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Olhando Mais de Cima

A equação do segundo grau


Elon Lages Lima
IMPA
Rio de Janeiro, RJ
Por mais antigo, tradicional e repisado que seja o assunto que estamos ensinando, convém sempre procurar novos ângulos para focalizá-lo, outras maneiras de abordá-lo,
não somente buscando tornar mais atraentes nossas aulas mas até mesmo para nos dar um pouco mais de entusiasmo, quebrando a monotonia de repetir todos os anos a
mesma história.
Nesta nota, tratamos de um tópico bem conhecido, embora imprescindível. Tentamos sugerir aos nossos leitores, ao lado da apresentação usual, novos modos de vê-lo.
Mesmo que alguns não achem vantagem em nossos pontos de vista, pelo menos ampliarão seus conhecimentos, dentro do princípio de que se deve sempre saber um pouco
mais do que se ensina.

1. Um problema e sua equação


O problema de achar dois números conhecendo sua soma s e seu produto p é um dos mais antigos da Matemática. Ele já se encontra em textos cuneiformes, escritos pelos
babilônios, mil e setecentos anos antes de Cristo.
Pode-se reformular esse problema, em termos geométricos, assim: determinar os lados de um retângulo, do qual se conhecem o semiperímetro 5 e a área p.
Os números procurados, digamos e , são as raízes da equação do segundo grau x2 sx + p = 0.
Com efeito, se + =se = p, então o trinômio x2 - sx + p se anula para x = e x = , como se vê a seguir:

Outra maneira de chegar à mesma conclusão consiste em observar que, por um lado, temos
x2 sx + p = x2 ( + )x +
e, por outro lado, vale
(x ) (x - ) = x2 (a + )x + .
2
Portanto x - sx + p = (x ) (x ). Segue-se que e são os únicos valores de x que tornam x2 sx + p igual a zero, isto é, são as raízes desse trinômio.
Achar as raízes do trinômio x2 sx + p é, também, um conhecimento milenar. Deve-se observar que, até o fim do século 16, não se usava uma fórmula para os valores das
raízes, simplesmente porque não se usavam letras para representar os coeficientes de uma equação. Isto começou a ser feito a partir de François Viète, matemático francês
que viveu de 1540 a 1603. (veja p. 18). O que se tinha antes era um conjunto de regras, ou receitas, que ensinavam como proceder em exemplos concretos (com
coeficientes numéricos).
Por exemplo, a regra para achar dois números cuja soma e cujo produto são dados era assim ensinada pelos babilônios:
"Eleve ao quadrado a metade da soma, subtraia o produto e extraia a raiz quadrada da diferença. Some ao resultado a metade da soma. Isso dará o maior dos números
procurados. Subtraia-o da soma para obter o outro número".
Esta receita era fornecida, sem nenhuma justificação, a não ser a de que dava certo.
Com o decorrer do tempo, vários métodos foram introduzidos para justificar a regra acima. O mais conceituado é o de completar os quadrados, que veremos a seguir.

2. Completando o quadrado

trinômio x2 sx + p começa como se fosse o quadrado de x s /2, mas termina diferente, com p em vez de s2/4. "Completar o quadrado" é o truque que consiste em somar e
subtrair a expressão s2/4 ao trinômio dado, obtendo-se:

permite-nos tirar, pelo menos, duas conclusões.


A primeira é que, como a parcela (x s /2)2 no segundo membro é positiva para todo x s /2 e se anula para x = s /2, resulta então que, ao fazer x variar entre todos os
números reais, o menor valor que o trinômio x2 sx + p assume é igual a (4p s2) / 4, o qual é atingido quando x = s /2.
A segunda conseqüência da igualdade acima é a fórmula que dá as raízes da equação do segundo grau x2 - sx + p = 0. Com efeito, essa equação se escreve sob a forma

3. Um jeito diferente
Mesmo um tema paleontológico como a equação do segundo grau admite variações. Podemos fugir da rotina e pensar noutras maneiras diferentes de chegar à fórmula das
raízes.
Uma delas é a seguinte.

das raízes , da equação x2 sx + p = 0. O produto continuará sendo chamado p.


Evidentemente, m=m . Multiplicando ambos os membros dessa igualdade por m, obtemos

4. Outro jeito
Para achar dois números , cuja soma é 5 e cujo produto é p, podemos também raciocinar assim:

5. O gráfico tradicional

"Uma figura vale mil palavras."


Acreditando nesse provérbio, vejamos de que modo o problema de achar dois números cuja soma é s e cujo produto é p ganha algum esclarecimento quando se olha para o
gráfico da função y = x2 sx + p. Fixando no plano um sistema de coordenadas cartesianas, tal gráfico é formado por todos os pontos cuja abcissa é x e cuja ordenada é x2
sx + p, quando se faz x variar livremente e assumir todos os valores reais.
Examinando alguns exemplos (isto é, atribuindo valores específicos a s e p), nos convencemos de que esse gráfico tem a forma de uma parábola, com a concavidade
voltada para cima. Nessa parábola, o ponto mais baixo (x, y) é aquele para o qual y = x2 - sx + p assume o menor valor possível; logo esse ponto tem abcissa x = s /2 e
ordenada y = (4p - s2)/4, como vimos no §2 acima.

As raízes da equação xL — sx + p = 0 são as abcissas dos pontos onde a parábola corta o eixo x.
• Quando o ponto mais baixo da parábola tem ordenada negativa, isto é, quando s2 - Ap > 0,
a parábola corta o eixo x em dois pontos; logo a equação tem duas raízes reais diferentes (fig. Ia).
• Quando s2 - Ap = 0, o ponto mais baixo da parábola está sobre o eixo x: ela tangencia esse eixo e a equação tem uma única raiz, chamada "raiz dupla" (Fig. lb).
• Quando s2 - Ap < 0, a parábola situa-se inteiramente acima do eixo x, com o qual não tem pontos em comum. Nesse caso, a equação não possui raízes reais (fig. lc).
Essa discussão sobre a existência e o número de raízes distintas do trinômio x2 — sx + p, feita a partir da observação do gráfico, tem a vantagem didática de ser "visível".

Deve entretanto
a soma no segundo membro só pode anular-se quando as duas parcelas têm sinais contrários ou são ambas nulas. Como a primeira dessas parcelas nunca é negativa (pois é
um quadrado), a existência de raízes depende exclusivamente do sinal da expressão s2 4p, chamada de discriminante do trinômio.
Outro fato que fica bastante óbvio quando se olha para o gráfico é que o trinômio x2 sx + p assume valores negativos quando x está situado entre as raízes a, 0 e positivos
quando x está fora do intervalo que tem essas raízes como extremos. Novamente, essa conclusão pode ser obtida a partir da igualdade x2 - sx + p = (x - ) (x - ), mas é bom
ter sempre mais de uma opção: há pessoas que preferem pensar algebricamente, outras se sentem mais confortáveis vendo uma figura. (O provérbio acima sugere que essas
últimas são mil vezes mais numerosas do que as primeiras.)

6. Outro gráfico para o problema


Achar dois números cuja soma é s e cujo produto é p significa resolver o sistema de equações simultâneas
Olhemos para cada uma dessas equações separadamente. As soluções (x, y) da equação x + y = s são as coordenadas dos pontos do plano situados sobre uma reta que corta o
eixo das abcissas no ponto (s, 0) e o eixo das ordenadas no ponto (0, s).

Por outro lado, dado p 0, os pontos do plano cujas coordenadas (x, y) satisfazem à equação xy = p constituem uma curva chamada hipérbole. Como xy = p (-x)(-y) = p,
se (x, y) está na hipérbole xy = p, então (-x, -y) também está. Logo a hipérbole tem 2 ramos; cada um deles é obtido do outro trocando-se os sinais das coordenadas de todos
os seus pontos. (Quando p = 0, a equação xy = p define a reunião dos eixos coordenados).

Achar dois números que têm soma s e produto p e, portanto, um problema que se traduz geometricamente em achar os pontos de interseção da reta x + y = s com a
hipérbole xy = p. As coordenadas e desses pontos de interseção são os números procurados (fig. 4).
A reta de equação y = x, formada pelos pontos do plano que têm abcissa igual à ordenada, chama-se a diagonal do plano. Na fig. 3, a diagonal é a reta tracejada. Se
dobrarmos o plano ao longo da diagonal, de modo que o semiplano inferior à diagonal caia sobre o superior, cada ponto de
coordenadas (x, y) vai coincidir com o ponto de coordenadas (y, x), chamado o seu simétrico relativamente à diagonal.
Se um ponto ( , ) do plano está ao mesmo tempo na hipérbole xy = p e na reta x + y = s, então o ponto ( , ) também está, pois
tanto faz dizer "x + y = s e xy = p" como "y + x = s e yx = p". Portanto as soluções do problema são representadas no plano por
pontos simétricos em relação à diagonal y = x. Essa observação vem de acordo com o fato óbvio de que se a e 0 são raízes de uma
equação do 2° grau então e também são.
Sejam e números positivos. Ponhamos + = s e = p. O ramo da hipérbole xy = p que contém o ponto ( , ) intersecta a
diagonal no ponto . Por outro lado a reta x + y = s, que também passa pelo ponto ( , ), intersecta a diagonal no ponto(s /2, s /2). A
convexidade desse ramo da hipérbole (v. fig. 4) deixa claro que , valendo a igualdade somente quando = . Isso nos permite
visualizar a desigualdade entre a média geométrica e a média aritmética entre dois números.
Os pontos da hipérbole xy = p mais próximos da origem (0, 0) são aqueles onde a hipérbole intersecta a diagonal y = x. Quando p
> 0, esses pontos são . Se p é negativo, eles são os pontos . Também o ponto da reta x + y = s mais
próximo da origem (0, 0) é o ponto (s /2, s /2), onde essa reta intersecta a diagonal.
A interpretação gráfica das raízes da equação x2 sx + p = 0 como as coordenadas dos pontos de interseção da hipérbole xy = p com a reta x + y = s nos fornece um
terceiro modo de discutir a natureza e o número de raízes dessa equação.
• Consideremos inicialmente o caso em que p < 0. Se isto ocorre, os dois ramos da hipérbole estão no segundo e no quarto quadrantes
(fig. 5) e acompanham os semi-eixos desses quadrantes. Logo a reta x + y = s corta ambos esses ramos. Portanto, quando p < 0, a
equação x2 - sx + p = 0 tem duas raízes reais. Notemos que a desigualdade s2 > 4p é válida automaticamente quando p é negativo.
Notemos também que se a reta corta um dos ramos da hipérbole no ponto ( , ) então ela corta o outro ramo no ponto ( , ). (Se o
segundo ponto fosse outro, a equação teria mais de 2 raízes!) No caso em que p > 0, os ramos da hipérbole estão no primeiro e no
terceiro quadrantes. A reta x + y = s pode intersectar um ou nenhum desses ramos. Para que não haja interseção é preciso que a reta
esteja entre os dois ramos. Isso significa que, percorrendo a diagonal y = x a partir da origem (0,0), atinge-se a reta x + y = s no ponto
(s /2, s /2) antes da hipérbole, no ponto ( , ). (Isso quando s > 0. Se s < 0 caminha-se na direção do ponto ( , ).) Tem-se
então s / 2 < , ou seja, s2/4 < p. Invertendo o raciocínio, para que a reta e a hipérbole tenham 2 pontos em comum, deve valer a
desigualdade s2/4 > p, isto é, s2 > 4p. E para que a reta seja tangente à hipérbole, deve-se ter s2=4p, caso em que há apenas um ponto de
interseção.

7. Aproximações sucessivas
Á equação x2 sx + p = 0 pode ser escrita como x(x s) + p = 0 e daí podemos tirar duas conclusões:

À primeira vista, as fórmulas acima são inteiramente inúteis porque fornecem o valor de uma raiz x da equação em função da própria raiz x procurada. Na realidade,
entretanto, elas não são tão inúteis assim; até pelo contrário: elas fornecem métodos iterativos, para calcular, com a aproximação que se desejar, as raízes da equação dada.
Isso quer dizer que se começarmos com um certo x0, candidato a raiz da equação x2 sx+ p = 0 e, a partir dele, construirmos a seqüência x0, xu x2, ..., xn, ..., onde
xn+1 = s - (p/xn) para cada n IN, então, se a seqüência xn convergir para algum limite x, este limite será uma raiz da equação x2 - sx + p = 0.
Analogamente, o algoritmo xn + l = p/(s - xn) também define uma seqüência que, se convergir para algum limite x, esse limite será uma raiz da equação dada.
Isso significa que os números xn, construídos sucessivamente segundo uma das regras acima, são valores aproximados de uma raiz da equação (caso a seqüência convirja).
Evidentemente, se a equação x2 - sx + p = 0 não possuir raízes reais, os números xn não vão convergir para limite algum. Para estudar esse ponto, nos valeremos da segunda
interpretação gráfica, isto é, do modelo geométrico no qual as raízes são as coordenadas da interseção de uma reta com uma hipérbole.

8. Interpretação geométrica das aproximações


Consideremos inicialmente o caso p > 0. Para fixar as idéias (do contrário teríamos que duplicar o número de figuras), suponhamos também s > 0. Então as raízes da
equação x2 - sx + p = 0 são números positivos, de modo que basta olharmos para o primeiro quadrante.

é o começo de um ziguezague, indicado na fig. 7a. Os valores x0, x1, x2, ... são as
abcissas dos segmentos verticais desse ziguezague cujos pontos angulosos estão alternadamente sobre a hipérbole xy = p
e sobre a reta x + y = s. Tem-se x1 = p/(s - x0), x2 = p/(s x1), etc. Evidentemente, esse ziguezague ascendente converge para o ponto mais alto da interseção da reta com a
hipérbole, logo x0, x1, x2, ... são aproximações sucessivas da abcissa desse ponto, a qual é uma raiz da equação x2 sx + p = 0. A outra raiz é =s .
A outra raiz é obtida usando um ziguezague descendente, que começa num ponto (x0 , p/x0)
(para a direita) e verticais (para baixo), ricocheteando ora na reta x + y = s, ora na
hipérbole xy = p. As abcissas dos segmentos verticais são os pontos x0 , x1 x2, ... onde xn + l = s (p/xn). Essas são aproximações sucessivas da maior raiz a da equação do
segundo grau x2 sx + p = 0 (vide Fig. 7b).
Obtemos assim interpretações gráficas dos algoritmos iterativos xn+1 = p/(s - xn) e xn+i = s (p/xn), quando p > 0. O primeiro converge para a menor raiz
da equação x2 sx + p = 0 e o segundo converge para a maior raiz.

Entenda-se bem, esses processos convergem desde que exista algum x0 tal que
nesse caso a equação não possui raiz real) ou então x2 sx + p = 0 para um único valor de x, o qual deve ser necessariamente igual a s /2. O leitor está convidado a
experimentar as convergem mas agora a trajetória pode ricochetear em ambos os
ramos da hipérbole antes de assumir a forma definitiva de um ziguezague. Recomendamos também ao leitor aplicar esses processos a uma equação cujas raízes sejam
2
complexas (exemplo: x x + 1 = 0) e ver como os valores xn se comportam.
Deve-se também notar que y = s - (p/x) se, e somente se, x = p/(s - y). Isso significa que os dois processos iterativos que estamos considerando são inversos um do outro,
isto é, se um deles transforma xn em xn + i o outro leva xn + l de volta a xn.

9. Aproximações sucessivas com p < 0

Quando p < 0, a equação x2 sx + p = 0 tem uma raiz positiva e outra negativa. Já que uma figura vale tantas palavras, basta dizer que, na fig. 8,, os números x0, x1, x2, ...
são valores aproximados que convergem para a raiz negativa, enquanto que y0, y1, y2, ... convergem para a raiz positiva da equação. Nota-se que tanto os xn como os yn são
ora menores, ora maiores do que seus limites. Tem-se xn + l = p/(s - xn) e yn + l = s - (p / yn). Aqui, em vez de ziguezagues, temos "espirais retangulares" que circundam o
ponto limite, aproximando-se cada vez mais dele.
A fig. 8 foi desenhada com s > 0. Quando 5 é negativo, o processo xn+1 = s - (p/xn) conduz à raiz negativa, enquanto que yn+l = p/(s - yn) fornece valores aproximados para
a raiz positiva.

O leitor pode experimentar e perceber que se começarmos com x0 negativo e aplicarmos o processo xn+1 = s (p/xn) no caso
s > 0 obteremos uma espiral que começa afastando-se da raiz negativa, depois salta para o quarto quadrante e passa a se
enrolar em torno do ponto cuja abcissa é a raiz positiva da equação.

Esses processos não funcionam quando s = 0 (supondo ainda p < 0). De fato, nesse caso a espiral se degenera num
retângulo que é percorrido repetidamente, sem se aproximar do ponto limite. Do ponto de vista aritmético, quando í = 0 os
dois processos iterativos se reduzem a um único, a saber, xn + i = —p /xn. Segue-se que xn + 2 = xn para todo n; logo, em vez
de valores aproximados, obtemos a sequência x0, x1t, x0, x1, ... com dois valores apenas. É preciso então procurar outra saída.

Uma delas é a seguinte: quando s = 0 e p < 0, digamos p = q, q positivo, nossa equação reduz-se a x2 q = 0, cujas raízes
são . Em vez dela, consideraremos a equação x2 2x + 1 q = 0, cujas raízes são 1 + e 1 . Para essa nova
equação, onde s = 2, podemos usar os algoritmos acima descritos e, uma vez obtidos valores aproximados para 1 + , por exemplo, é só subtrair 1 e têm-se valores
aproximados para .

Mas podemos atacar diretamente o problema. Para obter valores aproximados de a, ordenada do ponto ( a, a), interseção da
hipérbole xy = q (q positivo) com a reta x + y = 0, seguimos o ziguezague descendente indicado na fig. 9. Os lados desse
ziguezague ora são horizontais (quando vão bater na hipérbole), ora são perpendiculares à reta x + y = 0 (quando se dirigem
para essa reta).
O ponto inicial do ziguezague, tomado sobre a reta x + y = 0, tem coordenadas (x0, x0), com x0 > 0. O primeiro segmento do
ziguezague acaba no ponto ( q / x0, x0) da hipérbole. O segundo segmento acaba no ponto ( x1 x1) da reta. Como tal segmento é
perpendicular à reta x + y = 0, portanto paralelo à diagonal y = x, a diferença entre as abcissas de dois pontos quaisquer desse
segmento é igual à diferença entre as ordenadas. Logo

Isso nos conduz às aproximações sucessivas x0 , x1, x2, ... etc, onde

Esse é o processo clássico de aproximação para . Tem-se lim xn = , onde a é a raiz positiva da equação x2 q = 0. A fig. 9 fornece, por conseguinte, uma interpretação
geométrica para o algoritmo iterativo da raiz quadrada.
Na fig. 9 começamos com um valor x0 maior do que a raiz de q. É interessante observar que se começarmos com um valor inicial x0 < já a aproximação seguinte, x1,
será maior do que e, a partir daí, x2, x3, etc. serão aproximações por excesso, isto é, todas superiores a . Isso se vê claramente na figura e confirma a observação feita
pela redação da RPM 9, p. 66.

10. O algoritmo de Nicolau Bernoulli


A família Bernoulli, entre 1623 e 1863, forneceu 6 gerações de matemáticos ilustres (mais de uma dúzia). Entre eles, Nicolau, um membro da terceira geração, fez a
seguinte observação, em 1718.
Dada a equação do segundo grau x2 sx + p = 0 constrói-se a sequência a0 , a1, a2, ..., an , ... cujos termos iniciais a0 e ax são escolhidos livremente. A partir do terceiro, os
termos an são definidos pelo algoritmo
an + 1 = san pan_x.
Segundo Nicolau Bernoulli, os quocientes an + l / an são valores aproximados de uma das raízes da equação proposta. Noutras palavras (e em termos mais precisos), se

existir o limite
Isso é fácil de ver, pois da relação de recorrência an + 1 = san pan_1 deduz-se

Evidentemente, há casos em que o quociente an + l / an, para valores muito grandes de n, não se aproxima de número algum. Basta tomar uma equação que não possua raiz
real. Mas, quando an + l / an convergir, seu limite será uma raiz. Qual delas?
A resposta a essa indagação está contida nas figuras 7 e 8. Com efeito, se xn + 1 = an +1/an , então a relação an+l = san pan_1 significa xn+l . xn = s . xn p, ou seja, xn+l = s
p/xn. Portanto os quocientes de Nicolau Bernoulli são as aproximações obtidas por meio de um algoritmo que já conhecemos.
Suponhamos inicialmente p > 0. Escolhendo a0 e a1 de modo que o x2 — sx + p = 0 assuma um valor negativo quando x = a1/a0 , os números xn+1 = an+1/an convergirão para
a maior raiz a da equação x2 sx + p = 0. Se, entretanto, tivermos p < 0, devemos simplesmente começar com dois números positivos quaisquer a0 e a1. Não importa como
eles sejam escolhidos, os quocientes an + 1/an sempre convergirão para a raiz positiva da equação x2 sx + p = 0.

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