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UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS - PPGCS


DISCIPLINA: VIOLÊNCIA E SOCIEDADE
DOCENTE: EDUARDO PAES-MACHADO
DISCENTE: FREDERICO FAGUNDES SOARES

RESUMO – 19/05/2015

TEXTO:
FRANCO, Maria Sylvia de Carvalho. O código do sertão. In: ______. Homens livres na
ordem escravocrata. 4ª ed. São Paulo: Unesp, 1997.

Franco (1997) debruça-se sobre os padrões de violência entre “caipiras” do interior rural
de São Paulo no fim do século XIX. Para apreender o assunto, analisa autos de processos
judiciais preservados, concluindo que os ajustes violentos não são esporádicos ou
excepcionais, mas cotidianos e ligados a circunstâncias banais, de modo que se repetem nos
setores fundamentais da relação comunitária – vizinhança, lazer, trabalho parentesco e
moralidade. São trechos relevantes os elencados a seguir:
“Em resumo, se uma cultura pobre e um sistema social simples efetivamente tornam
necessárias relações de recíproca suplementação por parte de seus membros, também
aumentam a frequência das oportunidades de conflito e radicalizam suas soluções. (...) os
ajustes violentos não se verificam unicamente em situações que comprometem as
probabilidades de sobrevivência. (...) o uso da força é difundido, como a ela se recorre mesmo
quando estão em jogo meios de vida inteiramente prescindíveis” (p. 26-27).
“Pode-se (...) propor, mesmo, que a violência seja uma forma rotinizada de ajustamento
nas relações de vizinhança. Isto se confirma quando a troca de facadas e bordoadas resulta de
contatos passageiros, aguçados sem que nenhum incidente de importância tenha ocorrido” (p.
28)
“O mutirão difere fundamentalmente da cooperação que aparece nas formas modernas
de organização do trabalho, as quais trazem implícitos o controle e a disciplina. Em sua forma
pura, o mutirão é baseado na prestação voluntária, gratuita de serviços (...) de modo
espontâneo e independente de uma direção expressa e de uma estrutura formal” (p. 29).
“Na verdade, as condições de existência das camadas inferiores da população rural livre,
no Brasil, não favoreceram essa forma de cristalização das relações de trabalho. (...) As
atividades que dependem da cooperação entre pessoas assim frouxamente ligadas não
encontram condições favoráveis para a cristalização de uniformidades de conduta prescritas e
respeitadas de modo estrito. Entre essas pessoas não estão em jogo antigas e inquebrantáveis
obrigações recíprocas (...). a organização do trabalho e o nível de produtividade no mutirão,
em lugar de serem disciplinados por uma tradição, tendem a se definir no plano de
ajustamentos pessoais, espontâneos, suscitados pela dinâmica das situações imediatas em que
um grupo determinado se reúne” (p. 30-31).
“Uma economia desse tipo, que não assenta em divisão do trabalho, não sustenta formas
de especialização e de estratificação social. A pobreza da cultura reforça essa tendência: as
tarefas simples e rotineiras podem ser completamente dominadas por todos os membros do
grupo. (...) o alto grau de mobilidade e a estrutura social indiferenciadas propiciam uma
organização frouxa dos grupos de trabalho” (p. 31-32).
“(...) foi a marginalização sofrida por esses homens que fez do trânsito o seu estado
natural, conservando-os efetivamente como andarilhos. (...) mesma marginalização que
preservou simples o sistema social (...). Basta lembrar que o soldado, o padre, a autoridade
pública estiveram sempre referidos a instituições alheias ao mundo caipira. A espantosa
pobreza da cultura provém da mesma fonte. É suficiente indicar como a produção ‘colonial’
favoreceu o enorme desperdício de força de trabalho (...). Foi nesse contexto que nasceu o
‘preguiçoso’ caipira, que esteve colocado na feliz contingência de uma quase ‘desnecessidade
de trabalhar’ (...). Entretanto, a baixa produtividade foi reforçada pela ausência de uma
regulamentação das relações de trabalho” (p. 32-33).
“Houve mesmo certa regularidade de aproveitamento do trabalho de homens livres e
sem posses nas fazendas (...) mas os aproveitava residualmente, compreende-se porque não
ocorreu uma estereotipação dos comportamentos referentes às atividades de produção” (p.
33).
“(...) as condições de existência (...) embora induzissem à cooperação, não foram de
molde a favorecer a coesão interna e a cristalização de tradições disciplinadoras do trabalho.
(...) o conflito é inerente à própria dinâmica da situação de trabalho, estando subjacente a
técnica de controle do comportamento posto em prática – o desafio. (...) Vê-se, ainda, como as
soluções violentas aparecem como um comportamento estandartizado. (...) o mutirão é visto
pelos próprios participantes como favorável à perpetração de crimes.” (p. 34-35).
“Esses mesmos componentes de ruptura, que surgem no mutirão por condições
diretamente ligadas ao trabalho, prolongam-se, por vezes, além da situação que os originou, e
são revividos nas diversões seguintes às tarefas do dia. Essas reuniões, se de um lado
realmente promovem o estreitamento dos laços de solidariedade, de outro ensejam o
reavivamento das porfias, funcionando assim também no sentido de atualizar e liberar tensões
(...).” (p. 37).
“Compreende-se que os ambientes de lazer sejam propícios para reacender antigas
disputas ou deflagrar antagonismos, quando se descobre vivo o espírito de provocação que
está na base dos divertimentos. O desafio faz sua reaparição em cena, agora como forma
básica da expressão das relações lúdicas. (...) Amigos metamorfoseiam-se em inimigos no
curso de brincadeiras que, insensivelmente, derivam para desavenças. (...) Nos grupos caipiras
os divertimentos giravam em torno das oportunidades oferecidas pela convivência. (...) eram
mais escassas as oportunidades de diversão independente (...). Era assim inevitável que as
pessoas se entretivessem fundamentalmente umas com as outras” (p. 38-39).
“Mesmo nas relações que são apontadas como o protótipo do modelo comunitário – as
relações de família – observa-se a violência incorporada, com alguma regularidade, às formas
de ajustamento. (...) A grande maioria dos crimes cometidos entre membros da mesma família
refere-se a pessoas aparentadas por afinidade e num grau muito próximo: cunhados, sogros e
genros. (...) Não me parece que seja casual essa maior incidência de crimes entre parentes
afins muito diretamente ligados. Sobre a raridade de crimes consanguíneos (...) não o o que
inquerir, visto como são universalmente proscritos” (p. 40-41).
“Na camada livre e sem posses, a família não se organizou para a realização das funções
sociais apontadas para os estratos dominantes. (...) Não obstante, a organização familiar
nessas camadas inferiores inclui vários caracteres do tipo patriarcal, transferidos do modelo
oferecido pelas camadas altas. Não foram registrados sobre a família, com o mesmo grau de
evidencia alcançado no material referente ao trabalho cooperativo, dados que revelem os seus
componentes de tensão. (...) Quando se trata de família (...) estão presentes os controles
‘tradicionais’ peculiares às relações de parentesco, que favorecem a preservação do grupo e
dissimulam as tensões neles existentes. Entre os homens pobres faltaram, porém, os controles
fundados nas situações de interesses que, nas camadas dominantes, presidiram à formação e à
continuidade das grandes unidades de parentesco. (...) O que se observa (...) é sua integração
em pequenos grupos, fundados em relações pessoais, categorizadas e reguladas apenas com
base na ‘tradição’” (p. 42-43).
“(...) entre pobres e ricos conservou-se aparentemente inalterada a regulamentação das
relações de parentesco, diferindo muito, entretanto, a força coercitiva que representaram num
meio e no outro. Nas pequenas famílias, em que predominaram os vínculos pessoais
dissociados de considerações de interesses, os controles ‘tradicionais’ existentes foram
rompidos com facilidade, pondo a descoberto uma contrapartida de antagonismo ao
sentimento de identificação que está na base do laço comunitário. Basta que entre em cena um
componente mínimo de interesses econômicos para que mesmo as prescrições fundamentais
de autoridade paterna versus piedade filial deixem de ser respeitadas” (p. 44).
“Fenômenos que, nas famílias grandes das camadas altas, foram importantes para o
estreitamento e consolidação dos laços de solidariedade, como a troca de crianças entre
parentes, a educação de afilhados, a custódia de filhos naturais, constituíram motivo de
desavenças quando ocorreram em grupos familiares restritos e pobres. Inexistindo vantagens
que compensem o ônus de incorporar dependentes adicionais ao círculo familial, é obvio que
estes não sejam bem-vindos, especialmente considerando-se a penúria dos meios de vida. ” (p.
45).
“Nos dados apresentados, o que sobressai como padrão de comportamento é a violência,
correspondendo, como se verá, a todo um sistema de valores centrados na coragem pessoal.
De acordo com esse código, os riscos de assalto não são evitados, mas ousadamente
enfrentados. (...) Na verdade, o comportamento efetivo das pessoas envolvidas nessas
pendências corresponde exatamente aos requisitos de bravura por elas propalados. (...) Postos
em dúvida atributos pessoais, não há outro recurso socialmente aceito, senão o revide hávil
para restabelecer a integridade do agravado. (...) A violência se erige, assim, em uma conduta
legítima” (p. 47-48).
“Nessas condições, em que não houvera provocação nem a menor possibilidade de
defesa por parte do ofendido, há crime e lugar para denúncia. Integrando-se uma a outra,
nessa circunstância, a ordem legal foi invocada quando transgredida a ordem costumeira. (...)
Injúria (...) não permitia a configuração de legítima defesa. Não obstante, consensualmente
conferiu fundamento legítimo para a agressão. A incorporação da violência como modelo
socialmente válido de conduta pode também ser captada através da maneira inequívoca como
é admitida em público. (...) Nessa situação, em que as notícias sobre a violência cometida
circulam livremente, fica evidente a sua completa incorporação às condutas socialmente
sancionadas” (p. 48-50).
“(...) a luta ingente na relação comunitária surge conjugada à constituição de um sistema
de valores em que são altamente prezadas a bravura e a ousadia. Realmente, a ação violenta
não é apenas legítima, ela é imperativa. (...) Virtude, destemor e violência não se excluem,
mas se confundem numa variada gama de matizes (...). A importância desse conjunto de
valores é revelada na preocupação em construir e conservar uma reputação de valentia. (...) A
violência, integrada à cultura no nível de regulamentação normativa da conduta, pode ser
observada ainda na atitude de aceitação das situações antagônicas, como se fossem parte da
ordem natural das coisas. (...) Assim, parece-me provável que aquele cuidado em guardar
distância das paradas violentas esteja mais ligado a essa forma de concebê-las como ‘normais’
que ao temor de envolver-se nelas” (p. 50-53).
“Parece-me que (...) as pessoas agem de forma semi-automática, em função de normas
socialmente estabelecidas. (...) Mesmo no caso aqui visto (...) seria difícil encontrar uma
defesa consciente das práticas violentas. Para que isto não fosse possível, bastaria a presença
paralela de um código que pressionasse no sentido contrário e que se fizesse valer através da
administração oficial da justiça. (...) Os pronunciamentos colhidos no sentido de repulsa à
violência não são de molde a comprometer a validade das interpretações aqui propostas. (...)
avaliações de repulsa à luta [isto é, à violência] devem ser levadas à conta de uma adesão
convencional a valores exógenos. A atitude manifesta diante do delegado ou do promotor não
poderia deixar de ser reprovadora” (p. 54-55).
“A efetividade do conjunto de valores delineado (...) e o seu significado de negação dos
preceitos estabelecidos por um direito positivo revelam-se ainda na inobservância das
disposições legais que visavam fazer cumprir esses preceitos jurídicos. Assim é que a
perpetração de crimes não desencadeia, nas pessoas que os tenham presenciado, um
movimento no sentido de promover a sujeição do seu autor à justiça” (p. 56).
“De toda a situação analisada surge uma moralidade que incorpora a violência como
legítima e a coloca mesmo como um imperativo (...). A emergência desse código que
sancionou a violência prende-se às próprias condições de constituição e desenvolvimento da
sociedade de homens livres e pobres” (p. 56-57).
“Nessas existências inteiramente pobres (...), pouco se propõe ao entendimento do
homem senão sua própria pessoa. É ela que sobressai diretamente, solitária e despojada, por
sobre a natureza (...). A visão de si mesmo e do adversário como homens integrais impede que
as desavenças sejam conduzidas para lutas parciais, mas faz com que tendam a transformar-se
em lutas de extermínio. Em seu mundo vazio de coisas e falto de regulamentação, a
capacidade de preservar a própria pessoa contra qualquer violação aparece como a única
maneira de ser (...). A valentia constitui-se, pois, como o valor maior de suas vidas” (p.58-59).