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1I0CI/:\ , 27 ·.
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SERViÇO ru , :J O:'! r\L Dé TEATRO

IÉI-iJO DE EDUCAÇÃO E CULTURA

-o o"

" I I I I I I I NOTA DO EDITOH I I I A
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I
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NOTA DO EDITOH
I
I
I
A s it uaçã o atuut do T eatro Btnsil ctro , qlt c c orres po iulc,
I
com t ôtla c videllcia, ti última [asc c/o ci clo d e cada é poca,
c/mula aos III C/IOS es tu.íio sos elo [cnànun«: II fal sa uup rcss ão
I
d e d c cad én cia, l eoa -n os II co nsi de rar nial s
umu tiez ,,(ilida a
I
I
ai! vc rtén ciu d c S íl l)i o BOIII e ro, f o r111 "la da li á 111 a is d c cin-
qi i cnta nuos passados.
!
Disse o mestre qlle "II1IW elas afirmativas mais cOIIstall-
I
t es ela c rí t ic
a bra síleiru é a da uiio cl"i.st cllcia, cnt re Hás, d e
I
tlI/ll/ oerdutl eira litcruturu dmm átlco", Nessa o casião, c d e-
I
I
pois de analisar, compuratloanicntc, ° pClllOfCllIICl lit erário 110-
cionul, aproo cltou II oportuniiltul e l>llra peniten ciar -se d e Sita
própria "aleivosia critico", qllc consistira em co nsulcrar o
I
t eatro como "a })art c niats enj c zada ela nossa
llt cratum", C Ol l -
I
c luintlo qlle " o nosso roman ce não é melhor
elo qllc o nosso
t eatro" .
Por [un, -
como éle me smo dis se -
pam
" ac ab a r
I
( .'0111 tantas 1J1"CIgas, com tant os cs co n i u ro s, com tanto si st cmcí o
ti co d ellcgrir d e tuil o o qll c é bra sileiro", a cou sclli ou 11/11
I
es tudo apr ojunilado da dramaturgia naciollal C O /II 0 ° lÍnico
m eio de co locá-la no SCII cc nladeiro lll gar .
A gora, s erenad os os
llllimos dos renovador es do nosso
t eatro, e c olhidos os prlm eiros [rut os, c c aracte rizando-se mai s

nitulam cnt c o fim do ciclo qu e, in vari.à oelm

elli e, afllg cllta o

1UH ; o da s plat éias, e s bo ç a-se Itlll mo oini cnlo t end ent e a illi ciar

tlI/l 11OI i O ci clo.

C om c feito, c he goll ao fim a fa se d cfinic!a

p or Puulo Cra ssi - dir etor d o Piccolo T eatro d

e !li iliío -

CO IIIO aou eln c m qll c " o es pec tado r foi at ord oad o, c IIg azo-

p tul o, d e siludido p elo es pet áculo

àrulam ent e c ult ural, 0 11

p clu t eatro s omente cli gcsti Do, illlítil, tal ocz v aga/llcnte a gm-

dlÍoc1 , u uts SCIII sub st ân cía, 0 11 aiiulu p cfa s co mcilios exc ite lll-

t cs, CO III diálogos inconscqucntes e ce nas m órbid as". A ssim /'

5

, J

.•

f.

mcilios exc ite lll- t cs, CO III diálogos inconscqucntes e ce nas m órbid as".

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I I

t iulus , qll e é , sem

zt ulos da nu ulcrnu

.

slIrgiu a n ccessultule ele u11Ia retJlsao do r ep ertório nacional, tal/to (f 11 li 11 t o cio illt crJ/a GÍ mwl .

se imJJds a]J elWS c omo

n ote-se qll e essa atüiul e mio

f11lIll (I/itlld c !ll'O/}(!II Sa a fa zer [usti ça aos oc lhos (llltor es aja s- leulos do pal co p c/o ll/ uoil1lCII/O ele r cn ovaçii o, ma s ainda , c

so brctuilo, co m 1111l d os [atores elcci si lios ela recup eração do

e o es pctncular.

I/O S SO t eatro , l/O SCII d//plo aspecto, o li/ erári o

A í cs tú a ra ::::.t1o p clu (filai es ta E d üôra rcsolocu co labo rar

1((1 /ar efa agol'll cs po utá nct u nc n íc ini cuula , c c1 i/ lII l(lo WWI

s h ie d e obru s c1e,,/ Te as mais e xp ressivas de no ssa c ultura

ilrnnuitl ca. Nas ]Jesqul sCls rc ultz atlas n es se sontido, o f' 0 P0l' -

t (í,;o d e Jorw :y Camargo , qu e, na opillÍtÍo ele Sérgio M mi ct,

30 a 40, foi o que apresentou

domil/ ou tóda a dé cada ele

ni clhnr cs co ndiç ões para ° c lII lI /Jl'imc nr o e xato elo e mpreendi-

ll/ CII/O. C omo e ra natur al, l o/wamo -JlOs na opini ão ela críti ca,

touunul o C Ol1l0 palito d e partida el e Mont eiro Lobau :. quando

di sse qll e " JOT(/c !J. Call1arg o ri ° ilóso o c o t'

msü ciro",

Es se c onceito, /01'11I111(1(10 pela autorlilude inc(Jlltcstcívol

ele, Lobato, foi sendo, a pouco e POIICO, confirmado por outros

Crlti co s d o gralldc e ll vergad ll ra , tanto s, qllc ap cnas citarcmos, p or s er amplalll cnt e sllfi ci cII/ e, li opini ão d e Afnll1io COII-

ilú oula, tlllI dos mais atuant es c autorl- críti ca biu stlcíra.

6

TEATHO DE IDÉIAS

Uma Jus 1 ui ores falhas da litcruturn.chrusil eiru é sem

Nüo só p orCJu o ns

ôdus

mais ou menos Irustradas, mesmo por parte dos grand es escritor es, como um Machado de Assis, eomo tamb ém, o que

d esat enção dos

int electuais brasileiros para a arte dramática. Não s e l eva

habitualmente em conta o teatro, como se não Fôsse lit eratura,

011 ao menos s6 um gênero desprezível de arte. Não se presta

atenção à importância do teatro, não há críticos cspeclnlf-

é muito m ais grave, há um certo d escaso ou

t entativas n esse terreno da arte litera ria tenh am sido t

nenhuma l úvld u d e rcferên -ia tfo

zados em teatro, não se inclui o teatro nas cogitações dos Int el ectuais. Entro nós literatura é som ente romance e poesia,

e os escritores votam em sua maioria um soberano clesprêzo ao teatro, considerando -o gênero inferior ou secundário.

Se atentarmos no entanto para a imensa parte que ocupa

o

t eatro nas p;randes Iiteraturu s, veremos que d e

falso ou

d e

m esquinho há nessa atitude (consci cnte ou ínco n sc ic ntc ) .

Urna Iltornturu só se complotn na forma dramática, e estu

falha vem em apoio da tese que sustento do que não existe ainda propriam ente uma literatura brnsileirn, com p ersona - lidade definida e forte. O que existe são escritores isolados, alguns grandes escritores, porém de modo nenhum, lit era - tura brasil eira. No t err eno dramático, creio não ser exag erado, e o e xilo alcançado entre n6s o confirma , dizendo que a maior r eali -

za

ção

b rasil eira até hoj e

éot eatro d e Joracy Camargo . Com

o

se u

c onjunto d e p eças

já s e p ode falar e m t e atr o no Bra sil,

não s6 quanto no s eu valor artísti co mas so b retudo quanto

ao s eu s entido social.

Camarg o é a

sua s eriedad e. Sente -se n êle a pr eocup ação d e es tuda r, d e

O q ue se nota de logo na arte d e Joracy

7

\ ,

.

s eriedad e. Sente -se n êle a pr eocup ação d e es tuda r,
I' .-. ".' . '\r conscic te a sua arte, de anna -la de um
I'
.-.
".'
. '\r conscic te a sua arte, de anna -la de um arcabouço
c de \11\1 conlcudo intelectual imprescindíveis, pois
11110 lia,
como disse JOII\, i t, (Juc seja mais sério do {I'IC
a comédia, c que cxijn tanto a aplicação e a consciência
profissional. Joracy tomu a sério a obra q\le empreendeu,
aprofllllda -a
''!"
m cr íto
estudo c na meditaç ão, o (JIIC constitui já
meio em qllc a mania da impro-
vlsaçao c da supcrficialidnde estraga tôdus as iniciativas mais
gCllerosas c as mais graves vocações.
Por outro lado, !Jinguém v.i procurar no teatro de Joracy
Camargo IIIU pmo divcrt i 1lI<:1I to. A lúio é arte pllfll,
011 arte polu arte. Ela encerra uma intenção.
O seu teatro
é I1I1l veiculo apenas
ll i'llCi'lSinamento, a ropagação ou
a ddesa do lima tese social. um teatro de id éias. Não
Se apenas achar graça, porém sobretudo nprender,
fazer exame de consciência social.
A ação dramática de Jorac.;y Camargo gira tôda ela em
de logo essa restrição, marcando como um defeito o que é
lima qualidade sob outros pontos de vista. É quc, parece,
no nulor inter ssa menos a arte simples e banal divertimento,
<o ( lIC a arte quc encerre uma finalidade. Para êlc, o t eatro
eleve scr apcllas o instrumento de um dcbate d e teses, Ulll
isturi li, Iísscca ão social e moral, um meio ( eanúlisc, um
veículo de idéias. É a reforma social que êlc visa rctrutuudo
sob o travesti ua ilusão l rumática, as misérias c is
conseqüentes à má orgunlznção da nossa socíednde atual; é
à demolição do edifício viciado e couclcnudo da sociedade
hurguesa c cupltulístu Cjuc êlo cruprestu o seu tulcuto e a
suu arte.
Ohra de coragem em nossos dias, só o prestígio que a
inteligência ainda desfruta pode explicar o conceito em que
é tida. É obra necessária, como prova de que hú público
para compreendê-lu c aplaudi -la, e quc vem ao encontro dessa
cousciênciu que o povo está sentindo crescer em si a respeito
tôruo da
vasto c poderoso
da socicdurlc hurguesa.
Faz parte dêsse
'lcchíal contemporâneo de
das.
asplraçoes, até então
seus direitos, das suas legítimas
atlas pcla morfinn da caridade
rccusndus Edas ex -,]ornç,ões
clus
ale (l ÕCS
SClH.lOI 0-
'alizantes, nelas
pSCll o)'umicns de grupos que
tudo controlam, até fi própria vida dos outros, a maioria
espoliada, e quc sob a capa da ordem escondem a mais essen-
••.
cial das desordens, a desordem da Injustiça.
A FIlÂNIO COUTINHO
, de outubro de )941.
da Injustiça. A FIlÂNIO COUTINHO , de outubro de )941. crítico dos vícios da estrutura social

crítico dos vícios da estrutura social burguesa, da moral e da ccunomlu hllrgllcsa, da vldu Iutclectun] burguesa, e neste sentido nenhum instrumento mais perfurante, Uma peça de le:ltro é de efeitos milito mais profundos e largos do que IIlII tratados de moral social 011 econômica, centenas de dis- cursos e conferências. A sátira imensa (JlIC é a obra de Joracy Camargo tcm 11m alcance como propaganda de idéias contra a hurgucsia e a concepção cu ritulista da viela que difl- cilmcnte sc poderá prcvcr. Nela está caricafiíí-ada essa mesma IlIlrgucsia <luC o aplaude e ri ruidosamente, talvez incons- cicutcmcntr-, talvez inndvcrtidnmcutc, talvcz rotineiramentc

talvez l):1ra

as vozes

cr nsciência, o imenso

c

o IIll'do I 11li "I" Iv. -l lJllC 1I1t : vuo nalma

Nada mais vivo c mais atual.

São os reais problemas

e

as mazelas da vida moderna quc apareccm debaixo do

deito da ilus ão dramáti ca . E o seu êxito surpreendente não tem outra cxplicnçâo s enão csta aridez quc caracteriza a intelig ência c outcm por ânc a por lima compreensão dos males qlle aflig em o hom em mod erno.

Pndc-r-sc -iu mesmo dizer c]ue, sc não é esta lima intenção

do

, autor. às prças de Jora c)'

faltam em teatro

pro-

Prt:tIlH'llte () ljll<: sobra ('m id éias. Um crítico cxigcntc

fará

8

9

i'

US LHE PAGUE EM 3 ATOS Divididos cC 23. 6 EDiÇÃO NO llllAllll. R epresentada,
US LHE PAGUE
EM
3 ATOS
Divididos cC
23. 6 EDiÇÃO
NO llllAllll.
R epresentada, pela prim eira ecz , e m Silo l'lJIll o, f IO T eatro Boa Vista ,
t' 30 d e d ezembro ele 1932, pela Ciu . Procópio F erreira.
PHEFÁCIO "O Teatro é li Síntese lia vidl)" (Frase f eita (la critica) Para mim,

PHEFÁCIO

"O Teatro é li Síntese lia vidl)"

(Frase f eita (la critica)

Para mim, a vida é a miniatura do teatro. Ele a aumenta, fi embeleza, a sublima. A vida cria o conflito; o teatro o resolve; c. nessa solução, a vida tem nurnentudo seu patri- mônio moral. A vida está cheia de Cyranos, Hamlets e Othelos, mas, depois da arte os haver mostrado, é que o mundo começou a reparar nêles. A vida, na sua simplicidade,

é banulíssimn. Sem o magnetismo da arte t ôda a natureza

é muda. Onde a epopéia de uma noite violenta de tempes - tade, so não houver um poeta para cantá -Ia? No calendário da vida a arte marca os grandes momentos emocionais . Quc

é civilização senão uma gigantesa obra de arte, que fi hurna-

nídade vem criando pelo apuro dos instintos? O esfôrço humano violando os mais calados segredos da natureza, para, do seu mistério, arrancar um pouco daquilo a que êle chama perfeição, eis a eterna luta do homem. Diante da sua própria obra as emoções dos homens são tôdns iguais.

o

o

, o

Tôda palpitação de vida é registrada pela arte com a violência de um choque. Por isso, a arte parcce antecipar -se à vida quando objetiva emoções e idéias ainda sufocadas no

intimo

das consci ências. Mal se desenha o fenômeno, a sua

fôrça criadora dá -lhe forma, Fazend o-o caminhar. E o s eu

I ôr a soma com c élulas

pod er de sugestão é tanto maior quanto maior de humanidade que troux er . Arte que não vibre

15

humanas não é arte, é cópia fria da natureza. fotogr áfi ca. ooo . de
humanas não é arte, é cópia fria da natureza.
fotogr áfi ca.
ooo
.
de
da
art e. O arti sta,

E: traição

Ora, a pr esent e s itua çã o do mundo, paralisando milhares bruços , arrastou no " chômage" im enso as forças criadoras

no " chômage" im enso as forças criadoras ont em operário ch eio dc motivos, é

ont em operário ch eio dc motivos, é hoje

um m oribund o a e xpira r d entro de um casarão vn zio . Não

exi

st e nrto em d ecad ência; há sociedad es mortas, nas quais

o

artista não pode mais viv er.

E: êste o quadro, onde

os

arti stas s em audácia ou s em compreensão do momento se

d ebutem tràgi :am ente:

as mai.s. div:r-

sas c absurdas, o moti vo Inf eliz da sua própria mumificação.

e m

oo

Estamos nas vésperas do grande dia de juizo de uma época. Dia do Deve e Haver, do prêmio e do castigo . Como folhas sopradas por tufão violento, as mentiras caem frago- rosnmente. Ninguém mnis crê senão naquilo que realmente existe. O mundo exige a verdade em tudo e em todos . Não

hasta (lue ?

que a cria-

tura também o seJa. Ontem, crendo-se no criador, estava

absolvida a criatura. Bastava uma nparência de verdade

Era o bom

para endôsso de nlguém ou de nlguma coisa.

t empo da "plataformn mentirosa", do parecer capcioso da "grande autoridade jurídica", da voz interesseira do "jornal do povo" , CJue infiltrava nas consciências a sua opinião. Opinião qll e, transformada em c re nça, e ra instransig entc . Firmada, a ssim , e m suas c onvicçõe s, por mêdo, respeito, igno-

r ância ou pr egui \'a, a humanidade d eixou-se apodrecer como á gua es tagna da. E quando novos rios, pequeninos filetes

d e ágll a clara d esli zar em a o e nc ont ro de outros rios, at é

formar

o fund o do s abi smos , n enhum

tron co carunchoso resistirá à

fúria d a co rre nt e . O 'lu c n ão p osuir raí zes fundas na t erra,

sC' rá arra stado. Raí zes sã o os ci os ind estrutív eis da v erdade

'lIl C r eun

s eja verdadeiro, é

es sa c audal im en sa CJu e tud o leva de enxurrada para

o os hom ens. A s olida rie dade humana é essa comu-

-

nhão d e t ent áculos, qu e s e irmanam e confund em, partindo d e um Sc1 pont o par a o s pontos mais di ver sos e distantes,

16

-

pont o par a o s pontos mais di ver sos e distantes, 16 - ••••••••••••••••

••••••••••••••••

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o ideal é o ponto divergente: - dêle partimos e a êle vol-

tamos pela fatalidade da parábola . Por isso, lamento os qu e

procuram t ente dos

m enda dos destinos humanos, em que as mentiras são aban- donadas como jóias incômodas, em fim de orgia, insistir em mantê -los é dar ao mundo o mais tri st e esp etáculo d e si próprio .

desviar-se dessa rota traçada pela natur eza onipo - fatos. Será esmagado p elo todo . Nesta hora tr e-

o

o

o artista e a arte têm que ser verdadeiros para que haja utilidade na criação. Hoje, um homem tem (lue ser u ma verdade, um valor, uma afirmação clara, precisa, integral. Ontem, o adjetivo valorizava o homem, hoje o hom em é qu cm valori za o adj etivo.

ooo

Jora c}' Camargo é, portan to, um homem de gênio.

ooo

Deus lhe pague não é simplesmente uma peça que caiu no gôto do público e permaneceu no cartaz por culpa do empresário imbecil. Não é um dêsses êxitos de garga- lhada, d eprimentes, despudorados e cretinos que hão do envergonhar suficientemente no futuro.

é a grande

hrasileiro . Marca o inicio da nossa

dadeira expressão: - teatral, cultural e social. Com Deus lhe paglle o nosso teatro, até agora, acanhada represcn - tução de hábitos, usos e costumes, pilhérias, e sem intençõ es além de distrair, se integra na sua alta missão educativa como fator principal de civilização .

O teatro -cátedra, como o possuem os grandes povos ,

d e

encontra, n esta obra prima de [oracy Camargo, o modêlo

lição humana, profunda, sadia e lógica, exigida às obras d e condução que focali zam os graiH.les momentos da história. Realizaç ão magistral s ôbre as emoçõ es da hora present e :

refletindo as inqui etaç ões, as ânsias , os re c eios e os t emores

Deus lhe pague

obra cultural do teatro arte cênica na sua ver-

17

'"

do mais belo dia do mundo. Deus lhe pague será os vindouros o pergaminho precioso
do mais belo dia do mundo. Deus lhe pague será
os vindouros o pergaminho precioso onde se escrevera!TI as
vcrtludes palpitantes da consciência sofredora de nossos dias.
Os louros que lhe atiraram florescerão sempre; cada geração
saberá renová -los,
porque DCllS lhe pagllc
é dessa irnor-
tulidude sólida dos plunêtas que não desaparecem nunca.
Sei perfeitamente o quanto hão de parecer exageradas, aos
olhos dos falhados, dos nulos, dos imbecis e dos despeitados,
.-stns minhas palavras.
DEUS LHE PAGUE
Felizmente, isso já não nos tira o bom humor, como
outrora. Sabemos o (Jue somos, onde estamos e para onde
caminhamos. j,í não nos movem a cabeça os zurros de tais
alimárias. Dentro de uma profunda solidariedade humana,
s ó nos interessa o
bem que possamos fazer à coletividade.
]<i rompemos o círculo de ferro das competições pessoais.
Somos por todos c para todos. Do palco atiraremos aos nossos
a verdade com a mais pura das intenções.
Operários da arte, a nossa produção é para todos aquêles
que <jllÍscrelll c souberem aproveitar um pouco dêste tra-
balho fcito com sangue. Fraca, embora, a nossa dialética
já é razão de scr de nossa existência, uma vez que no grnn-
de ideal da felicidade humana fomos encontrar a única
fonte mitigadoril de nossa sêde de justiça.
A coragem quc nos anima não repousa numa fantasia;
antes do pensamento, falou-nos o instinto, por isso a nossa
marcha é consciente. O autor e o intérprete vivem Deus
lhe
Ambos são todos aquêles personagens da tra-
gédia colossal.
PROCÓPIO
18
I I I I I I I I i I I , I L /

I

I

I

I

I

I

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PHIl\,1EIHO ATO

C E NA Hlü

.-\

P I fim l /o/lcO (llltes de s er il/l/lljl/(/(l/I CI cid ad e,

//Ia s 110 tnt erlor til' igr ej/l l/li a luz 11 10 riu dos t empl os.

(lr clo c.:1I1/W

l ' ottu prin cipa! e 1I1VlI/lI/WI/tal de UI/W uc llia igr eja ,

'-\ 0 s ubir (} PlIIlIJ e nt ram 11/1 igr eja , D M, \ SENIl

On ,\ lJE

L og u

tanib ém s ereno, e [inalment c, UMA JOVEM, agitadí s si/lla,

olluuul o p/lra os lud os. Pass ad os d ois o u tr ês s eglll ll/ os, ent ra U AI 111 t:NVIGO de 50 'llIIUS, barba s e c ab elo s CO/ll- prid os, olhar se reno, ex pressões m es si âulcas, e m S/l/llll, 1/11I/1

L U 'rU,

SEN /l OB,

trauq íulument c.

d epois, U !II

cab eça cl'le d esp ertaria

c luip éu de [ êltro, v elho

retrati sta s; e m [ otni u

de saco, "l,al et6" de casimira , pret o, es fa rrapado , b em

lWIJllo, com os ellormes bolsos cls cios, volumosos; calça) tamb ém es curas, rem endadas "à 111 diable"; botinas velha s,

d eixando v er alg/lns dedos sem m eias.

t osco, que lhe s erve de bengala e um maço ele j orn ais

Traz Unt . pall

II at enção dos pint ores e e sb u rac ado , s em fita,

amarrotados. Vem andand o com o

des embaraço qUfJ lhe

a vistar in stan -

p ermite a satí<le de uma velhi ce b em nutrida . Ao

UM RAPAZ que entra em s entid o contrário , simula,

t ãncam ente e com muita pnitl ca, um grande abatim ent o,

uma expres são de angustioso sofrim ent o; e, apoiando-s e na "bengala", procura sentar-se a custo sdhre os jornais

mesm o

t empo que

retira o chapéu e estend e-o ao Rapaz ,

maquinalmente, s em olhar, atira U/II{I m o eda , lf/l e

ESTE,

que atirara no prim eiro

d egrau da e scad a,

ao

° MENDIGO apanha c om o chap éu, tão hàbilm ente co mo

um pel otârlo QlJOllharia tI,ma b ola lia ces ta. , .

e ntra lia igr eja, e nq uanto

R AP A2

di z , se m d ar

O

o

M ENDIGO

grand e lnvport ãncia ao cs mo lc r:

--;

i Oll«: ,)Ora d entro da

i greja e para os lad os, parti e ntão, aicitar m elhor o s jornais,

II " bengala" e o c hapéu, t onunulo p osiç ão cô moda e d efilli-

E m seg uida, e ntra OU T RO

AI E NDIGO - m esma idad e, m esmos f arrapos, mas d e apa -

r ên cia pior , p orqu e revela fim g rallde abutun ento fí sico. E;

ti oa 1Jartl o "trab alho"

l\J ENDl GO -

D eus lhe pa g-lI c

-

.

21

crime de apropriação indébita. Por Porque êles resol- mesmo esquálido e faminto - }'fENDIGO, distraidamente,
crime de apropriação indébita. Por
Porque êles resol-
mesmo esquálido e faminto - }'fENDIGO, distraidamente,
à passagem elo OUTRO, estende -lhe o chapéu:) Ahl (Ri.
T.
veram que as coisas
a el es
. OUTIlO - Mas qucm Foi que d eu?
.
sonho)
Desculpe
Não tinha reparado que o senhor é
colega
1\IENDlGO - Ninguém. Pergunte ao dono
uma faixa
Atlântica se ê le sab e expli car por que
OUTno -
Ainda não fiz nada hoje, velhinho.
Tenho
cigarros. Aceita um?
l\fEN[)JGO - São bons?
OlTIllO - Ho]e, até as pontas que consegui apanhar são
de terra na Avenida
razão aquela faixa é
OUTIIO - Oral
tigo dono.
dele
É fácil.
Ele dirá quc comprou ao
an-
de cigarros ordinários! (Tira elo bolso uma latinha cheia
ele pontas ele cigarros, abre-a e oferece).
MENDIGO - Muito obrigado. Não fumo cigarros ardi.
nários. Quer um charuto? (Tira-o do bolso).
OlTI1\O (Aceitando, espantado) - Olál
l\fENDI(',() - E: Havanal Tenho muitosl Custam 10$000
- E o antigo dono?
Orrrno - Comprou de outro.
l\IENDlGO -
E o outro?
I OUTRO - De outro.
-
E este outro?
\ OUTIlO - Do primeiro dono.
I l\IENDIGO
- E o primeiro dono, comprou_ de qucm?
cada UTIl.
I OUTRO -
Tomou conta.
OUTnO - Aceito, porque nunca tive jeito para
l\fENOIGO - Nem cu.
OUTUO - Não foram roubados?
l\IENDlGO - Foram comprados. Ainda não sou
OUTIlO - Desculpe. E: que
l\IENDlGO - Não é preciso pedir desculpas.
roubar
i l\IENDlGO -- Com que direito? -
I OUTRO - Iss é que eu
não sei.
_
I 1\fENDlGO - Sem direito nenhum. Naquele tempo nao
ladrão
t
·· rj .
Não sou
ladrão, mas podia sê-lo.
E: um direito que me assiste.
I havia leis. DepOIS que um pequeno grupo dividiu tud? entre
I si é que se 'fizeram os Códigos. Então, passou -a -ser cnme .
para os outros, o que pru a êles era uma coisa natural .
I OUTRO - Mas os que primeiro tomaram conta das terras
Ol1TnO (Sentanelo-se na escacla) - Acha?
I eram fortes e podiam garantir a posse contra os fracos.
1\ I ENDlGO - Acho, mas semr.ro preferi trabalhar. Como
trubnlhnr nem sempre é possível, resolvi pedir esmola, antes
que fosse obrigado a roubar. Pedir dá menos trabalho.
OUTUO (Alarmado) - E é por isso que o senhor pede?
l\IENI>IGO - Só. O senhor conhece a história do mundo?
OUTUO - Não .
l\IENDIGO - Antigamente, tudo era de todos. Ninguém
era dono da terrn e a água não pertencia a ninguém. Hoje,
cada p edaço de terra t em um dono e cada nascente de água
I MENDIGO - Isso era antigamente.
Hoje os
I donos não são fortes e continuam na posse do que nao lhes
I pertence.
I OUTRO -
Garantidos pela polícia, pelas classes ar-
I madas
l\ I ENDlGO
-
Sim.
Garantidos pelos que tam hém não
I I são donos de nada, mas que foram
de que
vem fazer respeitar lima divisão na qual nao foram aqm-
I I nhoados.
p ert ence a alguém.
Quem foi que deu?
OUTUO - Eu não fui
1\1 ENDIGO - Não foi ninguém. Os espertalhões,
I OUTRO - E o senhor pretende reformar o mundo?
- Tinha pensado nisso, mas depois compre·
no prln-
I endl que a humanidade não precisa do meu sacrifício .
I
OUTRO -
Por que?
I 1\fENDlGO - "Porque o número de infelizes avolumá-se

cípio do mundo, apropriaram-se das coisas e inventaram a JIIstiç'a e a Polícia OUTII O - Pra que? I ENI>IGO - Para prend er e processar os que vieram de. pois . Iloj e, quem se apropriar das coisas, é processado pelo

22

I

i

i

1

I

I

I

I

I

assustadoramente

OUTRO (Sorrindo) - E foi por isso que desistiu de re- formar o mundo?

23

.,

., - Foi. Ab an ci a . 'dade e resolvi { dir- O U TUO
., - Foi. Ab an ci a . 'dade e resolvi { dir- O U TUO

-

Foi. Ab an

ci a

. 'dade e resolvi { dir-

O U TUO -

O s enho r é c o ntra a es mo la ?

 

lho

( 110 , m'

'

.

Exigir é Imp crtln ência: p edir é um

 

S01l a m eu fa

vor e c ontra o s outro s: A socie -

 

-

( ir cito

1,H'dl', nuo

call sa .

r e conh ecido.

1)(1 prazcr li <JUCIll SO

O se n ho r r eparoll (JII C ningllém

dad e

ving1lei eleIa.

<Jue cu p cça.

E1I

E foi p edindo ljll e m o

c

c ontra o lI Wllll.I WIf

P or CJll e s erá

r P OrcJlIC () m cndigo é o

O lJTI\() -

 

CO IllO a s sim

i'!

h

nuuru '1" 0 d esi stiu d e lutur c o

nt

ra 0 5 OlltroS .

O Il 'III11 -

O s IIlIllIl 'lIS lIão pr eci sam d e 1I1·)S

I EN 111(;0 -- Pr e ci sa 111, sCllllo r

OIlTIIO -

Baru la.

.

COIllO é o SC II nome?

- Preci sam, mas não dependem; e é por isso

<JII C no s olham com t e rnur a.

um m endigo? mais d e n ós,

é, neste momento, uma nc-

, .ss tdu d e so ·iaJ. Quaudo ê lc s l l z em: "Ou cm dá aos pobr es,

e mp res ta a D eus", conf essam que não dão aos pobres, mas

e m p res tam a D

iut cr êssc.

s ofredores,

com a mrseria de um níquel (Jue ê les adiam fi revolte dos -

JI1 is erá v . is ,

Mus <JlHlJ)(.JO agradecem a D eus, revelam o

s m tinu -uto da gratid ão.

o 1\1J.: NIlI (; O - Não II,í gratidão . Só agrad e 'c a ) c us qu em ·

O U"I"1I 0 -

l\I ENJ>l GO - Todosl

Qu cm é que pr ecisa de

Ê lc s pr ecisam muito

do (lUC II( )S d el es.

O r nen digo

Não há g en erosidade na

un a:

há.

Os p e cad or es dão, para ali viar s eus pe cados; os

merecer, os graças do Deus. Além disso ,

-

O lJTIIO

t em m êrlo d e p . rd e r a f elicidade.

ce rte za d e

infelizes e dos t eme- p cn sa (I"C e stá c om-

pr anllo a f e1J cIlIade , e os m elHligo s, para êlc s, são os únic os \, (,lIll ed or es d esse h em s lIp rc m o.

ro so s da

tir , porqu c s ú e xiste 110 p Cllsamento dos

Se os hom ens tiv ess em

seriam s empre f eliz es, Deus deixaria de e xis-

QlI em dá es mola

O U TIIÕ (D e sanimad o) -

A Feli cidad e é tão barata

Barata é a ilusão.

Co m p o rq

p ensa Coi ta dos ]

I ost â» , :\ s a íd a d e um " cabur et ", ond e s e g as ta ra m mIlh ar es d e t ost õe s e m ví ci os e cor r u pçõe s, r edimi ss e p eca-

la, um

ão zinho , co m p ra-se a m elh or ilu são da vida ,

1\ I EN DIr. O -

\1111

t nst

E ngana -se .

f: carís sima.

" ))C 1lS

lle qu nu cl n a gc nte di z:

lh e pa g1le

", o es mo lc r

no d ia seg llilltc va i tir ar ce m CO ll tOS na l ot eria

São t ã o in g cnu os

S e d ar uma es mo

d os ,e ,

a

o mundo se ria 11m p ar aí so!

O

I salT lfll'1ll Il'le r edim e

r est o.

E smol a n ão é sa crifício!

f: sobra.

p

edir.

. a a leg ri a d e q1l em (lá porque nã o precisa

21

1\Jt.: NIlI (;() -

])onpl(.:, obrigado a p cclir . [ui ohri gall o a

cnriqu c c crl

(h

l'lI\o (Em s egr edo) -

() s enhor é ri cn j'!

I U,, »J GO - Hi(1'1Í55illlOl Não

O ll'l"IIO -

ti ve outro r em édio

,

. IIá de mo expli car como foi ohrigil llo a fi car

.

rico .

l\IE NDJGO - A sociedade é milito d efeituosa, m eu velho .

Pela lógica, o mendigo d everia s er s empre pobre. Pel o 1I1 e - 1I0S, enquanto Iôsse mendigo. Entretanto, 101 r es , r unhn unte

Pobr es d e es p írit o, pohres d e truuqui-

lidudc, de frat ernidade, c, às v êzes, até de dinh elrol

pobr es, s ão os ricos.

(O S EN IlOR

que entrara na igreja, sai, visiv elmcntc preocupado, agitado, inde císo. OU1'HO estende -lhe a mão:) - Uma csmuliuha

O UTUO - Não estou ent end endo nada

p elo amor de Deusl

O SENHOR não clá) .

(Eslcmlentlo -lhe o chapéu) - Favor e ça, em

(O SE NHOR

nome de Deus , a um polire CI"C t em fom

clâ c sai agitaclíssimo - O (lUTHO irrita -se) - Conh ece êsse

suj eito?

OUTUO -

Não .

- É o Vi eira de Castro , pr e sid ent e (lo

de t ecidos. Milionário . Tanto <jlúl1llo

cul Obs ervou a aflição d ess e hom em, pro curundo igr ejas a

e sta hora da noite? S ab e o (pi e signifi ca um m om ento de contrí ção r eligiosa de 11m milionário?

sortium" das hricns

O UTU O -

1\I E N ()I GO -

Não. Ego lsm o. Luta e n t re êles l Mi

do (Jll e a nossal

OUT HO -

Do qll e a minha ?!

s ér iul

Pior

- Sim , pof(jll e a minha f aria in v eja ao h om em

minha mi s éri a é a mi s éria m ais

m ai s ri co d o mund

A

.couí rt ávcl

I H1.

O

U TH O -

Ma

a fa zer Iortunu .

s n ã o m e e xplicou a in da co mo f oi o1>ri ga (10

2.5

.couí rt ávcl I H1. O U TH O - Ma a fa zer Iortunu .

Fui obrigado a guar-

.1 s ociedade m e Imp edia de gastar . Esta roupa,

,que rccchí como e smola, visto -a há 25 anos . Substituí -Ia

Logo,

Fui ohrlg,ulo li c c ononu z ar , pelo menos, o valor de dois temos

por alio

- P?dindo c

,

dar ,

1I11.I.a

s e ria de.smoralizar a minha profissão

l'ÍIICJii enta lemos . Vint e e cinco contosl

OllTIIO - A 500$O()O c .ulu um?

r-.IENIH(;O - t quuuto me custam agora

Obrigado a

os restos de comida que os outros me davam, calculo

sem

a 1.1I11.Jl:l c counmiu , por baixo,

goqda s

cm G$OOO diários

Ourno (Fazelldo cá lculos i - Ccnto e oitenta por mês

2 vezes nada, nada; 2 vezes 8, 16; 2 vezes 1, 2 e

vez 11:1(1:1, nada; I vez 8 8·

um 3; uma

D'

OIS

1 vez]

I. 6 11 e V"I' 2

,"

li,.

,,

conto s cento e sessenta por ano

r-.IENDIGO -

Em 25

OU1'IIO i Nocos c ál culos balbuciando

dedus)

Mais de 50 contos.

e contando pelos

. - Acrescente agora outras despêsas, corno . teatros, es!}ortes e certos luxos que me pareceram P:.II":\ 11m mendigo, c compreenderá corno pode 11m nH'IHllgo enl'lejllCccr c um rico empobrecer. OIn'1I0 - Tem razão.

- Nós vivemos acumulando as sobras da socie-

dade:

O que há é uma

menor no momento em qpe o dinheiro é maior. Quando a n ec essidad e aumenta , o que era lucro passa a - ser prejuízo. Se _0 scnh?r, não tiver necessidade de cominar um

E a ilusão do lucro, porque não há lucro.

o

iedade pensa ql.1C as sobras não fazem falta

autom óvel, nao seutir á falta do dinh eiro que êle custa.

Se

o s enhor não tiv er n enhuma necessidade, o dinheiro que

tiver no bol so ser á lu cro . f: sobra . Pouco se os m endig os, somos a lata do

fora . níd ad c .

lhe deitá-Ia lixo da huma -

E n ós,

O U TII O -

Ma s o senhor é rico m esmo?1

t\I ENDl GO - Sou. Ma s não tenho culpa n enhuma disso O U TIIO - E pr et end e continuar esmolando?

-

At é o fim da vida.

Não me dá

trabalho

n enluun . o:

pago imposto, não estou sujeito a

incêndio

Il em a I ul éncia

26

OuTRO - Mas, se vivesse dos rendimentos, também não precisaria trabalhar. Por que não emprega o seu dinheiro lia indústria, no comércio ou na lavoura? t-.I ENDIGO - Para quê, se não tenho necessidade de arris- car o meu capital?1

Otrrno - Em comp ensnçâo,

l\IENDIGO - Puro engano. O

gnnhnria muito mais . lucro maior não é a maior

quantidade de dinheiro que sobra. No comércio ou na indústria, quem ganha mais precisa gastar mais. No meu

caso, dá -se o contrário: quanto mais ganhar,

e devo gastar, para ganhar mais e mais. E depois, o que faço não é ganhar; é cobrar o que a sociedade me deve. E cobro humildemente, suavemente, em prestações módicas. '

Otrrno - Quanto lhe deve a sociedade? MENDIGO - Tanto quanto deveria caber a mim, se hou- vesse uma divisão "camarada". OUTRO - Comigo essa gente tem sido muito caloteira

Como

é que o senhor pede uma esmola?

"U ma esmola pelo amor de

Deusl

mais ouve

menos preciso

MENDIGO - :B que o senhor não sabe cobrar

OUTRO - Como todos:

" MENDIGO - Isso é passadlsmol

esse pedido. Deus é urna palavra sem expressa0 . Quando se diz "Ai, meus Deusl" - é como se estivesse dizendo: "Ora

bolas I" O senhor nunca ouviu um ateu dizer: "Graças a 0 Deus sou ateu"? OUTRO - Já. MENDIGO - Pois então? Hoje, poucos compreendem o valor dessa expressão, Fale em fome. Fome é mais lrnpres- sionante. mais de 30 .000.000 de famintos no mundol Mas fale em fome, sempre onde não haja pão ou comida. Otrrno - Para que? t-.IENDlGO - Para que êles lhe dêem dinheiro. O senhor, com cert eza, t em mendigado a domicílio

f "

J

J

l ,

O UTRO - Realmente, s empre v ivi percorrendo casas de

família. t-.IENDlGO - t;: um mal. Quem mendiga a domicilio não

faz carreira, Só dão pratos d e comida e r estos d e pão.

Especializ ei -me em trans eunt es e

L eia os

Adote o meu sist ema .

portas de igr ejas e m dia dc _ missa de d efunto rico. jamais. Pelos anúncios, calculo a féria do dia.

27

./

E h oje, p or Cp le estú aqui , a e sta hora? Ot
E h oje, p or Cp le estú aqui ,
a e sta hora?
Ot n l:()
-
OUTI\O - O senhor nasceu mendigaI
l\I E ;'-;IJl CO - O se n ho r n ão sab e?
ll em
se v ê quc o senhor
l\I ENDlGO - Não.
vidal Luta desiguall
Nasci
trabalhadorl Lut ei muito p ela
n
ã o t t :11I voc ação p ara m endig o.
E falta -lhe prática .
H oje
Eu e ra um p o )re op erário, c?m a
c
o
dia dI)
do lII CS d e M uriu.
A igr eja es tá
cah {'ça c h ei a d e s on ho s e os
braço s e m constant e mo vrm en-
, ,( Bc/,r (l/lelu /1111
elo bol so e
-
Aqui
to
. Ch egu ei à s port
as d a I ortuua o não
pud e e n tra r, porque
l. St.1 "
1111 e li m eu sccn- uuí u upr c scnt ou :
I .o tuçiio COIll-
m
e b uterum c om as portas 11a cara!
pl cl u : Olto C(,lIta
s e c irIC}iit'lIta p essoas" .
OU Tno -
IH milito t emp o?
Ouu
«» - O se nhor t em s ec ret:'rio?
t\(ENDlCO - Há 25 anos
Eu vou -lhe contar
(Apa-
• - .C olltra tei 11m rapaz e s pe
rto, que percorre a
gam -se tôdas as luzes elo Teatro . O MENDIGO
é

estou

trancl'lib'n ente em casa, em minha bibliot eca metido num

hc s- dc-c h:un h ,rc", l endo Upton S incl air,

rec ebo tdt:lOlwmn urgente. É o meu

s ôbre lIIHa boa missa, um excelente casa-

mento, nmu f esta p opular, onde há maior n úmero de genc- ra sos, segllndo a sua psicologia.

s ccr et.uio , uvis.uul n

Cidade , l e jorn.us c Icmhru -m c as datas .

III ('IIS lindo s " ro

KIlr/

Ás v êzes

OUTIlO - O senhor tem uma organização perfeital

_ l\IE!'I>ICO - O serviço está hem orgallizado. Aqui nesta -

s enhoras" , Nota: "a maioria é dc luto recente".

Luto r ec ent e é um grnnc1c sinal de g enerosi-

"234 pessoas de luto,

igr eja,

cxempl?" estilo

(hi/lIIIC/ u) -

(L el/(lo ) - "80 solt eironas". -

(FalalJ(/o) - A solt ei-

e

11111

1I11ligo do 1l11'lIdigo. Quando u g ente di z:

l? clIs

pagll e, ela " C logo um lindo mpaz caindo do

CCII

IIIll ce rto sorriso de hondade e malícia nos l ábios É uma ('sp eran ça d e casam ento

pllr d es cuid o

J

Ma s é preci so que, ao pedir , a g cnte

.

O lJTII O

-

minh a v klul

Vamos ao r estol

Sinto que vou melhorar a

- por mim ra d e [al ência pr óxim a, 18 .

cp cnrl itlos".

( f alando ) -

(L ellclo) - "Com ercfantes N oiv os e namorados co m p eca - O m eu s e cr etário é um

co m ca

a s r esp ec:tiva s, .D6 . " O r est o é g ent e "chie" , al ém d e

d or es u rr

g r;llIclt' p sicúl ogll!

( ) lIT 11 0

-

Es t á-se v en d o I

. r-. I ENIl H;O -

t ost õe-s .

CO IllU \ 'C, a

(' Ianll' I a lirlo cLí P OII CO, ma s

da IllislTia.

C o me r-

n âo d ei xa d e d ar : t em m edo

N oi vo d ez P e ca -

féria

vai s er grand e.

Na mo ra do d á d ois mil r éi s.

l ;. t em mai s intimidad e c om a p equ

d ore s, em gera l, dão níqu ei s

28

,

.

tuulo por um figurllflte de igual tipo, que p ermanecera el,n

seu '''gar. Ao mesmo tempo, sobe o tcl{ío,. clesapar?cen do

a igre;a e d eixando ver um tablado

luzes fortes.

gaze. As lu zes da "avant-scéJle" ficam apagaclas).

de

A frente d esse tablado c m uma cortina de

CENÁRIO DO TABLADO

Una gabinete pobre. Móveis simples de sala de jantar. Ldmpada comum pendente de um fio. 'A o subir o Telão, está em cena MARIA, cantarolando, feliz, enquanto arrmm, a mesa de lantar. Veste -se com extrema simpli -

Seio

MARrA vai

8

cidade, usa coqlle e chinelos, tudo como 'Iá 25 anos .

horas (la noite.

Logo batem à porta .

abrir. Entra 11m SENHOR bem l>osto, c om tires impor -

f1H; OS tiO (m cntal. para

tantí ssimos . MARrA llrn}Jn as

cumprim entá -lo. Ele

nem

se aperc ebe

disso .

llrn}Jn as cumprim entá -lo. Ele nem se aperc ebe disso . SENHOR - Boa noite.

SENHOR - Boa noite. Boa noite.

- Faça o favor de sentar-se .

(Limpando uma cad eira com o

a vental) -

d

S ENJlOn (Risonho) - Obrigado. Não tem curiosid ade e sab er quem sou eu?

Não perguntei ainda, porqn e o

!o.IAIUA (Cont ent e) -

s

enhor e stá tão hem vestido

S ENHOR -

l\1.-\/UA - Só . O s enh

por isso?

or d ev e s er muit o imp ortant eee u

n ão sei se é f alt a d e e d uc açã o p erguntar .

(SEN IlOR sorri)

O s h ábitos d as

_

p es soas important es s ão tão dif er ent es d os

n ossos

S ENHOR - São os m esmos, minha s enh ora. A educa ção é uma só.

/'

29

'.

MAmA - Pois eu acho que não é SENIIOII - Por que? t\JAIIIA - POHJlIC,
MAmA - Pois eu acho que não é SENIIOII - Por que? t\JAIIIA - POHJlIC,

MAmA - Pois

eu acho que não é

SENIIOII -

Por que?

t\JAIIIA - POHJlIC, pelos nossos hábitos, aperta-se a mão das pessoas

das,

- As pessoas importantes, quando são educa- tnmhén, fazem isso t\fAIIIA - Mas o senhor não fez

SENllon (Sorrindo e apertando -lhe a mão) - Foi distra-

ção. Boa noite,

t\fAlIIA - Boa noite.

SENHOR - Pode.

Posso perguntar?

- Quem é o senhor?

SENHOR -

trabalha.

Sou o diretor das fábricas onde seu marido

t\JARlA (Espantada) - Ahl (Limpando a cadeira) _

Faça o favor de sentar-sol SENlIon (Scntado) - Muito obrigado. Não é preciso

ficar afobndu

MAlHA i Reparando nlJle) - Juca é um mentiroso! SENHOR - Quem é Juca? t\fARlA - Meu marido. SENHOR - . Por que é que êle é mentiroso? M AIlIA - Ele me disse que o senhor tem cara de chim- panzé!

SENHOR -

Oh!

Você acha?

- Não. Não acho.

é como cu pensava.

Mas o senhor também não

SENHon - Como é que você pensava? t\lAmA - Pensava que o senhor fôssc "milionário"! SENHOR - Pois cu sou milionário.

- Alil Então, os milionários são assim? SENHOR - Assim, como?

t\JAIlIA - com roupas de ouro

sorri) - O s enhor come? Sexuon - Como t\JAIlIA - Tem dores de cabeça?

Eu pensava que milionário andasse

chapéu de ouro

(O SENHOR

SENlIon - Tenho

t\JAIlIA - Tem rins?

SENlIon - Tenho

.\ III A - E docm?

30

SENHOR - Horrivelmente! MARIA - Eo senhor, quando tem sêde, bebe água?

SENlIon - Bebo.

t\IAJUA - Tem pesadelos de noite? SENHOR - Quase sempre]

- Ora! (Rindo) - Que tola!

Eu vivia sonhando

com um milionário e, ufiuul, um milionário não vale nadai

SENIIOI\ (Sorrindo) - 0111

t\JAlUA - Prefiro o meu Jucal

SENHOR -

Por que?

t\IAI\lA - dor de cabeça!

lindosl Nunca teve um pesadelo!

O meu ) uca é muito diferentel

Nunca tem

Não tcm dores nos rlus o sonha sonhos

SENlIon -

É um homem feliz, o seu marido!

Onde

está êle? t\fAUlA - Não deve tardar. até mais tarde.

Ele agora fica na

fábrica

SENHOR -

Já sei.

Fazendo a experiência de um novo

invento MARIA - O senhor já sabíarl

Já.

que estou aqui. MARIA - O senhor acha que êle pode ficar rico?

SENHon -

justamente para falar-lhe sôbre isso

SENHOR -

Mais do que eu!

(Contente) - Que bom! O aparelho é tão boni- tinho, não é? SENHOR - vendo (Indignada) - Pois eu vou mostrar ao senhor!

(Sai apressada - O SENHOR levanta-se, visivelmente con- tente, e vai à porta ele entrada espreitar. 1\1 ARIA volta, trazendo um canudo de lata). - Está tudo aqui neste ca-

(O SENHOR

nudol

(Entrega-o) - Faça o favor de vêrl

retira os desenhos e examina-os ràpulamente'; - O senhor

está muito enganado! Juca é o homem mais inteligente do mundo! SENHOR - Realmente, os desenhos estão

-

viço de ceml

Com essa máquina, um operário faz o ser- Está tudo escrito por êlc.

31

',

'

S E NII OI\ - Vo cê j á l eu? . num p ahício
S
E NII OI\ -
Vo cê j á l eu?
.
num
p ahício
t
erá v estidos d e seda
jóias, um lindo
-
N ão li , p orcl'lC não se i; mas a l etra é muito
" co u
p
é" para pass ear
b
on ita.
A p apcl.ula es tá glla r da da co m igo.
J u ca só tem
-
Tud o i sso, s e êle brig ar co m igo?
co nlia n çu ('111 mim l
S
E NI101\
-
É
E muito mai s
aind a!
S
E :-.11101l -
\' ê -se lo gol
-
Qu em é qll e cl á?
r-.hIl L\ -
E sc ond i tu clo d eh ai xo do co lc hão
]
S
E NIIOI\
-
Eu!
S
E NII(l1l -
Mu s cu
níio u c n-rlito qll e ê l c t cuhu uma letra
AlU A -
Então , não faz mal (llJe êle z l1l1 g ue c omigo?
h onit u.
SE NlI OIl -
Nã o ! Mus não é hoj
e.
Vo cê (l eve fingir que
r-.JAIIIA -
N ão a cr
edita?
n ão suh e d e nadn , el eve -lhe dar muitos b eijos para (lu e e le
S
E NII UII -
Nãol
Só v endo
n ão
d esconfieI
t\1.-\IIIA -
Poi s vai vê r!
(Sai. SEN llOR d obra os il csc-
-
nlio s, g/larclll -os
/10 bol so e tanipu o c anudo.
Volta à porta
SENIlon -
assim que as p essoas importantes faz em?
E já e stou informado d e qll e e stá às portas
pllra
cs preltav - !lI AR/A volta c om 11111 maço ele papéis)
( Apanhundo os papéis e o canudo) - Que boml
Olha
aqlli! Ond e é qlle o s enhor viu uma l etra mais b onita?
Estou f icando imp ort ant e! (Sai apressada - O S EN HOR v ai
SE NlllllI (-"p(/lI/wl1do os pllpéi s) - Linda!
grand e hom em .
Nã o é m e smo?
[uca é um
no oaiu ent c à porta, lJIll111l1o e ntra IUeA, moço, 25 a110S, uc s-
tido C01l/0 os op er ários de 1905).
SENHOR - Boa noite.
!\L\I\IA -
JUCA (Descollfilldo) - Boa noite
SENIIOI\ (Lclld o, rll/Jid(/1I/ellt e) - E como escreve b eml
O senhor em mi-
L ciulo alto
çadeiras A e
t
clistraic!a/ll el/te) - "
o segr edo está nas lan-
D, c ujo movim ento
" t Continua a l er baixo).
I ij
nha casa?
SENHOR (Risonho) - Quis ter a honra de ser o primeiro
a
abraçá -lo.
!\J AII1A -
O s enhor e stá lendo o segrêdo?1
JUCA -
Por que?
S
E;-';lIl1l1
-
E sl ou , ma s C I I S O Il
UIIl hOIlH'1Il honrac1o!
S ENllon - Então, trubulhando às escondidas
I'; o
d:.
a suu palavra d e houru
P
r-.1 .\Il1 .\ -
S
E NIIIlI\
-
D e (ln e S O Il hourud o?
K
!\J
\III.\
-
(Dlllll[O -lIIC l)(/péis c c llIllulo ) - Mas
S
I-: :\1I 01\ -
DOII
Y(>cc eleve gll ard a r is to dir citiuho e nunca mai s mostrar a
nin gll élll!
]tJCA - Espero que não venha censurar -me por perIna -
nec er na fábrica d epois de acabado o s erviço
SENHon - Ao contrário! S empre tive grandes simpatias
por Você.
JU CA - Obrigado .
Suxnon -
E já e stou informado de que estás às portas
r-.hll L\ -
SEN IIO II -
Ju ca, qu ando sa i d e c asa, me diz sempre isso .
P ois,
é. l Iá milit a g ent e qu e n ão pre sta , es pa-
lhada p or aí.
E n ão diga ao se u marido (jlle m e mo strou
da fortuna, com o in v ento do n o vo t ear .
JU CA (M od esto) - Qual! Um apar elho ziuho sug erill0
pela preguiça de um op erário cansado
esses
[>a p éis .
S E NIl on
-
Uma pr egui ça flu e faz o trabalho d e ce m
t\
I.\ IIIt\ -
Adia qll c fi z m al ?
op
erários
S
J-: NII OI\
-
Nã o f ez m al p o rqll e e u s ou d e confiança ,
J lJc:\
(Alarmad o) -
C omo é qu e o se nhor sab e di sso?!
mas êlc ficaria f:lIlga do COIII
você .
S E NII OI\ -
Só a s sim
o se
u in v ent o t eri a o va lo r qu e o
r-. J .\ III:\
-- E II I;Il),
p el o :lIn 01" d
e D eu s, n ã o c onte a nin -
m eu g er ent e lh e atribui.
glll- 1I 1 (1"(' c u
lh e mo st rei tu rl ul .
iEntranú o, co m v ivacidade,
t es", c b ciiando }II Cll muitas vêzes ) -
man eiras " im po rtun-
SEN IJ OII
D esc an se
(Ri sO/dJO , mimun tio-lh e o
Vo cê [ á vei o, Ju ca?
qu eixo ) -
Se IIIll dia êle brigar c om vo cê, vo cê irá morar
0111
D emorou tanto!
32
I
33
I
,/
JUCA (I1Itrigado) - O senhor já havia falado com mi- não me procurc, arrependido (Vai

JUCA (I1Itrigado) -

O senhor já havia falado com mi-

não me procurc, arrependido

(Vai a sair.

A porta,

1111:1 JIlulher?

você

SENIIO/l -

 

apalpa o bolso em que guardara os desenhos) -

Não se

A penas

tive tempo de perguntar-lhe por

cSC)lIcç'a do cl l1c a sua felicidade está no meu holso

Boa

Mas, afinal, que é que o se-

noitel (Sai. JUCA permanece pensativo). (Que foi até à porta e ooitou ) - Você não des-

confia de nada?

jlJCA (Meio atrevido) -

nhor deseja de mim?

_SENIIOl\ (Ellérgico) -

Não se esqueça de que sou seu

patraol (Jllca encolhe-se, lllllllilde11lellte) - Não se julgue,

por enquanto, 1I111 grande senhor! Seu invento será inútil sem () meu auxílio.

JlJCA - P tenho propostas de fábricas estrangeiras

SENHOR - 13: a mesma história de todos os inventos na-

cionais . " - Sente-sei

JUCA - Peço-lhe que me dispense. Ficaria constrangido diante do patrão. (O 5EN llOll sorri). -

(Iue êle,

Você vai ficar mais rico do

(SClltCll/({O-SC) - Sente -se] (]uca não obedece)

Scnte, Jucal

JUCA - Quem foi que disse isso?1 - Êle mesmol

(Ao SENHOR) - Acha.

então, que vou enriquecer? SENHon - Se não for idiotal J OCA - Como assim? SENHon - Transferindo o invento para mim, convencido de que não o poderia explorar. JUCA - E depois?

JUCA (Desconfiado) -

SENIIOR - Ser -lhe-ia garantida uma porcentagem sôbre

o excesso da produção

JUCA -

SENHOR - '" (IlIe em pouco tempo você seria milio-

Isto quer dizer

?

nário ,

à minha custa

JUCA - A custa do meu invento

SENJlOl\ - Já da. " scm o mcu auxiliol

lhe disse que o seu invento não vale na-

.

JOCA (IlId eciso) - f:

Mas

(Senta-se, distraida-

m ent e)

fICIO!

IIú três anos quc venho perdendo noites intei- O mC\I salário tem sido consumido em cxperiências

todo () sacri-

( Lecantundo -sev - Pense bem, para que amanhã

-

SENllon - Pois agora terá a recompensa de

JIlCA - Desconfio dclcl

JUCA -

- Que tolol Devia desconfiar de -mim Por que?

?\IAIUA (Depois de hesitar - num arroubo de sincerida-

de): - Oral

tantel

Eu não dou para fingimentos de gente impor-

JUCA - M ARlA -

JUCA (Furioso r - lIein?1

Que

Eu

é que você quer dizer com isso , MariaPl mostrei tudo a êlel

Que é que você está me

dizendo?1

- prometeu palácios, vestidos de seda e tudol

Não adianta ficar zangado, porque êle me

(Sal a

correr - l\lARIA corre à porta que dá l>ara a rua e nela aparece o SENHOR).

JUCA -

Maríal

Onde estão os meus papéis?1

SENHOR - Indiscreta ?\fARIA - O senhor ainda está ai? SENHOR - Estou sempre onde está o meu interêsse

JUCA (Dentro - desesperado) - Marialll

?\IAnIA - Fuja. pelo amor de Deus]

SENHOR -

Boa noite

menina

Fique pensando

num lindo palácio

e nos vestidos de seda

(Nervosa) - Agora não tenho tempol

SENHOR - Boa noite -

JUCA

(Sai).

Marial

AlARIA permanece onde

estaca, opàrvalhoda.

] CA entra, trazendo os papéis e o

canudo, sem a tampa) -

senhos?

Maria! Onde estão os meus de-

(Sem se mover)

No canudo

(Atirando tudo ao chão) - Foram roubados.

(Num ímpeto, a sair): - Ca -

(Sai a correr para a rua. l\IARIA al'(l-

Ilha o canudo, examina-o, atira-o sôbre a mesa e apanha os

nalhal Miserável]

JUCA

Marial Tôda a nossa vida!

3 ·J

35

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,,'"",,1IIIII'Il1">;

'

Miserável] JUCA Marial Tôda a nossa vida! 3 ·J 35 • j,\ «1 ,,' "",,1IIIII'Il1">; '
papé!«, Cl/lIlII'/OiCl/Ielo-OS. Entra UMA M U1 EH DO 11 ()i;::;illlUl) . arrastando, como cauda, outros

papé!«, Cl/lIlII'/OiCl/Ielo-OS. Entra UMA M U1 EH DO

11

()i;::;illlUl) .

Entra UMA M U1 EH DO 11 ()i;::;illlUl) . arrastando, como cauda, outros trapos, e um

arrastando, como cauda, outros trapos, e um chapéu de ho-

mcm, com uma pena de espanador, à cabeça. Neste mo-

-

(Jlle foi, Muriu?

mellto, toma a escurecer e reaparece a 110rta ela igreja, onde

t\L\IIIA -

Foi o l"cal

Os desenhos

O pnlácio

i(i estão os mcndigos JlDl)(lmelltc a cOJwCI'Saf).

 

Os vestidos de seda

OUTUO - Enlouqueceu '?

Mur .uuu (Espalliadll) - Qlle é

que você tcm?

11ENDlGO - Esteve no hospício durante muitos anos,

t\L\III.\. -

Nu.lu

Foi :I(l"êle

homcml (COIll expres-

convcncidu de que era a mulher mais rica do mundo]

seIo de luucu] ,

OllTIIO - E o senhor?

t\llll.lIEII -

Qlle homcmr'

t\IENI>IGO - Fui preso e condenado a seis anos ele prisão

o t\IAIII:\. (Idelll) - O diabol ACl'll'le homem era o diabo! - ----

!\llJl.IlEIl -

Oue é isso, Muriu?

celular, como assultuntcl OUTUO - Sofreu muito?

-

seil Tenho voutudc ele gritar!

MENDIGO - Durante um ano. Depois cOl.!!preencl Lque

f\ lu I.lIEl\

-

Por CI"C'(

a vida é uma sucessão de acontecimentos inevitáveis

.

f AIII.\. - :\cl"cle homeml As j!',iasl

-

Muriul

O puláciol

Os

vestidos!

como a chuva, o vento, a tempestade

o dia e a noite

. Tudo o que acontece é a vida. O senhor pode evitar que c hova? Pode evitar que o vento, um dia, em furacão, arrase

(ne!imlldo) - ACl'Ji

é () meu puláciol

Como é

tudo?

hOllilol Esti') \"l 'lIdo a escadaria de múrmorc?

Ourno -

Nãol

t\IULlIEI\ (SaclllUIlC[o-ll) - Muriul Marin l

MENDIGO - Pois as desgraças sã_o também

 

t\hlllA - Nilo me rusgue o vestido de sedal

Você está

(Pausa).

com iuvcjnl

t\fULlIEH - Coitada. (Entra o SENlIOU).

t\1 AlIIA (Apolltatlllo-o) - Olha o diubo! Foi êle que me

deu este pulúcio]

Não foi?

SENIIOl\ i Surprcso, mas Selll/H'e sorrindo) - Foi. (1'0-

IIU1 -lhe os 1)(l}Jéis) -

rialldo) - Vamos] Vá buscar a sua "toilctte" mais rica.

E agol'il?

Vamos ao teatro?

(Pilhc-

I AIlIA - Aquela de pedras preciosas?

SENIIOI\ -

8

(t\IAl\I.\. sai, ele busto crguulo e ares

illl/JOri(/lIics) .

t\ IllLIlEI\ - Coitada! Enlonqucccul Que foi, senhor? SENIlOIl - Vítima de um marido possesso. () Juca?1 SENIlOIl - Foi prcso agora mesmo, porque pretendeu assaltar -me para roubar, quando entrava no meu carrol

!\llJLlIEII -

lu I.IIEII -

Prêso?1

SENIIOI\ - Siml E será processado como ladrão] (Sai).

t\ft lLII EI\ -

Coitado] (Olha para a

porta 110r onde saiu

Em seguida, lI! :\HIA entra, atravessa lJ

1Il AlH:\ e sai, -

c ena

saini

, elo quurto lJara a rua, ela mesma maneira por que

, /II(/S com li 111 a toalha ele mesa amarrada à cintura e

36

Oumo - E Maria? - Minha mulher? Visitei-a muitas vêzes no hospício, depois que sai da prisão. Um dia a pobrezinha

desapareceu. Dizcm que anda pelas ruas a divertir os mo-

leques. OUTRO - Nunca mais a viu?

c J

11ENDlGO -

Nunca.

OUT1\O - Deve estar velha.

11ENDIGO - Como cu

OUT1\O - Como é triste a sua vida, meu velhol

apcnas Vida. Não há vida

O

princípio e o fim ele todos são iguais. OUTIlO - Mas, viver não é nascer, nem morrer 11ENDlGO - Não. Viver é raciocinar. E o raciocínio é

Pelo

raciocínio, sabemos o fim de tôdas as coisas. A sociedade

vai sofrer, porcl'le não raciocina. Oufnõ - -Como assim? l\fENDIGO - A sociedade admitiu os VICIOS e as virtudes, quando os vícios e as virtudes não fazem parte da vida

o 5 lpremo bem da viela. Quem raciocina não

triste, nem alegre. Nós todos nascemos e morremos.

t\IENDIGO - Triste? Não\

37

A mor, ód io,

c aridade, da Cjllal vivemos, são fantasias que anuam por aí,

(!ificlIltando ti vida , quando

Viver é

s audade , c goism o, honra , caráter e a própria

a vida é tão simples.

respirar, comer , JlOS (1.\ tudo .

e

dormir. E a própria natur eza

()lJTIIO - m e smo. Até agora não tinha pensado nisso.

ensa mas não

SEGUNDO ATO ,/

CENAHIO

-- t\IE ;'Ijlll(;O - pensa .

f: CJu e o s ellhor pcnsa (1'1C p

- Healmcnte, complicaram muito a vida, sem neces sidade u eulnunnl

essa

vida c om Iicada p el os outros . Vivo à margem. Sou espec- tador (O sofrimenh] llumano, e deixo que os homens lutem pnra livrar -se dos s IS próprios erros. Não sou conviva desse

grande banquete, obrigado a casaca e a outros suplícios.

Cont ento -me com os r estos que vão caindo da mesa

- f: por isso que eu

a vida

: \ //Iesl/la l)(1 rtll tl e Igr e;(; do at o ant crlor.

J"I/ IO, o s fIl E N lJI GOS estão afa stad os.

Ali !l /lliir o

/lI/I e m ca da ('\ [ rtJ -

midad e tia esc ada, e m s tlênc iu, r eceb end o, se m iut cr ésse

e

s e m p cdtr,

as

es molas das

tíltillla s

p essoas /fil e se

retiralll d o t cm pl o ,

Apagam -se a s lu zes int crn us .

OUTHO - Quanto fez o senhor?

I:: NDI CO -

/

(Neste

mom ento entra uma linda e elegantíssima mulher, que se dirig c para a igreja, como se estic esse procurando alguém:

esconde -se sob o chapéu) .

OUTIIO (Suplicatlllo) - Favoreça a um pobre que tem

fomel

(A

ELEGANTE e procura outro níquel

fUI bol sa, ')(1ra dar ao Mendigo, aproximando -se

Nossa Senhora lhe acompanhei A Mur .nrn El.EGANTE - Amén. (Dá um níquel ao Men-

(ligo c e ntra 1Ia igr eja).

- Sahe quem é essa mulher?

OlJ TIIO -

D eve s er muito rica.

Deu -me dois mil réis.

- lt fi mulher que vive comigo E ela sabe que o senhor é mendigo?

Oll THO -

t\fl.:NDI CO - Não .

Para ela eu sou um capitalistal

E a

11m c apitalistn não se p crgunta a profissãol

O IlTII O -

Por qu e?

(Hi sonho) -

Porque é feio

no PRIM EIHO ATO

U 111 pouco meno s do qll c e s pe rava: du -

E o

Ess es lIl ell<ligos Clu e

f: por i sso

zentos e noventa e seis mil e quatrocentos réis senhor?

OUTJlO - Não contei ainda.

- E n em eleve contar!

contum a féria, na ma, d esmoralizam a clu sse .

CJuc alguns se tomam su speitos.

OlJTIIO -

Mas o senhor contoul

- P erdão . Não cont ei.

Fui somando , à pro - Os t rau s cunt c s u âo

dCV CIIl ver o produto de lima colheita. Ficam com inv eja, porquc Cjuase s emprc t êm no bolso m enos do que nós . t\fa s,

por çáo qu e caía .

o m elhor si st ema.

110 chap éu, dev em csl ar se m p re à vi sta alguns níqu eis . é

o

J3: aqu ele ovo que sc colo ca no ninho das ga-

linha s, para qu e e las t enham vontad

"ind ex" . o.

O UTIIO -

tinha s.

e de botar outro s

Eu d ei xo se m p re se isce ntos r éi s.

-

J3: pou co.

D

eve d ei xar duas ou tr ês pr a -

É

Vendo s ó níqu eis o trans eunt e n ão d á prat as .

co mo na s s u bsc rições .

S e qll em abr e a li st a ass i na 5 0$000,

L á para o Iiu ziuh o

os o ut ros ass

é qu

cen do na prop orção <l a qu anti a i n icia l.

ina m, p elo m en os, trint a .

e lIpnr ec cm I\S c outrihuiç óc s peqll cno s, qu o v üo d oer e s -

OUTRO -

Es to u an si oso p ara c ontar a féri a .

39

Nun ca fiz

tanto dinh eiro]

38

I

'

r

-

' o

------ -11

t\fENDlGO - Não conte.

Siga os meus conselhos.

De

hoje em diante ficará sob a minha proteção.

OlJTIIO (Aproximllndo-se) - Agraueço -Ihe muito! Os outros colegas têm sido tão maus para mim t\fENJJIl;O - f: umu desunião horrível. Nós precisamos fllndar () nosso sindicato. Mas o senhor será meu protegido. OlJTlIO - Obrigadol

CJlle exijo é absoluta

para <jllC cu nao sofra a mesma desilusão <JlIC tiv e com o IIICU último protegido.

-

Não a 1féu.leça.

O

()I/TlIO - Foi ingrato?

- Não. Foi idiota. Fiquei penalizado com

a sua desobediência. Era um rapaz com todas as quaJida- illdispensilvcis a um mcndigo, c tôdas as condições

físicas: IlIagro

- Io u ros c Finos. Era imprcssionante! Dava a impressão de

rosto cncovado

olheiras

cabelos

filho

IIwndigo!

de

gente nobre arruinada.

Belo exemplar

de

OUTno -

t\IENDlGO - Abandonou a carreira, miseràvelmente!

Ourno - Como?

E afinnl?

Ofereceram-lhe um emprêgo público e o desgraçado aceitou!

Out no - Naturalmente! sorte grande!

a

-

J;: como se tivesse tirado

t\fENJ>IGO - Quull

lIoje é um infeliz: ganha um conto

c duzentos por mês! OlJTIIO - Belo ordenado!

t\fENJ>IGO -

AiI ai!

O senhor começa mal. Assim, re-

Eu queria dizer que

para um

tiro-Ihu li mínha proteção]

OUTUO - Perdão! moço

t\JENDIGO -

Pois é de moço que se deve começar a

O senhor não vê essas crianças de 5 a 6 al\llS, pe-

pedir!

dindo? Serão,

no futuro, grandes , notávcis mendigos. Na

nossa profissão

é preciso começar cedo.

li m conto e du-

z cntos é um belo ordenado para um incapaz! Um homem

inteligente nunca se conformará com um ordenado, por

maior que êle sejul

ideal do homcm vencido pela vida.

O cmprêgo, com ordenado fixo, é o

Os cargos p úblicos

40

com ordenado fixo, é o Os cargos p úblicos 40 inutilizam os homens. E, se um
com ordenado fixo, é o Os cargos p úblicos 40 inutilizam os homens. E, se um

inutilizam os homens. E, se um dia são Sõrien arn -s , têm pavor da vida, sem a Às vêzes, quando vcjo passar o meu

de-

do Estado.

acompa-

nhnndo luunildcmentc os figurõcs da Hepúhlicn, tenho :l impre-ssão de (lue êlc está arrependido.

OUTRO - Por que?

- Porque trocou a falsa humildade do meu-

'1 l I 1e que" <lcv c. ser cada vez mais "llCr-

digo por outra

Iciçouclu

I

sc (lulser vencer

OUTIIO - Vencer? MENDIGO - Vencer na

vida

Vencer na vida,

na

É um

opinião dêle, é conquistar posições, sem lutar • efcito sem causa

OUTUO (501''';11(10) - J;: lima espécie de "Vitória" puxa-

da

a burros

MENDIGO - Exutamcntel

como

os

antigos carros

que

os "t áxis" fizeram desaparecer. (Pausa).

OUTRO (Boceial1clo) - Acho

quc

são

horas

recolher MENDIGO - };: cedo ainda.

de

OUTRO -

l\IENDIGO - Em compensação a vida passa

OUTUO - A vida não esmolas

t\fENDIGO - Dál

A esta hora não passa ninguém por aqui

a grande esmola, que nem todos

sahern recolher: Experiência.

OUTno - isso é verdade. Mas não compreendo que

o senhor se demore na rua, sendo rico, tendo tanto confôrto

cm sua casa

MENDIGO - O confÔrto andn sempro comigo

(Ba-

tendo na testa) - Está aqui!

É muito melhor pensa.r no

que a gente tem, do

que ver o qne sc vai perder um dia

OUTIlO - Pensa em morrer?1

t\fENDIGO - Não.

Mas tamhém não penso em viver.

Atingi o grau dc perfeição do cavalo, que é o