora conseguiam ver a
torre do relógio do Palácio da Senhoria a erguer-se em direção ao céu por
cima das muralhas de Florença, a torre do relógio de Giotto e a cúpula
redonda de tijolo vermelho da catedral.

- Vamos deixar os rapazes em casa e seguimos diretamente para Bargello. É


lá que Palla irá deter Castruccio até chegarmos - estava Lorenzo a dizer
quando Piero apontou para o cavaleiro que se apressava na sua direção,
vindo do Portão Prato.

- Outro mensageiro? - perguntou Lorenzo, um pouco desconfiado.

- Não. - Amerigo endireitou-se na sela. - Mas que diabo? É Cesare!


Guid'Antonio ainda começou a questionar o facto, mas no instante

seguinte reconheceu o vulto esguio do seu criado, que, descobriram logo


de seguida, tinha saído para Poggio para lhes dizer que quando o capitão
de Palla Palmieri chegou a casa de Castruccio Senso naquela manhã bem
cedo, para o interrogar, deu com o vinicultor deitado de borco no chão da
sua casa com a cabeça rachada.

289

Página em branco

Capítulo TRINTA

O marido de Camilla Rossi da Vinci estava deitado de barriga para baixo


na sala da sua casa na Praça de Santa Maria del Carmine, no bairro do
Espírito Santo, com os miolos espalhados no tapete e no meio de uma poça
de sangue. Guid'Antonio afastou o pensamento de uma situação semelhante
àquela e observou rapidamente o ambiente que o rodeava. O chão estava
literalmente forrado com folhas de pergaminho arrancadas dos seus livros
de contas. Um forziere, um cofre preso com tiras de ferro e fechado com
cadeados, tinha sido atirado contra o aparador em escadinha, depois
aberto à força e despojado do seu conteúdo. Havia ainda pedaços de louças
de barro por todo o lado.

Perto do corpo de Castruccio estava um castiçal de estanho, polido para


se assemelhar a prata, com a parte de cima manchada de sangue. A mão
direita do morto estava estendida, os dedos emaranhados numa cortina de
juncos que separava a sala da cozinha e que tinha caído no chão.

Na sua ideia, Guid'Antonio via que o morto tentara chegar à sala de trás,
agarrara na cortina, baixara-se e caíra sob o ataque do seu perseguidor.
Viu o castiçal a abrir a cabeça de Castruccio.

Palla Palmieri, de joelhos junto ao corpo, balançou-se nos calcanhares e


levantou os olhos.

- Isto não foi um assalto que correu mal. Houve aqui uma verdadeira
batalha e muita fúria de parte a parte. Chegaram depressa.

— Sim, viemos assim que ouvimos a notícia.


No Portão Prato, Lorenzo e Cesare tinham levado os rapazes para casa,
enquanto Guid'Antonio e Amerigo dirigiram os cavalos a trote para a Ponte
alla Carraia, para o bairro do Espírito Santo, na margem esquerda de
Florença.

291

Guid'Antonio maldisse a sua própria idiotice. A viagem a Poggio tinha-lhe


saído cara, em vários aspetos.

— O pequeno e gordo homem deu luta — disse Amerigo. — Nunca vi tanto


sangue, a não ser na época da caça ao javali.

— Tão bem dito, Amerigo - disse Palla secamente.

O olhar de Guid’Antonio viajou até ao rapazinho negro aninhado ao lado do


enorme aparador, tão longe do corpo quanto possível. Guid’Antonio
aproximou-se lentamente.

— E quem é este? — perguntou, embora, claro, já o soubesse. Era o escravo


de Camilla Rossi, o menino de cerca de doze anos, alto para a idade, com
o corpo magro a tentar acompanhar o crescimento das pernas e braços
escanzelados. Tinham-lhe dito que o rapaz não estava ali, mas em Vinci,
assim como a ama de Camilla Rossi da Vinci, fosse lá quem fosse a mulher.

As faces e testa do miúdo estavam franzidas com terror, e a pele negra


tinha um tom baço. Amerigo tirou uma mancheia de amêndoas da bolsa e
ofereceu-as ao rapaz.

— Como te chamas?

O rapaz recusou os doces.

— Luigi. — Voltou a encolher-se para o canto, fechando o punho atrás das


costas. — Não me façam mal, por favor! — exclamou, desatando a chorar.

Amerigo olhou silenciosamente para Guid’Antonio, sem saber o que fazer, e


este encolheu os ombros e acenou com a cabeça, dizendo-lhe que
continuasse.

— Muito bem, Luigi — disse Amerigo. — Vou colocar as amêndoas na tua


bolsa e podes comê-las quando quiseres. — Curvou-se e colocou os doces na
bolsa dele.

— Signore, não me mate! — pediu o menino, a chorar. — Eu não fiz nada de


mal. Juro!

O coração de Guid’Antonio afundou-se.

— Nós não te vamos fazer mal. Estamos aqui para te ajudar, filho. — E
para te interrogar, pensou. Luigi, o pequeno escravo tinha testemunhado
não um, mas dois crimes: o desaparecimento de Camilla Rossi e a morte do
seu marido, Castruccio Senso. Mas que grande coincidência, não? E será
que Guid’Antonio ia ter sorte? Quase lhe apetecia dançar. — Queres ir lá
para fora, para o sol? Sim? — Olhou de soslaio para Palla.

292

Os olhos de Luigi tremeluziram entre um e o outro. Guid'Antonio imaginou-


se a si próprio, a Amerigo e a Palla aos olhos do rapaz: um trio de
homens que o fitava, urr mais alto do que os outros, o cabelo negro
salpicado de prata, os três vestidos com roupas e botas castanhas
simples, enquanto o peludo e atento chefe da policia usava um cinto de
couro largo com o punhal plenamente à vista.

— Si, Signore — respondeu Luigi debilmente.

— Passámos por uma espécie qualquer de teste — comentou Amerigo em voz


baixa depois de saírem do local do crime.

— Agora vamos ver se ele também passa. — Todos os nervos de Guid'Antonio


estavam conscientes da mão que o rapaz mantinha fechada atrás das costas.

No pátio, um cardeal pousou num ramo do limoeiro e voltou a levantar voo,


à procura da sua parceira.

— Palla — disse Guid'Antonio por entre o som da água que gorgolejava no


fontanário. — O que aconteceu?

— Apenas isto: quando o vosso mensageiro chegou hoje de Poggio, mandei de


imediato um homem até aqui para deter Castruccio. Em vez disso, o homem
regressou abalado, dizendo que encontrara Castruccio Senso assassinado.
Vim para cá imediatamente. — Os olhos de Palla enrugaram-se com um
ligeiro sorriso. — Guid'Antonio, está a interrogar-me?

— Pense o que quiser.

Enquanto Amerigo se posicionou perto do portão do jardim, a bloquear a


casa da vista dos espetadores admirados da praça, Palla instalou-se com o
rapaz, Luigi, no banco de pedra que contornava o fontanário. Depois de
encontrar um banco com o assento de verga, Guid'Antonio sentou-se
descontraidamente em frente a eles.

— Luigi — disse Palla —, falei contigo há um par de semanas em Vinci. A


respeito da tua senhora, Camilha Rossi. Lembras-te disso, não lembras?

Lágrimas novas rolaram-lhe pelo rosto abaixo.

— O senhor é o polícia.

— É verdade, Luigi. - O rapaz não olhava para ele. - Como vieste para
aqui? Pensei que estavas em Vinci.
— O senhor Jacopo trouxe-me para cá quando veio a Florença — disse Luigi
tão suavemente que Guid'Antonio mal distinguia as palavras. — Ele... ele
tinha de ir a um vendedor de vinho a Orsanmichele, mas veio primeiro
aqui.

293

Guid'Antonio olhou de relance para Amerigo. Aquilo fora na semana


anterior, quando encontraram o feroz Jacopo Rossi da Vinci no mercado
apinhado de gente, por entre os pedintes e os cambistas. O mesmo Jacopo
que escapara a Amerigo quando este tentou ir atrás dele.

— Então, na noite passada, quando o teu patrão, o senhor Castruccio Senso


foi morto, estavas aqui em casa — disse Palla. O rapaz acenou e pareceu
prestes a desatar a chorar outra vez. — Viste o que aconteceu?

Luigi encolheu os dedos dos pés nas pontas das sandálias.

- Não!

Palla fez um som impaciente.

— Luigi, a casa é pequena. Deves ter visto alguma coisa. Onde estavas?

— No meu estrado ao pé da lareira.

A frente de Luigi, Guid’Antonio inclinou-se para a frente.

— Na lareira?

— Ouviu o que ele disse — disse Palla.

— Estavas dentro da lareira? Na sala principal da casa? - insistiu


Guid’Antonio.

— Si, Signore.

— E não te levantaste quando ouviste a agitação? — interrogou, ainda sem


certeza de que tinha entendido bem o que o rapaz queria dizer.

— Não. — Luigi continuava cabisbaixo.

— Bem, claro que não, tio — disse Amerigo do seu posto junto ao portão. —
O rapaz estava assustado.

Um rasto contínuo de lágrimas tinha molhado o colarinho da túnica de


Luigi, uma túnica apropriadamente curta e pequena, própria do papel do
rapaz enquanto escravo. Todo o orgulho de proprietário de Castruccio
Senso estava ali exibido: a camisa de Luigi não era de um tecido sem cor,
mas feita a partir de uma mistura de algodão e linho tingido de um branco
cremoso, para contrastar ainda mais com a pele escura do rapaz. Os
calções eram de uma malha castanha relativamente barata, mas que lhe
assentavam bem e que deviam ser novos para acomodar o seu crescimento
constante.

Guid’Antonio tirou o lenço de tecido da bolsa.

— Limpa os olhos. - Luigi aceitou o lenço com a mão que tinha livre e
obedeceu. - O intruso não te viu na lareira? - perguntou.

Luigi ficou muito quieto.

— Viu ou não viu — disse Guid’Antonio, fitando-o.

Um pequeno som abafado escapou-se dos lábios de Luigi.

294

— O patrão Senso tinha tapado a abertura com a tábua da chaminé. Ele


fazia a mesma coisa todas as noites. E de manhã deixava-me sair.

Amerigo arquejou.

— Ele fechava-te na lareira? — Os escravos eram comuns em Florença, assim


como no resto da Itália. Tártaros do mar Negro, russos, gregos, turcos,
mouros e albaneses: desde que não fossem cristãos, todos podiam ser
comprados. E embora os escravos servissem para trabalhar arduamente,
normalmente como criados das famílias, não era habitual que fossem mal
tratados. — Filho da mãe!

— E como estavas atrás da tábua não conseguiste ver nada, foi? —


Questionou Palla. — Mas o que conseguiste ouvir, Luigi?

— Eles... eles gritaram com o patrão Senso.

— Eles? - Guid’Antonio sobressaltou-se. - Eram dois homens, ou mais?

— Sim! Eram pelo menos dez, ou vinte! — Luigi soluçou como se o seu
coração estivesse a quebrar-se.

O rapaz tinha sobrevivido a uma experiência terrível, sim, mas aquilo?


Pelo que Guid'Antonio tinha visto no interior da casa, dizer que na noite
passada lá tinha estado uma dúzia de homens, ou mais, era um ultraje. Mas
porque mentiria ele sobre uma coisa daquelas? Foi nesse momento que se
apercebeu de que não sabia nada sobre o caráter de Luigi. Podia ser um
mentiroso. Podia ser um ladrão. Guid'Antonio apanhou o olhar de Palla: Vá
com calma, senão não vamos descobrir grande coisa por ele.

— Luigi, Luigi, pronto, já está tudo bem agora — Palla colocou o braço à
volta do rapaz, com os olhos negros cravados em Guid'Antonio, por cima da
cabeça de Luigi.
— Luigi — disse Guid'Antonio —, precisamos de saber tanto quanto possível
acerca da noite passada, para podermos apanhar os homens que fizeram isto
e prendê-los na Stinche.

— Gostavas de nos ajudar a fazer isso, não gostavas? — perguntou Palla. O


olhar de Luigi afastou-se dele e ficou fixo num ponto indistinto.

— Sim — disse com um tom de voz límpido e enfático.

— A noite passada foi terrível — disse Guid'Antonio, com cuidado para que
os seus joelhos não batessem no rapaz. — Fico contente por estares na
lareira, longe daqueles homens maus e em segurança. Às vezes é melhor
ficarmos muito caladinhos, não é?

— Sim. É o que diz a Margherita.

— Quem é a Margherita? — questionou Guid'Antonio.

295

— É a ama da minha senhora.

— Ah. E onde está a Margherita agora? — perguntou, esperando sem


esperança que a ama de Camilla estivesse em Florença.

— Em Vinci — respondeu Luigi.

Guid’Antonio olhou então para Palla, que preferiu levantar-se e arquear


as costas, aligeirando os músculos doridos.

— Luigi, sabes o que Castruccio Senso guardava naquele cofre? — indagou


Palla.

Luigi olhou para Guid'Antonio mas respondeu suavemente a Palla.

— O senhor Senso escondeu lá alguns florins. E as joias da minha senhora.


Ele não sabia que eu tinha visto — disse, com um sorriso maroto.

Jóias. As joias que Camilla não levara na sua viagem, que provavelmente
não tivera autorização para levar. E que agora tinham sido roubadas pelos
assassinos de Castruccio Senso.

— Luigi, sabes se Castruccio mantinha um diário? — perguntou


Guid’Antonio, inclinando a cabeça, esperançoso.

— Eles roubaram-no — respondeu Luigi.

— Como sabes isso?

— Estava no cofre. E já lá não está.

Guid'Antonio cerrou os dentes. Onde estava a sorte quando precisava dela?


O diário de Castruccio Senso podia ter sido muito útil para esclarecer o
destino da sua mulher desaparecida. Mas a sorte ajudava apenas aqueles
que se ajudavam a si próprios. E Luigi estava novamente muito quieto.

— Ali vêm os beccamorti. — Amerigo espetou o polegar na direção do som


das rodas barulhentas de uma carroça. Os coveiros iam lavar, barbear e
ungir o corpo de Castruccio e também comunicar o seu nome, a sua paróquia
e o seu bairro à guilda dos médicos e enfermeiros. A não ser que a sua
família pedisse por ele, seria enterrado praticamente sem pompa,
considerando a excomunhão que o papa atribuíra à cidade. Tragam-me esse
patife do Lorenzo de' Medici.

— Luigi, gostava de ver o objeto que tens guardado na tua mão — disse

Guid'Antonio.

O rapaz curvou os ombros.

— Qual objeto — perguntou Palla. Guid'Antonio estendeu a mão.

— É importante, Luigi. Se encontraste alguma coisa na sala hoje de manhã,


pode ser que ajude a tua senhora.

296

Ora aí está um golpe baixo, diziam os olhos de Palla. Muito bem.

— Não tens alternativa, Luigi - insistiu Guid’Antonio.

O rapaz esmoreceu e Guid'Antonio pegou num pequeno pedaço de tecido de


algodão branco da sua mão trémula.

— É a sua guardacuore — disse Luigi.

— A camisa de dormir da senhora? - perguntou Amerigo, incrédulo.

— Onde encontraste isto? Tem sangue. — A simpatia de Palla evaporou-se.


Agora estava atento como um gato pronto para saltar.

Luigi olhou do pátio para a porta que dava entrada na casa.

— Encontrei-o no chão quando o seu sargento me foi buscar à lareira e a


seguir foi a correr chamá-lo — disse, desviando os olhos de Palmieri.

— Fiquei com ele. Por favor, não me corte a mão! — recomeçou a chorar,
lágrimas de dor, vindas de um poço sem fundo.

— Luigi, juro-te pela Bíblia que ninguém te vai fazer nada de mal.

— Guid'Antonio entregou a Palla o pequeno pedaço de algodão branco. Tinha


bordadas as iniciais CR. E, sim, estava manchado de sangue; devia ser de
Castruccio Senso, pressupôs Guid'Antonio, embora não tivessem como saber
com toda a certeza. Podia ser sangue de um gato. Ou de um cão.
— São as iniciais da minha senhora — disse Luigi, com ar de quem estava
prestes a desmaiar. — Camilla Rossi da Vinci. — Tudo para dizer o nome
dela.

— Muito bem — disse Palla. — Mostra-me exatamente onde o encontraste.


Depois... — Pegou em Luigi pela mão e, olhando de relance para
Guid'Antonio, acompanhou o rapaz até dentro de casa.

— Depois, o quê? — O olhar de Amerigo sobre as costas de Luigi dizia


tudo: o que seria do rapaz, agora que não tinha patrão, nem casa, ou
qualquer outro sítio onde viver? Ia para o hospital dos enjeitados na
Praça Annunziata para crescer como um escravo órfão? Luigi era demasiado
valioso para isso. Alguém havia de ficar com ele, talvez o comprasse. Ele
tinha doze anos, bastava alimentá-lo bem e podia viver e trabalhar
durante muito tempo, como um escravo forte e saudável.

— E os parentes de Senso? — perguntou Guid'Antonio.

Palla, que regressava ao jardim com o rapaz, usou o seu lenço de bolso
para limpar as lágrimas secas do rosto de Luigi, com água do fontanário.

— Castruccio Senso não tem família — disse Palla. — Consegui descobrir


isso quando andava a investigar ativamente a... — olhou de relance para
Luigi —, a «partida» de Camilla.

297

— Onde foi que Luigi encontrou o tecido? Palla sorriu amplamente.

— Ao lado do corpo, claro.

— Ele ficará em sérios perigos se os assassinos de Castruccio Senso se


aperceberem de que Luigi estava a ouvir tudo atrás da tábua da lareira
-disse Amerigo. — Ele pode reconhecer as suas vozes se alguma vez voltar
a ouvi-las. Vão acabar por perceber.

Luigi ficou com um ar surpreendido e os seus soluços encheram o jardim,


cada vez mais alto.

Um cão esfomeado e agora um rapaz mal tratado. Guid'Antonio franziu o


sobrolho, descontente.

— Amerigo, leva-o para casa e diz a Domenica que lhe coloque alguma
comida no estômago. Dá-lhe um estrado limpo. E diz a toda a gente para
não falar dele. Não queremos que ninguém saiba o seu paradeiro.
Principalmente os assassinos de Castruccio Senso.

Palla arqueou as sobrancelhas.

— Não que me tenha perguntado a opinião, mas concordo. Por agora. O


portão fechou-se atrás de Amerigo e Luigi com um suave dique.
Um instante depois, ouviu-se o som distante da voz de Amerigo na Praça
Santa Maria de Carmine a falar com o rapaz. Palla arrancou um ramo de
alecrim de um arbusto próximo e cheirou-o.

— O nosso pequeno escravo sabe de qualquer coisa.

— Pois sabe. — De dentro da casa Senso ouviram-se os beccamorti a


praguejar enquanto levantavam o corpo de Castruccio para cima da liteira.

— E agora? — perguntou Palla.

Mais tarde, hei de fazer com que Luigi me diga exatamente o que aconteceu
na estrada para Morba, pensou Guid'Antonio. — Mas disse:

— Acho que devíamos ir à igreja.

— Excelente ideia — concordou Palla.

Depois de dar instruções aos seus sargentos para tomarem conta do local
do crime, Palla abriu o portão de Castruccio Senso com um movimento
floreado do braço.

Ficaram ao lado um do outro na Igreja de Santa Maria dei Camine, a fitar


o quadro A Expulsão de Adão e Uva do Paraíso, pintado cerca de cinquenta
anos antes na Capela Brancacci; Eva com a cabeça caída para trás, num
uivo, o rosto destroçado pela angústia. Subjugada na sua vergonha e na
sua dor, cobria os seios e a região púbica com as mãos.

298

Os tempos de representações planas de anjos e santos estavam há muito


acabados.

— Sei exatamente como ela se sente — disse Guid'Antonio, arrependendo-se


imediatamente de expressar os seus sentimentos a outra pessoa, levemente
ou não.

A gargalhada de Palla ecoou suavemente na igreja.

— Masaccio ficaria orgulhoso — disse, e deixou ficar o assunto por ali,


mastigando, pensativo, o galho de alecrim. — Luigi diz que ouviu outras
vozes para lá da de Castruccio Senso. Pode ser que ele os conhecesse.
Pode ser até que estivesse combinado com eles.

— Com os dez ou vinte? — perguntou Guid'Antonio, desconfiado. — Ele


também diz que foram os turcos que raptaram a sua senhora.

— E exatamente isso que quero dizer. Guid'Antonio abanou a mão.

— Por muito que me desagrade estar a eliminar possibilidades, não me


parece que Luigi faça parte da quadrilha, por muitos que sejam. Seriam
alguns clientes insatisfeitos com Castruccio? Se assim fosse, Luigi já
teria estado na presença deles no passado ocasiões suficientes para lhes
reconhecer a voz. Mas porque não os aponta? Porque tem medo de que o
apanhem? — Disse, um pouco para si mesmo.

— Eu aposto em Salvestro Aboati — disse Palla.

— O napolitano que o seguiu depois da discussão n'O Leão Vermelho.


Talvez. — Avançaram para a direita em direção ao fresco O Tributo do
Dinheiro, numa das paredes.

— Deixei Salvestro Aboati quando o seu caminho se virou na direção oposta


à casa de Castruccio — disse Palla. — Vou mandar os meus homens
procurarem novamente por ele nas tabernas e estalagens. Já agora, eles
passaram a região campestre a pente fino à procura do local onde o cavalo
de Camilla pudesse ter estado preso nas últimas semanas e não encontraram
nada.

— Isso seria bom de mais para ser verdade — disse Guid'Antonio. — Para
quê darem-se ao trabalho de procurar o napolitano? Se ele esteve
envolvido na morte de Castruccio, já se foi embora há muito. Assim como
quem quer que o tenha ajudado.

— Não vou deixar uma pedra por levantar — disse Palla.

— E quanto às folhas arrancadas do livro de contas? — perguntou


Guid'Antonio. — Se encontrarmos nelas os nome de Salvestro Aboati e...

299

— Vou passar revista aos papéis - disse Palla -, embora seja quase certo
que, se algum deles incriminasse Aboati ou qualquer outra pessoa, teriam
sido destruídos. Talvez seja esse o motivo.

Uma porta abriu-se, algures na capela. O som das saias ouviu-se na nave;
num canto afastado, uma porta fechou-se.

— Matar um homem é uma coisa. O que aconteceu em casa de Senso é outra.

Verdade. Na noite anterior, tinha havido mais do que avareza na casa de


Castruccio Senso. Tinha existido também malícia e uma crueldade extrema,
como Guid'Antonio só testemunhara uma outra vez. Por um instante, viu os
joelhos de Giuliano cederem enquanto se afundava no chão da catedral, viu
como Francesco de' Pazzi o esfaqueou incansavelmente, dez, vinte vezes ou
mais...

— O que acha do tecido? — perguntou Palla.

— As possibilidades são inúmeras - respondeu Guid’Antonio, engolindo com


dificuldade.

Palla fitou-o com o seu olhar atento.


— Mas o que pensa sobre ele, uma vez que pensar é o seu modus operandi

Palla ia pressioná-lo. Por isso, enquanto São Pedro deitava água sobre a
cabeça de um jovem musculado, quase despido, no São Pedro Batizando os
Convertidos, de Tommaso Masaccio, e uma víbora tentava o casal despido e
sem vergonha no Jardim do Éden representado no suave A Tentação de Adão e
Eva, de Masolino, Guid’Antonio tirou da bolsa o pedaço de tecido com
monograma.

— Este tecido está suavemente cortado numa forma retangular. Foi cortado
com uma tesoura e não rasgado. Por isso, foi intencional. O tecido é de
boa qualidade, embora não seja requintado. Ainda assim, qualquer roupa
decente tem valor para o seu proprietário. Não há muitas pessoas que
cortassem a camisa de dormir de uma senhora. - Voltou a colocar o pequeno
pedaço de tecido na bolsa.

Palla sorriu.

— Vou querer o tecido de volta. Terá sido cortado pelo próprio


Castruccio? Porquê?

— Ou por outra pessoa qualquer, mas, mais uma vez: porquê?

— Se ele a mandou matar, para quê guardar o tecido? Que recordação


macabra.

300

— Mas lembre-se de que o sangue é fresco — disse Guid'Antonio. — Este


pedaço de camisa de noite foi manchado recentemente, mas a rapariga já
desapareceu há quase três semanas.

Num acordo silencioso, viraram-se e começaram a caminhar pela nave


solitária, rematada por uma abóbada cilíndrica. Não obstante a fachada de
pedra, Santa Maria dei Carmine mostrava o mundo, o seu interior era rico,
ilustrado por frescos iluminados por velas e a luz natural que entrava
pelas grandes janelas arqueadas. Virando-se para Palla, Guid'Antonio
disse:

— O que disse a elusiva ama Margherita quando a interrogou em Vinci?

— Nada. Exceto que ela, Camilla e o rapaz foram atacados pelos turcos, e
o resto que já sabe.

— Não, não sei — disse Guid'Antonio. Luigi: ia ser brando quando


interrogasse o rapaz, ou acabaria por perdê-lo completamente. Paciência,
paciência. Mas vejam o que a paciência e a procrastinação lhe valeram até
ao momento. Deixava-o doente.

— A propósito — disse Palla. — Ela está bem.


— Quem? - perguntou Guid’Antonio.

— A médica de casa.

Guid’Antonio sentiu a cor a subir-lhe ao rosto.

— Ah — respondeu.

— Não foi falar com ela sobre este caso. — Era uma afirmação, não uma
pergunta.

— Não foi necessário.

Palla deu uma pequena e discreta gargalhada no fundo da garganta.

— A necessidade apresenta-se de muitas maneiras, meu amigo.

— E como o sei tão bem — disse Guid’Antonio. Casualmente, Palla


acrescentou:

— Ela é das mais excecionais mulheres de Florença. Linda, solteira e sem


depender de qualquer homem.

Então ainda não tinha casado. Guid’Antonio tentou e não conseguiu


encontrar o menor conforto no facto.

Saíram para a praça, protegendo os olhos com as mãos.

— O que vai fazer a seguir? — questionou Palla.

— Continuar a pensar. — Turcos. Como diabo tinham Margherita e Luigi


inventado aquela história mirabolante? E Margherita tinha dito ao rapaz
para se manter em silêncio.

Porquê?

301

— Castruccio Senso, assassinado? Lá se vai a hipótese de que aquele


piolho era culpado em relação a Camilla Rossi da Vinci — disse Lorenzo,
caminhando de um lado para o outro na sala da sua casa.

— Não necessariamente. Acredito na hipótese de Castruccio ter estado


envolvido no que aconteceu na estrada naquele dia. — De Santa Maria dei
Carmine, Guid’Antonio tinha montado Flora e atravessado a Ponta Trindade
para a margem norte, diretamente para o Palácio Medici.

— E então? Com a morte de Castruccio, perdemos a oportunidade de o


interrogar sobre as reservas e tudo o resto. — Lorenzo virou-se com os
olhos negros a brilhar, dois pontos de luz negra. — Diga-me que a Virgem
Maria não chora agora por aquele miserável vendedor

de vinho!
— Não. As ruas estão tranquilas. — Graças a Deus e a toda a Sua radiante
glória, o quadro não chorara desde que o cavalo de Camilla, Tesoro,
entrara na cidade a galope. — Ninguém se aproveitou deste último
acontecimento. Ainda — disse Guid’Antonio.

— Senso foi assaltado, assim como ainda ficou com a cabeça rachada?

— Talvez tenha sido um dividendo extra — disse Guid'Antonio. — Ou para


nos despistar quanto aos verdadeiros motivos do assassino.

— Que verdadeiros motivos? Uma vendetta? — perguntou Lorenzo, agitando um


dedo no ar.

Uma família que procurava vingar-se na casa de Castruccio por alguma


desfeita, real ou imaginária? O marido de Camilla era um homem que gerava
muitas antipatias e o assassinato parecia ter uma motivação pessoal.
Ainda assim, tinha sido uma morte feia.

— Se fosse uma vendetta, a esta hora já o sabíamos, os seus assassinos


certificar-se-iam disso.

— Assassinos?

— Dois, pelo menos.

— Porque não conseguimos apanhar estes imbecis que continuam a cometer


crimes mesmo por baixo dos nossos narizes? Raparigas desaparecidas,
quadros que choram quando lhes apetece — disse Lorenzo, com uma

expressão carrancuda.

— Castruccio acabou de ser assassinado — recordou-o Guid’Antonio. — E


Palla já está a investigar. — Depois, não conseguiu resistir e
acrescentou: — Podem ser imbecis, mas, até agora, estão a safar-se bem.

— O que vai fazer agora?

302

Vou fazer uma lista das pessoas que já me fizeram essa pergunta, pensou
sombriamente Guid’Antonio, para com os seus botões.

— Vou para casa, ter com a minha mulher, que não vejo desde quinta-feira.
Vou examinar as nossas contas. Vou visitar a oficina de Verrocchio. -
Mais um item da lista que ainda não tinha conseguido cumprir.

— De Verrocchio? — Nos lábios de Lorenzo, a palavra era como uma


explosão. — Será esta a melhor altura para andar a encomendar quadros ou
esculturas?

Mas será que ele tinha direito à sua própria vida? Aparentemente, não.
— Quero interrogar o seu aprendiz, Leonardo da Vinci. Lorenzo deu meia
volta, olhando novamente para ele.

— Leonardo? Mas porquê, por amor de Deus?

— Nunca se sabe onde podemos encontrar uma ligação — disse Guid'Antonio,


recusando-se a elaborar.

— Leonardo já não está com Verrocchio — disse Lorenzo, franzindo o


sobrolho. — Ele abriu a sua própria oficina, enquanto esteve em França. —
Recomeçou a andar de um lado para o outro, com os olhos negros a pousarem
aqui e acolá. — Sabe que as pessoas me vão acusar de ter uma mão nisto,
senão mesmo de ter brandido o castiçal, de ter causado a morte de
Castruccio de uma forma secreta qualquer. Não importa que não tivesse a
menor razão para destruir o pequeno homem. Muito pelo contrário. Um
assassinato na nossa cidade. Até fico maldisposto.

Mas não foi pela morte violenta de Castruccio Senso que as pessoas
culparam Lorenzo de' Medici. Em vez disso, foi pela assustadora notícia
vinda do sul de Itália e que foi entregada na Câmara Municipal por um
mensageiro a cavalo, naquela tarde. Depois de fazer o reconhecimento de
Rodes, o exército turco de Mehmed, o Conquistador, estava acampado na
ilha. Há mais de uma semana que os soldados inimigos andavam a atirar
mensagens para o forte segurado pelos Cavaleiros da Ordem de São João.

— Dizem que o almirante turco tem setenta mil soldados, apoiados por uma
armada de cem navios, e os Cavaleiros uma força de apenas seiscentos
homens — disse o mensageiro, limpando as lágrimas dos olhos com o punho.

— Dizem que o ataque está iminente. Contra eles, os nossos bons


Cavaleiros não têm a menor hipótese.

303

Página em branco

Capítulo TRINTA E UM

Setenta mil contra seiscentos. Imaginem os rostos a ficarem pálidos


enquanto Tommaso Soderini repete as notícias no Palácio da Senhoria: os
turcos dizem que os Cavaleiros em Rodes estão na iminência de uma batalha
tão cruel como nunca viram nem imaginaram nos seus sonhos mais selvagens.
Os turcos dizem que no fim do dia vão hastear a sua bandeira negra no
cimo da torre do forte, saquear a cidade e chacinar ou escravizar todos
os homens, mulheres e crianças cristãs que encontrarem.
Imaginem o poderoso corpo de Lorenzo curvado por cima de um mapa de
pergaminho desenrolado e preso nos cantos com pedras, em cima da mesa de
reuniões. «Aqui está a ponta mais a sul de Itália, com o rei Ferrante, na
baía de Nápoles. Avançando para sul-sudeste para lá do Mediterrâneo, está
a ilha de Rodes, com as ameias rebentadas pela artilharia do almirante

Mesih Pasha.»

Ninguém presente no salão precisa desta lição de geografia; todos sabemos


exatamente onde se localiza Rodes. Sabemos que a sua derrota dará a
Mehmed II o comando naval do Mediterrâneo ao longo dos portos orientais
de Itália. Sabemos que Mehmed quer criar um novo mundo, um Império
Islâmico. A presença de Lorenzo na Câmara Municipal enquanto líder não
oficial da República Florentina é espantosa e no entanto indiscutível.
Todos os olhos seguem o seu dedo sobre o mapa. «Depois de devorarem
Rodes, os turcos vão tomar Nápoles e depois marchar para Roma.»

«Meu Deus», arquejou Pierfilippo Pandolfini, e Bartolomeu Scala esfregou

as têmporas com força. Só a ideia de haver turcos em solo italiano dá ao


nosso lorde chanceler uma dor de cabeça latejante.

305

Os dedos de Lorenzo batem no pergaminho. «A viagem, por terra, de Ruma


até ao Norte da Toscana demora menos de duas semanas. De barco e a cavalo
demora quase quatro dias.»

Piero di Nasi deu uma gargalhada estridente. «Barcos na costa de Nápoles?


Depois Roma e a Toscana cercadas? O que aconteceu ao Não há Turcos em
Itália?»

Uma linha escarlate manchava o pescoço de Lorenzo. «A derrota de Rodes


vai trazê-los aos nossos portos.»

«E como vamos impedir que isso aconteça?» Os olhos azuis-claros do


presidente Tommaso Soderini estavam sobrenaturalmente redondos, a sua voz
amarga.

«Apresentando perante eles uma força unida. Florença, Roma, Nápoles,


Veneza e Milão.»

«Oh, por favor» António Capponi riu-se mais uma vez «É um sonhador,
homem.»

Lorenzo olhou para ele com uma intensidade que fez Antonio contorcer-se
no seu lugar. «O que será de nós sem sonhos, António?» As cinco maiores
potências da península italiana estão sempre em disputas e guerras
permanentes entre si. O papa Sisto IV e o rei Ferrante contra Florença;
os Sforza de Milão contra os seus próprios parentes, o Leão do Adriático
contra toda agente, incluindo os pequenos mas poderosos estados
independentes de Urbino e Ferrara, liderados por duques e déspotas de
todas as espécies. A ideia de uma Itália unificada surgia de tempos a
tempos, uma nuvem de fumo que se elevava no ar apenas para evaporar
quando perdia a força. Porém, Lorenzo ainda acreditava de alguma forma
nela, como acontecia com o seu avô, Cosimo de'Media, quando negociou a Pa
% de Fodi, em 1454, depois da queda de Constantinopla perante as forças
turcas. Os momentos arrastaram-se em silêncio. Até que finalmente eu
disse: «Vamos propor uma liga geral a Milão e às outras cidades-Estado?»
Vamos. Incluí-me na pergunta, embora atualmente não faça parte dos nove
lordes magistrados.

«Não», foi a resposta de Lorenzo. «Vamos deixá-los nervosos durante algum


tempo. Fies também receberam as mesmas notícias que nós e devem estar
apensar arduamente sobre elas.»

Imaginem Piero di Nasi afazer um último débil protesto. «Talvez os


Cavaleiros de Rodes consigam derrotar os infiéis. Os Cavaleiros têm Deus
e a Virgem Maria do seu lado.»

306

«Di Nasi!», gritou António Capponi. «É novamente a história de David e


Golias! Desta vez com um exército de milhares sob o seu comando, o
gigante vai vencer!»

No fim, filemos uma oração pelos bons Cavaleiros, pela ilha de Rodes e
abandonámo-los a ambos. Afinal, o que podemos fazer por eles agora? Tanto
quanto sabemos, os Cavaleiros já podem estar todos mortos, assim como os
restantes habitantes da ilha. É o nosso próprio futuro, os nossos
próprios sonhos, a nossa própria segurança que queremos proteger. E,
assim, falámos de assuntos mais próximos de nós, sobre como apaniguar a
nossa cidade. Fazemos um festival, talvez? Falámos do papa, de Girolamo
Riario e do príncipe Afonso de Nápoles, a trindade de diabos que já
estavam a atormentar a nossa Florença.

Pensem em Lorenzo a dizer-me em voz baixa enquanto me encolhia no meu


manto amplo e carmesim. «Quer a Câmara Municipal goste disso ou não, eu
vou unificar a nossa terra natal.»

22 de julho do Ano de Nosso Senhor de 1480

Guid’Antonio Vespucci, florentino

307
Página em branco

Capítulo TRINTA E DOIS

— Tens saudades da tua senhora, não tens?

Luigi olhou para Guid'Antonio com um olhar avaliador e comprimiu os


lábios.

Estavam no jardim Vespucci, sentados no banco de pedra que rodeava o


fontanário. Ao chegar da reunião da Senhoria, encontrara Luigi na cozinha
com Giovanni e Maria e ficara satisfeito por ter visto o filho a mostrar
ao outro rapaz a concha vinda da costa napolitana. Quanto a ter mandado
Luigi para a sua casa com Amerigo, Guid'Antonio sentia-se capaz de dar um
pontapé no próprio traseiro. Agora, a cidade inteira sabia que Luigi
estava em casa de Castruccio Senso quando este fora atacado até à morte
com o castiçal. Logo, Luigi era uma testemunha e Guid'Antonio preocupava-
se com a sua segurança. Ainda assim, para onde mais poderia ter ido o
rapaz? Para Bargello? Pelo menos lá, na cadeia da cidade, estaria sob o
olhar atento de Palla. Podia apanhar um susto de morte lá. E continuaria
calado como um rato.

Guid'Antonio disse a Amerigo que colocasse alguns guardas ali em casa e o


sobrinho cumprira. A sua sensação de urgência quanto ao interrogatório
que queria fazer ao rapaz não diminuíra. Se Palla conseguisse realmente
encontrar Salvestro Aboati, seria Luigi capaz de dizer se a voz dele era
uma das que ouvira na noite anterior? Mas, não obstante o que Luigi
dizia, poderiam confiar nele?

Agora no jardim, o cão era a única companhia dos dois, a deliciar-se com
o sol e com a mão de Luigi no seu ombro. Estava a acalmar o rapaz. Ótimo.
O ferrolho do portão rangeu.

309

— Foste à missa? — perguntou Guid'Antonio, levantando os olhos.

— Assim foi, tio. Mattina. - Bocejando profundamente, Amerigo juntou--se


ao pequeno grupo no jardim.

Guid'Antonio gesticulou para Luigi, a sorrir.

— Estamos a ter uma pequena conversa.

— Unilateral, hã?

— Não por muito tempo.


— Tenho intenção de ir até ao estábulo e resgatar Tesoro daquele
horroroso encarregado — disse Amerigo. — Uma vez que não há mais ninguém
para reclamar a égua. E o melhor é ir depressa.

Aquele imbecil vai vendê-la primeiro e preocupar-se depois com o facto de


ela ser uma prova.

E agora um cavalo andaluz.

Luigi humedeceu os lábios, respirando rapidamente. A menção de Amerigo a


Tesoro tinha-o atingido. Hmm. Guid'Antonio tocou no ombro do rapaz.

— Luigi. Daqui a pouco podes ir ter com Giovanni ao quarto de brincar, ou


ir ver a Domenica e o Cesare. Viste Amerigo a fechar o portão. Estamos em
segurança.

Luigi continuou em silêncio.

— O que aconteceu primeiro, enquanto estiveste na lareira? Os homens


entraram e esperaram pelo teu patrão? Ou ele recebeu-os?

Luigi encolheu os dedos dos pés na ponta das sandálias.

— Acho que... ele os deixou entrar.

— Não conseguiste perceber?

— Não tenho a certeza, Signore.

— Ele conhecia-os? — insistiu Guid'Antonio. Luigi fechou os olhos e


curvou a cabeça.

— Não sei, Signore.

«Não tenho a certeza» e « não sei» não iam ser respostas suficientes para
resolver aquela questão.

— Eles estiveram a conversar? Ou começaram logo a gritar?

— Eles conversaram primeiro, claro, Signore, mas eu... não consegui


distinguir o que eles diziam. Depois, um deles gritou com o meu patrão e
ele gritou: «Não! Não!» e fugiu. Depois disso ficou tudo em silêncio, a
não ser quando um deles partiu o cofre.

— Só mais uma coisa, depois podes ir para o quarto de brincar — disse


Guid'Antonio. — O pedaço de tecido que tinhas na mão... a ama da tua
senhora colocou a camisa de dormir na mala, no dia em que vocês os três
partiram de viagem?

310

Luigi hesitou.
— Acho que sim, Signore. Sim. Estava ser vago, mais uma vez.

— E a camisa de dormir estava inteira? Quero dizer, não estava rasgada?


Luigi ficou com um ar ofendido.

— Estava inteira, Signore! A minha senhora não usava roupa rasgada.


Guid'Antonio fechou os olhos, a sorrir. Bom. Camilla tinha a camisa

de dormir consigo, inteira; no entanto, uma parte dela foi mais tarde
encontrada nas mãos de Castruccio Senso.

— O teu patrão tinha aquele pedaço de tecido com ele antes da noite de
ontem? — perguntou.

O rapaz estava com um ar confuso: como devia responder àquilo?

— Não sei — disse, caindo novamente na evasão.

— Talvez não saiba mesmo — interrompeu Amerigo.

— Luigi, tu viste mesmos os turcos a abeirarem-se da tua senhora, no dia


em que a acompanhaste na estrada? — interrogou Guid’Antonio.

— Não! Não, Signore. Não vi — respondeu Luigi, recomeçando a estremecer.

— Então como sabes que eles eram os turcos?

— Quero dizer... sim.

Os olhos de Luigi agitaram-se com tanta violência que Guid’Antonio temeu


que o rapaz pudesse desmaiar, ou ter uma convulsão.

— Grazie, Luigi, já podes ir para dentro — respondeu-lhe suavemente.


-Vai.

Mesmo que lhe tivessem nascido asas e soubesse voar, Luigi não podia ter
desaparecido mais depressa do jardim e subido as escadas para os
aposentos com maior rapidez.

— Tio Guid’Antonio — disse Amerigo —, ele é apenas um rapazinho.


Guid’Antonio levantou a mão.

— O tempo urge. Palla vai ser muito mais duro com ele. E não sabemos de
que velhacaria se trata nem de como está Camilla no meio disto tudo.

— Então, o que sabemos?

— Sabemos que alguma coisa malévola aconteceu na estrada para Morba. E


acredito na ideia de que é Luigi quem detém a chave que vai revelar todo
este terrível segredo. Há qualquer coisa que me está a escapar.

311
— Só qualquer coisa? — perguntou Amerigo enquanto desciam as escadas do
palácio. — Eu estou completamente à toa. Anda, Cão, vamos.

Então o rafeiro já tinha um nome, por muito insignificante que fosse.

— Não — disse Guid’Antonio. — O lugar dos animais é no jardim.


Principalmente um animal tão grande como ele. — E peludo. O pelo do cão
ficava mais grosso a cada hora que passava. Dali a um mês ou dois...
Guid’Antonio nem queria pensar no assunto. A sua mente já era uma
explosão de factos, meios factos e divagações curiosas.

— Quem quer que matou Castruccio Senso deve saber do rapaz — disse —, se
ele ou eles tiveram alguma coisa que ver com o desaparecimento de
Camilla, se eram clientes descontentes ou qualquer outra coisa. Por que
motivo não viraram a casa de pernas para o ar à procura de Luigi, para
evitar que ele fosse testemunha?

— Eles não sabiam que ele estava lá — disse Amerigo. — Pensavam que
continuava em Vinci, como nós também pensávamos. O que me faz lembrar de
uma coisa: Luigi disse-me que Castruccio Senso ia vendê-lo. Foi por isso
que Jacopo Rossi trouxe Luigi para a cidade na quinta-feira passada. Deus
do céu. Não acha que Luigi matou Castruccio para evitar que isso
acontecesse? Por muito cruel que Castruccio fosse, pelo menos era um
homem conhecido.

— O Luigi não é nenhum assassino, Amerigo.

— Esperemos que não. Por falar em assassinos, há notícias de Forli e do


conde Girolamo Riario?

— Não. O rapaz, Sinibaldo Ordelaffi, já morreu há quatro dias. Amerigo


deu uma gargalhada seca.

— O silêncio é perigoso. De quanto tempo acha que o Riario precisa? O que


foi, tio? Parece-me pálido.

Guid’Antonio abanou a cabeça. Teve apenas a desconfortável sensação de


que estava de regresso ao relvado verdejante de Poggio a Caiano, a
observar Lorenzo a colocar uma flecha no arco e a dispará-la para o
centro do alvo.

312

Capítulo TRINTA E TRÊS

- Aqui dentro dava para pôr a oficina de Sandro Botticelli uma dúzia de
vezes. — Amerigo olhou de relance para trás, para a viela. — Não, não,
Cão, fica. aqui. Na viela, Signore.
Guid’Antonio franziu o rosto, como se isso o ajudasse a ouvir Amerigo por
cima do barulho que inundava a enorme bottega de Andrea del Verrocchio:
martelavam-se pregos em molduras e em peças de mobiliário em construção,
dois aprendizes discutiam acaloradamente sobre quem fizera o desenho de
um anjo que mais iria agradar ao mestre.

— Desculpa? — gritou por cima do barulho. Amerigo levantou a voz.

— Não importa que desgraças ou maquinações envolvam a nossa cidade,


Andrea está ocupado como sempre.

— Sim. — O olhar de Guid’Antonio encontrou o entroncado Andrea dei


Verrocchio de pé no meio da oficina, Verrocchio e Companhia, com um jovem
rapaz alto a observar alguns desenhos numa mesa de pedestal. Ah: Leonardo
da Vinci. Um dos aprendizes de Leonardo tinha dito a Guid’Antonio onde
podia encontrar o mestre naquela manhã.

— Vamos, Amerigo. - Guid’Antonio escolheu o caminho por entre deuses


arrumados em caixas de madeira, preparados para serem entregados por toda
a Itália, desviando-se do rapaz que vinha na sua direção com os braços
carregados de castiçais de bronze.

— Olhem quem se aventurou a vir ao nosso canto da cidade. — O rosto


roliço de Andrea del Verrocchio alegrou-se com um sorriso angelical. —
Bem-vindos, mestre Guid’Antonio, Amerigo. Bem-vindos.

313

Seguiram-se todas as perguntas habituais. Há quanto tempo haviam


regressado de Paris? Duas semanas? E tinham sido recebidos pelas
novidades do próprio Diabo: raptos, quadros que choravam, assassinos à
solta na cidade, terrível, terrível.

— E agora os turcos em Rodes — disse Andrea, benzendo-se. — Deve

ter achado que era o fim do mundo.

Por cima do barulho e da algazarra da oficina, Guid'Antonio respondeu a


tudo de memória: duas semanas, sim, que Deus valesse aos cruzados
cristãos. E, sim, a rapariga estava desaparecida e o marido assassinado.

— Mas Palla está a tratar de tudo — disse. — E o quadro está sossegado.

— Vejo que trouxe um amigo — disse Leonardo da Vinci, indicando o Cão,


que se sentava com uma única pata sobre a soleira da porta, sorrindo para
eles com baba nos maxilares.

— Não exatamente — disse Guid'Antonio.

— Quem acham que havia de querer aqueles dois fora do caminho? —


perguntou Andrea, com uma expressão carregada na testa. — A mulher e
agora o marido. Alguém devia ter um grande ressentimento contra ele. A
não ser que o sujeito vendesse um vinho realmente mau.

Guid’Antonio sorriu. Vinho mau como motivo para um assassinato? Bem, em


Itália, quem sabe? Mas disse:

— Não foi um assassinato, mas um assalto que correu mal.

— Mas, tio — começou Amerigo.

— Tens alguma coisa a acrescentar? — perguntou Guid’Antonio, virando-

-se para ele.

— Não. Agora não.

— Porque um assassino aí à solta seria o cúmulo de todos os nossos

problemas — disse Guid’Antonio.

— Seria, certamente.

Guid'Antonio olhou de relance para Leonardo e disse a Andrea del


Verrocchio que ele e Amerigo passaram por acaso na paróquia de
Sant'Ambrogio e pensaram ir à sua oficina cumprimentá-lo.

Os olhos de Andrea mostravam que não acreditava nem um pouco naquilo.


Passaram por acaso em Sant’Ambrogio? Apareceram ali por impulso? Não era
da natureza de Guid’Antonio di Giovanni di Vespucci passar por acaso em
lado nenhum. Além de que a bottega de Andrea, a maior e mais produtiva de
toda a cidade, não ficava nem perto de Todos os Santos, a oeste da
catedral, em direção ao Porta alia Croce, no bairro de Chaves do distrito
de San Giovanni.

314

— É uma honra — respondeu.

A sorrir, Guid'Antonio olhou para o antigo aprendiz de Andrea, Leonardo


da Vinci. Leonardo era magro, com cabelo castanho-claro, quase louro, que
lhe chegava para lá dos ombros. Usava a túnica branca de linho aberta no
peito, revelando uma massa de pelos dourados.

— Ouvi dizer que agora tem a sua própria oficina — disse Guid'Antonio.
Estava a fazer conversa de circunstância com o talentoso artesão que
partilhava a terra natal com Camilla Rossi e o seu pai, Jacopo Rossi da
Vinci.

— É verdade — disse Leonardo, acenando com a cabeça. — Mas...

— Mas! — Andrea gesticulou em redor da oficina e na direção de uma sala


onde moldes de gesso de mãos, pés e joelhos enchiam as prateleiras,
modelos para os seus aprendizes reproduzirem. — Tenho rapazes para
ensinar, um relevo prateado de um altar batismal para acabar, o monumento
de Fortegueri de Pistoia para acabar e a Dúvida de Tomás para colocar no
lugar, em Orsanmichele. Acabei há pouco tempo um busto do nosso Lorenzo.
Em terracota. Ficou muito bem.

— Não esperava outra coisa de si — disse Guid’Antonio.

— Em comparação, na minha própria oficina tenho pouco trabalho — disse


Leonardo, com um sorriso rasgado. — Pelo menos daquele que rende
dinheiro.

Andrea puxou o chapéu para trás, revelando o cabelo a recuar na cabeça e


limpando as gotículas de transpiração da testa.

— Leonardo é uma grande ajuda para mim. Mantém-me calmo quando tudo
parece estar a desmoronar-se.

— Faço o que posso — disse Leonardo, a sorrir.

— Então não tem muito trabalho para fazer — disse Amerigo.

— Não desde que pintei o retrato de Genevra de' Benci. Uma Madonna ou
duas, e alguns desenhos, além de uma peça de altar ou outra. Considerando
a economia atual, são muitos os artesãos na mesma situação, exceto
Andrea, o que é muito justo, já que foi ele quem ensinou a maior parte de
nós.

— Não, não — protestou Amerigo —, sei de fonte segura que o nosso


Botticelli se está a sair muito bem. Mais ainda, está prestes a começar
um retrato meu.

— Que bom para Sandro — respondeu Leonardo de modo neutro.

— O Leonardo passa o tempo a sonhar com as suas ideias para as futuras


defesas de Florença: canais, armas, toda a espécie de máquinas
extravagantes — disse Andrea.

315

— Não são extravagantes. Consomem apenas muito tempo — disse Leonardo. —


Dada a guerra e agora os turcos a respirar mesmo em cima dos nossos
pescoços, alguém tem de pensar na segurança da nossa terra. Mestre
Guid'Antonio, sabe em que ponto está a nova capela do papa no Vaticano?

— Não faço ideia — respondeu Guid'Antonio, sem querer falar daquilo e


pensando que Sandro lhe fizera a mesmíssima pergunta na Botticelli e
Companhia.

— Oh — disse Leonardo. — Esse seria um bom trabalho.


— Se não se importar de trabalhar para o Diabo em São Pedro — disse
Amerigo.

Desviando os olhos dele, Leonardo disse:

— Assim como todo o resto, Verrocchio ganhará sem dúvida o direito de


fazer a última escultura planeada pelos venezianos. — Indicou um desenho
na mesa.

— O que é isto? - perguntou Guid'Antonio. Dentro de um instante podia


dedicar-se ao verdadeiro motivo da sua visita a Leonardo da Vinci.

— É um monumento equestre de Bartolomeo Colleoni. É grande! — disse


Andrea. — Será preciso viajar para o Norte. Como suspiro pelos dias em
que Sandro e Leonardo estavam aqui na oficina, juntos; eram frescos,
retratos, baús de casamentos. Era trabalho fácil.

— O ambiente nem sempre era tão sossegado quando Botticelli e eu éramos


aprendizes aqui — disse Leonardo, voltando a sorrir. — E um homem como o
nosso Andrea, que consegue montar uma esfera e uma cruz por cima da
cúpula da catedral com a mesma facilidade com que pinta estandartes para
um torneio, conseguirá fazer qualquer coisa.

— Ter Leonardo aqui parece-me ser um bom compromisso para os dois — disse
Amerigo. - A sua ajuda é uma vantagem para si, Andrea, e sempre mantém
Leonardo fora das ruas.

Um calor vermelho trepou para o rosto de cor delicada de Leonardo e o seu


sorriso desvaneceu-se. Compôs a parte da frente da sua túnica, puxando a
bainha mais para baixo sob o cinto de couro largo que lhe contornava as
ancas, e entalou uma madeixa rebelde de cabelo atrás da orelha. Andrea
ficou com uma expressão horrorizada. O silêncio era ensurdecedor.

— Não lhe ligue — disse Guid’Antonio, com vontade de esganar o sobrinho.


— A memória de Amerigo é muito apurada quando se trata do seu avô.

316

— O comentário de Amerigo tinha sido um belo golpe duplo, referindo-se à


acusação pública de sodomia feita contra Leonardo havia alguns anos e

a uma tarde, muito tempo antes, na qual perseguiu Amerigo, o Idoso, pela
cidade, a murmurar para com os seus botões e a desenhá-lo apressadamente
no seu caderno na esperança de conseguir capturar no papel a expressão do
velho ancião, assustado.

Leonardo descontraiu-se um pouco.

- Sabia que o meu fascínio pelo avô de Amerigo desagradava ao seu


sobrinho, mestre Guid’Antonio. Foi por isso que lhe enviei um dos esboços
que fiz do senhor. Embora julgue que ele o deve ter rasgado, em
retaliação. - Ofereceu a Amerigo um sorriso conciliador. - Sempre é
melhor do que um punhal no coração, julgo eu.

- Não - disse Amerigo, com a fúria já a desaparecer, embora o rosto ainda


estivesse quente. - O desenho era demasiado bom para ser destruído. Ainda
o tenho.

Andrea olhou de um para o outro, tamborilando com os dedos na mesa,


claramente a questionar-se o que diabo os Vespucci tinham ido fazer à sua
oficina.

- Leonardo, é de Vinci - disse Guid’Antonio.

- Nasci lá, sim. Mas vivo em Florença há quase vinte e oito anos, já que
vim para cá quando ainda era pequeno.

- O que sabe sobre Jacopo Rossi da Vinci?

- Jacopo? Oh. O pai da rapariga que...

- Que ainda está desaparecida, sim - disse Guid'Antonio, inclinando-se


para a frente e gesticulando.

- Nunca conheci o homem - disse Leonardo. - Nem a rapariga. Guid’Antonio


fez um gemido de desilusão, consciente de que Andrea e Leonardo estavam a
olhar para ele. Mas não queria saber.

- Tem a certeza?

- Tenho. Mas o meu tio Francesco da Vinci é capaz de conhecer Jacopo -


disse Leonardo. - Francesco ainda vive na quinta onde passei a minha
infância. Se o que procura são informações de Jacopo Rossi, posso mandar
uma mensagem a Francesco a perguntar-lhe o que pode descobrir sobre ele.

- Não. Ou, pelo menos, não para já. - Guid’Antonio tinha de ir a Vinci em
pessoa. Em breve.

Então o que quer? Perguntavam os olhos de Leonardo, e Andrea pigarreou


muito alto. Tinha trabalho para fazer. E Leonardo também.

- Leonardo, o que faria se quisesse que um quadro começasse a chorar?

317

Andrea deu um passo para trás.

— A Virgem Maria de Todos os Santos? Certamente que a mão de Deus é a


responsável.

A boca de Leonardo curvou-se discretamente.

— Seria capaz de arranjar mil maneiras de o fazer.


— Eu contentava-me em saber de uma — disse Guid'Antonio, virando--se para
Andrea. — A mão de Deus, disse? Acredita no facto de as lágrimas,
intermitentes como são, representarem a acusação de Lorenzo?

— Não, claro que não — respondeu Andrea dei Verrocchio, um artesão


contratado pelos Medici durante décadas.

— Basta aplicar nos olhos um composto seco retirado do sangue de um


animal e depois esguichar o quadro com um líquido — disse Leonardo. -
Ou...

— Isso não faria com que as lágrimas fossem de sangue? — perguntou


Guid'Antonio.

— Absolutamente — respondeu Leonardo.

— Por Deus, nem pensemos nisso — disse Amerigo.

— Mas se o que procura são lágrimas translúcidas? — atirou Leonardo,


elevando o sobrolho interrogativamente.

— Eu não as procuro, mas é o que tenho — disse Guid'Antonio. Era verdade


que a Virgem não chorava há mais de uma semana, mas quem sabia quando as
lágrimas podiam recomeçar? E naquele dia ele estava tão perto de
desmascarar o perpetrador como na segunda-feira em que soube da
existência das lágrimas.

Sorrindo, Leonardo respondeu:

— Compreendo.

— Ele estará em Todos os Santos esta mesma noite a examinar o quadro de


todas as perspetivas conhecidas pelo homem — disse Amerigo, liderando o
caminho de regresso ao bairro do Unicórnio através de corredores de pedra
sombrios e ruas paralelas e estreitas.

— Esperemos que sim — disse Guid'Antonio.

— Reparou no emblema que ele tinha bordado no colarinho da túnica?

— Reparei. — O emblema de Leonardo era um arado numa forma oval, com o


dizer Impedimento non mi piega. Não há obstáculo que me impeça.
Guid'Antonio rezava para que fosse verdade. Ouviu Cão a arquejar atrás de
si. — Vá lá — disse. — Volta para trás.

318

— A túnica também era feita de bom algodão — disse Amerigo. — Mas enfim,
a sua família é abastada e não importa que ele seja filho bastardo. Deus,
está tanto calor, hoje.
Os cabelos da nuca de Guid'Antonio arrepiaram-se, um aviso para que
tivesse cuidado. Porquê? Olhou por cima do ombro antes de começar a
atravessar a praça ensolarada com Amerigo. Não obstante o calor, os
pedintes demoravam-se às portas das lojas, estendendo as mãos a quem
passava. Pessoas com baldes de madeira apinhavam-se junto ao poço
público, abanando-se e esperando pela sua vez de se abastecerem.

Havia ali qualquer coisa ameaçadora. Alguma coisa bateu nas costas de
Guid’Antonio, com força. No instante seguinte, um bafo quente roçou a
face dele e uma voz familiar murmurou-lhe com urgência ao ouvido:

— Irmão Martino continua desaparecido!

— Tio! — Amerigo virou-se rapidamente, desembainhando o punhal. Uma


mulher gritou. As pessoas espalharam-se. Baldes vazios bateram no chão e
tiniram por toda a praça.

Cão já estava a atirar o seu enorme corpo em direção ao vulto vestido de


negro que corria apressadamente para uma viela próxima.

— Ei! Cão!- gritou Guid'Antonio. - Não!

O animal virou-se com um movimento brusco, olhando para ele

curioso e confuso.

— Lindo menino! Fica! É apenas o irmão Paolo — disse para Amerigo,


entusiasmado, com o coração a bater rapidamente. — Ele não queria fazer-
me mal. Mas tinha qualquer coisa para me dizer. — Espantoso. Num piscar
de olhos, estavam sozinhos na praça. Lá se foram as pessoas que o podiam
auxiliar. Olhou de relance para o cane corso italiano. A tentativa do cão
para o proteger era puro instinto, nada mais.

— Não pode ser. Como sabe? Que era Paolo, quero dizer. — Amerigo guardou
o punhal e respirou com dificuldade. — Aquele sujeito era invulgarmente
alto, mas o capuz escondia-lhe o rosto.

— Pela voz — explicou Guid'Antonio.

— Paolo não se importou com o facto de poder perceber que era ele? —
perguntou Amerigo, perplexo. — Porquê arriscar levar com o meu punhal em
vez de dizer simplesmente o que... o que disse ele, já agora?

— Disse: «Irmão Martino continua desaparecido!» Com ponto de exclamação.


— Guid’Antonio ergueu as sobrancelhas, pensando naquilo quando
recomeçaram a andar, agora a passo rápido.

319
— Mas nós já sabíamos que Martino estava desaparecido — disse Amerigo. —
Não sabíamos? Ele é o desajeitado que embateu contra nós em Todos os
Santos e continuou a correr, no dia em que regressámos à cidade.

— É verdade. Mas não sabíamos que ele não tinha regressado, pois não? E o
irmão Paolo arriscou tudo para me dizer isso. Porquê, sobrinho?

— Não faço a menor ideia — disse Amerigo.

Caminharam para sul em direção ao Arno, através dos bairros do Touro e do


Leão Negro, passando de vez em quando por uma praceta na qual o sol
iluminava os edifícios, transformando as fachadas ocre em pedras
castanhas avermelhadas e douradas. Enquanto passavam por um corredor
ermo, Amerigo disse, pensativamente:

— Na semana passada, na igreja, o noviço Ferdinando Bongiovi jurou...

— Que a Virgem Maria de Santa Maria Impruneta estava a chorar pelos


pecados de Martino, sim, sim. Mas a questão que agora se coloca é onde
está Martino. E por que motivo fugiu em primeiro lugar da igreja.

— Acho que nos estamos a desviar — disse Amerigo.

— Então não penses — respondeu Guid'Antonio.

— Eu, se fosse o tio, ia perguntar ao tagarela do irmão Paolo por que


motivo não lhe disse onde estava o irmão Martino em vez de continuar com
este jogo do gato e do rato.

— Não me disse porque é óbvio que não sabe e está com esperanças de que
eu descubra.

No exterior da Igreja de Todos os Santos, os rapazitos traquinas


brincavam e os cães procuravam por entre vegetais e frutas cheias de
moscas. Guid’Antonio abriu a porta da igreja e olhou de relance para o
fundo da rua, vendo Amerigo a abrir o portão do pátio dos Vespucci e a
desaparecer para o jardim. Entretanto, Cão estava enroscado numa enorme
bola junto à entrada da igreja, com o focinho a repousar nas enormes
patas, preparado para dormitar e esperar que Guid’Antonio regressasse.

Mas que persistência. Ao entrar na igreja, Guid'Antonio inspirou


profundamente e olhou em redor. O santuário estava silencioso, com apenas
três ou quatro pessoas a rezar junto ao altar. Atrás dele, a porta abriu-
se, deixando entrar um raio de luz. As duas mulheres que entraram
esticaram os pescoços para verem melhor o Santo Agostinho de Sandro,
antes de passarem por Guid'Antonio em direção à frente da igreja. Um
vulto vestido de negro deslizou na sua direção através da nave sombria.
Era o irmão Battista Bellincioni, o responsável pelas esmolas da igreja,
que andava sempre à caça.

320
Guid'Antonio semicerrou os olhos. Seria Bellincioni o culpado, quem
manufaturara as lágrimas? Se sim, porque parara? Teriam sido ordens do
abade Ughi, que temia que fossem apanhados, agora que Guid'Antonio
Vespucci andava a investigar o caso? Sorriu para si próprio, reconhecendo
o seu próprio sentido de importância.

- Mestre Vespucci - disse o irmão Bellincioni, com desdém. - O senhor,


outra vez.

- E o irmão. Parece-me despido, sem uma caixa de esmolas na mão.

- O senhor também me parece despido, sem o seu dispendioso manto vermelho


— respondeu Bellincioni.

- Gostaria de falar com o irmão Martino.

Uma expressão fechada tomou conta do rosto do monge.

- Não há aqui nenhum irmão Martino.

- Já não há, quer dizer. Bellincioni pestanejou.

- Quero dizer que não há cá ninguém com esse nome.

- Então falo com o noviço Ferdinando Bongiovi - era o pequeno tagarela


de Guid'Antonio.

Bellincioni estalou os dedos, com uma expressão de satisfação maldosa.

- Desapareceu!

Uma onda de medo deslizou pela garganta de Guid'Antonio.

- Desapareceu para onde? - Certamente não teriam feito mal ao rapaz.

- Não sei dizer - respondeu Bellincioni.

Muito possivelmente até era verdade. Provavelmente, o pior que acontecera


ao jovem Ferdinando era ter sido enviado para uma igreja qualquer fora
das muralhas da cidade, afastado para evitar que tagarelasse sobre o
irmão Martino e o seu paradeiro. Os três jovens irmãos da Ordem dos
Humiliati, Paolo, Martino e Ferdinando, tinham a chave para um segredo
qualquer que a Igreja de Todos os Santos não queria ver revelado. Agora
Guid'Antonio tinha a certeza disso.

Mal se atreveu a perguntar:

- E quanto ao irmão Paolo Dolci? - Teria Paolo conseguido chegar ali tão
depressa, depois de embater nele na praça? Sim. Devia ter corrido e
corrido, tímido e assustado como um rato.

- Não está disponível - disse Bellincioni.

321
— É bom que nada de mal lhes aconteça. A nenhum dos três.

— Nós protegemos os nossos — respondeu Bellincioni.

— De quê?

— Deles próprios — sibilou o monge.

— Então quero falar com o abade Ughi.

— Está ausente. Em Roma. — Um sorriso rastejou pelos lábios de


Bellincioni. — Para se encontrar com o papa.

Sisto IV. Aquilo era interessante. Os olhos de Guid'Antonio procuraram e


encontraram a Virgem Maria no altar ao fundo. As duas mulheres que
entraram na igreja com ele estavam ajoelhadas em frente à imagem pintada
de Maria. Todos os Santos e o papa em conluio sobre a questão das
lágrimas já não parecia uma ideia tão rebuscada. Mas não seria exagero
dizer que a Virgem Maria de Santa Maria Impruneta era um dos ícones mais
reverenciados de Florença. Teria o abade Ughi coragem de adulterar o
quadro? Pensou no apoio do papa no assassinato de Giuliano e no olhar
vítreo do abade. As lágrimas significavam dinheiro nos cofres e uma
mancha na reputação de Lorenzo. Dois em um e ambos os homens
beneficiavam, o abade e o papa.

— O abade Roberto Ughi não pode ficar em Roma para sempre, embora talvez
fosse melhor para Florença se o fizesse. Mas lembre-se disto,
Bellincioni: brincar com o papa pode ser perigoso.

— Brincar? — titubeou Bellincioni. Recuperando, com uma expressão amarga


e ultrajada, virou-se sem mais uma palavra e desapareceu nas profundezas
do santuário.

Guid'Antonio olhou de relance para a parede do lado direito. Na penumbra,


Santo Agostinho — o manto branco e dourado do velho homem — saltou-lhe à
vista.

— Meu velho amigo — disse, reparando na expressão de súplica do rosto do


santo e em como os seus olhos estavam virados para o céu, à procura de
respostas —, sei exatamente como se sente.

Perto da sacristia, uma sombra que observava Guid'Antonio desapareceu.

A pele de Guid'Antonio eriçou-se. O que teriam feito com o pequeno


Ferdinando? Mandaram-no para casa ou, na verdade, para outra igreja. Se o
irmão Paolo ainda ali estava, enfiado em algum lugar, temeria ele por si
próprio? Paolo tinha arriscado o pescoço ao contactar Guid’Antonio no
meio da praça, não importava o quão breve tivesse sido. E onde estava o
irmão Martino?

322
Ele e Camilla de Rossi desaparecidos. Camilla desapareceu antes do jovem
monge de cabelos escuros e depois o cavalo dela, Tesoro, fora enviado
para a cidade.

Uma coisa sabia com certeza: tinha de encontrar Martino, nem que fosse
porque o irmão Paolo Dolci desejava desesperadamente que o fizesse e
acreditava na capacidade de Guid'Antonio para o fazer.

323

Página em branco

Capítulo TRINTA E QUATRO

Um raio de luz brilhou sobre o ombro de Guid'Antonio. Sobressaltado,


virou-se para trás. Um vulto escuro pairava no interior da porta da
igreja, a sua sombra contornada por um halo de luz dourada. Começou a
avançar, em direção ao bem ou mal que o esperava.

- Tio Guid'Antonio?

- Amerigo. - Guid'Antonio fechou os olhos por um instante. Era o anjo do


seu sobrinho, iluminado por trás pelo sol que banhava a Praça de Todos os
Santos e com Cão a babar-lhe os pés.

- O Luigi já está bem - disse Amerigo. - Ainda bem que me mandou saber
dele. Encontrei-o a chorar na cama. O que descobriu aqui?

- Que o abade Ughi está em Roma.

- Em Roma! E agora?

- Agora vamos... - Guid'Antonio voltou a olhar para o fresco que Sandro


pintara de Santo Agostinho, franziu o sobrolho, deixando os olhos
viajarem a toda a largura do mural. - Amerigo - disse, avançando em
direção à parede da igreja -, abre a porta toda para trás. Sim, olha ali,
mesmo por cima do brasão.

- Onde? Oh, há alguns versos escritos no livro de geometria do santo. Não


os tinha visto antes, na sombra.

- Mas eu já. Só que apenas na sombra, como dizes. - Guid'Antonio


semicerrou os olhos. E leu os versos em voz alta.

O irmão Martino está por aqui? O irmão Martino esgueirou-se por ali.
Esgueirou-se por que lugar?
325

Por onde, realmente? Guid’Antonio mal se atrevia a respirar, não fosse


dar por si não em Todos os Santos, mas em casa, a acordar de um sonho no
qual encontrava pistas pintadas no topo dos frescos, por muito ridículo

que o sonho fosse.

Esperando mesmo sem razão, com o coração a bater descompassado,

leu o quarto e último verso:

Pelo Portão Prato, para apanhar um pouco de ar. Martino ia a fugir


naquela direção, sim.

— Amerigo — disse Guid’Antonio suavemente —, Alessandro Botticelli pode


ter a chave para deslindar o mistério do paradeiro do irmão Martino.
Queira Deus que encontremos o nosso vizinho na sua casa.

Aqueles olhos dourados.

— Descobriram os versos — disse Sandro, fitando Guid'Antonio com uma


expressão ampla e dourada. — Fi-los na brincadeira, sem prejuízo da
encomenda que me fizeram.

— Mas também foi inteligente — disse Guid’Antonio.

— Sabia que se alguém os encontrasse seria o senhor — Sandro ergueu uma


sobrancelha. — Só depois de os incluir me apercebi de que a minha pequena
piada podia ser inconveniente. — Sorriu.

— Ou até mesmo ímpia — disse Amerigo.

— Até isso — concordou Sandro.

— Era por isso que estava nervoso quando viemos à oficina no outro dia? —
perguntou Amerigo.

Sandro concedeu o ponto com um aceno de cabeça.

— Amerigo, como sempre, muito perspicaz.

— O que viu no último dia em que esteve a trabalhar em Todos os Santos? —


inquiriu Guid'Antonio.

Sandro olhou de relance para os seus aprendizes, três rapazes que estavam
a dourar, a desenhar e a tracejar.

— Estava praticamente a acabar o mural quando um monge, um certo irmão


Martino como vim a saber depois, saiu apressadamente da sacristia,

exaltado e a gritar.
— A gritar? - repetiu Guid'Antonio.

— Que tinha profanado Todos os Santos. Que não queria continuar a

viver.

- Profanado Todos os Santos? — Amerigo endireitou-se. — Como?

326

— O que mais aconteceu? — perguntou Guid’Antonio.

— Caiu de joelhos à frente da Virgem, a soluçar, dizendo que provocara


Deus e que Ele se ia abater sobre nós. Por «nós» pensei que estivesse a
referir-se a Florença. Depois ele disse que era irmão de Satanás.

— Isto já é um pouco de mais — disse Amerigo.

A testa enrugada de Sandro mostrava que não concordava com ele.

— O irmão Martino acreditava em tudo o que estava a dizer. Da sua boca


até saiu a palavra assassinato.

— Assassinato? — atiraram Guid’Antonio e Amerigo.

— Quem foi assassinado? — perguntou Guid'Antonio. Com uma expressão


sombria, Sandro abanou a cabeça.

— Isso ele não disse.

— Porque não contou isto ao Palla? Ou a mim?

— Porque nenhum dos dois mo perguntou. Como devia eu saber que era
importante? De qualquer maneira, o rapaz estava destroçado, nada mais,
nada menos. Assassino? Não.

Guid'Antonio massajou as têmporas, a pensar.

— Os outros monges foram atrás dele — Paolo Dolci e o pequeno


Ferdinando.

— Foram, sim.

— O que disseram? Além das palavras que tão bem registou para a
posteridade?

— Quer dizer até alguém pintar por cima do fresco ou se lembrar de abrir
uma porta na parede? - Sandro deu uma gargalhada amarga. -Chamaram-no em
voz alta, ou por outra, quem o chamou foi o irmão Paolo: o alto e bonito,
com o cabelo prateado. Tem tonsura, tristemente. Paolo parecia pensar que
Martino tinha cometido um crime particularmente vil. A sua preocupação
parecia o facto de, se o irmão Martino fugisse, o abade lhe ir dar cabo
da cabeça.
Amerigo fungou com desdém.

— Já deve ter dado.

— Então - disse Guid António. - Martino pensava, ou pensa, que cometeu um


pecado terrível qualquer. Paolo pensa a mesma coisa, mas o Sandro não?

— Eu não quero é pensar — disse Sandro.

— A questão mantém-se: fugiu para onde? — perguntou Guid'Antonio. - Para


Pisa? Lucca? Diretamente para a costa? Vi Martino a correr em direção ao
Portão Prato, mas aquele portão dá para todo o lado.

327

Uma luz iluminou os olhos de Sandro.

— E isso que quer saber? Para onde foi o irmão Martino naquele dia?

— Sim.

Sandro olhou de relance para os seus aprendizes, de cabeças curvadas, e


para as velas que ardiam na oficina, acrescentando um pouco de luz à
claridade sombria que entrava pelas janelas abertas.

— A cada dia que passa, este espaço parece-me mais pequeno, mestre
Guid'Antonio — aventurou-se suavemente.

— Sim.

— Quero ir para Roma.

— Sim, sim, para pintar a capela do papa.

— Recorda-se disso.

— Eu recordo-me de tudo. Incluindo do novo edifício do Vaticano. E das


suas paredes despidas. — E de ti e de Leonardo da Vinci a resmungarem
como será o fim do mundo se não forem para lá imediatamente e deixarem a
vossa marca pintada naquelas paredes.

— Os que para lá forem precisarão de uma forte recomendação de Lorenzo.


Podia murmurar o meu nome ao ouvido dele.

— Podia - disse Guid'Antonio.

— Não conta a ninguém o que estou prestes a dizer-lhe? Porque não tenho o
menor desejo de arranjar problemas ao irmão Martino ou a qualquer outro
na nossa Igreja de Todos os Santos.

— Naturalmente que não conto.

— Peretola — disse Sandro.


— Peretola? — Guid’Antonio retesou-se. — Mas essa é a terra da família
Vespucci.

— Eu sei. E Peretola foi a última palavra que ouvi da boca do irmão


Martino.

— Sim, conheço Martino Leone - disse Niccolò Vespucci. Guid'Antonio e


Amerigo estavam na taberna de Niccolò, em Peretola,

a uma curta distância de Florença, depois de terem colocado


apressadamente as selas a Flora e Bucephalus e saído a galopar pelo
Portão Prado.

— Pelo menos conheço a família do rapaz. Os Leone têm uma quinta aqui
perto. O seu filho, Martino Leone, veio para casa há talvez já duas
semanas. Abandonou a igreja, provavelmente em desgraça, mas a família
aceitou-o de volta com grande boa vontade. Nem todos os filhos podem ser
monges.

328

Duas semanas. Guid'Antonio sorriu para os seus botões. Martino tinha ido
contra eles na rua há duas semanas.

— Graças a Deus por isso — disse Amerigo. — Eu também não seria capaz de
entrar para a igreja, embora julgue que o tio Giorgio esperava que o
fizesse. — Abanou-se, com o rosto a pingar suor, depois bebeu de um
grande trago o Chianti que o seu tio Niccolò Vespucci servira para ele e
para o irmão, Guid'Antonio. Sentado a uma das muitas mesas da taberna,
com um prato de queijo e fruta ao lado de outro de zuchini fritti,
beringela frita em azeite e depois polvilhada com salsa, à sua frente,
Guid'Antonio limpou casualmente as mãos às calças e perguntou:

— Achas que Martino ainda aqui está? Na quinta Leone, quero dizer? -Por
favor, Deus, por favor.

— Para onde mais iria ele? - Niccolò serviu mais vinho da garrafa.

— Ele tinha — tem uma jovem rapariga com ele? — perguntou Amerigo.

— Uma jovem rapariga? - Niccolò agitou a mão. — Que família permitiria


uma indecência dessas?

— Nenhuma, certamente — respondeu Amerigo.

Pediram as direções para a quinta Leone; Niccolò Vespucci indicou-lhes o


caminho. Tão depressa quanto podiam, Guid'Antonio e Amerigo partiram mais
uma vez.

Nos campos, as macieiras e pereiras estavam vergadas com tanta fruta


madura. As abelhas zumbiam sob o sol, enterrando-se nas flores silvestres
e regressando às colmeias carregadas de pólen. Os grilos cantavam
incessantemente. Uma carreta de madeira avançou pela estrada com alarido,
tendo como carga um cesto de cerejas maduras. O velho que puxava a
carreta acenou quando Guid'Antonio e Amerigo passaram por ele.

— Será que as coisas estão a melhorar? — perguntou Amerigo. — Tudo parece


estar bem por aqui.

— Vamos ter esperança. — Daí a algumas semanas, o sol haveria de tostar


os prados verdes que se estendiam de ambos os lados, descolorando a erva
até ao tom amarelado da palha.

Encontraram Martino Leone a reunir tubérculos nos terraços estreitos que


contornavam a casa da quinta Leone. Quem os encaminhara até ali fora uma
menina que descia a estrada com um aro cheio de pombos mortos. Depois de
assadas, as aves iam encher várias barrigas. Esmagados, os seus ossos iam
compor um caldo revigorante.

329

Martino ficou a olhar quando viu os dois cavaleiros a aproximarem-se.


Olhou de relance para a casa de pedra. As janelas estavam abertas e
vazias. O rafeiro que estava deitado à porta não levantou a cabeça. Tudo
na postura de Martino gritava: foge!

- Não — disse Guid'Antonio, deslizando da sela. — Só queremos conversar.


Não tem o que temer. — Por agora.

Martino hesitou e aproximou-se deles pesadamente, como se os seus pés


estivessem presos a pedras. Estendeu as mãos, cruzou os pulsos e esperou
que o prendessem.

- Podem levar-me para a Stinche. Ou até ao abade Ughi. Seja lá quem for
que os mandou, agora sou seu prisioneiro.

Guid'Antonio olhou atentamente para Martino: cabelo preto brilhante, um


rosto espantosamente bonito, que podia ter sido desenhado pelo próprio
Botticelli. Disse:

- Por que crime, diga-nos, por favor?

- Assassinato. Cobardia.

Guid'Antonio observou as mãos trémulas, esguias, com calos novos e


magoadas. Quando tinha ele alguma vez trabalhado? Não em Todos os Santos,
certamente. Pelo menos, não trabalhara arduamente.

- Ninguém me mandou aqui — disse. — Não sou a Igreja nem a polícia.

- O senhor é ambas as coisas - disse Martino. - Eu sei quem é. Profanei


Todos os Santos. O seu local de culto.
- Profanou-o como? Por que motivei se veio embora?

- Porque eles mataram-na. Camilla. — Disse Martino, com o nome dela


suavemente pronunciado pelos seus lábios.

O coração de Guid’Antonio começou a bater mais depressa.

- Eles?

- Os infiéis turcos. Por minha causa! E fizeram com que o quadro da


Virgem Maria chorasse, tudo por minha causa. - Lágrimas quentes começaram
a correr pelo rosto poeirento de Martino.

- Com a breca - disse Amerigo -, você tem-se em grande conta.

- Repito, Martino Leone: como? E porquê? - indagou Guid’Antonio.

- Por culpa dos nossos pecados. Eu, um monge, e ela, uma senhora casada.
Mas não conseguimos evitar. Estávamos apaixonados. Eu ainda a amo.

Amerigo olhou para o tio por baixo das pálpebras semicerradas: Eu sabia.

330

— E passou-se tudo em Todos os Santos? - perguntou Guid'Antonio. Martino


limpou as lágrimas do rosto.

— Sim, numa capela, depois noutra, depois de ela ir lá rezar.

— As suas preces devem ter sido atendidas - disse Amerigo.

— Onde está toda a gente? - questionou Guid'Antonio, olhando em redor. A


estada estava deserta, os campos e prados vazios.

— Estão no mercado que fica perto daqui. Vende-se vegetais e frutas.

— E você não foi?

-Já lhe disse que sou um cobarde. Não quero ver ninguém nem quero que
ninguém me veja.

— Nem quer ser apanhado. Mas hoje não teve muita sorte - disse Amerigo.

Guid'Antonio apontou para os degraus de pedra que davam acesso a casa.

— Vamos sentar-nos.

Foi o que fizeram, com o velho cão a mudar-se para a sombra de uma
árvore.

— Fugiu de Todos os Santos poucos dias depois de terem chegado notícias


sobre o rapto de Camilla pelos turcos e depois de o quadro ter começado a
chorar.
Martino cobriu o rosto com as mãos, chorando convulsivamente.

— Sim. Porque a castigou Deus, em vez de me castigar a mim? Já Lhe


perguntei tantas, tantas vezes e não obtive resposta. Mas esta... — bateu
no peito. - Esta dor que sinto no coração será o meu castigo eterno.
Camilla era doce e boa. Mas eu — eu tinha a luxúria no meu coração. Deus
está a castigar-me. Está a derramar a sua fúria justa por toda a Toscana
e a culpa é minha.

O seu olhar deslizou até Guid'Antonio.

— A excomunhão ainda continua?

— Sim.

— Oh, Maria!

— Acredita na possibilidade de Camilla estar morta? - perguntou


Guid'Antonio.

— Naturalmente. A ama dele chegou a Florença e disse...

— Sabemos o que a ama disse. Recebeu algumas notícias vindas da cidade?

— Porque deveria ter recebido? Já não quero saber o que acontece a mais
ninguém.

331

Guid'Antonio semicerrou os olhos, observando-o atentamente.

— Pode querer saber do seguinte: Castruccio Senso está morto. Martino


virou-se no degrau.

— O marido de Camilla? Morto? Ainda bem. Como?

— Foi assassinado — respondeu Guid'Antonio.

— Assassinado? — Martino arquejou, humedeceu os lábios e pestanejou


rapidamente. — Não pense que fui eu quem o matou. Eu desprezava
Castruccio Senso, mas nunca seria capaz de o matar. Se tivesse acontecido
mais cedo, talvez pudéssemos...

Com uma voz cortante, Guid’Antonio interrompeu-o:

— Não podiam ter feito nada. - Para lá das paixões inflamadas libertadas
nas sombras lúgubres da igreja, Martino Leone e Camilla Rossi da Vinci
não tinham quaisquer opções disponíveis. Como ele mesmo dissera, eram um
monge e uma mulher casada. Para onde iriam? Como viveriam quando lá
chegassem?
— Como morreu Castruccio Senso? — perguntou Martino, as palavras eram um
murmúrio seco na sua boca.

— Foi um assalto. Na sua casa — respondeu vagamente Guid’Antonio.

— Então que arda no canto mais quente do Inferno. Certamente, irei


encontrá-lo lá. — Martino abanou a cabeça, espantado. — Se as coisas
tivessem acontecido de maneira diferente, com ele morto e se ela não
tivesse ido para as termas, talvez...

Deixaram Martino Leone ali, sozinho nos degraus de pedra, a construir um


castelo nas nuvens cheio de talvez e ses; Guid’Antonio não se importava
de o deixar a fantasiar, se isso acalmava a alma torturada do rapaz.
Pensou nas termas, na reserva inexistente, no assassinato de Castruccio
Senso, nos amantes desafortunados e no seu coração, que ainda resistia à
noção de que Deus decidia tudo.

Regressaram a casa ao início da noite, no meio de uma atmosfera perfumada


com os aromas quentes e maduros das figueiras e do funcho; entraram na
cidade pelo Portão Prato. No jardim dos Vespucci, Maria correu para ele,
com o sorriso mais vivo que lhe vira no rosto nos cinco dias desde o
funeral da mãe.

— Oh! - Maria recuou, fazendo de conta que estremecia. - Estás todo


transpirado.

— Bom proveito — disse ele, sorrindo-lhe de volta.

332

- Guid’Antonio!

- Pensei que gostavas de mim assim.

- E gosto, mas as pessoas podem ouvir. Por onde andaste todo o dia?

- Buona sera — disse Amerigo a Maria, a sorrir amplamente, depois foi


para a cozinha para cear.

Fui à Verrocchio e Companhia. A Igreja de Todos os Santos. A bottega de


Sandro, ali mesmo ao virar da esquina.

- A Peretola — respondeu. — Turcos, pensou. — Uma rapariga desaparecida.


Um quadro que chora. Um marido assassinado.

- E descobriste alguma coisa?

- Algumas. - Ela parecia nova e bonita à luz do crepúsculo, mesmo vestida


de luto e com os véus, pretos, e ainda mais seda preta a rodeá-la. Como
conseguia respirar?
Maria olhou de relance na direção do fontanário onde Luigi, Giovanni e
Olímpia jogavam cartas. Ali perto, Cesare estava sentado num banco a
escovar o pelo de Cão com uma escova de prata. Perdi o controlo sobre a
nossa casa, pensou Guid'Antonio. Obviamente, Cão tinha sido vítima de
outro banho. Olímpia observava Cesare com um olhar adorador enquanto este
passava com as cerdas da escova no pelo lustroso e fulvo do rafeiro.

Ali estava uma cena bonita. Por que motivo o fazia sentir-se
desconfortável? Cão, depois de o ver, sorriu e debateu-se para se
levantar nas patas traseiras.

- Ele não te quer - relembrou Cesare ao cão, empurrando-lhe o traseiro


para baixo. — Senta.

- Os rapazes dão-se bem - dizia Maria. - Podemos ficar com ele? Com o
Luigi, quero dizer.

- Ele não é um animal de estimação, Maria - disse Guid'Antonio, olhando


novamente para ele.

- Eu sei disso - respondeu ela com um ardor considerável. - Estava a


perguntar se podíamos cuidar do Luigi, como fazemos com toda a nossa
família.

Os Vespucci não tinham escravos, embora as famílias mais abastadas de


Florença contassem com vários no seu pessoal de casa. O avô de Lorenzo
de' Medici, Cosimo, teve um filho de uma escrava; o seu nome era Cario
de' Medici. Também havia a meia-irmã de Lorenzo, filha do seu pai, Piero,
e de uma escrava também.

333

— Não sei, Maria - disse Guid'Antonio. - Castruccio Senso parece não ter
herdeiros, mas se alguém acabar por avançar, pode reclamar a propriedade
do rapaz. Luigi é valioso no mercado. Vamos ter de esperar para ver. -
Poderiam comprar o rapaz? Luigi. Não era este o nome verdadeiro do rapaz,
claro. — Se ficarmos com ele, damos-lhe a liberdade quando for maior de
idade.

— Ótimo. — Maria beijou-o em frente a toda a gente. Prolongada e


ardentemente.

O sangue de Guid'Antonio começou a agitar-se.

— Vamos lá para cima.

Um sorriso curvou os lábios de Maria.

— Olímpia, olha pelos rapazes.


Cão, libertado da sua sessão de beleza, seguiu Guid'Antonio com olhos
adoradores enquanto atravessavam o jardim; Cesare segurou Giovanni ao
colo e balançou-o no ar, fazendo com que o menino risse e Luigi se
chegasse para trás, com o rosto pleno de anseio.

O que poderia um homem fazer se acreditasse na ideia de a mulher o andar


a enganar?

Guid'Antonio passou com os dedos pela barriga de Maria, com os olhos


cravados no rosto dela, bebendo-a. Batia na mulher? Batia no homem?
Mandava-a de férias para a afastar do outro homem? Matava-a, depois de
ter recolhido o dinheiro do seu dote? E tudo isto, ou uma boa parte,
rodopiava em torno de Lorenzo e do quadro da Virgem Maria de Santa Maria
Impruneta, que chorava na Igreja de Todos os Santos. Guid'Antonio abanou
a cabeça para clarear as ideias, amaldiçoando-se pela direção que os seus
pensamentos tomavam ali na cama.

— Estás a pensar nele e nos seus problemas — murmurou Maria, com os


lábios suaves contra os cabelos do peito dele.

— Agora só quero esquecer-me dele — disse Guid'Antonio.

— Se te esqueceres, eu também me esqueço — disse Maria, puxando-o para


cima dela, com a boca, ávida, procurando a dele.

334

Capítulo TRINTA E CINCO

— Não admira que Leonardo seja tão bom. Quando se nasce com uma paisagem
destas, quem não saberia desenhar? — comentou Amerigo.

— Eu. — Guid'Antonio levou uma colher cheia de ribollita aos lábios. A


vista da estalagem que a família de Leonardo da Vinci tinha no cimo

de uma colina da cidade de Vinci era um panorama de ciprestes verdes


escuros, oliveiras antigas, amendoeiras em flor e riachos brilhantes e
velozes. Guid'Antonio questionou-se se nas últimas horas Leonardo teria
tido alguma sorte a fazer os quadros chorarem. Até ao momento, Luca
Landucci enviara a Guid'Antonio apenas duas mensagens, a segunda tão vaga
como a primeira: as tentativas de Luca caminhavam lentamente.
Guid'Antonio suspirou, bebendo vinho. Pelo menos Luca e Leonardo estavam
a tentar. Teve uma visão dos dois a entrarem em Todos os Santos pela
calada da noite e a darem um com o outro — não importava que tivesse
avisado Luca para não ir à igreja — um deles alto, esguio e de pele
clara, o outro com pele cor de azeitona, corpulento, a imagem do
boticário honesto e bem-sucedido acerca do qual ninguém suspeitaria de
que andava a cirandar nas ruas da cidade com uma bexiga de porco
escondida sob o manto.

— O que está à espera de encontrar na quinta de Jacopo Rossi? — perguntou


Amerigo. - Não se esqueça de que o Palla já lá esteve e se veio embora
sem nada.

— Eu não sou o Palla - disse Guid'Antonio, ensopando os pedaços de feijão


e cenoura na taça. Palla também não tinha encontrado nada nos livros de
contas de Castruccio Senso. Mais um beco sem saída. Enfim.

335

A propriedade de Jacopo Rossi não ficava muito longe do centro daquela


pequena cidade. Quisesse Deus que o homem estivesse em casa.

— Quero apenas encontrar qualquer pista, por pequena que seja — disse
Guid'Antonio. A voz desvaneceu-se. Além de Jacopo Rossi da Vinci, queria
falar também com Margherita Não-Sei-Quantas, a velha ama que acompanhara
Camilla e Luigi na fatídica viagem em direção às termas de Morba, já
fazia um mês. Não obstante os protestos de Martino em contrário, teriam
ele e Camilla engendrado um plano para fugirem para uma cidade distante e
convencido Margherita e Luigi a alinharem com eles, conjurando os turcos,
um rapto e por aí em diante?

Não. Se assim fosse, Martino saberia o que aconteceu de verdade na


estrada. E estaria com Camilla, por amor de Deus. Em vez disso, tinha
continuado em Florença durante o tempo todo, envolto no manto da
infelicidade, até ter fugido para a propriedade da família Leone.

— Acabei de me lembrar de uma coisa estranha que Francesco da Vinci me


disse quando falámos recentemente — disse Amerigo. — Vi-o no mercado.

— Ao tio de Leonardo? Em Florença? Estranho? Quando?

— Ele mencionou o fantasma de Camilla.

Guid'Antonio, que se tinha levantado da mesa para tirar umas moedas da


bolsa para deixar ao taberneiro que pairava perto do balcão, voltou a
sentar-se, pesadamente.

— O que estás a dizer?

— Ele falou do fantasma de Camilla, que cirandava aqui por Vinci -Amerigo
gesticulou para a cidade, para lá da porta da taberna. - Foi tão estranho
que nem pensei... — Fez uma careta. — Sabe como estes aldeões são
supersticiosos.

— Aldeões? Aldeões o caraças — disse Guid'Antonio bruscamente.


-Supersticiosos? Mas já te esqueceste de toda a conversa de milagres em
Florença e por que motivo estamos aqui? — Chamou o taberneiro até junto
deles. Era Giovan, um rapaz amistoso de rosto corado feito nos mesmos
moldes de todos os taberneiros, cordial e falador. — O meu sobrinho
disse-me que Vinci tinha um fantasma — a disposição de GuidAxitonio tinha
sofrido uma transformação rápida; estava efusivo e mexeriqueiro.

— Pois temos. Tínhamos. — Giovan serviu mais Chianti e pousou ambas as


mãos no tampo da mesa, pairando sobre eles. — Eu próprio vi o espectro.
Era nenhum outro que Camilla Rossi, que vagueava pela cidade à
meia--noite, a chorar como se o seu coração estivesse despedaçado.

336

Guid'Antonio inspirou profundamente.

— Ah. Tem a certeza de que era ela?

— Nunca tive dúvidas disso. E a rapariga mais bonita que um homem já viu,
mas agora o cabelo preto dela estava todo selvagem e a camisa de
dormir... — Giovan teve a graciosidade de corar por baixo do seu rosto já
rubro. — A camisa de dormir toda colada ao... Bem, mas com ela morta e
tudo, compreende. Nunca testemunhei uma coisa assim...

— Quem me dera ter visto — disse Amerigo.

— Giovan, já tinha visto a sua aparição antes? E voltou a vê-la depois? —


perguntou Guid'Antonio.

— Não, foi só daquela vez. Logo depois de ter sido violada e morta. —
Giovan benzeu-se. — Que Deus tenha a sua alma em descanso e que mande os
otomanos para o Inferno.

— Mais alguém a viu? — insistiu Guid'Antonio. Giovan abanou a cabeça.

— Já era tarde e eu estava a fechar o estabelecimento. Ainda gritei, mas


ela desapareceu subitamente. — Estalou os dedos e estremeceu, embora a
taberna estivesse quente e abafada.

— Então, Amerigo — disse Guid'Antonio quando estavam a sair de Vinci —, o


que achas disto?

Amerigo virou-se ligeiramente na sela.

— Não sei bem, tio.

Guid'Antonio deu uma gargalhada depreciativa.

— És cá um ajudante. Amerigo corou.

— O que quero dizer é o seguinte: é óbvio que Camilla está ou esteve aqui
em Vinci em carne e osso depois do seu desaparecimento, ou então o
taberneiro andou a imaginar coisas.
Guid'Antonio deu um toque para que Flora trotasse.

— A questão é: qual das duas hipóteses é verdadeira? Longe de mim estar a


desvalorizar as visões dos outros.

Um galispo cantou e aproximou-se da porta da frente da casa dos Rossi,


denunciando a chegada dos dois cavaleiros. A casa de pedra de Jacopo
Rossi da Vinci era espaçosa, com dois pisos e portadas abertas para
deixar entrar o ar. A quinta ficava na extremidade de uma floresta
cerrada. A oeste da casa estendia-se uma vinha até onde a vista
alcançava.

337

No fundo, era tudo o que Guid'Antonio esperava de um vinicultor próspero.


Um que podia dar um belo dote à filha, recordou-se, ao desmontar.

— Dizemos que viemos aqui com que autoridade?

— Autoridade? - Guid'Antonio riu-se. - Ah, querido sobrinho.

Perto da fachada sul da casa havia um estábulo. Amerigo levou Flora

e Bucephalus pelas rédeas para beberem um pouco de água, antes de deixar


cair as rédeas para o chão.

— Tio — disse, virando-se.

— Sim. Já vi.

Jacopo Rossi saiu à rua, com uma expressão azeda no rosto negro e a
fumegar de raiva pura. Os seus olhos semicerraram-se ao ver Guid'Antonio
e este estremeceu por dentro, sentindo um sobressalto semelhante ao que
sentira quando o mesmo Jacopo fixou os olhos nele no Mercado de São
Miguel.

— O que quer, mestre Vespucci? — perguntou Jacopo, rosnando o nome dele.

— Venho saber da sua filha. — Não importa como sabe o meu nome.

— Aqui está a sua resposta: está morta. Guid'Antonio ergueu as


sobrancelhas.

— Di-lo com muita frieza.

— A verdade é fria. O senhor é um homem Medici. Sabe mais sobre a morte


do que a maior parte das pessoas.

— Escute... — começou Amerigo.


— Sim, Jacopo — interrompeu Guid’Antonio —, Camilla já desapareceu há
quatro semanas. É tempo suficiente para chorar a sua morte, não importa
quem lhe tenha tirado a vida.

Os olhos de Jacopo tremeluziram, mas manteve-se calado.

— Vá buscar a ama da rapariga. Quero falar com ela — solicitou


Guid'Antonio.

— Foi-se embora — disse Jacopo, estalando os dedos.

— Olhe que surpresa. Foi para onde?

— Foi cuidar do filho, que está doente.

— É impressionante como toda a gente que diz respeito a este assunto


desaparece.

— E que tenho eu que ver com isso?

Olhando para lá de Jacopo, Guid'Antonio viu uma menina de cerca de quatro


anos a espreitar pela ombreira da porta.

338

— Há ainda a questão do dote — disse. — Aparentemente Castruccio Senso


não tinha familiares. Se não aparecer ninguém, o dote pode reverter para
si. Sabe que ele está morto, não sabe?

— Não! — Jacopo arquejou e recuou. — E o senhor acha o quê? Que o


assassinei para o roubar? — Um sorriso alargou a boca de Jacopo.

— Ninguém aqui falou de assassinato nem de roubo.

O rosto de Jacopo ficou roxo. As suas palavras rápidas podiam condená-lo.

— Sabe que alguém mandou o cavalo da sua filha para a cidade, há duas
semanas, com a sela ensanguentada? — perguntou Guid'Antonio.

Jacopo recuperou rapidamente.

— Estranho, não é, que os turcos tenham feito uma coisa dessas. Então
tenciono ter Tesoro de volta. É um cavalo valioso.

— Primeiro tem de o encontrar — disse Amerigo.

— Se esconderem o Tesoro de mim, eu...

— O senhor o quê? — questionou Amerigo, avançando um passo.

— O senhor não faz nada, Jacopo — disse Guid'Antonio. — Diga-me o que


sabe sobre o quadro que chora. Sobre a Virgem Maria de Santa Maria
Impruneta.
— O que sei é que sempre que Maria está em Florença tem todos os motivos
para chorar — disse Jacopo. O desafio que a sua voz lançava a
Guid'Antonio era forte: Não consegue perceber o que se passa e sabe
disso.

Vamos ver.

— Esta menina é outra filha sua? — indagou Guid'Antonio, olhando para lá


dele.

Jacopo virou-se subitamente.

— Isotta! Vai já para casa. Já te avisei.

Isotta Rossi da Vinci estremeceu, apenas a um passo do pai, com uma


boneca contra o peito.

— Isotta — disse Guid’Antonio. — Que nome bonito. — Sorriu para a menina.


E sobressaltou-se, olhando rapidamente para Amerigo, que lhe devolveu o
olhar, curioso.

Acalmando-se, Guid'Antonio ajoelhou-se.

— Tens uma boneca muito bonita, Isotta. Posso vê-la, por favor?

— Isotta Rossi! — troou Jacopo. — Faz o que te mando! Guid'Antonio olhou


para cima para ele.

— O que se passa consigo?

339

Jacopo cerrou os dentes. Se tinha alguma intenção de desafiar


Guid'Antonio, desistiu ao ver Amerigo a deslizar os dedos pelo punho do
punhal.

Isotta, com covinhas no rosto e cabelos negros e encaracolados, com um


vestido leve de verão, olhou de relance para o pai, avançou e entregou a
boneca a Guid'Antonio. O coração dele afundou-se no peito. O vestido da
boneca era feito do mesmo tecido que Luigi encontrara na sala de
Castruccio Senso na manhã a seguir ao seu assassinato. Era evidente que o
minúsculo vestido fora feito do mesmo material.

— Isotta, mas que menina de sorte és, por teres uma boneca tão bonita —
disse Guid'Antonio. — E o vestido também é tão bonito. Ela já o tem há
muito tempo?

Isotta abanou a cabeça, com o orgulho pela boneca a sobrepor-se à


timidez.

— Não, é novo. A minha...


— Isotta! - gritou Jacopo. - Vai para casa, ou...

— Ou o quê? — perguntou Amerigo, aproximando-se dele.

— Deixa lá, Amerigo. — Guid'Antonio olhou para a menina, que estava a


tremer na sombra do pai. — Obrigado, Isotta. Agora é melhor ires para
casa, como te mandam.

— Eu sei.

Jacopo, fitando furiosamente o seu interrogador pela última vez, pegou na


mão da menina, entrou em casa e fechou a porta com força.

— Bem — disse Amerigo.

— Bem, mesmo, Amerigo.

— «E o senhor acha o quê? Que o assassinei para o roubar?» — disse


Amerigo, imitando suavemente a voz de Jacopo. — Ele não pensou nem por um
instante que Castruccio Senso podia ter morrido, sei lá, a dormir.

Encaminharam-se na direção dos cavalos.

— E o tecido usado para fazer o vestido novo da boneca — disse


Guid'Antonio. — E óbvio que Camilla esteve aqui depois do alegado rapto.

— Mas porquê? E onde está agora? Morta? Embora deteste dizê-lo.

— Aí está o mistério.

— Mas não podemos ir simplesmente embora.

— Se o levássemos agora, o Jacopo ia ser um osso duro de roer, mesmo para


os homens de Palla. De qualquer maneira, tenho uma ideia. -Guid'Antonio
acenou em direção à janela aberta da cozinha, onde instantes antes vira
um rosto enrugado a espreitar das sombras.

340

Sentia no seu âmago que era Margherita, a ama de Camilla Rossi.

— Sabes, Amerigo — disse, elevando a voz enquanto subia para a sela de


Flora —, com o assassinato de Castruccio Senso, somos bem capazes de
ajudar a concluir o desaparecimento de Camilla.

Ouviu-se um grito vindo da cozinha. Um grito de mulher. Sim, era


Margherita, Guid'Antonio soube-o com toda a certeza.

— É verdade — disse Amerigo. — E esta noite vamos dormir na estalagem de


Vinci?

— Vamos, sim, sobrinho.


As galinhas afastaram-se do caminho de Flora e Bucephalus. O galispo
voltou a cantar, agitou-se e esgravatou na terra.

— E agora? — perguntou Amerigo quando ele e Guid’Antonio viraram para a


estrada irregular, de regresso à cidade.

— Agora arranjamos um quarto e esperamos.

E esperaram, esperaram e esperaram.

Margherita não se aventurou a ir a Vinci naquela noite e, embora


desiludido, Guid'Antonio não ficou surpreendido. Como poderia ela, uma
criada de casa, escapar aos olhos penetrantes de Jacopo Rossi? E assim
foi que o último dia de julho deu ligar ao primeiro de agosto e a onda de
calor de verão se abateu sobre Florença, transformando as vielas em
fornos e as paredes das lojas e casas em superfícies escaldantes em tons
vermelhos e acastanhados. Em Todos os Santos, os olhos da Virgem
continuaram tão secos como areia. E a ama de Camilla continuava sem dar
notícias.

Guid’Antonio já tinha perdido apostas antes. Ia dar mais alguns dias a


Margherita, depois pediria a Palla que trouxesse Jacopo Rossi para
Florença, para ser interrogado. Preocupava-se com Camilla. Estaria viva,
ainda? Rogava a Deus para que sim.

— Esperou honestamente que a velha ama fosse ter consigo? — perguntou


Lorenzo. Estavam na cozinha Medici, onde Il Magnifico estava debruçado
sobre o lavatório, a lavar o seu longo cabelo castanho.

— Ou que me mandasse uma mensagem — disse Guid'Antonio. Lorenzo agarrou


numa toalha.

— Porque não trazer simplesmente Jacopo Rossi para Florença? Hoje? Porquê
passar pela velha senhora?

341

— Questiono-me se ao fazer isso teremos acesso à história completa.

— Não teme pela rapariga? Pela ama? O tempo urge, ou não?

— Sim.

Atirando a toalha para o lado, Lorenzo sentou-se à mesa da cozinha,


prendendo o cabelo atrás das orelhas.

—Jacopo Rossi da Vinci. O que poderá ele ter que ver com as lágrimas da
Virgem? E comigo? Que estranho. - Tamborilou com os dedos na mesa de
madeira. - Ouvi dizer que Madalena Scala piorou. Agora já sangra e também
tem febres e arrepios.
Guid'Antonio sentiu uma onda de dor pela família Scala, pelo chanceler
Bartolomeo Scala e pelas suas filhas, mas principalmente por Madalena e
pelo bebé que ainda não nascera.

— Que Cristo a possa ajudar. — E benzeu-se.

— Nós tivemos gémeos que morreram — disse Lorenzo. — Clarice e eu.


Guid'Antonio acenou com a cabeça, pensando em Taddea e no bebé

de ambos, desaparecidos fazia mais de dez anos.

— Tiveram? — perguntou Amerigo.

— Logo depois de casarmos — disse Lorenzo. — Depois de a nossa pequena


Lucrezia ter nascido. Eram rapazes. Nados-mortos. Com a graça do Senhor,
todos os restantes filhos estão a crescer bem. Embora o Giovanni viva
para comer. Tenho de conseguir tirá-lo de casa, de o fazer jogar à bola.
Mas não seria uma coisa linda de se ver? Eu com dois filhos gémeos como
meus herdeiros.

— Até fico atordoado - disse Guid'Antonio.

Depois de saírem do Palácio Medici, Guid'Antonio e Amerigo partiram em


direções diferentes; Amerigo desceu a Via Larga para visitar o jovem
Lorenzino de' Medici, que estava na cidade depois de ter vindo de
Careggi, e Guid'Antonio foi para a Rua de Todos os Santos, para junto de
Maria e Giovanni. Naquela noite, depois de sair calmamente da cama,
voltou a vestir as calças e a túnica e estava prestes a começar a
escrever quando Cesare entrou em bicos dos pés.

— Cesare, tu às vezes assustas-me — disse Guid'Antonio, olhando de


relance para Maria, que dormia profundamente na cama, sem se aperceber da
presença de Cesare no quarto.

— E o senhor a mim — disse Cesare, olhando mordazmente para a mão de


Guid'Antonio, que coçava distraído a cabeça de Cão.

342

— Cristo — disse Guid'Antonio, mas não fez qualquer movimento para


afastar o cão, que sorria alegremente para ele. Quando raio tinha o bicho
entrado pela porta? O cão e agora Cesare. — O que foi? — perguntou.

— Não é o quê, é quem — disse Cesare, a brilhar de entusiasmo.

— Quem é, então? — questionou Guid'Antonio.

— Leonardo.

— Da Vinci?

— O próprio. Meu Deus, ele é alto.


Guid'Antonio pôs-se de pé imediatamente. Maria mexeu-se na cama.

— Onde está ele? O que quer? — indagou Guid'Antonio calmamente.

— Tem novidades para si — disse Cesare. E explicou como Leonardo viera


até ao Palácio Vespucci a meio da noite para entregar uma mensagem, não
sobre a mecânica por trás das lágrimas da Virgem, Cesare nem se deu ao
trabalho de erguer o sobrolho, mas sobre Camilla Rossi da Vinci, cuja
ama, Margherita, estava naquele momento à espera de Guid'Antonio em
frente ao altar da Igreja de Todos os Santos.

As sombras apareciam e desapareciam nos recantos escuros do santuário; os


mantos arrastavam-se pelo chão de pedra. Uma mulher vestida de negro
estava ajoelhada em frente à Virgem Maria de Santa Maria Impruneta.
Leonardo estava por perto, ajoelhado, com o cabelo louro arruivado a
brilhar como ouro à luz das velas. Com eles estava outro homem junto à
balaustrada: o tio de Leonardo, Francesco da Vinci. Guid’Antonio olhou de
relance para Cesare.

— Como foi que Margherita chegou até aqui?

— Foi Francesco quem a trouxe da sua quinta. Margherita procurou-o lá.


Entraram na igreja, passaram pela Capela Vespucci, pelo São Jerónimo

de Ghirlandaio, pelo Santo Agostinho de Sandro Botticelli, e os únicos


sons que Guid’Antonio e Cesare ouviam eram os da suave batida dos seus
passos. Francesco e Leonardo olharam em redor e acenaram com a cabeça,
reconhecendo a presença de ambos.

Guid’Antonio fez uma oração silenciosa e levantou os olhos para o altar,


onde a Virgem Maria voltara a chorar, com lágrimas translúcidas que
molhavam o seu rosto pálido pintado.

Pouco tempo depois, no jardim da igreja, sentaram a ama num banco e


ficaram sentados em silêncio, à espera de que ela falasse.

343

Estará mesmo uma mulher ali dentro? Questionou-se Guid'Antonio,


observando o manto negro de Margherita e o capuz que lhe cobria a cabeça
e o rosto.

Até que ela falou, por fim. Afinal, procurara-o com aquele propósito; mal
começou a falar, a história saiu de uma rajada, sem precisar de muito
encorajamento da parte dele.

— Tudo começou no dia em que nós — eu, a minha senhora e o rapaz —


partimos para as termas. Aquelas que os ricos frequentam em Morba. O dia
estava quente e ensolarado; a minha senhora ia envolta num mantello, que
levava por cima do vestido; era muito abafado, mas ela lá se ria à sua
maneira leve. Estava plena de felicidade por se libertar do marido, nem
que fosse por pouco tempo. Não tínhamos saído há muito de Florença quando
ela tirou o manto e o enrolou numa trouxa, que guardou atrás de si, nas
costas de Tesoro. Como adorava aquela égua. Disse-lhe que faziam um par
bonito, as duas com cabelos tão brilhantes, com os caracóis negros.
Passámos a noite na igreja, em San Gimignano, e voltámos para a estrada
no dia seguinte. Depois... — Margherita vacilou.

— Ela está...? — perguntou Francesco da Vinci.

— Vá com calma, Nonna — disse Guid'Antonio, atirando um olhar de cautela


ao outro homem. — Somos seus amigos.

Margherita inspirou com dificuldade. Com grande cuidado, Leonardo cobriu


a mão dela com a sua. Cesare, de pé atrás deles, tocou no ombro de
Leonardo.

— Um cavaleiro aproximou-se de nós, aos gritos. Era um demónio vindo do


Inferno, que gritava uma algaraviada qualquer, acenando com lenços e
pulseiras fantásticas, aos berros dizendo que era turco. Agarrou na minha
senhora e tentou derrubá-la do cavalo. Tesoro relinchou e afastou-se. A
minha senhora lutou contra o atacante e conseguiu arrancar-lhe o lenço
que lhe cobria o rosto.

Os quatro homens aproximaram-se para ouvirem as palavras seguintes de


Margherita.

— Horrível! — exclamou ela. — Ele tinha uma longa cicatriz ao longo da


face.

Guid'Antonio interiorizou aquela informação, pensando imediatamente em


Salvestro Aboati a discutir com Castruccio Senso n'O Leão Vermelho. Sim,
sim, o napolitano com a cicatriz vermelha e irregular no rosto.

— A minha senhora gritou. O atacante gritou também, dizendo que a ia


matar por lhe ter descoberto o rosto. Eu chorei. Ele olhou para nós com
os olhos doridos e diabólicos.

344

Ameaçou-nos, dizendo que as nossas vidas valiam menos do que a de um


coelho. Disse que, se alguma vez o descrevêssemos a alguém, nos cortava
aos pedaços e nos fritava em azeite. A quem o ia descrever eu? Coitadinho
do Luigi. O menino chorava de medo, com a cor a desaparecer por baixo da
pele. O nosso raptor juntou-nos... — Margherita recomeçou a chorar.

Guid'Antonio queria sacudi-la.

— Juntou-vos para irem para onde?

— Na altura não sabia. E a minha senhora também não. Mas aquele louco, em
vez de nos esquartejar ou de nos tomar como escravos, levou-nos para a
nossa casa. Mestre Vespucci, disse que o marido dela, Castruccio Senso,
está morto. Se assim é, Camilla pode ser livre. Mas, em vez disso, o pai
dela prendeu-a. E o pequeno Luigi, onde está? — A mulher fungou. Olhando
em redor.

— Ele está em segurança — disse Guid'Antonio. — Jacopo prendeu-a onde?

Soluços de alívio sacudiram o corpo da ama.

— Por favor - pediu Guid'Antonio, apressando-a tanto quanto possível.


Havia certamente outros ouvidos à escuta: o irmão Bellincioni e quem
mais? Mas ele queria que ela falasse. Algumas partes do puzzle estavam a
encaixar-se no seu lugar, mas não todas. Devagar, devagar, avisou-se a si
próprio.

— Margherita, foi Jacopo quem mandou raptar Camilla? O seu próprio pai?

Ela fungou.

— Quem mais? Realmente, quem mais?

— Mas porquê? — perguntou. Onde, onde? A sua mente corria veloz.


Certamente Camilla estava em segurança, pelo menos por agora.

— Porque ela cometeu um pecado terrível.

— Como pode ser isso?

— Ela atreveu-se a amar, mestre Vespucci.

— Cesare — disse Guid'Antonio, olhando em redor, mas Cesare já tinha


posicionado a sua ágil figura junto ao portão do jardim, ao lado de
Amerigo, que entrara poucos instantes antes; estavam ambos atentos a
qualquer pequeno som. Não seria bom que alguém na Rua de Todos os Santos
ouvisse aquela conversa.

345

— Amor — disse Guid'Antonio, pensando, o irmão Martino, sim. Margherita


baixou a voz.

— Ela conheceu um jovem rapaz aqui, e ele ficou imediatamente enfeitiçado


por ela; que homem não ficaria? Só que ele... ele...

— Ele era um monge.

— Sim. Bondoso e meigo, disse a minha senhora. E ela com tanta falta de
bondade e meiguice. O senhor Senso costumava bater-lhe. — A ama disse
isto com tamanho ódio, que Guid'Antonio estremeceu.

— E Jacopo sabia disso — disse ele. — Do monge e das tareias de


Castruccio.
— Sim, sabia dos dois. Jacopo viu as nódoas negras dela numa certa vez em
que veio visitar-nos a Florença. O senhor Jacopo e o senhor Castruccio
Senso tiveram uma discussão terrível por causa disso. O senhor Castruccio
Senso disse a Jacopo que desconfiava de que a minha senhora o andava a
enganar. Inicialmente, Jacopo não acreditou nisso. A sua pia filha? Não!
Mas depois começou a acreditar. É capaz de a ter mandado vigiar. Foi
pouco tempo depois disto que nos enviou para Morba. O senhor Castruccio
Senso, quero dizer. E agora o senhor Jacopo quer enviá-la para um
convento de freiras qualquer, onde a vai fechar na escuridão para toda a
eternidade. Vão silenciar a sua voz e cortar-lhe o cabelo.

A voz de Margherita quebrou-se.

— Foi por isso que tive de vir ter consigo, para salvar a minha querida
Camilla, enquanto ainda é tempo.

Um suspiro de alívio escapou-se dos lábios de Amerigo.

— Então ela está em segurança.

— Margherita — disse Guid'Antonio —, o que aconteceu ao cavalo de Camilla


depois de Salvestro Aboati vos ter entregado a Jacopo?

— A égua primeiro estava em casa, mas depois desapareceu. Como a minha


senhora.

— Sabe onde Camilla está presa?

— Sei. Está fechada numa torre de pedra, na floresta perto da casa do


pai. Num dia, ainda lhe conseguiu fugir e andou pela floresta, atordoada
e sem sentido; estava tão assustada que foi até à cidade de Vinci. Jacopo
não podia deixar que isso acontecesse. As pessoas podiam vê-la e começar
a falar. Por isso apanhou-a e levou-a novamente para casa. Mas ela está
suficientemente bem, Signore. Jacopo deixou-a aos meus cuidados e fiz o
melhor que soube para tratar da minha doce menina. Tanto quanto fui
capaz, já que está de coração despedaçado.

346

Leonardo levou a mão ao peito.

- Quando vai Jacopo enviá-la para o convento? - perguntou. - E que


convento é?

— Amanhã à tarde — respondeu Margherita, suavemente. — A única coisa que


sei é que fica muito, muito longe. Tinha de o procurar agora. E, antes de
sair, peguei na chave da torre.

347
Página em branco

Capítulo TRINTA E SEIS

Numa nuvem de pó e pedras, puxaram as rédeas em frente o. C3.S3. da


quinta de Jacopo Rossi da Vinci.

— Vai, Amerigo!

Rapidamente, Amerigo virou Bucephalus em direção à floresta, para


libertar Camilla da torre na mata, enquanto Guid'Antonio atravessava o
pátio da frente e Palla e os seus homens subjugavam o pai da rapariga.
Não que Jacopo Rossi da Vinci quisesse ser subjugado.

Antes que Palla chegasse à porta de casa, Jacopo saiu para a rua, com o
rosto composto numa máscara de fúria impotente, reconhecendo, porém, que
estava derrotado. Com um semblante experiente que fora trabalhado ao
longo dos anos, Palla prendeu as mãos do outro homem atrás das suas
costas para que fizesse a viagem até Florença, onde seria interrogado na
esquadra da polícia.

— O que vão fazer com as minhas filhas? — perguntou Jacopo quando


partiram da quinta acompanhados por guardas armados.

— É melhor perguntar o que vamos fazer consigo — disse Palla. — Permaneça


calado, ou corto-lhe a língua.

Guid'Antonio virou-se na sela, olhando por cima do ombro. Com os braços


de Camilla em redor da sua cintura, Amerigo tinha percorrido o caminho de
volta da floresta até à quinta, para ir buscar a menina, Isotta, e dali
levara-as apressadamente para Peretola, onde iam ficar na estalagem de
Niccolò Vespucci até tudo estar resolvido. E, sim, Camilla Rossi era uma
visão adorável, pura, com os cabelos a cair numa cascata preta e olhos
espantosamente azuis, que fariam com que muitos homens esquecessem os
seus votos, fossem monges ou homens casados.

349

Os olhos de Camilla encontraram o olhar observador de Guid'Antonio e


trocaram um ligeiro sorriso de reconhecimento, antes de ele virar Flora
em direção a casa.

Algumas noites depois, quando estava na cama com Guid'Antonio, Maria


perguntou:
— O que aconteceu com os nossos amantes secretos? Nunca me senti tão
curiosa.

Guid'Antonio sorriu.

— Já sentiste, já. — Tinham-se passado dois dias desde que Amerigo


libertara Camilla Rossi da torre. Foram dias satisfatórios, embora
quentes, poeirentos e longos. Mexeu no cabelo de Maria, com a palma da
mão a acariciar-lhe a barriga, mas depois contentou-se com beijos na sua
boca, por momentos, e deitou-se ao seu lado, com um braço sobre a cintura
dela. — Sabes que hoje, eu, Amerigo e Lorenzo fomos a Peretola. Camilla e
Isotta têm estado lá com o tio Nicollò Vespucci e a sua família.

— Sim. E como se comportaram os nossos dois pombinhos?

— Como seria de esperar. Espantosamente. Martino perdeu toda e qualquer


sensação de culpa e só quer casar com Camilla assim que chegarem a
França.

— E ela quer?

— Quer, a avaliar pelo sorriso que se abriu nos seus lábios. Não há
conventos para ela.

— Amore — disse Maria, satisfeita. — Eles vão para onde?

— Plessis-les-Tours. — Lorenzo assegurara ao jovem casal que ia tomar


providências para que eles, Margherita e Isotta ficassem com o rei Luís
XI. («Como podem construir uma vida juntos, em Florença?», perguntara
Lorenzo a Guid’Antonio. «É impossível. Além de que eles estão
apaixonados») O amor, o amor. Feitas as contas, era a única coisa que
importava. Antes de partir, Guid’Antonio entregara a Camilla uma carta
para Ameliane Vely, para a colocar ao corrente das notícias. Perguntara-
lhe de modo divertido como estava a viver sem ele lá.

— A Camilla estava muito feliz? — perguntou Maria, desejosa de saber dos


detalhes.

— Estava a brilhar de felicidade. O cabelo cintilante, incendiado como um


sol negro, a beleza dos seus caracóis esvoaçantes rivalizava apenas com
os do seu amor e os da égua, Tesoro.

350

Maria deu-lhe um murro, a brincar.

— Estás a troçar de mim.

— Não estou nada. O Amerigo quase desmaiou.

— O Cesare teria desmaiado — riu-se Maria, aproximando-se mais dele.


— É bom ver-te descontraído, para variar. Amo-te por teres ajudado aquela
rapariga infeliz. Mas não entendo por que motivo os nossos monges estavam
tão determinados a impedir que Martino abandonasse a Ordem. Disseste que
aquele chamado Paolo estava ansioso para o encontrar e o trazer de volta.

— Tinham medo de que as notícias sobre o comportamento de Martino


manchassem o nome da Ordem - disse Guid’Antonio. - Que fizesse parar as
contribuições dos pais, que agora teriam medo de que as suas filhas
pudessem ser arruinadas às mãos ansiosas dos jovens monges de sangue
quente.

— Guid'Antonio — ralhou Maria.

— Ou que um dos seus pudesse ser acusado de a ter matado — disse. — Uma
vez que estava a ter um caso amoroso com um irmão monge. Maria, eu não
estava tanto a tentar ajudar Camilla, mas sim a tentar ajudar Lorenzo.

— E a mim próprio, pensou. Como o bom homem Media que sou. A mim e à
minha família.

Maria susteve o olhar dele.

— Diz o que quiseres. Eu sei a verdade.

Não, não sabia. Aproximou o rosto da orelha dela e ouviu a sua respiração
a alterar-se e a acelerar.

Naquela noite, Florença estava feliz. Nos dois dias anteriores, parecia
que toda a cidade ficara a saber não apenas que Camilla Rossi da Vinci
tinha sido encontrada, mas que fora encontrada viva, que estava bem e
apaixonada. Agora que era viúva, quem precisava dos detalhes? Os
mexericos vagos e tentadores sobre um caso amoroso clandestino eram o
suficiente. Eles eram jovens, bonitos e Florença estava a salvo dos
infiéis.

Porque havia também mais novidades quanto a essa questão. As boas


notícias tinham chegado naquela tarde. Impossivelmente, fazia uma semana
que os seiscentos corajosos Cavaleiros da Ordem de São João tinham
derrotado os 70 000 ou mais turcos em Rodes e hasteado a bandeira da fé
no forte da cidade. Depois de ouvir as notícias, o povo de Florença saiu
para as ruas, dando vivas e batendo no peito ao som dos sinos que
repicavam nas torres das igrejas.

351

Guid'Antonio não era homem para sair para as ruas, mas sorriu até lhe
doer a boca, com o peito inundado por enormes satisfação e surpresa pela
vitória dos Cavaleiros, até ter ouvido que os infiéis tinham entrado em
pânico e fugido como o próprio Príncipe da Trevas, quando uma visão de
Maria e de São João Batista, liderados por uma cruz de ouro e
acompanhados por uma espantosa legião de guerreiros cristãos, apareceu a
pairar no céu por cima das suas cabeças turcas.

Como podiam os Cavaleiros da Ordem de São João perder perante um milagre


destes?

Guid'Antonio fez amor com Maria, lentamente, com uma parte renegada de si
ainda junto de Palla e Lorenzo, durante a confissão de Jacopo Rossi,
naquele dia no Bargello. Até ao último instante, Jacopo não estava
assustado nem fora cauteloso. Ainda assim, não tiveram necessidade de
recorrer ao strappado.

— Porque está ele aqui? — perguntou Jacopo, olhando furiosamente para


Lorenzo.

— Quem faz as perguntas sou eu. — Palla rodeava Jacopo como um gato, com
os olhos negros a brilhar, pronto para lhe saltar em cima.

— E eu dou as respostas. — disse Jacopo. — Sei ver quando fui apanhado.

— Matou Castruccio Senso? — interrogou Palla.

— Sim.

— Porquê?

— Porque o odiava.

— Porquê?

— Ele pagou ao napolitano para raptar a minha filha e para a vender como
escrava. Guid’Antonio e Lorenzo olharam um para o outro. Salvestro
Aboati, claro.

— Porque faria ele uma coisa dessas? Castruccio Senso, quero dizer? —
perguntou Palla.

— Porque ela andava a fornicar com um monge.

— Mas este homem contratado, e sabemos o nome dele, Salvestro Aboati,


levou-a até si, em vez de a colocar num navio estrangeiro qualquer.

— Então porque está a fazer-me perguntas? Se já sabe tudo.

— Porque agiu assim Salvestro Aboati? — inquiriu Palla.

— Salvestro não agiu de acordo com o plano de Castruccio Senso. Ele


vendeu-me a informação a mim. Mudámos os planos de Castruccio. Salvestro
ia raptar Camilla, mas ia entregar-ma em vez de a vender no mercado de
escravos. Depois íamos chantagear Castruccio Senso, ameaçando expor a sua
maldade. Para compor a imagem, determinámos que a égua de Camilla ia ser
solta na cidade de Florença com a sela ensanguentada, para que Castruccio
acreditasse no facto de que Salvestro tinha matado a minha filha.
352

— Odiava-o de facto. Porquê um ódio tão grande?

— Porque ele lhe batia.

— Parece-me ração suficiente. Então, prosseguiu com o seu plano.

— Mais uma vez está certo, Palmieri.

— O que aconteceu a seguir?

— Depois de raptar Camilla, Salvestro e eu fomos a casa de Castruccio


para o chantagear. As coisas azedaram e acabei por lhe meter a cabeça
adentro.

— Já foi lá com intenções de o matar — disse Palla.

Jacopo sorriu amplamente.

- Já.

— Porque deixou lá o tecido? E uma prova que o pode mandar para a forca.

— Foi um acidente.

Guid’Antonio e Lorenzo riram-se. Acidente? Era demasiado louco para ser


credível.

— É verdade! — exclamou Jacopo, ofendido. — Levei-o comigo para provocar


Castruccio. Quando peguei no castiçal, deixei cair o pedaço de tecido,
sem me aperceber disso.

— E o tecido tinha sangue? — perguntou Guid’Antonio.

— Tinha. Queria que ele pensasse que era de Camilla.

— E de quem era?

— De um gato, que matei na rua.

— Não ficou preocupado que Euigi tivesse testemunhado o ataque ao seu


dono?

— Castruccio disse-me que ia vender o rapaz. Pensei que já o tinha feito.


Além de que Luigi não estava ali. Eu procurei.

Guid’Antonio e Lorenzo partilharam mais um olhar fugidio. Agora já sabiam


por que motivo Luigi não revelara às autoridades o terrível segredo de
Jacopo: a criança temia pela senhora que amava acima de qualquer outra
coisa e queria apenas protegê-la. Se dissesse a alguém que Jacopo matara
Castruccio Senso e aquele podia matar Camilla por pura maldade.

— E depois? — continuou Palla.


— Fugimos.

— E quanto ao dinheiro que levou?

— Não queria o dinheiro de Castruccio Senso. Atirei-o ao Amo.

— Onde está Salvestro agora?

— Foi-se embora.

— Foi-se embora para onde? Jacopo sorriu com maldade.

353

— Ele tentou chantagear-me, da mesma forma que planeáramos fazer com


Castruccio. Não podia deixar que isso acontecesse.

— E então?

— Então fiz-lhe uma contraproposta.

A respiração de Maria suavizou-se e acalmou à medida que adormecia. Quase


sem saber o que estava a fazer, Guid'Antonio saiu da cama, vestiu-se e
saiu para a rua. A meia-noite, a Rua de Todos os Santos estava deserta e
sossegada. Caminhou na direção oposta a Todos os Santos, para a Catedral
de Florença. Ao longo do caminho, alguns archotes espalhavam poças de luz
amarela sobre as paredes dos edifícios. Não viu mais ninguém, embora
soubesse que depois do recolher obrigatório, os guardas estavam nos seus
postos, de tantos em tantos quarteirões.

Subiu os degraus da catedral com um passo rápido, exatamente como fizera


pouco mais de dois anos antes, no dia 26 de abril de 1478. Abriu a porta.
O vasto santuário estava deserto e silencioso. Existiria outra escuridão
como aquela, tão tranquila e completa como a que se sentia no Duomo?
Caminhou até ao lugar onde estivera na manhã de Domingo de Páscoa e
espreitou pelo espaço para onde Giuliano estava, separado da congregação,
com o seu mantello de veludo preto com a bainha de seda

escarlate.

Que estranho. Francesco de' Pazzi e Bernardo Bandini estavam com

ele.

Guid’Antonio hesitou, gritou e no instante seguinte deu por si a passar


por entre o aglomerado de pessoas que gritavam assustadas. Sentiu uma
súbita sensação de libertação, estabilizou no chão e ajoelhou-se ao lado
de Giuliano, a chorar. Olharam para os olhos um do outro naquele momento,
surpreendidos e a sorrir? Sim. E depois Giuliano morreu, com Guid’Antonio
a segurá-lo junto ao peito quando deu o seu último suspiro e a sua alma
se elevou em direção ao céu. Guid'Antonio teve aquele último, precioso,
momento com ele. Um momento de amor e mágoa que mais ninguém tivera, e do
qual ninguém sabia.

Agora, olhava em redor, com o coração a saltar-lhe no peito. O que


esperara encontrar ali, naquele lugar vazio e escuro? Algum sinal, um
murmúrio do seu amigo perdido? Alguma sensação de perdão e libertação?

Caiu de joelhos e colocou as mãos no chão de mármore, tão duro e frio ao


toque.

354

— Giuliano, perdoa — disse. — Sentimos muito a tua falta. Aconteceu tanta


coisa neste verão. Nestes últimos dois anos.

Por baixo dos seus dedos, o chão tornou-se tão dúctil e quente como a
carne dos vivos, e alguma coisa lhe roçou o cimo da cabeça. Olhou para
cima. Giuliano pairava junto dele.

— Guid'Antonio — disse, num murmúrio tão débil que ele não sabia se as
palavras vieram dos lábios de Giuliano ou das profundezas da sua alma. —
Florença é o meu coração que pulsa. Naquele tempo e agora. Sempre será,
meu corajoso amigo.

Quase sem se atrever a respirar, Guid'Antonio observou Giuliano a mover-


se em direção à frontaria da igreja e a desaparecer pela porta.
Guid’Antonio foi atrás dele, com os dedos a girarem a maçaneta, os passos
firmes a saírem para a Praça San Giovanni. Viu a pia batismal mesmo em
frente à catedral, do outro lado da praça, intacta e real. Virou-se para
a catedral, olhou para cima, procurando a plataforma de madeira que
contornava a cúpula de tijolo vermelho de Brunelleschi. Numa manhã de
inverno, Guid'Antonio e Giuliano tinham ali estado, a poucos metros do
corrimão de ferro. Tão perto da beira. Demasiado perto para o seu gosto,
pensara Guid’Antonio naquela altura. No seu local de reuniões privado com
vista para a cidade, longe de todos os ouvidos, Giuliano falara de
Lorenzo, o seu amado irmão, e sobre o futuro que lhes estava reservado a
todos.

— Temo que, ao querer ter tudo, Lorenzo acabe por ficar sem nada —
confidenciara-lhe Giuliano naquela manhã de neve, em 1476.

Talvez. Talvez. Que assim fosse.

Agora, sozinho na praça, Guid’Antonio inspirou profundamente. O que


aprendera naquela noite foi que Giuliano de' Medici continuava a cirandar
pelas ruas de Florença. Bem, na verdade já sabia disso, não sabia?
Giuliano ainda se ria com Lorenzo e com os seus companheiros, ainda
cavalgava pela Praça de Santa Cruz, com o seu estandarte erguido para o
mundo ver, ainda entregava violetas à sua Rainha da Beleza, Simonetta
Vespueci. Ainda vivia no rosto do seu filho, Giulio, e no sangue de todos
os seus descendentes. Como Giuliano de' Medici, Lorenzo e Guid’Antonio
estavam por toda a Florença, a maravilhosa, linda cidade que estavam a
criar com as suas mentes, com os corações e com as mãos.

Estariam ali para sempre.

E todos seriam perdoados.

355

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EPÍLOGO

Seis meses depois, janeiro de 1481

A neve brilhante cobria o vale e vestia as colinas campestres com um


imaculado manto branco. Lá no alto, sobre Florença, um homem solitário
estava a cavalo, muito direito na sela, com a Igreja de San Minianto ai
Monte nas suas costas, o corpo envolto num manto, um ponto carmesim
contra a paisagem congelada. Uma brisa fresca agitou-lhe o cabelo preto
raiado de prata e fustigou-lhe o rosto finamente esculpido, não de modo
desagradável, mas com uma força sugestiva das rajadas geladas que o mês
de fevereiro faria voar como lanças afiadas por todo o vale do Arno.
Sozinho na colina, fechou os olhos e viu os dias do inverno ventoso a
passar.

Dentro das muralhas de Florença, as estalactites caíam como punhais e


estilhaçavam-se em mil pedaços sobre as tortuosas pedras das estradas. As
castanhas assavam sobre as brasas, enquanto os jovens, de rostos corados
e a rir, patinavam sobre o Arno congelado. Cesare tirou cobertores extra
das arcas de madeira; o vento frio fazia com que a respiração de Maria e
de Giovanni se visse enquanto caminhavam apressados ao longo da Rua de
Todos os Santos, em direção à igreja, enrolados nos seus mantos forrados
com pelo; passaram pelo Hospital dos Vespucci, onde Francesca Vernacci
andava com a sua capa de tecido branco, simples.

Ele abriu os olhos, pestanejando contra o brilho ofuscante do sol sobre o


gelo. Quem sabia quando voltaria a ver a sua família, agora que ia para
Roma como novo administrador e advogado-geral da República Florentina?

Si, Roma.

357
Guid’Antonio Vespucci, não Lorenzo, não obstante a eterna ânsia do papa
em ver Lorenzo prostrado aos seus pés.

Desta vez, Guid'Antonio viajava sozinho.

Aconteceu assim:

Nos últimos dias de agosto, o calor, sempre sufocante no verão, abatera--


se pesadamente sobre a cidade. As moscas voavam e aterravam em montes de
esterco, cujo aroma cozia na atmosfera escaldante. A noite, a cama que
Guid’Antonio e Maria partilhavam era um emaranhado constante de lençóis
ensopados e impregnados com o perfume pegajoso do amor. No bairro do
Unicórnio, os ânimos exaltavam-se. Os gatos miavam, os cães vadios
ladravam à lua. Ele e Maria, acordados pela noite fora, murmuravam
languidamente sobre as estranhas reviravoltas daquele verão.

Com a partida de Camilla Rossi da Vinci e Martino Leone para França, as


lágrimas da Virgem tinham secado mais uma vez. (Seriam as lágrimas
derramadas pela inocência perdida de Camilla? Ou pela sua própria,
questionava-se Guid’Antonio.) Pouco tempo depois, o quadro de olhos secos
— e por enquanto neutro — tinha regressado à sua igreja original em
Impruneta, onde repousaria num altar até que a próxima seca ou o próximo
festival de uma cidade vizinha precisasse da sua presença.

A Igreja de Todos os Santos tinha ficado ditosamente calma depois da


partida do irmão Martino, embora, numa certa noite, o abade Roberto Ughi
tenha partido um dente ao morder uma moeda de ouro enquanto comia um
refogado de peixe. Isto aconteceu logo depois de um rapazito ter apanhado
o corpo inchado de Salvestro Aboati na rede de pesca que lançava nas
águas do Arno.

Na Via Larga, Lorenzo escreveu uma carta a Angelo Poliziano, convidando-o


a regressar a Florença, agora como professor de Retórica Latina e Grega
no Studio Florentino. Angelo iniciou a sua primeira lição com a famosa
declaração:

— Dizem que o rato fêmea é loucamente lúbrico.

Alguns regressaram a Florença, outros partiram. Em breve, por pedido de


Lorenzo, Sandro Botticelli e Domenico Ghirlandaio partiriam para Roma,
para trabalharem nas paredes da Capela Sistina, assim como outros
pintores. Mas não Leonardo da Vinci. Quem sabia se acabaria o trabalho?

Contra todas as expectativas, o irmão de Luca Landucci, Gostanzo


Landucci, ganhou a final de palio, correndo com o seu Draghetto contra o
Il Gentile de Lorenzo de' Medici.

358
Sem surpresas, o irmão Paolo Dolci continuou em Todos os Santos, fosse
por devoção ou para proteger o pequeno Ferdinando - que regressara à
igreja depois de uma curta ausência — do desagradável abade, Guid’Antonio
não tinha a certeza.

Eram longos e indolentes aqueles dias, quentes e plenos de pequenas


preocupações e de momentos de intensa satisfação. Depois, tudo mudara. Os
sinos das igrejas mal tinham parado de repicar pela vitória dos
Cavaleiros em Rodes quando chegaram a Florença noticias de que 14 000
turcos tinham desembarcado em Otranto, no sul de Itália, e deixado a
pequena vila piscatória de rastos. Os infiéis cortaram o arcebispo e o
governador ao meio, chacinaram 12 000 homens, mulheres e crianças e
escravizaram os restantes habitantes.

Exércitos muçulmanos em solo italiano. Agora, certamente, como Lorenzo


previra, os otomanos iam avançar pelo tornozelo da península italiana,
destruir Nápoles, marchar para norte, para Roma, onde plantariam o
Estandarte Sagrado do Islão no coração do Vaticano. Alimentado pela fúria
e pelo ultraje, Sisto IV apelara para que toda a Itália se unisse perante
aquele inimigo comum e a seguir mandara fundir a sua coleção de pratas
para ajudar a financiar a batalha que se aproximava. Por seu turno, o
príncipe de Nápoles tinha abandonado Siena e corrido para casa, para
defender o seu futuro reino no sul de Itália. Guid’Antonio ficou
surpreendido quando Roma e Nápoles se viraram para Lorenzo, pedindo a sua
ajuda? Não. Não.

Em nome de Lorenzo, o governo florentino concordara com o apoio aos seus


antigos inimigos se Sisto IV levantasse a excomunhão à qual votara
Florença e se o rei Ferrante devolvesse todas as terras que a cidade
perdera para Nápoles logo após a «Conspiração Pazzi». Dadas as
circunstâncias, o que podiam o papa e o rei fazer?

Também não foi surpresa que, em Florença, a populaça tivesse sofrido uma
mudança súbita. Como podiam ter estado tão enganados? Os infiéis não
estavam na Toscana, mas mais para sul — um sinal mais que certo de que
Deus não estava zangado com o seu Lorenzo de' Medici, mas com o rei
Ferrante e com o papa Sisto IV! Mais uma vez, Lorenzo era o seu brilhante
herói, um homem que sabia como reconhecer a sorte quando a encontrava e
segurá-la bem. Mais uma vez — pela primeira vez em trinta anos — a Itália
estava unida, exatamente como Lorenzo prometera a Guid’Antonio.

Sabiamente, Lorenzo não respondeu à insinuação murmurada no Palácio da


Senhoria de que as coisas não podiam ter corrido melhor mesmo que ele
próprio tivesse orquestrado a invasão turca da Itália.

359

Um cardeal roxo-acastanhado brilhou no dedo gelado de uma árvore próxima.


O macho, seguindo a sua companheira, aterrou numa felpuda exibição de
escarlate. A neve caiu no chão. Guid'Antonio deu uma palmada no ombro de
Flora com a mão protegida pela luva. Em novembro, fora um dos doze
embaixadores florentinos que viajara para Roma para se ajoelhar aos pés
do papa e de São Pedro e para receber a absolvição em nome do povo de
Florença pelos pecados que pudessem ter cometido contra a pessoa do papa
e contra o seu gabinete nos dois anos anteriores.

Doze distintos florentinos, no lugar de um Lorenzo de' Medici.

Porém, nessa altura, Guid'Antonio já tinha servido no comité de 240


cidadãos escolhidos a dedo, e com poderes totais para decidir quais as
reformas necessárias a efetuar, para o bem do governo da cidade. Uma
semana depois da sua criação, o comité suspendera a Constituição e abrira
caminho para mudanças extensas na governação florentina.

Um sorriso de esguelha ergueu um dos cantos da boca de Guid’Antonio.


Alguns dissidentes murmuraram frases como «ambições principescas» e «uma
rutura perigosa» quando perceberam que reformar e fortalecer o governo
significava reforçar a posição do círculo Medici com Lorenzo no
epicentro. Mas o que preferiam? Uma outra família qualquer a mandar na
cidade? Alguém imprevisível? Alguém como a família Pa%%i? Na verdade, a
criação da balia passara os conselhos legislativos com a vantagem de
apenas um voto. Guid'Antonio sentiu-se ligeiramente confortado com isso.
A República Florentina continuava a ser um governo de homens que se
recusavam a deixar que a Toscana fosse inteiramente dirigida por um homem
ou uma família. Vestidos com os seus mantos de tecido carmesim
esvoaçante, eles discutiam, acusavam, influenciavam e apresentavam os
seus votos perante Deus e o povo.

Eram muitas as coisas que o confortavam. Em setembro, o eremita que


parecia determinado a assassinar Lorenzo em Poggio a Caiano falhara, que
Deus fosse louvado, mais a Sua infinita misericórdia. Culpado ou não, o
homem morrera depois de ser interrogado: esfolaram-lhe as solas dos pés,
depois queimaram-lhas enquanto os seus carrascos do Bargello as seguravam
sobre o fogo até a gordura derreter. Piero Vespucci, o parente de
Guid’Antonio, teve a sorte de não sofrer igual destino. Em vez disso, por
ordem de Lorenzo, Piero fora libertado da Stinche, e com ele libertada
também uma mancha negra no nome da família Vespucci. Isto acontecera
pouco tempo depois de Guid’Antonio ter prometido que apoiava a balia de
Lorenzo.

360

Depois, no fim de outubro, na Via di Pinti, Bartolomeo Scala, a sua


mulher e as cinco filhas festejaram a chegada em segurança do sexto filho
de Madalena Scala, um rapaz.

Deram-lhe o nome de Giuliano.


Guid'Antonio afagou suavemente o pescoço de Flora, grato pela presença
familiar do robusto animal, e inspirou o ar frio e calmante. Já
gravemente doente, Nastagio Vespucci tinha passado a Amerigo as suas
funções de advogado; em breve, Amerigo ficaria encarregado de todas as
obrigações legais de Nastagio. A pedido de Guid’Antonio, já que Amerigo
não ia para Roma com ele, Lorenzo tomou-o sob o seu serviço. Ótimo. Não
importava para onde Guid’Antonio fosse, ou quanto tempo estivesse
ausente, continuava a ter os seus olhos e ouvidos na Via Larga.

Puxou o manto escarlate para junto do corpo, grato pelo forro grosso de
arminho. Flora relinchou e empinou-se, olhando em redor, agitada. Assim
que Guid’Antonio virasse para a estrada, o sangue ia aquecer-lhe nas
veias e os dedos iam descongelar.

— Shhh, Flora. Só mais um instante.

Atrás dele ouviu um som arrastado e sibilante e virou-se na sela. Um dos


monges de hábito branco de San Miniato estava a abrir um caminho gelado
até ao poço da igreja, com um machado na mão, o seu vulto fantasmagórico
sem forma contra a atmosfera gelada. Deixando grandes pegadas na neve,
uma forma mais escura e acastanhada passou pelo velho religioso e
contornou a igreja em perseguição de quê? De um esquilo, ou de um coelho?
Guid’Antonio instalou-se novamente na sela.

Onde o tinha levado aquele caminho, um homem numa missão pela sua própria
salvação? Olhou através do vale, onde os ciprestes eram esqueletos
forrados com neve e um véu branco cobria a cidade. No coração de
Florença, a catedral erguia-se acima do resto, com o interior de mármore
a reunir o frio contra o peito, enquanto ali perto, em Todos os Santos, o
Santo Agostinho de Sandro Botticelli levantava o semblante envelhecido
para Deus, procurando entender a luz e a escuridão, o compromisso e a
verdade. Guid'Antonio entendia agora que não podia ter defendido
Giuliano, mesmo que fosse capaz de criar asas e voar através do santuário
naquela manhã fria de abril. O que tinha de ser, tinha de ser. Era assim
a vida. Era assim a história. No fim das contas, era um homem cuja cabeça
mandava no coração. Assim fosse.

361

Tocou na bolsa de diplomata que levava por baixo do manto e olhou em


redor, procurando o seu único companheiro naquela nova jornada. Assobiou
levemente e sorriu quando o imponente cane corso italiano apareceu a
correr de trás do mosteiro, cheio de baba, a sorrir, aos pulos na neve, e
depois a abanar vigorosamente o corpo gigante, com os rebites prateados
da sua coleira de couro a brilhar. Mas que cão!

- Vamos, Peritas. Ao contrário de Alexandre, o Grande, duvido de que


venha a conquistar alguma cidade e a nomeá-la em tua honra, mas posso
sempre levar-te para Roma. - Virou Flora na direção da estrada gelada.
Depois, com Peritas ao seu lado e o ar fresco a soprar-lhe o cabelo e as
pregas do manto carmesim para trás, o advogado-geral Guid'Antonio
Vespucci começou o longo caminho para sul, para Roma.

362

«Demasiado conhecimento traz infelicidade.»

De: A Wood of Love II, por Lorenzo de' Medici

363

Página em branco

GUID'ANTONIO

Guid’Antonio Vespucci (1436-1501) era o filho mais velho de Antónia


Ugolini e de Giovanni Vespucci. Quando Guid'Antonio nasceu, os Vespucci
eram uma das famílias mais importantes de Florença, com rendimentos em
propriedades arrendadas, vinhas, olivais, lojas de sedas e de lãs. Como
os filhos de todos os florentinos abastados, Guid’Antonio terá aprendido
Latim, Aritmética e Lógica. Quando era jovem, estudou Direito Civil em
Bolonha e Ferrara, Retórica e Poesia, as duas últimas consideradas
essenciais para a diplomacia do Renascimento. Como profissão, escolheu

ser advogado.

Como Guid'Antonio disse um dia, acreditava na manutenção da ordem legal e


na utilização das capacidades dos cidadãos mais hábeis das cidades. Assim
sendo, desde os primeiros dias da sua carreira, como já havia acontecido
com o pai, apoiou a família Medici na administração privada do governo da
democracia florentina. No início dos seus trinta anos (quando o pai de
Lorenzo, Piero de' Medici, era o governador de facto, ou não oficial, de
Florença) Guid'Antonio serviu como um dos nove lordes magistrados da
República Florentina (a posição mais elevada do Conselho de Estado). A
partir de 1469 (o ano da morte de Piero de' Medici), a ligação próxima de
Guid'Antonio e Lorenzo acompanhou-os durante a ascensão problemática
deste último enquanto príncipe da cidade, até à morte deste, em 1492, aos
quarenta e três anos. Durante esse tempo, Guid'Antonio e Lorenzo
sobreviveram à «Conspiração Pazzi» (1478) e à guerra que se seguiu, com o
primeiro a viajar para Roma, França e novamente para Roma, enquanto
agente diplomático de Florença e de Lorenzo.

365

Quando tinha cerca de trinta e quatro anos, Guid'Antonio casou com a sua
segunda mulher, Maria del Vigna e, conforme registado em O Mistério das
Lágrimas da Virgem, tiveram um filho, Giovanni. De todos os seus
sobrinhos, aquele de quem Guid'Antonio parecia ser mais próximo era
Amerigo Vespucci, que o acompanhou de facto a França, em outubro de 1478,
na qualidade de seu secretário, onde passou quase dois anos com o tio na
corte do rei Luís XI. De regresso a Florença, Amerigo foi trabalhar com
Lorenzo, depois para o primo e anterior tutelado deste, Lorenzino de'
Medici; finalmente, Amerigo zarpou para ocidente, mergulhando nas páginas
da história, enquanto o seu tio Guid'Antonio continuou a trabalhar como
uma das personalidades mais influentes do seu tempo, até à data da sua
morte, na véspera do Natal de 1501.

Juntos, viveram numa era em que os italianos já falavam de


«renascimento», uma era em que prevalecia um espírito novo de renovação,
na vida, na arte e na literatura. Este movimento foi mais evidente em
Florença, uma cidade com cerca de 50 000 almas neste ponto da sua
história. Dentro das muralhas, Guid'Antonio e Amerigo conviveram com os
seus vizinhos Sandro Botticelli, Leonardo da Vinci, Paolo Toscanelli e
tantos outros renascentistas de excecionais qualidades, enquanto no
centro se mantinha o controverso, encantador, e poeta e estadista
talentosamente brilhante, Lorenzo de' Medici... a quem chamavam
simplesmente «O Magnífico».

366

NOTA DA AUTORA

A maior parte das personagens de O Mistério das Lágrimas da Virgem é


real, e a história recuperou alguns eventos importantes das suas vidas. A
26 de abril de 1478 uma conspiração engendrada pelo papa Sisto IV e pelo
seu sobrinho, Girolamo Riario, Francesco de' Pazzi e Bernardo Bandini
resultou no assassinato de Giuliano de' Medici, numa tentativa de livrar
Florença dos seus dois líderes não oficiais. Uma vez que Lorenzo de'
Medici escapou àquele domingo sangrento, a conspiração falhou. Estava
traçado o rumo para a guerra entre Florença e Roma. Giuliano deixou
realmente um filho chamado Giulio, o futuro papa Clemente VIL Giovanni, o
filho de Lorenzo, tornou-se no papa Leão X.
Botticelli acabara realmente o seu Santo Agostinho na Igreja de Todos os
Santos no verão de 1480, quando Guid’Antonio e Amerigo regressaram de
Paris. Quem encomendou o fresco foi Giorgio Vespucci, assim como o túmulo
de Botticelli identificado com o brasão de armas da família Filipepi no
chão da Capela San Pietro d’Alcantara, na parte sul do transepto. A casa
e oficina de Botticelli localizava-se na rua ao lado do Palácio Vespucci
e do Spedale dei Vespucci, o hospital da família Vespucci. O Palácio já
não está intacto, mas o hospital onde Francesca Vernacci teria praticado
medicina continua a existir na Rua de Todos os Santos, perto da igreja. A
Primavera, de Botticelli, assim como outros quadros seus, estão agora na
Ala Botticelli, na Galeria Uffizi, em Florença.

O quadro chamado Virgem Maria de Santa Maria Impruneta está há alguns


séculos na Catedral de S. M. all’Impruneta, na pequena cidade de
Impruneta, perto de Florença.

367

No seu diário (Um Diário Florentino de 1450 a 1516), o boticário Luca


Landucci descreve o quadro e os milagres que ele fez pelo bem das
pessoas. Luca regista, orgulhosamente, como o seu irmão Gostanzo ganhou o
palio, com o seu cavalo chamado Il Draghetto — O Pequeno Dragão —, em
várias ocasiões.

Os leitores familiarizados com a cidade de Florença terão certamente


reparado no facto de eu, por vezes, ter utilizado os nomes atuais dos
edifícios e ruas, enquanto noutras vezes retive os seus nomes
quinhentistas. Hoje em dia, o Palácio Medici é o Palazzo Medici Riccardi;
A Adoração dos Magos de Benozzo Gozzoli está na Capela Medici, disponível
para admiração do público. A esquadra da polícia e cadeia de Palla
Palmieri é hoje chamada de Bargello, nome que usei. Agora um museu
nacional, o Bargello contém esculturas renascentistas florentinas, com
salas dedicadas a Michelangelo, a Andrea del Verrocchio e a muitos outros
artistas.

Para uma introdução à família Medici, os leitores interessados devem


começar pelo The Rise and Fall of the House of Medici, de Christopher
Hilbert. Para a minha pesquisa sobre a família Vespucci, apoiei-me
bastante em Amerigo and the New World, de Germán Arciniegas, e também em
materiais recolhidos dos estudiosos italianos do Renascimento, cujos
trabalhos são inestimáveis para mim.

Quanto ao papel de vilão da altura, Lorenzo de' Medici tinha Girolamo


Riario sob vigilância desde o tempo em que Giuliano fora assassinado em
1478. Em abril de 1488, quase dez anos após o sucedido, o próprio
Girolamo seria assassinado na sua casa em Forli. A viúva, Caterina
Sforza, casou com o tutelado mais novo de Lorenzo, Giovanni de' Medici,
irmão de Lorenzino, que também entra na nossa história. Caterina
continuou depois a enfrentar Cesare Borgia. É esta a Renascença Italiana,
cuja tapeçaria de relações é tão colorida e firmemente urdida que quase
parece desafiar a fé. Quase.

368

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