COLETÂNEA DE CRÔNICAS

A bola Luis Fernando Verissimo
O pai deu uma bola de presente ao filho. Lembrando o prazer que sentira ao ganhar a sua primeira bola do pai. Uma número 5 sem tento oficial de couro. Agora não era mais de couro, era de plástico. Mas era uma bola. O garoto agradeceu, desembrulhou a bola e disse “Legal!”. Ou o que os garotos dizem hoje em dia quando gostam do presente ou não querem magoar o velho. Depois começou a girar a bola, à procura de alguma coisa. — Como e que liga? — perguntou. — Como, como é que liga? Não se liga. O garoto procurou dentro do papel de embrulho. — Não tem manual de instrução? O pai começou a desanimar e a pensar que os tempos são outros. Que os tempos são decididamente outros. — Não precisa manual de instrução. — O que é que ela faz? — Ela não faz nada. Você é que faz coisas com ela. — O quê? — Controla, chuta... — Ah, então é uma bola. — Claro que é uma bola.
Comédias para ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

— Uma bola, bola. Uma bola mesmo. — Você pensou que fosse o quê? — Nada, não. O garoto agradeceu, disse “Legal” de novo, e dali a pouco o pai o encontrou na frente da tevê, com a bola nova do lado, manejando os controles de um videogame. Algo chamado Monster Baú, em que times de monstrinhos disputavam a posse de uma bola em forma de bip eletrônico na tela ao mesmo tempo que tentavam se destruir mutuamente. O garoto era bom no jogo. Tinha coordenação e raciocínio rápido. Estava ganhando da máquina. O pai pegou a bola nova e ensaiou algumas embaixadas. Conseguiu equilibrar a bola no peito do pé, como antigamente, e chamou o garoto. — Filho, olha. O garoto disse “Legal”, mas não desviou os olhos da tela. O pai segurou a bola com as mãos e a cheirou, tentando recapturar mentalmente o cheiro de couro. A bola cheirava a nada. Talvez um manual de instrução fosse uma boa ideia, pensou. Mas em inglês, para a garotada se interessar.

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Considerações em torno das aves-balas
Ivan Ângelo
Balas perdidas transformam-se em notícia por todo o país. Desde que isso começou — não faz muito tempo, nem pouco — mais de uma centena de pessoas foram atingidas só na cidade do Rio de Janeiro. Em São Paulo não se conta, ou perde-se a conta. Em Belo Horizonte, elas sinistramente trabalham em silêncio. Em Salvador são abafadas pelo baticum dos tambores. Sem nenhum bairrismo elas voam geral, irrompem num circo, num ônibus, numa janela de sala de estar, numa padaria, em muitas escolas, numa praça, num banco, numa rua e se alojam num corpo. Aí se livram da sua característica principal — a de perdidas — e se acham, são achadas. Por que se diz perdida? Perdida é a bala que não se encontra nunca, são as que voam até perder a força e tombam, exaustas e sem glórias de Jornal Nacional, num mato qualquer. A bala perdida: quem a perdeu? A linguagem tem sempre uma lógica. Quem perdeu a bala perdida? O atirador? Pior para quem a achou. Uma pessoa quando perdida, não tem rumo. Se diz: desorientada. Uma bala não. A bala perdida segue reta e veloz como quem sabe aonde vai. Igualzinho às outras, suas irmãs, que levam endereço certo. Perdida, então quer dizer o quê? Desperdiçada? A linguagem nem sempre tem lógica. Quem perdeu a bala perdida? O atirador? Pior para quem achou. Quando acha um corpo a bala pode ainda se chamar perdida? A que acha, mesmo não sendo aquele corpo que buscava, será menos desperdiçada do que as outras, que esbarram em uma simples parede? Ninguém procura balas perdidas. Nem quem as perdeu, nem quem as encontrou, sem querer. São indesejadas, e quanto mais o sejam, mais ansiosas parecem por alojar-se. Essas balas voadoras, libertas da sua casca, só são realmente perdidas se ninguém nunca mais as viu. Então são também inúteis, pois isso é a negação da sua essência mortal. Uma bala, quando útil, fere, mata. É criadora: cria órfãos, viúvas, pais inconsoláveis. Quem a dispara sabe disso. Quem fabrica e vende

sabe disso. Quem recolhe impostos sobre ela sabe muito bem. Porque ela não serve para mais nada, para isso foi feita. Seria próprio chamar de desaparecidas essas inúteis? No país das balas perdidas, perdemse também crianças, chamadas desaparecidas. Mas esta já é outra história. Não, a essas balas não se poderia chamar de desaparecidas porque ninguém sabia delas antes de se libertarem de sua casca, ainda pacíficas, guardando para si sua capacidade voadora e mortal. Só depois que explodem é que voam, e então se perdem ou não. O poeta João Cabral de Melo Neto deu um lindo nome a essas balas sem dono: ave-bala. No poema “Morte e vida Severina”, o retirante pergunta aos que levam um defunto: “Quem contra ele soltou / essa ave-bala”. E a resposta: “Ali é difícil dizer / Irmão das almas, / Sempre há uma bala voando / desocupada”. Éramos um povo acostumado à arma branca, à peixeira, ao punhal, ao facão; herdamos a tradição ibérica de sangrar, cortar o pescoço, capar. Meninos já tinham seu canivete de ponta. Malandros riscavam o ar com navalhas. Mulheres da vida brandiam giletes. Numa arruaça, quem metia a mão numa cara, dava rasteiras. Em algum momento o “te meto a faca” virou “te meto a bala”, aquele “te meto a mão na cara” virou “te meto uma bala na cara”. Começaram a voar as avesbalas. O que aconteceu no meio? Talvez o cinema, o faroeste, os gangsters, a TV, guerras sujas, guerrilhas, terrorismo, drogas proibidas. Nasceu o culto da pontaria certeira. Billy the Kid, John Wayne, Randolph Scott, Frank e Jesse James, Schwarzenegger, Stalone, Matrix. “No século do progresso / o revólver teve ingresso / pra acabar com a valentia” — cantou Noel Rosa nos anos 1930. Surgiu outro tipo de valente, o que fica atrás do revólver. Não é preciso arriscar-se, chegar perto para ferir. “Mais garantido é de bala / Mais longe fere”, diz o poeta João Cabral. Ninguém pense que a influência estrangeira é justificativa. Não, não importamos a violência, ela é mais nossa que o petróleo. Importamos foi a cultura da arma de fogo. No país das balas perdidas, perdem-se também crianças, nem sempre desaparecidas. Muitas delas, talvez a maioria, vão mais tarde brincar por aí de soltar aves-balas, nem sempre perdidas.
O comprador de aventuras e outras crônicas. São Paulo: Ática, 2000. Coleção Para Gostar de Ler, v. 28.

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abre um olho.não são mais aqueles que você recorda. A velhice tem suas alegrias. [. Todavia.saudades. juvenis.. Não lhe incomoda envelhecer. aquela criancinha da sua raça. Bracinhos de criança no seu pescoço. Completamente grátis . de repente lhe caem do céu. você não encontra de modo nenhum as suas crianças perdidas. lhe reconhece. sorri e diz: “Vó!”. Meu Deus. sem choros.] E quando você vai embalar o menino e ele. os olhos arregalados. também sentida nos seus ossos. 2005. às vezes lhe dá aquela nostalgia da mocidade. Sem se passarem as penas do amor. emprego. [. que vêm ocupar aquele lugar vazio. São amores novos. é um menino seu que lhe é “devolvido”. seu coração estala de felicidade. um belo dia.. mas enriquecido com preciosas recordações: os cacos na mãozinha. que o tempo passou mais depressa do que esperava. deixados pelos arroubos Até as coisas negativas se viram em alegrias quando se intrometem entre avó e neto: o bibelô de estimação que se quebrou porque o menininho . 21ª ed. Está quebrado e remendado.mas acredita. desdenhado. também obscuramente. cônjuge. Sem dores. como pão ao forno. E o espantoso é que todos lhe reconhecem o seu direito de o amar com extravagância. nos seus ossos. mais filho que o filho mesmo. embora você. profundos e felizes.todos dizem isso. no seu coração. Rio de Janeiro: José Olympio. tonto de sono. como o filho adotado: o neto é realmente o sangue do seu sangue.involuntariamente! . obscuramente. Choro de criança.nisso é que está a maravilha... filho de filho. quarenta e cinco.. E não se trata de um filho apenas suposto.. ainda não as tenha descoberto . que têm sogro e sogra. símbolo ou penhor da mocidade A arte de ser avó Rachel de Queiroz Netos são como heranças: você os ganha sem merecer. apartamento a prestações. ao contrário. sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da gestação ou do parto. Você sente. e depois o sorriso malandro e aliviado porque “ninguém” se zangou. Pois aquela criancinha.bateu com a bola nele. para onde foram as suas crianças? Naqueles adultos cheios de problemas que hoje são os filhos. O tumulto da presença infantil ao seu redor. longe de ser um estranho. como dizem os ingleses.] nostálgico. da qual você morria de 131 .. Sem ter feito nada para isso. as suas compensações .. é claro. Hoje é relíquia: não tem dinheiro que pague. tenho certeza de que a vida nos dá os netos para nos compensar de todas as mutilações trazidas pela velhice. o doutor lhe põe nos braços um menino. É. A saudade é de alguma coisa que você tinha e lhe fugiu sutilmente junto com a mocidade.. Elenco de cronistas modernos. causaria escândalo e decepção se você não o acolhesse imediatamente com todo aquele amor recalcado que há anos se acumulava. E então. não foi.. São homens e mulheres . Não de amores nem de paixões: a doçura da meia-idade não lhe exige essas efervescências. perdida. sem as dores da maternidade. o culpado foi a bola mesmo. o beiço pronto para o choro. Vó? Era um simples boneco que custou caro. sem os compromissos do matrimônio. um ato de Deus. Sim. pessoalmente. Quarenta anos.

nenhuma coroa os obrigou. é o que presumo ter lido no escasso tempo que ali gastei. qual foi o exame da consciência daquele burro. não matei. a morte é que o torna necessário. e aqui deixo recomendada aos estudiosos. Quando não teimava. os gostos não são iguais. menino de dez anos. Não poucos devedores terei conduzido para longe de um credor importuno. e porventura torpe. mas ideias íntimas de criatura que não podia exprimi-las verbalmente. nenhuma forma de governo. fui sempre em 132 . não há dúvidas que é o exame da consciência. bastava sentir o freguês no tílburi ou o apito do bonde. tinha no olhar a expressão dos meditativos. teve em conta os interesses da minha espécie. porque ele não estava do lado do pescoço. isso mesmo antes haver aprendido maneiras de cidade e de saber o destino do verdadeiro burro. não o fez — ao menos enquanto ali estive. houve algumas vezes homem morto ou pisado na rua. Esses poucos minutos. para sair logo. mas a prova de que a culpa não era minha. Meia dúzia de curiosos tinha parado ao pé do animal. porém. mas justamente do lado da anca. Diga-se a verdade. Quanto à matéria do pensamento. Sou outro Champollion. como ao capim e à água. Quando ao zurro. donde concluí que não estaria deitado. Entre a grade do jardim da Praça Quinze de Novembro e o lugar onde era o antigo passadiço. Diante do animal havia algum capim espalhado e uma lata com água. vejamos os bens que pratiquei. foi o mais. mas caído. Agora. que parecia estar próximo do fim. Quando algum homem. valeram por uma hora ou duas. O burro não comeu do capim. Os ossos furavam-lhe a pele. democracia. Instantes depois. desses que chamam patuscos. tais direitos não existem. levando depressa o tílburi e o namorado à casa da namorada — ou simplesmente empacando em lugar onde o moço que ia ao bonde podia mirar a moça que estava na janela. O infeliz cabeceava. vi uma coisa tão interessante. nem bebeu da água. Além de ser a minha índole contrária a arruaças. Logo.” “Passando à ordem mais elevada de ações. alguma piedade houve no dono ou quem quer que seja que o deixou na praça. que lhe parecerá vulgar. se dei três coices. empunhava uma vara. em campos mais largos e eternos.Um caso de burro Machado de Assis Quinta-feira à tarde. o meu único defeito. não ofendi nenhuma pessoa. Nenhum golpe de estado foi dado em favor dele. Era um trabalho interior e profundo. queria fazer rir os amigos. é que o burro fazia exame de consciência. vimos o burro levantar a cabeça e meio corpo. estava já para outros capins e outras águas.” “A mais de uma aventura amorosa terei servido. usei dele como linguagem. tal foi a descoberta que me pareceu fazer. é que nunca segui o cocheiro na fuga. ao pé dos trilhos de bondes. Nunca perguntei por sóis nem chuvas. e acaso ler esta. Qualquer que seja o regime. Indiferente aos curiosos. Monarquia. não com ideia de agravar ninguém. não menti. oligarquia. Em toda a minha vida. receba daqui um aperto de mão. O lugar não era próprio para remanso de burros. porém. e se não sentia o desejo de dar com ela na anca do burro para espertá-lo. mordia o freio dando assim um bonito exemplo de submissão e conformidade. Nunca dei com homem no chão. o pensamento não é a causa da morte. O que me pareceu. não decifrei palavras escritas. com essa última refeição à vista. então eu não sei conhecer meninos. não havendo nenhuma revolução declarado os direitos do burro. não caluniei. e continuei a zurrar por ser costume velho. pouco mais de três horas. Até aqui os males que não fiz. Não furtei. Ensinei filosofia a muita gente. Ultimamente é que percebi que me não entendiam. mais tão frouxamente. no momento de pegar na pena. Um deles. não acho pecado que mereça remorso. a própria reflexão me diz que. ronca o pau. deixava-me estar aguardando autoridade. estava um burro deitado. os olhos meio mortos fechavam-se de quando em quando. receio achar no leitor menor gosto que eu para um espetáculo. Releve a importância. Não foi pequena ação. esta filosofia que consiste na gravidade do porte e na quietação dos sentidos. que foram poucos minutos. em resumo. que é apanhar e calar. Quando passei do tílburi ao bonde. O pau é a minha instituição um pouco temperada pela teima que é. Se há justiça na Terra valerão por um século. não acho em mim a menor lembrança de haver pensado sequer na perturbação da paz pública. Agora. Se o autor dela é homem que leia crônicas. não foi abandonado inteiramente. E diria o burro consigo: “Por mais que vasculhe a consciência. vimos (eu ia com um amigo). Este remoque popular: por pensar morreu um burro mostra que o fenômeno foi mal entendido dos que a princípio o viram. porventura maior. que determinei logo de começar por ela esta crônica.

achei o animal já morto. deixando que me dessem tapas e punhadas na cara. e da formiga também. Tudo sumira. mas foram brincar nos galhos tombados. não menos alvoroçado que pesaroso. e de tantos arbustos e folhagens coloridas. de nossa velha casa. Estava Eu me lembro do outro cajueiro que era menor e morreu há muito tempo. Cem crônicas escolhidas. não podia furtar-me à tristeza de ver que um burro tão bom pensador ia morrer. Diz que passou o dia abatida. estava como sempre carregado de frutos amarelos. no alto do morro atrás da casa. fez-me ver que os que ficavam não seriam menos exemplares do que esse. e dos canteiros de flores humildes. ver de lá o telhado das casas do outro lado e os morros além. força é dizer que. A consideração. Agora vem uma carta dizendo que ele caiu.htm>. Assim passam os trabalhos deste mundo. imenso. coletivamente falando. Sem exagerar o mérito do finado. No último verão ainda o vi. passando pela Praça Quinze de Novembro. contemplavam o cadáver. espetáculo repugnante. Requiescat in pace.. Diz que seus filhos pequenos se assustaram. 1954. “beijos”. o lugar melhor para apoiar o pé e subir pelo cajueiro acima. De tarde já não havia cadáver nem nada. que as suas instituições políticas são superiores às nossas.” Não percebi o resto. em fins de setembro. em nossos irmãos que já morreram. Por que se não investigará mais profundamente o moral do burro? Da abelha já se escreveu que é superior ao homem. A carta de minha irmã mais moça diz que ele caiu numa tarde de ventania. Foi agora. que é maior? Sexta-feira. Por que não sucederá o mesmo ao burro. isto é. parados. é curiosa sem asco. mas a infância. sentir o leve balanceio na brisa da tarde. Já é alguma coisa neste final de século.kit. se ele não inventou a pólvora. violetas. Eu me lembro dos pés de pinha. num fragor tremendo pela ribanceira.auxílio deles. também não inventou a dinamite. mais racionais. Lembro-me da tamareira. mas o grande pé de fruta-pão ao lado da casa e o imenso cajueiro lá no alto eram como árvores sagradas protegendo a família. 1956. em nosso pai. Contente da descoberta. fornecia centenas de bolas pretas para o jogo de gude. de que todos os burros devem ter os mesmos dotes principais. Ele vive nas mais antigas recordações de minha infância: belo. a cica de seu fruto. do cajá-manga. da grande touceira de espadas-de-são-jorge (que nós chamávamos simplesmente “tala”) e da alta saboneteira que era nossa alegria e a cobiça de toda a meninada do bairro porque carregado de flores. Disponível em <www. como a ciência.net/estilos/croassisburro. como se não quisesse quebrar o telhado O cajueiro Rubem Braga O cajueiro já devia ser velho quando nasci. lembrome da parreira que cobria o caramanchão. Setembro. como quem apresenta a um amigo de outras terras um parente muito querido. Chovera: mas assim mesmo fiz questão de que Carybé subisse o morro para vê-lo de perto. e fui andando. Dois meninos.. porém. Em fim. e caiu meio de lado. trêmulo de sanhaços. Rio de Janeiro: José Olímpio. Cada menino que ia crescendo ia aprendendo o jeito de seu tronco.eeagorajose. 133 . pensando em nossa mãe.

— Posso lhe dar um guarda-chuva. carregando o seu cartaz. que assim é o amor. Ai de ti. pague o que deve. Ela agora estava irritada: — Acabe com isso. é um luxo imperial. isso pouco importava: continuava andando de um lado para outro. Esta crise. Copacabana. Neste momento começou a chuviscar.. Considerei. oh! minha amada. 2001. Eu a avisei: não compre essa geladeira. — Não paguei porque não tenho dinheiro. Chovia mais forte. avisei. E eu sou cobrador. Vou ficar aqui até você cumprir sua obrigação. de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Mas andei lendo livros. diante da casa. São Paulo: Global.. Por diversas vezes tentei lhe cobrar. Rio de Janeiro: Editora do Autor. até você saldar sua dívida. profissional e você é devedora. Você é uma devedora inadimplente. não um guarda-chuva. Não há pigmentos. — Negativo. — Você vai se molhar — advertiu ela. como em um prisma. você é meu marido. Nada. cujos dizeres atraíam a atenção dos passantes: “Aqui mora uma devedora inadimplente. De água e luz ele faz seu esplendor. O pavão é um arco-íris de plumas. e venha para dentro. expliquei. Aristides. O imaginário cotidiano. — Já sei — ironizou ele.Pavão Rubem Braga Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores.. até que não me restou outro recurso: vou ficar aqui. — Você vai me dizer que por causa daquele ataque lá em Nova York seus negócios ficaram prejudicados. Problema seu. — Sou seu marido — retrucou ele — e você é minha mulher. você mora aqui. O que quer você que eu faça? Que perca meu emprego? De jeito nenhum. a inscrição tornara-se ilegível. Falei com você. atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. Você fazia de conta que nada tinha a ver com o assunto. A ele. Mas não. Ele riu. Carregava um cartaz. diante da casa. Tenho de carregar o cartaz. — Claro que posso — replicou ele. 1960. Minha paciência foi se esgotando.” — Você não pode fazer isso comigo — protestou ela. — Vai acabar ficando doente. agora. O que há são minúsculas bolhas d’água em que a luz se fragmenta. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico. você não me ouviu. Já usei todas as formas discretas que podia. e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Afinal. Meu problema é lhe cobrar. E agora o pessoal lá da empresa de cobrança quer o dinheiro. carregando este cartaz. seu grande mistério é a simplicidade. caminhando de um lado para outro. não pagou. você não pagou. por fim. E é o que estou fazendo. amargo: — E daí? Se você está preocupada com minha saúde.. mas eu sou cobrador Cobrança Moacyr Scliar Ela abriu a janela e ali estava ele. 134 .. — Mas você podia fazer isso de uma forma mais discreta. Eu considerei que este é o luxo do grande artista. eu não ganho o suficiente para pagar as prestações. ouviu? Problema seu. Borrada. — Não quero. — Você comprou..

além de duas medalhas de ouro nas Olimpíadas. dizem que o futebol moderno é esse aí. porém conhecem pouco as sutilezas e subjetividades. Muitos vão dizer. Nos últimos 14 anos. 30/8/2008. acha que somos muito pessimistas.br/opovo/colunas/tostao/816045. Há exceções. Aumentou a quantidade e diminuiu a qualidade. dependem muito menos das condições em que são treinados. Já a numerosa turma do oba-oba. Temos de engoli-lo. Carlos Alberto não é armador. com um ótimo argumento. como atuava. apareceu um técnico brasileiro que colocou Carlos Alberto na posição certa. Penso da mesma forma. Os jogadores são produzidos em série. que joga melhor pelos lados e que é capaz de marcar no próprio campo e aparecer com facilidade no ataque. Disponível em <www. Esses têm diminuído no futebol brasileiro. Eles se preocupam mais com seus esquemas táticos que com a qualidade do jogo e se os melhores jogadores estão nos lugares certos. Quem não sabe ver não sabe nada. enquanto a Argentina não venceu nada.uol. até chegar Messi. a Argentina ganhou cinco mundiais sub-20 (acontecem de dois em dois anos). por todos os lados. para exportação. onde pode e deve driblar. Não são bons observadores. 135 . o Brasil ganhou duas copas do mundo e mais um vice. Ronaldo. Todos os cinco Conformados e realistas Tostão Fernando Calazans e poucos outros jornalistas esportivos têm sido críticos e realistas sobre a qualidade e o futuro do futebol brasileiro. quase só de jogadas aéreas e de muita falta e correria. Ronaldinho e Kaká.html>. da Seleção e dos clubes. A Argentina não teve um único fenômeno nesses 14 anos. Há mercado para todos. O Povo Online. certamente faria o mesmo. Mas não se pode depender tanto deles. Estamos preocupados. de estatísticas. Os atletas de talento são colocados na mesma linha de produção dos medíocres. Tocar a bola e esperar o momento certo para tentar fazer o gol virou sinônimo de lentidão. O que queremos é ver mais qualidade. Muitos treinadores brasileiros conhecem tudo de esquema tático. Assim ele jogou no Porto com José Mourinho. dos adversários.opovo. Enfim. Já o Brasil teve Romário. A razão disso é óbvia. O encanto do futebol é outro. em todos os esportes. Confundem modernidade com mediocridade. Robinho é um desses raros jogadores. Eles não têm explicação. que nesse período. os que têm pouco senso crítico e também os modernistas. se movimentando na frente. Não podemos nos contentar com um futebol medíocre. como uma fábrica de parafusos. Se Felipão fosse treinador da Seleção.com. O time que derrotou o Brasil tem sete jogadores da equipe campeã mundial sub-20 em 2005. também chamada de otimista. É preciso criar boas estruturas e estratégias para formar um número maior de excelentes atletas. Ninguém é tão ingênuo para achar que se deve jogar hoje no estilo dos anos 60. ganharam o título de melhor do mundo. Felipão estava louco para ver Robinho no Chelsea porque precisa de um atacante rápido. Os conformados.Rivaldo. e mais perto do gol. que são muito bem preparados cientificamente. organizador. habilidoso. Os fenômenos.

.os gorjeios . a flor encerra sempre o germe de um fruto. mas não se devem iludir com isso.os sentimentos.que nascem sobre o papel como rosas silvestres e sem cultura. de um pomo dourado.as preces. este puro ideal a que todos aspiram e de que tão poucos gozam. este sonho dourado. .as pérolas. . é um sorriso cristalizado. Porque a flor da vida apenas vive um dia.que brincam nos lábios mimosos de uma boquinha sedutora. Há enfim uma espécie de flor que é tão rara como a tulipa negra de Alexandre Dumas.as estrelas. Há as flores do espírito . como os olhos de uma linda pensativa. é um raio de luz perfumado. Há as flores da terra . que o meu leitor 136 . não me agrada este papel de noticiador de coisas velhas.que têm nas suas asas ligeiras as mais belas cores do prisma. O vento soprou sobre ela. Até aqui os meus leitores têm visto o mundo pelo prisma de uma flor.as borboletas. como o crisântemo azul de George Sand. E na verdade. .às vezes tão cheios de perfumes e de sentimentos como a mais bela flor da primavera. espécie de urze cingida de uma coroa de espinhos. depois de muitas fadigas. é a única verdade da vida.os ziguezagues. deixa dentro d'alma os seus perfumes. Há as flores do céu . que outrora perdeu o homem. . e ainda não dei aos meus leitores uma notícia curiosa. . Por isso há muitas espécies de flor. os homens sérios e graves. para outros no seio de um amigo. é a mais sublime expressão da beleza. Feliz do caminhante que à beira do bosque por onde passa colhe esta florzinha azul. É a flor da vida. mas que é hoje a sua salvação. a falar a verdade.os sorrisos.que brilham à noite no seu manto azul. ela se desfolha. Há as flores da religião . que. mas o fruto é a realidade.as mulheres.modestas violetas que perfumam a sombra e o retiro. Para uns a flor da vida nasce nos lábios de uma mulher. como o cravo azul de Jean-Jacques. Há as flores do mar . de luz e de sombras. que são essas recordações queridas que nos sorriem ainda nos últimos tempos da existência. Há as flores do vale . Mas. Muitas vezes.flores a que o coração serve de vaso.Falemos das flores (25 de novembro de 1855) José de Alencar Falemos das flores. Há as flores do ar . quando já tem as mãos feridas dos espinhos. Enquanto pois os poetas vivem à busca de flores. quando muito.os versos. E quando murcha. Eles veem desabrochar as flores. que se alimentam de orvalho. os homens práticos só tratam de colher os frutos. exalar os seus perfumes. Há as flores da poesia . A flor é a poesia. O que é uma flor? Será esta criação vegetal que na primavera se abre do botão de uma planta? Não: a flor é o tipo da perfeição. Há as flores da harmonia . ou um verme roeu-lhe os estames. lindas boninas que o menor sopro desfolha. Algum velho político de cabelos brancos lhes dirá que isto são simples devaneios de uma imaginação exaltada. .rosas perfumadas que ocultam entre as folhas os seus espinhos. como as rosas da manhã que a brisa da tarde desfolha. e esperam como o hortelão que chegue o outono e com ele o tempo da colheita. (Não falo dos nossos ziguezagues. e que vai colher a flor. Há as flores dos lábios . A explicação disto me levaria muito longe. . e as lágrimas de orvalho.filhas do oceano que saem do seio das ondas para se aninharem no seio de uma mulher morena. Há as flores d'alma . são flores murchas). se eu não me lembrasse que até agora ainda não escrevi uma linha de revista.mimosas criaturas que vivem o espaço de um dia.

e fazei ideia do divertimento de uma noite de teatro. se não quereis passar por homem de mau gosto. os cochilos do contra-regra. e não terão trabalho escrever tiras de papel. Cai o pano. mas. e em lugar de dois pontos de admiração dais três. passeio. — Que exageração! diz o chartonista estirando o beiço.todos os dias vê reproduzidas nos quatro jornais da corte. para não se apreciar a sublimidade do talento desta mulher! Vós. — É preciso ser completamente ignorante. a rouquidão do Gentile. em passeios de máscaras pelas ruas. colher as flores de que hão formar o seu bouquet de domingo. que casa. meu leitor. diz o gruísta com o aplomb de um maestro. 2ª ed. deveis imediatamente responder: — Com efeito. de maneira que o vosso ouvido direito está sempre em completa oposição com o vosso ouvido esquerdo. a vossa esquerda um chartonista. essa primavera dos nossos salões. — É verdade! Torna o vizinho esquerdo: — Com esta chuva. Fala-se em clube artístico. esse abril florido da nossa sociedade. apresentar ao leitor as folhas secas do ano. canta uma das duas primadonas. e em mil outras coisas que tornarão esta bela cidade do Rio de Janeiro um verdadeiro paraíso. s/d. todos os camarotes da 4a ordem estão vazios. não falemos. — É possível que um homem de gosto e de sentimento admita semelhantes exagerações? Ficais embatucado. ao teatro. segunda. Poderia dizer-lhe que depois da epidemia vai-se revelando uma outra epidemia de divertimentos. — Com efeito. e em vez de rosas. preferirão ir ao baile. São Paulo: Melhoramentos. Sentai-vos em uma cadeira qualquer: a vossa direita está um gruísta. e terceira edição. as de ao de No intervalo conversai um pouco com os vossos vizinhos. numa companhia francesa de vaudevilles. — Bravo! grita o gruísta entusiasmado. é uma casa em cujo pórtico (digo pórtico figuradamente) a prudência parece ter gravado a inscrição de Dante: — Guarda e passa. Levanta-se o pano: representa-se a Norma ou a Fidanzata Corsa. Enquanto porém não chega esta bela quadra. quando o chartonista vos interroga do outro lado. — Divino! — Oh! é demais! — Sublime! — Insuportável! E assim neste crescendo continuam os dois dilettanti. em baile mascarado no teatro lírico. não há remédio senão contentarmo-nos com o que temos. não tendes remédio senão confessar-vos gruísta. A respeito de teatro. Se desprezais o aviso e entrais. que não quereis assinar um termo de ignorante. é uma artista exímia!!! Apenas acabais a palavra. hem! — Boa! Agora acrescentai a isto as desafinações do Dufrene. Daí a um momento o vosso vizinho da direita retruca: — Veja. em primeira. Neste tempo é que os folhetinistas baterão asas de contentes. 137 . uma das duas prediletas do público. não é natural. daí a pouco tereis razão de arrepender-vos. Ao correr da pena. realmente assustadora.

como preferem garçons e padeiros. nas boas padarias do ramo você ainda encontra a verdadeira mortadela. diretores de teatro trazem a moda lá da Europa. nem tudo está perdido. E todo mundo vai atrás dela. Paulo. de rum. talvez pelo baixo preço. Cineastas querem fazer filme de primeiro mundo. A última do brasileiro é “primeiro mundo”. E que os candidatos à presidência deste nosso país do terceiro mundo não se esqueçam que o Jânio sempre se elegeu comendo “mortandela” e não caviar do primeiro mundo. ingleses. Mas mortadela que é bom. Quando o brasileiro irá assumir que a mortadela é a melhor entrada do mundo? Quando você for para a Europa. fui ao peemedebista Bar Nabuco. mesmo tomando uísque escocês e comendo queijo fedido. de querer virar primeiro mundo? De terceiro para primeiro? Não seria o caso de fazer um estágio. Alemães. Você deve estar perto da falência. Mas acontece que há um preconceito dos patrícios contra a cachaça e a mortadela. evidentemente. Publicada no jornal O Estado de S. e em nenhuma havia mortadela. Contra a mortadela o caso é mais grave. 138 . um pedacinho de pão e viva o terceiro mundo. uma plantinha italiana que lhe valeu o nome. vinho de primeiro mundo. Apesar de tudo. No dia 1° do ano almocei com o casal Annette e Tenório de Oliveira Lima. Ou mortandela. E o que somos nós. Agora já tem caipirinha de vodca e. que se debruçaram na mamata da CEE e agora enfrentam uma séria recessão e desemprego? Por que essa mania. carapálidas? A cachaça e a mortadela são produtos do Brasil. Mas tornou-se. Nem muerta dela. mais caipira e mais barata? Mas já estão avacalhando com ela. o primeiro mundo é triste e melancólico. Infelizmente o brasileiro acha que mortadela é coisa de pobre. vamos deixar de frescura. Se os novos-ricos do PMDB estão comendo mortadela. feita na chapa. O nome vem de murta. visto lá de cima do apartamento do Morumbi. Muita cachaça e muita mortadela. Um limãozinho em cima. É muito mais barato ser pobre. Será que não nos bastam os exemplos de Portugal. e lá estava a mortadela. há um excelente sanduíche de mortadela. aquela que chega no balcão. Quer coisa rnais brasileira. Queijos de primeiro mundo. não adianta pedir dead her que não vai encontrar. também são de primeiro mundo. fresquinha no prato rósea. Quer coisa mais brasileira que a mortadela? Claro que ela veio lá da Itália. Por favor senhores brasileiros primeiro-mundistas. Por exemplo. Mortadela é o que há. até um peru argentino eu comi. a bebida é do primeiro mundo. Continuemos felizes e alegres com a nossa cachaça e a nossa gostosa mortadela. É um barato. No Gargalhada Bar mais para PT. brasileiros! Toda essa introdução para chegar à mortadela. Vamos. a mulher é do primeiro mundo. americanos. toda semvergonha. de faminto. Nem uma fatiazinha. no segundo mundo? Os do primeiro mundo adoram as coisas aqui do terceiro. Vamos deixar a caipirinha caipira. como se dizia antigamente. Espanha. de repente. este ano. do nosso querido terceiro mundo. Mas já meteram a vodca e o rum nela para ficar com cara de primeiro mundo. O carro é do primeiro mundo. suecos caem trôpegos pelas calçadas de Copacabana. Mas nem tudo está perdido. Neste Natal e no Reveillon frequentei várias mesas. sem queimar muito. 5/1/1994. tomar cachaça e comer mortadela. Coisa de caipira mesmo. debaixo de frondosas sibipirunas da Praça Vilaboim e estava lá. nada. Vamos deixar o primeiro mundo para lá. de noite. O brasileiro adora inventar moda. Achei que estava começando bem o ano. Se você oferecer mortadela numa festa. Deixemos que o primeiro mundo exploda entre eles. No mesmo dia. Vai ser um Ano Bom. servida em pãezinhos saídos do forno. antes.Quem tem medo de mortadela? Mário Prata Modismo é conosco mesmo. E é esta bebida que os europeus vêm procurar aqui. a caipirinha. mais terceiromundista. E os preços. vão te olhar feio. perfumes de primeiro mundo. E. Irlanda e Grécia. Caipirinha sempre foi e sempre será de cachaça. a mortadela brasileira. Os publicitários nativos inventaram a expressão e agora tudo que nós queremos tem que ser coisa do “primeiro mundo”. no cardápio. pasmem. Feliz 94 para todos vocês. o petisco do brasileiro.

e ria-se dela. quando encontrou um negro que descia.. e sem mais tir-te nem guar-te honrou com um soco britânico a face do africano. trajando casaca preta e gravata branca. O inglês de chapéu de patente.tigres pelo medo explicável que todos fugiam deles. no meu saudoso tempo de estudante. em frascos e em pequenas caixas bonitas que mantinham e mantêm a Rua do Ouvidor tão inodora como as outras de dia. e. pelas ruas. e bradando furioso: — Pegue ladron! Pegue ladron!. e poucos anos depois publicou. e ainda depois. mas tudo isso encerrado em vidrinhos. perdendo enfim de vista o africano. durante a noite.pega ladron! -: todos se arredavam de inocente e malcheiroso negro que fugia.. Esse ruim costume do passado me traz à memória informação falsa e ridícula que li.. vagam. Naquele tempo.. Voltando rua acima. e caso infeliz e igualmente ridículo. Atualmente de noite observa-se o mesmo fato. de que fui testemunha ocular e nasal em 1839. Com efeito não havia nem há rua mais opulenta de aromas. e não havia senador nem deputado que se apresentasse desacasacado nas respectivas Câmaras: o paletó tornou-se eminentemente parlamentar de 1845 em diante. mais perfumada entre todas as da cidade do Rio de Janeiro. Pouco depois das oito horas da noite. devia ser a rua mais cheirosa. nos tempos do Demarais. Era geral o coro de risadas na Rua do Ouvidor. O inglês. parou em frente de numeroso grupo de gente que testemunhara a cena. que perdendo o equilíbrio pelo ataque e pela dor. de pastilhas odoríferas. capital do Império do Brasil. Mas qual . E todavia não o era!. etc... no seu livro de viagens. de perfumes. conseguindo livrar-se do barril. muitos estudantes iam às aulas de casacas. deixou cair o tigre para diante e naturalmente de boca para baixo. mas de natureza que fez rir a todos. era uma das mais frequentadas pelos condutores dos repugnantes barris. levando à cabeça um tigre para despejá-lo no mar. lançou-se a correr atrás do africano. e o inglês supondo-se desconsiderado por um negro que lhe dava passo à esquerda pronunciou a ameaçadora palavra goodemi. a Rua do Ouvidor. que o encapelara. isto é. completou o caso com um remate pelo menos tão ridículo como o seu desastre. das oito horas da noite até às dez. o reinado de paletó começou depois. os trigraves. mas o inglês que não sabia recuar avançou outro. o colete e as calças do inglês. tornado tigre pela inundação que recebera. O pobre africano ainda a tempo recuou um passo. A informação é a seguinte: Um francês (viajante charlatão) passou pela cidade do Rio de Janeiro.A Rua do Ouvidor Joaquim Manuel de Macedo A Rua do Ouvidor contou diversas lojas de perfumarias. Sábio e consciencioso observador que era. Ah! Que não sei de nojo como o conte! O Tigre ou o barril abismou em seu bojo o chapéu e a cabeça e inundou com o seu conteúdo a casaca preta. um inglês. de fácil e reta comunicação com a praia. sacudindo o chapéu em estado indizível. o condutor do tigre encostouse à parede que lhe ficava à mão direita. o viajante tomou nota do ato. casaca preta e gravata branca subia pela Rua do Ouvidor.!!!” E é assim que escreve a história! O caso que observei foi desastroso. e a vítima de sua própria imprudência. e ainda mais o inglês. porém. Em 1839 ainda era de uso ordinário e comum a casaca. feras terríveis. O negro fugiu acelerado. Entre parêntese. de banhas e de pomadas de ótimo cheiro. esta famosa notícia: “Na cidade do Rio de Janeiro. A esses barris asquerosos o povo deu a denominação geralmente adotada de . Fechou-se o parênteses. ouviu dos patrícios da Rua do Ouvidor queixas dos incômodos tigres que frequentes passavam ali de noite. 139 . etc. e demorando-se nela alguns dias. por consequência..

como o do poeta. porém. levando-o ao nariz. Ele pode ser subjetivo. quando nesse momento o cego apaixonado esbarrou com um condutor de tigre. foram muitos e todos mais ou menos grotescos. e não apareceu mais à bela viuvinha. passei para os jornais e revistas de Belo Horizonte e depois para a imprensa do Rio e São Paulo. Pode (e deve) falar na primeira pessoa sem envergonhar-se. Conto casos. dois dias depois tornou a passar diante das queridas janelas. e linda como os amores. Mas foi somente quando me chamaram para substituir Drummond no Jornal do Brasil. que de súbito desfez as mais doces esperanças do casamento inspirado e desejado por mútuo amor. ao ver o estudante. bota seu ovo regularmente. e. O pior do caso foi que a jovem adorada incorreu no erro quase inevitável de desatar a rir. O Cronista é um Escritor Crônico Affonso Romano de Sant'Anna O primeiro texto que publiquei em jornal foi uma crônica. 140 . anoto momentos líricos. Claro que de tanto purificar seu estilo diariamente o cronista estilista acaba virando um estilista. 1878. Não tem importância. um raminho de lindas flores. Fiz de tudo (ou quase tudo) em jornal: de repórter policial a crítico literário. faço críticas sociais. com estilista. embora não encapelado. ternamente. O cronista é isso: fica pregando lá em cima de sua coluna no jornal. Rio de Janeiro: Perseverança. saudou-o doce. Um tigre matou aquele amor. Dos jornais de Juiz de Fora. aproveitando o ponto do mais vivo clarão iluminador. mas levou o lenço a boca para dissimular o riso lembrador de ridículo infortúnio. Claro que essas que interferem mais cruamente em assuntos momentosos tendem a perder sua atualidade quando publicadas em livro. Virei um escritor crônico. meditando e pregando. Uma das funções da crônica é interferir no cotidiano. amoroso. Não foi este único desastre que os tigres ocasionaram. Uma noite. o inglês parou. na poltrona de casa ou espremidas na sala de aula. Por isto. O cronista é o mais livre dos redatores de um jornal. exposto ao sol e à chuva. 12/6/88 Texto extraído do jornal "O Globo" . podem ser doces ou azedas e ser consumidas em gomos ou pedaços. e à luz de fronteiro lampião viu o namorado que. como estava. viuvinha de dezoito anos. Já andei dizendo que o cronista é um estilista. Estilita era o santo que ficava anos e anos em cima de uma coluna. Christie.Ainda hoje o estou vendo. meu colega e amigo. que passei a fazer crônica sistematicamente. faço descrições. São Simeão passou trinta anos assim. em 1984. a bela senhora estava à janela. e sempre a sacudir o chapéu olhou iroso para o grupo e disse mas disse com orgulhosa gravidade britânica: — Amanhã faz queixa a ministro da Inglaterra. e há de ter indenização de chapéu e de casaca perdidas. O cronista é crônico. O namorado ressentiu-se do rir impiedoso da sua esperançosa e querida noiva. E aí fui tomando gosto. o único capaz (depois do jantar) de exigir indenização do chapéu e da casaca que o patrício perdera. Não confundam.Rio de Janeiro. doente de seu tempo e ao mesmo tempo pairar acima dele. Carlos Eduardo Novaes diz que crônicas são como laranjas. estava perdidamente apaixonado por uma viúva. lhe mostrava. longa e repetida risada de estudante feliz e alegrão. Que tipo de crônica escrevo? De vários tipos. Seu "eu". É inútil dizer que não houve questão diplomática. no deserto. a formosa viúva. por enquanto. que ia enviarlhe. O estudante deu então solene cavaco. A Inglaterra ainda não se tinha feito representar no Brasil por Mr. Memórias da Rua do Ouvidor. há uma certa confusão entre colunista e cronista. Devia ter eu lá uns 16 ou 17 anos. O que é um cronista? Luís Fernando Veríssimo diz que o cronista é como uma galinha. assim como há outra confusão entre articulista e cronista. é um eu de utilidade pública. e logo depois de fugir da janela por causa do mau cheiro de que se encheu a rua. deve estar encharcado. Ah! Eu creio que então a melhor das risadas que romperam foi a minha gostosa. O articulista escreve textos expositivos e defende temas e idéias. No erro. ligado ao tempo. O namorado era estudante. e sei de um outro (além da encapelação do inglês) ocorrido na Rua do Carmo hoje Sete de Setembro. foi quase tão infeliz como o inglês.

o mundo está vazio. é um par de velhos que troca silêncios num banco sem encosto. vou ficar aqui atrás: entrou aqui. que empatou a pelada e que lava a alma de qualquer bola. mas tem também sem-pulo de craque como aquele do Tona. numa decisão de título. maltratada até. seja velha. no gol. lambe a canela de um. E. para de estalo no canteiro. a bola começa a sangrar. Os melhores da crônica brasileira. tira do bolso um canivete e dá-lhe a primeira espetada. de quando em quando. ainda. doida. sem afeto. Uma pintura. deixa-se espremer entre mil canelas. depois escapa. trata-se de uma bola profissional. Não deu tempo nem de desfazer as traves feitas de camisas. ainda ontem. O espantalho-gente pega a bola. Nova saída. No segundo golpe. Uma gritaria. Já reparei uma coisa: bola de futebol. na maior farra do mundo. corre para lá. Em cada gomo o coração de uma criança. uma número cinco. de bola. Uma bola assim. É um velho com cara de guarda-livros que. invade o universo infantil de uma pelada e vai expulsando todo mundo. pois. nessa pelada inocente é que se pode sentir a pureza de uma bola. Parece um bichinho. “FIFA — Especial”. seja nova. coberta de condecorações por todos os gomos 141 . no entanto. já sabe”. empurrando. viva. eu não jogo. Afinal. de sonho: “Eu jogo na linha! eu sou o Lula!. correndo para cima e para baixo. um bebê de carrinho. acertam-lhe um bico.(gomos hexagonais!). um time fica como está. o campo está vazio. é um ser muito compreensivo que dança conforme a música: se está no Maracanã. para não confundir. quica no meio-fio. o outro joga sem camisa. toda de branco. esteja nos pés de Gérson ou nas mãos de um gandula. Oito de cada lado e. isso aqui fervia de menino. aí está ela. carimbos ilustres: “Copa Rio-Oficial”. pela calçada. mantendo sempre a mesma pose adulta. Em compensação. todo mundo querendo tirar o selo da bola. coitadinha. vendo estrelas. tô com o joelho ralado de ontem. sem pedir licença. ela rola e quiçá com um ar dramático. num racha de menino ninguém é mais sapeca: ela corre para cá. Entra na praça batendo palmas como quem enxota galinha no quintal. todo mundo se escalando. cheia de recepção do Itamaraty. Num instante. é uma babá que passa. 1977. bendito fruto de uma suada vaquinha. Rio de Janeiro: José Olympio. Racha é assim mesmo: tem bico. jamais seria barrada em Peladas Armando Nogueira Esta pracinha sem aquela pelada virou uma chatice completa: agora. disputada. No entanto. rolando. de sol. Aqui. ela sai zarolha.

matinal. seu compasso monótono e histérico. embrulhadinhas e com a nota fiscal bem às claras. não merecia o título e a função de senhorita. 142 . os pés e as pernas avançam e ficam no mesmo lugar. que me aturava a mania pelos sambas de Ary Barroso. lavo o rosto. Meu castiçal de prata foi profanado com a cara de um tipo até simpático que naquela manhã ganhará alguma coisa à custa do meu labor e cheque. O velho não dizia nada. se degringola ao som de U2. Anos atrás. pois as novidades estavam ali. o baião e outras pragas vindas de alheias e próprias pragas. o remédio era atender o maucaráter que me batia à porta àquela hora da manhã. e pedira que mandassem as novidades. e o swing. Hoje. 2009.e esqueço o cheque. A garota dormia impune. seria começa o beguine. mas me olhava fundo e talvez tivesse ganas de me esganar. uma menina que ainda pego no colo e aqueço com meu amor e o meu carinho. o corpo todo treme e sua. sim. Mas ali estamos. Mas me aturava e aturava o meu Brasil brasileiro. Vou ao banheiro. o mundo podia desabar. e ninguém a despertaria do sono 12 anos. mas apenas de 12 anos. Ela me chama e me perdoa. a garota encomendara um mundão de CDs numa loja próxima. O tapete já fora arrastado e amarfanhado a um canto. minha própria filha.Do rock Carlos Heitor Cony Tocam a campainha e há um estrondo em meus ouvidos. — É aqui que mora a senhorita Regina Celi? Digo que não e fulmino o importuno com um olhar cheio de ódio e sono. o mambo. Gemo surdamente na hora de assinar o cheque e recebo o embrulho. quando ela tem medo do mundo ou de não saber os afluentes da margem esquerda do rio Amazonas na hora do exame. visto um short e vou para a sala disposto a causar boa impressão à senhorita Regina Celi. Eram CDs. Purgo honestamente meus pecados e lembro o pai. aturo o rock.até que o fôlego e o U2 acabem na manhã e no som. A senhorita Regina Celi tem a cara afogueada. uma guria bochechuda ainda. cor de sangue e metal inundando o dia e o quarto com sua voz rouca. Rio de Janeiro: Objetiva. abalada pelo cheque tão matutino e fora de propósito. Pois aí estava o rock. Vejo o camarada do bigodinho com o embrulho largo e enfeitado. eu e a senhorita Regina Celi. Deixo o embrulho em cima do som e volto para a cama. mas antes de fechar a porta sinto alguma coisa de íntimo naquele “senhorita Regina Celi”. A empregada estava de folga. Quando ordeno os pensamentos e ambições no estreito espaço do meu pensamento e retomo um sono e um sonho sem cor nem gosto. aumento o volume do som. — Vem. forçar o sono e a tranquilidade interior. começa o rock. a vida e a faina humana rebolando este cansado corpo-pasto de espantos . Chamo o homem que já estava no elevador. Crônicas para se ler na escola. que de babydoll. há uma Regina Celi em minha casa. papai! O peso dos meus invernos e minhas banhas causa breve hesitação. esbaforida. espero o tal do U2 dar um grito histérico e medonho . até que ela me estende o braço. Então. Mas o beguine passou de moda.

além de um grande músico. entre outros títulos. Não há um único paulistano que não reclame do trânsito. Porque fiz boas amizades na metrópole vizinha. ela disse. um beco. Esse urbanismo desastroso e desumano é uma das características das cidades brasileiras. uma das nossas maiores riquezas. À primeira vista. Senti isso quando me mudei para cá em 1970. da poluição. que separam seus moradores do resto da cidade. uma antiga vila operária. à surpresa da descoberta de muitos lugares escondidos ou ocultados numa metrópole da qual a natureza parece ter sido banida. Brás. autor de Órfãos do Eldorado e Dois irmãos (ambos pela Companhia das Letras). Texto publicado na Revista da Folha. interrompido pela ganância das construtoras e da especulação imobiliária em conluio com o poder público municipal. um morador de São Paulo aprende a gostar da metrópole. Mooca. 55. há ruas com um casario de uma outra época. da violência e das filas intermináveis. um recorte de paisagem. assim como a Estação da Luz e o Mercado Municipal. Quis saber por que. mas há bairros que são pequenas cidades. Milton Hatoum. No mundo grandioso da metrópole. Aos poucos. servem de contrapeso ao caos e aos males da metrópole. Apesar das adversidades. mas as relações de trabalho e afeto. Belenzinho. como se a metrópole fosse um palimpsesto a ser descoberto em cada andança. Já quase não se vê o céu de Sampa. Villa-Lobos. Gosto de passear pelo Cambuci. que são formas poderosas de inserção social. escritor. O Entendi que São Paulo era uma meca para onde confluíam pessoas de todos os quadrantes. Burle Marx.São Paulo: as pessoas de tantos lugares Milton Hatoum oposto disso são edifícios dotados de clube e shopping centers. um conjunto de casas neoclássicas. que simboliza uma promessa de urbanismo mais civilizado. Isto só em parte é verdade. gerando uma nova forma de segregação do espaço. uma amiga carioca me disse que gostava cada vez mais de São Paulo. São Paulo assusta. um boteco ou restaurante. Um dos colegas dessa pensão era outro migrante. Morei num quarto de pensão na Liberdade. talvez seja este o maior encanto desta metrópole que une o culto ao trabalho com promessas de amizade. Tatuapé e Santana ainda revelam muitos encantos. ainda mais radical que os condomínios. Água Branca e tantos outros —. Há vários parques e jardins — Aclimação. pode-se descobrir uma série de recantos: pequenas praças. um grande amigo: Arrigo Barnabé. sem contar o Ibirapuera. 143 . A diversidade étnica de São Paulo reitera a mestiçagem brasileira. 25/05/2008. um rapaz de Londrina que passava o dia estudando música e que se tornou. o susto cede ao fascínio. Recantos que encerram um outro modo de vida. ou de um processo urbano mais humanizado. as latitudes e as origens. em que os bons arquitetos não participam da intervenção na paisagem urbana. com um ritmo de vida próprio. Há pouco tempo. Penha. como se outro tempo resistisse ao cerco dos arranha-céus horrorosos e ao mundo das finanças e do consumo desenfreado.

Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano. ameaça abaixar a cabeça. Vejo. na contenção de gestos e palavras. Passo a observá-los. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. A mulher suspira. satisfeito. e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma.A última crônica Fernando Sabino A caminho de casa. que se preparam para algo mais que matar a fome. cantando num balbucio. A compostura da humildade. retira qualquer coisa. inclinando-se para trás na cadeira. apenas uma pequena fatia triangular. torna a guardá-las na bolsa. muito compenetrada. quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico. E enquanto ela serve a Coca-Cola. fruto da convivência. A filha aguarda também. a observá-lo. mãe e filha. 144 . Não sou poeta e estou sem assunto. Sem mais nada para contar. a que os pais se juntam. atenta como um animalzinho. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família. discretos: “Parabéns pra você. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. contida na sua expectativa. constrangido — vacila. célula da sociedade. Como a um gesto ensaiado. Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se. Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso. Imediatamente põe-se a bater palmas. deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos. olhando para os lados. ao episódico. A negrinha. São três velinhas brancas. Nesta perseguição do acidental.”. a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força. limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. Ninguém mais os observa além de mim. vagamente ansiosa. que a faz mais digna de ser vivida. A mulher está olhando para ela com ternura — ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo. aborda o garçom. parabéns pra você. obedecem em torno à mesa um discreto ritual. o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo.. e espera. Rio de Janeiro: José Olympio. 2005. onde vivem os assuntos que merecem uma crônica. laço na cabeça. a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Na realidade estou adiando o momento de escrever. porém. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel. concentrado. Visava ao circunstancial. nossos olhos se encontram. minúsculas. como se aguardasse a aprovação do garçom. 21ª ed. quer num flagrante de esquina. Elenco de cronistas modernos. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão. Dá comigo de súbito. O pai se mune de uma caixa de fósforos. numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. apagando as chamas. curvo a cabeça e tomo meu café.. larga-o no pratinho um bolo simples. Gostaria de estar inspirado. que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. toda arrumadinha no vestido pobre. olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Este ouve. amarelo-escuro. enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: “assim eu quereria o meu último poema”. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante. de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso. pai. torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. O pai corre os olhos pelo botequim. Depois a mãe recolhe as velas. ele se perturba. que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. o pai risca o fósforo e acende as velas. entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Por que não começa a comer? Vejo que os três. A perspectiva me assusta. O pai. depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso. Lanço então um último olhar fora de mim.

cinco taças de champanha e uma de cinzano sem sentir nada. Usar o mais caro perfume de blusa grossa e blue-jeans. Ser brotinho é poder usar óculos enormes como se fosse uma decoração. É telefonar muito. Ser brotinho é adorar. Ser brotinho é atravessar de ponta a ponta o salão da festa com uma indiferença mortal pelas mulheres presentes e ausentes. Ser brotinho é detestar. ora de soneto moderno. É dizer a palavra feia precisamente no instante em que essa palavra se faz imprescindível e tão inteligente e superior. Mas o bichinho comeu o salmão e morreu. quatro uísques. rir como se o ridículo. É ter uma vez bebido dois gins. sentindo-se quase a cair do galho. apesar de tantos telefonemas de Madame Saint-Quentin. É fazer marcação cerrada sobre a presunção incomensurável dos homens. toda uma biografia esparsa que pode ser atirada de súbito ao vento que passa. anoitecer dançando. e dizer para a mãe que veio andando devagar para molhar-se mais.Ser brotinho Paulo Mendes Campos Ser brotinho não é viver em um píncaro azulado: é muito mais! Ser brotinho é sorrir bastante dos homens e rir interminavelmente das mulheres. completamente. a contemplar o teto. os cabelos desarrumados como se ventasse forte. anotações criptográficas sobre o tributo da natureza feminina. É ficar pasmada no escuro da varanda sem contar para ninguém a miserável traição. sem pensar em nada. e a gente vai ver está certo: o amigo do pai parece um pincel de barba. abraçada a uma porção de elepês coloridos. mas lançando fogo pelos olhos. visível ou invisível. o corpo todo apagado dentro de um vestido tão de propósito sem graça. É ficar eufórica à vista de uma cascata. tão estranha é a vida sobre a Terra. e ficar de cara lambida. Eventualmente. às vezes. ser brotinho é como se não fosse. Detestar o possível. É manter o ritmo na melodia dissonante. nada ouve. e ir devorar um sanduíche americano na esquina. Falar inglês sem saber verbos irregulares. sem que se dissipe a unidade essencial. pretas. fantasmas e baratas. e vice-versa. Permanecer apaixonada a eternidade de um mês por um violinista estrangeiro de quinta ordem. úmida camélia. O cego de Ipanema. 145 . comer somente e lentamente uma fruta meio verde. É ter comprado na feira um vestidinho gozado e bacanérrimo. Ser brotinho é não usar pintura alguma. um adjetivo para o rosto e para o espírito. É querer ser rapaz de vez em quando só para vaguear sozinha de madrugada pelas ruas da cidade. Adorar o impossível. É o dom de falar sobre futebol e política como se o presente fosse passado. É ter saído um dia com uma rosa vermelha na mão. Amanhecer chorando. Aguardar na paciente geladeira o momento exato de ir à forra da falsa amiga. de tão amadurecida em todo o seu ser. mas ter outra vez bebido só um cálice de vinho do Porto e ter dado um vexame modelo grande. Rio de Janeiro: Editora do Autor. ladrão dentro de casa. pensando coisas brancas. É esvaziar o sentido das coisas que os coroas levam a sério. amarelas. provocasse uma tosse de riso irresistível. vermelhas. Achar muito bonito um homem muito feio. É ir sempre ao cinema. É viver a tarde inteira. mas com um jeito de quem não espera mais nada desta vida. uma cédula de dois cruzeiros com uma sentença hermética escrita a batom. revirando-se no chão como dançarina no deserto estendida no chão. Tomar uma pose. É fumar quase um maço de cigarros na sacada do apartamento. Ser brotinho é a inclinação do momento. Ser brotinho é ainda possuir vitrola própria e perambular pelas ruas do bairro com um ar sonso-vagaroso. É ter a bolsa cheia de pedacinhos de papel. 1960. Ter horror de gente morta. achar tão simpática uma senhora tão antipática. Ter estudado ballet e desistido. demais. mestres e mestras com um ar songamonga de quem nada vê. e ficar de pijama telefonando até a hora do jantar. uma inflexão tão certa de que tudo neste mundo passa depressa e não tem a menor importância. e todo mundo pensou com piedade que ela era uma louca varrida. nada fala. É sentir uma vontade doida de tomar banho de mar de noite e sem roupa. É também falar legal e bárbaro com um timbre tão por cima das vãs agitações humanas. recados que os anacolutos tornam misteriosos. É ainda ser brotinho chegar em casa ensopada de chuva. Ser brotinho é comparar o amigo do pai a um pincel de barba. em uma atitude esquemática. e não jantar. É policiar parentes. É acordar ao meio-dia com uma cara horrível. ora de minueto. Ser brotinho é lançar fogo pelos olhos. Ter compaixão de um só mendigo entre todos os outros mendigos da Terra. amigos. Ter trazido para casa um gatinho magro que miava de fome e ter aberto uma lata de salmão para o coitado. É passar um dia todo descalça no apartamento da amiga comendo comida de lata e cortar o dedo. mas é também dar sentido de repente ao vácuo absoluto. só para poder contar depois que ficou a tarde inteira olhando para cima.

o álcool. por exemplo. como se lhe faltasse energia. mecanicamente. o amor acaba. no abuso do verão. na compulsão da simplicidade simplesmente. no elevador. acaba em cafés engordurados. e o amor acaba. e elas se remorso. em todos os lugares o amor acaba. na usura o amor se dissolve. epifania é um momento privilegiado de revelação quando ocorre um evento que “ilumina” a vida da personagem. às vezes vingado por alguns dias. às vezes não acaba e é monótonos. e acaba o amor. diante dos mesmos cisnes. no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar. No sentido literário. depois de três goles mornos de gim à beira da piscina. e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos. na janela que se fecha. na verdade. e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão. na janela que se abre. e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg. num domingo de lua nova. tocando em todos os portos. e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo. dispersado entre astros. até se desfazer em mares gelados. de noite. no conforto do inverno. uma palavra. em Belo Horizonte.Crônicas líricas e existenciais. diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar. em Brasília o amor pode virar pó. por qualquer motivo o amor acaba. no coração que se dilata e quebra. em São Paulo. Londres. dinheiro. onde o amor pode ser outra coisa. suor e desespero. nos brincos e nas silabadas femininas. depois duma noite votada à alegria póstuma. para habitua às províncias empoeiradas da Ásia. e acaba no longo périplo.ed. que continua reverberando sem razão até que alguém. a qualquer hora o amor acaba. no filho tantas vezes semeado. às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido. mas que não floresceu. caindo imperceptível no beijo de ir e vir. Rio: Civilização Brasileira. depois de teatro e silêncio. nas ligas. como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado. de repente. e acaba nas movimentam no escuro como dois polvos de solidão. 2000. às vezes acaba na mesma música que começou. o amor pode acabar. no sábado. delicadezas.O amor acaba – Paulo Mendes Campos O amor acaba. nos roteiros do tédio para o tédio. e o médico sentencia imprestável para o amor. na floração excessiva da primavera. 2ª. na epifania¹ da pretensão ridícula dos bigodes. atapetados. onde encanto que desejo. há mais recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba. e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema. Numa esquina. ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto. de tarde. no inferno o amor não começa. na descontrolada fantasia da libido. na insônia dos braços luminosos do relógio. frivolidade. no trem. muda ou articulada. abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores. no ônibus. em salas 146 . quando a alma se simplesmente esquecido como um espelho de bolsa. uma carta que chegou antes. ida e volta de nada para nada. entre frisos de alumínio e espelhos encruzilhadas de Paris. mas pode acabar com doçura e esperança. polvilhando de cinzas o escarlate das unhas. no Rio. O amor acaba . Nova Iorque. em apartamentos aturdidos de refrigerados. como tentáculos saciados. em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba. às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus. humilde. esmaltadas com sangue. com o mesmo drinque. na barca. 1. de manhã. na dissonância do outono. e muitas vezes acaba em ouro e diamante. filho crucificado de todas as mulheres. uma carta que chegou depois. na acidez da aurora tropical. o carregue consigo. que não veio. nas cintas.

O próprio da vida burguesa não é o amor. Ouvia o vento rumorejar nas árvores do parque. é o casamento. O amor é. Com o casamento o amor sai do marginalismo.Sobre o amor Ferreira Gullar Houve uma época em que eu pensava que as pessoas deviam ter um gatilho na garganta: quando pronunciasse — eu te amo —. Como pode uma coisa ambígua e duvidosa ganhar a fúria das maledicentes. Dura uma tarde? Uma semana? Um mês? Pode durar um ano. dois até. no entanto. o impulso que os levou à pretoria ou ao altar (ou a ambos). também às vezes doce. Ou seja: se corre tudo bem. portanto. Agora é construir um lar. para entrar nos que o da trilhos institucionalidade. nos bairros distantes. que é o amor institucionalizado. Acontece o vulgar adultério . Era uma defesa intolerante contra os levianos e que refletia sem dúvida uma enorme insegurança de seu inventor. que nem dificilmente deixa de sempre acontece. O casamento é um contrato: duas pessoas se conhecem. o sonho que arrebata e funda o paraíso na terra. abandonem a casa para fazer sua própria vida. integrado na sociedade. baixa das nuvens em fogo e pousa aos teus pés um candelabro cintilante. Com o passar dos anos a idéia foi abandonada. educá-los até que. nos cafés. não merece punição alguma. mesmo). brando. isto é: quer acreditar na mentira. Carimbado e abençoado. O mentiroso. da atmosfera romântica envolvia. Mas acontecer. Ela possivelmente exagerava. definir direitos e deveres perante os homens e até perante Deus. mas não é. À sua volta certamente não acontecia nada: as pessoas em suas respectivas casas estavam apenas morando. Pode não tempestades? Mas essa é a natureza do amor. comparável à do vento: fluido e arrasador. pois há que se inserir na ordem social. Por aí já se vê como esse negócio de amor é complicado e de contornos imprecisos. a simples assinatura do contrato já muda tudo. adultos. tem gente que quer ouvir essa expressão mesmo sabendo que é mentira. e se não percebe é porque não quer perceber. criá-los. Conheci uma mulher que costumava dizer: não há amor que resista ao tanque de lavar (ou à máquina. se sentem a traídas uma pela outra e decidem viver juntas. gerar filhos. anti-burguês. se gostam. na sua origem. suas nuanças. nesses casos. que é quase sempre decepcionante. Por definição. Mas às vezes não é assim. o amor louco. Pode-se dizer. quanta aventura estaria se desenrolando naquele momento nos bares. não radicalizemos: há exceções — e dessas exceções vive a nossa irrenunciável esperança. a vida revelou-me sua complexidade. Insegurança e inexperiência. Aprendi que não é tão fácil dizer eu te amo sem pelo menos achar que ama e.o assim chamado -. porque tinha uns olhos ávidos e brilhantes e um coração ansioso. Claro. que o amor é um sentimento radical — falo do amor-paixão — e é isso que aumenta a complicação. disciplinado. liberação e aventura. a outra percebe. mentindo. desde que as dificuldades sejam de 147 . ela então se diz — e volta ao bife com fritas. sofrendo uma vida igual à sua. Essa inquietação bovariana prepara o caminho da aventura. claro. mas com razão. Torna-se grave. Isso poderia ser uma COisa simples. à tarde incendiando as nuvens e imaginava quanta vida. E risos e risinhos dos acontecer a aventUra sonhada. Por maior que tenha sido a paixão inicial. É como o vento. Mas. Às vezes o sonho vem. ao espanador e ao bife com fritas. o gatilho disparava e elas explodiam. bailando alegre em torno de seu oculto núcleo de fogo. amargo e que se transforma numa espécie de vingança contra a mediocridade da vida. condenado. corre tudo mal. o novo casal inicia sua vida entre beijos e sorrisos. É como uma droga que se toma para curar a ansiedade e reajustar-se ao status quo. quando a pessoa mente. Estou curada.

dinheiro e até o amor da mulher e da filha do prefeito. o fundamental é saber que tudo vai acabar. terminada. aeroportos. afundar no dia-a-dia. a vida vibrando outra vez. E enxugados os olhos. para atingir a ignição máxima. de repente. Ou. bajulações. organização e introdução de Joaquim Ferreira dos Santos. e lhe diz que está na hora de ir-se pois o verdadeiro inspetor está para chegar. expor-se a tudo. e tanto que é impossível continuar vivendo agora. normalmente. aberta a janela. 148 . signos da sua vida real.Rio de Janeiro . dizia tolices. cinema. até que. e mentia. que é preciso esquecer. lá estão as mesmas nuvens rolando lentas e sem barulho pelo céu deserto de anjos. cortado rente na carne. acaba. O amor. ônibus. E chegas a pensar: quantas manhãs como esta perdi burramente! O amor é uma doença como outra qualquer. e te fere. 279 . num mundo cheio de pessoas. e pensar que quase morro!. E é verdade.proporção suficiente para manter vivo o desafio e não tão duras que acovardem os amantes. tirando o rosto que era lindo. pág. Como pode acontecer que. pelo contrário. Que fazer? Desviar-se dessas ruas. E no entanto o foi. pois o espírito humano não comporta tanta realidade. impregnado da ausência do sonho. querendo e não querendo que acabe. de golpe. o cafezinho. na garganta. nova. como falou um poeta maior. a conversa burra. tolerar o passar das horas. O falso inspetor mergulhara na fascinante impostura que lhe possibilitou uma vida de sonho: homenagens. sofrer tudo de uma vez e habituarse? Mais dia menos dia toda a lembrança se apaga e te surpreendes gargalhando. Foi Gogol. que é agora uma agulha escondida em cada objeto. A barra é pesada. Na cama era regular. ruas. avenidas. como diz Chico Buarque: sofrendo normalmente. Para isso. deve estar condenado: a consciência da precariedade da relação possibilita mergulhar nela de corpo e alma. o corpo não era lá essas coisas. decepção desse despertar. a camisa usada na cadeira. lojas. entre soluços. as notícias do jornal. Eis senão quando chega o criado. Editora Objetiva. que é impossível viver sem essa pessoa? E reparando bem. O alívio se confunde com o vazio. na rotina do dia. O verdadeiro amor é suicida.. Em paz com a vida. o livro.. sem ela. como se a felicidade não pudesse ser verdade. E te fere não porque ali esteja o sonho ainda.2005. E tUdo subitamente. os chinelos.1989. Ele se assusta: mas então está tUdo acabado? Não era verdade o sonho? E assim é: a mais delirante paixão. e consta da antologia "As 100 melhores crônicas brasileiras".. no Inspetor Geral quem captou a inesperadamente. E é necessário que acabe como começou. Uma doença ou pelo menos uma anormalidade. Sais para o trabalho. vivê-la enquanto morre e morrê-la enquanto vive. a cômoda. e você agora prefere morrer.. mas no papo um saco. comendo um bife com fritas diante do espetáculo vesperal dos cúmulos e nimbos. E de repente o táxi que te leva por uma rua onde a memória do sonho paira como um perfume. editora José Olympio . deixa esse sabor de impostura na boca. Isso dizes agora. quando abres a gaveta. a entrega total. Quem conheceu o delírio dificilmente se habitua à antiga banalidade. Edifícios. sem culpa nem desculpa. Evaporado o fantasma. trazendo-lhe o chapéu e o capote ordinário. como numa desvairada montanha-russa. carrocinhas de sorvete: o mundo é um incomensurável amontoado de inutilidades. Ou não. ocultar os objetos ou. alguém meta na cabeça que só existe fulano ou fulana. O texto acima foi extraído do livro "A estranha vida banal". reaparece em sua banal realidade o guardaroupa. mas exatamente porque já não está: esteve.

que se dão inteiramente. E os apaixonados são de duas espécies: os generosos. Outras viram cinzas por causa dela. Com Romeu e Julieta. É como se fosse possuir um objeto na vitrina. E há gente que organiza toda sua vida em torno de uma única e consumidora paixão. vivem renascendo das cinzas da paixão. que querem que o outro se incorpore a eles convertidos em sombra viva. incentivam a paixão em torno para preencher algo em si. E há pessoas que são como aquela ave mítica — a Fênix. E corta. corta. errou completamente. Existe diferença entre amor e paixão? No amor. De paixão vivemos muito. Talvez fosse desejo. Ela desafia o sistema. Transfere a moradia de seu ser para a casa do ser alheio. nesse caso. que vive morrendo de amor. que o desejo é diferente. se o seu mundo é apenas o mundo da pessoa amada? A paixão tem cor. A paixão é boa? A paixão é ruim? Ninguém sabe. mas despertam paixões. ela acontece. Marx. E se o outro disser: “Não estou gostando de seu nariz”. E o apaixonado não tem medo do ridículo. Foi assim com Tristão e Isolda. Já a paixão é arrebatamento puro e aí a voragem é tão grande que pode tudo se esgotar de repente. se jogando estabanadamente nas mãos do outro. Assim como depois dos vendavais os elementos da natureza já não são os mesmos. mas sendo mais desejo que qualquer outra coisa. Pressupõe morte e ressurreição. qualquer palavra ou sugestão é ordem. É como se fosse um apetite despertado por um fruto ou alguma comida saborosa que saliva nossos sentidos. Diante dela a comunidade fica abalada. Mas o amor é também paciente construção. E sangra. Paixão. Como certas tempestades. Mas talvez haja um terceiro tipo: o dos que não se apaixonam. alimentam-se da paixão alheia. Mais que vermelha e rubra. Não é de hoje que os reinos se fazem e se refazem por causa da paixão. ou melhor. mas qualquer outra coisa. Quanto mais obstáculos inventarem. se não teve insônia. No desejo a gente quer o outro para possuí-lo apenas passageiramente. porque. mais o apaixonado os saltará. por isto é arma de dois ou três gumes. no que é diferente do amor maduro. não. É como se vestisse a pele do outro. se o outro disser isto. por exemplo.VARIAÇÕES EM TORNO DA PAIXÃO Affonso Romano de Sant’anna Paixão é a alucinação amorosa. Paixão é transgressão. Para sempre. Não é a luta de classes que move a história. longo e duradouro. erótico. claro que há luminosa coabitação. É um desejo de posse natural. Na impossibilidade ou no medo de se apaixonar. é a paixão. é roxa. com Genevieve e Lancelot. posto que paixão é abismo. ninguém será o que era depois do desvario da paixão. e os possessivos. que fecunda a vida dos amantes e reforça os laços da comunidade. estético. a gente opera. não só o nariz. De paixão morremos sempre. se não desesperou. isto vai passar. a gente quer se fundir com o outro. E passa. 149 . fez-se a revolução a dois. se não ficou com a alma dependurada num fio de telefone. Na paixão. De corpo e alma. Vidas renascem com paixões. Perde totalmente o centro de gravidade. a gente vai airosamente buscar o que ele quer. Ela acontece. joga fora. paixão não era. A paixão é antisocial e egoísta. Paixão é a revolução a dois. Se não sangrou. portanto. E se o outro disser assim: “Vai ali buscar aquela estrela ou mesmo a Lua” (como naquele lindo conto de Murilo Rubião chamado Bárbara). O que lhe importa o mundo. Na paixão. se não ficou exposto na úmida espera. Quantas vezes se apaixona numa vida? Há gente que vive se inventando paixões para viver.

se pesquisavam numa prospecção de veios e grutas. se afastava. embora pareçam um porto onde as naus já atracaram. Depois de folhear um. Amor às vezes coincide com o casamento.Amor . amou-se sempre diferentemente. desesperava. mas nem por isto se encontravam. é egoísta e. Olhava para os outros. tão doméstica e feliz. por alguém que de repente dobra a perna de uma maneira irresistivelmente feminina. Sim.11. 150 . E a mulher que morava em frente da farmácia. desencontrava. de repente. O amor se procurava. Absurdo. estão no meio da viagem. às vezes não. sempre na igreja. Em matéria de amor. dez. largando marido e filhos. Os adultos. Texto extraído do livro "21 Histórias de amor". pág. de dentro dos arbustos do jardim. Mas reparou: amor às vezes coincide com a paixão. O desejo não é nada pessoal. Ali estavam as grandes paixões. Se enganava. via-os casados. que parecem arbustos cujas raízes já se entrançaram. um amor dos cinqüenta e outro dos oitenta? Coisa de demente. Funde um no outro. Quando viesse a velhice. Os poetas e novelistas deveriam saber das coisas. centenas de corpos avulsos tentando o amor verbalizar. entrou numa biblioteca. não era porque estava saciado. O amor se aprendia sempre. 2002. Já a paixão é outra coisa. ante as mobílias. Por alguém que. podia observar. às vezes não. O amor soma desejo e paixão. Via-os noivos se comprometendo à luz da sala ante a família. e só eles sabem quantas tempestades enfrentaram e quantas vezes naufragaram. às vezes não. coisa-para-depois. os adultos. em muitos casos. se ilumina nas taças de uma festa. A paixão é um vendaval. os casais que nos portões se amavam. constatou. A vizinha casada deu para namorar. às vezes não. pois a fome de amor não sabia nunca. de repente fugiu com um boêmio. embora parecesse ser sempre o mesmo amor de antigamente. um ancorado no corpo do outro. De fato. a busca recomeçara. Tristãos e Isoldas tomavam o filtro do amor e ficavam condenados à traição daqueles que mais amavam e sem poderem realizar o amor. Não havia jeito. O amor era o mesmo e sempre diferenciado.O Interminável Aprendizado Affonso Romano de Sant'Anna Criança. O desejo é assim: quer imediata e pronta realização. Então. Julietas se debruçavam apunhaladas sobre o corpo morto dos Romeus. Estava sempre perplexo. E mais complicado ainda: amor às vezes coincide com o amor. é arte final. Por isto se enganava enquanto olhava com os colegas. Mesmo os casados. Amor às vezes coincide com o desejo. Como pode o amor não coincidir consigo mesmo? Adolescente amava de um jeito. Alguns eram mais indiscretos. mesmo os casados. Isto aprenderia depois. Não era só a estória e as estórias do seu amor. um depois-adultoaprendizado. mas do amor não terminava nunca o aprendizado. É indistinto. Aquele que era um crente fiel. como ali já não se saciara. era um repetente conformado. Via-os aos pares namorando nos portões enluarados se entrebuscando numa aflição feliz de mãos na folhagem das anáguas. reparando nos vizinhos. eles também não sabem. Então. Se enganava porque o aprendizado de amor não tem começo nem é privilégio aos adultos reservado. mesmo os casados. fatal. num desdobramento de noturnos mapas seguindo o astrolábio dos luares. Na história universal do amor. atrás da aparente tranqüilidade. há o desejo e há a paixão. E se encontrando. É que fora buscar outro amor. pensou: há o amor. de novo se enganara. escolar. e pensava: amor. um dia jogou tudo para cima e amigou-se com uma jovem. Adulto amava melhormente de outro. é a arte das artes. ele pensava: amor. E quando algum amante desaparecia ou se afastava. Francisco Alves Editora – Rio de Janeiro. o amor é um interminável aprendizado. como amaria finalmente? Há um amor dos vinte. continuavam inquietos. coisa que os adultos sabem. Sim. olhava para si mesmo ensimesmado. Optou por aceitar a sua ignorância. E na escola do amor declarou-se eternamente matriculado.

pela fragilidade que se revela quando menos se espera. Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo. Quem dera o amor não fosse um sentimento. É bonita. o amor. está sempre duro. Quando a mão dele toca na sua nuca. ou pelo tormento que provoca. pela paz que o outro lhe dá. pelo mistério. Por que você ama este cara? Não pergunte pra mim. 151 . veste-se bem e é fã do Caetano. mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados. Com um currículo desse. você derrete feito manteiga. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman. não pega no pé de ninguém e adora sexo. essa raposa. bom saldo no banco. nem no ódio vocês combinam. não obedece à razão. Você gosta de rock e ela de chorinho. adora animais e escreve poemas. de música. bons motoristas e bons pais de família. que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado. ó! Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é! Pense nisso. você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso são só referenciais. Ele toca gaita na boca. Lê livros. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. tem loucura por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível. É a contingência maior de quem precisa. Você tem bom humor. Não funciona assim. você é inteligente. jornais.Crônica do Amor Arnaldo Jabor Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem. Gosta de viajar. Isso tem nome. Você ama aquela petulante. Então? Então. por conjunção estelar. Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. caso contrário os honestos. revistas. mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor. ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. você deu flores que ela deixou a seco. Pedir é a maneira mais eficaz de merecer. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível. tá assim. Você ama aquele cafajeste. Ama-se pelo tom de voz. e é meio galinha. Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada. pela maneira que os olhos piscam. por que está sem um amor? Ah. você abomina Natal e ela detesta o Ano Novo. Ele não emplaca uma semana nos empregos. o beijo dela é mais viciante do que LSD. você gosta de praia e ela tem alergia a sol. criatura. simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta. O verdadeiro amor acontece por empatia. Ama-se pelo cheiro. O amor não é chegado a fazer contas. generosos têm às pencas. por magnetismo. emprego fixo. Independente. Honestos existem aos milhares. Ele diz que vai e não liga.

dá muito trabalho. Na parede da esquerda ficaria a grande e sonhada estante que caberia todos os meus livros. É isso. Amanhã terá sua estante. pois já era a segunda vez que subira e descera a Visconde de Pirajá. Digamos. Já anotei. Seu Joaquim não cumprira com a palavra empenhada.Rio de Janeiro (RJ). — Como é. E o Joaquim ao telefone: — Qual o número. seu Joaquim! Tudo isso? Veja se reduz esse prazo.. perguntou-me onde seria entregue a estante. enquanto seu Joaquim.. Pensei rápido: "Se o prédio do Mário é 228. — O senhor está querendo brincar comigo? Fui tomado por um frouxo de riso. Não via chegar o momento de ter no escritório a estante sonhada.. hoje Vinicius de Moraes. cercado de livros por todos os lados. O apartamento não ficava tão perto da oficina. Não era um cômodo muito grande mas dava para armar ali a minha tenda de reflexões e leitura: uma escrivaninha.. seu Joaquim.. E ele: — Como não cumpri? Andei com dois homens de cima para baixo da rua e não encontrei o tal número que o senhor me indicou.. é o senhor Ferreira. um marceneiro que tinha oficina na rua Garcia D'Avila com Barão da Torre. havia uma diferença na numeração. qual número seria? Não era 227. Se não era 127. Não existe na rua Visconde de Pirajá o número 127. — Um mês. 217. tive um momento de hesitação. Era quase em frente ao prédio onde morava Mário Pedrosa. etc. que eu fosse buscála. Dentro de um mês estará lá sua estante. no tom da voz. seu Ferreira? — É 217. senhor Ferreira. José Olympio Editora . deve ser 227. um sofá e os livros. disso tinha certeza. Contei as semanas. indignado. ao ir ali pela primeira vez. voltei do trabalho apressado para ver minha estante. Dera a ele o número errado. minha irritação. três semanas. "Mas lembrei-me de que. 152 . quando seu Joaquim.. ah português filho de. etc.. Estava ali há uma semana e nem decorara ainda o número do prédio.A estante Ferreira Gullar Naquele novo apartamento da rua Visconde de Pirajá pela primeira vez teria um escritório para trabalhar.. Telefonei para ele sem dissimular. — Muito bem. veio? — perguntei ao entrar. No dia da entrega. e seu Joaquim desenhou o endereço na nota.mais que isso. que fica quase em frente. observara que. — Visconde de Pirajá 127 — respondi. E corri para o telefone a fim de me desculpar. o meu. — Seu Joaquim. Não tive. 217. — Veio o quê? — Como o quê? A estante! Não viera. da estante.. — A estante é grande. Fiquei sem palavra. entre a Farme de Amoedo e a antiga Montenegro. seu Ferreira. Fiquei sem ação. conclui que havia dado de novo o número errado ao marceneiro. Mas foi só um momento.. O texto acima foi extraído do livro "A estranha vida banal". Ao chegar em casa e verificar que a estante não estava lá. apesar de ficar em frente ao do Mário.. — Diga-me o número certo e sua estante estará em sua casa amanhã mesmo. — Tudo bem. sentir-me um escritor de verdade. 1989. ao preencher a nota da encomenda. um profissional. carregando aquela estante enorme. onde enfim poderia arrumar os livros por assunto e autores. Tanto que. Tratei de encomendá-la a seu Joaquim. E. dizia que não ia mais entregar estante nenhuma.

e outras mais. Divagar é uma forma de transformar pensamentos em nuvem ou em fumaça de cigarro. Exatamente. esperando a dica. simplesmente. freqüentemente. — Na verdade. passando pelo róseo. 153 . e ele tem ordem de cantar os nomes pra freguesia. Bem. mas deve haver. 1974. do vermelho ao negro. como bonificação? — Você está divagando. — Estou. é ter a ilusão de que nossa cerveja é a única que presta. ordens são ordens e eu não sou de infringir regulamentos. Livraria José Olympio Editora – Rio de Janeiro. Os regulamentos é que infringem a minha paz. . Bem. nem me declarar vencido pela Texto extraído do livro “De notícias & não notícias faz-se a crônica”. quem sabe? — Aí eu disse que não havia o que desculpar. O embaras du choix. concluí: Leovigil. — E se percam. insinuando que o gosto é mais capitoso. até agora não vi rótulo de cerveja mostrando mulher com tudo de fora. Não quis forçar a barra. Leovigil? pergunto. Sujeito mais conservador! Ou sábio. — E as novas que aparecem? Em cada Estado surge uma fábrica. por que não estaria nos sistemas de organização social. Você senta no bar de sua eleição. nem me interessa dançar de provador de cerveja. Mas para não dar o braço a torcer. e outra. Não gosto de mudar as estruturas sem justa causa. fazendo com que eles circulem por aí. aquela outra. um velho bar onde até as cadeiras conhecem o seu corpo. pois há anos você optou por uma das duas marcas tradicionais. eu é que. sofisticadas. desculpe. A variedade. — Não quis dizer o nome? — Não. não há muitas espécies de cerveja. aquela. à espera de definição. você já sabe o que quer. 0 importante não é beber cerveja. ou antes. Os moços. 137. homem de Deus? — Só por experimentar. fora as estrangeiras. que a casa dispõe de 12 marcas de cerveja nacional. as novas cervejas têm de ser promovidas. o patrão disse que eu tenho de oferecer as marcas pra todo mundo. Mas depois de certa idade. e o garçom não se mexe.. Bem. fiquei calado. Uns aparecem com mulher nua.A de sempre Carlos Drummond de Andrade — Até beber cerveja ficou difícil — queixa-se. rapaz? Então ele emite um som: Qual? Você pensa que não ouviu direito. Cada qual oferecendo diversas qualidades. mais outra. franze a testa. Não mandou abrir exceção pra ninguém. Principalmente o que não quer. doutor? Temos essa. pois a individualidade começa pela garrafa — passou a chamar-se "a de sempre".. O garçom explica. Desfia o rosário.. Saltam de uma para outra fruição. — Ou se percam. em matéria de cerveja e de entendimento do mundo. o que não quer. e de certa experiência de bebedor. Pede uma cervejinha. Mas os rótulos perturbam. pág. como quem diz: Quê que há. e você de boca aberta: Como? Ele está pensando que eu vou beber elas todas? Acha que sou principiante em busca de aventura? Quer me gozar? Nada disso. num esforço de captação: qual o quê? Qual a marca. E é isso que os outros querem que você queira. você pede a cervejinha inominada. Mulher se oferecendo está em tudo que é produto industrial. meio encabulado. — O preço? — Não. traga a de sempre. Minha marca de cerveja — "minha garrafa". Você olha para cara dele. se não surgem duas. Até pra mim. acho frívolo. pelo alaranjado e pelo furtacor. sim. Não precisa dizer o nome.. — E aí? competição das cervejas. Aquela que há anos o garçom lhe traz sem necessidade de perguntar. não encontraram ainda sua definição. no mundo das idéias. digamos assim. e daí não sai. — Mas se você já estava acostumado com uma. tomam pileques de ideologias coloridas. em atenção ao doutor. Fica olhando pra sua cara. entende? — Mas que custa experimentar. a sua maneira de sentar e de beber. Tá compreendendo? — Mais ou menos.

Como a própria sociedade que ela observa com olhos atentos. é crônica. outras são pequenos contos. Está em toda a imprensa brasileira. “a quantidade necessária”. cultivada desde o amanhecer do periodismo nacional pelos maiores poetas e prosistas da época”. Ensaio é um gênero inaugurado por Michel de Montaigne (1533-1592). semcerimônia e. Elementos que não funcionam na crônica: grandiloquência. de 150 anos para cá. leve e clara. por que muitos leitores não aprenderam a chamá-la pelo nome? É que ela tem muitas máscaras. como em Machado de Assis.. com que conta aos seus amigos tudo o que andou ouvindo. Muito bem. pela naturalidade com que se aclimatou aqui e pela originalidade com que aqui se desenvolveu”. vivemos isto. como em Paulo Mendes Campos. é “sua coluna”. Elementos que funcionam: humor. Um leitor os chama de “artigos”. tem uma pequena voz serena. pois. surpresa. Há crônicas que são dissertações. Não é preciso comparar grandezas. Um ensaio é um texto onde se encadeiam argumentos. como em Drummond e Rubem Braga. Respondeu assim a um jornalista que lhe havia perguntado o que é crônica: — Se não é aguda. prolixidade. tudo muda. no entanto. A dificuldade é que a crônica não é um formato.. pertinente. Veja São Paulo. nem a voz indolente do poeta. como em Nelson Rodrigues. Por que deu certo no Brasil? Mistérios do leitor. É mais exato apreciá-la desdobrando-se no tempo. As crônicas de Rubem Braga foram vistas pelo sagaz professor Davi Arrigucci como “forma complexa e única de uma relação do Eu com o mundo”. Blaise Pascal (1623-1662). Um estudante fala deles como “contos”. botar Rubem Braga diante de Machado de Assis. Mas vem cá: é literatura ou é jornalismo? Se o objetivo do autor é fazer literatura e ele sabe fazer. dão à crônica prestígio. 3. esmiuçando”. outras são evocações. como se só com ele o narrador pudesse se expor tanto. ou casos. e muitos duvidam que seja um gênero literário. como o conto. na qual entram um fato miúdo e um toque humorístico. Veio. enrolação. ou memórias e reflexões. perguntando. afável. escreveu que “crônica é tudo o que o autor chama de crônica”. quente. como em tantos. uma beleza ou uma singularidade insuspeitadas”. Ainda ele: “Em lugar de oferecer um cenário excelso. vem da palavra francesa essayer (“tentar”). pessoal. Se é tão antiga e íntima. filósofo e teólogo francês. 1. Ela “não tem a voz grossa da política. elegância. sentimos isto. não é. 25/4/2007. O professor Antonio Candido observa: “Até se poderia dizer que sob vários aspectos é um gênero brasileiro. 154 . Recorro a Eça de Queirós. sectarismo. 2. Há os que dizem: “seus comentários”. mas. um sábio. Em latim. lirismo. mestre do estilo antigo. Estão errados? Tecnicamente. Como se fosse escrita para um leitor. representa o amadurecimento e o encontro mais puro da crônica consigo mesma”. como o soneto. possui tradição de primeira ordem. “Ensaio familiar”. estilo. A crônica é frágil e íntima. cúmplices: nós vimos isto. intimidade. outras são poemas em prosa. Conversam sobre o momento.Sobre a crônica Ivan Ângelo Uma leitora se refere aos textos aqui publicados como “reportagens”. A crônica mudou. uma relação pessoal. Leitores. leitor?. a poesia lírica ou as meditações à maneira de Pascal¹. explicou essa origem estrangeira: “É nosso familiar essay². Alexandre Eulálio.. matemático. numa revoada de adjetivos e períodos candentes.. solidariedade. Outros os chamam de “críticas”. A crônica tem a mobilidade de aparências e de discursos que a poesia tem — e facilidades que a melhor poesia não se permite. não é? O narrador da crônica procura sensibilidades irmãs. como os de Fernando Sabino. Para alguns. indiferentes ao nome da rosa. Mas Rubem Braga não se achava o tal. com o seu quantum satis³ de poesia. Fernando Sabino. Cronista mesmo não “se acha”. por meio dos quais o autor defende uma ideia. nem a voz doutoral do crítico. não é?. sim — são crônicas —. pega o miúdo e mostra nele uma grandeza. vacilando diante do campo aberto. arrogância. Talvez por ser a obra curta e o clima. autor de Pensamentos. permanência e força. de um tipo de texto comum na imprensa inglesa do século XIX. como fez Antonio Candido em “A vida ao rés do chão”: “Creio que a fórmula moderna.

similar. Assim como a fábula e o enigma. nada melhor do que cada professor se organizar e realizar a sua leitura como um mote para os alunos realizarem as suas. o que é mesmo uma crônica? Fico pensando se é tão importante assim. arejando-a. a análise. tudo bem. Nessa hora a gente se lembra de uma das mais famosas crônicas da História da literatura lusobrasileira que corresponde à definição de crônica como "narração histórica": É a "Carta de Achamento do Brasil". Considerando-se. O que temos como alicerce comum é o caderno do professor . O gênero se inaugura nesta edição. Talvez valha a pena relembrar – “Cronos”. O que me leva a escrever aqui e agora. o humor. nosso pensar e repensar. Penso eu que tudo aquilo que é aparentemente livre tem sua dose exata e correspondente de perigoso. Tudo isso ela contém. 25-Mai-2010 “Já escrevi mais de cinco mil crônicas.) Talvez iniciasse este texto dizendo que ele poderia ser uma das tantas crônicas sobre a crônica. é bem diferente. neste nosso espaço educador. deste pedaço encorajador e laborioso. o ensaio. no entanto. a filosofia. Profunda como a sinfonia”. de um certo modo. a interpretação. o depoimento. E tem mesmo. 27 de junho de 2001. por exemplo. nasce com Machado de Assis. Já adiantei no título e volto a ressaltar: a crônica para mim tem um toque de liberdade e uma brisa de perigo. é que a crônica assume vários tons ao retratar os acontecimentos da vida brasileira. Pode ser? Podemos considerar que a crônica tal qual se configura. É como se o seu patrimônio de leituras circulasse em meio às oficinas de preparação para a Olimpíada. o registro histórico. o factual. Ele mapeia nossa primeira investida. Fico pensando. Verdade relativa e parcial.que a crônica narra fatos históricos em ordem cronológica e trata de temas da atualidade.com a orientação minuciosa do trabalho. E em meio a tudo isto deve estar ainda se dizendo: afinal. a polêmica mal tocada. e nos encoraja a rascunhar e tecer outros projetos para outros futuros e próximos alunos que virão. engolindo seco. é próxima. a opinião. Mas vou deixando para depois. o retrato. o descobrimento do Brasil e os primeiros dias que os marinheiros portugueses passaram aqui. ter uma definição certa e apurada deste gênero que nos aponta a tantos caminhos e nos leva a tantas direções. numa linha do tempo situada entre 1877 a 2007. respondi o seguinte: É o samba da literatura. depois de tantos redescobrimentos. O que pode ser uma reflexão para uma outra crônica. Falo isso porque podemos formar um conceito sobre este gênero tão delicioso e delicado de ler e tão bem inserido na cultura brasileira. no final do 155 .real ou virtual . e assim achemos que a crônica tem algo próximo e parecido com o conto. mas não a de agora. é o fato de estarmos em tempo de oficinas na Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro. que ainda se fala que o professor. Como se vê. Este texto – crônica ou não – quer mexer um pouco com nossas ideias sobre o gênero e com os afazeres pedagógicos que por certo andarão acontecendo em muitas escolas que desenham. o sonho e a esperança de uma educação melhor. Assim se descobrirá No começo pode ser que a gente faça algumas pequenas confusões nas hipóteses de apropriação pedagógica. compartilhada por tantas cabeças e corações numa mesma sintonia de intenções. Veja uma pitada quando. O que sabemos hoje. a polivalente. por exemplo. Será? Imagino que boa parte de vocês já perambulou pelo caderno “A ocasião faz o escritor” e já organizou sua leitura inicial no percurso da sua sequência didática. Jornal O Dia. a crítica.A crônica: um gênero tão livre e tão perigoso Antonio Gil Neto muita coisa sobre a crônica. o deus grego do tempo . num silencioso trabalho. Também oferece ao nosso dispor leitor uma pequena coletânea de crônicas e cronistas. de Machado de Assis a Carlos Heitor Cony. o flagrante. E a uns estudantes que me pediram uma síntese sobre o gênero. Por conta de suas íntimas e intensas provocações. de Pero Vaz de Caminha". não tem um projeto leitor. o testemunho. Direta a simples como um samba. Penso e acredito que os professores que mergulharem nesse projeto irão usufruir também de suas ideias próprias sobre a crônica. na qual são narrados a D. a crônica é um gênero narrativo. o apontamento. Há outras características da crônica a serem consideradas num projeto que deseja a sua produção. Parece. Manuel. a poesia. o miniconto. há no modus operandi genuinamente brasileiro um certo ar camalêonico na crônica. Mas. Outros olimpos. É ao mesmo tempo. (Artur da Távola.

Elas acabam não tendo descrição psicológica profunda como no conto ou romance. econômicas. Um aspecto a conferir nas oficinas. veja uma pitada da crônica de Rubem Braga ao trazer para este gênero um assunto tão comum da vida cotidiana: uma reclamação de vizinhos: Recado ao senhor 903 Vizinho. Por nisso falar. temos hoje a crônica eternizada nos muitos livros Um trunfo da crônica é que nela os eventos aparentemente banais. Assim. Mas. destina-se à leitura dos e sobre os acontecimentos sociais e cotidianos. cá entre nós. do mundo contemporâneo. realçam o assunto.. O leitor pressuposto da crônica é urbano e. É o próprio escrito do escritor que está “dialogando” com o leitor. da reportagem. (Imagino quantos outros adjetivos você poderá à crônica atribuir). quando passeiam nas crônicas. Recebi depois a sua própria visita pessoal – devia ser meia-noite . que trata de relatar os fatos que acontecem. e la glace est rompue está começada a crônica. não é? Há uma característica da crônica fácil de conferir: é um texto narrativo que. Ática. vista por outro ângulo. singular. dê ao cronista maior atenção aos problemas do modo de vida urbano. Recado ao senhor 903. culturais. educacionais. passos e músicas no 1. E o leitor acompanha o acontecimento. Destaca-se: não busca a exatidão da informação.(. O que comprova o seu valor literário. "Crônicas Escolhidas". Numa outra síntese podemos dizer que a crônica. diferente da notícia. outras sobre a febre amarela. publicada em jornais ou revistas. dentre os assuntos tratados. 1977). o jogo verbal. manda-se um suspiro a Petrópolis. Livre e perigoso.e a sua veemente reclamação verbal. políticas. intenso. como uma testemunha guiada por esse olhar cronista que lhe configura uma versão única e singular. Devo dizer que estou desolado com tudo isso. permite considerar o cronista como poeta dos acontecimentos cotidianos. virtuais ou reais. É pois. no sentido de garantir durabilidade no tempo. Resvala-se do calor aos fenômenos atmosféricos. e lhe dou inteira razão. em princípio. ou simplesmente sacudindo a sobrecasaca. a construção da linguagem. A crônica os analisa num outro enfoque. O que configura a temporalidade à crônica por trazer sutilmente temas ligados a questões éticas. se não o fosse. O regulamento do prédio é explicito e. O nascimento da crônica.) (Rubem Braga. é curto. a crônica literária se descobre na sua engenhosa grandeza. São Paulo: Editora Ática. inaugura no real um colorido emocional.)”. em geral. fazem-se conjecturas acerca do sol e da lua. O que acontece nesse caso é que o escritor autor não prioriza no seu dizer o acontecimento em si. sutil. Pelo fato de ser acolhida pela literatura. a visita do zelador que me mostrou a carta que o senhor reclamava contra o barulho em meu apartamento. (Machado de Assis. consternado. Por assim se constituir. um leitor de jornal ou de revista. É dizer: Que calor! Que desenfreado calor! Diz-se isto. Talvez uma espécie de preocupação que acompanha a vida cotidiana faça com que esse leitor. corriqueiros ganham outra "dimensão" graças ao olhar subjetivo e cuidadoso do autor. Podemos também dizer que a crônica tem jornalismo na literatura...século XIX.(. Quem fala aqui é o homem do 1003. desatualizadas. íntimo. que iria embora esquecida como as noticias de jornal que. o senhor ainda teria ao seu lado a Lei e a Polícia. As personagens. De um. Quem é o leitor da crônica? Boa pergunta. revelador.P. Ou literatura no jornalismo. Oferece aos olhos do leitor uma situação comum e ao mesmo tempo inusitada. posso mesmo dizer que a crônica situada entre o Jornalismo e a Literatura. agitando as pontas do lenço. Revela a sua própria leitura. sociais. 1994) já editados. S. escreve uma crônica sobre a crônica: “Há um meio certo de começar a crônica por uma trivialidade. recebe a observação atenta da realidade que pulsa e do outro. embrulham peixes. penso que a crônica já circula pelos cotidianos das tantas comunidades. bufando como um touro. 156 .. É como se esses acontecimentos pudessem contemplar os problemas humanos vividos em todos os lugares e em todas as ordens sociais. Geralmente apresentam características suficientes para compor traços genéricos com os quais o leitor se identifica. Recebi outro dia. Em suma.003. dos pequenos acontecimentos do dia a dia comuns nas grandes cidades. Há uma dita ideia de que a crônica seria um gênero menor. outorgando a ele uma espécie de análise ou retrato agudo em especial. guetos e espaços alternativos e vai cronicando onde houver a ocasião para se cronicar. histórico e cultural. Quem trabalha o dia inteiro tem direito ao repouso noturno e é impossível repousar no 903 quando há vozes. narrado em primeira pessoa. Para gostar de ler: crônicas.

folha. através de sua forma pessoal de compreender os acontecimentos que o cercam. levando-os à consistência de uma autoria com estilo. viva e criativa.tvcultura. em geral. Geralmente. Em toque de palavras.com.com. vou fazer (com seu aval. que acaba se tornando o porta-voz daquele que lê. Visite. Este é um bom começo para favorecer a instalação desse olhar especial sobre um lugar onde se vive e transformá-lo em palavras estampadas em crônica: este texto contemporâneo que nos traz humor.org/moacyr/ http://www. lirismo. quando tudo acontece rapidamente.scribd. Com a leitura apurada de alguns exemplos delas poderemos vislumbrar a sua diversidade. intimidade.br/ http://www. Outro detalhe importante. elegância. E são as escolhas linguísticas que vão constituindo a ligação do texto com o contexto que lhe configura como base. Você topa? Vamos ver o que acontece.com/doc/10940016/CronicasSelecionadas-Do-Jornal-Estadao-Luis-FernandoVerissimo http://almanaque. E vice versa. as crônicas apresentam linguagem simples.br/rubem_braga. É hora de iniciar o contato direto e inteligente com a crônica. Mas sim promover uma reflexão inteligente. Mais: Depois. É. estilo. Talvez os primeiros escritos de seus alunoscronistas não contenham todos os elementos ou recursos inerentes ao gênero. O importante é que eles se conduzam por um olhar investigativo e poético sobre o cotidiano da sua comunidade e desvele em palavras uma situação que mereça ser retratada em crônica. numa edição posterior. uma crônica.com.htm 157 . Aqui voltarei para saber. leveza.com/ http://www.. espontânea.Sinal dos tempos. é claro) o seguinte: na próxima edição mergulharei num fato incomum acontecido no meu trivial viver e que lateja na minha cabeça por esses dias banais e comuns e dele escreverei. saboreie e.estadao..Apresenta-lhe assim a sua visão de mundo. Com um pouco de tempo revelado em oficinas e experiências mediadas virão os cronistas-alunos.releituras.. de maneira a provocar o surgimento de possíveis respostas frente à situação enfocada.br/busca/cronicas http://www. É muito comum a ironia se materializar em humor. o adepto.. coadjuvante.com. É importante dizer. Isso contribui também para que o leitor se identifique com o cronista. Compartilhar os primeiros segredos e os pequenos mistérios desse gênero textual.marioprataonline. O que lhe configura o ar moderno e dinâmico do contemporâneo.uol. propriedade e algum tom e olhar característicos sobre a vida de cada lugar. Para terminar essa conversa. solidariedade. tendo como base o mesmo fato vivido. menor que o conto. É a linguagem que fisga o leitor: parceiro. É importante saber suas articulações na construção dos sentidos de um texto. O que nos resta agora? Mergulhar no trabalho do ser professor. O que no leitor tem um efeito de empatia e crítica social. Antonio Gil Neto Alguns links úteis sobre cronistas e crônicas. reflexão. Aí teremos mais coisas para alimentar a nossa conversa nessa nossa praça virtual. saber de sua arquitetura e de sua natureza tão diversa. Urge tocar o leitor.br/aloescola/literatura/croni cas/index.. escreverei um pequeno conto. bom apetite! http://www. surpresa. Fica evidente na produção da crônica que o autor não que dar uma resposta a alguma problemática social eleita como tema ou assunto.. como nos convida o “Caderno do Professor” em sua intenção de colaborar com cada fazer pedagógico que é preciso mergulhar nessa ocasião de fazer o escritor. situada entre a linguagem oral e a literária.htm http://scliar. suporte ou ponto de partida. quem sabe uma breve crônica. Seja ela no tom que o autor escolher. seriedade.

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