Você está na página 1de 7

Pág. 18

ConceitosConceitos

33

AA linguagemlinguagem

Apesar do ceticismo com que alguns estudiosos encaram a caracterização da linguagem, creio útil destacar, por pertinentes ao nosso objeto de estudo, alguns conceitos com que se tem tentado configurá-la:

A linguagem é uma das formas de apreensão do real. O ser humano

vive em permanente e complexa interação com a realidade e a apreende de várias maneiras, por exemplo, através dos sentidos. Mas, como lembra o linguista Iouri Lotman, as informações que o envolvem, os sinais que a vida lhe envia exigem, para um melhor desempenho na luta pela sobrevivência, que ele os decifre e os transforme em signos capazes de permitir-lhe comunicar-se. 14 Vale dizer, ele precisa transformar essas informações e esses sinais em elementos de uma linguagem para assegurar-lhes a perfeita compreensão de que decorre o pleno aproveitamento de importantes oportunidades no seu percurso de vida.

Para certos teóricos, acrescento, a linguagem, ao converter a realidade em signos, ultrapassa as limitações da apreensão

Pág. 19

sensorial para permitir um desvelamento (um "retirar de véus") do real em relação ao sujeito. É, por outro lado, uma forma de organizar o mundo que nos cerca.

A linguagem é a faculdade que o homem tem de expressar seus

estados mentais através de um conjunto de sons vocais chamado língua, que é ao mesmo tempo representativo do mundo interior e do mundo exterior, propõe a clássica lição de Ernst Cassirer que pode ser lida nas páginas 91 e 92 da sua obra lançada na tradução espanhola com o título Psicologia del lenguaje, pela Paidós, em Buenos Aires.

14 Cf. LOTMAN, Iouri. La structure du texte artistique. Paris: Gallimard, 1973. p. 29.

Sob essa visão, centrada de maneira óbvia no sujeito, a linguagem é entendida como uma atividade que apresenta um aspecto psíquico (linguagem virtual) e um aspecto propriamente linguístico (linguagem realizada) que compreende, por sua vez, o ato linguístico (realidade imediata) e o repertório dos atos linguísticos (material linguístico). No âmbito desse posicionamento, a língua é uma abstração, um conjunto organizado de aspectos comuns aos atos linguísticos, vale dizer, em termos técnicos, um sistema de isoglossas. 15

Cabe esclarecer que a linguística tem como objeto o estudo da linguagem falada e articulada, ou seja, aquela que se concretiza nas línguas naturais. Os demais sistemas são objeto de interesse da semiótica ou semiologia, entre eles o sistema de comunicação usado pelos animais (zoossemiótica), as comunicações táteis, os sinais olfativos, os códigos do gosto, os códigos musicais, o sonho, a pintura, a literatura e outros.

A linguagem, como acentua Tatiana Slama-Casacu, na página 20 de seu Langage et contexte (Haia, 1961), é um conjunto complexo de processos — resultado de uma certa atividade psíquica profundamente determinada pela vida social — que

Pág. 20

torna possível a aquisição e o emprego concreto de uma língua qualquer. Eis- nos de novo ante um conceito restrito. Essa dimensão se amplia, ainda na palavra de Lotman, quando afirma que "por linguagem entendemos todo sistema de comunicação que utiliza signos organizados de modo particular". 16

Sistema,Sistema, comunicaçãocomunicação ee signosigno

Esse

último

conceito

de

linguagem

nos

conduz

didaticamente

à

explicitação de sistema, comunicação e signo.

Sistema é um conjunto organizado. Dizer "organizado" pressupõe princípios organizatórios que conferem singularidade ao conjunto. Diante das múltiplas modalidades de linguagem, cumpre, pois, conhecer esses princípios, se desejarmos dela nos assenhorear e assegurar a eficácia da comunicação

15 Cf. COSERIU, E. Teoía del lenguaje y linguística general. 2. ed. Madri: Gredos, 1969. p. 91-2.

16 LOTMAN, Iouri. Op. cit. Paris: Gallimard, 1973. p. 34-5.

que por seu intermédio se processa.

Por comunicação compreende-se, ainda em sentido restrito, a troca de mensagens ou informações entre seres humanos. Se se pensa na etimologia da palavra, pode ser entendida como a faculdade que o homem tem de tornar comum a outrem seus pensamentos, sentimentos e desejos e as coisas do mundo que o cercam. Em sentido amplo, envolve também a realidade técnica da relação entre o homem e as máquinas (por exemplo, os computadores) e das máquinas entre si, além de estender-se ao mundo animal e aos sistemas próprios do interior do indivíduo, como, por exemplo, os sinais transmitidos pelos feixes de nervos do organismo.

Claro está que, quando alguém "fala consigo mesmo", está representando simultaneamente dois falantes.

Signo é outro termo de conceituação ampla e complexa, mas, de maneira geral, e em sentido lato, pode ser entendido, se-

Pág. 21

gundo Charles Sanders Peirce, como qualquer elemento que, sob certos aspectos e em certa medida, representa outro.

À luz das posições do mesmo estudioso, podemos identificar três modalidades de signo, em relação àquilo que designam: o signo índice ou índex, que mantém relação direta com o que representa (é o caso de uma impressão digital, por exemplo); o signo ícone, que tem analogia ou semelhança com o que representa (uma fotografia, uma estátua, um esquema); o signo símbolo, que se baseia numa convenção (as palavras de uma língua, as bandeirolas usadas na comunicação marinheira, os sinais de trânsito etc). Essas modalidades admitem superposições: a cruz, por exemplo, enquanto instrumento de flagelação, é um ícone; enquanto representação do cristianismo, é um símbolo; a impressão digital pode envolver dimensões de ícone e de índice, e ganha caráter simbólico quando, por exemplo, passa a representar uma entidade ou uma empresa; as palavras onomatopaicas são símbolos-ícones: farfalhar (de sedas), cacarejar (de galinhas) etc. 17

17 Cf. PIGNATARI, Décio. Informação. Linguagem. Comunicação. 4. ed. São Paulo: Perspectiva, 1970. p.

28-9.

FatoresFatores dodo processoprocesso linguísticolinguístico dada comunicaçãocomunicação ee funçõesfunções dada linguagemlinguagem

O processo da comunicação implica fatores e funções que têm sido objeto

de preocupação de vários estudiosos, entre eles Roman Jakobson, para ficarmos apenas numa perspectiva linguística. Para esse especialista, cada ato de comunicação verbal envolve, na linguagem comum, um remetente que envia uma mensagem por meio de um código a um destinatário, estabelecido entre os interlocutores um contato que envolve um canal físico e a necessária conexão psicológica. A mensagem enviada é compreendida por-

Pág. 22

que se refere a um contexto extra verbal e a uma situação efetivamente existente anteriores e exteriores ao ato da fala.

Remetente ou emissor, mensagem, código, destinatário ou receptor, contato e contexto são, portanto, os seis fatores do processo linguístico da comunicação.

A partir deles, o citado linguista aponta as conhecidas seis funções da

linguagem:

a) função referencial ou denotativa — pela linguagem nós nos referimos

às coisas do mundo que nos cerca e às do nosso mundo interior; a linguagem denota, representa o mundo;

de

exteriorização psíquica; as interjeições são um exemplo marcante dessa função;

b)

função

expressiva

ou

emotiva

linguagem

um

meio

a

é

c) função conativa (de conação, que significa tendência consciente para

atuar) ou apelativa — quando falamos ou escrevemos, exercemos maior ou menor influência sobre o nosso interlocutor. A linguagem funciona como atuação social ou como apelo. Os verbos no imperativo acentuam bem a presença dessa função, e, sob esse aspecto, é significativa a sua utilização tão frequente nas mensagens da propaganda e da publicidade;

d) função fática — caracteriza-se quando a mensagem busca estabelecer

ou interromper o que se está comunicando. São exemplos frases como "Alô!", "Estão me entendendo?", "Certo?", "Está tudo claro?";

e) função metalinguística — ocorre quando o emissor e o destinatário verificam se estão usando o mesmo código, quando explicitamos termos da própria linguagem usada: Literatura é a arte da palavra;

f) função poética ou fantástica — evidencia-se quando, através dos signos, se "cria" intencionalmente uma realidade, configurada sobretudo numa obra de arte literária. 18

Pág. 23

As três primeiras funções apontadas por Jakobson — a representativa, a emotiva e a conativa — foram anteriormente caracterizadas por Karl Buhler, à luz da psicologia. Para esse estudioso alemão, a linguagem é um meio precípuo de exteriorização de estados de alma (manifestação psíquica), exerce uma atuação sobre o próximo na vida comum (atuação social ou apelo) e estrutura a nossa experiência mentada (função representativa).

Nos

atos

de

linguagem,

várias

dessas

funções

se

apresentam

concomitantemente e estabelece-se entre elas uma certa hierarquia.

Linguagem,Linguagem, língualíngua ee discursodiscurso

Linguagem nos faz voltar ao conceito de língua, tal a relação que as vincula.

A língua é um sistema de signos, ou seja, é um conjunto organizado de elementos representativos. Como tal, é regida por princípios organizatórios específicos e marcados por alto índice de complexidade: envolve dimensões fônicas, morfológicas, sintáticas e semânticas que, além das relações intrínsecas peculiares a cada uma, são também caracterizadas por um significativo inter-relacionamento. A rigor, mais do que um sistema, a língua é um conjunto de subsistemas que se integram.

Tomemos, por exemplo, a palavra rua: o seu significado tem a ver com o jogo de oposições que marca o sistema fônico da língua portuguesa, o que se aclara quando a comparamos com termos como lua, nua ou sua e lembramos que o fonema se caracteriza por marcar a distinção de significado entre as

18 Cf. JAKOBSON, Roman. Essais de linguistique générale. Paris: Minuit, 1966. V. também Linguística e comunicação. 2. ed. rev. São Paulo: Cultrix, 1979.

palavras de uma língua. A forma nasceu, no jogo morfológico dos verbos, termina por um fonema que nos indica pessoa, tempo, aspecto e modo da ação nela expressa; é a terceira pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo, diz a gramática: nasceu, por oposição a nasceram, nascemos, nascem, nascesse, indicadores

Pág. 24

de outras pessoas, outros tempos, modos, aspectos, no sistema morfológico da língua portuguesa; os aspectos sintáticos se fazem presentes na combinação de umas palavras com as outras na frase de que fazem parte. A significação global emerge, portanto, das relações fono-morfo-sintático-semânticas que estão na base da organização desse complexo sistema.

Já que estamos tratando de significação, vale lembrar que, em termos de palavra, esta resulta fundamentalmente, na sua condição de signo, da relação entre o significante e o significado, dois aspectos que o identificam: o primeiro, perceptível, audível; o segundo, produto dele, nele contido. E isso é ponto pacífico, desde os estudos pioneiros de Ferdinand de Saussure.

Não nos esqueçamos também de que a língua, além de ser um conjunto organizado de valores, é, simultaneamente, uma instituição social, é a linguagem de urna sociedade. É constituída de elementos que têm um valor em si e um valor em relação aos demais; o signo linguístico, como explicita Barthes nos seus Elementos de semiologia, é como uma moeda: cada peça vale pelo seu poder aquisitivo, mas vale também em relação às outras moedas de valor maior ou menor.

A língua pode ser entendida ainda como a realização de uma linguagem, um sistema de signos que permite configurar e traduzir a multiplicidade de vivências caracterizadoras do ser de cada um no mundo.

Em sentido restrito, alguns linguistas a consideram um sistema de sons vocais peculiares ao uso da linguagem pelo ser humano.

Outros, como Celso Cunha, por exemplo, em sua Gramática do português contemporâneo, a definem como "um sistema gramatical pertencente a um grupo de indivíduos" e, como expressão da consciência de uma coletividade,

como o meio pelo qual esta concebe o mundo que a cerca e age sobre ele. 19

Pág. 25

Podemos, ainda mais, entender saussurianamente com o citado Barthes que a língua (langue) é "a linguagem menos a fala (parole), é, ao mesmo tempo, uma instituição social e um sistema de valores. Como instituição social, ela não é absolutamente um ato; escapa a qualquer premeditação: é a parte social da linguagem" 20 . Língua e fala, diz ainda o semiólogo francês, "retiram sua definição do processo dialético que as une: não existe língua sem fala, não há fala fora da língua". 21

Criação social, a língua vive em permanente mutação, acompanha as mudanças da sociedade que a elege como instrumento primeiro de comunicação.

Nesse processo, o exercício da linguagem produz uma espécie de depósito sedimentário que ganha valor de instituição e se impõe ao falar individual por meio do dicionário e da gramática.

DiscursoDiscurso ee estiloestilo

Se a língua envolve uma dimensão social e se caracteriza por ser sistemática, a utilização individual que dela fazemos, ou seja, a fala ou discurso, é um conglomerado de fatos assistemáticos e, em relação a ela, "um ato individual de seleção e atualização", para ficarmos com as palavras do mesmo Barthes. Em outra perspectiva, entende-se o discurso como um enunciado ou um conjunto de enunciados ditos e escritos por alguém na direção de um destinatário. Enunciado, segundo alguns linguistas, é, em função da significação, a unidade elementar da comunicação verbal, uma palavra ou sequência de palavras dotadas de sentido. 22

Pág. 26

19 CUNHA, Celso. Gramática do português contemporâneo. Belo Horizonte: Bernardo Álvares, 1970. p. 15.

20 BARTHES, Roland. Le degré zero de l'écriture suivi de éléments de sémiologie. Paris: Gonthier, 1964. p.

85-6.

21 Id., ibid.

22 Os conceitos de discurso e enunciado variam em função do enfoque.