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SÃO

DOMINGOS SÁVIO

2 TER�SIO BOSCO

COLECÃO BIOGRAFIAS

�Pauio'·

EDITORIAL DOM BOSCO


N°50V -

SÃO PAULO
"Sun Domenico Savio“. edição original nos unimos da Editora L,D. C. —
“run-mmm (Itália).
Tradução do P, Futuro Sªnta Cum-inn, nos cuidados dl Edital-[:| Dun
Bosco, São Paulo.

Visto: 8. Paulº, XI.-84974: P. J. F. Strinm, SDB.


Pode imprimir.“: 8. Paulo, 2245-1974: Dom B. de U. Vieira, V. Gel-ul.
Todos os direitos
m.
muco i Edltorlll Bom
Buadle,7M—C.P.N.m—0lmSiohllloSP—anll
1974.

Fºn: i'm-1211 (PAEX)


1. Capricho um tanto estranho
Tardinha. Carlos Sávio hoje não ferrou cava—
los. Desceu também ao vale e trabalhou pesado
com a enxada as terras queimadas e duras. É pre-
ciso semear quanto antes, porque os poucos cava-
los da povoação de Murialdo não bastam para
proporcionar trabalho ao ferrador que já deixou
Riva de Chieri em busca de mais serviço.
Volta cansado, o rosto rugosa banhado de
suor.
O trabalho é ingrato, a miséria bate à porta.
O pequeno estado do Piemonte alicia jovens e
acumula dinheiro para as próximas guerras: está
a vista o glorioso 1848. Mas nos campos de Mu-
rialdo não se colhe a glória: o pão escasseia, os
impostos são por demais pesados.
Tais são os pensamentos de Carlos Savio, ao
retornar a noitinha, fisionomia triste.
Agora, porém, se lhe abre o rosto num sorriso:
na curva do caminho aguarda-o seu filho Domin-
gos.
Ei-lo. Com um grito agudo precipita-se ao en-
contro, toma-o pela mão, tenta segurar a enxada, e
acaba carregado ao colo. Pai e filho vão ter com
mamãe Brígida, que já. preparou a mesa e os espe-
ra “a porta. E assim todas as tardes, quando o pai
5
Carlos regressa do campo ou da oficina (se assim
pode chamar-se o galpão do ferrador).
Lembra as palavras tantas vezes ouvidas, e
que parece quase impossível haverem brotado nos
lábios de uma criança de seis anos: ”Querido pai,
como está cansado! Não é verdade? O sr. trabalha
para mim e eu só lhe sei dar desgostos; mas pedirei
a Deus que lhe dê saúde e me faça bom".
Desgostos. . Alguma vez Domingos deu-lhe
.

desgostos? Carlos Sávio não consegue lembrar um


que seja. Já na cozinha Domingos toma. uma cadei-
ra, leva—a ao pai, cavalga-lhe os joelhos. Dentro de
pouco, na mesa, será o primeiro a. levar a mão a
fronte para o sinal da cruz e a oração.
Carlos Sávio recorda como um dia Domingos
armou uma, que na hora pareceu de fato tremen-
da. Viera um senhor almoçar em sua casa, e con-
versando sentara—se e pusera-se sem mais a comer.
Domingos levantou-se, tomou a tigela e foi comer
num canto da sala. Na ocasião o pai deixara cor-
rer o barco, mas assim que a visita saiu havia—lhe
pedido explicações. E Domingos, na linguagem
gramatical de seus poucos anos, respondem: “Mas
esse homem não é um cristão que não faz o sinal da
cruz antes de comer e então não está certo que a
gente fique junto com ele". Era o único capricho
que Carlos Sávio lembrava de seu filho Domingos.
Capricho um tanto estranho.

2, Um amigo de roupa preta

0 capelão de Murialdo chamava-se P. João


Zucca (abóbora). O nome é esse mesmo, mas seu
portador era um ótimo sacerdote.
6
Logo ao chegar a Murialdo como capelão pelo
ano de 1847, ficara vivamente impressionado com
a família Sávio.
Carlos Sávio, o pai, era um homem honesto
a mais não poder, e sua mulher, Brígida Gaiato.
um anjo,
Procedíam de Mondônio. Haviam vivido algum
tempo em Riva de Chieri, onde em 1842 nascera
Domingos. Depois, constrangidos por uma grande
pobreza, tinham vindo para Murialdo.
O pai não sabia ler nem escrever, mas traba-
lhava bem como ferrador, e melhorava as parcas
entradas trabalhando como camponês.
Mamãe Brígida era costureira e dona de casa.
Era mulher simples, mas trabalhadora e delicada
que ensinava os filhos a trabalhar e a rezar.
O capelão vira muitas vezes Domingos vir à
igreja com a mãozinha escondida na mão de seu
pai. Talvez nunca houvesse falado com ele. Mas
numa manhã de inverno de 1847 tomaram-se ami
gos.
O P. João chegava a igreja enrolado no tabelª-
do para dizer a primeira Missa. Com o frio que
fazia, perguntava-se a si mesmo se haveria gente
para a Missa naquela manhã. De longe avista, nos
degraus da entrada, um como pequeno embrulho.
Aproximou-se mais. Era um menino, de cabeça
apoiada a porta: rezava. Era Domingos Sávio. O
bom padre ficou pasmado:
— Que faz aqui, Domingos?
O menino estremeceu. Estava todo transido
de frio.
— Estou esperando a Missa começar — disse.
7
— Entra, entra, está fazendo frio. Vamos pre-
parar o altar.
Nesse ano Domingos (tinha cinco anos! ) apren-
deu a ajudar a Missa de seu capelão. Erguia-se na
ponta dos pés para transportar o enorme livro ao
altar. Fazia questão de fazê-lo pessoalmente por-«
que continha a palavra de Deus.
O P. João e Domingos tomaram-se amigos.
Quando se encontravam pelo caminho, Domingos
corria-lhe ao encontro. Repetidas vezes o P. João
o encontrou bem de manhãzinha à porta da. igreja,
esperando a Missa. “Alguma vez — escreve o cape-
lão — o chão estava. coberto de barro, ou então
caía a neve ou a chuva".
Em sua caderneta de apontamentos o P. João
escreveu na linguagem um tanto floreada da épo-
ca: “Eis um rapazinho de ótimas esperanças. Quei-
ra Deus se lhe abra um caminho que leve "a matu-
ração frutos tão preciosos".

3, Tome a pasta e vá.

1848. Oexército do Piemonte atravessa o Tici-


no e trava duras batalhas com o exército austríaco.
É a primeira. guerra da independência italiana.
A Itália toda está. em armas. Os meninos nos
campos brincam de guerra. Os moços partem.
Goito, Monzambano, Pastrengo, Peschiera. Sobre-
vém todavia a pesada derrota de Custoza. Em se-
guida & de Novara. O exército é desbaratado, o Pie-
monte invadido, Carlos Alberto parte para o exílio.
Em dias tão tristes e dolorosos o Piemonte
recomeça tudo do princípio.
8
Os camponeses voltam ao campo, os operários
a oficina, para produzir, para enriquecer novamen-
te o estado, mergulhado em assustadora pobreza.
No silencioso e sombrio outono de 1848, Do.
mingos começa a frequentar o primeiro ano pri-
mário.
O professor é seu grande amigo P. João Zucca.
Leciona nas duas únicas classes de Murialdo: a
primeira inferior e a segunda superior.
Seus coleguinhas são os meninos de Murialdo,
mais efeitos à pé, e à enxada que aos livros e, é
inútil dize-lo, barulhentos e aéreos como quase
todos os minúsculos estudantes deste mundo.
Terminava nesses dias a vindima nos vinhedos
que enfeitavam as colinas. As domas cheias de ca-
chos maduros retornavam à aldeia. A névoa entrou
a invadir os vales, a neve a acumular-se nas estra-
das, e Domingos continuou a ir à escola e a estudar.
Gostariamos de encontrar em Domingos Sávio
muitas aventuras, feitos extraordinários, aconteci-
mentos espalhafatosos, como os que se lêem nos
romances e nas histórias em quadrinhos. Acontece
que a vida “verdadeira” é bem diferente da "inven-
tada” pelos romancistas: ela se entretece de coisas
ordinárias, de acontecimentos corriqueiros, do
cumprimento do dever, de trabalhos bem feitos.
Seu professor ao lembrar, muitos anos depois,
o primeiro ano de escola de Domingos escreveu:
“Começou a ir à escola, e sendo bem dotado de
inteligência. e muito diligente no ctunprimento de
seus deveres, fez em pouco tempo notável progres—
so no estudo. Era obrigado a tratar com jovens
mal comportados e levianos, mas nunca pude sur-
preendêvlo & brigar. Se surgia alguma discussão,
9
suportava com paciência os insultos dos colegas e
afastava-se logo. Não me recordo de o haver visto
tomar parte em divertimentos perigosos, ou de
algum modo perturbar a aula. Muitos companhei—
ros convidavam-no a acompanhá-los nas peças que
pregavam a pessoas de idade avançada, a atirar
pedras, a roubar frutas ou danificar plantações;
com muito jeito desaprovava-lhes o procedimento
e recusava-se a participar de suas traquinagens".
Convém reler com atenção estas linhas: “Jo
vens mal comportados. .. divertimentos perigo.
sos. . perturbar a aula, pregar peças a pessoas
. . .

de idade... atirar pedras... roubar frutas... da-


nificar plantações, _". Aventuras de todos os dias,
.

de todos os lugares, de todos os alunos travessos


deste mundo!
E Domingos Sávio? “Recusava—se a tomar par-
te em suas travessuras": palavras poucas e sim-
ples, mas para pratica—las requer-se verdadeiro he.
roismo, talvez você 0 Saiba por experiência pró-
pria. Esta é a grande aventura do primeiro ano de
escola de Domingos: conheceu pela primeira vez
companheiros maus, como acontece com todos os
meninos deste mundo. Mas diversamente de quase
todos os meninos deste mundo soube ”suportar
com paciência os insultos", “negar-se a tomar par—
te"; numa palavra: não se rendeu mas soube ven-
cer o mal.
Correrão os anos, e enquanto outros, vitorio-
sos de início como ele, acabarão por ceder, ele con-
tinuará a vencer: por isso veneramo-lo hoje como
Santo, porque Ele soube vencer sempre.
Há um particular destes anos esquecido pelo
P. Zucca: Nesses tempos usava-se a vara na escola,
e ele, como os outros professores, sabia no devido
10
tempo “desempoeirar as costas" dos mais relaxa-
dos. E isso acontecia muitas vezes.
Um dia dois alunos haviam armado uma das
suas, e o P. João, na presença dos outros meninos,
empunhou a varinha flexível, e bateu de verdade.
Ao ver os dois coitadinhos chorar de dor, Domin-
gos prorrompeu em pranto. E ao colega que lhe
perguntava por que, respondeu: “Preferia que o
professor batesse em mim”.

4. Com apenas sete anos!


1849. Segundo ano de escola. Alguma novida-
de? Uma só, só um dia: 8 de abril.
Eram tempos em que a Primeira Comunhão se
fazia aos doze ou, no máximo, aos onze anos.
Conversando certa ocasião com alguns sacer-
dotes dos povoados vizinhos, o P. João disse: "Es-
cutem, há aqui um menino de sete anos, inteligen-
te e piedoso como um anjo. Posso dar-lhe a Priv
meira Comunhão?
Os sacerdotes quiseram conhecer e examinar
Domingos.
Ficaram maravilhados. “Considerando a preco-
cidade, o preparo e grande vontade de Domingos
— escreve o seu professor — puseram de lado qual.
quer dificuldade e admitiram—no à participação da
Eucaristia".
0 P. João pôde avisar a Domingos: “Dia 8 de
abril, festa de Páscoa, vou dar-lhe a Primeira CO»
munhão".
Quando souberam disso os conterrâneos res—
mungaram:
11
"A Primeira. Comunhão? Mas ele só tem sete
anos!".
Mas aos que pensavam que o P. João estivesse
cometendo um disparate, Domingos provou que
mesmo aos sete anos pode-se estar preparado para
receber dignamente a Jesus.
Por aqueles dias deixava-se ficar longo tempo
na igreja, olhos fixos no tabernáculo, em colóquio
com Nosso Senhor.
Sábado Santo de 1849. Os sinos repicam festi-
vamente. Cristo ressuscitou!
Mãe Brígida está atarefada, pois quer que tu-
do em sua casa fale de festa: amanhã será. Pás-
coa, e um grande dia para o filhinho.
Domingos espera que a mãe sossegue um pou—
co. Achega—se a ela e lhe diz: “Mamãe, amanhã vou
fazer a Primeira Comunhão. Perdoe-me todos os
desgostos que lhe cansei. Prometo-lhe que serei
bem melhor; ficarei atento nas aulas, serei obedien-
te, dócil e respeitoso".
Mãe Brígida. jamais recebera um desgosto de
seu Domingos. ”Fique tranquilo, Domingos. Peça
ao Senhor que o conserve bom e reze por mim e
por papai".

5. Encontro e propósitos
A Primeira Comunhão era um acontecimento
tão grande que não se celebrava nas pequenas ca«
pelas esparsas pelas colinas: dirigiam-se todos à
grande igreja paroquial de S. André, em Castel-
nuovo.
12
/,Í,ja“—
.

1/3
».
X/Z—v

. .
» «
com vontade certa e decidida, escreveu: (pág. 14)
Pais orgulhosos de seus bastos bigodes e de
seus pimpolhos, desciam pelos atalhos que risca-
vam os campos para ganhar a estrada larga que
conduzia a paróquia.
Mostravam-se surpresos ao verem Carlos Sá-
vio com aquele menino pequeno e pálido.
A igreja estava toda resplandescente. Houve
confissões, a preparação, a Santa Missa com a Co.
munhão.
Ao lembrar esse dia Domingos dizia: "Oh! Foi
deveras para mim o dia mais belo, e um grande
dia!”.
Ao voltar a casa, com a letra grande e incerta
dum menino de sete anos, mas com vontade certa
e decidida, escreveu:
Lembranças de minha Primeira Comunhão:
1 — Confessar-me-ei com muita frequência e
farei a Comunhão todas as vezes que o
confessor me der licença.
2 — Quero santificar os dias festivos.
3 — Meus amigos serão Jesus e Maria.

4 — A morte, mas não pecados.

Passarâo os anos. Domingos, acometido de gra»


ve doença, morrerá muito jovem. Nâo deixará, co-
mo muitos santos, livros profundos acerca de Deus.
Deixará tão somente essas quatro linhas, traçadas
pela mão incerta de um aluno do segundo ano pri-
mário. E o seu ”tratado de aliança" com Jesus.
Ofereceu-o a todos os meninos do mundo.
14
6, Caminho longo & pés descalços
Passaram os dois anos de escola.
Os coleguinhas depunham com alegria a cane-
ta e empunhavam a enxada para trabalhar nos cam-
pos.
Mas ele era ainda tão pequenino e demonstra-
ra além disso tamanha inteligência e boa vontade
que parecia como perdido por entre os renques de
uma vinha. Mas não havia outras escolas, pelo me-
ªnos em Murialdo. Em Castelnuovo sim, mas Cas—
telnuovo distava “duas milhas", como então se di—
zia, isto é, 5 km. E em 1850 não existiam ônibus.. .

Que fazer? O P. João Zucca disse a Carlos Sá-


vio:
—— Deixe-o comigo. Vou fazê—lo repetir o ano.
Assim poderei ensinar-lhe algmna coisa a mais, e é
possível que com o andar do tempo surja uma boa
oportunidade.
E assim Domingos Sávio tornou-se repetente
da 1.' superior, muito embora houvesse sido o pri-
meiro da classe. E não só por um ano, mas por
dois. Pode assim aprender alguma coisa nova, en-
quanto ia crescendo e seu físico tornava-se um pou-
quinho mais forte.
Chegaram todavia os dez anos. Não era possi-
vel repetir indefinidamente a primeira superior, e
tomava—se cada vez mais evidente que Domingos
não nascera para ser agricultor. E então?
Interrogado, Domingos respondeu:
—— Se eu fosse um
passarinho voaria de mar
nhã e à. tarde até Castenuovo, e assim continuaria
os estudos. .
.

15
Chegou-se por fim a uma decisão: iria de ma-
nhã e de tarde a Castelnuovo.
Sapatos pendurados às costas e pés no chão.
Domingos começou sua peregrinação à. escola mu-
nicipal. Cinco quilômetros de ida pela manhã. e cin«
eo de volta à tarde. Tinha dez anos!
Não eram estradas asfaltadas, mas caminhos
de roça. Algumas vezes chovia, soprava o vento, o
sol caia. a. pino. Estugando o passo, ia repetindo o
que ouvira em aula, porque com 10 quilômetros
diários e várias horas de aula sobrava pouco tem-
po para. estudar.
Todavia seu professor de Castelnuovo (P. Ale-
xandre Allora) pôde escrever: “Progrediu no es-
tudo de maneira. extraordinária, e mereceu inva-
riavelmente o primeiro lugar. Resultado tão feliz
não se deve apenas a uma inteligência não comum,
mas também ao grandíssimo amor ao estudo e à
virtude".
Os camponeses atarefados no cultivo das vi-
nhas ou dos trigais levantavam & cabeça.
— Quem é aquele menino tão pequeninho?
Aonde vai sozinho todos os dias?
— É o filho do Carlos, o ferrador. Vai ao co«
légío.
— Ao colégio?! — repetia espantado alg-um ve-
lho agricultor. — E não basta o que temos em Mu-
rialdo? Que é que ele quer ser?
— Dizem que vai ser padre.
Um dia um camponês que ia também a Castel.
nuovo, ao mercado, perguntou-lhe:
— Não tem medo de andar sozinho por estes
caminhos?
16
Ladrões e assaltantes não eram pura inven.
ção. Havia de verdade.
— Nunca estou só, respondeu Domingos.
Anjo da Guarda sempre me acompanha.
_
O

O camponês ficou assombrado.


— Mas — acrescentou —— vai se cansar, com este
calor.
— Não, não me canso, porque trabalho para
um patrão que paga muito bem.
— Para quem trabalha? Para um patrão?
— Para Nosso Senhor, que paga até um copo
de água dado por seu amor.
O camponês narrou dezenas de vezes esse en-
contro.

7. Riacho de águas frescas


Era. ainda verão quando Domingos começou a
ir e vir de Castelnuovo, e algumas vezes o calor em
deveras sufocante.
Um dia, terminada a aula, um colega se lhe
aproxima.
— Você vem com a gente, hoje?
—— Aonde?

— Nadar!
— Mas eu tenho que voltar para casa.
— Nós também, mas vai ser rápido. Depois de
um bom banho o calor passa, abre-se o apetite e a
gente se sente bem. Vamos.
Domingos não estava convencido, mas depois
aderiu. No meio do campo corria um riacho, à
sombra das amoreiras. Deixaram a roupa sobre a
17
relva e atiraram-se à água. Domingos estava conten-
te, mas logo ficou triste. As conversas dos colegas,
as brincadeiras, enveredaram pela grosseria, deixa-
vam-no mal à vontade.
Minutos depois estava na estrada de Murial-
do, ao passo que seus companheiros continuavam
a brincar na água.
A noitinha contou tudo à mãe, e lhe pergun-
tou se havia agido bem ou mal. Dona Brígida disse
a Domingos que não fosse mais: havia perigo de se
machucar; muitas vezes com efeito naqueles córre-
gos aparentemente tão tranquilos houve quem en-
contrasse a morte, bastava um desmaio, um escor-
regão, um redemoinho. Mais que tudo, porém, lon-
ge dos pais e com aqueles companheiros havia pe-
rígo de ofender & Deus.
Domingos obedeceu. Os coleguinhas voltaram
à. carga:
— Vem conosco para uma nadadinha?
— Não, obrigado. Acho perigoso.
— Perigoso, nada! Nós lhe ensinamos a nadar,
venha.
— Não. Não vou porque há perigo de ofender
& Deus.
—— Quem disse isso? N ão vê
que todos vão?
— Isso não quer dizer nada. De todo o jeito,
primeiro vou pedir licença a mamãe, e se ela dei-
xar. ..
— Está louco? Falar com sua mãe? Se nos-
sos pais souberem a gente apanha.
— Se nossos pais não gostam quer dizer que
não é coisa boa e por isso não vou. Vocês me en-
ganaram uma vez, por que me querem enganar
18
outra vez? Acho que seria melhor vocês não irem
também.
Desse modo Domingos, bem diferente de tan-
tos meninos que diante de maus companheiros fa-
zem o papel de um ratinho nas unhas do gato,
soube responder à altura e fazer o que ele queria,
não o que os outros queriam.

8. Estufa cheia. de neve


Dez quilômetros por dia eram na verdade ex-
cessivos para um rapazinho pequeno e franzino
como Domingos.
Então Carlos Sávio decidiu—se: já mudara duas
vezes de casa, de Mondônio para Riva e de Riva pa-
ra Murialdo. Voltaria agora para Mondônio. Lá
havia escolas como em Castelnuovo, e Domingos
não deveria caminhar tanto. De mais a mais, seu
trabalho em Murialdo era cada vez mais escasso,
e era preciso procurar trabalho alhures.
Domingos foi cumprimentar o capelão, deu
adeus aos amigos, dirigiu-se pela última vez à. igre-
jinha onde havia aprendido a conhecer Nosso Se-
nhor, e partiu com seu pai e sua mãe.
Em Mondônio eram gente de casa, porque
eram originários desse lugar, e tinham muitos pa-
rentes. Domingos encontrou um novo professor,
chamado P. Cugliero, e novos colegas. Retornou
com entusiasmo os estudos. Havia um outro me—
nino, muito bom e inteligente, chamado Francisco
Desideri. Tomaram-se amigos.
O P. Cugliero compreendeu logo a profunda
bondade de Domingos Sávio, e afeiçoou-se a ele,
19
como de resto sentia-se aieiçoado & Desideri e a
todos os seus alunos.
Mas também na aula do P. Cugliero, como em
quase todas as aulas do mundo, havia alguns “mo-
leques" que inventavam desordens as mais várias.
O P. Cugliero, como bom professor de seu tempo,
sabia com a vara colocar os moleques em ordem,
e já ameaçam alguns com a expulsão da escola.
Nos rigorosos dias de inverno, a escola era
aquecida por uma grande estufa. Cada aluno de»
via trazer uma acha de lenha para acendê—la. Um
dia o P. Cugliero estava tardando & chegar, fora. ne-
vava, e na aula o calor não era propriamente ex-
cessivo.
Dois moleques (que figuravam na lista negra)
depois de haverem cochichado alguns instantes, es-
gueiraram-se para fora da porta. Tomaram a en-
trar com dois blocos de neve, e sem que ninguém
percebesse meteram-nos na estufa. Produziu-se uma
grande fumaça, e da estufa começou a escorrer um
riacho de água que invadiu a aula. Era brincadei-
ra de muito mau gosto.
Eis que chega o P. Cugliero. Vê a água escor-
rer da estufa. Aproxima-se com o rosto fechado,
tira a tampa... Volta-se zangado.
— Quer dizer que vamos estar bem aqueci-
dos, não é? Quem foi? — A voz é bem severa.
Os dois culpados entreolham-se apavorados:
se alguém "soprar" seus nomes, serão certamente
expulsos da escola. Que fazer? Com sinais decidem
descarregar a culpa em um outro. Com cara dura
um deles se levanta, aponta o dedo acusador para
Domingos Sávio: "Foi ele!”. O outro confirma ani-
madamente: “Sim, foi ele!".
20
— Ainda bem que é a primeira vez (pág. 22)
O P. Cugliero cai das nuvens:
-— Domingos! Logo você! não o haveria nunca
de imaginar!
Domingos na hora não entendeu de que o
acusavam. Também chegara atrasado por causa da
nevada, e nem sequer se havia dado conta do que
havia sucedido. Depois entende: a estufa, a neve.
Levanta-se de golpe, tem o rosto vermelho, corre os
olhos em leque: ninguém o defende? Todos viram
contudo. Ninguém tem a coragem de testemunhar
em seu favor, porque os dois são grandes e “ba—
tem".
O professor continua:
— Ainda bem que é a primeira falta. De ou-
tra sorte havia de expulsa-lo da escola!
Domingos abaixa os olhos, cerra os punhos.
Bastaria uma palavra, uma só, e os verdadeiros
culpados estariam desmascarados, mas o profesA
sor disse: “Se não fosse a primeira falta, expul-
sãol". Não, não quer que seus colegas sejam ex.
pulsos. O professor continua a ralhar e manda-o
ajoelhar-se no meio da sala.
Todavia no fim da aula um dos que haviam
visto os moleques armarem aquela peça já não
aguenta mais. Não e' bancar espião: É simplesmen-
te justiça. Achega—se ao P. Cugliero e conta tudo.
0 bom professor cai uma segunda vez das nu-
vens:
—— Mas
por que então. . . podia muito bem ter
falado esse bendito rapaz. .
.

No dia seguinte, humilhado por haver casti


gado um inocente, aproxima—se de Domingos:
— Por que não disse que não foi você?
22
Domingos sorriu.
— N ão importa. Pensei que os dois seriam ex.
pulsos da escola, e não queria. E de minha parte
esperava ser perdoado. E depois. .. pensei em Je—
sus. .. Ele também foi injustamente acusado. ..
O P. Cugliero ficou calado. Mas pensou que
Domingos em um menino de muito valor para dei-
xá-lo num lugarejo qualquer. Pensou em Dom Bos.
co. Era preciso justamente Dom Bosco para Do-
mingos.

9, Oito minutos para uma página

Dom Bosco era um padre de Castelnuovo. Na


baixada de Turim, onde eram enforcados os con-
denados à morte, onde as vielas da periferia de
má fama se perdiam nos campos e nos brejos, no
meio dos barracões de gente pobre havia aberto
um “Oratório".
De início parecia uma mixórdia de moleques.
e algumas vezes guardas com fuzis às costas ron-
davam por perto desconfiados, porque a gritaria
era tamanha que parecia estar para irromper uma
revolução de um momento para outro.
Posteriormente em Turim começou—se a falar
com mais respeito dos meninos de Dom Bosco:
quando se dirigiam em grupo a alguma igreja da
cidade rezavam e cantavam muito bem. Em segui-
da espalhou—se a fama de que entre aquelas pobres
paredes, naqueles pátios cheios de alegria e baru-
lho, Dom Bosco instalara uma "fábrica de padres".
Com efeito, os padres mandavam-lhe meninos
pobres que não podiam frequentar o seminário e
23
Dom Bosco, se bem que continuasse o Oratório,
abrira uma, escola também para eles.
O P. Cugliero era conterrâneo e amigo de Dom
Bosco, e pensou que a seu lado Domingos Sávio
poderia receber excelente formação.
Assim que teve um dia, livre, pegou o chapéu
e desceu a Turim.
Dom Bosco o viu, correu-lhe ao encontro e lan-
çou-lhe os braços ao pescoço. Eram velhos cole.
gas de seminário, amigos de coração:
— Meu velho, que prazer em revê-Io! Que
veio fazer por estas bandas?
— Vim ver o que anda fazendo no meio des-
sa gente. E vim trazer—lhe um rico presente.
— Que presente?
— Disseram-me que junto com esses peque-
nos bandidos, você aceita no Oratório também bons
rapazes, que dêem esperança de serem padres. E
então pensei em enviar-lhe um menino também.
É de Mondonio. Chama-se Domingos Sávio. Não
tem muita saúde, mas quanto a bondade aposto
que não viu ainda um rapaz igual. Um verdadeiro
São Luís.
— Exagerado! De qualquer maneira para mim
está. bem. Irei & Castelnuovo com meus meninos
em outubro, para a festa do Rosário. Apresente-me
o menino e o pai. Falaremos e veremos de que
pano é feito.
2 de outubro de 1854. No pequeno pátio diante
da casa do innâo de Dom Bosco deu-se o primeiro
encontro.
Dom Bosco ficou tão impressionado que nar-
rou o acontecimento nos mínimos pormenores
24
como se o tivesse gravado. A linguagem é de 1800,
mas a cena é viva, parece esta-se vendo.
“Era a primeira segunda-feira de outubro bem
cedo, quando vejo um menino acompanhado de
seu pai aproximar-se de mim para falar-me. O ros-
to alegre, o ar sorridente, mas respeitoso, atraíram
sobre ele meus olhares.
— Quem é, disse-lhe, donde vem?
—— Sou Domingos Sávio, de
quem lhe falou o
P. Cugliero, meu professor, e viemos de Mondonio.
Chamei-o então a parte, e pusemo—nos a falar
dos estudos, da vida que levara. Criou-se logo um
clima de mútua confiança.
Percebi naquele menino uma alma plasmada
segundo o espirito de Deus e fiquei não pouco ad-
mirado ao considerar o trabalho que a graça divi-
na já havia realizado em tão tenra idade.
Depois de uma conversa um tanto longa, an-
tes que eu chamasse o pai, disse-me precisamente
estas palavras:
—— Então, que lhe parece? Leva—me a Turim

para estudar?
— E. Parece-me que temos boa fazenda.
— E para que pode servir essa fazenda?
— Para fazer uma roupa e dá-la de presente
a Nosso Senhor.
—- Então eu sou a fazenda, o sr. é o alfaiate;
leve—me e faça de mim uma bela roupa para Nosso
Senhor.
— Receio que sua constituição franzina não
agiiente os estudos.
— Não receie isso; o Senhor que me deu até
agora saúde e graça, ajudar-me—á também no futuro.
25
— E que desejaria fazer depois do curso de
latim?
— Se Deus me conceder tamanha graça, de-
seja ardentemente abraçar o estado eclesiástico.
— Bem: agora vou saber se você tem capa-
cidade para o estudo. Torne este livrinho (era um
fascículo das Leituras Católicas), estude hoje es-
ta página, amanhã voltará para dá-la de cor.
Dizendo isto deixei-o em liberdade para que
fosse brincar com os outros meninos, e em segui
da pus-me a falar com o pai. Passaram não mais
de oito minutos e eis que Domingos volta sorri-
dente à minha presença dizendo:
— Se quiser, posso recitar agora a minha pá-
gina.
Tomei o livro, e com minha surpresa per-
cebi que não só havia literalmente estudado a pá-
gina cornbinada, mas que compreendia muito
bem o sentido do assunto nela tratado.
— Muito bem, disse—lhe, você antecipou o es-
tudo de sua lição e eu antecipa a resposta. Sim,
virá a Turim, e já o conto entre meus queridos
filhos; comece desde já a pedir a Deus que aju-
de a mim e a você a fazer sua santa vontade.
Não sabendo como ezprimir melhor sua ale-
gria e gratidão, tomou-me pela mão, apertou-a,
beijou-a diversas vezes e disse por fim:
— Espero proceder de tal forma que nunca
tenha a queixar-se de meu procedimento,
Recordando as palavras do P. Cugliero, aque-
la noite, Dom Bosco chegou à conclusão de que
não eram nada exageradas. Se São Luís tivesse
nascido nas colinas do Monferrato e tivesse sido
26
filho de camponeses, não haveria de ser diferen-
te daquele menino sorridente, que queria tomar-
se ”uma bela roupa para. ser presenteada. ao Se.
nhor".

10 . Cartaz comercial

de outubro de 1854.
29
Domingos fez um embrulho com livros e rou.
pa. A mãe preparou-lhe um pacotinho de coisas
gostosas para comer durante a viagem. Chegou
a hora da partida.
Beija demoradamente a mãe, beija os irmão-
zinhos, e depois, na companhia do pai tomª 0 ea-
minho dos campos que o levará. à estrada de Tu-
rim.
E a primeira vez que se aparte da mãe. A se-
paração e' dolorosa, mesmo imaginando Turim e
o Oratório como um Paraíso.
Mas quem mais sofre naquele momento e' mãe
Brígida. Vê partir o melhor filho. E tão fraco, tão
delicado. Como qualquer mãe, imagina a cidade
distante como uma grande máquina, barulhenta,
em que o filho tão pequenino, correrá perigo de se
perder.
De sua casa branca vê o filho, pequeno emi—
grante, desaparecer à distância.
Turim, a capital do pequeno reino sardo-pie-
montês, saiu ao encontro de Domingos com o tinir
dos guizos de centenas de coches, os anúncios co-
loridos das casas de negócio, :) alegre burburinho
das barracas de Porta. Palazzo.
27
Desceram para Valdocco beirando o triste
“rondô” onde os condenados à morte eram enfor-
cados. Chegaram à porta do Oratório.
Atravessaram um prado cheio de meninos que
corriam, gritavam, riam. Subir-am uma pequena es-
cada, bateram no escritório de Dom Bosco. En—
traram.
Domingos lançou um olhar ao redor: era uma
sala pobre mas muito asseada. Uma estante de li-
vros, uma mesa atulhada de papéis e cartas, e um
cartaz pendente da parede com uma misteriosa
frase latina escrita em grandes caracteres: Da mihi
animas, coetera tolle.
Quando o pai partiu, Domingos esforçou-se por
vencer a comoção e disse a Dom Bosco:
É a primeira vez que fico longe de papai e de
mamãe. Mas não estou triste, porque sei que o sr.
vai me ajudar.
Ao depois, superando os primeiros momentos
de hesitação, indagou () significado das palavras
penduradas a parede. Dom Bosco ajudou-o a tra—
duzir: ”Dai-me almas, Senhor, e ficai com todo o
resto". Era o lema que Dom Bosco escolhera para
o seu apostolado. Inteligência vivaz e profunda,
escritor de vastos recursos e dono de palavra
fácil, Dom Bosco renunciam a uma carreira bri-
lhante no mundo para dedicar-se inteiramente a di-
fusão do Reino de Deus entre os jovens. Havia dí-
to ao Senhor: “Não sei que fazer da glória, do di-
nheiro, da vida cômoda. Dai essas cousas a outros.
Concedei-me ser apenas um conquistador de almas
para Vós”. O cartaz pendurado à parede de seu
quarto era um pacto firmado entre ele e Deus.
28
Domingos, assim que captou o sentido destas
palavras, ficou um instante pensativo, e depois
acrescentou :
— Compreendi: aqui não se trata de negócio
de dinheiro, mas de almas. Espero que minha al-
ma fará parte desse comércio.

11. Vida de todos os dias

Quando desceu ao pátio, seu belo sorriso, de-


licadeza e bondade conquistaram imediatamente os
primeiros amigos. Eram 115 meninos que corriam
naquele pátio, e que ao som de uma campainha ía-
ziam silêncio e subiam ao salão de estudo.
Um colega, mais atencioso, acompanhou-o na
visita à Casa. A construção mais bela era a igreja
de S. Francisco de Sales. Entrou. Na penumbra di-
visou o altar-mor com o tabernáculo e a lâmpada
a arder. Lá estava Jesus, como em Mondõnio, em
Murialdo; agora mais pertinho. Haveriam de ver-
—se muitas vezes, caminhariam de mãos dadas .
A direita, adornado de viçosas flores, o altar de
..
Maria.. Agora. que mãe Brígida estava longe, Ela é
que seria sua Mãe.
Ao lado da igreja o salão de estudo, com car-
teiras compridas e os livros, com os quais breve
travaria conhecimento... Perto as pequenas ofici—
nas de alfaiataria, sapataria, carpintaria e encader-
nação.
No pátio, junto ao muro, uma grande bomba
de água fresca: o "bar" do Oratório, que matava
honestamente a sede dos jogadores esfalfados.
Mais adiante, junto à pequena horta, a cozinha.

29
Entre as panelas uma velha senhora com um grau-
de lenço a cabeça.
— Quem é?
—— Mamãe Margarida, & mãe de Dom Bosco. A

noite conserta nossa roupa. Ela e' que nos prepara


a sopa.
A anciã deixara sua tranquila casa dos Becchi
para acompanhar Dom Bosco & Turim, para ser
mãe de seus meninos. Mãe Margarida aprenderia
logo a conhecer Domingos, que vinha de um povoa-
do vizinho ao seu, e lhe havia de recordar seu
Joãozinho de 13 anos.
Ao percorrer a casa, viram outro padre, num
pequeno escritório, sentado a escrivaninha com
pilhas de registros.
— Quem é ele?
— É o P. Vitório Alasonatti, um sacerdote
que chegou há pouco de Avigliana. Ajuda Dom
Bosco e se chama “o prefeito".
— E as aulas onde são?
—— Os
que aprendem um ofício vão para as
oficinas, e os que estudam latim vão à cidade, na
escola do professor Bonzanino. Você vai também?
— Espero. ..
Assim Domingos Sávio começou sua vida no
Oratório. Teve que aplicar-se muito nos primeiros
tempos para completar os estudos do terceiro ano,
podendo ser logo admitido ao quarto, que equivale
mais ou menos a sexta série do currículo atual.
É fácil ser bom "uma vez ou outra" na vida.
Em ocasiões extraordinárias quando todos nos
olham e sentimos uma coragem leonina, é fácil ser
herói. Mas ser bom todos os dias, quando ninguém
nos vê, ninguém nos louva, quando a vida é tão
30
igual que chega a parecer enfadonha, quando todas
as aventuras parece reduzirem-se à tarefa por fazer
ou a lição por estudar. . é verdadeiramente difícil.
.

Não obstante, foi aqui justamente, na vida de todos


os dias, que Domingos Sávio mostrou-se verdadei-
ro herói.
Dom Bosco, que o acompanhava dia por dia
no pátio, na aula, na igreja, na mesa, escreveu
uma frase que nos deixa atônitos: "Desde o dia da
entrada mostrou no cumprimento do dever tama-
nha exatidão que dificilmente se poderá superar".
Aplicou—se com ardor ao estudo (é sempre
Dom Bosco que o afirma).
Estudava e procurava compreender bem 0 ea-
tecismo.
Mantinha-se longe dos companheiros levianos,
negligentes, desleixados.
Procurava amigos entre os melhores, os mais
estudiosos e exemplares.
Poder-seda de certo modo dizer que ao fazer
tais afirmações Dom Bosco tenha exagerado um
pouco. Ao contrário todos os colegas de Domingos,
que com ele conviveram naqueles anos, que com
ele tiveram permanente contacto, são unânimes
em dizer que Domingos causava enorme admiração
porque era exato sempre em tudo.

12. Eu vos dou o meu coração!


Novembro já se fora, dezembro iniciara sua
marcha.
Havia no Oratório um “clima" especial, um
movimento desusado. As Comunhões, pela manhã,
31
eram numerosas e tervorosas. Coros poderosos e
festivos entoavam loas a Virgem.
Era a novena da Festa de Maria Imaculada, e
era o ano de 1854.
Pio IX, de Roma, interrogara todos os bispos
do mundo para saber se julgavam oportuna a defi-
nição como doma de fé da Imaculada Conceição
de Maria Santíssima. Em vista da resposta afir-
mativa, anunciam que no dia 8 de dezembro, festa
de Maria Imaculada, o dogma seria solenemente
definido.
O mundo inteiro aguardava o grande aconteci-
mento. Por toda a parte reacendia-se o amor a
Santíssima Virgem e se preparavam grandiosos
festejos.
Dom Bosco, que era muito devoto de Maria
Santíssima, abordava o assunto todas as noites
diante de seus jovens, e & novena da Festa se ini-
ciara com muito fervor.
Dia 28 de novembro, antes que a novena
começasse, Domingos Sávio subira ao quarto de
Dom Bosco:
— Domingos, vai fazer alguma coisa para
Nossa Senhora durante esta novena?
— Antes de mais nada queria confessar-me
para preparar bem minha alma. Depois quero
cumprir exatamente as “flores” que o sr. aconse—
lhar todos os dias da novena. Depois quero com-
portar-me bem para poder fazer a Comunhão todas
as manhãs.
— Mais nada?
— Uma coisa ainda. Quero declarar guerra im-
piedosa ao pecado mortal.
Dom Bosco pousou—lhe a mão sobre a cabeça.
Toda a sua vida de sacerdote se resumia nas pala.
32
vras daquele menino: fizera e estava fazendo guer-
ra implacável ao pecado mortal. Domingos Sávio
o compreendera, e já começava a dar-lhe uma mão.
— E quero pedir muito mesmo a Nossa Senho-
ra e a Jesus _ acrescentou Domingos — que me
façam antes morrer que deixar-me cair num peca-
do venial contra a modéstia.
Chegou o dia 8 de dezembro,
Em Roma, Pio IX, diante de imponente mul-
tidão de Cardeais e Bispos, proclamou dogma de
fé que Maria, desde o primeiro instante de sua
existência, não fora nunca. manchada pelo Pecado
Original. O céu de Roma, toldado de negras nuvens,
abriu-se um instante para iluminar de sol o rosto
do Papa.
Domingos Sávio dirigiu-se ao altar de Nossa
Senhora, tirou do bolso um papel em que havia
escrito algumas linhas longamente meditadas, e
consagrou-se a Maria com uma oração que haveria
de tornar-se famosa em todo o mundo:
“Maria, eu vos dou meu coração; fazei que
seja sempre vosso. Jesus e Maria, sede sempre
meus amigos! Mas por piedade, fazei-me morrer
antes que aconteça a desgraça de cometer um só
pecado".
Naquela noite toda Turim resplandeceu numa
iluminação fantástica. Milhares de balõezinhos mul-
ticores brilhavam nos balcões, nos terraços, nas
margens do rio Pó. O povo descia pelas estradas e
uma imensa e festiva procissão rumava para o tem-
plo de N. Sra. da Consolação, padroeira de Turim.
Também os meninos de Dom Bosco uniram-se
à. alegria da cidade. Passaram cantando pelas ruas
entoando hinos à Mãe do Céu.
33
13, Condes e marqueses
A campainha soava bem cedo de manhã no
Oratório de Valdocco. Os meninos saltavam da
cama (havia também os indefectíveis preguiçosos
que viravam do outro lado. .) e corriam ao lava-
.

tório: a água fria ajudava a despertar e fazia a


alegria voltar. Nenhum criado nem no dormitório
nem em qualquer outro lugar: cada um fazia sua
cama; e quanto mais macia e bem feita, tanto mais
convidativa para um doce repouso a noite.
A Missa com o Terço de Nossa Senhora e uma
boa hora de estudo precedia a reíeiçâo matinal.
Enganar-seda porém quem pensasse em tijelas fu-
megantes ou em bolachinhas com manteiga: a re-
feição consistia em um pãozinho, que se devorava
no pátio junto à bomba (dois goles de agua nunca
fazem mal, nem mesmo no inverno!).
Em seguida os estudantes subiam para buscar
os livros e ir logo para a escola.
Saíam do Oratório, rumavam à. esquerda, e
com boas pernadas chegavam à rua Barbaroux,
onde o professor Bonzanino os aguardava para dar
início à aula.
Na escola havia outros jovens que não eram
pobres nem de condição humilde: Os meninos das
mais ricas e nobres famílias da cidade frequenta-
vam em geral a escola do professor Bonzanino, e
chegavam de coche todas as manhãs.
Assim foi que Domingos Sávio sentou-se ao
lado dos netos de Santorre de Santa Rosa, dos
filhos de Brofferio, do jovem conde Bosco de São
Rufino, dos jovenzinhos César e Coriolano da no-
bre família dos Ponza de São Martinho.
34
Destoava Domingos em semelhante compa-
nhia? Eis o que escreve seu professor:
“Não me lembro de ter tido aluno mais aten-
to, dócil e respeitoso que Domingos Sávio. Mos-
trava—se modelo em todas as coisas. Não tinha
afetação alguma na roupa e no cabelo; mas na
modéstia das roupas e em sua humilde condição
era asseado, bem educado, cortês, de modo que
seus colegas, mesmo os de condição nobre, gosta-
vam muito de estar com Domingos".
Ao contrário, como mesmo entre os filhos dos
nobres havia línguas compridas que não sabiam
nunca fazer silêncio e poltrões que deixariam de
boa vontade a seus cocheiros o trabalho das
tarefas, o prof. Bonzanino, ao trocar os lugares,
procurava colocar ao lado de Domingos indivíduos
de tal jaez. Ao lado de um filho de camponeses,
sempre atento e estudioso, em geral mesmo os
condezínhos indolentes e os marqueses tagarelas
comportavam—se melhor.
O Conde de São Rufino, que devia ser um
eterno distraído, não teve pejo em reconhece-Io
depois de muitos anos: “Quantas vezes voltando
para ele meus olhos sentia-me levado a prestar
atenção às explicações do professor. .".
.

14. O mais belo divertimento

Não custava nada a Domingos Sávio ser assim


tão bom? Não sentia também vontade de escrever
nas paredes ”Burro quem lê" e “Abaixo a mate-
mática", de largar a matemática para ir ver as
barracas de Porta Palazzo, de comer ameixas a
35
mais não poder ou colocar um ratinho na gaveta
da cátedra de um professor cacete?
Custava-lhe e como! Era bom porque “queria"
ser bom, e porque pedia todos os dias a ajuda de
Nosso Senhor para ser cada vez melhor.
Vinha de um povoado em que uma vez ao ano
se realizava a ”feira", e quando se ouvia tocar a
corneta e o tambor do saltimbanco que anunciava
sua chegada, todos acorriam a rua, mesmo os ve-
lhos de bigodes brancos. Agora, passava duas vezes,
todas as manhãs, perto de Porta Palazzo, onde
havia todos os dias barracas e saltimbancos. Não
havia assistentes para a turma de Domingos por-
que Dom Bosco estava sozinho com o P. Alasonatti.
Era muito fácil dar uma escapadela. Muito fácil
inventar uma desculpa qualquer, a que se seguiria
no máximo uma reprimenda. Alguns colegas não
deixavam passar a oportunidade. Domingos tam-
bém foi muitas vezes convidado, como se com ele
a fuga parecesse menos grave. Mas Domingos sabia
vencer e respondia:
—Meu melhor divertimento e' o cumprimento
de meus deveres: e se vocês são verdadeiros ami-
gos, devem ajudar-me a cumpri-lo.
Essa frase é comovente: pede aos colegas que
o ajudem a comportar-se bem, porque ele também
se sente fraco e necessitado de ajuda.
Uma ocasião, porém, venceram-no as insistên-
cias dos companheiros: havia dito uma infinidade
de vezes, havia cerrado os punhos e prosseguido
no caminho, mas agora. .. Enchia o ar a música
dos saltimbancos: um palhaço anunciava um gran-
de espetáculo de marionetes. Os colegas disseram:
"Mas você pode vir uma vez ao menos, uma
36
Domingos também foi muitas vezes convidada (pág. 36)
só, não acha?". E Domingos cedeu. Começou a
acompanhar os colegas. Mas andou somente breve
trecho de caminho: sentiu imediatamente que Je-
sus não se mostraria contente com ele naquele dia,
que no dia seguinte havia de corar ao aproximar-se
da Comunhão. E estacou, decidido. ”Oiçam — disse
aos colegas espantados. — Fiz mal em dar-lhes
ouvido. Estamos fazendo uma coisa que vai causar
desgosto a Dom Bosco. Eu vou à aula. E façam-me
o favor de não mais convidar-me. De outra sorte
não seremos mais amigos".
Minutos depois entravam todos na sala de
aula, e o Prof. Bonzanino deva início à lição.

15. Pedras e sangue


O sangue na primavera circula com maior
velocidade, e os meninos sentem com frequência
vontade de brigar. Assim acontecia também na
escola de Domingos. De onde em onde desafios
cruzavam-se nos ares: “Apareça hoje, se for ho-
mem!”. ”Vamos resolver o assunto lá fora!”. Assim
que se viam fora da escola, depunham os livros
no chão e engalfinhavam-se furiosamente, voltando
depois para casa imundos e com a roupa rasgada
para receber dos próprios país uma complemen-
tação da surra.
Um dia, porém, a coisa foi mais feia. Dois ga-
los de linha c'omeçaram & encarar-se ameaçadora-
mente e a trocar insultos. Um deles tem então a
triste idéia de ofender a família do companheiro:
coisa. bem desagradável. O outro, enfurecido, re-
trucou pelas rimas. Ajustaram então um duelo de
verdade. O mais impressionante foi que os dois
38
rivais não se atracaram nesse momento de fúria:
a raiva era profunda e fria; queriam mesmo ma-
chucar-se. Para tanto decidiram encontrar-se longe
de qualquer assistência, num prado perto da Citta—
della. Seria uma luta a pedradas.
Os que sabiam da combinação calaram ante a
ameaça:
— Se alguém falar, a primeira cabeça quebra-
da será. a dele. — E não estavam brincando.
A coisa chegou aos ouvidos de Domingos. Os
duelístas não eram do Oratório, caso contrário
Domingos avisaria Dom Bosco: não teria medo de
fazê-lo, porque isso não o transformaria em espião
nem o faria bancar o dedo—duro. Cumpria apenas
impedir viesse alguém a ferir-se com gravidade.
Ao passo que os outros "levavam as mãos"
(com grande covardia), Domingos procurou os
dois adversários, falou-lhes com toda a clareza que
estavam atendendo gravemente & Deus. Mas nada
conseguiu: responderam que a ”honra" da familia
havia sido ofendida, e que a honra se lava com o
sangue. Então Domingos escreveu para cada um
deles um bilhete: disse que se teimassem em fazer
semelhante tolice havia de avisar o professor e os
pais. Os dois enfiaram os bilhetes no bolso, e nem
bem as aulas terminaram dirigiram-se para os
prados da Cittadella. Estavam escoltados por “ami
gos", que em vez de pôr água na fervura atiçavam-
-nos ainda mais, com o fito de “apreciar o espe-
táculo”.
Muniram-se ambos de cinco pedras e escolhe-
ram os “padrinhos" do duelo Deslocaram—se para
os limites de um prado, mediram vinte passos de
distância.
39
Durante tais preliminares, alguém foi chamar
Domingos:
— Vai começar o duelo! Venha!
Domingos correu, abriu caminho, penetrou no
espaço livre entre os adversários.
— Saia daí! -— gritou um deles já empunhando
a primeira pedra. — Tenho que ajustar contas com
aquele covarde, e é inútil você vir a fazer sermão.
Domingos fitou—o tristonho. Que fazer? Um
raio ilumina-lhe a mente. Pegou o pequeno cruci-
fixo que trazia ao pescoço e correu ao encontro do
que estava mais perto:
Olhe o Crucifixo!
_ E agora se tem coragem
repita: “Jesus morreu perdoando aos seus algozes.
Eu ao contrário não quero perdoar, quero vingar-
-me até o fim!".
O rapaz fixou-o e rosnou:
— Mas, que bem isso?
Domingos percorreu os vinte passos que o
separavam do outro e repetiu-lhe com o mesmo
tom de comando:
— Olhe o Cruriiixo! E se tem coragem, repita:
“Jesus morreu perdoando aos seus algozes. Eu ao
invés quero vingar»me!".
Era um bom rapaz, o segundo, e ficou impres-
sionado. Então Domingos segurou-o pela mão e
arrastou-o para perto do outro:
— Mas por que se querem maltratar? Por que
querem causar desgosto aos pais e a Deus? Jesus
perdoou quem o matava, e vocês não são capazes
de perdoar uma ofensa, feita num momento de
raiva?
Domingos calou—se, mas continuou a fitar com
tristeza os dois inimigos, ao mesmo tempo que
40
— Olhe o Crucifixo! (pág. 40)
apertava na mão o pequeno Crucifixo. As pedras
caíram ao solo. Não houve duelo. Um dos dois
rapazes, já. adulto, recordava ainda a cena: "Sen-
ti-me cheio de vergonha por haver obrigado um
amigo tão bom a recorrer a medidas extremas
para impedir aquela triste aventura, e perdoai de
coração quem me havia ofendido"!
Quando regressaram, Domingos não disse
nada a ninguém. Continuou & mostrar-se calmo e
sorridente. Havia sido um herói num momento
verdadeiramente dificil. Agora continuava a ser
herói nas coisas simples, no dever de todos os dias:
o que não era mais fácil.

16 . Fórmula mágica
Já. seis meses eram passados desde que Domin-
gos se encontrava no Oratório. Findara o inverno
e voltara a primavera devolvendo aos prados de
Valdocco a relva e as andorinhas.
Nessa primavera de 1855 Domingos Sávio co-
meçou & sonhar de olhos abertos.
Foi assim. No primeiro domingo de abril,
Dom Bosco fizera uma pregação a seus meninos:
as pregações de Dom Bosco eram sempre bonitas,
e todos escutavam-no com gosto pelos fatos que
sabia contar com cores vivas e pelos argumentos
fáceis que tratava.
Naquele domingo Dom Bosco falou da santiA
dade, e dividiu o argumento em três pontos:
1 — E vontade de Deus que nos tornemos to-
dos santos.
2 — É muito fácil consegui-lo.
3 — Há um grande prémio preparado no céu
para quem se faz santo.
42
Um ou outro menino ao ouvir tais palavras
torcia o nariz, porque a santidade parecia-lhe coisa
muito difícil e impossível. Mas Domingos Sávio
ouviu com atenção. A medida que Dom Bosco
prosseguia com sua bela voz quente e persuasiva,
parecia a Domingos que a pregação fosse feita
somente para ele. Conquistar a santidade, como o
principezinho S. Luís, como o grande missionário
S. Francisco Xavier, como os martires. Parecem—lhe
sempre uma coisa dificil, eriçada de obstáculos:
Dom Bosco ao contrário dizia-lhe agora que era
fácil, muito fácil até.
Desde então Domingos começou a sonhar, e
seu sonho foi a santidade: "Deus me quer santo,
quero pois tomar-me santo". Dom Bosco havia
dito que se podia ser santo mesmo estando alegre.
Está bem. Mas como conseguir? Devia fazer peni-
tência como S. Luís, que se flagelava até o sangue?
Ou passar noites inteiras em oração como S. Fran-
cisco de Assis?
Eram coisas impossíveis para ele. Se fosse
mais velho haveria de partir para as missões como
S. Francisco Xavier, como os Apóstolos. Mas desse
jeito, entre livros e aulas, pátio e refeitório, como
fazer-se santo?
Andava preocupado, menos alegre que de cos-
tume. Dom Bosco percebeu. Procurou Domingos:
— Como vai de saúde, Domingos?
— Bem.
— Entretanto você não é o mesmo de antes.
Não ri mais: sofre algum mal?
— Não —— gracejou Domingos — ao contrário,
sofro de um bem.
— Que quer dizer?

43
— Veja, sinto o desejo e a necessidade de tor-
nar-me santo. Antes eu pensava que a santidade
fosse uma coisa difícil. Mas agora que o Sr. me
disse que é uma coisa fácil, e que todos podem
atingi—la, quero de jato, tenho absoluta necessida-
de de tornar-me santo. Mas não sei o que é que
preciso fazer, como devo comportar-me.
Dom Bosco sorriu. Domingos já havia progre-
dido muito no caminho da santidade, mesmo sem
se dar conta. Com efeito a santidade consiste em
querer bem 3 Nosso Senhor e a nossos irmãos.
E Domingos queria bem de fato, mesmo quando
lhe custava, mesmo quando devia fazer graves
sacrifícios.
Disse-lhe :
—— Vou dar-lhe a fórmula da santidade. Preste
bem atenção. Primeiro: alegria. O que inquieta e
tira a paz não vem de Deus. Não a alegria dos mo-
leques, mas a alegria que nasce da paz com Deus
e com os outros. Segundo: deveres de estudo e
e de piedade. Atenção na aula, aplicação ao estudo,
empenho em rezar bem. Tudo isso não por ambi-
ção, para receber elogios, mas por amor de Deus
e para tornar-se um verdadeiro homem. Terceiro:
Fazer bem aos outros. Ajude os colegas sempre,
mesmo à custa de sacrifício. Aí está toda a santi-
dade.
24 de junho era o dia. onomástico de Dom Bos-
co. Fez-se grande festa no Oratório, todos queriam
manifestar-lhe amor e gratidão. Dom Bosco, em
retribuição, disse:
44
— Veia, sinto o desejo e a necessidade de tomar-me santa (pág. 44)
— Cada um escreva num bilhete o presente que
deseja de mim. Garanto-lhes que farei todo 0 pcs—
sivel para contenta—los.
Quando leu os bilhetes, Dom Bosco encontrou
pedidos sérios e sensatos, mas encontrou outros
bem extravagantes que o fizeram sorrir: houve
quem lhe pedisse cem quilos de torrone “para. pro—
ver o ano inteiro”. No bilhete de Domingos Sávio
havia. cinco palavras: “Ajude-me a tornar-me san-
to”.

17. Comício no pátio

"Fazer bem aos outros” dissera Dom Bosco.


Era mesmo necessário. Nesse tempo Dom Bosco
não tinha assistentes para no pátio fazerem os
meninos brincar e conserva-los longe dos perigos
e das más conversas. De mais a mais o pátio do
Oratório pouco se diferenciava de uma praça aber-
ta a todos: era em campo aberto e quem quisesse
entrar, mesmo para prejudicar os meninos, encon—
traria poucos obstáculos.
Um dia, em pleno recreio, apareceu num canto
do pátio um senhor bem vestido, com bengalinha
de passeio e chapéu coco à cabeça. Descobriu um
grupo de jovens e avançou decidido em sua dire-
ção. Enquanto um ou outro começava a fitá-lo com
curiosidade, começou a falar em voz alta, chaman-
do a atenção também dos que brincavam longe.
Em poucos minutos muitos meninos amontoa-
ram-se ao redor da estranha. personagem. Vendo
um bom auditório, o distinto senhor deu início a
um verdadeiro comício, começme a falar mal
dos padres, da Igreja, da Religião. Chega então
46
Domingos Sávio. Ouve, abre caminho entre os co—
legas até chegar as barbas do orador. Volta—se en-
tâo para os colegas e grita:
— Vamos embora! Este infeliz quer roubar-nos
a alma, não percebem? Vamos deixá-lo sozinho e
continuªr a. brincar.
Acontecia também que durante os meses de
verão algum jovem pulasse & cerca e fosse refres—
car—se nas águas do Stura ou do Dora.
Havia perigo de alguma desgraça, porque em
certos lugares a água era funda. e impetuosa, e ha—
via também o perigo de ofender a Deus. Dom Bosco
já interviera vez por outra com severidade.
Não obstante a proibição, um dia mais quente
que de costume, um grupinho de amigos trocaram
uma piscadela e escapuliram pelo canto do pátio.
Domingos percebeu. Sem dar na vista juntou.
-se a eles, e começou a falar do vento e da chuva,
impedindo que se efastassem.
A certo ponto perderam a paciência. O mais
decidido deu-lhe & entender que sumisse. Então
Domingos tornou-se sério:
— Sei que querem ir ao rio. Mas eu não quero.
— Que mal há nisso?
— Há o perigo de se afogarem; há o perigo de
atenderem a Deus; e além do mais vocês desobe
decem a Dom Bosco que não quer que vão. E isso
lhes parece pouco?
— Mas hoje faz muito calor. Não aglientamos
mais!
Domingos fez-se muito sério, e disse pausada-
mente:
— Se não podem suportar o calor do verão,
como poderão tolerar o do inferno que irão ga-
nhar?
47
Após alguns minutos estavam todos brincando
do pátio. O calor estava esquecido.

18 . Arte difícil

Impedir o mal é um apostolado bastante fácil.


Mais difícil e mais complicado é fazer o bem. Re-
quer-se prudência, delicadeza, inteligência: uma
arte das mais difíceis. Domingos Sávio experimen-
tou, e aos poucos aprendeu.
Teve por vezes de engolir bocados amargos,
suportar injúrias, e também (e isso dói muito aos
rapazes) ser alvo de zombaria. Mas conseguiu.
Sabia contar anedotas, fatos, aventuras. E
quando estava no recreio e descobria colegas tris-
tes, ou a murmurar ou a falar coisas pouco limpas,
Domingos orientava a conversa.. Contava piadas,
fatos, aventuras, até voltar a alegria e o brinquedo.
Se era o caso, acrescentava algum episódio que lera
na vida dos santos, e assim deixava um bom pen-
samento. Sermões nunca. Notícias vivas, episódios
interessantes, bem escolhidos e bem narrados.
Assim, em pequenas doses, fazia bem a todos.
Nem sempre seus expedientes eram bem aco-
lhidos. Um sujeitinho, que estava meio de lua,
berrou:
— Mas que é que você tem que ver com isso?
Nesses casos Domingos punha-se sério. Res-
pondeu:
— Tenho sim, porque a alma de meus colegas
foi temida pelo Sangue de Jesus; também porque
somos irmãos, e devemos querer-nos bem ajudan-
do—nos mutuamente a salvar—nos; e porque se con-

48
sigo salvar uma alma, poderei estar certo da salva-
ção da minha alma.
Sábado era dia de confissões. Dom Bosco ia
para a sacristia, e os meninos confessavam-se com
ele. Havia quem se confessasse toda a semana, ea
da 15 dias, cada mês. Mas havia também quem não
se confessava já de há muito tempo. Esses tais ao
se encontrarem com Dom Bosco desviavam-se e
sumiam.
Domingos conhecia esses meninos pelo olhar
esquivo e pela alegria forçada. Fazia de tudo para
levá—los a Deus.
Travava com eles encamiçada luta de “rã", e
quando o jogo estava apaixonante murmurava:
“Você vai confessar-se sábado?". Mais para conti-
nuar o jogo e não começar uma conversa embara-
çosa, o colega respondia: “Está certo". E o jogo
continuava..
Domingos, porém, uma vez obtida a promessa,
ia trabalhando o amigo durante o resto da semana.
Todos os dias achava um pretexto para lembrar-
-lhe a palavra dada. Chegado o sábado, acompa-
nhava-o a igreja, confessava-se antes dele e juntos
faziam a ação de graças.
A coisa, porém, não era sempre assim tão sím-
ples. Algumas vezes, chegava o sábado, e o amigo
não aparecia. Domingos todavia não se dava por
vencido. Assim que o tornava a ver brincava:
— Você me fez uma, hein?
— Eu?
— Sim Você. Tinha-me prometido que se ia
confessar, mas. . .
— Não tinha vontade.
49
— Isso é feio. Se não tinha coragem é porque
havia algo de podre. Não percebe que está sempre
mal-humorado? Acredite em mim, vá confessar-se.
Vai sentir—se melhor.
Muitos, mais dia menos dia, cediam a suas
boas maneiras e punham a consciência em ordem,
em paz com Deus.

19, As ladainhas do carroceiro

Indo ou voltando da escola do Prof. Bonzani-


no, os alunos de Valdocco não ouviam apenas a
música dos Sªltimbancos, nem viam tão somente
as bandeiras das barracas. Pelas mas era um con-
tinuo vai-e-vem de carros e cavalos, e ouviam-se
gritos, imprecações e também horríveis blasfêmias.
Um colega de Domingos viu-o em dado mo-
mento tirar o chapéu e murmurar algumas pala-
vras. Perguntou-lhe:
— Que está dizendo?
— Não ouviu? — respondeu Domingos. -—
Aquele corroceiro nomeou o nome de Deus. Pu-
desse ir ter com ele, dir-lhe-ia que não o fizesse
mais, mas tenho medo de que faça pior. Contente
-me então a dizer: Louvado seja Jesus Cristo, para
reparar a ofensa a Nosso Senhor.
De outra feita passando pela rua Barbaroux,
Domingos ouviu um carroceiro a blasfemar. A ter-
ceira blasfêmia não resistiu mais e achegou—se ao
homem. Procurou sorrir e perguntou-lhe:
— Desculpe-me. Saberia dizer-me onde é o
Oratório de Dom Bosco?
Ante aquele rosto sorridente, o homenzarrâo
interrompeu a enfiada de blasfêmias e respondeu:
50
_ Poderia
—-
Não sei mesmo, meu menino. Sinto muito.
então fazer—me um outro favor?
— Com muito gosto. Qual?
Domingos sussurrou-lhe:
— Dar-me-ia um grande prazer se quando es-
tiver zangado não disser essas tão feias blasfêmias.
0 homem ficou como atingido por um raio,
depois resmungou:
-— Você tem razão. É mesmo um vício muito
feio que não está, certo.
Em outra ocasião Domingos ouviu blasfemar
a um menino de nove anos. Discutia com outro
menino em frente de casa, e ao discutir blasfema-
va. Domingos sentiu tanta raiva que tinha vontade
de bater nele. Conteve—se, porém, meteu-se no meio
dos dois briguentos, tomou pela mão o pequeno
blasfemador e com delicadeza e decisão disse—lhe:
— Venha.
Havia aí perto uma igreja. Entraram. Ajoeiha-
ram-se diante do altar:
—— E agora — disse Domingos — peça perdão

3 Nosso Senhor por haver blasfemado.


Depois acrescentou:
— Agora diga comigo: Louvado seja Jesus e
*

sempre seja louvado seu santo Nome.

20. A história de Dom Bosco


Aos poucos, vivendo no Oratório, Domingos
ficou conhecendo a história de Dom Bosco e de
sua obra.
D. Bosco fora um menino de Castelnuovo. Mo-
rava em Becchi. Aos 9 anos sua vida tinha sido
51
fortemente marcada por um sonho. Ele mesmo o
narrou.
“Aos nove anos tive um sonho, que me ficou
profundamente gravado na mente por toda a vida.
Dormindo pareceu-me estar perto de casa, num
pátio bem amplo, onde brincava uma multidão de
meninos. Alguns riam, não poucos blasfemapam.
Ao ouvir tais blasfêmias lancei-me logo no meio
deles, com socos e palavras para fazê-los calar.
Apareceu então um Homem cenerando, nobre-
mente vestido, O rosto em tão luminoso que não
podia fitá-lo. Chamou-me pelo nome e me disse:
— Não é com pancadas, mas sim com mansi-
dão e caridade que haverás de conquistar esses
teus amigos. Põe-te portanto a falar-lhes já da jeal-
dade do pecado e da preciosidade da virtude.
Confuso e assustado respondi que eu não pas-
sava de um menino pobre e ignorante. Nesse ma
mento os meninos, interrompendo as brigas e a
gritaria, reuniram-se todos ao redor de quem esta-
va falando. Quase sem saber o que estava dizendo,
perguntei:
— Quem sois vós, que me mandais coisas im-
possiveis?
— Sou o Filho quuela que tua mãe te ensi-
nou a saudar três vezes ao dia. Meu nome pergun-
ta—o a minha Mãe.
Vi então a seu lado uma Senhora de aspecto
majestoso, vestida de um manto que resplandecia
como o sol. Vendo—me con/uso, acenou—me para que
me' aproximasse, tomou-me com bondade pela mão:
— Olha! disse. Ao olhar percebi que aqueles
meninos todos haviam fugido; em seu lugar vi uma
multidão de cabritos, cães, gatos, ursos e de vários
outros animais.
52
— Eis teu campo, em que deveras trabalhar.
Torna—te humilde, forte e robusta: e o que agora
vés acontecer com estes animais, o farás para os
meus filhos.
Voltei então o olhar, e m' que em vez de ani-
mais ferozes apareceram outros tantos mansos
cordeirinhos, que saltitando corriam balindo, como
para fazer [esta ao redor daquele Homem e quue-
la Senhora.
Nesse ponto, sempre no sonho, pus-me a cho-
rar, e supliquei àquela Senhora que falasse claro,
porque eu não sabia o que aquilo significava.
Então Ela colocou a mão sobre a cabeça e me
disse:
—- A seu tempo tudo compreenderás.
Mal havia pronunciado essas palavras e um
ruído me acordou, e tudo desapareceu. Fiquei ator-
doado. As mãos pareciam doer-me pelos socos que
havia dado; que o rosto ardia pelos sopapos rece-
bidos daqueles moleques”.
Quando, à hora da refeição matinal, na cozinha,
contou o sonho, os irmãos José e Antônio deram
sonoras gargalhadas:
— Você vai ser pastor de ovelhas! —- disse
zombando José.
— Ou então um chefe de bandidos! — acen-
tuou maldosamente Antônio.
Mamãe Margarida, ao invés, fizera-se séria.
Olhava o filho inteligente e generoso, e disse:
— Quem sabe não serás padre.
Mas a avó feriu o chão impaciente e resmunu
gou:
—- Sonhos são sonhos, não devemos dar—lhes
fé. E agora vamos comer.
53
Não obstante o parecer da avó, Joãozinho de
onde em onde pensava no sonho, e parecia-lhe ca-
da vez mais que a mãe tinha razão: sacerdote pa-
ra fazer bem aos meninos.
Isso tornou-se um ideal. Mas não esperou
crescer para fazer o bem. Começou logo. Aprendeu
os truques dos charlatães e reproduziu-os perante
seus pequenos amigos. E entre um número e ou-
tro fazia—os rezar, ou repetia tintim por tintim
a pregação do pároco.
O negócio mais dramático foi ir à escola. O
irmão Antônio não queria saber disso: queria ver
o irmãozinho na roça, com a enxada na mão. Te-
ve de lutar e de engolir amargo para usar do di-
reito de percorrer a pé, todos os dias, a estrada que
da localidade dos Becchi levava a escola de Cas
telnuovo.
Aos vinte anos, após haver esmolado de porta
em porta algum dinheirinho para comprar os li-
vros, entrou para o seminário. Seis anos de inten-
sos estudºs.
5 de junho de 1841: Joãozinho Bosco torna-se
Dom Bosco e reza sua primeira Missa.
Que haverá de fazer agora Dom Bosco? Ofere-
cem-lhe encargos bem pagos como capelão de famí-
lias nobres. Mas ele recusa. Nas praças e ruas de
Turim, onde se estabeleceu, encontra os meninos
do sonho. São jovens pobres, pequenos trabalha-
dores que chegam de Valsesia, dos Vales de Lanzo,
do Monferrato, atraídos a Turim pelo primeiro
boom industrial e pela febre de construções. Vê-os
subir nos andaimes dos pedreiros, disputar um lu-
gar de garção nos bares, percorrer a cidade ofere«
54
cendo seus préstimos de limpa-chaminés. Nas en-
cruzilhadas jogam 3. dinheiro com o rosto sério e
decidido de quem está disposto a tentar todos os
meios para vencer na vida.
Um dia, ao visitar a cadeia, viu atrás das grades
um grupo de rapazes bastante jovens. Desfaz-se em
pranto. Ao sair, já. formulou uma decisão inaba-
lável:
— Consagrarei minha vida aos meninos de
Turim. Não sei como, mas alguma coisa hei de fa
zer. Esses rapazes tem necessidade de um trabalho
garantido, de um colégio, de um teto, de espaço
verde para brincar. E têm necessidade de uma igre-
ja para encontrar—se com Deus. Senhor, estou pron-
to. Dize-me por onde devo começar.
a de dezembro de 1841. Festa da Imaculada
Conceição de Nossa Senhora. Dom Bosco está pa-
ramentado para rezar Missa quando entra na sa-
cristia um menino. Traz as calças sujas de cal. É
um dos tantos ajudantes de pedreiro que chega-
ram a Turim em busca de trabalho. 0 sacristão
queria expulsa-lo, toma—o por um ladrão. Mas Dom
Bosco se opõe. Chama—o, tornam-se amigos. 0 me-
nino chama—se Bartolomeu Garelli. Assiste à Mis-
sa de Dom Bosco, e no fim recebe pequena aula de
catecismo.
No domingo seguinte Bartolomeu volta com al-
guns amigos. Os meninos começam a multiplicar—
-se. Para poderem brincar e fazer barulho mudarão
de local uma dezena de vezes, até que com Dom
Bosco à frente conseguem um barracão no bairro
de Valdocco. Ao redor desse barracão, lentamente,
cresce a obra de Dom Bosco: escolas, oficinas, igre-
jas. E meninos sempre mais numerosos.
55
21. Alarga-se o sonho

Domingos ficou encantado com a história de


Dom Bosco: como ele fora um pequeno camponês;
como ele descera das colinas do Monferrato, rico
de esperança e de pobreza. E conseguira fazer mui-
to bem aos jovens. Por que não haveria também
ele, Domingos, de conseguir?
O sonho se ampliava: “Assim que chegar a
ser clérigo — dizia —— quero ir a Mondônio, e reu-
nir os meninos debaixo de um telheiro, ensinar-
lhes o catecismo, contar muitos exemplos, e man—
tê-los alegres". Também Domingos quer um te—
lheiro, como o que Dom Bosco encontrara junto
à casa Pinardi: para que também ele se amplie,
temente, transformese numa obra miraculosa pa-
ra & juventude.
Mas como se sabe, todºs os meninos sonham.
Sonham os filhos de um almirante comandar & fro-
ta do pai, sonham os irmãos de um jogador de fu-
tebol tomar-se campeões do mundo, os netinhos de
um cantor popular sonham tornar-se músicos fa-
mosos. Mas ante a primeira dificuldade os sonhos
se desfazem, as bolhas de sabão explodem, e bem
poucos atingem o próprio ideal.
Quem são esses poucos? Os que têm vontade,
os que diante das dificuldades não se rendem, os
que amam o trabalho, mesmo custoso. Domingºs
Sávio não se contentou com sonhar apenas. Come-
çou logo, não a construir telheiros, mas a traba-
lhar e a doar-se aos que estavam ao seu derredor.
Dom Bosco escreveu :
“Onde há muitos jovens em grupo há normal-
mente alguns menos educados que os demais, mais
56
ignorantes ou mal—educados, ou então carregando
consigo algum desgosto que os afasta dos colegas.
Ainda que não pareça, esses jovens sofrem ao se
verem evitados, abandonados, e têm maior necea
sidade de amigos que os demais. Pois bem, esses
eram os amigos prediletos de Domingos Sávio.
Achegava-se a eles, mantinha—os alegres, fazia—os
brincar... Quem tinha algum aborrecimento ia
confiá—lo a ele. Se havia algum doente na enfer-
maria, o enfermeiro mais procurado, mais ben»
quisto era sempre Domingos. .
Aí estão os primeiros meninos abandonados
socorridas por Domingos. E estava disposto a dar
algo de seu, algo que lhe custava para fazê-los fe-
lizes. Um dia (era sábado) convidou um deles a
acompanha-lo à igreja para rezar. Teve como resv
posta que com as mãos duras de frio não tinha
ânimo para ficar parado na igreja para rezar. Do.
mingos descalçou as luvas e emprestou-lhas. A mes-
ma coisa fez outra ocasião com a capa.
A senhora idosa com um grande lenço amar-
rado à cabeça que Domingos havia visto às vol-
tas com as panelas da. cozinha, e a quem já cha-
mava com carinho “Mamãe Margarida", disse um
dia a seu filho: P. João, tens aqui no Oratório
muitos jovens bons, mas podes acreditar em mim,
bons como Domingos Sávio não há nenhum”.

22. Um altar para Nossa Senhora

0 altar
de Nossa Senhora ante o qual Domin-
gos Sávio se ajoelhara no dia 8 de dezembro pa—
ra consagrar-se a Maria Santíssima, e que tantas
57
vezes o vira de volta para renovar sua. consagra-
ção, estava todo enfeitado. Começava o mês de
Maio.
O mês de maio, que o povo cristão dedicou à
Rainha do Céu, chamava-se nas casas de Dom Bos-
co Mês de Nossa Senhora. Os meninos manifes-
tem seu amor à Mãe de Deus, recolhendo rama-
lhetes de flores espirituais para oferecerem a Ela
no dia de sua Festa.
Domingos Sávio com alguns dos meninos me
lhores decidiram armar um altarinho a Nossa Se-
nhora no dormitório, Era. preciso providenciar
uma toalha branca, dois castiçais artísticos, dois
belos vasos, uma cortina para servir de fundo ao
quadrozinho de Nossa Senhora das Dores que já
pendia da parede.
“Providenciar", porém, é uma palavra. Como
todos os estudantes do mundo, estavam sem vin-
tém. Fixou-se pequena contribuição que cada um
deveria desembolsar. Mas alguns não tinham se-
quer essa irrisória quantia, e entre eles estava Do-
mingos.
Revolveu sua carteira e encontrou alguns li-
vros. Gostava muito deles porque os recebera co«
mo prêmio de Dom Bosco. Levou-os aos organiza-
dores:
Não tenho mais nada. Será que servem?
——

O gesto simpático fez brotar uma idéia: fa-


zer uma rifa. Arranjaram outros livros. Alguém
abriu generosamente o pacote de provisões rece-
bido de casa. Foi uma rifa e tanto, e ao contarem
à noitinha as entradas, o rosto dos pequenos or-
ganizadores iluminou-se de satisfação: dinheiro ha-
via!

58
Decidiu-se armar o altar naquela mesma noi-
te, mesmo a custo de ir muito tarde para a cama.
Terminaram à meia-noite e se ajoelharam, com
os olhos cansados mas cheios de alegria, murmu-
rando: Ave Maria.

23. Verdes colinas de Mondônio


Férias. Palavra magica também nos tempos
de Domingos, que fazia sonhar aos estudantes.
Não se falava ainda em mar ou montanhas, mas
de campo, porque quase todos os alunos de Dom
Bosco provinham dos campos piemonteses. Após
um ano escolar muito mais longo que o nosso volta-
riam aos verdes prados, a correr atrás dos passa-
rinhos, a comer frutas em abundância.
Não havia rádio nesse tempo, nem cinema,
nem televisão; havia contudo árvores carregadas
de frutos maduros, a uva começava a colorir-se
nos vinhedos, e isso bastava para os meninos.
A noitinha haveriam de sentar-se ao lado do
papai e da mamãe a soleira da casa para ”respirar
ar fresco”, a ouvir a sinfonia imensa dos grilos que
(se espraiava pelos prados, a perseguir com os
olhos os vagalumes que dançavam silenciosos no
ar, e contariam aos pais as aventuras do ano pas-
sado em Turim.
Também Domingos pensava em Mondônio, no
papai, na mamãe e nos irmãozinhos que o espera-
vam. Teve algum momento de hesitação antes de
partir, mas Dom Bosco convenceu-o que as férias
lhe fariam bem a saúde, e então partiu.
O dia da partida do Oratório era alegre mas
tinha também o seu quê de tristeza: era preciso
59
dizer adeus a tantos amigos, alguns dos quais não
voltariam mais, sobretudo era necessário deixar'
Dom Bosco, o amigo de sua alma. Mas haveriam
de rever-se breve.
Partindo com o pai na carruagem que galga-
va a colina turinesa, Domingos revolvia como um
eco as derradeiras recomendações de Dom Bosco:
"As férias podem ser a colheita do diabo. Não fi-
quem ociosos: divirtam—se, corram, puiem, façam
bem aos amigos; mas fujam os maus companhei-
ros, e observem sempre a santa Lei do Senhor. .
Domingos pensava: “Minhas férias não serão
a colheita do diabo, mas a ceifa de Nosso Senhor".
Ouvia falar da juventude de Dom Bosco: fa-
zia jogos de prestígio, saltava na corda, fazia dan-
çar na ponta do nariz a varinha mágica, e em se-
guida repetia aos espectadores o sermão do pá-
roco e tirava o terço. Aos pequenos ensinava 0 ea-
tecismo, levava-os à igreja, contava—lhes a vida de
Nosso Senhor.
Também ele faria assim: não sabia fazer os
jogos de prestígio, nem saltar na corda amarrada
a uma árvore: mas haveria do mesmo jeito de tor-
nar amigos seus companheiros. Aprendera muitos
fatos bonitos, muitos episódios interessantes que
haveria de contar.
Assim que abraçou a mãe e os irmãozinhos,
Domingos viu—se rodeado dos antigos colegas, que
agora se mostravam um pouco constrangidos di-
ante dele, Haviam ficado no campo o ano inteiro:
tinham o rosto vermelho e as mãos grossas e duras
de tanto manejar a enxada. Domingos ao invés era
pálido, delicado. Parecia pequenino como quando
partira.
60
Logo voltou a amizade de um tempo e Domin-
gos passava com eles horas a fio: falava de Turim,
das aulas na cidade, explicava—lhes o que havia
aprendido. E juntos iam à igrejinha para rezar.
Já não estava sozinho de manhã, na Missa: os
amigos vinham também com ele.
Havia alguns já crescidos que não sabiam se-
quer fazer o sinal da cruz. Um deles especialmente
deu muito trabalho a Domingos e teve de usar de
muita paciência para fazê-lo aprender um pouco de
catecismo. Mas conseguiu, e foi sua mais bela con-
quista.
Mas não estava sempre a vaguear pelos cam-
pos ou a conversar com os amigos: sabia também
encontrar tempo para recolher—se a estudar e a ler
tranquilamente.
Quem mais gostava de sua. companhia eram os
irmãozinhos. Mãe Brigida sentia—se feliz ao vê-los
brincar juntos.
Mas as férias, como tudo o que é bom, passa-
ram velozes.
O novo ano escolar 1855-56 estava. chegando.
Domingos, cumprimentou os amigos e voltou para
a grande família de Valdocco, onde o aguardavam
Dom Bosco, os colegas e mais dez meses de estudo
e de conquistas.
Ao percorrer a estrada que descia para Turim,
Domingos não podia imaginar que estava. iniciando
o último ano escolar completo de sua vida. Contu-
do os que o conheceram disseram que Domingos
voltou para Valdocco com “grande pressa": pressa
de trabalhar, pressa de tornar-se santo: como se
alguém lhe houvesse dito que o tempo era pouco, e
61
que a noite de sua breve vida se aproximava rapi-
damente.

24. A grande pressa


Em Valdocco Domingos reviu com alegria os
colegas. Mas a quem mais desejava rever era Dom
Bosco. Transmitiu-lhe as saudações dos pais e con-
tou—lhe tudo o que conseguira fazer durante as fé-
rias.
Dom Bosco ficou contente, mas fitando Domin-
gos no rosto sentiu profunda comiseração:
— Mas, Domingos, você descansou durante as
férias?
— Sim, Dom Bosco, por que?
—— Você está mais pálido
que de costume. Que
aconteceu?
— Talvez o cansaço da viagem — e sorriu cal-
mamente.
Mas não era cansaço passageiro. Os olhos en-
covados e brilhantes, o rosto pálido e magro de-
notavam claramente que a saúde de Domingos
não estava tão boa assim. Se nem mesmo o ar de
sua terra conseguira ajudá-lo, era preciso cuida-
do. E Dom Bosco decidiu ajudá-lo de qualquer ma-
neira.
— Este ano você não irá à aula na cidade:
sair com a neve e o frio do inverno poderia pre-
judicá—lo. Vai estudar em casa: seu professor será
o P. Francesia. Assim poderá descansar mais de
manhã., e também durante o dia. Recomendo mo-
deração no estudo, porque a saúde é um dom de
Deus, e não devemos estraga-1a!
62
Domingos obedeceu, como sempre. Descansou
mais, procurou não exceder-se no estudo, mas
como prevendo algo de grave a ameaça-lo, disse
a Dom Bosco:
— Devo correr, de outra sorte a noite me sur-
preende no caminho.
Um outro amigo, impressionado com o seu
empenho em fazer bem todas as coisas, lhe disse:
— Mas se você faz tudo este ano, que vai ta-
zer no ano que vem?
Domingos replicou :
— Deixe isso comigo. Este ano quero fazer o
que posso. No ano que vem, se estiver vivo, direi
& você o que pretendo fazer.

E a Dom Bosco:
— Quero entregar—me todo a Nosso Senhor.
Sinto necessidade de tornar-me santo, e se não
me torno santo, nada faço. Ajude-me & tornar-me
santo, e depressa!

25 . A cólera
O verão e o outono daquele ano foram parti-
cularmente quentes.
Ao tempo em que sobre Turim parecia pesar
uma capa oprimente, correu célere uma notícia
assustadora: a cólera está se alastrme pela ci-
dade. A terrível doença que de onde em onde gras-
sava e fazia vítimas nas cidades e nos campos co-
mo uma guerra atômica, fora trazida ao Piemon-
te talvez por algum veterano da guerra da Cri-
méia.
63
O rei, Vitor Emanuel II, e toda a família real
abandonaram precipitadamente Turim num car.
ro fechado, e refugiaram-se no solitário castelo de
Caselette.
A peste dízimava a cidade. Mais de cem ata-
cados todos os dias. As famílias ainda sãs fecham-
se em casa, trancam as portas, evitam todo con-
tato com outras pessoas. Os atingidos morrem so-
zinhos, abandonados.
O prefeito de Turim lança um apelo aos mais
corajosos: é preciso entrar nas casas, transportar
os doentes para o lazareto, tratar deles.
Arriscar & vida para salvar a cidade.
Dom Bosco reúne seus 500 jovens:
— O prefeito lançou um apelo aos corajosos.
Se algum de vocês está disposto a sair comigo pa-
ra ajudar os colerosos, garanto em nome de Nos-
sa Senhora que nenhum de nós será atingido pela
doença. Contanto que conserve a graça de Deus e
traga consigo uma medalha de Nossa Senhora.
Naquela mesma noite quarenta e quatro, den-
tre os maiores, ofereceram-se como voluntários.
Entre eles, Domingos Sávio.
Dias de trabalho pesadissimo. Ha tempo ape-
nas para comer alguma coisa, e em seguida per-
correr ruas, visitar casas. Em macas improvisa-
das, os doentes são transportados para o lazare-
to. Muitos, porém, não estão em condições de se-
rem carregados. São então atendidos pelos meni-
nos, que os confortam nos últimos momentos.
Quando o calor amainou, a cólera pareceu es«
morecer. Já são poucas as vítimas. A cidade volta
a viver.
64
Ao passar uma noite pela rua. Cottolengo, Do-
mingos Sávio olha para a fachada de uma casa,
e como se uma voz o chamasse, entra e precipita-
-se escadas acima. Sem titubear bate a uma. porta
0 dono atende.
— Desculpe — diz Domingos — deve haver
aqui uma pessoa doente de cólera que precisa de
assistência.
O pobre homem arregala os olhos:
— Não, não, aqui não há ninguém! Só falta-
va isso.
— Mas tem certeza?
— Absoluta, com os diabos!
—— Mas está enganado. Deixe-me dar uma es-

piada?
O homem cai das nuvens. Sabe muito bem
que em sua família, graças a Deus, todos estão
bem. Mas aquele rapaz insiste de um jeito que
parece. ..
— Entre, entre. Vamos ver então. Mas verá
que está errado.
Exsxninam os quartos, a cozinha, o depósito.
Nada.
— Mas não haverá algum quartinho, um des-
vão qualquer?
-— Ah! — faz o dono batendo com a mão na
testa. — Há um quartinho, sim! Será a Maria?
Sobem. Sob o telhado há uma mísera alcova.
Agachada a um canto, rosto crispado pela agonia,
uma pobre mulher está. nas últimas.
—— Depressa, chame um sacerdote, diz baixi-

nho Domingos, e põe-se com desembaraço & pres—


tar seus préstimos de enfermeiro.
65
— A Maria! Mas quem haveria de pensar? —
continua. a repetir o bom homem descendo a cor—
rer as escadas em busca do pároco. A pobre mu-
lher que costumava trabalhar em casas de familia,
havia-lhe pedido licença para dormir naquela alco-
va. Como saía de madrugada e voltava a noite, o
homem quase não se lembrava dela.
Chegou o pároco e administrou os sacramen-
tos à morimbunda. A um canto, chapéu na mão,
o dono da casa não cessa de repetir: “Pobre Ma-
ria! Mas como é que aquele menino veio a
saber?".
Com a chegada do inverno a cólera cessou. Os
500 meninos de Dom Bosco, nenhum dos quais
fora colhido pela doença, puderam voltar tranqiii.
lamente aos estudos. Também Domingos, como se
nada houvesse acontecido, voltou aos livros e às
aulas do P. Francesia.

26. A obra-prima de Domingos


Não eram grandes coisas que Domingos podia
fazer pelos outros, mas fazia “tudo o que podia”.
Sempre disponivel. Se havia um doente a assistir,
um colega que precisasse de algum repasse, um
quarto a arrumar, estava sempre pronto. Chegou
a emprestar suas luvas de lã & um pequerrucho
que tremia de frio.
Um dia, porém, teve uma idéia grandiosa. Ha-
via também outros jovens que se esforçavam por
fazer bem aos outros. Chamavam—se Miguel Rua,
João Cagliero, José Bongioanni. Celestino Duran-
do: nomes que se haveriam de tomar célebres na
Congregação Salesiana. Mas cada um agia por con-
66
ta própria. Por que não se unirem, todos os jovens
de boa vontade, numa associação para trabalha-
rem juntos, para organizar o bem que cada um
fazia por conta própria?
A sociedade se constituiria de um grupo esco-
lhido, e poderia chamar-se “Companhia de Maria
Imaculada".
Tratou do assunto com alguns dos melhores
colegas. A idéia foi acolhida com entusiasmo.
Dom Bosco, porém, aconselhou não precipitar
as coisas, não agir depressa demais. Convinha expe-
rimentar, traçar um pequeno regulamento e estar
çar»se por pratica-lo. Depois de alguns meses po-
dia-se voltar ao assunto.
E experimentaram. Houve a primeira “reunião
geral". Os sócios concordaram em diversas coisas.
Antes de tudo a "Companhia” devia manter—se se-
creta no Oratório. Apenas Dom Bosco e os asso—
ciados deviam conhece—1a. Além disso fixou-se cla-
ramente a finalidade da Companhia. Os membros
deviam esforçar-se por tomar-se melhores frequen-
tando a Confissão e a Eucaristia, e cultivando filial
devoção a Maria Santíssima. Empenhavam-se aín-
da em ajudar a Dom Bosco tornando-se, com pru-
dência e delicadeza, pequenos apóstolos entre os
colegas. Não seriam uma polícia, e muito menos
um serviço secreto de espionagem, mas um grupo
de rapazes alegres e seremos a derramar alegria e
serenidade em torno de si.
A assembléia encarregou três membros de
escrever um primeiro regulamento da Companhia,
o qual deveria depois ser aprovado e praticado por
todos.
67
Os encarregados foram: Domingos Sávio, de
15 anos; José Bongioanni, de 18 anos; Miguel Rua,
auxiliar de Dom Bosco e que já era professor dos
colegas.
Quem escreveu o regulamento foi Domingos.
É Dom Bosco quem no-lo diz e o P. Francesia, seu
professor, quem o confirma.
Domingos pôs nesse trabalho todo o seu amor
a Nossa Senhora e todo o seu zelo de apóstolo. Ao
mesmo tempo que compunha o regularmente da
Companhia, Dom Bosco compunha as Regras da
Congregação Salesiana.
Quando tinha um momento de tempo livre,
Domingos tomava seus papéis, pensava e escrevia.
Se surgia alguma dificuldade, subia ao quarto de
Dom Bosco.
Chegou assim o dia 8 de junho de 1856. A pa«
lavra "fim" fora aposta ao termo da última folha.
Tudo havia sido passado a limpo, e circulado entre
os sócios da Companhia, que deram sua aprovação.
Também Dom Bosco havia lido e aprovado.
Agora, em reunião geral, Domingos pôs-se a
ler devagar “seu" regulamento.
Após breve introdução em que a Companhia
se consagrava a Virgem, enumeravam-se as três
obrigações fundamentais dos sócios. Ei-las:
1." Observar rigorosamente as Regras da
Casa.
2.ª Procurar o bem dos companheiros ad-
moestandoos e incitando-os a virtude
com as palavras e especialmente com o
exemplo.
BP Ocupar exatamente o tempo.

68
Seguiam-se 21 artigos do regulamento. Eis os
quatro primeiros:
1.“ Nossa primeira regra será uma rigorosa
obediência aos superiores, aos quais nos
submetemos com ilimitada confiança.
2 .º O cumprimento dos próprios deveres será
nossa primeira e especial ocupªçâo.
3.“ A mútua caridade unirá. nossas almas e
fará. amar indistintamente nossos irmãos,
aos quais admoestaremos com amabilida-
de quando parecer útil fazer uma corre
çâo.
4 .º Escolher-se-á meia hora na semana para
reunir-nos, e após a invocação do Espírito
Santo, feita breve leitura espiritual, se
tratará dos progressos da Companhia na
devoção e na virtude.
Eis agora o 21.º e último artigo. Nesse se con-
densa o espirito da Companhia e o amor de Do—
mingos a Nossa Senhora.
21.“ A sociedade é posta sob os auspícios da
Imaculada Conceição, da qual teremos o
título e usaremos uma medalha. Uma
sincera, filial, ilimitada confiança em
Maria, um especial carinho para com Ela,
uma devoção constante nos tornarão
vencedores de qualquer obstáculo, fir-
mes nos propósitos, amáveis com nosso
próximo e exatos em tudo.
Nesse dia, 8 de junho de 1856, nascia a obra-
-prima de Domingos Sávio: a Companhia da
Imaculada.
69
Restavam-lhe agora apenas 9 meses de vida,
mas sua Companhia haveria de durar mais de cem
anos. Em todos os Institutos da Congregação Sa-
lesiana, em todos os Oratórios, haveria de preparar
os jovens para intensa vida cristã.
Com o nome de “Amigos de Domingos Sávio"
ou “Sávio Club", a associação continuaria & crea
cer e a promover o bem até nossos dias.

27. Clientes de primeira e de segunda categoria


A Companhia pôs-se a trabalhar.
Numa das primeiras reuniões decidiu-se con-
fiar a cada sócio um determinado “cliente".
No começo do ano escolar no Oratório, como
em todas as escolas do mundo, chegavam os no-
vatos.
Os primeiros dias eram para eles particular-
mente delicados: não conheciam ninguém, não
sabiam jogar, falavam somente o dialeto de sua
terra que era em geral diferente do dos colegas,
curtiam saudades... Eram dias de tristeza e lá-
grimas.
Os sócios da Companhia, em sua linguagem
secreta, chamavam de “clientes" aos recém-chega-
dos. Cada um deles era confiado a um sócio que :)
ajudava e mantinha alegre.
Um dos primeiros “clientes” de Domingos Sá-
vio foi Francisco Cerruti, que seria mais tarde um
grande salesiana. Eis o que escreveu:
“Havia entrado no Oratório na tarde de 11 de
novembro e estava muito triste ao pensar em ma-
mãe, que havia deixado sozinha. No dia seguinte
70
à minha. chegada, quando, bastante abalado, me
recostava, após o almoço, a uma coluna, veio-me
ao encontro um jovem de rosto sereno e maneiras
gentis, que me perguntou:
— Quem é você? Como se chama?
—— Francisco Cerruti — respondi.

— De que lugar?
— De Saluggia.
— Em que ano está?
— Na Segunda Gramática (mais ou menos,
sexta série ginasial).
— Então você sabe latim! Qual e' a etimologia
de “sonâmbulo”?
E pusemo—nos & conversar. De repente pergun-
tei:
—- Mas quem é você?
— Sou Domingos Sávio, de Mondônio. Vamos
ser amigos, não?
-— Claro.
Desde esse momento tive oportunidade de
estar com ele muitas vezes e em muitas circunstân-
cias íntimas até. Domingos foi para mim um “ver-
dadeiro amigo".
A Companhia não tardou a escolher também
uma segunda. categoria de “clientes": os meninos
mais relaxados, indisciplinados, inclinados a. blas-
femar e brigar. Os sócios da Imaculada dividiram
entre si esses “clientes" mais difíceis, para com
bondade e delicadeza, fazê-los reencontrar o bom
caminho. Nem sempre era fácil. A paga que Do-
mingos recebeu foram muitas vezes insultos, pala-
vrões e bofetões. Eis uma reminiscência do mesmo
Francisco Cerruti:
71
"No inverno de 1857, inverno bastante rigoro-
so, um menino divertia-se & lançar bolas de neve
até dentro do locutório, o único lugar protegido
onde nos reuniamos nos recreios para desfrutar o
calor. Havia lá. uma estufa, a única do Oratório.
Quando transiclos de frio os estudantes voltavam
da cidade, refugiavam—se no locutório. Um apren-
diz chamado Rattazzi e um colega entraram um
dia correndo e "guerreando" com bolas de neve.
Domingos disse a Rattazzi:
— Vão brincar lá fora. Não atirem neve aqui
dentro.
——Rattazzi, um sujeito pouco recomendável,
ficou furioso, cobriu-o de insolências e ameaças e
deu—lhe uns tapas. Eu estava presente, vi Domin-
gos corar, cerrar os punhos, mas não reagiu se-
quer com uma palavra mais forte".

28. Sorrir mas agir sério


A partir da fundação da Companhia da
Imaculada, muitas coisas começaram a melhorar
no Oratório.
Alguns professores (que nada sabiam, porque
a Companhia conservava-se secreta) admiravam-se
com a mudança.
O P. Francesia notava entre seus alunos ver—
dadeira emulação no estudo e no bom procedi-
mento, e só veio a saber do motivo alguns anos
depois. Dom Bosco estava muito feliz, e chamava
a Companhia sua “Guarda Imperial".
Era difícil agora que uma pessoa mal inten-
cionada, entrasse no Oratório para promover “co-
mícios” contra a religião, para atiçar os jovens
72
.. tomou o jornal, e sempre sorrindo, jê—Ia em pedaços (pág. 74)
contra Dom Bosco, como acontecia infelizmente
em outros tempos. Era difícil ainda que maus jor-
nais viessem a circular entre os jovens. Os mem-
bros da Companhia, sorrindo mas agindo sério,
mal os percebiam, davam-lhes sumiço.
Aconteceu um dia que um menino recebeu
não se sabe de quem um jornal ilustrado que trazia
figuras não muito limpas. Reuniram-se logo a seu
redor dois ou três amigos, e depois outros mais.
ºlhavam e riam.
Domingos passava por aí, e aproximou-se.
Abriu caminho, tomou o jornal das mãos do dono,
e fê-lo em pedaços. Houve quem quisesse protes-
tar. Domingos não lhe deu tempo: protestou pri-
meiro.
—- Assim não vai. Coisas sujas não devem en-
trar em nossa casa!
— Mas era só para rir.
— Você quer ir rindo para o inferno?
— Mas afinal de contas que mal há nisso?
Domingos tornou-se sério:
— Não acha nenhum mal em olhar essas coi-
sas? Então quer dizer que está habituado a vê—las.
Ninguém mais se atreveu a protestar. Volta-
ram aos brinquedos, enquanto o vento espalhava
pelo campo os restos do desafortunado jornal.

29. Com a mão nas mãos de Deus.


No Oratório os jovens eram todas as manhãs
convidados a participar da Santa Missa.
Certa manhã de maio Dom Bosco, %. hora da
Comunhão, desceu os degraus do altar para dis-
74
tn'buir a Eucaristia. Mas ninguém se apresentou
para receber a Jesus.
Dom Bosco ficou pesaroso. Voltou lentamente
ao altar, e concluiu com tristeza a Missa.
Foi a última vez que Dom Bosco teve esse des-
gosto, porque surgia naqueles dias a Companhia
da Imaculada, e um dos compromissos assumidos
pelos sócios era precisamente este: dividir-se du-
rante a semana. para que todas as manhãs hou-
vesse sempre alguém para comungar.
Foi o presente mais agradável para Dom Bosco,
porque ele (como dizia alguém que não o com-
preendia) tinha ”a idéia fixa" dos Sacramentos:
Confissão e Comunhão. Queria que seus jovens
tivessem fome de Jesus Eucaristia, porque sabia
que somente com Ele podiam vencer a batalha da
vida. Sabia que seus jovens eram fracos e que
Jesus era sua força. Dom Bosco cria na palavra de
Jesus: “Quem come minha carne e bebe meu san-
gue, tem em si a vida e eu o ressuscitarei no últi.
mo dia”.
Por isso nas palavras de Dom Bosco Con/is-
são-Comunhão são como um estribilho: repetia-as,
em qualquer ocasião, sem jamais se cansar, por-
que sabia estar nessas duas palavras o segredo da
força e da felicidade de seus filhos.
Domingos Sávio antes de chegar a Valdocco
frequentava a Confissão e a Comunhão uma vez
ao mês. Já era muito para aqueles tempos, nos
quais se acreditava que o respeito devido à Euca-
ristia consistia em quase nunca recebe-la. Mas na
escola de Dom Bosco aprendeu logo que a Euca-
ristia é o pão da alma, e que o pão não se come
somente uma vez por mês se se quer crescer são
e robusto.
75
Uma das exortações de Dom Bosco que mais
o impressionou nos primeiros tempos foi esta:
"Meus jovens, se quiserdes perseverar no ca-
minho do céu, três coisas vos recomendo: aproxi-
mei-vos muitas vezes do sacramento da Confissão,
freqiientai & Santa Comunhão, escolhei um confes-
sor a quem possais abrir o coração, não mudando
sem necessidade”.
Domingos pô—la em prática. Escolheu Dom
Bosco para seu confessor, e abriu-lhe de todo sua
alma.
Conforme o conselho de Dom Bosco começou
a receber Jesus-Eucaristia três vezes na semana“
Depois de um ano, Dom Bosco permitiu-lhe rece-
ber a Comunhão todos os dias.
Domingos dizia:
— Quando sinto o coração perturbado procuro
o confessor, e ele me fala em nome de Deus. E se
quero algo de grande, vou receber a Eucaristia,
que é Jesus. Que me falta para ser feliz? Apenas
ver Nosso Senhor. Mas haverei de vê-lo no Céu.

30. Lenço branco na lama da rua


Chovera à noite, e as ruas de Turim estavam
barrentas e riscadas de fios de água. Domingos ia
à. escola com seus colegas, quando ouviu o tilintar
de uma campainha. Passava o viático. Nesses tem-
pos, a Comunhão aos doentes, como conforto na
viagem para a eternidade, era levada solenemente.
0 sacerdote vestido de sobrepeliz e estola cami-
nhava debaixo de um pequeno baldaquim, com a
Santa Hóstia envolvida em um rico véu bordado.
76
Aos lados dois coroinhas carregavam duas tochas
acesas.
Ao ouvirem a campainha seus colegas retira.
ram-se para as calçadas e fizeram o sinal da cruz.
Domingos, porém, ajoelhou—se.
— Parece que não é necessário — disse depois
um amigo como para censurá—lo. — Que necessi-
dade há de sujar toda a roupa e molhar-se. Nosso
Senhor não manda isso!
Domingos fitou—o sorrindo:
Joelhos e calças são coisas de Nosso Se-
——

nhor, não lhe parece? Por Ele não só me lançaria


na. lama, mas até no fogo!
Em outra ocasião repetiu-se o mesmo teto.
Desta feita, porém, ao lado de Domingos, numa
esquina, achava—se por acaso um soldado. 0 coroi»
nha agitava & campainha, mas o militar mantinha-
-se firme e imóvel. Domingos tirou do bolso o lenço
branco, estendeu—o no chão, e convidou-o com um
gracioso sorriso a ajoelhar-se. Confuso, o soldado
ajoelhou—se no chão.

31 . Fazei penitência!
Algumas frases do Evangelho impressionar-am
sobremaneira a Domingos. Ei-las:
“Naqueles dias apresentou-se João Batista a
pregar no deserto da Judéia, e dizendo: “Fazei peni-
tência, pois bem próximo já está o reino no céu. . .'
Trazia uma veste de pelos de camelo e um cinturão
de como nos rins; o seu alimento eram gafanhotos
e mel silvestre" (Mt 3, 1-4).
77
“Tomando a palavra, Jesus ensinava nas se-
guintes termos: “Entrai pela porta estreita. Pois
larga é a porta e espaçosa a estrada que conduz à
perdição, e muitos são os que enveredam por ela.
Mas estreita e' a porta, e apertada a estrada que
conduz à vida, e quão poucos são os que a encon-
tram!” (Mt 7, 13-14).
”E Jesus disse 'Se não fizerdes penitência,
perecereis todos do mesmo modo” (Lc 13,3).
Depois de ler o Evangelho, Domingos decidiu
fazer penitência. E não se contentou com & morti-
ficação dos olhos, com a compostura exten'or,
com o empenho no estudo, mas procurou alguma
coisa que o fizesse de fato sofrer.
Foi assim que disseram a Dom Bosco que
Domingos tinha começado a Quaresma jejuando
todos os dias & pão e água. Chamou—o imediata-
mente, e fazendo-lhe notar a pouca saúde, proibiu
que jejuasse.
— Pelo menos aos sábados, em honra de Nos—
sa Senhora — implorou Domingos.
Dom Bosco foi decisivo. Nenhuma mortifica—
ção na alimentação. Devia estudar e crescer com
boa saúde. Isso é que Deus queria dele.
Mas as frases do Evangelho voltavam-lhe com
insistência à. mente. E tomou uma decisão: à. noite
suportaria um pouco de frio. Com o aproximar—se
de dezembro, ao passo que seus companheiros
começaram a amontoar cobertores debaixo da col-
cha branca (nesse tempo nem se sonhava em aque—
cimento no dormitório), Domingos conservou sua
cama leve como em pleno verão. E debaixo dos
lençóis colocou pedaços pontudas de tijolo, para
o molestarem um pouco durante o sono.
78
Chegou janeiro, e um dia de manhã Domingos
não se sentiu muito bem.
Os colegas desciam, mas ele deixou-se ficar no
dormitório, todo encolhido, com um pouco de
febre.
Avisado, Dom Bosco subiu imediatamente para
ver de que se tratava. Encontrou-o & tremer debai-
xo de um cobertor pequeno e fino, sorrindo sem—
pre seu eterno sorriso. Dom Bosco ficou sério:
— Mas, Domingos, quer morrer de frio?
—— Não, Dom Bosco, não morrerei
por tão pou-
co. Jesus na gruta de Belém e quando pendia da
cruz estava menos coberto que eu.
Dom Bosco não quis argumentar.
— Escute, Domingos. Proíbe-lhe absolutamen-
te qualquer penitência. Antes tem que me pedir
licença. Entendidos?
Acrescenta Dom Bosco que Domingos “àquela
ordem, submeteu-se, embora com pesar". Encon-
trou-o alguns dias depois, e percebeu que Domin-
gos estava preocupado.
— Que há de novo?
— Estou mesmo atrapalhado — suspirou. —
Jesus disse que se não faço penitência não irei
para o céu; e o Sr. me proibiu.
— É verdade — respondeu Dom Bosco. — To-
dos devemos fazer penitência para ir para o céu,
mas a Penitência que Deus quer de você é a obe-
diência. ºbedeça, e tudo estará. bem.
— E não poderia permitir—me qualquer outra
penitência?
— Sim — respºndeu Dom Bosco. — Permite—
-lhe suportar com paciência as ofensas; tolerar com
79
resignação o calor, o frio, o cansaço e todos as in-
cômodos de saúde que Deus permitir.
— Mas a gente já. sofre isso por necessidade ——
observou rindo Domingos, como, se Dom Bosco
estivesse brincando. Mas Dom Bosco falava sério,
e acrescentou:
— Veja, se o que deve sofrer por necessidade,
você oferece a Deus, tornarse—á virtude e mereci-
mento para sua alma.
Domingos compreendeu. De aí em diante dei-
xaria a escolha 9. Nosso Senhor. E tudo o que Ele
lhe mandasse (calor, frio, cansaço, doenças), ha-
veria de recebê—lo de sua mão, e sofreria por seu
amor. De sua parte obedecer-ia: à lei de Deus, ao
confessor. Rezaria com atenção, estudaria com em-
penho, mortificaria & vista, empenhar-seia em fa—
zer bem aos companheiros. Essa era a penitência
que Deus lhe ordenava.

32. ºlhos para ver Nossa Senhora


Dom Bosco, que não podia conter as lágrimas
ao escrever a vida do pequeno santo, consagra to—
do um capítulo à lembrança do espirito de mor-titi
cação de Domingos.
Os olhos de Domingos, rapaz inteligente e sen-
sível, eram vivacíssimos. Sentia naturalmente gran-
de curiosidade de tudo ver, de tudo conhecer. Não
obstante, à custa de enormes esforços, Domingos
olhava somente o que queria olhar. O resto era
como se não existisse para ele. De início esse con-
trole custou—lhe bastante: sofreu até uma violenta.
dor de cabeça. Mas conseguiu.
80
Talvez muitos meninos de hoje não entendam
sequer a importância dessa mortificação. Não tal-
tará quem & julgue um tolo exagero, digno de
compaixão e mesmo de desprezo. Mas um grande
educador exclamou: “Sei muito bem que o mundo
ri da mortificação dos olhos; mas sei também que
os jovens que não a praticam dificilmente podem
conservar-se puros”. Bem o sabia Domingos Sávio:
"Os olhos são as janelas da alma — dizia. —
Pelas janelas passa o que se deixa passar. Por elas
podemos deixar passar um anjo, ou então um de-
mônio, e fazer com que um ou outro se tornem do-
nos de nosso coração".
Ao passar por perto das barracas de Porta Pa«
lazzo (no último ano voltou às aulas com o Prof.
Picco) os jovens alunos contemplavam com avidez
os saltimbancos, os prestidígitadores que se exi-
biam em praça pública. viam os grandes cartazes
que atraíam o povo aos espetáculos, aos bailes. Do-
mingos todavia passava tranqiiilo como se estives-
se nos caminhos que atravessavam os campos de
Mondônio, sua terra.
— Mas por que é que você não os olha? — per-
guntou-lhe um colega. — Que quer então fazer com
seus olhos se não os usa para ver essas coisas?
— Quero deles servir-me —- respondeu com
simplicidade — para contemplar o rosto de nossa
mãe do céu, Nossa Senhora, quando for vela no
paraíso.
Também no falar Domingos sabia mortificar-
-se. O silêncio no estudo, na aula, na igreja, custa
bastante aos jovens, que encontram sempre mil
motivos e pretextos para uma conversinha. Domin—
gos — atestam os companheiros — foi para todos
81
um exemplo diíicil de imitar. E quando estava ía—
lando e alguém o interrompia, sabia calar e escutar.
ºfendido, em vez de retrucar, sabia perdoar e sot-
rir. Coisas fáceis de dizer, mas de praticar, não.
Que o diga a experiência. ..
Há. os tipos chamados do contra. São um castigo
de Deus. Um verdadeiro tormento. Para eles nada
está bem: a sopa. está salgada, o prato insípido, a
água quente, os sapatos apertados, a paisagem mo—
nótona, nada está certo.
Com dois ou três tipos assim num grupo de
cem meninos, desaparecem a paz e alegria. O mau
humor se espalha como a gripe. Não se pode tomar
a menor decisão, que já começam a resmungar. E
o resmungo é uma doença infecciosa. Domingos
Sávio era um tipo totalmente oposto.
"Jamais seus lábios —— escreve Dom Bosco —
proferiam uma palavra de queixa pelo rigor do ve-
rão (nesse tempo não se ia aos montes nem ao
mar!) nem pelo frio do inverno (havia só uma es-
tufa para todo o 0ratório!). Fizesse bom ou mau
tempo, estava sempre igualmente alegre. Fosse o
que fosse que lhe dessem à mesa, mostrava-se sa-
tisfeibo".
Mas não ficava nisso. Com alguns sócios da
Companhia formaram um grupo chamado jocosa—
mente "o grupo do pão seco". Ao fim das refeições,
ficavam no refeitório para recolher os pedaços de
pão que os outros, distraidamente, deixavam nas
mesas ou lançavam ao chão. Era para eles o pão
para a refeição seguinte. Se sucedia que um me-
nino não quisesse tomar a sopa que já estava no
prato, ou bancasse o enjoado diante do prato (0
que acontece com frequência com os meninos dos
82
colégios), Domingos não permitia que esse alí—
mento se desperdiçasse. Renunciava de boa men-
te a seu prato para comer o que os demais recusa.-
vam.
A quem se mostrasse surpreso, explicava:
— O alimento é um grande dom de Deus. Há,
gente que morre de fome. Não podemos desper-
diçá-lo.
Se podia prestar pequenos serviços aos com-
panheiros, fazia-o de boa vontade. Limpava os sa-
patos, escovava a roupa, fazia a cama dos doen-
tes, e dizia como para justificar-se:
— Cada um faz o que pode. Eu não sou ea-
paz de fazer grandes coisas. Sei apenas fazer es-
sas coisinhas. Espero que o Senhor as acolha em
sua bondade.
Dom Bosco no fim do capítulo sobre as monª
tíficações de Domingos diz: “Omito muitíssimos
outros fatos desse gênero.”
Filhos de nosso tempo, quereríamos fazer
uma observação tanto a Domingos Sávio como a
Dom Bosco. Ao tomar conhecimento de certas
mortificações do pequeno santo (na comida so-
bretudo) sentimos um pouco de repugnância: pa-
rece—nos não haver nisso muita “higiene". Se fi-
zéssemos a Dom Bosco essa observação, que nos
havia de responder?
Creio que responderia assim:
“Sim, é verdade, em 1855 nós não sabíamos
que existiam micróbios, como hoje vocês sabem;
não sabíamos que a comida que sobrava dos ou—
tros não deve ser usada porque pode ser nociva
à saúde; isto a ciência estava a duras penas des.
cobrindo naqueles anos. Se o soubéssemos não o
83
teriamos leito, porque a saúde e' um dom de Deus,
e não deve ser desprezada. Aqui também pode
mas dizer que cada um faz o que pode e basean-
do-se no que sabe.
“Os grandes santos do passado eram um
exemplo no caminho da penitência: Santa Catarina
tratava dos cancerosos com as próprias mãos. São
Carlos e São Luis morreram entre os empestados,
São Francisco abraçava Os leprosos. Eles também
não conheciam a higiene, mas davam o bom exemv
plo de colocar o Amor de Deus acima de todas as
coisas. Mas hoje, não causa dá o fato de tantos
rapazes terem as mãos limpissimas, se alimenta
rem de comida bem preparada, viverem em am-
bientes higienicamente sãos, e terem a alma com-
pletamente desfigurada pelo pecado, pelo egoismo,
pela impureza? É justo que se observe a higiene
do corpo. Mas porque recusar a penitência que é
um grande remédio para a higiene da alma, para
manter afastada a lepra do pecado?
“Quando apareceu aos pastorinhos de Fátima,
Nossa Senhora foi vista por eles a chorar enquan-
to pedia aos homens: ”Penitência!. . . Penitên-
cia!. Penitêncíal. . ,".
. .

“Mens jovens, procurai sim crescer sãos e for-


tes, levar uma vida que permita a vosso corpo um
desenvolvimento harmonioso, mas imitai a Da
mingos Sávio na mortificação para que também
vossa alma cresça na Graça e no amor de Deus”.

33, Camilo Gávio, de Tortona


Chegara de Torbona um menino de 14 anos.
Tinha o rosto pálido como de quem estivesse es-
84
olhava tudo com ar pensativa (pág. 86)
tado muito doente. Estava recostado a uma colu—
na do pórtico e observava. Via muita alegria ao
derredor, meninos a correr e a rir. Entretanto
olhava tudo com ar pensativo.
Alguns correndo passavam perto dele, e per-
guntavam:
— Quem é esse aí?
— Não sei, dizem que veio de Tortona, e é
muito hábil na pintura e na escultura. Parece que
foi enviado a Turim por conta da prefeitura para
continuar os estudos de arte. ..
Também Domingos o viu, e aproximou-se
logo.
— Salve! Você não conhece ninguém aqui
ainda, não é verdade?
— E. Não conheço ninguém mesmo. Mas gos-
to de ver os outros a brincar.
— Eu sou Domingos Sávio, e você como se
chama?
— Camilo Gávio. Venho de Tortona.
— Você parece muito melancólico. Aposto que
está com um pouco de saudades de casa. Isso
acontece a todos. Vai passar.
—— O negócio
para mim é diferente. Estive
doente. Uma doença de coração que me levou a
beira do túmulo, e ainda não serei bem.
— Mas quer sarar, não?
— Não — respondeu o rapaz com seriedade.
—— Desejo
apenas fazer a vontade de Deus.
Domingos fixou-o admirado. Experimentou
uma grande alegria. Camilo era um rapaz e tan-
to, tomar-se—ia um magnífico sócio da Companhia
86
da Imaculada. Falou-lhe disso com entusiasmo, e
propôs que entrasse já na primeira reunião.
—— O
que me diz é interessante — respondeu
Camilo. — Mas para ser um de vocês o que devo
fazer?
Já lhe digo em duas palavras. Queremos tor-
nar-nos santos, e fazemos consistir & santidade em
estar muito alegres, em cumprir bem nossos de-
veres, e em fazer o bem aos outros.
Camilo tornou-se um sócio entusiasta da Com-
panhia da Imaculada, e travou profunda amizade
com Domingos.
Mas, mal transcorridos dois meses de sua
chegada, sua saúde começou a declinar rápida-
mente. A doença de coração que sofrera em Tor-
tona reativou-se de forma preocupante. Os médi-
cos o examinaram, mas abanaram a cabeça: já
não havia muitas esperanças. Camilo não desceu
mais da enfermaria.
Domingos subia durante os recreios para fa-
zer-lhe companhia. Falavam do Paraíso. Quando
a morte pareceu próxima, iminente, Domingos
pediu autorização para cuidar dele. Mas sua saú-
de não era muito boa, e não lho permitiram.
Na noite do dia 30 de dezembro Dom Bosco
chamou—o e disse-lhe que Camilo falecera. Domin-
gos subiu para vê—lo pela última vez. Estava es-
tendido no leito branco, pálido como a cera, mas
com o rosto grave e majestoso. Domingos chorou.
Murmurou: “Adeus Camilo. Estou certo de que
você está no céu e que está preparando um lugar
para mim também. Serei sempre seu amigo, e en-
quanto Nosso Senhor me deixar em vida, rezarei
sempre por você".
87
Foi um grave luto para a Companhia da Ima
culada. Todos, por vários dias, fizeram a Comu-
nhão por Camilo e rezaram muito.

34. Duas espigas numa gleba


Neste ponto da vida de Domingos Sávio, Dom
Bosco tala aos leitores da amizade entre Domin-
gos e João Massaglia.
Mas a história dessa amizade não é episódio,
fato isolado: desenrola-se ao longo dos anos pas-
sados por Domingos no Oratório. João Massaglia
nascera em Marmorito, lugarejo perto de Mondo-
nio, e era pois quase conterrâneo de Domingos.
Entraram no Oratório no mesmo mês, e ambos
sonhavam ser sacerdotes. Uma coisa apenas pa-
recia separa-los: a idade. João tinha 4 anos mais
que Domingos. Mas a amizade (uma amizade ver-
dadeira, forte) superou também esse obstáculo.
Dom Bosco viu nascer e crescer essa amiza-
de, e ficou satisfeito.
Em suas conversas os dois meninos falavam
do futuro: quando chegassem ao sacerdócio par-
tiriam para as terras distantes, chamadas ”mis-
sões", de que muitas vezes falava Dom Bosco, on—
de tantas pessoas pagãs esperavam a luz da fé.
Seriam, porém, apenas sonhos de adolescentes.
Domingos mais impaciente:
— Não basta dizer que queremos ser sacerdo—
tes — disse um dia. É preciso que comecemos a nos
preparar.
— Exato — respondeu João mais calmo. —
Mas não nos devemos inquietar. Vamos fazer tudo
o que pudermos, e Deus fará o resto.
88
Depois vieram os Exercícios Espirituais. Do-
mingos e João fizeram-nos com todo o empenho.
No fim, Domingos aborda João e lhe fala com se
riedade:
— Escute, Massaglia. Gostaria que fôssemos
verdadeiros amigos.
João protestou:
— Mas já não somos?
— Sim, mas quero que sejamos ainda mais.
Para isso, ouça bem: Se vir em mim alguma coisa
errada, algo que desgoste a Deus, aviseme, certo?
— Está bem, Domingos, contanto que faça o
mesmo comigo.
“Desde então —- escreve Dom Bosco — Sávio
e Massaglia tomaram-se verdadeiros amigos, e foi
uma amizade duradoura, porque fundada na vir.
tude, uma vez que se empenhavam com o exem-
plo e com os conselhos em ajudar—se a fugir o mal
e praticar o bem".
De volta das férias —— as primeiras férias, que
já lembramos — Domingos teve uma surpresa: o
seu amigo João, que havia concluído o curso de
Retórica, prestou o exame para a vestidura cleri—
cal, e num dia de festa viu-o de batina, que era
então o uniforme de quem tencionava tomar-se
sacerdote. Chegaria também para ele o dia tão
suspirado?
Todavia, transcorridos poucos meses, Massa-
glia teve de dizer adeus ao Oratório.
Naquele rigoroso inverno foi acometido de
bronquite. Não parecia nada de início. João sor-
ria e afirmava: "Isso passa!". A febre todavia e
uma forte tosse faziam temer pelos pulmões. Dom
Bosco avisou a família. João não queria ouvir fa-
89
lar em interromper os estudos. Mas Dom Bosco,
com ternura de pai, soube convence—lo. Era pre—
ciso por agora voltar para casa: um bom trata-
mento unido a um repouso absoluto poderiam
consertar tudo em pouco tempo.
Massaglia teve de ceder. Despediu-se de Do-
mingos com um “até a vista”, e voltou para a ter
mília, onde caiu de cama.
Os dias iam passando. Parecia às vezes que
a doença regredia, e alimentava esperanças de re-
gressar ao Oratório; mas havia sempre uma pe-
quena recaída e o caso começou a prolongar-se.
Com o mês de março voltaram as andorinhas.
mas não a saúde de João.
Então, num momento talvez de desconforto,
Massaglia tomou da pena e escreveu ao amigo dis—
tante. Eis a carta tal como no—la conservou Dom
Bosco:

Querido amigo,
pensei que ia passar apenas alguns dias em
casa e depois voltar ao Oratório, por isso deixei
aí todo o meu material escolar Estou vendo agora
que as coisas se estão prolongando, e a cura de
minha doença se torna cada vez mais incerta. O
médico afirma que vai melhor, mas para mim es-
tá pior. Veremos quem tem razão.
Querido Domingos, sinto muito ficar longe de
você e do Oratório, porque aqui não tenho facili-
dade para fazer os exercícios de devoção. Confor-
to-me somente pensando nos dias em que juntos
nos preparávamos para a Sagrada Comunhão.
90
Espero, porém, que distantes fisicamente, es-
tejamos perto espiritualmente.
Peço-lhe que vá ao meu lugar no estudo. En-
contrará alguns cadernos, e também o Kempis, ou
seja a Imitação de Cristo, Faça um embrulho de
tudo e mande para mim. A Imitação de Cristo que
está na carteira é em latim, porque, embora gos-
te, tradução é sempre tradução, e não experimen-
to nela o gosto que sinto no original latino.
Estou cansado de não fazer nada, todavia o
médico proibe-me de estudar. Dou muitos pas-
seios. .. pelo meu quarto! E muitas vezes digo com
meus botões: “Vou sarar desta. doença? Tornarei
a. ver meus companheiros? Será para mim & úl—
tima doença?".
Somente Deus sabe o que é que vai acontecer.
Parece-me estar disposto a fazer de qualquer jei-
to sua santa e amável vontade.
Se tem algum bom conselho. escreva—me. Fale-
-me de sua saúde; lembre-me em suas orações, es-
pecialmente ao fazer a Sagrada Comunhão.
Coragem, queira—me de todo o coração no Se-
nhor. Se não pudermos estar juntos por muito
tempo nesta vida, espero podermos um dia viver
felizes em agradável companhia na bem—aventura-
da eternidade.
Cumprimente nossos amigos, especialmente
os colegas da Companhia da Imaculada. O Senhor
esteja com você, e creia-me sempre seu
afmo
JoÃo MASSAGLIA

Domingos leu a carta, foi ao estudo e prepa-


rou o pacote conforme o amigo desejava. Tomou
91
depois a pena, e respondeu ao amigo procurando
pôr em suas palavras toda a tranquilidade que
queria transmitir ao colega, para fazê-lo vencer a
tristeza que parecia esmagá-lo.

Meu caro Massaglia


Sua carta causou-me alegria, porque me deu
a certeza de que ainda está vivo, uma vez que de-
pois de sua partida não tínhamos mais recebido
notícias suas e eu não sabia se devia rezar o “Glo-
ria Patri" ou o "De Profundis"!
Vai receber os objetos que me pediu. Devo
somente observar que o Kempis é um bom ami-
go, mas está morto, não se move do lugar. E pre-
ciso pois que o procure, o sacuda, o leia, esfor-
çando-se por praticar o que vai lendo.
Sentes saudades da comodidade que temos
com relação aos exercícios de piedade, e tem ra-
zão. Quando vou a Mondônio, tenho o mesmo abor-
recimento. Procurava suprir fazendo todos os dias
uma visita ao SS. Sacramento, esforçando—me por
levar comigo quantos companheiros pudesse.
Além do Kempis eu lia o “Tesouro Oculto na
Santa Missa” do bem-aventurado Leonardo. Se
achar bom, faça o mesmo.
Você diz que não sabe se vai voltar ao Ora-
tório para nos visitar; minha carcassa também an-
da bastante avariada, e tudo me faz prever que
me estou aproximando a largos passos do fim de
meus estudos e de minha vida. De qualquer jeito
vamos fazer assim: vamos rezar um pelo outro,
para que ambos tenhamos uma boa morte. O pri-
meiro que for ao Paraíso prepare um lugar para
92
o amigo, e quando este chegar estenda-lhe a mão
para introduzi—lo na mansão celeste.
Deus nos conserve sempre em sua graça, e
nos ajude a tornar-nos santos, porque receio que
falte o tempo. Todos os nossos amigos anseiam
pela sua volta ao Oratório e o saúdam carinhosa-
mente no Senhor.
De minha parte com fraterno amor e afeto me
declaro sempre
af.mo
DOMINGOS SÁVIO

Mas a serenidade um tanto forçada de Domin-


gos devia alegrar por pouco tempo a João. Pela
metade do mês de maio a doença reativou-se com
violência. João Massaglia perdeu rapidamente as
forças. 0 teólogo Valfrê, seu pároco, levou-lhe o
Viático, que João recebeu com comovente fervor.
Depois, foi o fim. Era o dia 20 de maio de 1856.
Quando a notícia chegou ao Oratón'o, Domin-
gos sentiu-se aniquilado. Acatou a vontade de Deus,
mas chorou o amigo durante vários dias. Dom
Bosco, testemunha dessa grande dor, deixou es-
crito:
"Foi esta a primeira vez que vi aquele rosto
angélica entristecer-se e chorar de dor. Único
conforto foi rezar e fazer rezar pelo amigo defun-
to. Ouviram—no uma vez exclamar:
“Querido Massaglia, você morreu, e espero que
já esteja na companhia de Gávio no paraíso; e eu
quando irei encontrar-me com vocês na felicida-
de ímensa do céu?. ..
”Foi uma perda assaz dolorosa para o coração
sensível de Domingos, e sua saúde ficou notavel-
mente abalada”.
93
dezembro de 1855: Camilo Gávio.
29 de
maio de 1856: João Massaglia.
20 de
Chegará em breve o dia 9 de março de 1857, e
Domingos por sua vez partirá para o céu.

35. Anjos pelo caminho


Na vida de Domigos Sávio há alguns episó—
dios que merecem o adjetivo de “extraordinários".
A gente não sabe se deve conta-los. Ao ler coisas
extraordinárias na vida dos santos é fácil desani-
mar, é fácil dizer: como é que vamos imita-los?
Eles já. eram santos! É um erro que acaricia nos—
sa preguiça. Mas Domingos não era ”já" santo.
Tomou-se santo, com sua vontade forte e com a
graça de Deus. Os breves casos que narramos
demonstram—no cabalmente. Mas, ao aproximar—nos
do fim, devemos também relatar, por dever de
justiça, tais fatos “extraordinários".
Ao camponês que lhe perguntava: “Não tem
medo de andar sozinho pela estrada?" respondeu:
“Não estou sozinho: o Anjo da Guarda está co-
migo".
Isso aprendera da mãe desde pequenino:
“Lembre-se, Domingos, que perto de você está um
anjo do Senhor. Não o ofenda nunca com o pe
cado, e chame-o em socorro quando preciso".
Um dia sua irmãzinha Raimunda caiu numa
lagoa e estava para afogar-se — escreveu sua irmã
Teresa. Domingos, menor que ela, lançou-se à água,
e trouxe-a & salvo.
— Como é que fez para puxa-Ia para fora.,
você, tão pequenino? — perguntou-lhe uma pessoa
quando Domingos, todo molhado dirigia-se a casa.
94
— Com um braço eu segurava Raimunda, com
o outro dava a mão ao Anjo da Guarda.
Em outra ocasião pedira ao pai que o levas-
se à feira do lugarejo vizinho. Mas era muito pe
queno.
— Você ainda não aguenta — dizia-lhe o sr.
Carlos. — E eu não posso leva-lo às costas. Sabe
que devo comprar muita coisa e voltar carregado
de embrulhos.
—— Leve-me, papai — insistiu Domingos: Vai
ver como eu agiiento.
O pai condescendeu. Foram, correram todo o
mercado para cima e para baixo, o sr. Carlos fez
as compras, e ao cair da tarde retomaram o ca-
minho de volta. Mas Domingos rodara o dia in-
teiro pela praça, e agora estava esialfado.
— Papai, estou cansado — murmurou.
E o pai, todo carregado com as compras:
— Viu? Eu tinha dito. E agora, como vamos
fazer?
Nem bem acabara de falar avistam na estra-
da um moço robusto, de rosto sorridente.
— Você não aguenta mais, hein. menino?
Quer subir em minhas costas?
E erguendo-o levou—o até sua casa.
O senhor Carlos conhecia todos os campone-
ses dos arredores, mas apesar de falar com ele
não conseguiu saber quem era e donde vinha.
Assim que chegaram a porta de casa, o pai
depôs a carga e procurou o rapagão. Mas ele já
havia desaparecido, num átimo. Carlos Sávio
pôs-se a pensar: quem seria aquele jovem belo e
forte, que desaparecem assim? Lembrava a his-
95
tória contada pelo pároco do jovem Tobias, acom—
panhado por um anjo em sua longa viagem...
Passaram os anos. Domingos estava no Ora-
tório. Num período em que sua saúde não anda-
va muito bem, Dom Bosco resolveu manda-lo pas-
sar alguns dias com a família a fim de restabele—
cer-se. Domingos escreveu logo para casa, avisan-
do que ia chegar. Mas a carta se extraviou. Alguns
dias depois, Domingos tomou a diligência que o
levaria até Castelnuovo, esperando encontrar o
pai, assim que chegasse. Não encontrou ninguém.
Não havia outra coisa a fazer senão percorrer a
pé a estrada de Mondônio.
Assim que chegou à porta de casa, mamãe
Brigida, que não o esperava, correu-lhe ao encon—
tro, abraçou-o, chamou o pai:
— Domingos! Você veio a pé? Mas como é
isso? Podia escrever, íamºs busca-lo! Fazer toda
essa estrada sozinho. .
.

— Não estava sozinho — sorriu Domingos. —


Mas desci em Castelnuovo, encontrei uma bela e
majestosa senhora, que caminhou a meu lado e me
acompanhou até aqui.
— Uma senhora? E porque não a fez entrar?
Íamos agradecer-lhe.
— Eu também queria, mas quando chegamos
perto da aldeia ela desapareceu. Não a vi mais.
Um encontro que da o que pensar.

36. Seis horas de atraso


Duas da tarde. Uma notícia estranha espalha
-se pelo Oratório: Domingos Sávio desapareceu.

96
— Estava no café?
— Não, ele senta ao meu lado e não o vi nem
no café nem no almoço.
— E na aula?
— Também não. Seu lugar ficou vazio duran-
te as três horas, e o professor não sabia de nada.
— Estará doente?
—— Vamos ver no dormitório.
A cama de Domingos está bem arrumada. De-
le nem sombra.
— Então deve estar no salão de estudo.
Lá também não há ninguém.
— E então, será que Dom Bosco mandou-o
passar alguns dias em casa? Nesse caso avisaria
o professor.
— Sabe o que vamos fazer? Vamos contar ª
Dom Bosco. Ele resolverá o assunto.
Alertado, Dom Bosco ficou um instante pen-
sativo. Mas teve logo uma suspeita.. Sorriu e dis-
se tranqiiilo:
— Podem ir embora, eu sei onde ele está.
Desceu rapidamente as escadas, penetrou na
sacristia e depois no coro atrás do altar. Domin-
gos lá estava, de pé. Tinha uma das mãos apoia-
das a uma estante e a outra ao peito.
Aproximou—se e chamou-o. Domingos não se
moveu. Segurou—o então delicadamente por um
braço e o sacudiu. Domingos, calmo, voltou-se pa-
ra ele e perguntou:
— Já acabou a Missa?
— Olhe, — disse Dom Bosco mostrando-lhe o
relógio, — são duas horas da. tarde.
97
Domingos ficou confuso, corou pelo grande
atraso, pediu perdão.
— Agora vá almoçar — atalhou Dom Bosco.
— Se perguntarem onde estava, responda que aca-
ba de fazer uma incumbência que Dom Bosco lhe
dera.
Em outra ocasião, quando já havia termina-
do a Missa e os meninos tinham saído, Dom Bos-
co estava na sacristia fazendo, como de hábito, sua
longa ação de graças. Ouviu então no coro uma
voz de quem estivesese conversando com outra
pessoa. Ergueu—se e foi ver. Era Domingos. Olhos
fixos no tabernáculo e o sorriso angélico nos lá-
bios falava com Jesus, e depois silenciava, como
para. ouvir a resposta. Dizia, entre outras coisas:
"Sim, meu Deus, já disse e torno a dizer: eu vos
amo e vos quero amar até a morte: sim, a morte,
mas jamais ofender-vos". Dom Bosco, que já o
vira outras vezes em êxtase após a Comunhão,
chamou-o:
— Domingos, você muitas vezes se atrasa de
manhã. Que é que está acontecendo?
E Domingos com toda a simplicidade:
— Pobre de mim, assalta-me uma distração,
e então perco o fio de minhas orações. Parece-me
ver coisas tão bonitas que as horas passam como
um instante. ..

37. Numa estrada escura


Dezembro. As avenidas de Turim já se acham
cobertas de neve. É noite, nas ruas acendem-se os
lampioes a querosene. Dom Bosco, como em todas
98
as noites, está sentado à escrivaninha diante de um
amontoado de cartas que aguardam resposta. e que
o farão trabalhar além da meia-noite. Mas alguém
bate discretamente à porta:
— Entre. Quem é?
— Sou eu — diz Domingos adiantando-se.
— Oh, Domingos, precisa de alguma coisa?
— Depressa, venha comigo. Temos de fazer
uma boa obra.
— Agora, de noite? Aonde me quer levar?
-- Vamos depressa, Dom Bosco, depressa.
Dom Bosco está perplexo. Mas olhando Domin-
gos Sávio, o menino que ainda não completou 14
anos, nota que seu rosto, de hábito tão sereno, es-
tá muito sério. Suas palavras são firmes, em tom
de comando. Dom Bosco levanta-se, toma o chapéu
e o acompanha.
Domingos precipita-se pelas escadas, sai do pá-
tio, entra numa rua, dobra numa esquina e outra.
Não fala nem para. Naquele labirinto de ruas e vie-
las escuras movese seguro como guiado por um
radar. Ao longo da rua as portas vão desfilando.
Domingos para diante de uma delas. Não leu o nú—
mero, nem correu os olhos ao redor para orientar-
-se. Sobe com decisão a escada. Dom Bosco 0 acom-
panha: primeiro andar, segundo, terceiro. Domin-
gos para, toca a campainha. Antes que abram vol-
ta—se para Dom Bosco e diz:
— Aqui é que deve entrar. — Sem acrescen-
tar palavra desce e volta ao Oratório.
Abre—se a porta. Apresenta-se uma mulher com
os cabelos em desalinho, que ao ver o padre ergue
os braços ao céu e exclama:
99

à
— Foi Deus que o trouxe. Depressa, depressa,
senão não chega a tempo. Meu marido teve a des-
graça de abandonar a fé há. muitos anos. Agora es-
tá para morrer e pede por piedade a confissão.
Dom Bosco aproxima-se do leito, onde jaz um
pobre homem apavorado e à beira do desespero.
Confessa-o, dá.-lhe a abolvição reconciliando-o com
Deus. Poucos minutos depois o homem morre.
Correm os dias. Dom Bosco está ainda muito
impressionado com o acontecido. Como tinha po-
dido Domingos Sávio saber da existência. daquele
doente? Aborda-o numa hora em que ninguém os
ouve:
— Domingos, aquela noite em que você veio ao
meu escritório para me chamar, quem lhe havia
falado daquele doente? Como é que você soube?
Aconteceu então uma coisa que Dom Bosco não
esperava. Domingos fixoqu com ªr tristonho e de-
satou a chorar. Dom Bosco não se atreve a fazer-
vlhe outras perguntas, mas fica sabendo que no seu
Oratório há um menino que fala com Deus.

38. Uma ilha distante


Domingos Sávio e muitos meninos rodeavam
Dom Bosco, no pátio. Falavam de muitos assuntos.
Dom Bosco atraía com sua palavra fácil, sabia con-
tar mil episódios interessantes, e no momento aza—
do elevar a mente de seus jovens a Deus. Naquele
dia, depois de uma conversa interessante sobre
campeonatos, corridas e prêmios aos vencedores,
o Santo concluiu:
— Mas que é um prêmio, preciosíssimo embo-
ra, em comparação com o prêmio que Deus tem
100
preparado para quem conserva a inocência? Pen-
sem um pouco. Diz a Escritura: Os inocentes
acham-se no céu mais perto da Pessoa do nosso
divino Salvador, e cantarão para Ele hinos de gló-
ria, por toda a eternidade.
Queria continuar, e falar do céu como somente
ele sabia falar. Mas teve que parar. Domingos no
grupo dos colegas empalidecera de chofre. Caiu
depois como morto. Dom Bosco segurou-o logo, e
os colegas também o amparam. Muitos já sabiam:
bastava ouvir falar do céu, e seu pequeno corpo
não resistia à alegria e desmaiava.
Um dia disse a Dom Bosco:
—- Queria ver o Papa. Queria vê-lo antes de
morrer, porque tenho uma coisa muito importan-
te para dizer-lhe.
— Posso saber qual é?
— Quisera dizer-lhe que, no meio das tribula—
ções que () aguardam, não deixe de ocupar-se com
particular solicitude da Inglaterra. Deus prepara
um grande triunfo para o catolicismo naquela na-
çao.
Dom Bosco fixou em silêncio aquele menino
que lhe falava de coisas tão elevadas, e perguntou
com muita seriedade:
—— Em
que argumentos você se baseia para
dizer isso?
Domingos hesitou. Mas criou coragem e res-
pondeu:
— Eu lhe digo, Dom Bosco, mas o sr. não de-
ve falar disso com ninguém, senão haveriam de
zombar de mim. Certa manhã, durante a ação de
graças depois da comunhão, fui surpreendido por
uma grande distração, e pareceu-me ver uma. vas-
101
ta planície cheia de gente, envolvida em densa né—
voa. Movimentam—se, mas à maneira de pessoas
que, tendo perdido o caminho, não vêem mais onde
põem o pé. “Este país — disse-me alguém que es-
tava a. meu lado —- é a Inglaterra”. Quando dese—
java. perguntar-lhe outras coisas, vejo o Sumo Pon-
tífice Pio IX, como o tinha visto pintado em mui-
tos quadros. Estava majestosamenbe vestido, e
avançava erguendo nas mãos um facho bem res-
plandescente. A medida que avançava, a névoa se
dissipava ao clarão do facho, e os homens ficavam
iluminados como em pleno dia. “Aquele facho —
disse-me o amigo — é a religião católica pela qual
deverão ser iluminados os ingleses".
Domingos não pôde ver o Papa antes de mor-
rer. Mas Dom Bosco foi a Roma em 1858, um ano
após sua morte, e entre tantos negócios de que tra-
tou, não esqueceu o recado que lhe fora confiado
por Domingos. Numa audiência privada contou ao
Papa a, ,. distração. Pio IX ouviu com bondade e
respondeu:
— Isto me confirma no propósito de traba-
lhar energicamente em favor da Inglaterra, para
a qual se voltam meus mais vivos cuidados. O
que me conta, é pelo menos um conselho de uma
boa alma.
Um grande Cardeal, 0 Card. Salocti, comentan-
do essa visão de Domingos, disse: "O pequeno san-
to pressentiu de certo a triunfal demonstração de
Londres em 1908. Então, por ocasião do Congresso
Eucarístico, vinte mil meninos, formados ao longo
das margens do Tâmisa, desfilaram em direção à.
Catedral, suscitando em todos trêmitos de como
ção indescritível. E o Cardeal Legado do Papa
percorreu as ruas da grande metrópole cobertas
102
de flores, por entre hinos e cantos de um povo
a entoar hosanas aos triunfos da Eucaristia".

39. “Pelo primeiro que morrer dentre nós”


Para que em suas casas reinasse sempre in-
contrastável alegria, Dom Bosco queria que todos
os meses seus jovens fizessem o “Exercício da
Boa Morte". Nessa ocasião pensa-se no último dia
de vida, no encontro com Deus, e faz-se a Confis-
são como se fora o último dia da vida.
Só de pensar, parece uma coisa lúgubre: vi-
são de negros catafalcos, de frias tumbas. .. coi-
sas que, longe de alegrar, causam arrepios!
Entretanto é precisamente o contrário: por-
que a morte só causa pavor a quem a espera co-
me um salto no escuro, a quem não se atreve a
devassar a própria consciência porque há nela de-
sordem e pecado.
Mas quando todos os meses se põe tudo no
lugar, quando a consciência está limpa e o céu
parece estar logo aí, ao alcance da mão, então a
morte não da mais medo. Pelo contrário, da von-
tade de cantar, de correr, de pular, porque, acon-
teça o que acontecer, sabemos que estamos em
boas mãos: nas mãos de Deus.
Então os jovens não se assustam, quando o
que guia as orações diz: ”Um Pai-nosso e uma
AveMaria pelo primeiro que morrer dentre nós".
Domingos fazia também o seu “Ehrercício da
Boa Morte" todos os meses.
Mas quando se chegava aquele “Pai-nosso e
Ave-Maria” sacudia a cabeça.
103
— Não se deve dizer “pelo primeiro que mor-
rer dentre nós" — insistia —— mas “por Domingos
Sávio, que morrerá por primeiro".
No fim de abril de 1856 subiu outra vez ao
quarto de Dom Bosco.
— Dom Bosco —- disse-lhe — aqui estou para
que me ajude a celebrar bem o mês de maio, o
mês de Nossa Senhora. Que posso fazer?
E Dom Bosco:
— Procure contar todos os dias aos colegas
um bonito fato em honra de Nossa Senhora: ve-
ré. que vai fazer bem.
— Farei, Dom Bosco. E que graça devo pedir
a Nossa Senhora em seu mês?
Pedirás a ela saúde para o corpo e graça para
para a alma, para poder tornar-se santo.
A tais palavras Domingos quedou-se absorto,
depois continuou em voz baixa, como um éco às
palavras de Dom Bosco:
— Que me ajude & tornar-me santo. que me
_ .

ajude a ter uma boa morte. .. e que nos últimos


momentos de vida me assista e me leve para o
céu. . .
Dom Bosco que acompanhava atentamente
todos os jovens da sua casa, escreveu:
“Não sei se ele teve alguma revelação de Deus
a respeito do dia e das circunstâncias da sua mor-
te, ou se tinha apenas piedoso pressentimento. O
certo é que falou dela muito tempo antes que
acontecesse, e a descrevia com tal clareza, que me«
lhor não faria quem dela falasse após sua morte”.
Dom Bosco ficou preocupado. Procurou de
todas as maneiras modera-lo no estudo e na pie«
104
dade. E como as forças de Domingos iam lenta-
mente diminuindo, chamou também os melhores
médicos da cidade para que o examinassem e vis-
sem a possibilidade de receitar remédios eficazes.
Vieram, interrogararn, examinaram Domin-
gos. Ficavam assombrados com a prontidão e vi«
vacidade de suas respostas. Mas quando se tratou
de escolher os remédios para aquela vida que se
consumia assaz rapidamente, abanaram desola-
dos a cabeça. Embora, em Paris, Pasteur já hou-
vesse feito descobertas sensacionais, a medicina
comum de 1856 estava sumamente atrasada. Os
médicos sabiam fazer Sªngrias, dar purgativos, re-
ceitar pílulas brancas e pretas, empregar alguma,
erva medicinal. Pouco mais do que isso.
Dom Bosco conservou-nos as palavras do Dr.
Vallauri que examinou Domingos. Palavras de um
homem excelente, mas que de medicina bem pou-
co sabia., e não por sua culpa de certo. Depois de
conversar com Domingos, a sós com Dom Bosco
exclamou:
— Mas que pérola preciosa, esse menino!
E Dom Bosco:
— Qual, doutor, a origem da doença que lhe
faz minguar a saúde a cada dia que passa?
— A constituição débil, a inteligência preco
ce e a contínua tensão do espirito são como limas
que lhe roem insensivelmente a vida.
— E que remédio lhe poderia fazer bem?
Neste ponto é fácil imaginar o médico a em-
punhar a pena e a prescrever um forte tratamen-
to reconstituinte: vitaminas, fósforo, injeções. Ao
invés o professor Vallauri encolheu os ombros.
105
— O remédio mais útil seria deixa-lo partir
para o céu. A única coisa que pode prolongar-lhe
a vida é afasta-Io do estudo e enviá»lo aos ares de
sua terra.

40. A vigília da grande viagem


O veredito dos médicos era claro. Mas 3, Do-
mingos doía muitíssimo interromper os estudos,
abandonar os amigos, o Oratório, e sobretudo Dom
Bosco. De mais a mais a vida de piedade era para
ele como o oxigênio, e sabia que em casa encontra-
ria. muita dificuldade para comungar e assistir a
Missa. Suplicou a Dom Bosco que o deixasse ficar.
Mas Dom Bosco escreve: “Eu o conservaria nesta
casa a qualquer preço, minha afeição para com ele
era a de um pai para com um filho predileto. Mas
o conselho dos médicos forçava-me a obedecer”.
E Domingos partiu. Era o mês de setembro de
1865.
Passam poucos dias. No início de outubro, co-
mo fazia todos os anos, Dom Bosco foi com um
grupo de jovens aos Becchi, à sua casa, para cele-
brar a Festa de Nossa Senhora do Rosário. Domin-
gos sabia disso, e assim que se certificou de que
Dom Bosco havia chegado saiu a pé pelas colinas
e correu-lhe ao encontro. No caminho encontrou
seu companheiro e amigo João Cagliero, que ia a
Castelnuovo para ver sua mãe. Gritou—lhe de longe:
— Cagliero, Dom Bosco está nos Becchi?
— Sim, deixei—o há poucos minutos com todos
os amigos. E como vai, Domingos?
— Bem, obrigado. Breve nos havemos de re-
ver! — e estugou o passo.

106
Foi durante esse encontro que Domingos con-
seguiu arrancar de Dom Bosco 3. licença de voltar.
O tom amargurado de suas palavras fez Dom Bos-
co compreender que ficando em casa, mas sempre
pensando com saudades no Oratório, Domingos
sofria ainda mais, e a saúde piorava em vez de
melhorar.
— Vamos fazer assim —— concluiu. —— Volte
agora para casa e fique lá algumas semanas ainda.
Assim que você se sentir melhor poderá voltar,
certo?
Não passaram muitas semanas, e Domingos,
pálido como sempre, mas como sempre sorridente,
regressou ao que chamava “seu querido ninho".
Dom Bosco não quis que retornasse os estudos
regulares.
Ia vez por outra à. aula, abria os livros, mas
apenas para passar o tempo. ºcupava-se então
com trabalhos domésticos, ou então (era o traba—
lho que mais lhe agradava) servia os companhei-
ros doentes. Dizia sorrindo:
— Não tenho merecimento algum diante de
Deus ao servir os doentes: pareceme um belíssimo
divertimento!
Quando via alguém cheio de exigências ou
muito preocupado com a saúde dizia-lhe:
—- Afinal de contas, pensa que essa carcassa
vai durar eternamente? Devemos resignar-nos a
vê-la avariar-se aos poucos, até baixar a sepultura.
Mas então, meu caro, nossa alma livre e leve voará
gloriosa para o céu, e gozará de uma saúde inve-
jável e de uma felicidade maravilhosa!
Certa vez um colega estava embirrado por ter
de tomar um remédio amargo. Tal qual Pinóquio
107
na casa da Fada. Não queria ceder de jeito nenhum.
Domingos fez a parte da fada:
— Meu caro, os remédios, mesmo amargos,
nos fazem bem, e devemos tomá-los porque Deus
nos ordena de não descuidar da saúde. Se sente
repugnância, terá maior merecimento diante dEle.
Pensa então que o tel que ofereceram a Jesus na
cruz era menos amargo? Vamos, faça um sacrifí-
cio.
Em fevereiro de 1857 o inverno de Turim foi
rigorosíssimo. Domingos Sávio foi acometido por
uma tosse profunda, tomava-se cada vez mais pá-
lido.
Dom Bosco novamente interveio:
— Domingos, sua tosse está muito feia. E não
quer ceder.
Você deve voltar para casa. Lá estará mais
defendido do frio e poderá descansar até a prima-
vera.
Domingos olhou—o com olhos súplices. Dom
Bosco acrescentou:
— Sei, Domingos, que lhe custa muito. Mas
é preciso que você vá. Vamos, faça um sacrifício.
Dom Bosco escreveu ao pai. O senhor Carlos,
que naqueles anos com comovente esforço apren-
dera a ler e escrever, respondeu que iria buscar
Domingos no dia 1.º de março.
Na noitinha do último dia de fevereiro Do-
mingos subiu pela última vez ao quarto de Dom
Bosco. Queria cumprimenta-lo, pedir-lhe os últi-
mos conselhos. Parecia não querer separar-se dele.
— Sinto que você vá para casa tão desconten-
te. Por que não fazer companhia a papai e a ma-
mãe?
108
— Não é isso, Dom Bosco. É que queria ter-
minar minha vida aqui, no Oratório.
— Mas não fale assim! Você agora vai para
casa, se restabelece, e ao começar a primavera
volta.
—— Isso não — e Domingos sorriu abanando a
cabeça. — Eu vou e não volto mais. . Dom Bosco,
.

é a. última vez que podemos conversar. Diga-me:


que é que eu ainda posso fazer para Deus?
—— Ofereça muitas vezes seus sofrimentos.

—— E
que mais?
—— Ofereça—lhe a vida, Domingos.

O pequeno Santo quedou-se um instante absor-


to. E:
— Posso ter certeza de que meus pecados fo-
ram perdoados?
—— Garanto-lhe em nome de Deus
que seus
pecados foram todos perdoados.
— E posso ter certeza de que me vou salvar?
— Sim: pela infinita misericórdia de Deus que
nunca lhe faltará, você pode estar certo de que se
vai salvar.
— E se o demônio me viesse tentar, que lhe
devo responder?
Dom Bosco apontou para Domingos 0 grande
cartaz pendente na parede, que três anos antes
haviam traduzido juntos: “Da mihi animes, coetera
tolle", e disse:
— Você responderá que vendeu a alma a Je-
sus, e que Ele a comprou com o preço de seu san-
gue, para liberta—1a e leva—la consigo para o céu.
Domingos Sávio ficou ainda pensativo por um
instante, depois em voz baixa perguntou:
109
— Do céu poderei ver meus amigos do Ora-
tório, e os meus pais?
— Sim — assegurou-lhe Dom Bosco procuran-
do dominar a comoção — do céu, se Deus quiser
chamá—lo para si, poderá ver tudo o que acontece
no Oratório, os seus pais e as coisas que lhes
dizem respeito, e mil outras coisas mais bonitas
ainda.
— E... poderei fazer-lhe alguma visita?
— Se assim aprouver a Deus, poderá vir.
Baixava a noite no Oratório. Ia terminar a
vigília da grande viagem: a. viagem que Domingos
faria em duas etapas: de Turim a Mondônio, de
Mondônio ao céu.

41. Dinheiro para a viagem


Era domingo o dia 1.0 de março de 185",
Faziase o Exercício da Boa Morte naquela ma-
nhã, e Domingos 0 fez pela última vez. Fez sua
Confissão e Comunhão.
”Devo fazê-lo bem — disse a Dom Bosco, —
porque espero que seja para mim de fato o da
boa morte".
Empregou o resto da manhã em arrumar suas
coisas. Preparou o pequeno baú. Depois achegou—se
& cada um de seus amigos, para saudá-los com um
derradeiro sorriso.
A um deles devia dez soldos. Restituiu—os di«
zendo: “Não quero que o Senhor me encontre com
dívidas!”.
A despedida mais comovente foi a dos amigos
da Companhia da Imaculada. Lembrou-lhes os
110
compromissos assumidos no dia da fundação, lem«
brou Gávio e Masságlia.
Chegou depois o caleche do pai que o levaria
& Mondônio. Acercou—se de Dom Bosco
para bei-
jar-Ihe pela. última vez a mão, sorrindo apesar da
tristeza.
-— O Sr. quer mesmo que eu parta. Se ficasse,
haveria de incomodar só por uns dias. De qualquer
modo seja feita a vontade de Deus. Reze para que
eu tenha uma boa morte. Até à vista, no céu.
Já. havia transposto a porta, quando se lem-
brou de uma coisa importante. Voltou a Dom Bos-
co e lhe disse:
—— Dê-me um presente
para guarda-lo como
lembrança do sr.
—- Com muito gosto. Peça-me o que quiser.
Quer dinheiro para a viagem?
Sim, justamente isso — sorriu Domingos: —
dinheiro para a viagem da eternidade. O sr. nos
disse que havia alcançado algumas indulgências
plenárias para a hora da morte. Pode colocanme
também no número dos que podem lucrar a indul-
gência?
— Sim, Domingos, sem dúvida. Assim que
você partir irei a meu quarto para escrever seu
nome no documento que me foi concedido pelo
Papa.
—— Obrigado.

Assim partiu. Na primeira esquina agitou a


mão para saudar o seu Oratório, os seus amigos.
Dom Bosco ficou olhando a. carruagem que desa-
parecia, com profunda dor no coração: partira
seu melhor aluno, o santinho que Nossa Senhora
havia presenteado por três anos ao seu Oratório.

lll
il“. N Adeus à terra
Domingos chegou a Mondonio tarde da noite.
Mamãe Brigida recebeu-o com afetuoso abraço, e
os irmãos fizeram—lhe grande festa.
Os primeiros dias pareceram reavivar a espe-
rança: a tosse acalmou, voltou um pouco de ape-
tite. Parecia que março iria trazer a primavera
também para o débil organismo de Domingos.
Mas tudo não passou de breve ilusão. Na noite
do dia 4 de março Domingos sentiu—se improvisa.
mente mal. As forças o abandonavam. A tosse voi—
tou violenta e profunda. Foi preciso colocá—lo na
cama e chamar o médico.
O dr. Cafasso examinou-o e declarou:
— Trata-se de uma inflamação.
Era como então se designava a pneumonia.
Que fazer? O médico fez o que então faziam
todos os médicos com os doentes dos pulmões:
resolveu extrair sangue das veias de Domingos
para mitigar a febre. É um tratamento maluco, que
levava a morte muitas pessoas. Entretanto naque-
les tempos era o que se sabia fazer. Quatro anos
depois Camilo Cavour terá sua morte acelerada
dessa mesma maneira pelos melhores médicos de
Turim. E Sílvio Péllico três anos antes havia sido
literalmente assassinado por um cirurgião.
O dr. Cafasso retirou da maleta os instrumen-
tos cirúrgicos, descobriu o braço alvo e fino de
Domingos e lhe disse:
— Vire—se para lá e não tenha medo.
Domingos sorriu:
—— Que é uma pequena incisão em confronto

com os pregos chavados nas mãos e nos pés de


112
Jesus? Esteja a vontade, doutor, não tenha medo
de me machucar.
Viu a luzente lanceta abrir-lhe a veia e o san-
gue escoar lentamente.
O médico voltou por alguns dias, para repetir
a tortura. A febre baixou, e o médico pensou que
a situação estava melhorando. Era todavia a fra-
queza que aumentava de modo incrível.
— Papai — disse Domingos assim que o mé-
dico partiu — é bom marcar uma consulta com o
médico do céu. Desejo confessar-me e receber a
Sagrada Comunhão.
Carlos Sávio, que recebera com alegria a no-
ticia da melhora anunciada pelo médico, ficou cho-
cado com o pedido de Domingos. Todavia, para
não desagrada-lo, mandou chamar o pároco, que
o atendeu de confissão. Domingos pediu que a
Comunhão lhe fosse trazida como Viático. Não
parecia necessário, mas também esse desejo foi
satisfeito. O pároco ajudou-o a fazer a ação de
graças.
Dom Bosco, que soube das últimas notícias de
Domingos pelo próprio Sacerdote que lhe deu a
comunhão e pelo pai, escreve:
“Ele sabia que seria aquela a última Comu.
nhão de sua vida. ..
Relembrou as promessas feitas na primeira
Comunhão. Disse várias vezes:
— Sim, sim, é Jesus, 6 Maria, vós sereis agora
e sempre os amigos de minha alma. Repito e digo
mil vezes: morrer, mas não cometer pecado”.
Ao terminar a ação de graças, disse com toda
a tranquilidade:
113
— Agora estou contente. É verdade que devo
fazer a longa viagem da eternidade, mas com Jesus
a meu lado não tenho a temer.
Outra vez voltou o médico, e o sangue de
Domingos recomeçou a escorrer, deixando-o mais
pálido e esgotado. Dez vezes a lanceta do cirurgião
penetrou-lhe os braços.
No fim da décima sangria o médico teve ainda
a coragem de dizer:
— Vai tudo bem, o mal foi debelado. Temos
apenas necessidade de uma boa convalescença.
Mas Domingos, totalmente exausto. sorriu e
disse:
— Não foi o mal, mas o mundo que foi debe-
lado. Tenho necessidade somente de bem compa-
recer diante de Deus.
Assim que o médico partiu, sentindo que a
vida se ia extinguindo, pediu a Extrema Unção.
Os pais entreolharam—se, mudos e consterna-
dos. Que deveriam fazer? O médico garantira que
tudo ia bem. E Domingos queria os Santos óleos.
O senhor Carlos foi avisar o pároco.
Antes que o sacerdote começasse o sagrado
rito, Domingos rezou em voz alta esta oração:
“ó Senhor, perdoai os meus pecados. Eu vos
amo, quero amar-vos eternamente! O sacramento
que na vossa infinita misericórdia permitis que
receba, cancele de minha alma todos os pecados
cometidos com o ouvido, com a vista, com a boca,
com as mãos e com os pés: que meu corpo e minha
alma sejam santificados pelos merecimentos de
vossa paixão: assim seja".
114
Em seguida respondeu com voz clara às ora-
ções do sacerdote.
No fim recebeu a bênção papal com a indul-
gência plenária. Traçou sobre si um amplo sinal
da cruz. Voltando-se depois para o crucifixo, bai-
buciou à flor dos lábios uma estrofe que lhe era
familiar:
Signor, la liberta tutta ti dono,
ecco Ze mie potenze e il corpo mio.
Tutto vi do, chê tutto ê vostro, o Dia,
e nel vostro valer io m'abbandono. *

Era o dia 9 de março de 1857. A noite caia


rapidamente. A voz de Domingos era fraca, mas
suas palavras alegres e serenas. Chegou o pároco
para uma última visita. Domingos acolheu-o com
seu belo sorriso, e rezou com ele algumas orações.
Estava tão tranquilo que o bom sacerdote pensava
consigo mesmo:
— Que é que lhe posso sugerir ainda, a fim
de preparáAo para o encontro com Deus. Parece
que já o está vendo!
Ao perceber que o pároco ia retirar-se, Domin-
gos chamou-o e com o que lhe restava de voz pediu:
— Sr. padre, antes de ir embora deixe-me uma
lembrança.
— Que lembrança você quer, meu filho?
—— Um pensamento
que me ajude e conforte.
— Pense na Paixão de Jesus Cristo.

(') Tudo vos dou, meu. Deus e meu Senhor:


As potências, meu corpo, a liberdade...
Tudo é vosso. A santíssima vontade
Divina me abandono e a vossa amar. (L. M.)

115
— A Paixão de Jesus. esteja na minha men»
. .
te. . na minha boca, . no meu coração. Jesus,
. . . .

José e Maria, assisti-me nesta última agonia...


Jesus, José e Maria. .. expire em paz entre vós a
minha alma. ..
Estava extenuado. O esforço para falar o can-
sara, e adormeceu.
Por uns vinte minutos apenas. Acordou como
de sobressalto, correu os olhos ao redor e balbu—
ciou:
— Papai, chegou a hora.
— Estou aqui — disse o pai aproximando-se.
— Precisa de alguma coisa?
— Meu querido pai, está na hora... Tome o
meu livro de orações... e leia-me as orações da
Boa Morte. . .
A tais palavras a mãe prorrompeu em pranto
e saiu do quarto. O pobre homem, com o coração
estraçalhado, abriu o livrinho de Domingos e co-
meçou a ler as orações dos agonizantes.
As últimas linhas diziam: “Quando finalmente
minha alma comparecer diante de vós, não a rejei-
teis de vossa presença, mas dignai-vos receber-me
no seio amoroso da vossa misericórdia, para que
eu cante eternamente os vossos louvores".
Domingos voltou—se e com grande esforço
disse:
—— 0h, papai, isso é o
que eu desejo, cantar
eternamente os louvores de Deus!. ,.
Seu rosto tornou-se sério e pensativo, como
de quem está. refletindo sobre coisas de grande
importância. Pareceu depois reanimar-se, e disse
com voz clara:
116
— Adeus, papai, . _ Oh, que bela coisa eu veia!. .. (pág. 118)
— Adeus, papai... o padre me dizia... mas
não lembro. . Oh, que bela coisa eu vejo!. .
. .

Era a noite de 9 de março de 1857. Domingos


nascia uma segunda vez. Para o céu.

43 . Ele voltou
Durante a breve doença, o pároco de Mondônio
enviam notícias de Domingos 3. Dom Bosco. Os
amigos de Domingos esperavam dia após dia mais
notícias, confirmando as melhoras. Chega ao con-
trário uma carta do pai, datada de 10 de março.
Nestes termos:

”Reu.mo Senhor
Com as lágrimas nos olhos dou-lhe a mais
triste notícia: meu querido filhinho Domingos, seu
aluno, entregou sua alma a Deus ontem à noite,
9 do corrente mês de março, depois de haver rece-
bido da maneira mais consoladora possível os
santos sacramentos e a bênção papal. .”. .

Foi essa uma das notícias mais dolorosas que


Dom Bosco recebeu em sua longa vida.
Lançou na consternação os meninos do Ora-
tório. Muitos choraram. Morrera o amigo, o amigo
que fazia retomar a alegria nas horas de tristeza.
0 P. Picco, seu último mestre, recebeu com
profunda comoção a notícia, e tão logo entrou na
sala em que Domingos se mostrara modelo de to—
dos, lembrou-o com lindas e comovidas palavras.
118
Transcrevo umas poucas frases:
“. .. Que poderei recordar de Domingos?
Mereceu sempre louvor pela sua atitude, tranqu —

lidade, diligência e exatidão no cumprimento dos


deveres, pela contínua atenção a meus ensinamen—
tos. . Vocês foram testemunhas de sua vida: pois
.

bem, algum de vocês viu—o alguma vez descuidar


um só de seus deveres?. . Parece—me que ainda o
.

estou vendo entrar na aula com aquela modéstia


tão sua, com seu rosto angélica... E que fervor
em suas orações, no seu olhar voltado para o céu,
o céu que tão cedo devia ser sua morada... To»
mem-no como exemplo, imitem-lhe as virtudes, pre-
parem a própria alma. para que seja como a dele
pura e limpa as olhos de Deus, para que ao cha-
mado de Deus possamos responder com alegria,
com o sorriso nos lábios, como fez o angélica con-
discípulo de vocês".
Também Dom Bosco falou de Domingos na-
quela mesma noite a todos os jovens do Oratório.
Continha a duras penas a comoção. O pesado silên—
cio com que eram ouvidas suas palavras bem refle—
tia a tristeza que ia no coração de todos.
Mas bem cedo Dom Bosco pôde dizer que
Domingos voltara.
O senhor Carlos Sávio, que de vez em quando
ia ao Oratório, como em peregrinação aos lugares
onde o seu Domingos vivera os anos mais belos,
contou a Dom Bosco com muita hesitação um fato
extraordinário.
Eram passados trinta dias da morte de Do-
mingos, e o pobre pai, curtindo a dor ainda viva
e profunda daquela perda, não podia dormir.
Eis senão quando parece-lhe abrir-se o teto do
119
quarto, e grande luz espancar a escuridão. Em
meio “a luz delineia-se a imagem de seu Domingos,
com rosto sorridente e alegre, e uma aparência
majestosa e bela. Carlos Sávio ficou como fora de
si pela admiração, depois balbuciou:
— Oh, Domingos, Domingos! Como vai? Onde
está? Está no céu?
— sim, papai — respondeu. — Estou de fato
no paraíso.
— Oh, Domingos. . . Se Nosso Senhor lhe con-
cedeu tão grande graça, peça-Ihe por seus irmãos
e irmãs para que um dia possam juntar-se a
você. .. E peça—lhe também por mim e por ma-
mãe, para que todos nos possamos salvar e reu-
nir-nos no céu.
Domingos sorriu com seu sorriso sereno, e
respondeu:
— Sim, papai, sim. Rezarei.
A luz desapareceu, e o quarto voltou a escuri-
dão.
Domingos retoma também ao Oratório. Os
companheiros sentiam—no a seu lado com sua bon-
dade, como antes. Todos os dias Dom Bosco ouvia
graças que dele recebiam os jovens. Um menino
com fortíssima dor de dente sarara instantanea-
mente ao invoca-lo. Um outro que tinha uma febre
altíssima, pediu a ajuda de Domingos na presença
de Dom Bosco, e a febre baixou imediatamente.
Não havia sido o pequeno enfermeiro de todos?
Continuava a sê—io. E muitos escreviam com extre-
ma confiança em seus cadernos: “Sávio, ajude—
»me!”. Como se ainda estivesse ai, sentado a sua
carteira, com seu sorriso.
120
44. O grande sonho

Também Dom Bosco viu-o voltar.


Era o ano de 1876. Transcorridos vinte anos
da morte de Domingos. Anos de trabalho e tadigas
sobre-humanas. Nascera a Congregação Salesiana.
Os primeiros missionários haviam partido para a
Patagônia: à testa da expedição estava. um colega
de Domingos, João Cagliero, agora sacerdote, pos-
teriormente bispo e cardeal. Na França surgira &
primeira Casa Salesianª, em Nice.
Dom Bosco encontrava-se em Lanzo Torinese,
no Colégio Salesiano.
Era a noite de 6 de dezembro. Eis o que ele
próprio narrou:
“Pareceu—me em dado momento encontrar-me
sobre uma pequena elevação de terra, a borda de
imensa planície, cujos limites a vista não podia
atingir. Em toda azul, como o mar em calmaria.
Mas não era o mar: parecia imenso cristal relu-
zente e tersíssimo. A planície dividia—se em vastís-
simos jardins de inenarrável beleza.., No meio
do jardim elevavam-se edifícios magníficos, vastos,
harmoniosos e em perfeita ordem. Pensava comigo
mesmo: “0h, se possuísse uma só dessas casas
para meus jovensl. .. ::.
Eis que se difunde pelos ares uma música
extremamente suave. . . Pareciam-me cem mil ins-
trumentos de uma orquestra paradisíaca. .. E um
coro infinito de pessoas cantava: ”Honra e Glória
a Deus, Pai Onipotente, Criador do Mundo. .”. .

Enquanto escutava aquela divina melodia,


meus olhos descortinaram uma numerosissima
turba de jovens. Conhecia alguns: eram os meus
121
alunos do Oratório: mas os outros, numerosos
como as estrelas do céu, não os vira nunca. O imen—
so cortejo vinha em minha direção, e à frente de
todos caminhava Domingos Sávio.
O cortejo para, a música cessa. Brilhou um
raio de vivíssima luz. Domingos aproximou-se tan-
to, que se houvesse estendido uma das mãos po—
deria tocá-lo. Olhava-me em silêncio e sorria.
Como estava bonito! Uma túnica candidissima
descia—lhe até os pés, toda entretecida de ouro e
constelada de diamantes. Ampla faixa vermelha
cingia-llie os flancos. No pescoço uma jóia de valor
inestimável: um ramalhete de flores formado de
pedras preciosas. As flores resplandesciam de luz
tão viva que rivalizavam com uma manhã de pri-
mavera. Seu rosto estava tão iluminado que era
difícil fixa-lo. Parecia um anjo.
Pensava com meus botões: que significa tudo
isso? Como é que vim a este lugar?. .. Mas Do-
mingos sorriu e me disse:
— Por que está tão calado?. .. Por que não
fala?
Balbuciei:
— Não sei o que dizer... É você Domingos
Sávio?
— Sim, sou eu. Não me reconhece mais?
— E como é que você está aqui?
— Vim para falar-lhe — respondeu afetuosa—
mente Domingos. — Lembra quantas vezes conver-
samos na terra? Quantos sinais de amizade e bon-
dade o sr. me deu! E eu também, quanta confiança
punha no senhor! Por que então está assim tão
assustado? Por que treme? Vamos, pergunte algu-
ma coisa.
122
Então criei coragem, e lhe perguntei:
—- Onde estamos?
— Estamos no lugar da felicidade.
— Então isto é o paraiso?
— Oh., não! — sorriu Domingos. -——
Aqui não
se gozam os bens eternos, mas somente os bens
naturais amplificados pelo poder de Deus.
— E que é que vocês gozam no céu?
— Impossivel dizê-Zo! Ninguém pode sabê—lo
antes de se unir a Deus na vida futura. Goza-se
Deus! Eis tudo!
Sentia-me agora mais encorajado, e perguntei
a Domingos:
— Por que tem uma neste tão branca e bo-
nita?
Domingos não respondeu, mas o coro recome-
çou a cantar, e dizia: "Estes são os que cingiram
os flancos com a mortificação, e lavaram sua veste
no Sangue do Cordeiro. . .".
— E por que — perguntei ainda, ao findar o
canto — por que você está cingido com essa faixa
vermelha?
Também desta feita Domingos não respondeu,
mas ouvi cantar:
"São os que conservaram a pureza, e que
acompanham o Cordeiro divino aonde quer que
Ele vá!".
Compreendi então que aquela faixa vermelha,
cor de sangue, em o simbolo dos enormes sacri-
ficios, dos violentos esforços e como do martírio
sofrido para conservar a virtude da pureza Signi-
ficava que para manter—se casta à presença de
Deus, Domingos estava disposto a dar a própria
123
vida. Era também o símbolo das penitências que
purificam a alma dos pecados. . .

— Diga-me, Domingos —- continuei — por que


você está à frente deste grande cortejo?
— Porque sou embaixador de Deus.
— Então vamos falar de coisas importantes.
Que me diz do passado?
— Sua Congregação já fez muito bem no pas-
sado. Muitíssimas almas foram salvas. Mas seriam
muito mais se o sr. tivesse tido mais fé e mais
confiança em Deus.
Gemi suspirando. .. e disse:
— E do presente, que me diz?
Domingos mostrou-me um magnífico rama-
lhete de flores que trazia nas mãos. Era feito de
rosas, violetas, espigas de trigo, gencianas, lírios
e semprevivas. Ofereceu-mo e disse:
— Olhe!
— Estou vendo. . . mas não entendo!
— Apresente-o a seus filhos, para que o pos-
sam oferecer a Nosso Senhor. Faça com que todos
o tenham, que ninguém fique sem ele!
— Mas que significam essas flores?
— Não sabe? Entretanto devia saber! A rosa
é símbolo da caridade, a violeta da humildade, a
genciana da penitência e mortificação, as espigas
de trigo da Comunhão freqiiente, o lírio da bela
virtude da qual está escrito: serão como Anjos de
Deus no céu, a castidade. E a sempreviva significa
que todas essas virtudes devem durar sempre: a
perseverança.
—- Diga-me, Domingos. Você que praticou essas
virtudes na terra, que é que mais o consolou na
hora da morte?
124
— O que mais me conlortou na hora da mor-
te foi a assistência da poderosa e amável Mãe de
Deus! Diga isso a seus filhos. Que não se esque-
çam de invocar Nossa Senhora durante toda a
vida!. ..
— E para mim, o que é que você tem a dizer?
— Oh, se soubesse quantas lutas deve ainda
travar por Deus!
—- E meus jovens? Estão no bom caminho?
Diga-me algo para que eu os possa ajudar.
— Seus jovens podem dividir-se em três cate-
gorias. Veja estas três listas.
Olhei: a primeira lista tinha como titulo a pa-
lavra: invulnerati. Eram os que o demônio não
tinha podido ferir, e conservavam ainda intacta a
inocência. Eram em grande número, e os vi a todos,
presentes e futuros. Caminhavam firmes por um
mesmo caminho, apesar de alvejados por setas e
golpes de espadas e de lanças provindos de todos
os lados. Tais armas que formavam como uma
sebe ao longo dos dois Lados da rua, combatiam—
-nos e molestavam-nos sem os ferir.
Domingos apresentou-me em seguida a segun-
da lista. Trazia escrito: vulnerati. Eram os que
estavam na desgraça de Deus, mas agora, outra
vez de pé, tinham curado as feridas, pelo arrepen-
dimento e pela confissão. Formavam um número
maior que os primeiros. Li a lista e os vi a todos.
Muitos caminhavam recurvos e desanimados.
Domingos tinha nas mãos uma terceira lista.
Trazia escrito: Lassati in via iniquitatis. Estavam
relacionadas os nomes de todos os que se encon—
travam na desgraça de Deus. Queria ter a lista, e
estendi a mão. Mas Domingos me disse com ener-
gia:
125
— Não! Espere um instante. Se abrir esta
folha se exalará um tão forte mau cheiro que nem
o sr. nem eu poderíamos suportar.
Os Anjos devem retirar-se horrorizados. O
Espírito Santo sente asco do cheiro horrivel do
pecado. .. Agora tome—a, abra—a, e saiba tirar pro-
veito para seus jovens.
Ditas essas palavras retirou—se, como se qui-
sesse fugir.
Abri a lista. Não vi nome algum, mas tive pre-
sentes só ao correr os olhos todos os indivíduos
que nela constavam. Vi—os a todos, e com grande
amargura. . . Vi muitos que são considerados pelos
colegas como jovens bons, ótimos ate', mas que
infelizmente não são tais...
Mas no ato de abrir a folha espalhowse em
derredor um mau cheiro insuportável. Assaltou-me.
logo agudissima dor de cabeça e tão violenta ânsia
de vômito que receava morrer.
Tudo escureceu ao meu redor. Desfez-se a vi-
são celeste. De continuo cintilou um raio, e ribom—
bou um trovão tão forte e terrível que acordei.
todo assustado. Corri os olhos ao redor e vi apenas
meu quarto.
Tudo havia desaparecido”.

45, “Que mais devemos pretender?”


Ouviu-se Dom Bosco exclamar:
“Se eu fosse Papa, não teria nenhuma di-
ficuldade em declarar santo nosso Domingos Sá-
vio”. Estava firmemenbe convicto de que um dia
a Igreja o haveria de elevar às honras dos altares,
ao lado de São Luís.
126
Para que os episódios de sua breve existência
não viessem a perder-se, pediu aos amigos que
escrevessem o que sabiam de Domingos.
Coligindo as lembranças de todos dispunha-se
a escrever uma breve biografia que poderia fazer
bem aos meninos.
Em 1659, dois anos apenas após a morte de
Domingos, Dom Bosco apresentava aos jovens do
Oratório a "Vida de Domingos Sávio“, onde se
contavam os episódios que todos ainda podiam
lembrar.
Essa pequena biografia espalhou-se rapida-
mente pelo mundo, fez bem a muitíssimos jovens.
Sentiu-se logo a necessidade de ”fazer alguma coi-
sa” para guindar Domingos a glória dos Santos.
De começo parecia coisa muito difícil. Era a
primeira vez em 2000 anos de vida da Igreja que
se propunha declarar santo a um menino. Quando
Domingos morreu não tinha sequer 15 anos. A
grande interrogação dos teólogos de Roma e à
qual muitos hesitavam em responder era: “Pode
atingir a santidade um menino de apenas 15 anos?”.
Dom Salotti, mais tarde Cardeal, foi especial-
mente encarregado de estudar o problema. Ficou
tão fascinado pela figura de Domingos, que ime-
diatamente falou dela ao Papa Pio X. Eis a con-
versa tal como no-la conservou o mesmo Dom Sa-
lotti.
-— Santo Padre, que pensa de Domingos Sávio?
——- Que penso? — interrompeu o Santo Padre.
—— É o verdadeiro modelo da juventude dos nossos

tempos! Um adolescente que leva até a sepultura


a inocência batismal, e que durante os breves anos
127
de sua vida não revela defeito algum, e' verdadei-
ramente um santo. Que mais podemos pretender?
— Entreanto, beatlssimo Padre, quando a 11
de fevereiro passado se introduziu a causa de bea-
tificação, cuja honrosa defesa me foi confiada,
houve quem objetasse que Sávio era ainda muito
jovem para ser elevado à honra dos altares.
— Maior razão para santificd-lo — disse
em resposta o Pontífice —. É tão dificil para um
jovem praticar a virtude de maneira tão perfeita!
E Sávio conseguiu. A vida que Dom Bosco escre-
veu, e que li, deixou-me a imagem de um jovem
exemplar, que merece ser apontado como modelo
de perjeição.
Notei então a Sua Santidade a grande simpa-
tia que especialmente a juventude nutre para com
o pequeno Sávio. .. E Pio X, satisfeito, acrescen-
tou:
— Trabalhe por levar adiante a causa. . . Para
a vida breve e simples de Sávio não se requer
muito estudo; por isso não se perca tempo; leve-se
a causa avante, depressa.
— Santo Padre, estou escrevendo uma biogra-
fia desse jovenzinho. Nela recolha não só quanto
escreveu Dom Bosco, mas também o que dele con-
taram ou escreveram seus condiscipulos.
— Se preparar logo essa vida — concluiu o
Papa — traga-me uma cópia. LêAla-ei com gosto.
Dom Salotti saiu da audiência com as lágrimas
nos olhos. Trinta dias depois o Santo Pio X fale—
cia. Quando Dom Salotti terminou o manuscn'to
da Vida de Domingos Sávio, desceu à cripta da
Basílica de São Pedro, e depositou-o por uns ins—
tantes sobre a tumba de Pio X. Ajoelhou—se e disse:
128
”Eis, Santo Padre, trouxe-vos meu trabalho.
Abençoai—o do céu, para a glória de Domingos Sá.-
vio".

46. No altar, junto de Jesus


13 de agosto de 1915
Sua Santidade Bento XV recebe no Vaticano,
em audiência privada, ao P. Francesia, antigo pro-
fessor de Domingos Sávio. Na mesa de trabalho o
Papa lhe mostra um livro aberto: é a vida de Do-
mingos escrita por Dom Salotti. Diz comovido:
Já li a vida de Domingos escrita por Dom
Bosco, quando era menino. Li-a com meus irmão-
zinhos sob os olhares de minha mãe. Creio que
. _

sua vida agradará mais e fará maior bem aos jovens


de hoje que a de São Luis. Domingos vai entusias-
mar os adolescentes, que nele verão um dos seus.

9 de julho de 1933
Pio XI declara Domingos Sávio “Venerável”,
porque dos longos e minuciosas estudos reali-
zados pelos teólogos resultou claro e seguro ter
ele praticado todas as virtudes em grau heróico.
O Papa, que conheceu pessoalmente a Dom
Bosco, fez nesse dia admirável discurso evocando
a doce figura de Domingos e de seu grande mestre
Dom Bosco. Define Domingos: “Pequeno, antes
grande gigante do espírito”. E sintetiza sua vida
em três palavras: "Pureza — Piedade — Aposto-
lado".
129
5 de março de 1950
Uma comissão de médicos e de teólogos exa-
minou atentamente e reconheceu como miraculo-
sas duas curas alcançadas por intecessâo de Do-
mingos Sávio.
Sabatino Albano, de 7 anos, de Siano (Saler-
no), sarou por interecessâo de Domingos quando
já agonizante por obra de uma grave forma de
septicemia e nefrite. O médico já havia preparado
o atestado de óbito!
María Consuelo Moragas, de 16 anos, de Bar—
celona, foi curada instantaneamente de uma dupla
fratura no cotovelo. Durante uma novena ao Vene—
rável Domingos Sávio, o braço inchado, não enges-
sado, e traturado em dois pontos, sarou improvisa
e perfeitamente.
Pio XII declara Domingos Sávio Bem-aventu-
rado, e sua magra imagem de adolescente aparece,
numa apoteose de luzes, na. “Glória” de Ber-mini. O
Papa ajoelha-se diante dele e reza por toda a ju-
ventude do mundo.

12 de junho de 1954
Dois outros milagres foram alcançados pela
intercessão de Domingos Sávio.
Maria Gianfreda, mãe de seis filhos, estava nas
últimas por causa de uma hemorragia interna sem
que os médicos nada pudessem fazer, e sarou por
intercessão de Domingos, voltando ao seio da fa-
mília.
Antonina Miglietta, atacada por gravíssima
forma de sinusite, antes de enfrentar a difícil e
130
dolorosa operação, suplica & Domingos que a cure
em atenção aos quatro filhos. A 9 de março, no
aniversário da morte de Domingos, sarou antes de
se fazer a operação.
Pio XII declarou Santo Domingos Sávio a 12
de junho de 1954. Na vastíssima praça de São Pe-
dro iluminada por um magnífico sol, milhares de
jovens, provindos de todo o mundo aplaudiram o
primeiro santo “como eles": o primeiro santo de
15 anos.

131
ÍNDICE
1 — Caprichoum tanto estranho ................... 5
2 — Um amigo de roupa preta 6
3—Pegueapastaevá 8
4 — Com apenas sete anos! 11
5 —Encontro e propósitos ......................... 12
6 —Caminho longo & pés descalços 15
7 —Riacho de águas frescas . 17
—- Estufa cheia de neve
8
...... 19
9 — Oito minutos para uma. páginª
.............. 23
10 — Cartaz comercial
........
11 — Vida de todos os dias
27
29
12 — Eu vos dou o meu coração! . 31
13 — Condes e marqueses
14 — 0 mais belo divertimento
...... 34
35
15 — Pedras e sangue
16 — Fórmula mágica
.......... 38
42
17 — Comício no pátio . 46
18 — Arte difícil
............. . 48
19 — As ladainhas do carroceiro
........... 50
20 — A história de Dom Bosco
........... 51
21 — Marga-se o sonho
............
22 — Um altar para Nossa Senhora
56
57
23 — Verdes colinas de Mondºnio .. 59
24 — A grande pressa
25 — A cólera
............................... 62

26 — A obm-prima de Domingos
..........
27 — Clientes de primeira e de segunda categoriª 70
28 — Sorrir mas agir sério
................
29 — Com a. mão nas mãos de Deus
........
30 — Lenço branco nª Lama da rua ................. 76
31 — Fºwl penitência! .............. 77
32 — Olhos para ver Nossa Senhora , 80
33 — Camilo Gávío, de Tortona ..... 84
34 — Duas espigas numa gleba
...................... 88
35 —
36 —
Anjos pelo caminho ...................
Seis horas de atraso ..
94
96
37 — Numa estrada escura . . 98
38 — Uma ilha distante ................... . 100
39 — “Pelo primeiro que morrer dentre nós" ........ 103
40 —
41
A vigilia da grande viagem
—— Dinheiro
para a viagem ..
.............. 106
110
42 — Adeus à terra 112
43 — Ele voltou 118
44 — O gmnde sonho
...............
— “Que mais podemos pretender?"
121
45
........ 126
46 — No altar, junto de Deus
................. 129

134
:
Compoum Impresso nu
ESCOLAS PROFISSIONAIS SALESIANAS
Rua da Moon. 166 (Mooca)
Pm: m-uu _ P. A. B. x.
Clin roam. & 139
SAO PAUXD
MENSAGEM

Domingos Sávio era ”uma boa fazenda".


Com ela Dom Bosco fez uma "linda roupa"
para Nosso Senhor.

Também sua iuventude é "uma boa fazenda".


Não a desperdice no pecado.
Nem a enviieça no egoismo e na impureza.

Procure um sacerdote que lhe seia, em sua


vida, um outro Dom Bosco.
Abra-Ihe o coração: confie nele.

'
ªgiam suas — também a energia! --
aí decisões de Domingos:
A morte mas não pecados
Os meus amigos serio Jesus e Mari-
Fazemos consistir : santidade nl alogrh. ..

E verá florir em seu coração ! alegria de Sávio.

E sua vida, como a dele, transformar-se—a'


numa "bela roupa" para Nosso Senhor.