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DIREITO CONSTITUCIONAL

CONTROLE DE CONSTITUCIONALIDADE

1. CONTROLE DE CONSTITUCIONALIDADE: DIREITO COMPARADO E SISTEMA


BRASILEIRO

Teoria da Nulidade: a lei “nasceu morta” (natimorta), já que existente enquanto ato estatal,
mas em desconformidade (em razão do vício de inconstitucionalidade) em relação à
noção de “bloco de constitucionalidade” (ou paradigma de controle).
→ É a teoria preponderantemente adotada no Brasil.

Teoria da anulabilidade (Kelsen – sistema austríaco): A Corte Constitucional não declara


uma nulidade, mas anula, cassa (‘aufhebt’) uma lei que, até o momento em que o
pronunciamento da Corte não seja publicado, é válida e eficaz, posto que inconstitucional
(sic). Não é só: mas — coisa ainda mais notável — a Corte Constitucional austríaca tem,
de resto, o poder discricionário de dispor que a anulação da lei opere somente a partir de
uma determinada data posterior (‘Kundmachung’) de seu pronunciamento, contanto que
este diferimento de eficácia constitutiva do pronunciamento não seja superior a um ano.

Modulação dos Efeitos da Decisão (art. 27, L9868/99): “Ao declarar a


inconstitucionalidade de lei ou ato normativo, e tendo em vista razões de segurança
jurídica ou de excepcional interesse social, poderá o Supremo Tribunal Federal, por
maioria de 2/3 de seus membros, restringir os efeitos daquela declaração ou decidir que
ela só tenha eficácia a partir de seu trânsito em julgado ou de outro momento que venha a
ser fixado” (no mesmo sentido, cf. art. 11 da Lei n. 9.882/99 — ADPF).

A regra do art. 27 da Lei n. 9.868/99, em casos particulares, também tem sido aplicada,
por analogia, ao controle difuso.
→ O precedente famoso aqui é o do caso Mira Estrela.

Em regra, não se admite nem o fenômeno da constitucionalidade superveniente, nem o


da inconstitucionalidade superveniente.

Constituiconalidade superveniente: não se admite, na medida em que o vício congênito


não se convalida, pois o vício de inconstitucionalidade não se convalida, é um vício
insanável, “incurável”.

Inconstitucionalidade superveniente: também não é cabível.


→ lei editada antes do advento da nova Constituição (fenômeno da recepção): se
compatível, será recepcionada; se incompatível, não será recepcionada (revogada).
→ lei editada já na vigência da nova Constituição e superveniência de emenda
constitucional futura que altere o fundamento de constitucionalidade da lei: considera-se a
lei antiga incompatível revogada pela nova EC.
→ exceções:
a) mutação constitcional (ex. casamento entre pessoas homoafetivas)
b) mudança no substrato fático da norma (não se tem uma alteração no parâmetro da
Constituição, mas nos novos aspectos de fato que surgem e que não eram claros no
momento da primeira interpretação, ex. caso do amianto, supervenientemente declarada
inconstitucional a lei que permitia sua utilização, após se descobrirem os seus verdadeiros
efeitos nocivos).
2. BREVE ANÁLISE EVOLUTIVA DO SISTEMA BRASILEIRO DE CONTROLE DE
CONSTITUCIONALIDADE

Constituição de 1824
Não estabeleceu nenhum sistema de controle.
→ o dogma da ‘soberania do Parlamento’ e a previsão do Poder Moderador.

Constituição de 1891
Instituição do controle difuso de constitucionalidade.

Constituição de 1934
Manteve o sistema de controle difuso, estabeleceu, além da ação direta de
inconstitucionalidade interventiva, a denominada cláusula de reserva de plenário e a
atribuição ao Senado Federal para suspender a execução, no todo ou em parte, de lei ou
ato declarado inconstitucional por decisão definitiva.

Constituição de 1937 (Polaca)


Manteve o sistema difuso de constitucionalidade, estabeleceu a possibilidade de o
Presidente da República influenciar as decisões do Poder Judiciário que declarassem
inconstitucional determinada lei, já que, de modo discricionário, poderia submetê-la ao
Parlamento para o seu reexame, podendo o Legislativo, pela decisão de 2/3 de ambas as
Casas, tornar sem efeito a declaração de inconstitucionalidade, desde que confirmasse a
validade da lei.

Constituição de 1946
Restaurou a tradição do sistema de controle de constitucionalidade. Criou-se no Brasil
uma nova modalidade de ação direta de inconstitucionalidade, de competência originária
do STF, para processar e julgar originariamente a representação de inconstitucionalidade
de lei ou ato normativo, federal ou estadual, a ser proposta, exclusivamente, pelo
Procurador-Geral da República (EC n. 16, de 26.11.1965). Estabeleceu-se, ainda, a
possibilidade de controle concentrado em âmbito estadual.

Constituição de 1967 e EC n. 1/69


Esta última regra foi retirada pela Constituição de 1967, embora a EC n. 1/69 tenha
previsto o controle de constitucionalidade de lei municipal, em face da Constituição
Estadual, para fins de intervenção no Município.

Constituição de 1988
Trouxe quatro principais novidades no sistema de controle de constitucionalidade.
a) ampliou a legitimação para a propositura da representação de inconstitucionalidade,
acabando com o monopólio do Procurador-Geral da República;
b) estabeleceu a possibilidade de controle de constitucionalidade das omissões
legislativas, seja de forma concentrada (ações diretas de inconstitucionalidade por
omissão — ADO, nos termos do art. 103, § 2.o), seja pelo controle difuso.
c) os Estados poderão instituir a representação de inconstitucionalidade de leis ou atos
normativos estaduais ou municipais em face da Constituição Estadual, vedando, contudo,
a atribuição da legitimação para agir a um único órgão.
d) a EC n. 45/2004 (Reforma do Judiciário) ampliou a legitimação ativa para o
ajuizamento da ADC (ação declaratória de constitucionalidade), igualando aos legitimados
da ADI (ação direta de inconstitucionalidade), alinhados no art. 103, e estendeu o efeito
vinculante, que era previsto de maneira expressa somente para a ADC, agora, também
(apesar do que já dizia o art. 28, parágrafo único, da Lei n. 9.868/99 e da jurisprudência
do STF), para a ADI. Tudo caminha para a expressa consagração da ideia de efeito
dúplice ou ambivalente entre as duas ações, faltando somente a igualação dos seus
objetos.

3. ESPÉCIES DE INCONSTITUCIONALIDADE E O “ESTADO DE COISAS


INCONSTITUCIONAL

Inconstitucionalidade por omissão → “silêncio legislativo”

Inconstitucionalidade por ação: formal (violação ao devido processo legislativo –


nomodinâmica), material (nomoestática) ou vício por falta de decoro parlamentar.

a) Inconstitucionalidade Formal

Inconstitucionalidade formal orgânica (inobservância da competência legislativa para a


elaboração do ato).

Inconstitucionalidade formal propriamente dita


Por sua vez, a inconstitucionalidade formal propriamente dita decorre da inobservância do
devido processo legislativo.
→ Vício formal subjetivo (iniciativa)
→ Vício formal objetivo (demais fases)

Inconstitucionalidade formal por violação a pressupostos objetivos do ato normativo


(Canotilho): inobservância de requisitos extrínsecos ao ato (ex. Audiência pública,
requisitos de urgência para a MP, etc.)

b) Inconstitucionalidade Material

Vício material (de conteúdo, substancial ou doutrinário): Pode traduzir-se no confronto


com uma regra constitucional ou com um princípio constitucional.

Uma lei pode padecer somente de vício formal, somente de vício material, ou ser
duplamente inconstitucional por apresentar tanto o vício formal como o material.

c) Vício de decoro parlamentar (Invenção de Pedro Lenza)


Seria o vício na vontade do parlamentar, por exemplo, por meio de subornos. A hipótese
foi aventada após os escândalos do mensalão. Também chamado de “vício na formação
da vontade no procedimento legislativo”. Questão ainda não decidida pelo STF.

d) “Estado de coisas inconstitucional”


ADPF 347 – Rel. Min. Marco Aurélio
“presente quadro de violação massiva e persistente de direitos fundamentais, decorrente
de falhas estruturais e falência de políticas públicas e cuja modificação depende de
medidas abrangentes de natureza normativa, administrativa e orçamentária, deve o
sistema penitenciário nacional ser caracterizado como ‘estado de coisas inconstitucional’”.
→ Instituição das audiências de custódia

Decisão: O Tribunal, apreciando os pedidos de medida cautelar formulados na inicial,


por maioria e nos termos do voto do Ministro Marco Aurélio (Relator), deferiu a cautelar
em relação à alínea “b”, para determinar aos juízes e tribunais que, observados os
artigos 9.3 do Pacto dos Direitos Civis e Políticos e 7.5 da Convenção
Interamericana de Direitos Humanos, realizem, em até noventa dias, audiências de
custódia, viabilizando o comparecimento do preso perante a autoridade judiciária
no prazo máximo de 24 horas, contados do momento da prisão, com a ressalva do
voto da Ministra Rosa Weber, que acompanhava o Relator, mas com a observância dos
prazos fixados pelo CNJ, vencidos, em menor extensão, os Ministros Teori Zavascki e
Roberto Barroso, que delegavam ao CNJ a regulamentação sobre o prazo da realização
das audiências de custódia; em relação à alínea “h”, por maioria e nos termos do voto do
Relator, deferiu a cautelar para determinar à União que libere o saldo acumulado do
Fundo Penitenciário Nacional para utilização com a finalidade para a qual foi criado,
abstendo-se de realizar novos contingenciamentos, vencidos, em menor extensão, os
Ministros Edson Fachin, Roberto Barroso e Rosa Weber, que fixavam prazo de até 60
(sessenta) dias, a contar da publicação desta decisão, para que a União procedesse à
adequação para o cumprimento do que determinado; indeferiu as cautelares em relação
às alíneas “a”, “c” e “d”, vencidos os Ministros Relator, Luiz Fux, Cármen Lúcia e o
Presidente, que a deferiam; indeferiu em relação à alínea “e”, vencido, em menor
extensão, o Ministro Gilmar Mendes; e, por unanimidade, indeferiu a cautelar em relação
à alínea “f”; em relação à alínea “g”, por maioria e nos termos do voto do Relator, o
Tribunal julgou prejudicada a cautelar, vencidos os Ministros Edson Fachin, Roberto
Barroso, Gilmar Mendes e Celso de Mello, que a deferiam nos termos de seus votos. O
Tribunal, por maioria, deferiu a proposta do Ministro Roberto Barroso, ora reajustada, de
concessão de cautelar de ofício para que se determine à União e aos Estados, e
especificamente ao Estado de São Paulo, que encaminhem ao Supremo Tribunal
Federal informações sobre a situação prisional, vencidos os Ministros Marco Aurélio
(Relator), que reajustou seu voto, e os Ministros Luiz Fux, Cármen Lúcia e Presidente.
Ausente, justificadamente, o Ministro Dias Toffoli. Presidiu o julgamento o Ministro
Ricardo Lewandowski. Plenário, 09.09.2015.

4. MOMENTOS DE CONTROLE: PRÉVIO OU POSTERIOR

Controle prévio ou preventivo


É o realizado durante o processo legislativo de formação do ato normativo. Realizado pelo
Legislativo, pelo Executivo e pelo Judiciário.

a) Controle prévio ou preventivo realizado pelo legislativo


– atividade das comissões de constituição e justiça
Michel Temer: nem sempre se verifica em relação a todos os projetos de atos normativos,
citando a sua inocorrência, por exemplo, sobre projetos de medidas provisórias,
resoluções dos Tribunais e decretos.

b) Controle prévio ou preventivo realizado pelo executivo


O Chefe do Executivo, aprovado o projeto de lei, poderá sancioná-lo (caso concorde) ou
vetá-lo. O veto dar-se-á quando o Chefe do Executivo considerar o projeto de lei
inconstitucional (veto jurídico) ou contrário ao interesse público (veto político).

c) Controle prévio ou preventivo realizado pelo judiciário


Busca garantir ao parlamentar o respeito ao devido processo legislativo, vedando a sua
participação em procedimento desconforme com as regras da Constituição. Trata-se,
como visto, de controle exercido, no caso concreto, pela via de exceção ou defesa, ou
seja, de modo incidental. Em relação à PEC, o controle será mais amplo, abrangendo não
apenas a regularidade de procedimento, mas, também, a matéria, permitindo o
trancamento da tramitação de PEC que tenda a abolir cláusula pétrea.

Nos termos da jurisprudência do STF, o controle de constitucionalidade a ser exercido


pelo Judiciário durante o processo legislativo abrange somente a garantia de um
procedimento em total conformidade com a Constituição, não lhe cabendo, contudo, a
extensão do controle sobre aspectos discricionários concernentes às questões políticas e
aos atos interna corporis, vedando-se, desta feita, interpretações das normas regimentais
(cf.: MS 22.503-3/DF, Rel. Min. Marco Aurélio, Rel. p/acórdão Min. Maurício Corrêa, DJ de
06.06.1997, p. 24872, Ement. v. 01872-03, p. 385; j.08.05.1996 — Tribunal Pleno,55
descrevendo o posicionamento da Suprema Corte).

OBS. Controle prévio ou preventivo realizado pelo Poder judiciário e a perspectiva das
“normas constitucionais interpostas” (Zagrebelsky)
Trata-se de tese discutida pelo Min. Gilmar Mendes no MS 26.915.
Provém da doutrina de Gustavo Zagrebelsky, segundo a qual “... se as normas
constitucionais fizerem referência expressa a outras disposições normativas, a violação
constitucional pode advir da violação dessas outras normas, que, muito embora não
sejam formalmente constitucionais, vinculam os atos e procedimentos legislativos,
constituindo-se normas constitucionais interpostas (ZAGREBELSKY, Gustavo. La
giustizia costituzionale. Bologna, Mulino, 1979, p. 40-41).
Na verdade, o órgão jurisdicional competente deve examinar a regularidade do processo
legislativo, sempre tendo em vista a constatação de eventual afronta à Constituição
(CANOTILHO, J. J. Gomes. Direito constitucional, apud MENDES, Gilmar. Controle de
constitucionalidade: aspectos jurídicos e políticos. Saraiva, 1990, p. 35-36), mormente,
aos direitos fundamentais” (MS 26.915-C/DF, 08.10.2007). Assim, o tema ganha outro
“colorido” à luz dessa nova perspectiva, devendo o conceito de matéria interna corporis
ser temperado à luz da ideia das normas constitucionais interpostas que, segundo o Min.
Gilmar Mendes, apresentariam uma força normativa diferenciada por derivar diretamente
da Constituição (tema pendente de julgamento e aprofundamento pelo STF, já que o
referido MS foi extinto sem a apreciação da matéria).

→ Feita esta ressalva, o entendimento de não ser possível a revisão de normas interna
corporis pela corte constitucional ainda prevalece e deve ser adotada, especialmente nas
questões objetivas dos concursos.

Controle posterior ou repressivo

a) Controle Político
Verifica-se em Estados onde o controle é exercido por um órgão distinto dos três Poderes,
órgão esse garantidor da supremacia da Constituição. Adotado em alguns países da
Europa.
Barroso entende que o veto jurídico do Executivo, bem como a rejeição de projeto de lei
na CCJ seriam exemplos de controle político.

b) Controle jurisdicional
Realizado pelo Poder Judiciário, tanto por um único órgão (controle concentrado) — no
caso do direito brasileiro, pelo STF e pelo TJ — como por qualquer juiz ou tribunal
(controle difuso), admitindo, naturalmente, o seu exercício por juízes em estágio.
→ sistema misto

c) Controle híbrido
Uma espécie de mistura dos dois tipos de controle citados acima.
d) Exceções à regra geral do controle jurisdicional posterior ou repressivo

– Controle posterior ou repressivo exercido pelo Legislativo


competência exclusiva do Congresso Nacional sustar os atos normativos do Poder
Executivo que exorbitem do poder regulamentar ou dos limites de delegação legislativa
(art. 49, V, CF)
Quando o legislativo entende a medida provisória editada pleo Presidente da República,
no caso de relevância e urgência, devendo submetê-las de imediato ao Congresso
Nacional (art. 62 da CF/88). Trata-se de verdadeiro controle de constitucionalidade.

– Controle posterior ou repressivo exercido pelo Executivo


Trata-se da possibilidade de descumprimento da lei flagrantemente constitucional pelo
chefe do executivo, tese ainda controversa na doutrina e ainda mais fragilizada após a
edição da constituição de 1988. Há precedentes do STF e do STJ adotando o
entendimento da possibilidade de descumprimento pelo executivo.

e) Órgãos administrativos autônomos de controle” (TCU, CNJ e CNMP)


Em razão da importância e atualidade do tema, reforçamos a distinção entre a declaração
de inconstitucionalidade da lei ou do ato normativo e a sua não aplicação. Os referidos
“órgãos administrativos autônomos” não realizam controle de constitucionalidade, pois
não possuem funções jurisdicionais. Conforme observou o Min. Barroso, “quem quer que
tenha que aplicar lei, sem ser um órgão subalterno, deve interpretar a Constituição e, se
entender que a lei é incompatível com a Constituição, tem que ter o poder de não a
aplicar, sob pena de estar violando a Constituição” (Pet 4.656, fls. 46).

O Tribunal de Contas, no exercício de suas atribuições, pode apreciar a


constitucionalidade das leis e dos atos do Poder Público. (Súmula 347 STF)

Após a edição do livro de Pedro Lenza, o Min. Alexandre de Moraes concedeu liminar
em mandado de segurança em sentido contrário. O tema ainda é controverso e merece
atenção.

5. SISTEMAS E VIAS DE CONTROLE JUDICIAL

Neste ponto, cumpre ressaltar a exceção no direito direito brasileiro à regra do controle
concentrado e abstrato de constitucionalidade, a exemplo da situação em que controle
será concentrado (em órgão de cúpula, com competência originária), mas incidental,
discutindo-se a questão de constitucionalidade como questão prejudicial ao objeto
principal da lide. Podemos citar o caso do MS originário do STF que envolve uma questão
constitucional prejucial ao mérito.
6. CONTROLE DIFUSO

Origem histórica: Marbury versus Madison


A noção e a ideia de controle difuso de constitucionalidade, historicamente, devem-se ao
famoso caso julgado pelo Juiz John Marshall da Suprema Corte norte-americana, que,
apreciando o precedente Marbury v. Madison, em 1803, decidiu que, havendo conflito
entre a aplicação de uma lei em um caso concreto e a Constituição, deve prevalecer
a Constituição, por ser hierarquicamente superior.

Noções gerais
O controle difuso, repressivo, ou posterior, é também chamado de controle pela via de
exceção ou defesa, ou controle aberto, sendo realizado por qualquer juízo ou tribunal do
Poder Judiciário.

Controle difuso nos tribunais e a cláusula de reserva de plenário (full bench).


Quando arguida nos tribunais, como questão incidental ao recurso, o art. 97 da CF/88
estabelece que somente pelo voto da maioria absoluta de seus membros ou dos
membros do respectivo órgão especial poderão os tribunais declarar a
inconstitucionalidade de lei ou ato normativo do Poder Público (cláusula de reserva de
plenário, ou regra full bench).
→ Procedimento: art. 950, CPC/2015.
Após o julgamento da questão incidental de inconstitucionalidade pelo pleno ou órgão
especial do tribunal, o órgão fracionário, vinculado à decisão, seja em que sentido for,
julgará a questão principal de mérito.
Haverá a lavratura de 3 acórdãos: a) a decisão do órgão fracionário se acolhe ou não o
incidente. Acolhido, cinde-se o julgamento e se remetem os autos para o órgão especial
ou plenário analisar o incidente de inconstitucionalidade; b) a decisão do órgão especial
ou plenário, declarando a constitucionalidade ou não da lei ou do ato normativo; c)
finalmente, julgada a questão incidental, o órgão fracionário, vinculado à decisão, julgará
a questão principal e será lavrado o terceiro acórdão.
Diante desses 3 acórdãos, o momento para a interposição do eventual recurso
extraordinário é a decisão que julgará a questão principal, conforme a súmula 513 do STF.

Súmula 513. A decisão que enseja a interposição de recurso ordinário ou extraordinário


não é a do plenário, que resolve o incidente de inconstitucionalidade, mas a do órgão
(câmaras, grupos ou turmas) que completa o julgamento do feito.

Outra súmula importante para a matéria diz respeito ao caso do tribunal simplesmente
rejeitar a incidência da lei, não necessariamente declarando-a inconstitucional:

Súmula Vinculante 10. Viola a cláusula de reserva de plenário (CF, artigo 97) a decisão
de órgão fracionário de Tribunal que embora não declare expressamente a
inconstitucionalidade de lei ou ato normativo do poder público, afasta sua incidência, no
todo ou em parte.

No entanto, a jurisprudência do STF desenvolveu-se no sentido de se dispensar o


procedimento do art. 97 toda vez que já exista decisão do órgão especial ou pleno do
tribunal, ou do STF, o guardião da Constituição sobre a matéria. A mitigação da cláusula
de reserva de plenário vem sendo observada em outras situações. Não há a necessidade
de se observar a regra do art. 97, CF/88:
■ na citada hipótese do art. 949, parágrafo único, CPC/2015;
■ se o Tribunal mantiver a constitucionalidade do ato normativo, ou seja, não afastar a sua
presunção de validade (o art. 97 determina a observância do full bench para declarar a
inconstitucionalidade de lei ou ato normativo do Poder Público);
■ nos casos de normas pré-constitucionais, porque a análise do direito editado no
ordenamento jurídico anterior em relação à nova Constituição não se funda na teoria da
inconstitucionalidade, mas, em sua recepção ou revogação;
■ quando o Tribunal utilizar a técnica da interpretação conforme a Constituição, pois não
haverá declaração de inconstitucionalidade;
■ nas hipóteses de decisão em sede de medida cautelar, já que não se trata de decisão
definitiva.

A cláusula de reserva de plenário aplica-se às Turmas do STF no julgamento de RE?


De acordo com as normas regimentais, a cláusula de reserva de plenário não se aplica às
Turmas do STF no julgamento do RE, seja por não se tratar de “tribunal” no sentido fixado
no art. 97, seja, tendo em vista ser função primordial e essencial da Corte a declaração de
inconstitucionalidade, a possibilidade de afetação dessa atribuição aos seus órgãos
fracionários, no caso, as Turmas. O tema é controvertido e precisa sua evolução na
jurisprudência precisa ser observada atentamente.

Turmas Recursais dos Juizados Especiais


Não se aplica a cláusula de reserva de plenártio, porque, embora órgão recursal, as
Turmas de Juizados não são consideradas “tribunais”. As Turmas Recursais poderão
declarar incidentalmente a inconstitucionalidade de uma lei ou afastar a sua incidência no
todo ou em parte sem que isso signifique violação ao art. 97 da CF/88 e à SV 10/STF.
Isso não impede, contudo, que a parte sucumbente interponha recurso extraordinário
contra a decisão da Turma Recursal, para o STF apreciar a questão constitucional.

Súmula 640. É cabível recurso extraordinário contra decisão proferida por juiz de
primeiro grau nas causas de alçada, ou por turma recursal de juizado especial cível e
criminal.

Os “órgãos administrativos autônomos” (CNJ, CNMP e TCU)


O STF entendeu necessária a observância da cláusula de reserva de plenário (art. 97)
para o afastamento da aplicação da lei, aplicada por analogia. Além da regra contida no
referido art. 97, a Min. Cármen Lúcia sustentou que “a exigência de observância do
postulado da reserva de plenário pelos órgãos colegiados de controle administrativo
também decorre da necessidade de se conferir maior segurança jurídica à conclusão
sobre o vício, pois somente com a manifestação da maioria absoluta dos seus membros
ter-se-á entendimento inequívoco do colegiado sobre a inadequação constitucional da lei
discutida como fundamento do ato administrativo controlado” (fls. 23 do acórdão, Pet
4.656, Plenário, j. 19.12.2017, DJE de 04.12.2017).

Efeitos da decisão

Para as partes
Em regra: inter partes e ex-tunc (retroage ao nascimento da lei ou ato normativo).
Obs. Possibilidade de modulação dos efeitos da decisão.
→ art. 27 da Lei n. 9.868/99
→ Leading case: RE 197.917 (caso do Município de Mira Estrela)
Para terceiros
Pedro Lenza entende que o artigo 52, X da CF, sofreu verdadeira mutação constitucional.
Art. 52. Compete privativamente ao Senado Federal:
X - suspender a execução, no todo ou em parte, de lei declarada inconstitucional por
decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal;

Isto porque de acordo com julgamento, por 7 x 2, o STF acatou a tese de que o papel do
Senado Federal seria apenas para dar publicidade à decisão que reconhece a
inconstitucionalidade de uma lei de modo incidental, como questão prejudicial, e que o
efeito vinculante e erga omnes decorreria da própria decisão judicial, não havendo a
necessidade de atuação do Senado Federal. A matéria não foi destacada de modo formal
como questão preliminar a ser enfrentada no referido julgamento. Apesar disso,
entendemos que a mutação constitucional do art. 52, X, passa a ser uma realidade para o
STF. A matéria não está ainda exatamente consolidade, mas deve ser considerada pelo
candidato, pois coaduna-se com a visão do novo CPC/2015. Ademais, ainda continua
necessário saber a esquemática antiga do art. 52, X. (Neste ponto específico, verificar
a exposição no livro de Lenza, nos ítens 6.6.4.2.1 e seguintes).
7. CONTROLE CONCENTRADO
O controle concentrado de constitucionalidade de lei ou ato normativo recebe tal
denominação pelo fato de “concentrar-se” em um único tribunal. Pode ser verificado em
cinco situações:
■ ADI — Ação Direta de Inconstitucionalidade Genérica (art. 102, I, “a”, CF e Lei n.
9.868/99);
■ ADC — Ação Declaratória de Constitucionalidade (art. 102, I, “a”, CF e Lei n. 9.868/99);
■ ADPF — Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (art. 102, § 1.o, CF e
Lei n. 9.882/99);
■ ADO — Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão (art. 103, § 2.o, CF e Lei n.
12.063/2009);
■ IF109 — Representação Interventiva (ADI Interventiva) (art. 36, III, c/c art. 34, VII, CF e
Lei n. 12.562/2011);

a) ADI genérica

Conceito
Busca-se o controle de constitucionalidade de lei ou de ato normativo, sendo esse
controle realizado em tese, em abstrato, marcado pela generalidade, impessoalidade e
abstração.

Objeto (ADI genérica)


É a lei ou o ato normativo incompatíveis com o parâmetro ou paradigma de confronto, não
proposições normativas ou projetos de lei.
Obs. É possível o controle de constitucionalidade de leis ou ato normativos ainda no
período de vacatio legis.
Gilmar Mendes admite o controle da lei ou do ato normativo após a conclusão
definitiva do processo legislativo, mesmo que ainda não esteja em vigor, conforme
sustentado por Celso de Mello no interessante leading case acima citado, que definiu o
objeto da ADI como sendo leis ou atos normativos já promulgados, editados e publicados,
não exigindo, ao menos a partir da leitura do acórdão, a sua vigência (ADI 466).
Em outro precedente, em ADI que objetivava nulificar a PEC da Reforma da
Previdência (PEC 287/2016), a Min. Rosa Weber, monocraticamente, negou seguimento
à referida ação por entender inexistir eficácia jurídica em relação à proposição de
alteração da Constituição. E afirmou: “a existência formal da lei ou do ato normativo — ou,
no caso, da emenda à Constituição — na ordem jurídica, o que se dá após a conclusão
do processo legislativo, traduz pressuposto de constituição válida e regular da relação
processual de índole objetiva inaugurada pela ação direta de constitucionalidade” (ADI
5.669, j. 15.03.2017). Em sua decisão, contudo, a Ministra prescreve que a ADI é
vocacionada para assegurar a “higidez constitucional da ordem jurídica vigente”, sendo
que “o interesse na tutela judicial, por essa via objetiva, pressupõe, em consequência, ato
normativo em vigor”, a fim de caracterizar “efetivo e atual descumprimento da
Constituição”.
Pedro Lenza acha possível a ADI mesmo em vacatio legis, conforme acima
exposto, já que estaremos diante de lei ou ato normativo — requisitos constitucionais (art.
102, I, “a”), apesar de ainda não vigente. Não se discute, na ação de controle abstrato,
direito subjetivo, mas, como se sabe, a lei em tese, em processo marcado pela
generalidade, impessoalidade e abstração (assunto ainda pendente no STF).

Leis
Todas as espécies normativas do art. 59 da CF/88.
Atos normativos
atos normativos podem ser: a) resoluções administrativas dos tribunais; b) atos estatais
de conteúdo meramente derrogatório, como as resoluções administrativas, desde que
incidam sobre atos de caráter normativo.qualquer “ato revestido de indiscutível caráter
normativo”,114 motivo pelo qual incluímos aí os regimentos internos dos tribunais.
Podem, também, ser objeto de controle de constitucionalidade:
– as deliberações dos Tribunais Regionais do Trabalho judiciários que determinam o
pagamento a magistrados e servidores das diferenças de plano econômico;
– resolução do Conselho Interministerial de Preços — CIP (STF, Pleno, ADI 8-0/DF, Rel.
Min. Carlos Velloso), que concedeu aumento de preço aos produtos farmacêuticos,
permitindo, portanto, a verificação de sua compatibilidade com a Constituição Federal.
Outros exemplos reconhecidos como atos normativos a ensejar o cabimento de ADI foram
a Portaria n. 158/2016 do Ministério da Saúde e a Resolução da Diretoria Colegiada
(RDC) n. 34/2014 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que restringem a
doação de sangue por homossexuais. A Corte reconheceu que referidas disposições
constituem atos normativos federais que se revestem de conteúdo regulatório dotado de
abstração, generalidade e impessoalidade, possuindo alta densidade normativa e não se
caracterizando como simples atos regulamentares (ADI 5.543, julgamento iniciado em
19.10.2017, pendente a resolução do mérito).

Súmulas
Não possui o grau de normatividade qualificada, não podendo, portanto, ser questionada
perante o STF através do controle concentrado.
As súmulas vinculantes também não são objeto de ADI, tendo o seu próprio rito de
cancelamento ou modificação, previsto em lei específica (Lei n. 11.417/2006).

Emendas
As emendas de revisão também poderão ser “controladas”, tanto em seu aspecto formal
(procedimento previsto no art. 3.o do ADCT) como no material (cláusulas pétreas — art.
60, §4.o, I a IV).

Medidas Provisórias
Como a medida provisória tem força de lei, poderá ser objeto de controle. Contudo, será a
ADI considerada prejudicada caso a medida provisória perca a eficácia pelo decurso do
prazo ou seja convertida em lei.