Você está na página 1de 3

Universidade Federal da Bahia, Faculdade de Comunicação

Estudante: Gustavo Pimentel Nascimento


Docente: Ravena Maia
Disciplina: Comunicação e Arte (COM315)

O grafite de Banksy e da “Cidade Cinza”

O documentário Cidade Cinza (2013), de Marcelo Mesquita e Guilherme Veliengo,


aborda as questões entre o grafite, seus atores e o poder público na cidade de São Paulo.
Os grafiteiros Os Gêmeos, Nina, Zefix, Finok, Ise e Nunca protagonizam a história.
O filme gira em torno do caso do mural de 700 metros, feito pelos artistas na Avenida 23
de Maio, apagado de forma “equivocada” pela prefeitura de São Paulo, pouco tempo
depois de pronto. Após uma repercussão na mídia, a prefeitura voltou atrás e pediu para
os artistas refazerem o mural.
Um ponto importante é a visão dos artistas de rua, que externam o significado que a sua
arte possui. O fato de escrever mensagens e expressar ideias publicamente, através da
arte, para que todos tenham a oportunidade de ver, tem uma grande relevância. Para
Walter Benjamin, a obra de arte instala-se no contexto da tradição. Desse modo, é notório
que a arte de rua carrega uma bagagem histórica de questões sociais e de luta de grupos
marginalizados. Pois, essa arte nasceu junto com o movimento Hip-Hop, uma narrativa
cultural que dá destaque para os moradores da periferia, principalmente os negros.
De acordo com Jacques Rancière, em A partilha do Sensível: estética e política, a arte
possui um regime ético, que pauta as suas funções – educar, instruir – em um determinado
contexto. Assim, nota-se que o grafite também tem sua função, sobretudo uma função
social, pois instrui a cidade sobre uma linguagem, uma semiótica, que não é dominante.
Além disso, educa sobre os problemas da sociedade, serve como um exercício de reflexão
e percepção. E a repressão que o poder público realiza em cima dessa arte dialoga com
um sistema que quer manter as suas ideologias dominantes, seu status quo.
Além disso, Rancière aborda o regime poético da arte: a noção de representação, imitação
do mundo, com regras específicas. Esse regime se relaciona com a interpretação subjetiva
da equipe da prefeitura, paga para apagar os muros. Os antagonistas interessantes do filme
mostram que a sociedade em geral está acostumada com certos padrões artísticos. Obras
que fazem mimesis de formas e coisas. Isso fica claro quando, diante de um grafite mais
abstrato, eles apagam as partes consideradas “feias” e deixam apenas o que é “bonito” ou
facilmente identificável. Porém, muitas vezes, a obra de arte inteira é invalidada e
apagada.
O grafite é uma forma de arte presente na contemporaneidade. Dialogando com a
passagem do vídeo sobre arte contemporânea, “arte contemporânea assusta”, percebe-se
a relação que essa arte de rua tem com o imaginário social dos centros urbanos. Um
imaginário repleto de preconceitos, paradigmas, que precisam ser desconstruídos.
Segundo Os Gêmeos, “O grafite é meio mágico, você não toca a sujeira, você transforma
numa coisa bacana”. Dessa forma, observa-se o caráter revolucionário da arte de rua.
O documentário Saving Banksy (2017) dirigido por Collin Day, aborda as controvérsias
do mercado da arte. Enquanto os grafiteiros mundo afora, promovem a sua arte de forma
marginalizada, escondidos da polícia e sofrendo risco de lavarem facadas e tiros, alguns
colecionadores de arte usurpam os seus trabalhos e os colocam à venda em leilões de
luxo.
A história de fundo é o dilema de Greif, um fã do Banksy - um dos maiores nomes do
grafite - , que removeu uma de suas obras, que estava à mercê de ser destruída pelo poder
público de São Francisco, para poder preservá-la e passou a ser pressionado por Keszler,
um colecionador, para que vendesse a obra para um leilão.
Além disso, nomes do grafite expõem os seus pontos de vista em relação às questões do
mercado da arte urbana e a apropriação cultural dela.
Guilherme Cunha, em Medio, Monitoro, Valorizo, disse que para o capitalismo, a
produção artística é produção de tesouros. Isso fica claro quando Keszler faz propostas
de compra da obra de Banksy resgatado por Greif, com o intuito de lucrar em cima dela.
Enquanto este queria apenas preservá-la para expor publicamente.
Um ponto importante do filme é o desacordo dos artistas de rua em relação à remoção do
rato de Banksy, feita por Greif. Por um lado, há quem concorde que a ação de remover a
obra para preservá-la foi bacana, por outro, há quem argumente que a arte de rua não deve
sofrer nenhum tipo de intervenção, porque a natureza dela é a rua e as transformações que
podem acontecer nesse ambiente são intrínsecas ao universo desse nicho urbano. Fazendo
um paralelo com a obra de Benjamin, pode-se dizer que isso faz parte da tradição do
grafite, pois o “aqui e agora” dessa arte é a sua marca, “a sua existência única no lugar
onde se encontra” reflete a sua aura.
Outro ponto é a questão da “curadoria” não autorizada pelo artista Banksy em relação às
suas obras que foram roubadas. No artigo O curador e a curadoria, de Marmo e Lamas, é
posto que a curadoria passou a mediar o artista e o público. Nesse sentido, é visto que o
sentido de curadoria foi distorcido, pois o artista não recebe nada pela venda de suas
obras, enquanto um homem de recursos fatura muito dinheiro com o seu trabalho, além
de rotular as obras do artista sob a sua própria ótica, dando um enquadramento para um
trabalho que é subjetivo e possui livre interpretação.
É notável que a mediação dos grafites de Banksy realizada nos leilões revela o elitismo
dentro do mercado da arte. Uma vez que, segundo Cunha, “a mediação cultural atua como
um marketing direto de reconhecimento social da mercadoria”. Em contrapartida, o
grafite, em seu local, continua sendo malvisto e desvalorizado pelo sistema dominante.
Quando o grafite vai para um leilão, apenas pessoas “enfeitiçadas” e que se dizem “cultas”
poderão apreciar e dialogar com ele.
Ao remover o grafite da rua e colocar em um leilão, é promovida a remoção do valor de
culto, da aura, da história dessa arte, que é defendida por Benjamin.
Portanto, o valor do grafite deve, sim, ser promovido e pautado pela mídia, escola,
mercado. Mas deve-se pensar nesse valor de uma forma democrática, inclusiva. Pois,
como disse Rancière, há um regime estético que desobriga a arte de regras específicas e
hierarquia. “A arte constitui o próprio mundo”.