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APRESENTAÇÃO

Escrevi este texto para que os estudantes que


fizeram e fazem Faculdades Teológicas possam
dispor de um resumo sobre o assunto.
O leitor deve levar em conta que escrevo para um
público que busca formação Teológica, e por isso o
material será melhor aproveitado com a explanação
do docente durante as aulas.
Agradeço aos meus amigos estudantes que
durante os últimos anos, sem que o soubessem, através
de perguntas e críticas, mostraram-me o que lhes
interessavam.

Dejá,

o Autor

Dúvidas e Colaboração
Entre em contato conosco.

Fone: (86) 323-4744


Email: mvcferreira@bol.com.br
Se não houver um Deus para
testemunhar nossos momentos de
solidão angustiante, para ser
testemunha dos nossos momentos de
choro escondido e sozinho, será uma
grande injustiça. E isto seria razão
bastante para que o mundo não
tivesse sido criado.
Sumário

Apresentação 01

Teologia e Religião 08

Seita 06

A Religião entre os Nômades 08

Doutrinas Sobre a Origem da Religião. .. . .. . .. . .. .. . . .. ... ... . ... 12

Teoria Sobre a Origem da Religião 14

O estudo cientifico da Origem da Religião 16

O animismo de Edward Tylor .. .. . .. . ... . .. ... . .. . .. .. . .. . .. . ... ... 19

o Monoteísmo Primitivo 21

Max Muller e o Método Filológico 23

Glossário 24

Bibliografia 27

Anexo 28
Saudação ao amanhecer

Concentra-te neste dia que desponta!


Pois ele é a vida,
A própria vida em seu breve curso.
Jazem nele todas as verdades e realidades
Da tua existência:
A felicidade de crescer,
A glória de agir,
O esplendor da beleza;
Pois o dia de ontem é apenas um sonho
E o amanhã uma visão,
Mas o dia de hoje, bem vivido,
Toma cada dia passado um sonho de felicidade
E cada manhã uma visão de esperança.
Concentra-te, por tanto, neste dia!
Neste dia maravilhoso que desponta.

Do Sânscrito, Autor desconhecido, ano 300


Tópico - Fascículo 1 ProfO. Marcus Vinícius

TEOLOGIA E RELIGIÃO
Teologia: A palavra "teologia" compõe-se de dois termos
gregos THEOS(Deus) e LOGOS( estudo, doutrina, discurso).
Etimologicamente, portanto, teologia significa o estudo racional
sobre Deus, ciência de Deus ou estudo das coisas divinas. Uma
definição mais completa, suficiente para todos os efeitos práticos
seria: Teologia é a ciência que trata do estudo de Deus e de suas
relações com o homem, o universo e a verdade religiosa.
Religião: O ser humano é essencialmente religioso. Estudos
mostram que não há e nem houve povo algum sem religião.
Religião deriva do termo latino Religio, que produziu religare. Re
e
(outra vez, de novo) ligare (Ligar, unir, vincular).
Religião é o conjunto de atitudes e atos pelos quais o homem
manifesta sua dependência em relação ao invisível (sobrenatural).
No dizer de Rubem Alves, religião é a memória de uma unidade
perdida e a nostalgia por um futuro de reconciliação.
A palavra "religião" tem as seguintes acepções:
· Etmologicamente. Vem do termo latino re-ligare, ou seja,
ligar novamente. Interpretado pela literatura clássica, pelo
Tomismo e pelo Agostianismo como prender o indivíduo a
determinada fé e moral. Cícero afirma que vem do verbo re-
legere(reler) e pois, significa uma atitude de reflexão diante da
divindade, que determina um comportamento respeitoso e
submisso.
· Biblicamente. No antigo testamento não há termo próprio.
O sentimento é traduzido por temor, obediência, amor, enquanto a
prática como observância da lei.
· Uso lingüístico. Os romanos empregavam o termo religio
como o cumprimento exato de todos os deveres em relação aos
múltiplos e altos poderes superiores.
· Filosoficamente. A religião é vista a partir das posições
epistemológicas de cada corrente filosófica.
· Psicologicamente. A religião é uma atitude de reação do
homem frente a contingência e a relatividade do mundo, que o leva
a refugiar-se em um absoluto do tipo sacral.

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Tópico - Fascículo 1 ProfO. Marcu$ Vinícius

· Sociologicamente. A religião identifica-se com as


estruturas criadas pela sociedade (sacerdócio, culto, doutrinas).
· Teologicamente. A religião pode ser identificada como a
fé ou contraposta.
· Fenomenologicamente. A religião identifica-se com o
culto prestado ao sagrado, quer este seja concebido como ser
transcendente, antropomórfico ou impessoal.
A teologia distingue-se da religião. Enquanto a teologia é o
conhecimento de Deus, a religião é a prática da vontade de Deus.
Observe que é perfeitamente possível ser religioso sem ser
teólogo, e ser teólogo sem ser religioso. O ideal é que se tenha
conhecimento e a práticajuntos.

SEITA
A origem do termo é o latim secta (sistema de vida, modo de
proceder, princípios, modo, maneira, partido, causa, escola
filosófica). Alguns ligam o vocábulo ao verbo sequi (seguir, ir
atrás de) e outros ao verbo secare (cortar, separar).
No latim clássico significa qualquer grupo ou movimento
cultural em busca de chefia. Em religião de modo particular, o
termo indica a facção dentro de uma igreja organizada.
Para a Igreja Católica, é seita toda comunidade dissidente
formada por exclusão de uma comunidade maior e mais antiga,
portanto, todo grupo que se tem separado dela por negação de um
dogma (heresia) ou por desobediência (cisma). Para os
protestantes - entre os quais é muito maior o número de seitas -
seita significa qualquer grupo dissidente ou não conformista.
Graças a estudos de Emst Troeltsch (1912), e Reinhold
Niebur(1929), o termo adquiriu definição mais precisa e
sociológica significando todo o grupo cismático nascido dentro da
igreja organizada e desenvolvendo-se em oposição a ela.
Obedecendo a uma autoridade carismática, a seita regula-se pela
interpretação literal dos textos sagrados, com ênfase e fundamento
nas doutrinas desprezadas pela igreja a qual pertencia, e é
fortemente mística, missionária e de caráter messiânico e
escatológico, a sua oposição alcança igualmente os valores
culturais e, não raro, os costumes vigentes, numa atitude de
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Tópico> Fascículo 1 Prof'. Marcus Vinícius

protesto contra a ordem estabelecida. A seita é em tese anti-igreja e


anti-mundo, é um movimento leigo sem clero, predominando um
espírito comunitário.
A distinção entre igreja e seita foi colocada pela primeira vez
por Weber e Troeltsch, que viam o cristianismo como expressão de
uma dialética interna entre o espontâneo e o institucional. O
protesto sistemático de pequenos grupos dentro da estrutura
eclesiástica, em geral de leigos, acompanha toda a história da
Igreja Cristã, desde a sua origem, tomando-se mais intenso em
período de crises sociais.
Troeltsch, para definir os termos de suas observações,
examinou elementos como a família, a atividade econômica,
política, poder, a atividade intelectual e suas tendências na história
tanto em termos de compromissos com a cultura e sociedade
seculares, como em termos de rejeição a determinados aspectos
culturais e instituições desta mesma sociedade. Como
conseqüência ele determinou dois tipos sociológicos opostos:
· À Igreja - Relaciona-se com a sociedade como um todo,
absorve suas características, e liga-se às classes dominantes. A
igreja por meio de uma estrutura complexa, exerce
concomitantemente funções teológicas e sociológicas (dogma-
hierarquia) em harmonia com expressões políticas e culturais da
sociedade.
· A Seita - Adota atitude de indiferença, rejeição ou
animosidade frente ao Estado e a sociedade, mas este fato não
exclui a prosperidade econômica de certas seitas, dedicando-se
principalmente ao comércio já que seus membros ficam excluídos
da vida pública. As seitas podem oferecer dois tipos de reações: a
oposição militante (polêmica), e uma atitude passiva (isolamento).
Niebur que desenvolveu a concepção de Troeltsch, vê a seita
como expressão mais geral das minorias étnicas, grupos
migratórios, e também, como ponto de partida para uma ascensão
social. Observou que a seita, pela sua natureza dinâmica, vale
unicamente para uma geração transformando-se muitas vezes em
igreja. Segundo um sociólogo inglês as seitas se dividem em
quatros espécies:
· Conversionistas - Fundamentalmente evangélica, sua
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Tópico - Fascículo 1 ProF. Marcus Vinícius

ênfase situa-se na interpretação literal da bíblia.


· Revolucionistas - Voltam-se para a exegese profética, para
a hostilização da sociedade global.
· Introversionistas - Caracterizam-se pelo afastamento do
mundo procurando cultivar sua própria santidade interior
(movimentos pietistas).
· Manipulacionistas - Seu objetivo principal é oferecer
apoio a seus membros, que podem atingir metas aprovadas pela
sociedade global.

A RELIGIÃO ENTRE OS NÔMADES

Um fato amplamente documentado é a impressionante


similitude entre os comportamentos religiosos que se verificam
por todas as culturas hoje existentes. A partir dessa evidência, os
fenomenologistas da religião sempre procuraram traçar o perfil
religioso da humanidade como um todo.
Em 1985 M. Gauchet teve a coragem de elaborar uma história
bem ampla da religião como fenômeno humano tomado em sua
totalidade. Ele apresenta uma visão de conjunto da história da
religião desde seu início até hoje, e isso por si só merece aplausos,
pois esclarece uma série de questões. Para podermos acompanhar
as reflexões de Gauchet, como faremos, temos que ocupar um
ponto de vista bem panorâmico para podermos enxergar a
amplitude do espaço cultural que se abre diante de nós.
Damos primeiramente de forma sumária as teses básicas de
Gauchet acerca das religiões por ele qualificadas de "primeiras",
isto é, próprias de populações não-urbanizadas, ou seja, tribais. O
leitor certamente compreenderá que nossa apresentação deve ficar
sumária por causa dos limites impostos num trabalho como este.
A religião continua sendo até hoje uma constante na história
das sociedades humanas. Mesmo assim seria imprudente afirmar
que ela não esteja sujeita, como tudo que é humano, às vicissitudes
históricas. Temos que reconhecer que até hoje a humanidade
"quer" a religião, faz questão da religião, embora possa
perfeitamente continuar a subsistir sem ela, tanto no nível
biológico como econômico, político e social. A religião se nos
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Tópico - Fascículo 1 Prof", Marcus Vinícius

apresenta como exigência cultural básica. Por que?


O homem escolhe a religião para lidar com problemas vitais,
ou seja: o religioso representa para ele a vestimenta de uma
estrutura antropológica mais profunda. Assim ele luta através da
religião com problemas de vida e de morte, doença e saúde,
injustiça e dominação, marginalização e isolamento, solidão e dor,
insegurança e solidão.
Ao que tudo indica, a história da religião no nosso planeta se
processou até hoje basicamente através de três etapas: a etapa da
"religião primeira" dos nômades, que cobre centenas de milênios
da história humana e é, por conseguinte, a etapa mais longa. Nela a
religião impera soberana na vida humana. A segunda etapa é
caracterizada pela interferência do Estado no campo religioso;
interferência corrosiva que libertou importantes setores da vida
humana da empresa que a "religião primeira" tinha exercido antes
sobre os corações e as mentes. A terceira etapa seria a do
cristianismo que através das idéias de encamação, salvação e
ressurreição liberou um poderoso dinamismo no sentido de fazer
com que o homem assumisse sua história, aqui e agora, sem
recorrer aos deuses para encaminhar seus problemas. Essas seriam
basicamente as etapas da "economia da religião" na história da
humanidade até nossos dias.
Vejamos algumas das características da "religião primeira",
ou seja, a religião antes do surgimento do Estado. Encontramos em
primeiro lugar a experiência da fragilidade.
Como já sabemos, as culturas pré-urbanas, desde os
"australopítecos" no sul da África, fizeram a experiência da
fragilidade e da pequenez do homem diante de uma natureza
envolvente. O grande desafio era a natureza, não era de ordem
política, mas sim ecológica. Como sobreviver? A questão era de
uma atualidade constante e a religião era a tradução intelectual
desses questionamentos feitos diante da força soberana da
natureza. A função básica da religião nessas circunstâncias era a do
consentimento, da integração na natureza, da harmonia, da
adaptação, e nem tanto da superação, da transformação da
natureza, da "revolução".
É dificil para nós entrarmos na lógica da "religião primeira".
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Tópico - Fascículo 1 ProF. Marcus Vinícius

Nossa postura hoje é uma postura conquistadora: queremos


perscrutar, analisar, entender, para depois agir sobre a natureza no
sentido de subjugá-Ia. Os primeiros filósofos gregos já nos
ensinaram a abandonar essa postura conquistadora para assumir
uma postura antes contemplativa e assim entender melhor o que se
passa realmente. Os nômades se posicionavam segundo as
recomendações da filosofia: para eles tratava-se de receber o que
era transmitido pelos canais da tradição, obedecer, seguir. Não há
nada de individualismo no pensamento da "religião primeira". A
prevalência de um passado fundador das coisas imutáveis inibe a
iniciativa humana no sentido de mudar. Depender, permanecer,
seguir, ouvir são as disposições básicas dessa primeira forma de
viver no mundo, e a religião exprime isso perfeitamente.
Um segundo aspecto que caracteriza a "religião primeira" é o
medo da novidade. O homem entra na história por assim dizer "de
costas". Ele tem medo do novo e quer se agarrar às seguranças do
passado. Não é assim que ele nasce, sem nada para se agarrar senão
o que vem do passado? A referência básica da "religião primeira" é
o passado. Lá se encontram as lições para a vida. As novidades são
encaradas com desconfiança. Não há história propriamente dita, há
cópia do passado, tradição. Ninguém se atreve a fazer senão o que
todos fizeram desde sempre. Os heróis fundadores são evocados
em ritos e mitos, longas repetições de um passado sempre revivido
na boca e nos gestos dos contemporâneos. O tempo é por
conseguinte um "sempre-já-acontecido". Não há idéia de
progresso nessa primeira fase da religião. Com ela estamos no
reino absoluto do passado. Esse passado mítico - ou seja,
transmitido de geração em geração através da palavra e dos gestos
que o evocam - é o grande ponto referencial da vida. A vida não faz
senão repetir o passado num ciclo eterno. O presente é pura cópia
do passado, e por conseguinte a obediência - no seu sentido mais
original - é a alma da vida. Não obediência fundada numa
imposição de tipo social, mas como pura decorrência do
sentimento de impotência diante da natureza. Mesmo assim
emerge de vez em quando um "nunca - acontecido - antes", uma
novidade. E assim vem, a certo momento, depois de séculos e
milênios, o Estado.
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Tópico - Fascículo 1 ProF. Marcus Vinícius

Um terceiro aspecto da religião nas suas primeiras formas é a


ausência de um sacerdócio oficial. Na "religião primeira", a dos
nômades, ninguém tem propriamente poder religioso. Ninguém
fala em nome de Deus nem dita leis em nome dele. A falta
completa de poder que o homem experimenta proíbe esse tipo de
postura. Num sistema de igualdade política fundamental a chefia é
baseada na autoridade, no prestígio, na sabedoria ou na
experiência, mas nunca num "status" dado pela organização a
alguém acima de seus pares. Por isso a religião primeira teve uma
vida tão longa e até hoje resiste em diversos setores da sociedade,
além de exercer um fascínio sobre o homem em geral: porque ela é
profundamente humana. Ela traduz em termos de adoração e de fé
a nossa comum experiên'cia de fragilidade, a grande experiência do
corpo frágil, anônimo e medroso num mundo que o excede e
envolve.
Diante do que foi exposto aqui salta aos olhos a atualidade da
"religião primeira". Muita coisa dela, mais do que se pensa
comumente, sobrevive entre nós no bojo do cristianismo. O que
nós hoje chamamos de espiritismo ou ainda animismo é em grande
parte sedimentação dessa longa história de milênios de vida
nômade na mente e nos costumes do povo, que em regiões da
América Latina não fica distante de nós mais que alguns decênios
ou um século. Como se admirar nessas condições que muitas
atitudes inculcadas durante milênios permaneçam quase intactas?
Quantas pessoas não pensam, por exemplo, que o homem afinal de
contas não é capaz de decidir nada na sua existência, que tudo
depende da sorte, ou da "sina", ou da boa ou má "estrela"? Quantos
não pensam que a humanidade é regida por uma ordem
permanente e inatingível? Quantos não pensam e dizem que nós
temos que imitar o que os mais velhos nos ensinaram e que nisto
consiste a vida bem vivida: em imitar os mais velhos e lhes
obedecer? Ora, essas e outras idéias são expressões genuínas da
"religião primeira" que sobrevive entre nós nas formas as mais
variadas e originais da religião popular da atualidade.
O Sol - A religião chamada "primeira" não era só "ctônica"
(do grego: ctonos = terra), mas também "urânica'' (do grego:
uranos = céu). Ora, o astro mais importante do céu é o sol, ao que
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Tópico - Fascículo 1 ProF. Marcus Vinícius

tudo indica, o monoteísmo tem muito a ver com a religião do sol. O


sol único resulta numa religião única, que por sua vez unifica os
povos. O faraó Akhenaton, no século XIII antes da era cristã,
escreveu um hino ao sol. O cristianismo, por sua vez, mantém
sólidas bases na religião do sol. A festa mais popular do
cristianismo, o natal, originou-se como uma festa celebrada nas
regiões frias da Europa no momento em que o sol ameaçava
abandonar o nosso planeta, no solstício do inverno (21 de
dezembro). Essa festa ancestral foi retomada pelo Império
Romano como festa ao "sol invictus" ( .0 sol que não se deixa
vencer pelas forças das trevas) e no cristianismo como festa do
nascimento de Jesus, o "sol" dos cristãos.

DOUTRINAS SOBRE A ORIGEM DA RELIGIÃO

A doutrina da origem divina


Expressa o valor absoluto ou infinidade da própria religião.
Toda religião estabelece como funcionamento próprio uma
revelação originária que garanta a sua verdade.
· Os egípcios criam que o terceiro capítulo dos livros dos
mortos havia sido achado originalmente debaixo de uma estátua do
deus Thoth que era o deus da sabedoria e da arte, o qual é
reconhecido como fonte de revelação divina na literatura
hermética, no juízo dos mortos ele era encarregado de dar o peso
do coração.
· No aleorão estão as revelações de Ála a Maomé.
Os Gathas são revelações de Ahura Mazdah a Zoroastro.
Os Upanishades são sruti (escritos revelados).
As doutrinas budistas são revelações de Buda.
Iavé revelou a Torah a Moisés e se serviu em certas
ocasiões de profetas para comunicar a sua vontade.
· Cristo é a revelação de Deus.
"O universo é uma atividade ininterrupta que revela a cada
momento toda forma, todo ser, ao qual ele dá uma existência
particular, todo acontecimento e fato gerado em seu seio sempre
rico e fecundo, é uma ação que ele exerce sobre nós; e portanto,
aceitar toda coisa particular como uma parte do todo, toda coisa
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Tópico - Fascículo 1 Prot". Marcus Vinícius

finita como expressão do infinito, nisso é que consiste a religião."


(Schleiermacher)
A doutrina da origem política
Esta doutrina defende a tese de que a religião é um
estratagema político, apesar de parecer produto recente do espírito
humano, esta doutrina foi sustentada pela primeira vez por Crítias,
um dos trinta tiranos de Atenas.
"Os antigos legisladores fingiram a divindade como um
inspetor e fiscal das ações humanas, quer das boas, quer das más,
afim de que ninguém praticasse a ofensa ou traição para com o seu
próximo, com medo de uma vingança dos deuses". Este
estratagema tornou-se necessário pelo fato de que "as leis
realmente dissuadiam os homens de praticar violências claras, mas
eles as cometiam as escondidas", de maneira que, "algum homem
talentoso e experimentado inventou para os homens o temor dos
deuses, afim de que houvesse um espantalho para os malvados,
para aquilo que às escondidas eles fariam, diriam ou pensariam".
A doutrina da origem humana
Esta doutrina defende a idéia de que a religião seria mais
contemplativa que prática, tem suas raizes na situação do homem
no mundo. A religião é considerada como uma forma de satisfação
da necessidade de conhecimento, de explicação aos fenômenos
observáveis.
O Epicurismo vê no homem a origem do espírito religioso.
Epicuro (341-270 A C) nasceu na Ática, foi levado bem cedo para
Samos e mais tarde para Atenas onde aos 36 anos, fundou uma
escola de filosofia. Os seus discípulos em especial Metrodoro,
ressaltaram como ponto básico da doutrina, a procura do prazer,
comprometeram o epicurismo como se fosse sinônimo de volúpia.
São suas idéias centrais:
· Sensismo. A sensação é o critério da verdade e o critério
dobem.
· Atomismo. A união e a separação dos átomos explica a
formação e a mudança das coisas. A sensação provém das ações
dos átomos das coisas sobre os átomos da alma.
· Semi-ateismo. Os deuses existem, mas não tem nenhuma
parte na formação e governo do mundo. A origem da religião está
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Tópico - Fascículo 1 Prof", Marcus Vinícius

na necessidade de explicar a regularidade dos movimentos celestes


e nas imagens dos movimentos celestes.
. Moral. O Homem é virtuoso e feliz quando com um
mínimo de sofrimento, atinge o máximo de prazer. Prazer
dinâmico: (prazer dos sentidos, efêmeros e traz condenação);
Prazer estático: (prazer intelectivo, calmo, espiritual que conduz a
ataraxia, derivado do domínio sobre as paixões ou da extirpação
desta).

TEORIAS SOBRE A ORIGEM DA RELIGIÃO

Teoria do medo (Sobrenatural) - Teoria mais antiga,


sustenta que o medo das forças naturais levou o homem a crer em
divindades, forças misteriosas, sobrenaturais, com o poder de
dirigir a natureza. A gênese das crenças religiosas seria o medo do
sobrenatural.
Segundo Muller, defensor recente desta teoria, são as
realidades naturais que fazem a compreensão do homem, as que
produzem a idéia do infinito e o material com o qual se constrói a
realidade.
Teoria Aminatista (Mana) - Mana é um termo usado pelos
Melanésios e Polinésios, designa uma força impessoal e ao mesmo
tempo material e espiritual, difundida por todas as partes, comum
aos símbolos sagrados, aos seres e objetos.
O Missionário Inglês Codrington, que foi o primeiro a
estudá-Io, diz que Mana "é uma força, uma influência de ordem
imaterial e em certo aspecto sobrenatural; mas que se revela pela
força física ou pelo poder ou superioridade que o homem possui. O
Mana pode existir em qualquer espécie de coisas ...toda religião do
Melanésio consiste em alcançar o Mana, seja para dele beneficiar-
se pessoalmente, ou para fazer outrem dele aproveitar".
Os povos "primitivos", portanto, acreditavam na existência
de um poder impessoal, uma espécie de fluido capaz de penetrar
nos objetos, vegetais animais e pessoas, conferindo-lhe
capacidade e propriedade superiores. Por isso, é que muitos
consideram a existência do Mana fundamental para a formação da
crença religiosa.
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Tópico - Fascículo 1 Prof", Marcus Vinícius

Teoria Animista (Alma) - Amplamente defendida por


H.Spencer e Edward Tylor, explica-se a origem das religiões por
intermédio da crença na existência de um outro "eu", com
propriedades espirituais, que seria a alma dotada de poderes
superiores ao homem. Esta crença baseia-se na existência de
formas imateriais, surgi das em sonhos, ou na diferença entre um
homem vivo e seu cadáver. A morte ocorre quando a alma deixa o
corpo e volta a seu lugar de origem onde residem todos os espíritos
dos antepassados. Estes espíritos podiam entrar no corpo dos vivos
aumentando-lhe a força e vitalidade, ou provocando doenças e
males. Acreditavam que além dos homens, os animais, os vegetais
e as coisas inanimadas também possuíam alma. Para Taylor, o
animismo "abrange os grandes dogmas que constituemjuntos uma
doutrina coerente": primeiro, corresponde as almas das criaturas
individuais, capa de uma existência continuada após a morte ou
destruição do corpo; segundo, refere-se a outros espíritos, até
chegar a divindades poderosas.
Teoria do Totemismo (Totem) - Os complexos totêmicos
variam muito em relação à sua composição concreta. De modo
geral, podem ser considerados como uma crença na descendência
comum dos grupos de um antepassado animal ou vegetal, dando
origem a uma amplitude de reverência para com todos os
representantes desta fauna/flora especifica. O totemismo
despertou uma controvérsia em relação ao seu significado,
designado por alguns autores como fenômeno social e por outros
como fenômeno religioso. Durkheim observou que o conceito de
totemismo e as cerimônias a ele ligadas são as formas elementares
da religião, e com isso deu origem a uma teoria sociológica da
religião.
Teoria Sociológica (magia) - Iniciada por Smith e
amplamente desenvolvida por Durkheim, esta teoria resiste ao
argumento de que a religião se iniciou a partir da crença em seres
espirituais ou deuses, considerava que surgiram primeiro os
ritos/cerimônias, principalmente o canto e a dança que
intensificam as emoções levando-as ao êxtase. Essas emoções,
difundidas em todos os participantes, fazem-nos acreditar estarem
possuídos pelos poderes excepcionais. Essas experiências levaram
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Tópico - Fascículo 1 ProfO. Marcus Vinícius

o homem "primitivo" a crer na existência de um poder


sobrenatural, o mana, simbolizado pelo totem.
Teoria do Elemento Aleatório (Sorte) - Summer e Keller
desenvolveram esta teoria. Consideravam que as tribos
"primitivas" acreditavam ser os poderes sobrenaturais
intimamente ligados ao elemento sorte, devendo o homem atuar no
sentido de obter a atenção favorável desses poderes para evitar a
má sorte e propiciar a boa sina. Desta maneira a religião surge
como uma resposta a uma necessidade defendida, ajustamento ao
meio sobrenatural. O elemento sorte foi denominado como
elemento aleatório, sem o qual a religião poderia não ter surgido,
ou ter se transformado em algo inteiramente diferente.

o ESTUDO CIENTIFICO DA ORIGEM DA RELIGIÃO

Com a progressiva colonização do continente africano, no


século XIX, e a partir dos resultados conseguidos pelas pesquisas
arqueológicas houve um crescente interesse pelo estudo dos
costumes destes povos, em especial pela religião.
Os poucos resultados que hoje podem ser considerados de
certo modo seguros para a história das religiões podem ser assim
resumidos:
· Aparecimento de tumbas de mortos, cujos objetos eram
depositados na sepultura, pela convicção de que os defuntos os
utilizariam depois da morte; existia, por isso, a crença numa vida
depois da morte (época de N eandertal, por volta de 150.000 AC).
· Figuras de mulheres, animais, ..., pintadas ou esculpidas
revelam a existência do culto da fecundidade e de práticas mágicas
com o fim de propiciar a caça (Paleolítico Superior 40.000 AC)
· Aparecimento de crânios pintados com almagre e ocre
abertos para lhe extrair os cérebros, este pormenor parece indicar
um canibalismo cultual (Mesolítico, cerca de 10.000 - 5.000 AC)
Com o tempo, as informações colhidas foram tão numerosas
e variadas que os estudiosos do assunto não puderam mais
contentar-se com a simples anotação dos fatos, surgindo a
necessidade de precisar os métodos de pesquisa e estabelecer os
princípios desta nova ciência.
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Tópico - Fascículo 1 ProF. Marcus Vinícius

Darwin(1839) - Não se preocupou diretamente com o


problema religioso, mas forneceu aos filósofos o princípio de uma
evolução cultural.
Cornte(1842) - O núcleo de sua filosofia é a idéia que a
sociedade só pode ser reorganizada convenientemente através de
uma completa reforma intelectual do homem. O seu pensamento
estrutura-se em três temas básicos:
· Uma filosofia da história - Mostra as razões pelas quais o
pensamento positivo deve imperar na história.
· Uma fundamentação e classificação das ciências - baseada
na filosofia positiva Comte estabelece a seguinte classificação:
Matemática, Astronomia, Física, Química, Biologia e Sociologia.
· Uma Sociologia - determinando a estrutura e os processos
de modificação da sociedade, permite-se a reforma das
instituições.
A abordagem da origem da religião aparece em Comte no
tema da Filosofia da História, que pode ser sintetizada na sua lei
dos três estágios: " Todas as ciências e o espírito humano corno um
todo desenvolvem-se através de três fases distintas: A fase
teo lógica, a Metafisica e a Positiva."
Estado Teológico - O número de observações dos
fenômenos reduz-se a poucos casos e, por isso a imaginação
desempenha papel de primeiro plano. Diante da diversidade da
natureza, o homem só consegue explicá-Ia mediante a crença na
intervenção de seres pessoais e sobrenaturais. O mundo torna-se
compreensível somente através de deuses e espíritos. A natureza
e o homem são subordinados a esses seres, o que desenvolve urna
coesão social fundamentando a vida moral. O estado Teológico por
sua vez divide-se em:
· Fetichisrno - Uma vida espiritual, semelhante a do homem
é atribuída aos seres naturais.
· Politeísrno - Esvazia os seres naturais de suas vidas
anímicas, e atribui a estes seres, a invisibilidade e a habitação de
um mundo superior.
· Monoteísrno - A distância entre os seres e os seus
princípios aumenta ainda mais: o homem neste estágio, reúne
todas as divindades em uma só, etapa de transição ao estado

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Tópico - Fascículo 1 Prof", Marcus Vinícius

metafisico.
Estado Metafísico - Estado de transição para o positivismo.
Concebe forças para explicar os diferentes grupos de fenômenos
em substituição às divindades. Reúne as forças numa só chamada
natureza que equivale ao deus único do monoteísmo.
Caracteriza-se, pela dissolução do teológico, a
argumentação penetrando nas idéias teológicas, traria a luz suas
contradições e substituiria a vontade divina por "idéias" ou
"forças". Destruindo a idéia teológica de subordinação da natureza
e do homem ao sobrenatural.
Estado Positivo - Caracteriza-se pela subordinação da
imaginação e da argumentação à observação, as proposições
positivas devem corresponder a fatos, reconhecendo a
impossibilidade de obter noções absolutas, o homem renuncia a
procura da origem e do destino do universo e o conhecimento das
causas íntimas dos fenômenos, para restringir-se unicamente a
achar pelo uso bem combinado de razão e observação, suas leis
efetivas, isto é as relações invariáveis de sucessão e semelhança.

1. Coloca os fatos observáveis como explicação


2. Subordina a Imaginação e a argumentação a
observação
3. Sua fama política é a república representativa
democrática
4. Busca as leis efetivas, isto é as relações invariáveis
de sucessão e semelhança dos fenômenos
naturais
5. Acredita na ciência como explicação da realidade
f----.....l, .
1. Coloca o abstrato como explicação
2. Usa a argumentação para elucidar os fenômenos
3. Substitui os reis pelos juristas, a sociedade origina-se
de um contrato e baseia-se na soberania do povo.
4. Procura soluções absolutas
5. Procura explicar a natureza íntima das coisas,
origem, destino e causas.
Metafísico
f---------\ ,
1. Coloca o concreto como explicação
2. Usa a imaginação para elucidar os fenômenos
3. Sua forma política é a monarquia aliada a
militarismo.
4. Procura soluções absolutas
Teológico 5. Procura explicar a natureza intima das coisas,
sua origem, destino e causas,

18
Tópico - Fascículo 1 Prof", Marcus Vinícius

As primeiras manifestações do positivismo no Brasil datam


de 1850, mas só em 1876 fundou-se a sociedade positivista do
Brasil, tendo à frente Teixeira Mendes, Miguel Lemos e Benjamin
Constant. Os dois primeiros viajaram para Paris onde conheceram
Émile Litré e Pierre Laffite. Miguel Lemos decepcionou-se com o
"vazio do litreísmo" e tomou-se adepto fervoroso da Religião da
Humanidade, dirigida por Laffite. De volta ao Brasil, fundou a
Sociedade Positivista do Rio de Janeiro, cuja finalidade era
"formar crentes e modificar a opinião por meio de oportunas
intervenções nos negócios públicos", a qual deu origem a Igreja
Positivista do Brasil.
Entre suas intervenções destacam-se a constituição de 1891 e
a proclamação da república em 1889. Por ironia do destino coube
ao Positivismo ao final de sua história transformar-se em
expressão de caráter religioso.
H. Spencer - Adota o princípio evolucionista, propõe o
manismo como origem da relígião, o que só acontece com efeito
nos povos de cultura agrária.
J. Lubbock - Ensina que o primeiro estágio de Augusto
Comte apresenta a seguinte linha evolutiva: Ateísmo inicial,
Xamanismo, Antropomorfismo, e a visão de Deus criador.

o ANIMISMO DE EDWARD TYLOR

o precursor do animismo foi S. Bergier com a obra "Lê


Dieux du paganisme" (Paris - 1767). Desenvolveu ele a idéia de
que, tanto o fetichismo como a idolatria, surgiram da mentalidade
infantil que enche os objetos da natureza de gênios ou espíritos e
assim, os vivifica e os humaniza. Ele porém não deduziu desta
única fonte toda a religião.
Numa conferência em 1867 e, depois, na sua obra sobre a
civilização primitiva, o antropólogo inglês, E.B. Tylor, usando o
material até então acumulado sobre o indígena na África, Ásia,
Oceania e América desenvolveu sistematicamente a doutrina do
arumismo.
O animismo consiste em que: "a inteligência, num estado
cultural pouco desenvolvido, parece que se preocupa
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Tópico - Fascículo 1 ProfO. Marcus Vinícius

principalmente com duas categorias de fenômenos biológicos: em


primeiro lugar, tudo aquilo que constitui a diferença entre um
corpo vivo e um corpo morto: a causa da vigília, do sono, da morte,
da doença, e, em seguida, a natureza das formas humanas que
surgem nos sonhos e nas visões. Daí induzir-se que em cada
homem existe um princípio vital e um princípio fantasma."
Desta forma a crença em seres espirituais é o elemento
comum mais rudimentar de todas as religiões.
· O homem primitivo chegou a crença em espírito tomando
por base uma série de fenômenos que lhe permitem constatar em si
mesmo a presença de uma ação diferente do corpo quando o corpo
está inativo ele a sente em sonhos, no êxtase, na morte ...
Para os Marxista seria preciso que o homemjá estivesse num
estágio bastante avançado para chegar a tal conclusão. Ou seja, o
homem já teria feito a experiência da força vital que sua mão
consegue infundir nos objetos e instrumentos de trabalho.
· Tais fenômenos conduziram a afirmação da existência da
alma. "Para o primitivo, a alma está estritamente ligada ao corpo, a
certas partes do corpo, para os australianos, sobretudo, a gordura
dos rins."
A alma aliás, pode deixar momentaneamente o corpo sem
que este na verdade morra: ela exerce, então, sobre ele, a alguma
distância, uma ação de presença.
A individualidade não se detém na periferia de sua pessoa. A
mentalidade primitiva confunde-a com o próprio corpo, com o que
cresce sobre ele e com o que dele sai: cabelos, pelos, unhas,
lágrimas, urina, excrementos, esperma, suor. .. as práticas mágicas
são feitas nesses resíduos corporais, age sobre a própria pessoa, da
qual são partes integrantes. Daí o extremo cuidado para evitar que
tais coisas caiam em mãos inimigas. Dispor dessas coisas é dispor
da vida (PERTENÇAS).
· A alma então lhe leva a crer na existência de espírito dos
mortos, aos quais considerará como bons ou maus. " A morte
sobrevém porque a alma, princípio da vida abandona
definitivamente o corpo. Entretanto, o espírito do indivíduo
continua ligado ao seu cadáver, com o qual se tem um certo
cuidado para que o defunto com ciúme não se vingue dos vivos. Os
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Tópico - Fascículo 1 ProF. Marcus Vinícius

mortos tem necessidade de comer, beber e de honrarias."


"O mundo dos mortos é o inverso do mundo dos vivos, é da
sua boa vontade que depende a prosperidade do povo."
. O primitivo passou então a atribuir esta mesma presença as
realidades naturais e aos fenômenos especialmente os que
. .
impressionavam.
. Esta crença lhe levou a venerar tais espíritos, o que gerou as
formas mais variadas de politeísmo, que por purificação e
hierarquização dos deuses, se chegou ao monoteísmo que
representa a forma mais evoluída da religião.

o MONOTEÍSMO PRIMITIVO

Contra a teoria do animismo clássico surgiu, uma outra


teoria que, concebendo o desenvolvimento da religião em modo
absolutamente diverso, punha o monoteísmo não no fim, mas no
começo da evolução religiosa; isto era, em substância, um
abandono da posição evolucionista e um retomo às doutrinas da
religião natural.
O autor primeiro de tal teoria foi A. Lang, que depois de ter
sido um ardente discípulo de Tylor, opôs a fórmula de Max Muller
"enfermidade da linguagem", outra, " a enfermidade do espíri to" .
Segundo Lang, não foi o animismo a primeira forma da
religiosidade, mas um rudimentar monoteísmo (pré-animismo),
fundada sobre a crença de um ser supremo, concebido como Pai
Universal (All-Father) e como criador. Esta crença deveria ser
comum a toda a comunidade primitiva. A fase politeísta da religião
representaria um regresso em face da primitiva concepção de um
único ser supremo.
Wihelm Schmidt confirmaria ao largo de toda a sua extensa
obra a validade do trabalho de Lang, com material tomado
praticamente de todas as áreas culturais ele conclui que os povos
mais primitivos e daí os mais antigos, conservam a idéia de um Ser
Supremo, um culto simples e puro a ele dirigido, uma ética
bastante elevada e posta em estreita relação com a religião, ao
passo que entre povos de uma cultura material superior se verifica
21
Tópico - Fascículo 1 Prof", Marcus Vinícius

uma decadência da religião e da moral.


"O grande deus desta religião, segundo Schmidt, é tão grande
que sozinho basta a tudo e a todos, e aos homens de todos os
tempos; ele satisfaz todos os ideais, as aspirações e as
necessidades. E por isso não conhece seres iguais a ele; a sua
grandeza não tem limites e não deixa margem para outros
próximos".
· A morada do Ser Supremo - A maioria dos povos
primitivos crêem que antigamente o Ser Supremo haja habitado
entre os homens na terra, haja lhes ensinado todo o bem e haja lhes
dado as suas leis sociais e morais; isto mostra a união do Ser
Supremo com a humanidade. Porém depois de ter abandonado,
freqüentemente por culpa dos homens, a terra, subiu aos céus que
agora é sua morada.
· A Figura do Ser Supremo - A descrição da figura do Ser
Supremo pode ser dividida em dois grupos: aqueles que a
consideram imperceptível aos sentidos e aqueles que lhe atribuem
aspecto humano, porém com certos traços especiais que
manifestam alguma coisa a mais da natureza humana e daí a sua
superioridade, ou então uma personalidade superior a todas as
pessoas conhecidas.
· Nomes do Ser Supremo - Múltiplos e expressivos são os
nomes com os quais é denominado o Ser Supremo. Estes nomes
são pronunciados somente com respeito e em raras ocasiões, nunca
sem necessidade; em muitos casos antes são usados circunlóquios
e sinais. Três grupos de nomes são os mais freqüentes e justamente
aqueles que exprimem a paternidade (pai), ou a obra criadora
(criador), ou a sua residência no céu (aquele que habita no alto).
Atributos do Ser Supremo
· Eternidade - Uma certa eternidade é atribuída, mais ou
menos claramente a todos os Seres Supremos dos quais temos
informações, e isto na afirmação que eles existirão e que nunca
morrem.
· Onisciência - A onisciência que não raramente se atribui
ao Ser Supremo, está no serviço de sua vida moral, pois mediante
este atributo ele vigia as ações e omissões dos homens.
Bondade - O Ser Supremo é exclusivamente bom, tal que
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Tópico - Fascículo 1 ProF. Marcus Vinícius

dele não vem senão o bem e todo o bem, que jamais podem gozar
os homens.
. Moralidade - Coisa alguma moralmente censurável é
posta em relação ao Ser Supremo, senão para ser por ele repelida e
punida .
. Onipotência - Não há nenhum ser que mesmo de longe,
pudesse igualá-lo e muito menos superá-lo em poder.
O Ser Supremo Legislador Moral - Os preceitos morais do
Ser Supremo referem-se a observância das cerimônias, dos
sacrificios e das súplicas da vida humana, e à morte injustificada, à
moral sexual, consistindo em evitar o adultério, a fomicação, ao
dever de socorrer os necessitados, aos enfermos, aos fracos, velhos
ricos de prole. Esses preceitos se inculcam aos jovens,
especialmente nas cerimônias de iniciação ou em outras
cerimônias.
Muitos povos primitivos afirmam concordemente que o
prêmio na terra consiste principalmente em uma longa vida e a
punição em uma morte prematura.

MAX MULLER E O MÉTODO FILOLÓGICO

Segundo ele no homem existe um sentido do divino em


termos do infinito, o que não é fruto de uma revelação particular ou
de uma espécie de instinto religioso, mas resultado do contato
sensível com a realidade, como em todas as outras idéias.
São justamente as realidades naturais que fogem a
compreensão do homem as que produzem a idéia do infinito e o
material com o qual se constrói a divindade.
Neste ponto é que o fator linguagem recebe maior destaque,
pois para Muller a linguagem é o elemento construtor deste
processo, e sendo assim o seu estudo nos permite explicar a
aparição dos mitos e seus deuses.
Para Muller, os termos abstratos têm sido formados nas
diversas línguas tardiamente. Todas as palavras que exprimem
idéias abstratas se derivam de palavras que designavam qualidades
sensíveis. As palavras portanto designavam o objeto por uma de
suas qualidades (o brilhante, o forte).
23
Tópico - Fascículo 1 ProF. Marcus Vinícius

Porém o fato de um objeto possuir diferentes qualidades e de


que uma qualidade pode ser possuída por diferentes objetos, pode
dar origem ao fenômeno da :
· Polionimia - Do grego Polys + Onyma = que tem vários
nomes.
· Homonímia - Do latim Homanymu, ou do grego Homos +
Onyma. Refere-se as palavras que são idênticas na forma mas de
origem diferente, objeto ou pessoa que tem o mesmo nome de
outrem.
No primeiro momento, as diferenças entre os distintos
objetos e seus atributos representados pelas palavras é clara, porém
logo se escurece esta claridade e os distintos nomes dão lugar a
distintas realidades nas quais se personificam os que no princípio
não eram mais do que nomes diferentes.
"Quase todos os povos elegeram o céu brilhante para indicar
o infinito, do qual tinham uma espécie de pré-sentimento, porém
posteriormente surgem os mal entendidos, e primeiro se considera
o céu como lugar onde mora o infinito e depois se converte o
próprio céu em divindade."
Assim os nomes se convertem em deuses e os mitos que nos
relatam as ações dos mesmos são uma espécie de "enfermidade da
linguagem, fase inevitável no crescimento da linguagem, a origem
da mitologia é sempre o mesmo, é a linguagem que se esquece de si
mesmo."
Portanto:
· Os deuses são atributos com os quais no princípio se
designou as realidades superiores, os quais se converteram em
entidades pessoais como conseqüência de haver esquecido seu
caráter de atributos.
· As religiões são resultados da enfermidade da linguagem.

24
Tópico - Fascículo 1 ProfO. Marcus Vinícius
GLOSSÁRIO

-Animismo: Atribui alma (espírito) a todos os objetos e


fenômenos naturais. E estes, em certos casos e em determinadas
condições, podem entrar em contato direto com o homem.
oAteísmo: Deus não existe. É o contrário do teísmo.
-Caos: Vazio, obscuro e ilimitado que antecede e propicia a
geração do mundo. Grande confusão ou desordem.
-Ceticismo: Dúvida radical
-Cosmogonía: É a narração do nascimento, a finalidade e o
perecimento de todos os seres sob a ação dos deuses.
-Cosmovísão: Concepção do mundo e da vida humana.
-Deísmo: Crença num deus sem atributos morais e intelectuais.
Este deus não intervém na criação e também não se manifesta.
oEcletismo: Fragmento de doutrina ... Soma
oEmpirismo: A experiência é a única forma de conhecimento.
-Epifania: Para os gregos significa o aparecimento repentino de
uma divindade salvadora.
oFalácia: Ilusão, engano, sofisma
-Fetichísmo: Culto de objetos materiais, considerados às vezes
corno encarnação de um espírito, ou, em, ligação com ele, capazes
de determinadas virtudes.
oImanência: Não ultrapassa o imediato, o dado experimental.
-Magísmo: Afirma a existência de urna força ou poder escondido,
superior às forças naturais; certos homens podem apropriar-se dele
e assim produzir efeitos extraordinários. Magia branca - a que
procura o bem da pessoa, magia negra - a que é usada para
prejudicar a pessoa.
-Manísmo: Culto às almas dos defuntos, para os quais se costuma
oferecer sacrificios.
-Mito: Narrativa de significação simbólica e referente a deuses
encarnados das forças da natureza e/ou de aspectos da condição
humana. Pode ser entendido também corno representação de fatos
25
Tópico - Fascículo 1 ProF. Marcus Vinícius

ou personagens reais, exagerada pela imaginação popular, pela


tradição, etc.
·Mitologia: História fabulosa dos deuses, semideuses e heróis da
antiguidade grego-romana. É também o conjunto dos mitos
próprios de um povo, de uma civilização, de uma religião.
·Panteísmo: Tudo é deus. A natureza, o universo e deus são a
mesma COIsa.
·Proselitismo: Conseguir adeptos (prosélitos) para serem
convertidos a uma outra religião, crença ou doutrina.
·Religião: Conjunto de crenças, leis e ritos, que dizem respeito a
um ser considerado pelo homem como Supremo, do qual se julga
dependente e com a qual pode entrar em relação pessoal.
·Senso Comum: Domínio de um saber não sistematizado, valores,
gostos, falas, interesses, necessidades de-uma educação adquirida
no seu meio sócio-cultural.
·Teísmo: Crença num deus, distinto dos outros seres, pertencente a
uma ordem transcendental. Ele é o criador do mundo e é o
princípio da vida.
·Teodicéia: É a especulação filosófica para provar a existência de
Deus.
·Teofanias: Manifestação extraordinária de Deus, uma fala de
deus, uma aparição dele, sinais pelos quais ele se revela em fatos da
história da salvação ou nos seus profetas.
·Teogonias: É a geração ou nascimento dos deuses, semideuses e
heróis.
·Totemismo: Crença na existência de um "parentesco" entre uma
tribo ou família e uma espécie de animal ou vegetal.
·Transcendência: Ato de ultrapassar, de ir além de, superação. Na
teoria do conhecimento, diz-se do objeto como realmente distinto
da consciência.
26
BIBLIOGRAFIA

A bibliografia de um polígrafo, tem duas finalidades. Ela


deve sugerir leituras e, obedecendo à regras do jogo científico,
prestar conta da literatura consultada. Por isso ofereço minha lista
de obras consultada. Ei-las:

ALVES, Rubens. O que é religião. São Paulo, Brasiliense, 1981

DROOGERS, André. Ciências da religião. Faculdade Teológica


Luterana,1984pg7-52 .

HOORNAERT, Eduardo. Formação do Catolicismo Brasileiro.


Rio de Janeiro, Vozes, 1974

------. A Grande marcha da humanidade. São Paulo,


Paulinas, 1993

PIAZZA, Waldomiro O. Religiões da humanidade. São Paulo,


Loyola, 1977.

POTTER. Charles F. História das Religiões. São Paulo,


Universitária, 1944.

ROSA, Merval. Psicologia da religião. Rio de Janeiro, JUERP,


1992,pg41-71

27
o Ensino Religioso - As concepções do termo religio ..
Em 20.12.1996 foi promulgada a LOBEN, lei nO9.394/96 garantindo o ER nas escolas como componente
curricular vital para a formação do ser e da sociedade multicultural. A Lei nO9.475 de 22.07.1997, vem dar nova
redação ao artigo 33 da citada LOBEN e promover o docente ER no ensino fundamental e médio.
As concepções do termo no Brasil foram as seguintes:

Concepção Finalidade Entendimento do Enfoque centrado Caracterização LDBEN


••
Reeligere =
•• ER ••
Religião=
em
•• •• ••
Re-escolher. Uma Fazer Catequese/ Uma verdade Evangelização 4.024/61
verdade para a seguidores. doutrinação
vida
Religare =
Re-ligar Tornar mais Ética =
As pessoas a si pessoas Vivência de Religiosidade Pastoral 5.692/71
mesma, as outras, religiosas valores
a Deus ...
Relegere = Reler o
Re-Ier. fenômeno Área do Fenômeno religioso Conhecimentos 9.394/96
O fenômeno religioso. conhecimento
religioso
\oda Reliqião nasc
experiência religios algum
~.
homem, experiência tada e
suscetível de reprodução,

Com o andar dos tempos, algptila grandê


<:.'*'.,/11

alma, torturada pelo conflito dl!=lt'tH'o~


de sú~
~~t~ '~,~~~':' ~~'":~?
própria personalidade, dá à lugl'Çipó's;:grandes
.íJ;''''."Ifi">, '~;~,'" '
~ \\;1P'#fi;fr ~
batalhas, a alguma concepçãq'unlflôadora "da
~.
vida, uma nova interpretàção de toda
existência, uma nova religião.

assim nascem as religiões.

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