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1 PERCEPÇÃO DE RISCOS NO TRABALHO

Os riscos envolvidos em uma atividade focalizam a relação entre a probabilidade


e a frequência com que ela pode causar danos durante a sua execução. Esses
riscos possuem efeitos negativos e com alguma gravidade, podem ser
configurados como prejuízos físicos ou materiais durante o cumprimento de um
determinado trabalho.
Comumente vemos as pessoas empregando a palavra risco e perigo como se fossem a
mesma coisa, sendo que existe uma grande diferença entre elas. O perigo é a taxa de
exposição ao risco. Uma forma de exemplificar essa diferença seria um caso, no qual
um eletricista executa uma atividade com a rede elétrica energizada: existe o risco de
eletrocussão acidental, cujo nível de perigo é considerado alto, o mesmo risco estará
presente quando o trabalhador usar luvas e equipamentos de proteção adequados à
classe de tensão, entretanto, o perigo será mínimo.
Junto ao risco acrescenta-se a percepção que é a forma subjetiva de os sentidos
se combinarem para analisar um objeto ou uma situação. Ou seja, apercepção do
risco é a combinação da probabilidade de um evento danoso ocorrer, levando em
consideração a forma como cada indivíduo analisa a situação que esta presenciando.
Segundo Widemann (1993), durante a percepção do risco a pessoa faz uma
interpretação da situação baseando-se em experiências anteriores e nas
consequências futuras da decisão tomada.
Lima (1998) cita que processo de escolher qual atitude tomar durante uma
circunstância adversa não é simples, nem é feito de forma corriqueira ponderando
apenas as vantagens e os inconvenientes de cada decisão. Ele envolve crenças, valores
morais, histórico de vida e a forma de pensar de cada indivíduo.
As tomadas de decisões ou escolhas são tão pessoais que é possível entender o
motivo das discrepâncias existentes em alguns casos, como por exemplo, o fato
de haver um grande número de médicos fumantes mesmo conhecendo tão bem os
males que isso pode causar à sua saúde. Nota-se nesse caso, que não é o domínio da
informação que vai determinar um comportamento seguro ou não, mas que existe
alguma variável particular responsável por estimar as consequências de um evento
danoso.
Os estudos da percepção de risco envolvem várias correntes teóricas distintas,
algumas mais objetivas por julgarem o risco como um estudo quase matemático
da probabilidade e a consequência de tal acontecimento - também conhecida
como “avaliação do risco”; enquanto outras privilegiam os aspectos sociais - essas
avaliam a percepção como a forma do indivíduo perceber o mundo ao seu redor - esse
tipo de visão envolve componentes cognitivos, afetivos e comportamentais.
Guivant (1998) cita em sua obra que foi a partir dos anos 60 que os estudos da
avaliação de risco, baseados em conhecimentos técnicos e perspectivas utilitaristas
passaram a ser analisadas dentro de várias cadeiras do conhecimento como: economia,
toxicologia, epidemiologia, engenharia e demais ciências naturais.
Nessa perspectiva técnica e de conhecimentos científicos, o conceito de risco é
analisado como uma ameaça ou um evento adverso que pode ser calculado
através de estimativas quantitativas do nível de aceitação, ou seja, uma equação entre a
probabilidade de um acontecimento e sua gravidade para a população.
A análise técnica dos riscos, segundo estudos de Guivant (1998), pode ser dividida em
três áreas com grande relevância: estimação, comunicação e administração. A
estimativa dos riscos consiste em caracterizar as fontes de danos, descobrir os
agentes responsáveis por ela, o tempo de duração e com qual frequência ela acontece,
traçar parâmetros relacionando taxa de exposição e as consequências aos indivíduos
expostos. As iniciativas de comunicação de risco têm como função transmitir à
população os dados sobre a magnitude de uma determinada ameaça, para que
haja uma conscientização das pessoas. Esses esclarecimentos são baseados nos
saberes técnicos e têm como principal justificativa desagregar paradigmas entre o
saber tecnológico e o conhecimento empírico da população.
Vinculado a esse conceito encontra-se a “administração de risco” que é o instrumento
responsável por produzir e formular todas as políticas públicas com base em dados
quantificáveis e adquiridos cientificamente através de análises. Os processos decisórios
possuem agora o aval da ciência, o que justificaria qualquer tipo de escolha dos
administradores quanto às medidas ou prioridades a serem tomadas.
Em contrapartida a esse tipo de visão está a ciência social que avalia que todas as
análises feitas pelos técnicos desconsideram os receios e a inconformidade da
população quando questionada sobre algum risco. Qualquer outra forma de
julgamento que não possua base científica que a comprove é recebida pelos
especialistas probabilísticos – que avaliam as ameaças – como infundadas e não
passam de “paranóias de massa”, (Slovic 2002, Lima, 1998, 2005).
A maioria dos estudos de percepção, segundo Lima (1998), tem origem
justamente da diferença de como os “leigos” (os não especialistas ou a população em
geral que não detém conhecimento técnico aprofundado sobre determinado
assunto) e os especialistas avaliam os riscos envolvidos numa situação de perigo.
A resposta para esse questionamento inicial é que quando perguntados sobre uma
determinada atividade ou situação de ameaça há divergência de opiniões:
enquanto os técnicos fazem estimativas com base em dados e cálculos de qual a
possibilidade real de tal fato acontecer, com foco nas causas, o restante da
população centra-se nas possíveis consequências de tal acontecimento.
Lima (1998) cita dois casos onde o resultado da avaliação dos riscos entre os
especialistas e leigos se diferem. O primeiro caso diz respeito à construção de uma
usina nuclear nas proximidades de uma comunidade, os cientistas avaliam a construção
como segura ou de risco extremamente baixo, já a população considera este tipo
de empreendimento como inaceitável. O segundo caso é sobre os riscos sísmicos –
ocorridos em determinada região - que são vistos como grave pelos especialistas, mas
que as pessoas ignoram ao construírem suas casas.
Nota-se que no primeiro caso os riscos são sobrestimados pela população em
comparação à opinião dos técnicos; ao contrário do segundo caso, no qual as ameaças
são subestimadas por aqueles em contrapartida à opinião desses.
Durante o processo de comunicação de risco é de extrema importância conhecer essa
diferenciação entre as duas formas de pensar, pois uma resposta que satisfaz os
especialistas não tem o mesmo efeito sobre os leigos.
Ao longo dos anos esse tipo de avaliação com base apenas em dados estatísticos
foi alvo de crítica de vários pesquisadores que procuraram estudar melhor a forma
que os leigos percebiam as ameaças, pois acreditavam que elas não eram feitas da forma
como os especialistas as descreviam. Mesmo dentro da comunidade cientifica, os
técnicos divergiam de opiniões por acreditarem que a ciência não possuía
conhecimento suficiente nem dados confiáveis que pudessem relacionar a taxa de
exposição de um agente químico e o seu efeito nas pessoas. A dúvida que ficava era
como prescrever o que seria uma dose segura quando se trabalha com a incerteza,
(National Research Council (1996) .
Por volta do ano de 1972 Chauncey Starr lançou um artigo que ficou
mundialmente conhecido como o “método das preferências reveladas” ou do “risco
aceitável”. Com base em estudos econômicos e históricos, Starr determina que a
sociedade é capaz de estipular quais seriam os riscos aceitáveis com a
implantação de uma nova tecnologia. Segundo o autor , um bom indicador do custo de
qualquer nova fonte tecnológica seria o número de vítimas anuais advindas de desastres
causados por sua instalação. Com esse conceito ele dizia ser possível determinar as
preferências da sociedade quanto aos riscos a serem aceitos. O trabalho de Starr
serviu como impulso para o estudo realizado no ano de 1978 pelos psicólogos
Slovic, Fischhoff e Lichesntein do Eugene Decision Research Group no Oregon.
A obra dos pesquisadores ganha destaque dentro da comunidade científica e fica
conhecida por apresentar a teoria de que o público em geral (leigos) não é irracional
nem meramente emocional quando descreve a sua percepção de risco. Segundo os
psicólogos, existe um balanço que se equilibra entre os riscos e os benefícios
quando a população faz uma escolha mediante uma situação adversa.
Contradizendo a avaliação dos cientistas naturalistas, eles afirmam que a forma que
os não especialistas tomam as suas decisões pode ser avaliada. Surge então desse
estudo, o conceito de “risco percebido”, (Lima 1998, 2005).
A metodologia adotada por Slovic e demais colaboradores consistia em pedir para
as pessoas atribuírem notas de como elas percebiam os riscos e os benefícios
relacionados à 30 atividades e tecnologias potencialmente perigosas. O método
empregado por esses psicólogos conseguiu extrair das pessoas, respostas para
questões complicadas e algumas vezes até impossíveis. Slovic (2001) cita um
caso em que era solicitado às pessoas, naquela época, que respondessem qual era
o risco associado ao uso da energia nuclear. O maior espanto veio ao analisar as
respostas que as pessoas emitiam e perceber que elas faziam sentido e
apresentavam um certo padrão de semelhança.
Da análise fatorial das avaliações eles puderam dividir as respostas das pessoas
em duas grandes dimensões que se opõem entre si. O primeiro contrapõe riscos
fatais e incontroláveis com riscos de consequência menos graves e controláveis; o
segundo opõe riscos que a população desconhece, cujos efeitos são a longo prazo e
invisíveis aos riscos que a pessoas possuem mais familiaridade e com efeitos que
podem ser notado s a curto prazo. O primeiro fator também foi chamado de “risco
tecnológico” e o segundo de “gravidade do risco”.
O Quadro 01 exemplifica os parâmetros utilizados na pesquisa.
QUADRO 1 – CARACTERISTICAS QUALITATIVAS DA PERCEPÇÃO DE RISCO
FONTE: SLOVIC 2002
O estudo desenvolvido pelos pesquisadores do Eugene Decision Research Group foi de
grande importância por demonstrar pela primeira vez que realmente era possível
quantificar e prever a percepção dos riscos da população, ele serviu para dar
credibilidade à forma como os cidadãos percebem os riscos e identificar as semelhanças
e diferenças entre vários grupos, (Lima 1998).
Alguns anos mais tarde, o estudo foi reaplicado pelos próprios autores usando a
mesma metodologia, porém, com um número maior de tecnologias, acrescentado
mais 18 dimensões de avaliações. Do resultado do estudo eles puderam concluir
que a estrutura do pensamento das pessoas sobre os riscos poderia ser descrito em
três dimensões:
1. O grau de gravidade do risco.
2. O grau de familiaridade com a ameaça.
3. A extensão da exposição.
Com fatoração dos dados obtidos na nova pesquisa eles descobriram que os
especialistas faziam uma quantificação dos dados, ou seja, analisavam o número de
mortes para determinar o grau de confiabilidade ou segurança na aplicação de uma nova
tecnologia, já os leigos qualificavam as tecnologias quanto ao grau de conhecimento
que eles possuíam sobre ela. Ao emitir suas respostas, avaliavam se o risco era novo, se
a ciência já possuía algum conhecimento sobre ele ou se o mesmo apresentava algum
caráter devastador – se a morte causada por tal agente era assustadora, se existia
alguma forma de controle ou proteção e se o efeito de tal agente poderia ser estendido a
gerações futuras, (Lima, 1995).
A figura 1 exemplifica os parâmetros analisados nas estimativas.
FIGURA 1 – PARÂMETROS ANALISADOS NAS ESTIMATIVAS
FONTE: LIMA (2005)
O estudo mostrou segundo Lima (2005) que os especialistas fazem o mesmo tipo
de análise dos leigos quando precisam emitir o seu parecer sobre um determinado
assunto que vai além dos seus conhecimentos e dos dados estatísticos existentes,
os quais são obrigados a apoiar-se apenas na intuição.
Ambos sobre avaliam os riscos existentes ao emitirem suas respostas.
Esse método de avaliação de riscos, nos quais as pessoas relatam suas opiniões
com base em suas preferências expressas ficou conhecido por “paradigma
psicométrico”, (Slovic 2001). Ele foi reaplicado por todo o mundo e obteve
padrões semelhantes de resposta, o que serviu para confirmar a sua confiabilidade
e dar um respaldo maior à concepção dos riscos feito pelo público em geral.
Foi devido a esses estudos que a opinião dos leigos começou a ser vista como uma
forma particular de cognição, que segundo Lima (2005), só poderia ser compreendida
numa estrutura multidimensional do pensamento, diferente da forma unidimensional
usada pelos especialistas (número de mortes).
Nos ambientes laborais os trabalhadores estão constantemente fazendo escolhas e
decidindo quais procedimentos devem ser tomados no desenvolvimento das suas
tarefas, ainda que haja uma padronização de procedimentos, a escolha de qual
método utilizar e qual parâmetro mensurar nessa decisão cabe ao empregado. Por
isso, quando se trabalha com comunicação de risco é fundamental conhecer as
diferenças existentes entre os leigos e os especialistas, pois as informações que
satisfazem à equipe de engenheiros e técnicos de segurança pode não ser a mesma que
vai sensibilizar o restante dos funcionários, é necessário desagregar as diferenças
para que as informações possam satisfazer a todos.