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CAPÍTULO I

A PALAVRA DE DEUS NA REVELAÇÃO SEGUNDO KARL BARTH

A. O Conceito de Palavra de Deus

Fomos ensinados que na teologia reformada ortodoxa o termo "Palavra de Deus"

deve ser usado para se referir especificamente à Escritura Cristã (Cânon do Antigo e do

Novo Testamentos) que é vista como sendo o único meio pelo qual Deus se revela de

modo especial.1 Isto se dá especialmente no Brasil onde o termo "Palavra" não é usado

para se referir a Cristo usando para isso o termo "Verbo".

Para Barth, porém, o termo "Palavra de Deus" serve para expressar o próprio

Deus em sua auto-revelação. Jesus Cristo, de modo particular, é a Palavra de Deus (João

1:1) em seu sentido mais original. Barth diz o seguinte: "Jesus Cristo é, portanto, o

revelador ativo e real de Deus e reconciliador com Deus, porque nele, seu Filho ou

Palavra, Deus se estabelece e se dá a conhecer... Ele é o Filho ou a Palavra de Deus para

nós, porque ele assim era anteriormente em si.2

Barth resolve para si o dilema do conceito teológico de Palavra de Deus na

teologia calvinista através do estabelecimento de uma estrutura heurística, a saber, uma

______________________
1
Ver Klaas Runia, "The Authority of Scripture". Calvin Theological Journal, vol. 4, no 2. p. 165-194.
2
Karl Barth, Church Dogmatics, 2a ed., vol. I.1., (Edinburg: T&T Clark Ltda., 1995), p. 415. Minha
tradução.

3
4

tríplice divisão para o conceito de Palavra, ou seja, a Palavra de Deus proclamada, a

Palavra de Deus escrita e a Palavra de Deus revelada. O conceito de Palavra de Deus

escrita aparece pela primeira vez nas Institutas.3

Esta tríplice divisão é o principal, e talvez único modo, para se entender a

Palavra, de acordo com Barth, e é ao mesmo tempo, um elemento da estrutura

trinitariana na qual ele constrói sua teologia. A escolha por parte de Barth de uma

estrutura trinitariana para sua teologia é fundamentada em premissas e convicções

teológicas pessoais, isto é, Barth pressupõe o trinitarianismo como princípio

epistemológico para a teologia.

É importante ainda destacar que esta tríplice divisão está intimamente

relacionada ao conceito de revelação. A questão sobre a revelação passa a ser se

podemos ou não dizer que ela se expressa objetivamente. A princípio isso parece

inviável a não ser que se juntem num momento específico a Escritura, a proclamação

feita pela igreja e a iniciativa revelacional de Deus. A tríplice divisão barthiana do

conceito resolve o problema dialeticamente, isto é, reconstruindo o conceito de forma a

acarretar ambas as possibilidades e ao mesmo tempo nenhuma.

Jean Bosc comenta isso da seguinte forma:

Esta Palavra vem a nós através de três meios: A proclamação da igreja que é a
proclamação da Palavra realizada sobre o fundamento da Sagrada Escritura; a
Bíblia que é a Palavra de Deus enquanto testemunha em nome de Jesus Cristo que
é no sentido próprio a Palavra de Deus Revelada. Por este modo, descobrindo-se
em Seu Filho Jesus Cristo, o Deus escondido grava esta revelação, através da
operação do Espírito Santo nos corações dos homens que estão impossibilitados
de ouvir esta Palavra através de meios naturais. Sob estes três modos Deus se
revela três vezes como o único Senhor. Assim, Barth dá a resposta à questão que

______________________
3
Cf. João Calvino, As Institutas ou Tratado da Religião Cristã, vol. I. (São Paulo: Casa Editora
Presbiteriana, 1985), p. 85, 86.
5

abre a possibilidade de se saber quem é o Deus que fala; ele também descobre
desta maneira a doutrina da Trindade e da Encarnação, como confessada pelos
pais da igreja.4

O próprio Barth diz o seguinte a respeito disso:

Nós conhecemos a Palavra de Deus revelada somente da Escritura adotada pela


proclamação da Igreja, ou da proclamação da Igreja baseada na Escritura.
Nós conhecemos a Palavra de Deus escrita somente através da revelação que torna
a proclamação possível, ou através da proclamação que se torna possível pela
revelação.
Nós conhecemos a Palavra de Deus proclamada somente pelo conhecimento da
revelação atestada pela Escritura, ou pelo conhecimento da Escritura que atesta a
revelação.5

Barth ainda diz o seguinte:

Há somente uma analogia para a doutrina da palavra de Deus. Mas exatamente: a


doutrina da Palavra de Deus em sua forma tripla é em si mesma a única analogia
para a doutrina na qual queremos fundamentalmente nos ocupar no
desdobramento do conceito de revelação. Esta é a doutrina da triunidade de Deus.
Nós podemos substituir por Revelação, Escritura e Proclamação os nomes divinos
de Pai, Filho e Espírito Santo.6

Sendo assim, o conceito triádico de Palavra de Deus não são três Palavras

diferentes e absolutamente separadas umas das outras. Não são palavras antagônicas,

mas uma unidade indissolúvel. Assim como a Trindade suprassume unidade e

pluralidade, o conceito triádico de Barth suprassume unidade e pluralidade na Palavra

de Deus.

As seguintes palavras de Barth concernentes à Palavra de Deus demonstram a

sua posição:

A palavra de Deus é a palavra que Deus falou, fala e falará em meio aos seres
humanos - a todos os seres humanos -, quer seja ouvido, quer não o seja. É a

______________________
4
Jean Bosc, Karl Barth: Existência e Tradição. (São Paulo: Duas Cidades, 1969) pp. 33, 34.
5
Barth, Church Domatics, Vol. I.1., p. 121. Minha tradução.
6
Ibid., p. 121. Minha tradução.
6

palavra de seu agir nos seres humanos, a favor dos seres humanos, com os seres
humanos. Este seu agir não é mudo; é um agir que fala por sua própria natureza.
Sendo que só Deus é capaz de realizar o que realiza, só ele será capaz de dizer em
seu agir o que diz. E, por seu agir não ser cindido, mas sim uno (e o ser em suas
formas múltiplas, e dentro de seu movimento que parte da origem e visa o alvo),
também sua palavra, em toda sua excitante riqueza, é simples e una. Não é dúbia -
é inequívoca; não é obscura - é clara; portanto, em si é compreensível tanto para o
mais sábio quanto para o mais estulto. Deus age, e agindo, fala. Sua palavra
acontece. Podemos deixar de ouvi-la de facto - mas jamais de jure. Falamos do
Deus do evangelho, de seu atuar e seu agir; e falamos de seu evangelho, no qual a
logia, lógica, logística teológica têm sua fonte criativa e sua vida.7

À luz desta declaração poderemos de um modo melhor considerar sobre a

exposição que Barth faz da Palavra de Deus em termos da sua tripla forma.

1. Proclamada

Barth diz que a função da Igreja é proclamar de modo real a Palavra de Deus. Se

isto não ocorre então a Igreja não é verdadeira Igreja. Segundo ele a proclamação tem

que se tornar sempre real proclamação e a Igreja se tornar sempre real Igreja. O

pressuposto que faz com que a Igreja seja Igreja e com que a proclamação seja

proclamação é a Palavra de Deus.8

Ele entende que entre o conceito de Palavra de Deus e o de proclamação há

quatro conexões que podem ser comparadas a quatro círculos concêntricos. São elas: 1.

A Palavra de Deus é a autorização sobre a qual a proclamação deve estar fundamentada

para que ela seja uma real proclamação; 2. A Palavra de Deus é o tema que deve ser

dado à proclamação para que ela seja uma real proclamação; 3. A Palavra de Deus é o

único julgamento em virtude do qual a proclamação pode ser uma real proclamação; 4.

______________________
7
Karl Barth, Introdução à Teologia Evangélica. (São Leopoldo: Editora Sinodal, 1996) p. 19.
8
Barth, Church Dogmatics. 2a ed., vol. I.1., p. 88.
7

A Palavra de Deus é o próprio evento no qual a proclamação se torna real proclamação.9

Quanto à primeira conexão Barth diz o seguinte:

Real proclamação, então, é a Palavra de Deus pregada e a Palavra de Deus


pregada quer dizer, neste primeiro e externo círculo, a fala do homem sobre Deus
na base da própria direção de Deus que fundamentalmente transcende toda causa
humana que não pode então, ser posta em uma base humana, mas que
simplesmente toma lugar, e tem que ser reconhecida, como um fato.10
Isto significa que a necessidade da proclamação não está fundamentada em uma

base subjetiva ou em convicções pessoais. Barth diz que "a necessidade da proclamação

não encontra uma fundação objetiva no fato de que certas circunstâncias e escalas de

valor imanentes à existência do homem ou coisas que almeje conhecer e declarar."11

Quanto à segunda conexão Barth afirma:

Proclamação real, então, quer dizer a Palavra de Deus pregada, e a Palavra de


Deus pregada quer dizer a fala humana a respeito de Deus, e neste segundo
círculo a Palavra de Deus pregada quer dizer a fala humana a respeito de Deus na
base do propósito do próprio Deus que não está exatamente lá, que não pode ser
predito, que não se ajusta em qualquer plano, que só é real na liberdade da Sua
graça, em virtude da qual Ele quer ser, em momentos específicos, o objeto desta
fala, e de acordo com Seu bom prazer.12
A proclamação é real, portanto, quando a Palavra de Deus pregada está baseada no

propósito e graça de Deus. A princípio ela não tem como tema algo que faça parte da

percepção humana. Segundo Barth ela deve tornar-se perceptível ao homem para que

possa ser proclamada, no entanto, ela não é mera ou primariamente objeto da percepção

______________________
9
Cf. Ibid., pp. 89, 90, 91, 93.
10
Ibid., p. 90. Minha tradução.
11
Ibid., p. 89. Minha tradução.
12
Ibid., p. 92. Minha tradução.

humana.13
8

Falando da terceira conexão Barth diz o seguinte: "Proclamação real, então, é a

Palavra de Deus pregada, e neste terceiro círculo interno a Palavra de Deus pregada

quer dizer a fala humana a respeito de Deus que pelo próprio julgamento de Deus não

pode ser antecipada e nunca está debaixo do nosso controle,..."14

Neste terceiro círculo Barth aborda a questão do que pode julgar se a

proclamação é verdadeira ou não. Ele começa apresentando a questão de que alguém

julga a fala humana levando em consideração dois aspectos: Por um lado analisa o

assunto da fala e por outro a situação de quem está falando. Segundo Barth este critério

também pode ser usado na avaliação da proclamação da Igreja.15

Barth afirma o seguinte:

Alguém que proclame deve submeter-se à questão: O que você sabe a respeito do
que está falando? E: Qual é a sua preocupação ao falar sobre isso? Ele tem que
deixar que seu trabalho seja julgado por estas questões. O único ponto é que o que
ele diz não é afetado, como proclamação, por tais julgamentos. O que é avaliado
por eles é seu caráter científico ou ethico-político ou ainda estético.
Intrinsecamente Proclamação como acontece na pregação e sacramento pressupõe
que nem a natureza de seu objeto nem a situação ou preocupação do proclamador
é ou pode ser tão claro a qualquer homem de modo que o coloque em uma posição
que lhe permita pronunciar sua verdade.16

Como pode ser visto Barth entende que não há padrões meramente humanos que

possam ser usados para julgar se uma fala é proclamação real ou não. Somente o

próprio Deus pode fazer tal julgamento, em última análise.

______________________
13Cf. Ibid., p. 91

14Ibid., p. 93. Minha tradução.

15Cf. Ibid., p. 92.

16Ibid., p. 92. Minha tradução.

Quanto a quarta e última conexão, a qual Barth entende ser o ponto decisivo, 17

ele diz o seguinte: "A Palavra de Deus pregada quer dizer neste quarto e íntimo círculo a
9

fala do homem sobre Deus no qual e através do qual Deus fala a respeito de si

mesmo."18

Com estas quatro conexões Barth procura ligar a proclamação da igreja com a

Palavra de Deus demonstrando assim que uma proclamação para ser real precisa ter sua

autorização e seu tema fundamentados na Palavra de Deus, além de precisar tê-la como

padrão para julgamento e como o próprio evento da proclamação.

Qual é então o real sentido ou qual é a real natureza da Palavra proclamada?

Será que todos os acontecimentos do culto público podem ser identificados como a

Palavra de Deus proclamada?

Podemos dizer que segundo o entendimento de Barth a Palavra de Deus

proclamada é a fala humana, o "sermão" endereçado aos homens. Deus transforma a

linguagem humana em Sua linguagem. Deus fala quando a igreja prega aos homens

com a firme convicção de que está declarando a Palavra de Deus.

No entanto, isso não significa que a Igreja está sempre proclamando a Palavra de

Deus, que tudo o que acontece no culto possa ser identificado como Palavra de Deus

proclamada. Barth diz que nem toda linguagem humana é linguagem a respeito de

Deus.19 Há "sermões" que não são Palavra de Deus e há Palavra de Deus que acontece

fora do que chamamos costumeiramente de "sermão". Barth entende que nem sempre a

______________________
17
Cf. Ibid., p. 93
18
Ibid., p. 95. Minha tradução.
19
Ibid., p. 47. Minha tradução.
10

exposição da Bíblia é Palavra de Deus. Isto ocorre apenas quando há uma ação direta e

especial de Deus dirigindo-se a alguém em especial, ou seja, quando há o evento de

encontro.

Há diversos momentos em que a igreja fala coisas úteis, verdades religiosas, mas

que não são a Palavra de Deus. Quando a igreja ora, canta, faz obras sociais, etc. não

está proclamando a Palavra de Deus, mas apenas tentando apresentar respostas a Deus.

Podemos assim perceber que a fonte da proclamação está além da Igreja.

Em referência a isso Barth diz o seguinte:

Se a essência da Igreja, Jesus Cristo como a representação pessoal de Deus,


santifica o ser de homens na esfera visível dos acontecimentos humanos na igreja,
então Ele também santifica sua linguagem como linguagem sobre Deus que é
encontrada na Igreja.
Nem toda linguagem sobre Deus encontrada no culto público da Igreja é
proclamação. Ela não busca ser tal como é endereçada pelo homem a Deus. A
oração da Igreja, hinos, e confissão de fé são obviamente apenas o que eles
pretendem ser, num grau que tão longe quanto possível deixam de tentar a
impossível tarefa de pregar algo a Deus ou a vergonha de incidentalmente pregar
algo ao homem. Eles são a resposta a Deus de louvor, confissão e gratidão
daqueles a quem a Sua proclamação veio. Eles são o sacrifício trazido que pode
ter diante de Deus somente o sentido de uma confirmação do que Ele tem feito ao
homem, e a respeito do qual o homem não pode ter obviamente nenhuma intenção
em relação a outros que também estejam presentes.20

Como podemos identificar a verdadeira natureza desta especial proclamação da

Igreja?

Barth responde a esta questão apresentando duas coisas: Pregação e Sacramento.

Barth diz o seguinte:

1. Proclamação é pregação, i.e., a tentativa de alguém chamado para isso na igreja,


na forma de uma exposição de alguma porção do testemunho bíblico da revelação,
expressar em suas próprias palavras e tornar inteligível aos homens de sua própria
geração a promessa da revelação, reconciliação e vocação de Deus como estão
esperando aqui e agora.

______________________
20
Ibid., pp. 49, 50. Minha tradução.
11

2. Esta proclamação é o sacramento, i.e., o ato simbólico levado à igreja dirigido


pelo testemunho bíblico da revelação em acompanhamento e confirmação da
pregação e que é destinado como tal para atestar o evento da divina revelação,
reconciliação e vocação que não meramente cumprem, mas estão debaixo da
promessa.21

Assim podemos ver que para Barth não se pode dizer que as palavras do homem

dirigidas a Deus sejam a Palavra de Deus proclamada. Isto é resposta do homem a Deus

e não Palavra de Deus.

O conteúdo da Palavra de Deus proclamada envolve a pregação e os

sacramentos que são a linguagem humana sendo transformada em linguagem sobre

Deus e, portanto, a Palavra de Deus pregada.

Ainda sobre este assunto Barth afirma o seguinte:

Há ainda uma terceira quantidade da qual temos que dizer a mesma coisa quanto a
sua relação com a Sagrada Escritura, como dissemos agora da Sagrada Escritura
em relação a Jesus Cristo: A proclamação da Igreja Cristã pela palavra e
sacramento. E há outros sinais de revelação dos quais nós não podemos dizer que
são a Palavra de Deus, de alguma forma no sentido estrito e formal. A igreja como
tal, e.g., (sic) é um grande sinal de revelação. Mas ela não é a Palavra de Deus.
Pelo contrário - e isto é algo diferente - ela é criada pela Palavra de Deus e vive
por ela. Novamente, os dogmas da Igreja, a constituição do cânon como
periodicamente reconhecido e aceito, a existência de professores da Igreja e suas
doutrinas, as ações e experiências da Igreja ou dos cristãos no mundo: tudo isto
são realmente sinais de revelação, mas eles não podem nesta conta ser chamados
de Palavra de Deus no sentido verdadeiro e autônomo.22

Barth reafirma que a Palavra de Deus proclamada é a palavra e os sacramentos e

relaciona uma série de outras coisas que ele chama de sinais da revelação, ou seja,

coisas que evidenciam a realidade da revelação, mas que, no entanto, não podem ser

identificadas como a Palavra de Deus proclamada.

Barth entende que a igreja foi comissionada para isso. Ele diz o seguinte:

______________________
21
Ibid., p. 56. Minha tradução.
22
Ibid., vol. I.2, p. 500. Minha tradução.
12

Nós só podemos responder que nós aprendemos do testemunho bíblico da


revelação que Jesus Cristo deu à Sua Igreja não apenas o mandamento da fé, amor
e esperança, nem meramente o mandamento para se chamar Seu nome em aliança
e mostrar amor fraterno, etc., mas também a comissão da proclamação, e
realmente da proclamação pela pregação e sacramento.23

2. Escrita

Chegamos a um ponto que é de grande importância para se verificar o que Barth

pensa a respeito das Sagradas Escrituras.

Para Barth a Escritura é o registro de eventos do passado que devem ser

lembrados hoje na esperança de que eventos se cumpram no futuro. Barth diz o

seguinte: "Nós temos dito que a proclamação da Igreja deve ser posta na lembrança da

revelação passada e na expectativa da revelação ainda por vir".24

Isto não quer dizer que para Barth a Escritura seja algo sem importância. Ele

entende que os escritores do Velho e do Novo Testamentos ocupam um lugar de especial

autoridade na igreja porque eles são a autoridade primária dos atos revelacionais de

Deus. Barth diz o seguinte:

No intuito de definirmos mais precisamente o lugar da teologia evangélica,


precisamos lembrar que existe um grupo de seres humanos definidos - se bem que
não delimitáveis pela estatística - aos quais compete uma posição única, particular
e distinta quanto à sua relação com a palavra de Deus. Distinta, não devido á
qualidade excepcional de sua mentalidade e de seu comportamento frente à
palavra de Deus, também não no sentido de que sua posição lhes acarrete
benefícios, honrarias e auréolas específicas - antes, distinta em virtude de sua
situação histórica especial frente à palavra de Deus e em virtude do serviço
específico para o qual ela os chamou e capacitou. Eles são as testemunhas da
palavra, ou, mais precisamente, suas testemunhas primárias, por terem sido
chamadas de forma imediata pela própria palavra a fim de serem seus ouvintes e
por terem sido instaladas para confirmá-la entre as demais pessoas. Refiro-me às

______________________
23Ibid., p. 57. Minha tradução.

24Ibid., p. 99. Minha tradução.


13

testemunhas bíblicas da palavra: às pessoas proféticas do Antigo e às pessoas


apostólicas do Novo Testamento.25

A Sagrada Escritura é vista por Barth como tendo um importante papel no

conceito triádico de Palavra de Deus. Ele diz o seguinte: "A distinção do cabeça do

corpo e a superioridade do cabeça sobre o corpo encontra concreta expressão no fato de

que a proclamação na igreja é confrontada por um fator que é como ela, como um

fenômeno, que é temporal como ela é, e que, contudo, é diferente dela e superior a ela.

Este fator é a Sagrada Escritura."26

Ao reconhecer a presença do Cânon e ao reconhecer que ele é a Bíblia do Velho

e do Novo Testamentos, a palavra dos profetas e apóstolos, a Igreja reconhece que sua

proclamação não está fundamentada em seu juízo próprio, mas em algo que está fora

dela.27

Barth pode estar dizendo que a Bíblia contém o registro das primeiras

testemunhas da revelação de Deus e, portanto, negando que a Bíblia em si seja a forma

primária de revelação. Se assim fosse de que forma a Bíblia poderia ser considerada a

Palavra de Deus?

Talvez devêssemos expressar o pensamento de Barth da seguinte forma: a Bíblia

não é a Palavra de Deus em si mesma, mas se torna Palavra de Deus no evento, ou seja,

quando a palavra do homem foi reconhecida e aceita por Deus como uma boa palavra,

no momento em que ela se torna testemunho da Palavra encarnada e passa a ser Palavra

de Deus uma vez que passa a ser divino-humana. A cerca disso ele diz o seguinte:

______________________
25
Barth, Introdução à Teologia Evangélica. p. 23
26
Barth, Church Dogmatics. 2a ed., vol. I.1., p. 101. Minha tradução.
27
Cf. Ibid., p. 101
14

A Palavra de Deus está para a palavra do homem na revelação profética apostólica


das Sagradas Escrituras como a unidade de Deus com o homem em Jesus Cristo.
Ela não é somente divina e nem apenas humana. Também não é u'a mistura das
duas coisas, ou um tertium quid entre elas. Mas em seu próprio modo e grau ela é
verdadeiramente divina e verdadeiramente humana, isto é, um testemunho de
revelação que por si mesmo pertence à revelação, e historicamente um documento
literário verdadeiramente humano.28

Barth não entende que isso seja uma experiência subjetiva no sentido em que ela

se torne Palavra de Deus durante sua leitura, mas que ela se tornou definitivamente

Palavra de Deus. Em si mesma a Bíblia é um conjunto de textos da literatura de uma

cultura antiga. Ela não continua sendo meramente isto por ter se tornado o veículo

revelacional de Deus. Barth diz o seguinte:

Neste evento a Bíblia é a Palavra de Deus. Ou seja, neste evento a palavra humana
do profeta e do apóstolo são uma representação da Palavra de Deus do mesmo
modo que a palavra dos modernos pregadores são no evento da real pregação:
uma palavra humana que tem a autoridade de Deus por trás de si, uma palavra
humana na qual Deus se deu como objeto, uma palavra humana que é reconhecida
e aceita por Deus como boa, uma palavra humana que é dirigida pelo próprio
Deus a nós é um evento. O fato do endereçamento de Deus transformar a palavra
do homem na Bíblia em um evento é, porém, uma obra de Deus e não nossa... A
Bíblia é a Palavra de Deus na medida em que Deus faz dela Sua Palavra, na
medida em que Ele fala através dela... A Bíblia então se torna Palavra de Deus
neste evento, e na declaração que a Bíblia é a Palavra de Deus a pequena palavra
"é" refere-se ao seu ser neste tornar-se. Não se torna Palavra de Deus porque nós a
outorgamos fé, mas no fato de que ela se torna revelação a nós.29

Assim se pode ver que a Bíblia não é a Palavra de Deus em si mesma, mas

tornou-se Palavra de Deus. E quando isso ocorre não é o homem que o provoca, mas

Deus. Não depende da nossa vontade ou da nossa fé, mas de Deus torná-la em revelação

escrita a nós.

Segundo Barth a Bíblia não pode ser a Palavra de Deus em si mesma uma vez

que isto implicaria em dizer que ela é Soberana, Absoluta. Barth declara o seguinte:

______________________
28
Barth, Church Dogmatics, 2a ed., vol. I.2., p. 501. Minha tradução.
29
Barth, Church Dogmatics, 2a ed., vol. I.1., pp. 109, 110. Minha tradução.
15

Que a Bíblia é a Palavra de Deus não quer dizer que com outros atributos a Bíblia
tenha o atributo de ser a Palavra de Deus. Dizer isso seria violar a Palavra de Deus
que é o próprio Deus - violar a liberdade e a soberania de Deus. Deus não é
atributo de outra coisa, mesmo que esta outra coisa seja a Bíblia. Deus é o Sujeito,
o Senhor. Ele é Senhor sobre e Bíblia e na Bíblia. A declaração de que a Bíblia é a
Palavra de Deus não pode então dizer que a Palavra de Deus está amarrada à
Bíblia. Pelo contrário, o que deve dizer é que a Bíblia está amarrada à Palavra de
Deus.30

Ainda com respeito a isso C. A. Baxter diz o seguinte:

Se Barth é um teólogo Bíblico certamente não o é no sentido de levar a sério as


Escrituras a fim de descobrir os eventos através dela. A razão para isto está na
convicção de Barth de que o evento em si mesmo não é revelação, mas o evento
testemunhado pelo texto pode ser revelação. Seus comentários sobre Jesus tornam
este ponto claro: "Jesus Cristo é de fato o Rabbi de Nazaré o qual é difícil de ser
conhecido historicamente e que opera quando é conhecido, e que pode ser um
tanto quanto trivial compara-lo com outros fundadores de religiões e com os
últimos líderes da Sua própria religião". Realmente Barth mostra que "milhares
podem ter visto e ouvido o Rabbi de Nazareth. Mas este elemento "histórico" não
foi revelação... Este elemento "histórico", assim como tudo que é "histórico" neste
nível, está aberto às mais triviais interpretações.31

A ortodoxia do século XVII crê que a revelação de Deus é, num certo sentido,

separada dele. Sabemos que Barth reagiu ao velho liberalismo e tentou retornar ao

pensamento dos reformadores. No entanto, o conceito de revelação que ele apresentou

na segunda fase do seu pensamento (1919-1930) parece não corresponder à referida

tradição. O problema das fases do pensamento de Barth é muito importante para a

compreensão desta questão. Trataremos do assunto mais pausadamente no próximo

capítulo. Nesta fase Barth afirma que a revelação é o próprio Deus. A respeito disso

encontramos um texto no qual ele diz o seguinte:

Estávamos falando da revelação. Não pudemos falar dela sem já antecipar o


aspecto mais importante da questão da natureza e do teor da revelação. Qual a
razão daquela certeza, daquela unicidade (Einmaligkeit)? Porque é que na
revelação se realiza essa inaudita separação e ao mesmo tempo relação entre Deus

______________________
30
Barth, Church Dogmatics, 2a ed., vol. I.2, p. 513. Minha tradução.
31
Christina A. Baxter, "A Truly Biblical Theologian?". Tyndale Bulletin 38 (1987): 13. Minha tradução.
16

e o ser humano? É que revelação - aquilo que aconteceu aos profetas e apóstolos
como revelação - não é nada menos que o próprio Deus.32

Esta idéia de Barth já pode ser vista de modo diferente e mais desenvolvido em

outra fase do seu pensamento (1930-1961), a saber, a fase principal da produção da

Dogmática Eclesiástica: "Deus se revela. Ele se revela através de si mesmo. Ele se

revela. Se nós realmente queremos entender revelação quanto ao seu assunto, isto é,

Deus, então a primeira coisa que precisamos nos dar conta é que seu assunto, Deus, o

Revelador, é idêntico ao seu ato de revelação e também idêntico aos seus efeitos.33

Sendo assim, dizer que a Bíblia é a Palavra de Deus, Sua revelação, seria o

mesmo que dizer que a Bíblia tem os atributos de Deus e redundaria em bibliolatria.

Em suma, a Bíblia não pode ser, em si mesma, a Palavra de Deus (e a Palavra de

Deus por excelência) porque, se o fosse, limitaria Deus. Ainda que a Bíblia seja a

Palavra de Deus escrita, a Palavra de Deus não pode ser aprisionada à Bíblia, da mesma

forma que a Bíblia não pode impor limites à absoluta liberdade de Deus. A Bíblia torna-

se a Palavra de Deus escrita quando o evento revelacional ocorre pela soberana ação de

Deus (Ao menos a partir da terceira fase do pensamento de Barth). Este evento

revelacional é o evento Jesus Cristo, e a Bíblia, enquanto testificadora deste evento,

torna-se também Palavra de Deus.

3. Revelada

A última das três formas da Palavra de Deus formulada por Barth é a revelada. É

______________________
32Karl Barth, God in Action. (New York: Round Table Press, 1963), p. 13. Minha tradução.

33Barth, Church Dogmatics. 2a ed., vol. I.1., p. 296. Minha tradução.


17

característico da teologia de Barth concentrar-se na Palavra encarnada, ou seja, Cristo,

quando fala de revelação ou da Palavra de Deus. Temos visto Barth dizer que a

revelação é idêntica a Deus e que Sua Palavra é Cristo. Ele diz o seguinte: "Cristo é a

verdadeira 'Palavra de Deus' que jamais passará e que permanecerá para além dos céus e

da terra (Mat. 24, 35: I Pe. 1, 25 etc.)34

Neste ponto vemos que há uma diferença entre as duas formas anteriores e a

presente. Tanto a Palavra escrita quanto a pregada se tornam de uma vez por todas a

(efapac) Palavra de Deus através de um ato especial Seu, mas a Palavra revelada

nunca se torna Palavra de Deus, pois ela é, em si mesma, a Palavra de Deus. Esta

Palavra de Deus revelada é testemunhada pela Bíblia e pregada pela igreja. Barth diz o

seguinte sobre isso:

A Bíblia é o meio concreto através do qual a igreja relembra a revelação passada


de Deus, é chamada a esperar Sua revelação futura, e é chamada, guiada e
autorizada a pregar. A Bíblia, então, não é em si e como tal a revelação passada de
Deus, nem tão pouco a pregação da igreja é em si a expectativa da revelação
futura. A Bíblia, falando-nos e sendo ouvida por nós como Palavra de Deus, traz o
testemunho da revelação passada. A Pregação, falando a nós e sendo ouvida por
nós, promete a revelação futura. A Bíblia é Palavra de Deus quando realmente traz
o testemunho da revelação, e a pregação é Palavra de Deus quando realmente
promete revelação. A promessa na pregação, porém, se baseia na atestação da
Bíblia. A esperança da revelação futura se baseia na fé que aconteceu de uma vez
por todas. Assim, a decisiva relação da igreja com a revelação é sua atestação pela
Bíblia. Sua atestação! Uma vez mais, a Bíblia não é em si e como tal a revelação
passada de Deus. Como é a Palavra de Deus que suporta o testemunho à revelação
passada de Deus, e é a revelação passada de Deus na forma de atestação.35

Nas palavras de Barth pode se perceber que ele enfatiza o fato de que a Bíblia

em si mesma não é a revelação de Deus em nenhum sentido. Ele afirma que ela é a

atestação da revelação passada e reafirma que é apenas atestação. Isto é, nem a

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Karl Barth, Carta aos Romanos. (São Paulo: Novo Século, 1999), p. 140.
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Barth, Church Dogmatics, 2a ed., vol. I.1, p. 111. Minha tradução.
revelação passada de Deus pode se dizer que a Bíblia seja.
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Em sua obra intitulada God in Action, Barth ilustra a relação entre a revelação e

a atestação com a seguinte alegoria:

Num campo de batalha (isto é, não é um gabinete, nem um palco, mas o campo de
batalha da vida humana) sucedeu (sucedeu sem sombra de dúvida e em caráter
irrevogável, como toda a unicidade [Einmaligkeit] e gravidade de um evento
factual) que o inimigo (o inimigo, o outro, não o próprio ser humano, mas seu
oponente, um adversário que está disposto a lidar com o homem) com supremacia
extrema (o evento é provocado por sua intenção e disposição e não do ser
humano) tomou a iniciativa (não nos perguntam se queremos entrar em disputa
com ele nem de que forma, porque a contenda já está em pleno andamento). Esse
evento é revelação de Deus ao homem, e quem não entendê-la como tal não sabe
o que está dizendo ao levar à boca a palavra revelação.
Precisamos continuar a alegoria. Da tropa que está na vanguarda (não de um
grupo de literatas e pensadores, não daqueles que têm tempo para contemplar as
coisas do homem, nem tão pouco de quaisquer pessoas que se ocupam com seus
próprios atos e padecimentos, mas de batalhadores que estão enfrentando esse
adversário cara a cara) chega o informe (não um sistema teórico nem tão pouco
uma apreciação estética, nem um programa de trabalho, mas um informe
apressado e objetivo) comunicando esse ataque (não se trata de um comunicado
sobre o bem ou mal estar daquela tropa, nem tão pouco ele fala da existência ou
da essência do adversário, mas simplesmente se informa: ele nos atacou) ao
reforço que está de prontidão na retaguarda da frente da luta (o informe não se
destina a um grupo de jornalistas ou quaisquer aventureiros, e sim mais uma vez a
uma tropa que, como aquela, está ali para enfrentar o inimigo). Aquela tropa já
atacada pelo inimigo são os profetas e apóstolos, e seu informe para o reforço que
ainda se encontra na retaguarda é a Escritura Sagrada. Não se entenderá aqueles
homens nem tão pouco este livro caso se entende-los de outro modo.
Completemos o quadro: A chegada desse informe à retaguarda significa
naturalmente (exclui-se de saída qualquer discussão sobre a significação prática
desse informe) a necessidade (não a possibilidade, mas a necessidade que se
expressa em determinadas ordens imediatas) de levantar-se, pegar as armas,
reunir-se, marchar para a frente (tudo isso com rapidez e energia tanto maiores
quanto maior a supremacia do inimigo a atacar, quanto mais iminente o perigo na
vanguarda).
Esse reforço convocado através do comunicado que chega é a igreja que ouve a
Escritura Sagrada. E este momento, o momento do chamado, ou seja, da decisão,
da resolução, da ordem e da obediência é o nosso momento, o momento da
confissão. Estamos chamados a acorrer para ali onde estão os profetas e os
apóstolos. Eles estão face a face com o DEUS que chega. Eles nos conclamam a ir
ter com eles, não em função deles mesmos, mas do Deus que vem. A equipe que
os ouvir e se põe a caminho é a igreja, a igreja confessante. A igreja que

seriamente pretendesse entender-se de outro modo, deixaria de ser interessante.36


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Barth faz algo semelhante com a pregação da igreja dizendo que ela promete a

revelação futura. Assim, a única Palavra de Deus em si mesma é a Palavra revelada, pois

está presente no evento de Cristo sendo assim idêntica ao próprio Deus de modo que

Deus seja não apenas o revelador, mas também o objeto da própria revelação, bem

como a revelacionalidade, termos que Barth considera análogos à Trindade: Deus Pai, o

Revelador, Deus Filho, o objeto da revelação (o revelado) e Deus Espírito Santo, a

revelacionalidade. É verdade que a tríade da Palavra de Deus é inseparável, as três

formas estão intimamente ligadas, mas se pudéssemos identificar uma como sendo a

mais importante, com certeza seria a terceira.

Com toda certeza acabamos de chegar ao ponto central da doutrina da Palavra de

Deus desenvolvida por Barth. Barth concentra suas consideração na Revelação de Deus,

ou seja, Jesus Cristo. Para Barth, Jesus Cristo é inquestionavelmente a única Palavra de

Deus em si. Ele é a única eterna e viva Palavra de Deus. A Bíblia torna-se a Palavra de

Deus, a pregação torna-se a Palavra de Deus, mas com Cristo não é assim. Ele não se

torna Palavra de Deus dependendo de fatores. Cristo é a Palavra de Deus uma vez que

Ele é o próprio Deus.

Diante de tudo o que já foi exposto podemos falar ainda de uma natureza da

Palavra de Deus? Podemos definir o que é a Palavra de Deus? A este respeito temos a

seguinte declaração de Barth com a qual encerraremos o presente capítulo:

O que Deus e Sua Palavra são nós não podemos definir olhando para trás e com
isso prevendo. Isto é algo que o próprio Deus deve nos contar. Mas não há
conhecimento humano que corresponda a este falar divino. Em seu divino falar há
um encontro e um relacionamento entre Sua natureza e o homem, mas não o

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Barth, God in Action, p. 4 -7. Minha tradução.
assumir da natureza de Deus pelo conhecimento do homem, somente um puro
falar divino. Neste falar divino o conhecimento de Deus e Sua Palavra são reais
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com o Deus conosco. Somente assim, isto é, com fé na Palavra de Deus, nós
podemos dizer que Deus é: Ele é o único Deus, Pai, Filho e Espírito Santo. E
somente assim, isto é, tendo consideração para com a realidade da igreja na esfera
em que pensamos, podemos dizer que a Palavra de Deus é que nos leva a
recordarmos e esperarmos aqui, a única Palavra de Deus: Pregação, Escritura e
Revelação. Mas naturalmente, como na fé nós conhecemos quem Deus é podemos
e devemos dizer como Ele é, assim como há na base da doutrina da Trindade a
doutrina dos atributos nos quais é manifestada a natureza de Deus que está
escondido de nós, que não pode ser previsto ou repetido em alguma palavra
humana, que não pode ser adequadamente representado em alguma Palavra
humana, assim, como nós sabemos o que a Palavra de Deus é, isto é, como nós
conhecemos suas três formas, nós também podemos dizer como ela é, em que
sucessão de determinações ela é esta Palavra, a Palavra de Deus, falada a nós
nestas três formas. Assim nós podemos certamente dizer o que Palavra de Deus é,
mas nós devemos dize-lo de modo indireto. Nós precisamos lembrar as formas
nas quais ela é real a nós e aprender destas formas como ela é. Esta é a atingível
reflexão humana do inatingível divino O Que. Nossa preocupação aqui deve ser
com esta reflexão.37

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37
Barth, Church Dogmatics, 2a ed., vol. I.1, p. 132. Minha tradução.

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