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I. HORROR AO INCESTO

Nós conhecemos bastante sobre os homens que viveram no mundo


pré-histórico, pelos utensílios que eles nos deixaram, pelas informações sobre
sua arte rupestre, sua religião e concepção de vida que nos chegaram por lendas,
mitos e fábulas.
Façamos uma comparação entre a psicologia primitiva e a psicologia
nos neuróticos, onde há inúmeros pontos em contraste. Como estudo dos
primitivos, foi escolhida uma tribo dos aborígenes da Austrália que são vistos
como uma raça particular, sem parentesco físico nem linguístico com seus
vizinhos mais próximos. Eles não constroem casas permanentes, não trabalham
no solo, criam somente o cão e não conhecem a arte da cerâmica. Alimenta-se
quase que exclusivamente da carne de animais que abatem e das raízes que
desenterram. Eles desconhecem reis e chefes, existindo assim uma assembleia
dos homens maduros que decidem sobre as questões comuns. Não possuem
adoração a um ser superior. Como podemos prever esses canibais jamais
impuseram limitações sobre seus impulsos sexuais. Porém sabemos que eles
impediram relações sexuais incestuosas.
No lugar de sua religião, os australianos possuem um sistema
chamado: TOTETISMO. Suas tribos se dividem em clãs menores, cada qual
nomeado segundo o seu TOTEM. Mas o que é um totem? Via de regra é um
animal, comestível, inofensivo ou perigoso, temido, e mais raramente uma planta
ou força da natureza, que tem relação especial com o seu clã. O totem é em
primeiro lugar o ancestral comum do clã. Todo o clã se acha na obrigação de
proteger seu totem a todo o custo. É inerente a todos da espécie. O totem é
transmitido hereditariamente, por linha materna ou paterna.
A parte que mais interessa a psicanálise é a lei que rege o totem: os
membros de um mesmo clã adorando um mesmo totem, não podem ter relações
sexuais entre si, também não podendo se casar. É a instituição da exogamia
relacionada ao totem. Na Austrália, o descumprimento dessa lei pode levar à
morte. Em uma tribo em Nova Gales do Sul, o homem é morto e a mulher é
espancada com uma lança até que seja quase morta. A razão é que na
concepção da tribo a mulher foi provavelmente coagida. Os filhos pertencem
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sempre ao clã da mãe. Sendo homens ou mulheres. Essa lei proíbe ato sexual de
um homem com qualquer outra mulher que não seja sua parente de sangue mas
seja do mesmo totem.
Essa tribo se mostrou horrorizada quando se trata do tema incesto. Os
nomes dados à parentescos, não são classificação de sangue. Mas criam apenas
laços sociais e não físicos. Esses nomes podem caracterizar o que chamamos de
“casamento grupal”. A exogamia totêmica, a proibição de vínculos sexuais entre
membros do mesmo clã, aparece então como meio apropriado para evitar o
incesto de grupo.
A tribo é dividida em duas FRATRIAS e depois subdividida em quatro
SUBFRATRIAS sendo essas denominadas CLÃS, cada um com seu totem.
Esse horror ao incesto identificado no desenvolvimento dos diversos
sistemas de classes matrimoniais é experimentado também em instituições
consideradas não “selvagens”, como por exemplo, o ato da Igreja católica de
proibir casamentos entre irmãos e primos e inventar os graus de parentescos
espirituais. Por outro lado, é possível dizer que os chamados selvagens, como a
tribo de aborígenes da Austrália, são mais temerosos do incesto do que os que
não são classificados como tal.
Entre os chamados povos selvagens são criados “costumes”, também
chamados de “impedimentos”, mantidos com uma seriedade quase religiosa. Isto
se encontra presente em diversas culturas selvagens além da dos povos
totêmicos australianos: na Melanésia há a proibição voltada para a relação entre o
menino e sua mãe e irmãs, sendo que na ilha de Leper o filho sai de casa ao
atingir uma certa idade, se mudando para um “clube” que passa a ser sua
residência. Ele ainda pode visitar sua casa para se alimentar, mas sem que tenha
contato algum com sua(s) irmã(s), sendo que este impedimento permanece por
toda vida. A reserva entre mãe e filho aumenta com o passar dos anos, sendo
que ela passa a se dirigir a ele como “senhor”, e não “você”, criando um
distanciamento.
Esses costumes foram possíveis de se observar também em locais
como a Nova Caledônia (na qual se irmãos se deparam ao acaso, devem se
distanciar o mais rápido possível, sem que haja qualquer contato, nem o visual), a
península Gazelle na Nova Britânia (após o casamento, a irmã não pode mais
falar com seu irmão, nem pronunciar seu nome), Novo Meclemburgo (a proibição
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se estende a primos mais próximos, além de irmãos, não podendo haver a


aproximação, contato físico ou troca de presentes entre si, mas podendo haver a
comunicação se esta ocorrer à distância de alguns passos; a punição é a morte
por enforcamento), as ilhas Fiji (a proibição atinge os irmãos de grupo, além dos
sanguíneos, mas há a contradição de se buscar a união sexual entre tais
indivíduos durante as orgias sagradas), Sumatra, com os battas (irmãos não
permanecem no mesmo ambiente, e um pai não fica sozinho com sua filha, assim
como uma mãe não o faz com o filho), a baía de Delagoa na África, com os
barongos (as precauções são voltadas à relação com a concunhada, mulher do
irmão da mulher, a qual é evitada cuidadosamente pelo homem), a África Oriental
britânica, com os wakambas (uma garota tem de evitar seu pai desde a época da
puberdade até seu casamento).
O impedimento mais presente e rigoroso – presente na Austrália,
Melanésia, Polinésia e povos negros da África – é o que se refere ao
relacionamento de um homem com sua sogra. Nas Ilhas Banks, os dois devem
impedir qualquer chance de contato entre si; em Vanua Lava, eles podem se falar
entre si, se houver uma certa distância física, mas não podem pronunciar os
nomes um do outro; nas Ilhas Salomão, o homem não pode ver nem falar com a
sogra depois de seu casamento; entre os zulus, o homem deve ter vergonha de
sua sogra e fazer de tudo para evitá-la, sendo que quando isso não for possível,
ela deve prender um tufo de capim em volta da cabeça, mas podem se falar se
gritarem enquanto estiverem longe um do outro e tiverem uma barreira entre si,
como uma cerca, mas não podem pronunciar seus nomes; entre os basogas, tribo
negra localizada próxima ao rio Nilo, podem se falar se não forem visíveis um ao
outro, e há até a condenação do ato de incesto entre os animais domésticos.
Houve muita discussão e teorização sobre tal temor em relação à
relação entre um homem e sua sogra. Segundo Fison, essa precaução foi criada
devido ao fato de em certos sistemas de classes matrimoniais não terem nenhum
impedimento quanto ao casamento de um homem com sua sogra. Lubbock, por
sua vez, relaciona a relação entre sogra e genro ao antigo casamento por rapto,
dizendo que o costume e a indignação dos pais ao terem a filha raptada
permaneceu mesmo após sua origem ter sido esquecida. Já segundo Tylor, o
tratamento que o genro recebe seria em razão de um não reconhecimento por
parte da família da esposa: o marido seria visto como um estranho até o
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nascimento do primeiro filho. Tais explicações foram julgadas por estudiosos


como não suficientes para se entender os motivos por trás do costume centrar-se
na relação entre sogra e genro.
Mesmo nos povos classificados como civilizados, a relação entre genro
e sogra é considerada como delicada e difícil, em relação ao restante da
organização familiar, sendo até motivo de piadas entre os indivíduos dessa
cultura. Pode-se dizer que há uma relação de certa forma conflitante e hostil: para
a sogra, a dificuldade em renunciar à “posse” de sua filha e a ceder a um
estranho, para o genro, o ciúme das pessoas que antes tinham todo o foco de
afeto de sua esposa e a não vontade de se permitir que algo interferisse na ilusão
de superestimação sexual. Esta pode ser colocada como a presença da sogra, a
qual a esposa tanto lhe parece, mas sem a presença da juventude, beleza e
frescor psíquico, que caracterizam sua mulher.
Através da investigação psicanalítica dos indivíduos, é possível ter um
maior conhecimento sobre os impulsos psíquicos ocultos de cada indivíduo,
podendo-se, então, acrescentar outros motivos aos elaborados pelos estudiosos
citados anteriormente. As necessidades psicossexuais da mulher são satisfeitas
no casamento e na vida familiar, porém isso pode não ocorrer devido a um fim
prematuro da relação conjugal ou a ausência de eventos emocionais estimulantes
em sua vida. Ao envelhecer, a mãe se protege dessa possível insatisfação
através da identificação com seus filhos, na tentativa de permanecer jovens e
obter ganhos psíquicos. Tal sentimento pode levar a mãe a também se apaixonar
pelo homem escolhido pela filha, algo que em casos extremos pode levar ao
adoecimento neurótico, mas tal sentimento pode ser reprimido, por ser
considerado proibido, e transformado em hostil ou até sádico, em relação ao
genro.
Na visão do homem, tudo se inicia no sentido em que ele escolhe sua
esposa baseando-se na imagem modelada e unificada de sua mãe e/ou irmã(s),
sendo que o lugar destas é tomado por sua sogra (uma imagem da preferência
original pela mãe), mas o homem se opõe completamente a isso devido ao horror
ao incesto. Devido à sogra ser uma figura recente, que ele não conheceu desde
sempre, como sua mãe, a rejeição à ideia é facilitada. Mesmo assim, não chega a
ser raro um homem primeiramente se apaixonar pela futura sogra, antes de voltar
sua atenção à filha desta.
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Comparando os temores ao incesto, há a intenção consciente de


preveni-lo, relacionada às proibições entre parentes sanguíneos ou por
casamento, e a inconsciente, que inclui a relação entre sogra e genro por
exemplo, na qual o incesto seria uma tentação da fantasia. Segundo os estudos
psicanalíticos, que tratam o primeiro interesse sexual do menino como incestuoso
(referente à mãe e à irmã), a neurose aparece como amplamente ligada ao
incesto, a um infantilismo psíquico.
O neurótico não conseguiu superar (inibição no desenvolvimento) a
psicossexualidade presente na infância, ou retornou (regressão) a ela, então as
fixações infantis incestuosas da libido ainda têm um papel fundamental. Sendo
assim, os anseios ligados à relação com os pais são marcados como o complexo
nuclear da neurose.
Através de tais pensamentos psicanalíticos, conclui-se que a rejeição
ao incesto é fruto da grande repressão do homem sobre seus desejos
incestuosos primários, desejos estes que são fadados a se tornarem
inconscientes.

II. O TABU E A AMBIVALÊNCIA DOS SENTIMENTOS

Para o entendimento deste assunto, primeiramente, é necessário


apresentar o que de fato significa o termo “tabu”, no qual refere-se a algo
simultaneamente sagrado, sendo acima do habitual e do comum, e perigoso,
impuro e inquietante, demonstrando assim, que o termo designa-se áquilo que é
reservado, restrito e principalmente proibido.
Dessa forma, é possível abordar que o tabu abrange, de um modo
geral, três âmbitos: o caráter (seja ele sagrado ou impuro) das pessoas ou coisas;
o tipo de proibição que resulta deste caráter; e o último refere-se ao que se
resulta de uma violação da proibição imposta.
Além disso, pode-se dizer que o tabu é classificado em diversas
classes tais como, o Tabu Natural ou Direto, que consiste em um resultado do
chamado mana, no qual se refere ao poder misterioso, inerente a uma pessoa ou
a um ser; o Tabu Comunicado ou Indireto envolvendo também o resultado do
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mana, porém diferencia-se no fato de ser adquirido, ou imposto por um chefe ou


sacerdote; e o Tabu Intermediário, que aborda ambos os fatores.
Mesmo com esta diferenciação, os tabus se tornam impostos em uma
cultura, pois este visa a proteção, contra o já citado mana (influencia mágica), de
pessoas importantes como os sacerdotes, e de influencias em atos vitais como o
nascimento e o casamento, por exemplo.
Isso se deve, pois com a evolução do conceito, a violação de um tabu
fez com que o infrator tornar-se o próprio tabu. Somado a esta ideia, é importante
de ressaltar que o tabu apresenta o conceito de transmissão, quase como um
contágio através do toque, ou do simples contato seja ele físico, ou psicológico
(por pensamento). Assim, a fonte do tabu é atribuída ao mana, inerente as
pessoas e espíritos, porém quando se entra em contato com objetos inanimados
que possuem essa influência mágica, elas são transmitidas ao indivíduo, que por
sua vez violou a proibição de não ter contato com ela, adquirindo, dessa forma, as
características do que é proibido.
A partir de toda essa relação, é possível desprender que é criado
então, o “medo do toque”, em que diferentes povos se submetem as restrições
criadas, pela simples ideia de ser punido automaticamente de forma severa, no
qual o tabu o impede de tal ação.
Porém, fazendo uma analogia, que não existe povo ou estágio de
cultura que não tenha escapado dos danos do tabu, pois este envolve a coerção
de costumes e tradições, no qual se tem um forte pendor, e dessa forma são
passadas de geração para geração, afim de proteção. Destaca-se o fato de que
primeiramente, o objeto possui um valor de veneração, uma vez que o indivíduo
possui vontades relacionadas a ele, mas que após a proibição, o objeto adquire o
valor de horror, de tal modo a impedi-lo de concretizar estas vontades, que aqui
ganha a conotação de contato.
Diante desta apresentação simplificada a respeito do tabu, o texto
passa a abordar o problema através da perspectiva da psicanálise, pois ela
percebe uma semelhança das proibições do tabu com o transtorno obsessivo. Um
exemplo, seria a ausência de motivos para os preceitos, uma vez que em ambas
aparecem em um dia e tem de ser observadas por causa do seu medo invencível
de que ocorrerá uma intolerável desgraça se entrar em contato direto com o
corpo, núcleo da neurose. Sendo, portanto, desnecessário um agente de castigo
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externo, pois há uma certeza interna, uma consciência de que ocorrerá uma
consequência ruim.
Além desta semelhança, Freud apresenta que tanto as proibições
obsessivas quanto as do tabu possuem características de deslocamento, de
modo que se estende de um objeto ao outro, por meio de qualquer conexão, ou
no âmbito da tabu transmissão, estas proibições que acabam por renunciar e
limitar a vida da pessoa.
Diz-se renunciar e limitar a vida, pois tais conceitos acabam por gerar
uma fixação (mania de lavagem, por exemplo), no qual, poderia ser referida como
uma atitude ambivalente do indivíduo para com o objeto. Esta ambivalência
consiste em uma não conciliação entre a satisfação provida pela realização da
ação, e a abominação de tal provida pela proibição.
A conciliação referida acima, não está apenas no âmbito da realização,
de modo a se excluírem, estão presentes também no consciente e no
inconsciente. Por isso que se torna impossível obter os dois, por que a proibição
está presente no consciente, enquanto que o desejo, no inconsciente. E quando
este, procura se deslocar para outros objetos substitutos, afim de escapar ao
cerco que se encontra, a proibição responde de modo a inibir cada avanço da
libido reprimida, fazendo assim, com que cause a atitude ambivalente ao sujeito.
Vale reforçar, que esta atitude só existe, por que as proibições
referidas trazem um forte pendor no inconsciente e nos poderosos apetites
humanos. Dessa forma, cria-se uma certa inveja quanto àquele que que violou o
tabu, pois este individuo é permitido a usufruir dos desejos, que para o resto dos
cidadãos é proibido. E dessa forma se percebe como este individuo é contagioso
e deve ser evitado, na medida que todo exemplo convida a uma imitação.
Diante desta perspectiva formada, agora se constrói um novo objetivo:
o valor que pode ser atribuído a partir da comparação e neurose obsessiva.
Porém, para se chagar a esse novo referencial é necessário destacar um grupo
considerável de preceitos, no qual são os tabus relativos aos Inimigos, aos chefes
e aos mortos.

O TRATAMENTO DOS INIMIGOS. (Tabu aos inimigos)

É errado atribuir aos povos selvagens e semisselvagens uma


crueldade desinibida e implacável para com seus inimigos, entre eles o homicídio
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leva ao cumprimento de uma série de ordens. Essas ordens são divididas em


quatro grupos: 1) reconciliação com o inimigo morto, 2) restrições, 3) atos de
expiação e purificação do homicida, e 4) determinação das medidas cerimoniais.
Os ritos de apaziguamento quando uma expedição guerreira retorna
vitoriosa com as cabeças dos inimigos vencidos, são significativos. São realizados
sacrifícios para apaziguar as almas dos inimigos e parte da cerimônia realizada
consiste numa dança acompanhada de um canto, em que se lamenta a morte do
homem abatido e se pede o seu perdão. Outros povos acharam um meio de
transformar os inimigos mortos em amigos, guardiões e benfeitores. Esse meio
consiste no tratamento afetuoso das cabeças cortadas.
Em várias tribos selvagens é realizado um luto pelo inimigo abatido.
Quando um índio matava um inimigo, começava para ele um luto de meses, no
qual se submetia a duras restrições.
O motivo dessas ordens para a reconciliação consiste no fato desses
povos serem dominados por um supersticioso medo dos espíritos dos homens
abatidos. São feitos esforços para afastar os espíritos das vítimas, que
perseguem os assassinos. Assim, o que podemos concluir é que não são
realizados apenas impulsos hostis na atitude para com os inimigos. Podemos
enxergar expressões de arrependimento, de apreciação do inimigo, de má
consciência por tirado a vida de alguém.
Sendo assim, as restrições impostas ao homicida vitorioso eram
frequentes e severas. O líder da expedição não pode simplesmente voltar para
sua casa. É construída uma cabana especial para ele, na qual passa dois meses
observando diversos deveres de purificação. Durante esse tempo não pode ver
sua mulher nem alimentar a si próprio, outra pessoa tem de pôr a comida em sua
boca. Em outros grupos, os homens que mataram inimigos ou participaram de
campanha ficam reclusos em suas casas por uma semana. Evitam encontrar suas
mulheres e seus amigos, deixam de tocar alimentos com suas mãos e nutrem-se
apenas de plantas que lhes são cozidas em recipientes adequados. O motivo
para essas restrições, afirma-se, é que eles não podem cheirar o sangue dos que
foram abatidos, senão ficariam doentes e morreriam.
Algumas dessas restrições vêm acompanhadas de expiação,
purificação e atos cerimoniais. Todo aquele que matou um inimigo de guerra
torna-se impuro, tem que ficar na casa dos homens durante muito tempo,
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enquanto os demais habitantes da aldeia se juntam ao seu redor e celebram sua


vitória com danças e cantos. Ele não pode tocar em ninguém, nem mesmo em
sua própria mulher e seus filhos, se tocasse neles, acreditava-se que ficariam
cobertos de feridas. Ele fica novamente limpo com banho e outras formas de
purificação.

O TABU DOS SOBERANOS. (Tabu aos chefes)

A atitude dos povos primitivos ante seus chefes, reis e sacerdotes é


regida por dois princípios básicos, contidos na frase: “É necessário protegê-los,
mas também proteger-se deles”. É preciso guardar-se dos senhores porque estes
são portadores de uma misteriosa e perigosa força mágica que se transmite por
contato e ocasiona morte e ruína para aquele que não é protegido por carga
semelhante. Evita-se, então, qualquer contato direto ou indireto com a perigosa
santidade e, quando isso não pode ser evitado, cria-se uma cerimonial para
afastar as temidas consequências. Alguns povos, por exemplo, creem que
morrerão se entrarem na casa do rei-sacerdote, no entanto, podem se livrar do
castigo a intrusão, se desnudarem o ombro esquerdo ao entrar e conseguirem
que o rei ponha sua mão sobre ele. Assim ocorre o fato de o toque do rei vir a ser
remédio e proteção contra os perigos decorrentes do contato com o rei, mas
certamente existe o contraste entre o poder curativo do toque intencional, por
parte do rei, e o perigo dele ser tocado. Surge então, a necessidade de apartar
indivíduos perigosos como chefes e sacerdotes do resto da comunidade, de
erguer um muro ao seu redor, para torná-los inacessíveis aos demais.
Mas talvez, a maior parte do tabu dos senhores não se explique pela
necessidade de proteção diante deles. Existe outra consideração no tratamento
dos indivíduos privilegiados, a necessidade de guardar eles próprios dos perigos
que os ameaçam, é que teve o mais nítido papel na criação dos tabus e, com
isso, no surgimento da etiqueta da corte.
A necessidade de proteger o rei de todo perigo imaginável vem da sua
enorme importância para o bem ou mal-estar dos súditos. Esses reis têm um
poder e uma capacidade de conferir benefícios que são próprios apenas de
deuses. Mas parece contraditório que indivíduos de tamanho poder necessitem
ser cuidadosamente protegidos de perigos que ameacem porem essa não é a
única contradição existente. Os povos também acham necessário vigiar seus reis,
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para que utilizem adequadamente seus poderes, pois eles não estão seguros de
boas intenções e dos escrúpulos do rei. Alguns dos tabus impostos aos reis
lembram as restrições aos homicidas.
As restrições são extremamente detalhadas, referem-se a ações
determinadas, em locais determinados e horas determinadas; em tal cidade o rei
não pode permanecer em determinado dia da semana, não pode cruzar aquele rio
em certo horário, acampar nove dias inteiros em certa planície, etc. A severidade
das limitações para os reis-sacerdotes para muitos povos selvagens, teve
consequências históricas significativas.
A dignidade dos reis-sacerdotes deixou de ser algo desejável, aquele
que estava para recebê-la fazia de tudo para escapar dela. Entre alguns nativos,
a resistência se tornou tão grande que a maioria das tribos foi obrigada a nomear
estrangeiros como reis. Essas circunstâncias estão relacionadas ao fato de no
curso da história ter ocorrido uma divisão da primitiva realeza sacerdotal em um
poder secular e um espiritual.
Em uma visão geral dos laços dos homens primitivos com seus
governantes, há uma compreensão psicanalítica deles. A relação complicada e
contraditória, é explicada por motivos supersticiosos ou de outra natureza,
expressam-se no tratamento dos reis tendências variadas, cada uma das quais é
desenvolvida ao extremo. Isso dá origem às contradições, diante as quais o
intelecto dos selvagens não se escandaliza mais que o dos altamente civilizados,
em matéria de religião ou de lealdade.

O TABU DOS MORTOS.

O tabu dos mortos dita que os mortos são vistos como inimigos. Entre
os Maori, todo aquele que tinha contato com um morto, fosse preparando ou
participando do enterro, era considerado imediatamente impuro. Assim, acabava
sendo “excluído” dos relacionamentos com os outros.
Em algumas tribos norte-americanas viúvos e viúvas vivem um período
de isolamento diante da perda de seus companheiros. Eles acreditam que o
espírito do morto não se afasta dos parentes, não deixa de “ronda-los” durante o
luto.
Um dos costumes mais encontrados e compartilhados entre os
primitivos, é a proibição de pronunciar o nome do morto. Os antigos povos
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julgavam necessário renomear animais e objetos para evitar o uso de palavras


que pudessem os fazer lembrar de mortos. Para os chamados “selvagens” o
nome é um elemento essencial e patrimônio importante da personalidade. O
nome era considerado como parte da pessoa.
Os primitivos não escondem o fato que temem a presença e o retorno
do espírito morto. Tudo fazem para impedir o que seria uma “invocação”. A morte
torna-se um demônio ruim, que teria satisfação em nossa desgraça, que procura
nos causar a morte.
A explicação para todo esse Tabu seria o horror despertado pelo
cadáver e as mudanças que logo nele se observam. Mas o horror ao cadáver não
responde por todos os detalhes dos preceitos do Tabu.
O Luto gosta de ocupar-se com o falecido, associar sua lembrança e
conserva-la tanto quanto possível. Porém, o luto não explica porque a menção do
nome do morto é uma forte injúria para os que sobreviveram. Ainda cabe a ele a
tarefa psíquica de desprender dos mortos as recordações e expectativas dos que
lhes sobrevivem.
O texto refere-se a um termo conhecido como “Recriminações
Obsessivas” que é quando uma pessoa que perde uma pessoa próxima fica
acometida de dolorosas apreensões imaginado que possui alguma culpa na morte
do falecido. Não seria exatamente uma culpa ou a pratica de algum tipo de
negligencia, mas ter um desejo inconsciente operando à provocação da morte. A
Recriminação Obsessiva age em cima de um desejo. Existe uma hostilidade
oculta por trás da morte da pessoa amada e acontece em quase todos os casos
que tenham intensa ligação afetiva entre o sobrevivente e o falecido.
A satisfação pela morte no inconsciente tem outro destino no homem
primitivo. Ele defende-se dela, associando-a para o objeto de hostilidade: A morte.
Esse mecanismo de defesa chama-se Projeção, ou seja, a tentativa de
transformar os falecidos inimigos em malévolos, procurar livra-se dessa culpa.
Mais que isso, a projeção serve para resolver um conflito emocional.
Chega um momento onde a ambivalência começa a decair e as
questões que a envolviam se alteram progressivamente. Como por exemplo, a
perspectiva sobre os mortos e o medo que estes causavam começa a ser deixado
pra trás.
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Dentro do texto ainda, há uma explicação sobre o significado de


consciência. Segundo Freud, a consciência é aquilo que se sabe com maior
certeza É a percepção interna da rejeição de determinados desejos existentes em
nós. Porém, existe ainda a chamada consciência de culpa, a qual está ligada com
angustia. A angustia é tratada como fonte inconsciente.
Referindo-se sobre a transgressão do tabu, é provável que ao sujeito
que a cometeu sejam incididas algumas punições que, na maioria das vezes,
aparecem como uma enfermidade grave ou morte. Quando o castigo não ocorre,
o próprio contexto onde o individuo está inserido se responsabiliza pela aplicação
das penalidades. É possível reconhecer os desejos recalcados no individuo,
considerado como criminoso e naqueles que estão encarregados de vingar a
sociedade do crime cometido.
A neurose obsessiva, diferentemente da transgressão do tabu,
aparentemente age de uma forma altruísta quando o neurótico, acometido de
impulsos de transgressão, se depara com a possibilidade de concretizar o ato
proibido e acaba recuando e se detendo. Isso acontece porque existe um temor
que algum parente por ele amado, sofra as punições em seu lugar. Este ato de
solidariedade com o próximo por parte do neurótico é explicado por Freud que,
assim como o primitivo, ele também teme ser castigado por seu desejo de morte
contra a pessoa que lhe é cara. A diferença, contudo, está no fato do neurótico
recalcar esse desejo, que, por meio de sucessivos deslocamentos, se
transformou em temor de que a pessoa viesse a falecer.

III. ANIMISMO, MAGIA E ONIPOTÊNCIA DOS PENSAMENTOS

Um dos maiores defeitos dos trabalhos que buscam aplicar a


Psicanálise a temas das ciências humanas é proporcionar pouco ao leitor sobre
as duas disciplinas. Tal defeito se mostrará muito presente no que é chamado de
Animismo.
O Animismo é a doutrina das almas, que se diferencia do "animatismo",
a teórica que prega um caráter vivo da natureza que se apresenta como
inanimada, da mesma forma que o "animalismo" (adoração de animais
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considerados sagrados) e o "manismo" (adoração das almas dos mortos) o


fazem.
A introdução desses termos foi dada graças a concepção de mundo
que os povos primitivos têm acerca do conhecimento, seja este histórico ou aind
vivo. Os primitivos habitam num mundo repleto de seres espirituais que são para
eles benévolos ou malignos, o qual plantas, animais e coisas inanimadas são
animais por eles. Estes povos creem numa animação dos seres humanos
individuais. Animação esta que para Freud, significava "dotar de alma", ou seja,
as pessoas têm dentro de si almas que podem deixar sua morada e migrar para
outros seres humanos; Essas almas são portadoras das atividades espirituais e
independem, até certo ponto, de um corpo para se manifestarem.
A maior parte dos autores acredita que essas almas são analogias às
almas humanas quando referidas a alma de plantas, animais e coisas,
constituindo o núcleo original do sistema animista. Os homens primitivos, por sua
vez, chegaram ao dualismo corpo e alma a partir da observação dos fenômenos
do sono (como os sonhos) e da morte, e pela vontade de explicar esses estados.
Tal comportamento de se intrigar diante a fenômenos que estimulam
sua reflexão é algo bastante natural, e nem um pouco enigmático: antes mesmo
das concepções animistas terem aparecidos em diversos povos e diversas
épocas, Wundt já havia afirmado que elas são o produto psicológico de uma
consciência mitopoética.
Dessa forma, o animismo deve ser considerado como a forma de
expressar o que há de espiritual no estado natural do Homem, na medida que é
acessível à nossa observação.
É possível considerar, então, o animismo como sendo um sistema de
pensamento que não só explica um fenômeno singular, mas permite compreender
o mundo como unidade, a partir de um ponto. A humanidade foi a produtora de
três grandes visões do mundo, sendo elas: a animista (mitológica), a religiosa e a
científica. O animismo, porém, ainda não é uma religião, todavia tem nele inserido
premissas sobre as quais se constroem religiões posteriormente.
A necessidade prática de sujeitar o mundo estava de mãos dadas com
o animismo, que contém instruções de como proceder para assenhorar-se de
homens, coisas e animais. Instruções estas que são conhecidas pelo nome de
"feitiço" e "magia", consideradas como estratégias do animismo.
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A feitiçaria, por sua vez, é a arte de influenciar os espíritos ao tratá-los


como os seres humanos em circunstâncias iguais; ou seja, trazer a paz e concilia-
los, submetendo-os á vontade humana a partir da utilização dos mesmos recursos
que se mostram eficientes com indivíduos vivos.
A magia, por outro lado, deixa de lado a ideia de espíritos e busca
meios especiais e não os métodos psicológicos comuns. Ela é a parte mais antiga
e de principal importância da técnica animista, isto porque, entre as maneiras para
trabalhar com espíritos há também meios mágicos, uma vez que a magia tem
aplicação igual em casos que a espiritualização da natureza não foi concretizada.
A magia tem como função de servir aos mais variados fins: submeter
os eventos naturais a vontade dos humanos, defender a pessoa dos perigos e
dos inimigos e dar à eles o poder de prejudicá-los. Contudo, o princípio da magia
é tomar erradamente um vínculo ideal por real.
Do mais comum dos incontáveis atos mágicos, o mais comum era o da
magia para obtenção de chuva. A chuva é feita através de meios mágicos, sendo
ela imitada ou imitando-se as nuvens e a tempestade que a produzem.
Entretanto, a magia não apresenta nenhuma eficácia se feita a distância, já que a
telepatia é fundamental para que seja eficaz.
Não existem dúvidas que o considerado eficaz é vinda da semelhança
entre o ato realizado e o evento esperado. Logo, este tipo de magia é
denominado Imitativa ou Homeopática por Frazer. Se o homem quer que chova,
ele precisa apenas fazer algo que pareça ou lembre a chuva.
Por outro lado, num segundo tipo de atos mágicos, a ideia de
semelhança já não é mais utilizada, mas sim a da magia contagiosa. Neste tipo
de magia, é indiferente que o vínculo exista, ou que já se tenha consistido um
contato significativo. Nela, o eficiente não é a semelhança, mas o que Frazer
chama de contiguidade, a memória de sua existência.
Se for do desejo do indivíduo do indivíduo prejudicar um inimigo, uma
maneira de realizar tal ação é conseguir uma amostra de unhas, cabelos,
excreções, entre outros, e fazer então, alguma coisa hostil com esses objetos.
Nesses casos, a semelhança é substituída pela afinidade. Porém, não se
descarta o fato de que a semelhança e a contiguidade são processos
associativos, o que evidencia o predomínio da associação de ideias.
17

Os motivos para o uso da magia são claro, são os desejos humanos. É


de se supor que o homem primitivo dá grande credibilidade ao poder de seus
desejos, uma vez que tudo o que ele realiza por através de fins mágicos acontece
apenas por que ele deseja. Dessa forma, é clara a constatação de que a ênfase
está em seus desejos e que então a associação por contiguidade, por tornar
possível uma magia contagiosa baseada nela, expõe o valor psíquico atribuído ao
desejo e à vontade se estendeu a todos os atos psíquicos que se acham à
disposição da vontade.
Portanto, diz-se que há uma superestimação do pensamento, pois
existe uma relação entre realidade e pensamento que só pode ser a
superestimação deste último. Ressalta-se, então, que a semelhança e a
contiguidade são dois princípios da associação, e que encontram-se na unidade
mais ampla do contato. Por isso, é correto sintetizar que o princípio diretor da
magia é a onipotência dos pensamentos, a técnica do modo de pensar animista.
É na neurose obsessiva que a conservação da onipotência dos
pensamentos aparece de forma mais clara, já que nelas se acham mais próximos
da consciência os resultados dessa maneira de pensar primitiva.
Isto ocorre porque a superestimação dos processos psíquicos e a
onipotência do pensamento tem significativa influencia na vida emocional do
neurótico e tudo que dela provém.
Os atos obsessivos primários desses neuróticos são de natureza
mágica em sua totalidade. Uma vez que não são feitiços, são contrafeitiços
dispostos a afastar as expectativas de desgraça com que a neurose
eventualmente começa.
Não há facilidade em determinar se esses primeiros atos obsessivos ou
de proteção seguem o princípio da semelhança (ou do contraste), pois nas
condições da neurose eles são deformados, em geral com o deslocamento para
algo mínimo, alguma ação insignificante em si.
As fórmulas protetoras da neurose obsessiva têm sua contrapartida
também nas fórmulas mágicas. Entretanto é possível descrever o curso de
desenvolvimento das ações obsessivas, enfatizando como, afastadas ao máximo
do elemento sexual, elas principiam como feitiços contra maus desejos, para
terminar como substitutos da atividade sexual proibida, que imitam o mais
fielmente possível.
18

Freud se apoia sobre três concepções de mundo, para compor seu


terceiro ensaio, a animista (mitológica), a religiosa e científica. O animismo por
sua vez, em uma forma mais simples seria a doutrina das almas, e de uma forma
mais ampla seria a doutrina dos espíritos em geral.
Os humanos, diante de suas necessidades, criaram suas primeiras
concepções de mundo em combinação com seus próprios desejos.
Primeiramente, na fase animista, foi atribuído poderes a si mesmos e depois, na
fase religiosa, aos deuses.
Com isso o animismo, criado pelo povo primitivo, fazia a compreensão
do mundo como algo natural, controlado pela magia, que era uma forma do
primitivo pensar que poderia dominar o espírito dos homens, dos animais e das
coisas. Entretanto, Freud defendia a ideia de que o que estava em questão na
magia, eram os desejos humanos. Sendo que o conceito fundamental da
psicanálise que é a realidade psíquica, é sustentada por um desejo inconsciente é
prevenida pelo Freud ao mostrar o papel da magia na onipotência dos
pensamentos.
Os povos primitivos expressavam na realidade os seus reais desejos, a
fim de que os espíritos agissem de suas próprias vontades. Essa mesma
característica que aparece no primitivo é também visível na criança como mostra
no texto.
O ser primitivo encara o mundo como a sua imagem e semelhança,
que faz que o Freud faça uma associação que existe entre a onipotência e o
narcisismo, entendido como investimento libidinal em si mesmo. A fase animista
estaria ligada, ao narcisismo primário que é o estágio no qual a libido se fixa nos
pais.
Para Freud os neuróticos possuem duvidas para aceitar a realidade tal
como ela é sendo assim eles atribuem a realidade externa, as suas próprias
aspirações. Freud também dizia que os neurótico e obsessivos, apresentavam
uma natureza mágica, tanto em seus atos quanto em suas defesas, imperam a
onipotência dos pensamentos e o predomínio dos processos psíquicos sobre a
vida real.
19

IV. O RETORNO DO TOTEIMO NA INFÂNCIA

Este capítulo IV retoma o totemismo na Infância basicamente, porém


antes de começar logo de cara com uma teoria sobre o tema escolhido, deve-se
retomar alguns outros conceitos básicos cuja importância será necessária para a
análise final.
O autor, muito interessantemente, retoma o primeiro ensaio e reexplica
o conceito de “totenismo” de uma forma muito sucinta ao comparar este como
sendo um sistema, por exemplo, usado em certos povos primitivos da Austrália,
da América e da África; que apresentam e apresentavam uma função tanto social
como religiosa. Outro conceito estritamente fundamental é o de “clã”, que é uma
palavra original alemã (Stamm) e pode também significar “tribo”, o clã são os
indivíduos que habitam uma comunidade, por exemplo, e que adotam nomes de
animais, ou seja, dos animais totêmicos; sendo que tais tribos acreditam que tais
animais (independentemente de quais animais escolherem para proteger e louvar)
serão os “guardas” das tribos. O interessante é toda a devoção e a solene
abordagem com que tal clã demostra sua fé perante o totem, acreditando que
este apresenta um poder sobrenatural.
Para se obter uma ideia mais adequada e mais completa sobre totem
devemos destacar todas as ideias e opiniões, por exemplo, do autor Frazer, que
no seu primeiro ensaio de 1887 já destacou muitas observações importantíssimas
sobre o tema. O autor retrata que o entendimento e a comunicação como os
“selvagens”, assim denominado por Frazer, nunca foi algo fácil, penetrar ou seja,
entender uma outra cultura e um outro pensar bem mais primitivo e diferente do
civilizado demanda reconhecer que temos certos pressupostos estabelecidos e
que não é um ato que se realize em um curto período de tempo, demanda uma
análise detalhada de certo clã. Assim como nas crianças, devemos interpretar o
inconsciente dos atos e sentimentos para que alguma constelação psíquica seja
finalmente revelada.
Os totens são de três tipos basicamente, 1. No mínimo o primeiro é o
totem do clã, comum a um clã inteiro, e transmitido de uma geração a outra por
herança; 2. O Segundo é o totem do sexo, comum a todos os homens e todas as
mulheres de uma tribo, com a exclusão do outro sexo; 3. Seria o totem individual,
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que pertence a um único indivíduo e não passa para seus descendentes.


Lembrando que é o totem do clã o mais importante e o mais interessante pois é
ele o responsável por explicar porque os indivíduos de uma tribo acreditam ser do
mesmo sangue que seu totem, acreditam também ter um ancestral comum, e
que são ligados entre si por obrigatoriamente obrigações comuns por fé ao totem.
Frazer citou apenas nesta parte do livro (pois posteriormente
aprofundará sobre tal tema) sobre porque os indivíduos de um clã, possuem
certas proibições de matar e comer o totem (animal em devoção). Basicamente
porque ele é sagrado, e porque justamente come-lo significaria um “tabu”. Ou
seja, comer um totem é estritamente proibido e toda comunidade abomina; às
vezes é proibido até tocar o totem e não se pode ser mencionado pelo nome
correto.
A superstição extrema e excessiva arrasta os indivíduos do clã, por
exemplo, a acreditarem que o animal totêmico é tão poderoso que, caso apareça
na vizinhança de alguma casa, tal pressuposto é um prenúncio de morte; e que o
totem tem o poder de levar um parente (ideia do passado em certas casas
nobres, de que quando uma mulher de branco fosse vista alguém iria
falecer).Todavia, o totem também poderia ser colocado para sacrifício, como nos
casos das datas comemorativas, como: festas, nascimentos, iniciações
masculinas etc. O totem é oferecido pelo próprio clã, sendo que em tais rituais o
animal totêmico é morto solenemente (posteriormente falaremos basicamente de
sacrifícios e de canibalismos).
Outro conceito retomado por Fazer é o conceito de “tabu” que
corresponde para uma tribo, na proibição, por exemplo, de clãs do mesmo
membro se casarem ou terem relações sexuais entre si; considerando assim
como exogamia. Tal conceito para a biologia refere-se ao cruzamento de
indivíduos pouco geneticamente relacionados, porem vale a pena ressaltar que
quase toda a opinião e generalização sobre totem e a exogamia estão em aberto.
Não sou tolo a ponto de pretender que minhas conclusões sobre
as questões difíceis sejam definitivas. Mudei minhas opiniões
várias vezes, e estou resolvido a mudá-las de novo a cada
mudança, de evidência, pois, assim, como um camaleão, o
pesquisador sincero deve alterar suas cores Segundo as cores
cambiantes do chão onde pisa. (FRAZER ;1910 ).
21

Frazer, após observações, chegou a conclusão de que as instituições


aruntas seriam a mais antiga forma de totemismo. Ele chegou a essa conclusão
pelo fato de os aruntas se alimentarem regularmente de seu totem, e se unirem
com mulheres também de seu totem, aspecto que talvez reflita em uma
ignorância em relação à concepção ser de origem sexual. Homens que ainda
desconhecem tal relação podem ser vistos como mais atrasados e primitivos.
Os aruntas acreditavam que quando uma mulher engravida, seria
porque determinado espírito que aguarda seu renascimento entrou em seu corpo.
Esse espírito teria o mesmo totem de todos os outros que aguardam naquele
lugar. Assim, os indivíduos se negavam a comer dessa planta, animal, já que
deste modo estariam comendo si mesmos. Nota-se, que a fonte do totemismo
pode estar no fato de os primitivos não terem conhecimento a respeito da maneira
como nos reproduzimos, e consequentemente, a ignorância quanto ao papel do
homem nesse aspecto, motivo que explica o porquê que o espírito feminino seria
criador do totemismo.
Frazer também realizou uma analise diferente, quanto ao sistema
totêmico, na qual seria uma organização pratica apenas para atender as
necessidades dos homens. Diante disso, cada clã teria a tarefa de garantir
determinado alimento para os demais clãs, não podendo, porém, também se
alimentar do mesmo, e quando o totem não fosse comestível, teria o dever de
controla-lo e mantê-lo inofensivo, assim, todos os clãs se ajudavam. Esse
comportamento não se originou de um respeito religioso, mas sim de uma
observação de que animais não comem seus semelhantes, e se eles também não
fizessem isso, conquistariam certo respeito daquele animal, e ganharia sua
simpatia.

TEORIAS A RESPEITO DA GÊNESE DO TOTEISMO.


1. Teorias nominalistas
Os clãs tinham a necessidade de distinguir seu povo, dos demais,
através de nomes que fossem duradouros, e se fixassem por escrito. Assim, o
totemismo não surgiu, segundo essa teoria, de necessidades religiosas, mas sim
de necessidades cotidianas da humanidade.
A partir do momento em que os clãs apresentavam o nome de certo
animal, os selvagens acreditavam ter algum grau de parentesco com o mesmo.
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Porém, devido a falta de compreensão em relação às línguas primitivas, as


futuras gerações acreditaram ser nomes que provavam a descendência desses
animais. Assim, o totemismo seria uma errada veneração dos ancestrais.
2. Teorias sociológicas
Nessa teoria, o totem seria um representante da religião social dos
povos. Os clãs viviam de certa espécie de animal ou planta, e provavelmente
também realizavam o comercio dos mesmos. Diante disso, ficavam conhecidos
pelo nome do respectivo animal. Além disso, obviamente havia uma familiaridade
com o animal em questão.
Entretanto o fato de os primitivos não se alimentarem do seu totem,
que seria o alimento favorito do clã, e esse aspecto ter se tornado quase religioso,
seria uma objeção à teoria.
3. Teorias psicológicas
Crença na “Arma externa”, em que a alma, na tentativa de escapar de
determinados perigos, iria se refugiar no totem. Deste modo, o primitivo
naturalmente não realizaria qualquer mal ao totem e sua espécie, já que este é o
portador de sua alma. Frazer, mais tarde, abandona essa teoria.
Outra teoria psicológica a respeito da origem do totemismo é a de
G.A.Wilken, em que fala sobre a transmigração das almas, na qual a alma dos
mortos encarnaria em determinado animal, tornando-o este, um parente,
ancestral.
Já segundo Wundt, esses animais que recebem as almas, os “animais
–almas”, seriam passarinhos, serpentes, ratos, entre outros, devido a facilidade
que estes apresentam quanto a mobilização, voando e correndo. Seriam aspectos
que surpreendiam os primitivos.
Há diversas teorias a respeito da origem do horror ao incesto, sendo
uma delas a de Westermarck. Ele acreditava ser uma aversão inata, uma vez que
as pessoas em questão teriam vivido juntas a infância toda, nascendo, deste
modo, uma aversão ao ato sexual. Porém, quando isso é questionado diante da
psicanálise, esta aponta uma opinião diferente, já que diz serem os primeiros
impulsos sexuais dos humanos, de caráter incestuoso.
Outro motivo improvável em relação ao incesto seria de que a proibição
estaria ligada a preocupação em evitar danos aos descendentes. Os primitivos
23

viviam apenas o instante, e não se preocupavam com assuntos relacionados à


higiene ou ao futuro das gerações.
Há também a origem diante de aspectos históricos. Nessa teoria, o
horror ao incesto teria nascido do ciúme do macho mais velho e forte, que
impedia a promiscuidade. Eles impediam que outros machos “tocassem” em
mulheres da sua área, e até mesmo expulsava filhos adolescentes. Havia, assim,
uma proibição de casamentos dentro do grupo local, originando o horror ao
incesto.
Quando se compara o comportamento das crianças com os animais, e
os primitivos, observa-se uma semelhança. Elas também olham para o animal
como seu igual, sem traços de arrogância. Porém, muitas vezes, surge diante
desse contato com o animal, uma perturbação. A criança começa a sentir certo
medo sobre aquele animal, evitando-o, em muitos casos. Essa zoofobia ainda não
foi muito estudada no campo da psicanálise, porem, ao observar as crianças que
sofrem da fobia, nota-se que quando meninos, o medo concernia ao pai, sendo
apenas deslocado para o animal. Um exemplo a respeito do assunto seria o caso
de um garoto de nove anos que tinha muito medo de cachorro e, quando via o
animal, gritava e chorava dizendo para o cachorro não pegá-lo, que ele iria ser
bonzinho. Esse “bonzinho” mostrou estar relacionado ao fato de que ele não iria
mais se masturbar, já que o pai sempre o proibiu de tal ato, aspecto que mostra o
deslocamento do medo do pai ao cachorro.
Os interesses totêmicos não são diretamente relacionados ao
Complexo de Édipo, mas sim com base na angústia de castração. No caso do
pequeno Hans, onde o Complexo de Édipo foi transferido para os cavalos, o pai
era admirado e temido como possuidor do genital grande.
O caso de Arpád também se aplica nos conceitos citados acima. Arpád
tinha dois anos e meio quando tentou urinar em um galinheiro e uma galinha
bicou seu membro. Um ano depois, ao voltar ao mesmo lugar do incidente, o
menino se interessava por tudo relacionado aquele galinheiro, inclusive trocou a
linguagem humana por cacarejos. Quando foi analisado aos cinco anos de idade,
a criança já havia voltado a falar normalmente, mas brincava e cantava apenas o
que tinha relação com galinhas e aves. Sua brincadeira favorita era a matança de
galinhas, mas logo em seguida ele beijava e acariciava o brinquedo que havia
maltratado. Arpád também traduzia seu trauma para a vida cotidiana ao citar “meu
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pai é o galo”, “agora sou um pintinho”, “ensopado de mãe” ao referir-se a


ensopado de galinha.
Comparando ao totemismo, no caso de Arpád, se o animal totêmico é o
pai, os dois principais mandamentos do totemismo – não matar o totem e não ter
relações sexuais com sua mulher – coincide com os dois crimes do Édipo – matar
o pai e tomar sua mãe como esposa.
Todo totemismo possui uma cerimônia peculiar onde a acontece a
refeição totêmica. O sacrifício é oferenda à divindade para reconciliar-se com ela
ou ganhar seu favor. Comidas, bebidas e animais específicos são sacrifícios.
Toda essa cerimônia é algo público e apresenta o dever religioso como obrigação
social de todos os membros do clã em questão. Essa festa do sacrifício é a
oportunidade de elevar-se acima do próprio interesse, enfatizando laços com a
divindade.
O ato de comer e beber com alguém é um vínculo social. Costumes
ainda entre os árabes do deserto mostram que o que une não é o fator religioso,
mas o próprio ato de comer junto.
Não havia reunião do clã sem sacrifício animal, mas não se abatia o
animal fora dessas ocasiões solenes. O animal do sacrifício era tratado como um
membro do clã, já que era uma vida que nenhum indivíduo tem permissão de tirar,
mas pode ser sacrificada apenas com o consentimento e a participação de todos
os membros do clã. Era então criado um vínculo sagrado que une os participantes
entre si e com seu deus. Além de que, todo clã pratica a magia para favorecer a
multiplicação do totem.
Na antiguidade tardia, existiam dois tipos de sacrifício: o primeiro onde
animais domésticos que eram comidos ordinariamente e o segundo onde os
animais sagrados eram apenas oferecidos aos deuses para os quais eram
sagrados.
Quando surgiram as propriedades privadas, o sacrifício era um
presente à divindade, como transferência do homem para o deus.
A domesticação dos animais e o surgimento da pecuária podem ter
dado o fim ao totemismo puro e rigoroso.
Mas há ainda a consciência de realizar uma ação que é proibida a cada
um, que apenas pela participação de todos pode se justificar e nenhum deles
pode se excluir do assassinato e da refeição. O lamento do morto é obrigatório e
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imposto pelo temor de uma represália. Mas depois do luto, vem a alegria festiva,
pois uma festa é um excesso permitido e a disposição festiva é gerada pela
liberação do que normalmente é proibido. O fato de terem absorvido a vida
sagrada, da qual a substância do totem é portadora, explica o ânimo festivo e
seus segmentos.
Agora, juntando a concepção psicanalítica do totem e o banquete
totêmico e a hipótese darwiniana sobre o estado ancestral da sociedade humana,
há a possibilidade da perspectiva de uma hipótese que oferece vantagem de
produzir uma unidade com fenômenos até então separados.
Como por exemplo, um pai violento e ciumento que reserva todas as
fêmeas para si e expulsa os filhos quando crescem. Certo dia, os irmãos expulsos
unidos ousaram fazer o que não seria possível individualmente, se juntaram,
abateram e devoraram o pai. O violento pai era o modelo temido e invejado por
cada um dos irmãos. No ato de devorá-lo, eles realizavam a identificação com ele
e cada um apropriava-se de parte de sua força. Eles odiavam o pai que se
constituía como obstáculo a suas necessidades de poder e desejos sexuais, mas
também o amavam e o admiravam. Depois que o eliminaram, satisfizeram seu
ódio e os impulsos afetuosos, até então reprimidos, tinham de impor-se, o que
aconteceu em forma de arrependimento e consciência da culpa. O morto tornou-
se mais forte do que quando era vivo. Instituíram a consciência de culpa do filho
que foi base para os dois tabus fundamentais do totemismo e que concordavam
com os dois desejos reprimidos do Complexo de Édipo.
Os dois tabus do totemismo não tem o mesmo valor psicológico. Um
baseia-se em razões afetivas, o que poupa o animal totêmico e o outro possui
fundamentação prática.
A necessidade sexual não une os homens, ela os separa. No exemplo
dos irmãos, eles se conectaram para vencer o pai, mas eram rivais uns dos outros
quanto às mulheres desejadas. Nenhum era mais forte do que os outros para
assumir o papel do pai, mas para viverem juntos, instituíram a proibição do
incesto, onde renunciavam às mulheres.
O tabu que protege a vida do animal totêmico liga-se à reinvindicação
do totemismo para ser considerado o primeiro ensaio de uma religião. O sistema
totêmico foi uma espécie de contrato em que o pai concedia tudo o que a fantasia
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da criança podia esperar – proteção, cuidado, indulgência – em troca de honrar


sua vida.
A religião totêmica desenvolveu-se a partir da consciência de culpa dos
filhos, como tentativa de acalmar esse sentimento e de abrandar o pai ofendido.
A ambivalência do complexo paterno permeia o totemismo e as
religiões, uma vez que mostra o arrependimento, as tentativas de conciliação e o
sentimento de triunfo sobre o pai. Tal triunfo institui as festas, refeição totêmica na
qual se abre mão das obediências e obriga-se a repetição do ato criminoso.
Observa-se neste novo momento a fraternidade, a qual influencia na sociedade
como um meio de solidariedade para com as vidas do mesmo clã: o crime de se
matar um totem soma-se então ao crime de se matar irmão. O que,
posteriormente na história, se expandirá a um crime geral, o de homicídio, não
mais limitado ao totem ou ao clã.
Relacionando com o período anterior dos primitivos, permanece o
sentimento de culpa, sendo a divindade o elemento novo. Os sacrifícios são
realizados na presença deste elemento, dado agora como membro do clã, uma
vez que se identificam pelo ato da refeição. Tal elemento é, posteriormente,
denominado Deus.
O termo Deus apareceu em um momento não identificado da história,
para permear todos os atos totêmicos neste novo sistema. Deus pode relacionar
com o totem ao passo que, geralmente, animais são associados a tal divindade, o
sacrifício era realizado junto a si, era adorado em forma animal e, nos mitos,
frequentemente Deus se transforma em um animal. Portanto, pode-se supor que
Deus é o animal totêmico.
Deus poderia ser a forma posterior do totem, onde assume forma
humana, sendo uma nova criação, o que acarretaria em uma mudança na relação
filho/pai. Contudo, durante a história, houve uma potencialização da ânsia pelo
pai. Deus mostra-se então diferente para cada indivíduo, já que, pela ótica
psicanalista, a relação indivíduo/Deus é baseada na relação filho/pai. Observa-se
tal movimento na possível nomenclatura de Deus como pai, assim como se feito
com os totens no período primitivo.
O pai mostra-se presente como deus e como animal totêmico, ambas
as cenas de sacrifício. Tomando como base o antagonismo de sentimentos de
ódio e de amor pelo pai, o filho encontra vazão para seus sentimentos hostis no
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sacrifício, no qual se designa ao pai a glória pelo sofrimento recebido. Tal


sacrifício, posteriormente, torna-se oferenda à divindade. Em tal panorama a
elevação de deus é tão grande que só pode alcança-lo mediante meditações.
Uma vez que as responsabilidades são depositadas agora integralmente às
divindades, o sentimento de culpa diminui perante os sacrifícios, o que pode ser
observado em mitos onde o próprio deus mata o animal totêmico, como se
estivesse superando seu lado animal.
O sacrifício agora não é mais animal, e sim teantrópico, onde são
oferecidos à divindade vítimas humanos, como feitos em religiões semitas. O
sacrifício animal era um substituto do humano. Uma vez que a divindade assume
forma humana, assim também se faz com o sacrifício. Mediantes tais sacrifícios o
sentimento de culpa era carregado, onde se lamentavam os corpos mortos após o
ato, mas tal lamentação era forjada por medo da ira divina. Percebe-se então que
a culpa e a rebelião dos filhos permaneceu durante a história, o que possibilitou a
permanência das religiões.
Mostra-se nítida a ânsia do filho em tomar o lugar do pai, como pode
ser observado na agricultura, onde a importância do filho é inflada e torna-se
possível o ato incestuoso por meio da satisfação simbólica do cultivo da Mãe
Terra. Em mitos como o de Orfeu, há o incesto, mas a culpa permanece
demonstrada pelo castigo divino de uma vida amaldiçoada, como ocorre também
em Narciso.
O cristianismo insurgente não se diferenciou muito das religiões
anteriores, onde divindades sacrificam animais em mitos para livrar o povo da
culpa. Cristo não fez diferente, cometeu um homicídio, mesmo que a vítima tenha
sido ele próprio, para livrar o povo da culpa do pecado. Esse homicídio realizado
por cristo era em busca de se reencontrar com Deus, mas, enquanto pratica o ato
mais devoto, também demostra sua vontade de ser o pai, de se tornas divindade,
substituindo o pai, o que demonstra a prevalência da ambivalência dos sentidos
para com tal pai.
Os sacrifícios e as refeições totêmicas retornam então com a
eucaristia, santificando o filho e não o pai, sendo a comunhão uma eliminação do
pai. Antigamente o coro delatava o herói, agora o herói é quem se culpa e o coro
lamenta por seu ato, o venerando e transformando-o em salvador.
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Assim como ocorre na vida individual, o complexo de Édipo inaugura a


moral na sociedade, mesmo por meio da religião. E é neste que a ambivalência
afetiva (sentimento de amor e ódio) com o pai é observada, o que se enraíza na
sociedade histórica. É neste panorama que a psicologia das massas aparece,
demonstrando que processos psíquicos persistem na história, caso contrário não
haveria progresso nenhum na sociedade. Esse movimento é com o que a
psicologia das massas se preocupa: como que tais informações são transmitidas.
O que pode dificultar tal pressuposto é a possibilidade de alguns impulsos
psíquicos serem tão bem disfarçados que não se mostrem na sociedade, contudo,
estes seriam inexistentes, uma vez que, mesmo com a maior repressão, haveria
de ter vasão de manifestação, tornando tal dificuldade nula para o raciocínio.
As neuroses podem ser vinculadas a tal analise, uma vez que
apresentam sanções e punições mediante desejos reprimidos como os primitivos
apresentavam. Os neuróticos, porém apresentaram apenas impulsos maus na
infância, transmitindo-os para a ação, já que a moral se inaugura posteriormente.
Mas os primitivos não devem ser julgados mediante comparação com os
neuróticos, uma vez que o neurótico é impedido de agir, mas o primitivo
facilmente converte pensamento em ação.
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V. REFERÊNCIAS

FREUD, S. Obras completas, volume 11: totem e tabu, contribuição à história do


movimento psicanalítico e outros textos (1912-1914) / Sigmund Freud; tradução
Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p.13-244.

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