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REVISTA DO CFCH • Universidade Federal do Rio de Janeiro

ISSN 2177-9325 • www.cfch.ufrj.br


Edição Especial JICTAC • agosto/2014

Diálogos entre Gestalt-terapia e dança: corpo, expressão e sentido

Carla do Eirado Silva carlaeirado@gmail.com 11º período


Instituto de Psicologia

Cintia Siqueira de Oliveira cintia_imjc@hotmail.com 10º período


EEFD Bacharelado em dança

Orientadora: Mônica Botelho Alvim - CFCH – Instituto de Psicologia


Pesquisa: “Gestalt-terapia, fenomenologia e arte: diálogos interdisciplinares em torno
do corpo e do sentido”

Introdução

O presente trabalho busca promover uma aproximação teórica entre as teorias


Fundamento da Dança e a Gestalt-terapia, em torno da temática do corpo. Inserido no
projeto de pesquisa em epígrafe e no projeto de extensão Expressão e Transformação,
articula teoria e prática na investigação interdisciplinar da temática do corpo. O projeto
Expressão e Transformação, realizado em parceria com o curso de Dança com
adolescentes da comunidade da Mangueira, oferece um espaço de experimentação
artística possibilitando o trabalho com a corporeidade, a expressão e os processos de
subjetivação.
Buscamos oferecer um trabalho no qual os saberes da dança e da psicologia se
unem visando à experiência expressiva e transformadora dos jovens e o
redescobrimento pleno de seus corpos como uma fonte de vida e existência. Procuramos
compreender e pesquisar como é ser adolescente na comunidade, conhecendo suas
experiências vividas naquele contexto sociocultural e político e investigar o fenômeno
transformador decorrente dessa experiência.
Um trabalho interdisciplinar parte do paradigma da complexidade, procurando
explorar a experiência do homem em sua totalidade sem fragmentá-lo nem simplificá-lo
em prol da construção de teorias. Acreditamos que é por meio do coletivo que há uma
co-construção dos saberes e sentidos de si, do outro e do mundo.
No projeto, uma equipe de alunos e professores de psicologia e dança trabalhou
com os adolescentes propondo experimentações artísticas diversas e oficinas de dança

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como dispositivos de produção cultural que convidavam a novos olhares e apontavam


para a construção de novas narrativas, afetando seus processos de subjetivação.
Este trabalho tem como eixo central refletir acerca dos encontros e desencontros
teóricos entre a dança e a psicologia. Nosso ponto central de articulação é o corpo, que
no projeto é abordado a partir do referencial de MERLEAU-PONTY (2012), da Gestalt-
terapia e da Teoria dos Fundamentos da Dança, de Helenita Sá Earp, fundadora do curso
de dança da UFRJ.

Dança, corpo e expressão

A teoria da Dança é estruturada a partir dos estudos da professora Emérita


Helenita Sá Earp. De acordo com MEYER (2012) a Teoria Fundamentos da Dança
(TFD) vai além de uma metodologia prática de ensino, seus fundamentos acerca das
ações corporais são integrados com pensamentos filosóficos e outras linguagens
artísticas. Ela se estrutura de maneira a ampliar as potencialidades individuais
integrando o sujeito em seus múltiplos aspectos (físicos, mentais, emocionais etc.). Earp
concebe o humano como "homem tridimensional", uma totalidade composta pelas
dimensões física, mental e emocional. Entretanto, essas dimensões nem sempre estão
presentes na experiência de modo equilibrado. Alem do aspecto físico do corpo, é
fundamental que o mental e o emocional estejam integrados, para que haja consciência
corporal.
Uma parte da TFD dedica-se a investigar os cinco parâmetros da dança a partir
dos quais Earp busca proporcionar uma maior compreensão dessa complexidade da
corporeidade humana. Assim temos os parâmetros movimento, espaço, forma, dinâmica
e tempo, condições que atuam simultaneamente em todos os corpos.
Os movimentos são realizados naturalmente pelas articulações do corpo (flexão,
extensão, rotação). Estes podem se dar de maneira isolada ou combinada. Cada corpo
possui uma forma própria, estabelecendo uma relação entre a pessoa e o meio. Esta
forma pode ser construída de diversas maneiras, mas para que ela seja organizada
depende de outro parâmetro que é o espaço. O espaço pertence ao movimento e à forma
do mesmo modo que estes precisam do espaço para se materializar. Ambas as relações
interferem, gerando algo novo. A dinâmica trata da manipulação da energia aplicada em

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certo movimento, abrangendo a força aplicada no músculo para realizar um movimento


e a intenção do mesmo.
Assim como o indivíduo possui uma forma característica, ele também possui um
ritmo. O universo está em constante movimento. Ao estudar o parâmetro tempo,
conciliamos este ritmo individual com um ritmo externo que pode ser dado por uma
música. É como um ciclo, um constante pulsar.
A capacidade de permear todos estes parâmetros compreendendo que eles estão
sempre entrelaçados faz com que o dançarino os utilize como recursos para aprimorar o
seu trabalho enquanto intérprete e a sua relação com o que está ao seu redor. Estar
consciente de algo é saber o que se precisa fazer e onde deseja chegar, mesmo sem
saber o “resultado” sabe-se o caminho a trilhar. É afetar e se deixar ser afetado por este
caminho, sendo constantemente transformado. O homem é capaz de aprofundar a
consciência de sua corporeidade, ampliando uma conexão entre ele mesmo e o universo
do qual faz parte.

Gestalt-terapia, corpo, contato e awareness

A Gestalt-terapia é uma clínica que preconiza a experiência corporal na


produção de sentidos. Apoiada em conceitos filosóficos e estéticos, busca refazer os
significados da existência a partir da experiência no mundo, que pode ser compreendida
como experiência estética. De acordo com ALVIM (2006) a experiência estética é o
movimento do sujeito em direção ao objeto, tornando-o estético. O que significa recriá-
lo e resituá-lo no plano de sua experiência, tornando-o significativo para a consciência.
O sujeito não detém um corpo, mas é corpo, comprometido e dirigido para a situação
presente, podendo ser afetado e viver uma experiência estética. A Gestalt-terapia
preconiza a forma, o como a experiência acontece no encontro do sujeito com o mundo
que habita e com o outro diferente (PERLS, HEFFERLINE E GOODMAN,1997).
Diante da diferença do outro, nos descentramos, há um desequilíbrio que exige
um movimento para restaurar a integração: a ação criativa, expressão, gesto motor
(corporal) e espontâneo guiado pela awareness, um tipo de consciência não-reflexiva,
um saber da experiência que se dá sempre na interação com o outro.

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Assim a existência é plasticidade, movimento e a neurose considerada fixação


da forma corporal. A Gestalt-terapia visa resgatar a corporeidade, o fluxo de awareness,
restaurando a capacidade corporal de criar e transformar em oposição a um corpo-objeto
que reproduz o que já está dado. O nosso trabalho clínico tem como finalidade ampliar a
percepção de si e do outro na interação, visando um movimento expressivo e
transformador; transformação de uma ação automática e dessensibilizada frente ao
mundo em movimento e ação criadora, nutritiva e significativa. É por meio da ação
expressiva e espontânea que brota da experiência que se abrem as possibilidades para a
ressignificação da existência.
Do ponto de vista da práxis nos apoiamos na metodologia da Experiment-ação
(ALVIM E RIBEIRO, 2009), buscando promover, a partir da arte, um acordar do corpo,
abertura, resgatando a capacidade de produzir novos sentidos.
Descreveremos a seguir alguns exemplos de vivências realizadas com o grupo de
adolescentes. 1) Espaços Mundanos – Esta atividade consistia em dois momentos.
Primeiro os adolescentes enumeravam os principais lugares, sentimentos e
pessoas/personagens participantes de sua vida cotidiana. Depois dividimos com fita
crepe o espaço da sala em quadrados representando, cada qual, um lugar do seu
cotidiano. Alguns quadrados eram destacados com os nomes dos lugares mais
apontados por eles anteriormente (casa, shopping, escola, baile) e outros permaneciam
em branco. Os quadrados em branco poderiam ser qualquer lugar que quisessem
inventar. Assim, eles deveriam se comportar como se estivessem neste lugar.
Trabalhamos a delimitação do espaço, movimento de avanço e a concentração para
reproduzir este lugar. Nesse exercício eles puderam trabalhar a sua consciência corporal
na medida em que iam se dando conta de como estavam seus corpos em cada situação
cotidiana de uma forma que nunca ainda haviam se apercebido. 2) Molduras do corpo –
Usamos molduras de quadro vazadas para que os jovens tivessem a liberdade de
“emoldurar” a parte que quisessem movimentar. Esta parte ficava em evidência tendo
relação com a corporeidade e a singularidade de cada um. Os adolescentes puderam
refletir sobre sua maneira usual de entrar em contato com as coisas, os outros e o
mundo. No início eles emolduravam predominantemente a face como única região de
contato, mais adiante percebiam outras partes de seus corpos possíveis de se
relacionar.

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Pudemos assim concluir que a partir da prática interdisciplinar pudemos


construir uma integração tanto teórica quanto prática. De perspectivas distintas, ou seja,
uma dança que busca consciência corporal e uma psicologia que busca ampliar e liberar
o fluxo de awareness, fomos caminhando para um trabalho teórico-prático integrado.
Falávamos a mesma língua com sotaques diferentes.
A cada ensaio com os adolescentes percebia-se que, à medida que eles iam se
apropriando do sentido dos movimentos que estavam produzindo e ensaiando, seus
corpos adquiriam “consciência” e seu movimento refletia uma maior capacidade de
awareness. O movimento era mais eles e eles eram mais os movimentos. Eles e os
movimentos eram um unitário de significações, de experiências. O movimento era
figura em seus corpos e os gestos não deixavam dúvidas sobre seu próprio sentido, seu
lugar, seu propósito. Isso é awareness. Isso é ter corpo, presença. Expressão e
possibilidade de transformação.

Referências bibliográficas

MEYER, A. Dança e Ciência: estudo acerca de Processos de Roteirização e Montagem


Coreográfica baseados em Formas e Padrões de Organização Biológicos a partir
dos Fundamentos da Dança de Helenita Sá Earp. 2012, 151 f. Tese (Doutorado em
Dança) - Instituto de Bioquímica Médica, Universidade Federal do Rio de Janeiro,
Rio de Janeiro. 2012.
ALVIM, M. B. Experience esthétique et corporeité. In Jean-Marie Robine (Org.). La
psychothérapie comme esthétique. Bordeaux: LÉxprimerie, 2006, p.43-54.
ALVIM, M. B. ; RIBEIRO, J. P. O lugar da experiment-ação no trabalho clinico da
gestalt-terapia. Estudos e Pesquisas em Psicologia (Online), v. 9, p. 36-57, 2009.
MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da Percepção. São Paulo: Martins Fontes,
2011.
PERLS, F.; HEFFERLINE, R.; GOODMAN, P. Gestalt Terapia. São Paulo: Summus,
1997.