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Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais 

ADAI/LAETA 
Departamento de Engenharia Mecânica 
Faculdade de Ciências e Tecnologia 
Universidade de Coimbra 

ANÁLISE DOS INCÊNDIOS FLORESTAIS OCORRIDOS
A 15 DE OUTUBRO DE 2017 

Coordenação Geral  Domingos Xavier Viegas 

Coordenação Técnica  Domingos Xavier Viegas, Miguel Figueiredo Almeida, Luís Mário Ribeiro 

Equipa de investigação  Domingos Xavier Viegas, Miguel Abrantes Almeida, Luís Mário Ribeiro, Jorge 
Raposo, Maria Teresa Viegas, Ricardo Oliveira, Daniela Alves, Cláudia Pinto, 
André Rodrigues, Carlos Ribeiro, Sérgio Lopes, Humberto Jorge, Carlos Xavier 
Viegas 

Janeiro de 2019
A equipa de Investigadores e Colaboradores do Centro de Estudos 
sobre Incêndios Florestais da ADAI/UC, que participou na elaboração 
deste Relatório dedica este trabalho à memória de todas as pessoas 
que perderam a vida nos incêndios de 15 de outubro, solidariza‐se 
com os seus familiares e amigos e presta homenagem a todos os que 
se esforçaram para minimizar o sofrimento das pessoas ou os danos 
materiais que estes incêndios produziram  
 
 

 
 

A foto que ilustra a capa deste Relatório é da autoria de Hélio 
Madeiras, dos BV de Vieira de Leiria, que a cedeu para este efeito. A 
foto foi tirada pelas 17.25h do dia 15 de outubro de 2017, a partir 
da torre do Quartel do CB de V. de Leiria, e mostra o 
desenvolvimento do incêndio originado em Burinhosa e de vários 
focos secundários que dele resultaram 

 
Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 

Siglas e Abreviaturas 
AA   Área Ardida 
ADAI   Associação para o Desenvolvimento da Aerodinâmica Industrial 
AF   Asa Fixa 
ANPC   Autoridade Nacional de Proteção Civil 
APA   Agência Portuguesa do Ambiente 
AR   Asa Rotativa 
AU   Área Urbana 
AVBM   Avião Bombardeiro Médio 
AVBP   Avião Bombardeiro Pesado 
BAL   Bases de Apoio Logístico 
BCIN   Brigadas de Combate a Incêndios 
BV    Bombeiros Voluntários 
CA   Curso de Água 
CADIS    Comandante Operacional do Agrupamento Distrital de Operações de Socorro 
CAOP    Carta Administrativa Oficial de Portugal 
CAS    Comandante de Assistência 
CB    Corpo de Bombeiros 
CBM    Corpo de Bombeiros Municipais 
CBV    Corpo de Bombeiros Voluntários 
CDOS    Centro Distrital de Operações de Socorro 
CEF    Comportamento Extremo do Fogo 
CEIF    Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais 
CIF   Complexo de Incêndios Florestais  
CIM   Comunidades Intermunicipais 
CLC 2012   Corine Land Cover de 2012 
CMA    Centro de Meios Aéreos 
CNOS    Centro Nacional de Operações de Socorro 
CODIS    Comandante Distrital de Operações de Socorro 
CONAC    Comandante Nacional 
COS    Comandante de Operações de Socorro 
COS 2007   Carta de Uso e Ocupação do Solo de 2007 
COS 2015   Carta de Uso e Ocupação do Solo de 2015 
CP   Comboios de Portugal 
CSP   Cover, Slope and Probability 
CTO    Comunicado Técnico‐Operacional 
DC    Índice de Secura (Drought Code) 
DECIF    Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Florestais 
DFCI    Defesa da Floresta Contra Incêndios 
DGT    Direção Geral do Território 
DON    Diretiva Operacional Nacional 
EAE   Estado de Alerta Especial 
ECIN   Equipas de Combate a Incêndios 
ECMWF   European Centre for Medium‐Range Weather Forecasts 
EDP    Energias de Portugal 
EIP    Equipas de Intervenção Permanente 
EM    Estações Meteorológicas 
EN    Estrada Nacional 
EPI    Equipamento de Proteção Individual 
FAP   Força Aérea Portuguesa 
FAO   Food and Agriculture Organization of the United Nations 
FC    Faixa de Contenção 
FCT   Fundação para a Ciência e Tecnologia 
FAP   Força Aérea Portuguesa 
FEB   Força Especial de Bombeiros 
FWI    Índice meteorológico de perigo de incêndio (Fire Weather Index) 
GIF    Grandes Incêndios Florestais 
GIPS   Grupo de Intervenção Proteção e Socorro 
GNR    Guarda Nacional Republicana 

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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
GPS   Global Positioning System 
GRIF    Grupo de Reforço para Incêndios Florestais 
GRUATA   Grupo de Reforço para Ataque Ampliado 
GTF    Gabinetes Técnicos Florestais 
HEBL   Helicóptero Bombardeiro Ligeiro 
HEBM   Helicóptero Bombardeiro Médio 
HEBP   Helicóptero Bombardeiro Pesado 
ICNF    Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas 
ICRIF    Índice Meteorológico Combinado De Risco De Incêndio Florestal 
IF    Incêndio Florestal 
INE    Instituto Nacional de Estatística 
INEM    Instituto Nacional de Emergência Médica 
IP   Infraestruturas de Portugal 
IPMA    Instituto Português do Mar e da Atmosfera 
IUF    Interface Urbano Florestal (Wildland Urban Interface) 
LAETA   Laboratório Associado de Energia, Transportes e Aeronáutica 
MAI   Ministério da Administração Interna 
MNDQ   Mata Nacional das Dunas de Quiaios 
MNU   Mata Nacional do Urso 
NOAA   National Oceanic and Atmospheric Administration 
NUTS   Nomenclatura das Unidades Territoriais para Fins Estatísticos 
PCO    Posto de Comando Operacional 
PJ    Polícia Judiciária 
PE   Parque Eólico 
PMDFCI    Planos Municipais de Defesa da Floresta Contra Incêndios 
PNSE   Parque Natural da Serra da Estrela  
PPCQM   Paisagem Protegida da Costa de Quiaios‐Mira 
PPSA   Paisagem Protegida da Serra do Açor 
PPSA   Paisagem Protegida da Serra do Açor 
PROF   Plano Regional de Ordenamento Florestal 
QA    Quadro Ativo 
QC    Quadro de Comando 
R    Precipitação acumulada 
REN   Rede Elétrica Nacional 
RCM    Índice de Risco de incêndio Conjuntural e Meteorológico 
RCP   Região Centro de Portugal  
RVF    Rede Viária Florestal 
SCADA   Sistema de Supervisão, Controle e Aquisição de Dados (Supervisory Control and Data Acquisition) 
SEPNA    Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente 
SF    Sapadores Florestais 
SGIF   Sistema de Gestão de Informação de Incêndios Florestais 
SGO    Sistema de Gestão de Operações 
SIG   Sistema de Informação Geográfica  
SIOPS    Sistema Integrado de Operações de Proteção e Socorro 
SIRESP    Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal 
SMPC    Serviço Municipal de Proteção Civil 
TO    Teatro de Operações 
UC   Universidade de Coimbra 
UGV    Unidades de Gestão Florestal 
UTC   Coordinated Universal Time 
VCOT    Veículo de Comando Táctico 
VFCI    Veículos Florestais de Combate a Incêndios 
VLCI    Veículo Ligeiro de Combate a Incêndios 
VOPE    Veículos para Operações Específicas 
VPCC    Veículo de Planeamento, Comando e Comunicações 
VTGC    Veículo Tanque de Grande Capacidade 
VTTU    Veículos Tanque Táticos Urbanos 
ZCP    Zona de Cultivo/Pomares 
ZPA    Zona de Proteção Ambiental 

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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 

Sumário Executivo 
A  situação  vivida  em  Portugal  no  dia  15  de  outubro  foi  completamente  excecional.  Culminando  um 
período de seca prolongada em que o País se encontrava, na entrada para um período em que o dispositivo 
operacional se encontrava parcialmente desmobilizado, um fenómeno meteorológico muito pouco usual – o 
furacão Ophelia – produziu em todo o País, mas de modo especial na região central, ventos muito fortes e 
secos que potenciaram as centenas de ignições que se registaram nesse dia, produzindo vários incêndios 
que, no seu conjunto destruíram mais de 220 mil hectares em menos de 24 horas, o que constitui um recorde 
para Portugal. Nas zonas afetadas pelos incêndios de 15 de outubro, o teor de humidade dos combustíveis 
finos  foi  significativamente  inferior  a  10%,  chegando  mesmo  a  atingir  valores  muito  próximos  dos  5%, 
estando assim criadas condições de perigo extremo de incêndio. 

Consideramos  que  alguns  dos  incêndios  foram  causados  por  reativações  de  focos  de  incêndio  pré‐
existentes e que não haviam sido devidamente vigiados durante o dia 15. Houve, no entanto, muitas ignições 
resultantes de queimas e queimadas, causadas por pessoas que as realizaram pela necessidade de eliminar 
vegetação  ou  resíduos  de  atividades  agrícolas,  na  convicção  de que  haveria  de  ocorrer  chuva,  como  fora 
anunciado, e de facto ocorreu, mas apenas no final do dia 16. 

Desta situação resultaram sete complexos principais de incêndios, produzidos por uma ou mais ignições, 
que  se  propagaram  de  forma  contínua  principalmente  no  dia  15  e  parte  do  dia  16,  que  estudámos 
detalhadamente  neste  Relatório.  Cinco  deles  causaram,  no  seu  conjunto,  51  vítimas  mortais  e  todos 
produziram uma devastação ambiental e patrimonial como nunca se havia visto em Portugal. 

A definição rígida de períodos de risco de incêndio, baseadas em datas do calendário, sem tomar em 
conta as alterações sazonas da meteorologia e uma preocupação com a contenção de despesas terá levado 
a reduzir o dispositivo operacional, sem prestar a devida atenção ao risco extremo de incêndio que estava 
previsto com alguns dias de antecedência. Esta falta de recursos ter‐se‐á sentido sobretudo na ausência de 
uma vigilância mais reforçada, que reduzisse o número de ignições, pelo menos no dia 15, que deram origem 
ao registo de 517 ocorrências. 

É duvidoso que a existência de mais recursos operacionais, incluindo meios aéreos, pudesse ter feito 
uma grande diferença, perante o número e violência dos incêndios ocorridos. Como se disse poderiam ter 
feito alguma diferença se tivessem contribuído para reduzir o número de ocorrências e conseguido extinguir 
a  maioria  dos  incêndios  na  sua  fase  inicial.  Com  as  condições  de  vento  que  existiram  –  induzidas  pela 
passagem  do  furacão  –  quando  os  incêndios  se  encontravam  desenvolvidos,  era  virtualmente  impossível 
enfrentar o fogo em segurança. A própria tarefa de defender pessoas e bens foi limitada pela dificuldade de 
gerir os recursos e de os colocar onde fossem requeridos, pela inviabilidade de muitos percursos.  

Considera‐se  a  inexistência  de  vítimas  entre  as  forças  de  proteção  civil  como  algo  extremamente 
positivo, o que deve encorajar todos os envolvidos na estratégia de sensibilização e formação no sentido de 
um combate eficaz, mas seguro. O mesmo não se pode dizer, infelizmente, em relação à população civil, 
tendo que se lamentar o importante número de 51 vítimas mortais nos incêndios de outubro. Tendo em 
conta  a  extensão  e  violência  destes  incêndios,  em  comparação  com  o  de  Pedrogão  Grande,  podemos 
considerar  que  terá  havido  algumas  lições  aprendidas,  mas  não  podemos  deixar  de  apontar  a  existência, 
ainda, de  um grande número de falhas. Talvez mais ainda do que  os incêndios de junho, estes incêndios 
puseram em evidência o potencial de destruição maciça de vidas humanas que os incêndios florestais têm. 
Os incidentes que relatámos, associados aos meios de transporte público e às rodovias, mostram que existem 

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ainda  diversos  sistemas,  utilizados  por  um  grande  número  de  pessoas,  que  não  estão  devidamente 
preparados para prevenir incidentes relacionados com os incêndios florestais e para os gerir, sobretudo na 
componente de comunicação com o público. 

Embora não seja de excluir a ação dolosa na origem de um grande número de ignições, parece estar 
estabelecido que muitas delas se deveram, como se disse, a queimas e queimadas intencionais, com fins de 
eliminação de combustíveis ou de resíduos de operações agrárias. Não podemos deixar de referir a origem 
do incêndio de Lousã, que de acordo com os dados de que dispomos, estará associada à linha elétrica de 
15kV, gerida pela EDP perto da localidade de Prilhão. A ocorrência de ventos fortes, como os do dia 15 de 
outubro,  elevam  significativamente  a  probabilidade  de  ocorrência  deste  tipo  de  acidentes.  Tal  como 
sucedera no incêndio de Pedrógão Grande este incidente constitui mais uma chamada de atenção para as 
entidades gestoras ou reguladoras de infraestruturas implantadas nos espaços rurais, como é o caso da EDP, 
REN,  IP,  CP/REFER,  ANACOM,  para  a  necessidade  de  gerirem  adequadamente  esses  espaços  para  que  as 
respetivas  infraestruturas  não  constituam  uma  ameaça  para  a  floresta  e  também  para  que  estejam 
devidamente protegidas em caso de um incêndio florestal. 

Cada um dos sete CIF foi objeto de um estudo cuidadoso, baseado numa vasta recolha de dados no 
terreno, que nos permitiu inventariar os diversos focos que estiveram na origem de cada um, o modo como 
se deu a sua propagação, a resposta operacional que tiveram e o modo como afetaram os territórios em que 
se desenvolveram. Este conjunto de dados permitiu‐nos compreender melhor o papel dos vários fatores que 
condicionam o comportamento do fogo e identificar modos de propagação dinâmica do fogo, que podem 
eventualmente estar associados ao comportamento extremo do fogo, que a nossa equipa tem estudado. A 
vasta informação recolhida será explorada em trabalho futuro, tendo em vista aprofundar o conhecimento 
destes fenómenos e proporcionar um melhor suporte à tomada de decisões. 

Os sete CIF estudados foram os de Seia (17,00 kha), Lousã (54,41 kha), Oliveira do Hospital (51,43 kha), 
Sertã (30,98 kha), Leiria (20,01 kha), Quiaios (23,84 kha) e Vouzela (15,96 kha). 

As fatalidades registadas entre a população civil evidenciam a necessidade de se criar mais e melhor 
prevenção de incêndios, mais e melhores programas de sensibilização e de apoio à população, com vista a 
melhorar a sua segurança. Saúda‐se o programa “Aldeia Segura, Pessoas Seguras” que o Governo lançou, 
assim como as medidas de gestão de combustível em torno das casas, mas reconhece‐se que há um trabalho 
muito amplo a realizar para tornar as comunidades mais resilientes e aptas para se defender dos efeitos do 
fogo,  mesmo  sem  o  apoio  de  entidades  operacionais.  O  facto  de  nestes  incêndios  terem  morrido 
relativamente  menos  pessoas  em  fuga,  ou  fora  de  casa,  deveu‐se  certamente  à  perceção,  por  parte  da 
população da mensagem que a nossa equipa tem vindo a difundir ‐ reforçada pela experiência de PG – de 
que  não  se  deve  sair  de  casa  à  última  hora  e  com  o  fogo  por  perto.  Nestes  casos,  com  respeito  pelas 
indicações das autoridades, é preferível permanecer em casa e procurar defendê‐la desde que em segurança. 
É igualmente importante identificar antecipadamente, em cada aldeia ou lugar, locais ou casas seguras, que 
possam servir de refúgio ou abrigo, para moradores ou visitantes, em caso de incêndio. 

A rapidez com que a maioria dos grandes incêndios progrediram constituiu um elemento de surpresa, 
tanto para os operacionais como para a população, mesmo para pessoas que tinham uma longa experiência 
dos incêndios. Verificou‐se que em muitos casos faltou não apenas uma informação sobre o comportamento 
geral dos incêndios junto da população, como também uma capacidade de avaliação do seu comportamento 
local, por exemplo em encostas e desfiladeiros. Este facto esteve associado a vários acidentes fatais. Houve 
muitas  situações  em  que,  apesar  das  dificuldades,  se  poderia  ter  feito  melhor  na  comunicação  com  a 

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população e no apoio às mesmas. Uma vez mais, tal como sucedera em PG, registámos falhas no socorro 
médico. 

O facto de que uma parte importante da propagação do incêndio ter ocorrido durante a noite de 15 
para  16,  contribuiu  para  que  muitas  pessoas  tivessem  sido  surpreendidas  pelo  fogo  quando  já  estavam 
recolhidas  em  casa  e  a  dormir.  Esta  circunstância  deu  muito  pouco  tempo  de  reação  para  a  maioria  das 
pessoas e, como se viu, no relato dos casos (Capítulo 4), terá havido um número importante de vítimas que 
não tiveram sequer tempo para sair dos respetivos quartos. Ao permanecerem passivas perante o começo 
do  incêndio  na  casa,  com  a  entrada  de  fumos,  ficaram  incapacitadas  para  promover  estratégias  de 
sobrevivência. 

A prática, que tem sido implementada pelas autoridades, de ordenar evacuações maciças de aldeias e 
lugares ameaçados, embora possa ser justificável numa perspetiva de salvaguarda de vidas, pode ser errada 
se  não  estiver  bem  planeada  e  não  for  executada  com  muita  antecedência.  Por  outro  lado,  a  opção  de 
permitir  que  membros  devidamente  identificados  da  população  possam  permanecer  nos  lugares  em  que 
vivem,  de  forma  organizada  e  suportada,  pode  contribuir  muito  para  a  salvaguarda  do  património  e 
consequentemente para reduzir a pressão sobre as entidades operacionais. 

O conjunto dos incêndios ocorridos em 15 de outubro causou danos ambientais, no património edificado 
e noutros bens materiais, numa escala nunca antes vista em Portugal. Embora reconheçamos o evidente 
interesse que havia em analisar e avaliar o impacto do fogo nas habitações, verificámos que a extensão e o 
grau de destruição das habitações nestes incêndios, estava para além da nossa capacidade de estudar este 
problema  em  tempo  útil.  Optámos  assim  por  estudar  o  impacto  dos  incêndios  nas  áreas  industriais,  que 
foram como que uma imagem de marca destes incêndios. Analisámos, neste âmbito, seis concelhos de seis 
dos principais CIF que estudámos, os quais, segundo os dados da CCDR‐Centro de 2 de outubro de 2018, 
tiveram mais de 278 empresas total ou parciamente destruídas, correspondendo a cerca de 2974 postos de 
trabalho,  com  prejuízos  diretos  de  financiamento  elegível  que  ascendeu  aos  90MEur.  Visitámos  140 
empresas  e  verificámos  que  a  larga  maioria  delas  não  possuía  seguro,  não  dispunham  de  sistemas  de 
proteção contra incêndios vindos do exterior e as próprias zonas industriais, muitas vezes promovidas pelas 
autarquias, como forma de atrair e fixar recursos humanos produtivos nos seus territórios, não respeitavam 
as regras mínimas de gestão da envolvente florestal. Embora muitas infraestruturas industriais estivessem 
diretamente expostas às chamas produzidas por vegetação, que por vezes se encontrava a menos de 2m da 
sua periferia, devemos reconhecer que em muitos casos foram projeções de curta e média distância que 
contribuíram para a completa destruição de alguns parques empresariais.  

Considera‐se que entre junho e outubro de 2017 não terá havido muito tempo para que as entidades 
constituintes  do  Sistema  Nacional  de  Defesa  da  Floresta  Contra  os  Incêndios  tenham  alterado  os  seus 
procedimentos,  incorporando  as  lições  e  as  recomendações  retiradas  dos  incêndios  de  PG  e  outros,  que 
foram  objeto  de  análise  em  diversas  sedes,  nomeadamente  em  Viegas  et  al.  (2012),  Viegas et  al.  (2013), 
Viegas et al. (2017) e Comissão Técnica Independente (2017). Consideramos por isso ser válido e aplicável, 
na sua maioria, o conjunto de comentários e recomendações que ali foram apresentados. Resumimos, no 
entanto, aqui algumas das lições que nos parecem ser específicas deste conjunto de incêndios.  

Não podemos deixar de reafirmar a nossa posição relativamente à inoperância do ICNF, enquanto pilar 
fundamental  de  todo  o  sistema  de  DFCI,  na  tutela  da  floresta  nacional,  no  fomento  de  campanhas  de 
sensibilização, na gestão das faixas de descontinuidade de combustível e na proteção das áreas florestais que 
tem a seu cargo. A destruição de uma parte importante do Pinhal de Leiria, que se encontrava sob gestão do 
ICNF, constituiu o corolário do abandono a que a sua gestão fora votada ao longo das últimas décadas. 
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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
A ANPC teve de enfrentar nestes incêndios um desafio para o qual dificilmente poderia estar preparada. 
Com alguma complacência das autoridades de tutela, não tomou as medidas que se impunham para preparar 
o  sistema  e  o  País  para  enfrentar  uma  ameaça  de  efeito  dominó  que  a  ocorrência  do  furacão  Ophelia 
representava. Voltou a sentir‐se a necessidade de o País dispor de um conjunto mais alargado de Bombeiros 
profissionalizados  e  qualificados,  que  assegurassem  uma  disponibilidade  mais  permanente,  com 
independência  das  datas  de  calendário,  para  apoiarem  a  população  em  situações  de  crise  como  a  dos 
incêndios de 15 de outubro. 

As autarquias, incluindo ao nível das Juntas de Freguesia, tiveram um papel de intervenção e apoio muito 
importante, dada a sua proximidade relativamente à população. Dada a extensão e violência dos incêndios, 
a população encontrou‐se rapidamente na primeira linha dos incêndios, sem grande apoio externo. Estas 
circunstâncias reafirmaram a necessidade de preparar as populações para ser autossuficientes no caso de 
incêndios  de  grandes  dimensões,  que  infelizmente,  presumimos  que  tenderão  a  ser  cada  vez  mais 
frequentes. 

Não pudemos acompanhar no detalhe as atividades de recuperação das áreas ardidas, nas suas diversas 
componentes,  incluindo  a  social.  Não  podemos  deixar  de  referir  que  a  experiência  infeliz  de  gestão  dos 
donativos da população que se reunira após o incêndio de PG, levou a que nos incêndios de 15 de outubro, 
movimentos similares que surgiram tiveram uma expressão incomparavelmente menor. 

Reiteramos  a  necessidade  de  fomentar  o  melhor  conhecimento  científico  e  técnico  dos  diversos  e 
complexos problemas que se colocam na gestão dos incêndios florestais e, em particular, nos que podem 
ocorrer em circunstâncias como as de 15 de outubro. Saudamos por isso como sendo um sinal muito positivo 
a criação de um programa nacional de investigação que a FCT lançou, embora possamos discordar do formato 
que  o  mesmo  tem.  Consideramos  ser  igualmente  muito  positiva  a  iniciativa  de  lançar  um  laboratório 
colaborativo da floresta e do fogo. 

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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 

Executive Summary 
The  situation  of  forest  fire  occurrence  and  spread  in  Portugal  on  October  15th.  of  2017  was  completely 
exceptional. The country was experiencing a prolonged drought, a period when the operational structure 
was already partially demobilized, a very unusual meteorological phenomenon – the Hurricane Ophelia – 
that was felt throughout the country, but especially in the central region, very strong and dry winds that 
boosted the hundreds of ignitions that occurred on that day, producing several fires that together destroyed 
more than 220 thousand hectares in less than 24 hours, which is a record for Portugal. In the areas affected 
by the fires  of October 15, the  moisture content of the fine fuels was significantly lower than 10%, even 
reaching values close to 5%, thus creating extreme fire hazard conditions. 

We  believe  that  some  of  the  fires  were  caused  by  pre‐existing  fire  flares  that  had  not  been  properly 
monitored during the previous day. However, there were many ignitions resulting from agricultural residues 
burnings, caused by people who performed them due to the need to eliminate vegetation or residues from 
agricultural activities, in the belief that rain would occur, as had been announced, and in fact, occurred, but 
only at the end of the 16th. 

From  this  situation  resulted  seven  major  fire  complexes,  produced  by  one  or  more  ignitions,  which 
propagated continuously, mainly on the 15th and part of the 16th, that we studied in detail in this Report. 
Five of them together caused 51 fatalities and all produced an environmental and property devastation like 
was never seen before in Portugal. 

The strict definition of fire risk periods, based on calendar dates, without taking into account the seasonal 
changes  in  the  weather  and  a  concern  with  the  containment  of  expenditure,  led  to  a  reduction  of  the 
operational structure, without paying due attention to the extreme fire risk that was forecasted a few days 
in  advance.  This  lack  of  resources  was  felt  especially  in  the  absence  of  more  vigilance,  which  could  have 
reduced the number of ignitions, at least on the 15th, which led to the registration of 517 occurrences. 

It is doubtful that the existence of more operational resources, including air resources, could have made a 
great  difference,  given  the  number  and  violence  of  the  fires.  As  mentioned  they  could  have  made  some 
difference if they had contributed to reduce the number of occurrences and managed to extinguish most 
fires in their early stages. With the wind conditions that existed ‐ induced by the passage of the hurricane ‐ 
when the fires were developed, it was virtually impossible to fight the fire safely. The task of defending people 
and property was limited by the difficulty of managing resources and placing them where they were required, 
because of the infeasibility of many paths.  

The  absence  of  victims  among  the  civil  protection  forces  is  considered  extremely  positive,  which  should 
encourage  all  those  involved  in  the  awareness‐raising  and  training  strategy  towards  effective  but  safe 
combat. The same cannot be said, unfortunately, about the civilian population, having to regret the large 
number of 51 fatalities in the fires of October. Considering the extent and violence of these fires, compared 
to that of Pedrógão Grande, we may consider that there have been some lessons learned, but we cannot fail 
to point out the existence of a large number of flaws. Perhaps even more than the fires of June, these fires 
exposed  the  potential  for  massive  destruction  of  human  lives  that  forest  fires  have.  The  accidents  and 
incidents that we reported, associated with means of public transport and highways, show that there are still 
many systems, used by a large number of people, who are not properly prepared to prevent incidents related 
to forest fires and to manage, in particular the component of communication with the public. 

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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
Although not excluding arsonist action at the origin of a large number of ignitions, it seems that many of 
them  were  due,  as  stated,  to  the  intentional  agricultural  residues  burning  with  the  purpose  of  disposing 
accumulated  fuel  or  agricultural  waste.  We  cannot  fail  to  mention  the  origin  of  the  Lousã  fire,  which, 
according to the available data, it will be associated with the 15kV power line, managed by EDP near the 
town of Prilhão. The occurrence of strong winds like the ones related on October 15th significantly increases 
the  probability  of  occurrence  of  such  accidents.  As  happened  in  the  fire  of  Pedrógão  Grande  (PG),  this 
incident is a reminder for the management or regulatory entities of infrastructures established in rural areas, 
such  as  EDP,  REN,  IP,  CP  /  REFER,  ANACOM,  for  the  need  to  properly  manage  these  areas  so  that  their 
infrastructure does not constitute a threat to the forest and also to ensure that they are adequately protected 
in the event of a forest fire. 

Each one of the seven CIFs was subject of a careful study, based on a vast collection of data on the ground, 
which allowed us to inventory the different sources  that were  the origin of each one, how it spread,  the 
operational response they had and how they affected the territories in which they developed. This dataset 
allowed us to better understand the role of the several factors that determine fire behaviour and to identify 
ways of fire dynamic propagation that may be associated with the extreme fire behaviour that our team has 
studied. The vast information collected will be explored in future work, in order to deepen the knowledge of 
these phenomena and to provide better support to the decision‐making. 

The seven CIFs studied were Seia (17.00 kha), Lousã (54.41 kha), Oliveira do Hospital (51.43 kha), Sertã (30.98 
kha), Leiria (20.01 kha), Quiaios (23.84 kha) and Vouzela (15.96 kha). 

The fatalities among the civilian population highlight the need to create more and better fire prevention, 
more and better awareness programs and support to the population, with a view to improving their safety. 
The "Aldeia Segura, Pessoas Seguras" program that the Government has launched, as well as measures of 
fuel  management  around  houses,  is  acknowledged,  but  there  is  a  very  broad  work  to  be  done  to  make 
communities  more  resilient  and  apt  to  defend  themselves  from  the  effects  of  the  fire,  even  without  the 
support of operational entities. The fact that in these fires we had relatively less people dying on the run, or 
away from home, certainly due to the perception, by the population of the message that our team has been 
spreading ‐ reinforced by PG experience ‐ that one should not leave the house at the last minute and with 
the fire nearby. In these cases, with respect to the authorities' indications, it is preferable to remain at home 
and seek to defend it as long as it is safe. It is also important to identify in advance, in each village or town, 
safe places or homes that can serve as a refuge or shelter for residents or visitors during a fire event. 

The speed with which most of the major fires progressed was an element of surprise for both operational 
personnel and population elements, even to people who had had a long experience of fires. It was found that 
in many cases not only information on the general behaviour of fires lacked in the population but also an 
ability to assess their local behaviour, for example on slopes or canyons. This fact was associated with several 
fatal accidents. There were many situations in which, despite the difficulties, communication and support to 
the population could have been made better. Once again, as in PG, we recorded failures in medical assistance. 

The  fact  that  a  significant  part  of  the  spread  of  the  fire  occurred  during  the  night  from  15th  to  16th, 
contributed  to  many  people  having  been  caught  by  the  fire  when  they  were  at  home  and  sleeping.  This 
circumstance gave very little reaction time to most people and, as it turned out, in the reporting of cases 
(Chapter 4), there was a significant number of victims who did not even have time to leave their rooms. By 
remaining passive before the start of the fire in the house, with the entry of smoke, they were unable to 
promote survival strategies. 

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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
The practice, which has been implemented by the authorities, of ordering massive evacuations of threatened 
villages  and  places,  while  it  may  be  justifiable  in  a  life‐saving  perspective,  may  be  wrong  if  it  is  not  well 
planned  and  not  executed  well  in  advance.  On  the  other  hand,  the  option  to  allow  properly  identified 
members of the population to remain in the places where they live, in an organized and supported way, can 
greatly  contribute  to  the  safeguarding  of  assets  and  consequently  to  reduce  the  pressure  on  operating 
entities. 

All  the  fires  that  occurred  on  October  15  caused  environmental  damage  in  the  built  heritage  and  other 
material assets, on a scale never seen before in Portugal. While we recognize the obvious interest in analysing 
and evaluating the impact of fire on homes, we found that the extent and degree of destruction of homes in 
these fires was beyond our ability to study this problem in a timely manner. For that reason, we chose to 
study the impact of fires in business and industrial areas, which is a brand image of these fires. In this context, 
we analysed six municipalities of six of the main CIFs that we studied, which, according to the data from 
CCDR‐Centro  of  October  2  of  2018,  had  more  than  278  companies  totally  or  partially  destroyed, 
corresponding to about 2974 jobs, with direct losses of eligible financing amounting to EUR 90 million. We 
visited  140  industries  and  found  that  the  vast  majority  of  them  did  not  have  insurance,  did  not  have 
protection systems for fires coming from outside. The industrial areas themselves, often promoted by local 
authorities, as a means of attracting and securing productive human resources in their territories, did not 
comply with the minimum rules for the management of the forest environment. Although many industrial 
infrastructures were directly exposed to the flames, produced by vegetation, which was sometimes less than 
2m  from  its  periphery,  we  must  recognize  that  in  many  cases  it  was  mostly  short‐  and  medium‐distance 
projections that contributed to the complete destruction of some business areas. 

It is considered that between June and October 2017 there was not much time for the agents of the National 
Forest Fire Protection System to change their procedures, incorporating the lessons and recommendations 
drawn from the fires of PG and others, which were analysed in several venues, namely in Viegas et al. (2012), 
Viegas  et  al.  (2013),  Viegas  et  al.  (2017)  e  Comissão  Técnica  Independente  (2017).  We  consider  that  the 
majority of the comments and recommendations presented there are valid and applicable. We summarize, 
however, here some of the lessons that seem to us to be specific to this set.  

We cannot fail to reaffirm our position regarding the failure of the ICNF as a fundamental pillar of the whole 
DFCI  system,  in  the  protection  of  the  national  forest,  in  the  promotion  of  awareness  campaigns,  in  the 
management  of  fuel  discontinuities  and  in  the  protection  of  forestry  areas  that  are  in  its  charge.  The 
destruction of an important part of the historical Leiria pine forest, which was under the management of the 
ICNF, constituted the corollary of the abandonment to which its management had been voted over the last 
decades. 

The ANPC had to face in these fires a challenge for which it could hardly be prepared. With some complacency 
of the authorities, it did not take the necessary measures to prepare the system and the country to face a 
threat of domino effect that the occurrence of Hurricane Ophelia represented. There was again a need for 
the  country to have a wider range of  professional and qualified firefighters  to ensure a more permanent 
availability, independent of the calendar dates, to support the population in crises situations such as the fires 
of October 15th. 

The municipalities, including at the level of the Town Councils, played a very important role of support and 
protection, given their proximity to the population. Given the extent and violence of the fires, the population 
was quickly in the front line of the fires, without great external support. These circumstances have reaffirmed 

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the need to prepare populations to be self‐sufficient in the event of large‐scale fires, which, unfortunately, 
we assume that it will tend to be more and more frequent.  

We were not able to follow in detail the activities of recovery of the burned areas, in its various components, 
including in the social. We have nevertheless to mention that the unfortunate experience of managing the 
donations  of  the  population  that  was  gathered  after  the  fire  of  PG  led  to  similar  incomprehensible 
performance in the fires of October 15th. 

We believe that it is necessary to foster the best scientific and technical knowledge of the many complex 
problems involved in the management of forest fires and in particular those that may occur in circumstances 
such  as  on  15th.  October.  We,  therefore,  welcome  the  creation  of  a  national  research  program  that  was 
launched by FCT, although we may disagree with the format it has. We also welcome the initiative to launch 
a collaborative forest and fire laboratory.

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Índice 
Siglas e Abreviaturas ......................................................................................................................................... 5 
Sumário Executivo ............................................................................................................................................. 7 
Executive Summary ......................................................................................................................................... 11 
Índice ............................................................................................................................................................... 15 
1.  Introdução Geral ...................................................................................................................................... 19 
  Enquadramento ............................................................................................................................... 20 
  Equipa de Investigação .................................................................................................................... 22 
2.  Condições ambientais e operacionais ..................................................................................................... 27 
  Descrição do Território .................................................................................................................... 27 
  Solos ......................................................................................................................................... 27 
  Orografia .................................................................................................................................. 29 
  Ocupação do solo .................................................................................................................... 32 
  Áreas protegidas ou geridas pelo Estado ................................................................................ 35 
  Histórico de incêndios ............................................................................................................. 37 
  Condições Climáticas e Meteorológicas .......................................................................................... 39 
  Caracterização climatológica ................................................................................................... 40 
  Perigo de incêndio ................................................................................................................... 41 
2.2.2.1.  Índice meteorológico de perigo de incêndio florestal – Fire Weather Index (FWI) ........ 41 
2.2.2.2.  Nível de perigo de incêndio florestal ............................................................................... 42 
  Caracterização meteorológica ................................................................................................. 46 
2.2.3.1.  Furacão Ophelia ............................................................................................................... 47 
  Parâmetros de superfície: temperatura, humidade relativa e vento ...................................... 48 
2.2.4.1.  Análise de dados das estações meteorológicas .............................................................. 49 
2.2.4.2.  Análise de dados de parques eólicos ............................................................................... 55 
2.2.4.3.  Análise geral (parâmetros de superfície) ......................................................................... 59 
  Humidade dos combustíveis ........................................................................................................... 61 
  Evolução do teor de humidade de combustíveis finos na Lousã ............................................ 61 
  Previsão do teor de humidade dos combustíveis finos mortos .............................................. 65 
  Condições Operacionais .................................................................................................................. 69 
  Dispositivo operacional previsto ............................................................................................. 69 
  Pedido de reforço de meios .................................................................................................... 71 
  Avisos e Alertas ........................................................................................................................ 71 
2.4.3.1.  Perigo de Incêndio Florestal ............................................................................................ 71 
2.4.3.2.  Avisos meteorológicos ..................................................................................................... 74 
 
Análise geral ............................................................................................................................ 74 
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3.  Principais incêndios e resposta operacional ........................................................................................... 77 
  Complexo de incêndios de Seia ....................................................................................................... 78 
  Alerta e causa de incêndio....................................................................................................... 78 
  Propagação inicial do fogo e ataque inicial ............................................................................. 78 
  Desenvolvimento do incêndio ................................................................................................. 81 
  Análise da resposta operacional .............................................................................................. 84 
  Complexo de incêndios da Lousã .................................................................................................... 85 
  Alerta e causa de incêndio....................................................................................................... 86 
  Propagação inicial do fogo e ataque inicial ............................................................................. 89 
  Desenvolvimento do incêndio ................................................................................................. 91 
  Análise da resposta operacional .............................................................................................. 93 
  Complexo de incêndios de Oliveira do Hospital .............................................................................. 94 
  Alerta e causa dos incêndios ................................................................................................... 95 
  Propagação inicial do fogo e ataque inicial ............................................................................. 98 
  Desenvolvimento do incêndio ............................................................................................... 102 
  Análise da resposta operacional ............................................................................................ 104 
  Complexo de incêndios da Sertã ................................................................................................... 106 
  Alerta e causa de incêndio..................................................................................................... 106 
  Propagação inicial do fogo e ataque inicial ........................................................................... 107 
  Desenvolvimento do incêndio ............................................................................................... 110 
  Análise da resposta operacional ............................................................................................ 119 
  Complexo de incêndios de Leiria ................................................................................................... 120 
  Alerta e causa de incêndio..................................................................................................... 121 
  Propagação inicial do fogo e ataque inicial ........................................................................... 122 
  Desenvolvimento do incêndio ............................................................................................... 124 
  Análise da resposta operacional ............................................................................................ 129 
  Complexo de incêndios de Quiaios ............................................................................................... 131 
  Alerta e origem do incêndio .................................................................................................. 131 
  Propagação inicial do fogo e ataque inicial ........................................................................... 132 
  Desenvolvimento do incêndio ............................................................................................... 133 
  Análise da resposta operacional ............................................................................................ 137 
  Complexo de incêndios de Vouzela ............................................................................................... 138 
  Alerta e causa de incêndio..................................................................................................... 139 
  Propagação inicial do fogo e ataque inicial ........................................................................... 140 
  Desenvolvimento do incêndio ............................................................................................... 143 
  Análise da resposta operacional ............................................................................................ 145 

CEIF/Universidade de Coimbra  16 
 
 
Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
  Análise integrada do comportamento do fogo ............................................................................. 147 
  Análise integrada da resposta operacional ................................................................................... 150 
4.  Os acidentes pessoais ............................................................................................................................ 157 
  Introdução ..................................................................................................................................... 157 
  Organização e Tipologia de Acidentes ........................................................................................... 157 
  Relato dos Acidentes ..................................................................................................................... 160 
  Incidentes ...................................................................................................................................... 161 
  Empresa de transporte coletivo de passageiros – Relatos de três motoristas ..................... 162 
4.4.1.1.  Autocarro da Sucursal da Guarda .................................................................................. 162 
4.4.1.2.  Autocarro da Sucursal de Coimbra ................................................................................ 163 
4.4.1.3.  Autocarro da Sucursal de Viseu ..................................................................................... 166 
4.4.1.4.  Recomendações a ter em conta para o futuro .............................................................. 169 
  Concessionária de vias terrestres .......................................................................................... 169 
  Empresa ferroviária ............................................................................................................... 172 
  Análise global ................................................................................................................................. 174 
5.  Impactos dos incêndios ......................................................................................................................... 177 
  Impacto geral ................................................................................................................................. 177 
  Introdução ............................................................................................................................. 177 
  Impacto do fogo .................................................................................................................... 178 
  Impacto nas indústrias .................................................................................................................. 181 
  Apoios concedidos às empresas afetadas ............................................................................. 182 
  Complexo de incêndios: Seleção de pontos a visitar e obtenção de dados .......................... 183 
  Instalações industriais de Seia ....................................................................................................... 187 
  Caracterização das infraestruturas e meio envolvente ......................................................... 188 
  Impacte após o incêndio........................................................................................................ 190 
  Instalações industriais de Tondela (CIF Lousã) .............................................................................. 191 
  Caracterização das infraestruturas e meio envolvente ......................................................... 192 
  Impacte após o incêndio........................................................................................................ 195 
  Instalações industriais de Oliveira do Hospital .............................................................................. 197 
  Caracterização das infraestruturas e meio envolvente ......................................................... 198 
  Impacte após o incêndio........................................................................................................ 201 
  Instalações industriais de Pampilhosa da Serra (CIF Sertã) ........................................................... 204 
  Caracterização das infraestruturas e meio envolvente ......................................................... 204 
  Impacte após o incêndio........................................................................................................ 207 
  Instalações industriais de Mira (CIF Quiaios) ................................................................................ 208 
  Caracterização das infraestruturas e meio envolvente ......................................................... 208 

CEIF/Universidade de Coimbra  17 
 
 
Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
  Impacte após o incêndio........................................................................................................ 211 
  Instalações industriais de Oliveira de Frades (CIF Vouzela) .......................................................... 214 
  Caracterização das infraestruturas e meio envolvente ......................................................... 214 
  Impacte após o incêndio........................................................................................................ 218 
  Análise integrada do impacte nas empresas ................................................................................. 219 
  Impacte após o incêndio........................................................................................................ 224 
6.  Recomendações .................................................................................................................................... 231 
  Introdução ..................................................................................................................................... 231 
  Notas e Recomendações Preliminares .......................................................................................... 231 
  Sistema operacional ...................................................................................................................... 234 
  Proteção das populações ............................................................................................................... 239 
  Outros elementos expostos ao fogo ............................................................................................. 242 
  Responsabilidades ......................................................................................................................... 243 
7.  Conclusão .............................................................................................................................................. 247 
8.  Agradecimentos e contactos ................................................................................................................. 251 
9.  Referências bibliográficas ...................................................................................................................... 255 
10.  Anexos ............................................................................................................................................... 259 

CEIF/Universidade de Coimbra  18 
 
 
Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 

1. Introdução Geral 
O conjunto dos incêndios que se desenvolveu no território de Portugal Continental nos dias 14, 15 e 16 
de outubro de 2017 constituiu um dos eventos mais significativos e graves desde que há registo em Portugal 
nesta matéria. A área percorrida pelos incêndios, num período de poucas horas, foi superior a duzentos mil 
hectares,  atingindo  praticamente  todo  o  Centro  de  Portugal,  desde  o  litoral  até  à  fronteira  com  Espanha 
(Figura 1). Nestes incêndios registou‐se a perda de 51 vidas, para além de muitos outros danos materiais e 
imateriais, que são incalculáveis. 

 
Figura 1 – Incêndios no território de Portugal continental de 14 a 16 de outubro 

Sem prejuízo da consideração de outros fatores condicionantes, a gravidade destes incêndios deveu‐se 
em grande parte à ocorrência do furacão Ophelia. Num período de seca extrema que Portugal atravessava, 
esta  tempestade  produziu  no  território  do  Continente  um  vento  proveniente  de  Sul,  com  elevada 
turbulência, muito seco e quente, que causou o reacendimento de vários focos de incêndio e queimadas, 
que haviam sido dadas como extintas nos dias anteriores. A previsão de chuva que deveria ocorrer nos dias 
seguintes, motivou muitas pessoas a realizar queimas e queimadas, dado que se estava a sair do período 
crítico de incêndios. Foi assim registado um número recorde de 532 ignições no dia 15 de outubro, que estava 
muito acima da capacidade de resposta de um sistema de combate que havia sido reduzido desde o final de 
setembro. 

Embora alguns dos incêndios reportados neste Relatório se tenham iniciado antes do dia 15 de outubro, 
e muitos deles tenham continuado a progredir nos dias seguintes, ficou marcado na memória coletiva o dia 
15 de outubro como sendo o que assinala a ocorrência desta tragédia. Por este motivo iremos designar, neste 

CEIF/Universidade de Coimbra                                 19 
 
Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
Relatório,  o  conjunto  dos  incêndios  reportados,  como  sendo  os  do  dia  15  de  outubro  de  2017,  ou 
simplesmente de 15 de outubro. 

Na sequência dos graves incêndios florestais que deflagraram nesse dia, o Governo solicitou, uma vez 
mais, por intermédio do Ministério da Administração Interna, à equipa do Centro de Estudos sobre Incêndios 
Florestais, da Universidade de Coimbra, a preparação e apresentação de um estudo com a análise dos factos 
mais relevantes ocorridos nestes incêndios, com particular ênfase para: 

•  O  estudo  das  condições  climáticas,  meteorológicas  e  operacionais  em  que  se  desenvolveram  os 
múltiplos incêndios ocorridos no centro de Portugal nos dias 15 e 16 de outubro, a sua caracterização 
geral, em termos de número, localização, área afetada, causalidade, meios disponíveis e utilizados e 
principais danos causados.  

•  O estudo do comportamento de um conjunto selecionado de incêndios que permita caracterizar os 
principais  processos  físicos  e  fenómenos  ocorridos  nesses  dias,  em  particular  os  que  estiveram 
associados aos danos pessoais e, em concreto, com a perda de vidas, com a análise do desempenho 
das principais entidades operacionais. 

•  O estudo dos acidentes pessoais associados direta ou indiretamente a estes incêndios, com relato 
dos mesmos e propostas de recomendações para melhoria da situação. 

Atendendo à extensão territorial dos incêndios, à sua gravidade e complexidade, solicitámos ao Governo 
um prazo estendido de tempo para podermos realizar o trabalho de campo, a recolha e análise de dados 
para podermos completar o nosso estudo. Chegando ao termo desse prazo reconhecemos que apesar do 
intenso trabalho desenvolvido pela nossa equipa de investigação, com o apoio de um grande número de 
entidades  e  de  pessoas  singulares,  muito  ficou  por  fazer,  para  poder  proporcionar  ao  País  uma  análise 
completa e aprofundada dos importantes eventos ocorridos nos incêndios de 15 de outubro. Estamos, no 
entanto, cientes de que conseguimos reunir um conjunto de dados que reportam o que considerámos ser 
mais  importante  para  facultar  a  País  a  compreensão  dos  principais  factos  relacionados  com  estes  graves 
incêndios. 

1.1. Enquadramento 

No  dia  15  de  outubro  de  2017  registou‐se  um  total  de  532  ocorrências,  destas  apenas  um  pequeno 
número evoluiu para grandes IF provocando um total de 51 vítimas mortais, centenas de feridos entre graves 
e  ligeiros,  com  sérios  impactes  sociais  e  económicos,  e  uma  destruição  ambiental  e  patrimonial, 
nomeadamente em áreas de Interface Urbano Florestal (IUF) e industrial, numa escala nunca antes registada 
em Portugal. Do conjunto de IF registados neste período, trataremos neste relatório com detalhe os sete 
principais complexos de incêndios florestais (CIF) registados. São eles, por ordem de hora de ocorrência, o 
complexo de IF de Seia, Lousã, Oliveira do Hospital, Sertã, Quiaios e Vouzela (Figura 2), com as áreas indicadas 
na Tabela 1. 

CEIF/Universidade de Coimbra  20 
 
 
Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 

 
Figura 2 – Mapa dos IF em Estudo 

Fazemos notar que neste trabalho utilizámos os perímetros finais que foram disponibilizados pelo ICNF 
em janeiro de 2018, com base nos dados do sistema Copernicus da União Europeia (UE). Sempre que o nosso 
trabalho de campo produziu dados diferentes daqueles, utilizámos os nossos. Temos conhecimento de que 
mais  recentemente  o  ICNF  disponibilizou  uma  cartografia  dos  incêndios,  diferente  da  anterior,  que  fora 
atualizada  com  novos  dados  de  satélite  e  do  terreno.  Tendo  verificado  que  não  existiam  diferenças 
significativas que o justificassem, mantivemos a cartografia inicial, a não ser que se refira algo em contrário. 

Tabela 1 – Os sete principais CIF ocorridos em 15 de outubro estudados neste Relatório. 
Ref  Designação  Hora de  Área total  Vítimas 
Ocorrências analisadas 
do CIF  alerta  (ha)  mortais 
Sabugueiro  06.03h 
1  Seia  17003  1 
Casal da Boavista  22.30h 
2  Lousã  Prilhão  08.41h  54407  15 
Sandomil  10.26h 
Oliveira do  Esculca  12.28h 
3  51429  23 
Hospital  Monte Frio / Relva Velha  14.00h 
Casas Figueiras  23.00h 
Ponte das Portelinhas  12.02h 
4  Sertã  Nespereira  18.41h  30977  2 
Maria Gomes  21.35h 
Praia da Légua  13.51h 
5  Leiria  20014  0 
Burinhosa  14.33h 
6  Quiaios  Cova da Serpe  14.36h  23844  0 
Albitelhe  17.21h 
7  Vouzela  15959  10 
Varzielas  18.50h 
 

CEIF/Universidade de Coimbra  21 
 
 
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2. Condições ambientais e operacionais 
2.1. Descrição do Território 

O elevado número de ocorrências registadas no dia 15 de outubro de 2017 afetou de modo particular a 
Região Centro de Portugal (RCP), que é uma região administrativa do território de nível II (Nomenclatura de 
Unidade Territorial II, NUTS II) criada pelo Decreto‐Lei nº 46/89 de 15 de fevereiro.  As Regiões NUTS II, são 
compostas  por  7  unidades  territoriais,  que  correspondem  às  áreas  de  atuação  das  Comissões  de 
Coordenação  Regional.  Territorialmente  a  RCP  é  limitada  a  norte  pela  NUTS  II  Região  Norte,  a  leste  por 
Espanha,  a  sul  pela  NUTS  II  do  Alentejo  com  as  suas  sub‐regiões  do  Alto  Alentejo  e  da  Lezíria  do  Tejo,  a 
sudoeste pela Área Metropolitana de Lisboa e a oeste pelo oceano Atlântico (Figura 3). 

 
Figura 3 – Mapa de Portugal Continental por NUTS II

A área que a RCP ocupa no território é de 28405km2, ou seja, 31% do território de Portugal Continental. 
Os Censos de 2011 registaram na RCP um total de 2327580 habitantes, ou seja, 22% do total Nacional, o que 
corresponde a uma densidade populacional de 81,9hab/km2. Esta região integra 8 unidades de nível III (NUTS 
III) ou Comunidades Intermunicipais (CIM): CIM de Coimbra, de Aveiro, Beiras e Serra da Estrela, Viseu Dão‐
Lafões, Beira Baixa, Médio Tejo,  de Leiria e  do Oeste, totalizando 8 distritos, descritos de oeste para leste e 
de norte para sul, o distrito de Aveiro, Viseu, Guarda, Coimbra, Castelo Branco, Leiria, Santarém e Lisboa, 
totalizando 100 municípios.  

Solos 

O  tipo  de  solo  de  uma  região,  nomeadamente  a  sua  consistência,  permeabilidade,  densidade  ou 
composição  química,  juntamente  com  o  clima,  são  determinantes  na  capacidade  produtiva  das  espécies 
vegetais aí existentes. 

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1.2. Equipa de Investigação 

A equipa de investigação multidisciplinar do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais da Associação 
para o Desenvolvimento da Aerodinâmica Industrial (CEIF‐ADAI) da Universidade de Coimbra, foi constituída 
pelas pessoas que se apresentam em seguida, que trabalharam de forma dedicada e articulada, desde o início 
do nosso mandato, em março de 2018, até à data de apresentação do Relatório. 

A  coordenação  geral  dos  trabalhos  esteve  a  cargo  de  Domingos  Xavier  Viegas,  Diretor  do  Centro.  A 
Coordenação técnica esteve a cargo de Miguel Almeida e de Luís Mário Ribeiro. 

Domingos Xavier Viegas 
É Professor Catedrático do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de 
Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. 
É Presidente do Conselho de Administração da Associação para o Desenvolvimento 
da  Aerodinâmica  Industrial  (ADAI),  unidade  de  investigação  pertencente  ao 
Laboratório Associado de Energia, Transportes e Aeronáutica (LAETA), a cuja direção 
pertence. Na ADAI coordena o Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais (CEIF), 
  para  a  investigação,  formação  avançada  e  prestação  de  serviços  na  gestão  dos 
incêndios florestais. 
Participou  em  27  projetos  com  financiamento  internacional  e  em  30  com 
financiamento  nacional  na  temática  dos  incêndios  florestais,  muitos  deles  como 
coordenador. Orientou ou coorientou 14 teses de doutoramento e 46 dissertações de 
mestrado na área. 
Foi  membro  da  Comissão  de  Inquérito,  designada  pelo  Governo  Português,  de  um 
acidente  ocorrido  na  Guarda  em  2006  e  pelo  Governo  Croata,  de  um  acidente 
ocorrido num incêndio florestal na Croácia em 2007.   
Foi  testemunha  pericial,  designada  pelo  tribunal,  no  âmbito  dos  processos 
relacionados com acidentes ocorridos em Portugal, em 2005 e 2006 e em Espanha 
em  2005  e  no  âmbito  de  um  processo  relacionado  com  um  incêndio  ocorrido  na 
Austrália, em 2003. 
Foi  responsável  pela  elaboração  de  um  estudo  sobre  as  condições  iniciais  de 
propagação  de  um  incêndio  florestal  no  Monte  Carmelo  em  2010,  a  convite  das 
Autoridades Israelitas. 
A convite do Ministério da Administração Interna, foi o coordenador do estudo sobre 
o grande Incêndio Florestal ocorrido em 2012, no Algarve, do estudo sobre os dois 
grandes  incêndios  florestais  ocorridos  em  2013  e  dos  acidentes  mortais  ocorridos 
nesse ano e também do estudo sobre o incêndio de Pedrógão Grande, em junho de 
2017. 
Em  novembro  de  2004,  foi  distinguido  com  o  Prémio  El  Batefuegos  de  Oro  para  o 
“Melhor  Trabalho  no  Plano  Internacional”,  atribuído  pelo  Ministério  do  Meio 
Ambiente  de  Espanha,  pelo  seu  contributo  para  a  investigação  dos  incêndios 
florestais. 
Em julho 2005, a Ordem dos Engenheiros Região Centro promoveu uma Sessão de 
homenagem ao CEIF pelo seu contributo para a investigação na área dos incêndios 
florestais. 
Recebeu  em  janeiro  de  2017,  o  prémio  internacional  “Fire  Safety  Award”,  em 
reconhecimento  do  seu  trabalho  em  prol  da  segurança  pessoal  nos  incêndios 
florestais. 
É autor de cinco livros, de dezasseis capítulos de livros e de mais de setenta artigos 
publicados em revistas internacionais, na temática dos incêndios florestais. 
 

CEIF/Universidade de Coimbra  22 
 
 
Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
Miguel Figueiredo Almeida 
Miguel Almeida é licenciado em Engenharia do Ambiente e tem o grau de Mestre em 
Gestão e Políticas Ambientais, ambos pela Universidade de Aveiro. Em 2009 concluiu 
o  seu  Doutoramento  em  Riscos  Naturais  e  Tecnológicos  pela  Universidade  de 
Coimbra.  É  investigador  Sénior  do  Centro  de  Estudos  sobre  Incêndios  Florestais 
(CEIF)  da  Associação  para  o  Desenvolvimento  da  Aerodinâmica  Industrial  (ADAI), 
com o qual tem vindo a colaborar a tempo parcial desde 2003 e com total dedicação 
desde  2007.  É  membro  integrado  do  Laboratório  Associado  para  Energia,   
Transportes e Aeronáutica (LAETA) desde 2012. Anteriormente, durante cerca de 10 
anos,  realizou  atividades  de  docência  no  Instituto  Politécnico  de  Tomar  e  no 
Departamento  de  Engenharia  Mecânica  da  Universidade  de  Coimbra.  Miguel 
Almeida está regularmente envolvido nos cursos de formação de Bombeiros tendo 
participado em vários cursos sobre comportamento do fogo e segurança pessoal no 
combate a incêndios. 
Miguel Almeida é editor de dois livros, é coautor de diversos artigos de investigação 
em revistas internacionais com revisão pelos seus pares, e conta com dezenas de 
artigos em proceedings de conferências internacionais. É revisor regular de quatro 
revistas  internacionais  de  referência  na  temática  dos  incêndios  florestais.  No  seu 
percurso profissional, coorientou várias teses de doutoramento e de mestrado. Para 
além  disso,  participou  como  coautor  em  dois  relatórios  nacionais  no  contexto  de 
grandes incêndios florestais (Tavira/São Brás de Alportel, 2012; Grandes Incêndios 
Florestais, 2013) e foi corresponsável pela coordenação técnica do relatório sobre os 
incêndios de Pedrógão Grande e Gois, 2017. O seu trabalho foi reconhecido com três 
prémios de investigação: Melhor Trabalho de Pesquisa Científica (Nacional) e dois 
melhores apresentações (Internacional). 
Até à data, Miguel Almeida participou em 19 projetos de investigação, nacionais e 
europeus, no contexto dos incêndios rurais. 
 

Luís Mário Ribeiro 
Luís Mário Ribeiro, é licenciado em Engenharia Florestal (1998) pela Universidade de 
Trás‐os‐Montes e Alto Douro, em Vila Real, onde em 2002 concluiu também uma pós‐
graduação  em  Engenharia  de  Recursos  Florestais.  É  mestre  em  Dinâmicas  Sociais, 
Riscos  Naturais  e  Tecnológicos  pela  Universidade  de  Coimbra  (2016),  curso  que 
terminou  com  um  reconhecimento  da  Faculdade  de  Economia  da  UC  pela  boa 
  prestação curricular. 
Desde 1998 integra a equipa do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais (CEIF) 
da  ADAI,  onde  tem  participado  ativamente  na  realização  de  diversos  projetos  de 
investigação  científica,  nacionais  e  internacionais,  no  domínio  dos  incêndios 
florestais.  Leciona  regularmente  nos  cursos  e  formações  promovidos  pela  ADAI, 
assegurando  lições  relacionadas  com  as  matérias  em  que  adquiriu  especialização: 
incêndios na interface urbano‐florestal, combustíveis florestais, sistemas de apoio à 
decisão e normas e regras de segurança no combate aos incêndios florestais.  
Desde o início da sua colaboração com o CEIF publicou como autor e coautor diversas 
publicações em revistas científicas e técnicas, bem como 3 capítulos de livros sobre 
incêndios  florestais.  Tem  apresentado  inúmeras  comunicações  em  conferências  e 
seminários,  quer  científicos  quer  operacionais  ou  de  divulgação,  em  Portugal  e  no 

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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
estrangeiro,  tendo  sido  premiado  com  a  distinção  de  melhor  apresentação  numa 
conferência  internacional.  Participou  também  na  elaboração  de  relatórios  oficiais 
sobre o incêndio florestal de Tavira/São Brás de Alportel de 2012, sobre os grandes 
incêndios florestais ocorridos em 2013 e sobre o complexo de incêndios de Pedrógão 
Grande em 2017. 
 

Jorge Raposo 
Jorge Rafael Nogueira Raposo obteve o seu Doutoramento em Engenharia Mecânica 
pela Universidade de Coimbra, em junho de 2016. Exerce atividade de investigação 
na  área  do  comportamento  do  fogo  na  equipa  da  ADAI,  com  especial  ênfase  no 
comportamento extremo do fogo. É autor de vários trabalhos científicos na temática 
dos fogos de junção e de vórtices de fogo. Foi coautor dos relatórios sobre os grandes 
incêndios, ocorridos em Portugal, nos anos de 2012 e 2013. É Formador de quadros 
de  Bombeiros  no  âmbito  do  Protocolo  entre  a  ADAI  e  a  Escola  Nacional  de   
Bombeiros.  É também professor auxiliar convidado do departamento de Engenharia 
Mecânica da Universidade de Coimbra (Portugal) e professor Adjunto Convidado do 
Instituto Superior de Engenharia de Coimbra (ISEC). 
 

Maria Teresa P. Viegas 
Maria Tersa Viegas é licenciada em Silvicultura pelo Instituto Superior de Agronomia 
da Universidade Técnica de Lisboa. Integrou a equipa da ADAI a partir de 1990. Tem 
desenvolvido trabalho nas áreas de caracterização de combustíveis florestais, risco de 
incêndio florestal e efeitos do fogo. Participou na elaboração dos relatórios anteriores 
sobre  incêndio  florestal  de  Tavira/São  Brás  de  Alportel  de  2012,  sobre  os  grandes 
incêndios florestais ocorridos em 2013 e sobre o complexo de incêndios de Pedrógão 
  Grande em 2017.
 

Ricardo Oliveira 
Ricardo  Filipe  Silva  de  Oliveira  é  Mestre  em  Dinâmicas  Sociais,  Riscos  Naturais  e 
Tecnológicos desde 2010, pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. 
Atualmente é estudante do Doutoramento em Território, Risco e Políticas Públicas 
no Instituto de Investigação Interdisciplinar da Universidade de Coimbra. Integra a 
Equipa da ADAI desde 2009 onde desenvolve trabalho de investigação nas áreas do 
comportamento  do  fogo  e  aspetos  socioeconómicos  dos  incêndios  florestais. 
Participou  na  elaboração  dos  relatórios  anteriores  sobre  incêndio  florestal  de   
Tavira/São Brás de Alportel de 2012, sobre os grandes incêndios florestais ocorridos 
em  2013  e  sobre  o  complexo  de  incêndios  de  Pedrógão  Grande  em  2017.  Exerce 
funções  de  bombeiro  voluntário  desde  2006,  sendo  detentor  de  cursos 
especializados no âmbito da Gestão da Emergência (ENB), emergência pré‐hospitalar 
(TAS), resgate em meio aquático (ISN) e incêndios florestais. 
 

Daniela Alves 
Daniela  Alves  é  Mestre  em  Engenharia  do  Ambiente  pela  Faculdade  de  Ciências  e 
Tecnologia  da  Universidade  de  Coimbra.  Exerce  investigação  na  Equipa  da  ADAI, 
desde  2016,  onde  tem  desenvolvido  trabalhos  no  âmbito  da  calibração  de  dados 
meteorológicos e de risco de incêndio e trabalhos sobre mecanismos de contenção e 
supressão  do  fogo,  que  visem  a  proteção  de  habitações  e  estruturas  críticas. 

 
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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
Participou  na elaboração  do relatório  sobre o complexo  de  incêndios de Pedrógão 
Grande em 2017. 
 

Cláudia Pinto 
Cláudia Pinto é Mestre em Engenharia do Ambiente pela Universidade de Coimbra. 
Atualmente é Bolseira de Investigação do CEIF‐ADAI e estudante de Doutoramento 
em  Engenharia  Mecânica  na  Universidade  de  Coimbra.  Desenvolve  trabalhos  de 
investigação  na  área  dos  incêndios  florestais  e  comportamento  do  fogo,  com 
especial  incidência  no  comportamento  extremo  do  fogo,  especificamente  em 
vórtices de fogo, tendo uma publicação científica com revisão por pares.  
 
 
Humberto Jorge 
Humberto  Jorge  é  Doutorado  em  Engenharia  Eletrotécnica  e  de  Computadores  na 
especialização  em  sistemas  de  energia,  pela  Universidade  de  Coimbra  (1999), 
exercendo  funções  de  Professor  Auxiliar  na  Faculdade  de  Ciências  e  Tecnologia  da 
Universidade  de  Coimbra  (FCTUC).  Como  doutorado  já  orientou  seis  teses  de 
doutoramento e é autor e coautor de 57 publicações com revisão por pares, sendo 
distribuídas  por  capítulos  de  livro  (1),  revistas  científicas  internacionais  (19)  e  atas 
  congressos internacionais (37).  
As áreas de interesse da sua atividade, exercida tanto como docente, bem como no 
âmbito do desenvolvimento de diversos projetos de I&D e de trabalhos de consultoria 
prestados,  incluem:  eficiência  energética,  sistemas  de  gestão  técnica,  resposta 
dinâmica  à  procura  (Demand  Response),  qualidade  de  energia,  redes  elétricas 
inteligentes (smart grids) e sistemas de energia elétrica. A sua atividade de consultor 
especializado tem sido desenvolvida em diversos trabalhos tanto no segmento dos 
grandes  operadores  do  setor  elétrico  e  entidade  reguladora  do  sector  da  energia 
como em atividade de consultadoria na área da eficiência energética ligada ao setor 
autárquico. 
É  Membro  Sénior  (nº  20134)  da  Ordem  dos  Engenheiros  exercendo  atualmente 
funções de membro eleito com lugar de Vogal do Conselho Fiscal na Região Centro. É 
Membro do IEEE ‐ Institute of Electrical and Electronics Engineers (EEE Power & Energy 
Society Membership #03181112). Atualmente é Presidente da Comissão Técnica nº 8 
(CTE  8)  do  Instituto  Português  da  Qualidade,  sobre  os  aspetos  do  sistema  de 
fornecimento de energia elétrica 
 

André Rodrigues 
André Filipe Branco Rodrigues é licenciado e mestre em Engenharia Mecânica pela 
Universidade de Trás‐os‐Montes e Alto Douro e pós‐graduado em Proteção Civil e 
em  Gestores  de  Emergência  e  Socorro  pelo  Instituto  Superior  de  Ciências  da 
Informação e Administração. Atualmente é aluno no 3º ano de doutoramento em 
Engenharia Mecânica na Universidade de Coimbra no percurso dos Riscos Naturais 
e Tecnológicos. Exerce atividade de investigação na área do comportamento do fogo. 
É autor e coautor de trabalhos científicos na área do comportamento extremo do   
fogo.  Foi  coautor  do  relatório  sobre  o  Grande  Incêndio  Florestal  de  Pedrógão 
Grande.  É  bombeiro  voluntário  desde  2009,  possuindo  diversos  cursos  técnicos, 
alguns  na  área  dos  Incêndios  Florestais.  Desempenha  funções  de  Adjunto  de 
Comando nos Bombeiros Voluntários de Tabuaço. 
 

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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
Carlos Ribeiro 
Carlos Ribeiro é Licenciado em Ciências de Engenharia Mecânica desde 2012, mestre 
em  Engenharia  Mecânica  desde  novembro  de  2014  pela  Universidade  de  Aveiro  e 
pós‐graduado  em  Gestores  de  Emergência  e  Socorro  e  em  Gestão  Municipal  de 
Proteção Civil pelo Instituto Superior de Ciências da Informação e Administração de 
Aveiro. Atualmente é aluno de doutoramento em Engenharia Mecânica no percurso 
de Aerodinâmica, Riscos Naturais e  Tecnológicos na Universidade de Coimbra com 
uma  tese  de  doutoramento  na  área  dos  incêndios  florestais.  Exerce  atividade  de 
investigação  na  área  do  comportamento  do  fogo  no  Centro  de  Estudos  sobre 
Incêndios  Florestais  da  Universidade  de  Coimbra,  com  ênfase  no  comportamento 
extremo  do  fogo  em  topografia  complexa.  Desde  2005  é  Bombeiro  Voluntário, 
possuindo  diversos  cursos  técnicos  na  área  da  gestão  de  emergência  e  socorro  e 
frequenta o curso de Análise de Incêndio e Uso do Fogo de Supressão reconhecido 
pela Autoridade Nacional de Proteção Civil. 
 

Carlos Viegas 
Carlos  Viegas  concluiu  o  seu  doutoramento  em  Engenharia  Mecânica  ‐  Gestão  e 
Robótica Industrial, na Universidade de Coimbra. Atualmente é investigador de pós‐
doutoramento da ADAI, no Centro de Estudos Sobre Incêndios Florestais (CEIF), com 
o  qual  colabora  desde  2009,  com  dedicação  exclusiva  desde  2017.  É  também 
professor  auxiliar  convidado  do  departamento  de  Engenharia  Mecânica  da 
Universidade de Coimbra (Portugal).   
 

Sérgio Lopes 
Sérgio Lopes é Licenciado em Engenharia do Ambiente, Mestre em Termodinâmica e 
Fluidos  e  Doutorado  em  Riscos  Naturais  e  Tecnológicos  pela  Universidade  de 
Coimbra. 
É Professor Adjunto no Departamento de Ambiente da Escola Superior de Tecnologia 
e Gestão do Instituto Politécnico de Viseu. É investigador do Centro de Estudos de 
Incêndios  Florestais  da  Associação  para  o  Desenvolvimento  da  Aerodinâmica 
Industrial  e  do  Centro  de  Estudos  em  Educação,  Tecnologias  e  Saúde  do  Instituto 
 
Politécnico de Viseu. 
 

Nuno Luís 
Nuno  Luís  é  técnico  de  laboratório  no  CEIF  desde  1996,  dando  apoio  a  todas  as 
atividades científicas e de formação aí desenvolvidas. 

   
 
Gonçalo Rosa 
Gonçalo Rosa é Técnico Superior de Proteção Civil e técnico de laboratório no CEIF, 
dando apoio a todas as atividades científicas e de formação aí desenvolvidas. 

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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 

2. Condições ambientais e operacionais 
2.1. Descrição do Território 

O elevado número de ocorrências registadas no dia 15 de outubro de 2017 afetou de modo particular a 
Região Centro de Portugal (RCP), que é uma região administrativa do território de nível II (Nomenclatura de 
Unidade Territorial II, NUTS II) criada pelo Decreto‐Lei nº 46/89 de 15 de fevereiro.  As Regiões NUTS II, são 
compostas  por  7  unidades  territoriais,  que  correspondem  às  áreas  de  atuação  das  Comissões  de 
Coordenação  Regional.  Territorialmente  a  RCP  é  limitada  a  norte  pela  NUTS  II  Região  Norte,  a  leste  por 
Espanha,  a  sul  pela  NUTS  II  do  Alentejo  com  as  suas  sub‐regiões  do  Alto  Alentejo  e  da  Lezíria  do  Tejo,  a 
sudoeste pela Área Metropolitana de Lisboa e a oeste pelo oceano Atlântico (Figura 3). 

 
Figura 3 – Mapa de Portugal Continental por NUTS II

A área que a RCP ocupa no território é de 28405km2, ou seja, 31% do território de Portugal Continental. 
Os Censos de 2011 registaram na RCP um total de 2327580 habitantes, ou seja, 22% do total Nacional, o que 
corresponde a uma densidade populacional de 81,9hab/km2. Esta região integra 8 unidades de nível III (NUTS 
III) ou Comunidades Intermunicipais (CIM): CIM de Coimbra, de Aveiro, Beiras e Serra da Estrela, Viseu Dão‐
Lafões, Beira Baixa, Médio Tejo,  de Leiria e  do Oeste, totalizando 8 distritos, descritos de oeste para leste e 
de norte para sul, o distrito de Aveiro, Viseu, Guarda, Coimbra, Castelo Branco, Leiria, Santarém e Lisboa, 
totalizando 100 municípios.  

Solos 

O  tipo  de  solo  de  uma  região,  nomeadamente  a  sua  consistência,  permeabilidade,  densidade  ou 
composição  química,  juntamente  com  o  clima,  são  determinantes  na  capacidade  produtiva  das  espécies 
vegetais aí existentes. 

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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
A  Figura  4  apresenta  o  tipo  de  solos  encontrados  na  área  afetada  pelos  incêndios  analisados.  Esta 
informação  foi  obtida  no  Altas  Digital  do  Ambiente  (Agência  Portuguesa  do  Ambiente),  sendo  a  sua 
classificação feita de acordo com a terminologia da Food and Agriculture Organization of the United Nations 
(FAO)  de  1991  (Ferreira,  2000).  Na  constituição  dos  solos  a  natureza  das  rochas,  o  clima  e  a  própria 
geomorfologia são elementos determinantes. A classificação proposta pela FAO é divida em nove grandes 
grupos, que se encontram todos representados na RCP.  

O tipo de solo predominante em Portugal Continental é o cambissolo, caracterizado por ser um solo 
jovem  e  moderadamente  desenvolvido.  É  característico  de  áreas  húmidas  e  de  relevo  mais  acentuado 
constituídas  por  rochas  graníticas  ou  calcárias,  nomeadamente  do  maciço  calcário  estremenho  (Ferreira, 
2000). Este tipo de solo está presente nos Complexos de Incêndios Florestais (CIF) da Lousã, Vouzela, Oliveira 
do Hospital e parte de Seia e Sertã. 

O litossolo é o segundo tipo de solo com maior expressão em Portugal Continental, caraterizado por ser 
um  solo  com  pouca  profundidade,  assente  sobre  rocha  dura,  que  pode  secar  ou  alagar  rapidamente  em 
função  do  pouco  volume  que  apresenta,  levando  ao  seu  arrastamento,  em  função  das  condições 
meteorológicas. Este tipo de solo está presente no CIF da Sertã, que na sua progressão para norte intercala 
o  litossolo  com  o  cambissolo,  anteriormente  caracterizado,  até  ao  limite  administrativo  do  município  de 
Pampilhosa da Serra.   

 
Figura 4 – Tipos de solos da zona dos IF analisados 

A área ardida no CIF de Seia é ocupada sensivelmente em 50% por cada tipologia de solo. Na área oeste 
do  CIF  está  presente  o  cambissolo,  e  a  leste  o  ranker.  O  ranker  é  um  solo  do  grupo  dos  leptossolos, 
caracterizado por ser um solo extremamente delgado.  

Por último, o regassolo que apresenta uma morfologia determinada pelo tipo de rocha mãe associada, 
e  pelo  clima  em  que  ocorre,  caracteriza‐se  por  finos  horizontes,  superfícies  com  baixo  teor  de  matéria 
orgânica, localizados em pequenas áreas adjacentes aos fluvissolos e arenossolos (podzóis). O CIF Quiaios 
desenvolveu‐se em regassolos a oeste e em podzóis a leste. O CIF de Leiria desenvolveu‐se num solo do tipo 
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podzol, predominante em formações detríticas com uma forte acumulação de ferro, alumínio ou matéria 
orgânica  sob  o  horizonte  lixiviado,  sendo  também  muitas  vezes  classificados  como  arenossolos,  devido  à 
espessura do horizonte lixiviado (Ferreira, 2000). 

 
Orografia 

Na Figura 5 é apresentado o mapa orográfico das áreas afetadas pelos IF em estudo, que como se vê é 
muito  heterógena.  Morfologicamente  é  na  RCP  que  se  registam  as  maiores  amplitudes  orográficas  de 
Portugal Continental, variando desde os 0m no litoral até aos 1993m na Torre (Serra da Estrela) no Sistema 
Central. 

 
Figura 5 – Orografia da zona dos IF analisados 

Com base nos elementos da figura apresentada, e recorrendo a um Sistema de Informação Geográfica 
(SIG), determinaram‐se as cotas mínimas e máximas em cada CIF em estudo, apresentando os valores obtidos 
na Tabela 2. 

Tabela 2 – Altimetria mínima e máxima dos CIF 
CIF  Total AA   Altitude  Altitude 
(ha)  mínima (m)  máxima (m) 
Seia  17002,9  362  1586 
Lousã  54407,0  40  595 
Oliveira do Hospital  51429,2  135  1264 
Sertã  30977,3  248  1082 
Leiria  20013,7  5  140 
Quiaios  23844,4  7  84 
Vouzela  15959,4  110  1032 

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O CIF de Seia localizado junto ao Sistema Central, foi o que registou a cota altimétrica mais elevada, 
situando‐se nos 1586m a leste e a nordeste da área ardida, e a cota altimétrica mínima de 362m a noroeste. 
Este é o CIF em estudo localizado mais a leste da RCP. 

A área ardida no CIF da Lousã apresenta diferenças de altimetria entre os 40m de cota mínima, localizada 
no  flanco  oeste,  mais  próximo  do  litoral  da  RCP,  e  a  sua  cota  altimétrica  máxima  de  595m  de  altitude 
localizada a sul, junto ao seu ponto de início. 

Com  diferenças  altimétricas  distintas  do  CIF  da  Lousã,  o  CIF  de  Oliveira  do  Hospital  teve  como  cota 
altimétrica mínima os 135m, no seu flanco oeste, e cota altimétrica máxima 1264m no seu flanco leste. O 
flanco leste deste CIF localiza‐se geograficamente na orla oeste do Sistema Central. 

O CIF da Sertã, tal como, os três CIF´s que lhe antecederam está localizado no interior da RCP, os valores 
de altitude variaram entre a cota altimétrica mínima dos 248m, localizada no centro da sua área ardida, e a 
cota máxima dos 1082m a sul do perímetro final, repetindo valores altimétricos semelhantes a norte, junto 
à área de contacto com o CIF de Oliveira do Hospital.  

Diferenciado  dos  CIF  anteriormente  descritos,  o  CIF  de  Leiria  localiza‐se  num  troço  junto  ao  litoral 
relativamente extenso e sem amplitudes altimétricas relevantes. Os valores de altitude variaram entre a cota 
altimétrica  mínima  dos  5m  a  norte,  e  a  cota  altimétrica  máxima  dos  140m  a  sul.  Esta  diferença  de  cotas 
altimétricas tem pouca expressão quando comparado com os CIF´s do interior da RCP.  

Semelhante em termos orográficos ao CIF de Leiria, foi o CIF de Quiaios, que progrediu também num 
troço  junto  ao  litoral,  localizado  a  norte  do  Cabo  Mondego.  A  área  afetada  por  este  CIF  é  caracterizada 
igualmente por uma extensa e relativamente plana área, que se inicia na Serra da Boa Viagem a sul, até ao 
estuário do rio Vouga em Aveiro, a norte. Os valores de altitude variaram entre a cota altimétrica mínima dos 
7m a sul, e a cota altimétrica máxima dos 84m a norte  

Por fim, o CIF de Vouzela, semelhante orograficamente aos restantes CIF´s do interior da RCP, registou 
valores de altitude que variaram  entre  os 110m  de  cota altimétrica  mínima a  norte, e os 1032m de  cota 
altimétrica máxima a sul e a leste. 

À semelhança da orografia, também os declives são muito variáveis na região dos IF analisados. A Figura 
6 apresenta os declives, calculados com uma resolução de 30m, encontrados em cada uma das áreas ardidas, 
sendo  visível  a  diferença  entre  as  zonas  menos  declivosas  dos  CIF  do  litoral  e  os  declives  acentuados 
presentes nos CIF’s do interior, sobretudo nas zonas montanhosas. 

Por definição, o parâmetro declive é referente a um valor percentual,  no entanto, para uma melhor 
compreensão, na sua análise referimo‐lo em graus (de inclinação do terreno, em relação ao plano horizontal). 

Uma  simples  análise  visual  da  Figura  6  permite  constatar  a  diferença  vincada  entre  os  declives  dos 
diferentes CIF’s. 

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Figura 6 – Declives da zona dos IF analisados

A Tabela 3 mostra os declives mínimo, máximo e médio, bem como a percentagem de área ardida em 
declive superior a 15° por cada CIF analisado. O declive mínimo em todas as áreas ardidas é de 0°, o que 
corresponde a áreas planas, que se verificaram independentemente da orografia em ocorreram. 

Tabela 3 – Relação de declives (em graus) nos CIF analisados  
CIF  Declive  Declive  Declive  Área com declive >15 
mínimo  máximo  médio  (% da área total do CIF) 
Seia  0  45  12  29,26 
Lousã  0  45  8  8,37 
Oliveira do Hospital  0  52  10  24,68 
Sertã  0  55  15  43,55 
Leiria  0  26  3  0,16 
Quiaios  0  18  2  0,00 
Vouzela  0  41  10  19,54 

O declive máximo do CIF de Seia foi de 45°, sendo o seu declive médio de 12°. A percentagem da área 
ardida com declives superiores a 15° foi de 29,26%, constituindo‐se esta área como a segunda mais elevada, 
nesta classe de declives.  

Embora com os mesmos valores mínimos e máximos de declive que o CIF de Seia, o desenvolvimento 
em orografia mais suave do CIF da Lousã, registou um declive médio de 8°, e a mais baixa percentagem de 
área ardida em declives superiores a 15° do conjunto dos CIF´s do interior da RCP, ou seja, afetou 8,37% do 
total da área ardida.  

O  CIF  de  Oliveira  do  Hospital  registou  a  terceira  maior  percentagem  de  área  afetada  com  declives 
superiores a 15°, o que representou quase um quarto da área ardida total, com 24.68%. O declive máximo 
foi de 52°, o segundo maior de todos os CIF´s em estudo, e o declive médio de 10°.  

Com 43,55% da área ardida em declives superiores a 15°, o CIF da Sertã constitui‐se como o CIF que 
regista a maior área ardida nesta classe de declives. O declive máximo da área afetada por este CIF foi o mais 
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elevado de todos os CIF’s em estudo com 55° e o seu declive médio foi de 15°. Os declives deste CIF vão ao 
encontro do que é a complexidade da orografia do interior da RCP em particular, e em especial da orografia 
do Sistema Central.  

Diferenciado dos anteriormente descritos, o CIF de Leiria localiza‐se num troço do litoral relativamente 
extenso  e  plano,  com  um  declive  máximo  de  26°,  e  um  declive  médio  de  3°.  A  análise  à  área  ardida  em 
declives acima dos 15° foi de 0,16% do seu total, o que tem pouca expressão quando comparado com os CIF´s 
anteriores.    

Semelhante em termos de declives ao CIF de Leiria, foi o CIF de Quiaios, também ele localizado num 
troço do litoral relativamente extenso e plano, interrompido do troço anterior, pela Serra da Boa Viagem a 
sul. Este CIF não registou qualquer percentagem de área ardida acima dos 15° sendo o declive máximo 18° e 
o declive médio 2°.  

Por fim, o CIF de Vouzela, que aproxima os valores dos declives para o conjunto dos CIF em estudo no 
interior  da  RCP.  Aproximadamente  um  quinto  da  sua  área  ardida  total  (19,54%)  ocorreu  em  declives 
superiores a 15°, o seu declive máximo foi 41°, muito aproximado do declive dos CIF´s de Seia e Lousã, e o 
declive médio foi 10°, o mesmo que no CIF de Oliveira do Hospital e aproximado aos declives médios dos 
CIF´s de Seia e Lousã.  

 Ocupação do solo 

A caracterização da ocupação e uso do solo onde ocorreram os CIF em estudo foi efetuada com recurso 
a  cartas  temáticas  fornecidas  pela  Direcção‐Geral  do  Território  (DGT),  nomeadamente  a  Carta  de  Uso  e 
Ocupação do Solo de 2015 (COS 2015) e a Corine Land Cover 2012 (CLC 2012). Estas ferramentas são utilizadas 
para uso oficial em Portugal e fornecidas em suporte digital. A COS 2015 têm uma resolução mínima de 1ha. 
Na RCP estão representadas 9 megaclasses, sendo que nas áreas afetadas pelos CIF estão maioritariamente 
representadas 3 megaclasses de ocupação e uso do solo: agricultura, floresta e matos (Figura 7). 

No  CIF  de  Seia  foram  afetadas  maioritariamente  três  megaclasses  distintas:  a  oeste  agricultura  e 
floresta, a sul matos e floresta, e a norte matos intercalando com parcelas agrícolas. O CIF da Lousã percorreu 
área agrícola e floresta a sul, e a leste matos. O CIF da Lousã afetou maioritariamente floresta, com exceção 
da zona a norte, onde a floresta intercalava com parcelas agrícolas.  

O CIF de Oliveira do Hospital apresenta diferenças relativamente ao CIF da Lousã: a sudeste e a norte da 
sua área ardida, os matos tinham expressão na ocupação do solo, sendo a sua área intermédia ocupada por 
floresta alternando com parcelas agrícolas. O CIF da Sertã afetou maioritariamente área de floresta, ainda 
que com algumas parcelas agrícolas, a sul, e matos, a norte.  

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Figura 7 – Carta de ocupação do solo 2015. 

A  área  afetada  pelo  CIF  de  Leiria  foi  maioritariamente  floresta.  Este  incêndio  desenvolve‐se 
praticamente  em  povoamento  florestal,  no  entanto,  no  seu  flanco  leste  e  a  norte  da  área  afetada,  está 
também  representada  a  megaclasse  das  áreas  artificializadas.  O  CIF  de  Quiaios  desenvolve‐se 
maioritariamente em floresta. Na metade sul, é limitado no flanco leste por áreas agrícolas. Na metade norte, 
existem também áreas agrícolas, intercaladas com zonas artificializadas. A ocupação por matos quase não 
tem expressão em toda a extensão da área afetada. 

As  classes  representadas  no  CIF  de  Vouzela  são  a  floresta  a  oeste,  os  matos  a  sul  e  a  sueste,  e  os 
territórios artificializados e as parcelas agrícolas a norte. 

A ocupação do solo com recurso a análise da COS 2015 não traduz as perdas em termos de comunidades 
biológicas. Para compreensão das comunidades biológicas afetadas pelos CIF em estudo, elaborou‐se uma 
cartografia de biótopos fornecida pelo Atlas Digital do Ambiente da DGT. Um biótopo é uma área geográfica 
de  dimensão  variável,  por  vezes  pequena,  de  especial  interesse  paisagístico  que  importa  preservar,  pela 
oferta de condições constantes ou cíclicas às espécies que constituem a sua comunidade biológica, ou seja, 
as inter‐relações entre os seres que nela habitam. 

A Figura 8 representa os biótopos Corine Land Cover (CLC 2012) conforme a classificação do Atlas Digital 
do Ambiente, afetados por alguns dos incêndios de 15 de outubro em estudo: no CIF de Seia o Parque Natural 
da Serra da Estrela (PNSE), no CIF de Oliveira do Hospital a área de Paisagem Protegida da serra do Açor 
(PPSA), no CIF de Leiria o Pinhal de Leiria e a Mata Nacional do Urso (MNU), no CIF de Quiaios a área de 
Paisagem Protegida da Costa de Quiaios‐Mira (PPCQM) e o estuário da Ria de Aveiro. 

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Figura 8 – Biótopos CLC de 2012

O PNSE foi criado em 1976 pelo Decreto‐Lei nº 557/76 de 16 de julho, tem uma dimensão de 88850ha, 
alberga  uma  paisagem  variada  quer  em  ambiente  lacustre,  pastagens  em  altitude,  turfeiras,  carvalhais, 
floresta de produção quer em ocupação humana, sendo afetado na sua área oeste pelo CIF de Seia.   

A  área  de  PPSA  foi  criada  pelo  Decreto‐Lei  nº  67/82  de  3  de  março,  está  situada  na  Serra  do  Açor, 
concelho de Arganil, em altitudes que oscilam entre a cota mínima dos 400m e a máxima dos 1016 m. Embora 
seja uma área pequena em termos de dimensão, alberga duas unidades biológicas de interesse: a Reserva 
Natural da Mata da Margaraça, e a Reserva de Recreio da Fraga da Pena criadas pelo Decreto‐Lei nº 67/82 
de 3 de março. Esta área foi afetada na quase totalidade pelo CIF de Oliveira do Hospital.  

O CIF de Leiria afetou em grande parte o secular Pinhal de Leiria, de que somente uma pequena área é 
considerada biótopo, e a MNU a norte que ficou afetada em aproximadamente 50% da sua área. A MNU 
assume‐se  como  um  prolongamento  do  Pinhal  de  Leiria,  composto  na  sua  maioria  por  povoamento  de 
pinheiro‐bravo. Tem uma área de 6102ha que confronta: a norte com a povoação da Leirosa, freguesia da 
Marinha das Ondas no concelho da Figueira da Foz, a leste com a Guia no concelho de Pombal, a sul com 
Coimbrão no concelho de Leiria e a oeste com uma faixa de 14,5 km de costa atlântica.  

Por  último,  a  PPCQM  foi  afetada  em  mais  de  80%  dos  seus  6050ha  pelo  CIF  Quiaios.  Era  uma  área 
arborizada  maioritariamente  com  pinheiro‐bravo  e  folhosas,  inserida  no  Plano  Regional  de  Ordenamento 
Florestal (PROF) do Centro Litoral com duas sub‐regiões homogéneas: Região da Gândara Norte e as Dunas 
Litorais e Baixo Mondego. Estas sub‐regiões apresentam uma tripla funcionalidade, o recreio e a estética da 
paisagem, a proteção da faixa costeira e conservação da fauna e da flora. 

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 Áreas protegidas ou geridas pelo Estado 

As áreas de paisagem protegidas definidas no ponto anterior não têm de coincidir geograficamente na 
sua totalidade com os biótopos identificados, que como descrito anteriormente, são áreas geográficas com 
dimensão variável que interessa preservar para  manutenção da  comunidade  biológica. A  própria área  de 
paisagem protegida (Figura 9) não tem de ser gerida em exclusividade pelo Estado, quem executa a gestão 
destas áreas são as pessoas que as habitam, mediante legislação específica.  

Como se observa na figura, apenas o complexo de incêndios de Seia percorreu significativamente uma 
área protegida, o Parque Natural da Serra da Estrela. 

 
Figura 9 – Áreas protegidas e de conservação 

A floresta portuguesa ocupa 35,4% do território Nacional o que corresponde a 3,2 milhões de hectares. 
A  espécie  predominante  é  o  pinheiro  bravo  com  uma  área  estimada  de  1  milhão  de  hectares  entre 
povoamentos puros e mistos, seguindo‐se o eucalipto com uma área estimada de 826441 hectares entre 
povoamentos puros e mistos e por fim o sobreiro com 801405 hectares entre povoamentos puros e mistos 
(Louro, 2015). 

A dimensão da propriedade florestal apresenta uma distribuição muito vincada na Região Norte e Centro 
do  País,  onde  se  estima  que  exista  mais  de  meio  milhão  de  pequenos  proprietários  florestais  com 
propriedades de dimensões inferiores a 1ha. Apesar deste entrave ao desenvolvimento da fileira florestal, os 
bens  produzidos  sustentam  uma  importante  e  integrada  cadeia  industrial  suportando  mais  de  113  mil 
empregos diretos, ou seja, 2% da população ativa.   

Quanto  à  detenção  do  título  de  proprietário,  a  floresta  portuguesa  é  maioritariamente  privada. 
Aproximadamente 84,2% da área florestal, ou seja, 2,8 dos 3,2 milhões de hectares ocupados pela floresta 
são detidos por pequenos proprietários de cariz familiar (77,7%), e por grupos empresariais ligados ao sector 
florestal (6,5%). As áreas públicas representam 15,8% da área florestal, sendo que, destes, apenas 2% estão 
no  domínio  próprio  do  Estado,  a  menor  percentagem  da  Europa.  Mesmo  perante  uma  percentagem  tão 

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diminuta da área florestal sob domínio privado do Estado, estas áreas não passam incólumes à ocorrência de 
GIF.  

As  entidades  ou  proprietários  responsáveis  pela  gestão  das  Matas  e  Perímetros  Florestais  na  Região 
Centro,  onde  ocorreram  os  CIF  em  estudo  estão  representadas  na  Figura  10:  ICNF,  Câmara  Municipal  de 
Ferreira do Zêzere, Fundação Mata do Bussaco e alguma Propriedade Privada. O tipo de regime de gestão 
destas propriedades pode ser total ou parcial, conforme apresentado na Figura 11.  

   
Figura 10 – Entidade responsável pelas Matas Nacionais e  Figura 11 – Tipo de regime nas Matas e Perímetros Florestais 
Perímetros Florestais da região em estudo e área dos incêndios  da região em estudo e área dos incêndios analisados 
analisados 

Da intersecção das áreas ardidas com as Matas Nacionais e Perímetros Florestais resulta que, destas, 
apenas 18,9% tinham um Regime Florestal público com gestão exclusiva do Estado, e na sua totalidade na 
alçada do ICNF. No entanto, na área ardida, apenas em pequenas áreas em Leiria (1,6%) e Quiaios (16,6%) o 
ICNF tem uma gestão total a seu cargo. 

A Tabela 4 relaciona a distribuição de área ardida total em cada um dos CIF em estudo em função das 
tipologias dos Regimes Florestais: público com gestão exclusiva do Estado e público com gestão parcial do 
Estado.  

Tabela 4 – Área ardida no Regime Florestal do Estado (total e tipo de regime) 
    Área ardida em relação ao total do CIF 
Regime Florestal do  Regime Florestal do 
Total AA   Estado (total)  Estado (tipo de regime) 
CIF 
(ha)  Reg. Parcial  Reg. Total 
ha  (%) 
(%)  (%) 
Seia  17002,9  5507,2  32,4  32,4  0 
Lousã  54407,0  1345,7  2,5  2,5  0 
Oliveira do Hospital  51429,2  5711,7  11,1  11,1  0 
Sertã  30977,3  722,8  2,3  2,3  0 
Leiria  20013,7  14712,5  73,5  72,2  1,6 
Quiaios  23844,4  9682,0  40,6  23,7  16,6 
Vouzela  15959,4  2797,4  17,5  17,5  0 
Total  213633,9  40479,2  18,9   

O CIF de Seia totalizou 17002,9ha de área ardida, destes 5507,2ha estavam sob gestão parcial do Estado, 
o que representa 32,4% do total da área ardida em Seia. O Perímetro Florestal mais afetado neste CIF foi o 
da  Serra  da  Estrela  nos  seus  núcleos  de  Gouveia  com  20,8%  e  Seia  com  11,6%.  O  Perímetro  Florestal  de 
Manteigas  também  sob  gestão  parcial  do  Estado  apresentou  danos  muito  pontuais,  pelo  que,  na 
contabilidade geral do território sob gestão parcial do Estado não tem expressão.  
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Com  uma  dimensão  de  54406,9ha  de  área  ardida,  o  CIF  da  Lousã  afetou  1345,6ha  que  estavam  em 
regime de gestão parcial do Estado. Os Perímetros Florestais mais afetados foram os das Matas de: Sobral, 
Braçal, Cabeça Gorda, São Pedro Dias e Alveito o que corresponde a 2,5% do total da área ardida. 

A área afetada sob regime de gestão parcial do Estado pelo CIF de Oliveira do Hospital foi de 11,1% o 
que representa 5711,7ha do total de 51429,2ha dessa área ardida, repartidos pelos Perímetros Florestais da 
Pampilhosa da Serra, Senhora das Necessidades, Serra da Aveleira, Serra da Estrela núcleo de Vide e São 
Pedro do Açor. 

O CIF da Sertã foi o que menos afetou áreas sob gestão do Estado, registando 2,3% de área em gestão 
parcial  do  Estado,  o  que  representa  722,76ha  de  um  total  de  30977ha  de  área  ardida.  Os  Perímetros 
Florestais com gestão parcial afetados foram o de Gois com 0,7% e o do Rabadão com 1,7%. 

A área ardida no CIF de Leiria foi de 20013,7ha, dos quais, 14712,5ha de matas nacionais, que equivalem 
a 72% de matas sob gestão total do Estado, distribuídos pelas matas Nacionais de: Leiria, Pedrogão e do Urso, 
e  pelos  perímetros  florestais  da  Alva  da  Mina,  Alva  do  Azeche,  Pataias  e  Senhora  da  Vitória.  Destes 
14712,5ha,  arderam  310ha  que  tinham  gestão  parcial  do  Estado  o  que  equivale  a  1,6%  da  área  ardida, 
perfazendo o seu somatório 73,6% do total do CIF, constituindo‐se este como o que mais danos registou em 
área sob intervenção total e parcial do Estado.   

Embora  menor  em  área  afetada  sob  intervenção  total  ou  parcial  do  Estado  relativamente  ao  CIF  de 
Leiria,  o  CIF  de  Quiaios  registou  23844,4ha  de  área  ardida  total.  Destes,  9682ha  estavam  sob  gestão  do 
Estado, o que representa 40,6% do total do CIF, divididos em 19,6% de gestão total do Estado, referente as 
matas  Nacionais  das  Dunas  de  Quiaios  e  Vagos,  e  23,7%  sob  gestão  parcial,  os  Perímetros  Florestais  de 
Cantanhede e Pinhais de Mira. 

Em Vouzela a percentagem de área afetada pelo CIF sob gestão parcial do Estado foi de 17,5%, o que 
representa 2797,3ha de área ardida num total de 15959,4ha. As áreas afetadas sob gestão parcial do Estado 
foram os Perímetros Florestais da Penoita, Serra de Arca, São Pedro do Sul, Caramulo, Ladário, Préstimo, 
Vouga e a Reserva Botânica do Camarinho. 

Histórico de incêndios 

A RCP é ciclicamente afetada por grandes incêndios florestais (GIF) como se mostra na Figura 12, que 
representa as áreas ardidas no quinquénio 2013‐2017. Este quinquénio foi escolhido por ser o mais recente 
até aos CIF em estudo, por se constituir como um parâmetro de entrada na cartografia de risco estrutural, e 
por último mas não menos importante, porque é comumente aceite que uma área ardida, com condições de 
regeneração ótimas, passados cinco anos reúne condições para arder de novo com intensidade. Embora o 
número de ignições não seja tão elevado como em outras regiões de Portugal Continental, nomeadamente 
a  Região  Noroeste,  é  na  RCP  que  se  registam  as  áreas  ardidas  mais  extensas.  A  distribuição  geográfica 
apresentada na Figura 12 distingue claramente a atipicidade do ano de 2017 relativamente à dimensão das 
áreas ardidas, comparando com os restantes anos do quinquénio.  

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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 

 
Figura 12 – Áreas ardidas entre 2013 e 2017 

Este mapa tem como finalidade o enquadramento das áreas ardidas na RCP no quinquénio 2013‐2017; 
estender o período de dados em análise condicionaria a legibilidade gráfica e não acrescentava informação 
relevante ao pretendido. A elevada dimensão das áreas ardidas da RCP comparativamente ao resto do País, 
poderá ser explicada parcialmente pela orografia da RCP que, como se descreveu anteriormente, possui a 
amplitude de altimetria mais significativa, com declives muitos acentuados e a tipologia dos solos a oeste. Se 
no interior  da RCP a  progressão dos meios de combate fica dificultada pelas ruturas de declive, junto  ao 
litoral, a natureza do solo maioritariamente constituída por rochas sedimentares (areias) condiciona‐a  de 
igual. 

O  mapa  de  perigosidade  de  incêndio  (Figura  13)  foi  criado  pelo  ICNF  com  base  na  metodologia  CSP 
(Cover,  Slope  and  Probability),  desenvolvida  pela  Autoridade  Florestal  Nacional,  e  tem  uma  resolução 
geométrica de 80m, utilizando a seguinte informação de base:  

i)  Carta de ocupação do solo de 2007 Nível 3 (COS2007). 

ii) Carta de declives produzida a partir do MDE pan‐europeu (eudec_tm06.tif), baseado na fusão por 
média  ponderada  das  medições  altimétricas  SRTM  e  ASTER  GDEM.  Modelo  digital  de  declives 
percentuais, derivado do MDE. 

iii) Cartografia de áreas ardidas (1997‐2016).  

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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 

 
Figura 13 – Classes de perigosidade de incêndio florestal (zona centro) e áreas dos incêndios de 15/10. 

Os parâmetros de entrada para o cálculo da perigosidade de incêndio florestal, definidos na metodologia 
CSP podem necessitar de alguma atualização, nomeadamente ao nível da COS 2015 que é um documento 
revisto, atualizado e de uso oficial em Portugal. 

Analisando  cada  um  dos  CIF  em  estudo  verificamos  que  nem  sempre  existe  concordância  entre  a 
perigosidade de incêndio florestal fornecido pelo ICNF e as áreas ardidas. Os CIF localizados em áreas de 
declive  acentuado,  e  porque  o  declive,  é  um  parâmetro  que  além  de  imutável  entra  no  cálculo  da 
perigosidade, coincidem com o risco máximo ou elevado, como  é o  exemplo  dos CIF  de Seia, Oliveira  do 
Hospital, Sertã e Vouzela. O CIF da Lousã situa‐se em zonas de risco elevado a moderado. Os CIF do litoral, 
de Leiria e Quiaios não obtiveram qualquer coincidência entre a área ardida e o risco apresentado, que está 
assinalado como moderado a reduzido.  

Dada a forte dependência destes incêndios em relação às condições meteorológicas, o perigo local de 
incêndio  acabou  por  ser  melhor  traduzido  pelo  índice  de  perigo  meteorológico  de  incêndio  florestal, 
caracterizado pelo FWI (Fire Weather Index), como se verá mais adiante, na secção 2.2.2 (Perigo de incêndio).  

2.2. Condições Climáticas e Meteorológicas 

O papel desempenhado pelas condições climáticas e meteorológicas nas fases iniciais e na propagação 
de um incêndio florestal é amplamente reconhecido. As condições climáticas estão associadas ao estado da 
atmosfera e  do ambiente, nomeadamente do solo e da vegetação, relacionadas com os fatores de longa 
duração e as condições meteorológicas estão associadas aos fatores de curta duração. Estas condições foram 
determinantes no desenvolvimento dos incêndios de 15 de outubro e por isso iremos analisá‐las em detalhe. 

Em  Portugal  o  IPMA  é  a  instituição  de  referência  para  o  estudo  e  monitorização  do  clima  e  da 
meteorologia,  nomeadamente  na  vertente  operacional  associada  aos  incêndios  florestais.  No  âmbito  da 

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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
colaboração estreita existente entre a ADAI e o IPMA, trabalhámos desde o início do nosso estudo com os 
técnicos do IPMA para analisar e documentar esta parte do Relatório. Cientes de que os relatórios produzidos 
pelo  IPMA  sobre  estes  temas,  são  muito  completos,  fazemos  referência  a  dados  desses  relatórios  (“Os 
Incêndios Florestais de 14 a 16 de outubro de 2017 em Portugal Continental”, “Elementos para análise da 
variabilidade  observada  no  campo  de  vento  no  dia  15  de  outubro  de  2017”  e  “Apoio  meteorológico  na 
prevenção  e  combate  aos  incêndios  florestais”),  complementando‐os  com  outros  documentos  que 
consideramos importantes. 

Caracterização climatológica  

A situação climática do País durante a Primavera e início do Verão de 2017, caraterizou‐se por um estado 
de  secura  muito  grande,  resultante  do  deficit  de  precipitação  registado  no  País.  Segundo  o  relatório 
produzido pelo IPMA, intitulado de Apoio meteorológico na prevenção e combate aos incêndios florestais, o 
mês de outubro de 2017 em Portugal Continental foi extremamente seco e excecionalmente quente, tendo 
sido o mais quente nos últimos 87 anos (desde 1931) e o mais seco dos últimos 20 anos. Ocorreram duas 
ondas de calor, de 1 a 16 e de 23 a 30 de outubro, abrangendo grande parte do território, com exceção das 
regiões do litoral.  

A precipitação média no Continente em outubro de 2017 foi 30 % do valor normal relativamente ao 
período de 1971‐2000. Durante o mês de outubro quase não ocorreu precipitação registando‐se, apenas, 
precipitação com algum significado no Minho (Departamento de Meteorologia e Geofísica do IPMA, 2017). 
A equipa da ADAI tem vindo a utilizar o valor da precipitação acumulado no ano hidrológico, a partir do mês 
de setembro, como um indicador do estado de secura do ano, que é possível estimar mesmo no início do 
Verão e desta forma, de algum modo, antecipar o que poderá ser a gravidade do período de incêndios nesse 
ano. Em concreto verificamos que a precipitação registada em Coimbra constitui um bom indicador desta 
perigosidade. Na Figura 14 mostra‐se a precipitação acumulada no ano hidrológico num conjunto de anos, 
incluindo 2017. Como se pode ver a precipitação acumulada no ano hidrológico em 2017 foi das mais baixas 
de que há registo e situou‐se ao nível da do ano 2005, em que o valor da área ardida foi a terceira, depois de 
2017 e de 2003. 

 
Figura 14 – Evolução da precipitação acumulada no ano hidrológico em Coimbra, para um conjunto de anos, em comparação com 
os valores médios de 1970‐2009 

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A condição de secura é bem traduzida pelo índice de secura DC (Drought Code) do sistema Canadiano. 
A título indicativo apresentamos na Figura 15 a evolução de DC em Coimbra (dados do IPMA) para o ano de 
2017, o seu valor médio entre 2000 e 2016 e apresenta‐se a sua evolução para outros anos de referência 
(2003 e 2005). Destaca‐se na figura o dia 15 de outubro, com um valor de DC muito acima do normal. 

 
Figura 15 – Evolução do índice de secura DC de Coimbra, em 2017 e noutros anos de referência. Dados IPMA. 

Em outubro de 2017, o valor de DC era muito superior à média e ao valor registado em 2003 e em 2005. 
Em regiões mais interiores muito possivelmente, os valores de DC seriam superiores aos de Coimbra, mas a 
sua evolução relativa neste conjunto de anos não seria muito diferente.  

Perigo de incêndio 

2.2.2.1. Índice meteorológico de perigo de incêndio florestal – Fire Weather Index (FWI) 

O perigo de incêndio, considerado como sendo a possibilidade de ocorrer um incêndio, condicionada 
pelos fatores ambientais variáveis, refere‐se em geral às condições meteorológicas (Viegas et al., 2004). 

Em  Portugal,  para  se  estimar  o  perigo  de  incêndio  é  comum  utilizar‐se  o  sistema  canadiano, 
caracterizado  pelo  seu  índice  de  perigo  de  incêndio  Fire  Weather  Index  (FWI).  É  o  resultado  de  anos  de 
investigação aplicada realizada naquele País, a partir de 1968, que culminou com a apresentação do sistema 
num  documento  coligido  por  Van  Wagner,  1987.  O  FWI  é  um  indicador  do  comportamento  e  perigo  de 
incêndio e constitui o parâmetro de saída do sistema que mais diretamente se relaciona com a possibilidade 
de ocorrência de incêndios e com a respetiva perigosidade (Viegas et al., 2011). 

A situação climatológica do ano de 2017 e as condições meteorológicas do mês de outubro, refletiram‐
se em valores excecionais do índice meteorológico de perigo de incêndio florestal. A fim de ilustrar o elevado 
nível de perigo, que tivemos em outubro de 2017, apresenta‐se na Figura 16 a evolução do índice FWI para 
a estação de Coimbra no ano de 2017. Esta figura apresenta também a evolução do índice para os anos de 
2003 e 2005, anos de severa ocorrência de incêndios no país, e a média de valores de FWI entre 2000 e 2016. 

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Figura 16 – Evolução dos valores de FWI em Coimbra para os anos de 2003 e 2005 e para o ano de 2017. Representação dos valores 
médios de FWI para os anos de 2000 a 2016 (dados IPMA) 

Em 2017, à semelhança de 2003 e 2005, observam‐se valores muito elevados deste índice face à média 
de FWI entre 2000 e 2016. No dia 17 de junho de 2017 o FWI tomou o valor de 26 o que corresponde a nível 
Muito  Elevado  de  risco  de  incêndio,  o  segundo  nível  mais  grave  na  escala  de  risco.  No  entanto,  a  15  de 
outubro de 2017 o FWI atingiu o valor recorde de 82, correspondendo a nível Máximo, o nível mais grave na 
escala de risco.  

2.2.2.2. Nível de perigo de incêndio florestal 

A interpretação do índice de perigo é feita através de uma escala de risco constituída por 5 classes, cuja 
gravidade vai progressivamente aumentando consoante o aumento do valor do FWI (Tabela 5) 

Tabela 5 – Classes de risco de incêndio – definição adotada em Portugal 
Nível  Classe de risco (IPMA) 
1  Reduzido 
2  Moderado 
3  Elevado 
4  Muito Elevado 
5  Máximo 
A  equipa  da  ADAI,  em  conjunto  com  o  IPMA  tem  desenvolvido  estudos  de  adaptação  do  sistema 
Canadiano e, em especial, do FWI à estimativa  do risco de incêndio em Portugal.  Em 1999, foi feita uma 
calibração conjunta IPMA/ CEIF do índice FWI para cada um dos distritos de Portugal, estabelecendo valores 
limite  para  cada  nível,  diferentes  de  um  distrito  para  outro  (Viegas  et  al.,  2004).  Este  trabalho  foi 
complementado  por  outro  mais  recente,  (Rocha,  2014)  que  estendeu  esta  calibração  ao  nível  concelhio. 
Embora nos pareça ser mais válida esta calibração, por ser baseada num grande número de dados, não a 
iremos utilizar porque não foi testada operacionalmente, ao contrário da calibração conjunta. 

Esta calibração, que designaremos por calibração IPMA/CEIF, foi adotada pelo IPMA durante vários anos, 
mas foi descontinuado o seu uso em 2012, tendo a partir daí o IPMA adotado um conjunto de valores único 
para definir os níveis de perigo para todo o território português (Novo et al., 2015). 

A Figura 17 apresenta a localização de nove estações meteorológicas do IPMA utilizadas na análise do 
FWI. 

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Figura 17 – Localização das estações meteorológicas do IPMA usadas na análise do FWI e área dos incêndios de 15/10 

Para  a  determinação  dos  valores  observados  do  índice  FWI,  os  cálculos  utilizam  a  observação  nas 
estações dos parâmetros meteorológicos (temperatura e humidade relativa do ar a 2m, velocidade do vento 
a 10m e precipitação acumulada em 24 h) e os valores previstos utilizam as previsões do modelo de previsão 
numérica  do  Centro  Europeu  de  Previsões  Meteorológicas  a  médio prazo  (European  Centre  for  Medium‐
Range Weather Forecasts, ECMWF). 

A Tabela 6 apresenta o valor de FWI previsto a 72h, 48h e 24h e o observado no dia 15 de outubro nas 
nove estações meteorológicas. O índice de risco meteorológico FWI mais elevado no dia 15 de outubro foi 
registado na estação da Lousã, com o valor de 86,5.  

Tabela 6 – Valores de FWI previstos e valores de FWI observado a 15 de outubro. Dados IPMA 
Previsão  Observado 
Distrito  Estação 
72h  48h  24h  15/10 
Coimbra  Lousã  63,8  57,8  51,0  86,5 
Coimbra  Coimbra  78,9  59,6  100,5  81,9 
Guarda  Penhas Douradas  67,1  50,7  53,4  58,2 
Viseu  Viseu  81,5  69,9  79,5  69,0 
Viseu  Nelas  85,5  70,9  74,3  76,8 
Coimbra  Pampilhosa da Serra  71,3  77,4  80,3  48,9 
Castelo Branco  Proença‐a‐Nova  55,2  57,2  56,4  52,0 
Leiria  Leiria  75,8  53,0  73,5  79,8 
Coimbra  Figueira da Foz  76,1  42,9  73,5  71,9 
 

Nas estações próximas das áreas afetadas pelos incêndios (Lousã, Penhas Douradas, Nelas, Proença‐a‐
Nova e Leiria) verifica‐se que o valor de FWI observado no dia 15 de outubro foi, mais alto que o valor de FWI 
previsto. A estação da Lousã teve a diferença mais significativa entre o valor previsto a 24h (FWI=51,0) e o 
observado (FWI=86,5). O valor de FWI observado na estação da Pampilhosa é consideravelmente mais baixo 
que o previsto, no entanto salienta‐se que esta estação deixou de transmitir dados meteorológicos a partir 
das 2h de dia 15 de outubro, dados estes essenciais para o cálculo do FWI observado.  

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Os valores de FWI da Tabela 6, quando traduzidos em classe de risco indicam, no dia 15 de outubro, que 
o  nível  de  perigo  era  Muito  Elevado  e  Máximo  para  as  estações  selecionadas.  Esta  classificação  foi  feita 
segundo as calibrações do IPMA/CEIF e do IPMA e é apresentada na Tabela 7.  

Verifica‐se que as duas classificações conduzem a resultados semelhantes. O resultado dos níveis de 
perigo segundo a classificação do IPMA é mais penalizador, verificando‐se que esta calibração previa nível 
máximo  de  risco  em  todos  os  distritos.  A  calibração  do  IPMA  resulta  numa  escala  única  para  divisão  das 
classes para todo o território português, o valor de FWI limite que define a passagem a nível Máximo é de 
38,3  para  todos  os  concelhos,  como  se  observa  na  tabela  anterior  todas  as  estações  registaram  valores 
superiores a esse valor limite. 

Tabela 7 – Classificação do índice meteorológico de perigo de incêndio florestal FWI para o dia 15 de outubro 
Divisão de  Previsão  Observado 
Estação 
classes  72h  48h  24h  15/10/2017 
Lousã    5    5    5    5 
Coimbra    5    5    5    5 
Leiria    5    5    5    5 
Nelas    5    4    5    4 
Figueira da Foz    5    5    5    5 
IPMA/CEIF 
Viseu    5    4    5    4 
Penhas Douradas    5    5    5    5 
Proença‐a‐Nova    4    4    5    4 
Pampilhosa da 
  5    5    5    5 
Serra 
 
Lousã    5    5    5    5 
Coimbra    5    5    5    5 
Leiria    5    5    5    5 
Nelas    5    5    5    5 
Figueira da Foz    5    5    5    5 
IPMA 
Viseu    5    5    5    5 
Penhas Douradas    5    5    5    5 
Proença‐a‐Nova    5    5    5    5 
Pampilhosa da 
  5    5    5    5 
Serra 
 

Os valores de FWI são calculados diariamente no IPMA para um conjunto de estações meteorológicas e 
podem ser interpretados através dos seus percentis (Figura 18 a). Os valores dos percentis dos componentes 
do  índice  FWI  foram  calculados  com  base  num  conjunto  de  68  estações  meteorológicas  do  continente, 
estações que continuamente têm sido utilizadas para o cálculo dos componentes do índice FWI, para a série 
de anos entre 2000 e 2013 e para o período de 15 de junho a 15 de setembro. 

O  risco  de  incêndio  definido  pelo  ICNF  através  do  risco  estrutural  é  determinado  com  base  nos  três 
parâmetros,  referidos  na  seção  2.1.5:  ocupação  do  solo,  declives  e  áreas  ardidas  entre  1997‐2016.  Deste 
modo, a classe de perigosidade que uma determinada zona apresenta é a mesma ao longo de um ano, neste 
caso 2017 (Figura 18 b). 

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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 

 
(a)  (b) 
Figura 18 – Comparação entre (a) os percentis de FWI para o dia 15/10 às 12UTC em Portugal (IPMA); e (b) Classes de 
perigosidade de incêndio florestal em 2017 (ICNF) na zona centro de Portugal e áreas dos incêndios de 15/10 

Pela  comparação  das  figuras,  observa‐se  que  o  índice  perigo  meteorológico  de  incêndio  florestal, 
caracterizado  por  valores  elevados  do  percentil  de  FWI  coincide  melhor  com  as  áreas  percorridas  pelos 
grandes incêndios.  

No dia 15 de outubro, na RCP, verificou‐se que nas zonas litorais o percentil de FWI foi máximo (P99). 
Esta observação significa que estas regiões tinham o seu FWI superior a 50, o que indica fogo de excecional 
intensidade com extrema dificuldade de controlo do incêndio (IPMA, 2018). Através da carta de perigosidade 
de incêndio florestal verifica‐se que as áreas afetadas pelos incêndios em Leiria e Figueira da Foz apresentam, 
na sua maioria, risco Moderado a Elevado, quando no dia 15 de outubro estas zonas estavam claramente 
com valores de FWI muito elevados e perigo de incêndio máximo. 

O  índice  de  Risco  Conjuntural  Meteorológico  (RCM)  também  calculado  diariamente  pelo  IPMA,  vem 
diminuir  estas  diferenças,  pois  resulta  da  integração  do  índice  FWI  com  o  risco  conjuntural  em  Portugal 
Continental. O RCM para o dia 15 de outubro é apresentado na Figura 19.  

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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 

 
Figura 19 – Risco Conjuntural e Meteorológico (RCM) para o dia 15 de outubro em Portugal Continental. Fonte: IPMA 

Observa‐se  que  em  determinadas  zonas,  principalmente  no  litoral,  o  RCM,  que  é  transmitido 
diariamente  à  ANPC  para  previsão,  e  como  ferramenta  de  suporte  de  apoio  à  decisão  no  combate  aos 
incêndios florestais, também não interpreta da melhor forma a situação observada no dia 15 de outubro, de 
risco máximo indicado pelo FWI. O RCM para dia 15 de outubro, na região centro no litoral, apresenta na 
maioria das zonas Risco Elevado. Confirma‐se assim, que o risco meteorológico teve mais influência do que 
o risco estrutural.  

A interpretação da ANPC a estes valores de RCM previstos e a outros Avisos do IPMA é apresentada no 
ponto  2.4  –  Condições  Operacionais,  onde  é  analisada  a  situação  operacional  do  país  antes  do  dia  15  de 
outubro de 2017 e os Estado de Alerta Especial (EAE) definidos. 

Caracterização meteorológica 

O  IPMA  elaborou  relatórios  sobre  os  fenómenos  meteorológicos  associados  aos  incêndios  de  15  de 
outubro. Neste tema, fazemos referência a dados desses relatórios: “Os Incêndios Florestais de 14 a 16 de 
outubro de 2017 em Portugal Continental”, “Apoio meteorológico na prevenção e combate aos incêndios 
florestais ‐ Relatório Outubro 2017 e “Elementos para análise da variabilidade observada no campo de vento 
no dia 15 de outubro de 2017”.  

No mês de outubro de 2017, em Portugal continental, a situação meteorológica predominante foi de 
anticiclone, por vezes com passagem de superfícies frontais que não originaram precipitação. A persistência 
desta  situação  anticiclónica  originou  tempo  seco,  com  valores  baixos  da  humidade  relativa  do  ar,  e 
temperaturas elevadas. 

As condições meteorológicas anómalas registadas foram mais pronunciadas durante a primeira metade 
do  mês  de  outubro  com  destaque  para  os  períodos  de  6  a  8  e  14  e  15  de  outubro,  em  que  valores  da 
temperatura  máxima  do  ar  acima  de  30°C  no  Continente  coexistiram  com  valores  da  humidade  relativa 
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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
mínima do ar inferiores a 25%, com o vento predominante de leste e valor médio de intensidade abaixo de 
10km/h. 

No  dia  15  de  outubro,  devido  à  proximidade  da  passagem  do  furacão  Ophelia  à  Península  Ibérica, 
centrado aproximadamente a 485 km de Viana do Castelo nesse dia, introduziu uma perturbação no fluxo de 
sul já estabelecido no território continental, aumentando a intensidade do vento em especial no litoral oeste 
e terras altas, o que favoreceu tanto a ignição como a progressão de incêndios neste dia.  

A  precipitação  ocorrida  no  início  de  dia  17  de  outubro  contribuiu  significativamente  para  o 
desagravamento meteorológico da situação excecional de incêndios florestais vivida no período de 14 a 16 
de outubro no território do Continente. Para este desagravamento, contribuiu também um segundo período 
de  precipitação  verificado  a  partir  do  final  da  tarde  do  dia  17,  associado  à  perturbação  frontal  que  se 
deslocava rapidamente do Atlântico em  direção ao território. No Minho, Douro Litoral  e  alguns locais  do 
interior Centro, os valores da precipitação acumulada em 24 horas foram significativos, da ordem de 20 a 
30mm. 

2.2.3.1. Furacão Ophelia 

No dia 14 de outubro, no Atlântico, a sudoeste dos Açores, encontrava‐se o furacão Ophelia, oscilando 
a sua intensidade entre as categorias 2 e 3  na escala de Saffir‐Simphson (determina a intensidade de um 
furacão com  valores entre 1 e 5),  deslocando‐se lentamente para nordeste, em aproximação aos Açores. 
Estas categorias são caracterizadas, respetivamente, por velocidades do vento entre 154‐177 km/h e 178‐
209 km/h (National Hurricane Center, 2018). 

De acordo com a National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), o furacão Ophelia bateu 
vários recordes: 

 Foi o furacão que se formou mais a leste no Atlântico; 
 Foi aquele que atingiu maior intensidade no Atlântico Leste, a categoria 3 no dia 14 de outubro;  
 Foi a 10ª tempestade a atingir a força de furacão no Atlântico em 2017, superando o número 
máximo anual. 

Um  furacão,  tem  associado  grandes  quantidades  de  calor  e  humidade,  introduzindo  alterações 
dinâmicas e termodinâmicas significativas na atmosfera da região onde se insere e sua vizinhança. O furacão 
Ophelia atingiu a sua maior proximidade ao território entre as 15h UTC (Coordinated Universal Time) e as 
21UTC do dia 15 de outubro (centro do furacão, ainda com categoria 1 às 21h UTC a noroeste de Viana do 
Castelo).  

Consequências da passagem do furacão Ophelia: 

 Originou  períodos  temporais  com  elevadas  temperaturas  e  com  reduzida  humidade  do  ar, 
estando‐lhe associado valores de velocidade do vento muito elevados. 
 A  sua  aproximação  ao  território  resultou  uma  descida  no  campo  da  pressão  atmosférica, 
aumento do correspondente gradiente em especial na parte ocidental da Península Ibérica e 
intensificação do fluxo, de sul/sueste sobre o território. 
 Durante o dia 15, a velocidade de propagação do Ophelia aumentou. O seu deslocamento para 
nordeste revelou‐se  decisivo  no  quadro  das  condições  meteorológicas,  agravando  a  situação 
meteorológica no território continental português. 

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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
 Provocou a expansão dos incêndios do dia 15 de outubro sob a influência do vento de sul até 
cerca das 16.00h, momento em que o vento terá enfraquecido. 

O  efeito  do  Ophelia  foi  menos  notório  a  partir  das  21h  UTC  do  dia  15  de  outubro  aquando  o  seu 
deslocamento para nordeste da Península Ibérica. Foi durante as 15h UTC e as 21h UTC (período de maior 
aproximação do furacão ao território) que se observaram os máximos valores de vento médio e rajada. No 
entanto, na maior parte dos locais, os valores máximos da intensidade do vento foram observados antes das 
18h UTC. 

A Figura 20 apresenta uma esquematização do deslocamento do furacão Ophelia de 14 de outubro às 
00.00h  e  15  de  outubro  às  18.00h.  A  data  e  hora  (UTC)  são  representadas  na  figura  com  a  seguinte 
formatação: dia; hora. No horário de verão, em Portugal Continental e na Região Autónoma da Madeira, a 
hora local é igual a UTC+1.  

 
Figura 20 – Esquematização do deslocamento do furacão Ophelia entre dia 14/10 às 09h UTC e 16/10 às 03h UTC. Fonte: NOAA, 
2017 

Parâmetros de superfície: temperatura, humidade relativa e vento 

As condições meteorológicas durante a sua propagação de incêndios, no período de 15 a 17 de outubro, 
é  descrita  nesta  secção  através  da  análise  dos  seguintes  parâmetros  de  superfície:  temperatura  do  ar,  a 
humidade relativa e o vento (intensidade e rumo). Foram analisadas seis estações meteorológicas do IPMA 
e a quatro parques eólicos (PE) da IBERWIND.  

A  Tabela  8  apresenta  as  estações  meteorológicas  do  IPMA  e  os  parques  eólicos  para  análise,  estas 
estações foram selecionadas por serem consideradas representativas da evolução do ambiente atmosférico 
nas regiões de maior interesse, nomeadamente o litoral e o interior Centro. A sua localização é apresentada 
na Figura 21.  

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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
Tabela 8 – Estações meteorológicas utilizadas. Dados do IPMA e da IBERWIND. 

Dados  Concelho/ Distrito  Estação  Altitude [m] 


Manteigas/ Guarda  Penhas Douradas (568)  1380 
Lousã/ Coimbra  Lousã (697)  195 
Viseu/Viseu  Viseu (560)  636 
IPMA 
Proença‐a‐Nova/ Castelo Branco  Proença‐a‐Nova (806)  379 
Leiria/ Leiria  Leiria (718)  45 
Figueira da Foz/ Coimbra  Figueira da Foz (713)  4 
Lousã/ Coimbra  Lousã  1000 
PE  
Arouca/ Aveiro  Freita I  1090 
(IBERWIND) 
Pampilhosa da Serra/ Coimbra  Pampilhosa da Serra  900 
 
Nazaré/ Leiria  Sra. da Vitória  65 
 

 
Figura 21 – Localização das estações do IPMA e dos parques eólicos da IBERWIND na análise dos parâmetros de superfície 

2.2.4.1. Análise de dados das estações meteorológicas 

A análise dos parâmetros de estações meteorológicas do IPMA é feita através de dados recolhidos na 
estação de 10 em 10 minutos.  

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Estação meteorológica de Penhas Douradas 

A estação meteorológica das Penhas Douradas, representativa do distrito da Guarda, é representada 
Figura 22. 

 
Figura 22 – Dados meteorológicos na estação de Penhas Douradas entre os dias 15 e 17 de outubro (dados de 10 em 10 minutos) 

Observa‐se nas primeiras horas do dia (00.00h – 06.00h) temperaturas altas e a humidade relativa baixa. 
A temperatura média foi 20ºC e a humidade relativa foi de 38% no referido período. A temperatura máxima 
atingida foi de 23,4ºC ao 12.1h0 e manteve‐se constante até às 16.00h, instante que terá diminuído, embora 
com baixas variações até dia 16 de outubro às 01.00h. A humidade relativa do ar entre o 12.00h de dia 15 e 
a 01.00h de dia 16 oscilou entre os 31% (15.20h) e os 35%.  

No dia 16 de outubro a partir das 03.30h da manhã observa‐se uma descida significa da temperatura e 
um aumento da humidade relativa, mudanças estas influenciadas pela ocorrência de precipitação. Às 07.20h 
registou‐se a temperatura mínima de 12,2ºC e a uma humidade relativa de 70%. 

A estação de Penhas Douradas, das seis estações em análise, foi a que registou o maior valor de rajada 
do vento, com 78,84 km/h às 15.50h de dia 15. Na Figura 22, no gráfico referente à da velocidade do vento, 
verifica‐se o efeito da passagem do furacão Ophelia nesta região com o aumento da intensidade do vento no 

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a partir das 11.00h e diminuição a partir das 17h.00 de dia 15 de outubro, no entanto nesta estação verificou‐
se instabilidade do vento até aproximadamente às 05.00h de dia 16 de outubro. 

Estação meteorológica da Lousã 

Os parâmetros meteorológicos na estação da Lousã são apresentados na Figura 23. 

 
Figura 23 – Dados meteorológicos Lousã entre os dias 15 e 17 de outubro (dados 10 em 10 minutos) 

Os valores mínimos da temperatura do ar durante a noite e início da manhã (00.00h e 06.00h) de dia 15 
foram consideravelmente altos, oscilaram entre os 24ºC e 29ºC, enquanto os valores de humidade relativa 
do ar variaram entre 20% e 34%. Das estações em análise, a da Lousã foi a que registou o valor mais alto de 
temperatura com 36,4ºC às 14.20h de dia 15, e foi simultaneamente a que registou o valor mais baixo de 
humidade relativa do ar com 10% à mesma hora.  

Verifica‐se  na  figura,  a  coexistência  de  valores  elevados  da  temperatura  do  ar,  baixos  valores  de 
humidade relativa do ar e um escoamento moderado e turbulento. No período entre 06.30h de dia 15 e a 
00.00h de dia 16, o vento foi mais intenso, tendo também exibido um regime mais turbulento, contribuindo 
para  consolidar  um  ambiente  atmosférico  particularmente  adverso.  Os  valores  mais  elevados  do  vento 
médio e da rajada (26,28km/h e 58,68km/h) registaram‐se no início da tarde do dia 15, às14.30h, coincidindo 
com os mínimos da humidade relativa do ar e máximos da temperatura do ar.  

 
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Estação meteorológica de Viseu 

A  Figura  24  apresenta  os  parâmetros  meteorológicos  registados  na  estação  de  Viseu,  estação 
selecionada por ser representativa dos incêndios ocorridos na região. 

 
Figura 24 – Dados meteorológicos Viseu entre os dias 15 e 17 de outubro (dados 10 em 10 minutos) 

Em Viseu, nas primeiras horas de dia 15 a temperatura registada foi, em média de 23ºC e a humidade 
relativa do ar foi de 34%.  A partir das  07.00h observa‐se um aumento significativo da  temperatura e  um 
decréscimo significativo da humidade relativa até às 15.00h de dia 15.  

O do vento intensificou‐se a partir das 07.00h e prolongou‐se até dia 16 com alguma turbulência. Esta 
turbulência  foi  mais  notória  durante  o  período  de  valores  mínimos  de  humidade  relativa  do  ar  e  valores 
máximos de temperatura do ar. 

 
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Estação meteorológica de Proença‐a‐Nova 

As condições meteorológicas representativas do distrito de Castelo Branco foram analisadas através dos 
parâmetros medidos na estação meteorológica de Proença‐a‐Nova, apresentada na Figura 25. Nesta estação 
ocorreram erros no registo dos valores da humidade relativa do ar durante todo o período de análise (15 a 
17 de outubro) pelo que este parâmetro não se encontra representado na figura. 

 
Figura 25 – Dados meteorológicos Proença‐a‐Nova entre os dias 15 e 17 de outubro (dados 10 em 10 minutos) 

A temperatura do ar, bem como a velocidade do vento, tenderam a aumentar significativamente a partir 
das 07.00h de dia 15 de outubro. A temperatura atingiu o valor máximo de 32,9 às 14.40h, e o valor máximo 
do vento médio e da rajada foi atingido às 15.10h com 23,8km/h e 43,6 km/h, respetivamente. Após o pico 
máximo, a temperatura desceu gradualmente até ao início do dia 16 assim como se sucedeu com o vento 
que apresentou baixas oscilações. 

O rumo do vento que se apresentava de E/NE desde o início do dia 15, pelas 12.20h observa‐se alguma 
turbulência e altera‐se o seu rumo para S/SE. Ao longo do dia 15 observa‐se as suas variações de rumo entre 
S/SW até às 05.00h de dia 16. No dia 16 observam‐se significativas alterações do rumo do vento ao longo do 
dia. 

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Estação meteorológica de Leiria 

Os dados meteorológicos registados na estação de Leiria são apresentados na Figura 26. 

 
Figura 26 – Dados meteorológicos Leiria entre os dias 15 e 17 de outubro (dados 10 em 10 minutos) 

A  temperatura  mínima  apresenta  valores  consideravelmente  altos  nas  primeiras  horas  do  dia  15  de 
outubro, o seu valor mínimo foi de 24,3ºC e pelas 09.00h aumentou gradualmente até aos 35,7ºC às 15.00h 
de dia 15. A diminuição mais acentuada da humidade relativa também ocorre pelas 09h.00 e atinge o valor 
mínimo de 15% às 13.30h de dia 15. 

O  rumo  predominante  dos  valores  mais  elevados  do  vento  médio  e  da  rajada  foi  sueste,  estes 
parâmetros registavam o valor máximo, às 13.20h, de 31,3km/h e 53,6 km/h, respetivamente. 

No  dia  16  de  outubro,  verifica‐se  o  desagravamento  das  condições  (diminuição  da  temperatura, 
aumento da humidade do ar e diminuição da velocidade do vento). 

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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
Estação meteorológica da Figueira da Foz 

A Figura 27 apresenta os parâmetros meteorológicos na estação da Figueira da Foz que é representativa 
das  condições  presentes  na  deflagração  do  incêndio  de  Quiaios  e  na  sua  propagação.  Face  ao  seu 
enquadramento geográfico encontra‐se a uma altitude de apenas 4m. 

 
Figura 27 – Dados meteorológicos Figueira da Foz entre os dias 15 e 17 de outubro (dados 10 em 10 minutos) 

Nesta  região  observa‐se,  pelas  07.00h  de  dia  15  de  outubro,  que  há  uma  mudança  evidente  das 
condições  meteorológicas,  a  temperatura  aumenta  de  16ºC  às  07.00h  para  24ºC  às  08.00h,  enquanto  a 
humidade relativa no mesmo intervalo decresce de 71% para 50%. A partir das 08.00h também se verifica 
um aumento na velocidade do vento.  

Os valores mais elevados do vento médio (36 km/h) e da rajada (55,4 km/h) que se registaram coincidem 
com os máximos da temperatura do ar e com os mínimos da humidade relativa do ar.  

2.2.4.2. Análise de dados de parques eólicos 

Para  uma  análise  mais  detalhada  sobre  o  parâmetro  do  vento,  que  influenciou  as  condições  de 
propagação dos incêndios iniciados a 15 de outubro foram utilizadas também estações meteorológicas de 
parques eólicos próximos das áreas afetadas. Os  parâmetros meteorológicos, a localização  e altitude dos 
parques, bem como as alturas dos mastros, foram fornecidos pela empresa IBERWIND.  

Um  parque  eólico  é  constituído  por  diversas  turbinas  e  cada  uma  possui  uma  estação.  Na  presente 
análise,  foi  selecionada  a  turbina  que  registou  os  valores  mais  elevados  da  velocidade  do  vento  para  ser 
representativa desse parque. 
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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
Os dados meteorológicos, para os quatro parques eólicos em análise, são apresentados do dia 14 de 
outubro às 00.00h até ao dia 17 de outubro às 00.00h sob a forma horária. A velocidade do vento apresentada 
é sempre referente ao vento médio.  

Parque eólico da Lousã 

Os dados do parque eólico da Lousã, situado a 1000 m de altitude, é apresentado na Figura 28. 

 
Figura 28 – Intensidade, direção do vento e temperatura para o PE da Lousã do dia 14/10 às 00h ao dia 17/10 às 00h. 

Constata‐se que pelas 16.00h de dia 14 de outubro há um aumento significativo da velocidade do vento 
até  cerca  das  10.20h  de  dia  15  de  outubro  onde  atingiu  o  valor  máximo  de  69,1  km/h  e  a  intensidade 
permaneceu elevada até ao dia 16 de outubro. 

O  rumo  do  vento  durante  o  dia  15  de  outubro  manteve‐se  praticamente  de  S/SE,  no  entanto  pela 
observação da figura verifica‐se a interrupção da aquisição de dados entre as 18.20h de dia 15 e as 08.30h 
de dia 16. 

A temperatura variou entre os 22ºC e os 26ºC até às 18.20h de dia 15, a partir deste instante observa‐
se  uma  diminuição  progressiva  da  temperatura.  No  dia  16  de  outubro  a  temperatura  baixou 
consideravelmente, registando‐se o valor máximo de 20ºC às 00.00he os 15ºC às 08.00h da manhã. 

   

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Parque eólico da Freita I 

O parque eólico da Serra da Freita em Arouca, a 1090m, foi selecionado por ser o parque mais próximo 
da área afetada pelo incêndio de Vouzela. Os seus dados são apresentados na Figura 29. 

 
Figura 29 – Intensidade, direção do vento e temperatura para o PE da Freita do dia 14/10 às 00h ao dia 17/10 às 00. 

No  dia  14  de  outubro,  pelas  06.00h,  observa‐se  o  aumento  da  velocidade  do  vento,  este  aumento 
gradual ocorreu até aproximadamente às 17.00h de dia 15 de outubro, momento em que se registou o valor 
mais elevado (54 km/h). A partir deste momento verifica‐se a falha de dados até ao dia 16 de outubro, no 
entanto com o decorrer do tempo observa‐se que a velocidade do vento se encontra alta nas primeiras horas 
do dia, acabando por diminuir a partir das 02.30h de dia 16 de outubro. 

   

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Parque eólico da Pampilhosa da Serra 

A Figura 30 apresenta os parâmetros meteorológicos no parque na Pampilhosa da Serra situado a 900m 
de altitude. 

 
Figura 30 – Intensidade, direção do vento e temperatura para o PE da Pampilhosa da Serra do dia 14/10 às 00h ao dia 17/10 às 00h 

Na Pampilhosa da Serra a intensidade do vento teve um comportamento similar ao caso anterior para a 
Serra  da  Freita,  no  entanto  o  parque  da  Pampilhosa  da  Serra  observa‐se  um  aumento  acentuado  da  sua 
velocidade e da temperatura do ar. A velocidade do vento às 11.50h de dia 15 de outubro aumentou de 35 
km/h ao 12.00h para 70 km/h às 14.00h e a temperatura aumentou de 21ºC para 27ºC.  

O pico máximo do vento foi registado às 00.50h de dia 16 de outubro. O rumo manteve‐se de S/SW 
durante o dia 15 e o dia 16, embora se verifiquem problema de registo no dia 16. 

   

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Parque eólico da Sra. da Vitória 

O  parque  eólico  da  Sra.  da  Vitória  situado  na  Nazaré,  a  65  m  de  altitude,  foi  escolhido  para  ser 
representativo na região litoral atingida pelos incêndios (Figura 31). Nesta figura não é apresentado o rumo 
do vento devido à inexistência de dados deste parâmetro no parque.  

 
Figura 31 – Intensidade, direção do vento e temperatura para o PE da Sra. da Vitória do dia 14/10 às 00h ao dia 17/10 às 00h 

Na figura verificam‐se variações bruscas da velocidade do vento, principalmente no dia 15 de outubro 
onde se registou a máxima velocidade do vento (45 km/h às 08.00h) e a temperatura máxima (34,8ºC às 
16.00h). 

2.2.4.3. Análise geral (parâmetros de superfície) 

De um modo geral, através da observação das figuras, pode verificar‐se que entre os dias 15 e 17 de 
outubro  as  temperaturas  máximas  eram  superiores  a  30°C  e  com  valores  de  humidade  relativa  do  ar 
inferiores a 30%. Observou‐se em todas as estações, especialmente até às 15.00h do dia 15, a passagem do 
furacão Ophelia que agravou a situação meteorológica sentida no Continente.  

Durante o período diurno de dia 15, observaram‐se a intensificação dos ventos, atingindo valores de 
velocidade máxima de 50 km/h, temperaturas muito elevadas e baixa humidade relativa do ar. O fenómeno 
Ophelia contribui para o aumento das condições de instabilidade devido às alterações na massa de ar quente 
e  húmido  da  zona  frontal,  e,  contribuiu,  também,  para  a  advecção  de  ar  quente  e  seco,  ocorrendo  uma 
intensificação do fluxo de sul/sueste (Departamento de Meteorologia e Geofísica ‐ IPMA, 2017) 

Os valores mais altos de temperatura máxima, nas seis estações representativas, foram registados nas 
estações  da  Lousã  (36,4ºC)  e  Leiria  (35,7ºC).  Estas  estações  registaram  ainda  os  valores  mais  baixos  de 
humidade relativa, com 10% na estação da Lousã e 15% na estação de Leiria. Assinala‐se que estes elevados 
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valores da temperatura do ar coexistiram, nas horas centrais do dia e em especial na faixa costeira, com os 
baixos valores de humidade relativa do ar. 

Em  Viseu,  ao  contrário  no  sentido  nas  restantes  estações  onde  houve  um  desagravamento  da 
intensidade do vento, a estação registou o prolongamento das elevadas velocidades do vento pela noite de 
15‐16 de outubro. Este comportamento poderá ter sido influenciado pelo transporte, em níveis baixos, de 
massas  de  ar  situadas  mais  a  sudoeste,  provenientes  de  áreas  onde  ocorriam  incêndios  de  grandes 
proporções. 

Em  todas  as  estações  verificou‐se  a  coexistência  de  valores  elevados  da  temperatura  do  ar,  baixos 
valores  de  humidade  relativa  do  ar  e  um  escoamento  moderado  e  turbulento,  durante  um  determinado 
período  constituiu  um  facto  importante.  As  figuras  apresentadas,  tanto  nas  estações  do  IPMA  como  nos 
parques eólicos, mostram que pelas 14.00h de dia 15 de outubro registaram‐se os valores mais elevados do 
vento médio e da rajada em grande parte das estações. 

A Figura 32 apresenta a velocidade máxima do vento (rajada) e a respetiva hora a que foi atingida em 
18 estações meteorológicas do IPMA no período entre 14 de outubro e 17 de outubro. 

 
Figura 32 – Velocidade máxima registada em estações do IPMA entre 14/10 e 17/10 

No período em análise, as velocidades máximas atingidas pelo vento registaram‐se entre as 10.30h de 
dia 15 de outubro, com maior intensidade nas primeiras horas da tarde, e as 02.00h de dia 16 de outubro, 
ou seja, todas as estações representadas na figura registaram os seus valores máximos neste intervalo.  

Os  menores  valores  da  velocidade  máxima  do  vento  (U<45)  foram  registados  na  estação  de  Anadia 
(37,08 km/h), Moimenta da Beira (38,16 km/h), Arouca (43,20 km/h), Covilhã (43,20km/h) e Proença‐a‐Nova 
(43,56km/h). Na estação do Cabo Carvoeiro, Tomar e Trancoso foram registados os valores de vento entre 
45 e 50 km/h.  

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A velocidade atingida pelo vento superior a 50km/h ocorreu a partir das 13.00h de dia 15 de outubro e 
foi registada em Leiria (53,64km/h). A estação de Nelas, distrito de Viseu, foi a estação com U>50km/h que 
atingiu mais tardiamente o seu valor de velocidade máxima, às 01.50h de dia 16 com 55,44km/h, as restantes 
estações com U>50km/h registaram os seus valores no dia 15 entre as 13.20h e as 16.00. Como referido 
anteriormente,  ao  contrário  no  sentido  nas  restantes  estações  onde  houve  um  desagravamento  da 
intensidade do vento, o distrito de Viseu registou o prolongamento das elevadas velocidades do vento pela 
noite de 15 e 16 de outubro.  

A  maior  intensidade  do  vento  registou‐se  no  dia  15  de  outubro  entre  as  14.30h  e  as  16.00h,  neste 
intervalo inclui‐se: a estação da Lousã com 58,68km/h às 14.30h; a estação da Guarda com 68,40 km/h às 
15.00h; a estação de Penhas Douradas com 78,84 km/h (a que registou o maior valor de rajada do vento) às 
15.50h; e a estação de Coimbra com 59,04 km/h às 16.00h. 

2.3. Humidade dos combustíveis 

Evolução do teor de humidade de combustíveis finos na Lousã 

O teor de humidade dos combustíveis finos é determinante para a análise das condições de ignição de 
um incêndio, da viabilidade de focos secundários e também da propagação das frentes de chamas. De entre 
estes combustíveis, assumem particular importância os que compõem a manta morta que, na Região Centro 
de Portugal, é constituída essencialmente por folhada de Eucalipto (Eucalyptus globulus) e de Pinheiro Bravo, 
(Pinus  pinaster).  São  igualmente  importantes  os  combustíveis  do  estrato  arbustivo,  representados  nesta 
região pela Urze (Calluna vulgaris) e pela Carqueja (Pterospartum tridentatum). Para o estudo dos fogos de 
copas é importante conhecer o teor de humidade das folhas do estrato arbóreo, nomeadamente do Eucalipto 
e do Pinheiro. 

O CEIF efetua, há cerca de trinta anos, um programa de amostragem do teor de humidade das espécies 
mais representativas das zonas florestais da região Centro, no seu Laboratório de Estudos sobre Incêndios 
Florestais. Folhas vivas e mortas de Eucalipto e de Pinheiro destas duas espécies e as extremidades de ramos 
de Urze e Carqueja, são colhidas semanalmente durante todo o ano, na zona do Freixo, Lousã, sendo que 
durante o período de junho a outubro esta amostragem é realizada diariamente. 

A análise dos dados de que dispomos, permite obter uma boa indicação do estado higroscópico dos 
combustíveis  na  região  afetada  pelo  incêndio.  Deste  modo,  nas  figuras  seguintes  (Figura  33  à  Figura  38), 
mostra‐se a evolução do teor de humidade destas espécies no ano de 2017 assim como a média do teor de 
humidade medido entre 1996 e 2016.  

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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 

 
Figura 33 – Evolução do teor de humidade da folhada morta de Pinus pinaster medido em 2017 e média do teor de humidade da 
folhada morta de Pinus pinaster medido entre 1996 e 2016  

Figura 34 – Evolução do teor de humidade da folhada morta de Eucalyptus globulus medido em 2017 e média do teor de humidade 
da folhada morta de Eucalyptus globulus medido entre 1996 e 2016 

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Figura 35 – Evolução do teor de humidade de folhas vivas de Pinus pinaster medido em 2017 e média do teor de humidade da de 
folhas vivas de Pinus pinaster medido entre 1996 e 2016 

 
Figura 36 – Evolução do teor de humidade de folhas vivas de Eucalyptus globulus medido em 2017 e média do teor de humidade de 
folhas vivas de Eucalyptus globulus medido entre 1996 e 2016 

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Figura 37 – Evolução do teor de humidade da Calluna vulgaris medido em 2017 e média do teor de humidade da Calluna vulgaris 
medido entre 1996 e 2016 

 
Figura 38 – Evolução do teor de humidade da Pterospartum tridentatum medido em 2017 e média do teor de humidade da 
Pterospartum tridentatum medido entre 1996 e 2016 

Como  se  pode  verificar  nas  figuras  anteriores,  os  valores  do  teor  de  humidade  da  folhada  morta  do 
Pinheiro  Bravo  e  do  Eucalipto  foram  significativamente  reduzidos  nos  períodos  correspondentes  ao 
complexo de incêndios de Pedrógão Grande e concelhos limítrofes e aos incêndios ocorridos a 15 de outubro. 
Estes valores mínimos do teor de humidade apenas se verificaram também durante alguns dias de agosto.  

Vários  estudos  realizados  pelo  Centro  de  Estudos  de  Incêndios  Florestais  mostram  que  se  o  teor  de 
humidade dos combustíveis florestais finos da manta morta for inferior a 10% as condições de perigo são 
muito  elevadas;  se  for  inferior  a  6  ou  7%  as  condições  são  extremas.  Foi  isto  que  se  observou  na  Lousã 
durante o período dos incêndios referidos, com valores do teor de humidade a rondar os 6%. 

Como  se  pode  verificar  nas  figuras  anteriores,  também  para  as  espécies  arbóreas  (Pinheiro  Bravo  e 
Eucalipto) e arbustivas (Urze e Carqueja) o teor de humidade foi, ao longo do corrente ano, sistematicamente 
reduzido.  
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Para todas as espécies, é possível verificar que os valores registados em 2017 foram significativamente 
mais reduzidos do que os valores médios registados entre 1996 e 2016. 

 Previsão do teor de humidade dos combustíveis finos mortos  

É importante dispor de uma estimativa mais precisa do teor de humidade da vegetação nas zonas dos 
incêndios. A previsão do teor de humidade dos combustíveis florestais finos mortos foi realizada utilizando 
os  dados  medidos  de  temperatura  e  humidade  relativa  do  ar  e  de  velocidade  do  vento  nas  estações 
meteorológicas do IPMA mais próximas das zonas onde ocorreram os incêndios florestais de 15 de outubro 
de 2017, neste caso as estações da Lousã (697), Penhas Douradas (568), Viseu (560), Pampilhosa da Serra 
(686), Leiria (718) e Figueira da Foz (713). A sua localização é apresentada na Figura 39. 

 
Figura 39 – Localização das estações IPMA na análise do teor de humidade dos combustíveis finos mortos 

Utilizou‐se a equação de Henderson e Pabis Modificado (Henderson & Pabis, 1961) e as equações de 
Simard (Simard, 1968), utilizando para isso a temperatura e humidade relativa do ar, tal como descrito em 
Lopes (2014). Os valores do teor de humidade previstos foram ainda corrigidos de acordo com a velocidade 
do vento registada, que produz uma redução dos valores do teor de humidade com o aumento da velocidade 
do vento.  

Para  validar  a  metodologia  adotada,  foi  realizada  uma  previsão  do  teor  de  humidade  de  caruma  de 
Pinheiro bravo, utilizando os dados horários medidos na estação meteorológica da Lousã no período entre 1 
de junho de 2017 e 31 de dezembro de 2017. Estas previsões foram comparadas com as medições do teor 
de  humidade  da  caruma  de  Pinheiro  bravo  realizadas  na  Lousã,  no  mesmo  período  da  simulação.  Os 
resultados apresentam‐se na Figura 40. 

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Figura 40 – Comparação entre a variação horaria do teor de humidade de caruma de Pinus pinaster modelado e medido na Lousã 
no período entre 1 de junho a 31 de julho de 2017  

Como se pode ver na Figura 40, existe uma boa concordância entre os valores medidos e os valores 
modelados  para  a  zona  da  Lousã  para  o  período  em  análise,  validando  desta  forma  a  metodologia  de 
simulação do teor de humidade utilizada para as restantes zonas do incêndios de 15 de outubro de 2017. 

Para as estações da Lousã, Penhas Douradas, Viseu, Leiria e Figueira da Foz o teor de humidade dos 
combustíveis florestais finos mortos foi modelado para o período entre 10 e 20 de outubro de 2017. Para a 
estação da Pampilhosa da Serra foi modelado até à primeira hora do dia 15 de outubro, pois a partir desta 
hora a estação deixou de transmitir dados. Para a estação da Lousã é ainda apresentada a comparação entre 
os valores do teor de humidade da caruma de Pinheiro bravo medidos e os valores modelados entre 10 e 20 
de outubro de 2017.  

 
Figura 41 – Teor de humidade dos combustíveis finos mortos, medido e modelado para a zona da Lousã, no período entre 10 e 20 de 
outubro de 2017 

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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
Como podemos verificar na Figura 41, para a zona da Lousã, nos dois dias anteriores ao incêndio de 15 
de outubro e nos dias seguintes ao dia 16 de outubro, o teor de humidade dos combustíveis finos mortos 
apresentou ciclos diários bem definidos com valores máximos a ocorrer entre as 05.00h e as 8.00h da manhã 
e os valores mínimos a ocorrer entre as 15.00h e as 17.00h da tarde, contrastando com o valores do dia 15 e 
16 de outubro, maioritariamente muito próximos dos 5%. 

Tal como referido anteriormente, na Figura 41 podemos também verificar a boa concordância entre os 
valores medidos e os valores modelados para a zona da Lousã para o período em análise. 

 
Figura 42 – Teor de humidade dos combustíveis finos mortos, modelado para a zona das Penhas Douradas, no período entre 10 e 20 
de outubro de 2017  

 
Figura 43 – Teor de humidade dos combustíveis finos mortos, modelado para a zona de Viseu, no período entre 10 e 20 de outubro 
de 2017 

Como podemos verificar na Figura 42 e Figura 43, respetivamente para a zona das Penhas Douradas e 
de Viseu e, os cinco dias que antecederam o incêndio de 15 de outubro apresentaram sempre valores muito 
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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
reduzidos do teor de humidade dos combustíveis finos mortos, culminando com a catástrofe do incêndio de 
15 de outubro. Nos dias seguintes ao dia 16 de outubro, o teor de humidade dos combustíveis finos mortos 
voltou a apresentar ciclos diários definidos, com uma tendência geral de aumento do teor de humidade dos 
combustíveis finos mortos. 

 
Figura 44 – Teor de humidade dos combustíveis finos mortos, modelado para a zona da Pampilhosa da Serra, no período entre 10 e 
14 de outubro de 2017   

Como  podemos  verificar  na  Figura  44,  para  a  zona  da  Pampilhosa  da  Serra,  os  cinco  dias  que 
antecederam  o  incêndio  de  15  de  outubro  apresentaram  sempre  valores  muito  reduzidos  do  teor  de 
humidade dos combustíveis finos mortos. A estação deixou de transmitir dados a partir das 02.00h do dia 15 
de outubro, no entanto prevê‐se que a evolução do teor de humidade não seja diferente do verificado para 
a  estação  de  Penhas  Douradas  e  Viseu,  isto  é,  nos  dias  seguintes  ao  dia  16  de  outubro,  este  voltar  a 
apresentar ciclos diários definidos. 

 
Figura 45 – Teor de humidade dos combustíveis finos mortos, modelado para a zona de Leiria, no período entre 10 e 20 de outubro 
de 2017 
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Figura 46 – Teor de humidade dos combustíveis finos mortos, modelado para a zona da Figueira da Foz, no período entre 10 e 20 de 
outubro de 2017 

Para as zonas de Leiria (Figura 45) e da Figueira da Foz (Figura 46), nos dias anteriores ao incêndio de 15 
de outubro e nos dias seguintes ao dia 16 de outubro, o teor de humidade dos combustíveis finos mortos 
apresentou ciclos diários bem definidos com valores máximos a ocorrer entre as 05.00 e as 08.00 da manhã 
e os valores mínimos a ocorrer entre as 15.00h e as 17.00h da tarde, contrastando com o valores do dia 15 e 
16 de outubro, maioritariamente muito próximos dos 5%. 

Como pode ser verificado da Figura 41 à Figura 46, aquando do período crítico dos incêndios florestais 
ocorridos  a  15  de  outubro  de  2017,  os  valores  do  teor  de  humidade  modelados  para  todas  as  estações 
meteorológicas  anteriormente  referidas,  foram  significativamente  inferiores  a  10%,  chegando  mesmo  a 
atingir  valores  muito  próximos  dos  5%,  resultado  das  condições  de  temperatura,  humidade  relativa  e 
velocidade do vento aí verificadas, estando assim criadas condições de perigo extremo de incêndio. 

2.4. Condições Operacionais 

Dispositivo operacional previsto 

O Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Florestais (DECIF) de 2017 estava organizado de forma a 
funcionar de um modo distinto e em conformidade com as fases de perigo associadas ao risco temporal de 
IF. As fases estabelecidas pela Diretiva Operacional Nacional (DON‐2) da ANPC eram: fase Alfa, que decorre 
de 1 de janeiro a 14 de maio; fase Bravo, que decorre de 15 de maio a 30 de junho; fase Charlie de 1 de julho 
a 30 de setembro; fase Delta de 1 de outubro a 31 de outubro; e por último, fase Echo que decorre de 1 de 
novembro a 31 de dezembro. 

A DON‐2 preconizava que na fase Charlie se pudessem empregar 7043 meios humanos dos Corpos de 
Bombeiros, da Força Especial de Bombeiros (FEB), do Grupo de Intervenção Proteção e Socorro (GIPS)da GNR 
e das Equipas de Sapadores Florestais (ESF), apoiados por 1510 meios terrestres e por 48 meios aéreos: heli‐
bombardeiros ligeiros (HEBL), médios (HEBM) e pesados (HEBP) e aviões médios (AVBM) e pesados (AVBP). 
Na fase Delta estavam contemplados 4073 meios humanos das entidades supramencionadas, apoiados por 
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818 meios terrestres e 18 meios aéreos. O dispositivo do DECIF reduziu da fase Charlie para a fase Delta 
51,5% dos meios humanos, 55,1% nos meios terrestres e 62,5% nos meios aéreos.  

A Tabela 9 apresenta o referido dispositivo operacional e também o dispositivo operacional preconizado 
na fase Bravo (no mês de junho).  

Tabela 9 – Estrutura operacional na fase Bravo, Charlie e Delta no ano 2017 
Bravo  Charlie  Delta 
DECIF 
(15/5 a 30/6)  (1/7 a 30/9)  (1/10 a 31/10) 
3644 (maio) 
Meios humanos  7043  4073 
5018 (junho) 
717 (maio) 
Meios terrestres  1510  818 
1025 (junho) 
6 (até 31/5) 
22 (até 5/10) 
11 (até 14/6) 
Meios aéreos  48  18 (até 15/10) 
28 (até20/6) 
2 (até 31/10) 
32 (até30/6) 

Relativamente à prontidão dos meios aéreos nas três fases apresentadas na Tabela 9, na fase Bravo, os 
meios aéreos são no máximo 6 até 31 de maio, 11 até 14 de junho, 28 até 20 de junho e 32 até 30 de junho; 
na fase Charlie, o número de meios aéreos é o mesmo durante toda a fase; e na fase Delta, os meios aéreos 
são 22 até 5 de outubro, 18 até 15 de outubro, e 2 até 31de outubro podendo ser reforçado até um máximo 
de oito sendo seis da frota própria do Estado.  

Na  fase  Delta,  até  15  de  outubro,  os


meios  aéreos  de  asa  rotativa  (AR)  estavam
sediados no Centro de Meios Aéreos (CMA)
de:  Braga  (2),  Nogueira  (1),  Lousã  (1),
Monchique (1), Mêda (1), Pombal (1), Baltar
(1), Ferreira do Zêzere (1), Sardoal (1), Arcos
de  Valdevez  (1),  Vidago  (1),  Santa  Comba
Dão  (1)  e  Viseu  (1),  sendo  destes  meios  3
HEBL,  8  HEBM  e  3  HEBP.  De  asa  fixa  (AF)
estavam sediados no CMA de Seia (2) AVBP
e no CMA de Viseu (2) AVBM. A distribuição
dos  meios  aéreos  alocados  em  cada  CMA
mencionado é apresentada na  

Figura 47. 

 
Figura 47 – Distribuição dos meios aéreos na fase Delta (até 15 de outubro) 

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Pedido de reforço de meios 

No final do mês de setembro, em função da permanência de severidade meteorológica e da redução do 
efetivo  operacional  resultante  da  passagem  da  fase  Charlie  para  a  fase  Delta,  a  ANPC  fez  um  pedido  ao 
Ministério da Administração Interna (MAI) para reforçar os meios terrestres e aéreos previstos no DECIF. Não 
obstante  da  existência  de  comunicações  anteriores,  este  pedido  de  reforço  de  meios  foi  feito  a  27  de 
setembro e a 9 de outubro – a 27 de setembro de 2017 foi pedido o reforço com 105 equipas de combate a 
incêndios, tendo sido autorizadas 50 equipas; o pedido de 9 de outubro solicitava: 

 Pedido de 164 equipas de combate a incêndios; 
 Pedido adicional de 70h para dois aviões anfíbios médios; 
 Locação de dois aviões anfíbios pesados até 31 de outubro; 
 Prolongamento de locação de oito helicópteros médios até 31 de outubro; 
 Locação de quatro aviões anfíbios médios para o período de 13 a 31 de outubro. 

Do pedido efetuado a 9  de outubro,  todos os meios foram autorizados à exceção dos quatro aviões 


anfíbios médios, para o período de 13 a 31 de outubro. Estes meios autorizados ficaram disponíveis a partir 
do dia 10 de outubro.  

Avisos e Alertas 

Analisamos no âmbito deste ponto, a situação prévia referente aos avisos emitidos pelo IPMA e alertas 
feitos pela ANPC para o dia 15 de outubro. 

2.4.3.1. Perigo de Incêndio Florestal 

Diariamente, para apoio ao combate aos incêndios florestais, o IPMA disponibiliza ao Comando Nacional 
de Operações de Socorro (CNOS) as previsões a 72h, 48h e 24h e as observações do próprio dia, do Risco 
Conjuntural Meteorológico (RCM) e do índice meteorológico combinado de risco de incêndio florestal (ICRIF). 
Como referido anteriormente no subcapítulo 2.2, as classes do RCM resultam da integração do índice FWI, 
calculado pontualmente em cada uma das estações meteorológicas do IPMA, com o risco conjuntural em 
Portugal Continental (risco estrutural atualizado com as áreas ardidas do ICNF). 

A Tabela 10 apresenta as classes de risco adotadas por cada entidade. Constata‐se que a diferença de 
designações atribuídas a cada nível pode gerar confusão e dificuldade de interpretação. As classes do IPMA, 
com base no RCM, permitem transmitir diariamente a informação de perigo de incêndio florestal à ANPC e 
gerar os Avisos à população, estes últimos com carácter público. Os Alertas emitidos pela ANPC têm carácter 
reservado, que não se destinam à divulgação pública tendo como objetivo a transmissão de determinações 
operacionais às entidades que integram o Sistema Integrado de Operações de Proteção e Socorro (SIOPS). A 
classificação  do  Alerta  Especial  para  SIOPS  compreende  os  níveis  verde  (monitorização),  azul,  amarelo, 
laranja e vermelho, progressivos conforme a gravidade da situação e o grau de prontidão que esta exige para 
o Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Florestais (DECIF).  

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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
Tabela 10 – Classes de risco de incêndio – definição adotada pelo IPMA e ANPC para o seu dispositivo operacional 
Classes IPMA  Classes DECIF 
Nível 
(RCM)  DON Nº 2/2017 e SIOPS 
1  Reduzido  Verde  Estado normal 
2  Moderado  Azul 
3  Elevado  Amarelo  Estado de Alerta 
Especial 
4  Muito elevado  Laranja 
(EAE) 
5  Máximo  Vermelho 
 
Salienta‐se  que  a  definição  dos  níveis  de  Alerta  pela  ANPC,  não  tem  em  conta  apenas  a  informação 
emitida pelo IPMA, nomeadamente, o RCM. No entanto, e como o que temos vindo a referir, nomeadamente 
no relatório sobre o complexo de incêndios de Pedrógão Grande (Viegas et al., 2017), chamamos a atenção 
para a confusão que continua a existir entre avisos e alertas e a distinta definição de cores. 

Apresenta‐se na Tabela 11 o nível de perigo de incêndio observado e previsto a 24h, 48h e 72h pelo 
IPMA através do RCM, e a avaliação da ANPC para o seu dispositivo operacional através da elaboração de 
Comunicado Técnico‐Operacional (CTO) de caráter nacional, mas de acesso restrito ao seu dispositivo.  

Tabela 11 – Nível de perigo de incêndio florestal – informação emitida pelo IPMA e definição do estado de alerta pela ANPC 
IPMA (RCM)    ANPC 
  CTO 64/2017  CTO 65/2017  CTO 66/2017 
Distrito  Obs.  (até 15/10 às  (de 14/10 às  (de 14/10 às 
72h  48h  24h  20h até 16/10 
15/10  20h)  20h até 16/10 
às 08h)  às 20h) 
Coimbra  4  4  4  4    4  5  5 
Leiria  3  3  3  3    4  5  5 
Aveiro  3  3  3  3    4  5  5 
Viseu  4  4  4  4    4  5  5 
Guarda  5  5  5  5    4  5  5 
Castelo   
4  4  4  4  4  5  5 
Branco 

Desde o início de outubro, grande parte do país, tinha o Estado de Alerta Especial (EAE) Laranja acionado. 
No dia 10 de outubro, com base no Aviso do IPMA, a ANPC elaborou o CTO 64/2017 que determinava o 
prolongamento do EAE como nível Laranja, para dia 15 de outubro até às 20.00h para todos os Comandos 
Distritais (CDOS). Na avaliação seguinte, no CTO 65 emitido a 14 de outubro, elevou‐se o nível de Alerta para 
Vermelho entre as 20.00h de dia 14 de outubro e as 08.00h da manhã de dia 16 de outubro; face à gravidade 
da situação foi feita uma nova avaliação a 15 de outubro, onde se prolongou o nível de Alerta Vermelho até 
às 20.00h de dia 16 de outubro. 

As  avaliações  feitas  no  CTO  Nº65  e  CTO  Nº66  para  o  período  entre  14  de  outubro  e  16  de  outubro 
determinaram a passagem para nível Vermelho para todos os distritos. As condições foram agravadas em 
virtude da passagem ao largo de Portugal Continental do Furação Ophelia: 

 Temperaturas máximas no intervalo entre os 35 e os 38º C em muitas regiões do país; 
 Humidade  relativa  do  ar  entre  10  –  30  %  em  todas  as  regiões  de  Portugal  continental,  sem 
recuperação durante o período noturno. 
 O vento moderado (até 35 km/h) de sul com intensificação para o início da tarde de domingo e 
com mais incidência no litoral e terras altas. Nas terras altas, o vento moderado a forte (até 
50km/h) do quadrante sul e com rajadas que poderão atingir os 80 km/h nas terras altas e os 90 
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a 100km/h nas terras altas da região do Minho e Douro Litoral, com possibilidade de emissão 
de Aviso meteorológico; 
 Previsível a ocorrência de precipitação, na madrugada/manhã de segunda‐feira (16 de outubro) 
com uma progressão do litoral para o interior, sendo pontualmente forte no período da tarde.  

No  CTO  65  destacava‐se  que  o  índice  de  risco  de  incêndio  previsto  para  domingo  (15  de  outubro), 
apontava para valores acima da classe de muito elevado em todo o território continental, com um elevado 
número de concelhos nas classes de risco muito elevado e máximo, em particular no interior Norte e Centro 
no Baixo Alentejo e no Algarve. No CTO 66 voltou a destacar‐se esta informação, mencionando também a 
precipitação prevista para a faixa mais litoral.  

Resumidamente, a Tabela 12 apresenta o nível de Alerta à hora do CTO de dia 10 de outubro e o nível 
de Alerta estabelecido nas avaliações seguintes (14 de outubro e 15 de outubro). 

Tabela 12 – Estados de Alerta Especial para DECIF definidos entre 14/10 e 16/10. Dados ANPC 
DECIF 
Data emissão 
Nível de Alerta  Período  Distritos abrangidos  
10 de outubro 15h 
4  Laranja  Até dia 15/10 às 20h  Todos os distritos 
CTO Nº 64/2017 
14 de outubro 15h  De 14/10 às 20h até 16/10 às 
5  Vermelho  Todos os distritos 
CTO Nº 65/2017  08h 
15 de outubro 21h  De 14/10 às 20h até 16/10 às 
5  Vermelho  Todos os distritos 
CTO Nº 66/2017  20h 
 

A  passagem  para  estado  de  Alerta  Especial  Vermelho,  determinou  a  manutenção  do  pré‐
posicionamento  de  meios,  com  os  grupos  de  reforço  indicados  na  Tabela  13,  definidos  no  CTO  65  e  na 
avaliação seguinte, vertida no CTO 66. Os grupos de reforço incluíam: um Grupo de Reforço para Ataque 
Ampliado  (GRUATA)  da  Força  Especial  de  Bombeiros  (FEB),  Grupos  de  Reforço  para  Incêndios  Florestais 
(GRIF) ambos sediados em Bases de Apoio Logístico (BAL), Brigadas de Combate a Incêndios (BCIN) e Grupo 
de Reforço Ligeiro (GREL) dos Grupo de Intervenção de Proteção e Socorro (GIPS). 

Tabela 13 – Prontidão dos grupos de reforço e o seu local de pré‐posicionamento definidos no CTO 65 e CTO 66 
CTO  Meio  Local do pré‐posicionamento 
GRUATA FEB   BAL de Vila Real  
GRIF 2 de Lisboa   BAL de Paredes  
GRIF 1 de Setúbal   BAL de Albergaria à Velha  
CTO 65/2017 
GREL 1 GIPS   Vila Real  
GREL 2 GIPS   Viseu  
BCIN 1 GIPS   Faro  
GRUATA FEB   BAL de Mangualde  
GRIF Porto   BAL de Ponte de Lima  
GRIF 1 Lisboa   BAL de Vila Real  
GRIF 2 de Lisboa   BAL de Chaves  
CTO 66/2017 
GRIF 1 de Setúbal   BAL de Albergaria à Velha  
GREL 1 GIPS Vila Real  GREL 1 GIPS Vila Real 
GREL 2 GIPS Viseu  GREL 2 GIPS Viseu 
BCIN 1 GIPS Faro  BCIN 1 GIPS Faro 
 

 
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2.4.3.2. Avisos meteorológicos 

Os avisos meteorológicos emitidos pelo IPMA (de nível Amarelo), para disponibilização à ANPC, davam 
conta da persistência de tempo quente entre 14 de outubro e 16 de outubro, e precipitação a partir do dia 
16 de outubro. Estes avisos não determinam um Estado de Alerta Especial do SIOPS para o DECIF do mesmo 
nível, no entanto também têm influência na avaliação do estado de alerta. A Tabela 14 apresenta os avisos 
meteorológicos para esse período. 

Tabela 14 – Avisos meteorológicos emitidos pelo IPMA de 14/10 a 16/10. 
Avisos  Data emissão  Período de  Nível e tipo  Notas  Distritos abrangidos 
IPMA  (UTC)  observação  de aviso 
(UTC) 
Persistência de valores 
14/10/2017  14/10/2017 11h  Tempo  Porto, Aveiro, Coimbra e 
186/2017    elevados de temperatura 
00h45  15/10/2017 20h  quente  Leiria 
máxima 
Viana do Castelo, Braga, 
16/10/2017 03h  Porto, Vila Real, Viseu, 
  Precipitação  Períodos de chuva ou 
16/10/2017 21h  Aveiro, Coimbra, Leiria, 
aguaceiros, podendo ser 
Lisboa e Setúbal 
por vezes fortes e 
Bragança, Guarda, Castelo 
15/10/2017  acompanhados de 
187/2017  16/10/2017 18h  Branco, Santarém, 
09h56    Precipitação  trovoada 
17/10/2017 12h  Portalegre, Évora, Beja e 
Faro 
15/10/2017  Persistência de valores 
Tempo  Porto, Aveiro, Coimbra e 
09h52    elevados de temperatura 
quente  Leiria 
15/10/2017 21h  máxima 
Viana do Castelo, Braga, 
16/10/2017 18h 
  Precipitação  Porto, Aveiro, Coimbra, 
17/10/2017 06h  Períodos de chuva ou 
Leiria e Santarém 
aguaceiros, podendo ser 
16/10/2017  Vila Real, Bragança, Viseu, 
188/2017  17/10/2017 00h  por vezes fortes e 
02h46    Precipitação  Guarda, Castelo Branco e 
17/10/2017 12h  acompanhados de 
Portalegre 
trovoada 
17/10/2017 18h  Viana do Castelo, Braga e 
  Precipitação 
18/10/2017 03h  Porto 

A informação sobre a ocorrência de precipitação teve consequências no comportamento da população. 
A previsão de chuva nas primeiras horas do dia 16 de outubro, levou a que muitas pessoas no dia 15  de 
outubro,  domingo,  programassem  fazer  queimadas  e  queimas  para  este  dia  contando  que  iria  chover 
passado pouco tempo. No entanto, a previsão para períodos de chuva ou aguaceiros, podendo ser por vezes 
fortes e acompanhados de trovoada, nos distritos abrangidos, como Viseu, Aveiro, Coimbra e Leiria, só se 
verificou no final da tarde de dia 16 de outubro.  

A realização de queimadas, autorizada fora do período crítico, só seria permitida desde que o índice de 
risco de incêndio florestal fosse inferior ao nível elevado. Como referido anteriormente na Tabela 11, o RCM 
previsto a 72h, 48h e 24h para o dia 15 de outubro, variou entre o de nível elevado (exemplo do distrito de 
Leiria e Aveiro), muito elevado (Coimbra, Viseu e Castelo Branco) e máximo (distrito da Guarda). 

Análise geral 

No dia 1 de outubro e à semelhança do que estava previsto no DECIF, houve uma redução do efetivo 
operacional. Devido a essa redução e à situação meteorológica prevista, foi solicitado ao MAI um pedido de 

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reforço de meios (27 de setembro e 9 de outubro). Deste pedido resultou um incremento de meios terrestres 
e de meios aéreos, embora em número inferior ao solicitado. As 164 equipas de combate autorizadas no 
pedido  de 9  de outubro, foram atribuídas a Corpos de Bombeiros  sob a forma de  Equipas de Combate  a 
Incêndios  (ECIN)  e  os  grupos  de  reforço  mencionados  nos  CTO  resultaram  do  dispositivo  que  já  estava 
previsto para a fase Delta. Os meios aéreos (apesar de ter sido recusado o reforço de quatro aviões anfíbios 
médios) mantiveram‐se os que estavam previstos no DECIF para a fase Delta, ainda que consideravelmente 
menos do que os existentes na fase Charlie. 

No dia 8 de outubro foi acionado o nível Laranja para todo o país, com pré‐posicionamento de meios 
nas zonas onde historicamente o número de ignições era mais elevado e onde poderia haver mais problemas. 

No dia 10 de outubro, através do CTO 64 e em função do briefing com o IPMA, a situação meteorológica 
adversa  ia  manter‐se  e  agravar‐se  no  fim‐de‐semana.  Nesse  momento  foi  prolongado  o  nível  de  Alerta 
Laranja até 15 de outubro às 20.00h em todos os distritos com um conjunto de recursos preposicionados.  

A  14  de  outubro,  após  informação  do  IPMA  sobre  a  gravidade  das  condições  meteorológicas 
especialmente  para  domingo  (15  de  outubro)  a  ANPC  fez  nova  avaliação  da  situação  e  subiu  para  Alerta 
Vermelho todos os distritos de 14 de outubro às 20.00h até 16 de outubro às 08h.00. 

No dia 15 de outubro, o IPMA, através do seu Aviso 187, dava indicação de precipitação a partir das 
03.00h de dia 16 de outubro e indicava persistência de valores elevados de temperatura máxima. A primeira 
referência  a  precipitação  dada  à  ANPC  em  termos  de  informação  oficial  foi  feita  neste  Aviso,  mas 
internamente  mantiveram  briefings  com  o  IPMA  que  os  alertavam  para  a  existência  de  vento  acima  do 
normal,  temperaturas  altas  e  precipitação.  Havia  ainda  assim  da  parte  do  Comando  Nacional  alguma 
incerteza relativamente ao que se iria  passar no final do dia 15  de outubro,  porque por  um lado o IPMA 
alertava para a severidade das condições meteorológicas, mas por outro lado tinha um Aviso de precipitação 
Amarelo para o país a partir das 03.00h da manhã de 16 de outubro. A previsão de chuva manteve‐se no 
Aviso 187 a 16 de outubro, com a diferença de que neste Aviso só se previa precipitação a partir das 18.00h 
de dia 16 de outubro. 

No dia 15 de outubro às 21.00h foi feita nova avaliação e prolongado o nível de Alerta Vermelho até às 
20.00h de dia 16 e em resultado deste CTO determinou‐se, a manutenção do pré‐posicionamento de meios 
de reforço. 

Perante a previsão do IPMA para condições meteorológicas adversas, valores de RCM de nível elevado, 
muito elevado e de máximo para o dia 15 de outubro em grande parte do território e com a previsão de 
precipitação  para  dia  16  de  outubro  a  partir  das  03.00h  da  manhã,  consideram‐se  apropriadas  as 
determinações operacionais definidas pela ANPC no período entre 14 e 16 de outubro, colocando todos os 
distritos com o Estado de Alerta Especial Vermelho, ou seja, nível de alerta máximo. 

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3. Principais incêndios e resposta operacional 
Neste capítulo será feita uma descrição dos sete complexos de incêndios selecionados, anteriormente 
mencionados, seguindo uma vez mais, a ordem da hora da primeira ignição. Da descrição de cada complexo 
de  incêndios,  consta:  um  subcapítulo  relacionado  com  a  causa  provável  das  principais  ignições, 
acompanhado do mecanismo de alerta; um subcapítulo que se foca no comportamento inicial do fogo e no 
ataque inicial efetuado, considerando este período como aquele que decorre entre a chegada dos primeiros 
meios  de  combate  ao  fogo  e  o  momento  em  que  se  altera  a  estratégia  de  resposta  por  se  ter  perdido  o 
controlo do incêndio; um subcapítulo relativo à análise geral da propagação do fogo; e um subcapítulo final 
que  avalia  a  resposta  operacional  que  teve  lugar  em  cada  teatro  de  operações.  Depois  da  descrição 
individualizada de cada complexo de incêndios, é feita uma análise global das várias ocorrências, tanto no 
que respeita à evolução conjunta dos vários focos se incêndio, como no que respeita à resposta operacional 
numa perspetiva integrada.  

Devido ao forte vento que se fazia sentir na sequência do Furacão Ophelia mencionado anteriormente, 
os focos secundários tiveram um papel preponderante na propagação do fogo, o que fez com que surgissem 
várias  novas  ignições,  as  quais  apenas  são  mencionadas  e  descritas  quando  tiverem  tido  uma  influência 
relevante no complexo de incêndios. Em certos casos, estas novas ignições deram origem a um novo registo 
de ocorrência, muitas vezes não porque se tratava de um evento independente do original, mas para facilitar 
o envio de meios de primeira intervenção.  

A  propagação  do  fogo  foi  estimada  tendo  como  base  a  realização  de  entrevistas  a  operacionais  e 
populares,  entre  outros,  que  viveram  este  incêndio  em  primeira  mão.  Destas  entrevistas,  resultou  um 
conjunto de milhares de pontos georreferenciados com uma hora associada, a qual foi indicada pela pessoa 
entrevistada, e que em muitos casos foi confirmada pelo registo em telemóvel, uma vez que muitas pessoas 
tentavam telefonar quando o fogo chegava às suas imediações. Para além disso, foram disponibilizadas várias 
fotografias e vídeos da progressão do fogo, as quais tinham hora de registo associado. Embora tenha sido 
despendido um grande esforço na obtenção de uma determinação rigorosa da propagação do fogo, devido 
à extensão a área ardida e à complexidade dos eventos, é natural que em casos pontuais surjam desvios à 
realidade.  

Como  foi  referido,  o  fogo  propagou‐se  essencialmente  por  focos  secundários,  o  que  levou  a  que 
frequentemente, numa mesma direção da progressão predominante do fogo, existissem várias frentes de 
chama que progrediam paralelamente, até que após interação, se juntavam mais tarde formando muitas 
zonas  não  ardidas,  vulgarmente  conhecidas  por  “ilhas”.  Sendo  muito  difícil  reproduzir  este  processo,  as 
estimativas  de  propagação  do  fogo  de  desenvolvimento  do  fogo  exibidas  ao  longo  deste  capítulo  são 
apresentadas  como  se  o  fogo  tivesse  progredido  de  forma  contínua,  salvo  algumas  exceções  de  focos 
secundários a longa distância com um desenvolvimento que apresentou alguma autonomia. 

A  análise  aos  meios  humanos  e  materiais  usados  neste  capítulo  basearam  quase  em  exclusivo  aos 
registos  nos  relatórios  de  ocorrência  respetivos.  No  entanto,  estes  dados  nem  sempre  têm  a  exatidão 
necessária, em virtude da situação complexa que se viveu e do grande volume de comunicações, nem sempre 
fácil,  que  se  registou  neste  dia.  Nesta  perspetiva,  as  informações  relativas  aos  meios  empregues  nas 
operações de socorro devem ser vistos com a reserva de serem valores aproximados. 

 
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3.1. Complexo de incêndios de Seia 

De entre os vários grandes incêndios do dia 15 de outubro, a ocorrência do Sabugueiro foi aquela que 
mais cedo teve início e como tal, das poucas ocorrências que tiveram uma resposta operacional, pelo menos 
numa primeira fase, sem a limitação de meios motivada pela existência de várias ocorrências em simultâneo. 
No  entanto,  no  decorrer  do  incêndio,  várias  equipas  de  combate  foram  transferidas  para  outros 
incêndios, deixando esta ocorrência sem meios suficientes para a sua dimensão crescente. 

De entre vários focos de incêndio que se foram sucedendo, alguns pela projeção de fagulhas, os quais 
mais  tarde eram apanhados  pela  frente  de  chama  original,  destacam‐se  duas  ignições,  aparentemente 
independentes, que dominaram este complexo de incêndios. A primeira ignição, designada de “Ocorrência 
do  Sabugueiro”,  iniciada  pouco  antes  das  06.00h,  progrediu  para  norte  e  nordeste, ficando  com uma 
extensão substancial do seu perímetro adjacente a outras áreas previamente queimadas. A “Ocorrência do 
Casal da Boavista” terá tido início entre as 22.00h e as 22.30h, a leste da primeira ocorrência, progredindo 
igualmente  para  nordeste,  interrompendo  a  sua  progressão  quando  as  condições  meteorológicas  se 
tornaram desfavoráveis para a propagação do fogo, diminuindo a sua intensidade e potenciando as ações 
de combate. 

Uma parte substancial da área ardida neste incêndio insere‐se em zona de floresta ou mato com poucas 
pessoas a testemunhar de perto a progressão do fogo. Neste sentido, a real perceção da localização no tempo 
das frentes de chama foi dificultada pelo que algumas manchas isócronas apresentam uma precisão menor.  

 Alerta e causa de incêndio 

A  causa  de  qualquer  das  duas  ocorrências  mencionadas  não  é  evidente.  Não  havendo  incêndios  a 
montante do vento predominante na altura das ignições, não havendo indícios de atuação negligente nos 
locais de origem, nem tampouco o registo de trovoada seca ou outras causas naturais que pudessem dar 
início a estes incêndios, a origem criminosa com dolo acaba por ser a possibilidade para onde pendem as 
principais suspeitas.  

Embora o alerta da ocorrência do Sabugueiro esteja registado às 06.03h, o fogo foi detetado um pouco 
antes por alguns populares que afirmam ter ouvido, por volta das 05.30h, o ruído de motas a passar no local 
das ignições, sem que tivessem sido apresentadas evidências ou testemunhos oculares de associação factual 
do envolvimento dessas motas às ignições. Pela extensão que o fogo apresentava no momento do alerta, e 
mesmo  considerando  a  rápida  propagação  inicial  que  se  verificava,  acredita‐se  que  o  seu  início  tenha 
ocorrido 15 a 30 minutos antes da hora de registo de alerta. 

Propagação inicial do fogo e ataque inicial 

Quando pouco antes das 06.00h foi dado o alerta, já o fogo tinha uma extensão que fazia acreditar que 
a ignição inicial já se vinha a desenvolver há algum tempo.  O fogo progredia em várias direções, espalhando 
vários  focos  secundários  a  curta  distância  sem  um  alinhamento  claramente  definido.  O  forte  vento 
dominante  provinha  de  SE,  no  entanto,  localmente,  era  errático,  como  consequência  da  turbulência 
provocada  pela  topografia  complexa  do  vale  onde  o  fogo  se  desenvolvia  (Figura  48).  Estas  variações 
meteorológicas locais, associadas ao declive, dificultaram a operação desde uma fase precoce. O combustível 

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florestal presente com cerca de 50cm de altura, constituído maioritariamente por herbáceas, fetos e alguns 
arbustos, não era muito denso na sua generalidade permitindo o combate direto, mas era suficientemente 
concentrado para que o fogo se propagasse com facilidade naquelas condições ambientais. 

 
Figura 48 – Vista geral do local de início da ocorrência do Sabugueiro. Os números “1” e “2” na imagem são referenciados na 
designação da Figura 49.  

(a)  (b) 

   
Figura 49 – Fotografias do local de início do incêndio: a) parte cimeira junto ao Centro de Limpeza de Neve (indicado como “1” na 
Figura 48); b) parte fundeira que se estende até à linha de água (indicado como “2” na Figura 48). 

Logo numa fase inicial de combate, formaram‐se três frentes principais (Figura 50): 1) para noroeste, 2) 
para  sudoeste  e  3)  uma  frente  ampla  para  sudeste  com  períodos  em  que  as  rajadas  de  vento  faziam 
desenvolver o seu flanco esquerdo para norte. Neste cenário, a estratégia inicial passou por proteger a aldeia 
do Sabugueiro, conter a frente que se dirigia para NW e enfraquecer a intensidade a frente que se propagava 
para  SE.  Esta  última  frente  queimava  sobretudo  mato  e,  como  se  dirigia  a  subir  a  encosta,  mas  contra  o 
sentido  do  vento  dominante,  esperava‐se  que  pudesse  ser  combatida  mais  tarde  junto  a  uma  das  duas 
estradas que se lhe apresentavam transversais, tal como veio a acontecer. 

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Figura 50 – Desenvolvimento do incêndio na fase inicial. A mancha a vermelho na imagem representa uma aproximação da área do 
incêndio pelas 08.30h. 

Embora o combate fosse difícil, a situação parecia sob controlo, até que pelas 08.30h, de entre vários 
focos  secundários  que  surgiam  a  curta  distância,  em  várias  direções,  e  que  iam  sendo  prontamente 
combatidos,  surgiu  um  foco  secundário  a  cerca  de  1000m  de  distância,  que  veio  tornar  a  situação 
descontrolada. Mesmo tendo sido imediatamente detetado, e sido prontamente enviados meios na tentativa 
de o debelarem, este novo foco de incêndio, localizado numa encosta (Figura 50 e Figura 51) com exposição 
alinhada  ao  forte  vento  dominante  de  SEE,  desenvolveu‐se  rapidamente,  apresentando  uma  dimensão 
considerável logo nos primeiros minutos. A progressão foi tão rápida que, quando ainda os primeiros meios 
de combate se dirigiam para o local de início, cerca de cinco minutos depois da ignição, cruzaram‐se com um 
grupo de combate que vinha no sentido contrário, o qual informou que esta nova frente de chama já tinha 
atravessado a estrada secundária na cumeada da encosta, e progredia de forma descontrolável para NW.   

Figura 51 – Vista do local onde se iniciou o foco secundário, por volta das 08.30h. 

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Perante  esta  situação,  a  partir  da  qual  se  deixou  de  ter  o  conhecimento  absoluto  do  perímetro  do 
incêndio, a estratégia passou a ser a de continuar a proteger a aldeia do Sabugueiro com os meios que já 
estavam no local. Os meios que chegavam de norte e oeste (e.g. CB de Seia), deveriam combater o complexo 
de frentes resultantes do foco secundário descontrolado e da frente de chama original que se dirigia para 
norte e que, pelas 09.30h, se juntou ao flanco direito do foco secundário. Os meios provenientes de sul e de 
leste (e.g. GRIF de Castelo Branco) deveriam debelar a frente que se dirigia para SE.

(a)  (b) 

   
(c)  (d) 

   
(e)  (f) 

   
Figura 52 – Sequência de imagens da propagação do fogo entre as 07.56h e as 11.33h. Fotografias cedidas por João Correia – 2º 
Comandante do CB de Tábua. 

 
Desenvolvimento do incêndio 

A área onde o fogo progredia era sobretudo de mato e alguma floresta, com a presença de algumas 
povoações  dispersas.  Assim,  com  o  vento  a  empurrar  o  fogo  para  NW,  a  prioridade  foi  a  de  proteger  as 
povoações dispersas, nas quais se incluía inicialmente o Sabugueiro, e sobretudo a de acompanhar a ameaça 
do fogo à cordão urbano entre Seia e Eirô/Trancosinho. O combate propriamente dito, nunca foi totalmente 
descurado  neste  incêndio  e  as  operações  foram  muito  para  além  da  proteção  de  locais  e  povoações. 
Ancorado pelo cordão urbano e pelas atividades operacionais, depois das 15.00h, o fogo passou a dirigir‐se 

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para  nordeste  (Figura  53).  As  frentes  a  Sul,  nunca  chegaram  a  constituir  verdadeiro  perigo,  não  apenas 
porque se situavam a montante do vento, mas também porque a ausência de povoados ameaçados permitia 
a definição de uma estratégia mais estável.   

 
Figura 53 – Progressão geral das ocorrências do Sabugueiro e de Casal da Boavista. 

Embora  o  vento  tivesse  uma  influência  dominante  sobre  o  comportamento  do  fogo,  também  a 
topografia assumiu nesta ocorrência um papel determinante. A Figura 54 permite verificar que a encosta 
onde  o  fogo  se  desenvolveu  nas  primeiras  10  horas  está  voltada  para  noroeste,  ficando  sujeita  a  uma 
turbulência  atmosférica  acrescida  quando  os  ventos  sopram  do  quadrante  sudeste,  o  que  justificou  a 
propagação de diversas frentes de chama com várias velocidades e com diferentes direções.  

 
Figura 54 – Vista oblíqua da área ardida, permitindo perceber a influência da topografia no comportamento do fogo. 

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Este aspeto explica as áreas traçadas pelos perímetros iniciais que não são propriamente aquelas formas 
alongadas  seguidas  por  incêndios  dominados  pelo  vento,  vulgarmente  chamada  de  “forma  de  charuto”, 
como aconteceu por exemplo nas ocorrências costeiras de Leiria e de Quiaios (cf. subcapítulos 3.5 e 3.6) em 
que a topografia teve menor influência no comportamento do fogo. 

Pode  observar‐se  na Figura  55  que,  na  ocorrência  do  Sabugueiro,  a  existência  de  áreas  previamente 
queimadas  foi  essencial  para  a  contenção  do  fogo  no  perímetro  final.  Estas  faixas  delimitadoras  foram 
fundamentais  para  que,  por  volta  das  22.00h,  antes  da  ocorrência  do  Casal  da  Boavista  pelas  22.30h,  a 
situação,  embora  difícil,  sobretudo  devido  ao  vasto  perímetro  do  incêndio,  se  pudesse  considerar  que  o 
combate estava a evoluir favoravelmente.  

 
Figura 55 – Progressão da ocorrência do Sabugueiro entre as 22h00 e as 24h00 e a existência de áreas queimadas em ocorrências 
anteriores. 

Nesta altura, as linhas de defesa concentravam‐se sobretudo na cordão urbano Seia‐Pinhanços‐Gouveia, 
não apenas para proteção das povoações, mas também porque esta faixa proporcionava oportunidades de 
combate, e nas frentes de Vila Nova de Tazem e a norte de Gouveia onde o fogo se dirigia para áreas que 
haviam ardido em 2016 e 2017 e como tal, apresentando uma menor carga de combustível, o combate era 
facilitado. Embora esta ocorrência tivesse ficado circunscrita na área planeada na estratégia de combate, o 
aparecimento da ocorrência do Casal da Boavista trouxe um novo desafio. A rápida e intensa propagação 
inicial desta segunda ocorrência, que veio a causar uma vítima  mortal (cf. Capítulo 4), foi de muito difícil 
combate e as ações concentraram‐se sobretudo na proteção das povoações, quando tal era viável, uma vez 
que  nem  sempre  o  trânsito  das  viaturas  de  combate  entre  povoações  era  possível.  Também  nesta  nova 
ocorrência,  embora  com  muito  menor  expressão,  as  áreas  previamente  ardidas  foram  importantes  para 
reduzir a propagação do fogo no flanco esquerdo.  

Embora  o  percurso  seguido  pelas  duas  ocorrências  seja  sensivelmente  paralelo,  as  duas  frentes  de 
chama não chegaram a convergir em simultâneo, tendo sido o flanco esquerdo da ocorrência do Casal da 
Boavista  a  juntar‐se  e  a  extinguir‐se  na  área  previamente  queimada  pela  ocorrência  do  Sabugueiro. 
Naturalmente  que  a  área  ainda  aquecida  pela  primeira  ocorrência  terá  criado  correntes  convectivas  que 
“puxaram” o flanco esquerdo da segunda ocorrência, mas sem  que este efeito tenha tido consequências 
relevantes no desfecho final.  

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Com  base  na  estimativa  da  propagação  do  fogo  anteriormente  apresentada,  foi  feito  o  cálculo  da 
velocidade de propagação do fogo dos dois principais incêndios, tal como consta da Figura 56. Desta mesma 
figura consta a direção assumida pelas frentes e a taxa de crescimento de área ardida. Sem surpresa, verifica‐
se  que  o  fogo  evoluiu  mais  rapidamente  nos  períodos  em  torno  das  10.00h,  16.00h  e  00.00h.  A  grande 
velocidade  de  propagação  do  fogo  assumida  pelo  incêndio  de  Casal  de  Boavista,  que  causou  uma  vítima 
mortal, aparece traduzida no período entre as 00.00h e as 02.00h.  

 
Figura 56 – Apresentação dos resultados do cálculo da velocidade média de propagação da frente principal nos dois incêndios do CIF 
de Seia, acompanhado do sentido da propagação (setas) e da taxa média de crescimento da área ardida no complexo de incêndios.  

 Análise da resposta operacional 

Num cenário muito complexo que conciliava vento forte, declives acentuados e combustíveis florestais 
com humidade muito baixa, por duas vezes que o incêndio do Sabugueiro esteve prestes a ceder à estratégia 
de  combate  definida,  antes  do  aparecimento  da  ignição  no  Casal  da  Boavista.  Embora  neste  período  de 
apenas  16  horas  já  tivessem  ardido  cerca  de  9200ha,  em  função  das  condições  excecionais  referidas, 
considera‐se que a estratégia foi bem definida e implementada. No entanto, o novo incêndio veio acrescentar 
um foco de preocupação e dispersão de meios no período noturno em que a utilização de meios aéreos era 
inviável,  pelo  que  se  considera  difícil  conceber  qualquer  estratégia  que  pudesse  alterar  o  rumo  que  este 
complexo de incêndios veio a tomar. 

Na  Figura  57  apresenta‐se  a  evolução  de  meios  neste  teatro  de  operações.  Tal  como  referido 
anteriormente, sendo este o primeiro grande incêndio a ter início, houve muitos meios de várias corporações 
a  ser  deslocados  para  esta  ocorrência.  Naturalmente  que  o  aparecimento  de  novos  grandes  incêndios 
noutras áreas fizeram alguns meios de combate regressar às suas áreas de intervenção, embora este aspeto 
não se consiga constatar na evolução dos meios que constam dos relatórios destas ocorrências. O surgimento 
do  incêndio  do  Casal  da  Boavista  fez  deslocar  alguns  meios  da  ocorrência  do  Sabugueiro  para  esta  nova 
ocorrência. Para além disso, houve alguns meios do município de Gouveia que, estando em prevenção ou 
em combate noutras ocorrências, se deslocaram para este novo incêndio, fazendo aumentar os meios neste 
complexo de incêndios.   

 
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(a)  (b) 

   
Figura 57 – Evolução dos meios no(s) teatro(s) de operações: a) meios humanos; b) meios terrestres (MT) e meios aéreos (MA). 
Fonte: ANPC: RO 2017090031401 (Sabugueiro) e RO 2017090031515 (Casal da Boavista). 

Numa fase inicial, durante cerca de duas horas e meia, atuaram dois meios aéreos, no entanto depois 
deste período, foi assumido que o helibombardeiro pesado (H03) tinha poucas condições para continuar a 
operar com eficiência em virtude da grande turbulência atmosférica verificada que é uma consequência do 
forte vento que se fazia sentir numa área com orografia muito complexa. Até ao final do dia, a grande área 
que  o  incêndio  assumiu  foi  combatida  apenas  pelo  helibombardeiro  médio  (H17),  também  ele  com 
dificuldades de operara em zonas de montanha.  Pelo que nos foi reportado, as dificuldades de combate 
aéreo sentidas são normais em incêndios que decorrem em dias com forte vento nesta região montanhosa. 
Estas dificuldades e as suas causas são similares àquelas que foram descritas num estudo que os autores 
deste relatório fizeram aos incêndios que ocorreram na ilha da Madeira entre 8 e 13 de agosto de 2016. Após 
esses  incêndios,  foram  realizados  vários  estudos  sobre  o  potencial  da  utilização  de  meios  aéreos  para 
combate  a  incêndios  florestais  nesta  ilha.  Verifica‐se  neste  caso  uma  realidade  similar  que  deveria  ser 
analisada em cooperação. 

3.2. Complexo de incêndios da Lousã 

 O complexo de incêndios da Lousã teve uma ignição principal que deu sequência aos diversos impactes 
registados neste complexo de incêndios – a ocorrência de Prilhão em Vilarinho/Lousã. No contexto deste CIF 
foram observados e registados vários focos secundários, com maior ou menor afastamento da ocorrência 
original,  tendo  alguns  deles  sido  tratados  como  novas  ocorrências  (e.g.  Fundo  da  Vila  /  Tábua; 
Arnosa/Tondela).  Desta  forma,  a  descrição  que  se  segue  irá  incidir  primordialmente  nesta  ocorrência 
principal, no entanto, a análise à resposta operacional irá considerar as diversas ocorrências registadas. 

Este incêndio teve início no Prilhão (Lomba da Mó), na freguesia de Vilarinho, concelho da Lousã, pelas 
08.20h do dia 15 de outubro. Como se irá perceber pela descrição que se segue, este incêndio teve uma 
propagação  inicial  extremamente  rápida,  caracterizada  por  inúmeras  projeções  que  foram  uma 
consequência direta dos fortes ventos que se fizeram sentir. Pelas 07.35h tivera início uma outra ocorrência 
que, mesmo tendo tido pouca expressão em termos de área ardida, teve um papel de relevo neste complexo 
de incêndios.  

A zona onde a ignição no Prilhão terá ocorrido, sob uma linha elétrica como será detalhado adiante, 
apresentava  uma  gestão  de  combustíveis  aceitável,  no  entanto,  numa  área  relativamente  próxima  deste 
local, tanto sob a linha, como na área adjacente, o terreno apresentava uma carga de combustíveis elevada, 
que  foi  importante  na  propagação  inicial  do  fogo.  Entre  os  fatores  com  maior  influência  para  que  esta 
ocorrência viesse a ter as dimensões que se registaram, inclui‐se igualmente  a redução  do dispositivo de 

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combate, o que atrasou a constituição de equipas e a alocação de meios presentes na primeira intervenção. 
No entanto, como iremos ver de seguida, devido aos inúmeros focos secundários que se iam dispersando 
pela  área  do  sinistro,  é  difícil  assegurar  que  a  presença  de  mais  meios  de  combate  no  ataque  tivessem 
garantido um desfecho diferente nesta ocorrência.      

A par com a ocorrência do Sabugueiro/Seia anteriormente descrita, esta foi uma das primeiras grandes 
ocorrências deste fatídico dia, o que permitiu a mobilização de muitos meios para o seu combate. O elevado 
risco  desta  ocorrência  foi  desde  logo  reconhecido  pelas  autoridades,  quer  pela  zona  onde  decorria,  com 
muita vegetação e orografia complexa, a que se somavam as condições meteorológicas adversas, quer pela 
existência de diversos aglomerados populacionais e muitas casas dispersas potencialmente ameaçadas pelo 
fogo. Salienta‐se que esta foi a ocorrência do dia 15 de outubro com mais meios dedicados, quer no ataque 
inicial, quer no ataque ampliado. Foi também, de acordo com os nossos registos, a que maior área percorrida 
teve.  Mais  tarde,  com  o  aparecimento  de  outras  ocorrências,  vários  meios  foram  compreensivelmente 
desmobilizados deste teatro de operações, quando este incêndio ainda estava por resolver. 

Alerta e causa de incêndio 

O  alerta  foi  dado  por  um  popular,  pouco  antes  das  08.41h,  diretamente  para  o  CB  da  Lousã  que  o 
transmitiu ao CDOS, que por sua vez ativou uma equipa helitransportada do GIPS da Lousã que estava a atuar 
numa ocorrência já em fase de rescaldo na localidade de Medas, no Concelho de Vila Nova de Poiares a cerca 
de 10km da nova ocorrência. 

Logo após a ocorrência do incêndio, tivemos referência de que o mesmo se havia iniciado junto de uma 
linha elétrica de 15kV gerida pela EDP, próximo da localidade de Prilhão, Vilarinho, Lousã. A localização do 
ponto de origem e da linha elétrica de média tensão, bem como dos apoios que são mencionados no texto, 
estão representados na Figura 58. 

(a)  (b) 

   
Figura 58 – Imagem captada através do Google Earth do local provável da ignição (a) e vista a partir do local do apoio 23/24, com o 
apoio 25/26 ao fundo. 

Realizámos  um  conjunto  de  diligências  com  vista  a  apurar  os  factos  e  a  determinar  a  veracidade  da 
suposição de que o incêndio teria sido causado por um defeito numa linha de média tensão, originado por 
uma queda de um pinheiro sobre a linha. Ao longo destas diligências, ouvimos os depoimentos de algumas 
pessoas cuja identidade conhecemos, algumas das quais pediram para se manter anónimas, a fim de evitar 
serem  prejudicadas  de  alguma  forma  na  sua  atividade.  Resumimos  as  principais  diligências  efetuadas  na 
Tabela 15. 
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Tabela 15 – resumo das diligências efetuadas para análise da origem do incêndio do Prilhão. 

Ref.  Data  Local  Observações 


1  27/03/2018  Prilhão  Reunião com testemunhas da origem do incêndio 
2  28/03/2018  Coimbra  Reunião com técnicos da EDP nas instalações da ADAI 
3  19/06/2018  Prilhão  Levantamento do terreno com drone 
4  29/06/2018  Prilhão  Reunião com testemunhas da origem do incêndio 
5  31/08/2018  Prilhão  Visita ao local e obtenção de dados/Sap. Florestais Vilarinho 
6  10/09/2018  Prilhão  Reunião CB Serpins 
7  11/09/2018  Prilhão  Reunião com testemunhas da origem do incêndio 
8  18/09/2018  Coimbra  Reunião com técnicos da EDP nas instalações da EDP 
9  09/10/2018  Prilhão  Reunião com técnicos da EDP e elementos da empresa Helenos 
10  10/09/2018  Lousã  Reunião CB Lousã 
11  25/10/2018  Lousã  Reunião com técnicos da EDP nas instalações da ADAI 
12  13/12/2018  Lousã  Reunião com equipa helitransportada do GIPS que participou no ATI 
 

De acordo com o relatório da ocorrência das 08.29h, do dia 15 de outubro relativo à linha de média 
tensão  de  Góis  da  Subestação  da  Lousã,  o  qual  no  foi  facultado  pela  EDP,  o  incidente  que  motivou  a 
deslocação de um piquete da empresa Helenos, ao serviço da EDP, foi causado pela queda de um pinheiro 
sobre a linha, entre os apoios 23/24 e 25/26, próximo da localidade de Prilhão. Segundo os testemunhos que 
ouvimos, a árvore em causa ter‐se‐á quebrado, devido à ação do vento e a sua parte superior caiu, ficando 
encostada primeiro ao condutor inferior e depois ao superior, permanecendo apoiada nos dois. 

É nossa convicção que o embate produzido pela árvore nos cabos terá causado uma oscilação de ambos, 
fazendo com que no troço entre o apoio 23/24 e o ponto de contacto com a árvore, a distância entre os 
condutores se tenha reduzido momentaneamente ao ponto de se entrar em curto‐circuito entre duas fases, 
que ficou registada no sistema SCADA (Supervisory Control and Data Acquisition) na hora indicada. O sistema 
de  proteção  da  rede  reagiu  com  duas  tentativas  de  rearme  automático,  para  repor  a  linha  em  serviço, 
procedimento normal para as linhas aéreas, mas sem sucesso. Após a última tentativa foi considerado defeito 
permanente  e  mantida  a  linha  fora  de  serviço  necessitando  de  intervenção  do  piquete  de  reparação  de 
avarias. 

Os habitantes de casas próximas reportaram a ocorrência de perturbações na rede elétrica, por volta 
desta hora. Algumas pessoas testemunharam ter avistado clarões devidos a descargas elétricas na zona e 
outros reportaram o avistamento de fumo proveniente da zona que identificámos como tendo sido o local 
de origem do incêndio, entre as 08.20h e as 08.50h. 

Na Figura 59 mostram‐se fotografias obtidas por nós, por meio de um drone ou tiradas ao nível do chão, 
que permitem identificar uma zona que foi percorrida por um fogo de baixa intensidade, compatível com um 
foco nascente, envolvido por vegetação não ardida. Os testemunhos de pessoas que intervieram no ataque 
inicial, quer por meios terrestres quer aéreos, confirmaram ser esta a localização da origem. 

 
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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
(a)  (b) 

   
(c)  (d) 

   
Figura 59 – Fotografias do local da ignição. a) e b) vistas aéreas obtidas através de um drone (fotografias de 19jun2018); c) e d) 
vista ao nível do chão fotografias de 09out2018. 

Como se pode ver, trata‐se de um ponto situado por baixo da linha de media tensão, a cerca de 20 
metros do apoio 23/24 e a cerca de 210m do local em que caiu o pinheiro. A localização do ponto de origem 
é compatível com a nossa interpretação de que, devido à oscilação dos cabos causada pela queda da árvore 
e pelo vento, estes se terão aproximado ou mesmo tocado perto do ponto de origem do incêndio. O arco 
elétrico  produzido  pelo  curto‐circuito  entre  fases  terá  causado  a  fusão  de  partes  de  um  ou  dos  dois 
condutores.  Estes  pedaços  de  material  a  alta  temperatura,  ao  caírem  no  chão,  poderão  ter  produzido  a 
ignição do combustível existente no solo e iniciado o incêndio, dada a extrema secura da vegetação. 

O piquete de técnicos da EDP dirigiu‐se ao local para prestarem apoio aos técnicos da empresa Helenos 
que iriam retirar a árvore caída sobre a linha. Terão chegado ao Prilhão pouco antes das 10.00h e começaram 
por acionar os seccionadores, para colocar fora da rede o troço da linha onde iriam intervir. Tiraram algumas 
fotos do local em que trabalharam, que foram inseridas no seu relatório, para comprovar que a zona onde a 
árvore caíra não poderia ter sido o local de origem do incêndio, pois só viria a ser atingida pelo fogo cerca 
das 11.30h.  

Concordamos em que o ponto de queda da árvore não coincide com o de origem, pois distam cerca de 
210  metros.  Não  podemos  concordar  com  a  eventual  inferência  que  se  pudesse  querer  retirar  de  que  a 
origem do incêndio nada teria a ver com a linha elétrica. 

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A configuração da fixação das linhas nos apoios 23/24 e 25/26 não são iguais, tendo as configurações 
representadas esquematicamente na Figura 60. 

(a)  (b)  (c)  (d) 

   
   
Figura 60 – Configuração da fixação das linhas nos apoios, com as respetivas distâncias entre condutores. a) fotografia do poste 
23/24; b) fotografia do poste 25/26; c) esquema do poste 23/24; d) esquema do poste 25/26. 

Admitindo para efeitos de simplificação que os dois condutores em causa têm o comprimento de 300m, 
se situam e permanecem no mesmo plano e que estão fixos nas suas extremidades em dois pontos situados 
à distância referida, estudámos os diferentes modos de oscilação dos dois cabos a fim de estimar a distância 
entre eles ao longo do seu comprimento. Verificámos que em determinados modos de vibração, mesmo com 
amplitudes de oscilação inferiores a um metro, se obtêm distâncias entre os cabos muito próximas de zero, 
na zona em que foi observada a origem do incêndio. Não dispondo de dados rigorosos sobre o modo de 
vibração de uma linha desta natureza, que nos permitam ser conclusivos a este respeito, não podemos senão 
afirmar que existe a possibilidade de contacto ou aproximação entre as linhas, face ao impacte da árvore 
sobre as mesmas.    

Em face dos dados que obtivemos e das observações que realizámos afirmamos a nossa convicção de 
que o incêndio florestal da Lousã, originado perto da localidade de Prilhão, terá sido causado por um defeito 
entre fases na linha de média tensão que tem vindo a ser identificada. Esta descarga terá ocorrido por cima 
do local por nós identificado como sendo o de origem do incêndio e está registada no sistema da EDP. A sua 
causa próxima terá sido a queda de um pinheiro localizado na proximidade da linha que, ao cair sobre dois 
dos três condutores, terá produzido a sua oscilação e despoletado a descarga entre fases referida. 

Embora neste caso se pudesse estar a respeitar a obrigação de manter uma distância adequada entre a 
vegetação e os condutores, para evitar que houvesse um contacto direto entre a vegetação e a linha, a queda 
de uma árvore da envolvente que pudesse afetar a linha, não terá sido devidamente acautelada por parte da 
entidade gestora da linha elétrica, o que deve ser corrigido no futuro. 

Propagação inicial do fogo e ataque inicial 

Na Figura 61 apresenta‐se a área tomada pelas chamas quando os primeiros meios de combate (equipa 
helitransportada  do  GIPS  da  Lousã  –  H09)  chegaram  ao  local  e,  depois  de  uma  primeira  avaliação,  se 
posicionarem  no  local  referenciado  na  figura,  tentando  combater  os  vários  focos  secundários  que 
ameaçavam  a  povoação  de  Prilhão.  Pouco  depois  juntou‐se  a  esta  missão  uma  equipa  dos  Sapadores 
Florestais de Vilarinho.  

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Figura 61 – Área tomada pelas chamas quando os primeiros meios de combate chegaram ao local. Na imagem poderá ver‐se a 
localização da equipa de GIPS e dos sapadores florestais (SF). 

Numa fase inicial, antes da chegada dos primeiros meios de combate, o fogo propagou‐se para sudoeste, 
subindo um pequeno talude que protegia a zona em chamas do vento predominante de SSE. Chegado ao 
cimo do talude, ficando exposto ao vento forte de SSE, o fogo passou a propagar‐se para norte com grande 
velocidade, originando vários focos secundários.  

Já  com  o  meio  aéreo  dos  GIPS  e  a  respetiva  equipa  a  atuar,  para  além  dos  Sapadores  Florestais  de 
Vilarinho, outros meios terrestres de combate foram chegando ao local, nomeadamente: um VFCI dos CB da 
Lousã que na deslocação para o TO, ao ver a dimensão e intensidade da coluna de fumo, solicitou um reforço 
de meios, um VCOT da mesma corporação e um VFCI do CB de Serpins. Com o fogo a dirigir‐se para o cordão 
urbano de Prilhão e Casais, as equipas do GIPS e de sapadores, continuaram a proteger a primeira povoação, 
enquanto  os  restantes  meios,  defenderam  a  aldeia  de  Casais.  O  comandante  do  CB  da  Lousã  assumiu  o 
comando  das  operações,  enquanto  o  comandante  dos  BV  de  Serpins  assumiu  a  função  de  COPAR 
(Coordenador de OPerações AéReas).  

Após 12 largadas de água, às 09.31h, o helibombardeiro H09 do CMA da Lousã que transportou a equipa 
do GIPS, em função da pouca autonomia que tinha devido a sua atuação prévia na ocorrência das Medas 
mencionada  anteriormente,  teve  de  abandonar  o  teatro  de  operações,  deixando‐o  sem  meios  aéreos  de 
combate até às 10.11h, quando regressou. Destaca‐se a grande dificuldade que este meio aéreo teve na sua 
atuação  devido  ao  forte  vento  e  grande  turbulência  no  local,  tendo‐nos  sido  referido  que  perdeu  a  sua 
sustentação em pelo menos duas ocasiões. 

Entretanto, chegou ao TO uma parelha de Canadairs que realizou algumas descargas de água, embora 
com  grande  dificuldade  devido  às  condições  atmosféricas  locais  –  “parecemos  penas  transportadas  pelo 
vento”, disseram os pilotos destas aeronaves ao COPAR. Atuou ainda um helicóptero pesado Kamov que fez 
apenas uma largada de água, tendo de abandonar o teatro de operações devido à falta de segurança e de 
eficácia da operação devido à adversidade das condições meteorológicas.  

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Entretanto o incêndio progrediu com grande velocidade em direção a Casais, onde chegou pelas 10.15h 
(Figura 62), quando se deu uma projeção que causou um foco secundário a cerca de 200m, junto à povoação 
de Boque. Logo de seguida, deu‐se outra projeção para a Póvoa de Serpins, do lado contrário do Rio Ceira. 
Para agravar a situação, a ocorrência de São Miguel de Poiares anteriormente mencionada, reativou‐se – 
recorda‐se que a equipa de GIPS abandonou o rescaldo desta ocorrência para efetuar a primeira intervenção 
na ocorrência do Prilhão. Se a situação anterior já era de controlo muito difícil, o que motivou a chegada de 
vários meios de combate, inclusivamente meios pesados, após esta catadupa de eventos, a situação ficou 
ainda mais descontrolada. 

 
Figura 62 – Evolução do fogo na sua fase inicial – área ardida até às: 08.55h (mancha a verde), 09.15h (castanho), 09.45h (azul), 
10.15h (amarelo). 

Desenvolvimento do incêndio 

Na Figura 63 apresenta‐se a propagação estimada do complexo de incêndios, considerando como ponto 
basilar o local de ignição da ocorrência de Vilarinho. Poderá verificar‐se que, até cerca das 21.00h, a cabeça 
do  incêndio  prosseguiu  com  grande  velocidade  para  norte,  impulsionado  pelo  vento  do  quadrante  Sul, 
notando‐se  uma  propagação  ténue,  em  termos  de  área  ardida,  dos  flancos  do  incêndio  que  evoluíam 
relativamente devagar. Os diversos focos secundários a curta e média distância que surgiam a jusante do 
vento, e que mais tarde eram apanhados pela frente de chama original, tiveram uma grande relevância na 
grande velocidade de propagação verificada. 

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Figura 63 – Progressão geral do complexo de incêndios da Lousã. 

Após  as  21.00h  quando  soprava  de  Sul,  o  vento  sofreu  uma  rotação  gradual  para  passar  a  soprar 
marcadamente de SW por volta das 24.00h. Desta forma, todo o flanco direito, que anteriormente progredia 
de  forma  lenta,  passou  a  ter  uma  propagação  impulsionada  pelo  vento,  o  que  motivou  uma  propagação 
muito rápida e intensa para nordeste. Refira‐se que ao longo do dia, quando a propagação era sobretudo 
feita para norte empurrada pela cabeça do incêndio, o combustível próximo do flanco direito, foi aquecendo 
e desidratando, o que facilitou a propagação do fogo quando o vento empurrou as chamas para NE. Este 
efeito, em que o flanco de um incêndio regido pelo vento passa a assumir‐se como a cabeça do incêndio, já 
foi registado em vários incêndios, tanto em Portugal como noutros países, destacando‐se internacionalmente 
o incêndio de Kilmore, na Austrália, a 9 de fevereiro de 2009, o qual originou 180 vítimas mortais. Também 
neste  complexo  de  incêndios,  muitas  pessoas  foram  surpreendidas  neste  período,  o  que  resultou  em  11 
vítimas em episódios que serão descritos em detalhe no Capítulo 4.  

A rápida propagação do fogo para sudoeste fez‐se sentir até cerca das 02.00h do dia 16 de outubro. 
Embora  nesta  região,  o  vento  meteorológico  tenha  reduzido  drasticamente  a  sua  velocidade,  devido  ao 
escoamento  convectivo  provocado  pelo  fogo  e  pela  área  ardida  ainda  a  libertar  muito  calor,  na  área  do 
incêndio a acalmia do vento apenas se sentiu depois das 02.00h. As oscilações na taxa de propagação do fogo 
aparecem traduzidas na Figura 64. 

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Figura 64 – Apresentação dos resultados do cálculo da velocidade média de propagação da frente principal no incêndio dominante 
do CIF da Lousã, acompanhado do sentido da propagação (setas) e da taxa média de crescimento da área ardida no complexo de 
incêndios. 

A  partir  das  03.00h,  quando  previsão  meteorológica  apontava  para  uma  diminuição  dos  efeitos  do 
Furacão Ophelia, foi possível delinear uma estratégia mais estável que passava pela avaliação do perímetro 
do incêndio, pela contabilização dos impactes e pelo realocação dos meios de combate. A situação era de tal 
ordem desfavorável que, a partir desta hora, as ações continuaram a ser pontuais em algumas zonas de maior 
gravidade (e.g. proteção de povoações) e no combate em determinadas zonas em que o fogo teimava em 
manter‐se  intenso,  sobretudo  devido  à  elevada  carga  de  combustível  e  em  zonas  de  maior  topografia.  O 
perímetro do fogo era de tal forma extenso, que os meios exaustos e em número limitado devido às várias 
ocorrências, não eram suficientes para dominar o incêndio. Felizmente, o aumento da humidade relativa do 
ar, que culminou no aparecimento de precipitação, fizeram com que o incêndio fosse dado como dominado 
pelas 02.00h do dia 17 de outubro. 

Análise da resposta operacional  

Tal como nas ocorrências anteriores, os focos secundários tiveram uma influência gritante no fracasso 
da estratégia de contenção do fogo numa fase inicial. Depois desta fase, e até cerca das 03.00h do dia 16 de 
outubro, nunca chegou a haver uma estratégia estável de ataque ampliado, visto que a rápida propagação 
do  fogo  e  o  aparecimento  de  inúmeros  focos  secundários  a  média  e  longa  distância,  anulavam  qualquer 
planeamento  que  se  fosse  sendo  concebido.  Nesta  perspetiva,  neste  longo  período,  as  atividades 
operacionais foram sobretudo reativas ao comportamento do fogo, baseando‐se sobretudo na proteção de 
povoações. A falha do sistema de comunicações que se verificou a meio da tarde do dia 15 de Outubro, veio 
complicar de sobremaneira a coordenação das operações que, enquanto numa primeira fase era feita tendo 
a ocorrência como referência, numa fase mais adiantada passou a ser feita ao nível do distrito, ou ao nível 
municipal. 

Tal como se poderá verificar nos gráficos da Figura 65, o número de meios afetos a este complexo de 
incêndios foi muito elevado, chegando a estar presentes no teatro de operações mais de 800 operacionais 
em simultâneo. A evolução destes meios, que se baseou nos respetivos relatórios de ocorrência, é bastante 
duvidosa. A curva da evolução de meios humanos apresentada na Figura 65a indica uma chegada crescente 
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de  operacionais  a  este  teatro  de  operações,  no  entanto,  as  informações  que  obtivemos  nas  várias 
corporações  que  consultámos,  indicam  que  muitos  dos  seus  meios  que  inicialmente  foram  alocados  nas 
ocorrência do Prilhão, a determinada altura, regressaram à sua área de intervenção em virtude dos grandes 
incêndios que também aí se desenrolaram. Não sendo claramente visível esta saída de meios nos registos 
que nos foram facultados, acreditamos que a dificuldade nas comunicações possa justificar algumas omissões 
de saída de meios. Para efeitos de análise, admitimos que estas informações são válidas. 

(a)  (b) 

   
Figura 65 – Evolução dos meios no(s) teatro(s) de operações: a) meios humanos; b) meios terrestres (MT) e meios aéreos (MA) no 
complexo de incêndios da Lousã. Fonte: ANPC: RO 2017060046260 (Prilhão), RO 2017060046375 (Fundo da Vila) e RO 
2017180056312 (Arnosa). 

Mesmo perante esta informação contestável, é indiscutível que a ocorrência do Prilhão foi aquela que 
mais  meios  teve  afetos,  de  entre  as  várias  ocorrências  do  dia  15  de  outubro.  No  entanto,  esta  grande 
afluência de meios, tanto numa fase de ataque inicial, como em ataque ampliado, não foi suficiente para que 
o fogo tomasse as proporções registadas, uma vez que as condições associadas ao combustível, meteorologia 
e topografia proporcionaram uma intensidade do fogo que ia para lá das capacidades atuais de combate 
direto e indireto. Realça‐se, no entanto, que as operações de combate foram essenciais para que os impactes 
resultantes deste incêndio não fossem ainda mais trágicos. 

3.3. Complexo de incêndios de Oliveira do Hospital 

O complexo de incêndios de Oliveira do Hospital foi o evento com maiores impactes tendo causado 23 
vítimas  mortais.  Para  além  disso,  destruiu  várias  habitações  e  instalações  industriais,  para  além  de  ter 
resultado numa vasta área florestal ardida. 

Este complexo de incêndios consiste num conjunto de incêndios que, evoluindo numa fase inicial com 
relativa independência, acabaram posteriormente por interagir causando episódios de grande intensidade 
do  fogo.  De  entre  várias  ignições  registadas,  pela  sua  importância  no  contexto  geral  do  complexo  de 
incêndios, destacam‐se quatro ocorrências, nomeadamente: 1) ocorrência de Sandomil com início registado 
às 10.26h, 2) ocorrência de Esculca a partir das 12.28h, 3) ignições de Relva Velha e Monte Frio às 15.15h e 
4) ocorrência de Vide com início pelas 23.00h. A descrição que se segue incide maioritariamente na evolução 
destas quatro ocorrências e na interação entre si. 

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Alerta e causa dos incêndios 

Incêndio de Sandomil 

A primeira ocorrência deste complexo de incêndios teve início em Sandomil pelas 10.26h tendo o alerta 
sido dado por um popular através de uma chamada para o 112. Tudo indica que esta ocorrência tenha tido 
causa humana. O seu início provável, a meio de um talude, cerca de 15m acima de uma estrada e cerca de 
110m abaixo de um aglomerado de casas mantém a dúvida sobre a origem dolosa desta ignição. Sendo esta 
uma área de olival com bastantes herbáceas secas e alguns arbustos, os autores deste relatório suspeitam 
que uma atividade de gestão de combustíveis possa ter sido a causa desta ignição, no entanto, no local não 
foi avistada qualquer indício que confirme esta suspeita.  

Incêndio de Esculca 

Para fazer um enquadramento da ocorrência de Esculca é necessário enquadrá‐la no contexto de um 
incêndio florestal que teve início no dia 6 de outubro, pelas 23.21h, na localidade de Fajão, no Concelho da 
Pampilhosa da Serra, o qual se estendeu ao Concelho de Arganil, consumindo mais 8000 hectares, uma boa 
parte na Mata da Margaraça (Arganil). Ao longo da semana, até ao dia 15 de outubro, esta ocorrência teve 
várias reativações que foram sendo prontamente debeladas. Perante este historial de reativações, e porque 
a  ocorrência  ainda  não  tinha  encerrado,  na  área  do  sinistro  existiam  vários  meios  de  combate  a  fazer 
vigilância,  estando  preparados  para  uma  primeira  intervenção.  No  dia  15  de  outubro,  pelas  12.28h,  uma 
Equipa de Sapadores Florestais de Arganil, que estava em vigilância nas imediações, detetou uma coluna de 
fumo a cerca de 4km de distância, no local de início desta ocorrência.  

Embora o local de início desta ocorrência diste cerca de 500m da área previamente queimada e aquela 
faixa  periférica  da  área  ardida  tivesse  sido  consolidada  com  máquinas  de  rasto,  os  autores  deste  estudo 
consideram possível que a ignição tenha resultado da projeção de uma ou mais fagulhas incandescentes da 
ocorrência de Fajão. Analisando a área a sul do local da ignição de 15 de outubro (Figura 66), poderá ver‐se 
que se trata de um vale com múltiplos desfiladeiros, o que, perante o vento com rajadas fortes de sul, poderá 
ter causado a elevação de uma massa de ar com fagulha(s) na encosta, as quais acabaram por aterrar logo 
depois da linha de cumeada.  

(a)  (b) 

   
Figura 66 – Imagens do local da área onde se registou a ignição de Esculca. 

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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
Ignições de Monte Frio e Relva Velha 

Estas ignições foram detetadas pelo Comandante do CB da Arganil que quando se deslocou a um ponto 
alto para tentar analisar a situação do incêndio de Esculca, antes das 14.00h, se apercebeu de duas colunas 
de fumo a cerca de 4km  de distância.  A hora destas ignições  não é certa, mas terão acontecido entre as 
13.30h e as 14.00h, uma vez que o ponto de situação feito pelo 2º Comandante do CB de Coja, pelas 13.28h, 
foi  realizado  desde  uma  localização  onde  facilmente  teria  avistado  estas  ignições,  o  que  não  aconteceu. 
Refere‐se que, segundo o Comandante do CB da Arganil, a deteção das duas colunas de fumo foi de imediato 
transmitida para o Comando Distrital de Operações de Socorro, no entanto, talvez pela azáfama da existência 
de várias ocorrências em simultâneo, esta informação não aparece registada no relatório de ocorrência. 

(a)  (b) 

Figura 67 – Imagens que enquadram as ignições de Esculca, de Monte Frio e de Relva Velha. A fotografia da imagem (a) foi feita a 
partir do local onde o Comandante do CB de Arganil detetou as duas plumas de fumo e que aparece referido na imagem (b) como 
“Fotos”. 

Estas duas ignições a sensivelmente 400m e 1900m do perímetro do incêndio de 07 de outubro, poderão 
resultar de projeções de fagulhas daquela área queimada. Há também a possibilidade de que esta ignição 
tivesse sido um foco secundário da ocorrência de Esculca que vinha a ser sujeita a ventos com rajadas que se 
sentiam provenientes de várias direções. Neste caso, seriam projeções com cerca de 3km de distância.  

Em função da distância destas ignições aos supostos pontos de origem e da falta de alinhamento entre 
elas, dando voz a algumas testemunhas ouvidas, deixa‐se também em aberto a possibilidade de uma causa 
independente com origem criminosa. Tal como iremos ver adiante, neste  período surgiram mais ignições 
perto da aldeia de Bocado, no lado oeste da ocorrência de Esculca, o que pode dá força a esta teoria. No 
entanto, esta dispersão de novas ignições a longas distâncias pode ser igualmente justificada pelos ventos 
erráticos fortes que se faziam sentir.  

Incêndio de Casas Figueiras 

Os instantes iniciais da ocorrência de Casas Figueiras, pelas 23.00h, foi observada por alguns elementos 
do CB de Loriga que se encontravam nas imediações em ações de reconhecimento avançado do complexo 
de incêndios anteriormente referidos que já propagava à cerca de 12.00h e apresentava um vasto perímetro. 
Estes  elementos  o  início  de  um  foco  de  incêndio  que  rapidamente  se  desenvolveu  junto  à  entrada  da 
localidade de Casas Figueiras, por baixo de uma linha elétrica (Figura 68).  

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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 

 
Figura 68 – Local onde se deu a ignição do incêndio de Casas Figueiras. 

A  origem  desta  ignição  é  desconhecida,  mas  os  autores  deste  relatório  acreditam  que  poderá  ter 
resultado de uma projeção com cerca de 20km da ocorrência de Maria Gomes, do complexo de incêndios da 
Sertã, que, como iremos ver adiante, por esta hora teve um incremento drástico na sua intensidade dirigindo 
o fogo precisamente no sentido desta  nova ignição  (Figura 69).  Uma projeção com esta  distância  poderá 
causar surpresa, mas é perfeitamente possível face às condições de vento forte, combustíveis muito secos e 
grande  intensidade  do  fogo  a  propagar‐se  em  locais  de  topografia  acidentada  o  que  produz  uma  pluma 
térmica com grande elevação. Este novo foco de incêndio, poderá igualmente resultar de uma projeção a 
menor  distância  da  área  anteriormente  queimada  pelo  incêndio  resultante  das  ignições  de  Monte  Frio  e 
Relva Velha.  Refere‐se ainda que algumas pessoas ouvidos acreditam que esta ocorrência possa ter tido uma 
origem criminosa, havendo também algumas pessoas que apontam a linha elétrica que passa sobre o local 
de ignição como a causa principal. Não foi obtido qualquer indício que suporte estas últimas suspeitas. 

 
Figura 69 – Enquadramento da ignição de Casas Figueiras face à propagação do complexo de incêndios da Sertã pelas 23.00h. 

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Propagação inicial do fogo e ataque inicial 

Incêndio de Sandomil 

O alerta da ocorrência de Sandomil motivou a deslocação de vários meios de combate para o local do 
início  deste  incêndio.  Embora  o  incêndio  decorresse  no  concelho  de  Seia,  para  além  dos  meios  afetos  à 
triangulação  operacional,  muitos  outros  meios  de  combate  acederam  na  primeira  intervenção  a  esta 
ocorrência, nomeadamente os meios de Oliveira do Hospital visto que o incêndio se desenvolvia a menos de 
3km deste concelho.  

Chegados  ao  local  do  sinistro  por  volta  das  10.40h,  14  minutos  depois  do  alerta,  os  Bombeiros 
depararam‐se com um incêndio bastante desenvolvido, pelo que de imediato pediram o reforço de meios. O 
fogo subia rapidamente uma encosta de olival com aproximadamente 25% de inclinação, com uma grande 
carga  de  herbáceas  secas  e  alguns  arbustos.  O  vento  soprava  moderado  com  rajadas  fortes  de  leste.  A 
primeira preocupação foi a de proteger as habitações ameaçadas pelo fogo e a de usar a estrada N17, no 
cimo da pequena encosta, como oportunidade para a contenção da sua propagação (Figura 70). 

 
Figura 70 – Situação do incêndio de Sandomil quando os primeiros meios que chegaram ao teatro de operações fizeram a primeira 
intervenção por volta das 10.40h. 

Embora fosse reconhecido o potencial deste foco de incêndio, sobretudo devido ao vento que se sentia 
e aos combustíveis finos e mortos da área onde o fogo se propagava, esperava‐se que o fogo pudesse ser 
rapidamente  contido.  No  entanto,  uma  rajada  prolongada  de  vento  muito  forte  de  sudoeste  provocou 
inúmeros focos secundários e espalhou o fogo numa extensa área (Figura 71), o que fez perder o controlo da 
situação. A partir deste episódio, os meios no terreno dedicaram‐se sobretudo à proteção de habitações e o 
vento continuou a progredir de forma descontrolada.  

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Figura 71 – Evolução do fogo no incêndio de Sandomil até cerca das 11.00h. 

Incêndio de Esculca 

Após  darem  o  alerta,  os  Sapadores  Florestais  seguiram  de  imediato  para  a  área  de  onde  provinha  a 
coluna de fumo. O mesmo sucedeu com um veículo do CB de Arganil que terá chegado ao local menos de 10 
minutos  depois  do  alerta.  As  viaturas  foram  posicionadas  junto  à  estrada  de  terra  batida,  tal  como 
representado na Figura 72. A área em chamas apresentava dois cenários distintos de combustível: 1) na parte 
cimeira da encosta, o solo era ocupado por arbustos até meio metro de altura, que permitiam a penetração 
das  linhas  de  combate;  2)  mais  abaixo  havia  uma  faixa  de  pinheiros  de  meia  idade  com  um  subcoberto 
arbustivo denso que se unia às copas das árvores, não permitindo a entrada dos elementos de combate. 
Pouco depois da chegada e posicionamento dos meios, uma rajada de ventos de sul provocou vários focos 
secundários fazendo o fogo ultrapassar um caminho que poderia vir a ser vantajoso no combate ao fogo para 
ultrapassar a dificuldade de penetração no terreno. Logo nesta altura foi pedido um reforço de meios, o qual 
foi negado por não haver recursos disponíveis suficientes em função das várias ocorrências em decurso. 

 
Figura 72 – Situação da ocorrência de Esculca pelas 12.45h. 

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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
Os focos secundários a sul interagiram entre si e com a frente de chama original, afilando a área ardida. 
No entanto, o vento errático, tanto em velocidade como na sua direção, levou ao alargamento da área do 
incêndia e ao aparecimento de vários focos secundários não alinhados (Figura 73) dos quais se destacam as 
ignições de Relva Velha e Monte Frio, já antes descritas, e as ignições de Alqueve. Perante esta nova situação, 
o Comandante do CB de Arganil, que vinha desempenhando as funções de COS, deslocou as suas viaturas 
para  a  aldeia  de  Bocado  e  para  a  proteção  de  Alqueve,  uma  vez  que  esta  zona  faz  parte  da  sua  área  de 
intervenção.  Entretanto  tinham  chegado  os  meios  de  Coja  que  tomaram  conta  da  ocorrência  original, 
fazendo a proteção de Luadas e, mais tarde, de Esculca. Uma vez mais, foi pedido um reforço de meios, o 
qual foi negado uma vez mais. Entregues aos seus parcos meios de apenas quatro viaturas de combate – o 
CB de Coja tinha enviado viaturas para a ocorrência da Lousã ‐ que foram usados na proteção das povoções 
referidas, a situação estava claramente fora de controlo. 

 
Figura 73 – Situação da ocorrência de Esculca pelas 13.30h. 

 
Ignições de Monte Frio e Relva Velha 

Como foi referido anteriormente, estas ignições terão ocorrido entre as 13.30h e as 14.00h, embora 
permaneçam algumas dúvidas sobre esta hora porque várias pessoas afirmam apenas ter visto este incêndio 
por  volta  das  15.00h.  De  qualquer  forma,  uma  vez  que  os  meios  de  combate  existentes  já  eram 
manifestamente insuficientes para dar resposta à ocorrência de Esculca, as ignições de Monte Frio e Esculca 
estiveram a arder livremente, sem combate, até depois das 18.30h quando ali chegaram dois veículos de 
combate das CBs de Oliveirinha e de Tábua, acompanhados de um VCOT do CB de Coja. Chegados ao local, 
depararam‐se  com  uma  área  de  incêndio  enorme  (Figura  74a),  tendo  o  fogo  atingido  uma  habitação  em 
Monte Frio, ameaçando outras moradias (Figura 74b). Assim, a primeira intervenção, tardia, dos Bombeiros, 
restringiu‐se  à  proteção  de  algumas  construções,  até  que  a  água  nas  suas  viaturas  se  esgotasse.  Sem 
possibilidades de reabastecimento nesta aldeia, os Bombeiros saíram deste incêndio e as povoações ficaram 
uma vez mais à sua mercê, com o incêndio a progredir à sua livre vontade. 

 
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(a)  (b) 

Figura 74 – a) Fotografia da área conjunta das ignições da Relva Velha e Monte Frio quando os primeiros Bombeiros chegaram ao 
local do sinistro; b) A primeira intervenção dos Bombeiros em Monte Frio foi a proteção da casa ao fundo da rua quando a casa 
atrás já estava envolta em chamas. Fotografias feitas às 18.35h e 18.40h por João Correia – 2º Comandante do CB de Tábua. 

Face à grande extensão de área ardida e ao muito fumo no local, a área deste incêndio aquando da 
chegada  dos  Bombeiros  é  duvidosa,  embora  haja  testemunhos  que  afirmam  que  os  dois  incêndios  já  se 
tinham juntado na parte sul, tal como representado na Figura 75. Este desenvolvimento do fogo é bastante 
estranho  porque,  perante  o  vento  forte  de  sul  que  se  sentia,  tal  traçado  da  área  ardida,  levaria  a  uma 
evolução muito rápida do fogo para norte, unindo os flancos direito e esquerdo dos incêndios de Esculca e 
Monte Frio/Relva Velha, respetivamente, o que não se veio a verificar como será descrito adiante.  

  
Figura 75 – Suposta situação do incêndio pelas 18.30h considerando a junção das duas áreas de incêndio. 

Incêndio de Casas Figueiras 

A primeira intervenção do incêndio de Casas Figueiras, que começou na entrada da povoação de Casas 
Figueiras, resumiu‐se à retirada de pessoas das suas povoações e residências, levando‐as para o centro de 
Casas Figueiras. Estima‐se que em menos de duas horas tenham sido deslocadas perto de 200 pessoas de 
várias povoações dispersas numa vasta área. Analisando a forma como o fogo se propagou nas primeiras 
horas (Figura 76), considera‐se que esta intervenção poderá ter salvado a vida a muitas pessoas. Infelizmente, 
como iremos ver no Capítulo 4, houve duas pessoas que não se salvaram, após voltar atrás quando já haviam 
saído da zona do sinistro. 

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Figura 76 – Evolução estimada do incêndio de Casas Figueiras até cerca das 02.15h. 

Desenvolvimento do incêndio 

Na Figura 77 apresenta‐se a evolução estimada do fogo em todo o complexo de incêndios de Oliveira 
do Hospital. Da análise a esta imagem, destaca‐se a rápida evolução que o fogo teve quando, por volta das 
19.00h, os incêndios de Esculca e Relva Velha/Monte Frio se encontraram. Este episódio de convergência de 
frentes,  impulsionado  pelo  forte  vento  que  se  fez  sentir  neste  período,  levou  a  que  a  frente  de  chama 
conjunta progredisse mais de 10km num período inferior a uma hora. Já anteriormente se referiu que, numa 
primeira fase estes dois incêndios poderão ter‐se juntado a sul do incêndio, tal como representado, deixando 
uma área por arder na sua área intermédia (cf. Figura 75). Com o forte vento de sul, seria de esperar que esta 
situação de convergência de frentes motivasse uma rápida aceleração do fogo para norte, o que não se veio 
a verificar. Talvez o arranjo orográfico com um alinhamento de linhas de cumeada com direção SEE‐NWW, 
criando vorticidade local com a mesma direção, e a ocupação do solo, com uma zona urbana (Benfeita) e 
uma  encosta  previamente  gradada  tenham  alterado  a  propagação  do  fogo.  Destaca‐se,  no  entanto,  que 
subsiste alguma dúvida sobre a junção efetiva das duas ocorrências a sul por ter sido percecionada a alguma 
distância, num ambiente imerso em fumo, o que pode ter originado uma deficiente interpretação da área 
efetivamente em chamas. 

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Figura 77 – Evolução da área ardida no complexo de incêndios de Oliveira do Hospital. 

Depois deste período, o fogo continuou a progredir com grande velocidade motivado, uma vez mais, 
pelo vento forte e pela interação entre a frente resultante da convergência daquelas duas ocorrências e o 
flanco esquerdo do incêndio de Sandomil que sofreu um desvio para NW para se aproximar da outra frente, 
mesmo com o vento meteorológico dominante proveniente de SSW a empurrá‐lo no sentido contrário. Uma 
vez  mais,  a  interação  entre  as  frentes  provocou  uma  aceleração  forte  do  fogo,  o  qual  progrediu 
aproximadamente 15km entre as 20.00h e as 22.00h. Esta propagação rápida surpreendeu diversas pessoas, 
o  que,  como  irá  ser  descrito  no  Capítulo  4,  originou  várias  vítimas  mortais.    A  frente  conjugada  das  três 
ocorrências continuou a progredir de forma rápida e intensa até cerca das 02.00h, quando o vento acalmou 
na sua velocidade. 

O incêndio de Casas Figueiras seguiu igualmente o sentido do vento forte progredindo para norte, no 
início de forma muito rápida e intensa, deixando no seu percurso quatro vítimas mortais, para desacelerar 
após as 02.00h, quando o vento acalmou. Depois desta hora, dirigiu‐se para nordeste, quando a retaguarda 
do  perímetro  do  incêndio  de  Sandomil  progredia  lentamente  para  sudeste,  na  sua  direção.  Houve 
inicialmente a ideia de que também aqui tivesse havido o encontro destas duas frentes na faixa que separa 
os concelhos de Gouveia e de Oliveira do Hospital, entre Rio de Mel (Oliveira do Hospital) e Silvadal (Gouveia), 
no entanto, há evidências no terreno de que estas duas frentes nunca chegaram a tocar‐se verdadeiramente. 
Há inclusivamente um episódio em que alguns populares de Silvadal se deslocaram para norte para fugir à 
frente desgovernada do incêndio de Casas Figueiras, no entanto, estas pessoas retrocederam o sentido do 
seu  trajeto  quando  se  depararam  com  a  estrada  obstruída  pelo  avanço  da  retaguarda  do  incêndio  de 
Sandomil. Quando chegaram à faixa do limite dos concelhos, verificaram que o incêndio de Casas Figueiras 
já não constituía uma ameaça por se ter desviado para leste, permitindo assim o regresso a Silvadal. 

A  variação  da  velocidade  de  propagação  das  principais  frentes  deste  complexo  de  incêndios  é 
apresentada na Figura 78. Nesta figura, é possível verificar que o abaixamento da velocidade de propagação 
do  fogo  por  volta  das  00.00h  não  foi  acompanhado  por  uma  diminuição  da  taxa  de  crescimento  de  área 
ardida, uma vez que a rotação da velocidade do vento para nordeste reativou o extenso flanco direito deste 

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CIF fazendo com que se desenvolvesse uma nova frente de chamas com grande largura, embora ardendo a 
uma velocidade inferior aquelas registadas anteriormente. 

 
Figura 78 – Apresentação dos resultados do cálculo da velocidade média de propagação da frente principal nos quatro incêndios do 
CIF de Oliveira do Hospital, acompanhado do sentido da propagação (setas) e da taxa média de crescimento da área ardida no 
complexo de incêndios. 

A progressão do fogo diminuiu drasticamente depois das 02.00h com o vento já a soprar de SW. Durante 
o  resto  do  dia  16  de  outubro,  as  várias  frentes  que  desenhavam  um  perímetro  vasto  de  área  do  sinistro 
continuavam a arder com menor intensidade, sendo já possível fazer algum combate, direto e indireto, quase 
sempre na sequência de vários pedidos de ajuda que iam chegando. Ao longo do dia a humidade relativa do 
ar foi aumentando até que por volta das 00.00h começaram a cair as primeiras gotas de chuva, que foram 
ganhando cada vez maior expressão até que pelas 03.00h já chovia com alguma intensidade, passando o 
complexo de incêndios para a fase “em resolução”. Mesmo com tempo chuvoso, devido a várias reativações 
que se iam verificando pontualmente, esta ocorrência apenas passou a fase de conclusão pelas 11.24h de 18 
de outubro, sendo encerrada às 07.15h do dia 21 de outubro.  

Análise da resposta operacional 

O aspeto mais sonante da resposta operacional a este complexo de incêndios resulta da falta de resposta 
operacional nas primeiras 4 horas do incêndio resultante das ignições de Relva Velha e Monte Frio. Com estas 
duas  povoações  ameaçadas,  logo  desde  uma  fase  inicial,  é  lastimável  que  o  socorro  apenas  se  tenha 
resumido à proteção de algumas habitações em Monte Frio entre as 18.30h e as 19.30h. Havendo consciência 
do risco que estas aldeias corriam e de que os meios no terreno não eram suficientes para que pudesse ser 
feita uma primeira intervenção nestas novas ocorrências, foram pedidos reforços, os quais foram negados 
devido às inúmeras ocorrências com gravidade que surgiam em várias zonas do País. Acreditamos que o envio 
de  um  ou  dois  VFCIs  para  estas  ignições  não  teriam  feito  grande  diferença  na  propagação  do  fogo,  mas 
poderiam ter salvado algumas das casas que se perderam. Pensamos igualmente que numa fase inicial destas 
ocorrências, o uso de meios de primeira intervenção, apoiados por meio(s) aéreo(s), poderiam ter alterado 
o  desfecho  final  deste  complexo  de  incêndios,  uma  vez  que  o  fogo  que  resultou  destas  ignições  e  que 

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convergiu  com  a  frente  de  chama  da  ocorrência  de  Esculca  teve  um  papel  determinante  na  rápida 
propagação para norte que a frente conjunta tomou quando as duas frentes convergiram, assim como nos 
impactes que daí advieram. 

Com a situação em Sandomil descontrolada, alguns meios afetos a esta ocorrência foram deslocados 
para tentar reforçar o combate nestas ocorrências mais a Sul, no entanto, esta movimentação coincidiu com 
o forte avanço do fogo registado por volta das 19.00h, impossibilitando a deslocação dos meios para Sul, os 
quais passaram à proteção de povoações nos locais onde foram intercetados pelo fogo. 

Nos gráficos da Figura 79 é possível observar a evolução dos meios nos diferentes teatros de operação. 
Para além das ocorrências de Sandomil e Esculca, aparece nesta análise a ocorrência “Oliveira do Hospital” 
que  resultou  da  chegada  do  fogo  a  este  município.  A  abertura  de  uma  nova  ocorrência  terá  permitido 
justificar a inclusão de meios de primeira intervenção e terá facilitado a organização de meios e atividades 
quando  o  fogo  entrou  acelerado  neste  concelho.  O  incêndio  que  decorreu  das  ignições  de  Relva  Velha  e 
Monte Frio não aparece na Figura 79 porque não foi considerado uma nova ocorrência.  

(a)  (b) 

   
Figura 79 – Evolução dos meios no(s) teatro(s) de operações: a) meios humanos; b) meios terrestres (MT) e meios aéreos (MA) no 
complexo de incêndios de Oliveira do Hospital. Fonte: ANPC: RO 2017090031426 (Sandomil), RO 2017060046391 (Esculca) e RO 
2017060046391 (Oliveira do Hospital). 

Poderá verificar‐se que as oscilações no número de operacionais afetos a cada incêndio é o reflexo da 
variação inversa de meios nas outras ocorrências, o que se deve aos meios empregues serem principalmente 
locais sem que tenha havido um reforço claro de meios de outras regiões. Após as 19.00h, com todos os 
meios locais ativados, os meios no terreno mantiveram sensivelmente nos 200 operacionais e 30 viaturas de 
combate, sem que, nesta fase, tenha sido utilizado qualquer meio aéreo, os quais apenas atuaram numa 
reativação que se verificou no final do dia de 17 de outubro.  

Não  há  dúvida  de  que  o  uso  de  meios  aéreos  ao  longo  do  dia  15  de  outubro  teria  sido  importante, 
sobretudo nas fases iniciais de cada ocorrência e na diminuição da intensidade do fogo quando as frentes de 
Esculca e de Relva Velha/Monte Frio se encontraram. Esta última intervenção poderia ter acontecido antes 
da junção por humidificação dos combustíveis no local provável da junção. Uma intervenção direta poderia 
não ser possível, não apenas pelo adiantado da hora (~19.00h), mas também porque o forte vento que se 
formou e a grande intensidade do fogo poderiam ter impossibilitado a ação de meios aéreos. Por outro lado, 
o ror de focos secundários que se formaram poderia dado continuidade à propagação do fogo na zona da 
junção das duas frentes, mesmo com a ação dos meios aéreos, no entanto, mesmo que a progressão do fogo 
não parasse, seguramente que a sua intensidade e aceleração seria menor. Relembra‐se, contudo, que todos 
os meios aéreos disponíveis estavam a ser usados nas várias ocorrências em decurso. 

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Para além da limitação de meios operacionais de combate, a falha no sistema de comunicações que se 
verificou  a  partir  das  18.30,  aproximadamente,  veio  complicar  ainda  mais  as  operações.  Até  àquele 
momento, a coordenação do combate era confusa, sem que houvesse uma estratégia clara de combate, mas 
apenas  ações  de  proteção  de  povoações  pouco  concertadas.  Este  aspeto  fez‐se  sentir  sobretudo  na 
ocorrência de Esculca, considerando que nas ocorrências de Relva Velha/Monte Frio e de Casas Figueiras as 
operações de combate ao fogo e proteção foram praticamente nulas. Em Esculca, o teatro de operações foi 
dividido  em  função  das  áreas  de  intervenção  das  duas  corporações,  sem  que  houvesse  um  combate 
integrado, mesmo numa fase inicial. Uma evidência deste facto é a atribuição de COS ao 2º Comandante do 
CB de Coja (RO 2017060046391), quando no mesmo teatro de operações estava em ação o 1º Comandante 
do CB de Arganil, embora a atuar noutra zona, a menos de 1km de distância. Parece‐nos que a complexidade 
da situação, quer pela rápida propagação do fogo, quer pela limitação de meios disponíveis, suscitou uma 
estratégia  de  separação  por  zonas  de  intervenção,  quando  deveria  ter  desencadeado  uma  coordenação 
integrativa das várias ignições. Esta forma de coordenação desconexa foi seguida ao longo de praticamente 
toda  a  ocorrência,  sem  uma  estratégia  global,  mas  com  as  atividades  de  combate  a  serem  coordenadas 
localmente de forma reativa. Naturalmente que a dificuldade de comunicações agravou esta situação.  

3.4. Complexo de incêndios da Sertã 

O  complexo  de  incêndios  da  Sertã  teve  início  na  Ponte  das  Portelinhas,  na  Freguesia  de  Ermida  e 
Figueiredo, no Concelho da Sertã, pelas 12.02h. Tal como será detalhado adiante, de entre várias ignições 
resultantes  de  vários  focos  secundários,  houve  duas  outras  ignições  que  mereceram  destaque  pela 
importância que tiveram no desfecho final deste incêndio, sobretudo na dispersão dos meios de combate, 
as quais deram origem a dois relatórios de ocorrência adicionais: a ocorrência de Nespereira, cujo alerta foi 
registado às 18.41h, e a ocorrência de Maria Gomes, com registo de alerta às 21.35h. Sabe‐se, contudo, que 
a ocorrência de Maria Gomes se deu pelas 19.30h uma vez que o 2º Comandante do CB de Pampilhosa da 
Serra, que se encontrava em vigilância naquela zona, viu ao longe o aparecimento desta ignição, reportando‐
a de imediato. O atraso verificado no registo e na abertura do novo relatório de ocorrência não terá tido 
qualquer  implicação  na  resposta  operacional  que  não  deixou  de  ser  imediata,  dentro  dos  limites  que  a 
situação impunha. 

A adversidade das condições de risco de incêndio no dia 15 de outubro era previamente conhecida, pelo 
que todo o dispositivo estava em prontidão máxima como resultado de uma missiva que foi previamente 
distribuída a todos os agentes. No entanto, tal como aconteceu em outras ocorrências, quando foi dado o 
alerta,  uma  parte  do  dispositivo  operacional  tinha  sido  enviado  para  as  ocorrências  de  Seia  e  da  Lousã, 
anteriormente descritas. Por exemplo, devido ao alerta vermelho deste dia, no CB da Sertã, o número de 
ECINs (Equipas de Combate a INcêndios) foi duplicado para quatro equipas, no entanto, uma destas equipas 
havia sido mobilizada para a ocorrência de Seia, fazendo com que nas primeiras horas da ocorrência iniciada 
em Ponte das Portelinhas, para além dos elementos de comando, apenas estivessem três ECINs disponíveis 
para combate. 

Alerta e causa de incêndio 

A ocorrência da Ponte das Portelinhas foi detetada por uma Equipa de Sapadores Florestais (SF 09‐166 
da  Aproflora/Sertã)  que  deu  o  alerta  que  foi  registado  às  12.02h.  Naturalmente  que  o  incêndio  terá 

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começado  algum  tempo  antes,  uma  vez  que  quando  os  primeiros  meios  chegaram  ao  local,  cerca  de  10 
minutos depois do alerta, a área do incêndio já era superior a 2 hectares. A análise do comportamento inicial 
do fogo e dos fatores condicionantes permitem presumir que o fogo tenha tido início junto a uma construção 
em ruínas, localizada num local remoto, a cerca de 20m de um caminho florestal em terra batida (Figura 80).  

(a)  (b) 

   
Figura 80 – Local provável da ignição: a) vista aérea através de satélite (Google Earth); b) vista da construção em ruínas a partir do 
caminho florestal em terra batida. 

A causa do incêndio não é clara, no entanto, a inexistência de incêndios a SSE, de onde provinha o vento, 
que pudessem originar focos secundários nesta localização, a ausência de vestígios de operações de corte de 
mato,  fogueiras  ou  outros  sinais  que  pudessem  supor  origem  não  intencional,  e  o  afastamento  da 
possibilidade de causas naturais da ignição, fazem crer que este incêndio tenha tido origem dolosa. Para além 
disso, a localização discreta do ponto provável de ignição, pouco afastado do caminho florestal, e a distância 
desta via a uma via de circulação principal que permitia uma saída insuspeita, suportam a ideia de uma ação 
bem planeada, ficando em aberto a possibilidade de a ignição ter sido feita com chama direta ou de ter sido 
utilizado um qualquer artefacto retardador da ignição escondido por trás da construção em ruínas. Tendo, 
no âmbito deste estudo, esta área sido visitada alguns meses depois da ocorrência, não foram encontrados 
quaisquer  materiais  ou  indícios  que  confirmem  esta  hipótese.  Segundo  indicações  do  CB  da  Sertã,  as 
características desta ignição coincidem com um padrão que desde há alguns anos tem vindo a ser verificado 
em várias ignições de origem aparentemente dolosa na região. 

Propagação inicial do fogo e ataque inicial 

Na  Figura  81  apresenta‐se  a  área  tomada  pelas  chamas  quando  os  primeiros  meios  de  combate 
chegaram ao local e, depois de uma primeira avaliação, se posicionaram nos locais apresentados como VFCI1 
tentando flanquear pela esquerda a propagação do fogo que pendia para noroeste e cortar a cabeça junto à 
estrada de terra na linha de cumeada. Considera‐se que esta última posição era um tanto arriscada podendo 
aprisionar a equipa entre a cabeça do fogo e uma eventual frente que progredisse eruptivamente pelas linhas 
de água a leste, no entanto, foi dito que esta equipa estaria vigilante e preparada para uma eventual saída 
de emergência, para além de que a progressão esperada do fogo tendia para o outro flanco. 

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Figura 81 – Situação do incêndio quando os primeiros meios chegaram ao sinistro e se colocaram nos locais assinalados (a direção 
dos veículos não é a real). 

O forte vento de SSE que se sentia fazia antever o surgimento de focos secundários quando a frente de 
chamas atingisse a linha de cumeada, pelo que os meios que chegaram nos minutos seguintes foram alocados 
no ponto assinalado como VFCI2. Embora difícil, a situação ia progredindo favoravelmente e os vários focos 
secundários (FS1 e FS2 na Figura 82) que emergiam, primeiro antes e depois da ribeira, eram prontamente 
combatidos, quer pelos meios terrestres, quer pelo helibombardeiro médio H16, do CMA do Sardoal, que 
deu entrada no TO cerca de 20 minutos depois do alerta.  

 
Figura 82 – Situação do incêndio pelas 12.45h. Dentro da elipse amarela surgiu o foco secundário situado numa zona que alia o 
sentido do vento ao declive, o que causou uma grande velocidade inicial de propagação que levou à perda de controlo da situação.  

Pelas 12.45h, houve um novo foco secundário que surgiu no local assinalado na Figura 82, o qual aliou 
os  sentidos  do  vento  forte  e  do  declive  levando  a  uma  rápida  propagação  inicial.  Tendo  sido  avistado 
imediatamente  após  a  sua  formação,  e  porque  se  estimou  que  a  intervenção  com  meios  terrestres  iria 
demorar alguns minutos, foi prontamente feita uma descarga de água através do meio aéreo, a qual se veio 
a verificar ser insuficiente. O fogo desceu um pouco até encontrar a linha de água, a partir da qual acelerou 

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rapidamente o que fez com que quando os meios terrestres chegassem a este local, apenas uns 4 minutos 
depois do seu início, a situação já fosse considerada como perdida. 

Perante  estes  novos  acontecimentos,  a  estratégia  de  combate  foi  redefinida,  passando  então  a  uma 
tentativa  de  conter  o  fogo  junto  à  estrada  nacional  N238,  a  menos  de  1km  de  distância.  A  estratégia 
considerava  igualmente  a  possibilidade  de  tirar  vantagem  da  estrada  nacional  N238‐1,  um  pouco  mais  a 
jusante.  Houve  uma  tentativa  de  reposicionamento  de  meios  de  combate  nestas  faixas,  no  entanto, 
rapidamente  se  concluiu  que  esta  opção  oferecia  pouca  segurança  aos  combatentes,  para  além  de  ser 
infrutífera, devido à longa distância das inúmeras projeções de partículas incandescentes que se observava.  
A partir deste momento, por volta das 14.00h, com a situação fora de controlo, a prioridade de ação passou 
a ser a da proteção povoações ameaçadas e de algumas infraestruturas dispersas.  

 
Figura 83 – Desenvolvimento do fogo pelas 13.00h quando o fogo passou as estradas nacionais N238 e N238‐1 e gorou a estratégia 
de contingência que passava por travá‐lo nestas faixas. Os seis focos secundários representados pelas chamas depois das estradas 
são meramente representativos, uma vez que os relatos apontam para dezenas de novas ignições que se formaram. 

Não se pode concluir que a existência de mais meios de combate no local pudesse ter conduzido a um 
desfecho diferente. O descontrolo da situação verificou‐se quando pelas 12.45h surgiu um foco secundário 
que  não  pôde  ser  intervencionado  prontamente  através  dos  meios  terrestres.  Naturalmente  que  um 
combate imediato neste foco secundário, e considerando que não surgiriam outros focos secundários com 
as mesmas características, poderia ter limitado o incêndio à área ardida até então, mas a imprevisibilidade 
do local de aparecimento de focos secundários alterou a história desta ocorrência.  

Analisando a progressão do fogo impulsionado pelo vento, percebe‐se que o local onde pelas 12.45h 
surgiu o foco secundário era um local crucial por ser aquele que, após a curva da ribeira, alinhava o sentido 
do vento com a ascensão da encosta (cf. Figura 82 e Figura 83), fazendo perceber que qualquer ignição nesta 
zona teria uma propagação inicial muito rápida que carecia de intervenção imediata. Fazendo uma reflexão 
sobre a melhor alocação de meios na intervenção inicial deste incêndio, sendo esta tarefa facilitada por este 
episódio já ter ocorrido, percebe‐se que por motivos de precaução deveria ter sido alocado pelo menos um 
meio de combate com acesso imediato a este local. Como aprendizagem para situações futuras, resulta que 
numa situação de forte vento, com condições propícias para o aparecimento de focos secundários, se deve 
identificar  o  local  com  maior  probabilidade  para  a  sua  ocorrência  e  com  maior  dano  potencial  devido  a 
características  como  a  topografia  ou  o  tipo  de  combustíveis  que  possam  aumentar  drasticamente  a  sua 
propagação inicial levando à perda de controlo da ocorrência ou provocando acidentes. Naturalmente que 
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esta análise da situação deve considerar simultaneamente a localização da frente de chama no que respeita 
ao seu potencial para a produção de partículas incandescentes e a capacidade das projeções em função da 
intensidade de fogo esperada. 

Desenvolvimento do incêndio 

Após  a  passagem  do  fogo  pelas  estradas  EN238  e  EN238‐1  entre  as  13.00h  e  as  14.00h,  as  operações 
centraram‐se  principalmente  na  defesa  perimétrica  das  povoações  ameaçadas  e  na  proteção  de  algumas 
infraestruturas  dispersas.  Nesta  altura,  devido  ao  forte  crescimento  que  a  intensidade  do  fogo  teve  na 
encosta ascendente que levou o fogo até à estrada, e que se apresenta vários desfiladeiros com a linha de 
água  alinhada  com  o  sentido  do  vento,  a  projeção  de  partículas  incandescentes  foi  de  tal  ordem  que 
começaram a surgir outras ignições em localizações a distâncias superiores a 3km. A sequência de imagens 
apresentada na Figura 84 permite ver o desenvolvimento dos vários focos secundários formados e a rápida 
progressão que o fogo teve durante este período. 
 
(a)  (b) 

   
(c)  (d) 

   

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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
(e)  (f) 

   
Figura 84 – Sequência de imagens da propagação do fogo entre as 13.52h e as 15.36h. A imagem (a) refere‐se à área estimada do 
incêndio pelas 14.00h e indica o local de onde foram feitas as fotografias apresentadas nas imagens de (b) a (e). (Fotografias 
cedidas por Cátia Pirão) 

Para além da proteção das povoações, houve uma tentativa fracassada de impedir que o flanco direito 
do incêndio passasse a sul de Troviscal, uma vez que o historial de incêndios na região indicava que nesta 
situação o fogo iria acelerar, sobretudo devido ao desfiladeiro acentuado com orientação SW‐NW que rodeia 
por baixo esta povoação. Uma vez mais, o grande número de projeções fez fracassar esta operação tática, 
sendo  que  o  fogo  contornou  Troviscal  a  partir  das  16.30h  (Figura  85).  Na  verdade,  devido  à  dimensão 
astronómica que o incêndio apresentava, este facto acabou por ter pouco relevo no resultado final.   

 
Figura 85 – Avanço médio estimado da frente de chama principal até às 18.45h. 

Ocorrência da Nespereira 

Pouco antes das 18.45h, teve início uma nova ignição perto da povoação da Nespereira, na Freguesia de 
Pedrógão Pequeno (Figura 86). Esta ocorrência foi importante no contexto geral não apenas pelo aumento 
da velocidade de propagação do fogo que causou quando chocou com a área que vinha sendo consumida 
pela  ignição  da  Ponte  das  Portelinhas,  mas  também  porque,  devido  ao  seu  potencial  de  destruição,  fez 
deslocar uma parte de um grupo de reforço que vinha a combater no flanco direito da primeira ocorrência, 
onde acabou por fazer falta.  

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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 

 
Figura 86 – Enquadramento geral da situação pelas 18.45h.  

A origem deste incêndio é incerta. Se por um lado, também pelas 18.45h, se iniciou um foco secundário 
perto de Portela de Fojo (Figura 86), também no flanco esquerdo do incêndio original – o aparecimento de 
várias  ignições  em  simultâneo  é  um  padrão  do  mecanismo  de  focos  secundários  –,  por  outro  lado,  o 
afastamento  desta  ignição  do  eixo  principal  do  fogo  e  do  sentido  do  vento  torna  esta  hipótese  pouco 
provável. A esta última perspetiva, acrescem os argumentos de que a ignição se deu junto a uma estrada, o 
que é comum nos casos de “fogo posto”, e que a encosta onde o fogo começou é voltada para norte, quando 
o vento era proveniente de Sul.  

Quando  os  primeiros  meios  chegaram  ao  local  da  ignição  da  Nespereira,  a  situação  com  que  se 
depararam era a que se apresenta na Figura 87 com uma área de incêndio de cerca de 0,13ha que progredia 
num leito de arbustos com cerca de 40cm de altura média. O vento empurrava o vento para norte, no sentido 
descendente da encosta, tendo os bombeiros usado um caminho florestal em terra existente (na Figura 87 
referenciado como “estradão) para tentar parar a progressão do fogo. Entretanto, o vento projetou algumas 
fagulhas  para  baixo  da  encosta,  onde  a  carga  de  combustível  era  mais  alta,  originando  alguns  focos 
secundários, o que fez com que os bombeiros perdessem o controlo da situação. Ouvimos algumas críticas 
sobre  o  facto  de  os  bombeiros  terem  desistido  do  combate  quando  estes  novos  focos  de  incêndio  ainda 
estavam numa fase precoce, no entanto consideramos que o procedimento seguido foi o mais correto. Como 
poderemos ver na Figura 87, a zona onde caíram os focos secundários seguem‐se a uma depressão no terreno 
e  a  uma  descontinuidade  da  copa  das  árvores.    Esta  condição,  associada  ao  vento  forte  e  com  rajadas 
proveniente de Sul, é altamente favorável para a criação de uma esteira, ou seja, para a criação de vorticidade 
horizontal, alterando o sentido do vento junto ao solo, alinhando‐o com o declive da encosta. A conjugação 
do  declive  e  do  sentido  do  vento,  com  a  interação  do  foco  original  de  fogo  poderia  desencadear  uma 
progressão rápida do fogo, apanhando os bombeiros no caminho de terra. Esta cenário, designado de “colina 
dupla”  tem  vindo  a  ser  simulada  laboratorialmente  pela  Equipa  da  ADAI,  sendo  que  os  resultados 
demonstram  um  grande  potencial  de  perigosidade.  Desta  forma,  consideramos  que,  por  motivos  de 
segurança, o abandono daquela localização foi a decisão mais acertada, embora tenha causado a perda de 
controlo da situação. 

 
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(a)  (b) 

   
Figura 87 – Situação da ocorrência de Nespereira na fase inicial. Na imagem da esquerda (a) aparece a indicação do local de onde a 
fotografia da imagem (b) foi tirada – no sentido da esquerda para a direita. 

O fogo progrediu para norte ajudado pelo vento, tendo o maior esforço de combate sido realizado no 
flanco esquerdo para proteger as localidades de Nespereira e Pedrógão Pequeno. Sempre que possível, foi 
igualmente feita a defesa perimétrica a outras povoações que eram ameaçadas.  

Num  contexto  influenciado  pelo  vento,  pela  topografia  e  de  ocupação  de  solo  o  fogo  bifurcou‐se, 
envolvendo  a  aldeia  de  Vale  da  Galega,  passando  a  formar  duas  frentes  (Figura  88).  Uma  destas  frentes 
continuou  a  progredir  flanqueada  pelo  Rio  Zêzere,  no  sentido  de  Arrochela.  A  segunda  frente  seguiu  no 
sentido da Madeirã, atingindo o flanco ainda ativo do incêndio da Ponte das Portelinhas, junto à Aldeia de 
Bravo, pouco depois das 20.00h. Este episódio originou um comportamento extremo do fogo que conjugou 
a interação entre estes dois incêndios e o incêndio de Maria Gomes que tinha tido início pelas 19.30h. A 
interação entre as três colunas de fumo poderá ser vista na Figura 89.  

 
Figura 88 – Enquadramento geral da situação pelas 20.30h.  

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Figura 89 – Interação entre várias colunas de fumo às 18.18h a partir do PCO junto à localidade de Cruz de Casal Novo. A imagem 
final resultou de uma montagem feita a partir de um vídeo cedido por Luís Martins do CB da Sertã. 

Ocorrência de Maria Gomes 

Antevendo que o incêndio chegasse à sua área de intervenção prioritária, o 2º Comandante do CB de 
Pampilhosa da Serra, que estava naquela data no comando da sua corporação, pré‐posicionou vários veículos 
de combate junto ao concelho vizinho. Alguns meios mantinham vigilância na zona de Soutelinho da Ribeira 
e  Portela  do  Fojo,  tendo  impedido  que  a  projeção  das  18.45h,  anteriormente  referida,  tivesse 
prosseguimento. Os restantes meios percorriam a zona entre Maria Gomes e Trinhão, tal como consta da 
Figura 90. 

 
Figura 90 – Situação do incêndio pelas 19.30h quando se iniciou o foco secundário de Maria Gomes e posicionamento prévio de 
meios de combate. 

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Quando pelas 19.30h a frente de fogo subiu com grande intensidade a encosta íngreme que precede a 
Aldeia da Frazumeira, deu‐se a projeção de várias fagulhas que levaram ao início de um foco secundário na 
margem norte do Rio Zêzere, perto de Maria Gomes, já no Concelho da Pampilhosa da Serra. O início deste 
novo incêndio foi observado pelo 2º Comandante do CB da Pampilhosa da Serra (Figura 91), que de imediato 
deu o alerta. 

 
Figura 91 – Vista do 2º Comandante do CB de Pampilhosa da Serra quando observou da VCOT o início da ocorrência de Maria 
Gomes. 

Embora houvesse um VRCI e um veículo de Sapadores posicionados a menos de 1,5km de distância do 
local da ignição, a velocidade de propagação inicial deste foco secundário foi de tal ordem, que os meios 
depressa desistiram da tentativa de combaterem este foco de incêndio e rapidamente passaram à proteção 
das  populações.  Qualquer  estratégia  como  a  contenção  do  fogo  junto  à  estrada  N351  foi  desde  logo 
abandonada porque se percebia que não era seguro nem eficaz montar linhas de combate.  

A primeira povoação ameaçada foi a aldeia de Maria Gomes à qual acudiram as equipas mais próximas, 
entre as quais estava o 2º Comandante do CB da Pampilhosa da Serra que assumiu o comando das operações 
de socorro. A velocidade e tempo de residência do fogo era tal, que estas equipas, por motivos de segurança 
e  intransitabilidade  das  vias  de  comunicação,  ficaram  retidas  nesta  localidade  por  mais  de  duas  horas, 
quando muitas outras povoações clamavam por socorro. Todos os meios disponíveis iam, dentro do possível, 
protegendo as povoações, no entanto, esta ação era limitada pelo elevado número de situações a carecerem 
de ajuda face aos meios existentes, e porque muitos destes meios não poderem transitar em segurança, não 
apenas em Maria Gomes, mas por toda a área interior do sinistro. 

Ocorrência da Lomba do Barco 

Pelas 20.15h, com o fogo a ser empurrado pelo vento para NNE, começou a observar‐se a formação de 
vários novos focos secundários nas duas margens do Rio Zêzere, a norte da aldeia de Álvaro, formando‐se 
uma nova frente de fogo perto da aldeia de Lomba do Barco que se propagou paralelamente à frente iniciada 
em Maria Gomes. A situação no terreno não possibilitou que esta ocorrência tivesse intervenção operacional. 

 
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Situação geral  

A Figura 92 permite perceber o panorama geral do complexo dos quatro principais incêndios em curso 
pelas 20.30h. Neste período, em qualquer das ocorrências, o fogo progredia descontroladamente, sobretudo 
por  focos  secundários,  com  os  meios  operacionais  quase  exclusivamente  empenhados  na  defesa  de 
povoações, muitos deles retidos nas localidades que tinham ido proteger. 

 
Figura 92 – Situação geral do complexo de incêndios pelas 20.30h. 

Mesmo  sem  se  tocarem,  os  vários  incêndios  iam  interagindo  aumentando  ainda  mais  a  grande 
intensidade  de  fogo  que  as  condições  de  declive  acentuado,  forte  vento  e  grande  disponibilidade  de 
combustível muito seco proporcionavam. Destaca‐se a aldeia de Álvaro que, tendo ficado encurralada entre 
a frente principal do incêndio da Ponte das Portelinhas e o novo incêndio em Lomba do Barco, viu arder cerca 
de 40 das suas casas. Na Figura 93 poderá verificar‐se que esta povoação se encontrava numa situação de 
grande risco, não apenas pela elevada carga de combustível na sua envolvente, mas também porque se situa 
ao longo da linha de cumeada. Este exemplo permite constatar a  grande vulnerabilidade de algumas das 
povoações portuguesas aos incêndios florestais, sem que haja medidas evidentes de mitigação do risco de 
incêndio, tais como a faixa de gestão de combustíveis com 100m de largura em torno da povoação, tal como 
é exigido pela legislação, e/ou a existência de sistemas de proteção ativa (e.g. linha periférica de aspersores 
aproveitando  o  grande  volume  de  água  proporcionada  pelo  Rio  Zêzere),  que  deveriam  ser  legalmente 
exigidos em determinadas situações. 

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(a)  (b) 

   
Figura 93 – Imagens da aldeia de Álvaro antes (a) e após (b) ter sido atingida pelo incêndio de 15 de outubro. Fonte: (a) 
https://casadoshospitalarios.com; (b) https://whotrips.com 

Durante  a  noite  o  complexo  de  incêndio  continuou  a  progredir  para  NNE  com  grande  intensidade  e 
velocidade, empurrado vento e impulsionado por incontáveis focos secundários que se formavam. O fogo de 
Ponte das Portelinhas, embatendo na área consumida a norte pelos incêndios de Maria Gomes e de Lomba 
do Barco, passou a ver limitada a sua progressão para leste, no que anteriormente era o seu flanco direito, e 
foi interagindo com o incêndio de Nespereira, acabando por consumir a área a oeste limitada pelo Rio Zêzere. 
As duas ocorrências mais a norte foram progredindo até embaterem em áreas que tinham sido consumidas 
em incêndios anteriores. Na Figura 94 representa‐se a evolução geral do fogo. 

 
Figura 94 – Evolução da área ardida no complexo de incêndios da Sertã. 

Na Figura 95 apresenta‐se o cálculo da velocidade média de propagação das diversas frentes de chama 
e a taxa de crescimento da área total ardida, tendo como base a figura anterior. 

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Figura 95 – Apresentação dos resultados do cálculo da velocidade média de propagação da frente principal nos quatro incêndios do 
CIF da Sertã, acompanhado do sentido da propagação (setas) e da taxa média de crescimento da área ardida no complexo de 
incêndios. 

A  partir  das  01.00h  do  dia  16  de  outubro,  com  as  condições  meteorológicas  mais  favoráveis  para  o 
combate ao fogo, sobretudo pela drástica diminuição da velocidade do vento, para além de socorro que ia 
sendo prestado em várias povoações, passou‐se à ancoragem do incêndio em algumas zonas definidas. Uma 
destas faixas perimétricas foi realizada durante a noite no perímetro a SW, entre Vilar da Carga e Ribeira de 
Cilhas. Esta ação acabou por sair frustrada porque no final da manhã deste dia, deu‐se uma reativação que 
queimou uma área que foi limitada pela área ardida nas ocorrências de Nespereira e de Ponte das Portelinhas 
(Figura 94 – 20171016). 

O flanco esquerdo da ocorrência da Nespereira tinha sido limitado pelas condições de topografia e maior 
humidade do Rio Zêzere, não tendo, no entanto, tido qualquer intervenção de consolidação. Desta forma, 
este  flanco  passou  várias  horas  em  combustão  lenta,  a  qual  reativou  nas  primeiras  horas  da  manhã, 
progredindo para nordeste, na direção de Portela do Fojo (Figura 94 – 20171016_0700_1200), juntando a 
área ardida no dia anterior à área ardida no incêndio de Góis, a 17 de Junho de 2017 (Figura 96). 

Deu‐se ainda uma terceira ocorrência (Figura 94 – 20171016_0700_20171016_0300), que poderá ter 
resultado  de  um  novo  foco  secundário  deste  incêndio  ou,  sendo  o  mais  provável,  terá  resultado  de  um 
reacendimento  do  incêndio  de  Fajão  que  teve  início  a  6  de  outubro  e  que,  noutras  localizações,  dois 
reacendimentos anteriores tinham dado origem ao complexo de incêndios de Oliveira do Hospital, descritos 
anteriormente. Este novo incêndio fez dispersar meios de combate, mantendo‐se ativo até às 03.00h de 17 
de outubro. 

A  Figura  96  permite  verificar  que  o  perímetro  final  do  incêndio  foi  maioritariamente  definido  pela 
existência  de  área  ardida  noutros  incêndio  e  pelos  efeitos  do  vento  que  empurrava  o  fogo 
predominantemente  para  NE.  Dos  lados  NW  e  norte  do  perímetro  final,  o  fogo  foi  embater  nas  áreas 
previamente ardidas nos incêndios de Góis (17 de junho) e de Fajão (6 de outubro), respetivamente. Entre 
estes dois lados, na direção de Arganil, a propagação do fogo foi interrompida numa linha de cumeada com 
sentido SW‐NE, quando a influência do vento e dos efeitos convectivos do incêndio de Oliveira do Hospital 
empurraram o fogo para NE. Nos lados sul e sudeste do perímetro final, a propagação do fogo foi sobretudo 
definida pelo efeito do vento, mas também pela existência de áreas previamente ardidas. Naturalmente que 

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em muitos destes casos, o papel do combate terá sido determinante, sobretudo nas operações de rescaldo 
e consolidação.  

 
Figura 96 – Área ardida desde as 01.00h do dia 16 de outubro e as 03.00h do dia 17 de outubro. Enquadramento geral do complexo 
de incêndios relativamente à área ardida no incêndio de Góis (17/Jun/2017) e o incêndio de Fajão (06/Out/2017). 

Análise da resposta operacional 

Como  referido  anteriormente,  o  incêndio  da  Ponte  das  Portelinhas  teve  uma  oportunidade  de 
circunscrição na sua fase inicial, no entanto, o foco secundário que surgiu num desfiladeiro que originou uma 
propagação  inicial  muito  rápida,  anulou  a  estratégia  de  ataque  inicial  que  até  aquele  momento  vinha  a 
apresentar  bons  resultados.  Numa  segunda  fase  em  que  se  pretendeu  travar  a  propagação  do  fogo  nas 
estradas EN238 e EN238‐1, o forte vento que formou pouco depois das 13.00h acabou também por invalidar 
aquela estratégia de contingência. Neste período, a existência de mais meios pouco ou nada teria alterado o 
rumo dos acontecimentos uma vez que o fogo progredia em condições que ultrapassavam a capacidade de 
combate.  

A partir 13.00h‐13.30h, durante o resto do dia 15 de outubro, as operações passaram a ser sobretudo 
reativas ao avanço do fogo. No cômputo geral, o efeito do combate efetivo ao fogo acabou por se resumir 
essencialmente ao flanco direito do incêndio, uma vez que o seu flanco esquerdo e cabeça acabaram por se 
findar em áreas queimadas por incêndios ocorridos anteriormente. Destaca‐se, no entanto, que uma parte 
substancial das operações foram realizadas no interior da área do sinistro com a proteção de povoações e 
outros elementos críticos.  

A evolução dos meios de combate no complexo de incêndios poderá ser analisada com recurso à Figura 
97. Poderá verificar‐se uma chegada rápida e robusta de vários meios em ataque inicial, tendo sido mantido 
o crescimento de chegada de mais meios até cerca das 19.00h, quando o contexto nacional era de tal forma 
grave que todos os meios disponíveis já se encontravam alocados. Assim, quando surgiram os incêndios da 
Nespereira  e  de  Maria  Gomes,  os  meios  foram  deslocados  da  ocorrência  da  Ponte  das  Portelinhas, 

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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
mantendo‐se no mesmo complexo de incêndios um efetivo operacional entre 250 e 350 elementos, com 
variações no número justificadas pela existência de outras ocorrências, fora deste complexo de incêndios, 
que motivavam a saída e regresso de operacionais deste teatro de operações.  

(a)  (b) 

   
Figura 97 – Evolução dos meios no(s) teatro(s) de operações: a) meios humanos; b) meios terrestres (MT) e meios aéreos (MA) no 
complexo de incêndios da Sertã. Fonte: ANPC: RO 2017050030693 (Ponte das Portelinhas), RO 2017050030728 (Nespereira) e RO 
2017060046399 (Maria Gomes). 

Durante o período diurno do dia 15 de outubro houve três meios aéreos a operar, tendo a sua operação 
coincidido entre as 15.22h e as 16.15h. Durante o período entre as 13.29h e as 15.10h, quando o fogo se 
propagou com grande velocidade, tal como descrito anteriormente, o teatro de operações ficou sem este 
importante recurso porque, quer o meio ligeiro, quer o helibombardeiro médio, tendo grandes dificuldades 
de  operação  face  ao  forte  vento  que  se  sentia,  foram  obrigados  a  regressar  à  base,  aproveitando  para 
reabastecer. Em função da grande extensão e intensidade deste incêndio, conclui‐se que a existência de mais 
meios  aéreos  poderia  ter  sido  um  apoio  importante  nas  operações  de  combate,  no  entanto,  a  situação 
nacional com muitas ocorrências com iguais características não permitiu a alocação de mais meios aéreos 
neste complexo de incêndios. 

3.5. Complexo de incêndios de Leiria 

O complexo de incêndios de Leiria foi dominado por duas ocorrências, designadas de “Ocorrência da 
Légua” e “Ocorrência da Burinhosa”, com inícios às 13.51h e 14.33h, respetivamente. Distanciadas em cerca 
de  9km,  estas  ocorrências  aparentemente  resultantes  de  ignições  independentes,  evoluíram  inicialmente 
para NW, posteriormente para norte e na fase final para NE, sempre fortemente impulsionadas pelo vento 
que  dominou  o  comportamento  do  fogo  e  que  provocou  inúmeros  focos  secundários  que  rapidamente 
interagiram entre si e com as frentes de chama originais. Progredindo numa área com uma topografia suave 
e  com  grande  homogeneidade  ao  nível  do  combustível,  a  capacidade  de  combate  foi  muito  limitada,  em 
função da grande intensidade do fogo e da velocidade de propagação, uma vez que o vento foi o fator que 
determinou o comportamento do fogo observado. A elevada carga de combustível de superfície e nas copas, 
e  o  solo  arenoso  em  praticamente  toda  a  área  do  incêndio,  foram  fatores  adicionais  que  dificultaram  o 
combate. 

Embora  dramático  pelas  graves  perdas  ambientais  e  económicas  resultantes,  das  quais  se  destaca  a 
perda de cerca de 80% de área queimada no secular Pinhal de Leiria, este incêndio não provocou qualquer 
vítima mortal a lamentar.  

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Alerta e causa de incêndio 

O alerta da ocorrência da Praia da Légua foi dada pelas 13.51h através da linha de emergência 112. O 
primeiro  COS  desta  ocorrência  foi  um  Chefe  do  CB  de  Pataias,  embora  o  relatório  de  ocorrência, 
erradamente, refira o Comandante do CB da Nazaré como o primeiro comandante das operações de socorro 
nesta ocorrência. 

Quando uma equipa do CB de Maceira se deslocava para a ocorrência da Praia da Légua, observou uma 
coluna de fumo, já com alguma dimensão que presumia ser o começo de uma nova ocorrência. Após dar 
conhecimento ao Comando Distrital, e solicitar autorização para se desviar da missão original, deslocou‐se 
ao local da proveniência do fumo constatando que se tratava de uma nova ocorrência. Pela dimensão da 
coluna  de  fumo,  e  pela  extensão  da  área  ardida  quando  da  chegada  dos  primeiros  meios  de  combate, 
surpreende  que  esta  ocorrência  não  tivesse  sido  detetada  mais  precocemente,  sendo  provável  que  a 
ocorrência  da  Praia  Légua,  mesmo  localizando‐se  a  cerca  de  10km,  desviasse  as  atenções  ou  mesmo 
dificultasse a distinção entre as duas colunas de fumo. Relata‐se ainda um episódio em que, desde a torre de 
vigia de uma instalação fabril a cerca de 7km de distância, foi dado o alerta para uma nova ignição em Casal 
da Lebre que se veio a verificar ser um falso alarme – este facto indica que o ambiente de fumo em toda 
aquela área confundia a perceção dos focos de ignição, retardando a sua deteção e o início do ataque inicial. 

De acordo com as conclusões das autoridades competentes, e pelo que consta no Sistema de Gestão de 
Incêndios Florestais, ambas as ocorrências terão tido origem em reacendimentos de fogachos anteriormente 
ocorridos, nomeadamente: a) ocorrência da Légua (NO ANPC 2017100055976), iniciada às 17.49h do dia 12 
de outubro e com hora de extinção às 19.20h do mesmo dia, sendo associada à ocorrência da Légua; e b) 
ocorrência  do  Beco  da  Longra  –  Burinhosa  (NO  ANPC  2017100056464),  iniciada  às  06.53h  no  dia  15  de 
outubro,  tendo  sido  considerado  extinto  15  minutos  depois,  às  07.08h,  dando  posteriormente  origem  à 
ocorrência de Burinhosa. Na visita ao terreno efetuada pelos autores deste estudo, foi possível constatar que 
não há um contato direto entre as áreas queimadas nas duas ocorrências, tal como se pode constatar na 
Figura  98.  A  área  resultante  da  ignição  de  Burinhosa  situa‐se  a  cerca  de  75m  do  perímetro  da  área 
previamente ardida, que ainda estaria incandescente por ter ardido cerca de sete horas antes, para além de 
se localizar no enfiamento do sentido do vento forte sentido naquele período. A ignição da Praia da Légua, 
ocorreu a cerca de 1km do perímetro da área ardida cerca de três dias antes, sendo possível que continuasse 
em combustão lenta, mas seguramente que o perímetro deste incêndio estaria muito mais arrefecido que 
no caso da Burinhosa. Não há registo de ter havido um reacendimento de qualquer dos fogachos anteriores, 
supostamente extintos. Os terrenos que intermedeiam os perímetros previamente ardidos e as ignições do 
dia 15 de outubro mais próximas são relativamente planos. No entanto, no caso da Praia da Légua, existe 
uma floresta densa no terreno intermédio, enquanto que no caso da Burinhosa, a área interposta é isenta de 
obstáculos (Figura 99). Desta forma, consideramos aceitável a  conclusão de que o incêndio da Burinhosa 
possa ter resultado de um reacendimento, no entanto, julgamos ser pouco provável que a ignição da Praia 
da Légua resulte do incêndio que o antecedeu.  

 
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(a)  (b) 

   
Figura 98 – Localização das ignições das ocorrências da Praia da Légua (a) e da Burinhosa (b) relativamente aos perímetros das 
áreas queimadas das ocorrências da Légua (a) e do Beco da Longra – Burinhosa (b) ocorridas previamente. 

(a)  (b) 

   
Figura 99 – Fotografias das áreas da Praia da Légua (a) e da Burinhosa (b) onde se iniciaram os respetivos incêndios e onde é 
possível ficar com uma ideia do tipo de vegetação local. 

Pelo  exposto,  consideramos  que,  mesmo  não  havendo  contacto  direto  entre  o  perímetro  da  área 
previamente ardida e o novo local de ignição, é possível que na ocorrência da Burinhosa tenha havido um 
foco  secundário  por  arrastamento  junto  ao  solo  de  uma  partícula  incandescente  proveniente  da  área 
queimada  na  ocorrência  que  se  deu  entre  as  06.53h  e  as  07.08h  do  mesmo  dia.  O  tempo  de  apenas  15 
minutos entre o alerta e a hora de extinção poderão ser indicativos de um deficiente esforço de consolidação 
na periferia da área ardida. No entanto, novas ignições até poucas dezenas de metros de distância poderão 
resultar  de  partículas  incandescentes  provenientes  do  interior  da  área  queimada  que,  impulsionadas  por 
vento forte, como aquele sentido no período em que foi dado o alerta, são arrastadas junto ao solo. Nestes 
casos  de  vento  forte,  uma  vigilância  mais  prolongada,  até  que  toda  a  área  previamente  ardida  arrefeça, 
poderá ser a única solução para garantir que não há novos incêndios secundários. Em incêndios de menor 
dimensão, o rescaldo de toda a área ardida, e não apenas da periferia do incêndio poderá ser igualmente 
uma solução válida. 

Propagação inicial do fogo e ataque inicial 

Ocorrência da Praia da Légua 

Quando os primeiros veículos de combate das CBs de Pataias e Nazaré chegaram ao local da ocorrência 
da Praia da Légua, cerca de 15 minutos depois do alerta, de imediato se depararam com uma situação que 

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fazia acreditar que iria prolongar‐se para lá do ataque inicial, com duas frentes muito intensas, em que uma 
delas ameaçava seriamente um conjunto de habitações (Figura 100). Desta forma, a primeira intervenção 
consistiu  na  defesa  perimétrica  destas  infraestruturas  no  flanco  esquerdo,  sem  que  houvesse  meios 
suficientes para fazer um combate efetivo à restante fração desta frente de incêndio, nem tampouco à frente 
de  incêndio  a  leste,  que  acabou  por  se  extinguir  pouco  depois  junto  a  um  eucaliptal,  sem  que  haja 
conhecimento de ter havido qualquer intervenção que fosse responsável por tal desfecho positivo. O vento 
forte de sul que se fazia sentir, provocando vários focos secundários, rapidamente levou à perda de controlo 
da situação, limitando a intervenção dos meios que chegaram pouco depois.  

 
Figura 100 – Situação do incêndio da Praia da Légua nos instantes iniciais. 

Ocorrência da Burinhosa 

O primeiro meio a chegar à ocorrência da Burinhosa foi um veículo do CB de Maceira que, conforme 
reportado anteriormente, se encontrava em trânsito para o Incêndio da Praia da Légua. Aproveitando uma 
linha de água existente (linha a azul claro na Figura 101), começaram a flanquear o fogo. Embora a área do 
incêndio  já  ultrapassasse  3ha,  pelas  14.50h  (Figura  101),  a  perceção  era  a  de  que  o  combate  evoluía 
favoravelmente e que, com a chegada de mais alguns meios esperados, aquela ocorrência iria rapidamente 
chegar ao fim.  

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Figura 101 – Situação do incêndio da Burinhosa entre as 14.50h e as 15.00h e respetiva primeira intervenção. 

Pouco antes das 15.00h, após uma rajada de vento, verificou‐se uma série de projeções a curta distância. 
Poucos  minutos  depois,  formaram‐se  alguns  focos  de  copas  passivos  e,  após  uma  nova  rajada  de  vento, 
seguiu‐se um novo episódio com inúmeras projeções, desta vez a média distância. Os focos secundários que 
se  formaram,  inviabilizaram  os  caminhos  de  fuga,  pelo  que  o  comandante  de  operações,  tomando 
consciência da ameaça, ordenou aos operacionais no tereno que se concentrassem numa zona (assinalada 
como   na Figura 101) com herbáceas baixas e que molhassem a área na envolvente. Em seguida deu ordem 
para que fosse feita uma descarga aérea de água sobre a zona onde se refugiaram, e ali permaneceram até 
que a situação lhes permitisse sair. Em momento algum se serviram dos fire shelter, uma vez que o terreno 
com  herbáceas  não  permitia  a  utilização  em  segurança  destes  equipamentos,  e  o  tempo  escasso  de  que 
dispunham não permitia a criação de uma clareira sem combustíveis. 

Os  focos  secundários  interagiram  entre  si  e  com  a  frente  de  chamas  original  fazendo  evoluir  o  fogo 
consideravelmente.  A  partir  desta  altura,  chegaram  mais  meios  de  combate,  mas  a  situação  já  estava 
descontrolada, e era necessário definir uma nova estratégia de combate.  

Desenvolvimento do incêndio 

A propagação do fogo em ambos os incêndios foi essencialmente dominada pelo sentido e intensidade 
do vento proveniente de sudeste, numa fase inicial, sofrendo uma rotação para soprar de sul sensivelmente 
entre  as  13.00h  e  as  23.00h,  passando  a  soprar  de  SW,  desde  essa  hora,  até  à  madrugada  do  dia  16  de 
outubro. Desta forma, sem que outros fatores como o declive ou a heterogeneidade do combustível tivessem 
grande relevo na propagação do incêndio, o fogo progrediu de acordo com o sentido do vento, tal como se 
pode constatar na Figura 102. 

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Figura 102 – Evolução da área ardida no complexo de incêndios de Leiria. 

Muito foi dito e noticiado sobre a eventual origem criminosa tanto deste incêndio, como das inúmeras 
ignições que surgiram posteriormente. Sem ter em posse toda a informação factual deste processo, e como 
tal, fazendo uma avaliação meramente baseada nos conhecimentos técnicos no âmbito do comportamento 
do  fogo  e  na  observação  do  terreno,  acompanhada  por  entidades  operacionais,  que  participaram  no 
combate,  os  autores  deste  relatório  consideram  que  o  aparecimento  das  várias  ignições  alinhadas  que 
sucederam a jusante dos ventos fortes que se fizeram sentir, são compatíveis com os processos de formação 
de focos secundários, sendo esta a possibilidade mais provável. Salienta‐se, contudo, que a esta conclusão 
podem faltar outras informações factuais que sustentem uma eventual tese de origem criminosa de alguns 
dos focos registados posteriormente.  

Existe alguma controvérsia sobre a possibilidade das frentes das ocorrências de Légua e de Burinhosa, 
terem convergido, promovendo a intensificação da frente de chamas resultante, o que teria conduzido a uma 
rápida  propagação  do  fogo  para  norte,  no  sentido  de  Vieira  de  Leiria.  Da  análise  efetuada  aos  dados 
existentes  e  aos  testemunhos  ouvidos,  os  autores  deste  relatório  concluíram  que  a  frente  de  chamas  da 
Ocorrência  da  Légua  atingiu  a  área  anteriormente  queimada  pela  Ocorrência  da  Burinhosa  por  volta  das 
01.00h do dia 16 de outubro, não se tratando propriamente de um episódio de frentes convergentes, mas 
sim no encontro de uma frente com uma área previamente queimada, mas ainda quente. A interação entre 
as duas ocorrências de incêndio terá sido, no entanto, efetiva, entre outros mecanismos, pelo efeito da pluma 
térmica  da  frente  de  chamas  da  Ocorrência  da  Légua  que,  incidindo  nos  combustíveis  florestais  a  norte, 
posteriormente queimados pela frente da Burinhosa, levou ao seu pré‐aquecimento e consequentemente à 
diminuição da sua humidade e à produção de uma combustão mais intensa. Nesta perspetiva, e de acordo 
com a estimativa de propagação apresentada na Figura 102, os dois incêndios foram quási‐independentes. 

Ocorrência da Praia da Légua 

Depois  da  fase  inicial  de  desenvolvimento  e  correspondente  ao  incêndio,  o  fogo  mostrou  um 
comportamento  relativamente  constante  progredindo  para  norte,  com  arranques  que  coincidiam  com  o 

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aumento súbito do vento. Na Figura 103 apresenta‐se uma ampliação da progressão estimada do fogo nesta 
ocorrência. 

 
Figura 103 – Detalhe da propagação estimada do incêndio da Praia da Légua, com inclusão da área ardida em 2015. 

A  estratégia  de  combate  tinha  em  consideração  dois  aspetos  fundamentais.  Por  um  lado,  o 
desenvolvimento do flanco esquerdo do incêndio, conduzia‐o para o mar e, excetuando o aglomerado de 
casas  na  Légua,  para  norte  e  para  o  flanco  direito,  apenas  algumas  habitações  dispersas  exigiam  uma 
proteção perimétrica. Por outro lado, os meios de combate eram escassos, visto que muitos recursos eram 
desviados para a Ocorrência da Burinhosa, onde a situação era mais preocupante.  

Mais tarde, com o avanço rápido da cabeça do fogo, a localidade de Paredes Velhas passou a ser uma 
prioridade, pelo que foi criada uma linha de proteção que circundava a zona Sul desta povoação e o Parque 
de Campismo existente, também na zona Sul. A deslocação dos poucos meios de combate para esta zona, 
fez com que a frente de chama progredisse um apouco mais para leste, que ficou mais desprotegido.  

Neste período, com o vasto perímetro de área queimada registado, assumiu‐se como inevitável que a 
frente de chama fosse colidir com a área queimada na ocorrência mais a norte, pelo que a estratégia de 
gestão do incêndio passou a ser definida por duas prioridades: 1) a proteção dos aglomerados urbanos junto 
à costa, o que foi facilitado pela inflexão que o fogo teve pelo combate a sul de Paredes Velhas e pela ligeira 
rotação para NE que o vento vinha evidenciando; e 2) o flanqueamento direito da cabeça do incêndio na 
tentativa  de  o  fechar  na  zona  previamente  queimada  pelo  incêndio  da  Burinhosa,  evitando  que  esta 
povoação pudesse vir a ser atingida pelas chamas. Esta estratégia foi bem‐sucedida.   

Depois de o incêndio ir ao encontro da área queimada da ocorrência da Burinhosa, por volta das 01.30h, 
as atividades de combate, direto e indireto, passaram a incidir no fecho de zonas em combustão lenta a oeste 
do perímetro do incêndio. Neste período, destaca‐se uma zona queimada em 2015 (Figura 103) que permitiu 
um trabalho de fecho mais eficiente. 

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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
Ocorrência da Burinhosa 

Neste incêndio, o fogo progrediu de uma forma ainda mais rápida do que no incêndio mais a Sul, tendo 
o  combustível  florestal  do  Pinhal  de  Leiria,  em  certas  áreas  bem  gerido,  enquanto  em  outras  áreas  sem 
qualquer gestão, sido um fator de grande relevo. Com muitas zonas de incêndios de copas passivo e ativo, a 
propagação do fogo por projeções conheceu uma velocidade anormalmente elevada.  A propagação do fogo 
com velocidade extrema permaneceu ao longo de várias horas, praticamente desde o seu início, até por volta 
das 01.30h, quando o vento diminuiu de intensidade após alterar a sua direção para NE, na direção do cordão 
urbano entre Marinha das Ondas e Carriço que, com a diminuição do aparecimento de focos secundários a 
média e longa distância, levou à interrupção da propagação da cabeça do incêndio.  

Após  a  fase  inicial,  anteriormente  descrita,  sensivelmente  entre  as  15.00h  e  as  16.00h  a  principal 
preocupação passava pela ameaça do fogo a Marinha Grande, pelo que os meios disponíveis se concentraram 
sobretudo no flanco direito do incêndio. Na Figura 104 poderá ver‐se que a área queimada, sujeita a ventos 
maioritariamente de Sul, apresenta uma proeminência para oeste, o que será um resultado desta ação de 
combate  no  flanco  direito.  Depois  desta  hora,  com  a  chegada  de  mais  meios  de  combate  e  com  os 
aglomerados populacionais na orla costeira sob ameaça, os meios dispersaram‐se nos dois flancos. 

 
Figura 104 – Detalhe da propagação estimada do incêndio da Burinhosa. 

Com o fogo a progredir de forma rápida e intensa para norte, e perante a impossibilidade de combate 
em zona de floresta, devido à grande intensidade do fogo, numa altura em que o combate se fazia apenas 
nos flancos e na proteção de elementos críticos, foi delineada uma estratégia que passava por aproveitar o 
corredor de combustível mais reduzido, com cerca de 1,6km de largura entre dois aglomerados populacionais 
– Vieira de Leiria  e Praia da Vieira –, tal como representado na Figura 105. Esta oportunidade de combate 
era ainda apoiada pelo Rio Liz, que se apresenta transversalmente à direção de propagação do fogo. Esta 
estratégia fazia todo o sentido, mas tinha um senão – a grande carga de combustível fino existente nesta 
faixa que tinha ardido apenas em 2003, sem que, entretanto, tivesse havido uma ação concertada de gestão 
de combustível. Perante esta adversidade, foram usadas uma máquina de rastos e uma retroescavadora para 

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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
reduzir o combustível e consequentemente a intensidade do fogo e a projeção de fagulhas, permitindo assim 
a criação de uma linha de combate potencialmente mais eficaz. Foram pedidas, sem sucesso, mais máquinas 
de rasto que pudessem acelerar a operação. Embora correta, esta estratégia acabou por fracassar porque a 
frente  de  fogo  progrediu  mais  rapidamente  do  que  o  esperado,  impedindo  as  máquinas  de  acabar  o  seu 
trabalho de redução de combustível, obrigando‐as a retirar. Considera‐se que houve neste caso uma falha 
na  prevenção,  uma  vez  que  sendo  aquela  uma  zona  estratégica,  a  gestão  dos  combustíveis  deveria  ser 
constante. Por outro lado, houve uma falha na previsão do comportamento do fogo, que foi efetivamente 
excecional, e consequentemente na resposta operacional. A importância da estratégia definida deveria ter 
levado a uma atuação anterior e ao emprego de mais maquinaria para diminuição da carga de combustível. 

 
Figura 105 – Situação do complexo de incêndios pelas 17.00h, quando foi definida uma nova estratégia de contenção do fogo antes 
de este atingir o Rio Liz. 

A estratégia anteriormente descrita falhou também porque o forte vento que se registou a partir das 
17h00 permaneceu, não apenas fazendo com que a frente de fogo atingisse aquela zona antes do trabalho 
de diminuição da carga de combustível estivesse concluído, mas também que produzisse um elevado número 
de focos secundários a média distância que frustravam qualquer estratégia que passasse pela criação de uma 
linha de contenção do fogo. A sequência de fotografias (Figura 106) tirada desde o Quartel do CB de Vieira 
de Leiria permite ter uma ideia da grande propagação que o fogo teve entre as 17.15h e as 18.25h. 

17.15h  17.31h  17.34h 

17.42h  18.00h  18.25h 

Figura 106 – Sequência de imagens da passagem do incêndio por Vieira de Leiria com a formação de diversos focos secundários a 
média distância. Imagens tiradas por Hélio Madeiras a partir do Quartel do CB de Vieira de Leiria. 
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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
O vento continuou a soprar forte até cerca das 01.00h, mantendo o combate desfavorável e a situação 
fora de controlo. A partir desta hora, com a velocidade do vento a cair drasticamente, a propagação do fogo 
desacelerou e o combate tornou‐se possível quando a cabeça do incêndio atingiu a faixa urbana com menos 
combustível. Durante o resto do dia 16 de outubro, com o vento mais ameno e com a humidade relativa do 
ar a aumentar, o fogo passou a progredir de forma gradual, mas, devido ao grande perímetro e à limitação 
de meios que se apresentavam exaustos, o fogo apenas foi dominado quando por volta das 22h00 quando 
começou a chover.  

A Figura 107 permite avaliar o comportamento oscilante da velocidade com que o incêndio da Burinhosa 
progrediu, o qual foi acompanhado pela taxa de crescimento da área total ardida. O incêndio da Légua teve 
uma velocidade de propagação mais constante. Acredita‐se que o pré‐aquecimento feito pela ocorrência da 
Légua à massa de ar trazida pelo vento de sul com rajadas tenha causado esta maior oscilação na velocidade 
de propagação do fogo do incêndio da Burinhosa, mais a norte. 

 
Figura 107 – Apresentação dos resultados do cálculo da velocidade média de propagação da frente principal nos dois incêndios do 
CIF de Leiria, acompanhado do sentido da propagação (setas) e da taxa média de crescimento da área ardida no complexo de 
incêndios. 

Análise da resposta operacional 

A estratégia de combate seguida foi anteriormente descrita, considerando‐se que na sua globalidade foi 
bem definida, tendo sido claramente limitada pela falta de meios de combate disponíveis, estando muitos 
destes recursos alocados nas diversas ocorrências simultâneas.  

Enquanto  na  ocorrência  da  Praia  da  Légua,  a  estratégia  a  definir  era  sobretudo  dependente  da 
quantidade de meios para combate efetivo, na ocorrência da Burinhosa, em determinadas situações, devido 
à  intensidade  do  fogo,  o  combate  era  virtualmente  impossível,  pelo  que  mais  meios  não  iriam  alterar  a 
situação.  Nesta  ocorrência,  era  preciso  definir  uma  estratégia  que  aproveitasse  as  poucas  “janelas  de 
oportunidade”  com  grande  antecipação.  A  possibilidade,  anteriormente  descrita,  de  conter  o  fogo  entre 
Praia da Vieira e Vieira de Leiria, parecia a mais acertada, mas foi malsucedida devida à reação tardia ao 
rápido  avanço  da  frente  de  chamas  que  se  verificou  sobretudo  entre  as  15.00h  e  as  17.00h.  A 

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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
indisponibilidade  de  máquinas  de  rasto  neste  período  e  a  deficiente  gestão  de  combustíveis  em  zonas 
nevrálgicas para mega incêndios evidenciam igualmente a necessidade de uma melhor preparação prévia. 

Houve  ainda  uma  dificuldade  acrescida  que  resultou  da  existência  de  vários  caminhos  interiores  em 
areia que, mesmo com os veículos adaptados para estas circunstâncias (e.g. pneumáticos com pressão baixa) 
a progressão era mais complicada.  

Na  Figura  108  apresenta‐se  a  evolução  de  meios  de  combate  nos  dois  teatros  de  operação.  Poderá 
verificar‐se que numa fase inicial foram destacados mais meios para a primeira ocorrência na Praia da Légua 
no  entanto,  o  potencial  crescente  do  incêndio  da  Burinhosa  que  se  propagou  no  Pinhal  de  Leiria  e  que 
ameaçou  um  número  superior  de  povoações,  inverteu  a  situação,  fazendo  com  que  neste  teatro  de 
operações chegassem a estar mais de 300 operacionais em simultâneo.  

(a)  (b) 

   
Figura 108 – Evolução dos meios no(s) teatro(s) de operações: a) meios humanos; b) meios terrestres (MT) e meios aéreos (MA). 
Fonte: ANPC: RO 2017100056537 (P. da Légua) e RO 2017100056554 (Burinhosa). 

Os meios aéreos presentes permitiram acudir em algumas situações importantes. Ao contrário do que 
aconteceu nas outras ocorrências, embora com algumas dificuldades, a atuação de meios aéreo foi possível, 
uma  vez  que,  perante  uma  orografia  suave  daquela  área,  os  ventos  sentidos  eram  predominantemente 
unidirecionais.  Na  ocorrência  da  Praia  da  Légua  houve  um  helibombardeiro  médio  (H13)  a  atuar 
praticamente durante todo o período diurno do incêndio de 15 de outubro, excetuando o período entre as 
15.27h e as 16.10h quando este meio teve de regressar ao centro de meios aéreos para reabastecimento. O 
incêndio da Burinhosa apenas teve meios aéreos em operação no segundo dia, quando o incêndio da Praia 
da Légua perdeu relevância depois da frente  de chamas ter atingido a área ardida do outro incêndio e  o 
helicóptero H13 ter passado a atuar mais a norte. Posteriormente, a partir das 13.15h, juntou‐se de forma 
intermitente um meio aéreo pesado (H03) para o apoio nas operações de combate. Manifestamente que a 
atuação de mais meios aéreos poderiam ter feito a diferença no combate, sobretudo se tivesse havido um 
reforço destes meios na implementação da estratégia que pretendia interromper o avanço das chamas no 
estrangulamento entre a Praia de Leiria e Vieira de Leiria.   

Devemos  referir  dois  incidentes  ocorridos  neste  incêndio,  que  envolveram  viaturas  e  elementos  dos 
Bombeiros.  O  primeiro,  próximo  de  Água  Formosa  (Talhão  86),  cerca  das  17.00h,  envolveu  um  grupo  de 
combate  dos  BM  de  Leiria,  que  teve  de  retirar,  abandonando  o  VFCI  que  os  transportava,  o  qual  ficou 
destruído. Felizmente não houve danos pessoais. O outro incidente ocorreu cerca das 17.30h, próximo de 
Grou e envolveu um VLCI dos BV de Vieira de Leiria, que ficou parcialmente danificado. 

 
 
 

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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
3.6. Complexo de incêndios de Quiaios 

O complexo de incêndios de Quiaios teve origem na Ocorrência de Cova da Serpe, sendo constituído por 
vários focos de incêndio alinhados segundo a direção do vento. Alguns destes focos são claramente focos 
secundários da ocorrência original, ao passo que outros tiveram uma origem indefinida. Embora a ignição 
em Cova da Serpe, pelas 14h36, seja a que mais se destaca neste CIF, quer pela extensão da área ardida, quer 
pela velocidade de propagação do fogo registada, a que se iniciou mais cedo foi a Ocorrência de Quintã, em 
Vagos, pelas 13h34. Sendo flanqueada pela estrada nacional N109, do lado esquerdo, e por uma zona agrícola 
húmida de sapal do lado direito, esta ocorrência teve pouca expressão nas primeiras horas deste complexo 
de incêndios, embora tenha ganho maior relevância quando reativou depois das 18.00h. Há neste complexo 
de incêndios uma outra ocorrência, designada “Ocorrência de Águas Boas”, que merece realce, não apenas 
pela  grande  área  ardida  que  originou,  mas  também  por  ter  sido  fundamental  para  que  a  frente  de  fogo 
proveniente de Cova da Serpe interrompesse a sua progressão quando atingiu a área ardida desta ocorrência 
que teve início pouco antes das 16.00h. 

Uma vez que grande parte da área ardida neste complexo de incêndios resulta da ocorrência de Cova 
da  Serpe,  e  porque  não  houve  uma  interação  evidente  na  progressão  das  três  ocorrências  mencionadas, 
excetuando a delimitação da progressão do fogo da maior ocorrência quando esta atingiu a área queimada 
das duas ocorrências a norte, a descrição que se segue irá focar‐se maioritariamente na ocorrência de Cova 
da Serpe.  

A análise da resposta operacional a esta ocorrência deve ter‐se em consideração o CIF da Lousã, também 
no distrito de Coimbra, que deflagrava com grande intensidade numa vasta área de sinistro desde há várias 
horas, empenhando vários recursos de combate daquela região e das suas imediações. Para além disso, o 
distrito  de  Aveiro,  para  onde  o  complexo  de  incêndios  se  dirigiu,  foi  ao  longo  do  dia  sujeito  a  muitos 
incêndios, alguns com grande extensão e intensidade.  

Alerta e origem do incêndio 

As  condições  meteorológicas  vividas  nos  dias  anteriores  e  previstas  para  o  dia  15  de  outubro,  assim 
como o alerta vermelho definido pela ANPC, levaram ao nível de prontidão máximo das forças de prevenção 
e combate, pelo que vários meios humanos e materiais foram preposicionados em locais estratégicos. Às 
14.36h, uma Equipa de Sapadores Florestais que se encontrava estacionada junto ao Miradouro da Bandeira, 
na vertente norte da Serra da Boa Viagem no Concelho da Figueira da Foz, deu o alerta de uma ignição nas 
imediações  do  Centro  Hípico  da  Figueira  da  Foz,  a  cerca  de  4,5km  de  distância,  tendo  como  ponto  de 
referência as instalações da Empresa Microplásticos, em Cova da Serpe, na freguesia de Quiaios. As imagens 
da Figura 109 permitem ter uma ideia das características do local da ignição. 

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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
(a)  (b) 

   
Figura 109 – Imagem (a) do local onde a ocorrência de Cova da Serpe terá tido início. Na imagem b) poderá ver‐se o tipo de 
vegetação característico do local antes do incêndio, segundo informação de populares que residem nas imediações. 

Não há evidências sobre a causa deste incêndio, sendo plausível a interferência humana na ignição.  Os 
autores deste relatório também não conseguiram apurar a causa das outras duas ocorrências. 

Propagação inicial do fogo e ataque inicial 

Devido  ao  posicionamento  prévio  dos  meios  de  combate,  a  chegada  ao  teatro  de  operações  após  o 
alerta foi relativamente rápido. Assim, a chegada do primeiro veículo pesado de combate verificou‐se pelas 
14.50h, sendo que em menos de 30 minutos depois do alarme, já se encontravam no TO meios pesados e 
ligeiros das três corporações que constituem a estratégia de triangulação definida para aquele local. O ataque 
inicial foi desprovido de apoio aéreo, uma vez que tinha havido uma desmobilização anterior resultante da 
transição de fases do DECIF (Fase Charlie para Fase Delta), o que limitou a eficácia do ataque inicial e reduziu 
as possibilidades de um desfecho precoce desta ocorrência. 

Quando chegaram ao local, a situação encontrada foi a de uma frente de chama que se desenvolvia para 
norte com grande intensidade. Na Figura 110 apresenta‐se a situação encontrada pelos primeiros meios que 
chegaram ao local. O primeiro ataque ao fogo consistiu no seu flanqueamento a leste e oeste na tentativa 
de enfraquecer a “cabeça do fogo” até à sua extinção. No entanto, a grande velocidade que o fogo tomou na 
fase inicial (Figura 111), o surgimento de vários focos secundários e o aparecimento de vários episódios de 
fogo de copas passivo rapidamente fez intuir que aquela ocorrência não poderia ser dominada unicamente 
com os parcos meios de combate terrestre que haviam sido disponibilizados. Desta forma, a estratégia de 
combate  passou  a  priorizar  o  flanco  leste  onde  se  encontravam  várias  populações  que  passaram  a  estar 
ameaçadas. Para além disso, perante a já grande extensão da área da frente de chamas, o flanco a oeste 
estava  limitado  pelo  Oceano  Atlântico,  sem  que  houvessem  elementos  críticos  ou  estratégicos  na  área 
intermédia, pelo que se reduziu a relevância dada ao combate neste flanco. 

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Figura 110 – Situação do incêndio de Cova da Serpe pelas 14.50h quando os primeiros meios acederam ao local da ignição. 

 
Figura 111 – Imagem do incêndio às 15.14h evidenciando a grande intensidade que o fogo assumiu logo na sua fase inicial 
(fotografia cedida por Nuno Osório dos BM da Figueira da Foz). 

Por volta das 15.00h deflagrou uma nova ignição no Paião, cerca de 15km a sul de Cova da Serpe, fora 
do perímetro final deste CIF. Para que o município não ficasse com duas grandes ocorrências em simultâneo, 
alguns dos poucos recursos disponíveis foram desviados para esta nova ocorrência. Os reforços em trânsito 
para a ocorrência da Cova da Serpe, que poderiam reforçar o combate das chamas, foram também desviados 
e alocados nesta nova ocorrência, tornando a situação em Cova da Serpe ainda mais descontrolada. 

Desenvolvimento do incêndio 

Na Figura 112 apresenta‐se a evolução do fogo ao longo do dia 15 de outubro nas diversas ocorrências 
do CIF de Quiaios. A ocorrência da Quintã teve início numa zona de interface entre espaço urbano, a oeste, 
e uma área agrícola húmida (zona de sapal) a leste. Com o forte vento de sul, este incêndio progrediu para 
norte, ao longo de uma faixa estreita, até que foi dominado pelas 18.00h. 
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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 

 
Figura 112 – Evolução do fogo no Complexo de Incêndios de Quiaios. 

Pelas 15.30h, quando o fogo iniciado em Cova da Serpe progredia a grande velocidade para norte, surgiu 
um foco secundário que não pôde ser prontamente resolvido. Este foco secundário foi‐se desenvolvendo 
paralelamente, mas atrasado relativamente à frente de chama original, mantendo uma faixa por queimar 
entre as duas manchas de progressão do fogo (Figura 113). Esta faixa por arder, a sul com cerca de 200m de 
largura, foi‐se estreitando com o avanço para norte dos dois focos de incêndio, aproximando as duas áreas 
de progressão que se encontraram pouco depois das 18.00h, na estrada nacional EN335‐1, junto à Praia da 
Tocha, depois de terem progredido mais de 7km em paralelo. O forte vento de sul terá mitigado o efeito de 
aproximação entre os dois focos, dissipando o calor formado entre eles e a correspondente célula convectiva. 
Após a junção, estes dois focos de incêndios progrediram de forma acelerada, tal como é típico num episódio 
de frentes convergentes, ameaçando um parque de campismo e várias habitações na área a norte da Praia 
da Tocha. Também a faixa anteriormente por queimar que os separava, foi rapidamente imersa num mar de 
chamas com grande intensidade.  

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Figura 113 – Imagem da progressão da Ocorrência de Cova da Serpe às 15:56h permitindo observar o foco secundário iniciado pelas 
15.30h a progredir paralelamente à frente original. Fotografia feita desde o Posto de Vigia do Palheirão (fotografia cedida por João 
Maduro do CB de Mira). 

Entre vários focos secundários, este episódio de frentes convergentes terá originado uma nova ignição 
perto  de  Bustos,  em  Oliveira  do  Bairro,  que  progrediu  sem  domínio  para  norte.  Estando  a  ocorrência  de 
Quintã dominada, e vendo que as chamas provenientes de Bustos progrediam sem controlo, tendo já entrado 
no concelho de Vagos, os meios de combate da primeira ocorrência deslocaram‐se para este novo foco de 
incêndio sem que tivessem realizado um rescaldo efetivo. No entanto, pouco tempo depois de abandonarem 
o primeiro teatro de operações, quando o vento reorientou o seu sentido, passando a soprar com maior 
componente de leste, a parte sul deste incêndio reativou, dirigindo uma nova frente de chama para nordeste, 
a qual mais tarde acabou por encontrar a área queimada pelo foco secundário de Bustos. Por sua vez, este 
foco secundário iniciado depois das 18.00h foi ao encontro da área queimada pela ocorrência de Águas Boas. 
Desta forma, este complexo de incêndios caracteriza‐se pela sequência de ocorrências que, entre as 22.30h 
e as 01.00h, embateram nas áreas queimadas umas das outras, especificamente: a) o IF de Cova da Serpa e 
o IF de Quintã atingiram a área queimada pelo foco secundário de Bustos; e b) o foco secundário de Bustos 
extinguiu‐se na área previamente queimada pela ocorrência de Águas Boas. 

Com base na estimativa de propagação apresentada na Figura 112, foi feito o cálculo da velocidade de 
propagação da frente de chama original do incêndio de Cova da Serpa, assim como da taxa de variação da 
área  ardida  em  todo  o  CIF  (Figura  114).  Nesta  imagem  é  possível  verificar  o  aumento  da  velocidade  de 
propagação  resultante  da  junção  dos  dois  focos  de  incêndios  depois  das  18.00h.  O  aumento  da  taxa  de 
crescimento da área ardida observado por volta das 21.00h reflete a intensificação das ocorrências de águas 
Boas e de Quintã, assim como a evolução do foco secundário de Bustos. 

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Incêndio de Cova da Serpa 

 
Figura 114 – Apresentação dos resultados do cálculo da velocidade média de propagação da frente principal no incêndio dominante 
do CIF de Quiaios, acompanhado do sentido da propagação (setas) e da taxa média de crescimento da área ardida no complexo de 
incêndios. 

Na sua progressão de sul para norte, na área florestal da Praia da Costinha, freguesia do Bom Sucesso, 
norte da Figueira da Foz, registou‐se uma diminuição da intensidade do fogo junto à Estrada Florestal nº1, o 
que resultou da gestão de combustíveis efetuada naquele local, na sequência do Programa de Sapadores 
Florestais. Porém, esta janela de oportunidade de combate acabou por não se constituir verdadeiramente 
como  tal,  em  função  do  avanço  rápido  da  frente  de  chamas  com  episódios  frequentes  de  fogo  de  copas 
passivo.  Esta  oportunidade  poderia  ter  sido  melhor  aproveitada  caso  tivesse  havido  uma  deslocação 
antecipada dos meios de combate, no entanto, quer a sua limitação em número, quer o avanço rápido da 
frente  de  chamas  que  muitas  vezes  dificultava  a  movimentação  das  viaturas,  impediram  que  esta 
oportunidade fosse aproveitada em todo o seu potencial.  

Pelas  18.10h,  o  incêndio  com  uma  frente  original  a  leste  e  outra  frente  a  oeste,  resultante  do  foco 
secundário que se iniciou por volta das 15.30h, anteriormente referido, e que já tinha uma largura estimada 
de 5km, chegou à estrada nacional N335‐1 que liga a vila da Tocha à Praia da Tocha. Esta via é uma reta com 
aproximadamente 6km de comprimento e 35m de largura média, com um alinhamento perpendicular ao 
avanço  das  frentes  de  fogo.  Cientes  de  que  este  local  poderia  constituir‐se  igualmente  como  uma  boa 
oportunidade  para  travar  a  progressão  do  incêndio,  foi  levantada  a  possibilidade  da  realização  de  uma 
manobra de fogo de supressão no sentido Praia da Tocha para a Vila da Tocha até às Berlengas, uma vez que 
a frente oeste progredia ligeiramente mais atrasada que a frente leste. No entanto, a falta de condições de 
segurança para realizar esta manobra, levou a que não viesse a acontecer. Na Figura 115 pode ver‐se a grande 
intensidade  com  que  o  fogo  chegou  a  esta  zona  eliminando  a  possibilidade  de  uma  intervenção  em 
segurança. 
 

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Figura 115 – Aspeto da frente de fogo à chegada à estrada que liga a vila da Tocha à Praia da Tocha Fonte (fotografia cedida por 
Nuno Osório dos BM da Figueira da Foz). 

O avanço das frentes de fogo provocou ainda um outro foco secundário de maior evidência, o qual teve 
início pouco depois das 19.00h, na Barra de Mira. De entre vários outros focos secundários, esta nova ignição 
destaca‐se pela distância de projeção com cerca de 15km. Para além disso, devido à limitação de meios de 
combate e porque este foco se desenvolveu numa zona húmida delimitada pelo Oceano e pela Ria de Aveiro, 
acabou  por  não  ter  qualquer  intervenção  de  combate,  extinguindo‐se  sozinho  quando  o  fogo  atingiu  o 
combustível  mais  húmido,  mesmo  depois  de  ter  ultrapassado  vários  braços  da  Ria  de  Aveiro  através  da 
projeção de fagulhas.  A formação deste foco secundário foi observada por um popular residente naquela 
área  que  testemunhou  ter  visto  várias  partículas  incandescentes,  aparentemente  cascas  do  tronco  de 
pinheiro (vg. corcódea), a cair no local onde pouco minutos depois se iniciou este novo foco de incêndio. 
 
 

Análise da resposta operacional 

Tal como referido anteriormente, não foram utilizados meios aéreos de combate em qualquer das três 
ocorrências referidas.  A utilização destes meios poderia ter tido consequências positivas no ataque inicial, 
no entanto, a rápida progressão que o fogo assumiu e o aparecimento de diversos focos secundários nesta 
fase, poderiam ter reduzido a eficácia destes meios de combate. Por outro lado, os meios aéreos teriam sido 
um  auxílio  importante  no  combate  ao  foco  secundário  que  surgiu  pelas  15.30h  e  que  progrediu 
paralelamente  à  frente  de  chama  original.  Caso  este  foco  secundário  tivesse  sido  resolvido,  a  forte 
propagação verificada depois das 18.00h, quando os dois focos secundários de incêndio se uniram, poderia 
ter sido mitigada, assim como os seus efeitos. 
Considerando  o  combate  realizado  nas  diversas  ocorrências  como  independente,  a  Figura  116 
apresenta‐se a evolução dos meios de combate unicamente na ocorrência de Cova da Serpe. Nesta imagem 
poderá verificar‐se que houve uma rápida afluência dos meios de combate, sobretudo porque se tratava de 
meios  essencialmente  locais,  visto  que  os  meios  das  corporações  de  bombeiros  vizinhas  estavam 
empenhados no combate às diversas ocorrências que surgiram neste dia e nesta região. A convocatória de 
mais elementos voluntários começou a ficar dificultada por falhas de comunicação das redes móveis, que se 

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começou a verificar depois das 16.00h. Também a comunicação através das redes operacionais (e.g. SIRESP) 
conheceu grande dificuldades a partir desta hora.  
(a)  (b) 

Figura 116 – Evolução dos meios no teatro de operações da ocorrência de Cova da Serpe: a) meios humanos; b) meios materiais 
terrestres (MT). Fonte: ANPC: RO 2017060046330 (Cova de Serpe). Não foi considerada nesta figura a evolução dos meios nas 
ocorrências de Quintã e de Águas Boas. 

De um modo geral, considera‐se que as oportunidades de combate foram bem avaliadas e a estratégia 
previamente delineada, anteriormente descrita, fazia sentido. No entanto, a intensidade extraordinária que 
o  fogo  assumiu,  invalidou  a  implementação  dessa  estratégia,  tal  como  provavelmente  anularia  qualquer 
outra estratégia que tivesse sido definida.  
 
Destaca‐se  a  ausência  de  qualquer  vítima  mortal  neste  complexo  de  incêndios,  o  que  é  reflexo  da 
proteção  feita  às  povoações  e  das  evacuações  efetuadas.  De  acordo  com  os  testemunhos  ouvidos,  as 
operações de evacuação decorreram de forma ordeira na sequência de uma boa articulação entre a GNR e 
as Câmaras Municipais. Vários populares fugiram ao fogo, refugiando‐se nas áreas urbanas, aproveitando 
várias infraestruturas tais como os quarteis de Bombeiros.   
No combate  ao incêndio  o Comandante do CB de  Mira referiu  uma situação em  que um  VTTU ficou 
imobilizado durante o combate. Com a aproximação da frente de fogo, os elementos que o estavam a operar 
mantiveram‐se na defesa do veículo, num sentimento de responsabilidade e apreço pelo equipamento, o 
que  o  Comandante  desta  CB  classificou  como  uma  atitude  altruísta,  mas  simultaneamente  insensata. 
Concordamos totalmente com esta afirmação do elemento de comando, chamando a atenção para os vários 
acidentes mortais que já se verificaram no passado, em episódios em que os Bombeiros e outros cidadãos 
arriscam a sua própria vida para defender bens materiais. Felizmente, neste caso, não se registou qualquer 
acidente pessoal.  

 
3.7. Complexo de incêndios de Vouzela 

Dos sete maiores incêndios com início a 15 de Outubro, o complexo de incêndios de Vouzela foi o último 
a ter início, estando o alerta da primeira ocorrência registado às 17.21h, embora haja indícios que esta ignição 
fora muito anterior, tal como se irá ver na descrição que se segue. 

Como iremos ver adiante, este incêndio resultou de duas ocorrências independentes, que interagiram 
entre  si  –  dois  focos  em  Macieira  de  Alcoba,  que  como  iremos  ver  foi  designado  por  “Ocorrência  de 
Albitelhe”, e um foco em Varzielas. Foi ainda criado um novo relatório de ocorrências (RO 2017180056302) 
com início em Sobreira‐Oliveira de Frades. Esta última ocorrência foi criada com intuitos operacionais, para 
facilitação na disponibilização de meios de primeira intervenção. Não tendo tido um efeito independente 
extraordinário no complexo de incêndios de Vouzela, a descrição desta ocorrência irá ser negligenciada neste 

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relatório,  sendo  considerada  apenas  para  efeitos  de  contabilização  de  meios  presentes  no  teatro  de 
operações generalizado. 

Embora a área do sinistro seja caracterizada por uma topografia complexa e por uma grande carga de 
combustível extremamente seco, tal como os seis complexos de incêndios descritos anteriormente, o vento 
foi o fator com papel mais relevante neste complexo de incêndios.  

Alerta e causa de incêndio 

O alerta oficial do incêndio de Albitelhe está registado às 17.21h, tendo‐se sucedido a vários telefonemas 
feitos por populares e por elementos dos Bombeiros pelas 17.16h. Há, no entanto, um grupo de pessoas da 
Aldeia de Urgueira, a cerca de 600m de um dos focos deste incêndio, que afirmam que o fogo terá começado 
por volta das 16.30h, sem que haja registo da sua comunicação para a linha de emergência, ou para qualquer 
entidade de proteção civil.   Este é um aspeto que merece reflexão porque estas pessoas que afirmam ter 
visto o incêndio na sua fase inicial, contavam que o alarme fosse dado por outras pessoas que vissem a coluna 
de fumo, tendo‐se dispensado desse dever de cidadania – este não é um caso único nos incêndios analisados. 
Por outro lado, custa a perceber que, tendo as primeiras ignições surgido junto a uma rodovia, mesmo que 
de tráfego reduzido, durante os 45 minutos que decorreram entre a suposta hora de ignição e a hora de 
alarme, não tivesse passado nenhum condutor que, ao ver o fogo desenvolvido, sem a presença de qualquer 
agente de proteção civil ou autoridade no local, não comunicasse de imediato a ocorrência.  

Os  dias  que  antecederam  este  incêndio  foram  marcados  por  várias  ocorrências  de  menor  dimensão 
nesta  região.  Devido  à  grande  probabilidade  de  reacendimentos,  e  também  devido  ao  elevado  risco  de 
incêndio previsto para o dia 15/Out, vários meios de combate de diferentes corporações já se encontravam 
em vigilância. Infelizmente, nenhuma destas equipas detetou prematuramente este incêndio que, tal como 
se referiu anteriormente, já poderia vir a lavrar desde as 16.30h. Desta forma, devido à forte presença de 
agentes no terreno, quando pelas 17.21h foi dado o alerta, a chegada dos primeiros meios de combate ao 
local aconteceu em menos de 10 minutos.  

Logo depois  do alerta, foram avistados por  uma equipa  de  bombeiros que fazia vigilância  dois focos 


distintos que inicialmente pareciam distar de 2km, tal como registado no relatório de ocorrências, mas que 
se veio a verificar estarem a cerca de 600m um do outro. Para além disso, logo no momento do alerta, os 
mesmos  Bombeiros  puderam  observar  duas  colunas  de  fumo  com  grande  dimensão,  o  que  sustenta  a 
hipótese de que o fogo possa ter tido início bastante antes de ter sido dado o alerta. Supõe‐se que se tenham 
tornado mais visíveis quando as frentes de chama dobraram a linha de cumeada e permitiram uma melhor 
linha de visibilidade a norte. É também possível que as colunas de fumo que se foram desenvolvendo se 
confundissem com o ambiente de fumo generalizado que resultava dos incêndios de Oliveira do Hospital e 
da Lousã, os quais se avistavam a grande distância.  

Devido  ao  estado  já  desenvolvido  dos  focos  de  incêndio  quando  foi  dado  o  alarme,  e  porque  a 
confirmação foi feita a alguma distância por intermédio das equipas de vigilância, o incêndio foi dado como 
tendo  início  em  Albitelhe,  no  Concelho  de  Vouzela  do  Distrito  de  Viseu.  No  entanto,  as  entidades  que 
analisaram o incêndio chegaram à conclusão, com a corroboração da ADAI, de que ambos os focos terão tido 
início  em  Macieira  de  Alcoba,  no  Concelho  de  Águeda,  no  Distrito  de  Aveiro.  Destaca‐se  que  estas  duas 
localidades são adjacentes e que a distância do local das ignições ao Concelho de Vouzela é de apenas 150m. 
No momento em que a ADAI realizou a visita à área inicial do incêndio, cerca de 5 meses depois, os indícios 

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não permitiam chegar a uma conclusão efetiva sobre o ponto de origem dos dois focos. Analisando os pontos 
de ignição determinados pelas autoridades competentes, conclui‐se que são bastante plausíveis, pelo que se 
irão admitir como válidos. Estes pontos são apresentados na Figura 117. 

 
Figura 117 – Localização dos dois pontos de ignição da ocorrência de Albitelhe. 

Não havendo fontes típicas de ignição nas proximidades, nem tampouco episódios de outros incêndios 
que  possam  sugerir  tratar‐se  de  focos  secundários,  os  autores  deste  relatório  deduzem  que  estes  focos 
tenham tido causa humana. Para além disso, a sua localização na mesma margem indicia uma ignição a partir 
da estrada, sendo muito provável a intencionalidade do ato de ignição. Embora seja junto a uma estrada, o 
facto  de  serem  duas  ignições  diminui  a  probabilidade  de  ignição  acidental  por  beata  de  cigarro.  Não  se 
encontraram indícios de queima ou queimada nas proximidades. 

Salienta‐se  igualmente  que  este  local  vinha  sendo  fustigado  por  várias  ignições  sem  uma  explicação 
evidente que não a de “fogo posto”. Uma destas ignições surgiu três semanas antes, junto à mesma estrada, 
perto do Foco 1, consumindo uma faixa aproximadamente retangular, com cerca de 50m de largura, desde 
a estrada até à linha de cumeada – neste caso, ao contrário do dia 15 de outubro, o vento soprava de norte, 
em sentido contrário ao declive, o que facilitou o combate.  

Propagação inicial do fogo e ataque inicial 

Os primeiros Bombeiros a chegar ao teatro de operações pertencem à Secção de São João do Monte (CB 
de  Vale  de  Besteiros),  o  que  terá  acontecido  pelas  17.30h.  Chegados  ao  local,  depararam‐se  com  uma 
situação de difícil controlo em ataque inicial. Chegando primeiro ao Foco 2 através da estrada M574 (Figura 
118) onde se tinham dado as ignições verificaram que o fogo estava a ser empurrado pelo vento para a linha 
de cumeada, a qual já teria sido supostamente ultrapassada, e para a faixa que havia ardido três semanas 
antes, anteriormente referida. Pouco havendo a fazer a partir da sua localização, enquanto esperavam por 
mais  meios,  dirigiram‐se  ao  Foco  1,  onde  constataram  uma  vez  mais  a  sua  impotência  perante  o 
desenvolvimento que o fogo já tinha assumido. Desta forma, seguiram na estrada M574 com o intuito de 
entrar numa estrada de terra (“estradão” na Figura 118) que presumivelmente lhes permitiria contornar o 
perímetro do fogo. Neste percurso, viram um grupo de pessoas munidas por um kit de primeira intervenção, 

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vir em fuga no sentido contrário dizendo que o fogo já tinha ultrapassado a estrada de terra e que estava 
incontrolável,  propagando‐se  velozmente  na  direção  de  Albitelhe.  Nesta  altura,  pelas  18.00h,  chegavam 
vários outros meios de combate ao teatro de operações. 

 
Figura 118 – Situação do incêndio pelas 18.00h. 

Na  fase  inicial  o  fogo  progrediu  numa  conjugação  perfeita  das  suas  três  principais  condicionantes: 
declive acentuado, vento forte com rajadas alinhado com o declive e uma elevada carga de combustível com 
baixa humidade em floresta mista de pinhal e eucaliptal e com um subcoberto denso dominado por tojo e 
carqueja com uma altura média próxima de 1m (Figura 119). O vento, o combustível e o declive dominavam 
o processo de combustão inicial, sendo baixo o efeito da interação entre os dois incêndios devido não apenas 
à distância entre eles, mas também devido à existência da faixa previamente queimada que os intermediava. 
A  união  entre  os  dois  focos,  apenas  se  deu  depois  de  ambos  atravessarem  a  linha  de  cumeada,  com  um 
crescimento lateral típico desta conjugação de vento e topografia, que tem vindo a ser estudada pela ADAI. 
O efeito da sua junção foi diluído pela sua interação com vários focos secundários que, entretanto, surgiram, 
levando à formação de uma única área complexa de chamas com várias frentes que interagiam. 

(a)  (b)  (c) 

     
Figura 119 – Imagens representativas da carga e tipo de combustível florestal nos focos de ignição 1 (a) e 2 (b) a partir do de 
imagens de 2013 do Google Earth (Street View); c) imagem atual de uma zona vizinha não ardida representando a carga e tipo de 
combustível florestal típico antes da passagem do fogo. 

A progressão do fogo era de tal ordem que às 18.09h, a importância da ocorrência passou para “elevada” 
e às 18.42h, apenas 1h12m depois do alerta, já estavam em marcha procedimentos de evacuação de várias 
aldeias afastadas a vários quilómetros do local de início.  

A junção dos focos 1 e 2, e dos vários focos secundários que surgiram, originou duas frentes principais 
que poderão ser observadas na Figura 120. A primeira frente desenvolveu‐se para norte na direção de Selores 

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e Silvares progredindo ao longo de dois desfiladeiros que orientaram o fogo para estas duas localidades. A 
segunda frente de chamas progrediu igualmente para norte, ao longo de um desfiladeiro que a dirigiu para 
Albitelhe.  A  situação  já  era  muito  difícil  quando  pelas  18.45h,  com  o  vento  a  aumentar  ainda  mais  de 
intensidade, surgiram vários focos secundários a norte, resultantes de diversas projeções a várias dezenas 
ou mesmo a algumas centenas de metros. A situação tornou‐se ainda mais descontrolável quando surgiu 
uma nova ocorrência em Varzielas, a cerca de 9km de distância, para onde os meios de Vale de Besteiros 
foram desviados.  

 
Figura 120 – Situação dos dois incêndios pelas 19.00h. 

Quando por volta das 19.00h chegaram ao local da ignição de Varzielas, os Bombeiros deparam‐se, uma 
vez mais, com um foco já muito desenvolvido, a progredir essencialmente por projeção de partículas e de 
controlo supostamente impossível. A preocupação imediata foi a proteção das aldeias a jusante, sobretudo 
a aldeia de Nogueira que estava a ser ameaçada por dezenas de focos secundários que para ela se dirigiam. 

Uma vez que os ventos sopravam de Sul para norte, a ignição de Varzielas, a leste, foi considerada como 
tendo origem criminosa. Não refutando em absoluto estas conclusões, os autores deste relatório admitem 
também a possibilidade de esta ignição se constituir como um foco secundário resultante da projeção de 
partícula(s) incandescente(s) provenientes do Incêndio da Lousã. Como vimos no subcapítulo respetivo, entre 
as 18.00h e as 19.00h, o incêndio da Lousã, com a frente de chamas a cerca de 20km, teve uma propagação 
muito intensa para norte, num alinhamento perfeito com a ignição registada em Varzielas (Figura 121), pelo 
que se admite esta possibilidade. Se antes a situação era de controlo virtualmente impossível, a partir desta 
nova ocorrência a situação tornou‐se ainda mais complicada. 

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Figura 121 – Demonstração do alinhamento do sentido de propagação do incêndio da Lousã quando surgiu o Foco de Varzielas.  

O  pedido  de  reforços  foi  inviabilizado  pelo  empenhamento  de  meios  nas  restantes  ocorrências  que 
estavam  numa  situação  igualmente  difícil.  Os  meios  aéreos,  mesmo  os  de  primeira  intervenção, 
encontravam‐se  nos  teatros  de  operação  dos  restantes  incêndios  que  decorriam  em  simultâneo,  mas, 
mesmo  que  estivessem  nas  imediações,  a  sua  atuação  seria  difícil,  devido  à  turbulência  atmosférica,  e 
sobretudo ineficaz, devido ao grande número de focos secundários que iam surgindo consecutivamente. 

Devido  à  grande  extensão  da  área  de  sinistro  numa  fase  tão  precoce  e  em  virtude  da  perceção  do 
potencial da ocorrência, a sua coordenação inicial não foi tão geral quanto seria desejável. O facto de se 
tratar de um incêndio que ameaçava simultaneamente vários concelhos, fez com que os meios se dedicassem 
à proteção do seu concelho comprometendo uma estratégia global da ocorrência, a qual foi prematuramente 
assumida como incontrolável em ataque inicial. Desta forma, conceitos básicos como a organização de um 
posto  de  comando  foi  desde  logo  secundarizada  e  os  meios  passaram  a  ser  geridos  não  por  um  único 
comandante de operações, mas, após indicações iniciais do comandante de operações, de forma sectorial 
pelos comandantes em exercício de cada corporação de cada município. Neste sentido, e ainda por indicação 
do COS, os meios de Águeda foram‐se estendendo na cauda do incêndio a SW, os meios de Oliveira de Frades 
protegeram o flanco a oeste, os meios de Vale de Besteiros (Tondela) tentavam impedir o avanço do fogo a 
SE, tendo mais tarde sido desviados para o foco em Varzielas. Os meios de Vouzela, a norte, foram tentando 
conter o avanço do fogo no seu concelho, embora muitos destes meios estivessem realmente empenhados 
na defesa das povoações a que o fogo chegava de forma acelerada. 

Desenvolvimento do incêndio 

A Figura 122 apresenta uma estimativa da progressão do fogo no incêndio de Vouzela. Tal como referido 
anteriormente,  houve  neste  complexo  dois  episódios  de  ignição  independentes:  o  episódio  de  Albitelhe 
(Macieira de Alcoba), entre as 16.30h e as 17.20h, com dois focos de incêndio, e o foco de Varzielas, pelas 
18.50h. A progressão inicial de cada um dos episódios foi no sentido S‐N, tal como o sentido do vento, que 
pelas 23.00h sofreu uma rotação para SW dirigindo o fogo para NE. 

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Figura 122 – Estimativa da progressão do fogo no complexo de incêndios de Vouzela. 

A  descrição  da  evolução  do  fogo  na  ocorrência  de  Albitelhe  até  às  19.00h  foi  feita  anteriormente 
enquanto propagação inicial. A partir desta hora, os dois focos unidos continuaram a progredir para norte, 
sobretudo através de focos secundários, a uma velocidade tal que, pelas 20.00h já se encontrava no limite a 
norte do concelho de Vouzela, a mais de 6km de distância apanhando várias pessoas desprevenidas.  

O foco de Varzielas, numa fase mais atrasada, progredia igualmente para norte desenvolvendo‐se em 
numa frente para noroeste e noutra para nordeste. A frente a noroeste acabou por se extinguir na chegada 
ao  aglomerado  de  povoações  de  Alcofra  e  Sanfins  que  tiveram  uma  proteção  periférica  feita  pelos 
Bombeiros. No entanto, desta frente terá resultado um foco secundário para norte destas povoações que 
limitou o sucesso do combate feito. A frente de nordeste continuou a sua progressão para NNE, conduzida 
pelo vento, e para leste, orientada pelo declive em que destaca um desfiladeiro de grandes dimensões no 
sentido W‐E, a leste da povoação de Nogueira. 

Para além da frente principal da ocorrência de Albitelhe que evoluía a grande velocidade no sentido de 
Santa  Cruz  da  Trapa,  por  volta  das  22.00h,  havia  outras  três  frentes  com  interação  crescente:  1)  frente 
Centro‐oeste,  proveniente  dos  focos  1  e  2,  que  evoluía  no  sentido  Albitelhe  –  Levides;  2)  frente  central, 
resultante do foco secundário causado pela ocorrência de Varzielas para norte de Alcofra, progredindo para 
Chãs a NE; e 3) frente de Varzielas, a leste, progredindo para NE com o flanco esquerdo junto a Carvalhal de 
Vermilhas. Por volta das 22.30h, estas três frentes juntaram‐se provocando uma única frente com grande 
intensidade e com uma largura superior a 7km que se dirigiu para nordeste. Foi também por volta das 22.30h 
que o vento sofreu um aumento grande na sua velocidade e uma rotação passando a soprar com constância 
de sudoeste – antes, a direção do vento ia alternando entre S‐N e SSW‐NNE – o que facilitou a junção das 
frentes.  Este  episódio  teve  um  efeito  decisivo  na  devastação  que  se  verificou  a  partir  desta  hora  e  nas 
tragédias que se verificaram a nordeste da área queimada.  

A  mudança  da  direção  e  o  aumento  da  intensidade  do  vento  provocou  um  aumento  grande  da 
velocidade de propagação da frente a oeste fazendo com que o fogo chegasse Oliveira de Frades por volta 

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das 23.00h, deixando pelo caminho um território devastado e sete vítimas mortais a lamentar (cf. Capítulo 
4).  Este  episódio  de  vento  forte,  que  se  prolongou  por  cerca  de  3  horas,  provocou  o  aparecimento  de 
centenas de focos secundários a uma distância tão longa que nem tampouco permitia que interagissem de 
forma a que se juntassem. A área retalhada em Santa Cruz da Trapa, a norte do perímetro do incêndio, onde 
o  fogo  chegou  por  volta  das  01.00h,  é  exemplificativa  deste  fenómeno.  A  variação  da  velocidade  de 
propagação do fogo nas duas ocorrências principais e a taxa de crescimento da área ardida no complexo de 
incêndios é apresentada na Figura 123.  

 
Figura 123 – Apresentação dos resultados do cálculo da velocidade média de propagação da frente principal nos dois incêndios do 
CIF de Vouzela, acompanhado do sentido da propagação (setas) e da taxa média de crescimento da área ardida no complexo de 
incêndios. 

Com a redução da velocidade do vento e com o aumento da humidade relativa do ar ao longo da tarde 
de 16 de outubro, o fogo foi perdendo condições de propagação. Pelas 24.00h deste dia, começou a chover 
favorecendo as pretensões do combate ao fogo e fazendo com que o incêndio entrasse em fase de conclusão 
às  02.42h.  Mesmo  com  chuva,  nos  dias  seguintes  verificaram‐se  algumas  reativações,  muitas  vezes  em 
construções, pelo que a ocorrência apenas foi encerrada às 18.10h do dia 19 de outubro. 

Análise da resposta operacional 

Os  meios  disponíveis  no  ataque  inicial,  embora  insuficientes  para  o  controlo  da  situação,  foram  em 
grande número, devido ao pré‐posicionamento dos meios de combate anteriormente referido. Pelas 18.00h, 
menos de 40 minutos depois do alerta, já se encontravam neste teatro de operações mais de 70 operacionais 
(Figura 124), o que demonstra bem a rápida reação a esta ocorrência. Salienta‐se que vários recursos de 
combate das corporações locais estavam empenhados nas ocorrências da Lousã e de Oliveira do Hospital. 
Tendo esta sido a última grande ocorrência do dia, os meios de outras áreas não afetadas ou ameaçadas pelo 
incêndio encontravam‐se empenhados noutros teatros de operação. Assim, o combate a estes incêndios nas 
primeiras 12 horas foi realizado por meios locais, resultando num efetivo total superior a 170 operacionais. 
Tendo sido dado o alerta cerca de 45minutos antes do cair da noite, não houve meios aéreos a atuarem neste 
complexo de incêndios, nem no dia 15 de Outubro por razões óbvias, nem no dia seguinte em que os diversos 
meios aéreos se encontravam empenhados noutras ocorrências e a situação neste complexo de incêndios 
era mais favorável. 

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(a)  (b) 

Figura 124 – Evolução dos meios no(s) teatro(s) de operações: a) meios humanos; b) meios terrestres (MT) no Complexo de 
incêndios de Vouzela. Fonte: ANPC: RO 2017180056272 (Albitelhe), RO 2017180056290 (Varzielas) e RO 2017180056302 (Sobreira). 

Depois das 21h00, com o sistema de comunicações inoperativo, não houve uma estratégia de combate 
integrado neste teatro de operações. Neste período, a maior parte dos meios andava desgarrada nas suas 
áreas de intervenção, numa atitude compreensível, face à situação, em que cada corporação defendia o seu 
concelho. Numa fase inicial, as viaturas circulavam na sua área em brigadas constituídas e mais ou menos 
organizadas, mas depois das 22.30h, quando o fogo conheceu um novo episódio de grande intensidade, as 
equipas perderam ligação entre si, passando a atuar de forma individual, sempre na proteção de pessoas e 
habitações. A partir desta hora, os populares em pânico faziam de tudo para que os Bombeiros protegessem 
os seus pertences, havendo situações em que chegavam a bloquear agressivamente os veículos de combate 
em trânsito para que eles não abandonassem a área.  

Desde uma fase inicial, com o grande potencial do incêndio unanimemente reconhecido, todos os meios 
disponíveis das diversas autarquias em risco já se encontravam empenhados, pelo que a ativação dos planos 
municipais de emergência que se verificaram nas horas seguintes, consistiram numa mera formalidade, visto 
que todos os procedimentos já estavam em marcha e todas as entidades estavam em contacto. 

Quando  a  perda  de  controlo  do  incêndio  foi  assumida,  face  aos  inúmeros  focos  secundários  que 
emergiam em diversos locais, a estratégia foi a de setorizar o teatro de operações com os meios a serem 
distribuídos  em  função  do  município  de  onde  provinham.  Esta  foi  uma  estratégia  que  de  alguma  forma 
permitia uma coordenação centralizada de todo o sinistro. No entanto, com o aumento da dificuldade de 
comunicações,  esta  estratégia  rapidamente  se  esgotou,  tendo  cada  corporação  passado  a  atuar 
autonomamente e com as diversas entidades com pouca ligação entre si. Assim, desde uma fase precoce que 
este complexo de incêndios deixou de ter uma coordenação geral. Refere‐se que a localização do posto de 
comando operacional nunca foi definida e que as alterações do comando de operações nem sempre foram 
registados,  nem  sequer  os  operacionais  no  terreno  ou  o  comandante  dos  supostos  setores  tinham  esta 
informação. Não havendo informação da localização do PCO, pelas 11.00h do dia 16 de outubro, com quatro 
vítimas mortais encontradas e um perímetro de incêndio de várias dezenas de quilómetros, mas com o fogo 
a progredir de forma desacelerada, um dos autores deste relatório dirigiu‐se ao Quartel do CB de Vouzela, 
onde  as  operações  de  resposta  ao  incêndio  neste  concelho  eram  supostamente  coordenadas.  Aqui, 
encontrou um comandante de operações exausto pelo fatigante trabalho que desempenhou desde o início 
do  incêndio,  um  desconhecimento  completo  da  real  extensão  do  incêndio,  dúvidas  sobre  a  verdadeira 
localização dos operacionais no terreno e uma total falta de informação sobre aspetos essenciais como por 
exemplo as previsões meteorológicas, a que se juntava a impossibilidade de comunicações por falência deste 
sistema.  Perante  este  cenário,  a  coordenação  das  operações  ou  a  definição  de  qualquer  estratégia  era 
totalmente inexistente, e a chegada da chuva foi o fator que realmente travou a continuidade do complexo 

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de incêndios. Seguramente que a substituição do comandante de operações por alguém menos extenuado 
e, consequentemente, com mais capacidade de decisão, a alteração do posto de comando para uma zona 
onde  as  comunicações,  embora  seguramente  difíceis,  fossem  possíveis,  e  o  envio  de  um  elemento  para 
reconhecimento avançado da situação do incêndio, tornaria a coordenação das operações mais eficiente. 

3.8. Análise integrada do comportamento do fogo 

A  análise  ao  comportamento  do  fogo  anteriormente  apresentada  foi  quase  sempre  realizada 
considerando cada incêndio de forma isolada. No entanto é importante perceber a forma como os incêndios 
evoluíram no seu conjunto.  A sequência de imagens da Figura 125 permite perceber melhor esta evolução 
conjunta que se iniciou com uma propagação para NNE em todos os CIF até cerca das 22.00h, quando o vento 
passou a soprar com maior componente de leste rodando paulatinamente a direção da propagação do fogo 
para NE. Os efeitos desta rotação do vento fazem‐se sentir sobretudo nos CIF mais interiores em que parte 
do flanco direito da área ardida reativou para se constituir como uma frente alargada de fogo por volta da 
meia noite. No CIF da Sertã, este efeito não se notou porque, como foi referido antes, o perímetro final destes 
incêndios foi altamente definido por áreas anteriormente ardidas. Nos incêndios mais costeiros – CIF Leiria 
e CIF Quiaios –, a maior humidade relativa noturna do ar trazido do Oceano Atlântico poderá ter diminuído 
a energia térmica das áreas anteriormente ardidas, fazendo uma espécie de rescaldo natural, o que mitigou 
o efeito de reativação do flanco. 

(a)  (b) 

   
(c)  (d) 

   

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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
(e)  (f) 

   
Figura 125 – Sequência de imagens da situação geral dos sete complexos de incêndios analisados neste estudo. 

 A  velocidade  de  propagação  da  média  das  frentes  de  chama  de  cada  complexo  de  incêndios  é 
apresentada na Figura 126a, sendo possível verificar que estes valores são sempre bastante altos, ao longo 
de todo o dia 15 de outubro e início do dia 16. Quase todos os  incêndios se caracterizam por velocidade 
médias entre 2 e 5ms‐1, destacando‐se três picos entre 7 e 8m.s‐1 nos CIFs da Lousã e de Oliveira do Hospital. 
O incêndio de Cova da Serpa foi aquele que registou maiores valores médios de propagação, embora num 
período de tempo mais curto – este resultado pode conduzir a ilações erradas não apenas porque não reflete 
valores pontuais, mas também porque foi obtido tendo como base apenas a ocorrência principal de Cova da 
Serpa.  Por  outro  lado,  o  CIF  de  Seia  foi  aquele  que  aparentemente  apresenta  valores  de  velocidade  de 
propagação  mais  baixos,  o  que  se  deve  à  topografia  acidentada  da  região  que  criava  ventos  locais  com 
diferentes direções, fazendo com que a frente de chama não progredisse sempre alinhada com os ventos 
dominantes de sul e sudoeste.   

(a)  (b) 

Figura 126 – Variação da velocidade de propagação média das frentes de chama de cada complexo de incêndios (a) e a taxa de 
crescimento da área ardida (b). 

A taxa de crescimento da área ardida apresentada na Figura 126b permite verificar a rápida e crescente 
evolução que estes incêndios tomaram depois das 16.00h e até cerca da 01.00h. Como seria de esperar, os 
CIFs da Lousã e de Oliveira do Hospital destacam‐se pela maior taxa de crescimento, o que resulta da grande 
extensão do flanco direito destes CIF que reativou quando o vento passou a soprar com maior componente 
de leste. O CIF da Sertã também aumentou drasticamente a sua área ardida depois das 22.00h, quando o 
incêndio de Maria Gomes se aproximou da área ardida do CIF de Oliveira do Hospital, passando a sofrer uma 
grande influência deste incêndio. Tal como referido anteriormente, devido ao forte vento e à formação de 
muitos  focos  secundários,  a  área  circunscrita  pelo  perímetro  exterior  de  cada  complexo  de  incêndios 

CEIF/Universidade de Coimbra  148 
 
Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
apresenta várias zonas não ardidas, vulgarmente descritas como “ilhas”. A relação entre a área efetivamente 
queimada e a área circunscrita, dá uma noção da relevância que os focos secundários tiveram no incêndio. 
No entanto, uma relação próxima ou igual à unidade, em que não existem ilhas, não representa que não 
tivessem havido focos secundários, uma vez que vários focos de incêndio podem juntar‐se formando um 
contínuo de área queimada. Isto acontece nas áreas com orografia suave e, tal como se pode verificar na 
Tabela 16, é o que acontece nos CIFs de Leiria e Quiaios.  Nesta tabela pode verificar‐se que o CIF de Vouzela 
é aquele que apresenta uma maior área de ilhas no interior da área circunscrita pelo perímetro do complexo 
de incêndios, o que pode ser facilmente observado na Figura 127 onde a área efetivamente queimada foi 
representada. A área do CIF de Seia apresenta um valor próximo da unidade o que se deve a grande variação 
local do sentido de propagação da chama que resultava da topografia acidentada e da formação de ventos 
locais que faziam com que o fogo retrocedesse frequentemente fazendo com que áreas anteriormente não 
queimadas fossem consumidas numa segunda vaga de chamas.  

Tabela 16 – Relação entre a área efetivamente ardida e a área circunscrita pelo perímetro do fogo nos vários complexos de incêndio 
analisados. 

CIF  Área ardida (ha)  Área circunscrita (ha)  Á. ardida/Á. circunscrita 


Seia  17003  17100  0,99 
Lousã  54407  68232  0,80 
Ol. do Hospital  51429  66425  0,77 
Sertã  30977  34676  0,89 
Leiria  20014  20122  0,99 
Quiaios  23844  24105  0,99 
Vouzela  15959  34903  0,46 
 

 
Figura 127 – Imagem geral dos sete complexos de incêndio mostrando as áreas não queimadas (v.g “ilhas”) de alguns incêndios. 

A importância do efeito do vento num incêndio é normalmente deduzida por observação da forma final 
da  área  queimada.  Normalmente  um  incêndio  fortemente  influenciado  pelo  vento  apresenta  uma  forma 

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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
afilada  que,  tal  como  referido  anteriormente,  se  designa  vulgarmente  por  “forma  em  charuto”.  Se 
negligenciarmos o efeito da topografia e do arranjo de combustíveis, o perímetro teórico de um incêndio não 
sujeito à ação do vento, teria uma forma circular. Se analisarmos a relação de forma entre o comprimento 
médio  e  a  largura  média  da  área  ardida  (Tabela  17)  poderemos  aperceber‐nos  quais  os  incêndios  cujo 
comportamento do fogo foi mais influenciado pelo vento em relação aos outros fatores principais como a 
topografia, o arranjo de combustíveis ou mesmo a intervenção de combate. Como seria de esperar, os CIFs 
costeiros de Leiria e Quiaios, que evoluíram num terreno topograficamente pouco acidentado e vegetação 
praticamente  homogénea,  apresentam  uma  influência  do  vento  muito  forte.  Os  restantes  incêndios 
apresentam igualmente uma grande influência do vento (relação de forma inferior a 0,5), sendo, no entanto, 
mais atenuada sobretudo devido aos efeitos da topografia no comportamento do fogo. Destaca‐se o CIF da 
Sertã que, mesmo desenvolvendo‐se numa zona montanhosa, apresenta um fator de forma bastante baixo, 
o que é reflexo não apenas do efeito do vento meteorológico, mas também do efeito do CIF de Oliveira do 
Hospital que se desenvolvia mais a norte. O efeito dos dois CIFs alinhados deveria refletir‐se igualmente no 
CIF de Oliveira do Hospital que apresenta uma relação de forma superior. No entanto, se atentarmos apenas 
aos incêndios com maior relação deste CIF – v.g. os incêndios de Esculca e de Monte Frio/Relva Velha, visto 
que as ignições de Sandomil e de Casas Figueiras são independentes – a largura média da área ardida passa 
a ser de 9km, o que conduz a um valor de relação de forma de 0,22. 

Tabela 17 – Relação entre o comprimento médio e a largura média da área ardida nos principais incêndios analisados. 

Largura média  Comprimento  Larg. média/Comp. 


Complexo de incêndios 
(km)  médio (km)  médio  
Seia  8  24  0,33 
Lousã  15  49  0,31 
Ol. do Hospital  15  41  0,37 
(Esculca+M. Frio/R. Velha)  (9)  (41)  (0,22) 
Sertã  8  36  0,22 
Leiria  5  43  0,12 
Quiaios (C. da Serpe)  6  35  0,17 
Vouzela (Albitelhe)  6  17  0,35 
Vouzela (Varzielas)  7  14  0,50 
 

3.9. Análise integrada da resposta operacional 

Excetuando  os  complexos  de  incêndios  da  Lousã  e  de  Seia,  os  meios  que  intervieram  nas  restantes 
ocorrências foram sobretudo meios dos concelhos que estavam a ser afetados ou ameaçados. De entre as 
várias ocorrências, a da Lousã foi claramente aquela com mais meios externos dedicados, o que resultou do 
facto de, a par de Seia, ter sido uma das primeiras grandes ocorrências deste dia.  

Na Figura 128a representa‐se o efetivo operacional registado nos diversos relatórios de ocorrência que 
fazem parte de cada complexo de incêndios, no entanto, os valores apresentados devem ser analisados com 
algumas  reservas,  uma  vez  que  os  dados  de  saída  de  meios  registados  nos  relatórios,  nem  sempre 
corresponde à realidade, tendo havido equipas que deixaram o teatro de operações quando outros incêndios 
afetavam o seu concelho de proveniência, sem que isso esteja devidamente registado. Estes lapsos nas fichas 
de ocorrência, a par com outros lapsos dos mais variados âmbitos, são uma constante nestes documentos, o 
que  já  foi  reportado  por  nós  em  relatórios  anteriores.  Considerando  o  grande  valor  documental  destes 

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relatórios, tanto do ponto de vista operacional, como legal, consideramos que a metodologia de registo das 
ocorrências deve ser bastante melhorada. 

(a)  (b) 

Figura 128 – Evolução do número de operacionais presentes nos teatros de operações dos diversos complexos de incêndio e de 
acordo com os registos dos relatórios de ocorrência: a) Complexos de incêndios do dia 15 de outubro; b) Complexos de incêndios 
desde 2012. 

Fazendo  uma  comparação  da  evolução  do  efetivo  operacional  nos  maiores  incêndios  ocorridos  em 
Portugal  nos  cinco  anos  que  antecederam  2017  (Figura  128b),  constata‐se  que  o  envio  de  meios  para  a 
ocorrência da Lousã não apenas esteve ao nível dos maiores incêndios registados, como teve uma chegada 
ao  teatro  de  operações  que  foi  mais  rápida.  Este  dado  assume  maior  relevo  pelo  facto  de  os  maiores 
incêndios  de  anos  anteriores  terem  ocorrido  na  Fase  Charlie,  enquanto  os  incêndios  de  15  de  outubro 
ocorreram  na  Fase  Delta,  com  um  menor  dispositivo  operacional  disponível  em  permanência.  Para  além 
disso, a fase crítica dos incêndios de 15 de outubro teve uma duração muito inferior à dos restantes grandes 
incêndios, o que diminuiu o tempo de reação para alocação de meios.  Naturalmente que o nível de prontidão 
definido para este dia, o qual não se registava nas outras ocorrências, foi crucial na rápida alocação de meios.  

Devido ao contingente alocado na ocorrência da Lousã, o efetivo operacional nas restantes ocorrências 
foi  consideravelmente  mais  baixo.  Se  fizermos  uma  comparação  de  situações  com  ocorrências  em 
simultâneo, verifica‐se que nas ocorrências de Pedrogão Grande e de Gois, ambas com início a 17 de Junho 
de  2017,  o  número  de  efetivos  ao  fim  do  primeiro  dia  foi  de  740  operacionais,  quando  no  conjunto  de 
incêndios de 15 de Outubro, o número de operacionais na 24ª hora foi superior a 2000. Uma vez mais se 
deixa em aberto a possibilidade de estes números não corresponderem exatamente à realidade, no entanto, 
as dificuldades na contabilização de operacionais foi igualmente reportada nas ocorrências anteriores, pelo 
que os desvios existentes deverão ser comparáveis. 

 Ao nível da intervenção nas primeiras seis horas do sinistro (Figura 129), verifica‐se que a ocorrência da 
Lousã  teve  uma  resposta  muito  mais  efetiva  do  que  os  restantes  grandes  incêndios.  Mesmo  com  esta 
ocupação de meios, as restantes seis ocorrências de 15 de outubro tiveram uma resposta nas primeiras seis 
horas que se situa claramente acima da média registada nos restantes grandes incêndios.  

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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
(a)  (b) 

   
Figura 129 – Evolução do número de operacionais presentes nos teatros de operações dos maiores incêndios ocorridos em Portugal 
entre 2012 e 2017 nas primeiras 6 horas da ocorrência. 

A Figura 130 apresenta uma análise que relaciona a evolução dos meios em função da área circunscrita 
pelo perímetro exterior dos incêndios (Figura 130a) e do tempo decorrido desde o primeiro alerta no CIF de 
Seia (Figura 130b). Como seria de esperar, com a evolução do incêndio, o número de operacionais por hectare 
diminui. Pode verificar‐se que, embora o CIF da Lousã se evidencie pelo número de operacionais afetos em 
função  da  área  circunscrita,  esta  diferença  desvanece‐se  quando  se  avalia  a  evolução  do  número  de 
operacionais por área de incêndios em função do tempo decorrido. Nas primeiras 12 horas de incêndio, a 
ocorrência  de  Seia  apresenta  um  número  de  operacionais  por  hectare  inferior  à  média  dos  restantes 
incêndios,  no  entanto,  esta  tendência  inverte‐se  depois  deste  período  em  virtude  da  maior  taxa  de 
crescimento de área ardida que os restantes complexos de incêndios tiveram depois deste período, tal como 
analisado  na  Figura  126.  Salienta‐se  o  decréscimo  de  operacionais  por  hectare  nos  CIFs  de  Oliveira  do 
Hospital e de Quiaios depois das 16.00h o que resultou num grande aumento da taxa de crescimento de área 
ardida  depois  desta  hora,  sem  que  tivesse  havido  a  devida  compensação  em  termos  de  operacionais  no 
teatro de operações. 

(a)  (b) 

   
Figura 130 – Evolução do número de operacionais no teatro de operações em função da área ardida (a) e do número de 
operacionais por área circunscrita pelo perímetro de incêndio em função do tempo decorrido desde o alerta (b) em cada complexo 
de incêndios do dia 15 de outubro. Atenção: eixo da ordenadas em escala logarítmica. 

Quando numa mesma região existem vários grandes incêndios a decorrer em simultâneo, a resposta 
operacional é mais difícil, uma vez que os recursos têm de ser distribuídos racionalmente em função das 
características  de  cada  evento.  Fazendo  a  análise  anteriormente  descrita  para  o  conjunto  de  alguns  dos 
principais incêndios entre 2012 e 2017, verifica‐se que embora rápida e envolvendo um grande dispositivo, 
o  número  de  operacionais  por  hectare  ardido  ao  longo  do  tempo  do  sinistro  foi  mais  baixo  nos  grandes 
eventos de 2017, com maior destaque nos de 15 de outubro. Para este resultado contribuem vários aspetos 
dos quais se destaca a grande taxa de crescimento de área ardida (ha.h‐1) dos eventos de 2017 nas primeiras 
24 horas do sinistro, quando nas restantes ocorrências a progressão do incêndio era mais duradouro com 
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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
menores velocidades médias de propagação diárias. Para além disso, a dimensão da área ardida foi muito 
superior nos conjuntos de incêndios de 2017 o que, sobretudo nos incêndios de 15 de outubro, esgotaram a 
capacidade de resposta. Refere‐se ainda o grande número de ocorrências, algumas de grandes dimensões, 
registadas a 15 de outubro, as quais não estão contabilizadas nestas imagens, que se limitam aos sete CIFs 
estudados. Naturalmente que estas ocorrências não consideradas ocuparam muitos meios que não puderam 
ser alocados no conjunto de sete incêndios de 15 de outubro. 

(a)  (b) 

Figura 131 – Evolução do número de operacionais no teatro de operações em função da área ardida (a) e do número de 
operacionais por área circunscrita pelo perímetro de incêndio em função do tempo decorrido desde o alerta (b) em conjuntos de 
grandes incêndios que decorreram entre 2012 e 2017. Atenção: eixo da ordenadas da figura b em escala logarítmica. 

A sequência de imagens apresentada na Figura 132 permite avaliar a grande concentração de ignições 
registadas nesse dia. Na área a sul da Foz do Tejo, não representada nas imagens, há registo de 18 ignições 
ao longo do dia, das quais 12 ignições tiveram início no período entre as 06.00h e as 11.59h. Poderá verificar‐
se que desde o início do dia houve uma grande concentração de ignições, sobretudo no nordeste do território 
nacional  continental.  Neste  período,  as  ignições  eram  prontamente  resolvidas  e  em  apenas  três  casos 
resultaram numa área ardida superior a 10ha. Depois das 06.00h a mancha de ignições deslocou‐se para o 
interior do País, provocando incêndios de grande extensão, nos quais se incluem os incêndios do Sabugueiro 
(CIF de Seia), do Prilhão (CIF da Lousã) e de Sandomil (CIF de Oliveira do Hospital) com áreas superiores a 10 
mil hectares. Com estes grandes incêndios a acontecerem numa área relativamente restrita, a coordenação 
de meios de combate começava a tornar‐se complicada, mas a utilização de meios externos de reforço ainda 
foi possível, sobretudo na ocorrência do Prilhão. 

(a)  (b) 

   

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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
(c)  (d) 

   
Figura 132 – Sequência do número e distribuição das ignições registadas no dia 15 de outubro a norte da foz do Rio Tejo: a) das 
00.00h às 05.59h; b) das 00.60h às 11.59h; b) das 12.00h às 17.59h; b) das 18.00h às 23.59h. Nestas imagens, a amarelo, são 
representadas as áreas finais ardidas nos sete complexos de incêndios analisados. 

Depois das 12.00h a situação complicou‐se substancialmente com o aparecimento de mais 406 ignições 
que se juntaram à já complicada situação do início do dia em que tinham sido registadas 101 ignições. Tendo 
em conta o elevado número de ignições e a rápida propagação que se verificava em cada uma delas desde 
os  instantes  iniciais,  compreende‐se  que  seria  difícil  delinear  uma  estratégia  de  combate  e  coordenação 
nacional de meios com melhores resultados do que aqueles verificados. Conclui‐se desta forma que, a ter 
havido falhas, estas verificaram‐se antes do aparecimento deste elevado número de ignições, uma vez que 
depois disso, as operações de combate, pouco mais além do que a defesa de povoações poderia ter ido. 
Realça‐se que das 507 ignições registadas, 450 resultaram numa área inferior a 10ha. Destaca‐se também 
que algumas destas ocorrências foram abertas para fins operacionais, tal como anteriormente descrito, e 
não porque constituíam uma verdadeira ocorrência. Por outro lado, houve inúmeros focos de incêndios que 
poderiam ter sido registados como uma nova ocorrência, mas que não o foram porque, perante a situação 
catastrófica  vivida,  com  todos  os  meios  já  empenhados,  a  abertura  de  uma  ocorrência  foi  considerada 
irrelevante. 

Com uma situação menos dramática a sul do Tejo, poderá causar surpresa que não tenha havido a norte 
um maior reforço de meios do sul, o que apenas veio acontecer com maior evidência no dia 16 de outubro. 
No entanto, todo o território nacional continental estava em situação de grande risco de incêndio, pelo que 
é compreensível que os meios alocados ao Algarve tivessem permanecido nesta região durante o dia 15 de 
outubro, assegurando que qualquer situação de megaevento ou de eventos múltiplos que eventualmente 
surgisse pudesse ter resposta em tempo útil. Para além disso, o reforço com equipas “frescas” no dia 16 de 
outubro foi muito importante na rendição das equipas. 

A Figura 133 apresenta a variação do número de ocorrências e do número de ocorrências que deram 
origem a incêndios (área superior a 1ha) registadas por hora, entre os dias 14 e 16 de outubro. Poderemos 
verificar que o número de evento no dia 14 de outubro já era muito alto, quando comparado com os valores 
normais – entre os dias 01 de julho, quando iniciou a Fase Charlie, e o dia 15 de outubro a média horária de 
ocorrências foi de 4,3 (103 ocorrências/dia) e o número de incêndios registados foi de 0,7 incêndios/hora (17 
incêndios/dia).  No  entanto,  no  dia  15  de  outubro  o  número  de  eventos  aumentou  ainda  mais,  atingindo 
valores nove vezes mais altos do que a média, mesmo tratando‐se de uma época do ano em que o número 
de incêndios é muito inferior àqueles registados durante a Fase Charlie. 

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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 

 
Figura 133 – Variação do número de ocorrências e de incêndios que surgiram em cada hora entre os dias 14 e 16 de outubro. 

A dimensão dos incêndios e a rápida propagação do fogo dificultou de sobremaneira a coordenação no 
terreno.  Pela  análise  dos  dados  e  pelos  diversos  depoimentos  ouvidos  nas  mais  variadas  entidades 
operacionais, o comando das operações foi feito sobretudo ao nível do concelho e em muitos casos, sem que 
as  diversas  entidades  municipais  estivessem  coordenadas  entre  si.  Para  isto,  muito  contribuíram  as 
dificuldades, ou mesmo as falhas, de comunicações sentida na maioria das ocorrências. Se por um lado, a 
setorização  das  ocorrências  por  concelhos  poderia  fazer  sentido,  a  falta  de  interação  dos  supostos 
comandantes  de  setores  com  o  comandante  de  operações  da  ocorrência  dificultou  claramente  a 
coordenação das operações. Perante isto, a ideia que resulta desta análise, a qual é corroborada por vários 
operacionais  com  responsabilidades  de  comando  que  participaram  nas  ações  de  combate,  nos  principais 
complexos de incêndios, entre as 16.00h do dia 15 de outubro e as 06.00h do dia 16, não houve uma efetiva 
coordenação geral, ficando as corporações entregues à sua capacidade de resposta individual.  

Os comandos distritais de operações de socorro, que poderiam intermediar a ligação entre o comando 
nacional e os teatros de operação atuaram de forma diferenciada em função das suas dificuldades. Em alguns 
casos (eg. Coimbra), um dos elementos de comando do CDOS assumiu o comando de operações de socorro 
do maior incêndio no terreno, ficando o segundo elemento a coordenar as operações desde as instalações 
do  CDOS.  Em  outros  casos  (eg.  Viseu),  o  Comandante  Distrital  coordenou  as  operações  a  partir  do  CDOS 
enquanto o 2º Comandante Distrital instalou um posto de comando avançado. É difícil avaliar qual a melhor 
opção, a qual decorreu da adaptação à evolução dos acontecimentos. Em qualquer dos casos, houve muitas 
dificuldades de comunicação, sendo que a utilização de equipamentos com uso de satélite foi aquela que, 
segundo os relatos ouvidos, funcionou melhor. Ao longo deste estudo, pudemos aperceber‐nos que várias 
entidades estão a reforçar‐se com equipamentos que permitem comunicar via satélite. 

Considera‐se que esta falta de capacidade de coordenação é fruto das condições extremas vividas neste 
dia,  que  foram  únicas  em  Portugal,  desde  que  há  registo.  Considera‐se  também  que  a  complexidade  da 
situação  vivida  excedeu  a  capacidade  de  coordenação  de  meios,  o  que  foi  agravado  pelas  falhas  de 
comunicação, nomeadamente da Rede Siresp. Destaca‐se ainda que, num contexto de tendência crescente 
de ocorrência de mais e maiores incêndios que se tem vindo a registar na última década, será de supor que 
novos  eventos  como  o  que  foi  vivido  a  15  de  outubro  poderão  surgir.  Nesta  perspetiva,  urge  dotar  as 
autoridades de capacidade de coordenação e comando de grandes incêndios, considerando‐se que a situação 
atual ainda é bastante deficitária neste capítulo. 

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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 

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4. Os acidentes pessoais 
4.1. Introdução 

Os incêndios de 15 de outubro caraterizaram‐se não só pela elevadíssima área ardida num intervalo de 
tempo  muito curto mas também,  e tal como os incêndios de Pedrógão Grande, pelo  elevado número  de 
vítimas entre a população civil. Registámos no nosso trabalho 51 vítimas mortais, direta ou indiretamente 
relacionadas  com  estes  incêndios.  Investigámos  cuidadosamente  as  circunstâncias  de  cada  um  dos  40 
acidentes que resultaram nestas mortes e que serão detalhadas neste capítulo. Tendo em conta a extensão 
territorial dos incêndios e a sua violência, em termos proporcionais seria expectável um número de vítimas 
muito superior. Como iremos ver, houve de facto circunstâncias em que um grande número de pessoas – 
pelo menos  algumas centenas – esteve em perigo de vida devido aos incêndios, mas graças à adoção de 
comportamentos e medidas adequados, por parte das pessoas envolvidas, das entidades responsáveis, das 
forças de segurança, ou por mera casualidade, felizmente, o número de acidentes mortais não foi superior. 

Os  incêndios  de  15  de  outubro  resultaram  num  elevado  número  de  feridos  e  de  pessoas  afetadas 
emocional  ou  psicologicamente  pelos  incêndios  e  pelas  suas  consequências.  Embora  tenhamos 
conhecimento de um grande número de casos desta natureza, não nos foi possível reunir dados suficientes 
que nos permitissem apresentar uma visão global e consistente deste problema. 

 Como  é  prática  usual  da  nossa  equipa,  a  investigação  de  cada  acidente  foi  realizada  por  meio  de 
contactos com familiares, vizinhos, amigos, agentes operacionais e outras pessoas que testemunharam os 
factos ou que possuíam elementos relevantes para o caso. Estes contactos foram sempre acompanhados de 
uma  ou  mais  visitas  ao  local  do  acidente.  Num  grande  número  de  casos  apresentámos  o  relato  que 
produzimos aos familiares ou representantes das vítimas, de forma a recolher a sua autorização formal para 
a publicação destes textos. 

No  final  do  Relatório  mencionamos  os  nomes  das  pessoas  que  colaboraram  connosco  nesta 
investigação, a quem agradecemos.  

4.2. Organização e Tipologia de Acidentes 

A fim de analisar de forma sistemática os acidentes iremos descrevê‐los por casos, ou eventos em que 
tenham ocorrido uma ou mais vítimas num mesmo local e, em princípio, nas mesmas circunstâncias. Desta 
forma as 51 vítimas mortais dos incêndios de outubro estão organizadas em 40 casos, que serão descritos 
neste Capítulo. 

Para organizar os casos por categorias associadas às circunstâncias de cada acidente, considerámos um 
conjunto  de  critérios  que  nos  permitiram  definir  algumas  tipologias,  que  passamos  a  descrever.  Estas 
tipologias  permitem‐nos  ainda  comparar  os  acidentes  ocorridos  nestes  incêndios  com  outros, 
nomeadamente os de junho de 2017. 

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A – Circunstâncias do acidente 

Uma  vez  que  estamos  a  tratar  de  acidentes  mortais  envolvendo  pessoas  civis,  considerámos  duas 
circunstâncias principais: a de a pessoa se encontrar em casa ou em fuga. No primeiro grupo, abrangemos as 
pessoas que tenham permanecido, ou se tenham refugiado, numa casa ou edificação. No caso de a pessoa 
ter permanecido em casa, ou próximo dela, distinguimos a situação de ter uma presença ativa, ou seja, a de 
estar consciente da aproximação e presença do fogo, daquela em que houve uma presença passiva, em que 
tal não sucedeu, porventura por a pessoa se encontrar a dormir. Em qualquer dos dois casos considerou‐se 
que a pessoa poderia encontrar‐se dentro ou fora de casa, quando foi atingida pelo fogo. 

Na presença ativa, admitimos que a pessoa teria em princípio a intenção de se manter nas imediações 
ou mesmo no interior da sua casa, e de a defender, mesmo que não estivesse a participar diretamente na 
ação de combate.  

Nos casos em que as pessoas estavam em fuga, distinguimos se utilizaram algum veículo ou se foram a 
pé. No primeiro caso considerámos ainda se a pessoa morreu dentro ou fora do veículo, no caso de uma 
viatura automóvel por exemplo. No caso das pessoas que fugiram a pé, analisámos se estariam numa estrada, 
perto dela, ou se longe dela, no campo. 

Na Tabela 18 resume‐se a classificação da tipologia de acidentes quanto ao critério A das circunstâncias 
de cada acidente: 

Tabela 18 – Tipologia de acidentes (critério A) 
A111‐ Dentro de casa 
A11‐ Ativo 
A112‐ Fora de casa 
A1‐ Em Casa 
A121‐ Dentro de casa 
A12‐ Passivo 
A122‐ Fora de casa 
A211‐ Dentro da viatura 
A21‐ Em viatura 
A212‐ Fora da viatura 
A2‐ Em fuga 
A221‐ Na estrada 
A22‐ A pé 
A222‐No campo 
 

  B – Motivação 

O  segundo  critério,  que  é  igualmente  aplicável  a  cada  vítima  e  se  pode  considerar  independente  do 
anterior, é o da motivação principal do ato ou atividade que conduziu cada pessoa ou grupo de pessoas a 
ficarem envolvidas nas circunstâncias que resultaram na sua morte. 

A  partir  dos  casos  analisados,  considerámos  cinco  motivos  principais,  tendo  sido  criada  uma  sexta 
categoria  para  incluir  os  casos  em  que  a  motivação  não  era  bem  definida  ou  era  desconhecida. 
Reconhecemos que nem sempre era fácil estabelecer a motivação de cada vítima, sendo que nalguns casos 
haveria mais do que um motivo, ou poderia haver um motivo inicial, que foi alterado no decurso da ação. 

Na  Tabela  19  resumem‐se  as  tipologias  consideradas  segundo  o  critério  B  de  motivação,  que  não 
carecem de descrição adicional. 

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Tabela 19 – Tipologia de motivações (critério B) 
B1‐ Ajuda a familiares 
B2‐ Salvar animais 
B3‐ Salvar a casa ou bens imóveis 
Motivação 
B4‐ Salvar bens móveis 
B5‐ Afastar‐se do incêndio ou proteger‐se 
B6‐ Outros ou desconhecido 
 

C – Causa da Morte     

Na  avaliação  da  causa  de  morte  considerámos  igualmente  dois  grupos,  que  determinaram  o  agente 
traumático dominante, associado ao decesso da vítima. No primeiro grupo considerámos os casos em que a 
vítima foi cercada diretamente pelo fogo, em que a causa da morte é, quase sempre, a asfixia pelo fumo ou 
a ocorrência de queimaduras pelo calor ou mesmo pelas chamas. No segundo grupo consideramos as vítimas 
que, embora tenham estado na proximidade do incêndio, não foram diretamente atingidas por ele. 

No  caso  do  envolvimento  ou  cerco  direto  pelo  fogo,  que  se  designa  em  inglês  por  “entrapment”, 
considerámos, por sua vez, duas circunstâncias: a de a pessoa ter sido atingida primeiro pelo fumo e morrido 
asfixiada, ou de ter sido atingida primeiro pelas chamas. Torna‐se quase sempre muito difícil distinguir uma 
situação da outra, dado que em muitos casos ocorrem simultaneamente. Atendendo a que, na maioria dos 
casos  descritos  ou  conhecidos,  a  vítima  é  primeiramente  atingida  pelo  fumo  ou  pelos  gases  quentes 
libertados pelo incêndio, é razoável considerar‐se que a causa primária da morte, em muitos casos, terá sido 
a asfixia. Foi esse o critério adotado neste estudo, considerando a asfixia como principal causa de morte, 
exceto nos casos em que foi evidente que a vítima esteve exposta imediatamente às chamas do incêndio. 

No conjunto de causas indiretas considerámos: 

(i) Doença, quando a pessoa faleceu devido a problemas de saúde prévios, tais como problemas 
respiratórios,  do  foro  cardíaco,  oncológico  ou  outros,  que  poderão  ter  deteriorado  o  seu 
estado de saúde durante o acidente. 

(ii) Trauma ou doença súbita, quando a pessoa sofreu um acidente ou tenha sido acometido por 
uma doença súbita.  

(iii) Outros ou desconhecida, quando não se inclui nas anteriores. 

Em cada causa considerámos a possibilidade de a morte ter ocorrido imediatamente, isto é, no próprio 
dia,  ou  passadas  algumas  horas,  ou  não.  Na  tabela  seguinte  (Tabela  20)  descrevem‐se  as  tipologias 
consideradas, sendo que a tipologia C23 não foi utilizada nos casos descritos neste relatório. Como se poderá 
ver, a maior parte das mortes ocorreu no próprio dia do acidente, o que não significa que a morte tenha sido 
imediata. Como na maior parte dos casos não dispomos de dados que permitam discriminar esta situação, 
considerámos que foi imediata a morte de pessoas que não foram sujeitas a internamento hospitalar durante 
alguns dias. 

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Tabela 20 – Tipologia de causas de morte  
C111 Imediata 
C11‐ Queimaduras 
C112‐ A posteriori 
C1‐ Direta 
C121‐ Imediata 
C12‐Asfixia 
C122‐ A posteriori 
C211‐ Imediata 
C21‐ Doença 
C212‐ A posteriori 
C221‐ Imediata 
C2‐ Indireta  C22‐ Trauma ou doença súbita 
C222‐ A posteriori 
C231‐ Imediata 
C23‐ Outra, desconhecida 
C232‐ A posteriori 
 

Nem sempre foi fácil qualificar cada acidente de acordo com as tipologias descritas, como por exemplo 
quando uma pessoa entrou num carro para fugir, tendo pouco depois de o abandonar por não ter condições, 
ou não conseguir prosseguir. Optámos por considerar a tipologia que, na nossa opinião, melhor caracterizava 
as  circunstâncias  de  cada  acidente,  embora  reconheçamos  que  possa  haver  alguma  subjetividade  nesta 
classificação. 

Cada caso foi classificado de acordo com a tipologia dos acidentes, que foi quase sempre a mesma para 
todas. Houve, no entanto, casos em que uma das vítimas de um caso se incluía numa tipologia e outra noutra. 
Nestes casos classificou‐se o acidente de acordo com a tipologia mais representativa. 

4.3. Relato dos Acidentes 

Identificámos ao todo 40 casos, que se mostram na Tabela 21 e que são relatados nas secções seguintes. 

Tabela 21 – Lista de acidentes descritos 
Ref.  Nome 
1  José Américo Marques Simões 
2  Alfredo António Marques Simões 
3  Ramiro Machado Marques Faria 
4  Fernando Manuel Antunes Almeida 
5  Maria Celeste Neves Alves 
6  Hermínio Lopes 
7  Abílio Rodrigues Moita 
8  Aristides Fernandes Rocha 
9  Libânio Cardoso 
10  Arlindo Santos Marques 
11  Arminda de Jesus Lourenço 
12  Fernando de Jesus Lourenço 
13  Laurinda dos Anjos Lourenço 
14  Fausto Albino de Almeida Lopes 
15  Maria da Encarnação Cordeiro 
16  Almerinda Pinheiro Fernandes 
17  Maria Rosa de Lurdes Gouveia Casimiro Marques 
18  Izilda Freire Mendes Garcia 

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19  Maria Ângela Brás Domingues 
20  João Fernando Tavares Nascimento 
21  João Paulo Fonseca da Luz 
22  Álvaro Ferreira da Cal 
23  Pedro Luís Ribeiro Pereira Neves 
24  António Lopes de Jesus 
25  Cristiana Maria Gouveia de Brito 
26  Virgílio Costa Gomes 
27  Ermelinda de Jesus Alves Gomes 
28  António Manuel da Trindade Bailão 
29  Milene Raquel Rosado Bicho 
30  Maria Hermínia Miranda Vaz Pereira 
31  José Batista Gonçalves Pereira 
32  Amélia Antunes dos Santos Nascimento 
33  Maria Fernanda Jesus Fernandes 
34  Maria Rosa de Jesus 
35  Jorge Manuel Marques do Vale 
36  Ulrich Welte 
37  Bernarda Matias 
38  Jaime Neves Ferreira 
39  Manuel Ferreira de Matos 
40  António Borges de Almeida 
41  Maria da Graça Viegas Ferreira Costa 
42  António Peres Costa 
43  António Nunes Batista Ferreira 
44  Andrew James Smiley 
45  João André Pires Costa 
46  Paulo Alexandre Pires Costa 
47  Maria Fernanda Tavares Tomás Augusto 
48  José Ferreira 
49  Hermínio da Silva Romão 
50  Rui da Costa 
51  Joaquim Correia da Costa 

Na Tabela 21 a coluna designada por “#Vítima”, corresponde a um número identificativo de referência que 
foi atribuída a cada pessoa na nossa base de dados inicial e que se manteve por consistência. 

Dispomos de dados sobre cada um dos 40 casos referidos na tabela anterior, no entanto, neste documento, 
não havendo por enquanto autorização relativa à proteção dos dados, das pessoas envolvidas, esses relatos 
estão omitidos.  

4.4. Incidentes 

Para além dos acidentes em que houve perda de vidas, que foram relatados, tomámos conhecimento 
de  várias  situações  em  que  houve  pessoas  ou  grupos  de  pessoas  diretamente  ameaçados  pelo  fogo,  em 
perigo de vida. Temos consciência de que durante os incêndios terão estado em perigo várias centenas de 
pessoas, sendo que em muitos casos felizmente, por mero acaso, ou pela correta atuação das pessoas, não 
se registaram quaisquer danos pessoais.  

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Iremos reportar três conjuntos de situações, em que tomámos conhecimento de que algumas centenas 
de pessoas estiveram em perigo, para compreender e evitar as circunstâncias que se viveram nos incêndios, 
que nos poderiam levar a ter de lamentar um número muito superior de vítimas. 

Os casos referem‐se a sistemas de transporte terrestre e baseiam‐se em dados que nos foram facultados 
por  estas  entidades.  Elas  tiveram  de  intervir  para  informar,  agilizar  e  coordenar  as  pessoas  que  se 
encontravam em perigo para estas ficarem mais seguras. 

Empresa de transporte coletivo de passageiros – Relatos de três motoristas  

Das diversas entidades e ocorrências envolvidas nos incidentes destes incêndios, são apresentados os 
relatos/testemunhos  de  três  motoristas  de  uma  empresa  nacional  de  transporte  de  passageiros,  de  que 
tomámos  conhecimento,  os  quais  durante  o  exercício  da  sua  profissão  e  perante  os  acontecimentos  que 
surgiram, tiveram que reagir e atuar de forma rápida e decisiva, demonstrando profissionalismo, coragem e 
abnegação perante situações inesperadas. Os seus testemunhos contêm diversos ensinamentos que muito 
têm a mostrar sobre a defesa da segurança, não só no setor da mobilidade como na sociedade civil, acerca 
do melhor modo de enfrentarmos as adversidades que podem ser criadas pelos incêndios. 

4.4.1.1. Autocarro da Sucursal da Guarda 

No dia 15 de outubro este motorista partiu da Guarda como passageiro num autocarro que vinha de 
Castelo Branco no qual seguiu até ao Porto. No Porto tomou o lugar de motorista e conduziu o autocarro 
com cerca de 48 passageiros. Os trajetos que deveria ter realizado estão apresentados na Figura 134. 

 
Figura 134 – Trajeto realizado com as paragens efetuadas no decorrer da viagem 

Descrição de acontecimentos em cada Trajeto 

Porto ‐> Braga: O autocarro saiu do Porto (local: Campo 24 de Agosto), aproximadamente às 17h25, em 
direção a Braga. Este percurso foi realizado normalmente. O motorista referiu que já se viam os incêndios, 
mas estavam distantes. 

Braga ‐> Porto: O autocarro saiu de Braga por volta das 19.00h, em direção ao Porto. Este percurso foi 
realizado normalmente, com uma pequena anotação. Na A3 a seguir aos pórticos, aproximadamente 15 km 
CEIF/Universidade de Coimbra  162 
 
Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
antes  do  Porto  (perto  da  Trofa)  houve  uma  primeira  visualização  de  cada  lado  da  estrada  de  fogo  numa 
extensão  de  50  metros  em  que  as  chamas  tinham  uma  altura  aproximada  de  5/6  metros.  Ali  existiam 
barreiras acústicas, sendo a passagem  dos carros mais fluida na  via mais à esquerda  (junto ao separador 
central), em que cada sentido tinha 3 vias.  

Porto  ‐>  Albergaria‐a‐Velha:  O  autocarro  saiu  do  Porto  aproximadamente  às  20.00h  em  direção  a 
Albergaria‐a‐Velha. Ao entrar na Ponte do Freixo/Roque o para‐brisas começou a ficar sujo devido às cinzas 
e a visibilidade ficou reduzida. O trajeto normal é feito pela A1, mas foi necessário tomar a A29 após estar a 
circular por cerca de 15 minutos na A1, pois esta estava cortada. A indicação da A1 cortada foi dada por um 
colega, através do rádio, que também tinha saído de Braga noutro autocarro. 

Albergaria‐a‐Velha ‐> Viseu: o motorista assim que chegou a Albergaria limpou o vidro da viatura. O 
autocarro saiu de Albergaria por volta das 21h00 em direção a Viseu, tomando o seu percurso habitual, pela 
A25.  

O percurso foi feito normalmente até ao nó de Talhadas, onde as Autoridades que estavam a cortar o 
trânsito, mandaram parar o autocarro, e o motorista comunicou à Central da empresa que estava parado no 
nó de Talhadas. Durante esta paragem as pessoas estavam mais sobressaltadas e foi necessário informar 
todos os passageiros sobre a paragem indicada pelas Autoridades e que teriam de esperar por novas ordens. 
Após 20/30 minutos, as Autoridades deram ordem para o autocarro regressar à central de camionagem de 
Albergaria pela A25.  

O  percurso  de  volta  a  Albergaria  foi  realizado  de  forma  tranquila  apesar  do  fumo  e  da  reduzida 
visibilidade, chegando a Albergaria por volta das 22h00.  

No regresso a Albergaria os passageiros estavam transtornados, pois alguns já manifestavam o desejo 
de voltar para outros destinos, como por exemplo, para o Porto. 

Em Albergaria‐a‐Velha todos os passageiros ficaram na central de camionagem até às 10h30 da manhã 
seguinte, dia 16, com exceção de um passageiro.  

O  motorista  tinha  consigo  powerbanks  e  isqueiros  para  fazer  carregamentos  de  telemóvel,  que 
disponibilizou aos passageiros. A Proteção Civil municipal facultou águas aos passageiros durante o tempo 
que permaneceram na central de camionagem, e existia um pequeno bar que esteve aberto durante toda a 
noite. 

Na manhã do dia 16, a Proteção Civil Municipal indicou que as estradas estavam abertas ao trânsito. Por 
volta das 10h00, o autocarro saiu da central de Albergaria em direção a Viseu. 

Este  caso  foi  conhecido  devido  a  uma  carta  de  recomendação  enviada  à  empresa  por  uma  das 
passageiras desta viagem, na qual exprimia o seu reconhecimento ao motorista, pela forma como procedeu 
durante toda a viagem. 

4.4.1.2. Autocarro da Sucursal de Coimbra 

No dia 15 de outubro este autocarro partiu de Coimbra num serviço ocasional com um grupo de 52 
pessoas. Este grupo de pessoas eram todas conhecidas do motorista, pois já não era a primeira vez que o 
grupo  fazia  este  tipo  de  eventos  e  tinham  grandes  laços  de  amizade,  o  que  foi  fulcral  durante  todos  os 
acontecimentos que se desenrolaram ao longo dos dias 15 e 16 de outubro. 

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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 

 
Figura 135 – Trajeto realizado com as paragens efetuadas no decorrer da viagem 

Descrição de acontecimentos em cada Trajeto 

Coimbra ‐> Carregal do Sal: o autocarro partiu de Coimbra por volta das 8h00, sendo a primeira paragem 
em Carregal do Sal por volta das 10h30. Pouco depois das 11h00 partiram em direção a Cabanas de Viriato. 

Carregal do Sal ‐> Cabanas de Viriato: Chegaram a Cabanas de Viriato aproximadamente ao meio dia. 
Todo o resto do dia se passou neste local em convívio e sem qualquer problema. 

Cabanas  do  Viriato  ‐>  Santa  Comba  (IP3):  Por  volta  das  19h  o  autocarro  saiu  de  Cabanas  de  Viriato. 
Estava completamente noite e já se avistava imenso fumo, mas o motorista prosseguiu viagem pois não tinha 
nenhum  aviso  em  contrário,  e  mesmo  durante  o  dia  tinha  acompanhado  as  notícias  na  televisão  nunca 
imaginando  que  as  estradas  estivessem  afetadas.  O  autocarro  seguiu  pelo  IC12  em  direção  ao  IP3,  mas 
quando chegou ao IP3, por volta das 20h, deparou‐se com esta estrada cortada pelas Autoridades, no sentido 
Coimbra, só estando transitável no sentido de Viseu. O motorista falou com o Agente que o aconselhou a ir 
para Viseu, apanhar a A25 em direção a Albergaria, e aí apanhar a A1 para Coimbra, e assim o fez.  

Santa Comba (IP3) ‐> Área de Serviço de Vouzela (A25): Seguiu de Santa Comba pelo IP3 para Viseu e 
apanhou a A25. Durante este percurso tudo estava normal e limpo, sem qualquer problema de visibilidade. 
Ao  entrar  na  A25  perto  da  área  de  serviço  de  Vouzela,  aproximadamente  a  1  km  desta,  deparou‐se  com 
carros na sua faixa de rodagem em contramão e começou a questionar‐se acerca do que se passaria. Avistou 
um  grande  clarão  muito  longe,  para  a  zona  de  Aveiro.  Foi  avançando  para  a  área  de  serviço  quando  se 
deparou com um grande acidente na sua faixa, o de duas senhoras, em que os seus carros embateram num 
choque frontal, vitimando mortalmente estas duas senhoras. Soube mais tarde que uma das senhoras estava 
grávida. Este acidente ocorreu antes da área de serviço. O motorista avançou lentamente para a área de 
serviço, com os quatro piscas ligados, passando por cima de destroços do acidente, conseguindo estacionar 
na mesma. A estação de serviço tinha mais 3 autocarros estacionados, alguns camiões e muitos carros ligeiros 
estacionados e posicionados aleatoriamente, pois muitos carros já vinham em contramão quando entraram 
na área de serviço. 

CEIF/Universidade de Coimbra  164 
 
Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
A  situação  estava  muito  complicada  neste  local,  era  o  caos,  com  pessoas  agitadas  e  transtornadas, 
devido às complicações na estrada, ao acidente, e também pelo incêndio que vinha de Aveiro em direção a 
Viseu. A eletricidade falhou várias vezes e existiu falha nas comunicações entre as 20h00 e as 23h00.  

No interior do autocarro as pessoas estavam sobressaltadas e perturbadas. Alguns passageiros saíram 
do autocarro e outros começaram a entrar em pânico porque o fogo vinha na direção da área de serviço, 
sendo um local de elevada perigosidade devido aos combustíveis armazenados. O ambiente era de respiração 
difícil, devido à existência de muito fumo. A velocidade do vento era muito elevada, ao ponto do motorista 
descrever que não conseguia abrir a porta do autocarro devido à força do vento.  

Pouco antes das 23h00 houve ordens por parte das Autoridades para os carros evacuarem a área de 
serviço, invertendo a marcha e conduzindo em contramão na autoestrada, pois o fogo vinha na sua direção. 
O fogo vinha do outro lado da autoestrada, acabando por passar as faixas para a área de serviço onde o 
autocarro se encontrava. O motorista realizou a tarefa complicada de juntar todos os passageiros para irem 
para o autocarro, para seguirem viagem, conforme as Autoridades ordenaram. Quando deu início à condução 
para fazer inversão de marcha, às 23h15, já o fogo estava tão próximo que viu o lume a atingir a parte traseira 
do autocarro, o que o perturbou ao ponto de já não querer avançar com o autocarro, se não fosse um senhor 
que na autoestrada fez sinal para ele avançar, e assim o fez. 

Área de Serviço de Vouzela (A25 em contramão) ‐> Tondela: o motorista conduziu o autocarro na A25, 
em contramão tal como ordenado pelas Autoridades, em direção a Viseu, e das várias opções em mente, 
escolheu  dirigir‐se a Tondela, pensando ser o local  mais seguro  naquele momento, até porque tinha lá o 
terminal  rodoviário  como  sítio  de  segurança.  Chegou  a  Tondela  por  volta  da  meia‐noite,  avistou  uma 
pastelaria muito grande, cerca de 200 metros antes do terminal de Tondela, e parou aí. A pastelaria estava 
aberta e tinha muito espaço, onde as pessoas podiam ir à casa de banho, bem como alimentar‐se. Estavam 
muitas pessoas na rua, em alerta devido à aproximação do fogo. 

Tondela (pastelaria) ‐> Tondela (rotunda com lago): o motorista achava que o incêndio estava a dezenas 
de quilómetros, parecendo‐lhe que estava muito longe. Aproximadamente às 1h30 o fogo começa a entrar 
em Tondela, por meio de partículas incandescentes, bocados de ramos de eucaliptos em chama a caírem em 
todo  o  lado  e  havia  muito  fumo,  bem  pior  que  aquele  que  tinha  experienciado  em  Vouzela,  começando 
oliveiras a arder. Neste momento pediu para os passageiros entrarem no autocarro, mas alguns não queriam, 
alegando que iriam morrer aí queimados, mas mesmo assim todos aceder. O motorista dirigiu‐se mais para 
o centro de Tondela, procurando um local que lhe parecesse mais seguro, até encontrar uma rotunda grande, 
com um lago no seu interior e decidiu estacionar ali perto, dizendo aos passageiros que caso algo se passasse 
sempre teriam a água para se refugiarem. O autocarro teve sempre o ar condicionado ligado para respirarem, 
pois no exterior da viatura estava muito fumo e era difícil de respirar, sendo que as pessoas que se viam na 
rua usavam lenços para tapar as vias respiratórias.  

Após 15 minutos de estarem parados na rotunda, perto das duas da madrugada, um pátio próximo do 
local onde pararam começou a arder, e optou mais uma vez por abandonar o local com os passageiros a 
bordo. Conduziu perto de um quilómetro até se deparar com um espaço que lhe parecia bastante extenso e 
amplo,  cheio  de  candeeiros,  parando  aí  em  segurança.  Durante  este  tempo  ouviu  imensos  barulhos  e 
estoiros, possivelmente de garrafas de gás, e o local tinha muitas pessoas que tinham fugido de casa e que 
estavam em alvoroço, gritando. 

Tondela (local aberto) ‐> GNR de Tondela: Por volta das 4h30, como tudo estava mais sereno, o motorista 
resolveu sair do local e dirigir‐se ao posto da GNR de Tondela para obter informações sobre o estado das 

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estradas. No posto de GNR não havia luz e o telefone fixo estava inoperacional. Falou com um militar que lá 
estava, para saber qual era a situação nas estradas para Coimbra. Foi informado de que as estradas estavam 
intransitáveis e não tinha informação a que horas iriam ser abertas as vias. O agente da GNR pediu‐lhe para 
aguardar, que assim que tivesse informações lhe diria. 

GNR de Tondela ‐> Terminal de Tondela: dirigiu‐se então até ao terminal de Tondela, e para seu espanto, 
vê o terminal todo queimado, agradecendo a Deus por não ter optado por ficar ali quando chegou a Tondela. 
Parou no terminal e permaneceu ali até às 6h30, hora a que um colega de Coimbra lhe telefonou a informar 
que poderia regressar a Coimbra, pois uma das vias do IP3 já estava aberta. 

Terminal de Tondela ‐> Coimbra: A essa hora ele inicia a condução em direção a Coimbra. No decorrer 
da viagem, ainda estava bem visível o cenário de tragédia que avassalou toda aquela zona, com eucaliptos a 
arder, muito  fumo e destroços no chão, entre outros. Por volta das 9h30, chegou a Coimbra e deixou as 
pessoas em casa em segurança, dirigindo‐se em seguida para o terminal de Coimbra.  

Este  caso foi  conhecido devido a uma carta escrita e entregue pessoalmente à empresa por um dos 


passageiros desta viagem, na qual contou o que se passou e exprimiu o seu reconhecimento ao motorista, 
pela forma como procedeu durante toda a viagem. 

Como se disse, o facto de se tratar de um grupo constituído por pessoas que se conheciam bem, terá 
contribuído para o desfecho positivo deste passeio, que teve vários encontros inesperados com o incêndio. 

4.4.1.3. Autocarro da Sucursal de Viseu 

Trajetos realizados 

No  dia  15  de  outubro  pelas  17h30  este  autocarro  partiu  de  Sátão  no  trajeto  normal  para  realizar 
transporte de aproximadamente 50 passageiros até Coimbra, sendo a sua maioria estudantes. No decorrer 
da viagem, após a saída de Viseu, o motorista depara‐se com situações muito complexas devido aos incêndios 
presentes no centro do país, pelo que teve de tomar medidas e ações de forma a manter todos em segurança. 

 
Figura 136 – Trajeto realizado com as paragens efetuadas no decorrer da viagem 

 
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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
Descrição de acontecimentos em cada Trajeto 

Sátão ‐> Viseu: o motorista partiu de Sátão por volta das 17h30 com passageiros em direção ao terminal 
de Viseu, o qual era um ponto de paragem obrigatório para receber mais passageiros. Todo o trajeto foi feito 
normalmente. 

Viseu  ‐>  IP3  (Restaurante  “Lagoa  Azul”):  Em  Viseu  entraram  mais  passageiros,  ficando  o  autocarro 
completamente  cheio,  com  aproximadamente  50  passageiros,  maioritariamente  estudantes  que 
regressavam a Coimbra para uma semana de aulas. Seguiu viagem em direção a Coimbra pelo IP3, não tendo 
nenhuma informação contrária. Quando estava no IP3 próximo de Tondela, viu um carro da GNR ultrapassá‐
lo.  Podendo  tratar‐se  de  um  acidente,  foi  mais  atento  à  estrada.  Passou  a  ponte  perto  da  Barragem  da 
Aguieira e passou pelo cruzamento para Mortágua não visualizando nenhum incêndio e continuou a viagem 
normalmente.  Um  colega  que  vinha  noutro  autocarro  atrás  dele,  mas  distanciado  por  5  minutos,  ainda 
conseguiu ver ao longe o incêndio e teve a possibilidade de inverter a marcha após passar a ponte junto ao 
restaurante “Lagoa Azul”.    

IP3 (Restaurante “Lagoa Azul”) ‐> IP3 (perto de Cunhedo): Na subida após o cruzamento para Mortágua, 
de um momento para o outro, o vento ficou muito forte e o motorista viu um bombeiro. Saiu do autocarro 
para falar com ele, e este disse‐lhe que não deveria avançar, porque já havia muito fumo. Com o aumentar 
do fumo, com o anoitecer e com a quantidade de pessoas que transportava, ao não poder fazer inversão de 
marcha devido ao separador central ser em betão, o motorista não tinha outra opção senão avançar e pediu 
aos bombeiros que o acompanhassem. Teve dificuldades em entrar no autocarro, pois o vento era tanto que 
lhe dificultava a abertura da porta do condutor do lado esquerdo do autocarro. O calor já começava a ser 
insuportável,  mas  com  a  insistência  conseguiu  entrar  e  foi  à  frente  e  os  bombeiros  acompanharam.  Os 
passageiros estavam em pânico e pediram‐lhe que os tirasse dali. Durante este percurso tudo piorou, o vento, 
o fumo, as chamas e o calor eram cada vez mais intensos, mas ele nunca parou a condução com receio de 
que qualquer paragem pudesse ser fatal para o bom funcionamento do autocarro, fazendo todos os possíveis 
para ultrapassar esta situação e manter os passageiros calmos, sempre com palavras de ânimo e de coragem. 
O autocarro atravessou por chamas, e já na descida para Almaça tudo acalmou. Na saída de Almaça, parou o 
autocarro e disse para os passageiros “Por aquilo que nós passámos já estamos salvos!”. Ainda na saída de 
Almaça, viu, no sentido contrário, um camião cisterna carregado de combustível e alertou o condutor do 
camião para não continuar, pois estava tudo a arder, avisando‐o que o próprio autocarro tinha passado pelas 
chamas. Nesse momento o filtro do motor do autocarro começou a arder e ele disse aos passageiros para 
saírem  calmamente  do  autocarro  e  ficarem  todos  juntos,  no  exterior,  ao  mesmo  tempo  que  pediu  aos 
bombeiros para apagarem o fogo que se gerou. No exterior o calor era insuportável, o motorista descreve 
que o ar “ardia”, que devido aos eucaliptos, as chamas vinham pelo ar apesar de não haver grandes árvores 
naquela zona. Após isto, perguntou aos bombeiros se não seria melhor ir para o interior de Almaça ao que 
lhe responderam que o melhor seria ir para a ponte perto de Cunhedo, e assim o fez. 

Durante este episódio de grande perigo, o motorista telefonou ao chefe da central de camionagem de 
Viseu, a alertar sobre a situação.  

IP3 (perto de Cunhedo) ‐> Coimbra: o motorista dirigiu‐se para a ponte, e viu que já havia uma fila nas 
duas faixas, no sentido de Coimbra desde a saída de Almaça, e então colocou‐se na faixa em contramão, pois 
pensou  que  só algum veículo  de bombeiros é que  poderia  circular nessa estrada, não existindo perigo, e 
conseguiu  alcançar  o  meio  da  ponte  perto  de  Cunhedo,  que  é  a  ponte  maior  e  que  teve  obras  mais 
recentemente  (ver  Figura  5a).  Como  se  pode  observar  na  Figura  5b,  a  ponte  estava  cheia  de  pessoas, 

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centenas de pessoas e carros parados. Ficaram aqui durante 2 horas. Havia muito vento, que transportava 
partículas incandescentes e pedaços de eucalipto a arder, bem como labaredas de fogo (ver Figura 5c). 

   
(a)  (b) 

  (c) 
Figura 137 – Ponte IP3 perto de Cunhedo durante incêndios de outubro de 2017: (a) Viaturas estacionadas, incluindo o 
autocarro; (b) carros estacionados sobre a ponte com partículas incandescentes a passar; (c) proximidade do fogo à ponte; 
(Fonte: TVI) 
 

Um carro de bombeiros passou pelo autocarro e entregou algumas garrafas de água para distribuir pelos 
passageiros.  As  comunicações  muitas  vezes  falhavam.  Os  passageiros  estavam  em  pânico  e  desespero, 
inclusive  alguns  comunicavam  com  familiares  e  amigos  via  telemóvel  em  tom  de  despedida.  O  motorista 
sempre  tentou  animar  os  passageiros,  dizendo  que  ainda  havia  muito  por  viver,  que  ainda  iam  arranjar 
muitos namorados(as), e também que tinham um rio por baixo. Todas as pessoas presentes neste cenário 
estavam em desespero, havia pessoas que desmaiavam, outras rezavam, pessoas desanimadas, era todo um 
cenário de tragédia. 

Aproximadamente  às  21h30,  as  Autoridades  começaram  a  pedir  para  os  carros  avançarem 
ordenadamente  de  10  em  10  carros,  tendo  o  apoio  de  uma  mota  da  GNR  que  coordenava  o 
congestionamento da estrada e indicava o caminho de saída, e de um carro da GNR que ia acompanhando 
os grupos de 10 carros que iam passando (ver Figura 138). 

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Figura 138 – Retirada ordenada dos carros pelas Autoridades (Fonte: TVI) 

Chegou  com  todos  os  seus  passageiros  à  central  de  camionagem  de  Coimbra  por  volta  das  22h30. 
Quando os passageiros saíram do autocarro, agarraram‐se todos a ele a agradecerem‐lhe pela forma decidida 
e pela coragem com que os conduziu em segurança até Coimbra. 

Tem a convicção de que na ponte do Cunhedo poderiam ter morrido umas 1000 pessoas, caso os carros 
ali estacionados tivessem começado a arder. O autocarro não sofreu muitos danos.  

A empresa prestou uma justa homenagem, em sessão pública realizada em Coimbra, aos três motoristas 
que intervieram nos episódios narrados. 

4.4.1.4. Recomendações a ter em conta para o futuro 

Propor à ANSR e ao IMT protocolos de atuação em casos semelhantes aos vivenciados pelos motoristas 
da empresa aqui referenciada, nomeadamente durante o processo de alerta e eventual fuga, a tecnologia 
existente pode ser um excelente aliado. Por exemplo, poderiam ser enviadas mensagens escritas de alerta 
por parte das autoridades para os telemóveis pessoais ou criado um sistema em que a pessoa possa emitir a 
localização  GPS  do  aparelho  para  que  lhe  possam  prestar  socorro.  Outra  medida  poderia  passar  por 
incorporar rotas de fuga em navegadores GPS, como referido em Oliveira (2010).  

Concessionária de vias terrestres 

Durante os incêndios de 2017 muitas das autoestradas portuguesas foram afetadas pela presença de 
fumo ou pela aproximação dos incêndios. Tomámos conhecimento, por intermédio de uma concessionária, 
de algumas situações ocorridas em rodovias da sua concessão, nomeadamente nas seguintes: A1, A3, A2, 
A41, A14, A32, A17, A6, A5, A13, A33, A10, CSB, LIG CSB e A19, que foram todas afetadas, sendo a A1 a mais 
fustigada e a A14 a que teve um maior impacto em tempo. As autoestradas (AE) A9, A12, A43, IC20 e IC21 
não foram afetadas.  

No gráfico da Figura 139 é possível observar o número de ignições ocorridas nas diferentes autoestradas 
desta concessionária durante o ano de 2017. 

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Figura 139 – Número de ignições ocorridas nas diferentes autoestradas da concessionária durante o ano de 2017  

De  seguida  apresentam‐se  imagens  das  autoestradas  A1  (Figura  140)  e  A14  (Figura  141), 
respetivamente, afetadas pelos incêndios de 2017. 

   

   
Figura 140 – Impacto do fogo na A1 durante os incêndios de 2017 

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Figura 141 – Impacto do fogo na A14 durante os incêndios de 2017 

Em  50%  dos  casos  os  cortes  devidos  aos  incêndios  duraram  mais  de  5  horas  e  em  menos  de  1  mês 
ocorreram nove cortes de autoestradas (AE). Como se pode observar na Figura 142, as autoestradas que 
estiveram cortadas mais que 5 horas devido aos incêndios florestais foram a A14, A4 e a A1. 

 
Figura 142 – Duração dos cortes nas diferentes autoestradas da concessionária durante 2017 

A concessionária dispõe de um centro de Coordenação onde é feita a monitorização de toda a rede de 
AE,  com  suporte  em  brigadas  fixas  e  móveis  e  em  câmaras  de  vídeo  vigilância.  Neste  Centro  estão 
representadas  algumas  outras  entidades,  nomeadamente  a  GNR.  As  brigadas  de  assistência  dispõem  de 
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equipamento e de treino para atacar pequenos focos de incêndio, nomeadamente os que se podem formar 
quando uma viatura se incendeia. Existem planos de emergência para permitir o corte de trânsito, a inversão 
de marcha e a definição de percursos alternativos.  

A gestão de comunicação é feita de modo centralizado, por exemplo os cortes eram comunicados por 
várias vias (media via DMI, por canais digitais e Linha de Assistência e Informação em tempo real da App, 
pelos editores da WAZE). 

Embora  não  tenham  ocorrido  acidentes  pessoais  nas  AE  concessionadas  por  esta  empresa,  houve 
situações  em  que  pessoas  passaram  pelo  meio  das  chamas,  noutros  casos  inverteram  a  marcha,  ou 
abandonaram  as  viaturas.  Estes  casos  configuram  um  potencial  de  ocorrência  de  acidentes,  porventura 
graves, nestas circunstâncias, que carecem de um maior estudo e de tomada de medidas de prevenção. 

Empresa ferroviária  

As linhas ferroviárias, mais especificamente as linhas do Norte, Beira Alta e Minho, foram afetadas pelos 
incêndios  de  outubro  de  2017,  verificando‐se  diversas  ocorrências  em  que  as  composições  ferroviárias, 
muitas delas com passageiros, circularam no meio do fumo, ou de chamas. Houve composições que tiveram 
de parar ou mesmo recuar na via. Estes incidentes afetaram a normal circulação dos comboios, provocando 
impacto  na  segurança  de  várias  composições,  sendo  mesmo  necessário,  em  alguns  casos,  a  utilização  de 
transbordo rodoviário. No decorrer dos incidentes, existiram comboios diretamente envolvidos, provocando 
impacto em várias outras circulações. De um modo geral, foram afetados 134 comboios, resultando num 
atraso total de 7034 minutos, e 36 dos comboios foram suprimidos, parcial ou totalmente, como se pode 
verificar na Tabela 22.  

A  empresa  dispõe  de  um  gabinete  de  Gestão  que  nos  facultou  toda  a  informação  que  solicitámos. 
Soubemos que os incidentes ocorridos com os incêndios de 2017, em especial os de outubro, constituíram 
uma chamada de atenção muito importante para a Empresa. Esta designou imediatamente uma comissão 
de análise, que investigou as ocorrências associadas aos incêndios e produziu um volumoso relatório, que 
nos foi facultado, com uma descrição objetiva dos factos e com  propostas de medidas para minimizar os 
efeitos das situações que foram vividas. Consideramos que o relatório produzido é exemplar na medida em 
que  aborda  de  modo  muito  objetivo  e  imparcial  a  dimensão  do  problema,  reconhecendo  as  lacunas 
existentes na própria empresa e a necessidade de tomar medidas corretivas em diversas direções, incluindo 
a  melhoria  da  formação  dos  seus  agentes,  da  realização  de  simulacros  e  de  fortalecer  a  relação  com  as 
restantes entidades operacionais. 

A empresa manifestou‐nos a sua perceção de estar marginalizada, face a outras entidades, na temática 
da  prevenção  dos  incêndios,  pois  parece  existir  a  convicção  de  que  não  afetam  os  comboios.  Os 
acontecimentos de 2017 vieram mostrar que não é assim. 

Nas  Tabela  22  e  Tabela  23  apresentam‐se  alguns  dados  do  impacto  devido  aos  incêndios  por  linha 
afetada e por tipologia de afetação. Na Tabela 23 indica‐se o número de passageiros transportados por alguns 
dos comboios, com um total de cerca de 4070 passageiros afetados. Como se pode ver houve pelo menos 
duas composições com cerca de 800 passageiros que transitaram no meio de chamas. Não é difícil imaginar 
o potencial de risco que estes episódios terão envolvido. 

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Tabela 22 – Eventos relevantes que ocorreram com comboios durante os incêndios de outubro de 2017 

  Linha do Comboio   
Impacto na circulação dos comboios   Norte  Beira Alta  Minho  Total 
Comboios afetados  47  75  12  134 
Tempo de atraso dos comboios (minutos)  5340  1109  585  7034 
Comboios suprimidos totalmente   1  17  0  18 
Comboios suprimidos parcialmente   5  12  1  18 

Na Tabela 23, podem observar‐se alguns acontecimentos relevantes que se sucederam, bem como o 
número de comboios e número de passageiros envolvidos.  

Tabela 23 – Acontecimentos ocorridos com os comboios durante os incêndios de outubro de 2017 

Acontecimentos  Número de  Comboio 


comboios  (n. passageiros) 
Comboios que tiveram de recuar devido a iminência de fogo  3  AP135 (300); REG5410/1; REG3114 
Comboios a circular com incêndio de ambos lados da via  2  AP137 (300); IC723 (500) 
Comboios  que  circularam  em  marcha  à  vista  (máximo  30  9  AP135 (300); AP140 (300);  
km/h) para aferição das condições de circulação  AP129 (280); AP134 (300);          
IC525 (600); IC524 (730); 
REG4676/7; REG4622/3; REG3114 
Evacuação de passageiros e tripulação  1  IC518 (370) 
Total  15  4080 

Descrevemos  uma  situação,  a  título  de  exemplo,  que  envolveu  a  evacuação  de  passageiros  e  da 
tripulação do comboio IC518, que ocorreu na Linha da Beira Alta, na estação de comboios de Santa Comba 
Dão.  

Por volta das 18h de 15 de outubro o maquinista do comboio IC518, com cerca de 370  passageiros, 
proveniente da Guarda, ficou retido na estação de Santa Comba Dão. Contactou o CCO a pedir informação 
sobre  o  estado  da  linha  em  que  circulava,  sendo‐lhe  dito  para  esperar.  Por  volta  das  20h  o  maquinista 
contatou  de  novo,  a  questionar  se  pode  avançar  e  o  CCO  informa‐o  que  há  cortes  de  energia,  mas  se 
conseguir circular que o faça. Por volta das 20h35 o CCO telefona ao IC518 a alertar que as circulações na 
Linha da Beira Alta estavam complicadas, e que o maquinista estivesse preparado a qualquer momento para 
recuar. Às 21h o CCO informa que a Proteção Civil indicara que a estação de Santa Comba Dão era o local 
mais seguro, devendo manter‐se aí. Os passageiros foram retirados do comboio para a estação, perante a 
aproximação  iminente  do  incêndio.  Nesta  estação  estava  também  um  carro  patrulha  da  GNR  com  dois 
agentes. Na Figura 143 apresentam‐se duas imagens da estação de Santa Comba Dão, nas quais se pode 
observar como o incêndio estava a progredir na área envolvente. 

Os passageiros foram sendo retirados da estação para a Casa da Cultura de Santa Comba Dão, utilizando 
apenas um autocarro da Câmara Municipal, entre a 1h e as 2h25 de 16 de outubro. Devido à lotação limitada 
do autocarro, a evacuação foi demorada, tendo‐se criado situações de ansiedade, devido à aproximação do 
incêndio,  que  viria  a  atingir  e  a  destruir  as  imediações  da  estação.  Existe  alguma  discrepância  entre  o 
Relatório da empresa e o testemunho do motorista de um autocarro camarário acerca do número de viagens 
no processo de evacuação. Numa entrevista concedida a uma revista, este motorista, refere que efetuou seis 
viagens transportando passageiros entre a estação de SCD e o Centro Cultural, ao passo que o Relatório da 
empresa apenas menciona três viagens. De acordo com os dados da empresa deveriam viajar no comboio 

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cerca de 270 passageiros e vários dados mencionam que estariam cerca de 300 pessoas retidas na estação. 
Atendendo à lotação do autocarro, parece ser mais provável que tenha efetuado entre 4 e seis viagens. 

   
Figura 143 – Estação de comboios de Santa Comba Dão 

4.5. Análise global 

As idades de cada uma das vítimas identificadas na Tabela 21, permite estabelecer a composição etária 
das 51 vítimas que se mostra na Figura 144, em comparação com o incêndio de Pedrógão Grande. Como se 
pode  ver,  a  gama  de  idades  das  vítimas  dos  dois  incêndios  são  diferentes.  Nos  incêndios  de  outubro 
predominam as pessoas de maior idade, ao passo que em PG perderam a vida famílias inteiras, com crianças 
e um número relativamente grande de pessoas jovens. Das 51 vítimas de outubro, 32 eram do sexo masculino 
(64%), refere‐se que em PG a percentagem fora de 54%. 

 
Figura 144 – Estrutura etária das vítimas dos incêndios de 15 de outubro, em comparação com a das vítimas dos incêndios de 17 de 
junho. 

Com  base  nos  critérios  de  classificação  que  foram  apresentados  acima,  analisámos  cada  um  dos  51 
acidentes mortais associados aos incêndios de 15 de outubro e obtivemos os resultados que se apresentam 
nos quadros seguintes.   

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No  que  respeita  às  circunstâncias,  podemos  ver  na  Tabela  24  que  em  15  de  outubro  houve  37%  de 
pessoas que morreram em casa. A percentagem de pessoas em fuga (67%) foi significativamente menor do 
que em junho, em que 95,4% das pessoas morreram enquanto tentavam fugir do fogo.  

De entre as 19 pessoas que morreram em casa, dez estariam a dormir quando o incêndio atingiu a sua 
casa. Embora se tenha considerado que as restantes 9 estariam ativas, significando que estavam conscientes 
da presença do incêndio, possivelmente apenas quatro estariam efetivamente a tentar defender a sua casa 
e haveres. De entre estes, houve duas pessoas (V22 e V23) que, como se viu no relato correspondente, se 
abrigaram numa construção que não tinha condições para resistir a um incêndio tão violento como o que os 
atingiu. Concluímos que, no conjunto dos acidentes mortais, de uma forma geral, a permanência em casa 
constitui a opção mais segura para não ser colhido pelo fogo.  

Ainda assim houve um número importante de pessoas que optaram por fugir de carro ou a pé e que 
acabaram por perder a vida, por vezes próximo de casa ou de outros locais mais seguros. 

Tabela 24 – Tipologia de acidentes 
     
Ref.  Situação  Nr.  % 
A111  Dentro de casa  7  13,73 
Ativo 
A112  Fora de casa  2  3,92 
Casa 
A121  Dentro de casa  10  19,61 
Passivo 
Circunstância do acidente  A122  Fora de casa  0  0 
(A)  A211  Dentro  12  23,53 
Viatura 
A212  Fora  7  13,73 
Fuga 
A221  Estrada  10  19,61 
Pé 
A222  Campo  3  5,88 
 

Quanto à motivação que levou as pessoas a agir de modo que vieram a falecer, podemos ver na Tabela 
25 que na maioria (39%) a motivação parece ser a tentativa de se abrigar do fogo ou de se afastar do incêndio. 
Possivelmente entre os casos classificados como “Outros ou desconhecido” teríamos mais alguns casos desta 
tipologia. São significativas as situações em que as pessoas agiram para ir socorrer os seus familiares (12%), 
ou para salvar a casa ou bens imóveis (18%). Como se viu nos relatos, houve pelo menos três casos em que 
as  pessoas  se  arriscaram  para  salvar  animais  de  estimação  e  a  que  se  sentiam  ligados.  Identificámos 
igualmente três casos em que as pessoas acabaram por perder a vida na tentativa de por a salvo os seus 
carros ou tratores. 

Tabela 25 – Motivação das vítimas 
    Ref.  Nr.   % 
Ajuda a familiares  B1  6  11,76 
Salvar animais  B2  3  5,88 
Motivação  Salvar a casa ou bens imóveis  B3  9  17,65 
(B)  Salvar bens móveis  B4  3  5,88 
Afastar‐se do incêndio ou proteger‐se  B5  20  39,22 
Outros ou desconhecido  B6  10  19,61 
 

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Quanto à causa da morte podemos ver na Tabela 26 que 86% das mortes foram causadas pelo fumo ou 
pelo fogo, diretamente. Houve 7 pessoas (14%) que morreram devido ao incêndio, mas indiretamente, em 
consequência de doença ou de acidente. 

Quase todas  as vítimas (84%) faleceram no próprio dia do acidente. Apenas  8 (16%)  chegaram a ser 


hospitalizadas e acabaram por falecer no hospital. 

Tabela 26 – Causas de morte 
      Ref.  Situação  Nr.  % 
C111  Imediata  5  9,80 
Queimaduras 
C112  a posteriori  3  5,88 
Direto 
C121  Imediata  34  66,67 
Asfixia 
C122  a posteriori  2  3,92 
Causa da morte  C211  Imediata  1  1,96 
Doença prolongada 
(C)  C212  a posteriori  0  0 
C221  Imediata  2  3,92 
Indireto  Trauma/Doença súbita 
C222  a posteriori  3  5,88 

Outro  C231  Imediata  1  1,96 

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5. Impactos dos incêndios 
5.1. Impacto geral 

Introdução 

Os incêndios florestais são um fenómeno natural e antrópico que provoca impactos no ambiente, na 
economia,  causam  disrupção  social  e  mobilizam  a  maioria  dos  recursos  humanos  e  materiais  afetos  à 
Proteção  Civil  (PC).    A  avaliação  desses  impactos  e  as  medidas  de  recuperação,  para  que  todo  o  sistema 
retorne,  na  medida  do  possível,  à  normalidade,  constitui  um  dos  mais  problemas  importantes  na  gestão 
integrada  dos  incêndios  florestais.  Portugal  Continental  é  ciclicamente  afetado  por  este  fenómeno, 
registando anos, como foi o de 2017, em que os impactos sociais são avassaladores, quer no número de 
vítimas mortais, quer no número de feridos graves e ligeiros, e perdas ambientais por vezes com um período 
de retorno muito dilatado. Os prejuízos económicos causados diretamente pelos incêndios e as despesas 
decorrentes  de  programas  de  apoio  financeiro  e  institucional  para  promover  o  regresso  à  normalidade, 
ascendem a muitos milhões de euros.  

Este  ciclo  tem  vindo  a  diminuir  e  muitas  são  as  causas  apontadas  para  esse  facto,  desde  alterações 
climáticas a nível global com repercussão local, ocupação do solo, tradições seculares, como sejam as festas 
e romarias em que se faz uso de artefactos pirotécnicos, entre outras. Para mitigar os efeitos da diminuição 
deste ciclo, o Estado vê incrementada a despesa com o combate aos IF, que quase triplicou no período 2001‐
2017. No entanto, se por um lado se verificou um incremento muito significativo com os custos das operações 
de combate para fazer face ao problema, o mesmo não se verificou em sede de prevenção, o que deveria 
constituir como uma prioridade face ao escalar do problema.  

  Os resultados negativos dos IF para o ambiente serão mais ou menos prejudiciais em função de um 
conjunto de fatores tais como a duração, a intensidade, extensão e frequência bem como da vulnerabilidade 
do próprio ecossistema. O impacto do fogo no ambiente afeta também de forma direta o ser humano, na 
medida em que os ecossistemas providenciam em grande parte a satisfação das suas necessidades básicas. 
Como já se disse noutros pontos, os incêndios de 15/out são seguramente os que maior impacto e maiores 
danos causaram em Portugal, desde que existem registos. 

Para além dos danos pessoais, traduzidos nestes incêndios pela ocorrência de 51 vítimas mortais, que 
são objeto de analise detalhada no Capítulo 4, temos dedicado uma atenção especial aos danos ocorridos 
nas edificações, sobretudo as destinadas a habitação da população, pelo seu valor e significado económico e 
social. Ao sermos confrontados pela extensão e gravidade do problema da destruição do parque habitacional, 
reconhecemos que o seu estudo em tempo útil estaria muito para além da nossa capacidade. Tomámos por 
isso a opção de estudar o impacto dos incêndios nas áreas industriais e empresariais que existem muitos 
municípios. Entendemos que o estudo da destruição do património habitacional deve ser feito, por diversas 
razões, entre elas por reconhecermos que nestes incêndios foram destruídas habitações com valor histórico, 
etnográfico  e  patrimonial  que  dificilmente  se  conseguirão  recuperar.  Por  outro  lado,  deveria  ser 
monitorizada  a  atividade  de  reconstrução  das  habitações,  que  nem  sempre  seguiram  padrões  de  justiça 
social, de adequação técnica e de respeito pelo património, que seriam de esperar, numa oportunidade única 
que o País teve para se fazer melhor no ordenamento do nosso território e na dotação de condições de vida 
mais dignas para a nossa população. 

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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
Impacto do fogo 

  O  impacto  do  fogo  no  território  pode  ser  avaliado  de  um  modo  objetivo  pela  energia  térmica 
libertada  em  cada  unidade  de  área  do  espaço  percorrido  pelo  incêndio.  Esta  análise  pode  ser  feita  por 
inspeção no terreno, mas em incêndios de muito grande dimensão, como os de 15/out, é usual recorrer a 
dados  de  satélite  que  permitem  estimar  estes  impactos,  a  partir  de  dados  de  imagens  produzidas  por 
sensores multiespectrais que permitem estimar a severidade do incêndio em cada célula do território.  

Para este efeito iremos utilizar os dados disponibilizados pelo Serviço de Gestão de Emergência da União 
Europeia, o Copernicus – Emergency Management Service, que é um programa Europeu para observação da 
Terra, criado através do Regulamento nº 377/2014 do Parlamento e do Conselho da Europa, cuja finalidade 
é disponibilizar aos Estados Membros e aos seus afiliados o acesso atempado a informação e a uma base de 
dados rigorosa e fiável sobre o ambiente, Proteção Civil e segurança do cidadão. Os perímetros fornecidos 
têm por base as imagens de satélite de alta resolução, dos satélites SPOT de quarta geração (6 e 7), cuja 
resolução é de 1,5m e a sua delimitação territorial efetuada por fotointerpretação por técnicos do serviço, 
com base na análise de várias imagens. A fotointerpretação das imagens permitiu caraterizar os danos em 
três classes distintas: possivelmente danificado, danificado e destruído. Embora estes danos se reportem à 
vegetação, são, em grande parte, aplicáveis às estruturas que existam na proximidade da vegetação e que 
possam ter sido afetadas pelos incêndios.

 Na Figura 145 mostra‐se a classificação de dano, de acordo com Copernicus, para os CIF do interior do 
País  (Seia,  Lousã,  Oliveira  do  Hospital,  Sertã  e  Vouzela).  Na  Figura  146  e  na  Figura  147  mostram‐se  as 
classificações respetivamente para os CIF de Leiria e de Quiaios.     

A interpretação dos danos provocados pelo fogo no CIF de Seia, com base nos dados fornecidos, é de 
destruição total na área ardida a sul e leste. Na orla são apresentadas muito pontualmente manchas com 
possivelmente danificado, e uma situação menos gravosa a oeste da área ardida, que se apresenta como 
possivelmente danificado intercalando com danificado e destruído no extremo noroeste. 

Os  danos  causados  pelo  fogo  no  CIF  da  Lousã  são  de  destruição  total  no  interior  da  área  ardida, 
alternando na orla dos seus flancos com áreas que foram interpretadas como danificadas. No seu extremo 
noroeste o dano causado pelo fogo foi também interpretado como danificado.  

À semelhança do CIF de Seia, o CIF de Oliveira do Hospital apresenta‐se como destruído a sul, mantendo 
este grau de dano provocado pelo fogo no interior da área ardida, o flanco oeste apresenta pequenas áreas 
interpretadas  como  danificadas.  O  flanco  leste  apresenta  áreas  mais  extensas  como  danificadas  e 
pontualmente áreas como possivelmente danificadas. A norte da área ardida estão distribuídas as três classes 
de dano apresentadas pelo programa: destruído intercalando com danificado e possivelmente danificado. 
Este CIF destrinça claramente a zona sul onde o dano provocado pelo fogo foi maior e a zona norte, em que 
o dano pelo fogo foi mais moderado.  

O CIF da Sertã mantém o mesmo grau de danos provocados pelo fogo que os que os CIF anteriormente 
referidos,  a  maioria  da  sua  área  ardida  apresenta‐se  como  destruída,  com  exceção  do  flanco  leste,  que 
pontualmente se apresenta como danificada. A área a sudoeste constitui‐se como a única área em que o 
dano  intercalou  de  destruído  a  leste,  para  danificado  e  pontualmente  possivelmente  danificado  a  oeste, 
também na sua área de contacto noroeste como sudoeste o CIF de Oliveira do Hospital se verifica uma área 
danificada.  

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 A interpretação do dano provocado pelo fogo no CIF Vouzela é muito heterogénea: na metade leste, 
verifica‐se  uma  vasta  área  classificada  como  destruída,  o  flanco  leste  apresenta‐se  classificado  como 
danificado, diminuindo a classe de dano para nordeste da área ardida, que intercala entre o danificado e o 
possivelmente  danificado.  Classificação  diferente  tem  a  metade  oeste  onde  predomina  claramente  a 
classificação de danificado, intercalando como possivelmente danificado e muito pontualmente destruído na 
orla a norte e em algumas manchas a norte da área ardida.  

 
Figura 145 – Classificação do dano para os IF em estudo no interior da Região Centro 

Os CIF do litoral são analisados individualmente seguindo a cronologia dos eventos. O CIF de Leiria só 
permitiu duas das três classificações de danos definidos provocados pelo fogo, o danificado e o destruído, 
não  existindo  em  toda  a  sua  extensão  a  possibilidade  de  classificar  como  possivelmente  danificado.  Em 
termos globais o interior da área ardida foi classificado como destruído, aparentando distribuição do dano 
de destruído acompanhar o sentido das progressões do CIF. Na orla da área ardida o grau de dano provocado 
pelo fogo foi classificado como danificado, com exceção da área sul em que claramente se verifica uma área 
em que alterna entre o destruído a sudoeste e o danificado a sudeste e o nordeste da área ardida que se 
apresenta maioritariamente com dano classificado como danificado (Figura 146).   

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Figura 146 – Classificação do dano para o IF de Leiria 

Por último, o CIF de Quiaios que apresenta novamente as três tipologias de danos provocados pelo fogo 
(Figura 147). A classificação “destruído” aparece muito vincado no interior da área ardida desde o ponto de 
início até à freguesia da Tocha, concelho de Cantanhede, claramente a classificação de destruído acompanha 
a progressão do CIF, o seu flano oeste até à freguesia da Tocha havia sido alvo de intervenção na gestão de 
combustíveis pelo que o dano é classificado como danificado, verificando‐se a mesma classificação de dano 
e passando a intercalar com possivelmente danificado por motivos distintos.  

Com  efeito,  as  operações  de  combate  foram  concentradas  neste  flanco  leste,  por  várias  razões:  a 
salvaguarda das infraestruturas humanas que constituem uma prioridade, as parcelas  de agricultura junto 
às habitações que promovem as quebras de combustíveis de estratos arbóreos para outros estratos mais 
baixos  e  condicionam  a  progressão  das  chamas  e  deste  modo  diminuem  os  danos,  por  último  a  barreira 
natural do flanco oeste que é o oceano Atlântico que por um lado constitui como um limite à progressão do 
incêndio, mas que também inviabiliza a progressão do combate quer por ausência de vias adequadas quer 
pela própria natureza dos solos.  

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Figura 147 – Classificação do dano para o IF de Quiaios 

As áreas afetadas pelos CIF, nomeadamente as do litoral devem ser alvo de monitorização ao longo do 
tempo, em função do dano produzido. A regeneração natural poderá não ser a estratégia mais adequada, 
dado que as espécies invasoras de crescimento rápido poderão invadir os espaços anteriormente ocupados 
por outras espécies.     

5.2. Impacto nas indústrias 

O aumento da ocorrência de IF representa um problema acrescido quando este se aproxima de espaços 
urbanos.  A  análise  do  impacto  do  fogo  nas  comunidades  tem  inerente  o  conceito  de  Interface  Urbano‐
Florestal  (IUF),  ou  simplesmente  interface.  Desta  forma,  adquire  uma  elevada  importância  a  gestão  do 
combate ao fogo na IUF. Apesar das diversas formas que a IUF pode tomar, conforme o critério que se utilizar 
para  definir  a  área  que  foi  afetada,  a  IUF  pode  ser  definida  de  uma  forma  geral  como  o  espaço  onde  as 
estruturas e a vegetação coexistem, num ambiente propício aos incêndios (Blue Ribbon Panel, 2008). O facto 
de as empresas estarem normalmente localizadas nas zonas periféricas das cidades ou de outros espaços 
habitacionais, fazem com que estas áreas industriais estejam inseridas em zonas de IUF com acrescidos riscos 
de incêndio, podendo ser designadas de Interface Industrial‐Florestal (IIF). Em Ribeiro (2016) é definida como 
Interface  Industrial‐Florestal  uma  “zona  industrial  com  casas,  armazéns,  materiais  diversos  e  pessoas  em 
contacto ou dentro de áreas florestais” na qual deve ser realizada uma cuidada gestão dos combustíveis na 
periferia das estruturas.  

Nos  incêndios  de  outubro  de  2017  houve  grandes  danos  provocados  tanto  nas  áreas  populacionais, 
como  nas  zonas  industriais,  em  todo  o  País.  No  que  toca  às  habitações,  e,  segundo  os  dados  da  CCDRC 
(apresentados em outubro de 2018), o Programa de Apoio à Recuperação de Habitação Permanente (PARHP) 
recebeu  1305  pedidos  de  apoio,  sendo  que  destes  63%  se  enquadravam  no  Programa  e  receberam  60 
milhões  de  euros  do  Orçamento  de  Estado.  Em  relação  às  indústrias,  dos  403  projetos  submetidos  ao 

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programa  Sistema  de  Apoio  à  Reposição  da  Competitividade  e  Capacidades  Produtivas  (REPOR),  mais  de 
metade (283 projetos) foram aprovados com um apoio de 74 milhões de euros. 

O complexo de incêndios florestais que afetou a Região Centro do País gerou um grande impacto no 
tecido industrial e empresarial da região, como nunca antes se  observara em  Portugal, razão pela qual  a 
equipa do CEIF/ADAI optou por analisar e estudar o impacto sofrido pelas indústrias. Além do motivo acima 
assinalado, é de constar que a indústria (como conceito geral) é uma atividade económica com um conjunto 
de características bastante peculiares, pois: 

 contribui para a independência económica de milhares de famílias; 
 gera contribuições e impostos; 
 gera bem‐estar social e económico; 
 é um motor de dinamismo regional e de fixação de quadros e de população produtiva. 
 
Que  fazem  desta  atividade  um  fator  chave  para  a  estabilidade  e  desenvolvimento  económico  da 
sociedade a vários níveis, tanto diretamente como indiretamente.  

Desta  forma,  os  danos  e  prejuízos  provocados  nas  indústrias  tiveram  uma  grande  consequência  na 
estabilidade dos empregos, bem como nas atividades desempenhadas, colocando as pessoas e as empresas 
numa situação vulnerável, fazendo, deste modo, todo o sentido dar relevância ao estudo da forma como as 
indústrias foram afetadas. Com efeito, a dispersão por toda a Região Centro que os IF tiveram levou a que 
fossem  canalizados  os  nossos  esforços  na  caracterização  do  impacto  socioeconómico  dos  incêndios  nas 
indústrias.  

 
 Apoios concedidos às empresas afetadas 

Os incêndios de outubro de 2017 afetaram de um modo geral toda a Região Centro do País registando 
os maiores danos de que há memória em áreas de interface urbano‐florestal e em empresas. Estas empresas 
encontravam‐se nos vários municípios afetados, espalhadas pelo território ou concentradas em ZI. Embora 
o problema dos IF tenha escalado para valores nunca registados anteriormente, a resposta face à magnitude 
dos eventos, quer dos proprietários das empresas afetadas, quer dos decisores foi célere.  

Diversos  programas  de  apoio  aos  lesados  pelos  incêndios  foram  implementados  após  publicação  da 
legislação,  que  teve  como  objetivo  criar  medidas  que  respondessem  não  só  à  resolução  da  problemática 
relacionada  com  os  incêndios,  mas  também  à  valorização  e  defesa  da  floresta,  tendo  como  prioridade  a 
reparação  e  reconstrução,  a  resiliência  do  território  e  das  infraestruturas  e  a  reforma  do  modelo  de 
prevenção e combate aos incêndios florestais. No que toca às medidas de apoio e de incentivo à recuperação 
do tecido empresarial, a Resolução do Conselho de Ministros nº 167‐B/2017, de 2 novembro, veio determinar 
a adoção de medidas imediatas em vários domínios, entre elas: 

 Criação de um sistema de apoio ao restabelecimento da capacidade produtiva das empresas afetadas 
– Sistema de Apoio à Reposição da Competitividade e Capacidades Produtivas (REPOR), aprovado 
pelo Decreto‐Lei nº 135‐B/2017 a 3 de novembro de 2017, sendo apoiadas a aquisição de máquinas, 
de equipamentos, de material circulante de utilização produtiva e as despesas associadas a obras de 
construção necessárias à reposição da capacidade produtiva, que tem como objetivo a recuperação 
dos ativos empresariais danificados, total ou parcialmente, pelos referidos incêndios, nos municípios 

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das regiões Centro e Norte particularmente afetados. Este programa recebeu a candidatura de 403 
projetos e mais de metade (283) foram aprovados com um apoio de 74 milhões de euros; 
 
 Desenvolvimento  de  programas  de  incentivos  para  atração  de  novos  investimentos  ‐  Apoio  do 
Portugal  2020  para  atrair  novos  investimentos  geradores  de  emprego  nos  territórios  afetados 
pelos incêndios (ATRAIR), aprovado pelo Decreto‐Lei nº 135‐B/2017, composto por dois concursos 
(SI Inovação e SI Inovação/Emprego) que têm como objetivo atrair novos investimentos geradores 
de  emprego  nos  territórios  que  foram  afetados  pelos  incêndios  de  outubro,  em  particular  em 
territórios de baixa densidade ou territórios nos quais o número de empresas ou empregos foram 
bastante afetados, com uma quantia de 100 milhões de euros; 
 
 Atribuição de apoios às populações e empresas, no âmbito da segurança social, do emprego e da 
formação profissional, definidos na Portaria nº347‐A/2017, de 13 de novembro, sobretudo o apoio 
no  pagamento  de  salários  a  trabalhadores  das  empresas  afetadas,  através  da  medida  Contrato‐
Emprego executada pelo Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP); 
 
 Atribuição de medidas de apoio temporário, através do Decreto Lei nº141/2017, de 14 de novembro, 
que consistiu em medidas de apoio temporário destinadas aos contribuintes com domicílio fiscal, 
sede  ou  estabelecimento  nos  concelhos  afetados  pelos  incêndios  de  15  de  outubro.  Ao  nível 
contributivo, por exemplo, foram aprovados apoios em regime excecional e temporário de isenção, 
total  ou  parcial,  de  pagamentos  à  Segurança  Social  (SS),  para  entidades  empregadoras  e 
trabalhadores independentes afetados pelos incêndios; 
 
 Disponibilização  de  linhas  de  crédito  aos  afetados  pelos  incêndios  para  diferentes  tipo  de  apoio, 
entre eles, apoio à tesouraria (aprovado pelo Decreto‐Lei n.º 135‐B/2017), apoio ao parqueamento 
de madeira queimada de resinosas (Decreto‐Lei n.º 135‐C/2017), apoio à comercialização de madeira 
queimada de resinosas (Decreto‐Lei nº 359‐B/2017). 

Nas medidas adotadas pelo Decreto‐Lei 135‐B/2017 foi dado poder de decisão e gestão às Comissões 
de Coordenação e Desenvolvimento Regional competentes, assim como ao Instituto do Turismo de Portugal 
ou ao Instituto de Apoio às Pequenas e Médias Empresas e à Inovação (IAPMEI), dependendo do setor de 
atividade das empresas em questão. 

Além dos programas de apoio gerais que foram concedidos a todos os empresários lesados, ainda foram 
criados outros programas locais, bem como gabinetes que auxiliaram as pessoas a desenvolver e submeter 
candidaturas a esses apoios. A título de exemplo, o município de Oliveira do Hospital criou o Gabinete de 
Apoio às Pequenas e Médias Empresas e à Inovação (GAEAI) que apoiava na execução de candidaturas a 
submeter aos empresários interessados. 

 
 Complexo de incêndios: Seleção de pontos a visitar e obtenção de dados  

A análise do impacto do fogo nas estruturas industriais após os incêndios de 15 e 16 de outubro baseou‐
se  na  visita  no  terreno  das  empresas  atingidas  pelo  fogo.  Devido  à  elevada  área  atingida  e  aos  diversos 
incêndios  que  se  propagaram,  foi  necessário  tomar  decisões  no  que  toca  à  organização  para  efetuar  as 
dezenas de visitas aos diferentes locais, desde janeiro até outubro de 2018. 

CEIF/Universidade de Coimbra  183 
 
Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
A Tabela 27 mostra os concelhos escolhidos como representativos para análise das empresas afetadas, 
estes estão ordenados pela hora de início e pelo local de ignição de cada incêndio. A escolha dos concelhos 
a visitar para analisar o impacto do fogo nas indústrias teve como base o início do estudo do complexo de 
incêndios que envolveram vítimas mortais, e, adicionalmente, foi acrescentado o concelho de Mira na análise 
pois a nível de indústrias estas tiveram um impacto económico muito grande.   

Tendo em conta o elevado número de infraestruturas afetadas, e tornando‐se complexa a previsão dos 
reais prejuízos das mesmas, a metodologia utilizada para caracterizar o impacte nas indústrias foi a consulta 
inicial  da  lista  de  candidaturas  submetidas  ao  programa  REPOR  ‐  Sistema  de  Apoio  à  Reposição  da 
Competitividade  e  Capacidades  Produtivas,  entregue  na  CCDRC,  com  os  respetivos  projetos  aceites  e 
aprovados  pela  comissão  responsável.  Durante  todo  o  processo  de  candidaturas  foram  lançadas  diversas 
listas,  sendo  a  lista  utilizada  como  base  para  obtenção  de  dados  e  informação  a  correspondente  a  2  de 
outubro  de  2018  (http://www.ccdrc.pt/index.php?option=com_docman&view=download&alias=4335‐
aprovacoes‐repor‐02out2018&category_slug=publicitacao‐dos‐apoios‐do‐repor&Itemid=739).  Fica 
registado que a lista mais recente disponibilizada foi a 15 e janeiro de 2019, mas os dados contidos nesta não 
foram  utilizados.  Como  nem  todas  as  empresas  afetadas  pelos  incêndios  submeteram  candidaturas,  por 
diversas  razões,  ‐  por  exemplo  o  tipo  de  atividade  (aviários)  não  permitia  a  candidatura  a  este  fundo,  ‐ 
também foram solicitadas à CCDRC as listas com o levantamento que foi feito, das empresas afetadas, para 
termos o maior número possível de empresas.  

De forma a ter uma perceção do número de empresas existentes para cada concelho, consultou‐se o 
Anuário  Estatístico  da  Região  Centro,  elaborado  pelo  Instituto  Nacional  de  Estatística  (INE,  2018),  cujos 
valores estão representados na Tabela 27, juntamente com os números de empresas presentes na lista da 
CCDRC  e  aquelas  que  visitámos.  Em  complemento,  a  Figura  148  ilustra  espacialmente,  a  localização  das 
empresas visitadas e o seu tipo de dano. Por tipo de dano entende‐se a forma como ficou afetada a empresa 
após passagem do fogo. 

Tabela 27 – Concelhos escolhidos para análise das empresas afetadas em cada incêndio, empresas existentes por concelho em 2017 
(INE, 2018), número de empresas presentes na lista CCDRC e empresas visitadas 
N. Empresas  Totalidade 
Complexo de  Concelho  N. Empresas  N. Empresas 
por concelho  empresas 
Incêndios  analisado  lista CCDRC  visitadas 
(INE, 2018)  visitadas (%) 
Seia  Seia  2143  8  4  50 
Lousã  Tondela  3002  29  22*  76 
Oliveira do Hospital  Oliveira do Hospital  1850  75  65*  87 
Sertã  Pampilhosa‐da‐Serra  281  7  5  71 
Quiaios  Mira  1412  15  18*  120 
Vouzela  Oliveira de Frades  1111  20  26*  130 
*existência de empresas visitadas que não estavam na lista da CCDRC 

Na Tabela 27 observa‐se que o número de empresas visitadas em cada CIF no geral é inferior ao indicado 
na lista da CCDRC. A distribuição do impacto por concelho refere em primeiro lugar o concelho de Oliveira 
do Hospital com 65 empresas afetadas, seguindo‐se Oliveira de Frades com 26 empresas, Tondela com 22 e 
Mira  com  18  empresas  afetadas  nos  seus  dois  polos  industriais.  É  importante  referir  que  nas  visitas 
realizadas,  e  tendo  como  guia  a  lista  facultada  pela  CCDRC,  deparamos  com  algumas  situações  que  são 
descritas de seguida: 

 dificuldade em localizar algumas empresas devido à morada da sede da empresa não coincidir com 
o seu local de funcionamento; 

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 dificuldade/impossibilidade  de  entrevistar  empresas  que  mudaram  de  local  temporária  ou 
definitivamente; 
 empresas afetadas pelos incêndios que não estavam mencionadas na lista; 
 empresas mencionadas na lista que foram afetadas indiretamente, com isto queremos dizer que os 
bens  afetados  pertencentes  uma  dada  empresa  estava  noutra  empresa  que  foi  afetada  pelos 
incêndios; 
 empresas que tiveram afetados bens materiais (p. ex.: máquinas ou ferramentas) e não a estrutura; 
 uma das empresas afetadas foi uma farmácia, que estava localizada no centro da povoação, entre 
casas de habitação, sendo a única afetada e tendo o seu interior completamente destruído; 
 

 
Figura 148 – Empresas afetadas por concelho e tipos de danos resultantes nas estruturas 

 Nas visitas realizadas aos locais, foi observado no decorrer do tempo (de janeiro a outubro de 2018), que 
desde  os  incêndios,  algumas  das  estruturas  completamente  destruídas  já  estavam  em  reconstrução  ou 
mesmo contruídas de novo. Isto é um ponto forte a salientar, pois mostra a resiliência e a força de vontade 
por  parte  dos  donos  das  empresas  em  manter  o  seu  negócio,  não  desistindo,  e  tendo  o  sentimento  de 
responsabilidade para não fechar a atividade, e acima de tudo em manter os postos de trabalhos de terceiros, 
os quais dependem destes para viver. 

Para realização das visitas foi construído um formulário com mais de 30 questões de resposta rápida 
utilizando o software 1, 2, 3 Survey do ArcGis Online, de simples interpretação e preenchimento, para realizar 
junto dos responsáveis das empresas visitadas. O formulário foi realizado através da aplicação móvel da ESRI 
(Environmental  Systems  Research  Institute),  com  o  mesmo  nome,  onde  através  de  um  GPS,  foi  possível 
realizar  todas  as  perguntas  de  forma  digital,  assim  como  determinar  automaticamente  a  sua  localização 
geográfica. Simultaneamente foi realizado o registo fotográfico das empresas danificadas. 

O formulário tinha como objetivo analisar as condições das empresas antes, durante e após a ocorrência 
do CIF, pretendendo realizar uma caracterização socioeconómica, infraestrutural, do território envolvente e 
do processo responsável pela primeira ignição. Também se pretendeu registar a perceção dos responsáveis 
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de  cada  indústria  afetada  face  ao  ocorrido  e  de  que  forma  propunham  medidas  que  possibilitassem  a 
mitigação de situações futuras. As variáveis selecionadas são praticamente autoexplicativas. Ainda assim, na 
Tabela 28 fazemos uma breve descrição de cada uma. 

Tabela 28 – Descrição das variáveis usadas 
Variável  Descrição 
Setor de atividade da empresa  Refere‐se à atividade desenvolvida na empresa, e está de acordo com o CAE. 
Outro – Setor de atividade da empresa  Permite especificar outro tipo de setor de atividade, que não esteja na lista anterior 
Tipo de estrutura   Refere‐se ao tipo de utilização da estrutura, a escolher de uma lista predefinida. 
Outro tipo de estrutura  Permite especificar outro tipo de estrutura, que não esteja na lista anterior 
Tipo de construção  Refere‐se ao tipo de materiais utilizados na construção da estrutura, a escolher de 
uma lista predefinida 
Idade aproximada da estrutura  Refere‐se à idade da estrutura, numa de 3 opções. Pode estimar‐se ou falar com os 
proprietários ou vizinhos.  
Estado de conservação da estrutura   Refere‐se  ao  estado  de  conservação  da  estrutura,  a  escolher  de  uma  lista 
predefinida. Pode estimar‐se ou falar com os proprietários ou vizinhos. 
Proximidade  de  combustíveis  florestais  à  Refere‐se ao à distância dos combustíveis florestais à estrutura, a escolher de uma 
estrutura  lista predefinida. 
Gestão de combustíveis na envolvente por  Refere‐se à existência de algum tipo de gestão de combustíveis na envolvente por 
parte da empresa  parte da empresa, antes do IF. Pode estimar‐se ou falar com os proprietários ou 
vizinhos. 
Número de trabalhadores da empresa  Número  de  trabalhadores  que  laboram  na  empresa,  a  escolher  de  uma  lista 
predefinida. 
Balanço total anual da empresa  Refere‐se  à  faturação  anual  da  empresa  do  último  ano,  a  escolher  de  uma  lista 
predefinida. 
Data em que a estrutura foi atingida   Refere‐se à data em que a estrutura foi danificada pelo fogo, independentemente 
de o IF lá estar ou não. 
Hora a que a estrutura foi atingida   Refere‐se à hora a que a estrutura foi danificada pelo fogo, independentemente de 
o IF lá estar ou não. 
Processo responsável pela 1ª ignição  Refere‐se ao modo como a estrutura começou a arder.  
Possível local de ignição da estrutura  Refere‐se ao local pelo qual foi responsável o processo pela 1ª ignição. 
Tinha comunicações na altura do IF?  Refere‐se  ao  facto  de  haver,  ou  não,  comunicações  por  telefone  durante  a 
passagem  do  fogo.  A  resposta  dependeu  do  testemunho  do  proprietário  ou 
responsável. 
Falhou a eletricidade durante o IF?  Refere‐se ao facto de a energia elétrica ter falhado durante a passagem do fogo. A 
resposta dependeu do testemunho do proprietário ou responsável. 
Hora a que falhou eletricidade?  No  caso  de  resposta  positiva  à  variável  anterior,  refere‐se  à  hora  a  que  terá 
ocorrido. A resposta dependeu do testemunho do proprietário ou um vizinho.  A 
resposta dependeu do testemunho do proprietário ou responsável. 
Falhou a água durante o IF?  Refere‐se ao facto de a água de rede ter falhado durante a passagem do fogo. A 
resposta dependeu do testemunho do proprietário ou responsável. 
Hora a que falhou água  No  caso  de  resposta  positiva  à  variável  anterior,  refere‐se  à  hora  a  que  terá 
ocorrido. A resposta dependeu do testemunho do proprietário ou responsável. 
Possuíam  sistemas  de  geradores  para  Refere‐se  ao  fato  de  haver  empresas  que  possuem  geradores  quando  há  uma 
abastecer a empresa?  quebra de eletricidade. 
Quem combateu o incêndio durante a fase  Refere‐se  ao  facto  de  haver  gente  na  estrutura  que  tenha  ficado  a  defender  a 
crítica?  estrutura ou entidades que estivessem no local a combater o incêndio. 
Qual  o  nível  de  operacionalidade  da  Refere‐se ao nível de operacionalidade da empresa, a escolher entre 3 opções. 
empresa após o IF? 
Trabalhadores  continuaram  a  operar,  em  Refere‐se à possibilidade de os trabalhadores continuarem a trabalhar na empresa, 
atividades de limpeza ou outras?  independentemente da atividade da empresa, a escolher de uma lista de opções. 
Tenciona  reerguer‐se  no  mesmo  parque  Refere‐se à possibilidade de a estrutura reerguer‐se ou não no mesmo local, e com 
industrial?  ou sem alterações. 
Estimativa do prejuízo  Refere‐se ao valor aproximado dos prejuízos calculados após o incêndio, a escolher 
uma das opções na lista. 
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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
A empresa estava abrangida por que regime  Refere‐se ao tipo de seguro que a empresa tinha. Existindo também a opção de não 
de seguradoras?  ter seguro. 
A  empresa  tinha  bens  (danificados)  não  Refere‐se  aos  bens  que  não  foram  abrangidos  pelo  seguro.  Resposta  de  escrita 
abrangidos pelos seguros? Quais?  livre. 
A empresa tinha medidas de autoproteção  Refere‐se à existência ou não de medidas de autoproteção na empresa. 
disponíveis no dia do incêndio? 
Tenciona  alterar  as  medidas  de  Refere‐se à possibilidade de alterar medidas de autoproteção, independentemente 
autoproteção existente?  de medidas já existentes. 
Tipo de danos na estrutura  Refere‐se ao modo como ficou a estrutura. 
Fotos da máquina  Refere‐se à identificação de fotografias obtidas com uma máquina digital, que não 
eram anexadas automaticamente à base de dados. 
Do  seu  ponto  de  vista,  o  que  poderia  ter  Campo de texto livre e opcional para referir aspetos que falharam e que poderiam 
sido feito de maneira diferente de forma a  ter sido alterados de forma a minimizar ou evitar a tragédia. 
evitar ou minimizar tal tragédia?  (Opcional) 
Fotografia  Este campo permite inserir uma fotografia tirada com o próprio GPS à estrutura 
danificada, ficando a imagem automaticamente anexada à base de dados. 
 
Nos  subcapítulos  seguintes  serão  analisados  individualmente  cada  uma  das  instalações  industriais,  tendo 
como  pontos  fulcrais  as  infraestruturas  e  a  forma  como  foram  afetadas  pelos  incêndios  e  o  impacte  nas 
indústrias após o incêndio. Serão ainda mencionadas e analisadas as instalações industriais de uma forma 
geral, tendo como objetivo a análise de pontos comuns de impacte pelos incêndios. 

5.3. Instalações industriais de Seia 

As instalações industriais de Seia foram afetadas no decorrer dos incêndios, principalmente no domingo 
(15  de  outubro).  Por  este  motivo  muitas  empresas  estavam  encerradas,  limitando  em  alguns  casos  o 
conhecimento exato da hora do início da ignição, pois os inquiridos referiam que tinham apenas uma ideia 
aproximada desta hora. Na Figura 149 é possível observar que as infraestruturas em Seia foram atingidas 
pelo fogo durante a parte da tarde (16.00h) e ao final da tarde (18.00h e 20.00h) de 15 de outubro.  

 
Figura 149 – Hora indicada (no dia 15 de outubro) pelos inquiridos do momento em que o fogo atingiu as suas instalações 
industriais e velocidade média de propagação do fogo do CIF de Seia 

Neste  gráfico  está  representada  igualmente  a  evolução  da  velocidade  média  da  frente  principal  do 
incêndio ao longo do tempo. Como se pode ver, a velocidade de propagação do fogo foi máxima por volta 

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das  16.00h,  coincidindo  com  o  período  em  que  foram  atingidas  duas  empresas.  Mais  dados  relativos  à 
evolução da propagação do incêndio de Seia e dos incêndios seguintes podem ser consultados no Capítulo 
3. 

 Caracterização das infraestruturas e meio envolvente  

Na Tabela 29 são apresentados os principais setores de atividade em função do número de empresas da 
região  de  Seia,  onde  é  de  realçar  a  elevada  predominância  de  empresas  (96,92  %)  com  um  número  de 
trabalhadores muito baixo (<10), sendo estas classificadas como microempresas.  

As empresas visitadas tiveram por base 

Todos os edifícios das empresas danificadas pelos incêndios eram construídos em alvenaria e metal, e 
as suas infraestruturas tinham aproximadamente 10 a 30 anos de idade. 

Tabela 29 – Setor da atividade das empresas afetadas no CIF de Seia, empresas existentes por setor de atividade em 2017 no 
concelho de Seia (INE, 2018) e escalão de trabalhadores nas empresas  
N. empresas  N. Empresas afetadas   % empresas existentes 
Escalão de 
Setor de atividade da  existentes no  segundo escalão de 
Lista  trabalhadores para as 
empresa  concelho  Visitadas  trabalhadores (INE, 
CCDRC   empresas em estudo 
(INE, 2018)  2018) 
Construção civil, 
materiais de  186  6  1  <10 
construção  trabalhadores  96,92 % (2077) 
Veículos, máquinas e  (microempresa) 
516  2  2 
equipamentos 
50 e 250 (média 
Produtos metálicos  163  0  1  0,28 % (6) 
empresa) 
Total  865  8  4  ‐  97,20 % (2083) 

Das quatro empresas visitadas, duas apresentaram perda total, que correspondem às empresas com 
setor de atividade em veículos, máquinas e equipamentos. A empresa de produtos metálicos apresentou 
danos avultados e a de construção civil danos médios (ver Tabela 29 e Figura 150).  

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Figura 150 – Indústrias afetadas no concelho de Seia 

O principal processo responsável pela primeira ignição nas 4 indústrias afetadas no concelho de Seia foi 
o impacto direto das chamas proveniente do espaço florestal envolvente em 2 unidades e indiretamente por 
projeção de  partículas noutras 2 unidades, pois como se pode  observar na Tabela 30 todas as estruturas 
estavam entre 2 a 10 metros de distância da vegetação, o que justifica os danos agravados apresentados 
nestas empresas.  
 
Tabela 30 – Proximidade com combustíveis florestais à estrutura e modo como as empresas foram afetadas, por setor de atividade 
Proximidade dos 
Setor de atividade da  N. Empresas  combustíveis  Processo responsável pela  Possível local 
empresa  afetadas visitadas  florestais à  1ª ignição  de ignição 
estrutura (m) 
Construção civil,  Diretamente por chamas 
materiais de  1  provenientes do espaço          Janela 
construção  florestal envolvente 
Indiretamente por projeção 
1  Janela 
Veículos, máquinas e  de partículas 
0 a 2 
equipamentos  Indiretamente por projeção 
1  Telhado 
de partículas 
Diretamente por chamas 
Produtos metálicos  1  provenientes do espaço  Telhado 
florestal envolvente 

A Câmara Municipal de Seia disponibiliza na internet no seu sítio (http://www.cm‐seia.pt) para consulta 
os mapas delimitados com as áreas que devem ser limpas em cada freguesia do concelho de Seia para as 
diferentes tipologias de infraestruturas, de forma a que o público geral tenha facilidade de acesso a esta 
informação. Como exemplo, está representado um mapa de 2015 de Vale da Igreja, em Seia, na Figura 151a 
um dos locais no qual uma das indústrias foi afetada, ficando destruída totalmente. É possível observar que 
na delimitação da área (a lilás) existia espaço florestal muito próximo das infraestruturas industriais.  

CEIF/Universidade de Coimbra  189 
 
Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
(a)  (b) 

 
 
Figura 151 – Mapas de Vale da Igreja, Seia, local onde uma indústria foi afetada: (a) com identificação das áreas a manter limpas 
em Vale da Igreja (mapa de 2015) (Fonte: http://www.cm‐seia.pt); (b) mapa de agosto de 2017 com o polígono das indústrias 
identificado (círculo lilás) 

Para o mesmo local, é apresentado na Figura 151b o mapa referente a agosto de 2017, poucos meses 
anteriores à tragédia, e pode observar‐se que tal como no mapa de 2015 a zona em redor às indústrias se 
mantém com uma área florestal muito próxima das infraestruturas. 

 
 Impacte após o incêndio 

Após o incêndio, um dos primeiros elementos a avaliar foi o nível de operacionalidade da empresa, bem 
como  a  possibilidade  de  continuação  de  funcionamento  da  empresa  no  mesmo  local  ou  se  haveria 
necessidade de reconstruir noutro local, e ainda se existiam condições para os trabalhadores continuarem a 
exercer o seu emprego, mesmo que em atividades secundárias. Estas poderiam ser a limpeza de destroços, 
a verificação de funcionamento de equipamentos, e outros trabalhos diversos que tinham como objetivo 
colocar de novo a empresa em funcionamento o mais rapidamente possível. Para avaliar esta situação, na 
Tabela  31  mostra‐se  esquematicamente  a  avaliação  da  operacionalidade  tanto  da  empresa  como  dos 
trabalhadores, com isto quer dizer‐se, se a empresa continuou operacional nas suas atividades e se as suas 
infraestruturas  ficaram  no  mesmo  local  ou  se  foi  reconstruída  noutro  local,  e  se  os  trabalhadores 
continuaram a trabalhar por completo ou se somente em algumas atividades específicas. Em Seia, das quatro 
empresas  afetadas,  em  todas  elas  os  trabalhadores  continuaram  em  atividade,  mesmo  em  duas  das 
empresas que ficaram completamente inoperacionais, sendo este um dos casos no qual os trabalhadores se 
envolveram em atividades de limpeza. É de salientar ainda que as empresas que foram reconstruídas noutro 
local  após  o  incêndio,  são  as  que  sofreram  destruição  total,  e  algumas  estiveram  a  desenvolver  a  sua 
atividade em locais temporários, disponibilizados por outras empresas. 

Tabela 31 – Operacionalidade/Localização da empresa e dos trabalhadores após o CIF de Seia 
Operacionalidade dos 
 

Após os incêndios  trabalhadores  Total 


  Parcial  Total 
Operacional  1  1  2 
Operacionalidade/ 

Não, reconstruir noutro local    1  1 
Localização da 

Sim, com algumas alterações  1    1 
Empresa 

Totalmente inoperacional    2  2 
Não, reconstruir noutro local    1  1 
Sim, com algumas alterações    1  1 
Total  1  3  4 

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O  inquérito  realizado  apurou  que  os  prejuízos  estimados  em  função  do  balanço  anual  registou  duas 
indústrias com balanço até 500 mil euros, das quais uma reportou um prejuízo entre 50 e 100 mil euros, uma 
com um volume de faturação entre 2 e os 10 milhões de euros que reporta valores estimados entre 100 e 
500 mil euros, e por fim uma indústria que tem um balanço anual de 10 a 50 milhões de euros que reporta 
prejuízos na ordem dos 100 a 500 mil euros (Tabela 32).  Apesar de 3 das 4 empresas serem microempresas, 
de uma análise rápida e geral, duas das empresas tinham um balanço anual elevado. 
Tabela 32 – Relação entre o balanço anual e o prejuízo estimado nas empresas visitadas do concelho de Seia 
Estimativa de prejuízos 
Balanço anual da empresa 
[kEUR]  Total 
[MEUR] 
50 a 100  100 a 500 
<0,5   1  1  2 
Entre 2 e 10    1  1 
Entre 10 e 50    1  1 
Total  1  3  4 

No  decorrer  das  várias  avaliações  realizadas  às  empresas  após  a  destruição  verificada,  a  avaliação  e 
contabilização dos prejuízos foram feitos através de inventariação e registo fotográfico, tal como o contato 
imediato  com  as  agências  seguradoras,  de  modo  a  serem  cobertos  pela  perda  de  bens  materiais  o  mais 
rapidamente possível. Das empresas afetadas foi verificado que nem todas tinham seguro, que é o caso da 
empresa de construção civil (ver Figura 152).  

 
Figura 152 – Tipo de seguro das empresas afetadas após o CIF de Seia 

No caso das empresas devidamente asseguradas foi registado que nem todos os bens danificados foram 
cobertos pelo seguro, como o caso de ambas as empresas de veículos, máquinas e equipamentos, em que os 
inquiridos relataram que o seguro não cobriu ferramentas, equipamentos e/ou matéria prima. 
 

5.4. Instalações industriais de Tondela (CIF Lousã) 

As instalações industriais de Tondela foram afetadas pelos fogos que tiveram origem no IF que deflagrou 
no Prilhão, no concelho  da Lousã, situado no concelho da Lousã. O CIF da  Lousã teve início no dia 15 de 
outubro pela manhã (ver Capítulo 3), tendo evoluído na direção de Tondela, onde ao final da tarde/início da 
noite de dia 15 começou a atingir indústrias, existindo indústrias afetadas na madrugada de dia 16, como se 
pode  observar  na  Figura  153a.  Segundo  os  inquiridos,  das  22  empresas  afetadas,  11  foram  atingidas 
aproximadamente  pelas  23.00h,  e,  de  forma  a  visualizar  a  sua  proximidade  umas  das  outras,  estas  estão 

CEIF/Universidade de Coimbra  191 
 
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representadas na Figura 153b com a hora indicada. Pode observar‐se que, com exceção de quatro empresas 
que se situavam na Zona Industrial de Tondela, existe alguma dispersão nas horas indicadas. Tal pode dever‐
se à velocidade  média  de  propagação  do fogo  que  estava elevada e a aumentar, ou, à  incerteza  da  hora 
transmitida pelos inquiridos. 

(a) 

 
(b) 

 
Figura 153 – CIF da Lousã: (a) Hora indicada (a partir de 15 de outubro) pelos inquiridos do momento em que o fogo atingiu as suas 
instalações industriais e velocidade média de propagação do fogo do CIF da Lousã; (b) localização das empresas afetadas no 
período das 23.00h 

Caracterização das infraestruturas e meio envolvente  

Na Tabela 33 são apresentados o número de empresas existentes e afetadas na região de Tondela por 
setor de atividade. Existem na totalidade 1981 empresas, das quais visitámos 22 que foram atingidas. Das 22 
empresas  72,72%  eram  microempresas  e  27,28%  pequenas  empresas.  Mais  uma  vez  se  verifica  que  as 
microempresas estão numa percentagem superior (ver Tabela 34). 

CEIF/Universidade de Coimbra  192 
 
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A  maioria  dos  edifícios  das  empresas  danificadas  pelos  incêndios  eram  construídos  em  alvenaria, 
existindo também alguns em metal e pedra. No geral as suas infraestruturas tinham aproximadamente entre 
10 e 30 anos de idade. 

Tabela 33 – Setor da atividade das empresas afetadas no CIF da Lousã, empresas existentes por setor de atividade em 2017 no 
concelho de Tondela (INE, 2018) 
N. empresas existentes  N. Empresas afetadas 
Setor de atividade da empresa 
no concelho (INE, 2018)  Lista CCDRC  Visitadas 
Agricultura, produção animal, caça e silvicultura  639  2  2 
Alimentar e bebidas  164  3  1 
Construção civil, materiais de construção  313  7  5 
Fornecimento de gás, água ou eletricidade  15  2  1 
Madeira ou cortiça  5  4  2 
Produtos metálicos  167  2  3 
Transportes  63  3  1 
Veículos, máquinas e equipamentos  615  2  2 
Outro  ‐  4  5 
Total  1981  29  22 

Tabela 34 – Número de empresas com diferentes escalões de trabalhadores  
% empresas existentes 
Escalão de trabalhadores para as empresas em  N. Empresas afetadas 
segundo escalão de 
estudo no concelho de Tondela  visitadas 
trabalhadores (INE, 2018) 
<10 trabalhadores (microempresa) 
97,37% (2923)  16 

10 a 50 trabalhadores (pequena empresa)  2,07% (62)  6 
Total  92,44% (2985)  22 

Da totalidade das instalações industriais analisadas, nove apresentaram perda total, seis das empresas 
danos médios e 6 outras danos avultados (Figura 166). Seis das empresas estavam situadas na Zona Industrial 
de Tondela e as restantes estavam espalhadas pelo concelho como se pode observar na Figura 154. 

 
Figura 154 – Indústrias afetadas no concelho de Tondela 
CEIF/Universidade de Coimbra  193 
 
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Na Figura 155 estão representadas duas fotos de diferentes estruturas de uma empresa, nas quais se 
podem observar respetivamente uma estrutura completamente destruída e outra estrutura que já está a ser 
reconstruída.  
(a)  (b) 

   
Figura 155 – Indústrias afetadas no concelho de Tondela: (a) estrutura completamente destruída; (b)estrutura a ser reconstruída 
de novo.  
  Devido às condições meteorológicas a velocidade de propagação do fogo foi muito elevada, como se pode 
verificar na Figura 153a. Este facto deu origem a projeção de partículas a grandes distâncias da frente de 
fogo. Neste caso a distância das estruturas ao espaço envolvente foi pouco importante, pois tanto existiam 
estruturas que estavam a 2 metros de distância do espaço florestal, como outras que estavam a mais de 50 
metros de distância. Tabela 35 Constata‐se na Tabela 35  que em 50%  das empresas o principal processo 
responsável pela primeira ignição nas estruturas afetadas foi indiretamente por projeção de partículas. A 
segunda  forma  responsável  pela  ignição  foi  diretamente  por  chamas  provenientes  do  espaço  florestal 
envolvente, verificado em 27,27% das unidades industriais. Nas infraestruturas atingidas diretamente por 
chamas provenientes de estruturas adjacentes observa‐se que das três estruturas atingidas, em duas delas 
os  combustíveis  florestais  estavam  a  mais  de  50  metros  de  distância.  Uma  das  estruturas  foi  consumida 
devido  a  materiais  depositados  junto  à  estrutura,  que  serviu  de  elo  facilitador  de  propagação  para  a 
estrutura, a qual era uma estrutura aberta, como se pode verificar na Tabela 35. 

Tabela 35 – Proximidade com combustíveis florestais à estrutura e qual o processo responsável pela primeira ignição 
Proximidade dos combustíveis florestais à 
Processo responsável pela 1ª  Total 
estrutura (m) 
ignição 
0 a 2  2 a 10  10 a 50  Mais de 50 
Diretamente por chamas provenientes de 
1  ‐  ‐  2  3 
estruturas adjacentes 
Diretamente por chamas provenientes do 
2  1  3  ‐  6 
espaço florestal envolvente 
Indiretamente por projeção de partículas  3  3  2  3  11 
Propagação por materiais residuais 
‐  1  ‐  ‐  1 
depositados na envolvente 
Outro  1  ‐  ‐  ‐  1 
Total  7  5  5  5  22 
Todas as estruturas abertas estavam mais vulneráveis de serem atingidas através de focos secundários causados por projeção de 
partículas incandescentes, sendo as estruturas abertas as mais atingidas (ver  
Tabela 36).  

Ainda  devido  às  características  das  partículas,  estas  facilmente  atingiram  o  interior  das  estruturas 
através de janelas ou entrando por respiradores.  

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Tabela 36 – Processo responsável pela primeira ignição e possível local de ignição na estrutura 

Processo responsável pela 1ª  Possível local de ignição 
Estrutura  Total 
ignição  Janela  Parede  Respirador  Telhado  Outro 
aberta 
Diretamente por chamas provenientes 
‐  ‐  ‐  1  2  ‐  3 
de estruturas adjacentes 
Diretamente por chamas provenientes 
‐  ‐  3  3  ‐  ‐  6 
do espaço florestal envolvente 
Indiretamente por projeção de 
6  3  ‐  2  ‐  ‐  11 
partículas 
Propagação por materiais residuais 
1  ‐  ‐  ‐  ‐  ‐  1 
depositados na envolvente 
Outro  ‐  ‐  ‐  ‐  ‐  1  1 
Total  7  3  3  6  2  1  22 

Das  indústrias  visitadas,  na  Zona  Industrial  de  Tondela,  foram  afetadas  seis,  cuja  localização  está 
indicada no mapa da Figura 156. Verifica‐se que a zona em redor às indústrias se mantém com uma área 
florestal muito próxima das infraestruturas. 

 
Figura 156 – Mapa da Zona Industrial de Tondela, de agosto de 2017 com indicação da localização das empresas atingidas pelo IF 
de Lousã 

Impacte após o incêndio 

 Na Tabela 37 está presente esquematicamente a avaliação da operacionalidade tanto da empresa como 
dos trabalhadores após o IF de Tondela, com isto quer dizer‐se, se a empresa continuou operacional nas suas 
atividades e se as suas infraestruturas ficaram no mesmo local ou se foi reconstruída noutro local, e se os 
trabalhadores continuaram a trabalhar por completo ou se somente em algumas atividades específicas. Em 
Tondela, existiu um número significativo de empresas (6) que ficaram totalmente inoperacionais, e 5 das 6 

CEIF/Universidade de Coimbra  195 
 
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empresas tiveram que ser reconstruídas noutro local. Apesar disso, todos os trabalhadores, parcialmente ou 
totalmente, continuaram a trabalhar, significando que os trabalhadores estiveram envolvidos em atividades 
de limpeza. Outro dado a salientar é o fato de que, independentemente da operacionalidade da empresa 
e/ou reerguer a empresa noutro local, mais de 80% dos trabalhadores continuaram a laborar, mesmo que 
em atividades de limpeza, o que significa que os apoios de pagamento por parte do IEFP foram determinantes 
para que as empresas continuassem a funcionar.  
Tabela 37 – Operacionalidade/Localização da empresa e dos trabalhadores após IF Tondela 
Após Complexo de Incêndios  Operacionalidade dos trabalhadores 
Total 
  de Tondela  Não  Parcial  Total 
Totalmente operacional      3  3 
Operacionalidade/Localizaçã

Não, reconstruir noutro local      1  1 
Sim, com algumas alterações      2  2 
Operacional, com limitações  1  2  7  10 
o da Empresa 

Não, reconstruir noutro local      1  1 
Sim, com algumas alterações  1  1  5  7 
Sim, sem alterações    1  1  2 
Totalmente inoperacional    3  3  6 
Não, reconstruir noutro local    3  2  5 
Sim, com algumas alterações      1  1 
Sem dados  3      3 
  Total  4  5  13  22 
O concelho de Tondela registou prejuízos mais avultados relativamente ao balanço anual das indústrias 
afetadas em duas unidades, cujo balanço anual é inferior a 500 mil euros, os prejuízos estimados situavam‐
se entre os 100 e os 500 mil euros; uma indústria com maior volume de faturação reporta danos superiores 
a 500 mil euros (Tabela 38).  

Tabela 38 – Relação entre o balanço anual e o prejuízo estimado nas empresas visitadas do concelho de Tondela 
Balanço anual da empresa  Estimativa de prejuízos [kEUR] 
Total 
[MEUR]  0 a 50  50 a 100  100 a 500  > 500 
< 0,5   2  6  2  ‐  10 
Entre 0,5 e 1  ‐  4  1  1  6 
Entre 1 e 2  ‐  ‐  1  1  2 
Entre 2 e 10  ‐  ‐  ‐  1  1 
Entre 10 e 50  ‐  ‐  ‐  1  1 
Não sabe  ‐  ‐  ‐  1  2 
Total  2  10  4  5  22 

Das 22 empresas afetadas, nove não tinham qualquer tipo de seguro como se pode observar na Figura 
157.  É  importante  referir  que  nenhuma  das  empresas  de  madeira/cortiça  não  tinham  seguro,  nem  as 
empresas de fornecimento de gás e transportes. Alguns dos inquiridos das empresas sem seguro referiram 
que os valores pedidos pelas seguradoras eram exorbitantes, devido, por exemplo, à atividade que a empresa 
exercia. Ainda alguns salientaram que pensavam ter o seguro ativo e por algum motivo isso não se verificava. 

CEIF/Universidade de Coimbra  196 
 
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Figura 157 – Tipo de seguro das empresas afetadas após IF de Tondela 

No caso das empresas devidamente asseguradas foi registado que nem todos os bens danificados foram 
cobertos  pelo  seguro,  como  o  caso  da  empresa  de  veículos,  máquinas  e  equipamentos  e  de  todas  as 
empresas de produtos metálicos em que os inquiridos relataram que os seguros não cobriram ferramentas, 
equipamentos, veículos e material de escritório. 
 
 
5.5. Instalações industriais de Oliveira do Hospital 

O concelho de Oliveira do Hospital tem um desenvolvimento industrial muito considerável na Região 
Centro e foi o que teve o maior número de instalações afetadas pelos incêndios de 15 de outubro. Por esse 
motivo, foi escolhido como alvo de um estudo mais aprofundado sobre impacte dos incêndios nas indústrias, 
no âmbito de uma dissertação de mestrado, Pedro Prates (2018) cuja consulta se aconselha. As instalações 
industriais foram afetadas a partir da tarde de 15 de outubro até madrugada de dia 16 (ver Figura 158) num 
total de 65 empresas, em que o maior número de empresas foi atingido por volta das 22.00h, estando de 
acordo com a elevada velocidade de propagação do fogo que se fez notar em particular pelas 20.00h. 

 
Figura 158 – Hora indicada (a partir de 15 de outubro) pelos inquiridos do momento em que o fogo atingiu as suas instalações 
industriais e velocidade média de propagação do fogo do CIF Oliveira do Hospital 

CEIF/Universidade de Coimbra  197 
 
Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
Caracterização das infraestruturas e meio envolvente  

Na Tabela 39 são apresentados o número de empresas existentes e das afetadas, na região de Oliveira 
do Hospital por setor de atividade num total de 1393 empresas existentes, e das quais 65 das visitadas foram 
atingidas.  Das  65  empresas  73,85%  eram  microempresas,  21,54%  pequenas  empresas  e  4,62%  médias 
empresas. Mais uma vez se verifica que as microempresas estão numa percentagem superior às restantes 
(Tabela 40). Outro dado importante a referir é que apesar de as três médias empresas corresponderem a 
4,62%  do  total  de  empresas  afetadas,  este  número  torna‐se  bem  mais  relevante  comparando‐o  com  as 
empresas existentes neste escalão no concelho de OH, que são nove. Mais uma vez as condições em que o 
incêndio se propagou e a destruição que causou são bem visíveis. 

A maioria dos edifícios das empresas danificadas pelos incêndios eram construídos em alvenaria e metal, 
existindo  um  somente  em  metal  e  uma  empresa  construída  em  pedra.  No  geral  as  suas  infraestruturas 
tinham  aproximadamente  entre  10  e  30  anos  de  idade,  e,  a  maioria  das  infraestruturas  estavam  bem 
conservadas. 

Tabela 39 – Setor da atividade das empresas afetadas no IF de Oliveira do Hospital, empresas existentes por setor de atividade em 
2017 no concelho de Oliveira do Hospital (INE, 2018) e escalão de trabalhadores nas empresas 

N. empresas existentes no  N. Empresas afetadas 
Setor de atividade da empresa 
concelho (INE, 2018)  Lista CCDRC  Visitadas 
Agricultura, produção animal, caça e silvicultura  131  6  2 
Alimentar e bebidas  158  5  6 
Construção civil, materiais de construção  231  21  21 
Fabricação de têxteis  3  1  1 
Fornecimento de gás, água ou eletricidade  11  6  4 
Madeira ou cortiça  3  3  8 
Mobiliário, colchões  176  2  1 
Produtos metálicos  176  2  3 
Transportes  33  5  5 
Veículos, máquinas e equipamentos  471  7  9 
Outro  ‐  17  5 
Total  1393  75  65 
 

Tabela 40 – Número de empresas com diferentes escalões de trabalhadores  

% empresas existentes 
Escalão de trabalhadores para as empresas em  N. Empresas 
segundo escalão de 
estudo no IF O. Hospital  afetadas visitadas 
trabalhadores (INE, 2018) 
<10 trabalhadores (microempresa)  95,66% (1770)  48 
10 e 50 trabalhadores (pequena empresa)  3,78% (70)  14 
50 e 250 trabalhadores (média empresa)  0,49% (9)  3 
Total  92,44% (2985)  65 

De  um  total  de  1393  empresas  registadas  no  concelho  de  O.  Hospital,  75  terão  sido  afetadas  pelos 
incêndios. Das 65 empresas analisadas, 24 reportaram destruição total, 16 danos avultados, 11 danos médios 
e 13 danos ligeiros (Figura 159).  

CEIF/Universidade de Coimbra  198 
 
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Figura 159 – Indústrias afetadas no concelho de Oliveira do Hospital 

A Figura 160 exemplifica duas situações distintas do estado das estruturas após a passagem do fogo, 
sendo a imagem da esquerda associada a danos avultados e a imagem da direita a destruição completa. 

 
Figura 160 – Diferentes tipos de danos observados em duas estruturas afetadas pelos incêndios: danos avultados (imagem da 
esquerda) e destruição total (imagem da direita) 

No concelho de Oliveira do Hospital o processo responsável pela primeira ignição mais reportado foi o 
contacto indireto, por projeção de partículas com 44,62% do total das 65 indústrias afetadas, seguindo‐se o 
contacto direto por chamas provenientes do espaço florestal envolvente com 30,77%, com um valor próximo 
dos 12,30% o contacto direto com estruturas adjacentes e por último com 10,77% o contacto com material 
depositado na envolvente da infraestrutura, não existindo outro valor tão elevado para este processo em 
mais nenhum local em análise. Nos casos em que o processo responsável pela primeira ignição foi por chamas 
provenientes  da  floresta,  66,67%  das  infraestruturas  estavam  a  menos  de  2  metros  dos  combustíveis 
florestais e as restantes estavam a menos de 10 metros, salientando‐se aqui a importância da limpeza da 

CEIF/Universidade de Coimbra  199 
 
Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
envolvente florestal tal como estipulado na Lei.  Nas que foram  atingidas indiretamente  por projeções de 
partículas a  proximidade  das estruturas aos combustíveis florestais é aleatória, não existindo um padrão, 
predominando ainda assim os casos em que a distância era de 10 a 50m, como se pode visualizar nos dados 
da Tabela 41. 

Tabela 41 – Proximidade com combustíveis florestais à estrutura e qual o processo responsável pela primeira ignição 
Proximidade dos combustíveis 
Processo responsável pela 1ª ignição  florestais à estrutura (m)  Total 
0 a 2  2 a 10  10 a 50  Mais de 50 
Diretamente por chamas provenientes de 
1  2  4  1  8 
estruturas adjacentes 
Diretamente por chamas provenientes do espaço 
12  8      20 
florestal envolvente 
Indiretamente por projeção de partículas  5  5  12  7  29 
Propagação por materiais residuais depositados 
3  1  3    7 
na envolvente 
Outro      1    1 
Total  21  16  20  8  65 

Todas  as  estruturas  abertas  estavam  mais  vulneráveis  a  ser  atingidas  através  de  focos  secundários 
causados  por  projeção  de  partículas  incandescentes  e  diretamente  por  chamas  provenientes  do  espaço 
florestal.  Primeiro  porque  as  partículas  incandescentes  podem  movimentar‐se  por  grandes  distâncias,  e 
segundo porque todas as estruturas atingidas pelas chamas da envolvente florestal estavam muito próximas 
desta (ver Tabela 42).  

Tabela 42 – Processo responsável pela primeira ignição e possível local de ignição na estrutura  
Possível local de ignição   
Processo responsável 
Estrutura  Total 
pela 1ª ignição  Janela  Parede  Porta  Respirador  Telhado  Outro 
aberta 
Diretamente por chamas 
provenientes de estruturas  1  2  3  2        8 
adjacentes 
Diretamente por chamas 
provenientes do espaço  10  1  4  2  1  2    20 
florestal envolvente 
Indiretamente por projeção 
15  1  2  5  1  4  1  29 
de partículas 
Propagação por materiais 
residuais depositados na    2  4      1    7 
envolvente 
Outro        1        1 
Total  26  6  13  10  2  7  1  65 

A Figura 161a exemplifica um dos casos muito comuns analisado, em que é visível as árvores a poucos 
metros do armazém quase em contato com a estrutura, o qual foi atingido pelo fogo diretamente por chamas 
provenientes do meio florestal. O mapa da Figura 161b é a vista aérea de um local perto de Travanca de 
Lagos, meses antes do incêndio, em que está assinalado a amarelo o armazém da Figura 161a e verifica‐se 
que já antes do incêndio de 15 de outubro o armazém estava envolvido pela floresta. 

CEIF/Universidade de Coimbra  200 
 
Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
(a)  (b) 

   
Figura 161 – Exemplo de uma das estruturas afetadas: (a) Armazém completamente destruído diretamente por chamas da 
envolvente florestal; (b) mapa de 6 de agosto de 2017 como local do armazém assinalado;  

A Figura 162 exemplifica outro caso de destruição completa de uma das indústrias analisadas onde se 
visualiza o depósito de materiais residuais encostados à parede. 

 
Figura 162 – Armazém completamente destruído através da propagação por materiais residuais depositados na envolvente 

 
Impacte após o incêndio 

Na  Tabela  43  está  presente  esquematicamente  a  avaliação  da  operacionalidade  tanto  das  empresas 
como dos trabalhadores após o CIF de Oliveira do Hospital. Em Oliveira do Hospital, mais de metade das 
empresas  visitadas  ficaram  totalmente  inoperacionais  (52,31%),  sendo  o  concelho  visitado  com  o  maior 
número de empresas fora de funcionamento, mesmo sendo este por um curto espaço de tempo, pois em 
todas elas os empregos dos trabalhadores se mantiveram, de forma a promover o rápido retorno da empresa 
ao  pleno  funcionamento.  O  facto  de  os  trabalhadores  continuarem  a  laborar  apesar  do  impacto  que  as 
empresas  tiveram  tem  um  grande  significado,  demonstra  a  preocupação  em  evitar  problemas  sociais  e 
económicos  negativos,  tais  como  quebras  totais  na  produção,  perda  de  contratos  ou  de  clientes  e  o 
desemprego  dos  seus  trabalhadores.  De  referir  ainda  que  algumas  destas  empresas  continuaram  as  suas 

CEIF/Universidade de Coimbra  201 
 
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atividades  laborais  em  espaços  arrendados  ou  emprestados  para  o  efeito.  Das  restantes  empresas  todas 
continuaram  totalmente operacionais ou com limitações. Das operacionais com limitações é interessante 
observar  que  existiram  5  empresas  em  que  os  funcionários  não  estiveram  a  trabalhar,  o  que  deverá  ter 
acontecido num período de tempo inicial, como referido por alguns inquiridos.  

Tabela 43 – Operacionalidade/Localização da empresa e dos trabalhadores após o CIF Oliveira do Hospital 
Após o Complexo de Incêndios  Operacionalidade dos trabalhadores 
Total 
  de Oliveira do Hospital  Não  Parcial  Total 
Totalmente operacional      17  17 
Operacionalidade/Localização 

Não, reconstruir noutro local      1  1 
Sim, com algumas alterações      4  4 
      Sim, sem alterações      12  12 
Operacional, com limitações  5  4  5  14 
da Empresa 

Não, reconstruir noutro local  4    1  5 
Sim, com algumas alterações  1  2  3  6 
      Sim, sem alterações    2  1  3 
Totalmente inoperacional    4  30  34 
Não, reconstruir noutro local    1  1  2 
Sim, com algumas alterações    2  18  20 
      Sem, sem alterações    1  11  12 
  Total  5  8  52  65 
O concelho de Oliveira do Hospital foi também o que registou os maiores impactos económicos nas áreas 
industriais, registando prejuízos superiores a 500 mil euros em 3 unidades com balanço anual inferior a 500 
mil euros, 5 indústrias com prejuízos estimados superiores a 500 mil euros e com balanço anual situado entre 
os 500 mil e 1 milhão de euros (Tabela 44) .  
 
Tabela 44 – Relação entre o balanço anual e o prejuízo estimado nas empresas visitadas do concelho de Oliveira do Hospital 
Balanço anual da empresa  Estimativa de prejuízos [kEUR] 
Total 
[MEUR]  0 a 50  50 a 100  100 a 500  > 500 
< 0,5   15  6  16  3  40 
Entre 0,5 e 1  3  2  3  5  13 
Entre 1 e 2  ‐  ‐  3  4  7 
Entre 2 e 10  ‐  ‐  1  2  3 
Entre 10 e 50  ‐  ‐  1  ‐  1 
Não sabe  ‐  1  ‐  ‐  1 
Total  18  9  24  14  65 
 
A Figura 163 demostra a destruição completa de pelo menos três indústrias próximas umas das outras. 

CEIF/Universidade de Coimbra  202 
 
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Figura 163– Indústrias completamente destruídas no concelho de Oliveira do Hospital 

Das 65 empresas afetadas, 37 não tinham qualquer tipo de seguro, como se pode observar na Figura 
164, representando mais de metade das empresas afetadas, dessas 37 empresas, 13 pertenciam ao sector 
da  construção  civil.  Como  já  referido  anteriormente,  alguns  dos  inquiridos  das  empresas  sem  seguro 
referiram que os valores pedidos pelas seguradoras eram exorbitantes, devido, por exemplo, à atividade que 
a empresa exercia. Alguns ainda salientaram que pensavam ter o seguro ativo e por algum motivo isso não 
se verificava. 

 
Figura 164 – Tipo de seguro das empresas afetadas após IF de Oliveira do Hospital 

No caso das empresas devidamente asseguradas foi registado que nem todos os bens danificados foram 
cobertos  pelo  seguro,  porque  simplesmente  o  tipo  de  seguro  não  cobria  alguns  dos  danos,  como  por 

CEIF/Universidade de Coimbra  203 
 
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exemplo,  seguros  de  estrutura  não  pagarem  veículos  destruídos  ou  seguros  de  recheio  não  cobrirem 
infraestruturas  destruídas.  Outros  casos  mais  peculiares  estão  relacionados  com  as  cláusulas,  como  é  o 
exemplo dos seguros contra todos os riscos, entre outros. 
    

5.6. Instalações industriais de Pampilhosa da Serra (CIF Sertã) 

As indústrias do concelho de Pampilhosa da Serra foram afetadas pelo IF da Sertã, constituindo‐se este 
município como o único em que a ZI do concelho não teve qualquer impacto, mas sim empresas isoladas fora 
do espaço industrial do concelho. Na Figura 165 apresentam‐se as horas a que as 5 empresas foram afetadas 
e a velocidade de  propagação do incêndio. Como se pode observar, as empresas foram afetadas a horas 
diferentes, pois as empresas estavam bem distanciadas entre si. A velocidade de propagação também pode 
ter contribuído para a diferença  de horário, que vai desde a  primeira indústria atingida  (às 16.00h) até à 
segunda que só foi afetada pelas 21.00h, pois inicialmente a velocidade de propagação do fogo aumenta 
inicialmente até às 20.00h e existe uma diminuição da velocidade de propagação até às 20.00h, a partir das 
22.00h  a  velocidade  de  propagação  do  fogo  aumenta  repentinamente  atingindo  o  seu  pico  às  23.00h, 
momento no qual duas indústrias são afetadas. Após as 00.00h não existem dados sobre a velocidade de 
propagação do fogo, apesar de ainda existir informação que uma empresa foi afetada pelas 2.00h de dia 16 
de outubro. 

 
Figura 165 – Hora indicada (a partir de 15 de outubro) pelos inquiridos do momento em que o fogo atingiu as suas instalações 
industriais e velocidade média de propagação do fogo do CIF Sertã 

Caracterização das infraestruturas e meio envolvente  

Na Tabela 45 são apresentados o número de empresas existentes e afetadas no concelho de Pampilhosa 
da  Serra  em  função  do  seu  setor  de  atividade.  Na  totalidade,  existem  55  empresas  nos  dois  setores  em 
análise, o que em relação aos outros concelhos atingidos, tem o menor número de indústrias registadas. 
Trata‐se  de  uma  área  que  apresenta  pouco  investimento  na  indústria,  e  das  indústrias  presentes  a  sua 
maioria são microempresas, com um valor superior a 98%, como se pode constatar na Tabela 45.  

CEIF/Universidade de Coimbra  204 
 
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Das cinco empresas, quatro são de construção civil e uma de fornecimento de gás, água ou eletricidade. 
Todas elas eram construídas em alvenaria e metal, sendo que três das estruturas atingidas eram armazéns e 
outras eram barracões de arrumos, com pouco mais que 10 anos e todas elas bem conservadas 

Tabela 45 – Setor da atividade das empresas afetadas no CIF da Sertã, empresas existentes por setor de atividade em 2017 no 
concelho de Pampilhosa da Serra (INE, 2018) e escalão de trabalhadores nas empresas  

N. empresas  N. Empresas  Escalão de  % empresas existentes 


Setor de atividade da  existentes no  afetadas  trabalhadores para  segundo escalão de 
empresa  concelho (INE,  Lista  as empresas em  trabalhadores (INE, 
Visitadas 
2018)  CCDRC  estudo  2018) 
10 e 50 trabalhadores 
Construção civil,  1  1,78% (5) 
46  5  (pequena empresa) 
materiais de construção 
3  <10 
Fornecimento de gás,  trabalhadores         98,22% (276) 
9  2  1 
água ou eletricidade  (microempresa) 
Total  55  7  5  ‐  100,00 % (281) 

Na Figura 166 estão representadas as 5 unidades industriais do concelho inquiridas. Entre estas refere‐
se destruição total em 2 unidades, danos avultados em uma e danos ligeiros noutra, estando esta última 
representada na Figura 167.  

 
Figura 166 – Indústrias afetadas no concelho de Pampilhosa da Serra 

CEIF/Universidade de Coimbra  205 
 
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Figura 167 – Indústria situada no concelho de Pampilhosa da Serra que sofreu danos ligeiros. 

 A  Tabela  46  mostra  que  no  concelho  de  Pampilhosa  da  Serra  os  principais  processos  pela  primeira 
ignição foram diretamente por chamas provenientes do espaço florestal envolvente 40%, indiretamente por 
projeção  de  partículas  também  com  40%  e  por  fim  com  20  %  a  propagação  por  materiais  residuais 
depositados na envolvente. Das cinco estruturas, 3 eram abertas, permitindo que facilmente partículas ou 
mesmo o fogo atingisse a estrutura e destruindo‐a. Uma das empresas foi atingida devido ao material que 
tinha depositado junto à infraestrutura, pois este caso em particular tinha os combustíveis florestais a mais 
de 50 m de distância da estrutura. 

Tabela 46 – Proximidade com combustíveis florestais à estrutura e modo como as empresas foram afetadas, por setor de atividade 

Proximidade dos 
Setor de atividade da  N. Empresas  combustíveis  Processo responsável pela  Possível local 
empresa  afetadas visitadas  florestais à  1ª ignição  de ignição 
estrutura (m) 
Diretamente por chamas  Estrutura 
0 a 2 
provenientes do espaço florestal  aberta 
10 a 50  envolvente  Telhado 
Construção civil,  Indiretamente por projeção de  Estrutura 
4  10 a 50 
materiais de construção  partículas  aberta 
Propagação por materiais 
>50  residuais depositados na  Parede 
envolvente 
Fornecimento de 
Indiretamente por projeção de  Estrutura 
gás, água ou eletricidade  1  2 a 10 
partículas  aberta 

CEIF/Universidade de Coimbra  206 
 
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Impacte após o incêndio 

Na Tabela 47 está presente esquematicamente a avaliação da operacionalidade tanto da empresa como 
dos trabalhadores após o CIF da Sertã. É visível que todos os trabalhadores continuaram a trabalhar após o 
incêndio que atingiu as indústrias, apesar de duas das cinco empresas ficarem totalmente inoperacionais. 
Todas as empresas, exceto uma, mantiveram a sua localização, independentemente de terem ou não feito 
alterações na empresa. 

Tabela 47 – Operacionalidade/Localização da empresa e dos trabalhadores após o CIF da Sertã 
Operacionalidade dos 
 

Após o Complexo de Incêndios da 
trabalhadores  Total 
Sertã 
  Parcial  Total 
Totalmente operacional    2  2 
Localização da Empresa 
Operacionalidade/

       Sim, com algumas alterações    1  1 
       Sim, sem alterações    1  1 
 
 

Operacional, com limitações    1  1 
       Sim, com algumas alterações    1  1 
Totalmente inoperacional  2    2 
       Não, reconstruir noutro local  1     
       Sim, sem alterações  1     
  Total  2  3  5 
 
A relação entre os prejuízos económicos estimados e o balanço anual das empresas neste concelho é de 
quatro indústrias com valores de balanço anual inferior a 500 mil euros em que duas destas referem prejuízos 
estimados inferiores a 50 mil euros, e outras duas prejuízos estimados entre 50 e 100 mil, existe apenas o 
caso de uma empresa com um balanço anual entre 500 mil e 1 milhão refere prejuízos entre 50 a 100 mil 
euros (Tabela 48). 

Perante  os  valores  apresentados  entre  o  balanço  anual  e  o  prejuízo  reportado,  facilmente  se  pode 
concluir  que  o  concelho  da  Pampilhosa  da  Serra  não  foi  de  entre  os  concelhos  afetos,  um  concelho  com 
impactos avultados, nem pelo número de infraestruturas afetadas, nem pelos prejuízos estimados em função 
do balanço anual das indústrias.      
 
Tabela 48 – Relação entre o balanço anual e o prejuízo estimado nas empresas visitadas do concelho de Pampilhosa da Serra 
Estimativa de prejuízos 
Balanço anual da empresa 
[kEUR]  Total 
[MEUR] 
0 a 50  50 a 100 
< 0,5   2  2  4 
Entre 0,5 e 1    1  1 
Total  2  3  5 

Das 5 empresas afetadas, 4 não tinham qualquer tipo de seguro como se pode observar na Figura 168. 
Somente  uma  das  empresas  de  construção  civil  tinha  seguro  de  estrutura  e  recheio.  Apesar  do  número 
reduzido de empresas, pode‐se concluir que os apoios disponibilizados foram uma mais valia para todas as 
empresas que por algum motivo não tinham seguro, e sem estes apoios possivelmente continuar a empresa 
em funcionamento seria uma tarefa muito complicada ou mesmo impossível para muitos empresários. 

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Figura 168 – Tipo de seguro das empresas afetadas após o CIF da Sertã 

No  caso  da  empresa  devidamente  assegurada  foi  registado  que  todos  os  bens  danificados  foram 
cobertos pelo seguro. 
    

5.7. Instalações industriais de Mira (CIF Quiaios) 

As  instalações  industriais  do  concelho  de  Mira  foram  afetadas  pelo  IF  que  deflagrou  em  Quiaios  às 
14.36h o qual progrediu para norte, atingindo 18 empresas em Mira entre as 20.00h e as 23.00h de dia 15 
de  outubro,  podendo  considerar‐se  que  num  pequeno  espaço  temporal  um  número  significativo  de 
empresas foi atingido pelo fogo, como se pode visualizar na Figura 169.  

 
Figura 169 – Hora indicada (a partir de 15 de outubro) pelos inquiridos do momento em que o fogo atingiu as suas instalações 
industriais e velocidade média de propagação do fogo do IF Quiaios 

 
Caracterização das infraestruturas e meio envolvente  

As empresas atingidas no concelho de Mira foram 18, num total de 749 empresas de acordo com os 
setores de atividades destas, presentes nas Tabela 49 e Tabela 50. A Tabela 50 mostra que as empresas têm 
mais uma vez maioritariamente valores inferiores a 10 trabalhadores por empresa, mas o que aqui sobressai 
é o facto que das 28 empresas existentes com 10 a 50 trabalhadores, 10 destas foram atingidas pelos fogos, 

CEIF/Universidade de Coimbra  208 
 
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e das sete médias empresas (entre 50 e 250 trabalhadores), uma delas foi atingida também pelo fogo, o que 
significa que eram empresas com uma dimensão e produtividade significativos para a economia local. 

Tabela 49 – Setor da atividade das empresas afetadas no CIF de Quiaios, empresas existentes por setor de atividade em 2017 no 
concelho de Mira (INE, 2018)  
N. empresas existentes  N. Empresas afetadas 
Setor de atividade da empresa 
no concelho (INE, 2018)  Lista CCDRC  Visitadas 
Agricultura, produção animal, caça e silvicultura  113  4  2 
Alimentar e bebidas  71  ‐  1 
Madeira ou cortiça  73  2  2 
Mobiliário, colchões  73  ‐  2 
Produtos metálicos  73  1  3 
Veículos, máquinas e equipamentos  346  2  1 
Outro  ‐  6  7 
Total  749  15  18 
 

Tabela 50 – Número de empresas com diferentes escalões de trabalhadores  
% empresas existentes 
Escalão de trabalhadores para as empresas  N. Empresas afetadas 
segundo escalão de 
em estudo no CIF Quiaios  visitadas 
trabalhadores (INE, 2018) 
<10 trabalhadores (microempresa)  97,52% (1377)  7 
10 e 50 trabalhadores (pequena empresa)  1,98% (28)  10 
50 e 250 trabalhadores (média empresa)  0,50% (7)  1 
Total  100,00% (1412)  18 

Este IF na sua progressão para norte afetou a ZI da Tocha provocando 1M€ de prejuízo numa empresa 
que se constituiu como a única que sofreu perda total, existindo o entanto alguns reportes de danos menores 
nesta  ZI.    Na  ZI  de  Mira  foram  reportadas  18  empresas  com  diferentes  tipologias  de  danos,  destas,  9 
apresentaram  destruição  total,  4  danos  avultados,  3  danos  médios  e  somente  2  reportam  danos  ligeiros 
(Figura 170). A maioria das empresas estão situadas na ZI, perfazendo um total de 13 empresas. 
 

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Figura 170 – Danos nas indústrias no concelho de Mira 

Na Figura 171a pode observar‐se a destruição total de duas indústrias distintas na ZI de Mira e na Figura 
171b é bem clara a proximidade da vegetação às propriedades. 
 

   
Figura 171 ‐ Indústrias afetadas no concelho de Mira: (a) estrutura completamente destruída; (b) proximidade da vegetação às 
propriedades.  

O  processo  responsável  pela  primeira  ignição  no  concelho  de  Mira  foi  a  projeção  partículas  com  66 
casos, 67%, seguindo‐se o contacto direto por chamas provenientes do espaço florestal com 27,78% e por 
fim diretamente por chamas de estruturas adjacentes. A projeção de partículas é independente da distância 
a  que  as  estruturas  se  encontram  da  envolvente  florestal,  ao  contrário  das  chamas  que  possam  ser 
provenientes da envolvente florestal, o que requer uma distância próxima para existir contato, e por esse 
motivo, mais uma vez se chama a atenção para a limpeza do espaço florestal envolvente às estruturas de 
acordo com o estipulado por Lei. 

CEIF/Universidade de Coimbra  210 
 
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Tabela 51 – Proximidade com combustíveis florestais à estrutura e qual o processo responsável pela primeira ignição 
Proximidade dos combustíveis florestais à 
Processo responsável pela 1ª ignição  estrutura (m)  Total 
0 a 2  2 a 10  10 a 50  Mais de 50 
Diretamente por chamas provenientes de estruturas 
1        1 
adjacentes 
Diretamente por chamas provenientes do espaço 
3    2    5 
florestal envolvente 
Indiretamente por projeção de partículas  1  5  3  3  12 
Total  5  5  5  3  18 

Das 12 estruturas atingidas indiretamente  por projeção de partículas, em 7 delas esta projeção teve 
como local de ignição o telhado (Tabela 52). É importante referir que durante as visitas de campo, alguns dos 
inquiridos informaram que a propagação através do telhado se deu pelas telhas de policarbonato, pois são 
aquelas  que  conferem  luz  natural  ao  interior  da  estrutura  e  que  têm  uma  resistência  de  até  120°C, 
salientando que não as iriam colocar novamente pois são um ponto fraco na proteção das infraestruturas. 

Tabela 52 – Processo responsável pela primeira ignição e possível local de ignição na estrutura  
Possível local de ignição 
Processo responsável pela 1ª 
Estrutura  Total 
ignição  Parede  Respirador  Telhado  Outro 
aberta 
Diretamente por chamas 
provenientes de estruturas    1        1 
adjacentes 
Diretamente por chamas 
provenientes do espaço florestal  1  2  1    1  5 
envolvente 
Indiretamente por projeção de 
2    1  7  2  12 
partículas 
Total  3  3  2  7  3  18 
 

Impacte após o incêndio 

Na Tabela 53 está presente esquematicamente a avaliação da operacionalidade tanto da empresa como 
dos trabalhadores após o CIF de Quiaios. No concelho de Mira, existiu um número significativo de empresas 
(14) que ficaram totalmente inoperacionais, das quais 12 tiveram a necessidade de fazer algumas alterações 
estruturais devido aos danos apresentados. Os trabalhadores continuaram todos a trabalhar tanto em modo 
parcial como total. 

Tabela 53 – Operacionalidade/Localização da empresa e dos trabalhadores após o CIF Quiaios 
Após o Complexo de Incêndios de  Operacionalidade dos trabalhadores  Total 
  Quiaios  Parcial  Total   
Totalmente operacional    1  1 
Operacionalidade

        Sim, com algumas alterações    1  1 
/Localização da 

Operacional, com limitações  1  2  3 
Empresa 

        Sim, com algumas alterações  1  2  3 
Totalmente inoperacional  7  7  14 
Não, reconstruir noutro local    1  1 
         Sim, com algumas alterações  6  6  12 
         Sim, sem alterações  1    1 
  Total  8  10  18 

CEIF/Universidade de Coimbra  211 
 
Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
A relação entre o balanço anual da indústria e o prejuízo económico estimado, permite constatar que 5 
indústrias com balanço anual inferior a 500 mil euros registaram prejuízos entre os 100 e os 500 mil euros 
(Tabela 54). Perante estes montantes estimados de prejuízos nas indústrias do concelho de Mira, facilmente 
se depreende que as mesmas necessitam de apoio financeiro para se reergueram.         

Tabela 54 – Relação entre o balanço anual e o prejuízo estimado nas empresas visitadas do concelho de Mira 

Balanço anual da empresa  Estimativa de prejuízos [kEUR] 
Total 
[MEUR]  50 a 100  100 a 500  > 500  Não sabe 
< 0,5     5      5 
Entre 0,5 e 1  1  2    1  4 
Entre 1 e 2    1      1 
Entre 2 e 10      3    3 
Entre 10 e 50      1    1 
Não sabe      3  1  4 
Total  1  8  7  2  18 
 
A Figura 172a mostra uma foto retirada a 10 de agosto de 2018 durante uma das visitas, onde sobressai 
a destruição completa de parte da ZI de Mira, quase um ano após a tragédia. Uma das visitas efetuadas foi a 
um viveiro que também sofreu danos devido ao incêndio, e o proprietário mostrou a frente do viveiro onde 
tinha a sua moradia e um jardim com uma pequena casa construída em madeira envolta por árvores, pela 
qual passou o fogo no dia do incêndio e não entrou em ignição, nem as árvores arderam, demonstrando a 
resistência destas árvores ao fogo (Figura 173b). 

(a) 

CEIF/Universidade de Coimbra  212 
 
Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
(b) 

 
Figura 172 – Aproximadamente um ano (fotos tiradas a 10 agosto 2018) após a passagem do incêndio: (a) Aspeto geral da ZI de 
Mira; (b) Pequena casa em madeira na qual passou o fogo, mas não entrou em ignição  

Das 18 empresas afetadas, oito não tinham qualquer tipo de seguro, como se pode observar na Figura 
173. As duas empresas mobiliário e a empresa de veículos não têm seguros, bem como uma empresa de 
produtos metálicos. Das empresas que têm algum tipo de seguro, de novo nos foi dito que os seguros não 
cobriram todos os estragos, como por exemplo, veículos, maquinaria e ferramentas, entre outros. 

 
Figura 173 – Tipo de seguro das empresas afetadas após o CIF de Quiaios 

CEIF/Universidade de Coimbra  213 
 
Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
5.8. Instalações industriais de Oliveira de Frades (CIF Vouzela) 

As instalações industriais do concelho de Oliveira de Frades foram afetadas pelo CIF de Vouzela que 
deflagrou no dia 15 de outubro, atingindo 26 empresas entre as 19.00h e as 1.00h de dia 16 (ver Figura 174). 
Como  se  pode  ver  nesta  figura  existe  um  desfasamento  de  cerca  de  duas  horas  entre  o  incremento  da 
velocidade de propagação e a afetação das unidades industriais.  
 

 
Figura 174 – Hora indicada (a partir de 15 de outubro) pelos inquiridos do momento em que o fogo atingiu as suas instalações 
industriais e velocidade média de propagação do fogo do CIF de Vouzela 

Caracterização das infraestruturas e meio envolvente  

As empresas atingidas no concelho de Oliveira de Frades foram 26, num total de 617 empresas de acordo 
com os setores e atividades destas, presentes nas Tabela 55 e Tabela 56. A Tabela 55 mostra que as empresas 
têm  mais  uma  vez  maioritariamente  valores  inferiores  a  10  trabalhadores  por  empresa,  mas  o  que  aqui 
sobressai é o facto que das 15 empresas existentes com 50 a 250 trabalhadores, 6 destas foram atingidas 
pelos  fogos,  o  que  significa  que  eram  empresas  com  uma  dimensão  e  produtividade  significativos  para  a 
economia local. 

Das 26 empresas visitadas 42,31% eram microempresas, 30,77% pequenas empresas e 23,08% médias 
empresas. Mais uma vez se verifica que as microempresas estão numa percentagem superior às restantes 
(Tabela 56). Outro dado importante a referir é que apesar de as médias empresas corresponderem a 1,35% 
(15)  do  total  de  empresas  afetadas,  este  número  torna‐se  bem  mais  relevante  comparando‐o  com  as 
empresas existentes neste escalão no concelho de OF, que são seis empresas.  

A maioria dos edifícios das empresas danificadas pelos incêndios eram construídos em alvenaria e metal, 
existindo dois construídos em madeira. No geral as suas infraestruturas tinham aproximadamente entre 10 
e  30  anos  de  idade,  e,  todas  as  infraestruturas  foram  classificadas  pelos  inquiridos  como  sendo  bem 
conservadas. 

CEIF/Universidade de Coimbra  214 
 
Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
Tabela 55 – Setor da atividade das empresas afetadas no CIF de Quiaios, empresas existentes por setor de atividade em 2017 no 
concelho de Oliveira e Frades (INE, 2018)  
N. empresas existentes no  N. Empresas afetadas 
Setor de atividade da empresa 
concelho (INE, 2018)  Lista CCDRC  Visitadas 
Agricultura, produção animal, caça e silvicultura  274  1  3 
Alimentar e bebidas  71  2  1 
Construção civil, materiais de construção  110  4  4 
Madeira ou cortiça  82  5  6 
Mobiliário, colchões  80  3  5 
Outro  ‐  5  7 
Total  617  20  26 
 

Tabela 56 – Número de empresas com diferentes escalões de trabalhadores  
% empresas existentes 
Escalão de trabalhadores para as empresas em  N. Empresas afetadas 
segundo escalão de 
estudo no CIF Vouzela  visitadas 
trabalhadores (INE, 2018) 
<10 trabalhadores (microempresa)  94,78% (1053)  12 
10 e 50 trabalhadores (pequena empresa)  3,69% (41)  8 
50 e 250 trabalhadores (média empresa)  1,35% (15)  6 
Total  99,91% (1109)  26 

Quanto ao tipo de danos na estrutura, 9 indústrias apresentaram destruição total, 4 danos avultados, 3 
com  danos  médios  e  somente  2  reportaram  danos  ligeiros,  como  presente  na  Figura  175.  De  todos  os 
concelhos em estudo, Oliveira de Frades é o concelho que tem o maior número de empresas afetadas numa 
Zona Industrial, estando 88,46% das indústrias afetadas concentradas na ZI. 

 
Figura 175 – Indústrias afetadas no concelho de Oliveira de Frades 

Na Figura 176a pode verificar‐se o local de ignição de uma estrutura na ZI de Oliveira de Frades e na 
Figura 176b a reconstrução das infraestruturas de uma empresa que tinha ficado completamente destruída. 
CEIF/Universidade de Coimbra  215 
 
Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
 

   
Figura 176 – Indústrias afetadas no concelho de Oliveira de Frades: (a) estrutura atingida por partículas na parede; (b) estrutura 
em reconstrução  

No  concelho  de  Oliveira  de  Frades  um  pouco  à  semelhança  dos  restantes  concelhos  em  estudo,  o 
processo  responsável  pela  primeira  ignição  foi  indireto,  por  projeção  de  partículas,  representando  neste 
concelho 69,23% das indústrias afetadas, seguindo‐se o contacto direto por chamas da estrutura adjacente, 
depois as chamas por contacto direto com o espaço florestal envolvente, e por fim propagação por produtos 
acabados  ou  intermédios  depositados  na  envolvente.  Neste  concelho  verifica‐se  que  quase  metade  das 
estruturas estão distanciadas 10 a 50 metros da envolvente florestal, o que representa uma distância mais 
segura, mas que o processo de projeção de partículas ainda ultrapassa. 

Tabela 57 – Proximidade com combustíveis florestais à estrutura e qual o processo responsável pela primeira ignição 
Proximidade dos combustíveis florestais à 
Processo responsável pela 1ª 
estrutura (m)  Total 
ignição 
0 a 2  2 a 10  10 a 50  Mais de 50 
Diretamente por chamas provenientes de 
1    2  1  4 
estruturas adjacentes 
Diretamente por chamas provenientes do 
1    1  1  3 
espaço florestal envolvente 
Indiretamente por projeção de partículas  1  3  8  6  18 
Propagação por produtos acabados ou 
    1    1 
intermédios depositados na envolvente 
Total  3  3  12  8  26 
 

Todos os locais de ignição (estrutura aberta, janela, parede, respirador, telhado, etc.) são sensíveis à 
forma  como  as  estruturas  podem  ser  atingidas,  em  específico  quando  as  estruturas  são  atingidas  por 
projeções de partículas, em que o número de empresas não apresenta nenhum local específico pelo qual as 
partículas entraram na estrutura, como se pode constatar na Tabela 58. 

 
 

 
CEIF/Universidade de Coimbra  216 
 
Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
Tabela 58 –Processo responsável pela primeira ignição e possível local de ignição na estrutura  
Possível local de ignição 
Processo responsável pela 1ª 
Estrutura  Total 
ignição  Janela  Parede  Respirador  Telhado  Outro 
aberta 
Diretamente por chamas provenientes 
  1    1  2    4 
de estruturas adjacentes 
Diretamente por chamas provenientes 
2    1        3 
do espaço florestal envolvente 
Indiretamente por projeção de 
2  1  3  1  2  9  18 
partículas 
Propagação por produtos acabados ou 
    1        1 
intermédios depositados na envolvente 
Total  4  2  5  2  4  9  26 

Na Figura 177 mostra‐se um caso no qual toda a “carcaça” da estrutura se manteve intata (ver Figura 
177c), mas o seu interior ficou totalmente destruído (ver Figura 177b), e qual o local por onde entraram as 
partículas  (ver  Figura  177a)    que  destruiram  por  completo  o  interior  da  estrutura,  nomeadamente  o  seu 
recheio.  
(a)  (b) 

   
(c) 

 
Figura 177 – Empresa na ZI de Oliveira de Frades atingida por projeções de partículas, destruindo totalmente o interior da empresa 
(fotos de agosto de 2018): (a) Respirador, local pelo qual entraram partículas para o interior da estrutura; (b) interior da 
infraestrutura que ficou completamente destruído, mas manteve toda a sua estrutura metálica exterior intacta; (c) imagem do 
aspeto exterior da estrutura após ser atingida pelo fogo. 
 

CEIF/Universidade de Coimbra  217 
 
Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
Impacte após o incêndio 

Na Tabela 59 está presente esquematicamente a avaliação da operacionalidade tanto da empresa como 
dos  trabalhadores  após  o  CIF  de  Vouzela.  No  caso  do  concelho  de  Oliveira  de  Frades  a  nível  de 
operacionalidade  das  empresas,  verifica‐se  que  está  em  número  equilibrado  aquelas  que  continuaram 
operacionais e as que ficaram inoperacionais. Chama‐se atenção que as empresas que ficaram inoperacionais 
assim estiveram por um período de tempo, no qual não conseguiram exercer os seus trabalhos de imediato. 
Em relação à operacionalidade dos trabalhadores, na sua maioria continuaram a exercer funções parcial ou 
totalmente (18 empresas), exceto em quatro empresas. 

Tabela 59 – Operacionalidade/Localização da empresa e dos trabalhadores após o CIF Vouzela 
Após o Complexo de  Operacionalidade dos trabalhadores  Total 
  Incêndios de Vouzela  Não  Parcial  Total   
Totalmente operacional      2  2 
Operacionalidade/ 
Localização da Empresa 

      Sim, com algumas alterações      1  1 
      Sim, Sem alterações      1  1 
Operacional, com limitações  4  2  6  12 
     Não, reconstruir noutro local  2      2 
     Sim, com algumas alterações  1  2  4  7 
     Sim, sem alterações  1    2  3 
Totalmente inoperacional    2  10  12 
     Sim, com algumas alterações    2  10  12 
  Total  4  4  18  26 

Por fim a relação entre o balanço anual e o prejuízo estimado para o concelho de Oliveira de Frades 
registou 1 indústria cujo montante estimado foi superior ao balanço anula que se situa em valores até 500 
mil  euros,  6  com  valores  estimados  entre  os  100  e  os  500  mil  com  balanço  anual  de  500  mil  euros,  e  3 
indústrias com prejuízos estimados superiores a 500 mil euros com balanços anuais entre 500 mil e 1 milhão 
de euros (Tabela 60).  

Tabela 60 – Relação entre o balanço anual e o prejuízo estimado nas empresas visitadas do concelho de Oliveira de Frades 
Balanço anual da  Estimativa de prejuízos [kEUR] 
empresa  Total 
50 a 100  100 a 500  > 500 
[MEUR] 
< 0,5   1  6  1  8 
Entre 0,5 e 1    1  3  4 
Entre 1 e 2      3  3 
Entre 2 e 10      4  4 
Entre 10 e 50      4  4 
Não sabe    2  1  3 
Total  1  9  16  26 
 

A Figura 178 mostra que das 26 empresas afetadas, sete não tinham qualquer tipo de seguro, e, em cada 
setor de atividade existe pelo menos uma sem seguro, exceto no setor de atividade alimentar e bebidas. As 
empresas que tinham seguro de estrutura e recheio eram 10 empresas, e as que tinham seguro contra todos 
os riscos eram seis, e uma com seguro de estrutura.  

CEIF/Universidade de Coimbra  218 
 
Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 

 
Figura 178 – Tipo de seguro das empresas afetadas após o CIF de Vouzela 

No caso das empresas devidamente asseguradas, como já foi enunciado para as instalações afetadas de 
outros concelhos, existiram bens que não foram pagos pelos seguros, ou porque não estavam de acordo com 
o seguro contratado ou devido às cláusulas do contrato do seguro. Os bens não assegurados são variados, 
desde veículos, maquinaria, ferramentas, infraestruturas, entre outros. 
 

5.9. Análise integrada do impacte nas empresas 

As instalações industriais foram afetadas no decorrer dos incêndios de um modo muito extenso. O facto 
de o maior impacte do fogo ter ocorrido a um domingo (15 de outubro) em particular durante a noite, entre 
as  20.00h  e  as  23.00h,  como  se  pode  verificar  na  Figura  179,  fez  com  que  muitas  empresas  estivessem 
encerradas, exceto raros casos em que as empresas trabalhavam 24h/24h por turnos, limitando em alguns 
casos a certeza na hora do início da ignição, tendo todos os inquiridos referido que tinham apenas uma ideia 
aproximada da hora de início da ignição.  

 
Figura 179 – Hora indicada (a partir de 15 de outubro) pelos inquiridos do momento em que o fogo atingiu as suas instalações 
independentemente do local 
CEIF/Universidade de Coimbra  219 
 
Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
De forma a tentar perceber qual o motivo que levou a uma percentagem tão grande de indústrias a 
sofrerem  danos  provocados  pelos  incêndios,  foram  analisados  diferentes  fatores,  tais  como  o  tipo  de 
atividade nestas empresas, o tipo de construção das infraestruturas e se os combustíveis florestais estavam 
muito próximos das mesmas. Pretendeu‐se analisar se existia algum padrão que justificasse a destruição total 
ou  parcial  destas  indústrias  ou  se,  pelo  contrário  tal  foi  uma  consequência  de  um  conjunto  de  fatores 
aleatórios. 

Na Tabela 61 são apresentados o número de empresas existentes e de empresas afetadas na totalidade 
dos concelhos que visitámos, por setor de atividade num total de 5660 empresas existentes. De entre as 154 
empresas atingidas, de acordo com os registos da CCDRC, visitámos 140. Das empresas afetadas, o número 
de empresas registadas pela CCDRC é superior ao das visitas, mas é de notar que existem empresas em alguns 
dos setores de atividade que visitámos e que na lista da CCDRC (lista de 2 de outubro de 2018) não estavam 
listadas.  

Tabela 61 – Setor da atividade das empresas afetadas ma totalidade dos concelhos estudados, empresas existentes por setor de 
atividade em 2017 nos concelhos em estudo (INE, 2018)  

N. empresas existentes  N. Empresas afetadas 
Setor de atividade da empresa  nos concelhos em 
Lista CCDRC  Visitadas 
estudo (INE, 2018) 
Agricultura, produção animal, caça e silvicultura  1157  13  9 
Alimentar e bebidas  464  10  9 
Construção civil, materiais de construção  886  43  35 
Fabricação de têxteis  3  1  1 
Fornecimento de gás, água ou eletricidade  35  10  6 
Madeira ou cortiça  163  14  19 
Mobiliário, colchões  329  5  8 
Produtos metálicos  579  5  10 
Transportes  96  8  7 
Veículos, máquinas e equipamentos  1948  13  14 
Outro  ‐  32  22 
Total  5660  154  140 
 

Da totalidade de empresas analisadas, o sector da construção civil e dos materiais de construção foi o 
sector mais afetado pelos IF em análise, representando 24% do total das indústrias inquiridas, seguindo‐se 
as instalações industriais ligadas à agricultura, produção animal, caça e silvicultura com 18% e em terceiro 
lugar as indústrias ligadas à transformação de madeira e cortiça com 13% (Figura 180).       

CEIF/Universidade de Coimbra  220 
 
Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 

 
Figura 180 – Percentagem de indústrias afetadas por sector de atividade 

Das 140 empresas visitadas 64,23% eram microempresas, 27,86% pequenas empresas e 7,86% médias 
empresas. Mais uma vez se verifica que as microempresas estão numa percentagem superior às restantes 
(Tabela  62).  Outro  dado  importante  a  referir  é  que  apesar  de  as  12  médias  empresas  corresponderem  a 
7,86%  do  total  de  empresas  afetadas,  este  número  torna‐se  bem  mais  relevante  comparando‐o  com  as 
empresas existentes neste escalão na totalidade das empresas para os concelhos em estudo, que são 49.  

A maioria dos edifícios das empresas danificadas pelos incêndios eram construídos em alvenaria e metal. 
No  geral  as  infraestruturas  tinham  aproximadamente  entre  10  e  30  anos  de  idade,  e,  a  maioria  das 
infraestruturas estavam bem conservadas. 

Tabela 62 – Número de empresas com diferentes escalões de trabalhadores  

% empresas existentes 
Escalão de trabalhadores para as empresas em  N. Empresas afetadas 
segundo escalão de 
estudo no total  visitadas 
trabalhadores (INE, 2018) 
<10 trabalhadores (microempresa)  96,14% (9568)  90 
10 e 50 trabalhadores (pequena empresa)  2,22% (186)  39 
50 e 250 trabalhadores (média empresa)  0,44% (49)  11 
Total  96,17% (9659)  140 
 

De  um  total  de  5660  empresas  registadas  nos  concelhos  em  estudo,  154  terão  sido  afetadas  pelos 
incêndios. Quanto aos danos sofridos nas indústrias estes foram divididos em 5 categorias: ligeiros, médios, 
avultados, destruição total e sem dados. Das 140 empresas analisadas, a destruição total foi reportada em 
46% das indústrias, 22% apresentaram danos avultados, 17% danos médios e 13% danos ligeiros (Tabela 63). 
É  possível  observar  que  em  cada  um  dos  concelhos  a  destruição  total  das  estruturas  é  muito  evidente, 
situando‐se acima de 37% para todos os locais, e atingindo mesmo um valor de 73% no concelho de Oliveira 
de Frades, isto é, das 26 empresas afetadas em Oliveira de Frades, 19 sofreram destruição total. 

CEIF/Universidade de Coimbra  221 
 
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Tabela 63 – Tipologia de danos nas indústrias 

Danos  Danos  Danos  Destruição 


Zonas Industriais  Sem dados  Total 
ligeiros  médios  avultados  total 
Seia  0  1  1  2  0  4 
Tondela  0  6  6  9  1  22 
Oliveira do Hospital  13  11  16  24  1  65 
Pampilhosa‐da‐Serra  2  0  1  2  0  5 
Mira  2  3  4  9  0  18 
Oliveira de Frades  1  3  3  19  0  26 
Total  18  24  31  65  2  140 

A projeção de partículas foi registada como sendo o principal processo responsável pela ignição primária 
das  infraestruturas  em  53%  das  indústrias  afetadas,  seguindo‐se  o  contacto  por  chama  proveniente  do 
espaço florestal envolvente com 27% e o contacto por estruturas adjacentes com 12% (Figura 181).    

 
Figura 181 – Processo responsável pela 1ª ignição 

A proximidade dos combustíveis à infraestrutura foi um dos parâmetros avaliados para perceber a sua 
influência na perda das estruturas, a Tabela 64 refere a distância dos combustíveis florestais às estruturas 
em função do processo da primeira ignição. As distâncias propostas no questionário foram de 0 a 2m, de 2 a 
10m, 10 a 50m e superior a 50m. Convém realçar que em sede de PMDFCI para os polígonos industriais, 
plataformas de logística e aterros sanitários inseridos ou confinantes com espaços florestais previamente 
definidos  no  PMDFCI  é  obrigatória  a  gestão  de  combustível,  e  respetiva  manutenção,  de  uma  faixa 
envolvente com uma largura mínima não inferior a 100 m, competindo à respetiva entidade gestora ou, na 
sua inexistência ou não cumprimento da sua obrigação, à câmara municipal realizar os respetivos trabalhos, 
podendo esta, para o efeito, desencadear os mecanismos necessários ao ressarcimento da despesa efetuada. 

A Tabela 64 mostra que do total de empresas visitadas, mais de metade foram atingidas indiretamente 
por projeção de partículas em que a maioria das empresas estavam a mais de 10 metros dos combustíveis 
florestais, o que se traduz não só na grande distância a que as partículas possam ter sido projetadas, bem 
como do comportamento extremo do fogo  devido aos variados fatores presentes no dia 15 de outubro. Nos 

CEIF/Universidade de Coimbra  222 
 
Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
casos em que o processo responsável pela primeira ignição foi por chamas provenientes da floresta, das 38 
empresas  implicadas,  19  empresas  estavam  a  menos  de  2  metros  do  espaço  florestal,  11  estavam 
distanciadas  do  espaço  florestal  entre  os  2  e  10  metros  e  as  estantes  estavam  a  mais  de  10  metros  de 
distância. Salienta‐se aqui a importância da limpeza da envolvente florestal tal como estipulado na Lei. Nas 
que  foram  atingidas  indiretamente  por  projeções  de  partículas  a  proximidade  das  estruturas  aos 
combustíveis florestais é aleatória, não existindo um padrão, predominando ainda assim os casos em que a 
distância do espaço florestal era de 10 a 50m. Nos restantes casos os processos responsáveis não têm tanto 
destaque, sendo bem menor o número de empresas afetadas independentemente da sua proximidade aos 
combustíveis florestais. 

Tabela 64 – Proximidade com combustíveis florestais à estrutura e qual o processo responsável pela primeira ignição 
Proximidade dos combustíveis florestais à estrutura 
Processo responsável pela 1ª ignição  (m)  Total 
0 a 2  2 a 10  10 a 50  Mais de 50 
Diretamente por chamas provenientes de 
4  2  6  4  16 
estruturas adjacentes 
Diretamente por chamas provenientes do 
19  11  7  1  38 
espaço florestal envolvente 
Indiretamente por projeção de partículas  10  19  26  19  74 
Propagação por materiais residuais 
3  2  3  1  9 
depositados na envolvente 
Propagação por produtos acabados ou 
‐  ‐  1  ‐  1 
intermédios depositados na envolvente 
Outro  1  ‐  1  ‐  2 
Total  37  34  44  25  140 

Na Figura 182 está representado um mapa com a localização das empresas que estão assinaladas por 
círculos de diferentes cores que correspondem ao possível local de ignição dessas estruturas.  

 
Figura 182 – Possível local de ignição das estruturas 

CEIF/Universidade de Coimbra  223 
 
Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
Das 140 empresas, foi referenciado que 40 empresas tinham a estrutura aberta no momento do IF, 27 
empresas foram atingidas através da parede, 23 pelo telhado, 12 pela janela e 10 pela porta e respirador.  
Todas as estruturas abertas estavam mais vulneráveis a ser atingidas através de focos secundários causados 
por  projeção  de  partículas  incandescentes  e  diretamente  por  chamas  provenientes  do  espaço  florestal. 
Primeiro  porque  as  partículas  incandescentes  podem  movimentar‐se  por  grandes  distâncias,  e  segundo 
porque todas as estruturas atingidas pelas chamas da envolvente florestal estavam muito próximas desta 
(ver Tabela 65).  

 Tabela 65 – Processo responsável pela primeira ignição e possível local de ignição na estrutura  
Possível local de ignição   
Processo responsável pela 
Estrutura  Total 
1ª ignição  Janela  Parede  Porta  Respirador  Telhado  Outro 
aberta 
Diretamente por chamas 
provenientes de estruturas  1  3  5  2  2  3    16 
adjacentes 
Diretamente por chamas 
provenientes do espaço  14  2  9  2  3  4  4  38 
florestal envolvente 
Indiretamente por projeção 
24  5  7  5  5  15  13  74 
de partículas 
Propagação por materiais 
residuais depositados na  1  2  5      1    9 
envolvente 
Propagação por produtos 
acabados ou intermédios      1          1 
depositados na envolvente 
Outro        1      1  2 
Total  40  12  27  10  10  23  18  140 
 

Impacte após o incêndio 

Na Tabela 66 e na Tabela 67 estão presentes esquematicamente a avaliação da operacionalidade tanto 
da empresa como dos trabalhadores após o CIF dos concelhos analisados, sendo a diferença que numa tabela 
também estão dados relacionados com a localização das empresas após o incêndio e na outra tabela refere 
qual o tipo de dano nas empresas após o incêndio.  

Tabela 66 – Operacionalidade/Localização da empresa e dos trabalhadores após o CIF dos concelhos analisados 
Após o Complexo de Incêndios  Operacionalidade dos trabalhadores  Total 
  dos concelhos visitados  Não  Parcial  Total   
Totalmente operacional      25  25 
Operacionalidade/Localização 

Não, reconstruir noutro local      2  2 
Sim, com algumas alterações      9  9 
      Sim, Sem alterações      14  14 
Operacional, com limitações  11  10  23  44 
da Empresa 

Não, reconstruir noutro local  6    3  9 
Sim, com algumas alterações  3  7  15  25 
      Sim, sem alterações  2  3  5  10 
Totalmente inoperacional    17  54  71 
Não, reconstruir noutro local    1  3  4 
Sim, com algumas alterações    14  37  51 
      Sim, sem alterações    2  14  16 
  Total  11  27  102  140 

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No geral observa‐se que das 140 empresas, 71 empresas ficaram totalmente inoperacionais, mas todos 
os trabalhadores continuaram a trabalhar, e destas 71 empresas 32 ficaram totalmente destruídas, o que 
representa um valor significativo. Outro dado que salta à vista é relativo aos trabalhadores que ficaram sem 
trabalhar após os incêndios, e que se reflete em 11 empresas que continuaram a operar com limitações. Das 
140  empresas  somente  25  empresas  continuaram  totalmente  em  funcionamento  com  todos  os 
trabalhadores  a  operar  totalmente,  mas  mesmo  neste  caso  duas  destas  empresas  tiveram  que  ser 
reconstruídas noutro local. 

Tabela 67 – Operacionalidade/Tipo de danos na empresa e dos trabalhadores após o CIF dos concelhos analisados 
Após o Complexo de Incêndios  Operacionalidade dos trabalhadores  Total 
  dos concelhos visitados  Não  Parcial  Total   
Totalmente operacional      25  25 
Operacionalidade/Localização da 

Danos ligeiros      10  10 


Danos médios      6  6 
Danos avultados      3  3 
Destruição total      6  6 
Operacional, com limitações  11  10  23  44 
Empresa 

Danos médios    2  3  5 
Danos avultados  2  3  4  9 
Destruição total  9  5  16  30 
Totalmente inoperacional    17  54  71 
Danos ligeiros    3  5  8 
Danos médios    5  7  12 
Danos avultados    4  15  19 
Destruição total    5  27  32 
  Total  11  27  102  140 

A Tabela 68 apresenta a relação entre o balanço anual e o prejuízo estimado para os concelhos visitados. 
É  importante  referir  que  apesar  nas  várias  opções  colocadas  no  inquérito  em  relação  aos  prejuízos  das 
empresas, o patamar mais elevado era o de prejuízos superiores a 500 mil euros, existiu pelo menos uma 
empresa em cada concelho visitado que teve prejuízos superiores a 1 milhão. 

 Das  140  empresas  69  têm  um  balanço  anual  inferior  a  500  mil  euros.  Da  totalidade  das  empresas 
visitadas, foram registadas 43 empresas com prejuízos superiores a 500 mil euros e em 4 destas tinham um 
balanço  anual  inferior  ao  prejuízo  que  obtiveram  na  sequência  dos  incêndios.  Empresas  com  balanços 
superiores a um milhão de euros tiveram prejuízos superiores a 100 mil euros.  

Tabela 68 – Relação entre o balanço anual e o prejuízo estimado nas empresas visitadas dos concelhos em estudo 
Balanço anual da  Estimativa de prejuízos [kEUR] 
empresa   Total 
0 a 50  50 a 100  100 a 500  > 500 
[MEUR] 
< 0,5   19  10  36  4  69 
Entre 0,5 e 1  4  5  10  9  29 
Entre 1 e 2  ‐  ‐  5  8  13 
Entre 2 e 10  ‐  ‐  2  10  12 
Entre 10 e 50  ‐  ‐  2  6  8 
Não sabe      4  6  10 
Total  23  15  59  43  140 

A Figura 183 mostra que das 140 empresas afetadas, em todos os setores de atividade existia um grande 
número de empresas sem seguro, exceto no setor de fabricação de têxteis.  O setor da construção civil é 
CEIF/Universidade de Coimbra  225 
 
Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
aquele  que  apresenta  o  maior  número  de  empresas  sem  seguro  e  nenhuma  das  empresas  visitadas  de 
fornecimento  de  gás,  água  ou  eletricidade  (6  empresas)  tinha  seguro.  Estes  dados,  em  especial,  os  que 
apontam para o número de empresas sem seguro, mostram a importância que tiveram todos os incentivos 
de apoio facultados às indústrias para manterem o seu funcionamento. 

 
Figura 183 – Tipo de seguro das empresas afetadas após o CIF  

No caso das empresas devidamente asseguradas existiram bens que não foram pagos pelos seguros, ou 
porque não estavam de acordo com o seguro contratado ou devido às cláusulas do contrato do seguro. Os 
bens não assegurados são variados, desde veículos, maquinaria, ferramentas, infraestruturas, entre outros. 
Em  relação  ao  combate  ao  fogo  nas  empresas,  os  inquiridos  foram  questionados  se  alguém  fez  o 
combate ao incêndio durante a fase crítica, e se sim, quem fez esse combate. Na Tabela 69 pode verificar‐se 
que em 89 empresas não houve qualquer tipo de combate e em 42 empresas foram os trabalhadores que 
combateram o fogo. Apesar do número de empresas em que existiu combate ao fogo pelos trabalhadores 
ser  representativa,  existiram  fatores  pelos  quais  na  maioria  das  empresas  não  houve  qualquer  tipo  de 
combate,  não  só  devido  às  condições  de  propagação  dos  incêndios,  mas  também  o  dia  e  as  horas  a  que 
ocorreram, muitas das empresas estavam encerradas. Muitos inquiridos referiram que: 

 Não  havia  forma  de  se  dirigirem  às  suas  instalações  (estradas  cortadas,  conhecimento  da 
empresa afetada após passagem do fogo, etc.); 
 Inicialmente tentaram proteger as suas instalações utilizando mangueiras para molhar o terreno 
em volta, guardar veículos e/ou maquinaria em locais mais seguros, mas abandonaram os locais 
antes do fogo atingir as empresas; 
 Prioridade na defesa das suas próprias casas ou casas de familiares; 
 Tiveram conhecimento do fogo atingir as suas empresas muito tardiamente; 
 Apesar de tentarem defender as suas instalações, as condições e a velocidade de propagação 
do fogo eram muito grandes, em que alguns inquiridos falaram em “chuva de fogo”. 

CEIF/Universidade de Coimbra  226 
 
Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
Tabela 69 – Número de empresas com ou sem combate ao incêndio na fase crítica em todos os concelhos analisados 

Combate ao incêndio  N. 
na fase crítica  Empresas 
Bombeiros   6 
Populares  1 
Trabalhadores  42 
Não houve combate  89 
Outros  2 
Total  140 
 

Ainda durante os incêndios mais de 100 inquiridos referiram que não conseguiam fazer qualquer tipo de 
comunicação  através  do  telemóvel,  e  os  poucos  que  conseguiram  tiveram  dificuldades  em  comunicar 
existindo muitas falhas na rede. 

Ao longo do presente capítulo analisaram‐se os vários dados recolhidos durante as visitas de campo, 
fazendo uma análise particular do impacto nas indústrias em cada concelho atingido pelo fogo de cada um 
dos  CIF  e  uma  análise  geral.  Para  uma  consulta  mais  rápida,  são  presentes  aqui  as  conclusões  principais 
resultantes da análise do impacto nas indústrias: 

 Na sequência do impacto nas indústrias pelo fogo, não existiram vítimas mortais nem feridos 
graves; 
 As estruturas estavam bem conservadas no geral e a maioria tinha entre 10 e 30 anos; 
 A envolvente florestal estava muito próxima das estruturas na maioria dos casos, necessitando 
de uma melhor gestão. É importante referir que a limpeza e gestão da envolvente dos espaços 
industriais  em  Portugal  é  legislada  pelo  Decreto‐Lei  nº  124/2006  de  28  de  junho,  no  qual  é 
descrito  que  “nos  parques  de  campismo,  nas  infraestruturas  e  equipamentos  florestais,  nos 
parques e polígonos industriais, nas plataformas de logística e aterros sanitários”, é obrigatória 
uma gestão e manutenção dos combustíveis “de uma faixa envolvente com uma largura mínima 
não inferior a 100 metros”, e o mesmo se aplica nos aglomerados populacionais.  Este Decreto‐
Lei teve a última alteração através do Dec. Lei nº 10/2018, de 14 de fevereiro de 2018, onde é 
reforçado o poder dos municípios, na limpeza dos terrenos dos proprietários que não o realizem 
e o agravamento das coimas em cerca de 40%; 
 O  principal  processo  de  ignição  das  estruturas  foi  indiretamente  por  projeção  de  partículas 
incandescentes.  No  decorrer  das  visitas  de  campo,  alguns  dos  inquiridos  informaram  que  a 
propagação  através  do  telhado  se  deu  pelas  telhas  de  policarbonato,  pois  são  aquelas  que 
conferem  luz  natural  ao  interior  da  estrutura  e  que  têm  uma  resistência  de  até  120°C, 
salientando  que  não  as  iriam  colocar  novamente  pois  são  um  ponto  fraco  na  proteção  das 
infraestruturas; 
 Em 89 empresas não houve qualquer tipo de combate e em 42 empresas foram os trabalhadores 
que combateram o fogo. Apesar do número de empresas em que houve combate ao fogo pelos 
trabalhadores ser representativa, existiram fatores  pelos quais na maioria das empresas  não 
houve qualquer tipo de combate, não só devido às condições de propagação dos incêndios, mas 
também o dia e as horas a que ocorreram, muitas das empresas estavam encerradas; 
 É de salientar ainda que as empresas que foram reconstruídas noutro local após o incêndio, são 
as que sofreram destruição total, e algumas estiveram a desenvolver a sua atividade em locais 
temporários, disponibilizados por outras empresas; 

CEIF/Universidade de Coimbra  227 
 
Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
 As empresas apresentaram uma baixa cobertura com contratos de seguro válidos, em que mais 
de metade das empresas visitadas não tinham qualquer apólice de seguro. Alguns dos inquiridos 
das  empresas  sem  seguro  referiram  que  os  valores  pedidos  pelas  seguradoras  eram 
exorbitantes, devido, por exemplo, à atividade que a empresa exercia. Ainda alguns salientaram 
que pensavam ter o seguro ativo e por algum motivo isso não se verificava; 
 No  caso  das  empresas  devidamente  asseguradas  foi  registado  que  nem  todos  os  bens 
danificados foram cobertos pelo seguro, como o caso de uma empresa de veículos, máquinas e 
equipamentos e de todas as empresas de produtos metálicos em que os inquiridos relataram 
que os seguros não cobriram ferramentas, equipamentos, veículos e material de escritório; 
  Segundo  dados  divulgados  a  29  de  novembro  de  2017  pela  Associação  Portuguesa  de 
Seguradores  (APS, 2017) foram registados nos incêndios de outubro cerca de 4 177 sinistros 
cobertos  por  apólices  de  seguros.  Cerca  de  700  correspondem  a  seguros  de  atividades 
comerciais e industriais com danos apurados na ordem dos 150 milhões de euros. Segundo a 
APS, a tragédia que assolou o território nacional em outubro de 2017 constitui assim o maior 
sinistro de sempre da história no setor, com elevados impactes na indústria seguradora; 
 A maioria dos trabalhadores continuaram a trabalhar após os incêndios, resultando num baixo 
impacto de desemprego. No decorrer do nosso trabalho de campo, muitos dos entrevistados 
salientaram  a  importância  dos  apoios  concedidos,  realçando  que,  de  entre  os  vários  apoios, 
aqueles facultados pelo IEFP de imediato, foram determinantes para a continuação da atividade, 
bem  como  da  permanência  dos  postos  de  trabalhos,  pois  após  os  incêndios  foi  necessário 
envolver  os  trabalhadores  em  atividades  de  limpeza  para  voltar  a  erguer  a  empresa  e  o  seu 
funcionamento, e, em muitos casos ficando a produção em pausa, e, consequentemente não 
existindo receitas, a única forma de manter os postos de trabalho seria por apoio externo; 
 O facto de os trabalhadores continuarem a laborar apesar do impacto que as empresas tiveram 
tem  um  grande  significado,  demonstra  a  preocupação  em  evitar  problemas  sociais  e 
económicos negativos, tais como quebras totais na produção, perda de contratos ou de clientes 
e  o  desemprego  dos  seus  trabalhadores.  De  referir  ainda  que  algumas  destas  empresas 
continuaram as suas atividades laborais em espaços arrendados ou emprestados para o efeito. 

A  nível  de  prevenção  e  autoproteção,  cada  empresa  deve  realizar  o  seu  plano  de  prevenção  e 
autoproteção de acordo com as suas necessidades, tendo em conta o seu setor de atividade, os materiais 
com  que  opera,  os  riscos  associados  à  sua  empresa,  o  tipo  de  infraestruturas  que  a  empresa  tem,  entre 
outros.  Este  plano  deve  ser  claro  e  conciso  de  forma  a  preparar  e  a  fornecer  uma  resposta  adequado  a 
situações de risco. 

Os materiais que são utilizados na construção das estruturas devem ser adequados, e a forma como as 
estruturas são construídas pode ser decisivo na proteção da estrutura contra incêndios vindos do exterior 
como  é  o  caso  dos  incêndios  florestais.  Como  foi  referido  na  análise  do  impacto  das  indústrias  existem 
estruturas/pontos mais sensíveis quando entram em contato com o fogo e/ou partículas incandescentes, 
que são o caso das janelas, portas, respiradores e telhados. Nos telhados é muito comum utilizar telhas de 
policarbonato, pois são aquelas que conferem luz natural ao interior da estrutura e que têm uma resistência 
ao calor de até 120°C, mostrando‐se que são um ponto fraco na proteção das infraestruturas e devem ser 
substituídas por outras soluções. 

Outro ponto importante a referir são os seguros, em que se verificou que muitas indústrias não tinham 
qualquer tipo de seguro e as que tinham nem sempre eram os seguros mais apropriados e/ou mais completos 

CEIF/Universidade de Coimbra  228 
 
Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 
para cobrir todos os prejuízos que resultaram do impacto do fogo. Recomenda‐se que na altura de se fazer 
o seguro, as pessoas tenham o conhecimento de todas as cláusulas presentes no seguro a contratar, e que 
se informem sempre sobre o tipo de coberturas que o seguro oferece ou as diversas opções existentes.   

As autarquias devem promover o crescimento de áreas industriais de um modo sustentado adequando 
as medidas de mitigação à tipologia do risco. A autarquia não deve permitir o crescimento do seu parque 
industrial desenquadrado da realidade dos recursos de PC, nomeadamente Corpos de Bombeiros da área de 
atuação, quer na tipologia dos meios, quer no número e especialização dos seus efetivos; 

As zonas industriais devem constituir em função do número de infraestruturas, ou da tipologia dos bens 
produzidos,  devem  constituir  equipas  de  intervenção  próprias,  suportadas  pelos  proprietários  das 
infraestruturas em regime de condomínio. Estas equipas não necessitam propriamente de ser Bombeiros e 
devem  funcionar  com  “limitadores  de  avarias”  como  existem  por  exemplo  a  bordo  de  embarcações  da 
Armada; 

As quantidades de material armazenado devem ser exatas e figurar em registo apropriado. Ou seja, cada 
guia  de  transporte  é  de  utilização  única,  sob  pena  de  não  ser  ressarcido  dos  respetivos  prejuízos  e  da 
aplicação das sanções de acordo com a legislação em vigor; 

As  organizações  empresariais  devem  promover  vínculos  pessoais  com  os  seus  colaboradores.  Um 
colaborador que se sinta parte organização é um colaborador dedicado. Presentemente o que se assiste por 
vezes é um desligar entre  a administração e o trabalho produzido, onde por vezes, os colaboradores são 
recrutados por terceiros e não existe qualquer tipo de vínculo pessoal com a organização. Como forma de 
estimular  a  inclusão  do  colaborador  deverá  ser  promovida  a  distribuição  de  parte  dos  lucros  aos 
colaboradores,  em  detrimento  da  maximização  dos  lucros,  que  pode  funcionar  bem  no  imediato,  mas 
acarretando consequências nefastas nas relações laborais, no médio e longo prazo. 

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Universidade de Coimbra  Análise dos IF ocorridos a 15 de outubro de 2017 
 
 

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6. Recomendações 
6.1. Introdução 

Em relatórios anteriores (Viegas et al., 2012, Viegas et al., 2013, Viegas et al., 2017), os autores verteram 
um  conjunto  importante  de  recomendações  e  conclusões  que  decorreram  da  observação  e  análise  dos 
incêndios e das situações com eles relacionados, que foram objeto de estudo. Por este motivo limitar‐nos‐
emos a compilar aqui as recomendações e conclusões que tenham decorrido do estudo dos incêndios de 15 
de outubro, sem prejuízo de insistirmos nalgum ou outro ponto que, pela sua importância, ou pela falta de 
atendimento de chamadas de atenção anteriores, nos pareça importante referir. 

Na data de redação deste texto, estão em marcha ou em fase de definição várias medidas de melhoria 
do sistema.  Algumas  dessas medidas  vão ao encontro das recomendações deste relatório e  de relatórios 
anteriores, no entanto, o elenco de recomendações que se segue é apresentado tendo em conta a situação 
atual, não considerando medidas que ainda estejam em fase de elaboração.  

Este  Capítulo  tem  dois  conjuntos  de  recomendações,  umas  que  designamos  por  “preliminares”,  que 
haviam  sido  preparadas  pela  nossa  equipa  em  junho  de  2018,  após  uma  avaliação  preliminar  dos 
acontecimentos de 15 de outubro de 2017. O outro conjunto contém recomendações complementares, que 
foram elaboradas no final do estudo e que, de alguma forma, complementam e completam as Preliminares. 

  

6.2. Notas e Recomendações Preliminares 

No âmbito do estudo de análise dos incêndios ocorridos em Portugal em outubro de 2017, solicitado 
pelo Governo de Portugal à equipa da ADAI, foi realizada no dia 15 de junho de 2018 uma apresentação 
intercalar do trabalho em curso, ao Senhor Ministro da Administração Interna, na qual foram identificadas 
algumas  situações  que  poderiam  suscitar  a  emissão  de  chamadas  de  atenção  junto  das  entidades 
operacionais, ou mesmo junto da População, antes do início do período mais crítico de incêndios, a fim de 
prevenir a ocorrência de acidentes ou a perda de bens. 

Este elenco de notas foi por nós enviado ao Governo, praticamente com a redação que se apresenta de 
seguida,  com  a  intenção  de  que  fossem  disseminadas  junto  das  autoridades  e  da  população.  Voltamos  a 
incluí‐las neste Relatório, com ligeiras alterações de redação, por se manterem actuais. 

1) Reiteramos a nossa convicção de que as circunstâncias de clima e meteorologia em que ocorreram os 
incêndios de junho e de outubro de 2017 foram excecionais, mas não únicas. Com a alteração climática 
em que nos encontramos, devemos esperar que essas circunstâncias, ou outras semelhantes, se possam 
repetir.  Não  podemos  aceitar  que  as  consequências  em  termos  de danos  pessoais  –  menos  ainda  de 
perda de vidas – se repitam. 
2) Registamos  que  ocorreram  nos  incêndios  de  15  de  outubro  51  vítimas  mortais,  causadas  direta  ou 
indiretamente pelos incêndios. Apesar de ser um número muito elevado, reconhecemos que, devido às 
circunstâncias em que estes incêndios decorreram e à sua extensão e gravidade, o número de vítimas 
mortais  poderia  ter  sido  muito  superior.  O  número  de  feridos  graves  que  houve  e  os  casos  que 
conhecemos de pessoas singulares ou em grupos que estiveram em perigo, leva‐nos a ter esta convicção.  
3) Apesar de não ter havido um esforço concertado, por parte das autoridades, para comunicar à população 
em geral, as lições que se podem retirar de acidentes anteriores, nomeadamente dos incêndios de junho, 

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em Pedrógão Grande, as pessoas assumiram alguns comportamentos e evitaram outros que se tinham 
manifestado como sendo pouco seguros no passado. 
4) Reafirmamos a nossa posição de que em caso de perigo de aproximação de um incêndio, as pessoas 
devem decidir com grande antecedência o que fazer, seguindo com bom senso algumas das orientações 
que se listam de seguida. 
a) Devem ser retirar as pessoas idosas, as crianças, as doentes ou as que de alguma forma não tenham 
capacidade física ou psicológica para a tomar decisões consentâneas com a situação. Estas pessoas 
devem ser retiradas para locais seguros, com muita antecedência e nunca numa situação em que o 
fogo esteja nas imediações. Deve considerar‐se mais do que uma hipótese de retirada das pessoas e 
avisar os familiares e amigos de que se vai tomar essa decisão. 
b) Tendo  tomado  as  devidas  medidas  de  preparação  que  se  impõem  em  cada  caso,  se  as  pessoas 
optarem por permanecer na sua casa ou junto dela, devem assumir as medidas específicas que se 
impõem para estarem em segurança durante a passagem do fogo e para eliminar focos de incêndios 
que tenham persistido após a sua passagem. 
c) No caso de não terem possibilidades de se retirar em segurança, devem completar as medidas de 
proteção na envolvente da casa e assumir as medidas específicas do ponto anterior, cuidando em 
particular das pessoas do seu agregado ou da sua vizinhança que necessitem de maior apoio. 
5) Em caso de incêndio as autoridades devem ponderar bem a decisão de mandar evacuar uma localidade, 
um edifício ou mesmo uma casa. Ao fazê‐lo devem tomar as medidas necessárias para que as pessoas 
envolvidas o possam fazer com tempo e em segurança. Uma evacuação não pode ser uma fuga. 
6) Recomendamos que se evitem as evacuações gerais, forçando todas as pessoas a retirar‐se. Sabemos 
que, na larga maioria dos casos, existem nas localidades pessoas com aptidão física e com recursos para 
permanecer e defender o que é seu e, além disso, uma casa defendida tem muito maior probabilidade 
de sobrevivência. 
7) Reportadamente  muitas  pessoas  evitaram  fazer‐se  à  estrada,  para  fugir  ou  para  ir  ajudar  outros,  por 
terem tomado consciência – sobretudo com a experiência de Pedrogão Grande – de que andar na estrada 
com incêndios por perto não é a melhor opção, sendo em geral preferível manter‐se dentro de casa. O 
facto de os incêndios terem ocorrido num domingo, em que muitas pessoas estariam nas suas casas, 
poderá ter contribuído para esta situação.  
8) Temos registo de muitos casos em que as pessoas avaliaram mal, ou subestimaram o comportamento 
do fogo. Por vezes, tendo conhecimento de que o incêndio se estava desenvolver a vários quilómetros 
de distância, não esperavam que o fogo chegasse tão cedo junto delas, ou sequer que chegasse. Nestas 
circunstâncias  recomenda‐se  que  as  pessoas  estejam  atentas  e  se  mantenham  informadas,  sem 
propriamente se arriscarem a “ir ver onde está o incêndio”, contactem com as autoridades, com pessoas 
conhecidas de outras localidades e se mantenham alerta, até que sejam avisadas pelas autoridades de 
que o perigo passou. Assegurem‐se que as pessoas do seu conhecimento que precisam de ser alertadas 
ou ajudadas, estão igualmente informadas e prontas a receber qualquer alerta, caso as circunstâncias 
mudem e seja preciso agir. 
9) Nos  incêndios  de  15  de  outubro,  ao  contrário  dos  de  Pedrogão  Grande,  houve  uma  percentagem 
significativa de pessoas que perderam a sua vida dentro de casa. Nalguns casos, foram surpreendidas 
pelo fogo enquanto dormiam, não tendo sido avisadas a tempo de que a sua casa e vida estavam em 
perigo. Faz‐se notar que várias casas arderam passado algum tempo – por vezes mais de duas horas ‐ 
após a chegada do incêndio à povoação, ou à estrutura em causa. Chama‐se por isso a atenção para os 
pontos  fracos  das  casas  que  são  em  geral  os  telhados,  os  anexos,  o  material  combustível  junto  das 
paredes exteriores ou mesmo casas próximas em ruínas. 

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10) No caso das áreas industriais ou empresariais, verificámos que não é suficiente fazer a limpeza dentro do 
perímetro da área industrial, pois a vegetação na envolvente tem de ser eliminada igualmente. Enquanto 
nas construções domésticas, na maioria dos casos, o fogo terá entrado pelos telhados das casas, na maior 
parte das instalações industriais atingidas pelo fogo, este entrou por aberturas existentes ou criadas pelo 
vento nas estruturas. Verificou‐se ainda que muitas instalações empresariais não dispunham de seguro 
contra o risco de incêndio e casos houve de instalações com uma apólice de “seguro contra todos os 
riscos” que, para surpresa do seu beneficiário, não cobria os dadnos causados por incêndios florestais. 
Convém por isso acautelar os três pontos referidos, para evitar danos em áreas empresariais existentes 
ou implantadas em áreas florestais. 
11) Observámos muitos casos de construções que foram atingidas por projeções vindas de grande distância, 
mesmo  sem  haver  vegetação  na  envolvente  próxima  do  edifício.  Esta  circunstância  não  invalida  a 
importância nem a necessidade de se limpar em torno das casas. No estudo que fizemos verificámos que 
mais de 90% das estruturas analisadas não tinham tido qualquer ação com vista à redução de vegetação 
na sua envolvente. Verificámos ainda que não é suficiente limpar apenas uma parte do perímetro: ou se 
limpa tudo, ou então não se reduz significativamente o risco da construção poder ser atingida pelo fogo. 
12) Houve casas longe de vegetação, que arderam devido à projeção de partículas incandescentes a longa 
distância. Este facto pode levar as pessoas a questionar o valor da limpeza na envolvente, no entanto 
reitera‐se que é sempre preferível fazê‐lo. Embora o risco da casa arder não seja totalmente eliminado, 
a probabilidade de ignições ao edifício é incomparavalemente superior se a gestão de combustíveis nas 
imediações não tiver sido realizada. 
13) No mesmo sentido, houve várias manchas florestais sem subcoberto (vg. arbustos e herbacias) que foram 
dizimadas  pelo  fogo,  o  que  levou  muitas  pessoas  a  questionarem‐se  sobre  a  real  vantagem  destas 
medidas. Uma vez mais, encorajamos as pessoas a prosegguirem com as boas práticas agroflorestais que 
envolvem a gestão dos combustíveis nas áreas florestais. Embora o risco de incêndio não seja eliminado 
na sua totalidade, a probabilidade de destruição pelo fogo, reduz‐se drasticamente. Para além disso, a 
limpeza do subcoberto arbóreo, levam a que o fogo, se ali se propagar, o faça com menor intensidade, o 
que permite uma regeneração mais rápida e uma menor perda de valor. 
14) O facto de o incêndio ter atingido muitas regiões durante a noite, contribuiu para que houvesse menos 
pessoas a “fazer‐se à estrada”. Por outro lado, houve muitos casos de pessoas que foram apanhadas em 
casa a dormir. Este facto reforça a necessidade das pessoas e das famílias se manterem alerta. Dentro da 
comunidade  deve‐se  estar  atento  para  as  pessoas  que  possam  ter  incapacidades  –  visuais,  auditivas, 
motoras ou outras – que os impeçam de se aperceber da proximidade do fogo. 
15) Houve casos de pessoas que perderam a vida, ou sofreram ferimentos graves, para tentarem salvar os 
seus animais domésticos, de estimação ou de criação. Deve‐se por isso assegurar previamente que os 
animais  dispõem  de  condições  de  segurança  nos  seus  estábulos  ou  recintos  de  abrigo.  Por  norma,  é 
preferível soltar os animais, dando‐lhes a liberdade para se afastarem do fogo por instinto. Verificou‐se 
que  nalguns  casos,  os  animais  preferiram  manter‐se  nos  seus  locais  habituais,  o  que  reforça  a 
necessidade  de  assegurar  que  possuem  as  condições  mínimas  de  proteção.  Em  qualquer  caso,  deve 
considerar‐se  que,  por  muito  valor  estimativo  ou  económico  que  um  ou  mais  animais  tenham,  não 
justificam o sacrifício da integridade física ou da vida de uma pessoa. 
16) Registámos igualmente vários casos de pessoas que perderam a vida para colocar a salvo um carro, um 
trator, ou outro bem. Reafirma‐se o que foi dito a respeito dos animais, sobre a necessidade de dispor 
de  condições  de  segurança  para  estes  recursos,  em  caso  de  incêndio.  É  preferível  ter  as  viaturas 
guardadas em recintos fechados e cobertos. Se tal não for possível devem aparcar‐se longe da casa e, se 
possível, sem vegetação ou sem outros materiais que possam colocar estes bens em perigo. 

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17) Dentro  da  falta  de  perceção  das  pessoas  relativamente  ao  comportamento  do  fogo,  pareceu‐nos  ser 
particularmente grave o desconhecimento do por nós designado “comportamento eruptivo”, que ocorre 
frequentemente em desfiladeiros ou em encostas com elevado declive. Nestes episódios, o fogo tende a 
aumentar de uma forma dramática a sua velocidade de progressão, surpreendendo as pessoas, o que já 
causou muitos acidentes mortais no passado. Deve‐se por isso evitar permanecer ou passar – mesmo 
que seja numa viatura – junto ou por cima de encostas ou desfiladeiros, com fogo e vegetação por baixo, 
mesmo que pareça haver tempo para se sair de lá. 
18) Deve‐se respeitar o conselho de pessoas mais experientes no tocante a permanecer num dado lugar e 
em se deslocar ou não de um ponto para outro, com um incêndio por perto. No caso de se tratar de 
autoridades  policiais  ou  autárquicas,  as  indicações  devem  ser  imediatamente  cumpridas,  pois  são 
ordens. 
19) Em caso de incêndio, é sempre desejável que as pessoas não permaneçam sozinhas. Deve‐se procurar, 
com a devida antecedência, juntar‐se a outras pessoas de confiança, para apoio mútuo, mesmo que tal 
signifique sacrificar algum recurso próprio. Se tiver de fazer alguma deslocação, para ir ao encontro de 
outras pessoas, assegure‐se de que o pode fazer sem perigo, caso contrário, é preferível permanecer 
onde está. 
20) Na proximidade de um incêndio deve‐se evitar andar sozinho ou separar‐se de um grupo com quem se 
esteja. Se alguém precisar de se afastar do grupo, deve avisar com antecedência sobre o que vai fazer e 
para onde pretende ir. 
21) Seria urgente passar algumas destas mensagens, também no âmbito do Programa Aldeia Segura, Pessoas 
Seguras”.  

6.3. Sistema operacional 

Estratégia de prontidão integrada 

No presente, não se assiste a uma época bem definida de incêndios florestais pelo que, os meios em 
prontidão devem ser ajustados em função das condições de risco de incêndio e não em função do calendário. 
Em  consonância,  o  pré‐posicionamento  dos  meios  de  combate  em  locais  estratégicos  deve  considerar  a 
distribuição territorial prevista do risco de incêndio, permitindo que qualquer ocorrência seja prontamente 
combatida e que, na eventualidade do desenvolvimento de um incêndio com maiores dimensões, as equipas 
de reforço ao combate possam chegar aos TO da forma mais rápida. 

A previsão de situações potencialmente catastróficas, como aquela prevista para 15 de outubro, deverá 
conduzir a uma estratégia de prontidão integrada de todas as entidades afetas ao sistema de proteção civil. 
Sabemos que em certas localidades, os centros de saúde deixaram de ter capacidade para acudir a todos os 
pedidos  de  socorro  que  chegaram  naquela  noite,  perdendo  inclusivamente  capacidade  para  prestar  os 
cuidados  devidos  a  vítimas  de  queimaduras  graves.  Consideramos  que  sempre  que  forem  previstos  dias 
potencialmente catastróficos, todas as entidades se devem preparar antecipadamente para os cenários mais 
negativos,  o  que  se  deverá  refletir  não  apenas  nas  entidades  mais  ligadas  à  proteção  civil  como  ANPC, 
Bombeiros,  GNR,  serviços  de  saúde,  etc.,  mas  também  noutras  entidades  mencionadas  nos  planos  de 
emergência tais como instituições da segurança social (e.g. preparação de lares para eventual evacuação), 
Clero (e.g. abertura de igrejas), associações culturais ou recreativas (e.g. abertura de pavilhões desportivos), 
etc. 

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Definição do Estado de Alerta Especial  

A definição do Estado de Alerta Especial depende de um conjunto de fatores; para o DECIF, depende 
essencialmente  da  informação  meteorológica  a  72h,  48h  e  a  24h,  e  do  histórico  de  ocorrências  em 
determinados locais. No entanto, e de acordo com o que apurámos junto da ANPC, a sua definição é ainda 
hoje  feita  de  forma  muito  intuitiva.  Neste  sentido,  seria  útil  que  se  conseguisse  aliar  o  conhecimento 
científico e operacional para a criação de um sistema que permita modelar um conjunto de variáveis que 
melhore e reduza a atual subjetividade da definição.  

Salientamos  a  estreita  e  necessária  colaboração  existente  entre  o  IPMA  e  a  ANPC  na  partilha  de 
informação  meteorológica  com  vista  à  prevenção,  preparação  e  combate  aos  incêndios  florestais.  No 
entanto, e como temos vindo a referir, chamamos a atenção para a confusão que continua a existir entre os 
“Avisos” emitidos pelo IPMA e os “Alertas” definidos pela a ANPC, assim como a distinta definição de cores. 

Gestão de megaeventos e/ou de catástrofes múltiplas 

Perante  a  situação  catastrófica  vivida,  muitas  corporações  de  bombeiros  empenharam‐se 


exclusivamente na defesa da área sob sua atribuição direta ou na proteção do município a que pertencem. 
Por vezes, o combate apenas começava quando o fogo chegava ou passava a ameaçar o seu município. Esta 
atitude poderá compreender‐se, não apenas porque esta foi uma situação inédita, sem orientações prévias 
claras,  no  modo  de  proceder  em  situações  similares,  mas  sobretudo  porque,  como  foi  referido 
anteriormente, o comando de cada ocorrência, a partir de determinada altura, deixou de ser feito de forma 
integrada,  ficando  os  municípios  quase  sempre  entregues  à  sua  capacidade  individual  de  combate.  Esta 
situação  foi  motivada  não  apenas  pela  complexidade  da  situação,  mas  sobretudo  pela  perda  de 
comunicações entre entidades, o que dificultou ou impediu uma coordenação integrada.  

Considera‐se que deve ser definido um protocolo claro sobre a estratégia nacional, distrital, municipal, 
ou mesmo a estratégia ao nível da ocorrência, que deve ser seguida em caso de megaeventos ou de eventos 
múltiplos que ameacem toda uma vasta região. Esta estratégia deve ser objeto de reflexão e análise, treinada 
e validada em exercícios que envolvam as várias entidades, tornando assim as operações de proteção civil 
mais  eficientes  em  situações  similares  que  venham  a  acontecer  no  futuro.  A  perceção  dos  autores  deste 
relatório é a de que atualmente, mais de um ano após 15 de outubro de 2017, o sistema continua sem estar 
realmente preparado para responder da forma mais eficiente para um cenário semelhante. 

 Quadros de comando e coordenação  

Perante a crescente probabilidade do aparecimento de eventos meteorológicos extremos, resultantes 
das alterações climáticas, que possam levar a novas situações de multi ou megacatástrofes, deve haver uma 
maior  formação  dos  quadros  de  comando  e  coordenação  (C&C)  para  melhor  responder  a  este  tipo  de 
cenários. Esta recomendação refere‐se não apenas à melhoria das capacidades dos elementos de C&C no 
ativo, mas também à formação de  mais elementos que possam  desempenhar estas funções em  cenários 
como aquele vivido a 15 de outubro – refere‐se que em determinados eventos de grande complexidade, em 
períodos de extrema dificuldade, o comando de operações de socorro foi garantido por elementos do quadro 
de Bombeiros, quando a situação exigia a nomeação de elementos com qualificação diferenciada que não 
estavam  disponíveis  por  estarem  empenhados  noutras  missões.  O  aumento  do  número  de  quadros  com 
capacidades de C&C permitiria ainda uma maior rotatividade no comando de operações de socorro que, pela 
responsabilidade  que  acarreta,  não  deveria  ser  desempenhado  por  um  período  demasiadamente  longo, 

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quando  frequentemente  se  verificam  elementos  a  exercer  estas  funções  por  períodos  ininterruptos 
superiores a 24 horas. 

Profissionalização dos quadros de comando de Bombeiros 

Tal como em casos anteriores, também neste estudo nos deparámos com elementos do comando de 
Bombeiros  com  grande  preparação  para  o  cargo  que  desempenham,  no  entanto,  também  encontrámos 
elementos  com  competências  demasiadamente  limitadas  para  desempenharem  eficazmente  o  cargo  que 
ocupam.  Numa  altura  em  que  a  profissionalização  dos  quadros  de  proteção  civil  tem  sofrido  avanços, 
considera‐se que, pela sua importância, responsabilidade e exigência de dedicação, os quadros de comando 
de Bombeiros deveriam ser profissionalizados, o que deverá ter acompanhamento na melhoria de formação 
em C&C já anteriormente especificada. Para além disso, a nomeação dos quadros de comando deveria ser 
feita por demonstração de mérito e competências, em vez do atual sistema de nomeação local por vezes 
baseada no comodismo e na inércia. Consideramos que apenas num cenário de profissionalização, com a 
formação adequada e um horário de atividade consentâneo, poderão ser exigidas responsabilidades efetivas 
sobre a tomada de cisões num teatro de operações. 

Profissionalização no combate a incêndios 

Os  incêndios  de  15  de  outubro  evidenciaram  as  limitações  de  um  sistema  de  combate  a  incêndios 
apoiado de sobremaneira no voluntariado. Este sistema apresentou bons resultados num período em que o 
período crítico de incêndios estava sobretudo limitado ao período de verão, quando muitos dos elementos 
de  combate  estavam  de  férias  nas  suas  atividades  profissionais,  e  como  tal  estavam  disponíveis  para  o 
combate aos incêndios. Atualmente, com a indefinição temporal do período mais crítico para os incêndios, 
para além da voluntariedade do Bombeiro, o sistema passa a ter que contar com a boa vontade patronal. 
Perante isto, a disponibilidade dos bombeiros não profissionais passa a ser cada vez mais limitada, o que não 
se compadece com as exigências dos cidadãos, nem com o sistema de proteção civil de um país desenvolvido. 
Naturalmente  que  o  sistema  de  voluntariado  é  de  grande  importância  e  não  pode  deixar  de  existir,  não 
apenas pela flexibilidade desta força, face à rigidez de um sistema profissional, mas também pelo valor moral, 
altruísta, exemplar e de boa cidadania que o sistema voluntário tem associado. Consideramos, contudo, que 
a  existência  de  um  quadro  mais  amplo  de  profissionais  de  proteção  civil,  tanto  ao  nível  de  C&C  referido 
anteriormente, como nos restantes níveis hierárquicos, é fundamental para a melhoria do sistema.  

Distribuição e alocação de meios 

O envio de meios de ataque inicial ou de ataque ampliado resultam do ponto de situação feito pelo 
comandante de operações de socorro da ocorrência em causa. O ponto de situação é normalmente feito 
oralmente,  sendo  limitado,  faz  depender  a  perceção  da  situação  real  da  situação,  da  capacidade  de 
comunicação  do  COS.  Por  vezes,  por  iniciativa  própria,  o  COS  envia  vídeos  ou  fotografias  da  situação  no 
terreno, o que permite aos decisores terem mais elementos de decisão, no entanto este é um procedimento 
que não está homogeneizado e, como tal poderá suscitar deficientes avaliações comparativas e consequente 
má distribuição de meios de socorro em virtude. Neste sentido, consideramos que deve ser desenvolvido um 
protocolo de informação do ponto de situação que seja harmonizado, contemplando fotografias e/ou vídeos, 
e que reduza o desequilíbrio das capacidades de comunicação dos operacionais no terreno. Para além disso, 
estes elementos seriam importantes numa análise técnica ou forense da situação. 

Para  além  disso,  a  geolocalização  dos  meios  no  combate  é  fundamental  para  a  execução  de  uma 
estratégia distrital e nacional de gestão de meios. Uma vez que o sistema SIRESP permite geolocalizar cada 

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aparelho de comunicação, consideramos que devem ser feitos esforços para que a localização de cada equipa 
no TO possa  ser conhecida a  todo o momento. Esta alteração traria igualmente vantagens no reforço  da 
segurança dos combatentes no terreno. No dia 15 de outubro, a falta de conhecimento da localização dos 
meios de combate foi notória, embora, com a falha dos sistemas de comunicação, a ativação da capacidade 
de geolocalização do sistema SIRESP pouco poderia adiantar. 

Sistemas de comunicação 

A  melhoria  e  adaptação  a  megacatástrofes  ou  multicatástrofes  do  sistema  integrado  SIRESP 


implementado  é  urgente  uma  vez  que,  em  várias  ocasiões,  quando  a  necessidade  de  comunicações 
aumentou, o sistema deixou de funcionar convenientemente. É sabido que o sistema Siresp tem um potencial 
de  utilização  que  vai  muito  além  da  capacidade  disponível  em  Portugal,  pelo  que  uma  reflexão  sobre  a 
aquisição de novas capacidades e equipamentos deve ser objeto de profunda reflexão. Acreditamos que a 
situação caótica que se verificou no dia 15 de outubro não foi um mero acaso, mas a consequência de um 
sistema de comunicações incapacitado para responder a cenários de mega ou multi eventos, sejam eles no 
âmbito dos incêndios ou de outro perigo.  

Para  além  disso,  as  entidades  operacionais  nem  sempre  fazem  a  melhor  utilização  dos  sistemas  de 
comunicações disponíveis (SIRESP, ROB, REPC, etc.), limitando as vantagens da sua utilização. Como exemplo, 
refere‐se o frequente incumprimento do plano de comunicações definido para uma ocorrência, que é por 
vezes desrespeitado por operacionais que “atropelam” o nível de canal (operacional, tático ou estratégico) 
em  que  deveriam  comunicar,  ou  por  equipas  ou  grupos  que  frequentemente  não  utilizam  os  canais  de 
comunicação que lhes são atribuídos no plano de comunicações. Nesta perspetiva, consideramos que se deve 
melhorar a formação, para permitir tirar o máximo proveito dos sistemas de comunicação disponíveis.  

No dia 15 de outubro, as comunicações por satélite funcionaram razoavelmente bem como sistema de 
contingência, no entanto, nem todas as instituições tinham ao seu dispor, ou chegaram a usar, este sistema. 
Demos  conta  de  que  desde  então,  foram  várias  as  instituições  e  entidades  que  se  reforçaram  com  estes 
equipamentos, no entanto consideramos que estas aquisições devem fazer parte de um programa integrado, 
gerido ao nível nacional, permitindo assim uma maior eficiência e redução de custos. 

Registo de ocorrências 

Os relatórios de ocorrência de eventos com maior complexidade são pejados de erros e imprecisões que 
podem afetar a boa compreensão dos factos. Por vezes nestes relatórios surgem informações irrelevantes 
enquanto noutros casos informação essencial é omitida ou é reportada de forma abreviada ou incorreta. 
Como exemplo, é inconcebível que num documento desta importância apareçam coordenadas em diferentes 
formatos e frequentemente erradas. Também a denominação das localidades aparece muitas vezes errada, 
quando existem listas das localidades que podem ser usadas automaticamente para correção/verificação. 
Compreende‐se  que  numa  situação  de  multi  ou  megaeventos,  o  registo  de  informação  proveniente  de 
inúmeras  chamadas  muitas  vezes  sobre  stress  seja  muito  difícil,  e  por  isso  defendemos  que  deva  ser 
melhorado. Assim, consideramos essencialmente que: 

‐ deve haver uma definição clara e protocolada dos conteúdos a constar deste relatório, obrigando os 
operacionais a informar todas as informações definidas como relevantes; 
‐ em caso de falha ou sobrecarga de informação, inviabilizando o registo imediato, deverá haver um 
registo posterior que mencione hora em que a informação foi obtida; 

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‐ deve haver um registo áudio que permita melhorar ou confirmar a informação constante do relatório 
de ocorrências; 
‐ deve ser desenvolvido um sistema de criação de relatório de ocorrências e registo de informação 
mais automatizado, fazendo uso das tecnologias atualmente existentes; 
‐ havendo  uma  uniformização  das  ações  de  registo,  em  caso  de  multi  ou  megaeventos,  a  sala  de 
comunicações  deve  poder  ser  reforçada  com  elementos  e  equipamentos  externos,  tal  como 
acontece nas atividades de combate a incêndios. 

Também o Sistema de Gestão de Informação de Incêndios Florestais/Rurais (SGIF) deveria ser repensado 
com  vista  à  melhoria  da  informação  prestada.  Numa  simples  análise  a  este  sistema,  é  fácil  encontrar 
incongruências gritantes, como ocorrências com área ardida de 0ha, ou ocorrências classificadas como falsos 
alertas com área ardida atribuída.  

Proteção de elementos estratégicos  

A definição da estratégia de combate deve ter como objetivos a proteção de elementos críticos (e.g. 
povoações), o combate do fogo, e a defesa de elementos estratégicos (e.g. antenas de telecomunicações). A 
defesa  de  elementos  estratégicos,  considerados  como  os  elementos  que  possibilitam  a  realização  da 
estratégia de resposta à ocorrência através da facilitação de circulação (e.g. estradas), de comunicação (e.g. 
antenas), etc., é recorrentemente menosprezada. Compreende‐se que a pressão feita pelos vários meios de 
comunicação, leve a dar preferência ao combate e à proteção de elementos críticos, no entanto, a defesa de 
elementos estratégicos é determinante para as outras duas atividades podendo mitigar o desenvolvimento 
do  incêndio  e  o  aparecimento  de  novos  elementos  críticos  a  proteger.  Uma  vez  que  já  existe  um 
levantamento  dos  diversos  elementos  estratégicos,  durante  as  operações,  deve  ser  igualmente  dada 
prioridade aos elementos estratégicos, mesmo que os cidadãos ou outras entidades presentes no local, não 
compreendam a razão de se estar a desviar meios para outras atividades. De entre os vários elementos de 
comando  ouvidos,  em  apenas  um  caso  nos  foi  dito  que  a  proteção  dos  elementos  estratégicos  foi 
efetivamente considerada. 

Atuação do ICNF 

A  nossa  equipa  tem‐se  referido  repetidamente  ao  papel  distante,  passivo  e  inoperante  do  ICNF,  na 
temática dos incêndios florestais em geral e em particular em funções de prevenção estrutural (cf. Viegas et 
al., 2012; Viegas et al. 2013). Temos vindo a assistir, pelo menos desde 2006 a um progressivo afastamento 
do ICNF, da sua estrutura dirigente e técnica, dos problemas concretos relacionados com a gestão da floresta, 
a sensibilização das populações, a coordenação da prevenção estrutural e até mesmo da gestão das poucas 
áreas territoriais cuja gestão tem a seu cargo. A destruição da maior parte do pinhal de Leiria, de uma boa 
parte  do  pinhal  de  Mira  e  de  várias  outras  áreas  protegidas,  apesar  da  atenuante  das  condições 
meteorológicas extremas, constitui o melhor comprovativo do que foi dito acima. 

Não resistimos a transcrever o que havíamos dito, entre outras considerações acerca do papel do ICNF, 
no nosso Relatório sobre o incêndio de Tavira em 2012 (Viegas et al., 2012): 

“Em nossa opinião deveria ser reforçado o peso dos departamentos de DFCI em instituições públicas 
como, por exemplo, o ICNF, dotando‐os de quadros técnicos especializados e dedicados plenamente a este 
importante problema. Necessidade de uma maior focagem no problema dos IF, para sustentar tecnicamente 
decisões  e  medidas  políticas  de  longo  prazo,  que  deveriam  ser  mantidas  de  uma  forma  continuada,  sem 
oscilações ou avanços e recuos.” 

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Apesar  de  terem  passado  seis  anos,  não  tivemos  evidencia  de  que  o  estado  de  coisas  dentro  desta 
instituição se tenha alterado. 

6.4. Proteção das populações 

Evacuação de povoações e lugares 

A  evacuação  de  lugares  e  povoações  tem  merecido  grande  atenção  nos  tempos  mais  recentes,  com 
especial  destaque  para  o  Programa  “Aldeia  Segura,  Pessoas  Seguras”.  Entendemos  que  a  evacuação 
raramente é a melhor solução a seguir quando uma comunidade se encontra ameaçada pelo fogo. Na nossa 
opinião, devem prioritariamente ser pensadas soluções que permitam a concentração das pessoas em locais 
que  lhes  permitam  refugiar‐se  no  período  de  passagem  do  fogo.  Naturalmente  que  esta  solução  deve 
igualmente contemplar a evacuação seletiva, retirando pessoas com características físicas ou mentais que 
lhes dificulte suportar in loco a passagem do fogo, mesmo que em segurança.  

É  importante  que  todas  as  pessoas  tenham  plena  consciência  do  risco  que  decorre  de  uma  ação  de 
evacuação, sobretudo naquelas que são feitas por iniciativa própria, em que a probabilidade de, na fase de 
deslocação, serem surpreendidas por um foco secundário ou ficarem imobilizadas numa coluna de trânsito 
é  real!  As  ações  de  evacuação,  organizadas  ou  espontâneas,  apenas  fazem  sentido  quando  não  há  outra 
solução ou quando são realizadas com grande antecipação. Salvo raras exceções, sobretudo na fase inicial 
dos eventos, as evacuações realizadas a 15 de outubro foram feitas sem a devida antecipação, uma vez que 
a propagação surpreendentemente rápida do fogo não permitia antever com certeza o avanço da frente de 
chama ou a distância de projeção de partículas e desta forma, não permitia assegurar uma movimentação 
em  segurança.  Verificou‐se  contudo  que  em  determinadas  povoações  não  havia  realmente  um  local 
predefinido onde as pessoas pudessem refugiar‐se, o que poderá ter encorajado muitas ações de evacuação.  

Para além das ações de retirada e receção das pessoas, um processo de evacuação seguro exige um 
acompanhamento permanente da via a ser usada pela coluna de evacuação, não apenas para controlo do 
tráfico,  mas  também  para  uma  avaliação  constante  da  ameaça  que  o  fogo  possa  constituir.  A  coluna  de 
evacuação deveria ser acompanhada por veículos de combate a incêndio. A localidade evacuada deveria ser 
protegida pelas forças de segurança. Todo este processo exige a alocação de recursos humanos e materiais 
que  raramente  estão  disponíveis  pelo  que  se  reitera  a  ideia  de  que  a  concentração  de  pessoas  deve  ser 
prioritária.  Para  além  disso,  todas  as  pessoas  devem  ser  desencorajadas  a  movimentarem‐se  na  área  do 
sinistro, evitando assim potenciais acidentes e facilitando a movimentação dos veículos operacionais. 

Obrigatoriedade na evacuação 

Nas operações de evacuação, muitas pessoas resistem a ser afastadas das suas casas pelos mais diversos 
motivos que vão desde o apego aos seus bens, até a perceção de que têm capacidades para proteger a sua 
habitação. A retirada compulsiva das pessoas de suas casas não apenas nem sempre é bem aceite, como é 
pouco eficiente em termos de recursos e tempo, sendo por vezes contraproducente uma vez que há bens 
que  poderiam  ser  salvos  perante  a  presença  de  pessoas  com  capacidades  físicas,  desde  que  isso  não 
constituísse um risco para a sua integridade física. Atualmente, a obrigatoriedade de as pessoas saírem das 
suas  casas  ainda  é  controversa  e  as  indicações  de  que  as  pessoas  devem  respeitar  as  instruções  das 
autoridades nem sempre é suficiente para que as pessoas cumpram essas instruções sem hesitação.  

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Como referido anteriormente, consideramos que as ações de evacuação devem ser secundarizadas face 
à concentração de pessoas num local apropriado, no entanto, caso a evacuação em segurança seja a opção 
mais favorável, deve haver uma reflexão sobre a possibilidade de permanência de pessoas nas povoações, 
assegurando a proteção de bens, tanto no que respeita à ameaça do fogo, como no âmbito de segurança 
contra furtos ou outras ações humanas. Assim, consideramos que as comunidades deveriam constituir um 
grupo  de  pessoas  com  agilidade  física  e  mental  que  fossem  treinadas  para  este  fim,  assegurando 
simultaneamente condições que garantam a segurança destes elementos.  

Comunicação com as populações 

Qualquer ação de evacuação ou de concentração deve ser antecedida de uma comunicação prévia que 
dê tempo de preparação às pessoas, de forma a acelerar o processo quando as entidades chegam ao local. 
Nesta comunicação devem ser relembradas informações que as pessoas deveriam ter intuído em ações de 
treino e de simulacro, tais como os locais para onde se devem dirigir e os bens que devem levar consigo, 
entre  outras  informações  importantes.  As  rádios  locais  poderão  ser  um  instrumento  crucial  nas 
comunicações com a população local durante um incêndio, não havendo ainda uma cultura sólida da parte 
das autoridades nem das populações no uso desta solução em situações de catástrofe. Para além de terem 
uma grande autonomia por usarem baterias, a grande portabilidade dos equipamentos de rádio permite que 
faça parte do kit de emergência de uma família. 

As  comunicações  a  grupos  especiais  devem  ser  previamente  definidas  em  função  das  suas 
especificidades. Nos grupos especiais incluem‐se:  
a)  pessoas  com  dificuldades  em  ouvir  e  compreender  com  clareza  as  instruções  e  informações 
transmitidas;  
b) pessoas que não consigam comunicar com clareza eventuais dificuldades por que estejam a passar; 
 c) pessoas que não consigam executar as indicações dadas por limitações físicas ou outras;  
d) comunidades de estrangeiros que não dominam a língua Portuguesa e que não estão habituados a 
conviver  com  incêndios  rurais,  podendo  facilmente  entrar  em  pânico  ou  tender  a  tomar  decisões 
precipitadas;  
e) grupos de turistas nacionais e estrangeiros pouco familiarizados com a situação;  
f) outros grupos de pessoas que por qualquer motivo não mencionado necessitem de um sistema de 
comunicação diferenciado.  

A  mensagem  a  passar  às  populações  deve  ser  ponderada  de  forma  a  não  ter  um  efeito 
contraproducente. Consideramos que as causas das mais de 500 ignições do dia 15 de outubro foram de 
vários tipos, entre os quais a realização de queimas de resíduos, motivadas pela provável ocorrência de chuva 
no(s)  dia(s)  seguinte(s).  Consideramos  que  os  avisos  e  alertas  feitos  pelo  IPMA  e  pela  ANPC  à  população 
fizeram sentido, no entanto poderão ter encorajado algumas ignições. Refere‐se ainda que esta informação 
pode  ter  um  uso  indevido  por  parte  de  quem  quiser  realmente  provocar  um  incêndio.  Desta  forma, 
consideramos que o conteúdo das comunicações de maior relevo ao público devem ter origem ou resultar 
de uma ponderação inter‐institucional. Tal como foi referido no passado, a infoexclusão ou a parca cobertura 
de rede de comunicações de muitas áreas rurais do interior do País, limitam esta ferramenta importante de 
comunicação. No entanto, mesmo com estas limitações, consideramos que o aproveitamento do progresso 
tecnológico é fundamental na gestão de acontecimentos extremos. Neste aspeto, chamamos a atenção de 
que muitas e‐ferramentas foram usadas para pedir socorro (eg. Facebook) e para definir rotas supostamente 
não ameaçadas pelo fogo  (aplicação “Radares de Portugal”)  em que eram os próprios populares a trocar 
informações entre eles. 

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Capacidade de autoproteção  

Em muitas ocasiões, na ausência de forças de proteção civil, as populações tiveram de se defender pelos 
seus  próprios  meios  o  que  veio  evidenciar  a  diversidade  de  preparação  e  capacidade  das  pessoas  para  a 
atividade  de  autoproteção,  o  que  em  diversos  casos  levou  à  ocorrência  de  fatalidades.  Houve  outras 
situações em que elementos de valor como viaturas, habitações, etc., foram deixados à sua mercê, sem a 
presença de pessoas para as proteger. Estes factos vêm demonstrar a grande necessidade de sistemas de 
autoproteção em povoações e elementos de maior valor expostos ao fogo. O desenvolvimento tecnológico 
atual oferece soluções de autoproteção de pessoas e bens que devem ser estrategicamente considerados ao 
nível nacional, distrital, local e pessoal/empresarial. 

Refira‐se  que  o  nosso  sistema  de  defesa  contra  incêndios  rurais  considera  três  componentes 
fundamentais: prevenção, resposta e recuperação. Consideramos que deve ser acrescentada e enfatizada 
uma  nova  componente  que  é  a  “preparação”  e  que  consiste  na  capacitação  das  pessoas,  povoações, 
entidades, etc. para lidar com situações adversas como um incêndio rural. 

Locais de construção 

Os  grandes  incêndios  de  2017  vieram  pôr  ainda  mais  em  evidência  que  as  nossas  construções  nem 
sempre  estão  bem  preparadas  para  resistir  ao  um  incêndio  florestal.  Para  além  das  capacidades  de 
autoproteção que deveriam existir, e que foram mencionadas anteriormente, há outros aspetos construtivos 
ao  nível  arquitetónico  e  de  materiais  usados  que  poderiam  mitigar  a  vulnerabilidade  das  construções. 
Compreende‐se que as exigências de construção numa zona de risco sísmico sejam diferentes dos requisitos 
de uma construção isenta desse risco. No mesmo sentido, considera‐se que os projetos de construção em 
locais de risco agravado de incêndio florestal devam respeitar exigências que mitiguem esse risco.  

A  grande  percentagem  de  edificações  afetadas  pelos  incêndios,  para  além  de  muitas  outras  que 
escaparam à destruição das chamas, não cumpriam as obrigações de gestão de combustíveis na envolvente. 
Deve ser feito um estudo que permita aumentar o grau de cumprimento por parte dos cidadãos, percebendo 
os entraves a essa gestão. Para além disso, a atual regra não tem em consideração fatores importantes como 
o nível efetivo de exposição, como por exemplo a localização do edifício em encosta, desfiladeiro ou num 
tereno plano. Pensamos igualmente que esta é uma matéria que deve ter melhorias ao nível da legislação, 
fundamentando‐se no conhecimento desenvolvido. 

Julgamos que a inclusão do setor dos seguros nesta problemática levaria a uma maior implementação 
destas  medidas.  O  que  se  propõe  é  o  desenvolvimento  de  uma  metodologia  que  permita  aos  seguros 
incorporar o risco de incêndio florestal a nível local/regional no cálculo dos prémios de seguro de edifícios, 
tal  como  atualmente  é  feito,  mas  considerando  as  medidas  mitigadoras  desse  risco  que  o  proprietário 
implemente.  Pagando um  valor inferior de  prémio  de seguro, os  cidadãos sentir‐se‐iam mais impelidos  a 
implementar estas medidas. Esta política iria facilitar em simultâneo as ações de fiscalização.  

Alertas de focos de incêndio 

Ao  longo  do  relatório  descrevemos  várias  situações  em  que  os  populares  confessam  ter  avistado  os 
focos de incêndio numa fase precoce, sem que tivessem dado o alerta por julgarem que alguém já o tinha 
feito. Por vezes, o ataque inicial aos focos de incêndio teve um atraso de várias dezenas de minutos por este 
motivo. Numa reflexão meramente intuitiva, acredita‐se que esta seja uma tendência crescente que merece 
uma  atenção  por  parte  das  entidades  operacionais  e  políticas.  Numa  altura  de  consolidação  do  uso  de 
telemóveis em que os alertas são feitos maioritariamente por populares em detrimento dos postos de vigia, 

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é fundamental que esta importante ferramenta tenha o seu máximo proveito. Destaca‐se ainda que, tendo 
este conjunto de incêndios ocorrido na Fase Delta, com uma desmobilização massiva dos postos de vigia, os 
alertas populares assumiam ainda uma relevância maior. 

Botijas de gás 

 Em várias situações em que o fogo se aproximou ou atingiu habitações, verificámos que a existência de 
Botijas  de  gás  nas  suas  imediações  ou  no  seu  interior  poderá  ter  tido  um  papel  importante  no  grau  de 
destruição da estrutura ou, nalguns casos, na segurança pessoal dos ocupantes, incluindo de Bombeiros que 
protegiam essas habitações. Devem por isso ser dadas recomendações acerca do cuidado a ter na localização 
e salvaguarda destes recipientes. Para além disso, os regulamentos de construção em áreas de maior risco 
de incêndio, deveriam considerar um local seguro de armazenamento de Botijas de gás assim como de outros 
materiais e equipamentos com risco de explosão. 

6.5. Outros elementos expostos ao fogo 

Indústrias e complexos industriais 

As autarquias devem promover o crescimento de áreas industriais de um modo sustentado, adequando 
as medidas de mitigação à tipologia do risco. A autarquia não deveria permitir o crescimento do seu parque 
industrial desenquadrado da realidade dos recursos de proteção civil.  

As  instalações  industriais  deveriam  garantir  ter  capacidade  de  autoproteção  em  caso  de  incêndios 
provenientes do exterior. Essa autoproteção seria assegurada com meios humanos e materiais. A existência 
de sistemas de sprinklers, a existência de reservas de água armazenada, ou a obrigatoriedade da existência 
de  sistemas  alternativos  de  energia  são  meros  exemplos  de  medidas  de  preparação  que  deveriam  ser 
tomadas. 

Em função do número e tipo de indústrias presentes, as instalações industriais deveriam ter equipas de 
intervenção  próprias  que  no  caso  dos  complexos  industriais  poderia  ser  organizado  em  regime  de 
condomínio. O que se propõe não é a criação de um grupo estritamente voltado para o combate a incêndios, 
mas um grupo de trabalhadores internos treinados e capacitados para, em caso de catástrofe, terem uma 
intervenção imediata ou para uma atuação de combate na eventualidade dos meios de proteção civil não 
poderem aceder ao local, tal como aconteceu em vários casos no dia 15 de outubro.  

Nas visitas efetuadas às instalações industriais afim de avaliar as condições em que foram atingidas pelo 
fogo, pudemos verificar o grande risco que os materiais armazenados no exterior representam em caso de 
incêndio. Raramente a gestão de combustíveis na periferia estava bem executada, no entanto, a ocorrência 
de projeção de partículas incandescentes que se verificou inutiliza esta medida preventiva, caso haja material 
inflamável  no  exterior  das  instalações.  Neste  sentido,  a  existência  de  material,  sejam  resíduos,  sejam 
matérias primas ou equipamentos, deve ser sujeita a um plano que considere o perigo de incêndio. Como 
medidas básicas, preconizamos a limitação do volume materiais considerando o seu potencial energético, 
assim  como  a  sua  proteção  contra  fagulhas  (eg.  cobertura  de  materiais)  ou  a  existência  de  sistemas  que 
extingam ou reduzam a intensidade do fogo (eg. sistema de sprinklers). Na nossa opinião, as exigências legais 
atualmente em vigor, para além de frequentemente não serem cumpridas, estão mais vocacionados para 
incêndios iniciados no interior da empresa do que para incêndios provenientes do exterior, como no caso 
dos incêndios rurais. 

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Vias de circulação 

A análise dos acidentes rodoviários estudados, com ou sem fatalidades, permitiu verificar que em muitos 
casos as vítimas foram surpreendidas por variações drásticas de temperatura ao longo do seu percurso que 
tornavam insuportáveis as condições dentro da viatura. Em alguns casos, as vítimas terão mesmo perdido o 
controlo  da  viatura  pela  diminuição  drástica  da  visibilidade  como  consequência  do  fumo  ou  pelo  susto  e 
pânico provocado pelas chamas que repentinamente aumentaram de intensidade. Muitos destes episódios 
ocorreram em locais propícios a comportamento extremo (e.g. desfiladeiros, encostas íngremes, zonas de 
meandros em estradas junto a cursos de água, túneis/passagens hidráulicas, etc.).  

A legislação refere que o combustível deve ser gerido junto às rodovias uma distância mínima de 10m. 
O  cumprimento  cabal  desta  regra  tem‐se  vindo  a  mostrar  difícil,  quer  por  limitações  financeiras  face  aos 
custos que acarreta, quer pela dificuldade operacional, em virtude do rápido crescimento de combustível nas 
margens da estrada. Desta forma, considera‐se que os planos de gestão de combustíveis florestais junto às 
rodovias, deveriam privilegiar as zonas anteriormente especificadas como sendo aquelas que  representam 
maior perigo para quem circula nas estradas. 

Esta discussão pode ser estendida às ferrovias. Parece‐nos que a criação de faixas de proteção em toda 
a ferrovia é financeira e operacionalmente muito difícil, pelo que a nossa proposta é a de garantir uma gestão 
cuidada em zonas de maior risco, e a existência de locais de refúgio que permitam a paragem de um comboio, 
separados por uma distância a definir em função da velocidade de circulação. Naturalmente que as estações 
e  apeadeiros  devem  estar  preparados  para  servir  de  refúgio  e  que,  as  margens  das  ferrovias  devem  ser 
sujeitas a ações mínimas de gestão de combustíveis, independentemente da sua localização em zonas de 
maior ou menor risco. 

Pensamos ainda que deveria ser desenvolvida uma aplicação para ser usada no telemóvel, no GPS ou 
em  outro  dispositivo  que  permitisse  aos  condutores  de  veículos,  de  serviço  público  ou  privado,  aceder  a 
informação sobre as vias ameaçadas pelos incêndios, sugerindo as rotas que devem ser seguidas por serem 
seguras. No caso da ferrovia, pela sua especificidade, deveria ser desenvolvida uma aplicação similar que 
permitisse ao maquinista saber das ameaças no trajeto, em que locais de refúgio poderá parar o comboio e 
em que estações ou apeadeiros deveria permanecer. 

Transportes públicos 

No Capítulo 4 foram reportadas várias situações complicadas que envolveram os transportes públicos. 
Pensamos  que  o  início  de  qualquer  viagem  deve  considerar  toda  o  período  e  trajeto  da  viagem,  sendo 
desaconselhado que o transporte de pessoas seja iniciado sem que todas as questões de segurança estejam 
asseguradas.  A  metodologia  usada  nos  transportes  aéreos,  em  que  um  avião  apenas  descola  após  a 
confirmação de boas condições em todo o trajeto, incluindo desvios na rota por contingência, deveria ser 
protocolada no sistema de transportes terrestres. 

6.6. Responsabilidades 

Depois da tragédia verificada foram várias as promessas de reação, quer ao nível estatal como ao nível 
autárquico e até ao nível pessoal. Depois de um período de grande mediatismo, é comum que o problema 
dos incêndios comece a desvanecer‐se no tempo, pelo que é fundamental que esta seja uma chama que se 
mantém acesa. 

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Cidadãos 

A atribuição de responsabilidade no pós‐15 de outubro foi fértil. É importante perceber que parte da 
tragédia decorreu da falta de cumprimento por parte dos cidadãos de certas exigências a que a legislação 
obriga.  Muitos  meios  de  combate  foram  empenhados  na  proteção  de  habitações  com  uma  envolvência 
repleta de combustíveis, negligenciando o combate ao incêndio propriamente dito, ou ficando impedidos de 
prestar socorro a outras pessoas.  

É nosso entender que as pessoas devem responsabilizadas pelos danos quando a causa foi a negligência 
da sua segurança e da proteção dos seus bens. Por exemplo, se for necessário proteger uma habitação devido 
à  falta  de  gestão  dos  combustíveis  na  sua  envolvente,  os  custos  dessa  ação  devem  ser  imputados  ao 
responsável  por  esse  incumprimento.  Consideramos,  contudo,  que  devem  ser  postas  ao  dispor  dos 
proprietários  todas  as  condições  para  efetuarem  essa  gestão  de  combustíveis  e  que  situações  em  que  o 
cumprimento seja difícil, por exemplo no caso de proprietários idosos sem capacidade financeira, devem ser 
tratadas como casos especiais sendo, por exemplo, o Estado a assumir essa responsabilidade.  

Bombeiros e demais agentes de proteção civil 

Embora no geral consideremos que, dentro do possível, a resposta às ocorrências do dia 15 de outubro 
correram  bem,  aceita‐se  a  opinião  de  várias  testemunhas  ouvidas  que  apontam  responsabilidades  aos 
Bombeiros e a outros agentes de proteção civil pela sua inoperância. Já foi referido anteriormente que, da 
forma como o sistema está estruturado, é muito difícil imputar responsabilidades a um elemento voluntário 
que tira tempo da sua vida pessoal para prestar socorro a outros, embora todos os elementos de proteção 
civil tenham responsabilidade sobre as suas ações. Sem exceção, apercebemo‐nos que todos os envolvidos 
fizeram o melhor que podiam e sabiam. Consideramos que uma profissionalização dos quadros de proteção 
civil, acompanhada de uma formação rigorosa e de condições suficientes para o desempenho das missões, 
irá exigir uma disponibilidade e capacidade dos operacionais que podem ser objeto de responsabilização das 
decisões tomadas. 

Autarquias 

As várias habitações destruídas, por vezes vitimando pessoas, fizeram perceber que muitas das nossas 
casas estão localizadas em zonas de grande risco de incêndio. Depois de 15 de outubro, algumas das casas 
ardidas foram reconstruídas exatamente no mesmo local, exatamente da mesma forma anterior, como se 
esta tragédia não tivesse trazido qualquer ensinamento. Compreende‐se que não é fácil inviabilizar um local 
que tem ou já teve uma construção devidamente licenciada apenas porque houve uma perceção tardia por 
parte do poder público sobre o risco daquela localização, mas não se compreende que após 15 de outubro 
continuem a ser construídas de raiz casas em locais de risco elevado de incêndio. É nosso entendimento que 
os  responsáveis  pelos  licenciamentos  deveriam  ser  chamados  a  prestar  contas  pela  existência  dessas 
situações. 

Estado 

A responsabilidade por boa parte dos impactes decorrentes de 15 de outubro foi assumida pelo Estado, 
ou seja, por todos nós.  

É  bem  verdade  que  as  condições  meteorológicas  excecionais  foram  um  fator  muito  importante  no 
desenrolar dos fatídicos acontecimentos aqui analisados, mas estes incêndios de outubro apenas realçaram, 
mais uma vez, a necessidade de o Estado melhorar a sua capacidade de real intervenção ou supervisão na 

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gestão e ordenamento territorial. Já em relatórios anteriores nos referimos a estas necessidades (ver Viegas 
et  al.,  2012;  Viegas  et  al.  2013;  Viegas  et  al.  2017),  que  devem  também  incidir  em  políticas  de 
desenvolvimento das Regiões do Interior, por forma a incentivar à fixação da população jovem.

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7. Conclusão 
A  situação  vivida  em  Portugal  no  dia  15  de  outubro  foi  completamente  excecional.  Culminando  um 
período de seca prolongada em que o País se encontrava, na entrada para um período em que o dispositivo 
operacional se encontrava parcialmente desmobilizado, um fenómeno meteorológico muito pouco usual – o 
furacão Ophelia – produziu em todo o País, mas de modo especial na região central, ventos muito fortes e 
secos que potenciaram as centenas de ignições que se registaram nesse dia, produzindo vários incêndios 
que, no seu conjunto destruíram mais de 220 mil hectares em menos de 24 horas, o que constitui um recorde 
para Portugal. Nas zonas afetadas pelos incêndios de 15 de outubro, o teor de humidade dos combustíveis 
finos  foi  significativamente  inferior  a  10%,  chegando  mesmo  a  atingir  valores  muito  próximos  dos  5%, 
estando assim criadas condições de perigo extremo de incêndio. 

Consideramos  que  alguns  dos  incêndios  foram  causados  por  reativações  de  focos  de  incêndio  pré‐
existentes e que não haviam sido devidamente vigiados durante o dia 15 de outubro. Houve, no entanto, 
muitas  ignições  resultantes  de  queimas  e  queimadas,  causadas  por  pessoas  que  as  realizaram  pela 
necessidade  de  eliminar  vegetação  ou  resíduos  de  atividades  agrícolas,  na  convicção  de  que  haveria  de 
ocorrer chuva, como fora anunciado, e de facto ocorreu, mas apenas no final do dia 16. 

Desta situação resultaram sete complexos principais de incêndios, produzidos por uma ou mais ignições, 
que  se  propagaram  de  forma  contínua  principalmente  no  dia  15  e  parte  do  dia  16,  que  estudámos 
detalhadamente  neste  Relatório.  Cinco  deles  causaram,  no  seu  conjunto,  51  vítimas  mortais  e  todos 
produziram uma devastação ambiental e patrimonial como nunca se havia visto em Portugal. 

A definição rígida de períodos de risco de incêndio, baseadas em datas do calendário, sem tomar em 
conta as alterações sazonas da meteorologia e uma preocupação com a contenção de despesas terá levado 
a reduzir o dispositivo operacional, sem prestar a devida atenção ao risco extremo de incêndio que estava 
previsto com alguns dias de antecedência. Esta falta de recursos ter‐se‐á sentido sobretudo na ausência de 
uma vigilância mais reforçada, que reduzisse o número de ignições, pelo menos no dia 15, que deram origem 
ao registo de 517 ocorrências. 

É duvidoso que a existência de mais recursos operacionais, incluindo meios aéreos, pudesse ter feito 
uma grande diferença, perante o número e violência dos incêndios ocorridos. Como se disse poderiam ter 
feito alguma diferença se tivessem contribuído para reduzir o número de ocorrências e conseguido extinguir 
a  maioria  dos  incêndios  na  sua  fase  inicial.  Com  as  condições  de  vento  que  existiram  –  induzidas  pela 
passagem  do  furacão  –  quando  os  incêndios  se  encontravam  desenvolvidos,  era  virtualmente  impossível 
enfrentar o fogo em segurança. A própria tarefa de defender pessoas e bens foi limitada pela dificuldade de 
gerir os recursos e de os colocar onde fossem requeridos, pela inviabilidade de muitos percursos.  

Considera‐se  a  inexistência  de  vítimas  entre  as  forças  de  proteção  civil  como  algo  extremamente 
positivo, o que deve encorajar todos os envolvidos na estratégia de sensibilização e formação no sentido de 
um combate eficaz, mas seguro. O mesmo não se pode dizer, infelizmente, em relação à população civil, 
tendo que se lamentar o importante número de 51 vítimas mortais nos incêndios de outubro. Tendo em 
conta  a  exten