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Uma Crítica à Cultura Carnofalocêntrica, Mulheres e Animais como Referentes

Ausentes na obra de Derrida e Carol Adams

Neste trabalho, serão tratados os pontos de contato e de afastamento entre o conceito


Derridiano de Carnofalogocentrismo e o de Referente Ausente, presentes respectivamente
nas obras É Preciso Comer Comer Bem e A Política Sexual da Carne da autora Carol
Adams.
Podemos iniciar afirmando que enquanto Carol Adams se dispõe a codificar a Política
Sexual da carne, seus funcionamentos e representações, Derrida cria esse neologismo para
pensar as conexões entre subjetividade, sexismo e o consumo de carne.
A questão animalista não é a principal preocupação nas obras do autor, apesar dos seus
protestos em sentido contrário, como o é na obra de Carol Adams.
Ou nas palavras de Calarco ( Matthew, 2008) :
“ ...a relação mais óbvia entre seu trabalho e o de Derrida diz respeito ao modo como ser
carnívoro é compreendido por vocês dois como essencial à condição de sujeito...o
carnivorismo que reside no centro das idéias clássicas de subjetividade, especialmente na
da subjetividade masculina. No entanto, você expõe esse ponto extensamente ao passo
que Derrida trata dele apenas de modo esquemático e incompleto.
O termo Carnofalogocentrismo de Derrida é uma tentativa de nominar as práticas sociais,
linguísticas e materiais primárias que estão se tornando e devem permanecer um tema
genuíno no Ocidente. Derrida mostra que para ser reconhecida como sujeito pleno, a
pessoa precisa ser carnívora,do sexo masculino e ter um ego autoritário, que fala.
O que A Política Sexual da Carne teve de tão convincente foi exatamente essa mesma
percepção essencial...o consumo da carne não é um fenômeno simples, natural, e na nossa
cultura está irredutivelmente ligada à masculinidade em vários aspectos
materiais,ideológicos e simbólicos.”.
O conceito de Carno que irá unir-se ao de Falo e de Logocentrismo aparecerá pela primeira
vez na obra Eating Well onde critica a pouca importância dada pelo antropocentrismo nas
concepções de subjetividade na cultura ocidental.
O Logocentrismo refere-se aos privilégios e prioridades dadas pela tradição ao racional,
autoconsciente e falante da linguagem predominante.
Derrida tenta, ao falar sobre sexualidade e gênero, demonstrar os links entre logocentrismo
e falocentrismo , o aspecto viril e masculino das instituições e concepções de subjetividade :
fala do Falogocentrismo para devotar a junção desses fenômenos e sugerir que Carno
deveria juntar-se a este conceito para apontar na direção em que este consumo de carne
implica uma dominação masculina e patriarcal que permeia processos de produção e
disseminação ideológicas.
Desde seus estudos no final dos anos 80, o autor fala sobre uma desconstrução da
subjetividade que se baseia na desconstrução crítica do carnofalogocentrismo,
necessitando para tal de uma análise interseccional de três registros da construção da
subjetividade:
• Auto presença - a racionalidade (logos) do autodomínio, razão, discurso e o acesso não
imediato da vida mental interna;
• Masculinidade – o modo como o ideal viril e masculino são infundidos através e
dominantemente na ordem sócio-cultural;
• Carnivorismo - o consumo simbólico e literal de carne, o compromisso com o
antropocentrismo, o hanking hierárquico dos sujeitos humanos sobre os animais não
humanos;

Derrida expõe como o carnivorismo está no coração da noção clássica de subjetividade,


especialmente da subjetividade masculina enquanto Carol Adams faz uma análise feminista
do papel do macho que necessita de uma crítica do carnivorismo.
A autora sugere que o carnofalogocentrismo seja a premissa fundacional da Política Sexual
da Carne enquanto constituindo o sujeito carnofalocêntrico.
Apesar de possuir diversos outros fatores, a Política Sexual da Carne contèm em comum
com o conceito Derridiano a associação de virilidade e consumo de carne, o funcionamento
da estrutura do referente ausente e a sobreposição de mulheres e animais como referentes
ausentes em uma cultura patriarcal.

No ocidente existe uma aproximação muito forte entre o consumo de carne e as noções de
masculinidade. A escolha da comida, bem como dos locais a serem frequentados estão
fomentando o carnivorismo e formando subjetividades. Estas escolhas feitas sobretudo
pelos homens das classes dominantes passam por “steak houses”, clubes de strip tease,
fraternidades e associações de cunho machista e aos altamente incentivados churrascos,
onde na maioria dos casos os homens ocupam o papel de destaque na churrasqueira
enquanto as mulheres preparam os acompanhamentos no interior da casa, nas cozinhas
assumindo um papel secundário ou obscuro.
Na mentalidade carnivorista é assumido que a força provém de se comer o cadáver de
animais enquanto que os alimentos de origem vegetal representariam a passividade, o
tipicamente feminina.

​O Referente Ausente

Por trás do Carno está o referente ausente, os animais são feitos ausentes para a carne
existir. A negação da individualidade de cada ser abatido, tem a função de permitir o
abandono moral desse ser. Neste contexto o sacrifício (termo implícito no carno) contido no
assassinato de animais para consumo de suas partes é parte do projeto de construção de
uma subjetividade carnofalocêntrica.
Mulheres e animais são tratados como referentes ausentes quando em uma sociedade
patriarcal de comedores de carne os animais são feminilizados e sexualizados e as
mulheres são animalizadas.
No trabalho da autora fica explícito quem é consumido enquanto que nos escritos
Derridianos, esta noção é apenas subentendida.
Usualmente as mulheres são visualmente e simbolicamente consumidas e os animais o são
literalmente.
Mulheres e animais são referentes ausentes sobrepostos, uma vez que através da
linguagem entre dominado e dominador, este consome e nega a violência que transforma a
vida em morte e eleva essa experiência em metáfora que é aplicada aos seres vulneráveis
ou de qualquer forma privados de direitos.
Essa estrutura de sobreposição do referente ausente também está na base das construções
culturais onde a objetificação feminina se torna naturalizada e consumível.
Os animais têm sido sexualizados e feminilizados há mais de 35 anos e esta forma brutal de
exposição e exploração vem se apresentando cada vez mais abrangente e explicitamente.
Através do processo de objetificação, vê -se uma sobreposição de imagens culturais de
violência sexual contra as mulheres, a fragmentação e desmembramento da natureza e do
corpo na cultura ocidental.
Este aspecto do trabalho da autora se liga ao conceito derridiano de “limites de oposição
comumente acreditados” onde a oposição homem/mulher/humano/animal são
intensificadas, unindo duas partes do lado negado: o feminino e o animal.
O sujeito do Carnofalogocentrismo é constituído em parte através do poder de objetificação
dos seres vivos vulneráveis fazendo de sujeitos, objetos.
A construção desse sujeito passa pelo consumo ou sacrifício forçado, imposto a outros
seres, negando-lhes suas necessidades e vontades.

​Carnofalogocentrismo como esquema dominante de subjetividade

Derrida se esforça para identificar a tendência metafísica dominante e seus não pensados
substratos na medida em que para o pensador aquela é forjada para elaborar e privilegiar
um certo pensamento (idéia) de presença e identidade entendido mais frequentemente
como sujeito auto presente/autoconsciente e controlado que o aproxima das idéias de
Heidegger.
O autor parte de Heidegger para caracterizar a subjetividade específica que envolve a
dimensão do humano masculino e carnívoro, apesar de este não ser o foco do pensador
tampouco de seus seguidores, trazendo para o debate não só o aspecto falocêntrico da
noção metafísica da subjetividade senão que também a tendência antropocêntrica e
carnívora dessas tradições.
Apesar de suas observações sobre o carnofalogocentrismo não serem programadas, ele
mesmo assim pretende capturar a estrutura profunda do “esquema dominante de
subjetividade” na metafísica ocidental.
Diante dessa proposta, como aprimorá-la e expandi-la para que possa efetivamente
contribuir para o desenvolvimento de uma filosofia crítica animalista?
Qual a implicação crítica e transformativa de descobrir o Carno como esquema da
metafísica dominante no ocidente?
Como relacioná-la às outras análises críticas no ocidente que diferem do seu foco e
estratégia?
Ao posicionar-se na configuração Neo-Heidggeriana da busca por esquemas dominantes,
dos limites definitivos da metafísica, etc...Derrida acaba por cortar fora os links com outras
abordagens, sua análise permanece no fundo, completamente intra-filosófico e
intra-teorérico sem criar aliança entre as práticas críticas e radicais.
No entanto é possível usar seus conceitos para criar conexões onde não existia?
Para Carol Adams e Matthew Calarco isso é mais importante do que se o conceito de Carno
captura apuradamente o esquema metafísico dominante.
Eles sugerem que a crítica ao antropocentrismo atualmente requer mais trabalho filosófico,
crítico e político do que o conceito de Carno.
As questões indigenistas e dos animais por exemplo não estão sempre ligadas e parece ser
essencial que as teorias animalistas e ativistas discutam estas diferenças mais
apuradamente, de forma interconectada.
A teoria analítica animalista tem servido para chamar a atenção para a singularidade da
vida dos animais e para as inúmeras formas de violência que os causamos, no entanto
pouca atenção é dada às conexões onde reside a suposta força transformadora do
formalmente estabelecido e sobre as semelhanças abstratas entre os pacientes morais e à
uma preocupação com a justiça impessoal.
A aproximação do trabalho de Carol Adams com o conceito de “face do outro” em The
Animal That Therefore I’m , reside no encontro com a vulnerabilidade essencial do outro,
com o concreto singular, insubstituível Outro ao tomar consciência da evidência oculta do
meu eu egoístico, da irrefletida existência que isto enseja.
Derrida pode ser lido em seu trabalho sobre a questão animal como um retrabalho da lógica
Levisiana não apenas no que diz respeito às relações inter- humanas senão que
expandindo-a à crítica dos dogmas antro e andropocêntricos fazendo-nos refletir sobre suas
vidas e mortes, usos e sofrimentos. Todas essas questões esquecidas na filosofia e
metafísica tradicional sobre as noções de animal e animalidade ficam evidentes nas formas
em que a individualidade animal é reduzida ao referente ausente nos discursos filosóficos.

​A Iterabilidade do Sujeito Carnofalocêntico

Conceito entendido como uma repetição auto conservadora, refundante do gesto inicial,
repetição do ato performativo de instauração para cumprir a função de manutenção da
ordem vigente, para que seu significado possa perpertuar-se fora do contexto originário.
O ponto de contato, nesse sentido, entre os autores estudados dá-se ao nível da natureza
performativa da subjetividade onde o sujeito carnofalocêntrico tido como ideal atualiza-se
nos sujeitos individuais e deve ser repetidamente promulgada e alinhada com o ideal
conceitual-discriminativo-institucional que invoca.
Para que a estabilidade seja mantida é necessário sempre inovar e reforçar a identidade e
pressionar aquilo que poderia desvendar ou desafiar sua dominação.
Existem sempre novas maneiras de reforçar a virilidade carnivorista para as quais devemos
estar atentos, no entanto o próprio fato de precisar ser constantemente reiterado significa
que é instável, estruturalmente aberto, o que propicia a possibilidade de ser desafiado e
contestado.
Como a identidade masculina é instável, o “cartão do homem” necessita sempre de
renovação, preenchimento e restabelecimento. A carne diz o que é viril e superior aos
demais Outros.
Mesmo homens veganos aceitam a cultura da política sexual da carne. Os “Hegans” ,
junção de He (ele) mais Vegans quer passar a noção de que não são fracos por optarem
por uma alimentação baseada em vegetais. São “Plant Strongs”!
Ao invés de sair da fissura provocada e sugerir que o veganismo liberta o gênero binário,
esses veganos parecem querer que o veganismo se encaixe em um projeto
humanista/machista oferecendo a garantia de que você não mudará radicalmente ao
tornar-se vegano, não se tornará feminilizado, o que seria uma resposta conservadora à
ameaça do carnofalogocentrismo para o projeto proposto pelo veganismo. Estão dessa
forma reafirmando o falocentrismo inerente à cultura ocidental, como defendido por Derrida.
É necessário rastrear as várias formas antiquadas pelas quais o tópico perpetua as velhas
formas de exclusão.
Um dos aspectos recentes das reiterações da cultura da carne é que ela está fermentando,
unindo-se malignamente com a misoginia que apregoa que a mulher deseja ser arrebatada
e consumida, naturalizando ainda mais este discurso de ódio e violência.

​A Lógica do Logocentrismo

Privilégios e prioridades concedidos pela filosofia ocidental ao racional, autoconsciente, auto


presente e sujeito de fala, caracterizam a lógica do logocentrismo que permanece em
certos tipos de discurso dos direitos animais e políticos e produz uma contradição ao
reforçar os conceitos de direitos e de humano que procuram derrubar.
A função do referente ausente deve ser deixada de fora principalmente quando encarado o
prato sobre a mesa. As palavras e a carne devem ser mantidas em separado.
Carol Adams defende que os vegetarianos devem aprender como parar a conversa ao
serem provocados ou questionados, devem rejeitar ser o sujeito da fala nessas
circunstâncias, recusar a aderirem nesse nível. Nesse ponto discorda da posição de crença
dos ativistas e das boas intenções de defensores veganos que militam que sempre
devemos responder às perguntas, em qualquer circunstância e afirma “ a inteiração
logocêntrica que perpassa o discurso, as palavras, são a melhor maneira pela qual os
carnistas defendem seu estilo de vida” .
Aponta ainda para algumas presunções veganas;
• As pessoas mudam;
• Um debate tem uma hierarquia e seu objetivo deve estar no topo;
• Se tivermos o discurso certo, certamente prevaleceremos;
• Nós devemos ser a voz dos animais;
• Provar para si mesmos que são os melhores ou então estarão traindo os que não podem
defender-se.

Os filósofos analíticos reiteram a visão logocêntrica do mundo ao presumirem e validarem o


mesmo tipo de sujeito que tem o controle e é mais razoável.
O movimento pelos direitos animais é um movimento modernista em um tempo pós
moderno porque parte de uma aproximação legalista e moralista em relação aos animais.
Na lógica logocêntrica os animais que podem comunicar-se conosco são mais valorizados
do que aqueles que que não podem, daqueles que hipoteticamente estão mais longe de nós
na escala evolutiva ou que nos são esteticamente desagradáveis . Os animais
considerados superiores (antropomorfizados) em inteligência são os que devem possuir
status moral.
Repensar a maneira como se relaciona e está relacionado outros animais, com o ambiente,
incluindo a si mesmo é tarefa urgente.
​ O Poder do Falocentrismo

A filosofia tradicional que pretende falar em nome dos animais e o ativismo preferem o
racional, a razoável voz de fala masculina, criando um repúdio aos assuntos e a fala
feminina.
Querem remover o carno, mas deixam o objeto falocêntrico intocado.
A história da denegação da voz das ativistas e pensadoras femininas ao longo da história
da defesa dos direitos animais é notória e mais ainda, que o ativismo animal não somente
privilegia o discurso masculino, como ativamente renega o sujeito do discurso feminino.
Relegam a imagem das ativistas àquela de velhas senhoras sem nenhum outro afazer e
com tempo e em uma etapa da vida onde já é possível preocupar-se com assuntos menos
importantes após terem cumprido sua etapa nos cuidados domésticos e criação dos filhos.
Mesmo quando tentam rechaçar essa imagem, ao proclamar a modernidade dos
comportamentos e ideais, parecem envergonhar-se do fato de serem mulheres e ainda mais
se forem velhas, aceitando que estão falando para a subjetividade dominante do ocidente, o
sujeito carnofalocêntrico, assumindo que esta subjetividade tem resistência em ouvir as
velhas mulheres, que precisam aceitar as limitações impostas por essa subjetividade.
Reiterando a racionalidade contra o estereótipo da emotividade identificada ao corpo
feminino, reafirmando a crença que o Carno deve ser extirpado do sujeito
carnofalogocêntrico enquanto deixa o sujeito falocêntrico intacto.
Campanhas pelos direitos animais onde mulheres ficam nuas ou seminuas são um exemplo
concreto desse fato, onde agradando e convencendo à maioria dos “consumidores” homens
heterossexuais acreditam contribuir para a causa.
As formas mais privilegiadas de ativismo continuam sendo aquelas baseadas no
racionalismo que acredita no poder dos argumentos e da legislação. As mulheres podem
certamente acessar esse espaço privilegiado desde que renunciem a todos os traços,
estratégias e considerações não logocêntricas.
Apesar disso, é comprovado que as mulheres tanto jovens quanto velhas estão em maior
número e estão entre as mais inventivas e notáveis ativistas no círculo de defesa animal e
em outros que lutam por justiça social, seja na ética ambiental, políticas queer e indígena,
empreendendo um avanço sem precedentes nas lutas e táticas que se afastam da lógica
carno, logo e falocêntrica.