Você está na página 1de 3

As águas de Almofala

Desde remotos tempos que a água tece uma entranhada relação com a história de almofala.
Desde fontes milagrosas, que curam os males do corpo e do coração, até fontes traiçoeiras
que fazem crescer barba às mulheres, todas têm um pequeno papel na construção de uma
história vivida e imaginada.

1. A fonte Santa

A fonte santa fica em Vale de Laxara. Reza a lenda que, havendo uma cidade de mouros em
Almofala, era filha do chefe desses mouros a bela Salúquia, a quem todos amavam e
respeitavam. Sendo a terra conquistada pelos cristãos, a Bela Salúquia foi então raptada, não
só como forma de enfraquecer o coração do pobre pai mouro, mas também motivado pelo
desejo que causava em todos os homens, de todas as religiões. Durante a fuga, amaldiçoou ela
o seu raptor, mas sabendo já que também ela estava perdida de amor por ele.
Inevitavelmente, ou mouros alcançaram os cristãos e o confronto foi inevitável. Foi ferido o
jovem comandante, que a custo chegou com Salúquia a uma pequenina fonte, onde
desmontou do seu cavalo e quase tombou para a terra fria.

Salúquia, vendo o sofrimento do seu amado, chegou-se a ele e com a meiguice dos gestos que
as palavras nunca traduzem, foi-lhe lavando as feridas que iam sarando. E assim, uma por uma,
todas as mazelas, incluindo as de um coração sem amor, foram curadas e nasceu o amor entre
uma bela moira e um feroz conquistador cristão.

2. A fonte Finados

A fonte Finados fica no Monte, com vista sobre Santo André. É uma pequenina fonte que já
não corre, mas onde antigamente também se lavava.

O casarão da Torre era na altura domínio de um poderoso e amado senhor cristão, que
governava as suas terras e os seus súbditos com muita justiça e compaixão. Vivia feliz com a
sua mulher, sem filhos, que Nosso Senhor ainda o não tinha concedido…

Andando certo dia à caça, foi para os lados do monte com o seu criado e o seu fiel cão. De
repente, vindos de Santo André, vieram os mouros e mataram o Senhor, que bebia a fresca
água da fonte finados. O criado, que estava um pouco distanciado, conseguiu fugir para casa,
para alertar a todos o que se passara com o senhor e que os mouros estavam a caminho.

Mas tarde demais – mesmo atrás vinham já os guerreiros muçulmanos, prontos a tomar
aquelas terras como suas.
A pobre viúva, não aguentando com o desgosto, subiu à mais alta janela da torre e dali se
atirou, para acabar com a sua vida.

Mas não quis a providência divina que a sua história acabasse no pó frio do chão. Vindo
ninguém sabe de onde, apareceu um cavalo alado que interceptou a dama na queda e a levou
pelos ares, libertando-a do destino cruel da morte.

3. A Cipriana

A Cipriana é uma modesta fonte de mergulho, com água fresca o ano inteiro. Mas não se
enganem que a sua fama já navegou para outros continentes, arrancando suspiros aos jovens
soldados no Ultramar.

Durante a Guerra Colonial, os jovens de Almofala foram, como a grande maioria dos
portugueses, mobilizados para o conflito nas antigas colónias portuguesas.

Para entreter o tempo e distrair da realidade de uma guerra que não entendiam, contavam-se
histórias. E uma das histórias que se contava era a da bela Cipriana, sempre irmã ou prima de
alguém, prendada, habilidosa, casta e reservada. Solteira ainda, pasme-se!, com tais atributos.
Um partidão, por assim dizer.

E começou a Cipriana, a modesta Cipriana, a receber apaixonadas e fogosas cartas de amor


desses rapazes, inocentes, apaixonados pelo calor de uma mulher que na verdade ostentava a
frescura de uma fonte.

Para além da Cipriana, também a Sentinela e a Pateira recebiam cartas de amor, escritas na
escuridão de uma guerra. Mas fosse pela preferência do narrador, fosse pela doçura do nome,
era a Cipriana a favorita entre os jovens soldados.

E era toda uma gargalhada em Almofala quando o correio anunciava a plenos pulmões entre o
povo que esperava novas dos seus – Carta para a Cipriana!

4.

A madrugada do S. João é sem dúvida a mais misteriosa de todas. Para além de ter de se beber
água de sete fontes, era nesta madrugada que as moiras encantadas saiam dos seus
esconderijos e se dirigiam às fontes para lavar os seus panos. Muitas são as lendas nas quais as
moiras são avistadas a lavar.

A barragem

O rio
A água da tinaria

A água canalizada

A galuchinha

Trago a bilha no regaço

Inclinada junto ao seio

Os rapazes quando passo

Dizem sempre um galanteio

Quem me dera além dos montes

Com os pastores, com os seus gados

E na aldeia os despeitados

Já chamam à minha fonte

A fonte dos namorados

Canção cantada nas récitas, em Almofala