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A formação das Línguas e a formação das literaturas

A formação da língua portuguesa é vista geralmente como um processo


de derivação do latim. O argumento que salta mais à vista é o de
usarmos, em português, cerca de 80% de léxico latino.

D. Francisco de São Luiz, mais conhecido por Cardeal Saraiva, em


várias intervenções escritas, pôs em causa no seu tempo (1766-1845)
esse lugar-comum. O Cardeal exagerou na reacção (parecia querer
atribuir tudo o que fosse possível a outras línguas que não o latim,
principalmente ao grego e ao árabe). Mas sem dúvida levantou muitas
hipóteses até hoje convincentes e que me levam cada vez mais a duvidar
dessa velha lição da história da língua portuguesa.

Dou apenas um exemplo, o do verbo acabar.

Os dicionaristas em geral derivam este verbo de cabo, o qual por sua


vez se filiam no latino caput (v., por ex., o Dic. Aurélio), portanto cabeça
– de onde vieram muitos fios de sentido e várias palavras, ao que
parece: captar, Capitólio, capcioso, capital (também no sentido
económico-político), decapitar, precipitar, capitel, occipital e, até,
príncipe (primus-caps, a primeira cabeça ou o que primeiro capta). O
chegar ao cabo, ao mesmo tempo seria chegar à cabeça e chegar ao fim.
Isto soa estranho, como a cabeça fica a significar uma ponta de terra
dentro do mar, o fim da terra. Ainda que a evolução das línguas tenha
como um dos seus motores o raciocínio analógico, ou metafórico, soa
estranho confundir cabeça com fim.

A estranheza tem a virtude de nos fazer pensar. Pode ser que primeiro o
verbo tenha significado ‘chegar ao fim’ e, como quando chegamos ao fim
damos o ‘toque final’, procedemos aos ‘acabamentos’, então o ‘chegar ao
fim’ passou a ser equivalente a ‘aperfeiçoar’. O que está perfeito fica à
cabeça, no topo, no cimo. Por exemplo a parte mais perfeita da estátua
deve ser a cabeça (rosto incluído…); o Capitólio ficava à cabeça de
Roma, etc. Para o pressuposto estar certo
(acabar=terminaraperfeiçoar para pôr à cabeça, no cimo), é necessário
que no princípio o verbo significasse já ‘acabar’. Ora, vindo ele do latim
caput, não podia ter esse significado original. Talvez o Cardeal D.
Francisco de São Luiz, no Glossário de vocábulos portugueses (Luiz,
1837), nos esclareça: lembra ele que o hebraico tinha a forma hhakab,
que significava ‘o que é último, o que é final’ (de onde “se pode” derivar
o verbo acabar); lembra ainda que os árabes diziam el-aqabe para
designar o fim.
Pode ser mera coincidência histórica, mas é uma coincidência que
explica a força do verbo na língua portuguesa – se é que não nos
aconselha a desconfiar da etimologia latina. As etimologias árabe e
hebraica preenchem, de resto, mais plenamente, o sentido de frases
comuns no uso desse verbo.

Acabar é, segundo o Diccionario dos synonymos de Fonseca e Roquette,


chegar ao fim de uma acção, “d’uma obra ou trabalho”,
independentemente de estar concluído ou não. Ou seja, acabar está
mais próximo de terminar que de concluir. Embora os dois verbos se
aproximem quando acabar é usado para dizer polir, aperfeiçoar, ultimar
(Fonseca & Roquette, [1889?], pp. 8, 156) – e este fio de sentido é que
vem do latim.

A discussão podia seguir no sentido de esclarecermos, de uma vez por


todas (ou seja: usando um exemplo só para servir como se usássemos
todos), se acabar vem do latim, do árabe ou do hebraico. Seria uma
discussão fundacional: a conclusão indicava-nos em que língua a
portuguesa se funda. Mas, pelo contrário, o que a história plausível da
palavra me sugere é que as três origens possíveis desse verbo devem ter
contribuído para a sua força, popularidade e longevidade na língua
portuguesa. De onde se conclui que o verbo acabar reúne em si o
sentido de ‘fim’, ‘término’ e ‘perfeição’ (de ‘cabeça’), portanto ele forma-
se de três línguas e não de uma.

O que mais me interessa, na pregação histórico-linguística de Francisco


Saraiva (Francisco Manuel Justiniano Saraiva, nome do Cardeal até aos
14 anos), é a visão que daí pode resultar sobre a formação das línguas.

Atualizando-a – e extrapolando tanto quanto me permita algum senso


de racionalidade – resulta uma teoria (teoria vem do grego e significa
visão) segundo a qual as línguas, em geral, não se formam umas a
partir de outras, mas sim umas entre outras. Explico-me:

Em primeiro lugar é preciso pensar cada agrupamento populacional


(comunidade) que tenha entre si laços de coesão mais fortes e
quotidianos – uma língua comum, por exemplo. Essas pessoas, no seu
conjunto e cada uma por si própria, são como placas giratórias, grandes
aeroportos onde ressoam várias línguas, vários discursos, notícias de
vários mundos (nos casos mais pobres ecos de, pelo menos, duas
semiosferas1). A sua língua falada quotidianamente é uma espécie de
manta de trapos.

As línguas são organismos vivos. Os linguistas repetem constantemente


esta verdade. Mas tratam muitas vezes as línguas como objectos
inanimados. Uma manta de trapos não é um organismo vivo mas, nas
mãos da pobre costureira que tem de proteger os filhos do frio noturno,
ela torna-se viva: cada pedaço de tecido que apareça vai ser aproveitado
para juntar-se à manta e assim ela vai reconfigurando-se ao mesmo
tempo que prolongando o alcance da cobertura, protegendo mais
completamente do frio. A língua do quotidiano é uma manta de trapos
infinita e imprevisível, operada por uma imensa multidão de costureiras
ágeis que são as nossas línguas.

As placas giratórias não derivam umas das outras, interagem umas com
as outras. Elas próprias, a partir do momento em que surgem, não
derivam de algo em exclusivo (o cimento? O engenheiro? A empresa? O
governo?). Logo-logo elas passam a constituir uma rede que se vai auto-
sustentando a partir de tudo o que as frequenta. Em termos
linguísticos, esses agrupamentos populacionais constituem uma
estrutura: imprevisível, dinâmica, autorregulada, em suma, uma
totalidade estruturada mas em contínua transformação.

Em segundo lugar é preciso pensar a língua falada por este


agrupamento estrutural humano. Ela é o espelho interativo do
agrupamento. Nós interagimos com os espelhos: ao refletirem-nos, eles
atiram-nos para dentro de nós e começamos a dialogar connosco – é
nessa medida que um espelho nos dá a nossa identidade. É também
nessa medida que uma língua nos identifica. Mas ela não se forma
como uma derivação de outra estrutura nem nos espelha só a nós: ela
foi sempre uma estrutura própria, ora mais, ora menos marcada por
outra, ou por outras. Interage com a estrutura da nossa personalidade,
com a do nosso meio-ambiente social e semiótico – e com as línguas
faladas ou escritas por outros. Assim é o português de Angola, por
exemplo, tal como também foi assim o latim das várias províncias da
Ibéria romana. Uma estrutura de argamassa constantemente a ser
manipulada, acrescentada e diminuída por mãos ora febris ora
carinhosas. Aí se vão incrustando vários materiais mas também
fragmentos de várias estruturas, vário léxico mas também fragmentos
de regras de sintaxe, morfologia, etc. A cada momento fazemos uma
síntese e só precisamos de regras porque é necessário um mínimo de

1 Semiosfera é o corresponde, ao nível dos significados, à biosfera. Cada comunidade


manipula um conjunto de significados (conceitos, imagens) que forma uma espécie
de ambiente imerso no qual a fala de cada um se enuncia. O termo e o conceito
foram criados pelo semiótico russo Lotman.
entendimento comum para nos percebermos, um código mínimo do
qual todos temos as palavras-chave ou passes (passwords).

A língua portuguesa em Angola pode, neste aspecto, ser comparada ao


que sabemos da formação da língua portuguesa (ou galaico-portuguesa)
na Península Ibérica. Neste sentido, o português angolano não deriva do
português europeu, tal como o português europeu não deriva do latim
mas da complexa história e situação linguística da Península Ibérica
após a queda do Império Romano do Ocidente. Ele forma-se e reforma-
se a partir do momento em que a língua portuguesa é praticada aqui,
principalmente nos aglomerados urbanos coloniais (principalmente
porque nesses aglomerados é que ela é mais falada). Não deriva só do
navio em que veio, mas também dos que logo aqui, ao receberem os
tripulantes, quiseram perceber o que eles diziam e ensinar-lhes também
alguma coisa. O que temos nas cidades coloniais e pós-coloniais é uma
estrutura do tipo já descrito acima. Essa estrutura é dinâmica e
autorreguladora, vai avançando como um cometa, um magma em
constantes processo de agregação e desagregação de elementos e esse
magma forma-se a si próprio constantemente, conduz inevitavelmente o
cometa que ele próprio é, torna-se uma estrutura autónoma desde que
surge. Por isso podemos ver que, até certa altura, o português (língua)
de Angola e do Brasil crescem com mais similaridade que o português
de Portugal e depois afastam-se. O português de Angola e o do Brasil
formaram-se a si próprios a partir de tudo o que tinham à mão as
pessoas que o falavam ali. O ambiente linguístico de Brasil e Angola
tinha mais vertentes em comum do que o de Portugal; por isso o
português tropical e atlântico se diferenciou primeiro do europeu que
era uma das suas componentes, considera como substrato (as outras
sendo adstratos). Mas o substrato é esse mesmo ambiente linguístico e
a nossa psicologia, humana. Ao substrato que é o nosso cérebro todas
as línguas estão adstratas. Tal como o português de Portugal se formou
e reformulou nas mentes a partir do latim falado, sobretudo nas urbes
romanas, mas agregando palavras, regras e expressões das línguas
eslavas, germânicas, árabe e norte-africanas, bantos, tupi, guarani, da
Índia, da China, do Japão, etc., assim também o português tropical e
atlântico se foi formando como língua de passagem, crioula, maleável,
pidgin, ou seja: tendo como verdadeiro substrato a nossa mente e como
adstratos todos os componentes do ambiente linguístico. Uma vez que
esse ambiente foi, no Brasil, acolhendo cada vez mais populações de
línguas ameríndias, ao passo que o nosso não, então foi-se também
diferenciando o nosso português da língua falada comummente no
Brasil (e em Cabo Verde, na Senegâmbia, em São Tomé, Ano Bom, etc.).

Tal como se formou o português e constantemente se reestrutura nos


vários ambientes semióticos, linguísticos e culturais, assim também se
geraram e se modificam as respetivas literaturas entre os vários
ambientes semióticos, linguísticos e culturais. Por exemplo a nossa…
Francisco Soares.

Bibliografia
Fonseca, J. d., & Roquette, J. I. ([1889?]). Diccionario dos Synonymos da
Lingua Portuguesa; Poetico de Epitetos. Paris: Guillard, Aillaud Cª.

Luiz, F. d. (1837). Glossário de Vocábulos Portuguezes Derivados das


Línguas Orientais e Africanas, Excepto a Árabe. Lisboa: Academia
Real das Sciencias. Obtido de
http://books.google.co.ao/books?id=CngCAAAAQAAJ&printsec=f
rontcover&hl=pt-
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