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UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA

CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES – CCHLA


PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS

O ABC DO SERTÃO: ASPECTOS SEMÂNTICO-CULTURAIS E FONÉTICOS


DO PORTUGUÊS BRASILEIRO NA OBRA DE LUIZ GONZAGA

SANDRO LUIS DE SOUSA

JOÃO PESSOA – PB
2017
SANDRO LUIS DE SOUSA

Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-


Graduação em Letras, da Universidade Federal da
Paraíba, como requisito parcial para a obtenção do
título de Doutor em Letras.
Orientadora: Dr.a Maria do Socorro Silva do Aragão.

JOÃO PESSOA – PB
2017
Aos Nordestinos
AGRADECIMENTOS

A Deus, inteligência superior e infinita, que se exterioriza nas forças da natureza.


Aos meus pais que, embora de origem humilde, me deram o suporte necessário para trilhar o
caminho do bem.
A Graça e Gustavo, esposa e filho, pelo carinho sempre presente e pela indizível compreensão
de minhas ausências.
Aos meus irmãos e irmãs, pelo apoio em mais uma etapa da vida acadêmica.
A minha orientadora, Prof.a Dr.a Maria do Socorro Silva do Aragão, que, com sua competência
profissional, sua dedicação absoluta, seu pensamento irrequieto, seu sorriso acolhedor; enfim,
com sua notável sabedoria, tornou viável este percurso de descobrimentos, em prol do fazer
científico.
Aos professores doutores, Antônio Luciano Pontes e Josete Marinho de Lucena, pelas sugestões
pertinentes e enriquecedoras ao trabalho em sua fase de qualificação.
À colega, Dr.a Maria das Neves Pereira, da Universidade Federal Rural do Semiárido
(UFERSA), por me haver convidado para fazer parte do grupo de Pesquisa sobre estudos
dialetológicos e geolinguísticos, “cooptando-me” para esta área fascinante.
Ao Instituo Federal de Educação Ciência e Tecnologia (IFRN), Campus Natal-Central, pelo
incentivo à qualificação de seus profissionais.
À Prof.a Dr.a Francisca Elisa de Lima Pereira, Coordenadora do Núcleo de Pesquisa em Ensino
e Linguagens (NUPELL – IFRN), pelo incentivo para fazer o Doutorado, mesmo estando há
algum tempo afastado das pesquisas linguísticas.
Aos professores do Programa de Pós-Graduação em Letras, PPGL, pelas discussões cotidianas
sobre as relações entre Discurso, Linguagem e Cultura.
Ao senhor José Nobre de Medeiros, proprietário do Museu Fonográfico Luiz Gonzaga, em
Campina Grande – PB, pelas valiosas informações sobre a convivência com o Rei e pela gentil
disponibilização de material sonoro.
A Onildo de Almeida, compositor e parceiro de Gonzaga, pela gentileza e pela disposição para
tirar minhas dúvidas via telefone.
Ao Prof. Dr. Celso Ferrarezi Júnior, da Universidade Federal de Alfenas – MG, pela generosa
orientação no campo da Semântica de Contextos e Cenários.
Aos amigos e colegas do PPGL, Robson Santiago, Clécia Maria e, especialmente, a Wellington
Lopes, pela agradável companhia nas viagens (ao quebrar da barra) de Natal até João Pessoa.
Ao Programa de Pós-graduação em Linguística, da Universidade Federal da Paraíba, PROLING,
nas pessoas dos professores doutores Lucienne C. Espíndola e Pedro Farias Francelino, que me
acolheram tão bem, quando das necessárias incursões nas disciplinas do referido Programa.
Aos Professores doutores do PROLING, Maria Leonor Maia dos Santos, Magdiel Medeiros
Aragão Neto, Leonardo Wanderley Lopes e Mônica Trindade Ferraz, pelos preciosos
ensinamentos e pela simplicidade com que tratam os seus discentes.
Aos secretários, Rose Marafon (PPGL) e Ronil Ferraro (PROLING), pelos atendimentos
sempre gentis e prestativos.
Lá no meu sertão pro caboclo lê,
Tem que aprendê outro ABC
Luiz Gonzaga e Zedantas
RESUMO

Neste trabalho, parte-se da concepção de que o falar nordestino é resultante de variações do


Português Brasileiro, as quais importam, tanto alterações do foneticismo quanto do material
semântico-lexical, advindas dos processos de distribuição geográfica e das influências
socioculturais. Com base nessa fundamentação teórica, o estudo propõe-se investigar a
existência de particularidades semântico-culturais e particularidades fonéticas, caracterizantes
do falar sertanejo nordestino na obra de Luiz Gonzaga. Essas categorias de análise acionam
uma abordagem multifocal, o que exige a colaboração/o cruzamento de saberes vários, oriundos
das mais diversas áreas do conhecimento, em particular aqueles saberes derivados da
Dialetologia, da Etnolinguística e da Sociolinguística (manancial teórico I); e da Lexicologia,
da Lexicografia, da Semântica Cultural e da Fonética (manancial teórico II). Levando-se em
conta as inter-relações entre língua, cultura e sociedade, a pesquisa documenta as variações
dialetais encontradas em lexias simples, compostas e textuais, usadas pelo sanfoneiro, autêntico
representante do falar nordestino. Fazendo ancoragem nos postulados da Semântica Cultural,
na vertente Semântica de Contextos e Cenários, a investigação constata que os sentidos são
manifestações linguísticas do significado de uma língua natural, os quais se especializam em
contextos e cenários, constituídos por fatos culturais. No conjunto, foram identificados os
seguintes campos semântico-culturais característicos da obra de Luiz Gonzaga: a seca, a
saudade, a terra, a religião e as crenças, o cangaço, o amor e a sensualidade, e a alegria. Esses
campos contêm itens lexicais cujos sentidos representam verdadeiros “depósitos de valores
linguístico-culturais” compartilhados entre os habitantes mais humildes da zona rural
nordestina. Também foram descritas, pela análise de metaplasmos brasileiros (por adição,
supressão, transposição e transformação), as singularidades fonéticas da linguagem rural
nordestina. As fontes documentais incluíram textos de canções, narrativas de causos, registros
de entrevistas e depoimentos. Os procedimentos metodológicos contemplaram pesquisa
bibliográfica, audições de música, transcrições grafemáticas das canções e causos coletados,
visita exploratória ao município de Exu–PE, assim como transcrições fonéticas de lexias que
continham metaplasmos brasileiros. As bases teóricas que dão sustentação à propositura da tese
reconhecem que a variedade rural nordestina contém um vocabulário típico e especificidades
fonético-fonológicas próprias que sofrem um alto grau de estigmatização na sociedade
brasileira. Como produto das análises realizadas, apresenta-se um glossário eletrônico cujas
organizações macro, médio e microestrutural foram ordenadas no programa computacional
Lexique Pro©. Pelos indícios e pelas evidências encontradas no corpus, fortalece-se a tese de
que a produção artística de Luiz Gonzaga difundiu, de forma deliberada, não apenas um gênero
musical mas também a expressividade linguística do falar rural nordestino como instrumento
linguístico de valorização identitária.

Palavras-chave: Abordagem multifocal. Dialetologia, Etnolinguística e Sociolinguística.


Lexicologia e Lexicografia. Semântica Cultural. Falar rural nordestino. Particularidades
semântico-culturais e fonéticas.
ABSTRACT

This dissertation adopts the concept that the northeastern dialect results from variations in
Brazilian Portuguese caused by changes in both the phoneticism and semantic-lexical materials
resulting from the processes of geographical distribution and sociocultural influence. In light
of this theoretical basis, the study proposes to investigate the existence of semantic-cultural
particularities and phonetic specificities, which characterize the northeastern rural dialect in
Luiz Gonzaga’s work. These analytic categories activate a multifocal approach and require the
collaboration/intersection of various branches of knowledge, especially the learning that
derived from Dialectology, Ethnolinguistics, and Sociolinguistics (theoretical foundation I);
and Lexicology, Lexicography, Cultural Semantics, and Phonetics (theoretical foundation II).
Taking into account the interrelationship among language, culture and society, the research
documents the dialectal variations found in simple, compound and textual lexias used by the
accordionist, considered an authentic representative of the northeastern dialect. Based on the
postulates of Cultural Semantics, from the perspective of Context and Scenario Semantics, the
investigation detects that meanings are linguistic manifestations of the signified in a natural
language, which are specified in contexts and scenarios, constituted by cultural facts. On the
whole, the study has identified the following semantic-cultural fields characterizing Luiz
Gonzaga’s work: drought, yearning, homeland, religion and beliefs, cangaço banditry, love and
sensuality, and joy. These fields contain lexical units whose meanings represent “true deposits
of linguistic-cultural values”, shared by the humblest inhabitants from the rural northeastern
zone. Also, singularities of rural northeastern language are described, through the analysis of
Brazilian phonetic metaplasms of addition, subtraction, transposition, and transformation. The
documented sources have included lyrics, story narratives, interviews and testimonials. The
methodological procedures contemplated bibliographic research, listening to music,
graphematic transcriptions of lyrics and narratives, field work in the town of Exu-PE, as well
as phonetic transcriptions of lexias that contained Brazilian metaplasms. The theoretical bases
that give support to the dissertation’s principal argument recognize that the rural northeastern
dialect contains a typical vocabulary and specific phonetic-phonological features, which receive
a high degree of stigmatization in Brazilian society. An electronic glossary is presented as a by-
product of the analyses. Its macro, medial and microstructure organizations were constructed
in the Lexique Pro© computer program. The indications and pieces of evidence found in the
corpus enhance the research statement that Luiz Gonzaga’s artistic production has disseminated,
in a deliberate way, not only a musical genre but also the linguistic expressiveness of the rural
northeastern dialect as a linguistic instrument for identity validation.

Keywords: Multifocal approach. Dialectology, Ethnolinguistics and Sociolinguistics.


Lexicology and Lexicography. Cultural Semantics. Rural northeastern dialect. Semantic-
cultural and phonetic particularities.
RESUMEN

En este trabajo, se parte de la concepción de que el habla nordestina resulta de variaciones del
portugués brasileño, las cuales importan, tanto alteraciones del fonetismo como del material
semántico-lexical, derivadas de los procesos de distribución geográfica y de las influencias
socioculturales. Basado en esa fundamentación teórica, este estudio se propone investigar la
existencia de particularidades semántico-culturales y particularidades fonéticas, que
caracterizan el habla “sertaneja” nordestina en la obra de Luiz Gonzaga. Estas categorías de
análisis accionan un enfoque multifocal, lo que exige la colaboración / el cruzamiento de varios
saberes, oriundos de las más diversas áreas del conocimiento, en particular aquellos saberes
derivados de la Dialectología, de la Etnolingüística y de la Sociolingüística (manantial teórico
I); y de la Lexicología, de la Lexicografía, de la Semántica Cultural y de la Fonética (manantial
teórico II). La investigación documenta las variaciones dialectales encontradas en lexías
simples, compuestas y textuales, usadas por el acordeonista, auténtico representante del habla
nordestina, teniendo en cuenta las interrelaciones entre lengua, cultura y sociedad. Apoyado en
los postulados de la Semántica Cultural, en la vertiente semántica de contextos y escenarios, la
investigación constata que los sentidos son manifestaciones lingüísticas del significado de una
lengua natural, que se especializan en contextos y escenarios, constituidos por hechos culturales.
En el conjunto, se identificaron los siguientes campos semántico-culturales característicos de
la obra de Luiz Gonzaga: la sequía, la nostalgia, la tierra, la religión y las creencias, “cangaço”,
el amor y la sensualidad, y la alegría. Estos campos contienen elementos léxicos cuyos sentidos
representan verdaderos "depósitos de valores lingüístico-culturales" compartidos entre los
habitantes más humildes de la zona rural nordestina. También se describieron las singularidades
fonéticas del lenguaje rural nordestino, por el análisis de metaplasmos brasileños (por adición,
supresión, transposición y transformación). Las fuentes documentales incluyeron textos de
canciones, narrativas de “causos”, registros de entrevistas y testimonios. Los procedimientos
metodológicos contemplaron la investigación bibliográfica, audiciones de música,
transcripciones grafemáticas de las canciones y “causos” recogidos, una visita exploratoria al
municipio de Exu–PE, así como transcripciones fonéticas de lexías que contenían metaplasmos
brasileños. Las bases teóricas que dan sustentación a la proposición de la tesis reconocen que
la variedad rural nordestina contiene un vocabulario típico y especificidades fonético-
fonológicas propias que sufren un alto grado de estigmatización en la sociedad brasileña. Como
producto de los análisis realizados, se presenta un glosario electrónico cuyas organizaciones
macro, medio y micro-estructural fueron ordenadas en el programa computacional Lexique Pro
©. Por los indicios y por las evidencias encontradas en el corpus, se fortalece la tesis de que la

producción artística de Luiz Gonzaga difundió, de forma deliberada, no sólo un género musical,
sino también la expresividad lingüística del discurso rural nordestino como instrumento
lingüístico de valorización de su identidad.

Palabras clave: Enfoque multifocal. Dialectología, Etnolingüística y Sociolingüística.


Lexicología y Lexicografía. Semántica Cultural. El hablar rural nordestino. Particularidades
semántico-culturales y fonéticas.
LISTA DE FIGURAS

Figura 1 – Divisão dialetal do Brasil proposta por Antenor Nascentes.................................... 38


Figura 2 – Diferença entre Sociolinguística Variacionista e Sociologia da Linguagem por
Bagno ........................................................................................................................................ 49
Figura 3 – Proposta de análise da realidade linguística brasileira por Bagno .......................... 55
Figura 4 – Continuum de urbanização proposto por Bortoni-Ricardo ..................................... 56
Figura 5 – Interinfluência: pensamento, língua e cultura ......................................................... 68
Figura 6 – Processo de especialização de sentidos na SCC ..................................................... 73
Figura 7 – Regra fonológica de nasalidade .............................................................................. 81
Figura 8 – Percurso do pesquisador de Natal–RN até Exu–PE .............................................. 101
Figura 9 – Tela inicial do programa ELAN – Linguistic Annotator© ................................... 115
Figura 10 – Abrindo arquivos no ELAN ................................................................................ 115
Figura 11 – Aba controles do ELAN ...................................................................................... 116
Figura 12 – Tela do Free Mp3 Cutter©.................................................................................. 117
Figura 13 – Seleção de Arquivo ............................................................................................. 118
Figura 14 – Arquivo aberto no Free Mp3 Cutter© ................................................................ 118
Figura 15 – Trecho de áudio selecionado para segmentação ................................................. 119
Figura 16 – Menu Ferramentas do Lexique Pro ..................................................................... 121
Figura 17 – Abas principais de configuração do repertório linguístico ................................. 121
Figura 18 – Tela de configuração do léxico ........................................................................... 122
Figura 19 – Tela inicial do Glossário de Gonzagão ............................................................... 123
Figura 20 – Lista padrão de etiquetas no Lexique Pro ........................................................... 124
Figura 21 – Configuração do estilo dos textos ....................................................................... 125
Figura 22 – Configurações de visualização ............................................................................ 126
Figura 23 – Percurso semasiológico – Lexique Pro© ............................................................ 128
Figura 24 – Item polissêmico ................................................................................................. 129
Figura 25 – Remissiva da lexia mulé...................................................................................... 131
Figura 26 – Remissiva de informação visual.......................................................................... 132
Figura 27 – Ícone remissivo para arquivo de áudio................................................................ 133
Figura 28 – Forma verbal flexionada “dixi” ........................................................................... 135
Figura 29 – Lexia “cangacera” ............................................................................................... 135
Figura 30 – Exemplo de variante ............................................................................................ 141
Figura 31 – Exemplo de transcrição da lexia “sorto” ............................................................. 142
Figura 32 – Uso de abonação ................................................................................................. 144
Figura 33 – Nota enciclopédica .............................................................................................. 145
Figura 34 – Microestrutura concreta ...................................................................................... 147
Figura 35 – Tela de distribuição do léxico ............................................................................. 148
Figura 36 – Divisão político-administrativa do Brasil em 1913 ............................................ 150
Figura 37 – Evolução das unidades político-administrativas brasileiras ................................ 151
Figura 38 – Divisão político-administrativa atual do Brasil................................................... 152
Figura 39 – Espaço geográfico de Pernambuco dentro do Semiárido .................................... 158
Figura 40 – Mesorregiões de Pernambuco ............................................................................. 158
Figura 41 – Microrregião de Araripina................................................................................... 159
Figura 42 – Localização de Exu–PE....................................................................................... 160
Figura 43 – Trio de zabumba, sanfona e triângulo ................................................................. 171
Figura 44 – Baião como gênero nacional ............................................................................... 178
Figura 45 – Cartaz do filme Gonzaga: de pai para filho ........................................................ 183
Figura 46 – Doodle em homenagem a Luiz Gonzaga ............................................................ 183
LISTA DE QUADROS

Quadro 1 – Fórmula microestrutural abstrata ......................................................................... 146


Quadro 2 – Expressões idiomáticas ........................................................................................ 229
LISTA DE FOTOS

Foto 1 – Floresta Nacional do Araripe ................................................................................... 102


Foto 2 – Divisa Ceará-Pernambuco ........................................................................................ 102
Foto 3 – Entrada de Exu–PE................................................................................................... 103
Foto 4 – Residência de Luiz Gonzaga .................................................................................... 104
Foto 5 – Varanda da Residência de Luiz Gonzaga ................................................................. 105
Foto 6 – Cozinha da Mundica................................................................................................. 105
Foto 7 – Entrada do Museu do Gonzagão .............................................................................. 106
Foto 8 – Casa de Januário ....................................................................................................... 107
Foto 9 – O senhor Praxedes dos Santos, ex-vaqueiro de Luiz Gonzaga ................................ 107
Foto 10 – Marco do local de nascimento de Luiz Gonzaga ................................................... 108
Foto 11 – Terreiro da Fazenda Araripe .................................................................................. 109
Foto 12 – Casa do Barão do Exu ............................................................................................ 109
Foto 13 – Igreja de São João Batista na Fazenda Araripe ...................................................... 110
Foto 14 – Casa de Luiz Gonzaga na Fazenda Araripe ........................................................... 111
Foto 15 – O senhor José Nobre, proprietário do Museu Fonográfico Luiz Gonzaga ............. 113
Foto 16 – Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga ....................................................................... 169
Foto 17 – Luiz Gonzaga e Zedantas ....................................................................................... 173
Foto 18 – João Silva e Luiz Gonzaga ..................................................................................... 176
Foto 19 – Luiz Gonzaga, Eurico Gaspar Dutra e Henry Truman ........................................... 179
Foto 20 – Gonzaga recebendo o troféu Nipper de Ouro......................................................... 181
LISTA DE TABELAS

Tabela 1 – Ocorrências e transcrições do metaplasmo fonético prótese ................................ 232


Tabela 2 – Ocorrências e transcrições do metaplasmo fonético epêntese .............................. 233
Tabela 3 – Ocorrências e transcrições do metaplasmo fonético suarabácti ........................... 235
Tabela 4 – Ocorrências e transcrições do metaplasmo fonético paragoge ............................. 236
Tabela 5 – Ocorrências e transcrições do metaplasmo fonético aférese ................................ 239
Tabela 6 – Ocorrências e transcrições do metaplasmo fonético síncope ............................... 241
Tabela 7 – Ocorrências e transcrições do metaplasmo fonético apócope do /r/ ..................... 245
Tabela 8 – Ocorrências e transcrições do metaplasmo fonético apócope do /s/, /l/ e de sílaba
................................................................................................................................................ 248
Tabela 9 – Ocorrências e transcrições do metaplasmo fonético metátese .............................. 252
Tabela 10 – Ocorrências e transcrições do metaplasmo fonético diástole ............................. 253
Tabela 11 – Ocorrências e transcrições do metaplasmo fonético rotacismo .......................... 254
Tabela 12 – Ocorrências e transcrições do metaplasmo fonético lambdacismo .................... 256
Tabela 13 – Ocorrências e transcrições do metaplasmo fonético palatização ........................ 259
Tabela 14 – Ocorrências e transcrições do metaplasmo fonético despalatização .................. 263
Tabela 15 – Ocorrências e transcrições do metaplasmo fonético desnasalação ..................... 266
Tabela 16 – Ocorrências e transcrições do metaplasmo fonético assimilação ....................... 268
Tabela 17 – Ocorrências e transcrições do metaplasmo fonético monotongação .................. 273
Tabela 18 – Traços linguísticos graduais e descontínuos identificados no corpus ................ 286
LISTA DE GRÁFICOS

Gráfico 1 – Ocorrências do metaplasmo fonético prótese ...................................................... 232


Gráfico 2 – Ocorrências do metaplasmo fonético epêntese ................................................... 234
Gráfico 3 – Ocorrências do metaplasmo fonético suarabácti: /u/ e /i/ .................................... 235
Gráfico 4 – Ocorrências do metaplasmo fonético paragoge: /i/ e /s/ ...................................... 237
Gráfico 5 – Ocorrências do metaplasmo fonético aférese ...................................................... 239
Gráfico 6 – Ocorrências do metaplasmo fonético síncope ..................................................... 242
Gráfico 7 – Apócope do /r/ ..................................................................................................... 247
Gráfico 8 – Apócopes do /s/, do /l/ e de sílaba ....................................................................... 250
Gráfico 9 – Casos de apócope na obra de Luiz Gonzaga ....................................................... 251
Gráfico 10 – Metáteses do /l/, /r/ e /s/..................................................................................... 252
Gráfico 11 – Rotacismo em coda silábica e encontro consonantal ........................................ 255
Gráfico 12 – Palatizações do /s/, /t/, /d/ e /z/ .......................................................................... 261
Gráfico 13 – Realizações do /ʎ/ .............................................................................................. 265
Gráfico 14 – Ocorrências de desnasalação ............................................................................. 267
Gráfico 15 – Assimilação consonantal ................................................................................... 270
Gráfico 16 – Assimilação vocálica ......................................................................................... 271
Gráfico 17 – Monotongação do ditongo ou. ........................................................................... 277
Gráfico 18 – Monotongação do ditongo ei. ............................................................................ 278
Gráfico 19 – Monotongação dos ditongos -ai, -ia e -io.......................................................... 279
ABREVIATURAS E SINAIS

Adj. Adjetivo
ALiB Atlas Linguístico do Brasil
ALF Atlas Linguístico da França
ALPB Atlas Linguístico da Paraíba
ALPR Atlas Linguístico do Paraná
APFB Atlas Prévio dos Falares Baianos
ALERS Atlas Linguístico-Etnográfico da Região Sul
ALS Atlas Linguístico de Sergipe

CD-ROM Compact Disc Read-Only Memory (disco compacto de


memória somente de leitura) Disco de armazenamento de
dados, não regravável

DDB Dicionário Dialetal Brasileiro


DVD Digital Versatile Disc (disco digital versátil) Disco capaz
de gravar som e imagem, dotado de uma grande
capacidade de armazenamento

EALMG Esboço de um Atlas Linguístico de Minas Gerais


Freq. Frequência
IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
IFRN Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia
LP Long Play
NURC Norma Linguística Urbana Culta (Projeto)
PB Português Brasileiro
RCA Radio Corporation of America
RPM Revoluções por minuto
SC Semântica Cultural
SCC Semântica de Contextos e Cenários
Subst. Substantivo
UFBA Universidade Federal da Bahia
UFPE Universidade Federal de Pernambuco
UNESP Universidade Estadual Paulista
UnP Universidade Potiguar
vs. Versus
[...] Transcrição fonética
/.../ Transcrição fonológica
ˈ Indicação da tonicidade da sílaba posterior
> Indicação de transformação (problema > probrema)
QUADRO DE CONSOANTES DO PORTUGUÊS BRASILEIRO
Baseado no Quadro fonético Internacional (IPA-2005)

Bilabial Labiodental Dental Alveopalatal Palatal Velar Glotal


ou
alveolar

Oclusiva p b t d k g
Africada tʃ dʒ
Fricativa f v s z ʃ ʒ x ɣ h ɦ
Nasal m n ɲ
Tepe ɾ
Vibrante r
Retroflexa ɹ
Lateral l ʎ
Em relação aos símbolos que aparecem em pares, o símbolo da direita representa uma consoante
desvozeada; o da esquerda, uma consoante vozeada.

QUADRO DE VOGAIS

Anterior Central Posterior


Fechada i u
(ou alta) ɪ ʊ

Meio-fechada e o
(ou média-alta)
ə
Meio-aberta ɛ ɔ
(ou média-baixa)

Aberta
(baixa) a
Vogais nasais: ã, ẽ, ῖ, õ, ũ Vogais nasalizadas: â, ê, î, ô, û Semivogais: y, w
Adaptado de: Projeto Sonoridade em Artes, Saúde e Tecnologia, 2008–UFMG. Disponível
em:<http://www.fonologia.org/quadro_fonetico.php>. Acesso em: 16. out. 2016.
SUMÁRIO

CONSIDERAÇÕES INICIAIS ............................................................................................. 21


01 MANANCIAL TEÓRICO I: DIALETOLOGIA, ETNOLINGUÍSTICA E
SOCIOLINGUÍSTICA .......................................................................................................... 33
1.1 ASPECTOS DIALETOLÓGICOS ................................................................................. 33

1.1.1 As noções de dialeto e de falar............................................................................... 34

1.1.2 Os primeiros passos da Dialetologia ..................................................................... 36

1.1.3 Histórico de estudos dialetológicos brasileiros .................................................... 37

1.2 A CONTRIBUIÇÃO DA ETNOLINGUÍSTICA ........................................................... 42

1.2.1 Cultura, civilização e cultura popular .................................................................. 43

1.3 A VISÃO SOCIOLINGUÍSTICA .................................................................................. 46

1.3.1 Heterogeneidade linguística: variação, variante e variedade............................. 50

1.3.2 Variação linguística: fatores linguísticos e sociais ............................................... 51

1.3.3 Os tipos de variação ............................................................................................... 52

1.3.4 Norma padrão versus norma culta ....................................................................... 53

1.3.5 Variantes linguísticas de prestígio e variantes estigmatizadas........................... 54

1.3.6 Traços linguísticos graduais e descontínuos ........................................................ 55

02 MANANCIAL TEÓRICO II: LEXICOLOGIA, LEXICOGRAFIA, SEMÂNTICA


CULTURAL E FONÉTICA .................................................................................................. 58
2.1 NAS TRILHAS DO LÉXICO ........................................................................................ 58

2.1.1 A noção de léxico .................................................................................................... 59

2.1.2 Lexicologia, Lexicografia e Lexicografia regional .............................................. 60

2.1.3 O glossário como repositório lexicográfico dialetal ............................................ 64

2.2 RELAÇÕES ENTRE SEMÂNTICA E LÉXICO........................................................... 66

2.2.1 Semântica Cultural: a semântica de contextos e cenários .................................. 66


2.2.2 Campos semântico-culturais e fenômenos de metáfora (funcional) e metonímia
........................................................................................................................................... 74

2.2.3 Homonímia e polissemia ........................................................................................ 77

2.2.4 Expressões idiomáticas .......................................................................................... 78

2.3 A FONÉTICA E A INVESTIGAÇÃO DOS FALARES ............................................... 79

2.3.1 A Fonética e o falar nordestino ............................................................................. 79

2.3.2 Metaplasmos brasileiros no falar nordestino....................................................... 81

2.3.2.1 Metaplasmos por acréscimo .............................................................................. 82

2.3.2.2 Metaplasmos por supressão (subtração) ............................................................ 84

2.3.2.3 Metaplasmos por transposição........................................................................... 86

2.3.2.4 Metaplasmos por transformação (permuta) ....................................................... 87

03 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS.................................................................... 96
3.1 A MOTIVAÇÃO ............................................................................................................ 96

3.2 O PARADIGMA QUALITATIVO ................................................................................ 97

3.3 FONTES E SELEÇÃO DO CORPUS DOCUMENTAL ............................................... 98

3.4 A VISITA A EXU-PE: NO RASTRO DE GONZAGÃO ............................................ 100

3.5 A VISITAÇÃO AO MUSEU FONOGRÁFICO LUIZ GONZAGA ........................... 112

3.6 O TRATAMENTO DO CORPUS POR MEIO DE SISTEMAS INFORMACIONAIS


............................................................................................................................................. 114

3.6.1 ELAN – Linguistic Annotator©, Versão 4.9.1 .................................................... 114

3.6.2 O programa Free Mp3 Cutter© ........................................................................... 117

3.6.3 O programa Lexique Pro© .................................................................................. 120

3.7 ORGANIZAÇÃO DO GLOSSÁRIO ........................................................................... 126

3.7.1 Organização macroestrutural ............................................................................. 126

3.7.2 Organização medioestrutural.............................................................................. 130

3.7.3 Organização microestrutural .............................................................................. 133


04 PERCURSO GEO-HISTÓRICO-ARTÍSTICO DE UM REI NORDESTINO ......... 149
4.1 O ESPAÇO GEOGRÁFICO: O NORDESTE .............................................................. 149

4.2 O ESTADO DE NASCIMENTO: PERNAMBUCO ................................................... 156

4.3 A CIDADE NATAL: EXU ........................................................................................... 159

4.4 VIDA NO SERTÃO: REALIDADE SOCIOCULTURAL .......................................... 161

4.5 AS ANDANÇAS PELO PAÍS...................................................................................... 165

4.6 O NASCIMENTO DO BAIÃO E OS GRANDES PARCEIROS................................ 167

4.6.1 Humberto Teixeira: o doutor do baião .............................................................. 169

4.6.2 Zé Dantas: o sertanejo puro ................................................................................ 173

4.6.3 João Silva: o parceiro dos últimos momentos .................................................... 175

4.7 APOGEU, ESQUECIMENTO E REVIGORAMENTO DO BAIÃO ......................... 177

05 ANÁLISE DO CORPUS .................................................................................................. 185


5.1 PARTICULARIDADES SEMÂNTICAS: CAMPOS SEMÂNTICO-CULTURAIS
IDENTIFICADOS NA OBRA DE GONZAGA ................................................................ 186

5.1.1 Campo semântico-cultural: seca ......................................................................... 186

5.1.2 Campo semântico-cultural: saudade .................................................................. 193

5.1.3 Campo semântico-cultural: terra ....................................................................... 204

5.1.4 Campo semântico-cultural: religião e crenças................................................... 208

5.1.5 Campo semântico-cultural: cangaço .................................................................. 211

5.1.6 Campo semântico-cultural: amor e sensualidade ............................................. 214

5.1.7 Campo semântico-cultural: alegria .................................................................... 222

5.2 PARTICULARIDADES FONÉTICAS: METAPLASMOS ENCONTRADOS NA


OBRA GONZAGUIANA ................................................................................................... 230

5.2.1 Análises de metaplasmos por adição: prótese, epêntese, suarabácti e paragoge


......................................................................................................................................... 231

5.2.2 Análise de metaplasmos por supressão: aférese, síncope, apócope e sinalefa 237
5.2.3 Análise de metaplasmos por transposição: metátese e hiperbibasmo ............. 251

5.2.4 Análise de metaplasmos por transformação: rotacismo, lambdacismo,


palatização, despalatização do /ʎ/ (iotização e apagamento), desnasalação,
assimilação e monotongação ......................................................................................... 253

5.3 EVIDÊNCIAS QUE APONTAM PARA UMA DIFUSÃO INTENCIONAL DA


LINGUAGEM REGIONAL-POPULAR (VARIANTE ESTIGMATIZADA) POR
GONZAGA ......................................................................................................................... 280

5.4 TRAÇOS GRADUAIS E DESCONTÍNUOS IDENTIFICADOS NA OBRA DE


GONZAGA ......................................................................................................................... 285

5.5 O GLOSSÁRIO DE GONZAGÃO .............................................................................. 292

CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................... 292


REFERÊNCIAS.................................................................................................................... 299
ANEXOS................................................................................................................................ 313
21

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

A língua portuguesa falada no Brasil possui uma diversidade bastante peculiar em


decorrência, dentre outros fatores, da dimensão continental do país. Assim, o
modo de falar de cada região é perceptível a um interlocutor mais atento. Em virtude dessa
miríade de variedades linguísticas, somos um país plural em falares.
Os falares regionais, sejam os da zona rural, sejam os da zona urbana, são objeto de
estudo da Dialetologia, que tem contribuído para os estudos do léxico nacional por meio dos
Atlas Linguísticos já elaborados ou daqueles que estão ainda em desenvolvimento em um
projeto maior para a elaboração do Atlas Linguístico do Brasil (ALiB), resultado de trabalho
efetivo de grupos da área de investigação sobre os falares brasileiros.
Em paralelo, há, também, inúmeras investigações voltadas para as manifestações
culturais que se refletem no discurso, a exemplo das pesquisas sobre as interligações entre
língua, sociedade e cultura, com posterior registro de falares em inventários lexicográficos. São
estudos que enfeixam aportes teóricos advindos não apenas da Lexicologia e da Lexicografia
mas também da Sociolinguística, da Semântica e da Etnolinguística, domínios que não se
confundem, mas se inter-relacionam em diálogo profícuo.
O embasamento nesses saberes orienta para a compreensão de que a língua, como uma
instituição social por excelência, reflete as formas diversas de se dizer a mesma coisa,
comumente chamadas de variantes linguísticas. Essas variantes estão intimamente ligadas a
relações entre língua, sociedade e cultura; logo, é lícito afirmar que a língua está condicionada
a fatores sócio-histórico-culturais que incluem o ambiente de fala, os níveis de educação, a
geração e o estilo dos falantes. De acordo com Preti (2000), os fatores sociais que condicionam
o modo de falar do indivíduo são de três espécies: geográficos ou diatópicos, fundamentados
na oposição entre a linguagem utilizada pelas pessoas da zona urbana e as pessoas oriundas do
meio rural (na verdade, é possível encontrar falantes da linguagem rural em zona urbana
também, nos chamados grupos rurbanos); socioculturais ou diastráticos, influenciados por
condicionadores ligados ao falante (tais como idade, sexo, etnia, profissão, posição social, grau
de escolaridade, classe econômica); contextuais ou diafásicos, ligados à situação comunicativa
em que os falantes interagem (níveis de fala formal ou coloquial).
Os fatores supracitados, vale ressalvar, podem acarretar mudanças ou conservar traços
linguísticos decorrentes de influências estruturais, inerentes à própria língua, ou ao ambiente
22

externo. Desse modo, análises linguísticas podem ser empregadas para investigar o falar
regional/rural em diversos registros da língua – um poema, um romance, um causo1 ou uma
canção.
As canções e causos interpretados pelo compositor e cantor Luiz Gonzaga, foco desta
investigação, veiculam a pujança do falar nordestino, e ainda assumem a peculiaridade de
apresentar como temática principal o ambiente do Nordeste brasileiro em seus vários domínios:
as tradições, os folguedos, o trabalho na roça, o homem sertanejo e, por óbvio, as experiências
protagonizadas pelo próprio Rei do Baião. Nessa perspectiva, o estudo de aspectos semânticos
e extralinguísticos do cancioneiro gonzaguiano configura um entrelaçamento entre língua,
sociedade e cultura, possibilitando uma análise dialetal e etnossociolinguística do corpus
documental a ser analisado. É justamente essa ampla diversidade da experiência social e
histórica das comunidades humanas que se reflete no modo como elas falam sua língua; neste
caso, a comunidade nordestina, que é cantada por Gonzagão e investigada nesta pesquisa. Por
fim, deve-se prevenir que, neste trabalho, as nominações Luiz Gonzaga, Gonzaga, Gonzagão,
e o epíteto a ele atribuído, Rei do Baião, serão usados de forma intercambiável.
Diante do exposto, e em concordância com Ferrarezi (2010), entendemos que a
linguagem é um objeto extremamente complexo, que não se presta a um estudo sob uma ótica
monolítica. Por isso, acionamos dois mananciais teóricos para esta investigação, que incluem
contribuições da Dialetologia, Etnolinguística e Sociolinguística (manancial teórico I), e da
Lexicologia, Lexicografia, Semântica Cultural e Fonética (manancial teórico II), sob uma
perspectiva que abarca um domínio etnossociolinguístico. Como categorias de análise,
elegemos as variações/particularidades semântico-culturais e as variações/particularidades
fonéticas que caracterizam a variedade sertaneja nordestina do Português Brasileiro. Por
Português Brasileiro (PB), compreendemos o português que se tornou hegemônico no território
nacional depois da segunda metade do século XVIII e que recebeu influência de línguas
autóctones e africanas, fazendo surgir, ao longo dos anos, diversas variantes linguísticas
brasileiras.
Este trabalho tem como objetivo geral investigar a existência de particularidades
semântico-culturais e particularidades fonéticas, caracterizadoras do falar nordestino, em 34
(trinta e quatro) canções gravadas por Gonzaga, assim como em 4 (quatro) causos, 3 (três) deles

1
“Causo” é tomado aqui como uma história do cotidiano sertanejo, contada geralmente com humor (RAMALHO,
1998).
23

narrados pelo artista no “Show Luiz Gonzaga volta pra curtir”, gravado em 1972, no Rio de
Janeiro, e 1 (um) narrado no Long Play (LP)2 “Chá Cutuba”, em 1977.
A partir do objetivo geral, de caráter mais amplo, são delineados outros, mais específicos,
quais sejam:
a) identificar campos semântico-culturais, presentes no repertório de Luiz Gonzaga, que
comportam um vocabulário típico do falar rural do Nordeste;
b) descrever, com base nos campos identificados e nos postulados da Semântica Cultural
(vertente de contextos e cenários), sentidos especializados atribuídos ao léxico, que revelam a
visão de mundo de pessoas de origem social humilde dessa região;
c) analisar construções figurativas, buscando informações contextuais (linguísticas) e cenariais
(extralinguísticas), derivadas de fatos culturais;
d) classificar e tabular os fenômenos fonéticos de metaplasmos linguísticos brasileiros por
supressão, adição, transposição e transformação, existentes no corpus investigado;
e) apontar evidências de que a produção artística de Luiz Gonzaga, com características e
especificidades próprias de uma extensão espacial e vivência sociocultural, teve a intenção de
difundir não apenas um gênero musical mas também a expressividade linguística do falar rural
nordestino nos níveis semântico-cultural e fonético, como instrumento linguístico de
valorização identitária;
f) identificar traços linguísticos graduais e descontínuos, reveladores de marcas sociodialetais
do PB na obra de Gonzaga, com base no contínuo de urbanização proposto por Bortoni-Ricardo
(2004);
g) organizar um glossário eletrônico de feição regional, por intermédio do programa Lexique
Pro©, contendo, dentre outros elementos, um vocabulário próprio com sentidos definidos pelos
contextos e cenários descritos nas análises, assim como transcrições fonéticas das lexias que
apresentaram metaplasmos reveladores de marcas sociodialetais do PB, em sua variedade
nordestina.
Em resumo, a questão central deste estudo pode ser assim formulada: como se
caracteriza o Português Brasileiro em sua variedade rural nordestina difundida na obra de Luiz
Gonzaga?
Partindo-se desse questionamento fundamental, e em se tratando de uma pesquisa de
natureza qualitativa, ao invés de levantar hipóteses, propomos a apresentação de uma asserção
norteadora do trabalho nos seguintes termos: o falar nordestino é resultante de variações do

2
Segundo Houaiss e Vilar (2009), o LP, elepê, é um disco fonográfico gravado em microssulcos e tocado à
velocidade de 331/3 rotações por minuto.
24

Português Brasileiro, as quais importam alterações do foneticismo e do material semântico-


cultural, decorrentes do processo de distribuição geográfica e de influências socioculturais.
Dessa asserção nuclear, decorrem outras que foram delineadas para a consecução da
pesquisa, a saber: 1) a obra de Luiz Gonzaga permite a realização de análises linguísticas, com
base na identificação de campos semântico-culturais que contêm um vocabulário característico
do falar rural do nordestino e revelam regras de conduta e organização sociocultural da região;
2) os campos semântico-culturais contêm itens lexicais cujos sentidos trazem marcas de
compartilhamento cultural entre os habitantes modestos da região; 3) as construções linguísticas
divulgadas por Gonzaga comportam sentidos figurativos, influenciados por fatores culturais; 4)
a análise da amostra do repertório do compositor pode registrar a presença de metaplasmos
fonéticos brasileiros por adição, supressão, transposição e transformação; 5) o conjunto de
informações colhidas possibilitará a comprovação de que as experiências socioculturais e os
usos linguísticos do Rei do Baião, nos níveis semântico-cultural e fonético, difundiram, de
forma intencional, o Português Popular Brasileiro em sua variedade rural nordestina; 6) a
análise dos dados permitirá a identificação de traços linguísticos graduais e descontínuos,
utilizando o contínuo de urbanização proposto por Bortoni-Ricardo; e 7) as análises das
particularidades semântico-culturais e fonéticas permitem, afinal, a confecção de um glossário
eletrônico, por meio do programa computacional Lexique Pro©, o qual destaca, tanto os
sentidos atribuídos aos itens lexicais quanto as transcrições fonéticas das lexias que apresentam
metaplasmos na obra de Gonzaga, reveladoras de marcas sociodialetais do Português Brasileiro.
Com base nos saberes perspectivados, e considerando que Luiz Gonzaga inaugurou e
consolidou, juntamente com os seus parceiros, o baião como gênero musical para divulgar
ritmos3 e temas que enfatizam aspectos sociolinguísticos e culturais típicos do Nordeste, nossa
proposição de tese é a de que as composições e causos interpretados por Luiz Gonzaga
tornaram-se um marco intencional na difusão do Português Brasileiro, em sua variedade rural
nordestina, para todo o território nacional, notadamente nos níveis semântico-cultural e fonético.
A investigação das propriedades desse modo peculiar de linguagem e sua documentação
posterior em um repositório linguístico evocam contribuições de diversos ramos da Linguística,
tais como a Dialetologia, a Sociolinguística, a Etnolinguística, a Semântica Cultural (em sua
vertente de contextos e cenários), a Lexicologia, a Lexicografia e a Fonética. Justifica-se, pois,
a presente pesquisa porque destaca, sob o crivo do rigor científico, aspectos do falar nordestino
que permeiam a obra do intérprete pernambucano, que conquistou plateias de todo o Brasil com

3
Ritmo é a ocorrência de uma duração sonora em uma série de intervalos regulares (HOUAISS; VILAR, 2009).
25

sua sanfona e criou um ritmo musical de raízes tipicamente nordestinas: o baião. Este trabalho
pretende documentar, de forma criteriosa, as variações dialetais constantes nas composições e
causos analisados, reveladoras das relações entre o léxico do falar nordestino e a cultura da
região. Para além disso, as reflexões decorrentes do estudo ora proposto buscam afastar ainda
concepções preconceituosas sobre as variedades dialetais usadas pelas pessoas mais humildes,
oriundas do sertão nordestino e, por isso mesmo, consideradas simplesmente como “erradas”.
A pesquisa apoia-se em um embasamento linguístico que deverá promover uma atitude
reflexivo-positiva para a compreensão das influências socioculturais na linguagem, valorizando
o léxico rural falado por pessoas simples do Nordeste, tal qual se retrata na obra de Gonzaga.
Conforme destaca Garcia (2012), poucos professores se valem desse recurso (tão
abundante e tão eficaz) para a prática pedagógica; talvez porque o preconceito intelectual e o
beletrismo ainda grassem no meio acadêmico, confundindo o popular com o popularesco. Para
ele, a cultura popular representada na música popular nordestina é a manifestação do real
Português Brasileiro, vez que é vivo, envolvente e expressivo.
Finalmente, justifica-se ainda a investigação pela necessidade de preencher uma lacuna
no conjunto de obras sobre a produção gonzaguiana; mais particularmente porque visa analisar
as inter-relações entre língua, cultura e sociedade, e por tratar da variedade linguística rural
nordestina, notadamente nos aspectos semântico-léxico-cultural e fonético, vez que são campos
diretamente influenciados pelas mudanças culturais.
No que se refere à revisão da literatura sobre a obra de Luiz Gonzaga, percebe-se a
abundância de trabalhos de cunho biográfico e apenas algumas obras oriundas de pesquisas
acadêmicas. Várias dessas biografias foram relançadas em 2012, em razão das homenagens
prestadas ao “Rei do Baião” em comemoração ao centenário de seu nascimento em 1912.
Dentre as obras lançadas, destacamos: “Luiz Gonzaga e Outras Poesias”, de Zé Praxedi (2012
[1952]); “O Sanfoneiro do Riacho da Brígida: vida e andanças de Luiz Gonzaga” – “O Rei do
Baião”, de Sinval Sá (2012 [1966]); “Luiz Gonzaga, O Rei do Baião: sua vida, seus amigos,
suas canções” (1986), de José de Jesus Ferreira; “Eu Vou Contar pra Vocês”, de Assis Ângelo
(1990); “Luiz Gonzaga: o matuto que conquistou o mundo”, de Gildson de Oliveira (1991);
“Vida do Viajante: a saga de Luiz Gonzaga”, de Dominique Dreyfus (2012 [1996]),
“Gonzaguinha e Gonzagão: uma história brasileira”, de Regina Echeverria (2006), “Dicionário
Gonzagueano de A Z”, também de Assis Ângelo (2006) e “Glossário Gonzaguiano”, de Daniel
Bueno (2012).
A obra “Luiz Gonzaga e Outras Poesias” (op. cit.) é considerada a primeira biografia do
Rei do Baião. Redigida em versos, no ano de 1952, pelo poeta-vaqueiro potiguar, Zé Praxedi,
26

a poesia biográfica foi escrita em primeira pessoa, em variante linguística popular, comumente
desprestigiada pelos falantes da norma padrão clássica4.
O livro “O Sanfoneiro do Riacho da Brígida: vida e andanças de Luiz Gonzaga – O Rei
do Baião”, do escritor Sinval Sá (op. cit.), é uma biografia escrita como resultado de uma grande
entrevista do autor com Gonzaga. Lançado pela primeira vez em 1966, o livro está dividido em
quatro partes nas quais predominam o uso de relato em primeira pessoa, já que Luiz Gonzaga
não gostara da versão romanceada que o escritor havia escrito inicialmente. Trata-se, assim, de
uma narrativa cronológica dos fatos marcantes da vida de Gonzagão, compreendendo um
período que se estende desde a chegada da família do cantor ao município de Exu, no sertão
pernambucano (portanto, desde a sua infância) até o ano de 1966.
O livro “O Rei do Baião: sua vida, seus amigos, suas canções”, de José de Jesus Ferreira
(1986) combina biografia com trechos de depoimentos de Luiz Gonzaga, comentários sobre
algumas prosas (Samarica Parteira e o Jumento é Nosso Irmão) e traz ainda a discografia do
sanfoneiro, assim como algumas letras de grandes sucessos gravados.
Já as obras “Eu Vou Contar pra Vocês”, de Assis Ângelo (1990), primeiro livro lançado
após a morte de Gonzaga, e “Luiz Gonzaga: o matuto que conquistou o mundo”, de Gildson de
Oliveira (1991), vencedor do Prêmio Esso5 Nordeste de 1990, são produções de jornalistas de
profissão. O primeiro é paraibano e o segundo, potiguar. Daí o caráter de entrevista
investigativa nas duas obras, ricas em detalhes da vida cotidiana de Gonzaga e com bom
material iconográfico. O livro de Gildson destaca-se ainda por ter sido resultado da última
entrevista (em vida) de Luiz Gonzaga.
A francesa Dominique Dreyfus escreveu o livro “Vida do Viajante: a saga de Luiz
Gonzaga” pela primeira vez em 1996. O livro biográfico, considerado um dos mais completos
sobre a vida do Rei do Baião, intercala depoimentos de Gonzaga sobre sua vida pessoal e
trechos de suas músicas. A escritora passou dois meses ao lado de Luiz Gonzaga, em 1987, dois
anos antes de sua morte. A obra traz ainda a discografia, fotografias e reproduções de
documentos pessoais de Luiz Gonzaga, tais como batistério e bilhetes manuscritos do cantor.
“Gonzaguinha e Gonzagão: uma história brasileira”, de Regina Echeverria, conta a nem
sempre amistosa história de pai e filho, que recuperaram a conciliação prazerosa e o respeito

4
Na fundamentação teórica, serão apresentados os conceitos sobre norma padrão clássica e variante linguística
desprestigiada.
5
O autor foi agraciado com o Prêmio Esso Regional do Nordeste, que é o mais tradicional e disputado programa
de reconhecimento de mérito dos profissionais de Imprensa do Brasil. Criado em 1955, com o nome de “Prêmio
Esso de Reportagem”, passou posteriormente a denominar-se “Prêmio Esso de Jornalismo” e, atualmente, “Prêmio
ExxonMobil de Jornalismo”. Informação disponível em:<http://www.premioexxonmobil.com.br/site/historia/inde
x.aspx>. Acesso em: 29 jan. 2016.
27

mútuos nos anos finais da vida de Gonzaga (década de 80). Escrito em 2006, o livro reúne
depoimentos de Gonzagão e Gonzaguinha a partir de material gravado e entregue à escritora
pela família Gonzaga.
Apesar de conterem os títulos “Dicionário Gonzagueano e “Glossário Gonzaguiano”, os
livros de Assis Ângelo e Daniel Bueno, respectivamente, não são, a rigor, obras lexicográficas
do ponto de vista científico. O próprio Assis Ângelo (2006, p. 29) alerta para o fato de que
“dicionário não é apenas um compêndio que reúne sinônimos e esclarece as origens das palavras
de uma língua”. Naquela obra, o jornalista escritor aproveita parte do material de seu livro
lançado em 1990, “Eu Vou Contar pra Vocês”, para fazer a reprodução de uma cronologia da
vida do cantor, relatar fatos de sua carreira artística, apresentar uma lista de músicas, organizada
em ordem alfabética, e transcrever depoimentos de músicos e compositores que conviveram
com o Rei do Baião. Com efeito, é mais uma obra biográfica. Já Daniel Bueno (2012, p. 11)
afirma, em seu “Glossário Gonzaguiano”, que, ao pensar na “ideia de organizar um dicionário
‘terminológico’ da vida e da obra do Luiz Gonzaga, não imaginava o que viria pela frente”.
Realmente, o autor buscou elaborar, embora acreditemos que não tivesse consciência disso,
uma espécie de “dicionário enciclopédico” de Gonzaga, anotando informações sobre os discos,
os lugares, as datas, os nomes de pessoas famosas que conviveram com o Rei do Baião, temas
de músicas, costumes etc.
E há ainda, na literatura escrutinada, livros oriundos de dissertações de Mestrado e teses
de Doutorado sobre Luiz Gonzaga. Entre outros, podem ser relacionados: “Na Batida do Baião,
no Balanço do Forró: Zedantas e Luiz Gonzaga”, de Mundicarmo Ferretti (2012 [1988]); “O
Sertão em Movimento: a dinâmica da produção cultural”, de Sulamita Vieira (2000); “Luiz
Gonzaga: a síntese poética e musical do sertão”, de Elba Braga Ramalho (2012 [2000]); “Luiz
Gonzaga: o homem, sua terra e sua luta”, de José Mário Austregésilo (2008); “Sons do Sertão:
Luiz Gonzaga, música e identidade”, de Jonas Rodrigues de Moraes (2012), e “Quando a Lama
Virou Pedra e Mandacaru Secou”... “Eu Perdi o Seu Retrato”, de Lúcia Firmo (2012).
O livro “Na Batida do Baião, no Balanço do Forró: Zedantas e Luiz Gonzaga”, da
antropóloga e professora da Universidade Federal do Maranhão, Mundicarmo Ferretti (2012
[1988]), examina a obra do sanfoneiro não apenas sob um olhar biográfico mas também
investiga a música de Gonzaga e do médico Zedantas, como forma de integração cultural
nordestina à cultura de massa. Para Ferreti (2012, p. 17), “a nordestinidade do gênero criado
por Gonzaga é marcada tanto no ritmo em que foi criado, o baião, quanto no conteúdo das letras
e linguagem utilizada”. Segundo ainda a autora, a música de Luiz Gonzaga e Zedantas tem,
como ambientação de lançamento, o período após a experiência regionalista do romance
28

brasileiro, nos anos 30, o que revela o uso, no processo de composição, de elementos do
cancioneiro oral nordestino.
Em “O Sertão em Movimento: a dinâmica da produção cultural” (2000), Sulamita Vieira
focaliza a produção musical de Luiz Gonzaga dentro de relações sociais e formas de
interpretações do mundo; no caso, interpretações sobre a construção da realidade do sertão em
meio às relações campo-cidade. Para a socióloga, Luiz Gonzaga, por intermédio do baião,
concretizou também um processo de construção de uma nova linguagem que o aproximava dos
migrantes nordestinos radicados no sudeste do país, que viam na figura do Gonzagão um ponto
de referência de sua identidade. Entretanto, a autora não aprofunda, em análises linguísticas, o
que seria essa “nova linguagem”.
A professora Elba Braga Ramalho (2012 [2000]) apresenta em “Luiz Gonzaga: a síntese
poética e musical do sertão”, tese defendida na Pós-graduação em Música da Universidade de
Liverpool, Inglaterra, a importância da inserção da música popular produzida por Gonzagão,
dentro de um panorama econômico de atividade pastoril, em que enfatiza “uma cultura cabocla
das fazendas” nordestinas. O livro traz ainda análises de partituras de canções famosas de
Gonzaga, tais como “Asa Branca”, “Qui nem Jiló” e a “Volta da Asa Branca”.
No livro “Luiz Gonzaga: o homem, sua terra e sua luta”, o professor de Comunicação
Social, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), José Mário Austregésilo (2008),
analisa a produção musical de Luiz Gonzaga, inserida em uma visão triangular inspirada em
um clássico da literatura nacional, “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, destacando aspectos da
obra gonzaguiana que remetem a três domínios temáticos: a terra, o homem e a luta nos sertões
nordestinos.
O livro “Sons do Sertão: Luiz Gonzaga, música e identidade”, do professor Jonas
Rodrigues de Moraes (2012), narra o percurso de Luiz Gonzaga e de seu parceiro musical
Humberto Teixeira, analisando a construção da identidade nordestina, presente na obra dos dois
mestres, por intermédio da relação entre história e música. Segundo o autor, os discursos
presentes na musicalidade gonzaguiana são agenciadores e homogeneizadores da ideia de
Nordeste, fazendo do pernambucano um intérprete autêntico do ethos6 da região nordestina. O
pesquisador ressalta ainda que o estudo do documento musical é imprescindível para a
reconstituição histórica dos sujeitos sociais no seu cotidiano.

6
Ethos: noção que remonta à retórica antiga, mas que hoje repercute em diversas disciplinas teóricas e práticas. A
concepção de ethos está relacionada à imagem positiva de si mesmo (ou de um grupo), que o locutor tenta passar
ao destinatário (MAINGUENEAU, 2011).
29

E, finalmente, ressalta-se uma pesquisa sob um olhar semiótico da obra de Gonzagão.


O trabalho de Firmo (2012), inserido no domínio dos fenômenos da significação, tem como
corpus textos selecionados das obras dos cantores e compositores Luiz Gonzaga e Adoniran
Barbosa. A autora procedeu a uma investigação na qual foram realizadas análises comparativas
em três pares de textos, sob uma perspectiva semiótica, cujo objetivo geral era detectar traços
ideológicos semelhantes ou divergentes, subjacentes aos discursos. Dessa forma, foram
investigadas seis canções: “Paraíba” (Luiz Gonzaga) e “Iracema” (Adoniran Barbosa), que têm
a saudade como tema comum; “Cidadão” (Luiz Gonzaga) e “Despejo na Favela” (Adoniran
Barbosa), que abordam as relações de poder, assim como o preconceito social; e“O Xote das
Meninas” (Luiz Gonzaga) e “Vila Esperança” (Adoniran Barbosa), que tratam do despertar do
amor na adolescência. Firmo (2012) verificou que, em seus textos, os autores pesquisados falam
dos respectivos espaços, conhecedores que são do ambiente donde provêm, o que os torna
verdadeiros porta-vozes desses mundos. Numa última consideração, a pesquisadora assevera
que os temas que permeiam os textos dos dois artistas se encontram em uma zona proximal.
Não obstante, sob outra ótica, observa-se que os autores encontram-se em uma zona de
distanciamento, já que Gonzaga canta o rural e Adoniran, o urbano.
Em todo esse percurso, em que se delineia o estado da arte, apesar de alguns autores
ressaltarem a linguagem peculiar usada por Luiz Gonzaga, não vão além de um tratamento
tangencial sobre o tema, sem o aprofundamento em uma investigação sistemática e criteriosa
das singularidades semântico-culturais e fonéticas, caracterizadoras do Português Brasileiro,
em sua variedade rural nordestina, da qual Luiz Gonzaga foi o principal difusor.
Por tratar do fenômeno da linguagem, esta tese adota, como referencial teórico, os
trabalhos de autores que assumem, inelutavelmente, as influências que a cultura e a vida em
sociedade exercem sobre as manifestações linguísticas do significado. Por conseguinte,
fundamenta-se nos trabalhos de Aragão (1983; 1984; 1990; 2000; 2004), Ferreira e Cardoso
(1994), Cardoso (2010) e Marroquim (1996 [1934]), no que se refere às questões dialetológicas,
características do Português Brasileiro e do falar nordestino; nos estudos de Coseriu (1982;
1990), Burke (2010 [1978]) e Cascudo (2013 [1971]; 2012 [1979]; 2011 [1974]; 1983 [1971]),
no que tange às discussões sobre cultura, cultura popular e Etnolinguística; nas lições de Labov
(1987; 2007; 2008 [1972]), Elia (1987), Bagno (2007; 2012; 2013; 2014), Bortoni-Ricardo
(2004; 2008; 2014), relativamente à sociolinguística e ao Português Brasileiro; nas teorizações
de Biderman (1978; 1984a, 1984b, 1984c; 1996; 1998; 2001), Haensch et al. (1982), Pontes
(2009), Pontes e Duarte (2011), Fechine e Pontes (2011), e Welker (2004), no que concerne à
Lexicologia e à Lexicografia; nas lições de Amaral (1920), Marroquim (1996 [1934]), Coutinho
30

(1976), Aragão (1984) e Silva (2002; 2011) sobre os aspectos fonéticos do falar regional, e nos
estudos de Ferrarezi Júnior (2013; 2012; 2010; 2008; 2003) sobre Semântica Cultural, na
vertente de Contextos e Cenários.
Vale ressalvar o fato de que, embora se dê especial precedência aos autores citados,
sempre que nos pareça conveniente, outros estudiosos serão referenciados como forma de
enriquecer a discussão e/ou confrontar pontos de vista.
O percurso investigativo em que se deverá ancorar a tese a ser defendida será organizado
em cinco capítulos. No primeiro capítulo, manancial teórico I (Dialetologia, Etnolinguística e
Sociolinguística), delineamos as bases teóricas das disciplinas que dão sustentação à
propositura da tese. Tecemos considerações acerca das relações entre linguagem, sociedade,
cultura e significação, reconhecendo a existência da heterogeneidade linguística como algo
intrínseco e inevitável nas sociedades. Também analisamos os fatores sociais e culturais que
provocam mudanças na língua, levando à eclosão de variedades de falares e dialetos nas
comunidades linguísticas, e apresentamos o contínuo de urbanização proposto por Bortoni-
Ricardo (2004) para o estudo de variedades do Português Brasileiro, explicitando o que são
traços linguísticos graduais e descontínuos, variantes linguísticas de prestígio e variantes
estigmatizadas.
No segundo capítulo, manancial teórico II (Lexicologia, Lexicografia, Semântica
Cultural e Fonética), abordamos a importância dos aspectos lexicológicos e do fazer
lexicográfico em obras de cunho dialetal. Apresentamos os postulados da Semântica Cultural,
na vertente Semântica de Contextos e Cenários, e os seus principais conceitos, destacando o
fato de que os sentidos são manifestações linguísticas do significado de uma língua natural7,
que se especializam em contextos e cenários, segundo a diretriz da Semântica. Ademais,
apresentamos a teorização sobre singularidades fonéticas na descrição da linguagem rural
nordestina; em especial, os estudos sobre metaplasmos brasileiros contemporâneos e sua
relevância na documentação de peculiaridades fônicas de variantes estigmatizadas do português
falado no Brasil.
No terceiro capítulo, procedimentos metodológicos, apresentamos as opções teórico-
metodológicas fincadas em um paradigma qualitativo de investigação científica, que
permitiram fundamentar as categorias de análise, segundo regras criteriosas de metodologia
lexicográfica para a composição das organizações macro, médio e microestrutural do glossário
proposto, por intermédio de tratamento digital dos dados.

7
Língua natural é tomada aqui como aquela que se desenvolve naturalmente no interior de uma comunidade.
31

No quarto capítulo, percurso geo-histórico-artístico de um rei, examinamos o itinerário


biográfico de Luiz Gonzaga, partindo de uma caracterização do Nordeste brasileiro, como
nascimento de um espaço geográfico cujos habitantes utilizam uma variedade linguística que
ele ajudou a divulgar. Descrevemos a cidade onde ele nasceu e cresceu, no sertão pernambucano,
suas andanças pelo Brasil, a criação do baião como novo gênero musical tipicamente brasileiro,
cuja temática serviu para dar visibilidade e produzir a dizibilidade 8 de tradições linguístico-
culturais nordestinas. Analisamos também o papel e a importância dos principais parceiros na
produção musical do Rei do Baião.
No quinto capítulo, análise do corpus, que possui três partes principais, analisamos, em
um primeiro momento, os campos semântico-culturais do repertório gonzaguiano com lastro na
contextualização geo-sócio-histórica e cultural descrita no capítulo 4. E, a partir do conteúdo
de canções e de causos que demonstram as influências dos lugares vividos, do folclore, dos
valores, das práticas sociais e crenças vivenciadas, identificamos os seguintes campos
semântico-culturais característicos da obra de Gonzaga: a seca, a saudade, a terra, a religião e
as crenças, o cangaço, o amor e a sensualidade, e a alegria. A nosso ver, esses foram os domínios
que orientaram e constituíram o acervo musical e linguístico do autor no recorte escolhido para
compor o corpus documental. Com base na Semântica de contextos e cenários, assumimos que
esses campos semântico-culturais contêm itens lexicais cujos sentidos (costumeiros,
metafóricos, metonímicos, idiomáticos) representam verdadeiros “depósitos de valores
linguístico-culturais” compartilhados entre os habitantes da região. Em um segundo momento,
enfatizamos a obra de Gonzaga como ponto de referência na difusão de particularidades fônicas
da linguagem regional-popular nordestina. Por isso, analisamos os seguintes metaplasmos
fonéticos do Português Brasileiro usados por Luiz Gonzaga: a) metaplasmos por adição: prótese,
epêntese, suarabácti e paragoge; b) metaplasmos por supressão: aférese, síncope, apócope e
sinalefa; c) metaplasmos por transposição: metátese e hiperbibasmo; e d) metaplasmos por
transformação: rotacismo, lambdacismo, palatização, despalatização do /ʎ/ (iotização e
apagamento), desnasalação, assimilação e monotongação. As análises são representadas por
gráficos em formato “pizza”, que apresentam, em termos percentuais, a relação entre cada uma
das partes e o todo, buscando fornecer subsídios para os comentários analíticos dos resultados
obtidos. Por fim, como “aplicação” das análises feitas, apresentamos um repositório

8
Para Tedesco (2006, p. 360), as práticas empíricas que afetam diretamente corpos e coisas estão no plano das
visibilidades. “Da gênese empírica das visibilidades, criam-se modos de ver e fazer ver; já da produção das
dizibilidades surgem maneiras específicas de falar e fazer falar. É no conjunto de falas e olhares que o objeto se
constitui”.
32

lexicográfico que denominamos de glossário de Gonzagão, composto de 490 entradas. O


repertório linguístico, em formato eletrônico, apresenta lexias coletadas da obra do autor,
destacando as variantes sociodialetais, que contemplam um vocabulário típico e especificidades
fonético-fonológicas próprias.
Nas considerações finais, expomos as análises que possibilitaram demonstrar e
confirmar as asserções propostas nesta pesquisa sobre as particularidades semântico-culturais e
fonéticas do Português Brasileiro, em sua variedade rural nordestina, que Luiz Gonzaga
difundiu, de forma deliberada, para o resto do Brasil.
33

01 MANANCIAL TEÓRICO I: DIALETOLOGIA, ETNOLINGUÍSTICA E


SOCIOLINGUÍSTICA

Eu vou mostrá pra vocês como se dança o baião e quem


quiser aprendê é favô prestar atenção (Luiz Gonzaga-
Humberto Teixeira)

A s relações entre linguagem e sociedade são tão evidentes que fica difícil imaginar
que a afirmação da Linguística como ciência no século XX, tenha sido
condicionada à exclusão de quaisquer influências de cunho social, histórico e cultural no
processo de descrição, análise e interpretação do fenômeno linguístico (ALKMIM, 2012). De
fato, na visão estruturalista, inaugurada por Saussure, a definição de língua como sistema
abstrato e homogêneo, de natureza social e psíquica, independente do indivíduo, supunha a
eliminação de “tudo o que lhe [fosse] estranho ao organismo, ao seu sistema” (SAUSSURE,
1995 [1915], p. 29). Sob essa perspectiva, os fatores externos e as diferenças observadas na
produção da fala foram deixados de lado por não constituírem o objeto de estudo da Linguística
propriamente dita, que estava em busca de status científico. Desde então, Saussure estabeleceu
a diferença entre a linguística da língua (interna) e a linguística da fala (externa), inaugurando
uma tradição que orientou os estudos linguísticos que chegaram até a contemporaneidade. Em
contrapartida, as discussões sobre as relações entre língua, sociedade e cultura marcam uma
visão contrária ao pensamento de imanência, próprio do ideário estruturalista, que tratava o
utente da linguagem de modo “isolado psicológica e socialmente do mundo exterior” (ELIA,
1987, p. 12).
Diante desse quadro, disciplinas como a Dialetologia, Etnolinguística e Sociolinguística
rompem com os postulados de uma Linguística de tipo formalista para examinar o inter-
relacionamento entre língua-sociedade e língua-cultura. As principais características desse
manancial teórico, de cunho nitidamente contextual, serão apreciadas neste capítulo.

1.1 ASPECTOS DIALETOLÓGICOS

A tradição da crença sobre a heterogeneidade das línguas no plano das relações entre
língua-espaço sempre foi algo notável, como bem assinalou Saussure (1995 [1915], p. 221) no
seu “Curso Geral”: “o que primeiro surpreende no estudo das línguas é sua diversidade, as
diferenças linguísticas que se apresentam quando se passa de um país para o outro, ou mesmo
34

de um distrito a outro”. Com essa assertiva, o mestre genebrino deixa claro que a primeira
comprovação feita no campo da Linguística foi aquela decorrente da diversidade geográfica.
Vários autores propõem-se conceituar a Dialetologia. Os conceitos oferecidos são, em
regra, complementares. Ao atribuir à Dialetologia o pioneirismo no estudo das línguas faladas,
Serafim da Silva Neto (1957, p. 15) assim a situa: “A Dialectologia está compreendida num
campo de estudos mais vasto, mais largo, que é a Etnografia. A Etnografia estuda a cultura de
um povo”. Para o autor, a vida em sociedade ocasiona a conscientização de peculiaridades
linguísticas que diferem “a linguagem de um grupo do falar de um grupo vizinho”. Nesse modo
interpretativo, vários autores propõem-se delimitar a natureza dos estudos dialetológicos. Para
Aragão (1983), a Dialetologia trata das diferenças dialetais ou regionais de uma determinada
língua. Já Ducrot e Todorov (1972), ampliando o escopo da disciplina, afirmam que as
pesquisas dialetológicas se preocupam com o estudo das influências, sociais e espaciais, sobre
os usuários da linguagem. Aguilera (2001), por sua vez, destaca que o interesse dessa disciplina
centra-se nos estudos da linguagem falada, principalmente dos dialetos, entendidos como
variantes regionais de uma determinada língua.
Nas visões apresentadas, como é possível constatar, apareceram dois termos básicos que
são afiliados a esse campo de estudo e que merecem, ainda que brevemente, uma melhor
apresentação: o dialeto e o falar.

1.1.1 As noções de dialeto e de falar

Termos críticos usados na Dialetologia, os conceitos de dialeto e de falar não desfrutam


de consenso e apresentam contornos flutuantes nas definições usadas entre os especialistas da
área. Comecemos com a observação de Castilho (1972, p. 120) para quem “o étimo grego
diálektos significa “conversação”, “linguagem”, “língua própria de um país”.
Na sequência, Coseriu (1965, p. 11-12), enfatizando a diferença de status histórico,
esclarece as peculiaridades semânticas que tornam singular o significado dos termos dialeto e
língua:

[...] um “dialeto”, sem deixar de ser intrinsecamente uma língua, se considera


subordinado a outra língua, de ordem superior. Ou, dito de outra maneira: o termo
dialeto, enquanto oposto a língua, designa uma língua menor incluída em uma língua
maior, que é, justamente, uma língua histórica (ou idioma). Uma língua histórica –
salvo casos especiais – não é um modo de falar único, mas uma família histórica de
35

modos de falar afins e interdependentes, e os dialetos são membros desta família ou


constituem famílias menores dentro da família maior.9

Por seu turno, Antenor Nascentes (1953, p. 16) define dialeto como um “conjunto de
particularidade tais que seu agrupamento dá impressão de fala distinta das falas vizinhas, a
despeito do parentesco que as une”. E ainda, citando Marouzeau (1943), assevera que falar “é
um conjunto de meios de expressão empregados por um grupo no interior de um domínio
linguístico”. Para Nascentes, portanto, não há limites bem demarcados entre os dois termos, de
modo que é “menos inconveniente em chamar falar do que em chamar dialeto” (NASCENTES,
1953, p. 17).
Retornando a Castilho (1972, p. 116), encontramos uma formulação que nos parece bem
plausível e melhor esclarecedora. O autor explica a diferença entre dialeto e falar do seguinte
modo:

[...] a variação espacial ou horizontal processa-se numa gradação que vai desde
pequenas alterações no foneticismo e no material léxico, sem prejuízo de uma fácil
compreensão, até uma diferenciação mais avançada, que atinge também a morfologia
e chega a acarretar dificuldades à comunicação. No primeiro caso temos os falares, e
no segundo, os dialetos.

Nessa mesma linha interpretativa, Aragão (2015) afirma que, no Brasil, não temos
dialetos, mas sim falares, que são variações fonético-fonológicas e lexicais, encontradas na
estrutura superficial da língua, que não acarretam dificuldades na comunicação.
Neste trabalho, assumimos o uso do termo “falar” para designar uma variedade regional
dentro do território brasileiro e que, via de regra, agrupa pessoas que “se caracterizam por uma
série de identidades no uso da língua transmitida: sotaque 10 , traços fonéticos e vocábulos”
(NETO, 1957, p. 16).
De posse desses conceitos, podemos seguir adiante, a fim de situar o início dos estudos
dialetológicos no mundo e sua consequente influência no Brasil.

9
Tradução do espanhol: un “dialecto” sin dejar de ser, intrínsecamente una “lengua”, se considera como
subordinado a otra “lengua”, de orden superior. O, dicho de otro modo: el término “dialecto”, en cuanto opuesto
a lengua, designa una lengua menor distinguida dentro de (o incluida en) una lengua mayor, que es, justamente
una lengua histórica (un “idioma”). Una lengua histórica - salvo casos especiales - no es un modo de hablar único
sino una familia histórica de modos de hablar afines et interdependientes, y los dialectos son miembros de esta
familia o constituyen familias menores dentro de la familia mayor.
10
Segundo Dubois et al. (2006 [1978], p. 565), chama-se sotaque ao conjunto dos hábitos articulatórios (realização
dos fonemas, entonação, etc.) que conferem uma coloração especial particular, social, dialetal ou estrangeira à fala
de um indivíduo (sotaque ou pronúncia caipira, nordestina, alemã, etc.).
36

1.1.2 Os primeiros passos da Dialetologia

No século XIX, surgiram os trabalhos que levaram a Dialetologia e seu método, a


Geografia Linguística ou Geolinguística, a se firmarem como novo campo dos estudos da
linguagem.
Dois trabalhos são citados pela literatura como marcos introdutórios: a investigação
sobre a realidade de usos linguísticos da Alemanha, feita por Georg Wenker, e o levantamento
realizado, de forma sistemática, para o Atlas Linguístico da França (ALF), obra de Gilliéron e
Edmont (CARDOSO, 2010).
Desconsiderando variáveis sociais para sua análise, Wenker distribuiu, para diversas
partes da Alemanha, cartas-questionários com frases escritas em alemão padrão e pediu aos
seus informantes que as transcrevessem para a variante local. Embora a coleta de dados tenha
sido feita por intermédio de correspondências, sem a verificação in loco do pesquisador, o
grande mérito atribuído ao trabalho de Wenker foi a possibilidade de estabelecer a
intercomparabilidade dos dados coletados nas distintas regiões alemães.
Em contrapartida, na França, Jules Gilliéron começava a sua recolha de dados para o
ALF em 1887. Sua investigação dispunha de apenas um inquiridor, não especialista em línguas,
Edmond Edmont, que foi a campo coletar os dados para o Atlas. Os inquéritos basicamente
cuidavam de verificar não apenas as variações fonéticas mas também o registro de palavras e
frases. Assim como no trabalho de Wenker, as variáveis sociais também não foram registradas
nas cartas linguísticas do ALF. A empreitada de Gilliéron e Edmond, contudo, serviu para
consolidar um método rigoroso de levantamento dos dialetos geográficos (CARDOSO, 2010).
Certamente, como bem pondera Rossi (1967), a Dialetologia não se resume à elaboração
de atlas linguísticos. Todavia, o autor destaca que eles se tornaram “a aspiração máxima dos
dialectólogos e um instrumento de trabalho indispensável, que tem resistido às análises críticas
mais rigorosas” (ROSSI, 1967, p. 92).
Com o passar dos anos, outros atlas se seguiram, tanto na Europa quanto nos Estados
Unidos. No Brasil, o primeiro trabalho considerado de cunho dialetal, e o primeiro atlas regional
brasileiro aparecem, conforme veremos adiante, na primeira e segunda metades dos séculos
XIX e XX, respectivamente.
37

1.1.3 Histórico de estudos dialetológicos brasileiros

Ferreira e Cardoso (1994, p. 37) dividiram a história dos estudos dialetais brasileiros em
três grandes diferentes fases, a partir de uma delimitação bipartite sugerida por Antenor
Nascentes em meados do século XX passado.
Para as autoras, a primeira fase compreende os anos entre 1826 até 1920. Em 1826, o
baiano Domingos Gomes de Barros, Visconde da Pedra Branca, escreveu a primeira obra de
natureza dialetal a se referir sobre a língua falada no Brasil, como capítulo integrante do livro
Introduction à l’Atlas ethnographique du globe. Segundo Aragão (2008, p. 10), na descrição
da língua portuguesa no Brasil, “o Visconde mostrou as interferências e os termos e expressões
incorporadas ao português, partindo das línguas indígenas faladas no Brasil”. Essa fase
caracteriza-se pela riqueza de obras de cunho lexicográfico sobre o Português Brasileiro, como
o diccionario de vocabulos brasileiros, de Beaurepaire Rohan, que foi presidente da Província
da Paraíba entre 1857 e 1859.
A segunda fase começa com a publicação de O dialeto caipira, de Amadeu Amaral, em
1920, e tem como característica principal a profícua publicação na área de estudos gramaticais,
apesar de haver uma continuidade nos estudos lexicográficos caracterizadores da primeira fase.
Os trabalhos que merecem destaque, nessa fase, são: O dialeto caipira, obra inicial já citada, O
linguajar carioca, de Antenor Nascentes, publicado em 1922 e que teve uma segunda edição
em 1953, e A língua do Nordeste, de Mario Marroquim, originalmente lançada em 1934.
Nessa época, a Dialetologia tradicional ocupava-se principalmente com as variedades
usadas pelos falantes rurais, residentes em áreas mais isoladas, e oriundos das camadas
tradicionalmente chamadas de “incultas”, ou seja, analfabetas. Essa tendência é confirmada nos
objetivos de O dialeto caipira, expresso por Amadeu Amaral (1920, p. 2): “caracterizar esse
dialeto ‘caipira’, ou, se acham melhor, esse aspecto da dialetação portuguesa em S. Paulo. Não
levaremos, por isso, em conta todos os paulistismos que se nos têm deparado, mas apenas
aqueles que se filiam nessa velha corrente popular” (grifos do autor). Para Amadeu, como se
faz evidente, os genuínos caipiras, seus informantes, eram “os roceiros ignorantes e atrasados”.
Seguindo a diretriz traçada por Amaral, Antenor Nascentes esclarece, no primeiro
capítulo, o tipo de estudo dialetológico que o cativa, deixando transparecer uma opinião que
pode causar espanto para os dias de hoje: “Pouco nos interessa a língua das classes cultas,
primeiro porque é correta, segundo porque lhe falta a naturalidade, a espontaneidade da língua
popular” (NASCENTES, 1953, p. 14). Após percorrer todo o Brasil, o autor apresentou, na
segunda edição de O linguajar carioca, uma proposta de divisão dialetal brasileira em duas
38

grandes áreas: a norte e a sul, sendo que cada uma delas é subdividida em subáreas,
representadas pelas seguintes variedades ou falares: amazônico, nordestino, baiano, mineiro,
fluminense, sulista e território incaracterístico. Para melhor compreender a localização desses
falares, o mapa proposto por Nascentes, em 1953, é reproduzido abaixo.

Figura 1 – Divisão dialetal do Brasil proposta por Antenor Nascentes


Fonte: reproduzido de Bortoni-Ricardo (2004, p. 31)

Pertencente à grande área do Norte, o falar nordestino abrange os estados do Maranhão,


Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas e parte de Goiás. Nascentes
denominou de “território incaracterístico” o perímetro entre a parte da fronteira boliviana, a
fronteira de Mato Grosso com o Amazonas e o Pará, porque era bastante despovoada à época
da elaboração dessa divisão.
A relevância da proposta de Nascentes pode ser resumida nesta conveniente citação de
Aragão (2008, p. 127):
39

[...] O autor propôs pela primeira vez, com bases lingüísticas, a divisão dos falares
brasileiros, fato que até hoje nenhum outro autor conseguiu fazer de modo coerente e
aceitável. Pesquisas realizadas em Atlas lingüísticos atuais, da região nordeste,
confirmam, de certa forma, o acerto do autor em sua divisão dialetal do português do
Brasil.

Ainda nesta segunda fase, merece destaque o livro de Mário Marroquim, intitulado de
A língua do Nordeste, que foi publicado pela primeira vez em 1934. O autor fez uma pesquisa
de campo, da qual resultou um levantamento minucioso sobre os falares dos estados de
Pernambuco e Alagoas, assinalando aspectos específicos nos planos fonético-fonológico,
lexical e morfossintático desses dois estados, mas que, na verdade, são percebidos por todo o
Nordeste. Na obra, sobejam ilustrações de metaplasmos brasileiros que estão na boca do
nordestino simples, abundam exemplos de vocábulos que entraram na língua portuguesa
advindos da influência das línguas africanas e do Tupi, falado pelo povo autóctone, além de
arcaísmos e construções típicas da gramática do “matuto”. A relevância de A língua do Nordeste
é destacada no prefácio que aparece na segunda edição de 1945, e que é reproduzido na terceira
edição. Nele, Gilberto Freire (1996, p. 6) faz questão de sublinhar

[...] a liberdade de preocupações gramatiqueiras e de afetações acadêmicas que se


respira nas páginas do sr. Mário Marroquim. Ele não hesita em recolher exemplos de
boa expressão nordestina e de fase teluricamente brasileira de romances como do sr.
José Lins do Rego. Ao contrário: destaca-o.

A terceira fase dos estudos dialetais inicia-se com as preocupações em produzir estudos
de geografia linguística que consolidem a disciplina no Brasil. Para Cardoso (2010, p. 138), o
marco inaugural desse período é um ato do governo brasileiro, especificamente o decreto no
30.643/1952, promulgado pelo então presidente Getúlio Vargas, com a finalidade principal de
elaborar o Atlas Linguístico do Brasil (ALB, na sigla da época). Entretanto, cientes das
dificuldades encontradas, os dialetólogos dessa fase entenderam que esse empreendimento teria
de ser adiado, enquanto o fomento aos atlas regionais deveria ser incentivado. Esse período
estende-se até a edição do primeiro atlas estadual do Brasil, o Atlas Prévio dos Falares Baianos
(APFB), publicado em 1963.
O APFB é resultado do trabalho de Nelson Rossi em coautoria com Dinah Isensee e
Carlota Ferreira. Com essa obra, Rossi torna-se o pioneiro na aplicação da geografia linguística
no Brasil, “colocando-se entre os que, com maior rigor científico e precisão metodológica, se
empenharam na implantação dos estudos dialetais” (CARDOSO, 2010, p. 141). Conforme já
mencionado, a possibilidade de intercomparabilidade de dados foi o grande mérito de Wenker
40

(vide 1.1.2); ao elaborar o APFB, juntamente com suas colaboradoras, Rossi (1967, p. 104)
reforça esse caráter metodológico da dialetologia ao fazer a seguinte afirmação:

[...] Convirá, porém, nunca esquecer que a dialectologia é essencialmente contextual:


o fato apurado num ponto geográfico ou numa área geográfica só ganha luz, força e
sentido documentais na medida em que se preste ao confronto com o fato
correspondente – ainda que por ausência – em outro ponto ou em outra área (Grifos
do autor).

Outra importante característica do APFB diz respeito ao fato de ele registrar dados
etnográficos em suas cartas, “muitos deles acompanhados de ilustrações de objetos segundo a
descrição que apresentavam os informantes ou pela exibição que deles faziam (CARDOSO,
2010, p. 147), como a carta 53, que exibe figuras referentes ao item “onde se guarda rapé11”.
Depois do APFB, surgiu o Esboço de um Atlas Linguístico de Minas Gerais (EALMG),
resultado do trabalho de José Ribeiro, Mário Zágari, José Passini e Antônio Gaio. Idealizado
para ter quatro volumes, dos quais o primeiro foi publicado em 1977, o trabalho traz cartas
fonéticas e lexicais que abordam as áreas semânticas “tempo” e “folguedos infantis”
(FERREIRA; CARDOSO, 1994, p. 55).
O Atlas Linguístico da Paraíba (ALPB), produzido sob a coordenação das professoras
Maria do Socorro Silva do Aragão e Cleusa Bezerra de Menezes, foi o terceiro atlas estadual.
No ano de 1984, dois dos seus três volumes foram editados pela UFPB e pelo CNPq. No que
se refere ao método do ALPB, foi aplicado um questionário dividido em duas partes: uma mais
geral, com 289 questões ligadas aos campos semânticos terra, homem, família, habitação e
utensílios domésticos, aves e animais, plantação e atividades sociais; e outra mais específica,
com 588 questões versando sobre os então cinco principais produtos agrícolas paraibanos
(mandioca, cana-de-açúcar, agave, algodão e abacaxi).
O primeiro volume traz uma parte introdutória, a metodologia da pesquisa, cartas de
identificação com descrições sobre a Paraíba, suas microrregiões, divisão municipal, as
localidades e seus gentílicos, identificação das inquiridoras e escolaridade dos informantes e,
por fim, as cartas léxicas e fonéticas organizadas de forma intercalada. O segundo volume é
constituído de cinco partes principais: a apresentação (novamente) da metodologia, a
caracterização histórico-geográfica da Paraíba, a situação geoeconômica e sociocultural das
localidades, a caracterização dos informantes, a análise das formas e estruturas linguísticas

11
Pó resultante de folhas de tabaco torradas e moídas, por vezes misturadas a outros componentes, especialmente
aromáticos. É usado para inalação, e pode provocar espirros. (HOUAISS; VILAR, 2009). A etimologia vem do
particípio passado do verbo francês râper, ralar em português.
41

encontradas, e um glossário com 363 verbetes, no qual se verificou a dicionarização ou não dos
itens lexicais coletados. Para a feitura desse repertório linguístico, foram consultadas 8 obras,
entre dicionários, vocabulários e glossários.
O glossário do ALPB não traz definições, pois, segundo a autora, “o objetivo era remeter
o leitor ao termo básico, tema de cada carta” (ARAGÃO, 1984, p. 65). Cada verbete é
acompanhado da transcrição fonética da realização mais frequente na região e a indicação, entre
parênteses, do número da carta em que este se encontra.
O Atlas Linguístico de Sergipe (ALS), de autoria de Carlota Ferreira, Jacyra Mota,
Judith Freitas, Nadja Andrade, Nelson Rossi, Suzana Cardoso e Vera Rollemberg, foi publicado
em 1987, mas os originais já estavam prontos desde 1973. Seguiram-se o Atlas Linguístico do
Paraná (ALPR), de Vanderci de Andrade Aguilera, em 1994, e o Atlas Linguístico-Etnográfico
da Região Sul (ALERS), que seria publicado em 2002. Coordenado pelo Professor Walter Koch,
o ALERS foi o sexto atlas brasileiro e inovou por ser o primeiro a não se limitar ao mapeamento
de um Estado, já que abrangeu aspectos, tanto linguísticos quanto culturais, referentes aos três
Estados da região Sul do país. Depois desses trabalhos, seguiram-se vários outros atlas
regionais12, mas a vontade de confeccionar um atlas linguístico brasileiro voltou a ganhar força.
A ideia de elaboração de um atlas nacional, segundo informa o site do Projeto ALiB13,
foi retomada por ocasião do Seminário Nacional Caminhos e Perspectivas para a Geolinguística
no Brasil, realizado em Salvador, na Universidade Federal da Bahia (UFBA), em novembro de
1996. Nove anos depois, em 2005, Mota e Cardoso, propuseram uma reformulação da divisão
proposta por Ferreira e Cardoso para a história dos estudos dialetais que apresentamos até agora.
Na nova proposição, as autoras defendem que a terceira fase inicie-se em 1952 e “estabelecem
um corte, em 1996, data a partir da qual demarcam o começo do quarto período” (CARDOSO,
2010, p. 142), o que, aliás, já está em pleno progresso, com o lançamento de dois volumes do
Atlas Linguístico do Brasil (ALiB) durante o III Congresso Internacional de Dialetologia e
Sociolinguística (III CIDS), realizado na cidade de Londrina entre os dias 7 e 10 de outubro de
2014.
O significado dos resultados obtidos ao longo dessas fases pode ser resumido no
depoimento de Aragão (2008, p. 126): “Agora não apenas a pré-geolingüística, mas a

12
Atlas Linguístico do Ceará (publicado em 2010), Atlas Linguístico do Maranhão (iniciado em 2002), Atlas
Linguístico do litoral potiguar (tese de Doutorado em 2007) e Atlas Linguístico de Pernambuco (tese de Doutorado
em 2013), só para citar o Nordeste.
13
https://alib.ufba.br/.
42

Geolingüística Brasileira, que, sem qualquer favor, está à altura dos estudos geolingüísticos em
qualquer país do mundo”.
Por fim, vimos que os estudos dialetológicos têm uma preocupação com a
heterogeneidade linguística em decorrência das inter-relações entre língua e espaço, e que o
método geolinguístico utiliza, para a descrição dessa variabilidade, a elaboração de atlas
linguísticos. Esses estudos também têm um grande apreço pelo elemento humano, em vista da
espontaneidade de seu falar, que é, indiscutivelmente, influenciado pelo saber sociocultural.
Por isso mesmo, no próximo item, trataremos sobre os pressupostos da Etnolinguística na
investigação das relações entre língua e cultura.

1.2 A CONTRIBUIÇÃO DA ETNOLINGUÍSTICA

A Etnolinguística é uma disciplina afim da Dialetologia. Como vimos no item 1.1,


Serafim da Silva Neto considera a Dialetologia inserida no campo de estudos da Etnografia,
que, segundo Câmara Cascudo (1983 [1971], p. 26), “estuda a origem e estabelecimento,
modificações e vitalidade das culturas humanas”. Ainda na visão do mestre Cascudo, a
tendência, na contemporaneidade, é incorporar à antropologia os métodos que dizem respeito
ao estudo do Homem, dentre eles a etnografia. É decerto por isso que o termo Etnolinguística,
mais usado na tradição europeia, é também conhecido pelas denominações “antropologia
linguística”, “linguística etnográfica”, ou “linguística antropológica”, que enfatizam o interesse
nas relações entre uma língua e as características culturais da comunidade que a fala. Com efeito,
na coleta de dados para a preparação de atlas linguísticos, o dialetólogo busca, necessariamente,
informações relativas aos hábitos de vida da região que pretende estudar, além de fazer um
levantamento lexical de campos semânticos, tais como terra, homem, família, habitação e
utensílios domésticos, aves e animais, plantação e atividades sociais (tal qual explorado pelo
ALPB, conforme vimos). A coleta dessas informações objetiva não apenas a simples rotulagem
de objetos e práticas mas também a verificação de sua função na sociedade investigada.
Etnolinguística e Dialetologia são, portanto, disciplinas que caminham juntas.
É nos anos quarenta que a Etnolinguística ou Antropologia Linguística começa a se
afirmar como ramo do conhecimento que privilegia o estudo de línguas consideradas exóticas,
faladas por sociedades remotas, em especial as indígenas. Nessa época, destacam-se os
trabalhos pioneiros de Franz Boas (antropólogo) e de antropólogos e linguistas como Edward
Sapir. Nos anos cinquenta, Sapir, juntamente com seu discípulo, Benjamin Lee Whorf,
estudando as relações entre linguagem e cultura, divulgam a tese do relativismo linguístico, que
43

fica conhecida como “hipótese Sapir-Whorf”. Segundo Lyons (1981, p. 276), em sua versão
extrema, essa tese “combina determinismo linguístico (‘a linguagem determina o pensamento’)
com relatividade linguística (‘não há limites para a diversidade estrutural das línguas’)”. O autor
também afirma que as proposições categóricas da referida hipótese não encontram respaldo
científico atualmente, não obstante se reconheça a inequívoca influência da cultura sobre a
língua.
Duranti (1997, p. 02), que prefere o termo Antropologia Linguística à Etnolinguística,
apresenta a disciplina como “o estudo da língua como um recurso cultural e da fala como uma
prática cultural”14. De outro modo, buscando fazer uma delimitação precisa do objeto próprio
da Etnolinguística, Coseriu (1982) a define como uma disciplina linguística que deve limitar-
se ao estudo da variedade e variação da linguagem (em particular o léxico) em relação com a
civilização e a cultura. São justamente essas ideias que influenciam o nascimento de uma
Semântica Cultural, conforme veremos em 2.2.1 adiante.
Devido à complexidade no uso do termo “cultura”, é necessário esclarecer o seu
emprego, neste estudo, antes de avançarmos na reflexão sobre o escopo da Etnolinguística.

1.2.1 Cultura, civilização e cultura popular

Em seu sentido etimológico, cultura deriva de cultum15, forma nominal do verbo latino
colere ligada ao trabalho de cultivo agrícola, de trabalhar a terra para a produção apropriada.
Só figurativamente é que passou a designar o “cultivo” do espírito humano. Para Cascudo (1983
[1971], p. 41), podemos compreender a cultura como “o patrimônio tradicional de normas,
doutrinas, hábitos, acúmulo do material herdado e acrescido pelas aportações inventivas de cada
região”. Reconhecendo o caráter de vocábulo equívoco, Burke (2010 [1978], p. 9) conceitua
cultura como “um sistema de significados, atitudes e valores partilhados e as formas simbólicas
(apresentações, objetos artesanais) em que eles são expressos ou encarnados”. No mesmo
sentido, Elia (1987, p. 48) assume que “tudo que resulta da ação do homem sobre a natureza e
sobre si mesmo pertence à cultura, no sentido amplo antropológico do termo: habitação, meios
de transporte, vestuário, culinária, magia, religião, ciências, letras e artes”.
De outro lado, de Civis, cidadão, veio civilidade e civilização. Eagleton (2011) afirma
que, no século XVIII, os termos cultura e civilização foram usados, como vocábulos sinônimos,

14
Tradução nossa de: the study of language as a cultural resource and speaking as a cultural practice.
15
Forma nominal do verbo latino, em -um, de sentido ativo, que se usa apenas junto a verbos que indicam
movimento, como, p.ex., ire, venire etc. (fuerunt rogatum auxilium ‘foram pedir ajuda’) (HOUAISS; VILAR,
2009).
44

para denotar progresso intelectual, refinamento espiritual e material, para depois assumirem
conceitos distintos no início do século XX. No julgamento de Cascudo (1983 [1971], p. 44), a
interpretação e distinção mais adequada desses termos está no fato de a cultura relacionar-se
mais ao “esforço humano imediato e assíduo [enquanto a] civilização [é] mais ampla, luminosa
e vaga [..]”. Ou seja, para o autor, a cultura é parte de um todo – a civilização.
Consequentemente, Cascudo entende que práticas culturais de um povo podem até emigrar de
um lugar a outro; a civilização não. Um povo, por exemplo, pode receber influência de “técnicas,
organização social, linguagem, [...] sem que fique possuindo características reais da civilização
comunicada” (CASCUDO, 1983 [1971], p. 46). Assim sendo, é válido afirmar que o Brasil,
embora colonizado por Portugal, não compartilha de uniformização nem cultural nem
linguística em relação à civilização portuguesa.
Por todo o exposto, é relevante destacar que o termo “cultura” é usado aqui nesse sentido
antropológico, admitindo que toda sociedade possui sua própria cultura e que não há
superioridade intrínseca de uma sobre a outra. A condição de prestígio que uma manifestação
cultural assume em um grupo é de origem meramente social.
Para Lyons (1981), a cultura é um conhecimento que se adquire socialmente. Esse
conhecimento pode ser tanto prático quanto proposicional e constitui, nas palavras do autor,
“tanto o saber fazer algo quanto o saber que algo é ou não é assim” (LYONS, 1981, p. 274).
Saber que algo é ou não é assim diz respeito ao tratamento que cada cultura dá a um enunciado
que considera como “verdadeiro” ou “falso”, mas que não corresponde, necessariamente, à sua
veracidade ou falsidade reais. Declarações sobre crenças religiosas ou convicções sobre valores
morais, por exemplo, podem ser interpretadas e valoradas de formas diferentes por cada povo,
evidenciando os caracteres simbólico e axiológico da cultura.
É preciso deixar assente que as tradições culturais refletem a existência de grupos
socialmente diferenciados dentro de um país ou região. Burke (2010 [1978]) identifica uma
tradição da elite e outra do povo no início da Europa moderna. A primeira, chamada de grande
tradição, era transmitida, em linguagem própria, pelos liceus e universidades, estabelecimentos
fechados e restritos às pessoas abastadas. Já os excluídos participavam da pequena tradição,
que era transmitida de maneira informal e “estava aberta a todos, como a igreja, a taverna e a
praça do mercado (BURKE, 2010 [1978], p. 36). É dessa pequena tradição que vem a definição
de cultura popular oferecida pelo autor, ou seja, “uma cultura não oficial, a cultura da não elite,
das classes subalternas”. Para explicitar melhor o que entende por “não elite”, no início da
Europa moderna, Burke (2010 [1978], p. 9) assim se expressa:
45

[...] era todo um conjunto de grupos sociais mais ou menos definidos, entre os quais
destacavam-se os artesãos e os camponeses. Portanto uso a expressão “artesãos e
camponeses” (ou “povo comum”) para sintetizar o conjunto da não elite, incluindo
mulheres, crianças, pastores, marinheiros, mendigos e os demais grupos sociais.

Questionado pelo repórter e pesquisador paraibano, Assis Ângelo, sobre o que era
cultura popular, assim se manifestou o mestre Luís da Câmara Cascudo, em 1979:

Cultura popular é a que vivemos, é a cultura tradicional e milenar que nós aprendemos
na convivência doméstica. A outra é a que estudamos nas escolas, na universidade e
nas culturas convencionais, pragmáticas da vida. Cultura popular é aquela que até
certo ponto nós nascemos sabendo. Qualquer um de nós é um mestre, que sabe contos,
mitos, lendas, versos, superstições, que sabe fazer caretas, apertar mão, bater palmas
e tudo quanto caracteriza a cultura anônima e coletiva.

Cascudo, portanto, já associava a cultura popular à aprendizagem decorrente da


convivência humana fora dos estabelecimentos de ensino. Qualquer um pode ser mestre, em
alguma medida, pela transmissão de tradições do povo, mesmo sem ter recebido a instrução
formal. Assim como sucede em relação às culturas de diferentes regiões, a hierarquização entre
cultura erudita e cultura popular também ocorre por avaliação social e não por uma
superioridade inerente entre elas.
Voltando ao escopo da Etnolinguística, cabe sublinhar o fato de que essa disciplina trata
dos fatos linguísticos que manifestam as ideias, as crenças e os costumes acerca da realidade,
filtrada e modelada, em certa medida, pela cultura de uma comunidade linguística (COSERIU,
1982). Nesse sentido, Goodenough (1957, p. 37) entende que “a língua de uma sociedade é um
aspecto de sua cultura”16, pois ao aprender e usar uma língua, o homem aprende também muito
de seu acervo cultural. Sendo assim, língua e cultura são noções interdependentes.
A justificativa para a inserção da Etnolinguística neste trabalho ancora-se na percepção
de que, além do espaço geográfico de nascimento, a formação cultural de Gonzaga envolveu
valores, crenças e saberes que o marcaram por toda a vida e afetaram o seu modo de falar
peculiar: uma variedade linguística popular que ele divulgaria para o resto do país.
A Etnolinguística (ou Antropologia Linguística) é, pois, um ramo interdisciplinar que
aciona diversas ciências em torno do seu objeto de estudo. Consoante Rodríguez (2003, p. 471),
ela
[...] compartilha métodos, teorias e objetivos com outras ciências mais ou menos afins.
A antropologia e a linguística serão, obviamente os referentes principais, mas os
interesses da sociolinguística, dialetologia, da história, da sociologia, da análise do

16
Tradução de: […] a society’s language is an aspect of its culture.
46

discurso ou da psicolinguística também se sobrepõem, às vezes, aos da disciplina que


nos interessa.17

Dentre essas várias disciplinas, existentes nas áreas humanística e social, aquela que é
considerada a mais próxima da Etnolinguística é a Sociolinguística (DURANTI, 1997), razão
pela qual, no item seguinte, abordaremos acerca das características da Sociolinguística, que
compreende, também, parte do manancial teórico deste trabalho.

1.3 A VISÃO SOCIOLINGUÍSTICA

Segundo Elia (1987), o termo “sociolinguística” foi criado em 1949, embora sua difusão
tenha somente se concretizado nos anos 60, o que a caracteriza como uma disciplina
relativamente nova, voltada ao estudo do entrelaçamento entre língua e sociedade. Na verdade,
os sociolinguistas receberam influência da dialetologia, da etnografia e das noções de
relativismo cultural e linguístico, disciplinas e conceitos que foram pavimentando o caminho
por onde esses estudiosos deveriam trilhar. Trudgill (1985, p. 32) deixa isso claro quando nos
apresenta a sociolinguística como o “ramo da linguística que se ocupa com a língua enquanto
um fenômeno social e cultural”18.
Embora vários autores já tenham tratado dessa inter-relação em seus estudos, como o
russo Mikhail Bakthin (1988 [1929], p. 123), para quem “a verdadeira substância da língua é
constituída pelo fenômeno social da interação verbal”, e o francês Émile Benveniste (2005
[1966], p. 31), com a tese de que “a linguagem se realiza sempre dentro de uma língua, de uma
estrutura lingüística definida e particular, inseparável de uma sociedade definida e particular”,
o grande impulsionador dos estudos sociolinguísticos foi, sem dúvida, William Labov. Para o
linguista norte-americano, o objeto da Sociolinguística é “a língua, o instrumento que as pessoas
usam para se comunicar com os outros na vida cotidiana. Esse é o objeto que é o alvo do
trabalho em variação linguística”19 (LABOV, 2007, p. 2). Para o autor, as pressões sociais
influenciam sobremaneira as mudanças que ocorrem atualmente na língua de uma comunidade
(LABOV, 2008 [1972]).

17
Nossa tradução de: […] comparte métodos, teorías y objetivos con otras ciencias más o menos afines. La
antropología y la lingüística serán, obviamente, los referentes principales, pero los intereses de la sociolingüística,
la dialectología, la historia la sociología, el análisis del discurso o la psicolingüística también se solapan, en
ocasiones, a los de la disciplina que nos ocupa.
18
Tradução de: “[…] part of linguistics which is concerned with language as a social and cultural phenomenon”.
19
Tradução de Gabriel de Ávila Othero: It’s language, the instrument that people use to communicate with each
other in every-day life. That’s the object that is the target of the work on linguistic change and variation.
47

Labov (1987) considera ainda que há uma divisão bastante marcada nos estudos
linguísticos, a qual corresponde estreitamente à oposição filosófica tradicional entre idealismo
e materialismo. Conforme interpreta, essa divisão equivaleria, na tradição linguística, aos
vocábulos “racionalismo” ou “mentalismo” versus “empirismo”.
A abordagem idealista pode ser exemplificada pela gramática gerativa de Noam
Chomsky, que constitui um exemplo de proposta de análise linguística cuja ênfase está no
aspecto sintático, voltada para questões formais da língua, em termos de propriedades internas
ao sistema linguístico (BERLINCK; AUGUSTO; SCHER, 2012). Chomsky estabelece um
paralelo entre os conceitos de “língua” e “fala”, de Saussure, com a sua proposta dicotômica
entre “competência” e “desempenho”. Em termos conceituais, a “competência” detém caráter
abstrato, consistindo no conhecimento internalizado que todo falante nativo possui de sua
língua, enquanto o “desempenho” é concreto, resultado do uso efetivo da língua. Sob essa
perspectiva, a abordagem idealista ainda está ligada ao axioma da homogeneidade da língua.
Inversamente, para Labov (1987, p. 2),

a posição materialista é exemplificada pela prática mais recente na fonética,


linguística histórica e dialetologia. Os princípios dessa posição têm sido
desenvolvidos mais explicitamente na sociolinguística e, em particular, nos estudos
quantitativos da variação linguística [...].20

Percebe-se, então, a possível interseção entre Dialetologia e Sociolinguística. Como


salienta Callou (2010, p. 35), “são, assim, Dialetologia e Sociolinguística duas perspectivas de
observação e análise da língua que não se opõem, mas sim se encontram e se complementam”.
Por tratar do contexto sociocultural e do produtor da fala, a Sociolinguística é,
inegavelmente, uma disciplina ampla e interdisciplinar, o que justifica suas múltiplas incursões
em estudos e pesquisas sobre diversos aspectos da comunicação verbal, notadamente nos
campos da variação e mudança linguísticas (BORTONI-RICARDO, 2014). É justamente em
decorrência dessa percepção de heterogeneidade linguística que surgiram expressões como
Sociolinguística Variacionista.

20
Tradução nossa do inglês: […] “The materialist position is exemplified by the practice current in phonetics,
historical linguistics, and dialectology. The principles of this position have been developed most explicitly in
sociolinguistics, and in particular in the quantitative study of linguistic variation […]”
48

Trudgill (1985, p. 32) afirma que a Sociolinguística “possui relação íntima com as
ciências sociais, especialmente a psicologia social 21 , antropologia 22 , geografia humana 23 e
sociologia”24. Em referências a essas relações, Elia (1987) explica que, na fase preliminar de
afirmação da Sociolinguística, a expressão “sociologia da linguagem” passou também a ser
utilizada, fazendo com que houvesse alguma incerteza quanto à existência ou não de diferença
entre essas duas disciplinas. De fato, não são poucos os autores que consideram os dois campos
de atuação como sinônimos. Diante desse impasse conceitual, Coseriu (1990) constatou que a
distinção entre as duas disciplinas envolvia, na realidade, uma questão de ênfase. Assim, se o
objeto de estudo é a linguagem e as diferenças linguísticas correlacionadas com os níveis sociais,
o que se faz é um estudo de Sociolinguística ou Linguística Sociológica propriamente dita, em
que a sociologia é mera coadjuvante. Se o contrário ocorre, ou seja, se o objeto de estudo é o
contexto social, as relações sociais como tais, e a Linguística é mera disciplina auxiliar, está-se
no domínio da Sociologia da Linguagem.
Em contrapartida, Bagno (2013) entende que há, sim, uma diferença significativa entre
Sociolinguística e Sociologia da Linguagem. Para ele, a Sociolinguística variacionista termina
a sua tarefa exatamente no ponto em que a sociologia da linguagem considera que deveria
começar a verdadeira explicação sobre as consequências, linguísticas e sociais, decorrentes da
variação. No entanto, vale ressalvar o fato de que Bagno não desconsidera o grande valor da
Sociolinguística. Para exemplificar o seu posicionamento, o autor sugere a figura reproduzida
a seguir, que demonstra as diferenças de interpretação da heterogeneidade linguística na
sociolinguística variacionista e na sociologia da linguagem.

21
Ramo da psicologia no qual as descobertas da psicologia do desenvolvimento, da personalidade e da motivação
são aplicadas à interação social ou, mais precisamente, ao ambiente cultural do indivíduo (HOUAISS; VILAR,
2009, passim).
22
Ciência do homem no sentido mais lato, que engloba origens, evolução, desenvolvimentos físico, material e
cultural, fisiologia, psicologia, características raciais, costumes sociais, crenças etc. (HOUAISS; VILAR, 2009,
passim).
23
Ramo da geografia que estuda as mudanças no globo terrestre, decorrentes da atividade humana;
antropogeografia (HOUAISS; VILAR, 2009, passim).
24
Tradução nossa de: “It [..] has close connections with the social sciences, especially social psychology,
anthropology, human geography, and sociology”.
49

Figura 2 – Diferença entre Sociolinguística Variacionista e Sociologia da Linguagem por Bagno


Fonte: reproduzido de Bagno (2013, p. 53)

Como é possível observar, as duas disciplinas concebem que as variedades da língua


possuem equivalência funcional, ou seja, elas oferecem aos seus falantes opções linguísticas
que são perfeitamente utilizáveis em qualquer interação verbal, não obstante as suas diferenças
gramaticais. Porém, para Bagno (2013), a distinção entre elas está no fato de que a Sociologia
da Linguagem considera que essas diferentes variedades linguísticas recebem diferentes valores
na sociedade. Dessa forma, há uma hierarquização social que rotula os diferentes falares de uma
comunidade como bons ou ruins, superiores e inferiores. Crystal (1988, p. 243), por sua vez,
embora sugira que a sociologia da linguagem tem uma preocupação maior com as explicações
sociológicas em detrimento das linguísticas, admite que aquela é “um nome alternativo para o
assunto”, ou seja, para as questões discutidas pela própria Sociolinguística. O próprio Bagno
(2013, p. 52) chega a admitir que, “em muitos aspectos, há mesmo uma sobreposição dos
campos de interesse e atuação de cada disciplina”.
Diante dessas reflexões, nosso posicionamento vai ao encontro do pensamento de Elia
(1987), que considera ser difícil fazer uma repartição nítida entre os dois pontos de vista; por
isso, admitimos que, em sentido amplo, os pressupostos da Sociolinguística podem englobar as
50

concepções defendidas pela sociologia da linguagem, conforme ilustrado na figura antecedente


proposta por Bagno.
Um dos mais importantes postulados da Sociolinguística, responsável pelo seu
desenvolvimento e prestígio nos estudos linguísticos, diz respeito “ao reconhecimento da
importância do fato de que a língua é um fenômeno muito variável e que essa variabilidade
pode ter a ver tanto com a sociedade quanto com a língua” 25 (TRUDGILL, 1985, p. 32). Tal
constatação torna necessário tecer alguns comentários sobre a variação, a variante e variedade
linguísticas.

1.3.1 Heterogeneidade linguística: variação, variante e variedade

Os estudos empreendidos pela Sociolinguística têm como ponto de partida a


investigação em uma comunidade de falantes que utilizam uma língua, mas que não empregam
a mesma forma de falar o tempo todo, embora compartilhem conjuntos de regras 26 em relação
a essa forma de falar. Admite-se, pois, que em toda comunidade linguística sempre se encontra
heterogeneidade linguística, ou seja, variação. Bortoni-Ricardo (2014, p. 68) esclarece melhor
essa questão:

[...] As formas que supostamente transmitem o mesmo conteúdo semântico, expresso


com recursos linguísticos distintos, vão caracterizar regras variáveis, e suas
alternativas são denominadas variantes. Por exemplo, as formas “nós fomo”, “nós
fomos”, “nós foi” e “nós fumu” são quatro variantes da mesma forma verbal do
português do Brasil.

Logo, o termo variável designa algum elemento da língua, que se realiza de maneiras
diferentes. Já as variantes, conforme explicitado pela autora, são diferentes possibilidades de
ocorrência de uma regra variável; no caso exemplificado, faz-se referência às diferentes formas
de realização (no nível morfossintático) de concordância verbal no Português Brasileiro.
Contudo, não é apenas no nível da morfossintaxe que ocorre variação. Como toda língua
apresenta heterogeneidade linguística, é perfeitamente possível a sua existência em outros
níveis, tais como:
a) variação fonético-fonológica: é comum haver diferentes realizações do fonema /ʎ/, seja pela
despalatização simples, seja pelo fenômeno da despalatização e consequente iotização, que

25
Tradução nossa do original em inglês: […] the recognition of the importance of the fact that language is a very
variable phenomenon, and that this variability may have as much to do with society as with language.
26
A palavra regra é usada, aqui, no sentido científico de “tudo aquilo que revela uma regularidade” (cf. BAGNO,
2007, p. 42).
51

possuem, respectivamente, as seguintes representações gráficas: “mulher” > “mulé”, “mulher”


> “muié” (essas alterações serão melhor explicitadas quando tratarmos de metaplasmos
fonéticos mais adiante, no capítulo 2).
b) variação semântica: itens lexicais podem ter diferentes sentidos, dependendo da origem
regional do falante, como a palavra “vexame”, que pode significar tanto “vergonha” quanto
“pressa” (BAGNO, 2007);
c) variação lexical: “abóbora” e “jerimum”, “macaxeira” e “aipim” significam a mesma coisa.
Já, em Sociolinguística, a palavra “variedade” serve para referir-se ao emprego de
diferentes maneiras de falar. Num plano sincrônico, é possível encontrar, em uma comunidade,
a coexistência de um conjunto de variedades linguísticas distintas, visto que “os habitantes
falam de modo diferente, em função, por exemplo, de sua origem regional, de sua classe social,
de suas ocupações, de sua escolaridade e também da situação em que se encontram” (ALKMIM,
2012, p. 35). A autora ainda acrescenta que a esse conjunto de variedades dá-se o nome de
repertório verbal. Assim, podemos estudar e descrever o uso da variedade rural nordestina
presente na obra de Luiz Gonzaga, tal qual proposto neste trabalho, por exemplo.
Por fim, os estudos sociolinguísticos, ora apresentados, constataram que toda língua é
heterogênea. Mas não só isso: descobriram que toda heterogeneidade é ordenada e sujeita a
condicionamentos linguísticos e socioculturais, conforme veremos a seguir.

1.3.2 Variação linguística: fatores linguísticos e sociais

Toda variação é sistemática e habitualmente condicionada por fatores linguísticos e de


ordem social. Para ilustrar esse postulado sociolinguístico, apresentamos, a seguir, um exemplo
oferecido por Bagno (2007).
Quando pronunciamos as palavras “raspa” e “rasga” em sequência, dois sons são
produzidos para a representação gráfica do “s”: um som de [s] apresenta-se na primeira palavra
e um som de [z] aparece na segunda. Segundo o autor, a explicação para tal fato é bastante
simples e se deve à influência do contexto fonético encontrado nas duas palavras. O “s” de
“raspa” está diante da consoante surda (ou desvozeada) [p], que é produzida sem a vibração das
cordas vocais e, por isso, há a realização do “s” como [s], que também é uma consoante
desvozeada.
Com a palavra “rasga” ocorre algo semelhante: o “s” está diante da consoante sonora
(vozeada) [g], que é realizada com a vibração das cordas vocais; por isso ela é produzida como
um [z], que também é uma consoante sonora. Em suma, houve influência do contexto fonético
52

nas palavras analisadas, ou seja, a presença do traço de sonoridade em um fonema vai


influenciar o vozeamento do fonema seguinte. Da mesma forma, o não vozeamento de um
fonema influenciará o desvozeamento do outro, o que explica a variação entre [s] e [z] ser
decorrente de um condicionamento exclusivamente linguístico.
Sob outra perspectiva, vamos considerar o mesmo par de palavras usadas acima, sendo
pronunciadas como “ra[ʃ]pa” e “ra[ʒ]ga”, respectivamente. Nesse caso específico, é possível
encontrar um tipo de variação que não é condicionada somente do ponto de vista linguístico.
Sobre o tema, Bagno (2007, p. 41) faz o seguinte esclarecimento:

[...] quando um falante que pronuncia “ra[s]pa” ouve uma pessoa pronunciar “ra[ʃ]pa”,
com o “s” chiado, essa variação logo chama a atenção, provoca alguma reação da
parte do primeiro falante, que tem consciência da diferença – é muito provável que
procure identificar seu interlocutor como proveniente de um estado ou de uma região
diferente da sua.

O autor destaca que, nesse tipo de variação, há um condicionamento não apenas


linguístico mas também diatópico, devido à procedência geográfica do falante. A pronúncia do
“s” como consoante alveopalatal [ʃ], chiante, é comum em várias partes do Brasil, como no Rio
de Janeiro, por exemplo.
O caso apresentado por Bagno, no plano fonético-fonológico, é bastante significativo e
demonstra, conforme já afirmamos, que a heterogeneidade da língua não é aleatória, mas
ordenada, sistemática e pode ocorrer por causa de condicionamentos linguísticos e sociais.
Os fatores socioculturais que podem influenciar e moldar as línguas são de diversos
matizes e são tradicionalmente referidos na Sociolinguística como fatores “extralinguísticos”.
Veremos a seguir os mais influentes em pesquisas dessa área.

1.3.3 Os tipos de variação

Vimos acima que as variedades linguísticas ocorrem em função de diversos fatores, que
podemos agrupar em três espécies principais: origem geográfica dos falantes, nível social e
situação de comunicação em que se encontram os interagentes. A tradição sociolinguística
adota um nome técnico para a variação linguística decorrente de cada um desses fatores.
Coseriu (1990) assim identifica esses três grandes tipos: a) variação diatópica: aquela que se
refere às diferenças no espaço geográfico, b) variação diastrática: aquela que trata das
diferenças entre os estratos sociais e c) variação diafásica: aquela que lida com as diferenças
53

entre os tipos de modalidades expressivas, segundo os tipos de circunstâncias do falar (falante


– ouvinte – assunto – ocasião de fala).
A variação diatópica (do grego: diá, através de + topos, lugar) investiga e compara os
modos de falar de espaços geográficos distintos, como as diferenças entre os falares das zonas
urbana e rural.
A variação diastrática (diá, através de + stratum: camada), por seu turno, investiga as
formas de falar influenciadas pela idade, pelo gênero, pela raça, pela profissão, pelo grau de
escolarização, pelo status socioeconômico e pela rede social. Sobre a influência da rede social,
assim se expressa Bortoni-Ricardo (2004, p. 49): “[...] a rede social de um indivíduo, constituída
pelas pessoas com quem esse indivíduo interage nos diversos domínios sociais, também é um
fator determinante das características de seu repertório sociolinguístico”. O termo “domínio
social”, usado na Sociologia, foi empregado pela autora para conceituar os espaços físicos onde
os interactantes assumem papéis sociais variados.
A variação diafásica (diá, através de + phásis: modo de falar) é comumente denominada
de variação estilística e diz respeito à variação no grau de formalidade que usamos em nossas
elocuções, que podem conter mais ou menos monitoração linguística. Em outras palavras, nós
variamos a forma como falamos, “de maneira consciente ou menos consciente, conforme a
situação de interação em que nos encontramos” (BAGNO, 2007, p. 45). Desse modo,
deduzimos que nenhum falante possui um estilo ou registro único, variando sua fala de acordo
com o domínio social em que interage.
Nos postulados da Sociolinguística que foram traçados nos tópicos anteriores, vimos,
na figura 2, proposta por Bagno, que os diferentes falares de uma comunidade podem ser
considerados como bons ou ruins, superiores e inferiores. É importante sublinhar, nesse quesito,
que essa suposta superioridade de uma variedade (ou falar) sobre outra é decorrente de uma
avaliação exclusivamente social e não de condicionamentos linguísticos inerentes ao sistema.
A variedade linguística que é socialmente considerada de maior prestígio é geralmente
apresentada como um modelo ou norma a ser seguida.

1.3.4 Norma padrão versus norma culta

Segundo Bortoni-Ricardo (2004), a crença na superioridade de uma variedade sobre as


demais não passa de um mito, sem nenhum fundamento científico. Para a sociolinguista (2004,
p. 33),
54

[...] toda variedade regional ou falar é antes de tudo, um instrumento identitário. [...]
Ser nordestino, ser mineiro, ser carioca etc. é um motivo de orgulho para quem o é, e
a forma de alimentar esse orgulho é usar o linguajar de sua região e praticar seus
hábitos culturais.

Conforme se verifica em nossas análises (cf. Cap. 5), na obra de Luiz Gonzaga, fica
evidente o uso de temas sobre a vida cotidiana dos habitantes da região Nordeste e o orgulho
de ser nordestino; tudo expresso na variedade rural da região. Portanto, ao classificar o falar A
ou B como melhor ou superior, utilizam-se critérios puramente políticos e econômicos, mirando
o grupo que detém maior poder na sociedade. Os falares de maior prestígio no Brasil são
exatamente aqueles falados nas regiões cujas economias são mais ricas. Alçados a uma posição
de suposta superioridade, esses falares passam a ser tratados como modelo ou “norma” a ser
seguida, muitas vezes recebendo a adjetivação de “padrão”.
Para Bagno (2013), não existe a propalada “norma padrão”, já que esta não passa de
uma abstração criada pelos gramáticos normativos, um modelo idealizado, definido e
estabelecido para ser seguido. A explicação do autor é bastante objetiva: “ela não faz parte da
língua, no sentido que a Sociolinguística dá ao termo língua (um feixe de variedades)”
(BAGNO, 2007, p. 19). Logo, a norma padrão não é uma variedade linguística, mas uma norma,
no sentido jurídico, um mandamento que prescreve regras linguísticas aos falantes.
De outra forma, não se deve confundir “norma padrão” com “norma culta”. Esta última
existe de fato, sendo definida como “o conjunto de variedades urbanas de prestígio realmente
empregadas pelas camadas privilegiadas da população” (BAGNO, 2013, p. 63). A “norma culta”
brasileira real foi revelada a partir das pesquisas empreendidas pelo Projeto Norma Linguística
Urbana Culta (NURC), que buscou conhecer, em cinco capitais (Recife, Salvador, São Paulo,
Rio de Janeiro e Porto Alegre), a realidade linguística dos falantes brasileiros “cultos”, ou seja,
aqueles “com antecedente sociocultural urbano e escolaridade superior completa” (BAGNO,
2013, p. 57).
Diante da complexidade de variedades encontradas no Português Brasileiro, Bagno
prefere usar uma terminologia própria, ligada à nossa dinâmica sociolinguística, conforme
veremos a seguir.

1.3.5 Variantes linguísticas de prestígio e variantes estigmatizadas

Os termos variedades prestigiadas e variedades estigmatizadas são usados por Bagno


(2007; 2013) para referir-se aos conjuntos de variedades usados pelos falantes urbanos mais
letrados e de maior poder aquisitivo, e pelos falantes de camadas sociais de menor poder
55

aquisitivo e menor escolarização, respectivamente27. O autor busca evitar, desse modo, os já


conhecidos vocábulos “norma culta” e “norma popular”28.
Numa representação esquemática da terminologia adotada, Bagno (2013) oferece a
figura da pirâmide das classes sociais, já que a heterogeneidade linguística está ligada à
heterogeneidade social:

Figura 3 – Proposta de análise da realidade linguística brasileira por Bagno


Fonte: Bagno (2013, p. 66)

É possível observar que a norma-padrão encontra-se fora da figura reproduzida acima


por não constituir, para Bagno, uma variedade linguística empiricamente comprovável.
Em contrapartida, essas variedades prestigiadas (cultas, urbanas) ou estigmatizadas
(populares, rurais) do Português Brasileiro não estão em posições totalmente estanques. Há
entre elas uma interinfluência que pode ser representada por um continuum que leva em
consideração a região geográfica dos falantes e suas relações sociais, conforme veremos.

1.3.6 Traços linguísticos graduais e descontínuos

A sociolinguista Bortoni-Ricardo (2004) propõe (e demonstra) esse continuum para


caracterizar a heterogeneidade do Português Brasileiro da seguinte forma:

27
Labov (2008 [1972], p. 288) já mencionava: “normas de prestígio” e “formas vernaculares estigmatizadas”. Em
1986, Tarallo se referia à existência das seguintes variantes em concorrência: padrão vs. não-padrão; conservadoras
vs. inovadoras; de prestígio vs. estigmatizadas.
28
Para Lucchesi, Baxter e Ribeiro (2009), a “norma popular” representa os padrões coletivos de fala da maioria
da população do país e a “norma culta”, a fala das classes economicamente privilegiadas.
56

Figura 4 – Continuum de urbanização proposto por Bortoni-Ricardo


Fonte: reproduzido de Bortoni-Ricardo (2004, p. 52)

A autora explicita que em um polo estão as variedades rurais usadas pelas comunidades
geograficamente mais isoladas, enquanto, no polo oposto, estão as variedades urbanas que
recebem maior influência do processo de padronização da língua, ou seja, a chamada variedade
urbana culta. No espaço entre os dois polos localiza-se uma zona rurbana 29 , geralmente
instalada nas periferias das cidades. Ao caracterizar as pessoas que pertencem a essa zona,
Bortoni-Ricardo assim se posiciona (2004, p. 52):

[...] Os grupos rurbanos são formados por migrantes de origem rural que preservam
muito de seus antecedentes culturais, principalmente no seu repertório linguístico, e
as comunidades interioranas residentes em distritos ou núcleos semirrurais, que estão
submetidos à influência urbana, seja pela mídia seja pela absorção de tecnologia
agropecuária.

Na proposta da autora, os falares rurais, rurbanos e urbanos recebem e imprimem


influência uns sobre os outros ao longo do continuum. A partir dessa constatação, Bortoni-
Ricardo identifica alguns traços linguísticos que são próprios do polo rural, onde estão as
variedades regionais e sociais mais isoladas. Esses são chamados de traços descontínuos,
porque possuem uma distribuição descontínua ao longo do contínuo de urbanização, ou seja,
seu uso é “descontinuado” nas áreas urbanas. Encontramos nesses traços, todo um vocabulário
e um conjunto de regras “fonético-fonológicas e morfossintáticas” (BAGNO, 2007, p. 55)
caracterizadoras dos falares rurais e de falantes de origem social humilde. Os falantes que dizem
“mangar”, no sentido de ridicularizar, ou “probrema” em vez de “problema”, – fenômeno
conhecido como rotacismo e que será analisado com maior vagar na segunda parte do manancial
teórico desta tese –, estão fazendo uso de “traços descontínuos”. São justamente esses traços do
Português Brasileiro que “recebem um maior grau de estigmatização na sociedade urbana
hegemônica” (BORTONI-RICARDO, 2012 [2002], p. 302).

29
Freyre (1982, p. 57) ensina que a rurbanização é “um processo de desenvolvimento socioeconômico que
combina, como formas e conteúdos de uma só vivência regional – a do Nordeste, por exemplo, ou nacional – a do
Brasil como um todo – valores e estilos de vida rurais e valores e estilos de vida urbanos. Daí o neologismo:
rurbanos”.
57

E ainda há traços que estão presentes na fala de todo e qualquer brasileiro, esteja ele
situado em qualquer ponto do contínuo de urbanização. Esses traços são denominados por
Bortoni-Ricardo (2004) de graduais, uma vez que possuem uma distribuição gradual ao longo
do contínuo, principalmente quando os falantes participam de interações linguísticas menos
monitoradas. O apagamento do /r/ em final de palavra, especialmente em verbos no infinitivo
(eu vou “cantá”), só para citar um exemplo, é uma amostra típica de “traço gradual” presente
na pronúncia dos brasileiros de modo geral, independentemente de sua origem geográfica ou
situação socioeconômica.
Em suma, a ideia do continuum proposto por Bortoni-Ricardo refere-se às origens
sociais e culturais dos falantes, que, conforme enfatiza Bagno (2007, p. 55), “influenciam muito
a visão de mundo da pessoa, suas crenças e valores, sua relação com o meio-ambiente e, é claro,
sua forma de falar a língua”.
Conforme vimos neste capítulo, as proposições da Dialetologia, Etnolinguística e
Sociolinguística não se opõem e podem trabalhar em contribuição recíproca. Em tom de
arremate, Aragão (2013a, p. 209) aduz que “as relações entre língua, sociedade e cultura são
tão íntimas que, muitas vezes, torna-se difícil separar uma da outra ou dizer onde uma termina
e a outra começa”. Neste contexto, revestem-se de importância, tanto a identificação de
variedades prestigiadas (cultas, urbanas) em face das estigmatizadas (populares, rurais) quanto
a proposta do continuum de Bortoni-Ricardo para se compreender a heterogeneidade do
Português Brasileiro em decorrência de fatores geográficos e socioculturais.
Por fim, em se tratando do falar nordestino, o estudo de variedades semântico-culturais,
bem como a investigação sobre particularidades fonéticas são os dois aspectos mais marcantes
de sua variedade rural, principalmente no que se refere aos traços descontínuos, conforme
caracterizados em linhas anteriores. Foram esses fenômenos que Gonzaga divulgou, de forma
competente e consciente, como traços identitários de valorização de sua comunidade de fala,
conforme veremos com maior ênfase, na análise do corpus.
No próximo capítulo, apresentaremos o segundo manancial teórico desta tese, composto
de postulados da Lexicologia, Lexicografia, Semântica Cultural e Fonética, em que se fará
ancoragem para a fundamentação do escopo deste estudo.
58

02 MANANCIAL TEÓRICO II: LEXICOLOGIA, LEXICOGRAFIA, SEMÂNTICA


CULTURAL E FONÉTICA

Até o ípsilon lá é pissilone, o eme é mê e o ene é nê, o efe


é fê, o gê chama-se guê. Na escola é engraçado ouvir-se
tanto "ê" (Luiz Gonzaga-Zedantas)

V
linguístico.
imos no capítulo anterior as influências de cunho social, histórico e cultural no
processo de observação, descrição, análise e interpretação do fenômeno
Neste capítulo, considerando as propostas de análise de particularidades
semântico-culturais e fonéticas, bem como a elaboração de um glossário eletrônico de Luiz
Gonzaga, conforme objetivo traçado, vislumbramos a necessidade de um segundo manancial
teórico para compor o trabalho, que contempla pressupostos da Lexicologia, Lexicografia,
Semântica Cultural e Fonética. Essas disciplinas atuam, portanto, em colaboração
enriquecedora com aquelas do manancial teórico I, juntando-se ao nosso esforço
interdisciplinar para sustentar a tese aqui defendida e o produto dela proveniente: o glossário
de Gonzagão.
Para dar conta de nosso propósito, traçamos dois momentos. No primeiro, tecemos
considerações sobre o léxico, a Lexicologia e o caráter de atividade aplicada atribuído à
Lexicografia, mormente em sua orientação regional. Depois, refletimos sobre a classificação
teórica do glossário como repertório linguístico, cujo detalhamento sobre a sua elaboração
reserva-se ao capítulo dedicado aos aspectos metodológicos deste trabalho. Em um segundo
momento, expomos as características e principais conceitos da Semântica Cultural na vertente
de contextos e cenários, assim como da Fonética. Com relação a esta última, o leitor notará uma
ênfase quanto à questão dos metaplasmos fonéticos. Todos os aspectos teóricos que serão, aqui,
debatidos servirão de subsídios para a descrição das singularidades da variedade rural
nordestina divulgada por Gonzaga (capítulo 5).

2.1 NAS TRILHAS DO LÉXICO

Ao enfatizar a relevância de se estudar a língua, Aragão (2013b, p. 98) chama a atenção


para o fato de que os contextos socioculturais em que ela ocorre são

[...] elementos básicos, e, muitas vezes, determinantes de suas variações, explicando


e justificando fatos que apenas linguisticamente seriam difíceis ou até impossíveis de
serem determinados. No caso específico do léxico, esta afirmação é ainda mais
59

verdadeira, pois toda a visão de mundo, a ideologia, os sistemas de valores e as


práticas socioculturais das comunidades humanas são refletidos em seu léxico.

Com base nesse saber, fortalecemos nossa crença de que a relação entre os itens lexicais
e os sentidos é de natureza cultural. Mas, então, colocamo-nos ante um impasse no percurso: o
que se entende por léxico? Na próxima seção, os muitos “já-ditos” em resposta a essa questão.

2.1.1 A noção de léxico

A Biderman (1978, p.139) concedemos a precedência do dizer: “[...] o universo


semântico se estrutura em dois polos opostos: o indivíduo e a sociedade. Dessa tensão em
movimento se origina o Léxico”. Em um outro pronunciamento, de modo mais explícito, a
autora assim pontua: “A significação se origina e lança as suas raízes no universo cognoscível,
interpretado e simbolizado por palavras. E o conjunto dessas palavras vem a ser o léxico da
língua” (BIDERMAN, 1998, p. 117). Ainda que pensado nessa última dimensão, o léxico não
é uma simples lista de palavras em correlação biunívoca com os referentes da realidade. Como
bem define Marcuschi (2004, p. 02), “o léxico não é um aparato para dizer o mundo como se
ele estivesse ali discretizado e etiquetável”. O Léxico tece uma rede de significações, resultante
de uma atividade sociocognitiva que envolve as relações entre as formas e os sentidos dados
aos vocábulos. Em concordância com o pensamento de Marcuschi (2004, p. 06), admitimos que
“sem léxico não há língua”. Posição também compartilhada por Vilela (1979), para quem o
léxico é o elemento central da língua.
O léxico pode variar conforme diversos aspectos. Sendo a língua uma atividade e não
um produto, existem variantes lexicais, morfossintáticas e fonéticas que se amoldam às
necessidades sociais dos indivíduos de uma determinada região, já que o léxico engloba tanto
a experiência acumulada de uma sociedade quanto o acervo de sua cultura através dos tempos
(BIDERMAN, 1978). Seguindo essa posição de centralidade do léxico, Machado Filho (2014,
p. 273) defende um outro conceito para variante lexical:

[...] variante lexical é, portanto, cada forma diferente de se representar, em um mesmo


contexto, um mesmo valor significativo ou funcional, independentemente de as
alterações na forma terem origem fonética, fonológica, morfológica, sintática ou
discursiva.

Nessa concepção, o termo variante lexical é apresentado em sua versatilidade, podendo


ser aplicado a todas as modificações de forma elencadas acima pelo autor.
60

Outro dado relevante acerca do léxico é que ele é um sistema aberto, eminentemente
mutável. A apreensão de sua totalidade é uma quimera, pois, todos os dias, ao mesmo tempo
em que surgem novos vocábulos, outros desaparecem ou caem em desuso. Enfim, conforme
afirma Biderman (1996, p. 27), “[...] no aparato lingüístico da memória humana, o léxico é o
lugar do conhecimento, sob o rótulo sintético de palavras – os signos linguísticos”.
Em razão de sua relevância no campo dos estudos linguísticos, o léxico não
especializado/científico 30 é investigado por duas disciplinas específicas, mas de caráter
interdisciplinar: a Lexicologia e a Lexicografia. Considerando nossa proposta de elaboração de
um glossário de Gonzagão que contempla o vocabulário rural nordestino, falado por pessoas
com pouca escolaridade, faz-se necessário ainda teorizar sobre a Lexicografia regional.

2.1.2 Lexicologia, Lexicografia e Lexicografia regional

A parte da linguística que se dedica ao estudo científico do léxico é a Lexicologia, que


“tem como objetos básicos de estudo a análise da palavra, a categorização lexical e a
estruturação do léxico” (BIDERMAN, 2001, p. 16). Para a autora, embora o uso do termo
palavra seja operacional como elemento da linguagem comum, para o estudo de suas unidades
de significação, a Lexicologia utiliza-se de diversos termos31, dependendo do autor, visto que
a noção de palavra é considerada bastante imprecisa, ambígua e não-técnica para ser usada
como unidade lexicológica. Por essa razão, segundo Biderman (1978), é que os linguistas
criaram o termo lexema para designar a unidade léxica abstrata. Ao afirmar que Pottier utiliza
lexema como sinônimo de lexia, a autora propõe, no entanto, uma distinção entre esses termos.
CANTAR, por exemplo, é um lexema, enquanto as suas formas discursivas, “cantei”,
“cantavam”, “cantando”, são nomeadas de lexia.
A unidade de significação classificada por Pottier, Audubert e Pais (1972) como lexia,
ou seja, a unidade lexical memorizada para o estudo do léxico, distingue-se entre simples
(árvore, saiu, entre, agora), composta (primeiro-ministro, guarda-chuva), complexa estável
(ponte levadiça, estado de sítio, estação espacial) e textual. As lexias textuais equivalem a
enunciados cristalizados na língua, tais como os sentidos veiculados nas expressões idiomáticas
(ver o que é bom pra tosse), que serão tratadas com mais detalhes em 2.2.4. A lexia textual
abrange também “os ditados, provérbios, refrãos, etc. que tiveram origem em combinatória livre

30
Cabe à terminologia investigar o conjunto de palavras técnicas ou científicas que constituem o vocabulário
específico de uma ciência, de uma tecnologia.
31
“Termo” está sendo usado, aqui, como sinônimo de palavra e não como referência à unidade padrão das línguas
de especialidade.
61

que lhes é subjacente, e que, no estágio atual, são unidades memorizadas, em combinação fixa”
(BARBOSA, 2001b, p. 50).
As lexias podem ainda distinguir-se entre duas classes: As lexias lexicais ou lexias
gramaticais. Pottier, Audubert e Pais (1972) afirmam que as lexias lexicais dividem-se em três
categorias: substantivo, verbo e adjetivo. A lexias gramaticais podem ser elementos
determinantes (artigos, formas demonstrativas ou possessivas); quantificadores (muito, cinco,
pouco, todos); auxiliares (tenho estudado, está trabalhando, quer trabalhar); relatores
(subordinantes: até a cidade, no Brasil e coordenadores: e, ou, mas) e substitutos, que possuem
o estatuto sintático das sequências que eles substituem (pronomes como lhe, a, o, tudo;
advérbios: assim; interrogativos: quem) (POTTIER, AUDUBERT, PAIS, op. cit.). Esses
grupos ou categorias constituem a “forma de ver o mundo” na tradição da gramática normativa.
Martins (2002, p. 3) afirma que Pottier foi muito feliz em cunhar o termo lexia, pois,
como já aventamos, há

[...] muita confusão quando se usa vocábulo ou palavra. São vagos e imprecisos estes
termos, de longa tradição na lexicografia tão pobre de ciência, conquanto, hoje, bem
produtiva, em Língua Portuguesa. Embora estes termos, normalmente, identifiquem
o plano das realizações discursivas, é de bom alvitre, em ciência, a precisão
terminológica. Assim, lexia seria um bom termo para a manifestação do lexema já
aceito como a unidade abstrata do léxico. A lexia, lexicalmente, seria, então, a
manifestação discursiva do lexema.

O autor defende ainda que os vocábulos lexia composta e lexia complexa não deveriam
diferenciar-se, pois se observarmos vocábulos como “cesta básica” e “guarda-roupa”,
perceberemos que um e outro se apresentam de forma binária. Ademais, levando-se em conta
o critério semântico, ambos os vocábulos são monossêmicos e indissociáveis, não permitindo
uma quebra estrutural. Sendo assim, o autor defende não haver razão para classificá-los
diferentemente. Considerando a ponderação de Martins, neste trabalho, parece-nos adequado
utilizar, a expressão “lexia composta” para englobar também as “lexias complexas”, sejam elas
representadas por um item polilexical, composto ou não por hífen.
Segundo Barbosa (1990), cabe à Lexicologia inúmeras tarefas, uma vez que a unidade
lexical é um nível de articulação morfossintáxico-semântico bastante complexo. Dentre essas
tarefas, destacamos duas que se enquadram na proposta deste estudo: a) examinar as relações
do léxico com os universos natural, social e cultural, em que o sentido de uma palavra é um
instrumento de construção e detecção de uma “visão de mundo”, e b) analisar e descrever as
relações entre a expressão e o conteúdo das palavras.
62

Sob outra perspectiva, a Lexicografia investiga o léxico para desempenhar o tratamento,


classificação e processamento dos lexemas em obras lexicográficas. Desse modo, a
Lexicografia não se confunde com a Lexicologia. De acordo com Xavier (2011), a Lexicografia,
embora integrante das ciências do léxico, distingue-se da Lexicologia pelos fundamentos
teórico-metodológicos, dentre outros aspectos. Sendo assim, a Lexicografia geral é considerada
uma atividade aplicada que tem como objeto a descrição do léxico de uma língua, geralmente
pela sua compilação, classificação e ordenação, a fim de compor obras lexicográficas.
A prática da Lexicografia é bastante antiga, remontando à antiguidade. Os repertórios
linguísticos que eram confeccionados naquele período não eram, obviamente, obras
lexicográficas no sentido estrito do termo conforme usamos hoje. A lexicografia desenvolve-
se, especializa-se e se aperfeiçoa com a consciência renascentista. Com o surgimento dos
Estados nacionais, há uma maior preocupação em conhecer as línguas dos Estados vizinhos
europeus e, portanto, cresce o interesse na organização de dicionários bilíngues. Somente no
século XVII é que surge a Lexicografia monolíngue, ao mesmo tempo em que há um
aperfeiçoamento da tarefa lexicográfica. No século seguinte, XVIII, surge, pelas mãos dos
franceses, a enciclopédia nos moldes adotados até hoje: as enciclopédias são obras de
referência, cujo intuito principal é reunir, de forma ordenada, todos os domínios do
conhecimento humano em linguagem acessível para o público em geral. Com a evolução da
Lexicografia, surgiram vários tipos de repertórios lexicográficos, sendo o dicionário bastante
difundido em todo o mundo. Para Biderman (2003, p. 54), o dicionário é uma obra lexicográfica
que “descreve o léxico em função de um modelo ideal de língua – a língua culta e escrita”.
Entre os tipos de dicionários unilíngues mais conhecidos, a autora elenca os seguintes:
1) o “dicionário padrão da língua”, ou “dicionário de uso da língua”, uma obra de consulta que
tem caráter normativo dentro da comunidade de falantes; 2) o “dicionário ideológico” ou
“analógico”, que trata de organizar os conceitos em campos semânticos, em vez de ordenar as
lexias, alfabeticamente, como os dicionários comuns; 3) o “dicionário histórico”, que tem por
função listar o vocabulário de determinada época histórica; 4) os “dicionários de tipo especial”,
que podem ser de sinônimos e locuções da Língua Portuguesa, bem como de verbos e regências
etc.; e 5) os “dicionários científicos e/ou técnicos”, que ordenam a terminologia de cada ramo
da ciência e da técnica.
O primeiro dicionário padrão brasileiro foi organizado por Laudelino Freire, com o
lançamento do “Grande e Novíssimo Dicionário da Língua Portuguesa”. A obra foi publicada
em cinco volumes, de 1939 a 1944, no Rio de Janeiro. Na atualidade, os “dicionários de uso”
mais conceituados no Brasil são o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, o Dicionário
63

Aurélio da Língua Portuguesa e o Dicionário UNESP do Português Contemporâneo, de


Francisco S. Borba.
Com a expansão da Lexicografia, a disciplina assume novas funções em decorrência das
influências oriundas de trabalhos dialetológicos e etnográficos e passa a fazer o registro de
variantes linguísticas de um país (geralmente o colonizado em relação à metrópole, quando
pensamos na expansão marítima) ou ainda de regiões geográficas afastadas dos centros político-
administrativos. É nesse contexto que surge a Lexicografia dialetal, também conhecida como
Lexicografia regional. Lara (2007, p. 104), referindo-se ao contexto espanhol, acredita que a
Lexicografia dialetal nasce amparada “em obras literárias ou de caráter histórico e geográfico
sobre o descobrimento, a conquista e colonização da América”32. No interesse deste trabalho,
consideramos que, além da literatura, as canções populares são fontes da tradição oral e revelam
características fônicas e semântico-cultural-lexicais que auxiliam na elaboração de repertórios
linguísticos de feição regional.
Historicamente, uma boa parte do trabalho de coleta e ordenação de obras lexicográficas
dialetais tem uma característica peculiar: são repertórios organizados por pessoas sem formação
na área de Linguística. Geralmente, são folcloristas, professores, jornalistas e intelectuais.
Segundo Alvar Ezquerra (1996, p. 100), são “pessoas movidas por grandes sentimentos, mas
sem a formação necessária para perceber e descrever o que é especificamente regional, razão
pela qual os resultados, em mais de uma ocasião, deixam muito a desejar e não vale a pena
deter-se neles”33.
Segundo Alvar Ezquerra (1996), os contatos entre Dialetologia e Lexicografia dialetal
(regional) sempre foram constantes, pois a Lexicografia sempre precisou se valer da
Dialetologia para coletar suas informações, do mesmo modo que a Dialetologia remete à
Lexicografia para comprovar seus dados. Para o autor, “são dois os âmbitos nos quais essas
disciplinas entram em contato: o da presença de palavras dialetais, regionais, locais, etc., nos
dicionários, e o dos repertórios dedicados a estes tipos de palavras” 34 (ALVAR EZQUERRA,
1996, p. 79). Com efeito, vimos que a primeira fase da história dos estudos dialetais brasileiros
(1.1.3) compreendeu os anos de 1826 até 1920, caracterizando-se pela riqueza de obras de

32
Tradução do original: La lexicografía regional nace […] al amparo de las obras literarias o de carácter histórico
y geográfico sobre el descubrimiento, la conquista y la colonización de América.
33
Nossa tradução de: [...] personas movidas por grandes sentimientos pero sin la formación necesaria para percibir
y describir lo específicamente regional, razón por la que los resultados, en más de una ocasión, dejan mucho que
desear y no merece la pena detenerse en ellos.
34
Tradução livre de: son dos los ámbitos en los que nuestras disciplinas entran en contacto: el de la presencia de
voces dialectales, regionales, locales, etc., en los diccionarios, y el de los repertorios dedicados a estos tipos de
palabras.
64

cunho lexicográfico sobre o Português Brasileiro. O Diccionario de Vocabulos Brazileiros, de


Beaurepaire Rohan, que foi presidente da Província da Paraíba entre 1857 e 1859, a
Introduction à l’Atlas Ethnographique du Globe, do Visconde da Pedra Branca e, mais
recentemente, o “Glossário Aumentado e Comentado de a Bagaceira” (1984), da professora
Socorro Aragão, são obras que se inserem no lavor da Lexicografia dialetal.
Ademais, a Dialetologia, que faz o levantamento cartográfico de falares rurais e urbanos,
por intermédio da Geografia Linguística, encontra, na Lexicografia dialetal, um aliado
importante na documentação de variantes estigmatizadas para a posteridade. Por isso, “um
dicionário dialetal, ao contrário do dicionário geral de língua, deve abarcar toda a instabilidade
gráfica que os usos reais da fala possam em si fomentar” (MACHADO FILHO, 2010, p. 56).
Neste cenário, está em curso, atualmente no Brasil, um projeto que visa ao aproveitamento dos
dados do Projeto ALiB na perspectiva dos estudos lexicográficos: a elaboração do Dicionário
Dialetal Brasileiro (DDB), que reúne especialistas da Dialetologia, Lexicografia e Ciências da
Informação.
As obras lexicográficas de cunho dialetal ordenam lexias típicas do falar de uma
comunidade e fornecem definições linguísticas, assim como explicações enciclopédicas que
contemplam aspectos etnográficos da região, tais como características geográficas, costumes
sociais, crenças etc. Por isso, não é incomum a inclusão de nomes de animais, plantas,
topônimos e antropônimos. No glossário de Gonzagão proposto nesta tese, esses nomes estão
contemplados. Afinal, sendo a Lexicografia dialetal uma atividade aplicada, o seu trabalho de
compilação, classificação e ordenação do léxico abrange também outros tipos de repertórios
linguísticos, como veremos a seguir.

2.1.3 O glossário como repositório lexicográfico dialetal

Na feitura de repositórios lexicográficos, emergem outros tipos de obras, além do


dicionário, tais como o vocabulário, o glossário e congêneres.
A classificação das obras lexicográficas em dicionários, vocabulários e glossários não é
tema pacífico entre os estudiosos. Para Haensch, Wolf, Ettinger e Werner (1982), essa
dificuldade deve-se à influência de critérios não apenas linguísticos mas também a fatores
históricos e culturais que influenciaram no nascimento e desenvolvimento dos distintos tipos
de obras lexicográficas. Essa confusão acarreta duas consequências principais, segundo
Barbosa (2001a, p. 32): “a existência de numerosas denominações para o mesmo núcleo
65

conceptual ‘obra lexicográfica/terminográfica 35 ’: glossário, vocabulário, dicionário técnico,


dicionário terminológico etc.; e a existência de conceitos muito diferentes para uma mesma
denominação: vocabulário, no sentido de ‘repertório de termos’ e no sentido de ‘dicionário de
uma área’”.
Haensch, Wolf, Ettinger e Werner (1982), fazendo uma recapitulação histórica, ensinam
que, nos países latinos, os copistas medievais faziam anotações em textos latinos para explicar
os sentidos das palavras em sua língua. Essas anotações, que podiam ser interlineares ou
marginais, eram chamadas de “glosas”, enquanto o repertório lexicográfico que as incluía em
ordem alfabética e sistemática passou a ser chamado de glossário. Nessa ótica, Biderman
(1984b, p. 139) considera o glossário um “pequeno vocabulário, ou relação de palavras, em que
se explica o significado das mesmas, para ajudar o leitor na compreensão do texto que lê”. Por
seu turno, Haensch, Wolf, Ettinger e Werner (1982, p. 106) admitem que a palavra glossário
possui duas acepções básicas:

[...] Repertório de palavras destinado a explicar um texto medieval ou clássico, a obra


de um autor, um texto dialetal etc.
Repertório de palavras, em muitos casos de termos técnicos (monolíngue ou
plurilíngue) que não pretende ser exaustivo e em que a seleção de palavras foi feita ao
acaso; por exemplo, glossário de termos ecológicos espanhol-inglês.36

Vale sublinhar que a primeira acepção adotada por Haensch, Wolf, Ettinger e Werner
para conceituar um glossário está adequada à concepção que aqui adotamos: o glossário é um
repertório lexicográfico que pretende explicar o sentido de palavras e expressões linguísticas
presentes em textos, orais ou escritos, da obra de um autor e extraídas de um discurso
característico de um falar regional.
Por fim, as tarefas que cabem à Lexicologia e à Lexicografia dialetal para o exame das
relações entre cultura, sociedade e léxico, bem como para sua descrição e compilação em obras
lexicográficas não podem prescindir de estudos que destaquem o componente cultural na
atribuição de sentidos, o que faz este trabalho evocar a proposta epistemológica da Semântica
Cultural, considerada em sua vertente de Contextos e Cenários.

35
As obras terminográficas inventariam o “termo”, que é a unidade padrão da terminologia.
36
Nossa tradução a partir de: […] repertorio de voces destinado a explicar un texto medieval o clásico, la obra de
un autor, un texto dialectal, etc. Repertorio de palabras, en muchos casos de términos técnicos (monolingüe o
plurilingüe) que no pretende ser exhaustivo, y en que la selección de palabras se ha hecho más o menos al azar;
por ejemplo, glosario de términos ecológicos español-inglés”.
66

2.2 RELAÇÕES ENTRE SEMÂNTICA E LÉXICO

Biderman (2001, p. 16) apresenta, de forma clara, a íntima relação entre Lexicologia e
Semântica, ponderando quanto ao fato de que “embora se atribua à Semântica o estudo das
significações linguísticas, a Lexicologia faz fronteira com a Semântica, já que, por ocupar-se
do léxico e da palavra, tem que considerar a dimensão significativa”. O léxico, como vimos,
estrutura-se em relações semântico-lexicais. Logo, não há como imaginar uma investigação
minuciosa do léxico sem recorrer ao estudo da significação. E vale lembrar ainda que nos
estudos sobre a significação diversas teorias “atravessam” o campo de atuação da Semântica.
Assim, considerando as bases em que se apoia esta investigação, entendemos que os saberes
advindos da Semântica Cultural são de fundamental importância para a sustentação de nossa
tese, razão por que, na seção seguinte, abordaremos seus principais postulados.

2.2.1 Semântica Cultural: a semântica de contextos e cenários

Na evolução dos estudos semânticos, o ponto principal das diversas teorias foi o de
perquirir sobre o que é o significado. Nessa busca, lançou-se mão de outras disciplinas além da
Linguística, tais como a Filosofia, a Lógica Formal e as Ciências Naturais. Ferrarezi Jr. (2010)
lembra que o filósofo Heráclito julgava que o significado era o próprio pensamento humano,
enquanto o logos, a palavra, era a sua expressão. A Semântica Formal, por sua vez, defende que
o significado depende de algo que é exterior à linguagem, depende de um objeto do mundo, isto
é, de uma referência extralinguística direta; por isso a língua seria eminentemente referencial.
Assim, no sintagma “a capital da França”, a estrutura linguística refere-se a Paris, uma cidade
que é a capital do país, França.
A corrente conhecida como Semântica Cultural enfatiza as influências de atribuição de
sentidos mediadas pelas experiências sócio-históricas e culturais das comunidades. Assim,
nomes para cores, utensílios, plantas e animais não compartilham as mesmas significações em
diferentes épocas e culturas. O que é considerado alimento para o brasileiro cristão, por exemplo,
pode não ser para o hindu.
Inspirada nessa abordagem, surgiu, no século passado, uma vertente da Semântica
Cultural idealizada pelo linguista Celso Ferrarezi Júnior. Trata-se da Semântica de Contextos e
Cenários (SCC), que tem sido desenvolvida, de forma sistemática, por este pesquisador desde
1997. Vê-se, portanto, que a SCC é uma vertente dos estudos semânticos bastante recente. A
SCC assume que a semântica é a “ciência que estuda as manifestações lingüísticas do
67

significado” (FERRAREZI JR., 2010, p. 63-64). Partindo desse conceito, Ferrarezi Jr. (2013,
p. 71) esclarece que a SCC estuda a “formação e a atribuição dos sentidos na relação entre uma
língua e a cultura em que essa mesma língua é utilizada”. Embora não haja originalidade nesse
tipo de estudo (cf. 1.2), a SCC retoma essa relação que ficou, de certa forma, em segundo plano
na segunda metade do século passado, devido à ênfase nos estudos de cunho gerativista e da
Semântica Formal. Além disso, a evolução na área de informática em busca da criação de
tradutores automáticos de línguas revelou que, muitas vezes, problemas relacionados à
equivalência de sentidos nas estruturas linguísticas de línguas diferentes eram determinados, no
mais das vezes, por fatores culturais, o que provocou um novo impulso nos estudos sobre a
relação entre língua e cultura. A SCC anuncia-se como uma proposta inovadora que não se
enquadra em nenhuma tendência tradicional dos estudos semânticos. De outro ponto de vista,
ela não pretende criar mais uma compartimentagem nessa área, já que se autointitula uma
Semântica multifocal: “uma abordagem semântica-fonética-fonológica-morfológica-sintática-
pragmática-‘eteceterática’” (FERRAREZI Jr, 2010, p. 28). Dessa forma, todos os domínios da
linguística são benvindos para colaborar com a descrição dos sentidos, uma vez que a SCC não
tem a pretensão de ser exclusivista.
Para melhor compreendermos os postulados da SCC, partimos de sua concepção básica
sobre o que é uma língua natural: “um sistema socializado e culturalmente determinado37 de
representação de mundos e de seus eventos” (FERRAREZI, Jr. 2010, p. 12). Nesse conceito,
segundo o autor, estão abrangidos diversos aspectos que devem ser compreendidos à luz da
SCC. Então, retomando os termos que foram usados acima para conceituar uma língua natural,
temos:
Sistema: refere-se aos aspectos estruturo-funcionais;
Algo socializado: aspectos sociolinguísticos;
Algo culturalmente determinado: aspectos ântropo-culturais;
Forma de representação: aspectos semântico-pragmáticos
Representação de mundo e seus eventos: aspectos referenciais e criacionais (como
criamos o mundo por intermédio da linguagem).
Nesses termos, a SCC compreende uma língua natural para além de sua existência, como
um sistema linguístico estruturado, abarcando igualmente a sua influência sobre as relações do
homem com os mundos que ele cria (os reais, os ficcionais e os esquizofrênicos, estes dois

37
Ferrarezi (2010) chama a atenção para o fato de que a língua atua na visão que temos dos elementos do mundo,
mas isso não implica a adoção de uma visão categórica (“determinismo forte”) nos moldes whorfianos, conforme
vimos em 1.2.
68

últimos chamados também de mundos possíveis). Dessas relações, surge todo um patrimônio
de normas, doutrinas, práticas, hábitos, posturas, valores materiais que caracterizam a cultura
de uma dada comunidade, ou seja, o sistema linguístico socializado é uma forma de representar
esses mundos de acordo com uma base cultural. É a língua, pois, que deve “dar conta de
representar tudo que a cultura contempla, pois tudo o que pensamos e fazemos deve, de alguma
forma, poder ser representado pela língua que falamos” (FERRAREZI JR., 2013, p. 74). Como
salienta o autor, o caráter representacional da língua indica que ela pode “ser posta no lugar de”
um mundo ou evento (que são todas as coisas que ocorrem nos mundos citados) para que haja
a comunicação entre os interlocutores. Ora, se a língua é também uma criação humana, ela faz
parte da cultura, ao mesmo tempo que ajuda a criá-la. Desse modo, a SCC admite uma clara
inter-relação e interinfluência entre pensamento, língua e cultura. Para demonstrar esse ponto
de vista, Ferrarezi (2013) propõe a seguinte ilustração:

Figura 5 – Interinfluência: pensamento, língua e cultura


Fonte: Reproduzido de Ferrarezi Jr (2013, p. 75)

Consoante o que defende a SCC, o nosso pensamento, a língua natural que falamos e a
cultura em que estamos inseridos estão continuamente se influenciando na construção dos
“sentidos” atribuídos às palavras. Note-se que usamos o termo “sentido” e não “significado”, o
que impõe uma melhor explicitação sobre esses dois termos, segundo os postulados da
Semântica de Contextos e Cenários.
A SCC concebe o significado e o sentido como entidades distintas, sendo

[...] o significado, entidade mental, ainda desconhecida em sua plenitude, que de,
alguma forma, guarda as respostas para perguntas como: “Como interpretamos os
signos?” e “Como funciona uma língua natural no ambiente neurológico?”, e o sentido,
este sim, uma entidade lingüística, plenamente analisável e bastante conhecida dos
semanticistas. Não se trata de uma manobra terminológica ou de uma mera separação
das dimensões de um mesmo objeto. Trata-se de dois objetos plenamente distintos,
69

embora relacionados. Um de natureza orgânica (o significado) e um de natureza


cultural (o sentido) (FERRAREZI Jr., 2010, p. 54, grifos do autor).

Para o autor, o sentido é uma ideia geral que os falantes de uma língua vinculam a um
“sinal”38 qualquer (melodia, gesto, ordem sintática), relativo a um objeto do mundo real ou dos
mundos possíveis, conforme referido acima. Por conseguinte, a SCC entende que sua missão é
estudar esses sentidos manifestados na linguagem. Cabe à SCC, portanto, descrever os
“fenômenos que decorrem do sentido e seu uso pelos sistemas linguísticos” (FERRAREZI Jr.,
2010, p. 55). A SCC adota a concepção de que os sentidos servem de ponte entre a língua e a
cultura, pois sem esta é impossível formar sentidos. Além disso, a SCC acredita que sem a
cultura os sentidos também não podem ser associados às palavras ou outros sinais para
representação do mundo e de seus eventos. Sendo assim, há uma relação obrigatória entre a
língua e a cultura. Para a SCC, as palavras de uma língua natural não têm um sentido fixo,
porque os sentidos que acreditamos “pertencer” a elas são, na verdade, sentidos costumeiros e
culturalmente definidos, tomados apenas como inerentes a essas palavras devido ao nosso
“habitus linguístico”. Como veremos, a atribuição de sentidos às palavras ocorre por intermédio
de um processo complexo na SCC.
Dentro do escopo deste trabalho, tal qual o temos traçado, os sentidos serão vistos e
descritos a partir do sistema linguístico do Português Brasileiro e de sua cultura, em especial os
sentidos associados a unidades lexicais que caracterizam um vocabulário próprio dos falares
rurais e de falantes de origem humilde do nordeste brasileiro.
Os sentidos na SCC são constituídos com base no “Princípio de especialização dos
sentidos”: “o sentido de um sinal-palavra somente se especializa em um contexto e o sentido
do contexto somente se especializa em um cenário” (FERRAREZI JR., 2010, p. 120). A menção
aos termos sinal, contexto, cenário exige uma explicitação com base na abordagem da SCC. O
autor apresenta esses conceitos da seguinte forma:

a) Sinal: A palavra e os demais elementos a ela associados no processo representativo


(como uma melodia ou uma ordem sintática, p. ex.), para que possa atuar como
elemento representativo.
b) Contexto: O que vem antes e depois da palavra, o restante do texto, o texto que
precede e sucede o próprio texto, o texto que se junta e que referencia o texto, num
entrelaçar de palavras em textos que acabam formando o complexíssimo conjunto de
sinais interligados que procuramos entender quando nos comunicamos.
c) Cenário: Além de um conjunto de conhecimentos culturais e de um processo de
atribuição de sentidos progressivos em um roteiro cultural, o cenário compreende
todos os fatores relevantes do ponto de vista dos interlocutores para a especialização
dos sentidos dos sinais. Esses fatores incluem todo o complexo conjunto situacional

38
O autor inspira-se em Frege (2009) para adotar o termo “sinal” como qualquer elemento significativo.
70

que envolve a enunciação, desde as roupas de quem enuncia (isso é relevante, por
exemplo, num ato de pedido de namoro) até elementos fortuitos que se relacionem de
qualquer forma ao que se enunciou (como um avião que passa sobre os falantes na
hora da enunciação, se, de qualquer forma, esse fato interferir no processo de
especialização do sentido) (FERRAREZI JR., 2008, p. 26, grifos do autor).

Na SCC, especializar um sentido significa defini-lo com precisão, o que exige uma
definição exata no processo de comunicação que envolve a inserção de um “sinal-palavra” em
um contexto e cenário específicos.
Antes de avançarmos, precisamos fazer uma ressalva: em virtude da adoção dos
conceitos de sinal-palavra pela SCC e de lexia pela Lexicologia, disciplinas que apresentamos
como fronteiriças no início desta seção, assumiremos, nesta tese, que o termo sinal-palavra
equivale à lexia, deixando claro que, ao tomar essa decisão, estamos enfatizando mais o aspecto
estrutural (a forma) do que os demais elementos adotados acima pela SCC para registro de
sinalidade (entoação, melodia e timbre, por exemplo). Em reforço, lembramos a alegação de
Ferrarezi (em comunicação pessoal eletrônica) no sentido de que não há como registrar todas
as dimensões da sinalidade na forma escrita. Portanto, sempre que nos referirmos aos termos
“sinal” ou “sinal-palavra” deve-se entendê-los como equivalentes a “lexia”.
Retomando a abordagem sobre o processo de especialização de sentidos, constatamos
que, nesse processo, o contexto é associado à dimensão linguística, e a língua, não obstante
seu caráter estrutural-sistêmico, é considerada como parte da cultura. Por sua vez, o cenário,
nos moldes apresentados acima, pertence a uma dimensão cultural, extralinguística, ou seja,
refere-se ao âmbito de uso da lexia, em que o seu sentido é construído social e coletivamente.
Segundo Ferrarezi (2010, p. 114), é também nessa dimensão que é construída uma visão de
referência, isto é, quando atribuímos sentidos a sinais, não é a referência em si que é mais
importante e sim como ela é “vista e construída por meio dos olhos da cultura”. Assim, no
Brasil, as diferenças culturais entre as regiões constroem visões de referência distintas e isso é
refletido nas linguagens dos falantes. A essa altura, cremos que os conceitos empregados para
contexto e cenário merecem ser melhor entendidos por meio de uma exemplificação. Usaremos
um exemplo enviado pelo próprio Ferrarezi Jr. em correspondência eletrônica pessoal.
Na frase “a casa amarela caiu”, quais são os sentidos de “casa”, “amarela” e “caiu”? É
possível que nesse contexto pensemos nos sentidos de “residência”, “cor” e “desmoronou”, que
o autor chama de sentidos mais comuns (costumeiros). Agora, pensemos na expressão
figurativa “a casa caiu”; pensemos também na máfia chinesa que vende coisas contrabandeadas
na capital paulista, assim como na possibilidade de a Polícia Federal prender os principais
líderes dessa máfia em uma operação policial cujo nome é “operação casa amarela”; finalmente,
71

pensemos em uma notícia do jornal Folha de São Paulo narrando o ocorrido: “a casa amarela
caiu”. Nesse caso, teremos elementos suficientes, gerados pelo cenário, para compreender os
sentidos especializados no enunciado sob análise: “casa” não é “residência”, “amarela” não é
“cor de casa”, mas se refere à etnia das pessoas envolvidas, e “caiu” não é “desmoronar”. Pela
leitura (conhecimento) do cenário, fomos capazes de colher pistas, de acordo com nossa visão
de mundo para, então, interpretá-lo e atribuir-lhe sentidos especializados aos sinais iniciais das
palavras existentes no enunciado em questão. Esse é um exemplo típico que demonstra como
os sentidos variam conforme o contexto (dimensão linguística) e o cenário (dimensão
extralinguística, sócio-histórica e cultural).
Nesse processo de especialização de sentidos, a SCC vislumbra três níveis ou fases.
Apresentamos cada uma delas usando o enunciado “João comeu o bolo” (FERRAREIZ JR.,
2008, 2010, 2013, 2015):
a) Sentido menor: é aquele assumido como inerente à lexia (sinal) – quando é possível
identificá-lo – simplesmente por ser habitualmente associado a essa lexia em uma determinada
cultura. É o sentido costumeiro de uma lexia, chamado usualmente de denotativo. Na frase
“João comeu o bolo”, por exemplo, acionamos os sentidos costumeiros de que um ser agente
chamado “João” ingeriu (comeu) uma “massa de farinha, geralmente doce, assada em formas
de diferentes formatos” e que é conhecida de quem estava falando e de quem estava ouvindo;
portanto, usamos “o” (bolo).
b) Sentido médio: sentido obtido pela inserção da lexia em um contexto, permitindo uma maior
– porém ainda não completa – especialização. Acreditamos que em “João comeu o bolo”, por
exemplo, serão confirmados os sentidos atribuídos às palavras no nível do sentido menor.
c) Sentido maior: sentido totalmente especializado, obtido pela inserção do contexto em um
cenário. É considerado o sentido pleno para a SCC, isto é, aquele usado pelos falantes
diariamente. Sabemos, por exemplo, que os amigos de João já vinham fazendo um bolo para
jogar na loteria no início da semana; afinal a premiação estava acumulada. Tinham até
combinado os números; e o dinheiro e a responsabilidade pelo jogo estavam com João. Mas
faltou comida em casa e João comprou alimentos para os filhos, não realizando a aposta,
pensando em repor o dinheiro depois. No final de semana, saiu o resultado: bingo! Os números
que os amigos tinham combinado foram sorteados. Mas quando procuraram João, nada! José
atacou logo a atitude de João: “A gente pensando que estava rico, mas o desgraçado do João
comeu o bolo!”
O cenário apresentado fez com que os sentidos iniciais de “comeu” e “bolo” fossem
totalmente especializados em decorrência de uma construção cultural, extralinguística: uma
72

visão de mundo. É interessante também destacar que os sentidos plenos (maiores), construídos
culturalmente, expressam obviamente valores culturais (convicções ideológicas, institucionais,
morais). É partindo das impressões de valores na mente dos falantes que os sentidos podem ser
criados e associados a uma lexia (sinal-palavra). Conforme ensina Ferrarezi Jr. (2010, p. 123-
124),

[...] todos esses valores culturais (concernentes à morte, à vida, à realização de um


desejo, à sorte, ao bem, ao mal...) associados ao sentido “menor” da frase (isto é,
aquele costumeiro que emana apenas de suas palavras) e ao sentido “médio” da frase
(isto é, aquele que me é permitido alcançar pela análise recursiva das pistas
contextuais) é que, em última instância, me permitem construir o sentido “maior” da
frase, mais complexo, totalmente especializado e cheio, agora, de valor realmente
representativo e que me permite a compreensão cabal do sentido, pois me permite
chegar em plenitude à visão da referência pretendida por meu interlocutor ao construir
a estrutura de representação. Trata-se, então, de um sentido vivo e revelador!”

Decerto essa explicação leva-nos a uma melhor compreensão sobre os níveis de


atribuição e especialização de sentidos na SCC.
Obviamente, os sentidos “variam de cultura para cultura e de indivíduo para indivíduo”
(FERRAREZI JR., 2008, p. 28); por isso os interlocutores precisam cooperar entre si para serem
entendidos. A SCC entrevê dois princípios básicos que interferem, na prática, na especialização
de sentidos: o princípio do monitoramento constante e o princípio da ciclicidade e
recursividade.
Segundo Ferrarezi Jr. (2010, p. 126), o “princípio do monitoramento constante” tem
a seguinte conceituação na SCC: “Os interlocutores em condição cooperativa monitoram
constantemente o cenário em busca de elementos relevantes para a compreensão da
interlocução”. Isso significa que as pessoas procuram se entender quando estão se
comunicando. Há, portanto, “esforços cooperativos” em direção a um propósito comum, que é
o entendimento mútuo da conversa. Para o autor, os elementos considerados importantes para
a conversa constituem o conjunto de pistas do cenário. Esse conjunto de pistas é avaliado
conforme critérios culturais e pessoais dos interlocutores e serve para a compreensão da
especialização dos sentidos das sentenças.
Sob outra perspectiva, parece claro que, às vezes, não entendemos o sentido pleno
apenas pelo uso das palavras empregadas em uma conversa ou texto. Nesses casos, precisamos
recorrer a nossa memória para acionar a compreensão de sentidos que já tínhamos entendido,
ouvido ou lido sobre o assunto. É nesse ponto que Ferrarezi Jr. (2008, p. 29) apresenta o
princípio da ciclicidade e recursividade: “A especialização de sentidos dos sinais-palavras
no contexto e no cenário dá-se de forma cíclica e recursiva e não de forma linear e sucessiva”.
73

Há, ainda na percepção do autor, um processo necessário de idas e vindas no contexto e cenário,
que organizam relações à procura da especialização de sentidos dos sinais.
Em suma, temos o seguinte quadro na especialização de sentidos: “o sentido de um sinal
se especializa no contexto e esse contexto toma do cenário as pistas necessárias para esse
processo de especialização, tudo de forma cíclica e recursiva” (FERRAREZI JR., 2010, p. 128).
O gráfico abaixo pretende representar esse processo na SCC:

Figura 6 – Processo de especialização de sentidos na SCC


Fonte: Reproduzido de Ferrarezi Jr. (2010, p. 128)

O conjunto de ações envolvidas na especialização de sentidos (conforme reprodução


acima) sofre algumas mudanças devido às especificidades do processo de leitura. Consoante
Ferrarezi Jr. (2010, p. 129), quando lemos um texto

[...] não há um cenário rico em pistas (como o cenário de uma conversa face a face)
que possa servir de pano de fundo para processar as especializações de sentidos.
Então, temos que partir diretamente do contexto para construir esses cenários e
reconstruir os prováveis sentidos dados aos sinais-palavras pelo autor. Por isso é que
é mais fácil que leitores entendam (ou não entendam...) os textos de forma diferente
daquela intencionada pelo autor, do que acontece em situação normal de diálogo. Isso
porque o autor, ao construir o texto, tinha um cenário em mente, e o leitor certamente
terá outro quando o ler. Mas isso de deixar o contexto livre de cenários prévios pode
ser proposital. O grande mérito da poesia, por exemplo, é o de permitir a criação dos
mais diversos cenários, permitindo que o texto assuma as mais diversas significações
[...].

O certo é que, no processo de leitura, devemos ficar mais atentos às referências a eventos
históricos, aspectos sociolinguísticos e culturais para interpretar adequadamente as
especializações de sentido acerca do que lemos. No caso de um autor-compositor, como
Gonzaga, é igualmente relevante que os sentidos sejam especializados com base nas pistas do
cenário em que a obra foi concebida; por isso a importância de saber sobre a filiação do autor
a um gênero musical, a sua origem geográfica, as suas condições socioeconômicas, o grau de
74

escolarização, a variedade sociodialetal utilizada, as influências recebidas, as suas crenças, seus


propósitos de afirmação identitária etc.
Enfim, seja na produção de sua obra artística, seja nas construções lexicais de uso diário,
as manifestações de sentidos usadas por Gonzaga têm uma motivação expressiva, para dar mais
vivacidade à descrição de ideias, emoções e práticas linguísticas usadas pela comunidade de
falantes nordestinos. Por isso, o sanfoneiro se vale de outras formas de associar sentidos a lexias
(sinais-palavras), utilizando-se dos seguintes fenômenos: metáfora (funcional), metonímia,
homonímia, polissemia e expressões idiomáticas. Passemos a sua exposição.

2.2.2 Campos semântico-culturais e fenômenos de metáfora (funcional) e metonímia

Vimos que a cultura, a língua e o pensamento atuam uns sobre os outros em um processo
contínuo de retroalimentação (2.2.1). Assumimos também que a SCC considera que os sentidos
não são fixos nas unidades lexicais. Eles são especializados em contextos e cenários. Assim, a
SCC descarta a concepção da existência da metáfora e da metonímia como uma relação de
atribuição do “sentido” de uma palavra pelo “sentido” de outra, no âmbito do sistema linguístico.
Em oposição a essa tradição, Ferrarezi Jr. (2010, p. 165) defende que a metáfora é um fenômeno
que “não se realiza na linguagem, mas no pensamento”, já que a mente humana realiza
transferências, cruzamentos entre domínios conceituais 39 . Para a SCC, esses domínios
conceituais, ou seja, os conceitos mentais que temos de alimentos, atividades sociais,
sentimentos humanos, crenças etc. se formam a partir de uma carga cultural e pelo trabalho
individual de cada falante sobre essa carga cultural; por isso essa vertente da Semântica prefere
usar o termo categorias culturais em vez de domínios conceituais. Essas categorias ou
paradigmas culturais equivalem ao que a tradição nos estudos linguísticos chama de campos
semânticos40, que é o agrupamento de palavras de cunho ideológico e linguístico, por meio de
uma rede de associações e interligações de sentidos. Com base nesses pressupostos, acreditamos
que podemos utilizar, então, a expressão “campos semântico-culturais” para nos referirmos a
esses paradigmas categoriais que se expressam por meio de sentidos especializados em uma
língua natural.

39
Aqui há uma clara referência às ideias de Lakoff e Johnson (2003 [1980]). Esses autores defendem que o sistema
conceptual humano é, em grande medida, metafórico.
40
A teoria dos campos semânticos desenvolveu-se principalmente nas escolas linguísticas estruturalistas alemães
e francesas, defendendo a hipótese de que o vocabulário de uma língua é composto de subconjuntos estruturados
ou campos, delimitando áreas nocionais (TAMBA, 2005 [1998]).
75

Sendo assim, a Semântica Cultural, em sua corrente de Contextos e Cenários, considera


a metáfora uma “associação de uma característica de um elemento de um paradigma cultural a
outro de outro paradigma, ou seja, uma operação de analogia” (FERRAREZI JR., 2008, p. 201).
O autor defende que, linguisticamente, a metáfora é representada pela “utilização de uma
expressão que apresenta um sentido costumeiro bem definido em uma comunidade de falantes
com outro sentido diverso daquele, mas presente nessa mesma comunidade, mesmo que para
ele não exista uma expressão específica”. É justamente esse deslocamento de sentido produzido
pela metáfora que permite o seu uso figurativo41 com propósitos estéticos em poemas, canções
e até mesmo em textos em geral, já que as construções metafóricas mobilizam emoções,
sensações e percepções de beleza nas expressões linguísticas.
A SCC identifica, pelo menos, quatro propriedades envolvidas na análise da metáfora:
01. estrutura (operação de cruzar, deslocar sentidos);
02. cognição (capacidade mental de criar analogias);
03. cultura (visão de mundo);
04. estética (sensação de beleza).

Tomemos um exemplo. Em “Sentindo a chuva, eu me arrescordo de Rosinha, a linda


frô do meu sertão pernambucano”, podemos ver, na parte destacada, aqueles quatro elementos
em ação. Inicialmente, encontramos dois campos semântico-culturais (paradigmas culturais)
distintos: humano e vegetal. Esses dois campos são cruzados para descrever uma visão de
mundo que considera válidas as atribuições das propriedades de uma planta ornamental às
características físicas da mulher, uma vez que este deslocamento evoca sensações de formosura,
delicadeza, brilho, perfume, forma e vigor da juventude42. Além disso, se pensarmos na cultura
nordestina, essa metáfora tem carga cultural bastante expressiva, já que lembra o encanto do
sertanejo com a mulher amada, comparada com a bela flor que desabrocha no período chuvoso
no sertão nordestino. A metáfora caracteriza-se, pois, por essa interação de sentidos na
expressão linguística que pode desencadear reações positivas ou negativas. Para a SCC, essa
percepção axiológica depende da compreensão e da aceitabilidade da construção metafórica por
parte da comunidade de fala, e dessa percepção resultam os seus efeitos estéticos. Entretanto, a
metáfora não serve somente a propósitos estéticos, pois a metáfora poética é, em grande medida,

41
Comumente chamado de sentido conotativo.
42
A SCC não faz distinção entre a metáfora “comum” e a personificação, entendida como um tipo de metáfora,
em que seres inanimados são percebidos “em termos de motivações, características e atividades humanas” –
tradução de: in terms of human motivations, characteristics, and activities (LAKOFF; JOHNSON, 2003 [1980],
p. 33).
76

uma extensão do estudo da metáfora que usamos no dia a dia (LAKOFF, 1993). Basta lembrar
que, cotidianamente, usamos metáforas como formas de ver e representar o mundo: por
exemplo, tempo é dinheiro na visão de mundo capitalista. De outra parte, é importante notar
que o sentido de uma expressão definida como metafórica em uma cultura pode não ser
considerado como tal em uma outra, uma vez que cada cultura possui classificações semânticas
naturais diferentes, agrupamentos categoriais distintos (FERRAREZI JR., 2003; 2012). Para
uma comunidade zen-budista43 chinesa, a metáfora ilustrada acima não deve fazer o menor
sentido.
Para a Semântica de Contextos e Cenários, as expressões metafóricas, assim como toda
construção de atribuição de sentidos na comunicação, são funcionais, isto é, elas atendem a uma
função. Segundo Ferrarezi Jr. (2010, p. 190), a metáfora é funcional devido a duas razões
principais:

a. porque deve funcionar como elemento de comunicação em um contexto e em um


cenário;
b. porque, funcionando adequadamente no contexto e no cenário, terá a função de
consolidar o processo de compartilhamento de conteúdos entre os interlocutores,
sendo elemento, ao mesmo tempo, constituído e constituinte desse mesmo contexto e
cenário.

Em razão disso, o autor propõe o conceito de metáfora funcional no âmbito da


Semântica Cultural, que deve ser entendida como

[...] uma construção figurativa na qual a palavra (ou expressão) metaforicamente


construída apresenta uma clara função de depósito cultural, uma função de registro de
algum tipo de conhecimento resultante das experiências vivenciais dessa mesma
comunidade que atribuiu esse nome metafórico a um referente (FERRAREZI JR.,
2012, p. 72).

Quando o sertanejo usa o nome “asa branca” em vez de “pomba”, para se referir à ave
migratória que habita do Nordeste até o Rio Grande do Sul, e “esquenta muié” no lugar de
“banda de pífaro”, está atribuindo sentidos metafóricos a essas lexias, cujas informações são de
ordem cultural, regionalizada. Essas especializações de sentido são motivadas em decorrência
de experiências extralinguísticas bem claras para os nordestinos: a cor branca embaixo da asa
da ave, somente visível quando está voando, e a fervorosa animação provocada pelo som das

43
Adepta do zen-budismo, escola do budismo surgida na China do século VI d.C. e levada para o Japão no sXII,
onde granjeou grande importância cultural até os dias atuais, caracterizada pela busca de um estado extático de
iluminação pessoal, equivalente a um rompimento deliberado com o pensamento lógico, obtido por meio de
práticas de meditação sobre o vazio ou reflexão a respeito de absurdos, paradoxos e enigmas insolúveis (HOUAIS,
2009).
77

bandinhas de pífano. A metáfora funcional registra informações culturais de modo bem


marcante: para sua compreensão, é preciso o conhecimento compartilhado de uma comunidade
sobre os seus critérios culturais de categorização do mundo, informações de natureza histórica,
tabus linguísticos etc. A metáfora funcional tem uma importância fundamental, pois serve ainda
à manutenção do acervo linguístico-cultural de uma comunidade, evitando a perda de sua
identidade.
A SCC reconhece que a “grande parte das metáforas presentes em uma língua se
concretiza nos nomes atribuídos pela língua aos diversos referentes que representam”
(FERRAREZI JR., 2012, p. 72). Os falantes de uma língua e de seus respectivos falares
empregam renomeações de nomes comuns, de uso cotidiano, pela atribuição de sentidos não-
costumeiros (“especiais”) aos referentes e pela ênfase em seus aspectos culturais e
idiossincráticos, como nos casos de apelidos e qualificativos inspirados em características
físicas e em experiências vivenciais da comunidade (por exemplo, “cabeça-de-papagai”, “boa
linha de lombo” e “lazarina”). A SCC admite também que há construções linguísticas cuja
atribuição de sentido decorre diretamente de “características próprias do referente”
(FERRAREZI JR., p. 192). É o caso dos nomes onomatopaicos, por exemplo: bumbo, tique-
taque, au-au etc. Essas imitações sonoras são culturalmente determinadas e suas representações
podem variar de região para região e de uma língua para outra. Em português, o galo faz
cocoricó, mas em inglês ele emite um cock-a-doodle-doo; já um passarinho faz tweet em inglês
e não pio-pio, como em nossa língua.
Uma outra forma de atribuir sentidos a sinais-palavras é feita pela metonímia. Na SCC,
a metonímia se diferencia da metáfora pelo fato de o processo metonímico ocorrer quando há
o cruzamento interno de elementos de um mesmo campo semântico-cultural (categoria
cultural). Logo, as ideias tradicionalmente ligadas à metonímia, ou seja, as relações
estabelecidas entre a parte e o todo, matéria e objeto, continente e conteúdo (“tomar uma garrafa
de cana”), causa e efeito, autor e obra etc. são consideradas, tendo-se em conta o relevante papel
da cultura no estabelecimento desses campos semântico-culturais ou paradigmas culturais, para
Ferrarezi Jr. (2010).

2.2.3 Homonímia e polissemia

A SCC não considera a existência de homonímia perfeita, pois “o uso que o falante faz
de sua língua é sincrônico e que, por isso mesmo, ele é habilitado a diferenciar os sentidos de
um mesmo sinal independentemente das informações etimológicas que, aliás, nem sempre ele
78

possui” (FERRAREZI JR., 2008, p. 165). Como vimos, para a SCC, não há sentidos inerentes
às unidades lexicais. Logo, não existem sentidos bem diferentes uns dos outros (isto é, sem
relação alguma com um “sentido-base”), fato que caracteriza, na tradição dos estudos
semânticos formais, a homonímia. Assim, segundo Ferrarezi Jr. (2008, p. 165), duas unidades
lexicais que possuam “origem etimológica ou mesmo trajetória derivacional diversa [como
‘casa’ (verbo) e ‘casa’ (substantivo), como ‘risca’ (substantivo) e ‘risca’ (verbo) etc.]” são
consideradas, na SCC, como uma mesma lexia (sinal-palavra) que será usada e interpretada
adequadamente pelos usuários, por causa do processo de especialização de sentidos, que
depende de um contexto e de um cenário específicos. Em alternativa, se não há sentidos
inerentes, existe a possibilidade de uma mesma palavra expressar vários sentidos, a depender
dos contextos e cenários em que ela se especializa. Logo, essa multiplicidade de sentidos
atribuída às manifestações linguísticas do significado caracteriza o fenômeno que já é
tradicionalmente conhecido como polissemia (P1 = S1, S2, S3 etc.). Essa postura da SCC
afetará a forma como os itens polissêmicos e homônimos aparecerão em uma obra lexicográfica,
conforme veremos na organização macroestrutural do glossário de Gonzagão (item 3.7.1).

2.2.4 Expressões idiomáticas

As expressões idiomáticas veiculam sentidos que estão intimamente ligados aos saberes
culturais desenvolvidos na comunidade de falantes que as emprega. Essas expressões
linguísticas se derivam de uma composição de palavras que adquirem e cristalizam44 um sentido
totalmente diverso dos sentidos costumeiros que os seus elementos possuem isoladamente.
Nesses casos, os constituintes de uma expressão idiomática se tornam indissociáveis, não
permitindo a supressão ou acréscimo de um elemento em seu interior (BIDERMAN, 2005).
Segundo Ferrarezi Jr. (2008, p. 198), “as expressões idiomáticas são, comumente, relacionadas
aos estudos do folclore de um povo”. Portanto, são construções linguísticas que traduzem
marcas identitárias e especificidades culturais compartilhadas por uma comunidade. As
expressões idiomáticas “vá tomar banho!” e “custar os olhos da cara”, por exemplo, têm
sentidos culturais marcantes. O primeiro expressa uma repulsa, admoestação, equivalendo a
“saia daqui”, deixe-me em paz!” Sua motivação remonta às associações do banho com a
melhoria do asseio e do caráter, pois a sujeira está culturalmente ligada à desonestidade. O
segundo refere-se ao que é demasiadamente caro, uma alusão original ao suplício de arrancar

44
Nesse sentido, equivalem às lexias textuais de que fala Pottier. Cf. 2.1.2.
79

os olhos aos prisioneiros de guerra, pois, estando cegos, se acreditava ficarem inofensivos
(CASCUDO, 2008 [1970]). Em suma, as expressões idiomáticas revelam a riqueza das
tradições culturais de uma comunidade e sua influência no sistema da língua.
Por fim, cremos que a apresentação das concepções da SCC e dos diversos fenômenos
linguísticos analisados dentro do seu campo de atuação serviu para fixar uma consideração
fundamental que servirá de parâmetro para as análises que serão desenvolvidas no capítulo 5:
o estudo semântico do Português Brasileiro, em sua variedade rural nordestina na obra de
Gonzaga, não pode ser apartado de seu componente sócio-histórico-cultural, item indispensável
para a construção, uso e compreensão dos sentidos especializados em contextos e cenários
específicos.
Na próxima seção, como forma de atender aos objetivos do trabalho, expomos os
postulados da terceira fonte de saberes que compõe o manancial teórico II desta tese: a Fonética.
No enfoque desse domínio, terá atenção especial o estudo de metaplasmos fonéticos brasileiros.

2.3 A FONÉTICA E A INVESTIGAÇÃO DOS FALARES

No delineamento histórico sobre os estudos dialetológicos (cf. cap. 1), vimos que os
atlas linguísticos podem registrar não apenas palavras e frases mas também as suas variações
fônicas organizadas em cartas fonéticas de diferentes falares. Isso é bastante coerente, pois, em
consonância com a posição de Vilela (1979, p. 15), consideramos que “o léxico está
intimamente ligado por um lado com a parte fônica, por outro lado, com as regularidades da
língua, a gramática [...]”. Como já amplamente propagado neste estudo, interessa-nos também
a identificação e análise de particularidades fonéticas na obra de Gonzaga; por isso, justifica-se
a apresentação dos postulados da Fonética como contribuição para a investigação do Português
Brasileiro em sua variedade rural nordestina.

2.3.1 A Fonética e o falar nordestino

No campo dos estudos linguísticos, a fonética é a ciência que trabalha com os métodos
para descrição, classificação e transcrição dos sons da fala humana (SILVA, 2002). Para Lopes
e Andrade (2012), a Fonética tem como preocupação principal as entidades físico-articulatórias
das línguas. Importa-se, pois, com a descrição dos sons e suas particularidades fônicas, sem
preocupar-se tanto com o estabelecimento de quais sons servem para diferenciar uma palavra
da outra. Esta última tarefa está mais em conformidade com o escopo de um domínio afim: a
80

fonologia. Para Abaurre (1993, p. 10), a Fonologia investiga a função dos sons “como
componentes de sistemas linguísticos, bem como as relações de oposição que entre eles se
estabelecem no interior de sistemas específicos”. Entretanto, atualmente, não se concebe o
estudo da Fonética e Fonologia de modo apartado, pois ambas investigam os sons que os seres
humanos produzem. São domínios, portanto, interdependentes e complementares.
Por se interessar pela substância fônica da linguagem, a Fonética estabelece como
unidade mínima o “fone”. O fone é o traço acústico-articulatório do fonema – propriedades
como oclusiva oral, bilabial etc. são fones que podem distinguir fonemas. Os fones são os
elementos registrados entre colchetes nas transcrições fonéticas (por exemplo, [d] e [dʒ] são
fones). Nelas, são feitos os registros dos sons, que podem ser fonemas ou variantes. De outro
lado, a unidade básica da fonologia é o “fonema”, que pode ser consonantal ou vocálico. Sobre
o fonema, é oportuno transcrever a explanação de Silva (2011):

[...] Dois sons podem ser classificados como fonemas quando estão em contraste e
oposição. Ou seja, são sons diferentes em um mesmo contexto, em palavras com
significados diferentes. Por exemplo, os segmentos /f/ e /v/ são fonemas em
português e o contraste é demonstrado pelo par mínimo faca e vaca (SILVA, 2011,
p. 109, grifos da autora).

Como é possível compreender a partir do trecho destacado, diferenças entre fonemas


acarretam mudanças de sentido entre os signos linguísticos. Basta apenas um traço (fone) para
distinguir um fonema. Quando isso ocorre, dizemos que “faca” e “vaca” constituem um par
mínimo, isto é, são palavras com significados diferentes que apresentam uma cadeia sonora
idêntica, exceto por um segmento na mesma posição. Além disso, diferentemente dos fones, os
fonemas são transcritos entre barras transversais (inclinadas); na transcrição fonológica só
aparecem os fonemas e arquifonemas45, nunca variantes. Outra diferença entre esses elementos
é a de que os fones são unidades pronunciadas isoladamente, enquanto os fonemas são unidades
de representação linguística abstrata.
Devido à forte relação entre Fonética e Fonologia, é comum vermos o emprego da
expressão “fonético-fonológico” em estudos que visam combinar aspectos articulatórios e
modos de funcionamento dos sons da linguagem. O ALiB, por exemplo, adotou, além dos
questionários semântico-lexical e morfossintático, um questionário fonético-fonológico (com
159 perguntas) para a identificação de variantes lexicais fônicas do português do Brasil.

45
O arquifonema expressa a perda do contraste fonológico, isto é, a neutralização de um ou mais fonemas em um
contexto específico. Os fonemas /s, z, ʃ, ʒ/, por exemplo, não apresentam contraste fonológico em posição final
de sílaba ([ˈmes] ou [ˈmeʃ] “mês”; [mezbuˈnitʊ] ou [meʒbuˈnitʊ] “mês bonito”). Para indicar essa neutralização,
utiliza-se o símbolo maiúsculo /S/, o qual representa um arquifonema (SILVA, 2002; 2011).
81

No que concerne à região Nordeste, ao lado das descrições constantes nos atlas
linguísticos (8 ao todo), vários autores já empreenderam estudos do ponto de vista fonético-
fonológico para entender como falam os nordestinos. Dentre eles, podemos citar Marroquim
(1996 [1934]), Serraine (1987) e Aragão (1977; 1999; 2000; 2004). Nessas obras, são
geralmente registradas as alterações fonéticas sofridas pela língua, tais como inserções,
modificações e eliminações de segmentos.

2.3.2 Metaplasmos brasileiros no falar nordestino

Conforme já visto, a língua sempre comporta heterogeneidade. A variação é sistemática


e habitualmente condicionada por fatores linguísticos e de ordem social. Efetivamente, é
comum encontrarmos alterações que ocorrem em diversas palavras do léxico. No nível fonético,
essas mudanças podem decorrer da influência de contextos ou ambientes fonológicos, ou seja,
“de um ou mais elementos que precedem ou seguem um determinado segmento de fala”
(CAGLIARI, 2002, p. 27). Tradicionalmente, do ponto de vista diacrônico, essas mudanças são
chamadas de metaplasmos, o que literalmente significa mudança de forma (metá + plasmós).
Os metaplasmos são também tratados como mudanças da forma de uma palavra que geram a
constituição de uma variante (JOTA, 1981). De acordo com essa perspectiva sincrônica de
metaplasmo, admite-se a possibilidade da existência de uma forma básica e de sua respectiva
variante que são usadas concomitantemente na fala dos indivíduos. Ainda sob esse olhar
sincrônico, essas modificações podem ser chamadas de processos fonológicos, expressão
consagrada na fonologia gerativa 46 , que diz respeito às mudanças que “podem alterar ou
acrescentar traços articulatórios, eliminar ou inserir segmentos” (SEARA, NUNES e
LAZZAROTTO-VOLCÃO, 2011, p. 107). Os processos fonológicos são representados por
regras formalizadas do tipo:

Figura 7 – Regra fonológica de nasalidade


Fonte: reproduzido de Seara, Nunes e Lazzarotto-Volcão, (2011, p. 113)

46
A fonologia gerativa, proposta por Chomsky e Halle, defende que representações subjacentes (abstratas) são
sujeitas a regras fonológicas que as transformam, gerando novas formas e culminando na representação fonética
superficial (SILVA, 2011).
82

Esses recursos notacionais são lidos da seguinte forma: a seta ( ) indica “a direção
em que a mudança se operou” (SCHANE, 1975, p. 91); o traço ( _ ) marca a posição em que
ocorre a mudança, e a barra inclinada ( / ) serve para separar o ambiente do restante da regra. O
processo fonológico representado na figura acima é resultante de uma regra geradora que pode
ser explicitada da seguinte forma: o elemento V (vogal) foi modificado para vogal nasalizada
([+ nasalizada]), quando está diante de C (consoante) nasal (+ nas). Assim, para compreender
a formalização das regras, deve-se primeiro identificar e classificar os traços distintivos que
expressam características específicas dos segmentos (vogais e consoantes), os quais recebem
valor positivo (+) ou negativo (-) (SILVA, 2011). Em outras palavras, e em resumo: uma vogal
é nasalizada 47 diante de uma consoante nasal, como ocorre em “cama” [ˈkâmə], que é a
representação fonética do dado empírico verificado em uma situação de fala.
Essencialmente, processos fonológicos e metaplasmos são termos assemelhados.
Schane (1975, p. 84), embora tratando de processos fonológicos, não se escusa de usar em sua
obra a expressão “metaplasmos de diminuição e aumento”. Desse modo, admitimos, em
concordância com Bagno (2012), que alguns fenômenos de mudança linguística, como os
metaplasmos, se repetem de modo cíclico e podem ser encontrados no português do Brasil
atualmente. Justifica-se, assim, o fato de preferirmos a expressão “metaplasmos brasileiros” a
processos fonológicos, para nos referir a essas mudanças, já que não utilizaremos notações
formais para sua descrição em nossas análises.
Em resumo, traçamos as propriedades dessas alterações nas variedades linguísticas
estigmatizadas do Português Brasileiro, mais conhecidas como variedades regionais populares.
Antes do arremate final, lembramos a clara lição de Aragão (2013, p. 211) no que se refere ao
falar do Nordeste: o “léxico e a fonética são os aspectos nos quais mais se percebem as
diferenças entre esse falar e os de outras regiões brasileiras”.
Enfim, ao analisarmos os metaplasmos usados atualmente no Português Brasileiro,
verificamos que estes podem ocorrer de quatro formas distintas: por acréscimo; por subtração;
por transposição e por transformação (permuta).

2.3.2.1 Metaplasmos por acréscimo

Os metaplasmos por acréscimo (ou aumento) são aqueles em que ocorre a adição de um
fonema a mais na variante constituída a partir de uma forma básica. Fazem parte desse grupo

47
Neste trabalho, a nasalidade é representada pelo acento circunflexo ( ^ ) sobre a vogal nasalizada. Ver 2.3.2.4,
letra “e”.
83

os seguintes fenômenos metaplásticos: prótese, epêntese e paragoge; este último também


chamado de epítese.
a) Prótese: é o termo usado para “indicar um tipo de intrusão (adição), em que um som extra é
inserido no início de uma palavra” (CRYSTAL, 1988, p. 214).
Marroquim (1996 [1934]) apresenta as formas amuntá(r), avexame, incolocá(r),
desafastar, apois, descontratempo. No falar caipira paulista, Amaral encontrou as seguintes
formas variantes: alembrá = lembrar, avoá = voar, arripiti = repetir.
Como salientam Botelho e Leite (2005, p. 3), algumas formas protéticas já se encontram
inclusive dicionarizadas, tais como: renegar > arrenegar e voar > avoar. Para Henriques
(2011), essas formas representam exemplos de prefixo sem significado, resultantes de prótese
eufônica ou analógica. Em um levantamento superficial, encontramos também em Houaiss e
Vilar (2009), as seguintes formas: lembrar > alembrar; levantar > alevantar, mostrar >
amostrar e montar > amontar. Bagno (2012) lembra que muitos desses vocábulos são formas
arcaicas e clássicas que se mantiveram em variedades regionais.
b) Epêntese: é o tipo de metaplasmo em que há intromissão de um fonema no meio da palavra.
Podem ser citados como exemplos, beneficência > beneficiência; prazerosamente >
prazeirosamente e as formas já dicionarizadas lista > listra e estalar > estralar. As consoantes
epentéticas existem no português, mas são raras. Silva (2011) registra como ilustração as
consoantes [l] e [z] em: paulada e cafezal, respectivamente.
c) Suarabácti: é um tipo especial de epêntese que “consiste no desenvolvimento de uma vogal
dentro de um grupo consonântico” (CÂMARA JR., 1977, p. 52). O suarabácti é também
conhecido por anaptixe. Exemplos no falar rural nordestino incluem: advogado > adevogado;
dificuldade > dificulidade; florar > fulorar; absoluto > abisoluto; glória > gulória. Em seu
estudo sobre a língua do Nordeste, em especial sobre o falar presente em Pernambuco e Alagoas,
Marroquim (1996 [1934], p. 66), atribui o uso do suarabácti pelas pessoas mais simples do
Nordeste à dificuldade de pronúncia de encontros consonantais:

[...] realmente é mais fácil ao povo alargar a palavra acrescentando-lhe uma sílaba, do
que pronunciar duas consoantes juntas.
Os grupos cl, lv, lm, fl, enfim, aqueles em cuja composição entre um l sofrem esse
alargamento, o que por vezes altera de maneira notável a palavra, tornando-a quase
irreconhecível.
Há também esse alargamento em grupos formados com r, mas é menos vulgar:
ispilicá(r), apalacá(r), uruvaio, quilaridade, fulorá, gulora, Guilicéro, Silivestre,
Quelemente, álima, inguelei, riculúta, quereca (creca), irimão.
84

Segundo o estudioso, para abrandar a rudeza do grupo consonantal, o índio dizia curuzu
em vez de cruz. Já Amaral (1920) encontrou ocorrências de suarabácti no dialeto caipira que
considerou modificações “acidentais”, tais como: reculuta (recruta), Ingalaterra (Inglaterra) e
garampo (grampo).
No entanto, o mestre Marroquim (1996 [1934], p. 75) adverte que “não é só o matuto;
as classes cultas empregam largamente esse processo de simplificação da prosódia”; por
exemplo, em néquiso, estiguima, Edigar e abisoluto. O autor refere-se também ao fenômeno
como decorrência da paréctase, que é a inserção de sons entre os fonemas de uma palavra para
torná-la eufônica.
d) Paragoge (Epítese): é o fenômeno de acréscimo de um fonema ao final da palavra, como
em: variz > varize; lei > leis; ante > antes. Esse -s final em antes, assim como em entonces se
explica por analogia fonética com o de depois (COUTINHO, 1976). Nesse último caso, cabe
lembrar o que disse Saussure (1995 [1915], p. 187): “a analogia supõe um modelo e sua
imitação regular”.
Coutinho (1976) e, mais recentemente, Bagno (2012) citam que, no aportuguesamento
dos empréstimos linguísticos, é também comum o acréscimo de -e paragógico para evitar que
a palavra termine em consoante: chique (chic), clube (club), film (filme).
Marroquim (1996 [1934]), advertindo que a paragoge não era um fenômeno comum,
identificou, na variedade rural nordestina, as formas reis e bondes em lugar de rei e bonde,
enquanto Amaral (1920), em seu Dialeto Caipira, oferece-nos apenas a forma paletó(r) entre
os “caipiras” paulistas.

2.3.2.2 Metaplasmos por supressão (subtração)

Os metaplasmos por subtração caracterizam-se pela supressão de um fonema na forma


variante. Compõem o grupo dos metaplasmos por subtração as seguintes espécies: aférese,
síncope, apócope e sinalefa.

a) Aférese: é a perda de um fonema inicial nas palavras. Coutinho, em sua Gramática Histórica
(1976), registra que, no português antigo, já eram comuns os casos de aférese, tais como: geriza
(ojeriza), lambique (alambique), laúde (alaúde), licate (alicate), lameda (alameda), letria
(aletria), vogado (advogado), bondar (abundar), menagem (homenagem), nemiga (inimiga),
etc.
85

Amaral (1920) encontrou também as seguintes formas aferéticas do Português


Brasileiro: (a)parece, (i)magina, (ar)rependeu, (ar)ranca, (a)lambique, (al)gibêra. Em
contrapartida, Marroquim (1996 [1934]) chama a atenção para a comuníssima queda da
primeira sílaba do verbo estar, que resulta nas formas tou, tava, tive, tá. O autor registrou
igualmente as seguintes formas aferéticas: Izidoro > Zidoro; José > Zé; embornal > bornal;
até > té; você > cê; urupemba > rupemba.

b) Síncope: é a queda do fonema no interior da palavra. Caracterizam exemplos de síncope as


formas variantes: negro > nego; caboclo > caboco. Para Marroquim (1996 [1934]), a
dificuldade de pronunciar o proparoxítono faz com que o emprego das formas sincopadas
abunde na fala das pessoas com menor grau de escolaridade; por isso temos: pólvora > poiva;
xícara > xicra; príncipe > prinspe e rícino > rizo (com sonorização do [s]). Amaral (1920)
apresenta o fenômeno da síncope nas seguintes formas proparoxítonas: pês(se)co = pêssego,
mus(i)ga = música (com sonorização do [k]), isp(i)rito, ca(s)tiçar, Jeró(ni)mo e ridíc(ul)o.
Bagno (2012) aponta um caso frequente de síncope, que é verificado em variedades nordestinas,
especialmente as sertanejas, em que há a supressão do [ɾ] nos encontros consonantais postônicos,
conforme ocorre em: outro [ˈotʊ]; pobre [ˈpobɪ] e dentro [ˈdẽtʊ].
Dá-se o nome de haplologia à síncope especial em que há eliminação de um segmento
fônico quando vem repetido numa palavra. Para Bagno (2012), a supressão do [r] em palavras
que contêm dois é um caso típico de haplologia, como em própio e orquesta. Para o linguista,
muito embora essas pronúncias sejam estigmatizadas no Português Brasileiro, é possível
encontrar, entre os falantes urbanos cultos, as seguintes ocorrências: frustado, prostado e
fragância.

c) Apócope: é o fenômeno caracterizado pela supressão de um fonema no fim de um vocábulo.


Vamos > vamo; rabugem > rabuge. Jota (1981) ensina que a apócope se processa não apenas
por efeito de ação fonética mas também devido ao fator rítmico. Assim, temos: são por santo e
frei por freire.
Amaral (1920) consigna que as palavras terminadas em -al, -el, -il geralmente
apresentam formas apocopadas no falar rural paulista. Por exemplo, má, só e jorná vêm de mal,
sol e jornal. O autor também aponta a supressão do -s em final de palavras paroxítonas ou
proparoxítonas, apresentando as seguintes realizações: arfére (alferes), pire (pires), bamo
(vamos) e imo (imos).
86

Além da queda do -l, Marroquim (1996 [1934]) registra casos de apócope para evitar o
proparoxítono em hipote (hipótese), refém (referente) e ridico (ridículo). Ademais, o autor
destaca a supressão do -r em final de palavras como pedi e professô e prevê a sua fixação na
língua: “[...] De qualquer forma, mesmo nas cidades, a pronúncia vulgar faz soar levemente -r
final; e não será exagero afirmar que a inclinação é para eliminá-lo no falar corrente”
(MARROQUIM, 1996 [1934], p. 61). Em concordância com Marroquim, Bagno (2012)
confirma a supressão do -r final como característica marcante do Português Brasileiro,
sobretudo de verbos no infinitivo, afirmando que essa tendência não provoca rejeição da parte
dos falantes urbanos letrados, porque eles também fazem uso da apócope nesses casos. Trata-
se, portanto, segundo a classificação de Bortoni-Ricardo (2012 [2002]), de um exemplo de traço
gradual.
d) Sinalefa: a sinalefa (do grego fusão, união) ou elisão refere-se à queda da vogal final de uma
palavra, quando a seguinte começa por vogal. Coutinho (1976) oferece alguns exemplos dessas
contrações com demonstrativos e artigo indefinido: deste > de este; daquele > de aquele e
dum > de um. Por seu turno, Marroquim (1996 [1934]), sem se referir ao nome sinalefa, analisa
a palavra pramode (prumode, móde) como caso interessante de apócope, em que também houve
aférese, resultante da contração de por amor de, que tanto pode significar “a fim de”, “para” ou
“por causa de” na linguagem do sertanejo. Efetivamente, na fala corrente do Português
Brasileiro, é bastante comum a fusão de elementos na cadeia falada, assim como em
aglutinações regulares que se tornaram palavras simples, conforme destaca Bagno (2012):
outrora, embora, hidrelétrica.

2.3.2.3 Metaplasmos por transposição

São aqueles metaplasmos em que há o deslocamento de um fonema ou acento tônico.


Nesse grupo de metaplasmos, expomos as seguintes espécies: metátese e hiperbibasmo (sístole
e diástole).

a) Metátese: é o deslocamento de fonema em um vocábulo, na mesma sílaba ou entre sílabas


(COUTINHO, 1976). Inversamente, há autores, como Jota (1981), que reservam o termo
hipértese para descrever o deslocamento de um fonema de uma sílaba para outra na forma
variante e, por isso, a classifica de metátese a distância.
Neste estudo, assumimos a posição de Coutinho (1976) que não faz diferenciação entre
os dois termos. Os exemplos de metátese com o segmento rótico são frequentes: porque >
87

proque; perfume > prefume; perguntar > preguntar (forma registrada em Houaiss e Vilar,
2009); braguilha > barguilha (forma também já dicionarizada); tigre > trige; teatro > triato.
Marroquim (1996 [1934] registra aeroplano > areoplano; lêndea > leinda.
Quando há transposição de acento tônico, ocorre o hiperbibasmo, cujas espécies são a
sístole (quando há mudança da sílaba tônica para a sílaba anterior na variante da forma básica:
ruim > ruim (rú); rubrica > rúbrica; púdico > pudico) e a diástole (em que ocorre o
deslocamento do acento tônico para a sílaba posterior: boêmia > boemia; gratuito > gratuíto).

2.3.2.4 Metaplasmos por transformação (permuta)

Para apresentarmos os metaplasmos por transformação ou permuta, trazemos o seguinte


conceito de Coutinho (1976, p. 143): “metaplasmos por permuta são os que consistem na
substituição ou troca de um fonema por outro”. Botelho e Leite (2005, p. 6) preferem chamá-
los de metaplasmos por transformação, ou seja, aqueles que “ocorrem quando um fonema de
um vocábulo se transforma, passando a ser outro fonema distinto em lugar do primeiro”.
Neste estudo, vamos trabalhar com os seguintes tipos de metaplasmos por
transformação: rotacismo, lambdacismo, palatalização, despalatização, desnasalação,
assimilação e monotongação.

a) Rotacismo: é uma realização fonética em que há a substituição de um fonema líquido lateral


/l/ para um vibrante /r/, como em inclinado > Incrinado; calçada > carçada; soldado >
sordado; problema > probrema. Se formos em busca das origens do rotacismo, percebemos
que, na evolução do latim ao português, já era possível observar esse fenômeno em ação: blandu
> brando; plancto > pranto. No entanto, Nascentes (1953, p. 53) acredita que o uso do
fenômeno no Português Brasileiro decorreu principalmente da influência do tupi, pois essa
língua indígena “não tinha o som lê mas possuía o rê (r brando). Era natural que trocasse o lê
pelo rê”. Inversamente, embora admita certa influência do tupi, já que os índios moldavam sua
pronúncia autóctone à portuguesa, como em cabarú ou cavarú (cavalo) e papéra (papel),
Marroquim (1996 [1934]) acredita que a maior influência para o uso do rotacismo deu-se
mesmo foi pela evolução do português. Segundo o filólogo, no português arcaico já era possível
encontrar as formas ingrês, enxempro, groria, craro, prantar, paravra etc. Tese também
corroborada por Bagno (2007) que reuniu os seguintes exemplos: cremença, cramar, fragelo,
concruir, simpres etc.
88

Por seu turno, os pesquisadores Naro e Scherre (2007) refutam a tese de Holm (1992)
sobre a influência africana na alternância entre as líquidas [l] e [r], pois, para aqueles autores,
o rotacismo é um fenômeno igualmente encontrável no português europeu dialetal, em variantes
como azur (azul); carcar (calcar); farta (falta) e purmões (pulmões) 48 . Logo, o fenômeno
deveria ser explicado a partir dessa constatação. Em arremate à defesa de sua proposição, Naro
e Scherre (2007, p. 130) assim se posicionam: “quem conhece a fala da área rural brasileira
pode vê-la consistentemente nos registros da dialetologia europeia”.
Enfim, Bagno (2012) lembra que o rotacismo ocorre não apenas em encontros
consonantais mas também em posição de coda silábica (travamento silábico), sendo um uso
característico do denominado “dialeto caipira” e de variedades sertanejas do Nordeste, que
pronunciam, por exemplo: firme (filme); argum (algum) e vorta (volta).

b) Lambdacismo: é a transformação de /r/ para /l/. É fenômeno comum na linguagem infantil,


em fase de desenvolvimento: três > tlês; prato > plato; cabeleireiro > cabelelero (com
monotongação concomitante de “-lei-” e “-rei-”). O lambdacismo é o inverso do rotacismo.
Bagno (1999) admite que é possível encontrar, em variantes rurais do Português Brasileiro, as
seguintes formas: calvão, celveja e galfo. O autor ressalta que “tanto o rotacismo quanto o
lambdacismo ocorrem em ambientes fonéticos específicos, isto é, diante de determinadas
consoantes (quem diz calvão, por exemplo, não diz calta, mas sim carta) ou de acordo com o
fonema na palavra” (BAGNO, 1999, p. 94).
Para Naro e Scherre (2007), as trocas entre [l] e [r] que aparecem em peligrino
(peregrino), ralidade (raridade) e ralu (raro) são resultantes da mesma intervenção causada
pelo português europeu popular sobre o Português Brasileiro popular no caso do rotacismo. Já
Nascentes (1953, p. 56), secundado por Tomás (1926), buscava oferecer, no século passado,
uma explicação para a alternância entre [l] e [r] na “fala inculta” dos brasileiros: “o r fricativo
e o l relaxado apresentam bastantes caracteres comuns para poder confundir-se entre si”. O
autor, porém, não aponta quais seriam esses caracteres.
Com efeito, é Silva (2011) que nos traz um ensinamento a respeito do tema: as
consoantes laterais e os róticos (segmentos consonantais relacionados a um som de -r) são
tradicionalmente reunidos em a uma mesma classe de segmentos consonantais chamada de
líquida. Para Crystal (1988, p. 164), a classe líquida refere-se “a todos os sons ápico-alveolares
do tipo [l] e [r]”, ou seja, aqueles produzidos quando o ápice (extremidade) da língua se desloca

48
Os dados apresentados por Naro e Scherre (2007) se baseiam em estudos dialetológicos do português europeu
não padrão realizados por Leite de Vasconcelos; Peixoto (1968) e Alves (1965).
89

em direção aos alvéolos. Câmara (1997, p. 160) explica também que a denominação líquida
advém da “impressão de fluidez que apresenta a articulação e o efeito acústico do /l/”. No
português brasileiro, o -l ortográfico é normalmente pronunciado igual à semivogal [w], como
em serviço > selviço e terça > telça (BAGNO, 2012).
c) Palatização (ou palatalização): refere-se ao deslocamento do lugar de articulação de um
fonema em direção ao palato duro, popularmente conhecido como céu da boca. Exemplos de
palatalização incluem a produção do “s” ortográfico que se torna “chiante”, resultando no
fonema /ʃ/, tal qual ocorre nas realizações de ca[s]ca > ca[ʃ]ca e ce[s]to > ce[ʃ]to. Em
português, a palatalização pode ocorrer também na produção de família > fami[ʎ]a e
Antônio > Anto[ɲ]o. Na ortografia do português, a nasal palatalizada e a líquida lateral
palatalizada são indicadas por um dígrafo, -lh e -nh, como em familha e Antonho,
respectivamente (CÂMARA JR., 1977).
Silva (2011) destaca que, no Português Brasileiro, ocorre a palatalização de oclusivas
alveolares [t] e [d] antes da vogal alta [i, ĩ] ou semivogal [y], o que resulta, por exemplo, na
pronúncia do falar do Rio de Janeiro “de uma maneira ‘soprada’ (dita africada), em contraste
com a dental firme que aparece em São Paulo”, como já observava Câmara Jr. (1977, p. 35).
Temos, nesse caso, um exemplo de alofonia, em que os fonemas /t/ e /d/ se realizam como as
variantes [tʃ, dʒ] seguidas de [i, ĩ] e da semivogal [y], ou [t, d] seguidas das demais vogais.
Quando isso ocorre, dizemos que esses sons alofônicos estão em distribuição complementar,
isto é, que eles ocorrem em ambientes exclusivos.
Silva, Barboza, Guimarães e Nascimento (2012, p. 61-62) oferecem uma explicação
sobre a palatização que nos parece útil transcrever:

Tradicionalmente, o português teria somente consoantes oclusivas alveolares, sendo


que africadas surgiriam em decorrência do processo de palatalização. A palatalização
de oclusivas alveolares é um fenômeno que distingue o português brasileiro das
variedades do português europeu, africano e asiático. O fenômeno de palatalização de
oclusivas alveolares tem se configurado como um caso bastante rico e multifacetado
para o estudo da variação e mudança sonora no português brasileiro.

Efetivamente, o fenômeno da palatização é um importante marcador dialetal e social,


sendo identificado como característica de diferentes falares no Brasil. No Nordeste, temos
variedades tipicamente não palatalizantes, como no Rio Grande do Norte e Paraíba, e
tipicamente palatalizantes, que ocorrem no Ceará, por exemplo.
90

Neste estudo, o fenômeno da palatização será observado principalmente nas realizações


da fricativa [s] em posição pós-vocálica, em coda silábica, e nas dentais alveolares [t] e [d]
seguidas da vogal [i].

d) Despalatização: é o “fenômeno fonológico caracterizado pela perda do traço palatal”


(SILVA, 2011, p. 89), que pode ocorrer com os fonemas /ʎ/ e /ɲ/. Esses fonemas são
apresentados por Aragão (1999, p. 15) da seguinte forma: “o fonema /ʎ/ é descrito fonética e
fonologicamente como consoante oral, sonora, lateral, dorsopalatal”; e o fonema /ɲ/ como
consoante vibrante, sonora, nasal, dorso-velar”. Ortograficamente, essas consoantes ocorrem
em posição medial ou em final de palavras por -lh e -nh, respectivamente. A realização inicial
da primeira é bastante rara, sendo possível encontrar em pouquíssimos vocábulos, como
“lhama” e “lhe”. Já a segunda aparece em várias palavras de origem tupi, como “nhe-nhe-
nhem”, “nhambu” (tipo de pássaro) e “nheengatu” (língua desenvolvida a partir do tupinambá).
Segundo Aragão (1999, p. 15), em certos contextos, “por facilidade ou relaxamento de
articulação o /ʎ/ e /ɲ/ podem perder o traço palatal, passando a ser articulados como alveolares
/l/ e /n/, como iode /y/ ou sofrer apagamento, desaparecendo”. Dessa forma, podemos pensar
em três variantes que ocorrem após a perda da palatização:
01. a simples despalatização do [ʎ] é bastante comum nas variedades linguísticas estigmatizadas,
como em mulher > mulé e colher > culé (com apócope do -r). Jota (1981) entende a
despalatização como fenômeno fonético no Português Brasileiro, pois a sua realização não
acarreta alteração de sentido. O autor aponta mais de uma motivação para o seu uso, quando
admite a influência estilística em situações menos monitoradas, já que “o fato não é raro em
linguagem descuidada de alguns, que mudam o NH ou LH por N ou L antes de E ou I” (JOTA,
1981, p. 103). De outro ponto de vista, atribui o fenômeno à intervenção diatópica;
02. a iotização, para Câmara Jr. (1977, p. 149), é “a mudança de uma vogal ou consoante para
a vogal anterior alta /i/ ou para a vogal correspondente ou iode”. O autor chama a atenção para
a ocorrência desse fenômeno entre as “consoantes molhadas / l’/ e / n’/ ex. mulher > /muyé/,
Nhonhô > Ioiô”. Por consoantes molhadas, termo em desuso para “amolecidas”, o autor entende
as consoantes palatais [ʎ] e [ɲ], cujos efeitos acústicos seriam considerados mais suaves. Por
seu turno, Jota (1981) admite também os termos iodização ou ipsilonismo para referir-se à
conversão da palatal em semiconsoante (glide) nas variantes rurais e rurbanas desprestigiadas
(populares), como em orvalho > orvaio, folha > foia e colher > cuié. Inversamente, Bagno
(2012) prefere usar o termo deslateralização em vez do já consagrado iotização. Sem mencionar
o nome técnico, Marroquim (1996 [1934]) já descrevia a passagem da palatal à iotização nos
91

sertões pernambucano e alagoano. Referindo-se ao -nh e -lh, afirmou que, no Nordeste, é


comum encontrar as pronúncias cumpã-ia, arã-ia, Marã-ião, mio, fio e teia. É importante
destacar que a consoante palatal [ʎ] também pode ser representada ortograficamente por -li ou
-le. É por isso que o povo (leia-se, as classes menos escolarizadas) diz mubia (mobília), famia
(família) e óio (óleo), produzindo a despalatização, e consequente iotização, nessas pronúncias;
03. a terceira e última possibilidade de realização decorrente da despalatização é o apagamento
do [ʎ], como ocorre em milho > mio e filho > fio.
Pelo exposto, a despalatização pode ser vista como variante não apenas regional mas
também de origem social, estilística ou individual; portanto, deve receber o nome de variante
sociodialetal (ARAGÃO, 1999).
e) Desnasalação: é a espécie de transformação que consiste na passagem de um fonema nasal
a fonema oral.
No português, as vogais são consideradas nasais quando têm a propriedade obrigatória
de ressonância na cavidade nasal (SILVA, 2011). As vogais nasais aparecem em final de
palavra ou são seguidas de uma consoante oral, como em “santo” [ˈsãtʊ], “sento” [ˈsẽtʊ],
“sonda” [sõdə] e “lindo” [ˈlĩdʊ]. Nas vogais nasalizadas, a propriedade de ressonância na
cavidade nasal não é obrigatória49. São consideradas vogais nasalizadas aquelas seguidas de
consoantes nasais, como em “cama” [ˈkâmə], “cana” [ˈkânə] e “apanhá” [ˈapâˈɲa]. Esse é um
fenômeno comum no Nordeste. Neste trabalho, essas variantes são representadas pelo acento
circunflexo ( ^ ) sobre a vogal nasalizada.
Pois bem. É comum encontrarmos no português rural do Nordeste a desnasalação do
segmento final, como ocorre em homem > home; ontem > onte; coragem > corage e virgem >
virge. Refutando a tese de Holm sobre a origem morfossintática do fenômeno, Naro e Scherre
(2007) defendem o contrário. Para eles, a desnasalação é totalmente fonológica em sua origem
diacrônica, com posterior propagação para a morfologia atingindo, por exemplo, as formas da
terceira pessoa do plural, como em: “eles come/comem” ou “elas escreve/escrevem”.
De modo semelhante, Marroquim (1996 [1934]) menciona as formas arcaicas quiserom,
matarom e pedirom, encontradas em documentos dos séculos XV e XVI, para justificar a
mudança de -am em -o no falar rural nordestino. Para ele, a desnasalação na flexão da terceira
pessoa do plural do perfeito do indicativo deve-se à persistência das formas arcaicas da língua
e à força da economia fisiológica que resultaram, por exemplo, nas seguintes formas: fizéro,
quiséro, amáro, corrêro e matáro. Para Bortoni-Ricardo (2004), a desnasalação só incide em

49
Também chamada de nasalidade fonética ou por assimilação (FONSECA, 1984; SANTOS, 2013).
92

sílabas átonas finais. Com efeito, Bagno (2012, p. 155) defende que a realização de uma
nasalidade depois da sílaba tônica “exige esforço articulatório, por isso, seguindo a tendência
da economia linguística, é muito comum que essa nasalidade desapareça, como é muito
frequente no português brasileiro, mesmo entre os falantes mais escolarizados”.

f) Assimilação: assimilação consonantal e vocálica.

A assimilação ocorre quando há uma aproximação ou total identidade de dois fonemas,


a partir da influência que um exerce sobre o outro (COUTINHO, 1976).
O fenômeno assimilatório envolve várias espécies, como a sonorização, em que ocorre
a passagem de consoante surda a sonora: música > musga; a vocalização, com a transição de
uma consoante a vogal, manifestada como um glide posterior [w]: solto [ˈsowtʊ], em posição
de coda silábica, ou seja, na parte pós-vocálica da sílaba que é ocupada por um som consonantal;
e a palatalização que vimos acima.
A assimilação pode ser consonantal e vocálica, progressiva e regressiva, parcial e total.
Segundo Jota (1981), o fonema “forte”, o que determina a mudança do outro é chamado de
assimilador ou assimilante, enquanto o fonema “fraco” é denominado de assimilado.
A assimilação é consonantal quando o fonema assimilado é, por óbvio, uma consoante.
Segundo Bagno (2012), a sibilante [s] tem por característica provocar um processo assimilatório
à consoante vizinha. Em variedades regionais do Português Brasileiro, é possível verificar que
a forma verbal foste e o pronome este são comumente assimilados, na língua falada, pelas
formas fosse e esse.
A assimilação é vocálica quando o fonema assimilado é uma vogal. Exemplos clássicos
são m[i]nino por m[e]nino e c[u]ruja por c[o]ruja. Para Silva (2011, p. 131), nesse processo
assimilatório, “os traços de uma vogal se propagam para outros segmentos vocálicos”. Nos
exemplos fornecidos, a vogal média da sílaba pretônica é elevada, buscando estabelecer uma
“harmonia” entre ela e a tônica que a sucede (HOSOKAWA; SILVA, 2010). Justamente por
isso, esse tipo de assimilação é conhecido por harmonização vocálica.
A assimilação é progressiva quando o fonema assimilador está antes do assimilado.
Ocorre no sentido da esquerda para a direita. Oito > o[tʃ]o; Amam-lo > amam-no. Na variedade
rural nordestina, temos: Cícero > Ciço; Carlos > Carro; é regressiva quando o fonema
assimilador vem depois do assimilado. Nesse caso, o processo acontece da direita para a
esquerda. De[s]de > de[z]de; salsicha > salchicha; promessa > premessa; seixeiro > xexeiro
(com monotongação); é parcial quando o fonema assimilado se assemelha ao assimilador. Os
93

exemplos fornecidos para desde e oito acima são casos de assimilação parcial, uma vez que o
segmento alterou um ou outro traço distintivo (HORA, 2012). No primeiro, houve vozeamento
do [s], que passou a [z]; no segundo, o [t] assimilou o traço coronal (articulação em que há o
levantamento da parte frontal da língua) do glide [oy], tornando-se uma consoante alveopalatal
[tʃ]; e é total quando o fonema assimilado se identifica com o assimilador, isto é, se iguala ao
fonema assimilador. Marroquim (1996 [1934]) menciona as assimilações encontradas na
variedade sertaneja nordestina nos grupos rl, lr, mb, e nd: Carro, birro, tamém, quano, correno
e ficano por Carlos, bilro, também, quando, correndo e ficando. Os dois últimos exemplos
ilustram uma assimilação progressiva bastante comum no gerúndio do Português Brasileiro, em
que a consoante [d] é assimilada totalmente pela nasal [n] com o consequente apagamento de
[d], resultado do seguinte percurso: -nd > -nn > -n-. Efetivamente, esse processo não é
exclusivo das variedades rurais nordestinas, pois já foi documentado no falar rural paulista
(AMARAL, 1920) e no português popular de Portugal, com o propósito de preservar a estrutura
silábica prototípica (CV) do português (NARO; SCHERRE, 2007).
g) Monotongação: é o fenômeno caracterizado pela transformação de um ditongo em uma
única vogal, o monotongo. Entende-se por ditongo o “encontro de uma vogal e uma semivogal
na mesma sílaba. Funcionam como semivogais o i e o u, que são representados fonologicamente
por /y/ e /w/” (HORA; AQUINO, 2012). A semivogal ou glide é um segmento com
características articulatórias de uma vogal, mas que nunca assume a posição nuclear em uma
sílaba e, por isso, é também chamada de vogal assilábica. Dubois, Giacomo, Guespin,
Marcellesi e Mevel (2006 [1978]) destacam as particularidades do glide ao revelar que o termo
é um empréstimo da língua inglesa usado para designar

[...] os fonemas tradicionalmente chamados, e com uma grande imprecisão,


semiconsoantes ou semivogais. Esses fonemas, como o [j] de [sɛrju] “sério”, o [w] de
[agwa] “água”, constituem uma classe de fonemas como as consoantes e as vogais,
caracterizados pelo fato de que não são nem vocálicos nem consonânticos.

Os ditongos podem ser classificados como “orais” e “nasais”, bem como “crescentes” e
“decrescentes”. Os ditongos crescentes possuem uma sequência de glide e vogal (série, várias),
enquanto os decrescentes têm uma sucessão de vogal e glide (pai, lauda).
Caso interessante ocorre com o chamado duplo ditongo. Na palavra “papagaio”, por
exemplo, após o ditongo decrescente [ay] existente na penúltima sílaba, ocorre o
desenvolvimento de uma semivogal (glide) na sílaba seguinte que contém a vogal final
(BECHARA, 2009). Assim temos: papagaio = “papagai-io”. Embora exista apenas um
94

segmento “i”, foneticamente, ele seria compartilhado pelas duas sílabas. Esse fenômeno
também é conhecido por “falso hiato”, já que existe uma sequência de vogal e semivogal (que
graficamente é confundida com uma vogal) em uma sílaba, acompanhada de uma vogal na outra
sílaba. Outros exemplos de duplo ditongo incluem “samambaia”, “imbuia”, “feio” e “boia”.
Já o termo monotongo, referido anteriormente, é uma vogal pura, ou seja, é aquela cuja
articulação não sofreu nenhuma mudança perceptível em sua ocorrência na sílaba (CRYSTAL,
1988).
Do ponto de vista ortográfico, há permanência do ditongo na descrição dos vocábulos
nos quais ocorre a monotongação. É o que salienta Câmara Jr. (1977, p. 170) ao explicar que,

[...] para pôr em relevo o fenômeno da monotongação, chama-se, muitas vezes,


MONOTONGO à vogal simples resultante, principalmente quando a grafia continua
a indicar o ditongo e ele ainda se realiza em uma linguagem mais cuidadosa. Entre
nós há, nesse sentido, o monotongo ou /ô/, em qualquer caso, e ai /a/, ei /ê/ diante de
uma consoante chiante; exs.: (p)ouca como (b)oca, (c)aixa como acha, (d)deixa como
fecha.

Nas aguçadas observações que fez, Marroquim (1996 [1934]) coletou os seguintes casos
de monotongação na variedade rural nordestina: o ditongo -au é reduzido para -o em: otomóve,
odiênça, omentá(r), oxílio. O ditongo -ou reduz-se a -o: ôtro, lôco, frôxo, ôro. Todavia, passa a
-u em uvir (ouvir), uvido (ouvido) e uvinte (ouvinte). O ditongo nasal -ão átono também reduz-
se a -o, como em sóto, órfo, órgo, Estêvo. Trata-se de um processo bastante antigo da língua
que, consoante esclarece Bortoni-Ricardo (2004), deve ter-se iniciado em Portugal, no século
XVIII. Praticamente não pronunciamos o ditongo -ou.
Diante da palatal [ʃ], -ai passa a -i: baxa, caxa, paxão. Já o ditongo -ei é reduzido a -e:
brasilera, bandera, pexe, e bejo. Todavia, é mantido se estiver diante da consoante oclusiva [t]
ou da fricativa [s]: peito, peitada, beiço, feição.
No falar paraibano, confirma-se a monotongação do [ey] em posição medial antes de [ɾ],
[ʃ] e [ʒ]: berada, dexar e bejar (ARAGÃO, 1984). Da mesma forma, Amaral (1920) já
registrara, no falar caipira, a redução do -ei nesses contextos, como em: isquêro, arquêre, chêro,
pêxe, dêxe, quêjo, bêjo, berada. Os dados do ALPB revelaram ainda que o ditongo [ey], em
posição medial, antes de [] ou [g], pode realizar-se como [e] ou ainda manter-se como ditongo
[ey], a exemplo do que ocorre em rejeto [heˈʒetʊ] e rejeito [heˈʒeytʊ]; mantega [mãˈtegə] e
manteiga [mãˈteygə], respectivamente. Pelo exposto, pode-se inferir que o contexto posterior
ao ditongo [ey], ocupado pelos fonemas consonantais [ɾ, ʃ, ʒ] ou [], pode facilitar ou não a
monotongação, revelando influência de caráter linguístico.
95

Aragão (2000) adverte para o fato de que o fenômeno é um caso de assimilação que
ocorre em diferentes regiões do país. A autora ainda acrescenta que a monotongação tem sido
estudada dos mais variados pontos de vista, tais como variação fonética, facilidade de
articulação ou marca dialetal e sociolinguística.
Hora e Aquino (2012), após estudo sociolinguístico, descobriram que a monotongação
dos ditongos crescentes (como em notícia > notiça, polícia > poliça, por exemplo) é mais
passível de correção, que a dos ditongos decrescentes (pouca > poca, outro > otro), em que se
depreende haver uma clara diferença no grau de estigmatização no uso dessas duas formas.
Logo, a monotongação de ditongos crescentes tende a ser mais sensível a julgamentos negativos,
sendo identificada com falantes pertencentes a uma classe sociocultural menos prestigiada.
Em arremate, os mananciais teóricos apresentados (Dialetologia, Etnolinguística,
Sociolinguística, Lexicologia, Lexicografia, Semântica de Contextos e Cenários e Fonética)
articulam-se, de forma harmoniosa, para dar sustentação à tarefa de investigar o uso de
particularidades semântico-culturais e fonéticas existentes no falar nordestino que Gonzaga
divulgou em sua obra, revelando traços identitários de sua comunidade de fala. No capítulo
seguinte, apreciaremos os elementos teórico-metodológicos que orientaram a pesquisa.
96

03 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Vô juntá feijão de corda numa panela de arroz. Abdão vai


já pra sala que hoje tem baião de dois (Luiz Gonzaga-
Humberto Teixeira)

N este capítulo, explicitamos as escolhas teórico-metodológicas usadas na pesquisa,


e que consistem, basicamente, na adoção do paradigma qualitativo, que orientou
os procedimentos metodológicos e a coleta de dados: pesquisa bibliográfica para
fundamentação teórico-crítica, delimitação de fontes, seleção do corpus de pesquisa, visitas às
cidades de Exu–PE e Campina Grande–PB, escolha dos instrumentos e tratamento dos dados
de pesquisa. O cumprimento desse percurso metodológico visa à identificação, à verificação e
à classificação de particularidades semântico-culturais e fonéticas do falar nordestino. Ademais,
por intermédio dos programas computacionais Mp3 Cutter©, ELAN – Linguistic Annotator©
- Versão 4.9.1 e Lexique Pro©, os procedimentos adotados serviram para normatizar a
elaboração do glossário eletrônico, mediante a apresentação do detalhamento sobre as
organizações macro, médio e microestrutural do referido repositório linguístico.

3.1 A MOTIVAÇÃO

A proposta de estudar a obra de Luiz Gonzaga surgiu da audição atenta e crítica de letras
de suas músicas e de causos contados por ele no show “Luiz Gonzaga volta pra curtir”, realizado
no Teatro Theresa Raquel, no Rio de Janeiro, em 1972. Entretanto, há outras razões que devem
ser consideradas nessa construção motivacional. Em 1996, mesmo sendo professor de língua
inglesa, aceitamos o convite da então professora da Universidade Potiguar (UnP), Maria das
Neves Pereira para participar de uma base de pesquisa sobre o ALiB, que, àquela época, estava
retomando suas atividades para a realização de sua grande empreitada: a confecção do atlas
linguístico nacional. Desde então, começamos a participar de minicursos, e a estudar, com mais
profundidade, o campo da Dialetologia e disciplinas afins, como a Sociolinguística, sem deixar
de lado as atividades em ensino de língua estrangeira.
Tempos depois, engajamo-nos nas discussões do NUPEL (Núcleo de Pesquisa em
Ensino e Linguagem) do IFRN (Instituo Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Rio
Grande do Norte), o que nos motivou a voltar à academia. De outra parte, cremos que outras
influências motivacionais, guardadas desde a época de menino, em que os programas
97

radiofônicos vespertinos tocavam Gonzaga sob os últimos raios crepusculares na capital


potiguar, também devem ser consideradas nesse percurso de escolha.
E para além de tudo isso, percebemos que as escolhas lexicais e as pronúncias utilizadas
por Gonzaga, identificavam-no como grande divulgador de particularidades semântico-
culturais e fonéticas do Português Brasileiro, em especial do falar rural nordestino para o resto
do país, com toda a sua riqueza de expressões, e com amplo alcance, tanto entre as classes ditas
cultas como entre as menos escolarizadas.
Tínhamos, portanto, motivação e objeto de estudo para empreender uma pesquisa em
nível de Doutorado.

3.2 O PARADIGMA QUALITATIVO

Na tradição ocidental de pesquisa científica, dois tipos de orientações se destacam: o


paradigma quantitativo e o paradigma qualitativo. O primeiro diz respeito à tradição derivada
do positivismo, que era utilizado prioritariamente nas ciências exatas, mas que passou a ser
também utilizado nas ciências sociais a partir do início do século XIX. O paradigma positivista,
de tradição lógico-empirista, realça o uso da razão analítica, procurando fornecer explicações
causais por intermédio de relações diretas entre os fenômenos (BORTONI-RICARDO, 2008).
Uma característica marcante desse postulado, bastante utilizado nas chamadas ciências naturais,
é que o pesquisador tem como objeto cognoscível algo capaz de ser manipulado ou um
fenômeno que pode ser comprovado por observação direta ou de instrumento apropriado
(BAGNO, 2014). Desse modo, nesse tipo de paradigma, a realidade é apreendida por meio da
observação empírica, isto é, baseada na experiência, e as descobertas daí advindas são
resultantes do método de indução, processo pelo qual se permite chegar a generalizações a partir
da observação de dados particulares.
Como reação aos postulados do paradigma positivista – que defendia o uso de métodos
e princípios norteadores das ciências exatas –, surge, no início dos anos 20 do século passado,
o paradigma qualitativo, de natureza interpretativista. Segundo esse modelo, é impossível ao
pesquisador observar o mundo sem levar em conta as práticas sociais e significados vigentes.
De acordo com Bortoni-Ricardo (2008, p. 32), “a capacidade de compreensão do observador
está enraizada em seus próprios significados, pois ele (ou ela) não é um relator passivo, mas um
agente ativo”. Noutras palavras, no paradigma qualitativo, baseando-se no pressuposto da
reflexividade, aceita-se o fato de que o pesquisador é parte do mundo que ele pesquisa. Tal
constatação admite, portanto, que não há um distanciamento entre pesquisador e objeto
98

pesquisado quando se trata da ciência da linguagem, por exemplo. Como bem explicita Marcos
Bagno (2014, p. 10), isso se dá por dois motivos principais: por um lado, o fato de “a linguagem
[ser], ao mesmo tempo, o objeto/fenômeno e a expressão desse objeto/fenômeno”, pois que “ser
humano é ser na linguagem”; por outro lado, o fato de que “ser humano é ser social”. Logo,
conforme já visto, linguagem e sociedade são indissociáveis, já que a primeira é o nexo mais
vigoroso que sustenta a coesão da segunda.
Da mesma forma, não existe texto neutro e o léxico deixa transparecer a ideologia
vigente em um determinado grupo social. Para Borba (2003, p. 307), entende-se ideologia

[...] como um conjunto de idéias, opiniões, valores, crenças etc., que se expressam,
explicam ou justificam a ordem social, as condições de vida do homem em suas
relações com os outros homens. Quem fala ou escreve pretende sempre colocar
[sugerir, propor, impor, inculcar], mesmo que implicitamente, seu modo de ver e
sentir o universo, seus pontos de vista e suas convicções, seu sistema de crenças etc.

Esta tese segue os postulados do paradigma qualitativo-interpretativista, assumindo


características inerentes à pesquisa na área da ciência da linguagem. E justamente por se tratar
de uma pesquisa qualitativa, ao invés de levantar hipóteses, como na pesquisa quantitativa,
elabora asserções que possam corresponder aos objetivos propostos. A asserção é “um
enunciado afirmativo no qual o pesquisador antecipa os desvelamentos que a pesquisa poderá
trazer” (BORTONI-RICARDO, 2008, p. 53). Essa asserção norteadora poderá desdobrar-se em
subasserções que, cotejadas com os dados coletados, deverão ser confirmadas ou contraditadas
nas análises.
No curso da investigação, vale esclarecer, as rotinas inicias obedeceram aos seguintes
procedimentos: postulação do objetivo geral (principal) de pesquisa, estabelecimento de
objetivos específicos, geração de uma asserção norteadora e subasserções – já explicitados na
introdução – e coleta de dados a partir dos registros disponíveis para descrição minuciosa da
questão investigada.

3.3 FONTES E SELEÇÃO DO CORPUS DOCUMENTAL

A recolha dos dados deu-se pela reunião de dois tipos principais de registros: canções e
narrativas de causos. Ademais, duas viagens foram empreendidas: uma à cidade de Exu, em
Pernambuco, e outra à cidade de Campina Grande, na Paraíba. As viagens serviram como forma
de recolher alguma informação importante de pessoas que conviveram com Gonzaga e obter
99

material sonoro extra: registros de entrevistas do compositor a jornalistas, além de depoimentos


(de suas participações) em programas de rádio.
A coleta do material ocorreu após a seleção de composições e causos retirados da
extensa produção artística do sanfoneiro. Nesse processo, buscando privilegiar a presença de
vocábulos considerados representantes de particularidades semântico-culturais e fonéticas do
Português Brasileiro, na variedade rural nordestina. O critério de escolha dos vocábulos está
em consonância com a assertiva de Barbosa (2015, p. 265), quando afirma que as “letras de
canções no Brasil desfrutam de expressivo valor cotidiano do povo” e que, portanto, “são
elementos reveladores de aspectos linguísticos e culturais do país”. No que se refere à produção
gonzaguiana, as composições e os causos selecionados são, por excelência, reveladores da
variedade sociodialetal presente no Nordeste. No material, encontramos lexias que descrevem,
de forma singular, práticas linguísticas e socioculturais existentes na região.
Vale observar que o ano de composição das canções não teve relevância nas escolhas.
As canções selecionadas para análise foram: 1) Asa Branca, 2) Qui nem Jiló, 3) No meu Pé de
Serra, 4) Paraíba, 5) Estrada de Canindé, 6) Respeita Januário, 7) Juazeiro, 8) Baião, 9) Assum
Preto, 10) Baião de dois, 11) Xanduzinha, 12) A volta da Asa Branca, 13) o Xote das Meninas,
14) ABC do Sertão, 15) Riacho do Navio, 16) a Dança da Moda, 17) Forró de Mané Vito, 18)
Sabiá, 19) São João na Roça, 20) Noites Brasileiras, 21) Vozes da Seca, 22) Imbalança, 23)
Cintura fina, 24) Vem, Morena, 25) Derramaro o gai, 26) O Torrado, 27) Adeus, Rio de Janeiro,
28) Vô casá já, 29) Olha a Pisada, 30) O Casamento de Rosa, 31) Viva meu Padim, 32)
Umbuzeiro da saudade, 33) Nem se Despediu de mim e 34) Frei Damião.
Das trinta e quatro canções escolhidas, vinte e seis foram retiradas da coletânea
intitulada “Luiz Gonzaga: 50 anos de chão – 1941-1987”, composta de 3 Compact Discs (CDs)
e lançado pela gravadora RCA-BMG Ariola em 1996. A composição Derramaro o gai foi
recolhida do CD “Luiz Gonzaga – Quarqué Dia, Série Revivendo”, lançado em 2004. A canção
Frei Damião foi coletada do LP “O fole roncou”, de 1974. A composição “Umbuzeiro da
Saudade” foi recolhida do LP “Dengo Maior”, de 1978. A canção “Viva meu Padim” foi
retirada do LP “Gonzagão: Forró de cabo a rabo”, de 1986. As canções “O Torrado”,
originalmente lançada em disco de 78 rpm em 1950, e “O casamento de Rosa”, de 1953, foram
coletadas, como única possibilidade, pelo site Youtube.com, nos endereços:
https://www.youtube.com/watch?v=IVm6LVm6LVaRogA e <https://www.youtube.com/watch?
v=fv8w4vkptT4>, respectivamente. As composições Adeus, Rio de Janeiro e Olha a pisada
foram retiradas do CD “Luiz Gonzaga volta pra curtir”, lançado em 2001. No processo de
100

captação dos materiais retirados da Internet, foi utilizado o site de downloads de arquivos
<www.keepvid.com>.
Os quatro causos50 que compõem o corpus são: 1) Se eu nascesse de novo, 2) Volta à
casa, 3) O casamento do caboclo e 4) Karolina com K. Desses quatro, apenas “Karolina com
K” foi retirado do LP “Chá Cutuba”, lançado em 1977. Os outros três foram narrados por
Gonzaga no já referido show, “Luiz Gonzaga volta pra curtir”, realizado no Teatro Thereza
Raquel, no Rio de Janeiro, em 1972. Esse espetáculo foi idealizado pelos compositores baianos,
Caetano Veloso e Gilberto Gil, que haviam voltado do exílio em Londres51 e queriam mostrar
à juventude intelectual da Zona Sul carioca a importância do Rei do Baião para a música
brasileira. Transformado em CD, em 2001, o show foi produzido com roteiro de Jorge Salomão
em parceria com José Carlos Capinam. Os causos narrados no corpus abarcam relatos pessoais
de acontecimentos marcantes na vida de Gonzaga ou de fatos de seu conhecimento acontecidos
com terceiros.
A partir da audição das canções e dos causos, foram realizadas as transcrições
grafemática e fonética. Parte das transcrições grafemáticas foram feitas pelo pesquisador a
partir das canções e dos causos ouvidos. A outra parte já estava disponibilizada em encartes de
álbuns do cantor ou na Internet, mas as letras foram confrontadas com a escuta do material
sonoro para verificação de sua fidedignidade. As transcrições fonéticas foram efetuadas,
respeitando a identificação de lexias que continham metaplasmos fonéticos brasileiros por
adição, supressão, transposição e transformação.

3.4 A VISITA A EXU-PE: NO RASTRO DE GONZAGÃO

Em 07 de outubro de 2015, fizemos uma viagem até a cidade de Exu–PE, em busca de


mais dados para a pesquisa. A pretensão era não apenas conhecer os lugares onde Luiz Gonzaga
nasceu e viveu mas também os cenários que inspiraram os temas de suas canções e dos causos
vividos no sertão pernambucano. Entendemos que, mais do que coletar as informações a partir
de livros biográficos, tínhamos de empreender uma viagem de campo; precisávamos vivenciar,

50
Lembramos que causo é usado, aqui, com a acepção de uma história do cotidiano sertanejo, geralmente contada
com humor.
51
Em 27 de dezembro de 1968, o Ato Institucional nº 5 (AI-5), editado pelo governo militar, restringe uma série
de liberdades individuais. Acusados de desrespeito ao hino nacional e à bandeira, Caetano Veloso e Gilberto Gil
são presos em São Paulo e depois levados para o quartel do Exército no Rio. De volta a Salvador, foram novamente
presos. Submetidos à prisão domiciliar, são proibidos de fazer shows e dar entrevistas. Em meados de 1969, os
militares disseram que a situação dos dois só poderia ser resolvida com o exílio. Os dois se autoexilam, então, na
Inglaterra. Só retornariam ao Brasil em 1972.
101

in loco, ainda que por pouco tempo, os modos de vida da sociedade exuense, a fim de melhor
subsidiar as análises de cunho semântico-cultural. Aliás, essa região foi a fonte linguística
primária de Gonzaga. Assim ponderando, percorremos 271 quilômetros de automóvel, com
duração de 12 horas de viagem, partindo de Natal–RN até chegar à cidade do Rei do Baião. A
figura 8, abaixo, ilustra o caminho percorrido.

Figura 8 – Percurso do pesquisador de Natal–RN até Exu–PE


Fonte: reproduzido de http://www.comochegar.com/de-natal-rn-brasil-para-exu-pe-brasil.htm

Para chegar a Exu–PE, pelo caminho traçado, cruzamos o Rio Grande do Norte até o
município de Patu, Região Oeste potiguar, e entramos na Paraíba pelo município de Catolé do
Rocha. De lá, alcançamos o sul do Estado do Ceará, passando pelos munícipios de Milagres,
Juazeiro do Norte e Crato. Era final de tarde, quando saímos da cidade do Crato–CE e subimos
a estrada que leva à Floresta Nacional do Araripe, reduto de Mata Atlântica, com vegetação
úmida e odor peculiar, que faz o viajante-pesquisador esquecer que está em pleno sertão
nordestino.
102

Foto 1 – Floresta Nacional do Araripe


Fonte: arquivo pessoal do pesquisador

Mais adiante, avistamos o primeiro sinal de proximidade do destino esperado: entre as


nuvens que já prenunciavam o ocaso nordestino, divisamos a placa de sinalização dos limites
interestaduais Ceará-Pernambuco, indicando que a cidade de Exu estava mais à frente.

Foto 2 – Divisa Ceará-Pernambuco


Fonte: arquivo pessoal do pesquisador

Quilômetros à frente, iniciamos a descida da Chapada do Araripe e às 17h e 22 minutos,


ao pôr do sol, chegamos finalmente a Exu–PE, conforme registro reproduzido na foto 3 a seguir.
Provavelmente, havíamos trilhado uma rota em sentido oposto ao seguido por Gonzaga,
quando fugiu de casa em 1930.
103

Foto 3 – Entrada de Exu–PE


Fonte: arquivo pessoal do pesquisador

Procuramos uma pousada para o pernoite e, na manhã seguinte, começamos a explorar


o seguinte itinerário: conhecer o Parque Aza Branca52; o local de nascimento Luiz Gonzaga, na
antiga Fazenda Caiçara, nos arredores de Exu–PE; e a fazenda Araripe, cenário do causo, “volta
à casa” (constante nos dados), que retrata o retorno de Luiz Gonzaga ao seu torrão dezesseis
anos depois de sua arribada.
O Parque Aza Branca está localizado na Rodovia Aza Branca (PE-122), Km 38, que é
outra rota de entrada em Exu para quem chega ao município por território pernambucano. O
Parque possui uma área de 1.500 hectares e foi comprado por Luiz Gonzaga em 1974, quando
já imaginava construir um museu para preservar sua memória. É um ponto sócio-histórico-
cultural e turístico de valor inigualável. Nele, podemos encontrar, em um só lugar, o Museu do
Gonzagão, a casa-sede onde Luiz Gonzaga morou, um viveiro de asas brancas, a casa que ele
fez para o seu pai, Januário, réplica da casa de reboco (taipa), onde ele nasceu, 2 chalés que
podem ser alugados mediante reserva, e o mausoléu, mandado construir pelo seu filho
Gonzaguinha, onde estão os restos mortais de Luiz Gonzaga e de sua esposa, Helena Gonzaga.
As fotos 4, 5, 6, 7, 8 e 9 registraram a visita do pesquisador a esses espaços.

52
A Organização Não-Governamental (ONG) Parque Aza Branca, sociedade civil sem fins lucrativos, é a atual
administradora do Museu de Luiz Gonzaga. Escrito com “z”, o nome “aza” faz referência às letras presentes em
Luiz e Gonzaga.
104

Foto 4 – Residência de Luiz Gonzaga


Fonte: arquivo pessoal do pesquisador

O ambiente físico da casa do Rei do Baião é imponente, mas sem luxos, e está bem
conservado. Todos os móveis estão originalmente preservados. Na residência, estão expostos
objetos pessoais do compositor, inúmeros quadros e alguns presentes recebidos de visitantes.
A atmosfera deixa-nos impressionados: é como se Luiz Gonzaga tivesse dado uma saidinha e
voltasse logo, logo. O som da voz de Gonzaga, entoando as canções vindas dos alto-falantes,
ajuda a construir essa viva percepção imagética.
No primeiro andar, há uma sala de visitas, um corredor, a suíte do casal e a despensa.
No térreo, a residência possui ampla varanda em “L”, sala de estar, pequena adega, banheiros
masculinos e femininos (sugestivamente “batizados” de Ansermo e Karolina53), cozinha, além
de uma sala de jantar com uma mesa enorme, que era usada para receber amigos e convidados.

53
Ansermo, primo de Gonzaga, e Karolina são personagens do causo “Karolina com K”.
105

Foto 5 – Varanda da Residência de Luiz Gonzaga


Fonte: arquivo pessoal do pesquisador

Impõe-se destacar ainda a existência de uma outra cozinha, separada da casa, a Cozinha
da Mundica54, nome pelo qual era conhecida a cozinheira-chefe do casal.

Foto 6 – Cozinha da Mundica


Fonte: arquivo pessoal do pesquisador

As regras de segurança do Museu do Gonzagão não permitem nenhum registro


fotográfico ou gravação digital em seu interior. Nem mesmo tocar nos objetos. O acervo é

54
A senhora Raimunda Sales faleceu em 2013.
106

bastante rico e contempla itens, tais como sanfonas pertencentes ao cantor, roupas usadas no
último show, prêmios e troféus recebidos, títulos de cidadania (recebidos de vários municípios
brasileiros), revistas, folhetos informativos e fotos de Luiz Gonzaga em shows, com a esposa,
com familiares etc.

Foto 7 – Entrada do Museu do Gonzagão


Fonte: arquivo pessoal do pesquisador

Já a casa de Januário foi construída por Luiz Gonzaga dentro do Parque Aza Branca
com o objetivo de que o pai ficasse próximo dele, pois “Seu Januário” estava em idade avançada
e precisava de atenção especial. Gonzaga não queria que o pai ficasse no Araripe 55 , mais
distante de Exu.

55
A fazenda Araripe é também comumente designada de povoado, comunidade ou vila.
107

Foto 8 – Casa de Januário


Fonte: arquivo pessoal do pesquisador

Em todos esses ambientes há pessoas contratadas pelo Parque que explicam aos
visitantes aspectos da vida e da obra de Gonzagão. Um desses cicerones é o senhor Praxedes
dos Santos, 83 anos, responsável pela apresentação do Mausoléu e da casa de Januário.
“Seu Praxedes” é um sertanejo taciturno, ex-vaqueiro de Luiz Gonzaga, com quem
conversamos durante a visita ao parque. Trabalhou por dez anos para Gonzaga. A maior
lembrança que guarda de seu ex-patrão é a solidariedade que ele demonstrava para com os mais
pobres. Segundo o vaqueiro aposentado, “seu Luiz” fazia vários shows e recebia gêneros
alimentícios como pagamento. Os produtos arrecadados eram embalados em cestas-básicas e
doados aos pobres de Exu.

Foto 9 – O senhor Praxedes dos Santos, ex-vaqueiro de Luiz Gonzaga


Fonte: arquivo pessoal do pesquisador
108

Do Parque Aza Branca, partimos para a segunda escala de nossa viagem de campo: o
local exato onde Gonzaga veio ao mundo. Antes, explicamos aos funcionários o motivo de
nossa visita e o propósito de nossa investigação. Para que não déssemos “uma viagem perdida”,
eles ligaram para a senhora Amparo Alencar, pessoa responsável por ciceronear os visitantes
no Araripe. Ela não estava no povoado. Havia viajado. Por essa razão, os funcionários
ofereceram a companhia do seu Praxedes para nos levar até o local onde Gonzaga nasceu e,
depois, ao Araripe, o que aceitamos de pronto. Colocamos o “seu Praxedes” no carro e nos
dirigimos à fazenda.
O acesso ao Araripe é pela Rodovia Asa Branca (PE-122). Seguindo as orientações do
senhor Praxedes, após 6 quilômetros, tomamos a estrada para Moreilândia. Depois de percorrer
mais 9 quilômetros, vislumbramos o cemitério Mãe Santana, que Luiz Gonzaga mandou
construir. Entramos à direita do cemitério, em uma estrada carroçável, sol a pino, e paramos no
local onde nascera Gonzaga em 1912. Não há mais vestígios da antiga casa de taipa na outrora
Fazenda Caiçara. No lugar, em um terreno cercado, de pouco mais de 16 metros quadrados, há
uma lápide anunciando que ali é o exato local onde o “Pernambucano do Século”, Luiz Gonzaga,
deu o primeiro “berro” em vida.

Foto 10 – Marco do local de nascimento de Luiz Gonzaga


Fonte: arquivo pessoal do pesquisador

Retornando em direção a Exu, não longe dali, paramos na Fazenda Araripe. Espaço
bucólico, silencioso, com crianças correndo pelo terreiro, brincando e disputando um lugar à
sombra, galos saçaricando em busca de comida, vacas enchocalhadas caminhando lentamente,
e muitos olhares, inicialmente, desconfiados pela presença de gente desconhecida.
109

Numa visão geral, é um lugar de casas simples. No Araripe, há também um grupo


escolar chamado Luiz Gonzaga e duas construções que se destacam por suas dimensões físicas:
a casa de Guálter Martiniano de Alencar Araripe, Barão de Exu, e a centenária Igreja de São
João Batista do Araripe, construída pelo Barão em 1868.

Foto 11 – Terreiro da Fazenda Araripe


Fonte: arquivo pessoal do pesquisador

Durante a nossa permanência no Araripe, não pudemos visitar o interior da casa do


Barão do Exu, fundador da fazenda, em virtude de a senhora Amparo Alencar, descendente do
Barão, consoante já mencionamos, não se encontrar no local.

Foto 12 – Casa do Barão do Exu


Fonte: arquivo pessoal do pesquisador
110

A Igrejinha de São João Batista, do Araripe, abriga, em seu interior, imagens católicas
(São João do Carneirinho e os Três Reis Magos) trazidas da França.
Entre os anos 1858 e 1865, o Cariri cearense foi assolado por uma epidemia de cólera.
O Barão fez, então, uma promessa pedindo a intercessão de São João Batista para que Exu não
fosse atingida pelo vibrião colérico. Não houve vítimas em Exu. Como pagamento da promessa,
o barão mandou construir a igreja, que conta hoje 148 anos. Além disso, em seu testamento,
legou aos descendentes a obrigação de continuidade dos festejos juninos no Araripe
(ALENCAR, 2011).
O templo tem a fachada principal protegida por um átrio em alvenaria. O frontão possui
volutas56 simples, ladeadas por platibandas57 com pináculos em suas extremidades.

Foto 13 – Igreja de São João Batista na Fazenda Araripe


Fonte: arquivo pessoal do pesquisador

56
Qualquer motivo decorativo enrolado em espiral.
57
Espécie de mureta construída na parte mais alta das paredes externas de uma construção, para proteger e
ornamentar a fachada.
111

Dentre as residências mais singelas do povoado, uma se destaca pela sua importância
sociocultural: a casa de taipa de onde Luiz Gonzaga partiu e para onde voltou, conforme já
assinalado, após 16 anos distante de sua terra.

Foto 14 – Casa de Luiz Gonzaga na Fazenda Araripe


Fonte: arquivo pessoal do pesquisador

Visitar esses cenários revelou-se um componente importante para a pesquisa, pois


possibilitou conhecer os lugares frequentados por Gonzaga, coletar informações in loco sobre
a vida do compositor, assim como auxiliar no registro descritivo da cultura de Exu, onde
Gonzaga nasceu e cresceu. Enfim, permitiu vivenciar as condições sociais, linguísticas e
culturais que moldaram as suas práticas de linguagem e que influenciaram sua vida pessoal e
artística. Ademais, as informações recolhidas serviram também como subsídios para a redação
de definições e de notas enciclopédicas para o glossário de Gonzagão.
Uma dificuldade encontrada na viagem foi a impossibilidade de entrevistar dois parentes
de Luiz Gonzaga: João Januário Maciel e João Batista Januário. João Januário Maciel, mais
conhecido como Joquinha Gonzaga 58, sobrinho de Gonzagão, é filho de Raimunda Januário
(Dona Muniz), segunda irmã do Rei do Baião. João Batista Januário é o nome de batismo de
João Gonzaga, filho adotivo de Januário e afilhado de Luiz Gonzaga. Durante nossa estada em
Exu, conseguimos um contato telefônico com Joquinha, mas este estava em Recife para
participar de um show e não retornaria à cidade até a nossa partida. Entretanto, pelo aplicativo

58
Mais informações sobre Joquinha Gonzaga, que também é sanfoneiro, podem ser encontradas em:
http://www.joquinhagonzaga.mus.br/
112

de mensagens Whatsapp©59, comunicamo-nos com Joquinha para tirar algumas dúvidas sobre
personagens que participaram de interações com Gonzaga.
Enfim, nas ocasiões em que procuramos João Gonzaga, infelizmente, não o
encontramos em casa.

3.5 A VISITAÇÃO AO MUSEU FONOGRÁFICO LUIZ GONZAGA

Como forma de recolher material sonoro extra para subsidiar as análises, também foi
feita uma visita ao Museu Fonográfico Luiz Gonzaga, localizado na cidade de Campina Grande,
na Paraíba, em 12 de setembro de 2016. O museu, fundado em 1992, fica na avenida Presidente
Costa e Silva, 1304, bairro do Cruzeiro, e é considerado o maior acervo sonoro da obra
gonzaguiana existente no Brasil. Nessa oportunidade, coletamos gravações de depoimentos e
participações de Luiz Gonzaga, assim como de seus parceiros, em Programa de rádios, como
“No Mundo do Baião”, produzido por Humberto Teixeira e Zedantas na Rádio Nacional, em
1950. O nome do programa é bastante sugestivo por aludir à existência de um “mundo à parte,
constituindo-se numa totalidade” (VIEIRA, 2000, p. 157) na qual Gonzaga desvela para o resto
do Brasil um gênero que divulga o ambiente geográfico rural nordestino, sua cultura e o modo
de falar específicos desse mundo.
No programa gravado em 10 de outubro de 1950, o apresentador Paulo Roberto tenta
justificar as variações do linguajar nordestino assim se expressando: “os negros do Nordeste
usam algumas corruptelas curiosas e linguagens”. Na verdade, o que o jornalista chama de
“corruptelas”, contemplamos em nossa análise como metaplasmos fonéticos brasileiros, usados
na variedade rural nordestina, tais como o rotacismo e a despalatização. No programa, Zedantas,
de forma didática, fornece exemplos dessas “corruptelas” curiosas (marvado, Etervina; trabai,
chucai) e imita uma pronúncia fanhosa atribuída aos negros sertanejos, que nada mais é do que
o uso de vogais nasalizadas na pronúncia sertaneja do Nordeste. Aliás, o próprio Gonzaga
possuía timbre nasalizado e chegou a ser criticado por isso. Manezinho Araújo, grande cantador
de emboladas, chamou-o de “voz de taboca rachada”, após desentendimentos sobre a gravação
da canção “Cortando Pano” (também conhecida como “Alfaiate do primeiro ano”, 1945), pois
Manezinho queria gravar em ritmo de embolada e Gonzaga não concordava.

59
O aplicativo é grátis e utiliza a conexão de celulares com a Internet para enviar mensagens.
113

No museu, recolhemos ainda entrevistas de Gonzaga aos locutores Geraldo Freire, da


Rádio Jornal de Recife, em junho de 1985, e Marcos Cirano, em outubro de 1988, um ano antes
da morte do Rei.
A visita proporcionou também uma agradável conversa/entrevista com o senhor José
Nobre, amigo pessoal de Gonzaga, idealizador e criador do museu. Dentre outras curiosidades,
o senhor José Nobre explicou-nos o significado da lexia “tamboeiro”, pronunciada “tanueiro”
por Gonzaga, na canção “Casamento de Rosa”. Ela é usada com o sentido de “espiga de milho
com poucos caroços, ou raiz de macaxeira mirrada”. Revelou-nos ainda que a história da surra,
antes da fuga para o Crato–CE, foi, na verdade, uma grande lição de moral que Gonzaga recebeu
dos pais, segundo declarações que ouvira das próprias irmãs do sanfoneiro (ver 4.4). Essa
informação também consta no livro “Porque o rei é imortal!” (MEDEIROS; COSTA, 2011).
Para os autores, a habilidade de criação artística, somada a estratégias de marketing pessoal,
levou Gonzaga a acrescentar o relato da suposta “pisa” à sua trajetória de vida. A foto abaixo
registra o proprietário do museu, senhor José Nobre de Medeiros.

Foto 15 – O senhor José Nobre, proprietário do Museu Fonográfico Luiz Gonzaga


Fonte: arquivo pessoal do pesquisador

Infelizmente, o museu fonográfico, que era mantido apenas com recursos do seu criador,
encontra-se fechado ao público desde 2013. Por ocasião de nossa visita, foi gentilmente aberto
para disponibilizar a garimpagem de material para nossa pesquisa.
114

Tendo descrito a motivação, o paradigma qualitativo, as fontes e seleção do corpus


documental, “viagens de campo” e seus objetivos, suas contribuições e pertinência para a tese,
na próxima seção, explicitaremos os procedimentos adotados para o tratamento informático do
corpus e as normas que servirão de parâmetro para compor o glossário de Gonzagão.

3.6 O TRATAMENTO DO CORPUS POR MEIO DE SISTEMAS


INFORMACIONAIS

Os programas ELAN – Linguistic Annotator©, Free Mp3 Cutter© e Lexique Pro©


foram as ferramentas computacionais usadas para possibilitar a edição de trechos do material
gravado em áudio, facilitar a transcrição das gravações e servir para a organização das macro,
médio e microestruturas do repertório linguístico.
Abaixo, descrevemos a função e utilização de cada programa para o tratamento dos
dados da pesquisa.

3.6.1 ELAN – Linguistic Annotator©, Versão 4.9.1

O ELAN 60 é um software gratuito destinado à anotação de arquivos, que foi


desenvolvido pelo Instituto Max Planck, de psicolinguística, na Holanda. Com o programa, é
possível fazer transcrições de entrevistas sociolinguísticas gravadas em áudio ou vídeo de
diversas extensões, como .WAV61, .MPEG, .MP3 e .MP462. Segundo Pizzio (2011), o ELAN
foi criado para pesquisas em análise de línguas, de línguas de sinais e de gestos, mas que se
tornou bastante usado por pesquisadores que trabalham com material produzido em vídeo e/ou
áudio para anotação, análise e documentação de dados.
Ao abrir o programa, na versão em português, aparecem na tela inicial do ELAN os
seguintes botões no topo da janela: arquivo, editar, buscar, visualizar, opções, janela e ajudar.
A figura 9 a seguir mostra a tela de abertura do programa pronta para a criação de um
novo projeto.

60
O programa ELAN pode ser executado em diferentes sistemas operacionais, tais como Windows, Mac e Linux,
e pode ser baixado do portal eletrônico: https://tla.mpi.nl/tools/tla-tools/elan/.
61
Formato padrão das empresas Microsoft e IBM para armazenamento de arquivos de áudio em computadores.
62
As abreviaturas MPEG, MP3 e MP4 referem-se a um formato padrão para compressão de imagens de vídeo e
arquivos de som criado pelo Motion Picture Experts Group.
115

Figura 9 – Tela inicial do programa ELAN – Linguistic Annotator©


Fonte: criado pelo pesquisador

Ao clicar em Arquivo < Novo, é possível procurar por um arquivo de áudio ou vídeo
que já exista em alguma pasta no computador do pesquisador e, depois, selecioná-lo para abrir
na área de trabalho.

Figura 10 – Abrindo arquivos no ELAN


Fonte: criado pelo pesquisador
116

De forma geral, o objetivo principal do ELAN é usar um sistema de transcrição para


transpor a língua falada para o texto escrito da forma mais fidedigna possível à língua oral, de
modo a armazenar o material coletado, em meio escrito, de maneira padronizada para facilitar
a sua análise.
Para o propósito de nossa pesquisa, a principal facilidade fornecida pelo ELAN foi o
recurso de ajuste de velocidade das gravações em áudio. Na área de trabalho do programa, na
aba Controles, há duas barras deslizantes (sliders), que permitem ajustar o volume e a
velocidade da gravação (figura 11). Pelo emprego desse último recurso, pudemos fazer a
transcrição grafemática da fala de Luiz Gonzaga, corrigindo trechos que tinham ficado obscuros
ou confusos, tanto nas canções quanto nos causos selecionados.

Figura 11 – Aba controles do ELAN


Fonte: criado pelo pesquisador

Por fim, é necessário lembrar, como adverte Oushiro (2014), que nenhum sistema de
transcrição é capaz de reproduzir a fala de forma idêntica, pois todo sistema proposto sofrerá
limitações. Seus critérios, portanto, devem sempre levar em conta os objetivos da pesquisa e os
tipos de análises que serão desenvolvidas com o material.
117

3.6.2 O programa Free Mp3 Cutter©

O Free Mp3 Cutter© é um programa gratuito para edição de música em formato .MP3.
Por se tratar de um editor grátis, possui recursos muito simples e limitados, mas bastante úteis
para o pesquisador, que só precisa selecionar, cortar, gravar e salvar o material gravado em
áudio.
Na versão gratuita, o programa possui apenas uma tela com seis botões, abrangendo os
seguintes comandos, todos em inglês: Open (Abrir), Set Start (Marcar Início), Set End (Marcar
Final), Play Selection (Tocar Seleção) e Save Selection (Salvar Seleção). Esses comandos são
mostrados na figura abaixo.

Figura 12 – Tela do Free Mp3 Cutter©


Fonte: criado pelo pesquisador

Usamos o Free Mp3 Cutter© para segmentar canções e causos coletados, que compõem
o nosso corpus. As partes editadas foram usadas nas abonações do glossário para destacar as
particularidades fonéticas em forma de metaplasmos. Os procedimentos de operação do Free
Mp3 Cutter© são muito fáceis por causa de sua interface bastante amistosa ao usuário.
As figuras 13, 14 e 15 mostram o método que usamos para editar o arquivo que continha
o causo Karolina com K. Assim, clicamos no botão Open (abrir), procuramos a pasta em que
se encontrava o arquivo de áudio com a extensão .MP3, e selecionamos o arquivo desejado.
118

Figura 13 – Seleção de Arquivo


Fonte: criado pelo pesquisador

Em seguida, o arquivo foi carregado automaticamente, ficando pronto para ser editado.

Figura 14 – Arquivo aberto no Free Mp3 Cutter©


Fonte: criado pelo pesquisador
119

Logo após, iniciamos a reprodução do arquivo, e marcamos o início a partir de onde a


gravação seria segmentada até o seu ponto final, através dos botões Set Start (Marcar Início) e
Mark End” (Marcar Final). Assinalado o trecho para segmentação, clicamos em “Save
Selection” (Salvar Seleção) e o programa criou o arquivo editado, com o trecho escolhido
anteriormente. Para ouvir apenas o segmento selecionado, é possível clicar em Play Selection
(Tocar Seleção) e realizar ajustes para aumentar ou diminuir o intervalo. Na figura 26, é
possível visualizar o segmento de onda sonora editado, destacado nas cores azul e branco,
juntamente com a informação do intervalo selecionado em minutos, segundos e centésimos.

Figura 15 – Trecho de áudio selecionado para segmentação


Fonte: criado pelo pesquisador

Enfim, todos esses procedimentos foram repetidos para a edição dos outros arquivos
sonoros que serviram para compor as abonações das entradas63, as quais seriam inseridas no
glossário a fim de se enquadrarem na categoria de análise de particularidades fonéticas do falar
de Luiz Gonzaga.
Na próxima seção, trataremos da elaboração e organização do glossário, com auxílio do
programa Lexique Pro©.

63
No item sobre a organização microestrutural do glossário, explicitamos o conceito de entrada.
120

3.6.3 O programa Lexique Pro©

O Lexique Pro© é um programa computacional que permite o desenvolvimento de obras


lexicográficas com bastante facilidade. O software é também gratuito64 e foi produzido pela
Organização Não-Governamental Société Internationale de Linguistique (SIL), sediada na
República do Mali, país localizado na África Ocidental. O portal da SIL informa que o Lexique
Pro© é um visualizador e editor interativo de dicionários (léxicos), dotado de várias funções,
tais como o uso de hyperlinks65 para conectar entradas, a visualização de categorias semânticas,
a utilização de ferramentas de busca por entradas, o compartilhamento do banco de dados66
com outros usuários de computador e a geração de dicionário impresso ou em formato
67
Hypertext Markup Language (HTML) , para publicação na grande rede mundial de
computadores.
A elaboração de um repertório linguístico com o Lexique Pro© torna-se uma tarefa
simples, pois o programa é muito prático de usar. Contudo, para uma maior eficácia e
diversidade no uso de suas funções, um conhecimento mínimo da linguagem HTML torna-se
desejável.
No que diz respeito à tarefa de coleta de palavras e expressões que compõem os verbetes
de nosso glossário, as funcionalidades do Lexique Pro© permitiram a dispensa do uso de fichas
lexicográficas impressas para fazer o registro dessas informações.
A seguir, explanamos sobre as regras de produção das macro e microestruturas em
repositórios linguísticos, ao mesmo tempo em que enfatizamos as nossas opções metodológicas
sobre o assunto, que levaram à elaboração do glossário proposto pela tese. Nossas escolhas têm
como suporte tecnológico as funções disponíveis pelo programa Lexique Pro©.
Para configurar o programa, com o objetivo de criar um glossário ou dicionário, é
necessário acessar o menu Ferramentas e depois clicar em Configurar, como mostra a figura
16.

64
O programa pode ser baixado gratuitamente do portal: <http://www.lexiquepro.com/>. Entretanto, só pode ser
executado no sistema operacional Windows.
65
Para o Houaiss, o hyperlink é um elemento de hipermídia formado por um trecho de texto em destaque ou por
um elemento gráfico que, ao ser acionado (ger. mediante um clique de mouse), provoca a exibição de novo
hiperdocumento.
66
Conjunto de dados inter-relacionados sobre determinado assunto, armazenados em computador.
67
Linguagem usada para formatação de páginas da Web, definindo o design das páginas e ligações para outras
páginas, a partir de um arquivo de texto que utiliza tags (comandos, instruções) que são interpretados pelo
navegador. O resultado final são as páginas que vemos na Internet.
121

Figura 16 – Menu Ferramentas do Lexique Pro


Fonte: criado pelo autor

Em seguida, uma janela é aberta e são mostrados, à esquerda, cinco ícones para
configurar o repositório linguístico que está sendo criado: Languages (Línguas), Data Source
(Fonte de Dados), Formatting (Formatação), Display (Visualização) e Pre-Process (Pré-
Processo). Cada um desses ícones possui abas que detalham as opções definidoras das
preferências do usuário na configuração.

Figura 17 – Abas principais de configuração do repertório linguístico


Fonte: criado pelo autor
122

a) O ícone Languages (Línguas)

Quando o ícone Languages é ativado, as seguintes abas são mostradas: Lexicon


Language (que permite atribuir um nome ao glossário/dicionário, bem como inserir o código
da língua descrita pelo repertório: “pt” para português, “en” para inglês, “fr” para francês e
assim por diante); Gloss Language (que define a língua a ser usada nas definições); Language
Properties (que estabelece tipos de fontes, uso de maiúsculas e minúsculas, sistema de escrita
do teclado etc.); e Sorting and Indexes (que possibilita a classificação por ordem alfabética das
entradas, à medida que o banco de dados do programa é alimentado). Essas opções de
configuração são demonstradas na figura 18 abaixo.

Figura 18 – Tela de configuração do léxico


Fonte: criado pelo autor

Conforme lembram Lima e Martins (2014, p. 266), após a atribuição de um nome ao


repositório linguístico na aba Lexicon Language, “o nome da língua/linguagem descrita será
usado como título do dicionário e aparecerá exibido na página inicial do programa, na parte de
cima da tela, no atalho criado na área de trabalho do computador do usuário e na barra de
123

iniciação rápida68”. A figura que segue exemplifica o uso do nome “Glossário de Gonzagão”,
usado em nossa pesquisa, na tela inicial do Lexique Pro.

Figura 19 – Tela inicial do Glossário de Gonzagão


Fonte: criado pelo autor

Para explicar as demais seções (ícones), destacaremos somente as funcionalidades das


abas mais relevantes do programa para a configuração do nosso glossário.

b) O ícone Data Source (Fonte de Dados)

No ícone Data Source (Fonte de Dados), merece destaque a aba Field Markers
(Marcadores de Campo), em que se mostra uma lista padrão de todas as etiquetas69 (elementos
descritivos da microestrutura) de que o programa dispõe, organizadas por grupos: a) geral
(lexema, transcrição fonética, campo semântico, figura, som, data etc.); b) classe de palavra; c)
definições; d) exemplo/abonação; e) remissiva; f) variante; g) etimologia; h) notas; i)
etimologia; j) arquivos anexados etc. Todas essas etiquetas são representadas por abreviaturas

68
No sistema operacional Windows, a barra de ferramentas de iniciação rápida fica localizada ao lado do menu
Iniciar, a que se podem adicionar atalhos para programas. Essa barra está sempre visível para que o usuário possa
acessar os atalhos, mesmo quando existem janelas abertas.
69
Não se confunde com a definição de etiqueta, dada por Biderman (1984b, p. 138): “rótulo qualificativo e
explicativo que se atribui a cada entrada, ou a cada sentido, ou acepção de uma palavra. [...] Por exemplo: abst.
(Significação abstrata); met. (significado metafórico); col. (usado na linguagem coloquial)” etc. No sentido usado
por essa autora, as etiquetas equivalem a marcas de uso.
124

(códigos) que são usadas para especificar o tipo de informação que deverá constar na
microestrutura do verbete. Esses códigos são, na verdade, comandos que fazem com que o
programa “entenda” o tipo de informação que se deseja mostrar na visualização do verbete.
Dependendo do objetivo do pesquisador, ele poderá, ou não, fazer uso de todos esses elementos.
Na nossa pesquisa, utilizamos treze desses códigos que serão detalhados mais adiante, quando
tratarmos da microestrutura.
A figura 20, abaixo, exibe parte da lista padrão que contém as etiquetas e suas
abreviaturas correspondentes.

Figura 20 – Lista padrão de etiquetas no Lexique Pro


Fonte: criado pelo autor

c) O ícone Formatting (Formatação)

Ao clicar em Formatting, aparecem várias abas, dentre as quais destacamos a que


contém o nome Field Styles (Estilos70 de Campo). Ela permitiu selecionar os elementos/estilo
de composição da microestrutura textual: o tipo de fonte, o tamanho, a cor, o uso de itálico, o
uso de negrito e o tipo de hyperlink usado para as remissivas. Por padrão, o programa já oferece

70
O sentido de estilo deve ser entendido aqui como um conjunto de características tipográficas aplicáveis aos
elementos de um texto.
125

características gráficas pré-configuradas, mas se o pesquisador desejar alterá-las, basta clicar


no botão Chage Format (Mudar Formato) para fazer as devidas alterações.

Figura 21 – Configuração do estilo dos textos


Fonte: criado pelo autor

Para o nosso repertório linguístico, decidimos usar todas as sugestões oferecidas pelo
programa. Outros elementos visuais escolhidos são detalhados adiante, quando tratamos da
microestrutura do glossário, no item “Recursos visuais dos itens lexicais do verbete” (item
3.7.3, letra “j” infra).

d) O ícone Display (Visualização)

O ícone Display apresenta várias subabas: About Language (Sobre a Língua), Shortcuts
(Atalhos), Edit Setttings (Editar Configurações), Home Page Alphabet Links (Links alfabéticos
da Página Inicial), Home Page Images (Imagens da Página Inicial) e Alphabet Buttons (Botões
Alfabéticos). Essas subabas permitiram configurar a aparência da página inicial de nosso
repertório linguístico por intermédio da inserção de uma foto de Luiz Gonzaga e, abaixo dela,
as letras do alfabeto, em forma de links que proporcionam a “navegação” entre as entradas do
glossário.
126

Figura 22 – Configurações de visualização


Fonte: criado pelo autor

e) O ícone Pre-Process (Pré-Processo)

O último ícone Pre-Process (Pré-Processo) já traz uma configuração padrão do


programa para a qual não houve qualquer necessidade de alteração.
Por fim, feitas todas essas configurações no programa, o repositório linguístico está
organizado estruturalmente. No próximo item, explicitamos quais são os seus principais
componentes.

3.7 ORGANIZAÇÃO DO GLOSSÁRIO

O nosso glossário apresenta três partes constituintes: a macroestrutura, a medioestrutura


(sistema de referência entre as suas partes, tais como palavras, abreviaturas, símbolos, ícones,
ou ainda um sistema misto) e a microestrutura. Vejamos cada uma delas com os elementos que
as compõem.

3.7.1 Organização macroestrutural

A macroestrutura refere-se à forma como o corpo de um repertório lexicográfico é


organizado (WELKER, 2004). Para Biderman, (2001), o conjunto de entradas lexicais chama-
127

se nomenclatura. Essa é a definição que também adotamos. Para a devida organização


macroestrutural em uma obra lexicográfica, alguns critérios precisam ser considerados: deve-
se definir qual será o público-alvo, escolher o tipo de arranjo de entradas – se conforme a grafia
(alfabético) ou quanto à pronúncia, bem como delimitar o número de entradas, de acordo com
o repertório que se projeta. No que se refere à sua extensão, a nomenclatura, também conhecida
como nominata, terá influência direta da forma como o lexicógrafo trata a questão da polissemia
e da homonímia.
Em termos de macroestrutura, o glossário eletrônico aqui proposto terá as seguintes
características organizacionais, definidas pelo pesquisador, a partir das funcionalidades
permitidas pelo programa computacional (ver 3.6.3).

a) Notação do Corpus: as trinta e quatro canções serão identificadas com as seguintes legendas
alfabéticas no glossário: 1) Asa Branca (AB); 2) Qui nem Jiló (QJ); 3) No meu Pé de Serra
(PS); 4) Paraíba (PB); 5) Estrada de Canindé (EC); 6) Respeita Januário (RJ); 7) Juazeiro (J);
8) Baião (B); 9) Assum Preto (AP); 10) Baião de Dois (BD); 11) Xanduzinha (X); 12) A volta
da Asa Branca (VAB); 13) o Xote das Meninas (XM); 14) ABC do Sertão (ABC); 15) Riacho
do Navio (RN); 16) a Dança da Moda (DM); 17) Forró de Mané Vito (FMV); 18) Sabiá (S);
19) São João na Roça (SJR); 20) Noites Brasileiras (NB); 21) Vozes da Seca (VS); 22)
Imbalança (Imb); 23) Cintura Fina (CF); 24) Vem, Morena (VM); 25) Derramaro o gai (DG);
26) O Torrado (T); 27) Adeus, Rio de Janeiro (ARJ); 28) Vô casá já (VCJ); 29) Olha a Pisada
(OP); 30) Casamento de Rosa (CR); 31) Viva meu Padim (VP); 32) Umbuzeiro da Saudade
(US); 33) Nem se Despediu de Mim (NDM) e 34) Frei Damião.
Já os causos do corpus serão identificados da seguinte forma: causo 1: se eu nascesse
de novo (C1); causo 02: volta à casa (C2); causo 3: o casamento do caboclo (C3) e causo 4:
Karolina com K (C4).

b) Seleção das entradas: as entradas foram selecionadas a partir de critérios externos


(extralinguísticos) e internos (linguísticos). Há, desse modo, lexias que contêm traços
linguísticos descontínuos, porque representam um vocabulário próprio e um conjunto de
particularidades fonético-fonológicas caracterizadoras dos falares rurais/rurbanos e de falantes
de origem social modesta. Incluímos também lexias que contêm propriedades linguísticas com
distribuição gradual ao longo do continuum de urbanização proposto por Bortoni-Ricardo
(2004), já que Gonzaga recebeu influência de outros falares do português brasileiro e de pessoas
de diferentes níveis sociais. Ademais, como vimos, há entre esses usos linguísticos uma
128

interinfluência constante. Em suma, a seleção de entradas privilegiou variantes do Português


Brasileiro, representativas do universo diatópico e etnossociolinguístico do Rei do Baião.

c) Público-alvo: o glossário pretende abranger um número variado de interessados, podendo


alcançar, entre seus consulentes, linguistas, professores, alunos de Letras, estudantes em geral,
estudiosos da cultura nordestina, admiradores da obra de Luiz Gonzaga e de seus parceiros.

d) Arranjo do material léxico: Haensch, Wolf, Ettinger e Werner (1982, p. 452), falando do
dicionário, consideram que o elemento mais importante da macroestrutura “é a ordenação dos
materiais léxicos em conjunto, que pode ser por ordem alfabética, por ordem alfabética inversa,
por famílias de palavras ou segundo um sistema conceptual”71.
O programa Lexique Pro© utiliza, por padrão, a ordenação das palavras-entrada por
ordem alfabética, seguindo um procedimento semasiológico, que indica a apresentação dos
verbetes em um percurso que parte do significante para o significado. É a ordem que adotamos.
Na figura 23, no lado esquerdo, é possível observar a classificação alfabética das entradas.

Figura 23 – Percurso semasiológico – Lexique Pro©


Fonte: criado pelo pesquisador

71
Tradução de: El elemento más importante de la macroestructura de un diccionario es la ordenación de los
materiales léxicos en conjunto, que puede ser por orden alfabético, por orden alfabético inverso, por familias de
palabras o según un sistema conceptual.
129

e) Tratamento da Homonímia e da Polissemia: conforme já referido, a SCC não admite a


existência de homonímia perfeita, já que não existem sentidos intrínsecos às lexias (sinais-
palavras). Nessa visão, o falante não irá confundir “banco” (instituição financeira) e “banco”
(assento), porque os sentidos que lhes são associados são sempre especializados em contextos
e cenários de uso. Vimos também que esses diferentes sentidos, atribuídos às lexias em
situações de uso, caracterizam a polissemia. Logo, para fins do nosso glossário, tanto as lexias
homônimas quanto as polissêmicas serão incluídas num único verbete e suas especializações
de sentido serão registradas em subentradas, conforme ilustração da figura 24 abaixo.

Figura 24 – Item polissêmico


Fonte: criado pelo pesquisador

A lexia “besta” tem o sentido costumeiro de animal irracional, quadrúpede, isto é, o


resultado do cruzamento do cavalo com a jumenta ou do jumento com a égua. No sertão, “égua”
também é usada com sentido semelhante ao de “besta”. Entretanto, evita-se o uso de égua,
porque essa lexia é considerada obscena ou grosseira pelos roceiros (LEÃO, 2013). Em nosso
corpus, a lexia “besta” apareceu com acepções figurativas para caracterizar um indivíduo “tolo”,
“ingênuo”, “ignorante”, “estúpido” e também “muito admirado” e “pasmo”.

f) Princípio funcional entre maiúsculas e minúsculas: consoante Bugueño Miranda (2007),


algumas línguas possuem um princípio de oposição funcional entre o uso de maiúsculas e
130

minúsculas nas entradas. Esse princípio serve para diferenciar, por exemplo, substantivos
próprios dos comuns, em línguas como o holandês e o polonês. Em nossa pesquisa, não há
funcionalidade na oposição entre maiúsculas e minúsculas; porém, optamos por utilizar a
primeira letra de cada item-entrada do glossário em maiúsculas.

g) Tamanho da nomenclatura: conforme já frisamos, a nomenclatura constitui o conjunto de


entradas lexicais. Como lembra Borba (2003, p. 37), “os modelos linguísticos relacionam-se
estreitamente com os modelos socioculturais, já que a língua reflete a realidade em todos seus
aspectos”. O glossário que construímos reúne 490 entradas dos universos linguístico e
sociocultural gonzaguiano.

3.7.2 Organização medioestrutural

A medioestrutura é o sistema de referência que interliga as partes componentes do texto


lexicográfico (representado por palavras, abreviaturas, símbolos, ícones, ou ainda um sistema
misto). Por essa peculiaridade, é “responsável pelo diálogo entre as outras estruturas do
dicionário e entre as partes que integram a microestrutura” (PONTES; DUARTE, 2011, p. 48).
O sistema medioestrutural é composto por remissivas (remissões) – as referências que
remetem/encaminham o usuário a determinado ponto ou informação que se encontra dentro ou
fora de uma obra lexicográfica. Para Pontes e Duarte (2011, p. 51), essas remissões podem ter,
dentre outras, as seguintes classificações:

[...] as indicações de remissivas também podem ser: internas ou externas, quando se


dão, respectivamente, na macroestrutura ou nos textos externos 72 ; explícitas ou
implícitas, quando há ou não a presença de sinais e/ou abreviações que marquem a
remissão; obrigatórias, quando o consulente é obrigado a usar o sistema de remissivas
para ver sua consulta satisfeita, ou facultativas, quando o aluno-consulente escolhe
seguir ou não a indicação da remissiva.

As remissões podem ainda ser verbais e visuais.

72
Por textos externos, podemos entender, como Damin (2005, p. 23-24): “o conjunto formado pelo material
anteposto, interposto e posposto. [...] Material anteposto: parte do dicionário que antecede a nominata. É o lugar
reservado para servir de guia de uso do dicionário. Material interposto: conjunto de elementos complementares às
informações da microestrutrura e intercalados na macroestrutura. Pode aparecer sob a forma de ilustrações,
tabelas, mapas, diagramas, etc. Material posposto: parte do dicionário que sucede à nominata. Contém informações
[...] adicionais e complementares à macroestrutura e à microestrutura. Como exemplo, temos tabelas de verbos
irregulares, adjetivos gentílicos e resumo gramatical”.
131

a) Remissivas verbais:
No glossário eletrônico de Gonzagão, as remissivas que utilizam informação verbal vêm
marcadas; são antepostas pelo elemento remissivo “Ver”, seguido de lexias que formam uma
rede de hyperlinks, o que possibilita remeter o usuário imediatamente, com apenas um clique
do mouse, a outra lexia referencial indicada. A figura 25, abaixo, exemplifica o uso da remissiva
no verbete “mulé”, que remete para a forma despalatizada com consequente iotização “muié”,
caracterizando um tipo de remissão interna vertical, aquela que remete a outro verbete fora da
microestrutura.

Figura 25 – Remissiva da lexia mulé


Fonte: criado pelo pesquisador

b) Remissivas visuais:
Como se trata de um repertório eletrônico, o glossário utiliza também figuras e fotos
como componentes remissivos em alguns verbetes, o que determina uma remissão horizontal
interna. Esses elementos visuais, associados à linguagem verbal, constituem a medioestrutura
para permitir a movimentação do consulente em busca das informações de que necessita
(FECHINE; PONTES, 2011).
As ilustrações constituem, desse modo, conteúdo visual que auxilia na compreensão do
verbete. Se o desejar, o usuário poderá clicar sobre esses elementos iconográficos, fazendo com
132

que as imagens sejam ampliadas para melhor visualização de seu conteúdo. Nesses casos, trata-
se da possibilidade de uso de uma remissão facultativa, horizontal interna e implícita, conforme
demonstra a figura 26 abaixo.

Figura 26 – Remissiva de informação visual


Fonte: criado pelo pesquisador

Ao clicar na figura da fogueira (supra), uma janela é aberta, mostrando a imagem em


tamanho ampliado.

Outras formas de remissão são apresentadas pelos ícones ou . Clicando nos


referidos elementos remissivos horizontais internos, o consulente poderá ouvir um arquivo
sonoro com o texto da abonação ou assisir a um vídeo que ilustra a lexia-entrada.
Na figura 27, a seguir, é possível observar, no canto direito superior, um player73 do
programa Lexique Pro©, que reproduz um arquivo sonoro, após o usuário clicar,
necessariamente, em .

73
Termo usado na língua inglesa, que significa, literalmente, “tocador”. Pode referir-se, tanto ao aparelho portátil
que reproduz músicas ou imagens (por exemplo, CD Player, DVD Player, MP3 Player etc.) quanto a um programa
de computador que executa arquivos de áudio ou vídeo.
133

Figura 27 – Ícone remissivo para arquivo de áudio


Fonte: criado pelo pesquisador

Resumindo: o sistema medioestrutural adotado no glossário eletrônico de Gonzagão é


constituído de remissões internas, verticais e horizontais, verbais e visuais, contemplando, tanto
referências explícitas e implícitas quanto facultativas e obrigatórias.

3.7.3 Organização microestrutural

A microestrutura define-se, de modo geral, como a distribuição ordenada de todas as


informações presentes no interior do verbete. “O verbete é o texto de uma palavra-entrada de
um dicionário, inclusive ela própria” (BIDERMAN, 1984b, p. 144). O conceito oferecido por
Biderman aplica-se a outros repositórios linguísticos e a palavra-entrada (ver letra “a” infra),
referida pela autora, é aquela que se quer definir ou explicar. Ao contrário da macroestrutura,
que possui uma apresentação vertical, a microestrutura caracteriza-se por sua disposição
horizontal, em que os elementos constitutivos do verbete devem manter uma padronização no
interior de uma mesma obra. Entretanto, é admissível uma certa variação, tendo em conta a
tipologia gramatical da lexia que está sendo definida.
134

Wiegand (1989 apud Farias, 2013) divide a microestrutura em dois comentários


fundamentais que aparecem no verbete em posições canônicas: o comentário de forma (ou
estrutura linear da esquerda) e comentário semântico (ou estrutura linear de direita). O
comentário de forma reúne informações atinentes à ortografia e à representação fonético-
fonológica do signo-entrada, enquanto o comentário semântico contém informações referentes
ao seu sentido.
A organização microestrutural pode conter desde um conjunto mínimo de
conhecimentos até uma variedade complexa de informações, “dependendo de sua combinatória
contextual” (BORBA, 2003 p. 322), ou seja, da natureza da obra lexicográfica. Não há, portanto,
entre os lexicógrafos um número máximo padrão de itens que compõem a microestrutura.
As discussões sobre o conteúdo da fórmula microestrutural remetem-nos à distinção
entre microestrutura abstrata e microestrutura concreta. Inspirados em Wiegand, Farias (2013)
e Welker (2004) definem, em termos gerais, a microestrutura abstrata como um conjunto (ou
programa) predeterminado de tipos de informações que podem constar nos verbetes, antes da
elaboração do dicionário; o que julgamos valer também para qualquer repositório lexicográfico.
A concreta é a representação da estrutura abstrata, isto é, “aquilo que se vê em determinado
verbete” (WELKER, 2004, p. 108).
Enfim, com base numa microestrutura abstrata previamente selecionada, adotamos os
seguintes itens para a arquitetura microestrutural de nosso glossário, ao mesmo tempo em que
explicitamos cada um deles consoante nosso referencial teórico.

a) Entrada (palavra-entrada)
Entendemos, com Pontes (2009), que a entrada é a unidade léxica objeto de definição
ou explicação na composição do verbete lexicográfico. Por seu caráter regional, em nosso
glossário, a entrada (palavra-entrada)74 é registrada na forma como aparece no corpus. Desse
modo, as classes de lexias lexicais, substantivos e adjetivos, podem vir no singular e no plural,
no masculino ou no feminino; já os verbos podem estar na forma canônica do lexema ou
flexionados. Os verbos que aparecem na forma flexionada virão com a indicação do infinitivo
entre parênteses. Por exemplo: estribuchano (estrebuchar), soluçô (soluçar), sumiro (sumir),
tô (estar) e dixi (dizer).

74
A entrada também é conhecida como lema.
135

Figura 28 – Forma verbal flexionada “dixi”


Fonte: criado pelo pesquisador

No que tange aos adjetivos, as formas femininas são, aqui, consideradas representativas
de valores semânticos que destacam o uso do Português Brasileiro, em sua variedade rural
nordestina, falado por pessoas de origem social humilde. A título de ilustração, registramos:
adivinhona, baguncera, caboca, lazarina, cangacera etc.

Figura 29 – Lexia “cangacera”


Fonte: criado pelo pesquisador
136

As entradas que compõem o glossário podem ser lexias simples, compostas ou textuais.
E como são reveladoras do caráter descritivo, representativo do universo diatópico e etno-
sociolinguístico da linguagem de Luiz Gonzaga, decidimos incluir antropônimos e topônimos
encontrados no corpus, considerando sua relevância no contexto sócio-artístico-cultural de
Gonzaga e também para propiciar ao consulente o conhecimento sobre os lugares de vivência
do Rei do Baião e os personagens que compuseram a sua história. Nessa particularidade, o
glossário assume caráter enciclopédico, aspecto que é reforçado pelo uso de notas
enciclopédicas (cf. letra “i” infra).

b) Verbete lexicográfico

Conforme já enunciado, uma palavra-entrada, acompanhada de um enunciado


explicativo sobre ela própria denomina-se verbete. Como define Biderman (1984b, p. 144), “os
dicionários são formados de seqüência de verbetes”. Haensch, Wolf, Ettinger e Werner (1982)
defendem que o inventário “que constitui o corpo de todo dicionário, glossário etc. se divide
em artigos, chamados também de entradas” 75 . Tais posicionamentos evidenciam a falta de
consenso entre os lexicógrafos quanto a esses conceitos. Welker (2004), por exemplo, não
entende artigo como sinônimo de entrada76. Da mesma forma, Barbosa (1989, p. 69) assevera
que “a esse conjunto ‘entrada + enunciado lexicográfico’ denomina-se artigo” (ver infra).
Para Borba (2003, p. 322), um verbete poderá ter entre três e seis níveis de informação.
O mais simples contempla “a classe de palavra a que pertence, a definição ou equivalência
sinonímica e a abonação”; já o de seis níveis engloba a classe, a subclasse, a complementação,
o registro de uso (formal, coloquial etc.), a definição e a abonação (exemplo).
A classe de palavra corresponde à categorização léxico-gramatical das entradas. A
subclasse refere-se, por exemplo, à indicação de gênero para os nomes (feminino, masculino)
e à classificação dos verbos como de ação ou processo 77. A complementação corresponde à
subclassificação de classes gramaticais: os verbos, por exemplo, podem ser subdivididos por
critérios sintáticos (transitivos e intransitivos); os substantivos, em concretos e abstratos; os
adjetivos, em qualificadores e classificadores78. Já a definição é um enunciado que parafraseia

75
Este inventario que constituye el cuerpo de todo diccionario, glosario, etc., se divide en ‘artículos’, llamados
también ‘entradas’.
76
Para o autor, entrada é sinônimo de lema. Cf. Welker (2004, p. 91).
77
Verbos de processo são aqueles que representam evento ou sucessão de eventos que afetam um sujeito paciente,
experimentador ou beneficiário.
78
São aqueles que modificam o nome, denotando espécies no interior de um gênero: vinho tinto, triângulo isósceles,
processo administrativo.
137

a acepção de uma palavra ou locução, enquanto a abonação é um enunciado que serve para
exemplificar uma palavra-entrada (ver “d” e “g” infra).
Entretanto, o mais comum é o verbete que contém quatro/cinco níveis informacionais,
a saber: a classe, a subclasse, a complementação, a definição (conceituação) e a abonação.
Como exemplo, Borba (2003, p. 323) descreve a lexia “dedetização” nos seguintes termos:
nome feminino, abstrato de ação, “pulverização com inseticida; desinfecção: mobilizamos 15
mil servidores... fazendo a dedetização em 968 municípios”.
Barbosa (1989, p. 70-71) também adverte para o fato de que a microestrutura pode ser
variável de um repertório linguístico para outro; no entanto, “uma vez adotado um programa,
sustentar-se-á ao longo de uma mesma obra”. Para ela, uma microestrutura mínima é formada
pelo seguinte esquema: Artigo = {entrada + enunciado lexicográfico (+ definição)}. Como se
percebe, a autora prefere o nome artigo a verbete. Explicando o seu modelo, Barbosa (1989, p.
69) esclarece que o “enunciado lexicográfico” é constituído de três macroparadigmas ou três
grandes zonas semântico-sintáxicas, quais sejam: paradigma informacional (PI), paradigma
definicional (PD) e paradigma pragmático (PP). Esses macroparadigmas podem ser
subdivididos em microparadigmas, que vão variar conforme o contexto lexicográfico (seja ele
um thesaurus, um dicionário monolíngue ou bilíngue, ou um glossário), os seus objetivos e o
público-alvo da obra.
Nos desdobramentos do paradigma informacional, encontramos os seguintes tipos de
informação sobre uma lexia: abreviatura, categoria, gênero, número, conjugação, pronúncia,
homônimos, campos semântico-lexicais etc. No paradigma definicional, deparamo-nos com a
seleção dos sentidos mais importantes da lexia em apreço (sema1, sema2, sema3). O paradigma
pragmático, por sua vez, define a classe contextual ou dimensão contextual que, segundo Borba
(2003, p. 317), “compreende todos os elementos possivelmente relevantes no ambiente de
comunicação, em paralelo às identidades dos indivíduos envolvidos”, tais como o emprego
técnico, formal ou coloquial de uma palavra. É importante ressaltar ainda que, dos três
macroparadigmas elencados, somente este último – o pragmático – é considerado item
facultativo na composição de verbetes.
Em suma, nesta pesquisa, adotamos a denominação verbete em vez de artigo
lexicográfico. Logo, será o termo usual aqui empregado.

c) Categorização léxico-gramatical das entradas: conforme visto em 2.1.2, Pottier, Audubert


e Pais (1972) dividem as lexias em duas classes: lexicais (substantivo, verbo e adjetivo) e
gramaticais (determinantes, quantificadores, substitutos, coordenadores etc.). Como se
138

percebe, as reflexões teóricas desses autores propõem uma terminologia própria, mas não se
escusam de fazer uma correspondência com a classificação tradicional já consagrada nos
estudos sobre as línguas. Posto isso, para facilitar a leitura/consulta dos usuários não
especializados de nosso glossário, as lexias simples trazem as seguintes categorizações,
representadas pelas notações entre parênteses: a) classe dos substantivos, que pode ser
masculino (sm.), masculino plural (sm.pl.), feminino singular (sf.) ou feminino plural (sf.pl.);
b) classe dos adjetivos (adj.); c) classe dos verbos, sem indicação de transitividade (v.); d) classe
das conjunções (conj.); e) classe dos advérbios (adv.); f) classe das preposições (prep.); g) classe
dos pronomes (pron.) e h) classe das interjeições (int.). O glossário traz ainda a indicação de
uma contração: a da preposição “para” mais o artigo “o”, que resulta em pro. Acreditamos, em
consonância com o pensamento de Rey-Debove (1984, p. 50-51), que essa “classificação
continua sendo aproximadamente a que todos conhecem”.
Já as lexias compostas e textuais são classificadas a partir da noção de sintagma que,
para Houaiss e Vilar (2009), é uma unidade linguística composta de um núcleo (verbo,
substantivo, adjetivo etc.) e de outros vocábulos que a ele se agregam, formando uma locução
que, por sua vez, entrará na formação de um enunciado. Para os autores, o enunciado pode ser
uma frase, parte de um discurso ou discurso (oral ou escrito) associado ao contexto em que é
produzido. Sendo assim, classificaremos essas unidades da seguinte forma: sintagma masculino
(sint. m.), sintagma feminino (sint. f.), sintagma adjetivo (sint. adj.) sintagma verbal (sint. v.),
sintagma adverbial (sint. adv.), sintagma prepositivo (sint. prep.) e sintagma interjetivo (sint.
int.).

d) Definição

O elemento da microestrutura de importância capital para a lexicografia é o enunciado


definitório ou, de modo simples, a definição. Conforme referido, trata-se de um enunciado que
parafraseia a acepção de uma palavra ou locução (HOUAISS; VILAR, 2009). Ele é, sem dúvida
nenhuma, o objeto de consulta mais frequente por parte dos usuários. É por isso que Biderman
(1984c, p. 10) alega que “a pedra de toque de um dicionário é a definição da palavra-entrada”.
Nos trabalhos existentes sobre definição, encontramos as seguintes proposições:
139

i. definições lexicográficas (ou linguísticas) – aquelas que possuem enunciados definitórios,


definiens, que explicitam o sentido da palavra-entrada a ser definida, o definiendum. São
definições de cunho essencialmente linguístico79;
ii. definições enciclopédicas – aquelas em que “não se encontra exatamente uma definição, mas
diversas informações sobre a palavra-entrada” (CARVALHO, 2011, p. 96). São enunciados
definitórios que comumente contemplam informações culturais e de conhecimento de mundo.
Bem comuns, por exemplo, em definições sobre plantas, animais e pessoas;
iii. Terminológicas – aquelas que são próprias de obras terminográficas específicas, de uma
ciência ou de uma tecnologia (WELKER, 2004).
Não obstante as diferenças apontadas acima, é raro o reconhecimento de uma distinção
rígida entre as definições enciclopédicas e lexicográficas, sendo difícil a sua separação. Para o
propósito de nosso trabalho, atemo-nos, principalmente, à questão das definições lexicográficas
(que podem ser redigidas utilizando-se como métodos de escritura a paráfrase ou a sinonímia).
Entretanto, não nos escusamos de apresentar informações enciclopédicas, desde que
pertinentes.
Referindo-se ao primeiro método, Biderman (1984c, p. 10) defende que a melhor
definição é “aquela que define e/ou descreve através de uma paráfrase”. Em outros termos, a
definição compõe o comentário semântico de uma obra lexicográfica e é geralmente
caracterizada por uma paráfrase explanatória analítica. Nela, há uma reescritura “do conteúdo
de uma unidade léxica por meio de uma proposição que explicita o mesmo” (BUGUEÑO
MIRANDA 2009, p. 249).
Esse enunciado definitório parafrástico é também denominado de definição aristotélica
ou intensional. Por intensão, entendemos, em consonância com Farias, (2013) o conjunto de
traços que caracterizam uma dada entidade, isto é, que buscam descrever o sentido de uma
unidade léxica. De outra parte, a definição aristotélica recebe esse nome porque, segundo Bueno
(2007, p. 118),

[...] baseia-se no pressuposto aristotélico do genus proximum e differenciae specificae,


isto é, mostrar a classe a que pertence diferenciando-a dos demais elementos dessa
classe através dos especificadores semânticos. Os especificadores utilizados não
devem ser todos os que diferenciam um objeto definido dos demais, mas sim aqueles
que possuem os traços semânticos mais importantes.

79
Bosque (1982) cita como exemplo de definições estritamente linguísticas as existentes para os “termos todavia
ou segundo”, para as diferenças entre substantivos contáveis e incontáveis, “individuais” e coletivos.
140

Nesse caso, a definição consiste em evidenciar a classe a que pertence o lexema (genus
proximum), representada por um hiperônimo80 ou arquilexema, e as características peculiares,
específicas do que está sendo definido (differenciae specificae). Como consequência dessa
característica definitória, não é permitida a inclusão do lexema-entrada (definiendum) no
enunciado definitório. Essa é também a definição que predomina nos dicionários.
Contrariamente à definição aristotélica, as definições oracionais admitem o uso da
palavra-entrada no enunciado lexicográfico. Para Carvalho (2011, p. 90), “a comutação de
sintagmas e orações soltas pela constituição de parágrafo não é somente uma questão formal,
mas uma passagem para o nível do texto, do discurso”. Inspirado em definições dirigidas a
aprendizes de inglês como língua estrangeira, esse tipo de enunciado definitório possui algumas
características bem marcantes, tais como o uso de sentenças completas, a utilização de pequenos
textos descritivos, o emprego de verbos na primeira pessoa do plural e dos pronomes você/a
gente, o que lhe confere um caráter dialógico, aproximando o consulente do texto lexicográfico
(por exemplo: “febre: quando a gente tem febre, o corpo fica bem mais quente”). Essa espécie
de definição é considerada bastante adequada para o público infanto-juvenil.
Por outro lado, no método da definição sinonímica ou paráfrase explanatória sinonímica,
como prefere Bugueño (2009) 81, há uma simples substituição de uma unidade lexical por outra
equivalente ou por uma série sinonímica. É o que Bagno e Rangel (2006) designam de definição
circular ou circularidade. Não obstante a crítica ao uso da circularidade em dicionários, já que
não há sinônimos perfeitos, é quase impossível não encontrar definições sinonímicas em
repositórios linguísticos, “especialmente no caso de adjetivos e verbos” (BIDERMAN, 1984a,
p. 35).
No glossário de Gonzagão, estão presentes tanto definições com paráfrases analíticas
quanto sinonímicas. Buscamos seguir as orientações de Biderman (1984a, p. 32), que aconselha
o uso de paráfrase redigida em linguagem simples, devendo ser “escorreita e ter sido formulada
utilizando-se palavras muito freqüentes na língua, preferivelmente lexemas que façam parte do
vocabulário básico”82. Pontes (comunicação pessoal), por seu turno, recomenda a evitação de
definições cultas em obras lexicográficas de cunho regional.

80
Por isso, Bosque a denomina de definição hiperonímica (1982, p. 106).
81
O próprio autor reconhece que não há consenso quanto à consideração da paráfrase explanatória sinonímica
como um tipo de definição propriamente parafrástica.
82
Referindo-se ao português de Portugal, Biderman (1996) menciona pesquisa em que foram selecionadas 2.217
palavras de uso comum, consideradas como o vocabulário básico do português na comunicação oral. Com as
adaptações à realidade brasileira, a autora propõe um montante de 3 mil palavras, aproximadamente, para um
Vocabulário Básico do Português Brasileiro.
141

Por fim, o glossário busca oferecer definições próprias, mas se inspira no Novo
Dicionário de Termos e Expressões Populares de Tomé Cabral (1982), no Dicionário Eletrônico
Houaiss da Língua Portuguesa 2009.3; no Dicionário de Locuções e Expressões da Língua
Portuguesa, de Carlos Alberto de Macedo Rocha e Carlos Eduardo P. de M. Rocha (2011); e
no Dicionário UNESP do Português Contemporâneo, de Francisco S. Borba (2004). Vale a
consideração de que esses enunciados definitórios podem ser adaptados, resumidos ou
aumentados para se adequarem aos sentidos dos contextos e cenários em que são usados. Não
deixamos de considerar também aspectos extralinguísticos, culturais, que pudessem enriquecê-
los para melhor conhecimento do universo gonzaguiano por parte do consulente.

e) Variantes

As variantes lexicais (tokens) registram as grafias que representam as variedades de


referência do Português Brasileiro, ou seja, as variedades socialmente prestigiadas, também
chamadas de cultas (types). Elas são indicadas dentro do verbete com o seguinte estilo: fonte
Lucida Sans Unicode, na cor azul marinho, e tamanho 11, precedidas do nome Variante.
É importante destacar que essa indicação, Variante, deve ser entendida como “Variante
de” em relação à lexia que ela precede. Por limitações do programa não foi possível adicionar
a preposição “de”. Como exemplo, veja-se a entrada: “bandulero” na figura abaixo.

Figura 30 – Exemplo de variante


Fonte: criado pelo pesquisador
142

De acordo como o exposto, “bandulero” deve ser entendida como “variante de”
bandoleiro.

f) Pronúncia
As transcrições fonéticas das entradas (lemas) que contêm metaplasmos fonéticos de
adição, supressão ou transformação são representadas entre colchetes ([ ]). Consoante
evidenciado nos procedimentos metodológicos, esses registros de pronúncia foram feitos a
partir das audições das músicas. Além disso, o verbete traz a gravação em áudio das abonações
em que aparecem esses lemas. O sistema de transcrição segue o Alfabeto Fonético Internacional,
da Associação Internacional de Fonética83. A figura 31 a seguir ilustra a transcrição da lexia
“sorto” [ˈsoɾtʊ].

Figura 31 – Exemplo de transcrição da lexia “sorto”


Fonte: criado pelo pesquisador

83
Bastante conhecida pelo seu acrônimo em inglês, IPA (International Phonetics Association), é uma organização
representativa para foneticistas do mundo inteiro, criada na França em 1886.
143

g) Abonações (Exemplos)

Borba define (2004, p. 6) abonação como “frase ou trecho de frase de autor, que serve
para exemplificar uma acepção ou uma construção sintática nos dicionários”. Welker (2004, p.
150) considera a concepção mais difundida para abonação “a frase ou trecho de frase encontrada
em um texto autêntico. Para Pontes (2009, p. 174), abonação é sinônimo de exemplo
lexicográfico, sendo este “um enunciado que se acrescenta à definição para comprovar, ilustrar
ou abordar uma palavra-entrada”. Para o autor, os exemplos podem ser autênticos ou inventados
(construídos) ou, ainda, baseados em um corpus, mas adaptados pelo lexicógrafo. Com base no
exposto, defendemos o uso da abonação como modelo válido de exemplificação autêntica, uma
vez que é retirado de um corpus de pesquisa. Nesse sentido, a abonação é de suma importância
para a completa compreensão de definição da entrada, pois, em consonância com Biderman
(1984a, p. 41), entendemos que “a definição, a explicação, a descrição de um conceito só se
completam quando postas no contexto do discurso”. A abonação é, portanto, um elemento
importante, juntamente com o enunciado lexicográfico, para uma integração das partes
constituintes do verbete.
É aceitável o entendimento de que a abonação é passível de ocorrer não só em
dicionários mas também em outras obras lexicográficas. As abonações em nosso glossário são,
por óbvio, todas extraídas das canções de Luiz Gonzaga, e dos causos por ele vivenciados, e
cumprem a função de demonstrar as particularidades semântico-culturais e fonéticas da palavra-
entrada, considerando-se as informações contextuais (linguísticas) e cenariais (culturais).
Observe-se que as lexias representativas da palavra-entrada vêm sublinhadas nas
abonações e as supressões de trechos são marcadas por reticências entre colchetes.
144

Figura 32 – Uso de abonação


Fonte: criado pelo pesquisador
h) Notas linguísticas
As notas linguísticas apresentam conteúdo informacional acerca da lexia-entrada como
signo linguístico, fornecendo, principalmente, informações sobre metaplasmos fonéticos do
Português Brasileiro, usados por Luiz Gonzaga, e sua classificação em metaplasmos de adição,
de transformação e de supressão. Essas informações vêm antecedidas do nome “Nota”.

i) Notas enciclopédicas
A nota enciclopédica 84 “complementa o verbete com um conteúdo adicional que
engloba contextos sociais, culturais, científicos, geográficos, entre outros” (PONTES;
DUARTE, 2011, p. 53). Em nosso glossário, as informações enciclopédicas vêm precedidas
pelo nome “Nota enciclopédica” e têm como função apresentar traços socioculturais, nomes
científicos da flora e fauna nordestinas, bem como descrever atividades e práticas usadas no
Nordeste brasileiro ou próprias do ambiente onde Gonzaga cresceu. Ademais, fornecem
informação sócio-histórica sobre os antropônimos, nomes botânicos e zoológicos presentes na
nomenclatura. As principais obras que serviram de base para a redação das notas enciclopédicas
foram o Dicionário do Folclore Brasileiro, de Luís da Câmara Cascudo; o Dicionário
Pernambucano, de Pereira da Costa; o Novo Dicionário de Termos e Expressões Populares, de
Tomé Cabral e o livro a Língua do Nordeste, de Mário Marroquim.

84
É também chamada de achega enciclopédica.
145

Na figura 33, a seguir, a lexia “coco” traz uma nota enciclopédica sobre as características
dessa dança, os instrumentos usados e sua origem.

Figura 33 – Nota enciclopédica


Fonte: criado pelo pesquisador

Em síntese, consideramos como componentes de informação enciclopédica, o uso de


recursos visuais, fotos, figuras e vídeos, que são utilizados para análise e interpretação
apropriada do texto consultado, conforme veremos no próximo item.

j) Recursos visuais dos itens lexicais do verbete


Os elementos visuais, usados no texto lexicográfico do glossário eletrônico, são bastante
úteis, pois servem de “guia” para atrair a atenção dos consulentes para que leiam, analisem e
interpretem adequadamente o texto consultado. Em consonância com Pontes (2009, p. 19-20),
sustentamos que a obra lexicográfica se define, dentre outras características, por ser um texto
multimodal,

[...] isto é, composto por mais de um modo semiótico, compreendendo elementos


verbais e não-verbais em sua constituição. Assim, manifestam-se, em uma página do
dicionário, além do código escrito, outras formas de representação como a cor e o
tamanho da letra, a diagramação da página, a formatação do texto, a presença de
ilustrações visuais, etc.
146

Embora se refira explicitamente ao dicionário, a definição do autor cabe naturalmente a


outros tipos de repertórios linguísticos. Os critérios de escolha dos elementos visuais do
glossário de Gonzagão basearam-se no fato de que fotos, figuras e imagens significam e têm
uma função relevante na assimilação do sentido do texto lexicográfico, não se restringindo
apenas a um apelo estético para sua constituição. De fato, esses recursos visuais não almejam
ao simples embelezamento da obra, mas buscam destacar saliências visuais que facilitam a
compreensão dos sentidos, mormente aqueles influenciados por contextos geográficos, sócio-
históricos e culturais. Desse modo, fizemos questão de incluir fotos, figuras, arquivos de áudio
e vídeo não apenas para atrair a atenção do consulente mas, principalmente, para auxiliá-lo na
associação do código verbal às representações visuais do universo nordestino e gonzaguiano.
Com essas escolhas, empenhamo-nos em criar um objeto que fosse interativo, didático e rico
em informações (PONTES, 2009).
Resta sublinhar que o conjunto de informações da microestrutura deve ser, como já dito,
adequado ao universo do repertório linguístico a ser elaborado. Este trabalho procurou garantir
que toda informação microestrutural do glossário organizado fosse discreta e discriminante,
segundo a definição proposta por Bugueño Miranda e Farias (2011, p. 42):

[...] entendemos por informação discreta uma informação que seja efetivamente
relevante para o consulente. Por informação discriminante, entendemos uma
informação que permita ao leitor tirar algum proveito em relação ao uso ou ao
conhecimento da língua.

Nossa expectativa é a de que os usuários do glossário possam conhecer não só os


sentidos de palavras e expressões linguísticas do Português Brasileiro em sua variedade rural
nordestina mas também encontrar informações sobre contextos sociais, culturais, científicos,
geográficos que representam e divulgam o universo gonzaguiano.
Na sequência, apresentamos, esquematicamente, a fórmula da microestrutura abstrata
de nosso glossário e seus respectivos níveis de informação:

[+ Entrada ± Elemento remissivo sonoro ± Transcrição Fonética + Categorização


Léxico-gramatical + Definição + Abonação ± Variante de ± Elemento remissivo
visual ± Nota (Linguística) ± Nota Enciclopédica ± Elemento remissivo verbal]

Quadro 1 – Fórmula microestrutural abstrata


Fonte: criado pelo autor
147

O símbolo, ± usado no diagrama anterior, indica a presença, ou não, do segmento


seguinte. Ademais, será possível observar que, no nosso glossário, os elementos remissivos
verbais (aqueles antepostos pelo elemento remissivo Ver), visuais (figuras, ilustrações, fotos e
vídeo) e sonoros (arquivos de música) compõem o sistema de remissões (medioestrutura) e
estão visualmente localizados dentro da microestrutura. A seguir, como ilustração,
apresentamos a microestrutura concreta do verbete cangacero no glossário eletrônico de
Gonzagão.

Figura 34 – Microestrutura concreta

k) Distribuição do léxico
Estando organizado adequadamente, o glossário pode ser preparado para distribuição
do léxico; isto é, após definir um nome para o repertório lexicográfico, o usuário poderá criar
um programa executável (setup) para ser compilado, gravado e arquivado no computador ou
em dispositivos de armazenamento, tais como CD-ROM, DVD-ROM ou pen-drive. A figura
34 mostra a tela de preparação do arquivo executável, que possui a extensão (.exe).
148

Figura 35 – Tela de distribuição do léxico


Fonte: criado pelo autor

Apresentadas as opções teórico-metodológicas sobre as fontes, a seleção do corpus


documental e a organização das macro, médio e microestruturas do glossário eletrônico
proposto para este estudo, descrevemos, no próximo capítulo, a gênese do Nordeste como
região político-administrativa, bem como suas principais particularidades do ponto de vista
histórico, socioeconômico e cultural. Destacamos também, na constituição desse espaço
nordestino, o Estado de Pernambuco e o Município de Exu, berço onde nasceu e cresceu o
garoto Luiz Gonzaga.
149

04 PERCURSO GEO-HISTÓRICO-ARTÍSTICO DE UM REI NORDESTINO

Lá no meu pé de serra, deixei ficá meu coração Ai, que


saudades tenho, eu vou voltá pro meu sertão (Luiz
Gonzaga-Humberto Teixeira)

N este capítulo, apresentamos, inicialmente, a caracterização do ambiente


nordestino como centro de uma cultura própria dentro do território brasileiro.
Essa ambientação é necessária para compreender a influência da região sobre a trajetória do
músico e compositor Luiz Gonzaga, nascido na cidade de Exu, em Pernambuco, e das cidades
por onde andou no curso de sua vida. É indiscutível o fato de que esses espaços geográficos
influenciaram linguística e culturalmente o seu modo de falar.

4.1 O ESPAÇO GEOGRÁFICO: O NORDESTE

Darcy Ribeiro (2006 [1995]) identifica, nos períodos de formação e ocupação do


território brasileiro, a existência de diversos brasis que nascem a partir de uma protocélula
étnica neobrasileira, diferenciada, tanto da portuguesa quanto das indígenas a partir do século
XVI. Para ele, essa célula cultural neobrasileira “era gestada nas comunidades constituídas por
índios desgarrados da aldeia para viver com os portugueses e seus mestiços – que começavam
a multiplicar-se na costa pernambucana, baiana, carioca e paulista” (RIBEIRO, 2006 [1995], p.
245). Na percepção do autor, as principais variantes da cultura brasileira tradicional vão nascer
dessas protocélulas que, espantosamente, se mantiveram unidas em um mesmo território: o
Brasil crioulo, desenvolvido nas terras litorâneas do Nordeste; o Brasil caboclo, representante
da cultura dos povos da Amazônia; o Brasil caipira, com população ocupante das áreas onde se
localizavam os mamelucos paulistas e, mais tarde, as grandes propriedades de café; o Brasil
sulista, das zonas de pastoreio e das imigrações europeias, notadamente italianas e alemães; e
o Brasil sertanejo, que engloba os habitantes do sertão árido, estendendo-se até o Centro-Oeste.
É esta última variante, naquilo que diz respeito à área nordestina, que especialmente nos
interessa neste estudo.
Até o começo da década de 20 do século XX, o Nordeste, tal qual o espaço geográfico
como conhecemos hoje, simplesmente não existia. Com efeito, o mapa, a seguir, apresenta as
divisões regionais do Brasil, em que a região ainda não aparecia definida na cartografia
brasileira.
150

Figura 36 – Divisão político-administrativa do Brasil em 1913


Fonte: LIMA, Maria Helena Palmer (2002, p. 23)

Como podemos observar, na cartografia da época em que Luiz Gonzaga tinha apenas 1
(um) ano de vida (1913), existiam duas regiões, Norte-Oriental e Oriental, que entrariam na
composição daquilo que conhecemos atualmente como Nordeste. Mais tarde, o Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), órgão a que cabe a atribuição de elaborar as
divisões regionais do Brasil, desde 1936, mapeou as Unidades Federadas em macrorregiões que
se institucionalizaram em 1942 com as seguintes denominações: Norte, Nordeste, Este, Sul e
Centro. A figura 36, a seguir, ilustra a evolução das Unidades Político-Administrativas do
território brasileiro apresentada pelo referido Instituto.
151

Figura 37 – Evolução das unidades político-administrativas brasileiras


Fonte: IBGE. ftp://ftp.ibge.gov.br/Cartas_e_Mapas/Mapas_Tematicos/

Percebemos que, na evolução das Unidades Político-Administrativas brasileiras,


Maranhão e Piauí (Norte), “Baía” (BA) e Sergipe (Este) não faziam parte da grande região
Nordeste na divisão de 1940. A partir de 1945 é que Maranhão e Piauí entram na composição
do então chamado Nordeste ocidental. Enquanto isso, “Baía” (BA) e Sergipe, agora ambos
pertencentes à região Leste, continuavam fora da constituição do espaço nordestino até o ano
de 1960.
Com as mudanças ocorridas no espaço brasileiro, na década de 60 do século XX, um
novo desenho consolidou-se em 1970. Houve, então, uma renomeação das regiões para as
152

denominações conhecidas atualmente: Norte, Nordeste, Sudeste, Sul e Centro-Oeste85. Essa é


a divisão que perdura até os dias atuais, conforme ilustra a figura 37 abaixo.

Figura 38 – Divisão político-administrativa atual do Brasil


Fonte: IBGE. ftp://ftp.ibge.gov.br/Cartas_e_Mapas/Mapas_Tematicos/

Desde então, a área em laranja identifica o Nordeste como uma das cinco regiões em
que se divide o Brasil. Segundo dados do IBGE, é a região que possui o maior número de
municípios (1.792 ao todo). Essa porção do território brasileiro é composta de nove estados:
Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe.
Voltando ao núcleo da cultura sertaneja identificado por Ribeiro (2006 [1995]),
verificamos que este se diferencia do núcleo crioulo, ambos situados no Nordeste, não apenas
em relação à questão geográfica. Enquanto o núcleo crioulo está localizado em áreas litorâneas
do Nordeste, e seu arranjo sócio-histórico-cultural resulta da fixação da economia açucareira

85
Regiões instituídas pelo Decreto 67.647, publicado no Diário Oficial da União, em 24 de novembro de 1970.
153

em uma área que se estende desde o Rio Grande do Norte até o Estado da Bahia, o núcleo
sertanejo localiza-se no sertão semiárido, ambiente cujo bioma86 predominante é a caatinga,
composto por plantas xerófilas, de porte baixo e espalhadas. Segundo Silva (2003, p. 09), a
Caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro, ocupando uma área de cerca 734.478km 2.
E vale a ressalva quanto ao fato de que grande parte do patrimônio biológico dessa região não
é encontrada em nenhum outro lugar do mundo além do Nordeste do Brasil. A zona de Caatinga
tem como característica marcante a insuficiência de chuvas, podendo isso perdurar por anos
consecutivos, o que acarreta consequências trágicas para o agricultor sertanejo pobre.
Outra cultura pouco citada na literatura sobre a história da economia nordestina, mas
que efetivamente teve relevância para a economia regional, ao lado da açucareira, é a do algodão.
Adaptado às extensas áreas secas, a cotonicultura consolida-se na região devido a surtos
exportadores que ocorrem em duas fases principais: segunda metade do século XVIII e década
de 1860 em diante (TAKEYA, 1990). Como demonstra a pesquisadora, durante muito tempo,
estendendo-se até os anos de 1940, a região Nordeste conservou-se como núcleo próspero de
produção algodoeira em detrimento das demais regiões brasileiras. Para se ter uma ideia, em
termos percentuais, dois estados nordestinos, Pernambuco (com 80%) e Paraíba (com 26%)
figuraram como grandes produtores/exportadores de algodão, em se estabelecendo uma relação
com o total de exportações brasileiras.
Por seu turno, a história do povoamento do nordeste brasileiro está intrinsicamente
ligada à atividade do pastoreio. Com a criação de gado, visando ao abastecimento do litoral,
com carne bovina, criaram-se diversos currais. Segundo Ribeiro (2006 [1995], p. 307), os
primeiros lotes instalaram-se no agreste de Pernambuco e depois adentraram o sertão. Esses
currais tinham como característica básica a ocupação de terras latifundiárias dispersas pela
imensidão dos sertões. Alguns, mais tarde, se transformariam em cidades ao longo do interior
nordestino.
A importância da criação bovina no interior do Nordeste levou muitos autores a
utilizarem a denominação “civilização do couro” (QUEIROZ, 1986) para a região. Material
encontrado em abundância, não é à toa que diversos instrumentos e utensílios fossem – e alguns
ainda o são –, confeccionados a partir do couro bovino ou de outro animal; a começar pelo
vestuário do vaqueiro que, segundo Queiroz (1986, p. 19), “era um ‘encourado’, revestido de
um gibão de couro de bode ou de vaqueta87, protegido por duas perneiras, resguardando mãos

86
Conjunto de fauna e flora de uma região, mais ou menos homogêneo, e sob condições climáticas semelhantes
(BORBA, 2004; p. 182).
87
Couro de vitela (bezerra) curtido e cromado, utilizado na confecção de bolsas, calçados etc.
154

e pés com luvas e calçados de couro de veado”. Também não se pode esquecer que o cavalo,
companheiro da vaqueirama nas andanças pelos sertões, merecia, em razão do serviço prestado,
a devida proteção feita de couro.
No povoamento do Sertão, a vida não foi fácil para os primeiros moradores, escravos e
prepostos, que desbravavam as sesmarias. Havia bastante carne e leite para consumo, mas
rareavam outros itens da dieta, como a farinha, pois, inicialmente, a terra foi julgada imprópria
à plantação da mandioca, não por carência do solo, mas pela ausência de chuvas durante a maior
parte do ano (ABREU, 1998).
O trabalhador ligado aos donos das terras no interior nordestino era (e continua sendo)
o vaqueiro, fiel ajudante que tinha como função principal cuidar do gado solto nas imensidões
dos pastos das fazendas que, muitas vezes, não conhecem limites de cerca.
Segundo Abreu (1998, p. 135), uma vez adquirida a terra para o estabelecimento de uma
fazenda, havia toda uma gama de tarefas a serem desempenhadas:

[...] o trabalho primeiro era acostumar o gado ao novo pasto, o que exigia algum tempo
e bastante gente; depois ficava tudo entregue ao vaqueiro. A este cabia amansar e
ferrar os bezerros, curá-los das bicheiras, queimar os campos alternadamente na
estação apropriada, extinguir onças, cobras e morcegos, conhecer as malhadas 88
escolhidas pelo gado para ruminar gregariamente, abrir cacimbas e bebedouros.

Não obstante a atividade árdua com o gado, muitas vezes o trabalho dos vaqueiros, de
diferentes currais, permitia encontros que serviam a confraternizações entre os moradores,
como destaca Darcy Ribeiro (2006 [1995], p. 311):

[...] a necessidade de recuperar e apartar o gado alçado no campo ensejava formas de


cooperação como as vaquejadas, que se tornaram prélios de habilidades entre os
vaqueiros, acabando, às vezes, por transformar-se em festas regionais. O culto dos
santos padroeiros e as festividades do calendário religioso – centralizado nas capelas
com os respectivos cemitérios, dispersos pelo sertão, cada qual com seu círculo de
devotos representados por todos os moradores das terras circundantes –
proporcionavam ocasiões regulares de convívio entre as famílias dos vaqueiros de que
resultavam festas, bailes e casamentos.

O crescimento populacional no Sertão nordestino, durante o século XIX, trouxe


transformações que levariam a crises devido à fragmentação das propriedades e à redução do
pasto para a instalação de roças de subsistência para alimentar a população campesina. Na Zona
da Mata, o Nordeste enfrentou também escassez na produção açucareira, com o evento da
abolição da escravatura em 1888, já que a produção regional da cana-de-açúcar fundava-se

88
Local à sombra de grandes árvores, em que o gado se protege do calor intenso.
155

fortemente no sistema escravagista. Para Freyre (2004 [1937], p. 177), a extinção do regime
escravocrata no Nordeste brasileiro representou, como em nenhuma outra região, forte
degradação das “condições de vida do trabalhador rural e do operário”. Sob a servidão do senhor
de engenho, o escravo negro e o cabra (mestiço) gozavam de um mínimo de assistência
patriarcal, que desapareceu quase por completo com o advento das industrializações das
propriedades rurais, transformadas em usinas. Inversamente, o progresso da indústria têxtil
paulista altera a configuração de concorrência do mercado interno, atingindo a produção das
pequenas fábricas nordestinas. Assim, com o passar dos anos, as discrepâncias crescentes no
desenvolvimento econômico do Nordeste em relação a outras regiões, “a submissão política em
relação ao resto do país, do seu problema de adoção de tecnologia mais avançada e de assegurar
mão de obra suficiente para suas atividades” (ALBUQUERQUE, 2011, p. 52) ocasionaram
diversas ondas de migrações de nordestinos que deixaram sua terra em busca de uma vida
melhor em estados da região Sudeste, especialmente São Paulo e Rio de Janeiro.
Segundo Sarmento (1984), foi o Rio, então Distrito Federal, que despontou como centro
de desenvolvimento, atraindo correntes migratórias devido ao fato de ser a capital do país,
período que durou de 1763 a 1960, aliado ao desenvolvimento de funções industriais e
comerciais. Entretanto, de acordo com o autor, nas décadas seguintes (1970 e 1980), a situação
muda de configuração e São Paulo passa a liderar como polo recebedor de migrantes em virtude
de maciço investimento de capital estrangeiro e do crescimento no setor manufatureiro.
Em contrapartida, o Nordeste pode ser considerado não apenas pela sua configuração
de área geográfica inscrita na natureza. Em sua obra “A Invenção do Nordeste e Outras Artes”,
o pesquisador Durval Muniz de Albuquerque Jr. advoga que uma investigação sobre o espaço
nordestino deve também ser talhada como um campo de estudos e produção cultural em que se
entrelaçam o geográfico, o linguístico e o histórico (ALBUQUERQUE JR., 2011). Como diz o
autor, a região não existe a priori, mas é tomada “como invenção, pela repetição regular de
determinados enunciados, que são tidos como definidores do caráter da região e de seu povo,
que falam de sua verdade mais interior” (ALBUQUERQUE JR., op.cit.). Para o pesquisador, o
Nordeste foi forjado em um tripé de práticas que moldaram a região pelo combate à estiagem,
ao messianismo e ao cangaço, e, finalmente, pelos conluios políticos para manutenção de
privilégios de uma classe política contra um projeto de nacionalização das relações de poder
que ameaçava suas bases oligárquicas.
Com uma nova configuração geográfica e discursiva, nasce também uma busca por uma
identidade regional atrelada às tradições, a antigas estruturas de um passado rural, que
caracteriza o Nordeste como espaço de lirismo e de saudade.
156

O contexto geosociocultural do Nordeste, quase sempre castigado pela estiagem, uma


região pouco industrializada e economicamente mais frágil, favorece a imagem que dele se
constrói como sendo um espaço inferior, lugar de penúria e miserabilidade, cujos habitantes se
passam por pessoas mal-informadas, alheias aos condicionamentos históricos que suscitam as
adversidades que afligem sua vida. Lucena (2006, p. 3.) pondera que

[...] este contexto sócio-histórico constrói uma memória coletiva que é repassada de
geração a geração”. São valores, mitos, crenças os quais se arquivam no saber de uma
comunidade e se condensam por práticas sociais ressonantes em vozes sociais capazes
de identificarem sujeitos ideologicamente marcados por este processo histórico.

Com base nesse cenário, porém, entendemos que as escolhas de itens lexicais
característicos do linguajar nordestino foram usadas conscientemente por Luiz Gonzaga como
forma de divulgação de uma identidade nordestina que valoriza uma variante linguística
estigmatizada, engendrada no ambiente sociocultural rural do Nordeste.

4.2 O ESTADO DE NASCIMENTO: PERNAMBUCO

O nome Pernambuco deriva de Paraná-Puca, expressão originária da língua do tupi que


significa “onde o mar se arrebenta”, devido ao fato de a maior parte do seu litoral ser protegida
por paredões de recifes de coral (SÁ, 2013).
O estado onde Luiz Gonzaga nasceu encontra suas origens nas divisões de terra
empreendidas, comumente, pelos reis de Portugal para povoamento de novas terras
conquistadas: o sistema de capitanias hereditárias. Essas capitanias poderiam pertencer à Coroa
ou serem doadas a particulares. Coube a Duarte da Costa o espaço de terra que corresponde ao
atual território pernambucano. Segundo Linhares (1990), embora sem muitos recursos, Duarte
da Costa conseguiu, graças a muito esforço e competência, erguer um dos núcleos mais
importantes de colonização, a Nova Lusitânia, baseado em prática de colonização agrícola pela
cana-de-açúcar no litoral. Após 1535, Pernambuco já era a capitania mais próspera do Brasil.
Para Freyre (2004 [1937]), o primeiro local a consolidar a cultura da cana no estado
pernambucano foi a várzea do rio Capibaribe, lugar onde teria surgido a primeira aristocracia
brasileira de senhores de engenho, com traços próprios de sedentarismo, endogamia 89, tipo
físico e modo de falar.

89
Entre os colonos, era comum os primos casarem com primos e tios casarem com sobrinhas.
157

Como podemos observar nos mapas apresentados no item anterior (3.1), desde a divisão
geográfica de 1940, o Estado de Pernambuco sempre pertenceu ao Nordeste. Atualmente, as
terras pernambucanas possuem uma população estimada em 9 milhões, 345 mil e 173 habitantes,
dentro de uma área de 98.076,109 km2 (IBGE, 2015) 90. Pernambuco limita-se, ao Norte, com
o Ceará e a Paraíba; ao Sul, com Alagoas e Bahia; a Oeste, com o Piauí; e a Leste, com o Oceano
Atlântico.
Segundo Sá (2013), o relevo pernambucano apresenta acidentes geográficos
diversificados: montanhas, planícies, planaltos e depressões compõem toda a área do Estado.
Merece destaque, na área de fronteira com os estados do Piauí e Ceará, a Chapada91 do Araripe,
uma imensa muralha em forma tabular. O nome Araripe é de origem Tupi e significa “Lugar
das Araras”. “O Araripe mede cerca de 180 quilômetros de comprimento no seu maior eixo
leste/oeste. No topo da Chapada, a sua área é de 7.500 quilômetros quadrados e sua altitude
varia de 1.000 a 700 metros” (LIMAVERDE, 2007, p. 2).
No que se refere à avifauna inventariada em Pernambucano, Farias e Pereira (2009)
asseguram que a região da Mata Atlântica é o bioma que possui maior número,
aproximadamente 450 espécies. Na área da caatinga pernambucana, esse número declina para
270 espécies. Farias, Brito e Pacheco (2000) fizeram um levantamento de aves encontradas no
território pernambucano, com seus nomes populares. Os autores, citando Sick (1997),
argumentam que as motivações para as denominações das aves incluem biótipo, hábitos,
manifestações sonoras, cores e lendas. Dentre esses nomes, destacamos alguns que aparecem
em canções de Luiz Gonzaga: asa branca (columba picazuro), galo de campina (paroaria
dominicana), ribaçã (zenaida auriculata), assum preto ou graúna (gnorimopsar chopi), sabiá
(turdus rufiventris), rolinha fogo-pagô (scardafella squammata)92, juriti (leptotila verreauxi),
vem-vem (euphonia chlorotica), João corta-pau (caprimulgus rufus), acauã (herpetotheres
cachinnans), coruja (tyto alba), peitica (empidonomus varius), bacurau (hydropsalis brasiliana)
e mãe da lua (nyctibius griseus)93.
A capital de Pernambuco é Recife, cuja área metropolitana é a mais rica do Norte-
Nordeste. O Estado possui 185 municípios e o seu clima é tropical, com mais de 87,60% de seu
espaço no âmbito do Semiárido, só ficando atrás do Rio Grande do Norte, consoante os dados
da figura a seguir.

90
Informação disponível em:<http://www.ibge.gov.br/estadosat/perfil.php?lang=&sigla=pe>.
91
Área de terra elevada, de dimensões consideráveis, com topo relativamente plano (HOUAISS; VILAR, 2009).
92
Tem esse nome porque, em seu canto, parece emitir a frase “fogo apagou”.
93
As cinco últimas espécies são consideradas aves de agouro pela crença popular.
158

Figura 39 – Espaço geográfico de Pernambuco dentro do Semiárido


Fonte: MEDEIROS, Salomão de Sousa et al, 2012.

Nesse contexto, o Sertão de Pernambuco representa 63,66% de toda a área estadual,


com 1.575.033 de habitantes, segundo o Censo do IBGE de 2010.
O Estado de Pernambuco possui cinco mesorregiões. São Francisco Pernambucano,
Sertão Pernambucano, Agreste Pernambucano, Zona da Mata Pernambucana e Metropolitana
do Recife. A distribuição dessas regiões no mapa de Pernambuco pode ser vista na figura 39 a
seguir.

Figura 40 – Mesorregiões de Pernambuco


Fonte: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/a/ab/
PE-mesorregi%C3%B5es.png>

A mesorregião do Sertão Pernambucano é formada por 50 municípios distribuídos em


quatro microrregiões: Microrregião de Salgueiro, Microrregião do Pajeú, Microrregião do
Sertão do Moxotó e Microrregião de Araripina. Esta última vem ilustrada na figura 40 seguinte.
159

Figura 41 – Microrregião de Araripina


Fonte: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Brazil_Pernambuco_location_map_
Micro_Araripina.svg>

A referida microrregião de Araripina faz divisa com os Estados do Ceará e Piauí. Seu
território corresponde a 18,48% do Sertão de Pernambuco; o município de Exu está exatamente
inserido nessa microrregião. No próximo item, teceremos comentários sobre a localização e a
história do município onde Luiz Gonzaga nasceu.

4.3 A CIDADE NATAL: EXU

O Município de Exu está localizado no sopé da Chapada do Araripe a uma distância de


630 quilômetros da capital Recife. Exu faz parte do território da Bacia do Rio Brígida, com
nascente na Chapada do Araripe e Foz no Rio São Francisco. A Bacia possui uma área de
14.366 Km2 e uma extensão de 160 Km, o que ameniza a situação hídrica do município nos
períodos de secas prolongadas. Na caatinga da região, conforme explica Luiz Gonzaga a
Dreyfus (2012 [1996], p. 40), a vegetação predominante é “um emaranhado de aroeira, caroá 94,
de macambira e xique-xique difícil de cortar”.
Exu faz fronteira com os seguintes municípios pernambucanos: ao sul, com Granito; ao
leste, com Moreilândia; e ao oeste, com Bodocó. Ao norte, Exu tem como cidade limítrofe o
Crato, que pertence ao Estado do Ceará e fica a 70 quilômetros de sua sede municipal; por isso
existe, historicamente, um intenso intercâmbio comercial e cultural entre as duas cidades. No
mapa que segue, expõe-se a localização de Exu no espaço geográfico pernambucano.

94
Planta cujas fibras servem para a manufatura de cordas e barbantes.
160

Figura 42 – Localização de Exu–PE


Fonte: adaptado de <https://upload.wikimedia.org/
wikipedia/commons/d/d8/Mapa_de_Exu_%282%29.png>

A origem do município está ligada à instalação da Missão95 do Santo Cristo, por frades
capuchinhos96 italianos, em 1705. Localizada no sopé da Serra do Araripe junto à fonte da
Gameleira, a Missão dos frades pretendia aldear os índios remanescentes da tribo Ançu,
pertencentes à nação Cariri, que haviam adentrado a região, fugindo das investidas da Casa da
Torre dos Garcia d’Ávila da Bahia97. Esse local estabelecido pelos frades foi denominado Brejo
do Exu (ALENCAR, 2011). Existem duas versões para a origem do topônimo Exu. A primeira
vem da corruptela do nome da tribo indígena, Ançu; a segunda é a de que os índios chamavam
o lugar de “Inxu”, por causa de um tipo de abelha que ao ferroar suas vítimas causava dor
intensa.
Os primeiros povoadores de Exu foram Leonel de Alencar Rego e seus irmãos, João
Francisco, Alexandre e Marta, portugueses oriundos da região do Minho, no norte de Portugal.
Leonel é considerado o patriarca dos Alencares em terras brasileiras. A região de Exu, ao sopé
da Serra do Araripe, atraiu esses primeiros colonos por ser descrita, por vaqueiros que passavam
pela região, como um “lugar rico em vegetação, muita água, clima bom, animais selvagens e
paisagens de perder a vista” (ALENCAR, 2011, p. 24).
A freguesia de Exu foi criada, com a denominação de Senhor Bom Jesus dos Aflitos de
Exu, em 1734. Mais tarde, o povoado foi elevado à categoria de vila em 1846. Devido à sua
localização geográfica, a relação com a capital era de quase total isolamento. Os intercâmbios
econômicos ocorriam pelo lado cearense, em especial com a cidade do Crato. Não obstante a
distância e a falta de comunicação eficaz, desenvolveu-se no vilarejo uma comunidade rural

95
Instituição de missionários para pregação da fé cristã.
96
Religioso pertencente a uma divisão da ordem franciscana, na reforma de Mateus Basci no séc. XVI.
97
Segundo Linhares (1990, p. 66), os “fidalgos da Casa da Torre, Garcia d’Ávila e seus descendentes, com o
objetivo de ocupar terras para pastos”, expulsavam os indígenas, particularmente gueréns e cariris.
161

forte, em que as pessoas assumiam funções do Estado. Havia o predomínio de culturas de


sobrevivência e largo uso de instrumentos e utensílios manufaturados com o couro bovino,
práticas típicas da civilização do couro, conforme já abordamos em 4.1.
Em 1889, ano da proclamação da República, os exuenses nutriam grande vontade de
construção de uma nova sede administrativa. Saindo da Gameleira, foram em busca de novo
espaço, um local mais plano que comportasse a criação de gado solto na caatinga da região. A
cidade foi constituída como município em 08 de julho de 1893, mas sua autonomia
administrativa só ocorreria, de forma definitiva, em 10 de junho de 1907, com a Lei Estadual
no 844. Nesse ano, a sede da municipalidade passou a designar-se Novo Exu para diferenciá-lo
do povoado de Exu Velho nascido na fazenda Gameleira. Todavia, em 1938, o Decreto-Lei
Estadual no 235 altera a denominação para Exu, simplesmente.
A República deu impulso ao progresso do município que, ao entrar na primeira década
no século XX, iria conhecer um de seus filhos mais célebres.

4.4 VIDA NO SERTÃO: REALIDADE SOCIOCULTURAL

Luiz Gonzaga nasceu ao pé da Serra do Araripe, em 13 de dezembro de 1912, na fazenda


Caiçara, distante 13 quilômetros do centro de Exu. Era filho de Januário dos Santos e Ana
Batista de Jesus, mais conhecida por Santana. Segundo Sá (2012 [1966]), no dia do nascimento
de Luiz, uma zelação riscou o céu, indicando um futuro alvissareiro para o menino que acabara
de nascer.
Rebento de família pertencente à classe social baixa exuense, o segundo de um grupo
de nove filhos, conforme ele mesmo relatou: “Fui o segundo dos nove, o primeiro sendo Joca.
Depois, em anos sucessivos ou espaçados, foram chegando Geni (Efigênia), Severino, José,
Raimunda (Muniz), Francisca, Socorro e Aloísio” (SÁ, 2012 [1966], p. 22).
Batizado Luiz Gonzaga do Nascimento, na matriz de Exu, em 5 de janeiro de 1913, o
Rei do Baião ganhou esse nome por sugestão do então padre, José Fernandes de Medeiros.
Porque nascera no dia de Santa Luzia, deveria chamar-se Luiz, já que era homem; Gonzaga
porque era o complemento do nome do santo Luiz Gonzaga; e, por fim, Nascimento em virtude
de dezembro ser o mês de nascimento do menino Jesus. Os padrinhos foram os donos da fazenda
Caiçara, João Moreira de Alencar e sua esposa, dona Florinda (dona Neném). Interessante
registrar que Gonzaga foi o único com nome diferente dos demais irmãos, como atesta Dreyfus
(2012 [1996], p. 31): “E por que não Luiz Gonzaga Januário dos Santos, como se chamaram os
oito irmãos e irmãs? Isso, ninguém sabe!”
162

A infância do menino Gonzaga não foi fácil. Ele e os irmãos começavam a trabalhar
logo cedo para ajudar a família, como afirma o próprio Gonzaga em entrevista: “Era uma vida
de menino pobre, sem escola, sem gordura, mãe puxando a enxada. Se o inverno era bonzinho,
a gente até melhorava a panela” (DREYFUS, 2012 [1996]).
Santana, além de cuidar da roça, vendia corda feita de caroá, na feira, em Exu.
Extremamente religiosa, a mãe de Gonzaga cantava hinos e puxava rezas em novenas e
encontros religiosos do mês de maio, dedicado a Maria. Januário era sanfoneiro e também
ajudava Santana no trabalho do roçado. Nos finais de semana, tocava nos forrós que, até então,
se chamavam genericamente de sambas. Em casa, ele tinha um ambiente reservado para
consertar ou afinar o instrumento, que recebe diversos nomes no Nordeste: fole, concertina, pé-
de-bode (como é conhecida a sanfona de oito baixos) e harmônica. O menino Luiz Gonzaga
interessou-se desde cedo pela oficina do pai, fazendo visitas ao quarto de consertos e
manuseando as sanfonas que esperavam ser consertadas. Nessas visitas, Gonzaga ia aprendendo
a tocar os instrumentos e apurava o ouvido para a música. O fato é que Luiz Gonzaga apresentou
logo cedo certa musicalidade e, de auxiliar do pai nas afinações de sanfona, passou a sanfoneiro-
substituto, assumindo o lugar de Januário quando este se cansava e pedia para dar uns cochilos.
Como visto em 4.1, nem só de trabalho vivia o vaqueiro. O mesmo se pode dizer do
sertanejo em geral. Os reisados98, os bumba meu boi99, os pastoris100, as festas da Renovação,
os festejos de Santo Antônio, São João e São Pedro eram folguedos e comemorações que
sempre requisitavam a presença da sanfona, da banda de pífaros com zabumba para embalar as
danças (DREYFUS, 2012 [1996]). A presença de Gonzaga acompanhado do pai tornou o garoto
conhecido como novo tocador de fole da região.
Em virtude da cheia do Rio Brígida em 1924, Januário e Santana tiveram de mudar da
fazenda Caiçara onde moravam para o Araripe. O Araripe era originalmente uma fazenda que
se tornou povoado 101 . Seus habitantes eram os patrões da família Alencar e os moradores,
trabalhadores da terra.

98
Para Cascudo (2012[1979]), denominação erudita para os grupos que cantam e dançam na véspera e dia de Reis
(6 de janeiro).
99
Bailado popular cômico-dramático, organizado em cortejo, com personagens humanos, animais e seres
fantásticos, cujas peripécias giram em torno da morte e ressurreição do boi (FERREIRA, 2010).
100
Renato Almeida (1942), citado por Cascudo (2012[1979], p. 537), ensina que, em “Pernambuco, e no Nordeste
em geral, os pastoris são cordões, feitos normalmente aos sábados, do Natal até as vésperas do carnaval, indo as
pastoras em duas filas paralelas: uma chamada cordão azul e outra cordão encarnado”. Hoje, são poucos os pastoris
em atividade.
101
Mais informações sobre o Araripe no item 3.4: a visita a Exu–PE: no rastro de Gonzagão.
163

Entre uma animação e outra, Luiz Gonzaga passou a trabalhar com o coronel Manoel
Aires de Alencar102, conhecido como Sinhô Aires, rábula e líder político em Exu. Manoel Aires
viajava bastante, pois era muito requisitado para defender presos nas cidades próximas a Exu
(Ouricuri, Bodocó). Em uma dessas viagens, Gonzaga, que acompanhava o coronel cuidando
dos animais, viu uma sanfona amarela da marca Veado para vender, por 120 mil réis103, em
Ouricuri. Logo, tratou de economizar o que ganhava para comprar o instrumento. Como o que
ganhava era pouco, pediu um empréstimo a Sinhô Aires para completar o dinheiro que faltava
e prometeu que pagaria o restante descontando nos dias trabalhados. Dito e feito. Luiz Gonzaga
já tinha 60 mil réis em posse de Sinhô Aires, que completou o restante do valor da sanfona.
Esse foi o primeiro fole que ele comprou.
O Rei do Baião não frequentou formalmente a escola. O contato com a alfabetização
deu-se por intermédio das filhas do coronel Manoel Aires, já que Gonzaga frequentava a casa
do rábula. Foi lá que aprendeu as primeiras letras e também a falar “mais corretamente” (SÁ,
2012 [1966], p. 69). Depois obteve mais alguma instrução com o sargento de polícia, Aprígio,
que comandava um grupo de escoteiros em Exu. Porém, sua vida de estudante durou pouco.
Em 1926, o sargento Aprígio 104 morria afogado em Exu, encerrando assim a experiência
estudantil do garoto Luiz Gonzaga, aos 14 anos.
Nas andanças com o Coronel Manoel Aires de Alencar, Gonzaga percorreu o sertão.
Segundo seu depoimento, as viagens também lhe serviram de lição, visto que começou a
“empregar, adequadamente ou não, alguns dos termos bonitos que ouvira, até frase inteiras,
daquelas retumbantes, de encher auditório, de prender a atenção” (SÁ, op. cit.). E ainda passou
“a falar difícil, como julgava que deveria ser, pois tinha viajado, visto outras ruas, outras gentes,
ouvido Sinhô Aires e outros doutores no Júri”. Isso nos induz à crença de que Gonzaga passou
a perceber, embora muito jovem e sem instrução formal, que as pessoas falavam de maneira
diferente e que esse modo de falar era utilizado por figuras que gozavam de maior prestígio
social, ainda que morassem em uma mesma região.
Com a sanfona nova no peito, Gonzaga recebia convite para tocar em muitos sambas.
Em 1926, tornou-se tocador independente; ganhou algum dinheiro e começou a caprichar nas
roupas. Tornou-se, inevitavelmente, mais conhecido e, paquerador que era, não passou
despercebido pelas meninas do lugar.

102
Foi prefeito de Exu por quatro vezes e Deputado Estadual de 1919 a 1921. Era considerado “de bom trato,
paciente, firme e generoso até com os adversários” (ALENCAR, 2011, p. 275).
103
O “real” era a antiga unidade do sistema monetário do Brasil que valeu até 1942. O plural era “réis”.
104
Dreyfus (2012 [1996], p. 60) refere-se ao tenente Aprígio.
164

Nazarena Saraiva Milfont, Nazinha, foi o primeiro grande amor de Gonzaga. Os dois
começaram a namorar após se conhecerem no casamento da irmã dela. Nazinha e Gonzaga
costumavam encontrar-se às escondidas, sob um pé de juazeiro; esses encontros, anos mais
tarde, iriam inspirar o tema da canção homônima (OLIVEIRA, 1991, p. 132). Todavia, o
romance entre os dois não foi bem recebido pelo padrasto da moça branca. Seu Raimundo
Saraiva de Olindo105 não queria que ela namorasse com Gonzaga, porque o filho de Januário
era pobre e de cor morena. Além disso, considerava-o um sanfoneiro de meia-tigela, um sem-
futuro. Gonzaga soube dos comentários preconceituosos e foi tomar satisfação com o padrasto
de Nazinha. Não sem antes se valer de umas lapadas de cana para dar coragem. Ele sempre
contava essa história (causo) em diversas ocasiões106. No dia da feira em Exu, armado com uma
quicé107, Luiz Gonzaga foi ao encontro de seu rival. O senhor Raimundo evita-o e os dois não
chegam às vias de fato.
Após o acontecido, o padrasto do primeiro grande amor do futuro Rei do Baião
aconselha Santana a sair imediatamente da feira com o filho para não haver uma desgraça. O
próprio Gonzaga dizia que, por causa desse rompante de valentia, tinha levado uma grande
surra de sua mãe (vimos em 3.5 que há controvérsias sobre essa versão). Envergonhado,
Gonzaga resolve sair de casa e arquiteta um plano. Fala para a mãe que foi convidado para tocar
na feira do Crato, no Ceará. Do Crato, após vender a sanfona, viaja de trem cargueiro até
Fortaleza. Lá, em meados de julho, mentindo sobre sua idade, apresenta-se ao 23º Batalhão de
Caçadores do Exército que estava recrutando jovens voluntários em pleno período convulsivo
da “Revolução de 30”108. Sentou praça, tornando-se o soldado 122. Por tocar muito bem corneta,
ficou conhecido pelo apelido de “bico de aço”. Começariam, então, as primeiras grandes
jornadas de Luiz Gonzaga. Antes restrito às redondezas de Exu, Gonzaga se lançaria agora em
jornadas pelo Brasil afora.

105
Ferreira (1986, p. 19) apresenta o nome Raimundo Delfino, e Sinval Sá (2012 [1966], p. 85), Raimundo
Delgado.
106
Em Sinval Sá (2012[1966], p. 80), é apresentada uma outra versão do diálogo, porém com o mesmo conteúdo.
107
Faca pequena (CABRAL, 1982, p. 640). Do Tupi, quigcê (CUNHA, 1998, p. 249).
108
Movimento que pôs fim à República Velha, que iniciou em 1889. Nesta, o então presidente da República,
Washington Luiz, paulista, lança outro paulista para sucedê-lo, rompendo o chamado pacto da política do café
com leite, em que políticos de Minas Gerais e São Paulo se revezavam no exercício da Presidência da República.
O seu ponto culminante foi a morte de João Pessoa, paraibano e candidato à vice-presidência na chapa
oposicionista da Aliança Liberal, encabeçada por Getúlio Vargas e composta pelas oligarquias dos estados de
Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul.
165

4.5 AS ANDANÇAS PELO PAÍS

Sendo requisitados por ordens superiores, o soldado 122 e seu grupamento cumpriam
as missões que lhes eram confiadas, de forma disciplinada. Inicialmente, começaram
combatendo os revoltosos de 1930. Logo em seguida, com a deposição do presidente
Washington Luís, em 24 de outubro do mesmo ano, o Batalhão muda de posição e passa a
atender, então, à consolidação da “Revolução” vitoriosa que se alastrou pelo Brasil.
Em suas viagens, Gonzaga esteve em Sousa, na Paraíba, e na zona do Cariri cearense,
divisa com Pernambuco, buscando desarmar os coiteiros109, simpatizantes do cangaço, cujo
maior líder era Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Também esteve em Teresina, no Piauí,
combatendo a resistência ao governo recém-instalado. Do Piauí, foi, em breve passagem, para
o Rio de Janeiro. Daí, é enviado a Belo Horizonte (Minas Gerais). Em 1932, passa a integrar o
12º Regimento de Infantaria (RI). Depois de alguns meses na capital mineira, pede
“transferência para Juiz de Fora, para onde seguiu no mês de novembro” do mesmo ano
(DREYFUS, 2012 [1996], p. 64). Esteve também em Ouro Fino, Sul de Minas, onde pisou, pela
vez, em um palco. Em 1933, cumpre missão em Campo Grande, Mato Grosso, para proteger a
fronteira brasileira por ocasião de uma disputa territorial envolvendo Bolívia e Paraguai, onde
haveria supostos campos de petróleo. Essa confrontação ficou conhecida como Guerra do
Chaco.
Como se percebe, Gonzaga vivenciava momentos de bastante efervescência na história do
Brasil. O governo provisório de Vargas, na chamada “Revolução de 30”, enfrentou resistência
por parte do Estado de São Paulo, que deflagrou a “Revolução Constitucionalista” de 1932,
“choque armado entre o novo poder central e a oligarquia paulista” (LINHARES, 1990, p. 324),
cuja palavra de ordem era a volta à legalidade institucional. Eleito indiretamente em 1934, o
governo Vargas enfrenta a chamada “Intentona Comunista”, capitaneada por uma ampla frente
oposicionista, conhecida como Aliança Nacional Libertadora (ANL) 110, em 1935. A referida
intentona iniciou-se em Natal 111 , capital do Rio Grande do Norte. Como reação, em 1937,
Getúlio dá um golpe e institui o Estado Novo, governo que adota uma Constituição com
inspiração notadamente fascista. O regime ditatorial durou até 1945. Dessa forma, Getúlio
Vargas ficou no poder por 15 anos ininterruptos. E a ele voltaria, em 1950, pelo voto popular.

109
Pessoa que dá asilo a bandidos ou os protege.
110
Na verdade, esse movimento incluía os mais diversos setores de oposição ao governo. Dentre eles, os tenentes
nacional-libertadores que queriam defender o País do imperialismo, mas jamais pensaram em um regime
comunista no Brasil (VIANNA, 1995). O PCB (Partido Comunista Brasileiro) deu apoio, mas não aderiu à ANL.
111
Para Vianna (1995, p. 58), a insurreição em Natal, “na realidade, não passou de uma quartelada, que ocorreu
pela audácia dos rebeldes e pelo medo dos governantes, que fugiram sem esboçar resistência”.
166

Revelam-se, por tais registros históricos, os principais motivos das andanças do soldado
Luiz Gonzaga pelo Brasil afora. Por onde andou, com certeza, teve contato com diferentes
falares, percebeu variações semântico-léxico-culturais, ouviu os mais diversos sotaques.
Naquela época, o Brasil já passara da primeira fase da história dos estudos dialetais que
compreendiam os anos entre 1826 e 1920. Estávamos na segunda fase, que começou com a
publicação de “O Dialeto Caipira”, de Amadeu Amaral, em 1922, que teve como característica
principal a profícua publicação na área de estudos gramaticais, apesar de haver uma
continuidade nos estudos lexicográficos caracterizadores da primeira fase, conforme já vimos.
“O Linguajar Carioca”, de Antenor Nascentes, publicado em 1922, teve uma segunda edição
em 1953 e “A Língua do Nordeste”, de Mario Marroquim, foi originalmente lançada em 1934.
Nessa obra, o autor tratou das características do falar de Pernambuco e de Alagoas nos níveis
fonético, lexical e morfossintático.
Ao dar baixa na vida militar, em 1939, Gonzaga ruma para o Rio de Janeiro com uma
ordem de permanência para ficar em um quartel, de onde deveria embarcar em um navio até
Recife e depois seguir para Exu. Durante a sua permanência na capital, é incentivado por um
soldado carioca a tentar a vida no Rio tocando sanfona, à noite, no Mangue 112, lugar de muitos
bares e prostíbulos frequentados por boêmios, soldados e marinheiros do mundo inteiro (SÁ,
2012 [1966]). No Mangue, conhece o guitarrista baiano Xavier Pinheiro de quem se torna
grande amigo. Xavier morava no Morro de São Carlos, onde Gonzaga foi se instalar também.
O morro, que fica localizado na periferia da cidade do Rio de Janeiro, era um reduto de
portugueses e tinha, à época, uma atmosfera tranquila e familiar (DREYFUS, 2012 [1996]). O
São Carlos identificava-se como uma zona rurbana, conforme a caracterização de Bortoni-
Ricardo (2004), vista anteriormente (cf. 1.3.6).
Gonzaga e Xavier tocavam tangos, choros, foxtrotes 113 e valsas para animar os
frequentadores. Contudo, é no Mangue que Gonzaga recebe também o incentivo para trocar de
gênero. Um grupo de seis universitários cearenses (que moravam na Lapa), entre eles Armando
Falcão 114 , após conhecer e auxiliar Luiz Gonzaga no Mangue, fizeram uma exigência: só
continuariam ajudando o sanfoneiro se ele tocasse músicas do Nordeste, do sopé da Serra do
Araripe, que lembrassem de suas origens e da saudade que sentiam. Seguindo o conselho, Luiz

112
A antiga região do Mangue corresponde ao atual bairro de Cidade Nova, na capital carioca.
113
Dança de salão originária dos Estados Unidos no início do século XX, em compasso quaternário, executada por
pares, e que combina, de várias formas, passos lentos e passos rápidos (HOUAISS; VILAR, 2009).
114
Ex-ministro da Justiça nos governos de Juscelino Kubitschek (1956-1961) e Ernesto Geisel (1974-1977).
167

criou o “Pé de Serra” e o xamego 115 “Vira-e-Mexe 116 ” (OLIVEIRA, 1991), que estavam
adormecidas em sua memória.
Em depoimento a Dreyfus (2012 [1996], p. 82-83) Gonzaga descreve a recepção do
público ao ouvir “Vira e Mexe”, pela primeira vez no Mangue, logo após ter tocado “Pé de
Serra”:

[...] Foi uma loucura. Respirei fundo, agradeci e joguei “Vira e mexe”...Tiiiiiii-
tiririririririritiririrum, tcan, tanran, tanran tanran tanran...Ah! Foi mais loucura ainda.
Parecia que o bar ia pegar fogo. O bar tinha lotado, gente na porta, na rua, tentando
ver o que estava acontecendo no bar”.

Com o chamego “Vira e Mexe”, Luiz Gonzaga apresenta-se no programa de calouros


de Ary Barroso, no qual sempre recebia notas baixas. Obtém, desta vez, a nota máxima (5) e
recebe o prêmio de 150 mil réis. Logo, o sanfoneiro passou a manifestar a força poética que
trazia desde a infância e adolescência, vividas nos carrascais de Exu. Percebeu, dessa forma,
que o caminho que o levaria ao sucesso definitivo estava em seguir o rastro da lição daqueles
universitários cearenses que, em última análise, remonta ao ensinamento atribuído a Leon
Tolstoi: se queres ser universal, canta a tua própria aldeia. Agora só precisava de alguém que o
ajudasse nessa empreitada.

4.6 O NASCIMENTO DO BAIÃO E OS GRANDES PARCEIROS

Para Tinhorão (2006), a expressão “música popular” tem sido definida, ao longo do
tempo, por diversas qualificações. Tradicionalmente, ela está ligada à ideia de música produzida
pelas camadas sociais mais baixas da população. Com o surgimento do termo folklore, cunhado
por William John Thoms, no século XIX, a música popular ficou fortemente associada à
produção cultural oriunda da população pertencente ao mundo rural, sendo confundida com a
música folclórica, que não possui autor conhecido e é transmitida oralmente de geração a
geração. Entretanto, no século XX, uma nova definição conceitual passa a ser reclamada para
a expressão “música popular”, entre os estudiosos, devido ao novo cenário histórico-social da
vida nas cidades. Assim, o que se entendia até então por “música popular” passou também a ser
compreendido como uma forma de manifestação do povo, com feições próprias da vida urbana.

115
Na verdade, era um chorinho com sotaque bem sertanejo. O termo “chamego” foi sugerido pelo irmão de
Gonzaga, José Januário. Gonzaga gostou do nome “e ficou utilizando-o para rotular músicas de sua composição,
sem que o “xamego” tenha qualquer característica própria do ponto de vista rítmico” (DREYFUS, 2012 [1996], p.
89).
116
A primeira gravação é de 14 de março de 1941.
168

Segundo Tinhorão (2006, p. 167-1680), essa nova definição deveu-se à seguinte


constatação:

[...] desde o aparecimento das modernas cidades contemporâneas do capitalismo


comercial e da produção manufatureira, a partir do século XVI, passariam a existir na
verdade não uma, mas duas músicas típicas do povo, por força de um dualismo de
universos culturais: a da gente do mundo rural (presa historicamente a um modelo de
vida coletiva) e a do moderno mundo urbano contemporâneo do poder das cidades
(sujeito a regras do individualismo burguês).

Nesse contexto, o sucesso da música “Vira e Mexe” representou essa transição entre
mundos e trouxe diversas oportunidades a Gonzaga. A sua participação bem-sucedida no
programa de calouros deu visibilidade ao sanfoneiro. Foi convidado para fazer
acompanhamento em gravações, para participação em programas de rádio, e ele assinou
contrato com a Rádio Tamoio117 e, depois, com a famosa Rádio Nacional118. Foi nesta última
que ganhou o apelido de “Lua”. O sanfoneiro foi contratado também pela gravadora RCA.
Quando decidiu que deveria soltar a voz nas gravações, foi proibido pelo diretor da
empresa, o sr. Vittorio Lattari. Em depoimento a Sinval Sá (2012 [1966], p. 176), Gonzaga
conta como foi a conversa:

[...] – Nem me fale em cantar aqui, seu Luiz. A casa está cheia de cantores. Mas tem
lugar pra sanfoneiro. Estamos satisfeitos com você. [...]. Já ouvi você cantar Gonzaga.
Francamente!
– Aquilo irritou-me os brios.

Determinado e prometendo ir cantar na gravadora Odeon, Gonzaga consegue convencer


o diretor e recebe a permissão de gravar apenas uma música, como experiência. Em abril de
1945, é lançado o seu primeiro disco como cantor. Nessa oportunidade, grava a mazurca119
“Dança, dança Mariquinha” (parceria com Miguel Lima) e sua voz é bem aceita pelo público.
Mesmo assim, não deixa de ser vítima de gracejo do senhor Lattari: “É, tem gente pra tudo...”
(SÁ, 2012 [1966], p. 177).
Os gracejos do diretor motivaram Gonzaga: “[...] fui despertado pra outro sentimento:
o de exaltação do que era nosso. Senti impulsos de cantar também as coisas boas da minha terra,
do meu sertão. Tudo me vinha num roldão, num amontoado informe de lembranças boas [...]”

117
Emissora de rádio brasileira com sede na cidade do Rio de Janeiro. Foi fundada em 1944 pelos Diários
Associados.
118
Empresa criada em 1936, sendo estatizada, pelo Estado Novo de Getúlio Vargas, em 1940. Desde então, passou
a ser a rádio oficial do Governo brasileiro (FERRETI, 2012).
119
Dança popular polonesa.
169

(SÁ, 2012 [1966], p. 157). Assim, lembrando do conselho dos universitários cearenses e do
sucesso alcançado com “Vira e mexe”, Gonzaga não queria mais continuar gravando gêneros
“alienígenas”. Sabia que tinha de privilegiar, efetiva e definitivamente, os temas da música
popular rural do Nordeste e o sotaque de seu povo.
Os primeiros parceiros de Gonzaga, Miguel Lima e Lauro Maia, não se adequavam a
essa proposta; mesmo assim, este último sugeriu ao sanfoneiro procurar o seu cunhado cearense,
Humberto Teixeira.

4.6.1 Humberto Teixeira: o doutor do baião

Humberto Cavalcanti Teixeira nasceu em Iguatu, no Ceará, distante cerca de 380


quilômetros de Fortaleza, em 5 de janeiro de 1915. Sua família pertencia à burguesia rural
nordestina (FERRETI, 2012). Aos cinco anos, ganhou do pai um instrumento que, segundo ele,
era uma espécie de gaita com bocal, mas tinha um teclado de acordeom (AZEVEDO, 2006).
Aprendeu a tocar o instrumento e começou a fazer suas próprias músicas. Tinha interesse
mesmo em aprender piano, mas foi proibido pelo pai que considerava o instrumento “coisa de
mulher”. Em 1931, mudou-se para o Rio de Janeiro, porque pretendia estudar Medicina.
Acabou mudando de curso para fazer Direito, trocando assim o jaleco pelo paletó. Em 1934,
ainda artista desconhecido, participou de um concurso de músicas carnavalescas e teve a canção
“meu pedacinho” classificada (ALBIN, 2002).

Foto 16 – Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga


Fonte: reproduzido de <http://brasileiros.com.br/wp-content/uploads
/2015/01/HumbertoTeixeira-LuizGonzaga.jpg>
170

Humberto Teixeira formou-se em 1943. Além de advogado, era “compositor e


instrumentista (tocava flauta e bandolim) e conhecedor de ritmos sertanejos” (OLIVEIRA,
1991, p. 60).
Luiz Gonzaga conheceu o compositor cearense em agosto de 1945. Encontraram-se no
escritório do advogado, onde Gonzaga expôs suas ideias. Em entrevista ao pesquisador, Miguel
Ângelo de Azevedo (Nirez), Humberto Teixeira conta como foi o seu primeiro encontro com o
Rei do Baião, em agosto de 1945:

[...] um belo dia, estou no meu escritório de advogado lá no Rio, quando me procurou
o Luiz Gonzaga. Ficamos, naquela tarde, de quatro e meia até quase meia-noite, nesse
primeiro encontro. Naquele dia, nós chegamos a duas conclusões muito interessantes.
Uma delas é que a música ou o ritmo que iria servir de lastro para nossa campanha de
lançamento da música do Norte, a música nordestina no Sul, seria o baião. Nós
achamos que era o que tinha características mais fáceis, mais uniformes (AZEVEDO,
2006).

O ritmo baião é também conhecido pelos nomes de “rojão”120 ou “baiano”. Pereira da


Costa (1937) explica que “bahiano” referia-se a uma

[...] dança lasciva, rasgada, movimentada, ao som de canto próprio, com letras, e
acompanhamento a viola e pandeiro, e originaria dos africanos, transformação das
suas danças nacionaes como o maracatú e o batuque. Do bahiano, muito em vóga
ainda, principalmente nos divertimentos e folganças rustico-campestres, vem a musica
assim chamado pelo tom abahianado que a caracterisa (PEREIRA DA COSTA (1937,
p. 63, grifos do autor).

No Dicionário do Folclore Brasileiro, Cascudo (2012 [1979]) define o baião como “o


pequeno trecho musical executado pelas violas nos intervalos do canto no desafio”. O folclorista
pondera que o baião “conserva células rítmicas e melódicas visíveis dos cocos, a rítmica (de
percussão) com a unidade de compasso exclusivamente par”. Esse ritmo nordestino foi
transformado, então, em gênero de música popular urbana pela dupla Humberto Teixeira e Luiz
Gonzaga.
Humberto Teixeira ficou bastante interessado na proposta de Luiz Gonzaga para
decantar o Nordeste. Naquele primeiro encontro, escreveram, em poucos minutos, “No Meu Pé
de Serra”121, inspirado na história de Luiz Gonzaga, cujos versos iniciais entoam: “Lá no meu

120
Na canção Imbalança (Luiz Gonzaga e ZeDantas) há o verso: “Pra você aguentá meu rojão, é preciso saber
requebrá”. Nesse sentido, indica “ritmo intenso de vida, de atividade”.
121
“No Meu Pé de Serra” é uma música diferente do solo de sanfona “Pé de Serra”, que Luiz Gonzaga havia
lançado antes.
171

pé de serra, deixei ficar meu coração / Ai que saudades tenho, eu vou voltar pro meu sertão”.
No mesmo dia, começaram a trabalhar em “Asa Branca”.
Entusiasmado com o novo parceiro, Humberto Teixeira afirmou, na referida entrevista,
que, logo em seguida, eles idealizaram a canção “baião”:

[...] três dias depois do primeiro encontro com Luiz Gonzaga já fizemos, de pedra e
cal, o primeiro baião que se gravou em todo o mundo: “Eu vou mostrar pra vocês/
Como se dança o baião/ E quem quiser aprender/ É favor prestar atenção...” Eu me
sentia como se estivesse com bitola, aquela coisa toda pinicadazinha, cortada, sujeita
àquele ritmo quadrado. Logo depois descobrimos que podíamos deixar o ritmo solto
e extravasar nosso lirismo (AZEVEDO, 2006).

Com efeito, tendo o Nordeste como elemento central de inspiração, o baião representou
um trabalho de “recriação comercial de uma série de sons, ritmos e temas folclóricos desta área
do país” (ALBUQUERQUE JR., 2011, p. 175). Dessa forma, o gênero criado por Humberto e
Gonzaga possibilitou abrigar variações rítmicas que mais tarde viriam a receber o rótulo
genérico de forró122, a partir do termo forrobodó.
Luiz Gonzaga reivindicava “ter sido também o introdutor do triângulo 123 nesse conjunto
típico de sanfona e zabumba, formando assim a composição instrumental mais indicada para
produzir o ritmo do novo gênero” (TINHORÃO, 2013, p. 253). A figura 42, abaixo, mostra a
formação clássica do trio que Gonzaga projetou nacionalmente.

Figura 43 – Trio de zabumba, sanfona e triângulo


Fonte: adaptado e reproduzido de Santos (2013)

122
Baile popular que ocorre geralmente na zona rural ou nos subúrbios das cidades; divertimento; samba. Tanto
Pereira da Costa (1937, p. 346) quanto Cascudo (2012 [1979], p. 314) consignam o termo como brasileiro; até já
aparecia em periódicos e jornais do Estado de Pernambuco, tais como O Mephistopheles, no 15, de 1833 e O
Alfinete, no 13, de 1890. Portanto, não nos alinhamos à versão de que a palavra “forró” deriva da expressão inglesa
for all (para todos).
123
Luiz Gonzaga dizia que teve a ideia de adicionar o triângulo sob inspiração de um vendedor de “cavaco chinês”,
que vira tocando em Recife.
172

Para Tinhorão (2013), que contesta a versão de Gonzaga, já havia prova de formação de
conjunto com o uso de triângulo, caixa, zabumba e rabeca, em fotografia124 de uma banda de
música de Alagoas, por volta de 1929. Contudo, é inegável que, a partir de uma matriz folclórica
estilizada pela parceria criada entre Humberto e Gonzaga, consolidou-se, efetivamente, o baião
cantado (urbano) com a formação do trio que “proporciona uma sonoridade acusticamente
equilibrada – frequências graves, médias e agudas bem distribuídas –, isto é, adequada à escuta
habitual de seu público” (SANTOS, 2013, p. 52). À época em que houve essa estilização, o
novo gênero musical, por ser caracteristicamente telúrico, encontrou ambiente sóciopolítico
altamente propício, por causa da propaganda política varguista de valorização da cultura
nacional. Por conseguinte, segundo Albuquerque Júnior (2011, p. 175), o baião

[...] vem atender à necessidade de uma música nacional para dançar, que substituísse
todas aquelas de origem estrangeira. Daí sua enorme acolhida num momento de
nacionalismo intenso, fazendo-o frequentar os salões mais sofisticados em curto
espaço de tempo. O baião será a ‘música do Nordeste’, por ser a primeira que fala e
canta em nome desta região.

Com o lançamento de “Asa Branca” em 1947, o baião alcança sucesso notável e


conquista o Brasil, ficando em moda até fins dos anos 50. Embora não tivesse participação
expressiva na escritura de todas as letras, Gonzaga não deixava de colaborar com a sugestão de
temas e criação melódica das canções da dupla Humberto Teixeira-Luiz Gonzaga (e, mais tarde,
Luiz Gonzaga-Zedantas). Seguindo a temática de inspiração nordestina e o uso de uma
linguagem regional, os dois ainda gravariam diversos sucessos, tais como “Assum Preto”, “Qui
nem Jiló”, Juazeiro”, “Paraíba”, “Xanduzinha”, “Respeita Januário” e “Baião de Dois”. Em
reconhecimento a seu talento, Humberto Teixeira foi eleito o melhor compositor nacional, pela
Revista do Rádio, por três anos seguidos: 1950, 1951 e 1952. Tamanho sucesso concedeu-lhe
a oportunidade de ser recebido pelo então presidente da República Getúlio Vargas. Humberto
Teixeira casou com a atriz e pianista Margot Bittencourt. Os dois tiveram uma filha: a atriz
Denise Dummont, nome artístico de Denise Bittencourt Teixeira.
No ano de 1958, no governo do presidente Juscelino Kubitschek, Humberto assumiu o
mandato de Deputado Federal pelo Ceará. No Congresso Nacional, conseguiu aprovar a Lei
3.447/1958, conhecida como Lei Humberto Teixeira, que alterou a redação do artigo 649 125, do

124
Segundo Tinhorão (2013), a fotografia apareceu na Revista “Ilustração Brasileira”.
125
Eis o texto do caput do artigo referenciado: “Ao autor de obra literária, científica ou artística pertence o direito
exclusivo de reproduzi-la”.
173

vetusto Código Civil Brasileiro de 1916126, para dispor sobre direitos autorais. Ainda como
Deputado, lutou pela organização de caravanas musicais de artistas que divulgaram a música
brasileira no exterior, financiadas pelo Governo Federal. Humberto Teixeira morreu no Rio de
Janeiro, de infarto do miocárdio, em 1979. Contava, então, 64 anos.
Anos antes, em 1952, a parceria de Gonzaga com Humberto tinha sido desfeita, mas não
a amizade entre os dois. Por essa época, Gonzaga já tinha conhecido também aquele que seria
o seu segundo grande parceiro musical.

4.6.2 Zé Dantas: o sertanejo puro

José de Souza Dantas Filho, ou Zedantas127, nasceu em 27 de fevereiro de 1921, no


município de Carnaíba, então Carnaíba de Flores, microrregião do Sertão do Pajeú em
Pernambuco. A cidade natal de Zedantas fica a 400 quilômetros de Recife.

Foto 17 – Luiz Gonzaga e Zedantas


Fonte: reproduzido de <http://www.recife.pe.gov.br/mlg/midia/zedantas2.jpg>

No livro “Zedantas segundo a letra I”, publicado em 2010, a viúva do compositor, a


senhora Iolanda Simões de Souza Dantas, conta detalhes sobre a vida do marido. Zedantas
passou parte da infância em Carnaíba, mas seu pai tinha uma propriedade no município de

126
O Código de 1916 foi revogado pelo novel Código Civil Brasileiro, Lei 10.406, de 2002.
127
Era assim que Zedantas gostava de usar o seu nome. Manteremos essa grafia.
174

Betânia. O Riacho do Navio128 passava dentro da fazenda e serviu de inspiração para criar a
canção homônima. Amante das coisas do sertão, estudioso do folclore, Zedantas nunca
esqueceu suas origens. Segundo depoimento de dona Iolanda, já casados e morando no Rio de
Janeiro, sempre que voltavam a Carnaíba, Zedantas

[...] se encontrava com os vaqueiros e no alpendre da fazenda, cada um que cantasse


os motes, os aboios, as cantigas de vaqueiros, os desafios, as incelências 129. Quando
tinha algum visitante, passavam a noite todinha cantando. O ZéDantas gravava tudo
aquilo e levava para o Rio. [...] Muitas músicas saíram desses motivos, dos vaqueiros
da terra dele.

Em 1930, Zedantas muda-se para Recife. Estudante de Medicina, já era fã de Luiz


Gonzaga quando o conheceu em 1947, no Grande Hotel em Recife. Segundo depoimento do
sanfoneiro a Dreyfus (2012 [1996]), Zedantas conseguiu enganar a segurança, bateu na porta
do quarto e quando Gonzaga abriu, Zedantas entrou “como se estivesse tangendo gado... tchan,
tchan! Oi, hê boi, cuch, cuch”. Nesse encontro, o acadêmico de Medicina mostrou a música
“Resfolego da Sanfona”, que foi gravada com o nome “Vem, Morena”. Fato interessante é que
Zedantas pediu a Luiz Gonzaga para gravar a música sem pôr o nome do estudante como
parceiro, pois seu pai não queria que ele fosse compositor. Luiz Gonzaga não atendeu ao pedido
e “Vem, Morena” foi lançada em janeiro de 1950, assinada como parceria de Zedantas e Luiz
Gonzaga.
Em 1950, Zedantas muda-se para o Rio de Janeiro para fazer residência em Ginecologia
e Obstetrícia no Hospital dos Servidores do Estado. Do casamento com D. Iolanda Simões, em
1954, nasceram duas filhas, Sandra e Mônica, e um Filho, José de Souza Dantas Neto. Já
famoso, Zedantas dividia-se entre as atividades de médico e compositor de baiões. Entre os
grandes sucessos, resultantes da parceria com Luiz Gonzaga, destacam-se: “A Volta da Asa
Branca”, o “Xote das Meninas”, “ABC do Sertão”, “Riacho do Navio”, a “Dança da Moda”,
“Forró de Mané Vito” e “Vozes da Seca”.
De acordo com D. Iolanda, com o passar dos anos, Zedantas começou a sofrer de
“espondilite130 reumatoide”, por causa da posição que o obstetra assume na assistência dos
partos. Para o alívio das dores que sentia na coluna, passou a usar, então, cortisona131, droga
recém-chegada dos Estados Unidos. O uso frequente do medicamento debilitou a saúde do
compositor. Um dia, no carnaval, na casa de Luiz Gonzaga, Zedantas lesionou o tendão de

128
Pequeno curso fluvial temporário que atravessa o sertão pernambucano e é afluente do rio Pajeú.
129
Variante de “excelência”, canto entoado à cabeça dos moribundos ou dos mortos (CASCUDO, 2012 [1979]).
130
Inflamação de uma ou mais vértebras da coluna espinhal.
131
Os efeitos colaterais da cortisona incluem retenção de líquidos e cicatrização mais lenta de lesões.
175

Aquiles e teve de se submeter a uma cirurgia. Mas o ferimento não cicatrizou. Pouco tempo
depois, devido à insuficiência renal, o compositor morreu, em 1962, aos 41 anos de idade.
Luiz Gonzaga considerava Zedantas um puríssimo sertanejo. Tão puro que dizia que
quando chegava perto dele, sentia cheiro de bode. Com efeito, a senhora Iolanda conta que Zé
Dantas afirmava que, quando morresse, queria ser sepultado em sua terra, com uma cruz de
madeira num pé de mororó132 e um bode lambendo a cruz. Seu último desejo demonstra o
quanto ele amava as coisas do Nordeste.
Com as mortes de Zedantas e Humberto Teixeira, Gonzaga passou a compor, de forma
eventual, com vários outros artistas. Será nos anos 80 que ele consolidará uma parceria que
começou esporádica até tornar-se sólida nos últimos anos de vida.

4.6.3 João Silva: o parceiro dos últimos momentos

O terceiro grande parceiro de Luiz Gonzaga foi o compositor e cantor João Leocádio da
Silva. João Silva, como era conhecido, nasceu em Arcoverde, Pernambuco, em 16 de agosto de
1935. Quarto filho de uma família sem recursos, criou-se nas Caraíbas, distrito de Arcoverde,
e viveu uma infância pobre de menino sertanejo, assim como Gonzaga. Aos nove anos de idade,
aprendeu a tocar cavaquinho e pandeiro com um tio, acompanhando o primo, Luiz Grande,
tocador de sanfona de oito baixos. João Silva nunca frequentou escola. O compositor aprendeu
a ler, escrever e contar com uma tia. E somente aos dezoito anos, pelas mãos de uma professora
particular, é que pôde aperfeiçoar-se nas letras. Após a separação dos pais, João ficou com o
genitor e foram, a pé, para Serra Talhada, Pernambuco, onde moraram por um ano. De Serra
Talhada, pai e filho foram, mais uma vez andarilhos, para a casa de um primo em Olho d’Água,
sertão da Paraíba, próximo a São José do Egito–PE. Nessas caminhadas, vislumbrou a paisagem
sertaneja e vivenciou os costumes do sertão. Nas andanças pelos municípios citados, teve
contato e fez amizades com repentistas e violeiros. Adolescente, ouvia e interpretava Gonzaga,
e também desejava ser artista um dia. Sua futura produção musical seria influenciada pelas
rodas de coco de sua cidade, baiões de viola e pelas músicas do Rei do Baião.
De volta a Caraíbas, enfrentou diversas dificuldades devido às bebedeiras do pai. Já
cantor, João Silva foi incentivado por um comerciante a deixar o lugar e tentar a sorte em Recife.
Na capital pernambucana, compondo com maior desenvoltura, João é também aconselhado a ir

132
Também conhecido como pata-de-vaca, é um arbusto ou árvore que atinge até 6 metros de altura. Seu nome
científico é bauhinia forficata. As folhas de mororó são referidas no uso popular como hipoglicemiantes (ALICE;
SIQUEIRA, MENTZ, BRASIL e SILVA; JOSÉ, 1995).
176

para o Rio de Janeiro em busca do sucesso. No final da década de 1950, procura a Rádio
Mayrink Veiga e, em pouco tempo, começa a cantar e produzir um programa na emissora
carioca.
O primeiro grande amor de João Silva foi Sebastiana da Conceição Cândido, conhecida
por Tânia. Com ela, teve cinco filhos, mas nunca casou (MARQUES, 2008).
Em 1965, Luiz Gonzaga grava a canção “Piriri”, de João Silva e Ari Rangel, mas os
artistas ainda não se conheciam pessoalmente. A parceria de verdade começaria em 1967 com
a gravação de “Garota Todeschini”, música feita em homenagem à fábrica de sanfonas, de
mesmo nome, que patrocinava Gonzaga. A princípio, entre idas e vindas, devido à vida de
boêmio de João Silva, os dois não tiveram uma parceria estável. De acordo com Marques (2008,
p. 76), é somente a partir dos anos 80 que João Silva “começa a se aprumar na bebida e vai
conquistando Luiz”, consolidando uma reaproximação que iria se tornar verdadeiramente
exitosa. Em depoimento a Dreyfus (2012 [1996], p. 300), Gonzaga falou sobre o novo parceiro:

O grau de cultura de João é menor que Humberto ou Zé Dantas, ele só tem o curso
primário, mas é muito inteligente. E quando o forró começou a subir eu vi que ele era
um bom forrozeiro, então fui para a casa dele e falei assim: “João, o forró agora está
muito forte e eu quero trabalhar com você. O negócio é o seguinte, nós vamos gravar
juntos. Em cada LP que eu gravar, daqui pra frente, eu boto um bom repertório nosso,
de nós dois.

José Maria Almeida Marques (2008, p. 39), biógrafo do compositor, afirmou que a
“escrita” de João Silva se expressava na “forma oral do sertanejo”, isto é, “errada, mas
suficiente para mostrar a emoção das suas canções”. A verdade é que João Silva também
compunha, assim como Gonzaga, Humberto e Zedantas, usando a variedade rural nordestina,
estigmatizada, que é falada por pessoas mais humildes da região.

Foto 18 – João Silva e Luiz Gonzaga


Fonte: Reproduzido de: <http://conteudo.imguol.com.br/c/entretenimento/2013/12/07/07
dez2013---joao-silva-e-luiz-gonzaga-na-capa-do-disco-em-que-os-dois-lancaram-juntos-
1386432568866_956x500.jpg>
177

João Silva e Gonzaga não eram eruditos, mas a genialidade dos dois fez produzir
grandes sucessos nos últimos anos de carreira do Rei do Baião (4.7). Assim, as parcerias
seguiram firmes nos discos “Danado de bom”, 1984; “Sanfoneiro macho”, 1985; “Forró de
cabo a rabo”, 1986; “de fia pavi”, 1987; “Aí, tem Gonzagão”, 1988; “Vou te matar de cheiro”,
“Forrobodó cigano”, “Aquarela nordestina” e “Luiz Gonzaga e sua sanfona volume 2”, todos
de 1989.
João Silva faleceu no dia 06 de dezembro de 2013, aos 78 anos de idade, em virtude de
uma hemorragia interna do abdômen, causada por um aneurisma da aorta abdominal. Foi
enterrado em sua terra natal, Arcoverde. O compositor viveu os últimos nove anos de sua vida
com a companheira Benildes Nogueira.
Luiz Gonzaga teve ainda outros parceiros; todos muito talentosos: o paraibano José
Marcolino; o potiguar, radicado em Pernambuco, Janduhy Finizola e o pernambucano Onildo
de Almeida.

4.7 APOGEU, ESQUECIMENTO E REVIGORAMENTO DO BAIÃO

Em 22 de setembro de 1945, veio ao mundo o primeiro e único filho 133 de Gonzaga,


Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, o Gonzaguinha. A criança foi fruto de um relacionamento
amoroso entre Luiz Gonzaga e a cantora, também bailarina, Odaléia Guedes, que morreu de
tuberculose em 1952. Devido às constantes viagens do pai para participar de shows,
Gonzaguinha passou a morar com os padrinhos, Xavier Pinheiro e Leopoldina (conhecida por
Dina) no morro de São Carlos, no Rio de Janeiro.
O lançamento de Asa Branca em 1947, como vimos, tornou o sanfoneiro conhecido em
todo o Brasil. Foi também em 1947 que Gonzaga conheceu a sua primeira esposa, a contadora
pernambucana, Helena das Neves Cavalcanti. Os dois se casaram em junho de 1948. Gonzaga
não teve filhos com Helena, mas adotou uma menina, Rosa Maria Gonzaga, a Rosinha.
Os sucessos seguintes trouxeram também fama e dinheiro. Em 1949, o baião era
celebrado “como novo ritmo do Brasil” e “coqueluche134 nacional”, conforme apresentado na
figura reproduzida a seguir, retirada de um jornal da época.

133
Até hoje há controvérsia sobre a paternidade de Luiz Gonzaga. No livro “Eu Vou Contar pra Vocês” (1990), o
jornalista Assis Ângelo afirma que Gonzaga era estéril. Dreyfus (2012[1996], p. 103) diz que, nas entrevistas que
realizou para o seu livro, “os testemunhos foram unânimes afirmando que todo mundo sabia que Gonzaguinha não
era filho de Luiz Gonzaga”. Segundo ainda a autora, a verdade é que nunca foi feito exame de DNA para dirimir
essa dúvida.
134
Literalmente, coqueluche é uma doença infectocontagiosa provocada pelo bacilo Bordetella pertussis, que
causa tosse espasmódica (HOUAISS; VILAR, 2009). Em sentido figurado, é “tudo que ocupa momentaneamente
a preferência ou a atenção popular” (BORBA, 2004, p. 344).
178

Figura 44 – Baião como gênero nacional


Fonte: reproduzido de Dreyfus (2012 [1996])

Em 1950, o baião reina quase absoluto nas rádios brasileiras e, por isso, Luiz Gonzaga
ganha o apelido de Rei do Baião. Sua popularidade passou então a ser utilizada com fins
políticos e comerciais (FERRETI, 2012, p. 91). A canção “Paraíba”, por exemplo, foi
originalmente um jingle político encomendado, em 1950, por José Pereira Lira (1899-1985),
advogado paraibano, chefe da Casa Civil do governo Eurico Gaspar Dutra e candidato ao
Senado em disputa contra o adversário político, Ruy Carneiro, candidato preferido de José
Américo de Almeida.
Nesse contexto, Luiz Gonzaga tinha aproximação com o governo e era frequentemente
convidado para tocar em ocasiões especiais, tal como no jantar oferecido pelo presidente
179

brasileiro Eurico Gaspar Dutra a Henry Truman, presidente americano, conforme registra a
foto135abaixo.

Foto 19 – Luiz Gonzaga, Eurico Gaspar Dutra e Henry Truman


Fonte: reproduzido de Dreyfus (2012 [1996])

Segundo Ângelo (2006), em 1953, inspirado no sanfoneiro gaúcho, Pedro Raimundo,


que usava traje típico da região, Luiz Gonzaga passou a usar vestimenta de vaqueiro e chapéu
de cangaceiro.
Após o auge do baião, entre os anos 47 e 57, o gênero entra em declínio em decorrência
dos avanços da Bossa Nova em 1958, e, especialmente, do rock and roll, que passa a dominar
o mercado mundial. Nesse período, Luiz Gonzaga enfrenta uma espécie de ostracismo musical
no Sul, embora continuasse a fazer shows pelo Nordeste, em praças públicas, em cima de um
caminhão. Era visto por centenas de jovens e crianças em suas apresentações. Em 1968, o
jornalista e apresentador Carlos Imperial espalha o boato de que o grupo inglês The Beatles136
tinha gravado “Asa Branca”. Luiz Gonzaga é então procurado pela imprensa brasileira para
comentar a notícia. Tal boato rendeu-lhe diversas entrevistas e gravações. Concomitantemente,
os tropicalistas, Gilberto Gil e Caetano Veloso, declararam que receberam influência dos
Beatles, de João Gilberto e de Luiz Gonzaga (DREYFUS, 2012 [1996]), ao mesmo tempo que
enfatizavam a “brasilidade” da música gonzaguiana. Sobre essa nova fase, em entrevista a Tom
Gomes, que trabalhava no departamento de promoção e divulgação da RCA Victor, em 1972,
Luiz Gonzaga opina sobre o seu retorno à cena musical:

135
Em primeiro plano: Truman à esquerda, Gonzaga ao centro e Dutra à direita.
136
Em 1968, os Beatles gravaram uma canção com referência a um pássaro, “blackbird”, que saiu no White álbum
(Álbum Branco), mas a gravação não tinha nada a ver com o pássaro nordestino, Asa Branca.
180

[...] comecei a sentir o calor da juventude e tudo isso, esta nova fase, não fui eu quem
criou. Foram vocês mesmos. Você que é jovem e que está aqui me entrevistando e eu
me sinto feliz por isto. Vocês foram me buscar, vocês é que descobriram que minha
música tinha esse conteúdo. Humberto Teixeira, Zé Dantas sabiam! Mas eles eram
suspeitos em falar, porque eles...é... contemporâneos meus eles não iam sair por aí
dizendo... poxa vida, ninguém reconhece Luiz! Ele é o maior! Não ficava bem [...]

Nessa mesma entrevista, Gonzaga relata:

“As crianças que tinham me assistido nas praças públicas estavam nas escolas e,
posteriormente, nas universidades [...] esses meninos vieram com novos estilos, novas
inteligências e começaram a relembrar meu nome. ‘Gonzaga, Gonzaga’, eu até ficava
espantado”.

Realmente, a exaltação de novos compositores à Gonzaga, surpreendeu-o, mas o trouxe


de volta ao sucesso nacional. Gil e Caetano foram os responsáveis pela idealização do show
“Luiz Gonzaga volta pra curtir”, realizado no Teatro Thereza Raquel, no Rio de Janeiro, em
1972. Esse show fez grande sucesso entre a juventude intelectual da Zona Sul carioca, porque
divulgou a importância do Rei do Baião para a música popular brasileira.
Os anos 80 seriam marcados por grandes homenagens à obra de Luiz Gonzaga e o
sanfoneiro não parava de produzir. Gonzaga foi duas vezes a Paris, em 1982 e em 1984. A
primeira visita foi resultado do convite feito pela cantora paraense, Nazaré Pereira, que fazia
grande sucesso em Paris com a canção “Cheiro de Carolina”, do irmão Zé Gonzaga e Amorim
Roxo. Luiz Gonzaga apresentou-se na casa de shows Le Bobino (que estava lotada) em maio de
1982. Nesse mesmo ano, passou a adotar o nome Gonzagão após a turnê “Vida de Viajante”,
que iniciou em 1979, percorrendo o Brasil com o filho Gonzaguinha. Em 1984, recebeu o seu
primeiro disco de ouro pelo sucesso extraordinário do LP “Danado de Bom”. O álbum vendeu
mais de um milhão e meio de cópias em três meses. Em 1985, foi agraciado com o troféu
Nipper137 de Ouro da gravadora RCA (Radio Corporation of America). Além dele, só Nelson
Gonçalves recebeu esse prêmio no Brasil pelo conjunto da obra; nos Estados Unidos, Elvis
Presley (ÂNGELO, 2006).

137
Nipper é o nome do cachorrinho que aparece ao lado do gramofone na marca da RCA.
181

Foto 20 – Gonzaga recebendo o troféu Nipper de Ouro


Fonte: adaptado e reproduzido de Ângelo (1991)

Nesse mesmo ano, recebeu o prêmio Shell e ganhou mais dois discos de ouro pela
gravação do LP “Sanfoneiro Macho”. Em 1984, fez nova viagem à França e se apresentou no
Centro Cultural Halle de la Villete138. Em 1986, o LP “Forró de Cabo a Rabo” rendeu-lhe o
primeiro disco de platina de sua carreira.
Em 1987, teve diagnóstico definitivo de câncer de próstata. Pelos sintomas que
apresentava, há muito tempo, ele acreditava tratar-se de osteoporose – mas foi uma forma
encontrada pelas pessoas mais próximas para que ele não desconfiasse do mal maior. Em 1988,
a RCA lançou a coletânea “50 anos de chão”, com cinco LPs, que seria relançada, em CD oito
anos depois. No mesmo ano de 1988, em virtude de um casamento já desgastado, separou-se
da mulher, Helena Cavalcanti, e passou a viver com a pernambucana de São José do Egito,
Maria Edelzuita Rabelo, a quem Gonzaga carinhosamente chamava de “Zuíta”. Os dois se
conheciam desde 1968 e começaram o romance em 1975, com constantes rompimentos e
reconciliações.
No dia 6 de junho de 1989, às 22 horas, “pálido, numa cadeira de rodas, ao lado da
mulher Edelzuíta, vestido a caráter, de chapéu e gibão de couro, chega ao Teatro Guararapes,
no Centro de Convenções de Pernambuco para o último show de sua carreira” (OLIVEIRA,
1991, p. 167). O parceiro das últimas canções, João Silva, e o maior seguidor de Gonzaga,
Dominguinhos, também estavam presentes. As últimas palavras de Gonzaga para a plateia
daquele show foram reproduzidas em Ângelo (2006, p. 137): “Quero ser lembrado como um
sanfoneiro que amou e cantou seu povo, o sertão, que cantou as aves, os animais, os padres, os

138
Em português, Grande Salão do Gado.
182

cangaceiros, os retirantes, os valentes, os covardes, o amor”. E ainda acrescentou para os fãs:


“Quero ser lembrado como o sanfoneiro que cantou seu povo, que foi honesto, que criou filhos,
que amou a vida deixando um exemplo de trabalho, de paz e amor”. Foi aplaudido de pé. Em
21 de junho do mesmo ano, foi levado ao Hospital Santa Joana em Recife. Passou quarenta e
dois dias internado. Segundo depoimento de enfermeiros do hospital, em virtudes das dores que
sentia, Gonzaga não gemia, aboiava. Foi um legítimo vaqueiro da terra até os últimos instantes
de vida. Morreu às cinco horas e quinze minutos do dia 2 de agosto de 1989, com 76 anos de
idade.
Luiz Gonzaga gravou 625 músicas, em 125 discos de 78 rpm (revoluções por minuto);
41 compactos simples e duplos, de 33 e 45 rpm; seis LPs, de 33 rpm, de 10 polegadas; 79 LPs
de 33 rpm, de 12 polegadas; e 15 LPs (coletâneas) de 33 rpm, também de 12 polegadas”
(ÂNGELO, 2006, p. 127). Devido aos problemas de saúde, os dois últimos discos de Gonzaga
foram instrumentais: “Forrobodó Cigano” e “Luiz Gonzaga e sua sanfona, volume 2”, ambos
de 1989.
Após sua morte, diversas homenagens foram prestadas ao Rei do Baião. Em 6 de
dezembro de 2005, foi sancionada a lei 11.176, que institui o dia do nascimento de Luiz
Gonzaga, 13 de dezembro, como o “Dia Nacional do Forró” 139. E as homenagens não pararam
por aí. Em outubro de 2012, é lançado o longa-metragem, “Gonzaga: de pai para filho”, do
produtor Breno Silveira, com roteiro de Patrícia Andrade. O filme retratou as divergências entre
Gonzaga e Gonzaguinha, as carreiras de sucesso e a reconciliação entre pai e filho, nos anos 80,
movida pelo amor que nutriam um pelo outro. Na primeira semana de exibição, a película
alcançou a vendagem de mais de 190 mil ingressos, alcançando a quarta melhor abertura
nacional do ano. O sanfoneiro Nivaldo Expedito de Carvalho, Chambinho do acordeom, que
aparece no cartaz a seguir, encarnou a face de Gonzaga dos 25 aos 50 anos.

139
Lei 11.176/2005: Art. 1o. Fica instituído o dia 13 de dezembro como o “Dia Nacional do Forró”, em homenagem
à data natalícia do músico Luiz Gonzaga do Nascimento, o “Rei do Baião”.
183

Figura 45 – Cartaz do filme Gonzaga: de pai para filho


Fonte: reproduzido de <http://msalx.vejasp.abril.com.br/2012/
10/24/1545/gng_0001_cartaz_5mb_final_
04_fk.jpeg?1351256558>

No dia do centenário de nascimento de Gonzaga, 13 de dezembro de 2012, o portal de


buscas Google homenageou Luiz Gonzaga, dedicando-lhe um doodle, palavra inglesa que
significa esboço ou rabisco de desenho, em sua página principal.

Figura 46 – Doodle em homenagem a Luiz Gonzaga


Fonte: reproduzido de <http://s.glbimg.com/po/tt/f/original/2012/12/13/doodle_luiz_gonzaga.png>
184

Ainda em 2012, Luiz Gonzaga foi tema do samba-enredo140, “O dia em que toda a
realeza desembarcou na avenida para coroar o Rei Luiz do Sertão”, da Escola de Samba campeã
do carnaval do Rio de Janeiro, Unidos da Tijuca.
Essas descrições sobre a espacialidade do Nordeste, associadas às características sócio-
históricas e culturais da região, sedimentaram o percurso de Luiz Gonzaga do anonimato rural
ao estrelato nacional. Essas particularidades se entrelaçam, necessariamente, às variantes
linguísticas usadas pelo sanfoneiro. No próximo capítulo, serão analisadas as particularidades
semânticos-culturais e fonéticas existentes no corpus documental, bem como os depoimentos
de Gonzaga e de parceiros, reveladoras de indícios e de evidências que reafirmam a nossa tese,
atestando o sanfoneiro como legítimo porta-voz do falar sertanejo nordestino.

140
Em 1981, Luiz Gonzaga já havia sido homenageado pela Escola de Samba carioca Acadêmicos do Salgueiro.
185

05 ANÁLISE DO CORPUS

Pra você aguentá meu rojão, é preciso saber requebrá. Tê


molejo nos pés e nas mão, tê no corpo o balanço do má.
Sê que nem carrapeta no chão e virá foia seca no á. Para
quando escutá meu baião, imbalança, imbalança,
imbalançá (Luiz Gonzaga-ZeDantas)

T emos defendido que a obra gonzaguiana se reveste de peculiaridades semântico-


culturais e fonéticas de variedades estigmatizadas do Português Brasileiro que se
identificam com a variedade rural nordestina. Neste capítulo, pretendemos identificar e analisar
essas particularidades, ao mesmo tempo em que buscaremos apresentar indícios e evidências
de que Gonzaga se propôs, conscientemente, divulgar essa variedade para o resto do país.
Mirando a esse alcance, apresentaremos, em cotejo com os objetivos propostos, as seguintes
análises: 5.1) a identificação de campos semântico-culturais no cancioneiro de Gonzaga; a
descrição, consoante os campos identificados e as premissas da Semântica Cultural (vertente
de contextos e cenários), de lexias simples, compostas e textuais cujos sentidos especializados
demonstram as influências de práticas linguísticas e costumes socioculturais compartilhados
pelos nordestinos de origens rural e humilde; o exame de construções figurativas, tendo como
referência informações contextuais (linguísticas) e cenariais (culturais); 5.2) a classificação e
tabulação dos metaplasmos linguísticos brasileiros por supressão, adição e transformação,
presentes no corpus; 5.3) a exposição de evidências que apontam para uma intencionalidade na
difusão do falar nordestino, por Gonzaga e por seus parceiros, como instrumento linguístico de
valorização identitária do povo de sua região; 5.4) a identificação, inspirada no contínuo de
urbanização proposto por Bortoni-Ricardo (2004), de traços graduais e descontínuos,
reveladores de usos linguísticos compartilhados e usos linguísticos tipicamente
interioranos/nordestinos na obra de Gonzaga; e 5.5) a remissão ao glossário de Gonzagão,
organizado em formato eletrônico, contendo lexias (sinais-palavras) com sentidos definidos
pelos contextos e cenários descritos nas análises, bem como transcrições fonéticas das lexias
que apresentaram variantes. O referido repertório está no CD-ROM que acompanha esta tese.
186

5.1 PARTICULARIDADES SEMÂNTICAS: CAMPOS SEMÂNTICO-CULTURAIS


IDENTIFICADOS NA OBRA DE GONZAGA

A contextualização geo-sócio-histórica e cultural, descrita no capítulo 4, serviu para


demonstrar que Luiz Gonzaga e seus parceiros interiorizaram as influências dos lugares vividos,
do folclore, de valores, de práticas sociais e crenças vivenciadas, marcando as escolhas de temas
que orientaram e constituíram o seu repertório linguístico e musical. Nesse contexto, Tatit
(2012) considera que Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira projetaram, em conjunto, a batida, a
levada141, a dimensão, o estilo142 e a temática do baião. Em concordância com o autor, Sylvio
Ferreira, em depoimento a Oliveira (1991, p. 116), considera que Luiz Gonzaga “se constitui
num dos mais ricos mananciais de informações socioculturais sobre o modo de ser, agir, e
pensar do bravo e sofrido homem nordestino”. Em arremate, constata que Luiz Gonzaga
“manteve, durante anos, aceso o facho da emotividade sertaneja como na singularidade da
temática, eminentemente regionalista e popular” (OLIVEIRA, 1991, p. 120).
O manancial linguístico-cultural no qual se abeberou Luiz Gonzaga é bastante
diversificado. Por esse motivo, Ramalho (2012 [2000]) considera difícil estabelecer uma
classificação rígida da temática das letras, já que os conteúdos se interpenetram de forma
permanente. Mesmo assim, é possível identificar os seguintes campos semântico-culturais
característicos de sua obra: seca, saudade, terra, religião e crenças, cangaço, amor e
sensualidade, e alegria.

5.1.1 Campo semântico-cultural: seca


Nas canções, a seca é descrita como a grande responsável pelas agruras que o sertanejo
vive, sendo uma “judiação” que não se consegue vencer. Os versos clássicos de Asa Branca
utilizam lexias que descrevem, comparativa e metaforicamente, a paisagem sertaneja castigada
pela estiagem e a resignação do caboclo nordestino frente à sua sorte de viver no seco Nordeste:

Quando oiei a terra ardendo qual fogueira de São João


Eu preguntei a Deus do céu, ai, por que tamanha judiação
Que braseiro, que fornaia [...]

141
A palavra equivale a ritmo.
142
Conjunto de tendências e características formais, conteudísticas, estéticas etc. que identificam ou distinguem
uma obra, um artista etc., ou determinado período ou movimento.
187

A terra adusta arde como a fogueira dedicada às festas juninas no ambiente cultural
nordestino. O uso das lexias (sinais-palavras) fornaia e braseiro deixam transparecer elementos
significativos das condições meteorológicas no Nordeste, que fazem o sertanejo sofrer com os
efeitos devastadores da seca. Aliás, como bem salienta Ramalho (2012 [2000], p. 183), o fato
de a lexia seca não ser mencionada diretamente no texto só “acentua a intensidade poética da
idéia”, conforme sentenciam os seguintes versos:

[...] Nem um pé de prantação


Por farta d’água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão
Por farta d’água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão.

Gonzaga utiliza um quadro descritivo do Sertão, dando pistas para que o leitor-
interlocutor tenha condições de criar seu cenário e possa nomear o evento que ele descreve, sem
citá-lo – a seca no Nordeste.
A estiagem prolongada é responsável pela perda da produção agrícola (representada pela
lexia pé de prantação), dos animais (perdi meu gado), que fornecem a alimentação, carne e
leite, e do cavalo (alazão), representante do meio de transporte e de trabalho. Pelo uso do
sintagma morrer de sede, o enunciador143 descreve e acentua uma condição que não é incomum
no Nordeste: a morte de plantas e animais e, às vezes, até de crianças por inanição 144 .
Diferentemente de outras regiões, morrer de sede é uma expressão bastante utilizada no
vocabulário rural nordestino, devido às circunstâncias adversas da constante falta d’água no
sertão. Mesmo quando há água, é comum que ela seja de baixa qualidade, transportada em
carros-pipas ou retirada das cacimbas, que acumulam água no solo, como pode ser inferido do
diálogo abaixo, retirado do causo 2:

[...] - Boa tarde!


- Boas tarde.
- Vosmicê tem uma aguinha dormida aí?
- Se arruma!
Lá vem o home, caneco d’água.
- Aguinha saloba, essa daqui, hem?

143
Utilizaremos os termos enunciador, sujeito enunciador e locutor como sinônimos para a pessoa produtora dos
enunciados nas canções e causos.
144
Em 2003, o governo federal criou um Programa Nacional de Apoio à Captação de Água de Chuva e outras
Tecnologias Sociais (Programa Cisternas) financiado pelo Ministério do Desenvolvimento Social. Também em
2003, foi criado o programa Fome Zero para o enfrentamento da fome e da miséria. 2.369 municípios foram
atendidos pelo programa, prioritariamente localizados nas regiões semiáridas do Nordeste.
188

Aguinha dormida especializa o sentido metafórico de água que pernoita em pote de


barro de um dia para o outro para assentar as impurezas. Temos aqui um deslocamento de
sentido entre dois campos semântico-culturais: mineral (água) e humano (dormir). Se mesmo
dormida, a água ainda fica saloba é porque tem um gosto tirante a sal, de sabor desagradável,
por causa de sua origem. Diferentemente do uso de “água”, “aguinha” indica só um pouco ou
“pouquinho”. Em terras secas, não se desperdiça água. Só se usa o necessário, e o nordestino
sabe disso. Cascudo (2013 [1971], citando o general Gustavo Cordeiro de Farias 145, diz que, na
Escola Militar, os cadetes, vindos do Nordeste, eram identificados “pelo ciumento cuidado de
apertar as torneiras dos lavatórios”, enquanto os rapazes de outras regiões não tinham o mesmo
zelo com a economia de água. Além disso, o uso de “aguinha” caracteriza uma forma humilde
e respeitosa de pedir água a um estranho.
Frente à terra seca e improdutiva, não adianta resistir e lutar. É hora de dar adeus à
amada Rosinha, pois inté mesmo a asa branca, que é considerado o último pássaro a deixar o
sertão em busca de água durante a seca, já desistiu de esperar a chuva:

[...] Inté mesmo a asa branca bateu asas do sertão


Entonce eu disse adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração
Entonce eu disse adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração.

Inté é uma lexia gramatical antiga usada no sertão para até; neste cenário, significa
inclusive, também. Expressa uma sensação de surpresa e, ao mesmo tempo, de desesperança,
pois “inté” quem não devia ir se foi; “inté” quem é parte da terra se foi. A situação descreve um
dilaceramento do Sertão, que se repete no enunciador, pois a “partida” aciona o sentido
polissêmico de “ato de partir” e de “despedaçamento” daquele que também é obrigado a ir
embora, sem querer ir, deixando parte de si – seu coração – com Rosinha.
O uso da expressão idiomática bater asas não visa descrever o sentido menor de agitar
as asas do pássaro asa branca, mas assume, no contexto e cenário descritos, o sentido maior,
pleno, de fugir, escapar da situação degradante provocado pela seca. A ave referida é uma
pomba migratória, mas, no Nordeste, todos a conhecem como asa branca. A motivação
semântica para esta designação metafórica funcional é devido à cor branca das penas embaixo
da asa, somente visível quando ela está voando.
O sinal-palavra sertão compreende a zona fitogeográfica do Nordeste brasileiro onde
domina o clima semiárido e a caatinga. É a área territorial que os nordestinos costumam chamar

145
Foi comandante da 14ª Divisão de Infantaria na capital potiguar, em 1942.
189

de interior. Cascudo (2012 [1979], p. 648) afirma que a origem da lexia sertão é discutível “e
apareceu mesmo a ideia de [ser a] forma contrata de “desertão”, numa clara alusão a uma zona
árida, com baixa pluviosidade. Outra lexia antiga usada pelo enunciador é entonce, que
permanece nos vocabulários rural nordestino e rurbano, mas que já está em desuso nos falares
urbanos que adotam a forma “então”.
O tema da seca em asa branca contém lexias que expressam, ainda hoje, um misto “de
dor, solidão, saudade e mesmo esperança” (RAMALHO, 2012 [2000], p. 194):

[...] Hoje longe muitas légua numa triste solidão


Espero a chuva cair de novo pra mim vortá pro meu sertão
Espero a chuva cair de novo pra mim vortá pro meu sertão.

O afastamento da terra natal, provocado pela estiagem prolongada, é avaliado pelo uso
da lexia légua, que era a medida de distância usada antes da adoção do sistema métrico. Uma
légua, no Brasil, equivale a 6.600m. Quando não especificada, a légua é a distância imaginada
como distante ou muito distante, caso em que aparece geralmente no plural léguas (HOUAIS,
2009). É o sentido que foi especializado no verso acima. Em desuso no resto do país, o emprego
de légua é ainda bastante popular no falar rural do Nordeste, entre as pessoas mais humildes.
O solo árido equivale à solidão do exílio forçado. A solidão do enunciador ocorre na
cidade grande, ainda que esteja cercado de gente. Em contraste, o sertão isolado, solitário, é seu
lugar de aconchego e companhia. É a triste sina do sertanejo deslocado, expulso pela seca:
retirante-estrangeiro do sertão.
Distante da mulher amada, os olhos verdes de Rosinha “é fonte de outra imagem poética”
(RAMALHO, 2012 [2000], p. 183) que descreve o ambiente nordestino. O desejo do fim da
paisagem incandescente, expressa pelas lexias braseiro, fornaia, vistas anteriormente, contrasta
com o sentido da lexia verde, que exprime, no vocabulário do falar rural, além de seu sentido
costumeiro, a estação das chuvas no Nordeste, motivo de alento e esperança para o sertanejo:

[...] Quando o verde dos teus óio


Se ispaiá na prantação
Eu te asseguro não chore não, viu
Que eu vortarei, viu, meu coração
Eu te asseguro num chore não, viu
Que eu vortarei, viu, meu coração.

A chegada do inverno deverá resultar no cumprimento da promessa de retorno do


enunciador ao sertão, que deve pôr fim à situação de tristeza (não chore não, viu?) da amada.
190

Neste cenário, o locutor usa a lexia coração (órgão muscular), que assume o sentido metafórico
da pessoa que se ama: Rosinha.
De outro ponto de vista, o enunciador não analisa o tema da estiagem apenas com o uso
de lexias que descrevem a paisagem e exprimem resignação. Na canção Vozes da Seca, ele
também se insurge contra essa situação calamitosa, usando lexias do falar rural sertanejo para
cobrar providências do Estado brasileiro:

Seu dotô, os nordestino têm muita gratidão


Pelo auxílio dos sulista nessa seca do sertão
Mas dotô uma esmola a um homem qui é são
Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão
É por isso que pidimo proteção a vosmicê
Home pur nóis escuído para as rédias do pudê
Pois dotô dos vinte estado temos oito sem chovê
Veja bem, quase a metade do Brasil tá sem cumê
Dê serviço a nosso povo, encha os rio de barragem
Dê cumida a preço bão, não esqueça a açudagem
Livre assim nóis da esmola, que no fim dessa estiage
Lhe pagamo inté os juru sem gastar nossa corage
Se o dotô fizer assim salva o povo do sertão
Quando um dia a chuva vim, que riqueza pra nação!
Nunca mais nóis pensa em seca, vai dá tudo nesse chão
Como vê nosso distino mecê tem nas vossa mãos.

O emprego das lexias dotô, vosmicê e mecê no falar rural nordestino identificam o
tratamento respeitoso do sertanejo humilde para se dirigir às pessoas de nível socioeconômico
mais elevado, sendo que as duas últimas são formas linguísticas reconhecidamente antigas.
Entretanto, não obstante o reconhecimento da situação de carência causada pela seca e a
gratidão pela ajuda recebida dos “sulistas”, ou seja, de todos aqueles que não são do Nordeste,
os sentidos especializados a partir do contexto e do cenário sociocultural remetem a um sujeito
enunciador que se posiciona e tem ciência de que a resolução para o seu estado de privação
material não está na doação de esmolas para o homem nordestino, sadio e reconhecidamente
trabalhador:

[...] Mas dotô uma esmola a um homem qui é são


Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão.

O sentido costumeiro do sinal-palavra esmola é “aquilo que se dá aos pobres e


necessitados por caridade”. Para Cascudo (2011[1974], p. 25),

o mendigo, humilhado e suspeito é um produto urbano. Pelo interior viviam os


paupérrimos, ajudados pelos vizinhos, mas tendo um roçadinho. Não pediam, tiravam
191

esmolas, preferencialmente às sextas-feiras quando apareciam arrastando os pés, no


círculo da coleta”.

Logo, dar esmola ao nordestino economicamente ativo pode ter consequência negativa
dupla: ser extremamente desmoralizante, condenando-o à ociosidade, e à humilhante
dependência socioeconômica dos estados do sul.
Utilizando construções metafóricas, o enunciador demonstra ter também consciência de
que o indivíduo responsável pela administração do país foi eleito democraticamente:

[...] Home pur nóis escuído para as rédias do pudê.

Portanto, é lícita a reivindicação respeitosa de uma solução definitiva para o problema


de convivência com os efeitos danosos da seca. O sentido costumeiro de rédea é correia que
serve para restringir as ações de um animal, geralmente de montaria. Nesse contexto, é
significativo o uso figurativo de rédeas do poder, que traz o efeito de sentido de que o
governante pode controlar seu povo por intermédio de instrumentos eminentemente usados para
dominar animais irracionais, suscitando um conhecimento extralinguístico (memória
discursiva 146 ), associado a uma identidade nordestina de subordinação alimária que inclui,
dentre outras construções metafóricas, expressões como “voto de cabresto” e “curral eleitoral”.
De outro modo, o enunciador sabe que o cenário de estiagem apresentado alcança quase
todo o País e se posiciona quanto a essa situação, sugerindo – em vez de dar esmolas – ações
que vão desde a implantação de infraestrutura à política econômica:

[...] Dê serviço a nosso povo, encha os rio de barragem


Dê cumida a preço bão, não esqueça a açudagem.

Nas medidas apontadas pelo sujeito enunciador, aparecem sinais-palavras como


barragem e açudagem, que são representativos do acervo semântico-cultural usado para
descrever o combate às secas no Nordeste. Outrossim, preço bão é aquele que é módico, barato
para o homem simples do campo. Essas lexias traduzem sentidos que expressam o desejo de
investimentos em áreas estratégicas que podem levar ao fim do estado de dependência de seus
compatriotas:

[...] livre assim nóis da esmola.

146
Memória que evoca formulações anteriores já enunciadas.
192

Desta vez, o enunciador destaca o sentido figurado da lexia esmola equivalente a favor,
concessão, do qual deseja se libertar, pondo fim à submissão econômica dos nordestinos – entre
os quais, ele se inclui – face aos estados “do sul”.
Outro sentido instaurado é o do cidadão que garante pagar o investimento a ser feito na
região, uma vez que os nordestinos pagariam de bom grado o montante do crédito liberado, o
que lhes daria a certeza de não ter mais que depender de esmolas nem ver a sua dignidade
abalada, retirando-lhe a firmeza de ânimo:

[...] lhe pagamo inté os juru sem gastar nossa corage.

Na canção, os sentidos especializados revelam valores ideológicos integrados no dizer


do enunciador: o homem nordestino precisa de crédito. Pagará até mais por ele, – acionando o
sentido de “inclusive, também” para a lexia polissêmica inté –, mas não dará calote, posto que
ter coragem para trabalhar é um dos seus melhores atributos.
A certeza de que a saída para os problemas apresentados é uma política econômica
inclusiva, que trará soluções definitivas para o sertão, põe em relevo o fato de que o nordestino
não é simplório, alheio às causas das condições adversas que afligem a extensão areal onde
vive:

[...] Se o dotô fizer assim salva o povo do sertão.

Mediante os pedidos para a realização de obras estruturantes, o enunciador-nordestino


demonstra compreender que não se pode eliminar o fenômeno da seca, mas se deve aprender a
conviver com ela. O destino dos nordestinos, que é, em última análise, o de todos os brasileiros,
depende apenas das ações governamentais:

[...] Como vê nosso distino mecê tem nas vossa mãos.

O uso da expressão figurativa ter o destino nas mãos de alguém aciona o sentido de que
somente aqueles que detêm o poder podem privilegiar a superação das diferenças regionais
historicamente criadas, mormente por intermédio de investimentos em obras que desmontem a
“indústria da seca” no Nordeste, prática bastante fomentada entre políticos fisiologistas.
193

Por fim, podemos afirmar que os sentidos plenos das lexias foram totalmente
especializados, a partir dos contextos linguísticos e cenários recuperados pelo conhecimento
extralinguístico. Essas especializações permitem inferir uma constatação veiculada pelo
enunciador: há sertanejos cônscios de que as relações de poder interferem naquilo que os
nordestinos são naquele momento sócio-histórico, questionando, por intermédio do falar rural
nordestino, o que se poderia fazer para que a situação fosse diferente do que ela é.

5.1.2 Campo semântico-cultural: saudade


Simultaneamente, o tema da saudade é recorrente na obra do locutor Gonzaga, por causa
da “distância da terra, dos amores, da família, dos animais de estimação, do roçado”
(ALBUQUERQUE, 2011, p. 182).
Na canção “Qui nem Jiló”, o enunciador admite a existência de uma “saudade boa”,
aquela que resulta de reminiscências superficiais. “Lembrar só por lembrar” aciona o sentido
de recordar de alguém, por quem um dia se apaixonou, mas cujos relacionamentos e lembranças
não resultaram em sofrimento, mesmo após a separação:

Se a gente lembra só por lembrá


Do amor que a gente um dia perdeu
Saudade inté que assim é bom
Pro cabra se convencê
Que é feliz sem saber pois não sofreu.

O sujeito enunciador usa a lexia amor com o sentido metonímico da pessoa amada, em
que se destaca a forte afeição pela pessoa com quem já não mais se convive. Esse é um traço
linguístico gradual presente na fala de qualquer brasileiro, independente de origem rural ou
urbana. Já o sentido da lexia cabra como homem, sujeito, indivíduo é bastante difundido entre
falantes de origem social humilde e da região rural, caracterizando-se como deslocamento de
sentido entre os campos semântico-culturais humano e animal. A motivação semântica do
sentido metafórico que se especializou nessa lexia pode ser encontrada na lição de Cascudo
(2012 [1979]) que, citando Bluteau (1712), afirma que os portugueses deram esse nome aos
índios que encontraram ruminando como cabras o bétel (mistura de tabaco e semente de noz-
de-areca – areca catechu – enrolada na folha dessa planta e sobre a qual se diz possuir efeito
inebriante).
É comum ouvir no Nordeste as lexias cabra de peia e cabra da peste. A primeira tem
sentido costumeiro pejorativo, sendo atribuído, na sua origem, às pessoas desocupadas e
atrevidas que deviam ser afastadas à peia dos engenhos de açúcar e fazendas de gado, ou seja,
194

pelo uso do “azorrague de couro, entrançado”. Os cabras de peia são, conforme Cascudo (2012
[1979], p. 191), “da mais baixa extração moral, vadios, turbulentos, cobardes, larápios”. Por
seu turno, cabra da peste pode ser usado com sentido positivo ou depreciativo. O sentido mais
adequado far-se-á com a devida análise do contexto e cenário. Comumente, cabra da peste é
usado para designar os nordestinos em geral. Há ainda as seguintes variantes elogiosas, citadas
por Cascudo (2012 [1979], p. 281): “cabra bom! Cabra macho! Cabra homem!”
O enunciador também evidencia o contraste da “saudade boa” com a “saudade ruim”,
que é resultante do ardente desejo de se rever uma pessoa de quem se está afastado:

[...] Porém se a gente vive a sonhá


Com alguém que se deseja revê
Saudade entonce assim é ruim
Eu tiro isso por mim
Que vivo doido a sofrê

Para expressar o forte desejo de reencontro com a pessoa amada, o sintagma quem me
dera é usado com os sentidos interjetivos equivalentes a Deus queira, oxalá! Ademais, em uma
construção metonímica, o sentido da lexia xodó, bastante usada no Nordeste para envolvimento
amoroso, passa a designar a própria namorada ou amante:

[...] Ai, quem me dera voltá


Pros braços do meu xodó

Assim, o uso de xodó com o sentido de namorada, que consideramos um traço


descontínuo, é destacado na especialização de sentido com base metonímica: braços do meu
xodó. Destaque-se que a lexia xodó também pode ser usada para referir-se a homens.
Diante da situação de separação, o locutor faz uma comparação entre a amargura, o
tormento da saudade (lexia roer) da mulher amada e o típico sabor acre do fruto do jiloeiro,
representado pela lexia simples jiló:

[...] Saudade assim faz ruê


E amarga qui nem jiló
Mas ninguém pode dizê
Que vivo triste a chorar
Saudade o meu remédio é cantá
Saudade o meu remédio é cantá.

Enfim, a natureza polissêmica do sinal-palavra “remédio” assume o sentido de “solução”


para o “mal” da amarga saudade que acomete o enunciador: cantar.
195

Em “Riacho do Navio” (1955), a descrição da saudade do lugar é antecipada por uma


visão do percurso do riacho, metaforicamente retratado em sua passagem pelas terras
pernambucanas:

Riacho do Navio
Corre pro Pajeú
O rio Pajeú vai despejá
No São Francisco
O rio São Francisco
Vai batê no mei do má
O rio São Francisco
Vai batê no mei do má

A lexia Riacho do Navio significa um curso fluvial temporário que atravessa o sertão
pernambucano. Ele nasce no município de Betânia e deságua no Rio Pajeú, na cidade de
Floresta. O sentimento melancólico frente ao lugar deixado para trás, desperta o desejo de
regressar ao sertão pernambucano:

[...] Ah! Se eu fosse um pexe


Ao contrário do rio
Nadava contra as águas
E nesse desafio
Saía lá do má pro
Riacho do Navio
Eu ia direitinho pro
Riacho do Navio
Pra ver o meu brejinho [...]

O brejo aciona o sentido costumeiro de zona de terras baixas, alagadiças e férteis.


Carinhosamente pode ser chamado de brejinho. Recuperando o cenário de criação do texto, o
sentido especializa-se como um lugar geograficamente marcado, pois também designa o nome
da fazenda de propriedade do pai de Zedantas, compositor parceiro do locutor Gonzaga. O
Riacho do Navio passava dentro da fazenda Brejinho.
No Nordeste brasileiro, principalmente nos fins do século XIX, o gado vivia solto, em
grandes extensões de terras indivisas, em busca de pasto. Desse modo, era preciso realizar as
pega de boi, ou seja, o trabalho dos vaqueiros para reunir o gado solto na caatinga, o qual
deveria ser marcado a ferro e entregue aos seus donos. O enunciador faz referência a essas
tradições nos versos abaixo:

[...] Fazer umas caçada


Ver as pegá de boi
Andá nas vaquejada
196

Segundo Queiroz (1986, p. 19), antigamente, “a propriedade dos animais não era
garantida por cercas, mas por sinais e siglas gravadas a fogo em seus flancos, completadas por
cortes específicos nas orelhas”. Atualmente, o sentido das pegas de boi são disputas entre
vaqueiros cujo objetivo é resgatar uma rês, após ter sido solta no mato. De outra forma, os
versos acima remetem ao cenário cultural das vaquejadas, que, no falar rural nordestino, são os
torneios festivos, organizados pelos criadores de gado, em que dois vaqueiros, montados em
cavalos, buscam derrubar as reses, puxando-as pela cauda.
O tom bucólico do cenário nordestino é ainda lembrado pelo enunciador como espaço
de sossego:

[...] Dormir ao som do chucai


E acordá com a passarada
Sem rádio, sem notíça
Das terra civilizada
Sem rádio, sem notíça
Das terra civilizada.

Enfim, em contraste com o sentido de lugar de vivência humana nas terra civilizada, ou
seja, no espaço urbano, lugar de vida social considerada mais evoluída, o enunciador deseja
mesmo é a vida do campo e, ao cair da tarde, ouvir o acalanto do tilintar dos chocalhos, a sineta
de bronze que contém um badalo e que se prende ao pescoço do gado; pela manhã, anseia o
canto do passaredo no arrebol do sertão.
A saudade é também evocada pela lembrança de encontros amorosos embaixo de
árvores típicas do sertão, como nas canções “Juazeiro” e “Umbuzeiro da saudade”:

Juazeiro, juazeiro
Me arresponda, por favô,
Juazeiro, velho amigo,
Onde anda o meu amor?
Juazeiro, não te alembra
Quando o nosso amor nasceu
Toda tarde à tua sombra
Conversava ele e eu [...]

O juazeiro (Ziziphus Joazeiro) é árvore alta e copada, característica da caatinga


nordestina cuja casca contém saponina, que serve como sabão e dentifrício. O Juazeiro também
é conhecido entre os sertanejos pela metáfora funcional laranjeira-de-vaqueiro, devido ao seu
fruto, juá, possuir coloração amarela, ser rico em vitamina C, além de servir de alimento para
os vaqueiros embrenhados na mata nordestina.

Umbuzeiro véio
197

Véio amigo quem diria


Que tuas folhas caídas
Tuas galhas ressequidas
Íam me servir um dia [...]

O umbuzeiro é uma árvore nativa do semiárido nordestino, que produz o “umbu” ou


“imbu”, fruto cuja polpa é comestível e de sabor agridoce. Aparece na caatinga e tem copa
densa, dando boa sombra para os namorados que procuram se abrigar sob suas “galhas” –
variante usada no sertão para “conjunto de galhos” (véio amigo, quem diria, tuas galhas
ressequidas íam em servir um dia). O umbuzeiro, resistente à seca, foi chamado por Euclides
da Cunha (2002 [1903]) de árvore sagrada do Sertão. É também conhecida pela metáfora
funcional árvore que dá de beber. Essa atribuição de sentido advém do fato de o umbuzeiro,
além de fornecer alimento para homens e animais, armazenar água em tubérculos, “batatas”,
que se formam em suas raízes. Durante a seca prolongada, o sertanejo, como último recurso,
retira essas “batatas” da terra para matar a sua sede. Assim, reconhecer o umbuzeiro como
“árvore que dá de beber” revela uma motivação de ordem cultural para o agrícola.
Ao lado das confidências à flora, o sujeito enunciador se compara a uma espécie da
avifauna nordestina em busca do amor perdido:

[...] Hoje vivo pelo mundo


Tal e qual o vem-vem
Sobiando o dia inteiro
Quando vejo um umbuzeiro
Me lembro de ti meu bem.

O vem-vem (eufonia chlorotica) é um pássaro de pequeno porte cuja vocalização parece


repetir as frases “vem-vem”. Logo, a motivação semântica do nome é onomatopaica. Vale
repisar, com Ferrarezi Jr. (2010, p. 193), que essa imitação sonora atribuída ao pássaro tem
influência cultural, já que os “sons prototípicos atribuídos aos elementos naturais variam de
cultura para cultura e são diferentemente materializados nas respectivas línguas”. Assim, em
algumas partes do país, as vocalizações da ave assumem as formas “vim-vim”, fim-fim” ou “vi-
vi” em vez de “vem-vem”. O vem-vem macho tem cabeça roxa e testa amarela, dorso com
plumagem de cor azul e o ventre de cor amarela, sem a presença da cor verde, comumente
associada à esperança em nossa cultura. Todavia, na tradição do Nordeste rural, é ave de bons
presságios; ao contrário da “acauã” (herpetotheres cachinnans), que também parece vocalizar
o próprio nome, mas é ave de mau agouro. Os sertanejos mais idosos acreditam que, se o vem-
vem cantar próximo a uma residência, indica que os moradores receberão a visita de alguém
muito desejado ou que seu canto trará boas notícias de cura para alguém. Na canção, o
198

enunciador, comparando-se ao “vem-vem”, vive a assobiar, desejando que seu canto prenuncie
o feliz retorno da mulher amada.
Na saudosa solidão, o enunciador indaga também a outro pássaro o paradeiro de seu
amor. É o que enfatizam os versos da canção “Sabiá”:

[...] Tu que anda pelo mundo, sabiá


Tu que tanto já voô, sabiá
Tu que fala aos passarinho, sabiá
Alivia minha dô
Tem pena d'eu, sabiá
Diz por favô, sabiá
Tu que tanto anda no mundo, sabiá
Onde anda o meu amor, sabiá?

A lexia sabiá representa o nome comum dado a vários pássaros canoros de pequeno e
médio portes, da família dos turdídeos, de plumagem marrom, cinza e ventre levemente
alaranjado; por isso é conhecido pela lexia-composta (sinal-palavra) sabiá-laranjeira (Turdus
Rufiventris). Sua distribuição geográfica abrange toda a costa leste brasileira. No Nordeste, em
menor número, é mais comum a espécie que possui o ventre de cor mais clara. Em alusão ao
caráter peregrino do pássaro, que migra para regiões mais quentes no inverno (tu que tanto já
voô), o enunciador busca aliviar a saudade, indagando, angustiado, sobre o destino da amada:
“diz, por favor, sabiá; tu que tanto anda no mundo, sabiá”. Segundo especialistas, o sabiá-
laranjeira é considerado a ave brasileira de melhor canto. Logo, o enunciador tem a esperança
poética de que o canto do sabiá possa encantar e chamar a atenção de sua amada, revelando o
seu paradeiro (onde anda o meu amor, sabiá?).
Um registro importante é o de que o Decreto de 3 de outubro de 2002 instituiu o sabiá
como símbolo representativo da fauna ornitológica brasileira, sendo culturalmente considerada
a ave nacional do Brasil.
Algumas canções usam lexias que ilustram também o sentimento melancólico das
lembranças dos folguedos sertanejos, tema da canção “Noites Brasileiras” (1954):

[...] Ai, que saudades que eu sinto


Das noites de São João
Das noites tão brasileiras nas fogueiras
Sob o luar do sertão.

Nesses versos, o sentimento saudosista é provocado pelo distanciamento do espaço areal


nordestino onde se festejava o verdadeiro, ou seja, o tradicional São João. No Nordeste, a noite
junina é uma data festiva com significado cultural muito forte, já que é o momento de realização
199

de práticas folclóricas e religiosas. Na noite dedicada ao santo, dança-se o forró, lançam-se


fogos de artifício, formam-se quadrilhas juninas, e fogueiras de iniciativa familiar são postas
em frente às residências em homenagem a São João (CASCUDO, 2012 [1979]). Nessa canção,
podemos observar a especialização de alguns sentidos:

[...] Meninos brincando de roda


Velhos soltando balão
Moços em volta à fogueira
Brincando com o coração
Eita, São João dos meus sonhos
Eita, saudoso sertão.

O enunciador usa lexias representativas dos costumes rurais nordestinos para


demonstrar a participação de crianças, jovens e idosos em brincadeiras típicas da roça que
mantinham acesa a chama das tradições juninas no sertão: brincar de roda, brincar com o
coração e soltar balões.
Brincar de roda é uma tradição de origem lusitana que chegou ao Brasil e tem o sentido
de cantar, girar de mãos dadas em círculo. Contrariamente aos tons merencórios das
modinhas147, as músicas de brincadeiras de roda são sempre “vivas, arrebatadas, impulsivas,
folionas”, em tons maiores, “[...] estimuladores de movimento e de vida” (CASCUDO, 2009
[1934]).
Brincar com o coração é uma expressão idiomática que assume o sentido de “paquerar,
flertar, namorar”. Os namoros no Sertão começavam com olhares e gestos sutis. Depois,
evoluíam para encontros secretos, após esquivas estratégicas da vigilância dos irmãos ou dos
genitores da moça cortejada. Os encontros sociais, sempre supervisionados, ocorriam em
igrejas, quermesses, festas juninas e alguns bailes de forrós selecionadíssimos, nos quais era
proibida a entrada de mulheres “faladas”, ou seja, difamadas. Chegar a tocar na futura noiva já
era algo mais difícil. Na casa da pretendente, o casal não ficava juntinho. Onildo de Almeida148,
parceiro de Gonzaga, em comunicação pessoal a este pesquisador, revelou que os pretendentes
costumavam sentar à mesa em cantos opostos, vigiados pelos pais e pelo “alcoviteiro”. Em
tempos de cidades sem energia elétrica no interior, “alcoviteiro” era o sentido metafórico
especializado para o candeeiro de latão com pavio ardente, mergulhado em querosene (campo
semântico: utensílio). Recebia o nome de alcoviteiro, porque, colocado sobre a mesa, iluminava

147
Nome genérico dado às cantigas em geral. É considerado o primeiro gênero de canção popular brasileira. Sua
temática era inicialmente espirituosa e depois amorosa (HOUAISS; VILAR, 2009).
148
Onildo é o compositor da canção “a Feira de Caruaru”, gravada em 1957 por Luiz Gonzaga.
200

a sala escura e funcionava como “intermediário entre os namorados” (campo semântico:


humano), alcovitando o namoro.
E os namoros que não tinham a concordância dos pais criavam um clima de alta
animosidade entre pretendente e genitor, como o descrito abaixo pelo enunciador-Gonzaga no
causo “volta à casa”:

[...] – só fugi de casa porque eu queria casá. Mãe era mulher, há... violenta! Casá?...
Hum!
Mas eu era tocadozim de pé de serra, namoradô como o diabo, neguim fiota.
Namorei uma estudante.
Ah, minino, quando o pai da moça sôbe... deu uma pôpa da mulésta!
– Ih, Tocadozim sem-futuro.

O rapaz conquistador é o fiota, lexia que significa “sujeito enxerido, namorador”. A


insistência deixava os pais das moças muito incomodados, a ponto de “dar uma pôpa da
muléstia”, expressão idiomática que especializa sentido de “ficar muito zangado, irritado”. É
uma referência aos saltos e pinotes de cavalos e burros ainda não amansados no sertão. Os
pretendentes sem-futuro, ou seja, os que não têm boas perspectivas financeiras no futuro, são
os rapazes pobres, considerados fadados ao insucesso e que não têm condições de sustentar uma
família.
Essas desavenças podiam levar à discussão ou até a um possível confronto:

– Lui?... Casá?... Hum!... Dexa ele vim pra cá, que eu dou-lhe uma pisa!
– Eu sôbe... No dia da fêra, tomei umas lapada de cana. Escorei o home na fêra:
Ô Seu Raimundo, o senhor me chamou de molequim sem-futuro?
– E o que maih, Luiz?
– O senhor disse que eu era um tocadozim de meia-tigela?
– E o que maih, Luiz?
– Que eu num prestava pra casá com a sua filha?
– E o que maih, Luiz? Mintira, Luiz. Isso é invenção desse povo! Tu? Meu coração?
Fi de Januáro e Santana?... Há!

Dar uma pisa é bater em alguém, é o ato de surrar, espancar. O enfrentamento podia ser
encorajado com uma lapada de cana, cujo sentido especializado neste contexto e cenário é “gole,
dose de cachaça”. Assim, o desafiador sentia-se mais disposto para escorar o home na “fêra”.
Em Exu, escorar alguém significa “enfrentar, desafiar alguém para briga”.
No causo 2, Gonzaga conta como foi se gabar entre os amigos por ter escorado o padrasto
da namorada, que era contrário ao namoro do sanfoneiro com a enteada:

– Taí, diz que o home era brabo? Fui lá, escorei ele no mei da fêra...
Disse-lhe o diabo! Disse as ... Eu disse as do fim! E ele se acovardô!
Nessa hora mehma, ele tava conversando com mãe, lá na fêra das corda!
201

– Santana, foge daqui com Luiz, pra evitá uma desgraça.


Me insultô. Só não dei-lhe umas tapa porque é teu filho!
– Na mehma hora mã/ nós voltamu pra casa.
Cheguemu em casa, assim, todo mundo se admirou:
– Mas Santana, a essa hora? Já voltou da fera?
Num vendeu nem as corda? O que é que houve?
– Daí a pouco, menino, foi um São João de rei lá dento da camarinha:
– Tá, tá! Tu queria matá o home? Toma, toma... Valente! Tá, tá!
– Meu pai, na porta. Quando eu fugi, que eu fui passando perto de meu pai...
Meu pai nunca tinha me batido, aproveitô e imendô!
Ah, menino! Só voltei dezesseis ano depois!

Dizer o diabo e dizer as do fim são expressões idiomáticas sinônimas que equivalem a
“desabafar com palavras duras; dizer graves injúrias a alguém”. A primeira parece ser mais
comum no espaço urbano, enquanto dizer as do fim (e sua variante, dizer as últimas) está mais
associada ao Nordeste rural. Quando se refere a São João de rei, Gonzaga alude a uma surra
em que há lamentação e choro alto, por associação ao barulho dos fogos em noite de São João.
Na variante rural nordestina, “rei” vem de “relho”, que é um açoite – tira de couro cru de duas
ou três peças trançadas para açoitar os animais ou amarrar os punhos da rede no armador
(RAIMUNDO NONATO, 1980). A camarinha onde ocorreu a suposta pisa é uma lexia em
desuso, que especializa o sentido de quarto de dormir (no sertão). Segundo a explicação de
Pereira da Costa (1934), advém de pequena câmara de dormir, assim como camarim e camarote.
A não aprovação de namoros e a dificuldade do contato físico entre os casais com
desejos visuais mais tórridos antecipavam, muitas vezes, a união dos corpos e os casamentos.
Etapas do galanteio eram “queimadas”, pois os namorados não aguentavam esperar até a data
do conúbio oficial que poria fim à castidade da moça. É nesse cenário de mentalidade rural
conservadora que surgem os sentidos rurais de “bulir”, “fugir” ou “roubar a noiva”. Esses
sentidos marcaram muitos namoros fugidios nos sertões nordestinos do início do século passado.
Essas práticas, por sinal, eram censuradas pelo Código Penal brasileiro e classificadas jurídica
e culturalmente como crimes de “sedução”149 e “rapto consensual” 150, respectivamente.
“Bulir”, nesse cenário, especializa o sentido maior de “tirar a virgindade”, “seduzir”. O
rapaz afoito que “bulisse” com uma “moça”, isto é, uma jovem virgem, tinha de assumi-la e
devia logo providenciar o matrimônio. Do contrário, poderia ter sua saúde ou vida seriamente

149
Até 2005, o Código Penal brasileiro previa o crime de sedução em seu art. 217: seduzir mulher virgem, menor
de 18 (dezoito) anos e maior de 14 (quatorze), e ter com ela conjunção carnal, aproveitando-se de sua inexperiência
ou justificável confiança: pena – reclusão, de 2 (dois) a 4 (quatro) anos. Esse tipo penal foi revogado pela Lei no
11.106/2005.
150
O art. 220 do Código Penal estabelecia pena de detenção, de um a três anos, se a raptada fosse maior de catorze
e menor de vinte e um anos, e o rapto fosse praticado com seu consentimento. Se fosse violento, reclusão de dois
a quatro anos. Esses dispostos também foram revogados pela Lei no 11.106/2005.
202

comprometida pelo pai da jovem “desonrada”, geralmente considerada uma “vítima” do


suposto “agressor”. Já “fugir” ou “roubar a noiva” com o consentimento desta, era muito
comum no Sertão, especialmente quando os pais não concordavam com o namoro ou noivado.
Era uma forma de forçar os pais a aceitarem as opções das filhas. Não obstante a dificuldade de
ficarem a sós, os namorados combinavam, previamente, o dia, a hora e o sinal que serviria como
“senha” para empreender a fuga, comumente realizada em lombo de cavalo. Em 1963, Gonzaga
interpretou a canção “casamento improvisado”, na qual descreve uma dessas supostas senhas:

[...] Era quaje quatro hora


Cheguemo na encruziada
Lá na baixa do Tinguí
Mané dixi, vai agora
Que eu te espero por aqui
Dá dois miado de gato
Dá dois miado de gato
Que ela vem atrás de ti.

Às vezes, no dia do rapto consensual, alguns amigos eram convidados para


testemunharem que o namorado não iria bulir com a moça, mas apenas fugir com ela e entregá-
la na casa de um amigo ou compadre que a “guardaria” até os pais aceitarem, irremediavelmente,
a consumação do casamento (MEDEIROS, 2015).
Por fim, os valores semântico-culturais de “brincar com o coração”, nos termos
analisados, desencadearam eventos e mudanças sérias na sociedade de antanho, rompendo os
antigos costumes endogâmicos pela desobediência ao pátrio poder dos patriarcas do Sertão no
século passado.
Em “No meu Pé de Serra” (1946), o enunciador destaca o sentimento melancólico
causado pela distância e a vontade irresistível de retornar ao lugar de origem:

Lá no meu pé de serra
Deixei ficá meu coração
Ai, que saudades tenho
Eu vou voltá pro meu sertão.

Pé de serra é o lugar localizado próximo à base da serra ou da colina (no sertão), assim
denominado pela percepção de características geográficas associadas à extremidade dos
membros inferiores do corpo humano. É uma expressão de grande valor sentimental para o
sertanejo, por isso o uso também metafórico do coração como local de afeto, de saudosas
emoções. Da mesma forma, evoca o sentido de lugar de sossego, no campo, em contraposição
à vida urbana. Atualmente a lexia pé de serra tem sido usada para qualificar o forró de “raiz”,
ou seja, a “festa popular que envolve a dança de ritmos variados: baião, xote, xaxado, coco,
203

toada151, marcha junina, e até mesmo a lambada152, o maracatu153 e a rancheira, dentre outros
(COSTA, 2001).
É no pé da serra que o sertanejo, muitas vezes, decide montar o seu rancho, sinal-palavra
polissêmico que, aqui, assume o sentido pleno de casa humilde do agricultor nordestino:

[...] No meu roçado trabalhava todo dia


Mas no meu rancho eu tinha tudo o que queria

A lexia roçado, por sua vez, significa terra ou sítio de plantação. É geralmente referido
como o terreno usado para um pequeno plantio feito pelo sertanejo e donde ele retira o seu
sustento. A vida regrada do sertanejo contrapõe-se ao desejo de acumulação do homem urbano.
Para o enunciador, trabalhar e sustentar-se em um rancho simples representa “tudo” o que ele
quer. Todavia, fora do Sertão, há pessoas que “querem tudo”. Há, portanto, uma interessante
contraposição entre os sentidos de “tudo que se quer” (valores rurais) e “querer tudo” (valores
urbanos).
A terra deixada para trás era local de trabalho duro, mas também havia espaço para a
alegria e para as festas com dança embalada pela sanfona; por isso, a referência à saudade dos
bailes no interior:
[...] Lá se dançava quase toda quinta-feira
Sanfona não faltava e tome xote a noite inteira.

A sanfona chegou ao Brasil por meio de imigrantes alemães, tendo sido introduzida no
norte do país por volta de 1864-1870. De fato, a lexia sanfona é um instrumento intimamente
ligado à cultura nordestina, recebendo diversas designações, resultantes de operação
metonímica (fole), empréstimo do italiano (concertina, [fis]armonica), e de uso metafórico (pé-
de-bode), que, na região, é o nome dado à sanfona de oito baixos.
Enfim, a lexia xote designa uma dança de salão bastante difundida no Nordeste e
executada ao som da sanfona, triângulo e zabumba. Versão do alemão schottische, era
originalmente uma dança aristocrática. Depois, passou para o povo, incorporando-se aos “bailes
populares e regionais” no Nordeste (CASCUDO, 2012 [1979], p. 638). Segundo Ramalho
(2012 [2000], p. 272), Gonzaga “refere-se ao xote nordestino como dança com um balanço

151
Cantiga de melodia simples.
152
Dança e música alegre, síntese de elementos negroides, caribenhos e brasileiros, dançada por pares
sensualmente enlaçados (HOUAISS; VILAR, 2009).
153
Grupo carnavalesco pernambucano com pequena orquestra de percussão, tambores chocalhos, gonguê (agogô
dos candomblés baianos e das mucambas cariocas) (CASCUDO 2012 [1979]).
204

peculiar e que contém letra humorística”. É o sentido especializado no verso transcrito


anteriomente.

5.1.3 Campo semântico-cultural: terra


Conforme já referido, na temática das letras de Gonzaga e dos principais parceiros, os
conteúdos se misturam de forma permanente. Em geral, o tema que enfatiza a terra surge da
saudade dos lugares e das pessoas deixadas para trás, por causa do deslocamento interno,
fugindo da estiagem (Asa Branca, A Volta da Asa Branca). Na canção Paraíba (1952), é
perceptível o pesar do nordestino expulso de seu torrão por causa dos sinais de agravamento
pela falta d’água:

Quando a lama virô pedra e mandacaru secou


Quando ribaçã de sede
Bateu asa e voô
Foi aí que eu vim me embora carregando a minha dô [...]

Os efeitos provocados pela estiagem prolongada acionaram as seguintes construções


linguísticas: a “lama virô pedra”, o “mandacaru secou” e a “ribaçã bateu asa e voô”. São
sintagmas que, inseridos nesse contexto, descrevem um cenário típico da terra nordestina
durante a seca: não é apenas a água que evapora mas também a flora que definha e as espécies
da fauna que fogem do sertão. A “ribaçã” tem seu sentido metaforicamente construído a partir
de uma informação colhida da experiência do sertanejo: a “arribação” é o ato habitual de
deslocamento da ave até a margem alta, a “riba”, de um rio. Além disso, por ter o costume de
migrar em grupos compactos, é também conhecida pela metáfora funcional “pomba-de-bando”.
Como se vê, as adversidades são inúmeras. Mas isso parece “alimentar” ainda mais a
veia poética do enunciador que, encarnando a figura do migrante, enaltece a sua terra natal em
seu falar rural nordestino:

[...] Hoje eu mando um abraço pra ti, pequenina


Paraíba masculina, Muié macho, sim sinhô
Paraíba masculina, Muié macho, sim sinhô.

Não obstante o tamanho dessa unidade da Federação (hoje mando um abraço pra ti,
pequenina), a Paraíba 154 é descrita pelo sujeito enunciador como um estado pequeno, mas

154
Em uma ordem decrescente, a Paraíba é o vigésimo-primeiro estado brasileiro em área territorial (56,4 mil
Km2).
205

valente. Ademais, o sentido metafórico usado no refrão da canção, Paraíba masculina, muié
macho, sim sinhô, é uma alusão a um modo de ser (mesmo em referência ao Estado da Paraíba)
que, embora seja referente ao gênero feminino, possui bravura tal qual ao de um homem, do
macho. Esses deslocamentos de sentidos (divisão territorial/traço humano e ser humano
masculino/ser humano feminino) são uma referência ao espírito de luta da Paraíba, liderada
pelo então governador João Pessoa, contra a “política do café com leite” que predominava na
República Velha. Em contrapartida, há quem interprete muié macho como uma referência à
valentia da mulher paraibana, simbolizada pela resistência feminina à invasão, pela polícia
militar, de Patos de Irerê que, à época, era distrito do município paraibano de Princesa (FIRMO,
2012).
Para se entender essas motivações semânticas, é preciso recorrer aos cenários políticos
brasileiro e paraibano em 1930. Naquele ano, Princesa Isabel foi o palco da Revolta de Princesa,
liderada pelo coronel José Pereira de Lima, criador do Território Livre de Princesa. A figura do
coronel foi marcante nas relações de poder que se desenvolviam na Primeira República (1889-
1930), a partir dos municípios. Segundo Carvalho (1997, p. 3), nessa época, o coronelismo era

[...] um sistema político nacional, baseado em barganhas entre o governo e os coronéis.


O governo estadual garante, para baixo, o poder do coronel sobre seus dependentes e
seus rivais, sobretudo cedendo-lhe o controle dos cargos públicos, desde o delegado
de polícia até a professora primária. O coronel hipoteca seu apoio ao governo,
sobretudo na forma de votos. Para cima, os governadores dão seu apoio ao presidente
da República em troca do reconhecimento deste de seu domínio no estado.

A patente de coroné era dada aos proprietários rurais pela Guarda Nacional no Império
e, posteriormente, pelo governo de Epitácio Pessoa (CABRAL, 1982), durante a Primeira
República. Para Carvalho (1997), esse sistema foi resultado do federalismo implantado pela
República em substituição ao centralismo imperial.
Pois bem. Na Paraíba, José Pereira era o mais poderoso coronel do sertão paraibano.
Rico produtor e exportador de algodão, viu seus lucros serem atingidos pela política tributária
do então presidente do Estado, João Pessoa. Além disso, sentindo-se desprestigiado
politicamente e sabendo da animosidade entre as autoridades federais e estaduais, declara o
município de Princesa subordinado somente ao Governo Federal, presidido por Washington
Luís. Com isso pretendia provocar uma intervenção federal no Estado e a consequente
destituição de João Pessoa do poder. João Pessoa reage e destitui o prefeito, o vice-prefeito e o
promotor, ligados ao “coronel”. Em primeiro de março de 1930, tropas da Polícia Militar do
Estado e do destacamento policial de Princesa, sob o pretexto de “garantir as eleições”, entram
206

em choque (Mello, 2002). Iniciava-se então a referida Revolta ou Guerra de Princesa, que só
acabaria em julho de 1930 com o assassinato de João Pessoa. O homicídio não aconteceu em
decorrência da guerra em si, mas da inimizade de João Pessoa com o advogado João Dantas.
Morto João Pessoa, não havia mais razão para a revolta dos coronéis. Importante destacar que,
nessa época, João Pessoa era também candidato à vice-presidência do Brasil na chapa de
Getúlio Vargas, e o seu homicídio serviu de pretexto político para a eclosão da “Revolução de
30”, pondo fim à República Velha e, simbolicamente, ao poder dos coronéis.
Anos depois, em 1952, a canção Paraíba, de Gonzaga e Humberto Teixeira, foi lançada
originalmente como jingle político da campanha, para o Senado, de José Pereira Lira, advogado
paraibano, adversário político de José Américo de Almeida (ÂNGELO, 2006). Na canção, o
político é enaltecido como uma pessoa forte, resistente tal qual o pau-pereira (Geissospermum
laeve), mas a alusão também remete, inelutavelmente, à figura homônima do líder político de
Princesa:

[...] Eita, pau pereira


Que em princesa já roncô
Eita, Paraíba
Muié macho sim, sinhô.

Por outro lado, roncar tem o sentido maior especializado em produzir ruído forte ou
começar uma briga. Pereira da Costa (1937, p. 640) registra, por sinal, o uso de “roncar o pau”
com o sentido de “pancadaria velha, surra, tunda”. Segundo Firmo (2012), a motivação
semântica de roncou tem outra origem: a fabricação artesanal das armas dos combatentes de
Princesa, feitas a partir do pau-pereira.
Por fim, reitere-se que, para a compreensão dessas construções e sentidos nelas
especializados, deve-se, necessariamente, ter em conta os cenários sociopolíticos e aspectos
culturais paraibanos durante a Revolta de Princesa e a chamada “Revolução de 1930”.
Em “Estrada de Canindé” (1950), o sujeito enunciador descreve a paisagem campestre
do sertão de Canindé, cidade do semiárido cearense para onde se dirigem milhares de pessoas,
todos os anos, muitas delas a pé155, em verdadeira romaria para louvar e pagar promessas a São
Francisco das Chagas ou, para os íntimos romeiros, São Francisco de Canindé:

Ai, ai, que bom,


Que bom, que bom que é

155
A mãe do pesquisador ainda criança partiu, a pé, de Macau, no Rio Grande do Norte, até Canindé para pagar
promessa com um grupo de romeiros. O grupo percorreu, em apenas 11 dias, cerca de 392 quilômetros até a cidade
cearense.
207

Uma estrada e uma caboca


Cum a gente andando a pé.

O sentido costumeiro de caboca é mulher nascida de branco e índia, de cor morena com
cabelos negros e lisos. Em sentido maior, a caboca é a nordestina roceira, de ascendência
indígena e modos desconfiados.
A jornada longa e exaustiva até Canindé é compensada pela imponência das belezas
naturais, bem como da fauna:
[...] Uma estrada e a lua branca
No sertão de Canindé.
[...] Vai moiando os pés nos riacho
Que água fresca, nosso Sinhô
[..] Mas o pobre vê nas estrada
O orvaio beijando as flô
Vê de perto o galo campina
Que quando canta muda de cô.

A lua branca é uma alusão à claridade da lua cheia iluminando as noites escuras do
sertão. A metaforização utilizada em orvaio beijando as flô ressalta a beleza da paisagem
campestre, descrevendo o fenômeno do depósito de gotículas de vapor condensado sobre as
folhas resfriadas (HOUAISS; VILAR, 2009). A lexia galo campina tem como referente um
pássaro canoro típico do Nordeste, que possui plumagem da cabeça e pescoço de um vermelho
bastante intenso, que lembra as vestes dos cardeais, dignidades eclesiásticas da igreja; por isso
a ave é também conhecida como cardeal do Nordeste.
As escolhas lexicais na canção destacam que a beleza da paisagem sertaneja até o
santuário em Canindé só é desfrutada por completo, pelos romeiros que detêm poucas posses,
mas que são ricos de fé, justamente por fazerem a peregrinação caminhando:

[...] Vai oiando coisa a grané


Coisas qui, pramode vê
O cristão tem que andar a pé.

No falar rural nordestino a grané significa “uma grande quantidade de coisas”. Desse
modo, oiando coisa a grané denota observar a exuberância dos elementos que compõem a
paisagem sertaneja. Na canção, pramode tem o sentido equivalente à lexia gramatical “para”.
Conforme vimos, Marroquim (1996 [1934]) considera-a uma construção originária da
transformação da expressão “por amor de”, do português antigo, podendo ainda significar “por
causa de”, “a fim de” e “com a intenção de”.
208

5.1.4 Campo semântico-cultural: religião e crenças


No que tange a este campo semântico-cultural, o locutor faz uso de lexias que
demonstram a fé cristã do homem do sertão, predominantemente representada pelos seguidores
da Igreja Católica Apostólica Romana156. O sertanejo, fervoroso devoto, busca resignar-se pela
sorte vivida e apela para a divindade, santos ou religiosos venerados pelos nordestinos, a fim
de aplacar os sofrimentos decorrentes da seca prolongada e da dor da perda. São representantes
desse campo várias lexias, como as que aparecem na canção “Viva meu Padim”:

Olha lá, no alto do horto


Ele tá vivo, padim não tá morto
Olha lá, no alto do horto
Ele tá vivo padim não tá morto
Viva meu padim, viva meu padim Ciço Romão
Viva meu padim, viva também Frei Damião
Em todos os anos setembro e novembro
Vou ao Juazeiro alegre e contente
Cantando na frente sou mais um romeiro

Dentro do campo semântico religião e crenças, a figura do Padre Cícero Romão Batista
(1844-1934) ou, afetuosamente, no diminutivo, Padim Ciço para os nordestinos, é imperativa.
Padim Ciço foi um religioso nordestino que teve suas ordens sacerdotais suspensas (ficou
proibido de celebrar missas, confessar, pregar e administrar sacramentos) pela Igreja Católica
devido à alegação de um suposto milagre de transformação da hóstia em sangue que, à época,
1889, foi considerado um embuste. Tornou-se líder político na cidade de Juazeiro do Norte, no
Ceará, topônimo inspirado na planta homônima, Juazeiro (Ziziphus Joazeiro).
O Padre Cícero tentou criar em Juazeiro do Norte “o que hoje se chamaria de um ‘polo
de desenvolvimento’. Para atingir seu objetivo, “aliou-se à poderosa estrutura coronelista, que
aceitou totalmente” (QUEIROZ, 1986, p. 14). Padim Ciço ficou, então, conhecido na região do
Cariri cearense pela metáfora funcional “o coronel de batina”. Sua luta, portanto, abrangia
pessoas de diferentes camadas sociais, merecendo o apoio e devoção dos mais humildes. A
informação contida nessa renomeação (Padre Cícero > coronel de batina) tem origem no
necessário conhecimento do cenário sociocultural nordestino.
Mesmo com as restrições do Vaticano, até sua morte em 1934, o padre nunca deixou de
ser venerado por milhões de pessoas, principalmente nordestinos, que vão em peregrinação a
Juazeiro todos os anos. Não obstante a sua suspensão sacerdotal no passado, em dezembro de
2015, foi anunciado o perdão da Igreja Católica ao Padim Ciço.

156
Na década de 70, os católicos representavam 99,7% da população brasileira. No Censo de 2010, o percentual
caiu para 64,6%.
209

A “religiosidade nordestina” de Gonzaga era muito forte. Quando o sanfoneiro morreu,


o seu corpo seguiu de Recife até Juazeiro, no Ceará, antes de chegar a Exu. Um mês após a
morte de Gonzaga, o filho Gonzaguinha revelou, em uma gravação, o testemunho sobre o
desejo do pai de passar pela cidade sagrada para os nordestinos: “é o centro das atenções do
Nordeste todo, tem nordestino de todos os cantos, a religiosidade está toda ali, ali se resume o
Brasil, sim, porque as pessoas vão sempre pedir alguma coisa” (ECHEVERRIA, 2006, p. 285).
Logo, a unidade lexical memorizada Padim Ciço remete aos atos de devoção e peregrinação
dos nordestinos em relação ao padre que, mesmo sem ter sido canonizado, é considerado,
metaforicamente, um santo da região, por causa de sua conduta julgada impecável e pela
atenção aos pobres, sendo merecedor de cultos religiosos todos os anos.
A devoção do enunciador enfatizada na canção é sem interesse. Não há exigência de
troca, nem obrigatoriedade do recebimento de bênçãos para que o Padim Ciço seja venerado:

[...] Vou ver meu padim


De bucho cheio ou barriga vazia
Ele é o meu pai, ele é o meu santo
É minha alegria.

A fé do romeiro é genuína, por isso não interessa se ele foi abençoado com comida ou
não – a lexia bucho é sinônima de barriga, estômago humano –, pois o Padim Ciço é o pai, é o
santo, é a alegria em quaisquer condições.
A canção menciona também o local onde está situado o monumento erguido, em
homenagem ao religioso, em 1969: o alto da Serra do Catolé (conhecida como alto do Horto).
A lexia Catolé designa uma palmeira (Syagrus Cearensis) e seu fruto, o coco-catolé ou catolé.
O catolezeiro pode atingir até dez metros de altura e se distribui pelos estados do Ceará,
Pernambuco, Paraíba e Alagoas. Para Souto (2014, p. 50), o catolé é bem adaptado a serras e
“áreas de solos rasos com afloramentos rochosos”. Antigamente, quando os romeiros visitavam
Juazeiro e não encontravam o Padim Ciço na “cidade”, dirigiam-se à colina onde ficava sua
propriedade rural. Para chegar à residência de descanso do religioso, precisavam percorrer uma
estrada chamada de Areia Grossa para alcançar o alto da serra. As visitações foram se
avolumando, e os sentidos atribuídos a esses lugares foram sendo transformados. Segundo
Braga (2014, p. 199),
[...] com o passar do tempo, aquela colina passou a ser chamada de Horto, ainda no
contexto das primeiras peregrinações. E a estrada da Areia Grossa passou a ser
chamada de Caminho do Horto. Deve-se considerar, contudo, que a adoção desta nova
nomenclatura não significou apenas o estabelecimento de novos nomes para antigos
210

lugares e caminhos. A inclusão dessas alcunhas estava atrelada à incorporação de


novos sentidos e novas práticas nas romarias de Juazeiro. E, para os romeiros, no que
tange ao Horto e ao caminho que se percorria para lá chegar, isso implicava uma
prática ritual de sacrifício.

Há, portanto, no novo sentido atribuído à serra, uma clara motivação religiosa pela
evocação a um lugar de padecimentos, por alusão ao Horto do Getsêmani, jardim no sopé do
Monte das Oliveiras, local da agonia de Jesus antes de ser capturado pelos romanos. A subida
do Horto passou a ser uma prática de forte tradição cultural e religiosa, alterando o sentido
original da Serra do Catolé, um lugar apenas ligado a costumes e comportamentos religiosos
do povo nordestino.
Outras lexias representantes desse campo semântico são encontradas em canções como
“Jesus sertanejo”, “padroeira do Brasil”, “pedido a São João”, “Ave Maria sertaneja” e “Frei
Damião”:

Frei Damião, onde andará Frei Damião?


Deu-lhe o destino, viver nordestino
É hoje o nosso irmão.

A mesma devoção demonstrada para o Padim Ciço é dedicada também a Frei Damião,
Frei Damião de Bozzano (1898-1997), frade capuchinho italiano que disseminou “as Santas
Missões” pelo interior do Nordeste. Na canção, o enunciador destaca os preparativos matinais
para a organização das “Missões”, evento religioso que reúne grande quantidade de nordestinos
em uma marcha religiosa:

Quando o galo canta na madrugada


Já toda gente de pé se benze na procissão
Numa marcha santa dentro da alvorada

Nesta canção, o locutor reúne e divulga diversas lexias que expressam a devoção dos
fiéis nordestinos à fé católica e a Frei Damião. O cantar do galo na madrugada evoca a metáfora
funcional de “relógio dos pobres” a que se refere Cascudo (2012 [1979], p. 321), anunciando a
proximidade da hora de levantar para os nordestinos das glebas rurais. A alvorada é a hora do
crepúsculo matinal e, por processo metonímico, passou a designar qualquer manifestação
ruidosa com música ou fogos de artifício ao alvorecer de um dia festivo, como é o caso das
procissões, cortejos religiosos e solenes em que os padres são seguidos pelos fiéis. O sacerdote
era considerado um sucessor do Padim Ciço, por isso a lexia onomástica evoca o sentido de
santidade do frei capuchinho:
211

[...] Vai na frente o homem, o quase santo Frei Damião

Nas missões, era indispensável a reza que, além de representar o ato de rezar, a prece,
significa, por processo metonímico, cada uma das contas de um rosário 157 empregado nas
orações (HOUAISS; VILAR, 2009). As pregações de Frei Damião eram anunciadas pela
campa, lexia polissêmica que contém mais de um sentido (laje sepulcral, sineta ou grupo
indígena que habita o sudoeste do Estado do Acre). No entanto, em decorrência de seu uso
nesse contexto e cenário específicos, campa significa “sineta” ou pequeno “sino”:

[...] Com a reza e a campa, desperta, canta


Já chegou o tempo, ninguém perca tempo
Vamos pras Missões,
Pecador te ajoelha, em Deus quem se espelha
Só pode ter de Frei Damião sua proteção [...]

A oração que se faz em posição genuflexa, ajoelhada, transmite o sentido de submissão


do pecante que se curvou à autoridade eclesiástica ou à divindade. Também representa o apelo
desesperado nas horas de aflição (CASCUDO, 2011 [1974]). Frei Damião era considerado um
sacerdote severo, de “linha dura”. O frei desenvolveu um “estilo próprio de evangelização”
representado pelas já referidas Missões (ou Santas Missões) que, por metonímia, representam
o conjunto do trabalho dos missionários. Nessas missões, Frei Damião fazia pregações pelas
cidades sertanejas, dando comunhão, recebendo confissões, fazendo caminhadas de penitências
ao amanhecer, realizando casamentos e batismos. O frei nunca se fixava em uma paróquia e
passava, em média, uma semana em cada município visitado, por isso a referência do locutor
ao caráter peregrino do religioso no primeiro verso: onde andará frei Damião?

5.1.5 Campo semântico-cultural: cangaço


Nas canções de Luiz Gonzaga, é possível vislumbrar também o campo semântico-
cultural do cangaço. Para Pereira da Costa (1937), a lexia cangaço designa “objectos
domesticos de uma casa pobre, humilde, cujo conjunto bem expressa a locução qualificativa de
mobília de pote e esteira, e concurrentemente os vocábulos derivados de cangaçaria, cangaceira,
cangaço e cangaçaes” (PEREIRA DA COSTA, 1937, p. 173, grifos do autor). Segundo Cascudo

157
Oração em honra de Nossa Senhora em que se intercalam ave-marias com a meditação dos mistérios, iniciados
pela oração do padre-nosso e encerrados pelo glória [Divide-se em três partes, das quais cada uma é composta de
cinco dezenas de ave-marias e de cinco padre-nossos.] (HOUAISS; VILAR, 2009).
212

(2012 [1979]), no sertão, refere-se à parafernália do cangaceiro, que inclui armas, munições,
bornais, balas, alimento seco, muda de roupa etc. A motivação semântica da lexia vem
provavelmente do hábito de os cangaceiros usarem clavinotes que passavam pelos ombros, “tal
qual um boi no jugo, isto é, na canga” (QUEIROZ, 1986, p. 15). O “cangaço” é, portanto, termo
metonímico que especializou o sentido para designar um tipo específico de banditismo existente
no Nordeste brasileiro, especialmente da região árida do polígono das secas.
Por derivação, de cangaço + -eiro, temos a lexia “cangaceiro” para designar o sentido
específico de “bandido salteador do sertão nordestino brasileiro”, que aparece na música “Olha
a pisada”, de 1953:

[...] Eu que me criei na pisada


Vendo os cangacero na pisada.

Criar-se em alguma coisa é expressão típica do Nordeste. Especializa o sentido de


crescer, o enunciador, fazendo algo “desde que se entende por gente”. Já a lexia pisada que
aparece nos versos acima não exprime simplesmente a “ação de pisar” ou “pisadela”. No falar
rural nordestino, o sentido maior transmitido pelo sujeito enunciador especializa-se em
“movimento dos pés e do corpo no passo do Xaxado”. Da mesma forma que xaxar significa
dançar o Xaxado:

[...] Cantando e xaxando nos forró do sertão


[...]
Cantando a rendera se danavam no Xaxado.

Além disso, o contexto e cenário expressos nos versos destacam também que a música
faz parte da autobiografia do sertanejo-enunciador, da representação de si mesmo como
indivíduo musical, para quem a música é alimento da alma, necessário à sobrevivência no
Sertão, por isso ele “se criou” “bebendo” e “comendo” música. Assim, até os cangaceiros
tinham essa necessidade de recorrer à “pisada” do Xaxado para sobreviver à caatinga nordestina
e esquecer, ainda que momentaneamente, as investidas das volantes, isto é, as tropas policiais.
O Xaxado refere-se à dança masculina originária de Pernambuco, cujo maior divulgador
foi justamente o cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. De acordo com Cascudo
(2012 [1979], p. 732), os homens dançam o xaxado “em círculo, fila indiana, um atrás do outro,
sem volteio, avançando o pé direito em três e quatro movimentos laterais e puxando o esquerdo,
num rápido e deslizado sapateado”. Segundo ainda o autor, xaxado é onomatopeia do rumor
213

xa-xa-xa das alpercatas, arrastadas no solo. E “se danar no Xaxado” especializa o sentido de
“dançar o Xaxado com bastante disposição”.
A menção ao líder Lampião é associada à valentia, crueldade (“Lampião falou”),
esperteza (“Lampião era besta não”), mas também como apreciador do Xaxado:

[...] Assim era que cantava os cabras de Lampião


Cantando e xaxando nos forró do sertão.

A motivação semântica para o apelido metafórico “Lampião” é descrita por Cascudo


(2012 [1979], p. 390), citando depoimento do Major Optato Gueiros, da Polícia Militar de
Pernambuco, que ouviu do cangaceiro a seguinte explicação: “[...] um companheiro deixou cair
um cigarro e, como não o achasse, eu disse-lhe: – quando eu disparar, no clarão do tiro, procure
o cigarro; e assim foi, quando eu detonava o rifle, dizia “acende, lampião!” Já Queiroz (1986,
p. 47) afirma que Virgulino ganhou a alcunha de Lampião, pois “de tão rápido no tiroteio, sua
espingarda nunca deixava de ter clarão tal qual um lampião”. Em ambas as explicações
aparecem operações de deslocamento de sentidos entre paradigmas culturais, de acordo com a
visão de mundo: utensílio e humano.
A lexia rendeira define a mulher que faz renda, ou seja, aquela que manuseia o tecido
de malha aberta, aplicando-lhe diversos desenhos, a partir do entrelaçamento de fios. Contudo,
o enunciador também usa a lexia rendeira, especializando o seu sentido para designar a própria
canção entoada pelos cangaceiros em suas investidas criminosas no interior do Nordeste:

[...] Olê, muié rendeira


Olê, muié rendá
[...]
Entrando numa cidade, ao sair dum povoado
Cantando a rendera se danavam no xaxado.

Com efeito, foi cantando os versos da “mulher rendeira158” que, em um domingo, 13 de


junho de 1927, Lampião e seu bando invadiram a cidade de Mossoró no Rio Grande do Norte.
Foram recebidos à bala pela resistência dos moradores da cidade potiguar e tiveram de recuar.
A lexia borná designa um utensílio de grande valia para o campo semântico-cultural do
cangaço: é um saco de pano ou de couro usado a tiracolo e que serve para guardar mantimentos,
remédios, petrechos de caça etc:

158
A canção foi também gravada, em 1957, por Antônio Alves de Souza, conhecido por Volta Seca, ex-cangaceiro
do grupo de Lampião.
214

[...] Olê, muié rendeira


Olê, muié rendá
Chorou por mim não fica
Soluçô vai no borná.”

Quando criança e adolescente, Gonzaga era declaradamente fã de Lampião, fato que


provavelmente iria influenciar a inclusão do cangaço e do famoso cangaceiro como temas em
suas canções. O facínora despertava muito medo, mas também causava admiração entre os
meninos do sertão, em razão de sua valentia. Ainda garoto, Gonzaga chegou a levar uma surra
por causa de uma mentira que inventou sobre um iminente ataque de Lampião ao esconderijo,
onde sua família abrigava-se com medo do cangaceiro. Conforme vimos (em 4.5), em suas
andanças durante os tempos da caserna, Gonzaga esteve em Sousa, na Paraíba, e na zona do
Cariri cearense, divisa com Pernambuco, buscando desarmar coiteiros, colaboradores do
cangaço, mas nunca esteve frente a frente com Lampião, que morreu em 1937. A presença do
cangaço na obra de Gonzaga foi também, provavelmente, influenciada pela ambiência da
década de 50 (como vimos, a canção é do ano de 1953), quando, segundo Queiroz (1986, p. 66),

“[...] se dissemina nas artes a utilização do tema do cangaço – na pintura, na gravura,


na literatura, no cinema, no teatro – numa perspectiva em que ora se mesclam, ora se
separam os temas dominantes do herói humano e justiceiro e do nacionalismo.

É justamente nesse período que Gonzaga, representante da arte musical, passa a vestir-
se de cangaceiro para, logo depois, adotar o gibão de vaqueiro. A referência imagética ao
cangaço continuou a ser lembrada pelo uso do chapéu, que foi mantido como parte de sua
indumentária típica do Nordeste. Ademais, as canções que abordam o cangaço são
acompanhadas de lexias que exprimem traços descontínuos do Português Brasileiro, tais como
cangacero, borná, se danar, Lampião, Xaxado, caracterizadoras dos falares rurais usados pelos
cangaceiros.
Por fim, em relação ao campo semântico-cultural do cangaço, Vieira (2000) afirma que,
tanto cangaceiros quanto vaqueiros evocam o sentimento da marginalidade à qual estão
submetidos os indivíduos que, na nossa sociedade, são investidos desses papéis. Para a autora,
essas figuras cantadas por Gonzaga passeiam no imaginário como mitos ou tipos heroicos dos
nordestinos.

5.1.6 Campo semântico-cultural: amor e sensualidade


Neste campo, são exaltadas as relações de afeição, de cumplicidade e companheirismo,
como na história de amor da paraibana Alexandrina Diniz, Xandu ou Xanduzinha, que ajudou
215

o seu marido, o fazendeiro Marcolino Diniz, na reconstrução de suas propriedades após a


Revolta de Princesa. Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira homenagearam a história de amor do
casal, usando lexias do falar rural nordestino no baião “Xanduzinha”, de 1950:

O caboco Marcolino
Tinha oito boi zebu,
Uma casa com varanda,
Dando pro Norte e pro Su,
Seu paiol tava cheinho,
De feijão e de andu,
Sem contar com mais os cobres
Lá no fundo do baú.

No falar rural nordestino, a lexia caboco designa a pessoa do campo ou caipira,


geralmente de conduta desconfiada (do tupi caá-boc: tirado do mato). No sertão, ter uma casa
dando pro norte e pro su significa que a residência tem vista para esses dois pontos cardeais,
caracterizando, portanto, uma casa grande, de um proprietário rico. Outras lexias que
representam a fartura do casal Xanduzinha-Marcolino antes da Revolta de Princesa podem ser
encontradas em: boi Zebu, espécie de boi corpulento, originário da Índia, que possui uma grande
corcova e é apreciado por produtores rurais abastados; paiol, que é o depósito de produtos
agrícolas como o andu, arbusto leguminoso cuja semente é semelhante à da ervilha e que tem
uso alimentício. O andu é também conhecido pelas metáforas funcionais “feijão-de-árvore” e
“ervilha-de-angola”, devido à sua origem africana. Além disso, os Cobres de Marcolino
representam, por operação metonímica, o dinheiro.
Pelo amor de Xandu, o enunciador revela que Marcolino estava disposto a qualquer
sacrifício em troca de um chero que, no falar rural nordestino, significa o beijo da mulher
amada:

[...] Marcolino dava tudo,


Por um chero de Xandu.

O enunciador utiliza ainda construções metafóricas e metonímicas para descrever


Xanduzinha como uma flô e o xodó, a mulher amada, de Marcolino:

[...] Ai, Xanduzinha, Xanduzinha minha flô,


Como foi que você deixô,
Tanta riqueza pelo meu amô?
Ai, Xanduzinha, Xanduzinha meu xodó,
Eu sô pobre mais você sabe
Que meu amô vale mais que oro em pó.
216

Enfim, o refrão da canção destaca o verdadeiro amor entre Marcolino Diniz e sua
Xanduzinha que, mesmo diante das intempéries causadas pela “guerra de Princesa”,
mantiveram-se unidos, pois a fortuna do caboclo ficou seriamente comprometida, após as lutas
no município, em decorrência da destruição de sua casa, de canaviais, engenhos de rapadura e
moendas. Diante desse quadro, o afeto entre Marcolino e Xandu foi considerado verdadeiro,
precioso e de valor inestimável; daí a comparação que Gonzaga faz para descrever que o amor
vale mais que oro em pó.
No livro “Zédantas segundo a letra I” (2010), o médico-poeta discorre sobre o tema do
amor presente em três canções constantes no LP “Luiz Gonzaga canta seus sucessos com
Zédantas”159: “xote das meninas”, “vem, morena” e “cintura fina”. Essas canções apresentam
várias lexias do falar sertanejo nordestino e que são usadas por pessoas de origem modesta.
Em o “Xote das meninas”, o sujeito enunciador descreve o tema da chegada da
puberdade entre as meninas do sertão. Usando comparações expressivas, ele descreve a
passagem da infância para a adolescência, que motiva o despertar da sensualidade e a
intensificação dos sentimentos no coração das meninas:

Mandacaru quando fulora na seca


É o sinal que a chuva chega no sertão
Toda menina que enjôa da boneca
É sinal que o amô já chegou no coração.

Zedantas explica que os versos de “xote das meninas” iniciam fazendo uma referência
ao resistente mandacaru que começa a florescer, independentemente da ocorrência de chuva,
mesmo durante o período da estiagem, alegrando o esperançoso sertanejo que parece antever a
chegada da chuva. “Tal superstição nos levou a estabelecer um símile entre a flor de mandacaru,
sinal prodômico160 da chuva, que chega dando fecundidade à terra, e a menina, que enjoando a
boneca, se torna mulher” (ZEDANTAS, 2010, p 51). Enjoar da boneca, nesse cenário,
especializa o sentido de desgostar; entediar-se com o brinquedo antes preferido, mas que agora
é deixado de lado por causa das mudanças ocasionadas pelos hormônios sexuais da puberdade.
Já na canção “vem, morena”, o locutor apresenta a sensualidade e disposição das
morenas sertanejas dançando nos forrós do sertão:

[...] Quero ver tu remexendo

159
Reprodução do texto encontrado na contracapa do LP Luiz Gonzaga canta seus sucessos com Zedantas, lançado
em 1959.
160
Termo usado na medicina, relativo aos pródomos (sinal ou grupo de sintomas que pode indicar o início de uma
doença: preâmbulo, prólogo).
217

No resfulêgo da sanfona
Inté que o sol raiá.

O sanfoneiro faz o resfulêgo da sanfona pelo “ato de abrir e fechar o fole”, fazendo um
ruído semelhante a uma respiração difícil, ofegante, que lembra o ato sexual. Inté é a forma
antiga e, atualmente, estigmatizada da lexia gramatical “até”. Diferentemente dos sentidos
especializados em Asa Branca e Vozes da Seca, aqui é usada para indicar um “limite posterior
de tempo”. Na canção, o remeximento da sanfona é comparado a movimentos sensuais da
cabocla nordestina que deve durar até o sol raiá, ou seja, até o amanhecer.
O sujeito enunciador demostra ainda o tema da sensualidade dos namoros roceiros,
quando descreve:

[...] Esse teu fungado quente


Bem no pé do meu pescoço
Arrepia o corpo da gente
Faz o véio ficá moço.

O fungado no falar sertanejo é o ato de inspirar forte e ruidosamente; no geral, com


intenção afetiva. Nos forrós, o fungado ocorre comumente no pé do pescoço, ou seja, na nuca.
Essa é uma forma figurativa curiosa de representar uma parte da anatomia humana por meio de
duas outras: pé e pescoço. Os cenários nos quais se especializam os sentidos das lexias na
canção “vem, morena” são os forrós do sertão em que os namoros e as paqueras mais licenciosas
alegram os momentos de descanso dos roceiros. Culturalmente, o cenário da canção permite
inferir, que é, no pé do pescoço, o lugar onde ocorre, além do fungado, “carícia perturbadora e
canina”, que imprime vestígios ardentes dos namorados, como bem lembra Cascudo (2003
[1973], p. 127).
Na canção “cintura fina”, o enunciador descreve, no falar rural nordestino, o convite do
namorado à namorada para dançar:

Minha morena, venha pra cá


Pra dançar xote, se deite em meu cangote
E pode cuchilá.

A lexia cangote, assim como pé do pescoço, são formas sinonímicas que equivalem, na
cultura sertaneja, ao sentido de nuca. Cangote é palavra bastante utilizada no falar rural
nordestino e vem do espanhol “cogote” (nuca), com influência da palavra “canga”, que designa
“peça de madeira com que se prende os bois pelo pescoço e os liga ao carro ou arado” (CUNHA,
2010, p. 121).
218

O enunciador destaca ainda que a namorada é bela, porque possui, metaforicamente,


uma cintura de pilão, cintura de menina, cintura cintadinha ou enforcadinha; isto é, no padrão
de beleza da mulher esbelta, a amada é aquela que possui a cintura de diâmetro estreito,
“apertado”, “fino”, tal qual a ferramenta do pilão:

[...] Vem cá, cintura fina, cintura de pilão


Cintura de menina, vem cá, meu coração
[...]
Oh, vem cá cintura, cintura, cinturinha
Cintura cintadinha, fina, fina, fina, fina, cintura enforcadinha
Bem fininha de pilão, cintura de menina, vem cá meu coração.

Dessa forma, é muié pra home nenhum butá defeito, ou seja, é uma mulher morena de
corpo sexualmente apetecível:

[...] Tu sois muié pra home ninhum


Butá defeito, por isso sastifeito
Com você vou dança.

Afinal, como temos enfatizado, são versos elogiosos do namorado sobre a compleição
física da mulher amada, que especializam sentidos caracterizadores dos falares rurais e de
falantes de origem social humilde.
No causo Karolina com K, o locutor narra o encontro com uma mulher bastante
desinibida para os costumes sertanejos:

Karolina foi o maió estrupiço que encontrei na minha vida!


Ah! Mulé baguncera da mulésta, mulé cangacera
Conheci Karolina num forró que eu tava tocando

Para Gonzaga, Karolina é o estrupiço em pessoa, lexia que denota algazarra, tumulto,
transtorno e que, no contexto e cenário descritos, equivale ao sentido estereotipado de mulher
“libertina”. Outras lexias do falar rural nordestino descrevem o comportamento social de
Karolina, considerado inadequado para os padrões conservadores do sertão: uma mulher é
baguncera e cangacera da mulésta, quando leva uma vida desregrada e errante, que causa
espanto, por isso a menção à mulher que vivia no cangaço, que tinha como características a
vida nômade, destemida e ousada. A mulésta, em sentido costumeiro, é a hidrofobia que
acomete os cães, deixando-os irados e possessos. Não obstante o temperamento licencioso de
Karolina, o enunciador destaca suas virtudes físicas:

[...] na hora da dança...tô veno uma mulher diferente lá no mei das ota...
219

Mulhé alta, lazarina, morena, duas fulô no cabelo.

No sertão, uma mulher lazarina é aquela que possui um corpo esguio, magro. É uma
metáfora que utiliza o cruzamento entre elementos de dois campos semântico-culturais
diferentes: humano e arma de fogo. Essa atribuição de sentido metafórico para as características
físicas de Karolina é inspirada em experiências vivenciais dos sertanejos no uso de uma
espingarda de caça de cano fino e comprido usada no Nordeste: a lazarina.
Em outra oportunidade, o enunciador acentua a beleza e a sensualidade de Karolina, que
lhe atraíram a atenção:

[...] Quando eu avistei aquela mulezona diferente no mei do salão,


Sem dançá com ninguém, só mangando dos matuto
Eu pensei comigo: aquilo deve sê um grande pedaço de mah caminho
Mulé bonita, morena triguera, cabelo cumprido, boa linha de lombo...há, há!

Karolina é uma mulezona, que designa a mulher encorpada, atraente, bonita e sensual.
Pelo uso da expressão idiomática pedaço de mah caminho é especializado o sentido de mulher
tentadora; aquela que possui má conduta; modo de vida ou comportamento que leva a más
consequências. No mesmo sentido, as características dadas a Karolina permitem evocar
comparações com o alimento e a fêmea do cavalo, já que Karolina é da cor triguera, ou seja, é
uma morena de matiz escura como o do trigo maduro, além de possuir uma boa linha de lombo,
uma construção metafórica que enfatiza um comentário elogioso às nádegas avantajadas, mas
que, ao mesmo tempo, constrói uma imagem de objeto sexual em detrimento a uma visão
humanizante, como percebe Silva (2008).
Na continuidade do causo, o enunciador passa de admirador a pretendente dos amores
de Karolina:

[...] – Há, qué dança mais eu?


Ela disse:
– Só se fô agora!
Abufelei... e saí com essa mulé.
Joguei ela pras dereita, ela veio, joguei pra esquerda, ela tava aí.
Mulé era adivinhona! Chamei a mulé no voo do carcará
Sabe como é o carcará, né? Ele voa na vertical, para no ar e fica penerando.
Aí, eu vim desceno com ela bem divagarzim nos meus braço...
Quando ela triscou os pé no chão, ela deu uma gaitada!
– Hahaiii! É hoje!
– Eu digo, é hoje mermo!

Após a aceitação do convite para dançar, houve o ato de abufelar, que é abraçar ou
agarrar alguém. A sensualidade da dança é destacada pelo enunciador pelo uso da metáfora voo
220

do carcará, que é um movimento improvisado, no qual o dançarino, apoiando o corpo da


mulher contra o seu, levanta-a, momentaneamente, do chão, e depois vai descendo-a
vagarosamente. O carcará é uma ave de rapina de tamanho médio, muito comum no sertão, e
que ataca, de preferência, galináceos e filhotes de carneiro. O voo do caracará sertanejo é
descrito pelo enunciador nos seguintes termos: ele voa na vertical, para no ar e fica penerando.
Comparativamente, os movimentos dos corpos realçam que o casal dançava muito bem,
adivinhando o movimento um do outro, compactuando com a corte, como se fossem carcarás
que se preparam para o acasalamento.
O momento que parece indicar a conquista “erótico-sensual” de Karolina é expresso por
ações e por locuções regionais usadas pelo enunciador:

[...] Quando ela triscou os pé no chão, ela deu uma gaitada!


– Hahaiii! É hoje!
– Eu digo é hoje mermo!

Triscar os pés no chão é tocá-los de leve no solo, enquanto dar uma gaiatada é soltar
uma gargalhada, cuja percepção auditiva é associada ao toque ruidoso da gaita. Ao dizer é hoje!,
Karolina demonstra a expectativa de algo ansiosamente esperado e próximo de acontecer, o que
é confirmado pelo locutor entusiasmado: é hoje mermo! Assim, “macho” e “fêmea” se desejam,
se perseguem, “voam” juntos e, ao “pousarem”, ratificam a mútua aquiescência voluptuosa.
Isso tudo está presente na imagem cultual do carcará, que define os sentidos de construções
figurativas utilizadas pelo enunciador.
O desenrolar do causo prossegue: com a conquista assegurada, o locutor volta a tocar
sanfona, mas, por precaução, deixa Karolina dançando com Ansermo, seu primo, uma vez que
em bailes do sertão, às vezes, a figura feminina é escassa:

[...] – Ansermo, passa a sanfona pra cá, e vá dançá com Karolina.


Mais não vão pra longe não, viu? Fica dançano aqui em vorta de mim.
[...]

Como manifestação de interesse no sanfoneiro, o enunciador descreve as ações de


Karolina para agradá-lo:

[...] De vez em quando, Ansermo passava por perto de mim, assim


Karolina dava uma rabanada de vestido pra riba d’eu
Cubria a sanfona! E eu sentia só aquele cherim de fulô de amô. Hahá!
Maió felicidade!
221

O sentido de dar uma rabanada equivale a “fazer um giro, volteio brusco” para que o
vestido (que representa a imagem da cauda ou rabo) vá, propositadamente, pra riba, isto é, pra
cima, da sanfona do tocador. Cascudo (2003 [1973]) registrou a variante “rebanada” como
“técnica feminina agressiva, notória, vulgar, entre gente moça de sangue quente”. No cenário
do causo, o volteio provocativo da rabanada faz com que o amado sinta o cherim de fulô de
amô, expressão metafórica que evoca o aroma da pessoa desejada por atração sexual. O
movimento de aproximação expressa a inquietude e excitabilidade de Karolina, desejosa de
deixar o “forró” e ficar, finalmente, a sós com o seu xodó.
Pensando em buscar um lugar seguro para passar o resto da noite com a namorada
recém-conquistada, o enunciador decide deixar o forró com sua companheira, sem dar na vista:

[...] Cheguei perto da eguinha, acochei a cia, passei a perna,


Joguei Karolina na garupa e saímu escondido pelos fundos e fumo simbora.

Acochar a cia é apertar a cilha, a correia de couro ou fios torcidos que se passa sob o
ventre do animal para segurar a cela ou a carga. Montado em uma égua, o casal é seguido por
pessoas que querem impedir o encontro amoroso:

[...] Aí, Karolina dixi pra mim:


– Oia, Gonzaga, ah, puxa mermu que a cabruera vem aí atrás
Parece que eles tão querendo butá gosto ruim no nosso amô.
– Não diga isso, Karolina!
Sapequei a espora do suvaco no vazi dessa égua.
Aí, a eguinha se abaxou, saiu danada, chega saiu baxiiinha!

O sentido de puxar é especializado como acelerar a marcha para fugir da cabruera, o


conjunto de cabras, de homens que querem butá gosto ruim no amô, ou seja, expressão
idiomática que significa “atrapalhar ou privar alguém de prazeres ansiosamente esperados”.
Conseguindo fugir da companhia incômoda da negrada que ... riscou na bera do rio,
cujo sentido se especializa em grupo de pessoas (não necessariamente negras) que parou
subitamente à margem do rio, o enunciador, finalmente, se vê a sós com a namorada:

[...] – Aí, nós entremo nos mato, a negrada vinha atrás,


riscou também na bera do rio.
[...]
A cabruera vortô e nóis três, ali, dentro das moita.
Eu, Karolina e minha égua.
E, ali, nóis três escutando a cantiga das água.
Tirei a sela e ... lavei a ééégua! Hahai!
222

Enfim, sob a noite sertaneja, ouvindo a metafórica cantiga das água, isto é, o som suave
das águas do rio escorrendo da paisagem interiorana (com cruzamento de sentidos entre campos
semântico-culturais diversos: composição poética humana e curso de água natural), Gonzaga
chega ao desfecho do causo, usando a expressão idiomática lavei a égua, pois conseguiu tirar
o máximo de proveito de uma situação vantajosa: uma aventura sexual com Karolina.

5.1.7 Campo semântico-cultural: alegria


Em contraste com a tristeza e o sofrimento causado pela emigração 161 , o campo
semântico-cultural da “alegria” enfatiza o contexto das celebrações no sertão, as quais
promovem a sociabilidade entre os familiares (RAMALHO, 2012 [2000]). Tal constatação é
expressa em canções que utilizam lexias que descrevem tradições de folguedos, festas de
casamentos sertanejos e, genericamente, bailes do interior. Em “São João na roça”, é dado
destaque à ambientação de uma festa junina e o convite para dançar ao ritmo do forró:

A fogueira tá queimando
Em homenagem a São João
O forró já começou
Vamo gente, rapa pé nesse salão.

Uma pilha de lenha pode ser chamada de fogueira, ainda que esteja apagada; mas a
verdadeira fogueira é a que está queimando, ardendo pela fé, pelo entusiasmo ou pelo amor. No
vocabulário rural nordestino, a fogueira está associada a uma deferência feita a São João Batista,
primo de Jesus Cristo. O ciclo junino engloba os festejos de Santo Antônio, no dia 13 de junho;
São João, 24 de junho; e São Pedro, 29 de junho. Cascudo (2012[1979], p. 369) explica que o
nascimento do Santo católico, São João, ocorre ao mesmo tempo do solstício de verão, “quando
as populações do campo festejavam a proximidade das colheitas e faziam os sacrifícios para
afastar os demônios da esterilidade, pestes dos cereais, estiagens, etc”. De fato, esses folguedos
encontraram no Nordeste terreno fértil para sua popularização, pois coincidem justamente com
o período das colheitas de milho e feijão. A referência ao ciclo das festas juninas é bem
marcante nas músicas de Luiz Gonzaga, com a presença de elementos que caracterizavam as
suas vivências de infância: fogueiras, comidas típicas de milho, fogos de artifício, terreiros com
bandeirinhas de São João, quadrilha e casamento matuto (RAMALHO, 2012 [2000]). Essas
folganças sempre requisitaram, conforme visto, a presença da sanfona, da banda de pífaros com
zabumba para embalar as danças. As bandas de pífaros – conforme já vimos – são conhecidas

161
Esse vocábulo também indica a movimentação de pessoas de uma região para outra dentro de um mesmo país
(HOUAISS; VILAR, 2009).
223

pela metáfora funcional “esquenta muié”, devido à animação que provocam nas pessoas que
não resistem a ficar paradas ao seu toque.
Chamar as pessoas para rapá pé, cujo sentido menor é “arrastar os pés”, especializa-se
em sentido maior para “festa dançante” (CABRAL, 1982, p. 647). Os forrós simples no sertão
têm a presença marcante da cachaça, aguardente que se obtém a partir da fermentação e
destilação do caldo de cana de açúcar. A aguardente era a bebida fabricada com o caldo da
cana, de garapa azeda, daí o nome cana ou caninha. Por seu turno, a cachaça era obtida das
borras de mel da cana, do melaço, por destilação (CASCUDO, 2006 [1952]; ROHAN, 1889).
Com o tempo, os dois termos passaram a ser considerados sinônimos. Posteriormente, cachaça
tornou-se a designação popular preferida à aguardente na cultura brasileira:

[...] Dança Joaquim com Zabé


Luiz com Iaiá
Dança Janjão com Raqué
E eu com Sinhá
Traz a cachaça, Mané!
Eu quero vê,
Quero ver paia avuá!

Pedir para trazer a cachaça está vinculado ao sentido do rito da abrideira, de que fala
Cascudo (2006 [1952]). É a dose inicial, o primeiro gole ou copo, com a ressalva do autor de
que o brasileiro é adepto da cachaça sem ser cachaceiro, ou seja, um usuário contumaz e
imoderado da cachaça.
Afinal, a expressão idiomática ver a paia avuá significa, no falar rural nordestino, que
o participante deseja ver uma festa atingir o máximo de animação, sem restrições.
Em sentido contrário à fuga da “asa branca”, da arribada do retirante nordestino para
léguas distantes da seca, temos a esperançosa “a volta da asa branca” que anuncia, alegremente,
a chegada da chuva:

[...] Rios correndo


As cachoera tão zoando
Terra moiada, mato verde, que riqueza!
E a asa branca, tarde canta, que beleza!
Ai, ai, o povo alegre
Mais alegre a natureza!

Os rios correndo estão, na verdade, movendo-se, metaforicamente, em ritmo contínuo


e regular. Assim, a asa branca regressa aos primeiros sinais de inverno para felicidade do
rurícola. No sertão, a chuva traz felicidade e “tempo bonito”, que é a “visão do céu prometendo
224

chuvadas, nuvens escuras, pesadas e lentas” (CASCUDO, 2013[1971]), que, ao desaguarem,


deixam, metaforicamente, “mais alegre a natureza”.
O inverno não muda apenas a paisagem do sertão nordestino mas também o humor do
enunciador sertanejo que exulta as belezas da terra, da amada e a alegria de poder voltar para
casa:

[...] Ai, ai eu vô me embora


Vô cuidá da prantação!
Sentindo a chuva
Eu me arrescordo de Rosinha
A linda frô do meu sertão pernambucano.

Rosinha, sua musa, é a linda frô, construção metafórica que destaca a beleza da mulher
amada em meio à paisagem do sertão pernambucano. Conforme já enfatizado, nessa construção,
encontramos o cruzamento de dois campos semântico-culturais (paradigmas culturais)
distintos: humano e vegetal. O cruzamento serve para descrever uma visão de mundo que
considera válidas as atribuições das propriedades de uma planta ornamental às características
físicas da mulher. Desse modo, tal deslocamento evoca sensações de formosura, delicadeza,
brilho, perfume, forma e vigor da juventude.
A felicidade pela chuva representa também presságios de dias melhores:

[...] E se a safra num atrapaiá meus pranos


Que que hai, ô seu vigário? Vô casá no fim do ano.

A lexia safra representa a esperançosa colheita farta, com retorno econômico certo que
possibilitará, no reencontro com Rosinha, o prometido enlace nupcial. No falar rural, se o padre,
chamado comumente de vigário, tem alguma desconfiança no cumprimento da promessa, o
rurícola nordestino pergunta: que que hai, seu vigário? Nesse cenário, essa indagação denota
curiosidade e surpresa cujo sentido maior equivale a “o senhor tá desconfiando de mim?”
No causo “o casamento do matuto” o locutor Gonzaga descreve, de forma didática, para
o público os preparatórios para uma festa de casamento de um indivíduo caipira que terá, por
tradição sertaneja, a solidariedade dos amigos na construção de sua casa:

– É tão bonzim um samba numa sala de reboco... Há... inda mais quando a gente tá
dançando com uma danada qui a gente gosta dela.
Ô negócio é assim: o caboco vai casá...então ele resolve convidar os cumpanhêro...
pra ajudar a fazê a casinha dele... e lá na fera... ele... se desocupa mais cedo e vem
esperar os cumpanhêro cá: na ponta da rua... naquela budega onde ele costuma
guarda a faca dele... os cumpanhero vão aparecendo ele... vai fazendo os convite:
225

– Pois é, colega, vou dá uma casada...já falei com o padê... vai ser de hoje a oito
dia...vô fazê minha casinha amanhã...tô convidano os amigo pra me ajudá...já encostei
os matéria...cipó, caibo... as vara... o barreiro já tá encaminhado [...]

Samba era o nome usado para designar, de forma genérica e costumeira, as festas no
sertão antes de a designação forrobodó e forró tornarem-se populares. No cenário do causo, o
samba é realizado em uma casa que contém uma sala de reboco. Essa sala é, na verdade, a casa
de taipa do rurícola pobre nordestino, feita com madeira (cipós, caibros, varas) e barreiro que,
por atribuição de sentido de base metonímica, designa o barro retirado de terreno salitrado e
úmido que contém a argila. O barreiro é item que não pode faltar na construção de casas de pau
a pique. Nesses tipos de moradia, as paredes são construídas com uma trama de ripas ou varas
cobertas de barro (HOUAISS; VILAR, 2009). José Marcolino, parceiro de Gonzaga na canção
“sala de reboco”, explicava que “há dois tipos de reboco de casa: o de barro sacudido”, ou seja,
aquele arremessado na parede, e “aquele do sujeito que passa a colher de pedreiro na parede
para ela ficar bem lisinha” (MARCOLINO, 1986). Segundo ele, “essa é a casa do sertanejo
mais caprichoso”, aquele que promove a grande festa de construção da casa de reboco. O pai
sertanejo, também zeloso e caprichoso, só leva as filhas para a inauguração dessa última.
O noivo roceiro espera pelos cumpanhêro, ou seja, os amigos na ponta da rua, que
possui sentido polissêmico no interior do Nordeste: esquina e zona de bordéis. O sentido que
se especializa no contexto e cenário descritos é o de esquina de uma rua, já que o futuro noivo
está em uma budega, que é um tipo de mercearia humilde, para fazer o convite para seu
matrimônio através do sintagma dar uma casada. O noivo sertanejo espera contar com a ajuda
dos amigos para construir sua casa, pois, no sertão, ainda é possível encontrar a realização de
mutirões entre os trabalhadores do campo, especialmente em ocasiões de colheita e construções
de habitação.
Para a festa de casamento, o almoço rural nordestino é composto por lexias que
descrevem alimentos típicos da região Nordeste:

[...] Vô matá um bode...fazê um pirão pra gente armuçá.

Como os caprinos entraram no país pelo Nordeste, é provável que esse fato tenha dado
à região o título de maior produtora desse tipo de pecuária (SUASSUNA, 2003), concentrando
quase 90% da criação de caprinos no Brasil. Por serem originários de regiões mais secas, os
bodes se adaptaram muito bem ao clima semiárido. Ademais, para a realidade financeira do
pequeno agricultor nordestino, é mais barato criar caprinos do que bovinos. Suassuna (2003)
226

afirma que a rentabilidade da criação de caprinos no Nordeste está fundamentada em três fatores
principais: a produção do leite, da pele e, por último, da carne. Portanto, a referência ao bode
no causo em questão. O pirão é uma iguaria da cozinha sertaneja, feita de farinha de mandioca
escaldada com caldo de peixe ou de carne cozida. No cenário do causo, o locutor faz menção,
obviamente, ao pirão feito da carne de bode.
No dia seguinte ao mutirão, à noite, aqueles que ajudaram a construir a casa são
convidados para dançar:
[...] – Se a gente fizê a casa..
amanhã se ela ficá pronta...
de noite mesmo a gente dança nela
que é prá ir incaicando o chão da sala”.
– Prático, né?

Enfim, a justificativa para a festa é dupla: serve para agradecer o auxílio recebido
durante o mutirão e incaicar o chão da sala, que, no falar sertanejo nordestino, significa
comprimir o solo da sala.
Em “o casamento de Rosa”, a alegria é novamente enfatizada pela felicitação que ocorre
nos casamentos matutos – desta vez entre pessoas abastadas, pois a noiva é filha de um coroné.
Conforme vimos, os coronéis eram chefes políticos que controlavam o poder social, político e
econômico no interior do Nordeste do Brasil:

Se amonta Joana,
Monta Mariquinha,
Monta Sinhá Zefinha,
Monta Juvená
Fura esses burro, vamos chegá cedo,
Que hoje o forguedo vai ser de matá
Coroné Zeca com muita alegria
Hoje casa a fia e pra festejá
Tá convindando toda a vizinhança
Pra encher a pança, bebê e dança.

Andar a cavalo ou de burro (amontar) no sertão era símbolo de maior ou menor


qualificação social, enquanto andar a pé (e/ou descalço), descalço era indicador de pobreza; por
isso o nome peão passou a designar, inicialmente, aqueles que tinham pés grandes. É justamente
“no ciclo do couro que o calçado e a montaria se consolidam como ícones de distribuição social”
(SILVA, 2003, p. 360), realçando os níveis socioeconômicos da população.
Não obstante as diferenças econômicas, a celebração da alegria, por intermédio das
comemorações de vínculo conjugal, pode ser festejada por diferentes classes sociais. O poder
econômico do coroné, representante da elite rural, permitia-lhe convidar todos os vizinhos, e
227

não apenas os amigos, para se fartarem de comida, que, no Português Brasileiro, na variedade
nordestina, pode ser expresso por encher a pança, uma alusão metafórica inspirada no
cruzamento de dois campos semântico-culturais distintos: a barriga (proeminência do abdome
humano) e a pança (rúmen), que é a primeira câmara da barriga dos ruminantes.
Feitas essas análises, com base nos postulados da SCC, propomos, a seguir, um quadro
sinóptico de expressões idiomáticas usadas por Gonzaga. São construções linguísticas
cristalizadas e de uso comum no Português Brasileiro e na variedade rural nordestina.
No quadro abaixo, temos a expressão identificada, sua ocorrência no corpus (com a
respectiva legenda da música ou causo) e o sentido especializado.

Expressões idiomáticas
Expressão Ocorrência Sentido especializado na
canção/causo analisado
01. Aguentar rojão “Pra você aguentá meu rojão, é Suportar ritmo intenso de vida, de
preciso saber requebra.” (Imb.)
atividade.
02. Bater asas “Inté mesmo a asa branca, bateu Fugir
asas do sertão”. (AB)
03. Brincar com o coração “Moços em volta à fogueira, Paquerar, flertar, namorar.
brincando com o coração”. (NB)
04. Botar a cangaia “Nunca encontrou quem lhe Superar em destreza, habilidade;
butasse a cangaia no fole de oito
dominar.
baxo!” (C02)
05. Botar gosto ruim em algo “Parece que eles tão querendo Atrapalhar ou privar alguém de
butá gosto ruim no nosso amô.”
prazeres ansiosamente esperados.
(C04)
06. Botar o visgo “Rio de Janeiro bota o visgo na Atrair, encantar, prender.
gente.” (ARJ)
07. Cair na rede é peixe “Caiu na rede era peixe, não Diz-se para afirmar que todas as
escoía a maré.” (VCJ)
mulheres são proveitosas para
namorar, sem escolher o tipo.
08. Chegar contando as horas “Já chegou contando as horas, Chegar e sair apressadamente, sem
bebeu água e foi-se embora.”
demorar-se em algum lugar.
(NDM)
09. Com mais de mil “Aí, me butei pro salão com mais Rapidamente
de mil.” (C04)
10. Correr o pires “Correndo o pire nos gringo!” Arrecadar dinheiro após uma
(C01)
apresentação, performance.
11. Dar fé “Aí, eu comecei a caprichar no Notar, perceber.
fole véio, pra ver se ela dava fé
de mim, mas ela nem fé deu!”
(C04)
12. Dar nas esporas “Ou nóis sai cedo e dá nas espora Picar com as esporas qualquer
ou nóis perde a hora de Rosa
animal de montaria. Apressar-se.
casá”. (CR)
228

13. Dar uma popa da muléxta “[...]quando o pai da moça sôbe... Ficar muito zangado.
deu uma popa da muléxta!”
(C02)
14. De meia-tigela “O sinhô disse que eu era um Sem importância; insignificante.
tocadozim de meia-tigela?”
(C02)
15. Dizer as do fim; dizer o “Eu disse as do fim! E ele se Desabafar com palavras duras; dizer
acovardou!” (C02)
diabo as maiores injúrias a alguém.
16. Eita, pau pereira “Eita, pau pereira que em Expressão que indica entusiasmo,
Princesa já roncou.” (PB)
admiração.
17. Fazer bonito “Mas antes de fazê bunito de Causar sucesso; impressionar;
passagem por Granito.” (RJ)
sobressair-se positivamente.
18. Fazer fé “Gostei de todos os tipo, mas só Depositar confiança; confiar.
com uma eu fiz fé.” (VCJ)
19. Fazer miséria “Aí, já num tava fazeno aquelas Fazer proezas extraordinárias,
mizera toda mais não.” (C04)
dignas de causar espanto ou
admiração.
20. Fazer teatro “Nessa altura nóis já tava fazeno Exibir-se, mostrar-se para o público.
era triatro.” (C04)
21. Fazer arte “Você tá aqui fazendo arte, tá Exibir-se; fazer travessuras.
fazendo até triatro.” (C04)
22. Lascar brasa “Lasquei brasa!” (C01) Fazer algo com entusiasmo; agir
com disposição firme ou com
veemência etc.
23. Ir, mandar chumbo “Aguente meu negócio, que lá Usar de toda habilidade que tem à
vai chumbo, caboco!” (C01)
disposição; demonstrar tudo o que
sabe fazer.
24. Lavar a égua “Tirei a sela e ... lavei a ééégua!” Tirar o máximo de proveito de uma
(C04)
situação vantajosa.
25. Mandar alguém andar “Chutei a branca, larguei a Terminar relação afetiva com a
mulata, deixei a ruiva e mandei a
namorada ou amante.
lora andá [...]” (VCJ)
26. Meter o pissilone “[...] cheguei perto dessa mulé... Buscar conversa com o intuito de
e meti o pisilone nela [...]” (C03)
paquerar.
27. Não querer cocoré nem “Num quero cocoré nem choro Não admitir reclamações ou
baixo!” (C04)
choro baixo desculpas.
28. Pedaço de mau caminho “Eu pensei comigo: aquilo deve Mulher tentadora; aquela que possui
sê um grande pedaço de mah
má conduta; modo de vida ou
caminho.” (C04)
comportamento que leva a más
consequências.
29. Que mal pergunta “Que mal pergunta, vosmicê que Permita-me perguntar.
é a Carolina?” (C04)
229

30. São João de rei – Daí a pouco, menino, foi um Surra em que há lamentação e choro
São João de rei lá dento da alto.
camarinha. (C02)
31. Sentar praça “Sentava praça!” (C01) Alistar-se no exército.
32. Ser de matar “Fura esses burro vamo chegá Ser muito bom, animado.
cedo, que hoje o forguedo vai sê
de matá.” (CR)
33. Ser mulher pra homem “Tu és muié pra home ninhum Mulher muito bonita e de corpo
butá defeito.” (CF)
nenhum botar defeito atraente.
34. Ter um quê “Mas o baião tem um quê, que as Possuir uma qualidade diferenciada.
outras danças não têm.” (B)
35. Ver o que é bom pra tosse “[...] eu vô aí pra tu rê o que é Dar uma lição; ministrar um
bom pra tosse!” (C04)
corretivo.
36. Ver palha voar “Eu quero vê, quero vê paia Ver uma festa atingir grande
avuá.” (SJR)
animação.
Quadro 2 – Expressões idiomáticas
Fonte: criado pelo autor

Essas expressões idiomáticas expressam valores culturais do país e da região Nordeste,


ao mesmo tempo em que revelam nuanças de sentidos compartilhadas entre os membros da
comunidade onde essas unidades lexicais são usadas.
É interessante notar que os campos semântico-culturais expostos na produção
gonzaguiana indicam pontos de convergência com os romances regionalistas (ou de 30) que
falavam de temas brasileiros, nordestinos e apresentavam personagens que utilizam as
variedades linguísticas estigmatizadas (linguagem popular)162 , apresentando um Brasil real,
com uma atenção para os problemas sociológicos da região. Jorge Amado (1990) afirmava, por
exemplo, que quando José Lins do Rêgo escrevia, “era o povo que escrevia, era bem a voz do
povo, tão brasileiro como ninguém, falando de nossas coisas com um acento quase de negra
velha contadeira de histórias”. No mesmo sentido, o regionalista paraibano, citado por Aragão
(1990), também dizia que “é na língua onde o povo mais se mostra criador. Mais do que
cantando, é falando que o povo nos ensina coisas extraordinárias”. Na verdade, Gonzaga soube
expressar, através da música, a visão estética nordestina que até então era somente revelada
pela literatura e, diga-se de passagem, apenas para um pequeno grupo. Com ele, houve uma
ampliação a todos os níveis sociais (RAMALHO, 2012 [2000]). Dessa maneira, com Luiz
Gonzaga, seja cantando ou falando, percebe-se a continuidade daquele regionalismo político na
divulgação do Português Brasileiro, em especial da linguagem rural nordestina, com maior

162
Aragão (1984; 1990) empreendeu estudos de caráter linguístico nas obras dos paraibanos José Lins do Rêgo e
José Américo de Almeida.
230

projeção nacional, atingindo inclusive as classes sociais mais simples. Parafraseando Jorge
Amado, defendemos que Luiz Gonzaga quando cantava, falava e contava causos, era
igualmente a voz do Nordeste, divulgando a linguagem regional rural e a alma de seu povo.
Os campos semânticos identificados na obra de Gonzaga apresentam uma tessitura
forjada na vivência do povo da civilização do couro que vive, trabalha e se diverte nas terras
adustas do Nordeste. Cascudo, ao escrever na contracapa do LP “Luiz Gonzaga”, em 1973,
assim apresentou a obra do sanfoneiro:

[...] Luiz Gonzaga é um documento da Cultura Popular. Autoridade da lembrança


e idoneidade da convivência. A paisagem pernambucana, águas, matos, caminhos,
silêncio, gente viva e morta. Tempos idos nas povoações sentimentais voltam a
viver, cantar e sofrer quando ele põe os dedos no teclado da sanfona do feitiço e da
recordação. Não posso compará-lo a ninguém. Luiz Gonzaga é uma coordenada
humana que as ventanias urbanas fazem vibrar sem modificação. Não é retentiva,
artificialismo, sabedoria de recursos mentais “aproveitando” o Sertão. Ele próprio é
a fonte, cabeceira e nascente de suas criações. O sertão é ele (Grifamos).

O eufórico depoimento do folclorista atesta a autenticidade e singularidade da criação


artística gonzaguiana, que institui uma inerente representação telúrica do espaço pernambucano
e, por extensão, do espaço nordestino, do qual ele é o grande porta-voz.
Enfim, usando construções metafóricas, metonímicas, comparações, expressões
idiomáticas e vocabulário típico do Português Brasileiro, na variedade rural nordestina, Luiz
Gonzaga encorpou e realçou um conjunto de sentidos especializados, definidos
contextualmente segundo um cenário de base cultural compartilhada. Desse modo, procurou,
conscientemente, dar visibilidade e produzir a dizibilidade de traços linguístico-culturais
nordestinos. Esses traços envolvem, como temos defendido, tanto aspectos semânticos quanto
fônicos.
No próximo item, passamos à análise das particularidades fonéticas encontradas no
corpus, com ênfase nos metaplasmos brasileiros empregados pelo sanfoneiro.

5.2 PARTICULARIDADES FONÉTICAS: METAPLASMOS ENCONTRADOS NA


OBRA GONZAGUIANA

Nesta seção, analisamos os diversos metaplasmos fonéticos do Português Brasileiro


usados por Luiz Gonzaga no recorte selecionado. Ao todo, foram identificados 16 tipos de
metaplasmos, a saber: a) metaplasmos por adição: prótese, epêntese, suarabácti e paragoge; b)
metaplasmos por supressão: aférese, síncope, apócope e sinalefa; c) metaplasmos por
231

transposição: metátese e hiperbibasmo; e d) metaplasmos por transformação (permuta):


rotacismo, lambdacismo, palatização, despalatização do /ʎ/ (iotização e apagamento),
desnasalação, assimilação e monotongação.
Para sistematização das análises acerca dos fenômenos fonéticos encontrados, foram
propostas tabelas e ilustrações inspiradas em análise feita por Lima (2014). Antes de cada tabela,
são demonstrados exemplos de lexias em contexto de uso. Os dados tabelados destinam-se a
sondagens quantitativas das lexias que apresentaram formas metaplásticas. Nas tabelas,
constam também informações sobre categorias gramaticais das lexias, as formas como elas
apareceram na fala de Gonzaga, transcrição fonética e frequência de uso. Já as ilustrações,
representadas por gráficos em formato “pizza”, propõem-se apresentar, em termos percentuais,
a relação entre cada uma das partes e o todo, buscando fornecer subsídios para os comentários
analíticos dos resultados obtidos.

5.2.1 Análises de metaplasmos por adição: prótese, epêntese, suarabácti e paragoge

a) Prótese: as ocorrências do fenômeno de prótese encontradas nas canções e causos analisados


foram todas com a inserção do fonema /a/.
Alguns exemplos incluem:
01) desculpar
“Me adiscurpe, mas a Rosa tá em primeiro lugá.” (ARJ)
02) lembrar
“Juazeiro, não te alembra, quando o nosso amor nasceu.” (J)
03) responder
“Juazeiro, me arresponda, por favor.” (J)
04) pois
“Apoi, bote duas encangada aí no fundo do pote [...]” (C4)
232

Tabela 1 – Ocorrências e transcrições do metaplasmo fonético prótese


Metaplasmos por adição: prótese do /a/
Verbos da 1ª e 2ª conjugações Conjunção
Lexia Ocorrência Transcrição Freq. Lexia Ocorrência Transcrição Freq.
desculpe adiscurpe [adisˈkuɾpɪ] 1 pois apoi [aˈpoy] 1
lembra alembra [aˈlẽbɾə] 1 pois apois [aˈpoys] 1
monta amonta [aˈmõtə] 1
reparando arreparando [ahɛpaˈɾãdʊ] 1
recordo arrescordo [aɾɛsˈkoɾdʊ] 1
responda arresponda [aɾɛsˈpõdə] 1
voar avuá [avuˈa] 2
Subtotal: 8 Subtotal: 2
Total: 10
Fonte: criado pelo autor.

Levando-se em consideração as categorias gramaticais das lexias coletadas, os dados da


tabela 1 podem ser demonstrados, em termos percentuais, pela seguinte representação gráfica:

20%
10%

70%

Prótese em verbos da primeira conjugação


Prótese em verbos da segunda conjugação
Prótese em conjunções
Gráfico 1 – Ocorrências do metaplasmo fonético prótese
Fonte: criado pelo autor.

Do universo de ocorrências de prótese do /a/ encontrado na obra de Luiz Gonzaga, os


verbos representam 90% do total. Desse percentual, 70% pertencem à primeira conjugação e
10%, à segunda conjugação; este último é representado na tabela 1 pelo verbo “arresponder”.
Os dados mostram que há distribuição do fenômeno diante dos fonemas consonantais /d/, /l/,
/m/, /p/, /v/ e /r/, sendo mais comum neste último. Ademais, as formas “amontar”, “alembrar”
233

e “avoar”, usadas e divulgadas por Gonzaga, são formas protéticas do português antigo
registradas em dicionários. O acréscimo do elemento fonético na conjunção “pois” apareceu
duas vezes, o que representou 20% do total. Em uma dessas realizações, “apoi”, houve também
a supressão do -s final.
Enfim, no que se refere ao registro da lexia “avuá”, além de prótese do /a/, ela teve o -r
final suprimido.

b) Epêntese: foram registrados apenas dois casos de epêntese nas canções e causos
investigados.
Uso das lexias em contexto:
1) depois
“Só voltei em casa dezesseis anos despois da minha arribada.” (C2)
2) teatro
“Nessa altura nóis já tava fazendo era triatro.” (C4)

A tabela 2 abaixo traz a síntese das ocorrências do fenômeno:

Tabela 2 – Ocorrências e transcrições do metaplasmo fonético epêntese


Metaplasmos por adição: epêntese do /r/ e do /s/

Substantivo Advérbio

Lexia Ocorrência Transcrição Freq. Lexia Ocorrência Transcrição Freq.

(fazendo) teatro (fazeno) triatro [tɾiˈatɾu] 1 depois despois [desˈpoys] 1

depois dispois [disˈpoys] 2

Subtotal: 1 Subtotal: 3

Total: 4

Fonte: criado pelo autor.

O gráfico 2, a seguir, demonstra o percentual de ocorrências de epêntese registrado no

corpus:
234

25%

75%

Epentêse em substantivo Epentêse em advérbio

Gráfico 2 – Ocorrências do metaplasmo fonético epêntese


Fonte: criado pelo autor.

Como é possível observar a partir da tabela e da ilustração apresentados, o número de


ocorrências de epêntese no corpus foi bastante baixo, fazendo-se representar pelo acréscimo
dos fonemas /r/ e /s/. Houve epêntese na categoria gramatical substantivo (triatro), com apenas
uma ocorrência, equivalendo a 25% das realizações, e duas vezes no advérbio “depois”, o que
representou 75%. Nessas três realizações, o /e/ pretônico é pronunciado de forma diversa. Em
uma delas, Gonzaga pronuncia “despois”, usando a vogal média-alta anterior [e], e nas outras
duas, a vogal alta [i], o que aponta para o fato, já conhecido em Linguística, de que uma única
pessoa pode não falar da mesma forma em todos os momentos (SILVA, 1996).
Vale observar que a forma epentética “despois”, encontrada na fala de Gonzaga em 1972,
é oriunda do português arcaico e remonta ao século XIII, segundo Houaiss e Vilar (2009). Ela
está dicionarizada e ainda se mantém no falar popular nordestino, corroborando o que Mário
Marroquim descreveu na primeira edição de “A Língua do Nordeste” em 1934.

c) Suarabácti: as ocorrências de variantes na modalidade metaplasmo por adição, na forma


suarabácti, foram registradas em três lexias do corpus, conforme os dados da tabela 3 a seguir.
Uso das lexias em contexto:

1) flor
“Mulher alta, lazarina, morena, duas fulô no cabelo [...]” (C3)
“Karolina dava uma rabanada de vestido pra riba d’eu, cubria a sanfona! E eu sentia só aquele
cherim de fulô de amô.” (C4)
235

“[...] Pois o teu corpo suado, co’esse chero de fulô, tem um gosto temperado dos tempero do
amô.” (VM)
2) florar
“Mandacaru quando fulora na seca.” (XM)
3) ignorância
“Tarvez por iguinorança ou mardade das pió.” (AP)

Tabela 3 – Ocorrências e transcrições do metaplasmo fonético suarabácti


Metaplasmos por adição: suarabácti do /i/ e do /u/
Substantivo Verbo
Lexia Ocorrência Transcrição Freq. Lexia Ocorrência Transcrição Freq.
flor fulô [fuˈlo] 3 flora fulora [fuˈlɔɾə] 1
ignorância iguinorança [igînɔ'ɾãsə] 1
Subtotal: 4 Subtotal: 1
Total: 5
Fonte: criado pelo autor.

A análise identificou o suarabácti pelo acréscimo das vogais /u/ e /i/ para desfazer os
grupos consonantais /fl/ e /gn/. Em balizas percentuais, as ocorrências do fenômeno
apresentaram as seguintes diferenças entre si.

20%

80%

Suarabácti do /u/ Suarabácti do /i/

Gráfico 3 – Ocorrências do metaplasmo fonético suarabácti: /u/ e /i/


Fonte: criado pelo autor.

Foram 4 ocorrências de suarabácti com a vogal alta posterior /u/ para desfazer o grupo
consonantal /fl/. Três delas em substantivos e apenas uma em verbo, o que representa 80% do
total. E houve apenas uma inserção da vogal anterior alta /i/ para desfazimento do grupo
236

consonantal /gn/ no substantivo “iguinorança”, o que equivale aos 20% restantes. Ainda ao que
se refere à lexia, “iguinorança”, houve também monotongação do ditongo crescente final /ya/.
Bagno (2012) cita que os estudiosos identificam, no uso do suarabácti, uma influência
das línguas africanas que vieram ao Brasil. Por intermédio desse fenômeno fonético, os falantes
afrodescendentes conseguiam recuperar o padrão silábico consoante-vogal, consoante-vogal
(CVCV) característico das línguas pertencentes ao grupo banto.

d) Paragoge: por fim, dentre os metaplasmos de adição, o fenômeno de paragoge só ocorreu


uma única vez, no substantivo “pissilone”, o que confirma as observações de Marroquim (1996
[1934]) sobre a raridade desse metaplasmo no linguajar nordestino, especialmente de
Pernambuco e Alagoas.
Uso da lexia em contexto:
1) ípsilon
“Até o ípsilon lá é pissilone.” (ABC)
2) boa
“– Boa tarde!’ (C1)
“– Boas tarde!”

Tabela 4 – Ocorrências e transcrições do metaplasmo fonético paragoge


Metaplasmos por adição: paragoge do /i/
Substantivo
Lexia Ocorrência Transcrição Freq.
ípsilon pissilone [pisiˈlônɪ] 1
Subtotal: 1
Metaplasmos por adição: paragoge do /s/
Adjetivo
Lexia Ocorrência Transcrição Freq.
boa (tarde) boas (tarde) [ˈboas] 1

Subtotal: 1
Total: 2
Fonte: criado pelo autor.

Nas canções e causos analisados, foram encontradas apenas duas ocorrências de


paragoge, uma do /i/ e outra do /s/, nas lexias “pissilone” e “boas”, respectivamente.
237

50% 50%

Paragoge do /i/ Paragoge do /s/

Gráfico 4 – Ocorrências do metaplasmo fonético paragoge: /i/ e /s/


Fonte: criado pelo autor.

Cada evento efetivou-se apenas uma vez, representando, por óbvio, 50% das ocorrências.
O acréscimo da fricativa /s/ apareceu no adjetivo “boa”, como parte da saudação “boas tarde”,
narrada por Gonzaga no causo 2, intitulado “volta à casa”.
O uso do /i/ paragógico na variante “pissilone” segue a tendência dos falantes em evitar
que lexias de origem estrangeira (no caso, o grego) terminem em consoante. Houaiss e Vilar
(2009) registram, inclusive, o substantivo “ipsilone” como regionalismo 163 dicionarizado.
Também vale assinalar o fato de que a lexia “pissilone” usada por Gonzaga traz ainda dois
dados interessantes para análise. Além do acréscimo de fonema final, /i/, houve aférese do /i/ e
suarabácti no encontro consonantal -ps, o que demonstra não ser incomum a ocorrência de mais
de um metaplasmo para a mesma lexia no Português Brasileiro, devido às possíveis correlações
entre contextos linguísticos, sociolinguísticos e regionais (ARAGÃO, 2013).

5.2.2 Análise de metaplasmos por supressão: aférese, síncope, apócope e sinalefa

a) Aférese: Nas canções e causos analisados, encontramos várias formas aferéticas do verbo
“estar”, fato que é bastante comum no Português Brasileiro. Além disso, foram registradas
ocorrências em substantivos, adjetivos, advérbios e pronomes, conforme descrito nos exemplos
que vêm a seguir.

163
Inspirados em Isquierdo (2006), entendemos o brasileirismo como um fato linguístico influenciado pela
dimensão histórico-social da linguagem e usado, predominantemente, em determinados espaços geográficos.
238

Uso das lexias em contexto:


1) estava
“Aí, nóis já tava sereno, nois já tava daquele jeito... há... maior felicidade.” (C4)
“[...] Seu paiol tava cheinho, de feijão e de andu [...]” (X)
“[...] mas, quando vié daí, Seu Januário, traga um coco d’água pra eu, que eu tô morrendo de
sede!”
2) aguentar
“Eu num guento mais roê." (J)
3) estou
"Ai, juazeiro, tô cansado de sofrê." (J)
4) ainda
"No meio da rua, inda é balão, inda é fogueira." (DM)
5) ele (é)
"O ele é lê." (ABC)
6) eme
"O eme é mê." (ABC)
7) amarelo
"Era malero, bochudo, cabeça-de-papagai, zambeta, fei pa peste!" (RJ)
8) vosmecê
"Como vê nossos distino mecê tem na vossa mão." (VS)
9) ene
"[...] e o ene é nê." (ABC)
10) ípsilon
"Até o ípsilon lá é pissilone." (ABC)
11) erre
"O esse é si, mas o erre tem nome de rê." (ABC)
239

Tabela 5 – Ocorrências e transcrições do metaplasmo fonético aférese


Metaplasmos por supressão: aférese
Verbo Substantivo
Lexia Ocorrência Transcrição Freq. Lexia Ocorrência Transcrição Freq.
estava tava [ˈtavə] 14 efe fê [ˈfe] 1
aguento guento [ˈgwẽtʊ] 1 ele lê [ˈle] 1
estou tô [ˈto] 5 eme mê [ˈme] 1
ene nê [ˈne] 1
ípsilon pissilone [pisiˈlônɪ] 1
erre rê [ˈhe] 1
esse si [ˈsi] 1
senhor inhô [îˈɲo] 1
Subtotal: 20 Subtotal: 8
Adjetivo Advérbio
Lexia Ocorrência Transcrição Lexia Ocorrência Transcrição Freq.
amarelo malero [maˈlɛɾʊ] ainda inda [ˈĩdə] 3
Subtotal: 1 Subtotal: 3
Pronome
Lexia Ocorrência Transcrição Freq.
vosmecê mecê [meˈse] 1
você cê [ˈse] 3
Subtotal: 4
Total: 35
Fonte: criado pelo autor.

O gráfico de percentuais ficou assim representado:

11%
11%

56%
22%

Aférese de sílaba no verbo "estar" Aférese de sílaba em substantivo


Aférese de sílaba em pronome Aférese do /a/
Gráfico 5 – Ocorrências do metaplasmo fonético aférese
Fonte: criado pelo autor.
240

As formas aferéticas mais comuns nas canções e causos examinados foram as de sílaba
que modificam as formas do verbo “estar” (tava, tô) e que representaram 56% das ocorrências.
Essas formas utilizadas por Gonzaga revelam um aspecto linguístico generalizado no Português
Brasileiro; inclusive entre os escolarizados, não se restringindo, por isso, apenas à variedade
rural nordestina. Trata-se, pois, de um típico traço gradual no continuum imaginário de
urbanização.
Já o fenômeno da aférese de sílaba em substantivos figurou em 22% na análise realizada.
Essas realizações apareceram nos nomes das letras do “ABC do Sertão”, com a supressão do
/e/ e do /i/, ou seja, elas ocorreram nas lexias que representam a leitura do abecedário, feita por
falantes rurais nordestinos. Houve também uma supressão aferética no substantivo senhor
(inhô), forma que se revela como um traço descontínuo, caracterizador dos falares rurais e de
falantes de origem social humilde. Em seguida, foram registradas aféreses do fonema /a/ no
verbo “aguentar” e no advérbio “ainda”. Essas formas equivaleram a 11% de todas as
ocorrências.
Enfim, o mesmo percentual de 11% foi verificado nas aféreses em pronomes de
tratamento (mecê, cê).

b) Síncope: a análise do corpus revelou que as formas sincopadas ocorrem em substantivo,


adjetivo, advérbio e preposição, sendo que as mais comuns advêm da supressão do fonema /a/.
Desse modo, pode-se ilustrar os seguintes usos das lexias em contexto:

1) bêbado
“E o sanfoneiro que de bebo já tá mole, deitado em riba do fole, só três nota sabe dá.” (T)
2) cabocla
“Uma estrada e uma caboca, cum a gente andando a pé.” (EC)
3) caboclo
“Olha, cabôco... quando a gente voltar aqui outra vez nesse lugá.” (C1)
4) cálculo
“Pelos carco que eu fiz, ele deve pussui pa mais de 10 contos de réi!” (RJ)
5) para
“Karolina dava uma rabanada de vestido pra riba d'eu.” (C4)
6) negro
“Butão preto bem juntinho como nêgo empareado.” (RJ)
241

7) relâmpago
“Ver relampo no mei dos truvão.” (Imb.)
8) salobro
“Aguinha saloba, essa daqui, hein?” (C2)

Tabela 6 – Ocorrências e transcrições do metaplasmo fonético síncope


Metaplasmos por supressão: síncope do /a/
Lexia Ocorrência Transcrição Freq. Categoria Gramatical
para pra [ˈpɾa] 73 Preposição
Subtotal: 73
Síncope do /r/ em encontro consonantal postônico
Lexia Ocorrência Transcrição Freq. Categoria Gramatical
cabra caba [ˈkabə] 4 Substantivo
caibro caibo [ˈkaybʊ] 1 Substantivo
negro nego [ˈnegʊ] 2 Adjetivo
salobro saloba [saˈlobə] 1 Adjetivo
dentro dento [ˈdẽtʊ] 2 Advérbio
padre pade [ˈpadɪ] 1 Substantivo
quatro quato [ˈqʷatʊ] 3 Numeral
outra ota [ˈotə] 4 Pronome
outro oto [ˈotʊ] 1 Pronome
Subtotal: 19
Síncope do /l/ em encontro consonantal postônico

Lexia Ocorrência Transcrição Freq. Categoria Gramatical


cabocla caboca [kaˈbokə] 3 Substantivo
caboclo caboco [kaˈbokʊ] 4 Substantivo
Subtotal: 7
Síncope de sílabas postônicas em proparoxítonas
Lexia Ocorrência Transcrição Freq. Categoria Gramatical
bêbado bebo [ˈbebʊ] 1 Adjetivo
cálculo carco [ˈkaɾkʊ] 1 Substantivo
relâmpago relampo [hɛˈlãpʊ] 1 Substantivo
Subtotal: 3
Total: 102
Fonte: criado pelo autor.
242

Em balizas percentuais, os dados sobre síncope apresentaram as seguintes


caracterizações:

19%
3% 7%

71%

Síncope de sílabas postônicas em proparoxítonas


Síncope do /l/ em encontro consonantal postônico
Síncope do /r/ em encontro consonantal postônico
Síncope do /a/
Gráfico 6 – Ocorrências do metaplasmo fonético síncope
Fonte: criado pelo autor.

A maior ocorrência de síncope nas canções e causos de Gonzaga foi notada com a
supressão do /a/ na lexia “para”, uma preposição, cuja frequência atingiu, em termos percentuais,
71%. Em segundo lugar, ficaram os fenômenos de síncope do /r/ nos grupos consonantais
postônicos /br/, /gr/, /dr/ e /tr/ (caibo, nego, pade e quato), distribuindo-se entre as categorias
gramaticais de substantivo, adjetivo, advérbio, numeral e pronome, o que representou 19% do
total. Essas síncopes usadas por Gonzaga são bastante frequentes em variedades nordestinas
sertanejas (BAGNO, 2012). Já as síncopes do /l/ (caboco, caboca) em encontro consonantal
postônico equivaleram a 7%. De outro modo, os fenômenos de síncope de sílabas postônicas,
como em “bebo” e “carco” – em que houve também haplologia e rotacismo, respectivamente
–, representaram 3%, o menor percentual de todas as realizações encontradas no corpus. Essas
formas em que houve síncope de sílaba têm como característica comum o fato de serem,
originalmente, vocábulos proparoxítonos que se tornaram paroxítonos, provavelmente em razão
da dificuldade de as pessoas não escolarizadas pronunciarem esses vocábulos. Essa é uma
tendência na evolução da língua que vem desde o latim clássico até a atual variedade rural
nordestina.

c) Apócope: as ocorrências de formas apocopadas na obra de Luiz Gonzaga foram registradas


principalmente pela supressão do rótico, classe de segmentos consonantais relacionados a um
243

“som de r” (SILVA, 2011), nos infinitivos dos verbos da 1ª, 2ª e 3ª conjugações, assim como
nos auxiliares “ser”, “ter” e “ir”. Houve ainda apagamento do rótico em substantivos e adjetivos.
Foram registrados também casos de apócope da nasal bilabial /m/, da fricativa alveolar
desvozeada /s/, da líquida lateral /l/ e de sílaba.

Exemplos de apócope em algumas lexias usadas em contexto:


1) apanhar
“Tive que pegá nas arma, pois num gosto de apanhá.” (FMV)
2) assombrar
“Pra Zeca se assombrá mandei pará o fole.” (FMV)
3) bulir
“Se ninguém buli comigo num sou home pra brigá.” (FMV)
4) caçar
“Vamu caçá eles?” (C4)
5) cochilar
“Pra dançar xote, se deite em meu cangote e pode cuchilá.” (CF)
6) contar
“Eu saí dali e fui... uh!... contá vantage, no mei dos amigo.” (C2)
7) dar
“Pois é, colega, vou dá uma casada [...]” (C3)
8) embalançar
“Para quando escutá meu baião, imbalança, imbalança, imbalançá.” (Imb.)
9) embalar
“Você tem que vivê no sertão pra na rede aprendê imbalá.” (Imb.)
10) fazer
‘Mas antes de fazê bunito de passage por Granito.” (RJ)
11) farriar
“É terra boa pro caboco farriá.” (ARJ)
12) mangar
“Eu quis mangá de Januário com meu fole prateado.” (RJ)
13) pegar
“Mas o caba num é mole, quis partir pra me pegá.” (FMV)
14) quebrar
“Vou quebrá mais essa caboca.” (VM)
244

15) rapar
“O forró já começou, vamo gente, rapá pé nesse salão.” (SJR)
16) remexer
“Quero ver tu remexê no resfulego da sanfona inté que o sol raiá.” (VM)
17) requebrar
“Quero ver tu requebrando, quero ver tu requebrá.” (VM)
18) roer
“Saudade assim faz ruê e amarga qui nem jiló.” (QJ)
19) ter
“No escuro desse jeito ninguém se distrai, pai de moça nessa festa só vai tê trabai.” (DG)
20) ver
“Eu quero vê, quero vê paia vuá.” (SJR)
21) ver
“[...] eu vô aí pra tu vê o que é bom pra tosse!” (C04)
22) voltar
“Pra mim vortá pro meu sertão.” (AB)
23) amor
“Karolina dava uma rabanada de vestido pra riba d'eu, cubria a sanfona! E eu sentia só aquele
cherim de fulô de amô.” (C04)
24) automóvel
“Artomove lá nem sabe se é home ou se é muié.” (EC)
25) bornal
“Soluçô vai no borná.” (OP)
26) contagem
“Nem prestava atenção a minha contage e eu tô lá!” (C4)
27) doutor
“Seu delegado, por Nossa Sinhora, dotô.” (FMV)
28) flor
“Ai, Xanduzinha, Xanduzinha minha flô.” (X)
29) a granel
“Vai oiando coisa a grané.” (EC)
30) papagaio
“Era malero, bochudo, cabeça-de-papagai, zambeta, fei pa peste!” (RJ)
245

31) poder
“Home por nóis escoído para as rédias do pudê.” (VS)
32) punhal
“Puxei do meu punhá, soprei no candiero, botei tudo pro terrero.” (FMV)
33) ser
“Fura esses burro vamo chegá cedo, que hoje o forguedo vai sê de matá.” (CR)
34) senhor
“Paraíba masculina, muié macho, sim sinhô.” (PB)
35) vantagem
“Eu saí dali e fui... uh!... contá vantage, no mei dos amigo.” (C2)
36) sofredor
“[...] de mandar chuva pra esse sertão sofredô.” (VAB)
37) trabalhador
“Sertão das muié séria, dos homes trabaiadô.” (VAB)
38) dizer
“Eu costumo dizê que uma banda minha é pernambucana, a outra banda é cearense!” (C1)

A tabela 7 demonstra as ocorrências de formas apocopadas do /r/ usadas por Luiz


Gonzaga.

Tabela 7 – Ocorrências e transcrições do metaplasmo fonético apócope do /r/


Metaplasmos por supressão: apócope do /r/
Verbos da 1ª conjugação Verbos da 2ª conjugação
Lexia Ocorrência Transcrição Freq. Lexia Ocorrência Transcrição Freq.
acabar acabá [akaˈba] 2 acender acendê [asẽˈde] 1
aguentar aguentá [agʷẽˈta] 1 aprender aprendê [apɾẽˈde] 5
apanhar apanhá [apâˈɲa] 1 bater batê [baˈte] 2
assombrar assombrá [asõˈbɾa] 1 beber bebê [beˈbe] 1
botar butá [buˈta] 2 comer cumê [kuˈme] 1
buscar buscá [busˈka] 1 convencer convencê [kõvẽˈse] 1
caçar caçá [kaˈsa] 1 dizer dizê [diˈze] 3
caprichar caprichá [kaprɪˈʃa] 1 esconder escondê [eskõˈde] 1
casar casá [kaˈza] 6 fazer fazê [faˈze] 4
chegar chegá [ʃeˈga] 2 remexer remexê [hêmeˈʃe] 1
cochilar cochilá [kuʃiˈla] 1 roer ruê [r̆uˈe] 1
246

contar contá [kõˈta] 3 sofrer sofrê [soˈfɾe] 2


cuidar cuidá [kuyˈda] 1 ver vê [ˈve] 8
dançar dançá [dãˈsa] 16 ver vê [ˈhe] 1
dar dá [ˈda] 5 viver vivê [viˈve] 1
desertar desertá [dezɛhˈta] 1
Subtotal: 33
despejar despejá [despeˈʒa] 1
embalançar imbalançá [ĩbalãˈsa] 1 Verbos auxiliares

embalar imbalá [ĩbaˈla] 1 Lexia Ocorrência Transcrição Freq.


escutar escutá [eskuˈta] 2 ser sê [ˈse] 8
espalhar espaiá [ispayˈa] 1 ter tê [ˈte] 4
falar falá [faˈla] 1 ir i [ˈi] 2
farriar farriá [fahiˈa] 1
festejar festejá [festeˈʒa] 1
ficar ficá [fiˈka] 2
fiscalizar ficalizá [fiskaliˈza] 1
gastar gastá [gasˈta] 1
guardar guardá [gʷahˈda] 1
mangar mangá [mãˈga] 1
parar pará [paˈra] 2
pegar pegá [pɛˈga] 2
peneirar penerá [pênɛˈɾa] 1
quebrar quebrá [kɛˈbɾa] 1
raiar raiá [hayˈa] 1
rapar rapá [haˈpa] 1
requebrar requebrá [hɛkɛˈbɾa] 2
tocar tocá [toˈka] 7
visitar visitá [viziˈta] 1
Subtotal: 78 Subtotal: 14
Verbos da 3ª conjugação Substantivos
Lexia Ocorrência Transcrição Freq. Lexia Ocorrência Transcrição Freq.
bulir buli [buˈli] 1 ar á [ˈa] 2
cair caí [kaˈi] 1 amor amô [aˈmo] 9
dormir durmi [duhˈmi] 1 calor calô [kaˈlo] 1
mentir minti [mĩˈtʃi] 2 cor cô [ˈco] 1
seguir segui [seˈgi] 1 dor dô [ˈdo] 5
partir parti [pahˈti] 1 doutor dotô [doˈto] 12
247

vestir vesti [viʃˈti] 1 flor flô [ˈflo] 2


lugar lugá [luˈga] 4
major majó [maˈʒɔ] 1
mar má [ˈma] 4
mulher mulhé [muˈʎɛ] 1
poder pudê [puˈde] 1
sabor sabô [saˈbo] 1
senhor sinhô [sîˈɲo] 8
suor suó [suˈɔ] 1
Subtotal: 8 Subtotal: 53
Adjetivo
Lexia Ocorrência Transcrição Freq.
sofredor sofredô [sofɾeˈdo] 1
maior maió [mayˈɔ] 8
morredor morredô [moheˈdo] 1
pior pió [piˈɔ] 1
trabalhador trabaiadô [tɾabayaˈdo] 1
Subtotal: 12
Total: 198
Fonte: criado pelo autor.

O gráfico 7 representa as supressões do rótico /r/ em posição final.

6%
27%
39%

7%
4%
17%

Apócope em verbos da 1a conjugação Apócope em verbos da 2a conjugação


Apócope em verbos da 3a conjugação Apócope em verbo auxiliar
Apócope em substantivos Apócope em adjetivos

Gráfico 7 – Apócope do /r/


Fonte: criado pelo autor
248

Os casos de apócope do rótico no infinitivo dos verbos foram os mais abundantes dentre
os metaplasmos analisados na obra de Gonzaga. As formas apocopadas apareceram no
infinitivo de verbos pertencentes à primeira (39%), segunda (17%) e terceira (4%) conjugações
que, somadas às dos verbos auxiliares (ser, ter, ir), totalizam 67%. Desse total, as apócopes
ocorreram majoritariamente entre verbos da 1ª e 2ª conjugações. Esses eventos comprovam que
o apagamento do /r/ final no infinitivo dos verbos é abundante nas formas populares socialmente
marcadas. Além disso, em variedades nordestinas, o verbo “ver”, além da queda do /r/, pode ter
a consoante [v] transformada na aspirada [h]: “ver” [ˈhe]. Entretanto, o fenômeno de
apagamento sob análise não se restringe apenas ao uso pelas classes sócio e linguisticamente
menos prestigiadas, já que está presente no vernáculo de todos os brasileiros, conforme atesta
Bagno (2007). Trata-se, portanto, de um traço gradual bastante característico do Português
Brasileiro. Cabe salientar ainda que, não obstante as ocorrências predominarem nos infinitivos
dos verbos, foram registradas 4 formas apocopadas do verbo “querer” na 3ª pessoa do singular
no presente do indicativo (qué).
O segundo maior percentual dos eventos de apócope do /r/ foram observados em lexias
da classe dos substantivos, 27%, distribuídos entre vocábulos oxítonos (amô, lugá, flô) e
monossilábicos (dô, flô, cô). Em adjetivos, foram encontradas formas apocopadas em apenas
6% de todas as realizações empregadas por Gonzaga.
São também frequentes, no Português Brasileiro, na variedade nordestina sertaneja que
foi divulgada por Gonzaga, os casos de apócope de sílaba, e dos fonemas /s/ e /l/, conforme
apresentamos na tabela 8 abaixo.

Tabela 8 – Ocorrências e transcrições do metaplasmo fonético apócope do /s/, /l/ e de sílaba


Apócope do /s/
Lexia Ocorrência Transcrição Freq. Categoria Gramatical
escoramos escoremo [iskɔˈɾêmʊ] 1 Verbo
escutamos escutamo [iskuˈtâmʊ] 1 Verbo
bebemos bebemo [bɛˈbêmʊ] 4 Verbo
chegamos cheguemo [ʃɛˈgêmʊ] 1 Verbo
chegamos chegamo [ʃɛˈgâmʊ] 2 Verbo
fomos fumo [ˈfûmʊ] 2 Verbo
pagamos pagamo [paˈgâmʊ] 1 Verbo
saímos saimo [saˈîmʊ] 2 Verbo
vamos vamo [ˈvâmʊ] 7 Verbo
voltamos voltamo [vowˈtâmʊ] 1 Verbo
249

Luiz Luí [ˈluˈi] 5 Substantivo


mas ma [ˈma] 1 Conjunção
mais mai [ˈmay] 18 Advérbio
Subtotal: 46
Apócope do /l/
Lexia Ocorrência Transcrição Freq. Categoria Gramatical
automóvel artomove [aɾtoˈmovɪ] 1 Substantivo
bornal borná [bɔhˈna] 1 Substantivo
coronel coroné [koɾôˈnɛ] 7 Substantivo
(a) granel grané [gɾâˈnɛ] 1 Advérbio
Juvenal Juvená [ʒuvêˈna] 1 Substantivo
material materiá [matɛɾiˈa] 1 Substantivo
mil mi [ˈmi] 1 Numeral
punhal punhá [pûˈɲa] 2 Substantivo
Subtotal: 15
Apócope de sílaba
Lexia Ocorrência Transcrição Freq. Categoria Gramatical
bonzinho bonzim [bôˈzĩ] 1 Adjetivo
cheinho cheim [ʃeˈĩ] 1 Adjetivo
cheirinho cherim [ʃeˈɾĩ] 1 Substantivo
direitinho dereitim [deɾeyˈtʃĩ] 1 Advérbio
molequinho mulequim [mulɛˈkĩ] 6 Substantivo
negocinho negocim [nɛgɔˈsĩ] 1 Substantivo
negrinho neguim [neˈgɪ]̃ 1 Substantivo
numerozinho numerozim [numeruˈzĩ] 1 Substantivo
risquinho risquim [hisˈkĩ] 1 Substantivo
taludinho taludim [taluˈdĩ] 1 Adjetivo
tocadorzinho tocadozim [tɔkadoˈzĩ] 3 Substantivo
para pa [ˈpa] 1 Preposição
papagaio papagai [papaˈgay] 2 Substantivo
balanceio balancê [balãˈse] 1 Substantivo
feio fei [ˈfey] 1 Adjetivo
meio mei [ˈmey] 6 Substantivo
Subtotal: 29
Total: 90
Fonte: criado pelo autor.
250

As apócopes dos fonemas /s/, /l/ e de sílaba, nos contextos linguísticos indicados acima,
apresentaram os seguintes resultados em padrões percentuais:

32%

51%

17%

Apócope do /s/ Apócope do /l/ Apócope de sílaba

Gráfico 8 – Apócopes do /s/, do /l/ e de sílaba


Fonte: criado pelo autor

A supressão do /s/ final é significativa na fala de Gonzaga, ocorrendo principalmente


em verbos na 1ª pessoa do plural (escutamu, bebemu, saímu) no presente do indicativo. Esse
tipo de apócope foi também encontrado em substantivo (Luí), conjunção (ma) e advérbio (mai),
com 51% de todas as ocorrências.
As apócopes de sílaba representaram 32% dos eventos, notadamente em substantivos
usados no diminutivo, após despalatização da nasal palatal vozeada /ɲ/ (negocim, molequim,
risquim). Nesse grupo, chamam a atenção as apócopes de duplo ditongo (falso hiato) em
substantivos (papagaio, meio) e adjetivo (feio).
Outro evento de apócope usado por Gonzaga, que é típico do falares rural nordestino e
rurbano, verificou-se com a supressão da lateral /l/, equivalendo a 17% do total. Esse
desaparecimento ocorreu, predominantemente, com substantivos oxítonos (borná, punhá,
coroné).
Com o intuito de obter uma visão geral de todas as realizações de apócope nas canções
e causos narrados por Gonzaga, os dados foram reunidos a partir dos conteúdos retirados das
tabelas 7 e 8. Dessa reunião, resultaram os percentuais demonstrados pelo gráfico 9 a seguir.
251

16% 5%
10%

69%

Apócope do /s/ Apócope do /l/


Apócope de sílaba Apócope do /r/
Gráfico 9 – Casos de apócope na obra de Luiz Gonzaga
Fonte: criado pelo autor

O universo de ocorrências do fenômeno da apócope no corpus tem como destaque a


preponderância das supressões do /r/, distribuídas entre as categorias gramaticais de verbos,
substantivos e adjetivos (conforme já visto na tabela 7), e que representaram 69% de todos os
eventos, confirmando ser um tipo de apócope bastante difundido no Português Brasileiro, tanto
entre falantes de variedades estigmatizadas quanto entre falantes de variedades prestigiadas.
Em segundo plano, ficaram as apócopes da fricativa alveolar /s/, com 16% do universo
investigado, seguidas das apócopes de sílaba, 10%, e da lateral /l/, com apenas 5%.
Por fim, um outro tipo de metaplasmo por supressão, a sinalefa, foi encontrado na
variedade rural usada por Gonzaga, em palavras resultantes de aglutinações como: “dum” (de
+ um), “pramode” (pelo amor de), “daquele” (de + aquele) e “destá” (deixe + estar).

5.2.3 Análise de metaplasmos por transposição: metátese e hiperbibasmo

a) Metátese: as ocorrências metatéticas, como já vimos, realizam-se quando há o deslocamento


de um fonema dentro da mesma sílaba ou entre sílabas diferentes para outra posição. Os eventos
presentes no corpus foram observados com as consoantes líquidas /r/, /l/ e com a fricativa
alveolar /s/. Eis os usos das lexias em contexto:
1) perguntar
“Eu preguntei a Deus do céu, uai.” (AB)
2) porque
“Eu só não fico proquê Rosa diz: oxente, será que Lula já deixou de me amá?” (ARJ)
252

3) amarelo
“Era malero, bochudo, cabeça-de-papagai, zambeta, fei pa peste!” (RJ)
4) satisfeito
“[...] por isso saxtifeito com você vou dançá.” (CF)

Tabela 9 – Ocorrências e transcrições do metaplasmo fonético metátese


Metaplasmos por transposição: metátese do /r/
Lexia Ocorrência Transcrição Freq. Categoria Gramatical
perguntar preguntei [pɾɛgũˈtey] 2 verbo
porque proque [pɾuˈke] 1 conjunção
Subtotal: 3
Metaplasmos por transposição: metátese do /s/
Lexia Ocorrência Transcrição Freq. Categoria Gramatical
satisfeito saxtifeito [saʃtiˈfeytʊ] 1 adjetivo
Subtotal: 1
Metaplasmos por transposição: metátese do /l/
Lexia Ocorrência Transcrição Freq. Categoria Gramatical
amarelo malero [maˈlɛɾʊ] 1 adjetivo
Subtotal: 1
Total: 5
Fonte: criado pelo autor.

A porcentagem de uso das metáteses encontradas está representada no gráfico 10 a


seguir.

20%

20% 60%

Metátese do /r/ Metátese do /s/ metátese do /l/

Gráfico 10 – Metáteses do /l/, /r/ e /s/


Fonte: criado pelo autor
253

A grande maioria dos fenômenos de metáteses apareceram com a vibrante /r/ em


contexto de coda silábica, dentro da mesma sílaba (preguntei), representando 60% de todas as
ocorrências. Os 40% restantes dividiram-se igualmente em casos de metáteses entre sílabas com
transposição da lateral /l/ (20%), em que houve também aférese (malero), e da fricativa alveolar
desvozeada /s/ (20%), que se palatalizou antes da oclusiva dental /d/ na lexia “saxtifeito”.

b) Hiperbibasmo:
É encontrada uma ocorrência na forma de diástole, quando há o avanço do acento tônico
para a sílaba posterior, consoante já vimos.
Uso da lexia no contexto:
1) resfôlego
“Quero ver tu remexendo no resfulego da sanfona inté que o sol raiá.” (VM)

Tabela 10 – Ocorrências e transcrições do metaplasmo fonético diástole


Metaplasmos por transposição: hiperbibasmo na forma de diástole
Substantivo
Lexia Ocorrência Transcrição
resfôlego resfulego [hɛsfuˈlegʊ]

Total: 1 – 100%
Fonte: criado pelo autor.

Enfim, a ocorrência do hiperbibasmo na forma de diástole foi verificada no substantivo


“resfôlego”, em que houve deslocamento do acento tônico no “ô” para o “e”. Julgamos
dispensável a apresentação de um gráfico por se tratar de uma única ocorrência. Vale ainda
sublinhar o fato de que não foram encontrados no corpus casos de hiperbibasmo na forma de
sístole dentro da categoria de metaplasmos por transposição.

5.2.4 Análise de metaplasmos por transformação: rotacismo, lambdacismo, palatização,


despalatização do /ʎ/ (iotização e apagamento), desnasalação, assimilação e monotongação

a) Rotacismo: a presença do rotacismo foi registrada, predominantemente, em posições de coda


silábica e encontro consonantal, na categoria substantivo.
São exemplos de rotacismos usados em contexto de canções e causos de Luiz Gonzaga:
254

1) solto
“Assum Preto veve sorto, mas num pode avuá.” (AP)
2) alvoroço
“Dispois que esse fi de Januário vortô do sul, tem sido um arvoroço da peste lá pra banda do
Novo Exu.” (RJ)
3) planos
“E se a safra num atrapaiá meus pranos [...]” (VAB)
4) almoçar
“Vô matá um bode...fazê um pirão pra gente armuçá.” (C03)
5) volta
“Fica dançano aqui em vorta de mim.” (C4)
6) voltar
“Pra mim vortá pro meu sertão.” (AB)
7) voltarei
“Eu te asseguro não chore não, viu que eu vortarei, viu, meu coração.” (AB)
8) maldade
“Tarvez pur iguinorança ou mardade das pió [...].” (AP)

As ocorrências e transcrições fonéticas, em ordem alfabética, dos casos de rotacismo


estão classificadas abaixo.

Tabela 11 – Ocorrências e transcrições do metaplasmo fonético rotacismo


Rotacismo
Em coda silábica
Lexia Ocorrência Transcrição Freq. Categoria Gramatical
almoçar armuçá [aɾmuˈsa] 1 verbo
alvoroço arvoroço [ahvoˈɾosʊ] 2 substantivo
Anselmo Ansermo [ãˈsɛhmʊ] 12 substantivo
calça carça [ˈkahsə] 1 substantivo
falta farta [ˈfahtə] 1 substantivo
folguedo forguedo [fohˈgedʊ] 1 substantivo
maldade mardade [mahˈdadɪ] 1 substantivo
salgado sargado [saɾˈgadʊ] 1 adjetivo
solto sorto [ˈsoɾtʊ] 1 adjetivo
talvez tarvez [taɾˈveys] 2 advérbio
255

volta vorta [ˈvɔhtə] 5 substantivo


voltar vortá [vɔɾˈta] 5 verbo
voltamos vortemo [vɔhˈtêmʊ] 1 verbo
voltarei vortarei [vɔɾtaˈrey] 1 verbo
volto vorto [ˈvɔhtʊ] 1 verbo
voltou vortô [voɾˈto] 3 verbo
Subtotal: 39
Em encontro consonantal
Lexia Ocorrência Transcrição Freq. Categoria Gramatical
flor frô [ˈfɾo] 2 substantivo
planos prano [ˈpɾânʊ] 1 substantivo
plantação prantação [pɾãtaˈsãw] 3 substantivo
Subtotal: 6
Total: 45
Fonte: criado pelo autor.

Em termos percentuais, tem-se a seguinte representação:

13%

87%

Rotacismo em coda silábica Rotacismo em encontro consonantal

Gráfico 11 – Rotacismo em coda silábica e encontro consonantal


Fonte: criado pelo autor

A maioria dos casos de rotacismo ocorreram em posição de coda silábica, 39 ao todo,


representando 87% das realizações encontradas no corpus, tal qual em arvoroço [ahvoˈɾosʊ] e
vorta [ˈvɔhtə]. Os seis eventos de rotacismo em encontro consonantal equivaleram somente a
13%, como nos vocábulos prano [ˈpɾânʊ] e frô [fɾo]. Em termos de categoria gramatical, a
classe de substantivos foi a que teve maior presença de rotacização, 10; seguida de verbos, 06;
adjetivos, 02; e advérbio, com apenas um caso.
256

Cabe destacar que Gonzaga pronuncia o /r/ de formas diferentes. Por exemplo, nas
gravações das músicas “Assum preto” e “A volta da asa branca”, nas versões utilizadas neste
trabalho, as lexias vorta [ˈvɔɾtə] e vortô [voɾˈto] são articuladas com a consoante vibrante
simples (tepe); já no causo “Karolina com K”, em que Gonzaga narra um episódio ocorrido em
sua vida, as mesmas lexias são realizadas com a fricativa glotal desvozeada: [ˈvɔhtə] e [vohˈto],
que são formas típicas da variante rural nordestina. No primeiro caso, o uso da consoante [ɾ]
indica a provável influência do falar do Rio de Janeiro sobre Gonzaga, pois foi na capital do
país, onde sanfoneiro passou a viver a partir de 1939. No entanto, Gonzaga continuou a usar a
fricativa glotal desvozeada [h], como ocorre em vortemo [vɔhˈtêmʊ], articulação típica de suas
origens, a variante sertaneja nordestina, especialmente em situações de fala mais casuais, menos
monitoradas, como no relato do causo “Karolina com K”.

b) Lambdacismo: não houve abundância desse fenômeno; sua realização foi encontrada em
apenas uma lexia.

1) cerveja
– Samarica, tem celveja? (C4)

Tabela 12 – Ocorrências e transcrições do metaplasmo fonético lambdacismo


Metaplasmos por transformação: lambdacismo em coda silábica
Substantivo
Lexia Ocorrência Freq. Transcrição
cerveja celveja 2 [sewˈveʒə]

Total: 2 – 100%
Fonte: criado pelo autor.

Houve um único registro de lambdacismo, com uma repetição, no falar de Gonzaga. O


evento de transformação do /r/ em /l/ ocorreu em posição de coda silábica. Impende ressaltar
que, em termos de ortografia, se escreve com a letra “l” a mudança que ocorre no vocábulo que
sofreu lambdacismo, mas, no Português Brasileiro, está praticamente consolidada a vocalização
da consoante lateral naquela posição.

c) Palatização: o fenômeno da palatização na fala de Gonzaga foi observado principalmente


na fricativa [s] > [ʃ], em posição pós-vocálica, em coda silábica, e nas dentais alveolares [t] e
257

[d] seguidas da vogal [i], que se realizam como africadas [tʃ] e [dʒ]. As africadas, como vimos,
surgiram no Português Brasileiro em decorrência do processo de palatização (2.3.2.4, letra “c”).
Houve ainda a ocorrência de palatização da fricativa sonora [z] em posição intervocálica.
Ortograficamente, os segmentos palatizados [ʃ], [ʒ], [tʃ] e [dʒ] são representados, nos
exemplos abaixo, pelos grafemas “x”, “j, “tx” e “dj”164, respectivamente.

1) vestido
“Não qué mais sapato baixo, vextido [viʃˈtidʊ] bem cintado, num qué mais vexti timão”. (XM)
2) vestir
“Não qué mais sapato baixo, vextido bem cintado, num qué mais vexti [viˈʃti] timão”. (XM)
3) estrada
“Uma extrada [ɪʃˈtɾadə] e uma caboca cum a gente andando a pé”. (EC)
4) quase
“Quando eu abarco essa cintura de pilão, fico frio, arrepiado, quaje [ˈqʷaʒɪ] morto de paixão”.
(CF)
5) pista
“Mas dentro da pixta [ˈpiʃtə], o povo só pede, só dança o baião”. (BD)
6) cristão
“Coisas qui, pramode vê, o crixtão [kɾiʃˈtãw] tem que andar a pé.” (EC)
7) diabo
“Fazia revolução como o djabo [ˈdʒabʊ], num dava nem um tiru!” (C1)
8) teatro
“Era aqui, com vocês, no Txeatro [tʃɪˈatɾʊ] Thereza Rachel”. (C1)
9) mentir
“[...] contando essa história, com a presença do Deputado Armando Falcão, que tá aqui entre
nós... que não me deixa mentxi! [mɪˈ̃ tʃi]” (C1)
10) estudante
“Namorei uma extudante [ɪʃtuˈdãtʃɪ]”. (C2)
11) moléstia
“Ah, minino, quando o pai da moça sobe... deu uma pôpa da muléxta [muˈlɛʃtə] !” (C2)
12) mentira
“Mintxira [mĩˈtʃɪɾə], Luiz. Isso é invenção desse povo! Tu? Meu coração? (C2)

164
Usamos a mesma representação adotada por Reis e Santana (2016) em trabalho sobre a palatização em Sergipe.
258

13) tinha
“Meu pai nunca txinha [ˈtʃîɲə] me batido.” (C2)
14) festa
“Nas quato fexta [ˈfɛʃtə] do ano.” (C2)
15) besta
“Me chamou de bexta! [ˈbeʃtə]” (C2)
16) pote
“Daí, mais uma coisinha, escutei foi o tibungado do caneco no potxe [ˈpɔtʃɪ].” (C2)
17) tinhoso
“Luí", tu pode sê famoso, mais teu pai é mais txinhoso [tʃîˈɲozʊ].” (C2)
18) gosta
“[...] inda mais quando a gente tá dançando com uma danada qui a gente goxta [ˈgɔʃtə] dela.”
(C03)
19) encostei
“Já encoxtei [ĩkoʃtey] os materiá...cipó, caibo... as vara.” (C3)
20) bode
“Vô matá um bodje [ˈbɔdʒɪ] ...fazê um pirão pra gente armuçá.” (C3)
21) estrupício
“Karolina foi o maió extrupiço [iʃtɾuˈpisʊ] que encontrei na minha vida!” (C4)
22) mais
“Que nois vamu vortá maix [ˈmaʃ] tarde!” (C4)
23) prestava
“Nem prextava [pɾɛʃˈtavə] atenção a minha contage e eu tô lá!” (04)
24) peste
“Sai pra lá, pexte [ˈpɛʃtɪ]” (PB)
25) juntinho
“butão preto bem juntxinho [ʒʊ̃ˈtʃĩɲʊ] como nêgo empareado.” (RJ)
26) tudinho
“Marcolino dava tudjinho [tʊˈdʒîɲʊ ] por um chero de Xandu”. (X)
27) vista
“É fogo de vixta [ˈviʃtə], mas dentro da pixta o povo só pede, só dança o baião.” (DM)
28) sulistas
“Pelo auxílio dos sulixtas [suˈliʃtas] nessa seca do sertão.” (VS)
259

29) estados
“Pois dotô dos vinte extados [ɪʃˈtadʊs] temos oito sem chovê.” (VS)
30) estiagem
“Livre assim nóis da ismola, que no fim dessa extiagem [ɪʃtiˈaʒẽy].” (VS)
31) neste
“vai dá tudo nexte [ˈneʃtɪ] chão.” (VS)
32) destinos
“Como vê nossos dixtino [dɪʃˈtinʊ] mecê tem na vossa mão.” (VS)
33) gostoso
“E esse teu suó sargado é goxtoso [goʃˈtosʊ] e tem sabô.” (VM)
34) gosto
“Pois o teu corpo suado, cum esse chero de fulô, tem um goxto [ˈgoʃtʊ] temperado [...]” (VM)
35) distrai
“No escuro desse jeito ninguém se dixtrai [dɪʃˈtɾay].” (DG)
36) visto
“E as morenas que eu tenho vixto [ˈviʃtʊ] por cá.” (ARJ)
37) gostei
“Goxtei [goʃˈteɪ] de todos ox [uʃ] tipo, mas só com uma eu fiz fé.” (VCJ)

A tabela 13 mostra as ocorrências de palatização. A representação desse metaplasmo


torna-se evidente na transcrição fonética. Consoante indicado anteriormente, as formas
palatalizadas surdas, [ʃ] e [tʃ], assim como as sonoras, [ʒ] e [dʒ], aparecem na coluna
“ocorrência” representadas pelos grafemas “x”, “tx”, “j” e “dj”, respectivamente. O
levantamento dos dados revelou o seguinte:

Tabela 13 – Ocorrências e transcrições do metaplasmo fonético palatização


Palatização da fricativa [s] em coda silábica
Lexia Ocorrência Transcrição Freq. Categoria Gramatical
avistei avixtei [aviʃˈtey] 1 verbo
besta bexta [ˈbeʃtə] 2 adjetivo
costuma cuxtuma [kuʃˈtûmə] 1 verbo
costumo cuxtumo [kuʃˈtûmʊ] 1 verbo
cristão crixtão [kɾiʃˈtãw] 1 substantivo
destino dextino [diʃˈtînʊ] 1 substantivo
260

distrai dixtrai [diʃˈtɾay] 1 verbo


encostei encoxtei [ĩkoʃˈtey] 1 verbo
estados extados [iʃˈtadʊs ] 1 substantivo
estiagem extiagem [iʃtiˈaʒẽy] 1 substantivo
estrada extrada [iʃˈtɾadə] 3 substantivo
estrupício extrupiço [iʃtɾuˈpisʊ] 1 substantivo
estudante extudante [iʃtʊˈdãtʃɪ] 1 substantivo
festa fexta [ˈfɛʃtə] 4 substantivo
gosta goxta [ˈgɔʃtə] 2 verbo
gosto goxto [ˈgoʃtʊ] 2 substantivo
gostoso goxtoso [goʃˈtosʊ] 1 adjetivo
gostei goxtei [goʃˈtey] 2 verbo
história hixtóra [iʃˈtɔɾə] 1 substantivo
mais maix [ˈmaʃ] 1 advérbio
moléstia moléxtia [mʊˈlɛʃtə] 1 substantivo
neste nexte [ˈneʃtɪ] 2 contração: prep. + pronome
os ox [uʃ] 1 artigo
peste pexte [ˈpɛʃtɪ] 5 substantivo
pista pixta [ˈpiʃtə] 1 substantivo
prestar prextar [pɾɛʃˈta] 1 verbo
prestava prextava [pɾɛʃˈtavə] 2 verbo
sulistas sulixtas [suˈliʃtəs] 1 substantivo
vestido vextido [viʃˈtidʊ] 2 substantivo
vestir vextir [viʃˈti] 1 verbo
vista vixta [ˈviʃtə] 1 substantivo
visto vixto [ˈviʃtʊ] 1 verbo
Subtotal: 48
Palatização da oclusiva alveolar [t] antes da vogal anterior alta [i]
Lexia Ocorrência/Transcrição Freq. Categoria Gramatical
juntinho juntxinho [ʒûˈtʃĩɲʊ] 1 adjetivo
mentir mentxir [mĩˈtʃi] 1 verbo
mintira mintxira [mĩˈtʃiɾə] 1 substantivo
pote potxe [ˈpɔtʃɪ] 1 substantivo
teatro txeatro [tʃiˈatɾʊ] 1 substantivo
tinha txinha [ˈtʃîɲə] 3 verbo
tinhoso txinhoso [tʃîˈɲozʊ] 1 adjetivo
261

Subtotal: 9
Palatização da oclusiva alveolar [d] antes da vogal anterior alta [i]
Lexia Ocorrência/Transcrição Freq. Categoria Gramatical
bode bodje [ˈbɔdʒɪ] 1 substantivo
diabo djiabo [ˈdʒyabʊ] 3 substantivo
tudinho tudjinho [tʊˈdʒîɲʊ] 1 advérbio
Subtotal: 5
Palatização da fricativa surda [s] intervocálica
Lexia Ocorrência/Transcrição Freq. Categoria Gramatical
disse dixi [ˈdiʃɪ] 9 verbo
Subtotal: 9
Palatização da fricativa sonora [z] intervocálica
Lexia Ocorrência/Transcrição Freq. Categoria Gramatical
quase quaje [ˈqʷaʒɪ] 2 advérbio
Subtotal: 2
Total: 73
Fonte: criado pelo autor.

O gráfico 12 mostra os percentuais encontrados.

3%
12%
7%

12%
66%

Palatização da fricativa [s] em coda silábica


Palatização da oclusiva alveolar [t] antes da vogal alta [i]
Palatização da oclusiva alveolar [d] antes da vogal alta [i]
Palatização da fricativa surda [s] intervocálica
Palatização da fricativa sonora [z] intervocálica
Gráfico 12 – Palatizações do /s/, /t/, /d/ e /z/
Fonte: criado pelo autor.
262

Destaca-se a grande ocorrência de palatização da fricativa surda [s] em posição de coda


silábica, seguida da consoante alveolar surda [t], com 66% das realizações. Verifica-se também
que, na fala de Gonzaga, a palatização do [s] foi favorecida pelo contexto seguinte /t + a/, como
em “prextava” [pɾɛʃˈtavə], “fexta” [ˈfɛʃtə], “pixta” [ˈpiʃtə], “extados” [iʃˈtadʊs] e “goxta”
[ˈgɔʃtə], revelando um fato interessante em comparação com trabalhos que reconhecem o
contexto /t + i/ como mais propício à palatização daquele segmento consonantal (JESUS, 2013).
Por seu turno, a palatização da fricativa surda [s] em posição intervocálica registra 12% das
ocorrências, principalmente com a forma do verbo “dizer” usada na terceira pessoa do pretérito
perfeito, como em “dixi” [ˈdiʃɪ]. Contudo, ela só apareceu nos relatos de Gonzaga, quando há
maior espontaneidade na fala. Nas canções, ela não foi registrada. Marroquim (1996 [1934])
lembra que essa forma palatalizada de “disse” bpertence ao português arcaico e ainda pode ser
encontrada na variedade rural nordestina. O mesmo percentual de ocorrências (12%) foi
registrado pelo uso da oclusiva alveolar surda [t] antes da vogal alta [i], como em “potxe”
[ˈpɔtʃɪ], “mentxira” [mĩˈtʃiɾə] e “txinha” [ˈtʃĩɲə]. Nesse contexto, essas palatizações
demonstram a influência dos falares cearense e carioca no repertório de Gonzaga, embora o
sanfoneiro criticasse quem assumia, rapidamente, algum linguajar “estrangeiro” (ver 5.3). A
realização da oclusiva alveolar sonora [d] antes da vogal alta [i] não seguiu a mesma tendência
da oclusiva alveolar surda, já que sofreu palatização em apenas 7% das ocorrências do
fenômeno. Por fim, no que se refere à palatização da fricativa sonora, [z], em posição
intervocálica, houve apenas 3% de ocorrência, como em “quaje” [ˈqʷaʒɪ]. Percentual bastante
baixo em comparação com a realização da fricativa surda, que veio na mesma posição. Porém,
não se pode negligenciar o fato de que as duas lexias pertencem a categorias léxico-gramaticais
diferentes, pois a frequência de uso de verbos (dixi) é bem maior do que a de advérbios (quaje).

d) Despalatização: na obra de Gonzaga, a consoante palatal [ʎ] apresentou três realizações


distintas: ela pode perder esse traço, passando a ser articulada como alveolar [l], despalatizando-
se; pode ainda sofrer iotização ou, até mesmo, desaparecer.

1) mulher
“Ah, mulé baguncera da mulesta.” (C4)
2) molhar
“Terra moiada, mato verde, que riqueza.” (VAB)
3) atrapalhar
“E se a safra num atrapaiá meus pranos [...]”. (VAB)
263

4) olhos
“Quando o verde dos teus óio [...].” (AB)
5) espalhar
“Se ispaiá na prantação.” (AB)
6) talho
“Seu marido foi falá, mas levou cinco tai.” (FMV)
7) filha
“Coroné Zeca com muita alegria hoje casa a fia e pra festejá [...]” (CR)
8) folha
“E virá foia seca no á para quando escutá meu baião [...]” (Imb.)
9) olhos
“Quando o verde dos teus óio.” (AB)
10) cangalha
“Nunca encontrou quem lhe butasse a cangaia, no fole de oito baxo!” (C2)

As ocorrências das três realizações podem ser vistas na tabela seguinte.

Tabela 14 – Ocorrências e transcrições do metaplasmo fonético despalatização


Realizações do /ʎ/
Apagamento: ∅
Lexia Ocorrência Transcrição Freq. Categoria Gramatical
cilha cia [ˈsya] 1 substantivo
emparelhado empariado [ẽpaɾiˈadʊ] 1 adjetivo
família [fâˈmiʎa] famia [fâˈmia] 2 substantivo
filha fia [ˈfya] 1 substantivo
filho fi [ˈfi] 3 substantivo
filho fio [ˈfyu] 1 substantivo
escolhia escoía [iskoˈia] 1 verbo
escolhido escoído [eskoˈidʊ] 1 verbo
melhor mió [miˈɔ] 1 advérbio
Subtotal: 12
Iotização
Lexia Ocorrência Transcrição Freq. Categoria Gramatical
atrapalhar atrapaiá [atɾapayˈa] 1 verbo
cangalha cangaia [kãˈgaya] 1 substantivo
264

chocalho chucai [ʃuˈkay] 1 substantivo


espalhar ispaiá [ispayˈa] 1 verbo
folha foia [ˈfoya] 1 substantivo
fornalha fornaia [fɔɾˈnaya] 1 substantivo
molhada moiada [mɔyˈadə] 1 adjetivo
molhando moiando [mɔyˈãdʊ] 1 verbo
olhando oiando [oyˈãdʊ] 1 verbo
trabalhador trabaiadô [tɾabayaˈdo] 1 adjetivo
mulher muié [muˈyɛ] 6 substantivo
olhei oiei [oyˈey] 1 verbo
olhos óio [ˈɔyʊ] 6 substantivo
orvalho orvaio [ɔɾˈvayʊ] 1 substantivo
palha paia [ˈpaya] 4 substantivo
relho rei [ˈɦey] 1 substantivo
talho tai [ˈtay] 1 substantivo
trabalho trabai [tɾaˈbay] 1 substantivo
velha véia [ˈvɛyə] 1 adjetivo
velho véi [ˈvɛy] 6 substantivo
velho véi [ˈvɛy] 5 adjetivo
velho véio [ˈvɛyʊ] 3 adjetivo
Subtotal: 46
Despalatização
Lexia Ocorrência Transcrição Freq. Categoria Gramatical
colher culé [kuˈlɛ] 1 substantivo
mulher mulé [muˈlɛ] 9 substantivo
Subtotal: 10
Total: 68
Fonte: criado pelo autor.

Conforme já enunciado, as realizações do /ʎ/ foram de três espécies: apagamento,


despalatização e iotização. Essas ocorrências podem dar-se em posição medial ou final de sílaba,
distribuindo-se entre substantivos, verbos e adjetivos. Os dados da tabela também permitiram
identificar o contexto vocálico antecedente que parece favorecer as ocorrências de cada espécie,
tal qual apresentado no gráfico 13 a seguir.
265

9% 15%
4%
12%
18%
1%

22%
19%

Despalatização da lateral [ʎ]


Apagamento da lateral palatal [ʎ]
Iotização precedida da vogal baixa central [a]
Iotização precedida de vogal médio-baixa anterior: [ɛ]
Iotização precedida de vogal médio-alta anterior: [e]
Iotização precedida de vogal médio-baixa posterior: [ɔ]
Iotização precedida de vogal médio-alta posterior: [o]
Iotização precedida de vogal alta posterior: [u]
Gráfico 13 – Realizações do /ʎ/
Fonte: criado pelo autor

Nos nossos dados, a presença da vogal alta anterior [i] antes ou depois do [ʎ] favorece
o apagamento (∅) da palatal, como em “fio” [fyu], “cia” [ˈsya] e “escoía” [iskoˈia],
representando 18% do total de lexias coletadas. Também merece destaque o apagamento da
consoante [ʎ], embora representada ortograficamente por -li, como em “família”, em que a
grafia -li- é considerada uma conservação da escrita etimológica do latim (BAGNO, 2012, p.
325). Já as despalatizações do /ʎ/ aconteceram em 15% dos casos, tal qual em “mulé” [muˈlɛ]
e “culé” [kuˈlɛ].
No que se refere à despalatização seguida de iotização, temos os seguintes resultados na
fala de Gonzaga:
a) o maior índice de iotização apareceu em contexto linguístico, em que a palatal [ʎ] é
antecedida pela vogal médio-baixa anterior [ɛ], como em “véio” [ˈvɛyʊ], “véia” [ˈvɛyə] e “véi”
[ˈvɛy], o que representou 22% das realizações;
b) as realizações em contexto precedido pela vogal baixa central [a], como em “atrapaiá”
[atɾapayˈa], “trabaiador” [tɾabayaˈdo] e “paia” [ˈpaya], representaram 19%;
c) as ocorrências precedidas de vogal médio-baixa posterior [ɔ], tal qual em “moiada”
[mɔyˈadə], representaram 12%;
d) as realizações precedidas de vogal alta posterior [u], como em “muié” [muˈyɛ], aconteceram
em 9% dos casos analisados;
266

e) a iotização precedida de vogal médio-alta posterior [o], como em “oiei” [oyˈey], representou
4%;
f) o menor índice ficou por conta da iotização precedida de vogal médio-alta anterior [e], tal
como em “rei” [ˈɦey], representando apenas 1% das ocorrências.
Enfim, vale registrar o fato de que algumas lexias sofreram também apócope após a
iotização, tais como “véi”, “tai” e “trabai”.

e) Desnasalação: a desnasalação, na fala de Gonzaga, ocorreu em verbos, substantivos e


advérbio.

1) aplaudem
“Peraí... Então eu sô chamado de corno e vocês aplaude?” (C2)
2) sumiram
“É, sumiro, se encantaro, se escafedero!” (C4)
3) homem
“Escorei o home na fera [...]” (C2)
4) vantagem
“Eu saí dali e fui... uh!... contá vantage, no mei dos amigo” (C2)

Tabela 15 – Ocorrências e transcrições do metaplasmo fonético desnasalação


Desnasalação do /m/
Lexia Ocorrência Transcrição Freq. Categoria Gramatical
apagaram apagaro [apaˈgaɾʊ] 1 Verbo
aplaudem aplaude [aˈplawdɪ] 1 Verbo
chegaram chegaro [ʃeˈgaɾʊ] 1 Verbo
contagem contage [kõˈtaʒɪ] 1 Substantivo
danaram danaro [dâˈnaɾʊ] 1 Verbo
derramaram derramaro [dɛɦâˈmaɾʊ] 8 Verbo
encantaram encantaro [ɪk̃ ãˈtarʊ] 1 Verbo
escafederam escafedero [iskafeˈdeɾʊ] 1 Verbo
fizeram fizero [fiˈzɛrʊ] 1 Verbo
foram foro [ˈfoɾʊ] 1 Verbo
homem home [ômɪ] 14 Substantivo
passagem passage [paˈsaʒɪ] 1 Substantivo
sumiram sumiro [suˈmiɾʊ] 1 Substantivo
transantontem traizantonte [tɾayzõˈtõtɪ] 1 Advérbio
267

vantagem vantage [vãˈtaʒɪ] 1 Substantivo


querem quere [ˈkɛɾe] 1 Verbo
Subtotal: 36
Total: 36
Fonte: criado pelo autor.

Em termos percentuais, tem-se a seguinte representação:

2%

39%

59%

Desnasalação em substantivos Desnasalação em verbos


Desnasalação em advérbio
Gráfico 14 – Ocorrências de desnasalação
Fonte: autor

Os casos de desnasalação ocorridos no corpus apresentaram o percentual de 59% das


ocorrências entre verbos (apagaro, danaro, sumiro), com incidência nas flexões da terceira
pessoa do plural do perfeito do indicativo. A categoria substantivo veio em segundo lugar, com
39% das realizações de desnasalação. A perda da nasalidade teve destaque nas ocorrências da
lexia “homem”, que passou a home. Porém, houve uma única transformação com o advérbio
“transantontem” (traizantonte), que equivaleu a 2% das realizações. Todas as alterações
apareceram em final de sílaba, confirmando as observações de Marroquim (1996 [1934],
Bortoni-Ricardo (2004) e de Bagno (2012), que destacam o frequente desaparecimento da
nasalidade em sílabas átonas finais nas variedades rurais do Português Brasileiro e até mesmo
entre os falantes mais escolarizados.

f) Assimilação: nesta seção, destacamos casos de assimilação consonantal e vocálica do


Português Brasileiro que encontramos nos dados da produção gonzaguiana.
268

Uso das lexias em contexto:

1) conversando
"– Tá conversano, sujeito." (FMV).
2) enrolando
“– [...] no Teatro Thereza Rachel, inrolano vocês na conversa, contando essa história com a
presença do Deputado Armando Falcão.” (C01)
3) estrebuchando
“E a moreninha fica só rodopiano, no canto istribuchano [...].” (T)
4) encalcando
“– [...] de noite mesmo a gente dança nela que é pra i incaicano o chão da sala [...]” (C3)
5) casimira
“É uma gasimira lascada!” (RJ)
6) escoramos
“– Escoremo mesmo na bera do rio.” (C4)
7) chegamos
“– Cheguemo em casa assim, todo mundo se admirou [...]” (C2)
8) esta
“– Ô, Ansermo, pega essa sanfona aqui!” (C4)

Tabela 16 – Ocorrências e transcrições do metaplasmo fonético assimilação


Metaplasmos por transformação: assimilação
Assimilação Consonantal
-ndo > -no [k] > [g]
Lexia Ocorrência Transcrição Freq. Lexia Ocorrência Transcrição Freq.
conversando conversano [kõvɛhsˈânʊ] 2 casimira gasimira [gaziˈmiɾə] 1
convidando convidano [kõviˈdânʊ] 1
Subtotal: 1
descendo desceno [dɛˈsênʊ] 1
-st > -ss
enrolando inrolano [ɪɦ̃ ɔˈlânʊ] 1
Lexia Ocorrência Transcrição Freq.
estrebuchando instribuchano [istɾibuˈʃânʊ] 1
este esse [ˈesɪ] 8
encalcando incaicano [ĩkayˈkânʊ] 1
esta essa [ˈɛsə] 10
rodando rodano [ɦɔˈdânʊ] 1
neste nesse [ˈnesɪ] 6
tocando tocano [tɔˈkânʊ] 1
nesta nessa [ˈnɛsə] 6
vendo veno [ˈvênʊ] 1
isto isso [ˈisʊ] 2
269

Subtotal: 10 Subtotal: 32

[v] > [ɦ]


Lexia Ocorrência Transcrição Freq.
cervejinha cerrejinha [seɦeˈʒîɲə] 5
Subtotal: 5

Assimilação vocálica
[a] > [e] [o], [õ] > [u], [ũ]
Lexia Ocorrência Transcrição Freq. Lexia Ocorrência Transcrição Freq.
chegamos cheguemo [ʃeˈgêmʊ] 2 bandoleiro bandulero [bãduˈleɾʊ] 1
entramos entremo [ẽˈtrêmʊ] 1 bicho bichu [ˈbiʃʊ] 1
escoramos escoremo [iskoˈɾêmʊ] 1 bodega budega [buˈdɛgə] 1
Januário Jenuário [ʒênuˈaɾiw] 3 bonito bunito [buˈnitʊ] 1
seja seje [ˈseʒɪ] 1 botão butão buˈtãw 1
voltamos vortemo [vɔhˈtêmʊ] 1 botar butá [buˈta] 2
Subtotal: 9 botasse butasse [buˈtasɪ] 1
[o] > [a] botei butei [buˈtey] 2
Lexia Ocorrência Transcrição Freq. botou butô [buˈto] 3
cabroeira cabruera [kabɾuˈeɾə] 1
salobro saloba [saˈlobə] 1
chocalho chucai [ʃuˈkay] 1
cochilo cuchilo [kuˈʃilʊ] 1
com cum [kũ] 5
companheiro cumpanhero [kũpâˈɲeɾʊ] 1
converseiro cunversero [kũvɛhˈserʊ] 2
costuma custuma [kuʃˈtûmə] 1
juro juru [ˈʒuɾʊ] 1
Karolina Karulina [kaɾuˈlinə] 15
moléstia mulesta [muˈlɛʃtə] 1
poder pudê [puˈde] 1
por pur [ˈpuh] 1
possuir pussuí [pusuˈi] 1
sombrião sumbrião [sũbɾiˈãw] 1
voar vuá [vuˈa] 1
zoando zuando [zuˈãdʊ] 1
Subtotal: 1 Subtotal: 48
[e] > [i] [i] > [e]
270

Lexia Ocorrência Transcrição Freq. Lexia Ocorrência Transcrição Freq.


devagarinho divagarim [divagaˈɾĩ] 1 direita dereita [deˈɾeytə] 1
embalançar imbalançá [ĩbalãˈsa] 12 direito dereito [deˈɾeytʊ] 1
embalar imbalá [ɪb̃ aˈla] 1 vive veve [ˈvɛvɪ] 1
embigada imbigada [ĩbiˈgadə] 1
encandeou incandiô [ĩkãdiˈo] 1
estiagem estiagem [istiˈaʒẽy] 1
farrear farriar [faɦiˈa] 1
menino minino [miˈnînʊ] 4
refugou rifugô [ɦifuˈgo] 1
senhor sinhô [sîˈɲo] 8
senhora sinhora [sîˈɲɔɾə] 2
Subtotal: 33 Subtotal: 3
Total: 127
Fonte: criado pelo autor.

Os casos de assimilação consonantais coletados evidenciaram os seguintes percentuais:

10%
2% 21%

67%

Assimilação -ndo > -no Assimilação -st > -ss

Assimilação -k > -g Assimilação -v > -ɦ


Gráfico 15 – Assimilação consonantal
Fonte: criado pelo autor

Há uma predominância da assimilação do grupo -st- em -ss-, presente nos pronomes


demonstrativos “este”, “esta”, “isto” e suas contrações, como “neste” e “nesta”, representando
67% das ocorrências do fenômeno assimilatório consonantal. Esse dado, encontrado na obra de
Gonzaga, corrobora a tendência de desaparecimento dos demonstrativos com -st- no Português
Brasileiro, mantendo-se apenas em situações de alto monitoramento estilístico, segundo atesta
271

Bagno (2012), a partir de dados do corpus do NURC-Brasil. A segunda maior ocorrência, isto
é, 21% de todos os casos, aconteceu com o apagamento da consoante alveolar vozeada [d] no
morfema de gerúndio “-ndo”, em virtude de sua assimilação pela também consoante alveolar
vozeada [n], sendo que esta última é nasal. Foi o que ocorreu em conversando > conversanno
> conversano. Encontramos também, no falar de Gonzaga, a assimilação da fricativa
labiodental [v] em fricativa glotal [ɦ], com cinco ocorrências, o que equivaleu a 10%. Por fim,
registramos o caso de processo assimilatório da oclusiva velar desvozeada [k], que se
transformou em sua homorgânica vozeada [g], casimira > gasimira [gaziˈmiɾa], representando
2% dos casos.
No que se refere às assimilações vocálicas (também conhecidas como harmonização
vocálica), temos os seguintes resultados percentuais:

3% 10%

35%

51%
1%

Assimilação [a] > [e] Assimilação [o], [õ] > [u], [ũ]
Assimilação [o] > [a] Assimilação [e] > [i]
Assimilação [i] > [e]

Gráfico 16 – Assimilação vocálica


Fonte: criado pelo autor

O maior índice de assimilações vocálicas realizadas por Gonzaga apareceu na


transformação da vogal média-alta posterior [o], em posição pretônica, para a vogal alta [u], tal
qual em “bodega” [buˈdɛgə], “costuma” [kuʃˈtûmə] e “Karolina” [kaɾuˈlinə], com 51% de
ocorrências. Em seguida, temos 35% de mudanças da vogal média-alta anterior [e] em vogal
alta anterior [i], tal qual em “embigada” [ĩbiˈgadə]; 10% de assimilação da vogal baixa central
[a] em vogal média-alta anterior [e], conforme exemplificado em chegamos > cheguemo
[ʃeˈgêmʊ]; 3% de assimilação em que a vogal alta anterior [i] passou a compartilhar
propriedades da vogal média-alta anterior [e], como ocorreu em “direito” [deˈɾeytʊ]; e somente
1% no caso da assimilação da vogal média-alta posterior [o] pela vogal baixa central [a]:
272

salobro > saloba. Por estar em posição postônica final, o segmento assimilado foi transcrito
como [ə]. Neste último caso, houve também síncope do tepe [ɾ].

g) Monotongação: foram encontrados cinco tipos de ditongos que sofreram monotongação nas
canções e causos analisados. São eles: -ou, -ei, -ia, -io e -ai. A análise enfatiza o quantitativo
de ocorrências e os contextos fonético-fonológicos em que ocorreram essas reduções.
Apresentamos a seguir os exemplos de monotongação usados em contexto de canções
e causos interpretados por Gonzaga.

DITONGO [ow]:
1) acovardou
“– Eu disse as do fim! E ele se acovardô!” (C2)
2) emendar
“– Meu pai nunca tinha me batido, aproveitou e imendô!” (C2)
3) doutor
“– Seu delegado, por Nossa Sinhora, dotô.” (FMV)
4) soube
“– Ah, minino, quando o pai da moça sôbe [...]” (C2)
5) pouco
“Todo tempo quanto hové pra mim é pôco pra dançá com meu benzinho numa sala de reboco.”
(C3)

DITONGO [ey]
6) rancheira
“Em vez de polca e ranchera, o povo só pede, só dança o baião.” (DM)
7) peixeira
“Foi quando o dono dessa casa, de momento, se acorda rabugento pro salão fiscalizá cum a
pexêra [...].” (T)
8) cheiro
“– [...] eu rodando mais ela e dando chero no cangote dela!” (C4)

DITONGOS [ay, ya, yo]


09) abaixou
“– Aí, a eguinha se abaxou, saiu danada [...]” (C4)
273

10) história
“– [...] enrolano vocês na conversa, contando essa históra, com a presença do Deputado
Armando Falcão, que tá aqui entre nós.” (C1)
11) estrupício
“– Karolina foi o maió estrupiço que encontrei na minha vida!” (C4)

Tabela 17 – Ocorrências e transcrições do metaplasmo fonético monotongação


Redução do ditongo -ou
Antes de [ɾ] Antes de [t]
Lexia Ocorrência Transcrição Freq. Lexia Ocorrência Transcrição Freq.
ouro oro [ˈoɾʊ] 1 doutor dotô [doˈto] 14
loura lora [ˈloɾə] 1 outra ota [ˈotə] 3
outras otas [ˈotəs] 1
outro otros [ˈotɾʊ] 3

Subtotal: 2 Subtotal: 21
Em final de flexões verbais Antes de [b]
Lexia Ocorrência Transcrição Freq. Lexia Ocorrência Transcrição Freq.
abaixou abaxô [abaˈʃo] 1 roubaram robaro [hoˈbaɾʊ] 2
achou achô [aˈʃo] 1 soube sôbe [ˈsobɪ] 2
acovardou acovardô [akɔvaɦˈdo] 1
admirou admiro [adimiˈro] 1
Subtotal: 4
alembrou alembrô [alẽˈbɾo] 1
Antes de [k]
botou botô [buˈto] 3
Lexia Ocorrência Transcrição Freq.
chamou chamô [ʃâˈmo] 1
pouco poco [ˈpokʊ] 3
chegou chegô [ʃeˈgo] 2
Subtotal: 3
chorou chorô [ʃoˈɾo] 1
Redução em monossílabo
começou começo [kûmeˈso] 1
Lexia Ocorrência Transcrição Freq.
descansou descanso [diskãˈso] 1
ou o [ˈo] 9
dou-lhe dô-lhe [ˈdowlɪ] 1
Subtotal: 9
emendou imendô [îmẽˈdo] 1
Antes de [v]
encandeou incandiô [ĩkãdiˈo] 1
Lexia Ocorrência Transcrição Freq.
encontrou incontrô [ĩkõˈtɾo] 1
houve hovi [ˈovɪ] 1
enricou inricô [ĩɦiˈko] 1
houver hové [oˈvɛ] 1
enrolou inrolô [ĩhoˈlo] 1
louvado lohado [loˈɦadʊ] 1
entrou entrô [ẽˈtɾo] 2
louvado lovado [loˈvadʊ] 1
274

escorou escorô [iskoˈɾo] 1


falou falô [faˈlo] 1
faltou faltô [fawˈto] 1
ficou ficô [fiˈko] 1
gritou gritô [gɾiˈto] 1
insultou insultô [ĩsuwˈto] 1
levou levô [leˈvo] 1
mandou mandô [mãˈdo] 1
manobrou manobrô [mânoˈbɾo] 2
matou matô [maˈto] 2
passou passô [paˈso] 1
pegou pegô [peˈgo] 2
quebrou quebrô [keˈbɾo] 2
refugou rifugô [ɦifuˈgo] 1
riscou riscô [hisˈko] 1
roncou roncô [ɾõˈko] 2
secou secô [seˈko] 2
soluçou soluçô [sɔluˈso] 1
sou sô [ˈso] 4
triscou triscô [tɾisˈko] 1
virou virô [viˈro] 2
voltou voltô [vowˈto] 1
voou vuô [vuˈo] 3
vou vô [ˈvo] 26

Subtotal: 93 Subtotal: 4
Total: 136
Redução do ditongo -ei
Antes de [ɾ] Antes de [ʃ]
Lexia Ocorrência Transcrição Freq. Lexia Ocorrência Transcrição Freq.
275

bandoleiro bandulero [bãduˈleɾʊ] 2 deixa dexa [ˈdeʃə] 3


bangunceira baguncera [bagũˈseɾə] 1 deixar dexá [deˈʃa] 1
barreiro barrero [baˈɦeɾʊ] 1 deixe dexe [ˈdeʃɪ] 1
beira bera [ˈbeɾə] 1 deixei dexei [deˈʃey] 2
brasileiro brasilero [bɾaziˈleɾʊ] 1 deixou dexô [deˈʃo] 2
cabroeira cabroera [kabɾuˈeɾə] 2 peixe pêxe [ˈpeʃɪ] 2
cachoeira cachoera [kaʃuˈeɾə] 2 peixeira pexera [peˈʃeɾə] 1
candeeiro candiero [kândiˈeɾʊ] 9
cangaceiro cangacero [kãgaˈseɾʊ] 1
cangaceira cangacera [kãgaˈseɾə] 1
cheirinho cherinho [ʃeˈɾîɲʊ] 1
cheirava cherava [ʃeˈɾavə] 2
cheiro chero [ˈʃeɾʊ] 5
companheiro cumpanhero [kũpâˈɲeɾʊ] 2
converseiro cunversero [kũvɛhˈserʊ] 1
coqueiro coquero [koˈkeɾʊ] 4
dinheiro dinhero [dîˈɲeɾʊ] 2
feira fêra [ˈfeɾə] 6
fogueira foguera [foˈgeɾə] 2
inteira intera [ĩˈteɾə] 1
ligeiro ligero [liˈʒeɾʊ] 1
meia mea [ˈmea] 2 Subtotal: 12
peneira penera [pêˈneɾə] 1 Antes de [ʒ]
peneirar penerá [pênɛˈɾa] 1 Lexia Ocorrência Transcrição Freq.
pereiro perero [peˈɾeɾʊ] 1 feijão fejão [feˈʒãw] 3
pereira perera [peˈɾeɾə] 1 Subtotal:3
quinta-feira quinta-fêra [kĩtaˈfeɾa] 1 Antes de [a]
rancheira ranchera [rãˈʃeɾə] 2 Lexia Ocorrência Transcrição Freq.
276

Rio de Janeiro Ri di Janero [ɦidiʒâˈneɾʊ] 5 areia area [aˈɾeə] 1


rendeira rendera [hẽˈdeɾə] 5 meia mea [ˈmeə] 2
sanfoneiro sanfonero [sãfôˈneɾʊ] 2
terreiro terrero [teˈheɾʊ] 1
trigueira triguera [tɾiˈgeɾə] 1
vaqueiro vaquero [vaˈkerʊ] 1

Subtotal: 72 Subtotal: 3
Total: 90
Redução do ditongo -ai Redução do ditongo -ia
Antes de [ʃ] Final de sílaba
Lexia Ocorrência Transcrição Freq. Lexia Ocorrência Transcrição Freq.
abaixou abaxô [abaˈʃo] 1 história históra [iʃˈtɔɾə] 1
baixinha baxinha [baˈʃîɲə] 1 ignorância iguinorança [igînɔˈɾãsə] 1
baixo (subst.) baxo [ˈbaʃʊ] 8 notícia nutíça [nuˈtisə] 2
baixo (adj.) baxo [ˈbaʃʊ] 2 séria séra [ˈsɛɾə] 2

Total: 12 Total: 6
Redução do ditongo -io
Final de sílaba
Lexia Ocorrência Transcrição Frequência
estrupício estrupiço [iʃtɾuˈpisʊ] 1
Januário Januáro [ʒânuˈaɾʊ] 14

Total: 15
Fonte: criado pelo autor.
277

Abaixo, apresentamos os gráficos com os percentuais para cada monotongação


analisada. A redução do ditongo [ow] teve a seguinte representação:

7% 2%
2% 15%
3%
3%

68%

Antes de [ɾ] Antes de [t]


Em final de flexões verbais Antes de [b]
Antes de [v] Antes de [k]
Redução em monossílabo
Gráfico 17 – Monotongação do ditongo -ou.
Fonte: criado pelo autor

A redução do ditongo [ow] é um fenômeno que está com seu desenvolvimento bem
avançado no Português Brasileiro. Em nosso corpus, essa regra teve maior incidência em
flexões verbais finais (alembrô, balançô, falô, quebrô, vô), ou seja, em sílabas tônicas finais,
representando 68% de todas as realizações. É interessante notar que essa redução significativa
ocorre em uma posição que tradicionalmente seria mais resistente a mudanças, segundo
Bortoni-Ricardo (2004). Constatamos também que 15% das ocorrências, no falar de Gonzaga,
foram de monotongações do [ow], seguidas da consoante oclusiva [t] (dotô, ôta), isto é, no
interior de sílabas tônicas não finais. As ocorrências do monotongo [o] em nome monossílabo
(graficamente: ou > o) atingiram 7%, enquanto as ocorrências de redução diante da consoante
labiodental [v] e da bilabial [b] representaram, cada uma, 3%. As reduções do [ow] antes da
velar [k] e do tepe [ɾ] apresentaram igualmente os menores índices percentuais: 2% cada uma
delas.
Enfim, podemos afirmar que, na fala de Gonzaga, a regra de monotongação do [ow] é
abundante. Mas também vale considerar a observação de Bortoni-Ricardo (2004) que acredita
ser essa uma deriva generalizada na língua oral do Português Brasileiro, não se restringindo,
portanto, a falantes dos polos rural e rurbano; mesmo porque é possível encontrá-la em estilos
monitorados (situações de formalidade).
278

Os casos de redução do ditongo [ey] apresentaram o seguinte resultado:

3%3%
14%

80%

Antes de [ɾ] Antes de [ʃ] Antes de [ʒ] Antes de [a]

Gráfico 18 – Monotongação do ditongo -ei.


Fonte: criado pelo autor

Os dados mostraram que 80% das reduções do ditongo [ey] foram favorecidas pelo
segmento consonântico seguinte, o tepe [ɾ]. O monotongo resultante da assimilação pode
aparecer, tanto em posição medial quanto em posição inicial (cherô, fêra, ranchera, penera).
Tal como se constatou, 14% das ocorrências foram registradas no contexto em que o ditongo é
seguido por [ʃ]. Nesse caso, há um favorecimento da monotongação, porque ambos os
segmentos [y] e [ʃ] são pronunciados na parte alta da boca, ou seja, na região do palato. Em
contrapartida, foram registradas apenas 3% de ocorrências de redução antes da consoante
alveopalatal sonora [ʒ], como em feijão (feijão). O mesmo percentual foi registrado para
reduções do ditongo [ey] antes da vogal [a] nos nomes arêa (areia) e mea (meia).
Por fim, nossos dados confirmam o que Amaral (1920) e Aragão (1984) já tinham
registrado nos falares rurais paulista e paraibano, o que demonstra a influência da situação
socioeconômica e não apenas da regional no uso dessas reduções.
Os ditongos [ay], [ya] e [yo] tiveram os seguintes percentuais:
279

46%

18%

36%

Monotongação do ditongo -ai Monotongação do ditongo -ia


Monotongação do ditongo -io
Gráfico 19 – Monotongação dos ditongos -ai, -ia e -io.
Fonte: criado pelo autor

As reduções do ditongo [yo] usadas por Gonzaga representam a grande maioria desse
fenômeno, com 46% das ocorrências. Esses casos aparecem em ditongos crescentes e recebem
uma carga muito grande de preconceito, sendo identificados em falantes que pertencem a
classes sociais menos prestigiadas ou que residem em ambientes rurais e rurbanos.
Trinta e seis por cento de todas as realizações do ditongo [ay] ocorreram antes da
consoante alveopalatal [ʃ], como em abaixou [abaˈʃo] e baixo [ˈbaʃʊ], o que corrobora as
constatações de que essa redução é favorecida diante desse segmento consonântico (CÂMARA
JR., 1977; ARAGÃO, 1984).
A monotongação do segmento [ya] mostrou o percentual de 18% das ocorrências no
grupo analisado, sendo que todas elas apareceram em final de sílaba. As reduções de [ya],
assim como as de [yo], originadas a partir de ditongos crescentes, são formas
comprovadamente mais estigmatizadas e mais sujeitas a comentários pejorativos (HORA;
AQUINO, 2012).
Por fim, acreditamos que todas as realizações dos metaplasmos aqui analisados
representam uma amostra significativa das particularidades fonéticas da variedade rural
nordestina usada por Gonzaga. Entretanto, essas análises não se podem restringir a uma
motivação apenas de origem dialetal, já que ocorrem em outras regiões, mas como marca
sociolinguística, dada a origem humilde do sanfoneiro.
Na próxima seção, apresentaremos fortes indícios de promoção intencional do
Português Brasileiro, em sua variedade rural nordestina, na obra de Gonzaga.
280

5.3 EVIDÊNCIAS QUE APONTAM PARA UMA DIFUSÃO INTENCIONAL DA


LINGUAGEM REGIONAL-POPULAR (VARIANTE ESTIGMATIZADA) POR
GONZAGA

Consoante já ressaltamos, nas andanças que fez pelo Brasil, Gonzaga vivenciou
condições sociais, linguísticas e culturais que moldaram as suas práticas de linguagem e que
influenciaram sua vida pessoal e artística. As pronúncias, construções linguísticas e os sentidos
das palavras que ele aprendeu em sua região, zona rural do Nordeste brasileiro, eram – e ainda
o são – estigmatizadas pelos usuários das normas de prestígio. Não é de causar espanto que,
inicialmente, Luiz Gonzaga buscasse identificar-se com o “sotaque sulista” para ser aceito em
Minas e, depois, no Rio de Janeiro, onde chegou em 1939. É o que se pode inferir deste trecho
da entrevista dada a Dreyfus (2012[1996], p. 81) dois anos antes de falecer:

[...] ninguém sabia que eu era nordestino. Eu já era um malandro, me atirava no


meio dos crioulos, vestido igual a eles, até cantava samba nas gafieiras. Eu tinha
interesse em me adaptar ao sotaque carioca (Grifamos).

Entretanto, o apelo dos cearenses naquela noite fatídica no Mangue, mudaria a vida de
Gonzaga: ao decidir cantar as coisas do Nordeste, Luiz Gonzaga abandonou, de vez, a tentativa
de neutralizar traços típicos de seu linguajar. A decisão do sanfoneiro de tornar-se cantor, porém,
encontrou barreiras, como vimos (4.6). Mesmo quando não era motivo de zombaria, o sotaque
nordestino de Gonzaga era considerado engraçado para os “ouvidos” dos sulistas. Quando
esteve na Rádio Tamoio, Gonzaga procurou o apresentador Átila Nunes e ouviu dele o seguinte
comentário, registrado em Sá (2012 [1966], p. 171): “[...] – E por que não cantar? Já te ouvi,
rapaz. Tu tens um jeito gozado de cantar... aquilo é bom, sabes? ”
Conforme vimos, esses fatos instigaram Gonzaga a decantar, na variedade rural
nordestina, as lembranças “das moagens, das farinhadas, dos ‘sambas’ que viravam até o sol
raiar, do cheiro bom das morenas do Sertão, tão ingênuas, tão doces, tão sem malícia nos amores”
(SÁ, 2012 [1966], p. 157). Essa pretensão, revelada em depoimento a sua biógrafa, é
reproduzida por Dreyfus (2012 [1996], p. 109), tal como segue:

[...] eu queria cantar o Nordeste. Eu tinha música, tinha o tema. O que eu não
sabia era continuar. Eu precisava de um poeta que saberia escrever aquilo que
eu tinha na cabeça, de um homem culto pra me ensinar as coisas que eu não sabia.
Eu sempre fui um bom ouvidor. Cheguei até mesmo a enganar que era culto!”
(Grifamos).
281

Como bem enfatiza Ferreti (2012), Gonzaga foi o responsável pela maior divulgação da
música nordestina em todos os tempos, em nível nacional, pela sua presença na comunicação
de massa. Por isso, temos defendido que Luiz Gonzaga promoveu igualmente uma maior
divulgação do Português Brasileiro, mormente a variedade rural nordestina para o resto
do país. Ora, cantar o Nordeste e seus temas inclui expressar-se na variedade sertaneja com
vocabulário e variações fônicas próprias da identidade nordestina. E Gonzaga era um autêntico
utente dessa variedade.
Ao usar lexias simples e compostas, de caráter eminentemente regional-popular
(estigmatizadas), Gonzaga provocou a curiosidade das pessoas que queriam saber dele, de
Humberto Teixeira e de Zedantas, o que significavam “assum preto”, “timão”, “pramode” e
“fiota”, por exemplo. Esses e outros sentidos da linguagem regional-popular podem ser
encontrados no glossário eletrônico de Gonzagão que complementa este trabalho.
No que se refere ao léxico, Marfisa Alencar, descendente do Barão de Exu e neta do
coronel Manoel Aires, lembra, em depoimento a Dreyfus (2012 [1996], p. 117), que, ao voltar
para Exu, Luiz Gonzaga

[...] não tinha esquecido nada daqui. Continuava usando o vocabulário daqui,
valorizando as coisas daqui, que antigamente ninguém dava valor. Porque quem
saía daqui para adquirir condição melhor tinha até vergonha de dizer que era
nordestino. Gonzaga não, ele fala das coisas daqui, da rede onde se dorme, da
comida que se come, e com o linguajar daqui (Grifamos).

Na verdade, Gonzaga nunca deixou de usar a variante rural nordestina e nem perdeu seu
sotaque, porque, segundo Ramalho (1998, p. 31),

[...] as origens rurais de Gonzaga deixaram-no fortemente impregnado da


sonoridade própria da língua coloquial do sertão, apesar de aquisições de sons
do linguajar de contextos urbanos onde viveu como profissional. Entretanto,
apesar das influências recebidas pela convivência com artistas de classe média –
seus parceiros, principalmente – e do padrão diccional imposto pelas estações de
rádio, Gonzaga foi lúcido o suficiente para saber utilizar ambos, dependendo dos
ouvintes para quem cantava (Grifamos).

Logo, é plausível defender que, não obstante possíveis motivações de caráter


comercial, Gonzaga utilizava a divulgação da variedade sertaneja nordestina como forte
instrumento identitário. O próprio sanfoneiro revelou, em entrevista a Geraldo Freire, para a
Rádio Jornal de Recife, em junho de 1985, uma conversa que teve com um nordestino que
assumiu, em pouco tempo, o sotaque paulista (no caso, o uso da consoante [ɹ] retroflexa alveolar
vozeada) despropositadamente:
282

– [...] Eu digo, já mudô?... ó, a desgraça tá aí, você nem fala o nordestino... mais
direito cumo eu gosto e nem fala o...o...nem arremeda direito os paulista...você tá
um verdadeiro papagaio você... você tá fazeno uma verdadeira bagunça com você,
rapaiz... eu tô com pena de você.. eu acho que eu sô muito burro porque eu estô
em Sum Paulo há mais de cinquenta ano nunca mudei meu linguajar e você está
há seis mês e faz essa desgraça toda! Eu acho que o burro aqui sô eu... eu faço uma
gozação... arraso com o sujeito... e ele acha graça” (Grifamos).

Ao imitar o sotaque que não lhe pertencia, o moço foi ironicamente repreendido por
Gonzaga. Com efeito, Bagno (2007) pondera que não há ser humano no mundo que não fale
com o sotaque característico de sua comunidade linguística. Em outra entrevista, desta vez ao
jornalista Marcos Cirano, em outubro de 1988, Gonzaga reafirma que falava a variante rural
nordestina sem culpas: “Deus me deu o dom de falar, com a minha própria linguagem,
despreocupado, sem medo de errar, porque o povo já sabe que eu não sou intelectual. Então,
eu mando brasa” (Grifamos).
Diante dessas constatações, as canções e causos interpretados por Luiz Gonzaga, com
apoio de seus parceiros, enfatizaram e difundiram, de forma bem-sucedida, o uso do Português
Brasileiro em sua variedade rural nordestina, mormente nos níveis semântico-cultural e fonético,
como temos defendido. Zedantas (2010 [1959], p. 50) é categórico ao falar da coincidência de
motivação que o tornou amigo e parceiro de Luiz Gonzaga:

[...] desde então, baseados no sincretismo musical das melodias ibérica, ameríndia e
gregoriana, que deu origem à música sertaneja; apoiados no ritmo da viola e firmados
no pitoresco linguajar caboclo, temos divulgado os costumes, a arte e a vida do
homem nas caatingas do nordeste brasileiro (Grifamos).

No mesmo sentido, demonstra-se a tese que temos sustentado, quando Zedantas tem a
inspiração de compor a canção “Xote das Meninas” em 1953. Ferreti (2012, p. 104) relata, a
partir do depoimento do Sr. Esmeraldo, amigo de Zedantas, que o compositor observava um
grupo de meninas que brincava num pátio e “sob suas saias curtas, observavam-se suas formas
se arredondando”. O parceiro de Luiz Gonzaga, chamando o amigo, diz: “Não demoram a
querer namorar”. Então, pegou uma caixa de fósforos, começou a bater e logo depois passou a
ditar os versos da canção em construção. Ao perceber que Esmeraldo retocava o português que
ouvia, escrevendo “flora” ao invés de “fulora”, disse para o amigo “É pra escrever ‘fulora’
mesmo, como se fala”. Logo, verifica-se que o médico parceiro, juntamente com Gonzaga,
tinha o propósito de divulgar um novo gênero musical fundamentado na expressividade do
“linguajar caboclo”, ou seja, do Português Brasileiro em sua variedade nordestina sertaneja.
Essa variedade veicula também traços linguísticos que se restringem à língua falada por pessoas
283

que estão na base da pirâmide das classes sociais. São os chamados traços descontínuos que,
conforme vimos, representam um vocabulário típico e um conjunto de regras fonético-
fonológicas próprias dos falares sertanejos e de falantes das classes socais mais simples (ver
1.3.6).
Com Luiz Gonzaga, não são apenas as formas de cantar, de vestir, de dar entrevistas,
que significam ou exprimem o Nordeste mas também as expressões locais e o sotaque que ele
utilizava, aliados aos elementos culturais, populares e rurais (ALBUQUERQUE, 2011). Esses
traços sempre foram marcantes na trajetória artística do sanfoneiro.
Humberto Teixeira, em depoimento ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro,
em 1968, confidenciou o plano do lançamento do baião estilizado como movimento autêntico
da música nordestina para o resto do país:

Nós fomos criados ouvindo o baião, que é um ritmo secular, cantado pelos cegos, era
o ritmo que marcava a viola sertaneja, era o ritmo das bandinhas de feira.
[...]
A verdade é que nós citadinizamos esse ritmo. Nós demos características
brasílicas a ele e, digamos assim, nacionais. Porque o primeiro baião não nasceu
assim à toa, nós passamos muitos e muitos dias estudando como íamos aplicar
aquele velho ritmo sertanejo, como nós íamos botar aquela letra, como nós íamos
lançá-lo [...] (Grifamos).

Esse depoimento foi resgatado por Almir Chediak em 2013. Assim, é possível afirmar
que Gonzaga e Humberto planejaram deliberadamente as características rítmicas, o conteúdo e
a forma das letras, falando sobre o Nordeste, que saíam recheadas de vocábulos peculiares do
linguajar autêntico dos rurícolas humildes nordestinos.
Nesse mesmo conduto interpretativo, Ferreti (2012) assevera que a “nordestinidade” da
música de Luiz Gonzaga é marcada nos instrumentos em que é executada, na imagem exibida
ao público pelo gibão e chapéu de couro, símbolos do Nordeste. Humberto Teixeira, primeiro
grande parceiro, destacou em entrevista, no ano de 1979, ao jornalista Miguel Ângelo (Nirez),
o caráter de precursor imagético em Gonzaga:

[...] O Luiz foi um pioneiro em vários aspectos. Veja você que quando os cantores,
os compositores se apresentavam de smoking, de terninho e gravatinha, o Luiz já
vinha de talabarte, chapéu de couro e tudo. Pra mim, o Luiz Gonzaga foi o
primeiro hippie da música popular brasileira (Grifamos).

Na perspectiva que estamos abordando, esse pioneirismo também abrangeu o aspecto


linguístico numa dimensão até então não conhecida. Logo, o conteúdo das letras e a linguagem
nelas utilizada integram a delimitação da referenciada nordestinidade, por meio de expressões
284

linguísticas estigmatizadas e sotaque típico, amplamente divulgados pelo artista pernambucano.


Efetivamente, Gonzaga tinha um propósito bem claro, uma vez que “fazia questão de impor
essa característica da fala nordestina do início ao fim da sua carreira” (OLIVEIRA, 1991, p.
66).
Uma canção que expressa bem a vontade de divulgar a variedade sertaneja nordestina é
a didática “ABC do sertão”:

Lá no meu sertão pro caboco lê


Tem que aprendê um outro ABC
O jota é ji, o éle é lê
O ésse é si, mas o érre
Tem nome de rê
Até o ípsilon lá é pissilone
O eme é mê e o ene é nê
O efe é fê, o gê chama-se guê
Na escola é engraçado ouvir-se tanto "ê"
A, bê, cê, dê,
Fê, guê, lê, mê,
Nê, pê, quê, rê,
Tê, vê e zê.

Nessa canção, Gonzaga, em parceria com Zedantas, ensina as variantes fonéticas do


abecedário rural nordestino para o resto do país. É uma clara demonstração da intencionalidade
de divulgação da variedade sertaneja nordestina. Além disso, as canções gonzaguianas e suas
manifestações linguísticas “buscam produzir uma sensação de proximidade da realidade
regional” nordestina, uma vez que utilizam signos sonoros que abrangem “aboios, gritos, estalar
de chicotes, tinir de chocalhos, latidos de cães, mugidos de vacas, cantorias, pinicar de violas”
(ALBUQUERQUE, 2012, p. 181). Graças ao rádio, essa sensação de proximidade foi levada,
tanto aos nordestinos que viviam nas zonas rurais e rurbanas quanto aos fãs “sulistas” residentes
na zona urbana. Enfim, a todo o Brasil.
A voz de Gonzaga era a voz genuína do falar nordestino e, na canção popular, o dono
da voz, o cantor, tem destaque: “o público quer saber quem é o dono da voz. Por trás dos
recursos técnicos tem que haver um gesto, e a gestualidade oral que distingue o cancionista está
inscrita na entoação particular de sua fala” (TATI, 2012, p. 14). Segundo Ramalho (2012 [2000],
p. 167), Gonzaga percebeu isso logo cedo e se transformou em “cantor e intérprete das próprias
canções, mesmo aquelas elaboradas com parceiros. E por isso, passou a ser tão identificado
com o repertório como intérprete que [...] se sobreassaía em detrimento de seus parceiros [...]”.
Rechaçando a crítica de que teria ficado ofuscado pelo sucesso de Gonzaga, Humberto Teixeira,
a voz que falava por trás da voz que cantava no início da carreira do sanfoneiro, é taxativo:
285

[...] O baião, se tivesse sido feito só por mim, continuaria sendo apenas um
negócio inédito, ao passo que com o Luiz ele se tornou esse marco extraordinário
dentro da música popular brasileira marcando uma década de sucessos
fantásticos. De 47 a 57, quer queiram, quer não, os documentos, a história dos
suplementos, das fábricas, as gravadoras, o rendimento autoral das sociedades, tudo
era feito em torno do baião (Grifamos).

Enfim, a predominância do estilo de canto declamado, ou seja, de uma melodia


inteiramente submetida ao ritmo das palavras, foi uma estratégia comum no processo de criação
nas canções de Luiz Gonzaga (RAMALHO, 2012 [2000]). De outra banda, as recitações e
causos vividos, reiteramos, eram sempre transmitidos e moldados pela variedade sertaneja do
Nordeste, que delineava e atribuía sentidos ao sertão, ao sertanejo e a seus hábitos linguístico-
culturais.
No próximo item, após as análises feitas, apresentamos a classificação das lexias
encontradas no corpus, segundo o continuum de urbanização proposto por Bortoni-Ricardo
(2004) e descrito na fundamentação teórica.

5.4 TRAÇOS GRADUAIS E DESCONTÍNUOS IDENTIFICADOS NA OBRA DE


GONZAGA

Lembramos que Bortoni-Ricardo (2004) distingue entre traços linguísticos graduais e


descontínuos no Português Brasileiro. Vimos que os traços graduais são usados por todos os
brasileiros ao longo do continuum de urbanização, ou seja, em ambientes rural, rurbano e
urbano, especialmente em conversas menos monitoradas. Podemos considerar, portanto, como
usos linguísticos compartilhados entre os brasileiros. Além disso, os traços descontínuos
englobam um vocabulário próprio e um conjunto de regras fonético-fonológicas que são típicas
dos falares rurais e de falantes que estão na base da pirâmide das classes sociais. Sua
distribuição ocorre, por conseguinte, nos ambientes rurais e rurbanos. São usos tipicamente
interioranos/nordestinos.
Com base na descrição dos campos semântico-culturais, juntamente com a análise de
sentidos das lexias (sinais-palavras) (5.1) e levantamento de metaplasmos fonéticos (5.2),
classificamos as lexias retiradas do corpus, canções e causos, em traços linguísticos graduais e
traços descontínuos. São 461 lexias (entre simples, compostas e textuais) de um total de 490
documentadas no glossário que acompanha a tese. Assim, as lexias referentes a nomes próprios
286

(ex.: Januário, Santana, Rio de Janeiro, Bodocó), 29 ao todo, não foram consideradas na
classificação abaixo.

Tabela 18 – Traços linguísticos graduais e descontínuos identificados no corpus


Traços Linguísticos

No Traços Graduais (compartilhados) No Traços descontínuos (tipicamente interioranos)


1 Abarco (abarcar) 1 A grané
2 Acochei (acochar) 2 Abeia
3 Adivinhona 3 Abufelei (abufelar)
4 Alazão 4 Adiscurpe (adiscurpar)
5 Alvorada 5 Aguentá rojão
6 Apanhá 6 Aguinha dormida
7 Assombrá 7 Alembra (alembrar)
8 Açudagem 8 Amonta (amontar-se)
9 Balão 9 Andu
10 Baxo 10 Apagaro (apagar)
11 Banca 11 Apoi
12 Banda 12 Arreparando (arreparar)
13 Barragem 13 Arrescordo (arrescordar)
14 Bichu 14 Arresponda (arresponder)
15 Bochudo 15 Arribada
16 Bodoque 16 Arruma (arrumar-se).
17 Brabo 17 Artomove
18 Braseiro 18 Arvoroço
19 Brincar de roda 19 Asa Branca
20 Buli 20 Assum preto
21 Burrico 21 Atente (atentar)
22 Cachaça 22 Atrapaiá
23 Cair na rede é peixe 23 Avuá
24 Camarinha 24 Baguncera
25 Campa 25 Baião
26 Cana 26 Baião de dois
27 Candiero 27 Balancê
28 Caçada 28 Bandulero
29 Cê 29 Bão
30 Chamego 30 Barrero
31 Chero 31 Bater asas
32 Cintado 32 Bebo
33 Cobre 33 Besta
34 Com mais de mil 34 Bonzim
35 Conto de réis 35 Borná
36 Conversano (conversar) 36 Botar o visgo
37 Coquero 37 Brejinho
38 Corno 38 Bucho
39 Cota 39 Budega
40 Cristão 40 Burburim
41 Cuchilá 41 Butá gosto ruim em
42 Cuchilo 42 Botá a cangaia
43 Cum 43 Buta-se pro salão (botar-se)
44 Dar fé 44 Butuca
45 Dando para (dar) 45 Cabeça-de-papagai
46 De meia-tigela 46 Caboca
287

47 Desertar 47 Caboco
48 Destá 48 Cabra
49 Dizer o diabo 49 Cabruera
50 Dona 50 Cangacera
51 É hoje! 51 Cangacero
52 É isso aí 52 Cangaia
53 Égua 53 Cangote
54 Em surdina 54 Cantiga
55 Encrenca 55 Carcará
56 Enforcar 56 Carco
57 Enjoar da boneca 57 Carma
58 Enrolano (enrolar) 58 Carrapeta
59 Epa! 59 Cartai
60 Escorô (escorar) 60 Carça
61 Esmola 61 Caçá
62 Farriar 62 Celveja
63 Fazer arte 63 Cerrejinha
64 Fazer bunito 64 Chegou contando as horas (chegar)
65 Fazer fé 65 Cheim
66 Fera 66 Cherim de fulô de amô
67 Fogo de vista 67 Chucai
68 Fogueira 68 Cia
69 Fresca 69 Cintura de pilão
70 Fuxico 70 Cobra de fogo
71 Gaiola 71 Coco
72 Ganzá 72 Coco d’água
73 Gringo 73 Cocoré
74 Home 74 Contá vantage
75 Imbalançá (embalançar) 75 Contage
76 Imbalá (embalar) 76 Conversano (conversar)
77 Imendô (imendar) 77 Coroné
78 Incandiô (incandear) 78 Culé
79 Istiagem 79 Cum seiscento milhão
80 Jiló 80 Cunversero
81 Judiação 81 Da mulésta
82 Junta 82 Da peste
83 Juntinho 83 Dá uma casada
84 Juru 84 Danada
85 Lá vai chumbo 85 Danado
86 Lascar brasa 86 Danaro (danar-se)
87 Lavar a égua 87 Dar nas esporas
88 Lora 88 Dar uma popa da mulésta
89 Mais 89 Dereito
90 Mal da idade 90 Derramaro (derramar)
91 Mandar alguém andar 91 Despois
92 Manobrar 92 Divagazim
93 Mas já se viu! 93 Dixi (dizer)
94 Mato 94 Dizer as do fim
95 Meu bem 95 Dotô
96 Moita 96 Eita, pau pereira!
97 Morto de paixão 97 Eita, com seiscentos milhões!
98 Mudificado 98 Em riba de
99 Mulequim 99 Em vorta
100 Negrada 100 Empareado
101 Noite de São João 101 Encangada
288

102 Nossa Sinhora 102 Encantaro


103 Num 103 Escafedero
104 Paiol 104 Escoído
105 Pança 105 Escorei (escorar)
106 Passarada 106 Escoremo (escorar)
107 Pedaço de mah caminho 107 Escuma
108 Pegar 108 Espaiar
109 Penerando (penerar) 109 Estribuchano (estribuchar)
110 Pesada 110 Estrupíço
111 Pintada 111 Famia
112 Pisada 112 Farta
113 Pista 113 Fazeno mizéra (fazer)
114 Polca 114 Fazeno triatro (fazer)
115 Povoado 115 Fê
116 Praqui, prali, pralá 116 Fei pa peste
117 Pro 117 Feijão de corda
118 Procissão 118 Fi
119 Psiu! 119 Fia
120 Qual o quê! 120 Fio
121 Quebrar 121 Fiota
122 Queimado 122 Flô
123 Rabanada 123 Foia
124 Rabugento 124 Fole
125 Ranchera 125 Forguedo
126 Reco-reco 126 Fornaia
127 Relampeia (relampear) 127 Forró
128 Remexer 128 Frô
129 República 129 Fuá
130 Requebrar 130 Fulô
131 Reza 131 Fulorar
132 Riacho 132 Fungado
133 Riqueza 133 Fungando (fungar)
134 Riscô (riscar) 134 Furaro (furar)
135 Roda 135 Gai
136 Roer 136 Galhas
137 Rojão 137 Gaitada
138 Roncar 138 Galo campina
139 Ronco 139 Gasimira
140 Roçado 140 Guê
141 Saber o que convém 141 Guento (guentar)
142 Sabiá 142 Hai (Haver)
143 Safra 143 Iguinorança
144 Sapequei (sapecar) 144 Imbigada
145 Seca 145 Incaicano (incaicar)
146 Sela 146 Inda
147 Sem-vergonha 147 Inhô
148 Sentar praça 148 Inté
149 Ser doido 149 Intonce
150 Ser noite d'água 150 Ispaiar
151 Seu (senhor) 151 Ji
152 Sina 152 Juazeiro
153 Sô home (ser homem) 153 Lapada
154 Sofredô 154 Lascada
155 Sol de abril 155 Lazarina
156 Soluçô (Soluçar) 156 Lê
289

157 Sô doido (ser) 157 Légua


158 Tava daquele jeito (estar) 158 Linha de lombo
159 Ter um quê 159 Lombo
160 Tô (Estar) 160 Macho
161 Tom de blague 161 Malero
162 Tombo 162 Mandacaru
163 Triguera 163 Mangar
164 Truvão 164 Mardade
165 Ver o que é bom pra tosse 165 Matuto
166 Vigário 166 Mê
167 Vivo 167 Mecê
168 Vossa Sinhoria 168 Mermu
169 Zambeta 169 Meter o pisilone
170 Zebu 170 Mió
171 Zuando (Zoar) 171 Missões
172 Moiada
173 Moiando (Moiar)
174 Mole
175 Morredô
176 Muié
177 Muié macho
178 Mulé
179 Mulezona
180 Nê
181 Nego
182 Negocim
183 No mei de
184 Num querer cocoré nem choro baixo
185 Nutíça
186 Oiei (oiar)
187 Óio
188 Orvaio
189 Os oito baixo
190 Oxente
191 Paia
192 Pé de prantação
193 Pé de serra
194 Pega de boi
195 Pegar em
196 Perero
197 Peste
198 Pexera
199 Pió
200 Pilão
201 Pirão
202 Pisa
203 Pisada
204 Pissilone
205 Ponta da rua
206 Pote
207 Pra riba
208 Pramode
209 Pranos
210 Prantação
211 Prefixo sertanejo
290

212 Preguntar
213 Pro ano
214 Proquê
215 Punhá
216 Pussuir
217 Puxar
218 Quaje
219 Quartinha
220 Quartos
221 Que mal pergunta
222 Que é que hai?
223 Rancho
224 Rapai
225 Rapar pé
226 Rê
227 Rédias do pudê
228 Relampo
229 Rendera
230 Resfulego
231 Ribaçã
232 Rifugô (refugar)
233 Risquim
234 Robaro (roubar)
235 Sala de reboco
236 Saloba
237 Samba
238 Sanfonona grande danada
239 São João de rei
240 Sargado
241 Sastifeito
242 Sê de matar (ser)
243 Sem-futuro
244 Seje
245 Ser muié pra home ninhum butar defeito
246 Séra
247 Sereno
248 Sertanejo
249 Sertão
250 Seu
251 Si
252 Sim, sinhô
253 Sorto
254 Sujeito
255 Sumbrião
256 Sumiro (sumir)
257 Suvaco
258 Tai
259 Taludim
260 Tanueiro
261 Tarvez
262 Ter trabai
263 Terra civilizada
264 Terrero
265 Tibungado
266 Timão
291

267 Tinhoso
268 Tocadozim
269 Torrado
270 Trabaiadô
271 Trasantonte
272 Trempe
273 Triscô (triscar)
274 Umbuzeiro
275 Vadeio (vadiar)
276 Vaquejada
277 Vazi
278 Véi
279 Véio
280 Vem-vem
281 Vê paia vuá (ver)
282 Veve (viver)
283 Voo do carcará
284 Vortar
285 Vosmicê
286 Xaxado
287 Xaxar
288 Xerém
289 Xodó
290 Xote

Subtotal: traços graduais % Subtotal: traços descontínuos %


171 37 290 63

Total: 461 100%

Como podemos observar, há um percentual expressivo no emprego de traços


descontínuos por parte de Gonzaga. São 63% em contraste com 37% de utilização de traços
graduais. Esses traços linguísticos tipicamente interioranos compreendem sentidos
especializados, gerados por contextos e cenários específicos, e variações fônicas usadas nas
zonas rural nordestina e rurbana, onde vivem migrantes nordestinos. São sentidos plenos que
salientam valores culturais, tais como: fiota, lazarina, cangacera, ribaçã, lascada, lapada,
tanueiro, vaquejada etc.; expressões idiomáticas, como “ser muié pra home ninhum butar
defeito”, “ver o que é bom pra tosse” e “ver paia vuá”; além de lexias com modificações
metaplásticas: próteses, epênteses, aféreses, síncopes, apócopes, rotacismos, lambdacismo,
despalatização, monotongação etc. Conforme visto, essas questões foram analisadas
detalhadamente em 5.1 e 5.2.
Pelas análises realizadas nas canções, causos e depoimentos coletados, é admissível
afiançar que Gonzaga destacou e divulgou, de forma intencional, os usos de traços descontínuos
em sua obra. Esses fenômenos linguísticos constituem um conjunto de variantes lexicais que
292

representam um verdadeiro acervo de valores linguístico-culturais compartilhado entre os


sertanejos humildes do Nordeste. No mesmo sentido, Gonzaga deu visibilidade a um conjunto
de regras fonético-fonológicas que evidenciam as peculiaridades da “variedade sociodialetal
nordestina” existentes no Português Brasileiro.
Enfim, essa variedade, não obstante ser estigmatizada, foi ponto de referência do artista
e dos parceiros para a difusão e a valorização de uma linguagem regional popular, expressão da
identidade do povo do Nordeste, em contraponto aos usos linguísticos de uma sociedade urbana
hegemônica. Consoante já destacado, as lexias que compõem o recorte aqui estudado foram
repertoriadas em um glossário eletrônico.

5.5 O GLOSSÁRIO DE GONZAGÃO

Esta seção remete ao Glossário eletrônico de Gonzagão constante no CD-ROM que


acompanha esta tese. A elaboração desse repertório linguístico utilizou as configurações
disponíveis pelo programa Lexique Pro©, após as escolhas feitas pelo pesquisador para a
organização das seções macro, médio e microestrutural, já delineadas no capítulo dedicado aos
procedimentos metodológicos do trabalho (Cap. 3). O repositório atende ao objetivo específico
estabelecido no item g, estipulado no início do trabalho, que aqui reiteramos: organizar um
glossário eletrônico de feição regional, por intermédio do programa Lexique Pro©, contendo,
dentre outros elementos, um vocabulário próprio com sentidos definidos pelos contextos e
cenários descritos nas análises, assim como transcrições fonéticas das lexias que apresentaram
metaplasmos, reveladores de marcas sociodialetais do Português Brasileiro, em sua variedade
nordestina. Conforme visto (3.7), nele estão contidos, dentre outros elementos: classificação
lexical, enunciados definitórios, informações sobre conteúdo cultural, recursos audiovisuais e
transcrição fonética das lexias que apresentaram metaplasmos típicos do falar rural nordestino
na obra de Gonzaga. Tem a pretensão de ser, portanto, uma obra lexicográfica que reúne
informações sobre as análises feitas na tese. Isso posto, no próximo item, tecemos as
considerações conclusivas sobre o trabalho.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os pressupostos teóricos esposados, as análises dos dados coletados e as informações


que delas advieram permitem fazer algumas inferências conclusivas. Passemos a expô-las.
293

Em nossa investigação, fixamos inicialmente uma questão central de pesquisa (como se


caracteriza o Português Brasileiro em sua variedade rural nordestina difundida na obra de Luiz
Gonzaga?). Em seguida, em busca de respostas para essa problematização, estabelecemos as
seguintes categorias de análise para o estudo: particularidades semântico-culturais e
particularidades fonéticas. Definimos, então, como objetivo principal do trabalho investigar a
existência dessas peculiaridades, caracterizantes do falar sertanejo nordestino, em canções e
causos gravadas por Gonzaga. De posse desses elementos, formulamos a seguinte proposição
de tese: se Luiz Gonzaga inaugurou e consolidou, juntamente com os seus parceiros, o baião
como gênero musical para divulgar ritmos e temas que enfatizaram aspectos sociolinguísticos
e culturais típicos do Nordeste, então, as composições e causos, por ele interpretados, tornaram-
se um marco intencional na difusão do Português Brasileiro, em sua variedade rural nordestina,
notadamente nos níveis semântico-cultural e fonético. A partir dessa proposição, buscamos
tecer nexos entre esses componentes do trabalho científico para demonstrar/provar a tese
apresentada.
Partindo do pressuposto de que a linguagem é polimórfica e que mantém com a
sociedade e a cultura nexos indissociáveis, adotamos uma abordagem multifocal, em que as
orientações teóricas da Dialetologia, Etnolinguística, Sociolinguística, Semântica Cultural (na
vertente de contextos e cenários), Fonética, Lexicologia e Lexicografia foram acionadas com o
fim de estabelecer um diálogo interdisciplinar para a descrição, compreensão e registro, em um
repositório linguístico, de particularidades semântico-culturais e fônicas divulgadas, de forma
intencional, na obra de Gonzaga. Seguindo os princípios do paradigma qualitativo-
interpretativista na área da ciência da linguagem, partimos de uma asserção geral, nos seguintes
termos: o falar nordestino é resultante de variações do Português Brasileiro que importam
alterações do foneticismo e do conteúdo semântico-cultural, devido à sua distribuição
geográfica e em razão da influência sociocultural. Tal asserção desdobrou-se em subasserções
que, confrontadas com os objetivos propostos e os dados coletados, esmiuçaram informações
que reuniram indícios e evidências capazes de confirmar os desvelamentos do trabalho
científico ora finalizado.
Sendo assim, a obra de Luiz Gonzaga, na perspectiva aqui proposta, permitiu a
identificação de campos semânticos que veiculam um vocabulário característico do falar rural
do nordestino humilde e revelaram, inegavelmente, regras de organização sociocultural da
região. Por isso, devido ao caráter central da cultura na atribuição de sentidos aos itens lexicais
estudados, admitimos que esses domínios deveriam ser chamados, preferencialmente, de
campos semântico-culturais (categorias culturais). Nesse passo, identificamos sete campos
294

característicos da obra de Gonzaga: a seca, a saudade, a terra, a religião e as crenças, o cangaço,


o amor e a sensualidade, e a alegria. No recorte estudado, esses domínios conceituais formaram-
se a partir de um conjunto de bens culturais do povo nordestino e do inevitável trabalho
individual de cada falante sobre esses bens, socializando-os com os outros membros da
comunidade.
Constatamos que esses campos semântico-culturais divulgados na obra de Gonzaga
abrangiam unidades lexicais cujos sentidos mostraram-se autênticos repositórios de valores
linguístico-culturais que veiculavam, de forma inequívoca, marcas de compartilhamento de
práticas sociais, de espaços vividos, da situação socioeconômica, do apego telúrico, de valores,
de crenças e de reconhecimento mútuo entre os habitantes da região Nordeste, mormente entre
as pessoas mais simples da área rural. Logo, a compreensão dos sentidos especializados das
lexias (sinais-palavras) empregadas nas canções e causos analisados dependeram de fatores
contextuais e cenariais específicos de uso naqueles espaços. De fato, vimos que, nos exemplos
do repertório linguístico empregado por Gonzaga, os sentidos dos itens lexicais só foram
compreendidos adequadamente, levando-se, necessariamente, em consideração as influências
linguísticas do contexto (aquilo que vem antes e depois da palavra) e, em grande medida, as
extralinguísticas (conjunto de conhecimentos sócio-histórico-culturais).
Também buscamos demonstrar que Gonzaga usou deslocamentos de sentidos, por
intermédio de construções figurativas (metáfora (funcional), metonímia e expressões
idiomáticas), assim como particularidades fônicas (metaplasmos fonéticos), que mobilizaram
emoções, percepções de embelezamento e simplicidade das expressões linguísticas empregadas
pelos nordestinos mais humildes, oriundos da zona rural. Além disso, entendemos que Gonzaga
e seus parceiros foram lúcidos o suficiente para utilizar essas construções linguísticas, típicas
do falar do Nordeste, como instrumento de valorização identitária do povo dessa região. Isso
destaca ainda mais a obra criativa do autor, demonstrando que as escolhas e as construções que
ele usou poderiam ser emitidas de outras formas. Contudo, Gonzaga privilegiou o falar de suas
origens, do polo rural nordestino.
Identificamos, ainda, inspirados no continuum de urbanização proposto por Bortoni-
Ricardo, a presença de traços linguísticos graduais e traços linguísticos descontínuos,
caracterizadores da heterogeneidade do Português Brasileiro no repertório de Gonzaga. Esses
traços revelaram, efetivamente, usos linguísticos compartilhados entre todos os brasileiros
(graduais) e usos linguísticos tipicamente interiorianos/nordestinos (descontínuos). Esses
fenômenos atingem, tanto o vocabulário quanto os aspectos fônicos da língua. Assim,
identificamos, tabulamos e descrevemos os metaplasmos fonéticos do Português Brasileiro
295

utilizados por Gonzaga no corpus documental, quais sejam: por adição: prótese, epêntese,
suarabácti e paragoge; por supressão: aférese, síncope, apócope e sinalefa; por transposição:
metátese e hiperbibasmo; e por transformação: rotacismo, lambdacismo, palatização,
despalatização, desnasalação, assimilação e monotongação.
Concluímos que os traços linguísticos graduais, aqueles característicos da fala de todo
e qualquer brasileiro, apareceram, com maior ênfase na obra de Gonzaga, pelo uso de reduções
dos ditongos [ey], [ow] e [ay] > [e], [o] e [a], como em “chêro”, “poco” e “caxa”; na supressão
do -r final no infinitivo dos verbos, bastante comum no Português Brasileiro: eu vou mostrá,
cantá, dançá etc.; na assimilação do grupo -st- em -ss, dos pronomes demonstrativos “este, esta,
isto” e suas contrações, como “neste” e “nesta”, confirmando uma tendência de
desaparecimento dos demonstrativos com -st- no Português Brasileiro, mantendo-se apenas em
situações de alto monitoramento estilístico; e na assimilação consonantal, que aconteceu no
apagamento da consoante alveolar vozeada [d] no morfema de gerúndio “-ndo”, em virtude de
sua assimilação pela consoante alveolar vozeada nasal [n], resultando no seguinte percurso de
variação: conversando > conversanno > conversano. Já os traços graduais de assimilações
vocálicas utilizadas por Gonzaga apareceram na transformação da vogal média-alta posterior
[o], em posição pretônica, para [u], tal qual em cochilo [kuˈʃilʊ], Karolina [kaɾuˈlinə] e
sombrião [sũbɾiˈãw].
Em contrapartida, os traços linguísticos descontínuos do Português Brasileiro, aqueles
que possuem um vocabulário próprio, aliado a um conjunto de particularidades fonético-
fonológicas caracterizadoras dos falares rurais/rurbanos e de falantes nordestinos de origem
social modesta, foram divulgados na obra de Gonzaga nos seguintes casos: no que se refere ao
léxico, foram empregados itens lexicais que são sobreviventes de fases anteriores da língua
portuguesa, mas que ainda são usados no Nordeste campestre, tais como intonce, despois, inté,
cangote, cantiga, alembrar, amontar, dereito, dixi, vosmecê, em riba, forro(bodó), hai etc.
Ademais, arribada, bucho, borná, budega, burrico, caboco, caatinga, camarinha, cangacero,
pilão, quartinha, rendera, vazi da égua são exemplos de um conjunto de lexias imediatamente
associado ao falar nordestino. Metáforas funcionais e expressões idiomáticas relacionadas a
aspectos sócio-históricos e culturais do Nordeste também foram habilmente usadas por
Gonzaga: cabeça-de-papagai, asa branca, cintura de pilão, ribaçã, vem-vem, boa linha de
lombo, lazarina, flô do sertão, voo do carcará; aguinha dormida, eita, pau pereira, Paraíba
masculina, muié pra home ninhum butá defeito, pedaço de mah caminho, ver o que é bom pra
tosse etc. Da mesma forma, por processo metonímico, lexias como barreiro, amor, braços do
meu xodó, fole, alvorada, reza, missões, cangaço e cobres foram utilizadas para estabelecer
296

cruzamentos internos de elementos pertencentes a um mesmo campo semântico-cultural.


Linguisticamente, essas expressões apresentaram sentidos intimamente determinados pelas
tradições culturais nordestinas.
No que tange às variações fônicas, a identificação, tabulação e descrição dos traços
descontínuos revelaram que os metaplasmos fonéticos do Português Brasileiro mais difundidos
no cancioneiro de Gonzaga foram síncope, rotacismo, palatização, despalatização, desnasalação,
assimilação e monotongação.
Conforme verificamos, o fenômeno da síncope predominou em forma de supressão do
fonema /ɾ/, como em caibo, nego, pade e quato. O rotacismo apareceu de maneira prevalente
em posição de coda silábica, como em arvoroço [ahvoˈɾosʊ] e vorta [ˈvɔhtə]. Interessante
destacar que Gonzaga pronunciava o fonema /r/ de formas diferentes, o que indica a influência
das variedades urbanas cariocas sobre o cantor, uma vez que, em lexias como vorta [ˈvɔɾtə] e
vortô [voɾˈto], aquele segmento foi articulado com a consoante vibrante simples (tepe) em
algumas canções; noutras, as mesmas lexias foram realizadas com a fricativa glotal desvozeada:
[ˈvɔhtə] e [vohˈto]. Isso se deve à possibilidade de interinfluência entre traços graduais e
descontínuos do Português Brasileiro ao longo do continuum de urbanização.
A palatização foi observada com maior ênfase nos seguintes segmentos: fricativa [s] >
[ʃ], em posição pós-vocálica (destino [diʃˈtînʊ], pista [ˈpiʃtə], gosto [ˈgoʃtʊ]), e nas dentais
alveolares [t] e [d], seguidas da vogal [i], que se realizaram como africadas [tʃ] e [dʒ] (juntinho
[ʒûˈtʃîɲʊ] e bode [ˈbɔdʒɪ]); também uma influência dos tempos em que o sanfoneiro morou no
Rio de Janeiro. Em relação à despalatização, Gonzaga utilizou-se das alterações da consoante
palatal [ʎ] em três realizações distintas: perda do traço palatal, passando a ser articulada como
alveolar [l], despalatizando-se, como em mulé e culé; iotização e desaparecimento, tal qual em
fio e mio. Das três transformações, a iotização foi a modificação mais marcante na fala do
sanfoneiro, como em atrapaiá [atɾapayˈa], trabaiador [tɾabayaˈdo] e foia [ˈfoya]. Os casos de
desnasalação empregados por Gonzaga ocorreram mais entre verbos (apagaro, danaro,
sumiro), com maior incidência nas flexões da terceira pessoa do plural do perfeito do indicativo.
Na assimilação consonantal, o traço descontínuo que se destacou foi o processo assimilatório
da oclusiva velar desvozeada [k] que se transformou em sua homorgânica vozeada [g], casimira
> gasimira [gaziˈmiɾə]. Na vocálica, Gonzaga fez uso da assimilação do grupo [a] > [e], como
em Januário > Jenuário [ʒênuˈaɾiw], seja > seje [ˈseʒɪ] e chegamos > cheguemo [ʃeˈgêmʊ]. No
grupo [i] > [e]; também tivemos direita > dereita [deˈɾeytə] e vive > veve [ˈvɛvɪ].
Enfim, no que diz respeito às monotongações, Gonzaga usou reduções dos ditongos
crescentes [yo] > [ʊ], estrupício > estrupiço [iʃtɾuˈpisʊ], e [ya] > [ə], ignorância > iguinorança
297

[igînɔˈɾãsə], notícia > nutíça [nuˈtisə]. Essas realizações, associadas ao falar rural nordestino,
são bastante estigmatizadas no Português Brasileiro.
Na interpretação de suas canções e causos, Gonzaga buscou divulgar esses traços
descontínuos que recebem uma carga de preconceito e discriminação muito forte no Português
Brasileiro, justamente porque seus usos estão associados a falantes nordestinos que residem em
ambientes rurais e rurbanos com pouco ou nenhum prestígio social. Vimos, tanto em trechos de
entrevistas quanto em depoimentos de Gonzaga e de seus parceiros, que o lançamento do baião
como gênero do “Norte” foi cuidadosamente projetado para alcançar sucesso nacional,
impulsionado pelo ambiente favorável de valorização da cultura nacional existente na época.
Logo, as construções linguísticas e variações fônicas empregadas em canções e causos
interpretados por Gonzaga não foram usadas sem propósito. Ora, se o espaço geográfico e o
homem nordestino foram a inspiração central do baião, por intermédio dele não apenas os temas
telúricos, as práticas sociais e culturais foram conscientemente enfatizadas e difundidas para o
resto do país mas também as práticas linguísticas usadas pela comunidade de falantes
nordestina. Esses traços linguísticos tornaram-se um símbolo na difusão do pitoresco falar
nordestino, influenciado pelas condições de vida dos usuários sertanejos socialmente menos
favorecidos. Desse modo, acreditamos que Gonzaga e parceiros contribuíram para dar
visibilidade nacional a uma variedade bastante estigmatizada do Português Brasileiro, avaliada
negativamente por razões estritamente sociais e culturais.
Como forma de aplicação das análises feitas, organizamos um glossário eletrônico de
feições regionais e enciclopédicas para registro do vocabulário e de particularidades fônicas
usadas e difundidas pelo sanfoneiro. O repertório linguístico foi elaborado com o auxílio do
programa computacional Lexique Pro©. Isso possibilitou a inserção de recursos visuais e
sonoros, tais como fotos, figuras, vídeo e áudio dos excertos de canções e causos empregados
nas abonações. Esses elementos caracterizaram o “Glossário de Gonzagão” como um texto
multimodal, reunindo elementos verbais e não-verbais em sua organização. Ademais, esses
recursos serviram para enfatizar proeminências visuais, facilitando a compreensão dos sentidos
expressos no texto lexicográfico, principalmente os sentidos influenciados por cenários
geográficos, sócio-históricos e culturais dos mundos gonzaguiano e nordestino.
Conforme verificamos, o léxico, como rede de significações, é culturalmente
determinado e compreende toda uma visão de mundo, um conjunto de ideias e valores de uma
determinada comunidade. Vimos também que o léxico encontra-se, em certa medida, vinculado
à parte fônica da língua. Portanto, Gonzaga comunicou, escreveu e decantou, para todo o Brasil
e para todas as classes sociais, o genuíno acervo vocabular das pessoas menos escolarizadas de
298

sua terra, descrevendo os sentidos dos modos de viver, dos valores, da saudade doída pela
migração forçada por causa da seca, das agruras da fome, do amor, das crenças e da alegria.
Enfim, conclui-se que este trabalho procurou contribuir, de forma criteriosa e
sistemática, para os estudos sobre heterogeneidade linguística, destacando que Luiz Gonzaga
propagou um outro ABC do Português Brasileiro, o ABC do sertão, empregando singularidades
semântico-culturais e fonéticas como elementos expressivos de desvelamento linguístico e
sociocultural da alma do povo nordestino.
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313

ANEXOS
314

CANÇÕES

1) Asa Branca (AB) - 1947, 2) Qui nem Jiló (QJ) - 1950, 3) No meu Pé de Serra (PS)
- 1942, 4) Paraíba (PB) - 1952, 5) Estrada de Canindé (EC) - 1950, 6) Respeita Januário
(RJ) - 1950, 7) Juazeiro (J) - 1949, 8) Baião (B) - 1949, 9) Assum Preto (AP) - 1950, 10)
Baião de Dois (BD) - e 11) Xanduzinha (X) - 1950, todas de Humberto Teixeira e Luiz
Gonzaga; 12) A volta da Asa Branca (VAB) - , 13) o Xote das Meninas (XM), 14) ABC do
Sertão (ABC), 15) Riacho do Navio (RN), 16) a Dança da Moda (DM), 17) Forró de Mané
Vito (FMV), 18) Sabiá (S), 19) São João na Roça (SJR), 20) Noites Brasileiras (NB), 21)
Vozes da Seca (VS), 22) Imbalança (Imb), 23) Cintura Fina (CF), 24) Vem, Morena (VM),
25) Derramaro o Gai (DG), 26) O Torrado (T) - 1950, 27) Adeus, Rio de Janeiro (ARJ) -
1950, 28) Vô casá já (VCJ) – 1954, 29) Olha a Pisada (OP) - 1954 e 30) O Casamento de
Rosa (CR) – 1953, todas de Zedantas e Luiz Gonzaga; 31) Viva meu Padim (VP) - 1986, 32)
Umbuzeiro da Saudade (US) - 1978, 33) Nem se Despediu de Mim (NDM) – 1987, todas
de Luiz Gonzaga e João Silva e 34) Frei Damião (FD) - 1974, de Janduhy Finizola.

1) ASA BRANCA – (AB)


Quando oiei a terra ardendo
Qual fogueira de São João
Eu preguntei a Deus do céu, uai
Por que tamanha judiação

Que braseiro, que fornaia


Nem um pé de prantação
Por farta d'água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão
Por farta d’água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão

Inté mesmo a asa branca


Bateu asas do sertão
Entonce eu disse adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração
Entonce eu disse adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração

Hoje longe muitas légua


Numa triste solidão
Espero a chuva caí de novo
Pra mim vortá pro meu sertão
Espero a chuva caí de novo
Pra mim vortá pro meu sertão
315

Quando o verde dos teus óio


Se ispaiá na prantação
Eu te asseguro não chore não, viu
Que eu vortarei, viu
Meu coração
Eu te asseguro num chore não, viu
Que eu vortarei, viu
Meu coração

2) QUI NEM JILÓ – (QJ)


Se a gente lembra só por lembrá
Do amor que a gente um dia perdeu
Saudade inté que assim é bom
Pro cabra se convencê
Que é feliz sem saber pois não sofreu

Porém se a gente vive a sonhá


Com alguém que se deseja revê
Saudade entonce assim é ruim
Eu tiro isso por mim
Que vivo doido a sofrê

Ai quem me dera voltá


Pros braços do meu xodó
Saudade assim faz ruê
E amarga qui nem jiló

Mas ninguém pode dizê


Que vivo triste a chorar
Saudade o meu remédio é cantá
Saudade o meu remédio é cantá

3) NO MEU PÉ DE SERRA – (PS)


Lá no meu pé de serra
Deixei ficá meu coração
Ai, que saudades tenho
Eu vou voltá pro meu sertão
No meu roçado trabalhava todo dia
Mas no meu rancho tinha tudo o que queria
Lá se dançava quase toda quinta-feira
Sanfona não faltava e tome xote a noite inteira
O xote é bom
De se dançá
A gente gruda na cabôca sem soltá
Um passo lá
Um outro cá
Enquanto o fole tá tocando,
tá gemendo, tá chorando,
Tá fungando, reclamando sem pará.
316

4) PARAÍBA – (PB)
Eita Eita
Muié macho, sim sinhô
Eita Eita
Muié macho, sim sinhô

Quando a lama virou pedra


E Mandacaru secou
Quando Ribaçã de sede
Bateu asa e voou

foi aí que eu vim me embora


Carregando a minha dô
Hoje eu mando um abraço
Pra ti pequenina

Paraíba masculina,
Muié macho, sim sinhô
Paraíba masculina,
Muié macho, sim sinhô

Eita, pau pereira


Que em princesa já roncou
Eita, Paraíba
Muié macho sim sinhô
Eita pau pereira
Meu bodoque não quebrou
Hoje eu mando
Um abraço pra ti pequenina

Paraíba masculina, muié macho, sim sinhô


Paraíba masculina, muié macho, sim sinhô

Quando a lama virou pedra


E Mandacaru secou
Quando ribação de sede
Bateu asa e voou

Foi aí que eu vim me embora


Carregando a minha dô
Hoje eu mando um abraço
Pra ti pequenina

Paraíba masculina, muié macho, sim sinhô


Paraíba masculina, muié macho, sim sinhô

Eita pau pereira


Que em princesa já roncou
Eita Paraíba
Muié macho sim sinhô
317

Eita pau pereira


Meu bodoque não quebrou
Hoje eu mando
Um abraço pra ti pequenina

Paraíba masculina, muié macho, sim sinhô


Paraíba masculina, muié macho, sim sinhô

Eita, Eita, muié macho, sim sinhô


Eita, Eita, muié macho, sim sinhô

5) ESTRADA DE CANINDÉ – (EC)


Ai, ai, que bom
Que bom, que bom que é
Uma estrada e uma caboca
Cum a gente andando a pé

Ai, ai, que bom


Que bom, que bom que é
Uma estrada e a lua branca
No sertão de Canindé

Artomove lá nem sabe se é home ou se é muié


Quem é rico anda em burrico
Quem é pobre anda a pé

Mas o pobre vê nas estrada


O orvaio beijando as flô
Vê de perto o galo campina
Que quando canta muda de cô
Vai moiando os pés nos riacho
Que água fresca, nosso Sinhô

Vai oiando coisa a grané


Coisas qui, pra mode vê
O crixtão tem que andar a pé

Ai, ai, que bom


Que bom, que bom que é
Uma estrada e uma caboca
Cum a gente andando a pé

Ai, ai, que bom


Que bom, que bom que é
Uma estrada e a lua branca
No sertão de Canindé

Ai, ai, que bom


Que bom, que bom que é
Uma estrada e uma cabocla
318

Cum a gente andando a pé

Ai, ai, que bom


Que bom, que bom que é
Uma estrada e a lua branca
No sertão de Canindé

6) RESPEITA JANUÁRIO – (RJ)

Quando eu voltei lá no sertão


Eu quis mangá de Januário
Com meu fole prateado
Só de baixo, cento e vinte, butão preto bem juntinho
Como nêgo empareado
Mas antes de fazer bunito de passage por Granito
Foram logo me dizendo:
"De Taboca à Rancharia, de Salgueiro à Bodocó, Januário é o maió!"
E foi aí que me falou meio zangado o véi Jacó:
"Luí" respeita Januário
"Luí" respeita Januário
"Luí", tu pode sê famoso, mas teu pai é mais tinhoso
E com ele ninguém vai, "Luí"
Respeita os oito baixo do teu pai!
Respeita os oito baixo do teu pai!

Eita, cum seiscento milhão, mas já se viu!


Dispois que esse fi de Januário vortô do sul
Tem sido um arvoroço da peste lá pra banda do Novo Exu
Todo mundo vai vê o diabo do nego
Eu também fui, mas num gostei
O nego tá muito mudificado
Nem parece aquele mulequim que saiu daqui em 1930
Era malero, bochudo, cabeça-de-papagai, zambeta, fei pa peste!
Qual o quê!
O nêgo agora tá gordo que parece um majó!
É uma gasimira lascada!
Um dinheiro danado!
Enricou! Tá rico!
Pelos carco que eu fiz,
ele deve pussui pa maih de 10 contos de réi!
Safonona grande danada, 120 baixos!
É muito baxo!
Eu nem sei pra que tanto baxo!
Porque arreparando bem ele só toca em 2.
Jenuário não!
O fole de Jenuário tem 8 baixos, mas ele toca em todos 8
Sabe de uma coisa? Luiz tá com muito cartai!
É um cartaiz da peste!
Mas ele precisa respeitar os 8 baxos do pai dele
E é por isso que eu canto assim!
319

"Luí" respeita Januário


"Luí" respeita Januário
"Luí", tu pode sê famoso, mas teu pai é mais tinhoso
Nem com ele ninguém vai, "Luí"
Respeita os oito baixo do teu pai!
Respeita os oito baixo do teu pai!
Respeita os oito baixo do teu pai!

7) JUAZEIRO – (J)

Juazeiro, juazeiro
Me arresponda, por favô,
Juazeiro, velho amigo,
Onde anda o meu amor
Ai, juazeiro
Ela nunca mais voltou,
Diz, juazeiro
Onde anda meu amô
Juazeiro, não te alembra
Quando o nosso amor nasceu
Toda tarde à tua sombra
Conversava ele e eu
Ai, juazeiro
Como dói a minha dô,
Diz, juazeiro
Onde anda o meu amô
Juazeiro, seje franco,
Ela tem um novo amor,
Se não tem, porque tu choras,
Solidário à minha dô
Ai, juazeiro
Não me deixa assim ruer,
Ai, juazeiro
Tô cansado de sofrê
Juazeiro, meu destino
Tá ligado junto ao teu,
No teu tronco tem dois nomes,
Ele mesmo é que escreveu
Ai, juazeiro
Eu num guento mai ruer,
Ai, juazeiro
Eu prefiro inté morrer.
Ai, juazeiro...

8) BAIÃO (Luiz Gonzaga - Humberto Teixeira) – (B)


Eu vou mostrá pra vocês
Como se dança o baião
320

E quem quiser aprendê


É favor prestar atenção

Morena chega pra cá,


Bem junto ao meu coração
Agora é só me segui
Pois eu vou dançar o baião

Eu já dancei, balancê,
Chamego, samba e Xerém
Mas o baião tem um quê,
Que as outras danças não têm
Oi quem quisê só dizê,
Pois eu com satisfação
Vou dançá cantando o baião

Eu já cantei no Pará
Toquei sanfona em Belém
Cantei lá no Ceará
E sei o que me convém
Por isso eu quero afirmá
Com toda convicção
Que sô doido pelo baião

9) ASSUM PRETO – (AP)


Tudo em vorta é só beleza
Sol de Abril e a mata em frô
Mas Assum Preto, cego dos óio
Num vendo a luz, ai, canta de dô (bis)
Tarvez pur iguinorança
Ou mardade das pió
Furaro os óio do Assum Preto
Pra ele assim, ai, cantá mió (bis)
Assum Preto veve sorto
Mas num pode avuá
Mil vez a sina de uma gaiola
Desde que o céu, ai, pudesse oiá (bis)
Assum Preto, meu cantá
É tão triste cumo o teu
Também roubaro o meu amô
Que era a luz, ai, dos óios meu
Também roubaro o meu amô
Que era a luz, ai, dos óios meus.

10) BAIÃO DE DOIS (H. Teixeira/Luiz Gonzaga) – 1977 - (BD)


Abdão que moda é essa
Deixe a trempe e a culé
Home num vai na cuzinha
Que é lugá só de mulé
Vô juntá feijão de corda
321

Numa panela de arroiz


Abdão vai já pra sala
Que hoje tem baião de dois

Ai, ai ai, ai baião que bom tu sois


Se o baião é bom sozinho
Que dirá baião de dois
Ai, ai ai, ai baião que bom tu sois
Se o baião é bom sozinho
Que dirá baião de dois
Ai ai, baião de dois, ai ai, baião de dois (Repete tudo)

11) XANDUZINHA (H. Teixeira/Luiz Gonzaga) – (X)


O caboco Marcolino
Tinha oito boi zebu,
Uma casa com varanda,
Dando pro Norte e pro Su,
Seu paiol tava cheinho,
De feijão e de andu,
Sem contar com mais os cobres
Lá no fundo do baú,
Marcolino dava tudo,
Por um chero de Xandu.

Ai, Xanduzinha,
Xanduzinha minha flô,
Como foi que você deixou,
Tanta riqueza pelo meu amô?

Ai, Xanduzinha,
Xanduzinha meu xodó,
Eu sou pobre mais você sabe,
Que meu amô,
Vale mais que oro em pó.

12) A VOLTA DA ASA BRANCA – (VAB)


Já faz três noites
Que pro norte relampeia
A asa branca
Ouvindo o ronco do trovão

Já bateu asas
E vortô pro meu sertão
Ai, ai eu vô me embora
Vou cuidá da prantação (2x)

A seca fez eu desertá da minha terra


Mas felizmente Deus agora se alembrou
322

De mandar chuva
Pra esse sertão sofredô
Sertão das muié séra
Dos homes trabaiadô

De mandá chuva
Pra esse sertão sofredô
Sertão das muié séra
Dos homes trabaiadô

Rios correndo
As cachoera tão zoando
Terra moiada
Mato verde, que riqueza

E a asa branca
Tarde canta, que beleza
Ai, ai, o povo alegre
Mais alegre a natureza (2x)

Sentindo a chuva
Eu me arrescordo de Rosinha
A linda frô
Do meu sertão pernambucano
E se a safra
Num atrapaiá meus pranos
Que que hai, ô siô vigário
Vou casá no fim do ano

E se a safra
Não atrapaiá meus pranos
Que que hái, ô siô vigário
Vou casá no fim do ano.

13) XOTE DAS MENINAS – (XM)


Mandacaru
Quando fulora na seca
É o sinal que a chuva chega
No sertão
Toda menina que enjôa
Da boneca
É sinal que o amô
Já chegou no coração...

Meia comprida
Não qué mais sapato baixo
Vestido bem cintado
Num qué mais vesti timão...

Ela só qué
323

Só pensa em namorá
Ela só qué
Só pensa em namorá...

De manhã cedo já tá pintada


Só vive suspirando
Sonhando acordada
O pai leva ao dotô
A fia adoentada
Não come, nem estuda
Não dorme, e nem qué nada...

Ela só qué
Só pensa em namorá
Ela só qué
Só pensa em namorá...

Mas o dotô nem examina


Chamando o pai do lado
Lhe diz logo em surdina
Que o mal é da idade
E que prá tal menina
Não há um só remédio
Em toda medicina...

Ela só qué
Só pensa em namorá
Ela só qué
Só pensa em namorá...

14) ABC DO SERTÃO – (ABC)


Lá no meu sertão pro caboco lê
Têm que aprendê um outro ABC
O jota é ji, o éle é lê
O ésse é si, mas o érre
Tem nome de rê
Até o ípsilon lá é pissilone
O eme é mê e o ene é nê
O efe é fê, o gê chama-se guê
Na escola é engraçado ouvir-se tanto "ê"
A, bê, cê, dê,
Fê, guê, lê, mê,
Nê, pê, quê, rê,
Tê, vê e zê.

15) RIACHO DO NAVIO – (RN)


Riacho do Navio
Corre pro Pajeú
O rio Pajeú vai despejá
No São Francisco
324

O rio São Francisco


Vai batê no mei do má
O rio São Francisco
Vai batê no mei do má
Ah! se eu fosse um peixe
Ao contrário do rio
Nadava contra as águas
E nesse desafio
Saía lá do má pro
Riacho do Navio
Eu ia direitinho pro
Riacho do Navio
Pra ver o meu brejinho
Fazer umas caçada
Ver as "pegá" de boi
Andá nas vaquejada
Dormi ao som do chocaio
E acordá com a passarada
Sem rádio, sem notíça
Das terra civilizada
Sem rádio, sem notíça
Das terra civilizada.

16) A DANÇA DA MODA – (DM)

No Rio tá tudo mudado


Nas noites de São João
Em vez de polca e rancheira
O povo só pede, só dança o baião
No meio da rua
Inda é balão
Inda é fogueira
É fogo de vista
Mas dentro da pista
O povo só pede, só dança o baião
Ai, ai, ai, ai, São João
Ai, ai, ai, ai, São João
É a dança da moda
Pois em toda roda
Só pede baião.
325

17) FORRÓ DE MANÉ VITO – (FMV)


(Luiz Gonzaga e Zé Dantas)

Seu delegado, por Nossa Sinhora, dotô


Eu num matei o homem não, só dei uns risquim,
O caba é que era morredô, dotô, juro por Nossa Sinhora
Seu delegado, digo a vossa senhoria
Eu sou fi de uma famia
Que não gosta de fuá
Mas trasontonte
No forró de Mané Vito
Tive que fazê bonito
A razão vou lhe explicá
Vitola no Ganzá
Preá no reco-reco
Na sanfona de Zé Marreco
Se danaro pra tocá
Praqui, prali, pra lá
Dançava com Rosinha
Quando o Zeca de Saminha
Me proibe de dançá
Seu delegado, sem encrenca
eu não brigo
Se ninguém buli comigo
Num sô home pra brigá
Mas nessa festa
Seu dotô, perdi a carma
Tive que pegá nas arma
Pois num gosto de apanhá
Pra Zeca se assombrá
Mandei pará o fole
Mas o caba num é mole
Quis parti pra me pegá
Puxei do meu punhá
Soprei no candieiro
Botei tudo pro terrero
Fiz o samba se acabá

Seu delegado, juro por Deus, dotô


Eu sô fi de boa famia, dotô
Eu sô um home dereito, dotô
Tá conversano, sujeito
Faça isso não, dotô
Faça isso não, dotô

18) SABIÁ (Gonzaga-Zedantas) – (S)


A todo mundo eu dou psiu, siu, siu, siu
Perguntano por meu bem, siu, siu, siu
Tendo um coração vazio
Vivo assim a dá psiu
326

Sabiá vem cá também, siu, siu, siu


Tu que anda pelo mundo (sabiá)
Tu que tanto já voou (sabiá)
Tu que fala aos passarinho (sabiá)
Alivia minha dô
Tem pena d'eu (sabiá)
Diz por favô (sabiá)
Tu que tanto anda no mundo (sabiá)
Onde anda o meu amor
Sabiá

19) SÃO JOÃO NA ROÇA (Zedantas-Luiz Gonzaga) – (SJR)

A fogueira tá queimando
Em homenagem a São João
O forró já começou
Vamo gente, rapa pé nesse salão

Dança Joaquim com Zabé


Luiz com Yaiá
Dança Janjão com Raqué
E eu com Sinhá
Traz a cachaça, Mané!
Eu quero vê
Quero ver paia avuá

20) NOITES BRASILEIRAS (Gonzaga-Zedantas) – (NB)


Ai que saudades que eu sinto
Das noites de São João
Das noites tão brasileiras nas fogueiras
Sob o luar do sertão

Meninos brincando de roda


Velhos soltando balão
Moços em volta à fogueira
Brincando com o coração
Eita, São João dos meus sonhos
Eita, saudoso sertão

21) VOZES DA SECA (Luiz Gonzaga/Zedantas) – (VS)


Seu dotô os nordestino têm muita gratidão
Pelo auxílio dos sulistas nessa seca do sertão
Mais dotô uma esmola a um homem qui é são
Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão
É por isso que pidimos proteção a vomicê
Home por nóis escoído para as rédias do pudê
Pois dotô dos vinte estados temos oito sem chovê
Veja bem, quase a metade do Brasil tá sem cumê
Dê serviço a nosso povo, encha os rio de barragem
327

Dê cumida a preço bão, não esqueça a açudagem


Livre assim nóis da ismola, que no fim dessa estiagem
Lhe pagamo inté os juru sem gastá nossa coragem
Se o dotô fizer assim, salva o povo do sertão
Quando um dia a chuva vim, que riqueza pra nação!
Nunca mais nóis pensa em seca, vai dá tudo neste chão
Como vê nossos distino mecê tem na vossa mão.
Mecê tem na vossa mão.

22) IMBALANÇA (Compositor: Luiz Gonzaga / Zé Dantas) – (Imb)

Óia a paia do coquero


Quando o vento dá,
Óia o tombo da jangada
Nas onda do má,
Óia o tombo da jangada
Nas onda do má,
Óia a paia do coquero
Quando o vento dá,
Imbalança, imbalança, imbalançá
Imbalança, imbalança, imbalançá
Imbalança, imbalança, imbalançá
Imbalança, imbalança, imbalançá

Pra você aguentá meu rojão


É preciso sabê requebrá
Tê molejo nos pés e nas mão
Tê no corpo o balanço do má
Sê que nem carrapeta no chão
E virá foia seca no a
Para quando escutá meu baião
Imbalança, imbalança, imbalançá

Óia a paia do coquero


Quando o vento dá,
Óia o tombo da jangada
Nas onda do má,
Óia o tombo da jangada
Nas onda do má,
Óia a paia do coquero
Quando o vento dá,
Imbalança, imbalança, imbalançá
Imbalança, imbalança, imbalançá
Imbalança, imbalança, imbalançá
Imbalança, imbalança, imbalançá
Você tem que vivê no sertão
Pra na rede aprendê imbalá,
Aprendê a batê no pilão,
Na penera aprendê penerá
328

Ver relampo no mei dos truvão


Fazer cobra de fogo no a
Para quando escutá meu baião
Imbalança, imbalança, imbalançá

23) CINTURA FINA (Zé Dantas/Luiz Gonzaga) – 1950 – (CF)


Minha morena, venha pra cá
Pra dançá xote, se deite em meu cangote
E pode cochilá
Tu sois muié pra home ninhum
Butá defeito, por isso sastifeito
Com você vou dançá

Vem cá, cintura fina, cintura de pilão


Cintura de menina, vem cá meu coração

Quando eu abarco essa cintura de pilão


Fico frio, arrepiado, quaje morto de paixão
E fecho os óio quando sinto o teu calô
Pois teu corpo só foi feito pros cochilo do amô

Vem cá, cintura fina, cintura de pilão


Cintura de menina, vem cá meu coração

Oh, Vem cá cintura, cintura, cinturinha, cintura cintadinha, fina, fina, fina, fina, cintura
enforcadinha, bem fininha de pilão, cintura de menina, vem cá meu coração
Oi, vem cá cintura, cintura, cinturinha, cintura cintadinha, fina, fina, fina, finazinha,
Cintura enforcadinha, bem fininha de pilão.

24) VEM MORENA (Zé Dantas/Luiz Gonzaga) – 1949 – (VM)


Vou quebrá mai essa caboca
Eita, morena bunita
Hahai, vem morena

Vem, morena, pros meus braços


Vem, morena, vem dançá
Quero ver tu requebrando
Quero ver tu requebrá

Quero ver tu remexendo


No resfulego da sanfona
Inté que o sol raiá

Esse teu fungado quente


Bem no pé do meu pescoço
Arrepia o corpo da gente
Faz o véio ficá moço
E o coração de repente
Bota o sangue em arvoroço
329

Vem, morena, pros meus braços


Vem, morena, vem dançá
Quero ver tu requebrando
Quero ver tu requebrá
Quero ver tu remexendo
No resfulego da sanfona
Inté que o sol raiá (2x)

E esse teu suó sargado


É gostoso e tem sabô
Pois o teu corpo suado
Cu´esse chero de fulô
Tem um gosto temperado
Dos tempero do amô
Vem, morena, pros meus braços...

Vem, morena, vem dançá


Quero ver tu requebrando
Quero ver tu requebrá
Quero ver tu remexendo
No resfulego da sanfona
Inté que o sol raiá

Vem peste, vem danada, vem dançá mais eu.

25) DERRAMARO O GAI (Zé Dantas/Luiz Gonzaga) - 1950 – (DG)


Eu nesse coco num vadeio mais
Apagaru o candieiro, derramaru o gai (Coro) (4x)
Apagaru o candieiro, derramaro o gai
Coisa boa nesse escuro já sei que num sai
Já não tão mai respeitando nem eu que sou pai
Pois me deram um beliscão quase a carça cai
Começando desse jeito num sei pronde vai
Por isso nesse coco num vadeio mai
Eu nesse coco num vadeio mai...
E nesse coco, nesse coco num vadeio mai
Apagaru o candeeiro, derramaru o gai
E nesse coco, nesse coco num vadeio mai
Apagaru o candieiro, derramaru o gai

No escuro desse jeito ninguém se distrai


Pai de moça nessa festa só vai tê trabai
Seu Zé Chico nesse coco Isabé num cai
O seu noivo tá querendo mas eu sou o pai
Ou acende um candieiro bem cheim de gai
Ou ela nesse coco num vadeia mai
Eu nesse coco num vadeio mai...

Sá Zefinha entrou no coco quaje que num sai


Pois ficou que nem badalo dentro do chucai
330

Levou tanta imbigada que caiu pra trai


Saiu andando manca que nem papagai
Seu marido foi falá, mas levou cinco tai
Por isso nesse coco num vadeio mai
Derramaru, derramaru, derramaru, derramaru o gai.

26) O TORRADO (Zé Dantas/Luiz Gonzaga) - 1950 – (T)


Lá no sertão
Quando o caba tá queimado
Dentro do samba
Ele só qué dançá torrado
Pega a morena
E enforca na cintura
Agarra bem segura
Como quem sente secura
Tá com sede e qué matá

E a moreninha
Fica só rodopiano
No canto estribuchano
Que nem rede balançando
Sem saber pra donde vá
Pois fica o caba
No cangote dando chêro
Cumo abeia no perêro
Que começa a fulorá
E o sanfoneiro
Que de bêbo já tá mole
Deitado em riba do fole
Só trêis nota sabe dá

Terreco, teco
Terreco, teco
Terreco, teco
Patapitú, Patapitú,

É só se vê
O torrado se acabá
Foi quando o dono
Dessa casa de momento
Se acorda rabujento
Pro salão fiscalizá
Cum a pexêra
Acorda logo sanfoneiro, peste!
E atrás dele
Vem uns trêis cabra valente
Pois quem num dançá decente
Entra logo no punhá
Queima o torrado!
331

27) ADEUS, RIO DE JANEIRO (Zé Dantas/Luiz Gonzaga) – 1950 – (ARJ)

Ri de Janero bota o visgo na gente


É terra boa pro caboco farriá
Eu só não fico proque Rosa diz: "oxente
Será que Lula já deixou de me amá?"
E desse jeito pode sê que o diabo atente minha Rosa se contente
E bote outro em meu lugá.
Ri de Janero, ô Ri de Janero, ô
Eu vou me embora,
Mas pro ano eu volto cá
Ri de Janero, ô Ri de Janero, ô
Eu vou me embora,
Mas pro ano eu volto cá

Quando eu me alembro de deixá Copacabana


E as morenas que eu tenho visto por cá
Eu fico triste, sinto frio, sinto medo
E fico achano tudo azedo e com vontade de chorá
Ma memo assim, adeus, ó morenas dengosa
Me adiscurpe, mas a Rosa tá em primeiro lugá

28) VÔ CASÁ JÁ (Zé Dantas/Luiz Gonzaga) – 1954 – (VCJ)


No amor eu fui vagabundo
fui bandolero inté
E no jardim do namoro
fiz um buquê de muié
caiu na rede era peixe
Não escoía a maré
Gostei de todos os tipo
mas só com uma eu fiz fé
chutei a branca
larguei a mulata,
deixei a ruiva
e mandei a lora andá
Mas o diabo da morena
tem feitiço que envenena
Pedi uma em casamento
e vô casá já
Vô casa já, vô casá já.

29) OLHA A PISADA (Zé Dantas/Luiz Gonzaga) – 1954 – (OP)


"Olê muié rendeira
Olê muié rendá
Chorou por mim não fica
Soluçou vai no borná."

Assim era que cantava os cabras de Lampião


Cantando e xaxando nos forró do sertão
332

Entrando numa cidade ao sair dum povoado


Cantando a rendera se danavam no Xaxado

Eu que me criei na pisada


Vendo os cangacero da pisada
Canto com sucesso na pisada
De Lampião
Olha a pisada, tum tum tum tum (3x)
Olha a pisada
De Lampião

Em Pernambuco ele nasceu


Lá no Sergipe ele morreu
O seu reinado a ninguém deu
Mas o xaxado
Tem que sê meu
Tem que sê meu
Tem que sê meu
Olha a pisada, tum tum tum tum (3x)

30) O CASAMENTO DE ROSA (Zé Dantas/Luiz Gonzaga) - 1953 - (CR)

- Oi, há! Vamo pro samba, rapaziada.


Se amonta Joana,
Monta Mariquinha,
Monta Sinhá Zefinha,
Monta Juvená
Fura esses burro vamos chegá cedo,
Que hoje o forguedo vai sê de matá
Coroné Zeca com muita alegria
Hoje casa a fia e pra festejá
Tá convindando toda a vizinhança
Pra encher a pança, bebê e dançá
Coroné Zeca matou três zebu,
Muita galinha e muito peru
Se vai tê dança isso nem se indaga
Que os Sete Gonzaga já foram pra lá
Vamo simbora que a viagem é dura
Que a noite é d’água e nessa estrada escura
Ou nós sai cedo e dana as espora
Ou nós perde a hora de Rosa casá.
- Ahá, coroné véi, taca as orde, coroné. Vamo simbora,
- Monta Joana, Monta Mariquinha, vamo simbora, pessoá,
- Ô, Pedô
- Inhô, coroné,
- Bota uma garrafa de cana na corona que o frio hoje vai sê de lascá. Vamo simbora, pessoá,
- Totonho!
- Pronto, patrão!
- Bota Zefa na garupa e sustenta a rédea que esse cavalo é danado pra cair dah mão,
- Sabia disso, coroné, cahalo de areia é danado pra comer tambueiro e ingrossá as junta.
333

- Eita, serviço danado! Vocês levante as perna que a ortiga tá com a mulésta! Coidado, tenham
coidado com os buraco. Tem muito buraco de peba nesta estrada.
- Ahá!
- Eita, serviço danado! Vamo simbora, pessoá.
- Vamo simbora, coroné!
- Bora!

31) Viva meu Padim (Luiz Gonzaga-João Silva) - 1986 – (VP)


Olha lá, no alto do Horto
Ele tá vivo, Padim não tá morto
Viva o meu Padim, Viva o meu Padim
Cíço Romão
Viva meu Padim! Viva também Frei Damião!
Eu todos os anos
Setembro e Novembro
Vou ao Juazeiro
Alegre e contente
Cantando na frente
Sou mais um romeiro
Vou ver meu Padim
De bucho cheio ou barriga vazia
Ele é o meu pai
Ele é o meu santo
É minha alegria

32) Umbuzeiro da Saudade – 1978 - (US)


Umbuzeiro veio
Veio amigo quem diria
Que tuas folhas caídas
Tuas galhas ressequidas
Íam me servir um dia
Foi naquela manhãzinha
Quando o sol nos acordô
Que a nossa felicidade
Machucou tanta saudade
Que me endoideceu de amor
Indiscreto passarinho
Solitário cantadô
Descobriu nosso segredo
Acabou com nosso enrêdo
Bateu asas e voou
Hoje vivo pelo mundo
Tal e qual o vem-vem
Sobiando o dia inteiro
Quando vejo um umbuzeiro
Me lembro de ti meu bem.
334

33) Nem se Despediu de Mim – 1987 - (NDM)


Nem se despediu de mim
Nem se despediu de mim
Já chegou contando as horas
Bebeu água e foi-se embora

Nem se despediu de mim


Te assossega coração
Esse amor renascerá
Vai-se um dia mas vem outro

Aí então, quando ele voltar


Quebre o pote e a quartinha
Bote fogo na camarinha
Que ele vai se declarar.

34) Frei Damião (Janduhy Finizola) - 1974 - (FD)


Frei Damião, onde andará frei Damião?
Deu-lhe o destino, viver nordestino
É hoje o nosso irmão
Quando o galo canta na madrugada
Já toda gente de pé se benze na procissão
Numa marcha santa dentro da alvorada
Vai na frente o homem, o quase santo frei Damião
Com a reza e a campa, desperta, canta
Já chegou o tempo ninguém perca tempo vamos pras missões
Pecador te ajoelha
Em Deus quem se espelha
Só pode ter de Frei Damião sua proteção
Frei Damião, meu bom Frei Damião
O seu perdão numa confissão faz um bom cristão
Frei Damião, meu bom Frei Damião
Eu sou nordestino, eu estou pedindo a sua benção
Pé que pisa a terra, sem caminhos erra
Este beco testa-nos e a gente está nas missões
Quer saber do inverno, quer fugir do inferno
Quem tem devoção com Frei Damião não tem provação
Frei Damião, meu bom Frei Damião
O seu perdão numa confissão faz um bom cristão
Frei Damião, meu bom Frei Damião
Eu sou nordestino, eu estou pedindo a sua benção(bis)
Frei Damião... Frei Damiããããoooo.

CAUSOS

Transcrição do causo “se eu nascesse de novo” (C01) - (5:01)


(Cantando)
Vai boiadeiro, que a noite já vem,
335

Guarda o teu gado e vai pra junto de teu bem!


(Falando)
Eu sou um cabôco feliz
Há!... Se eu nascesse de novo, eu queria sê o mesmo165 Mané Luizz!... Se eu nascesse de novo
e pudesse escolhê, mais do que eu sou eu não queria sê. Eu queria nascê na Fazenda da Caiçara,
lá.. em Exu, Pernambuco, mesmo na divisinha do Ceará! É por isso que eu costumo dizê que
uma banda minha é pernambucana, a outra banda é cearense!
Quando eu... Há!... Quero nem dizê!... Quando eu ficasse taludim assim, eu queria logo comprá
uma sanfona, pra ajudá meu pai nos toque... lá nos forró!... Eu queria sê fi de Januário mermo,
e de Dona Santana!... Mais do que eu sou eu não queria sê não, sinhô!
Se eu nascesse de novo e pudesse escolhê... Ah!... Quando chegasse mil novecentos e trinta...
Eu entrava no Colégiu. Dezoito anos de idade... Colégiu do pobre é o... é o Exército Brasileiro!
Sentava praça!... Há, há... Fazia revolução como u djabu, num dava nem um tiru! Eita, Brasil
bom danado!...
Ah!... Eu queria sê o Rei do Baião!... Mais... num era mole não, meu irmão! Quando eu chegasse
no Ri de Janero, em trinta e nove, eu ia tocá na zona violenta, na pesada, lá nu Mangue!
Correndo o pire nos gringo! Queria sê tudo isso! Oxente, eu queria sê o Rei do Baião!...
Até que uma certa noite, chegasse lá assim, um grupo de cearense. Diziam que eram
universitário. Sei lá o que era isso! Eram estudante mermu! Depois de me agradarem muito,
fizeram uma exigência:
- “Olha, cabôco... quando a gente voltar aqui outra vez, nesse lugá, nóis só damo dinheiro a
você se você tocar um negócio lá daqueles pé de serra! Cê num é sertanejo? Cê né/lá/da Serra
do Araripe?”
Eu digo: “- Sô!...”
- “Tá feita a exigência!”
Aí, eu fiz uma recapitulação. Organizei esse numerozim que eu entrei tocando com ele aqui
agora, o Vira e Mexe. É... Foi o primeru!... Quando os cearenses chegaram, eu disse pra eles:
- “Olha, tenho um negocim aqui pra empurrá em vocês.”
- “Então, manda!”
Lasquei brasa!...
- “É isso aí, cabôco!”

165
Por orientação da chave de transcrição do Projeto referido, as variantes velar/glotal não devem ser registradas:
mesmo para [‘mehmo].
336

Naquele tempo era "cabôco". Agora é "bichu"!


- “É isso mesmo! Agora você pode até... visitá nossa república.”
- “Que diabo é isso?”
- “É uma república lá na Lapa. Da pesada. Lá é que é a pesada mesmo! Só de cearense! E você
tá convidado pra i lá, tocá pra nós!”
E eu fui, tava agradando! Há, há!... Fui conhecer a república dos cearenses. Quando eu cheguei
lá, era a maió bagunça do mundo! Já viu? Há!... República de estudante, inda mais cearense?...
Aí, um em tom de blague disse assim:
- “Apresento aí o Presidente da República!”
Sabe quem era?... Armando Falcão! O home quase foi Presidente da... Quase foi Presidente
da República mesmo, rapaiz!... Bacharel!... Há!... Deputado, líder, ministro!... Foi tudo isso!
Faltou poco pra ser Presidente da República!
E se eu nascesse de novo e pudesse escolhê, quando chegasse o dia – vinte e quatro, hoje, né?
– vinte e quato de março, de mil novecentos e setenta e dois, a essa horinha mesmim... cês
quere sabê onde é que eu queria está? Era aqui, com vocês, no Teatro Thereza Rachel, enrolano
vocês na conversa, contando essa história, com a presença do Deputado Armando Falcão, que
tá aqui entre nós... que não me deixa menTI!... Foi no governo de Juscelino, que ele manobrou!
Manobrou na política, meu irmão. Tem nada não! Nós tamo aí, o senhor na sua e eu na minha...
Agora, o sinhô está aguentado aí, aguente/tá sentado aí, aguente meu negócio, que lá vai
chumbo, cabôco!...
(Cantando)
Vai boiadeiro, que a noite já vem,
Guarda o teu gado e vai pra junto de teu bem!

Transcrição do causo “volta à casa” (C02) - (6:10)


(Falando)
Só voltei em casa dezesseis anos despois da minha arribada. E só fugi de casa porque
eu queria casá. Mãe era mulher, ha... violENta! Casá?... Hum!...
Mais eu era tocadozim de pé de serra, namoradô como o diabo, neguim fiota... Namorei uma
estudante.
Ah, MENINO, quando o pai da moça soube... deu uma pôpa da mulésta!
- “Ih, Tocadozim sem futuro... Lui?... Casá?... Hum!... Deixa ele vim pra cá, que eu dou-lhe
uma pisa!”
Eu soube... No dia da feira, tomei umas lapada de cana. Escorei o home na feira:
337

- “Ô Seu Raimundo, o senhor me chamou de molequim sem futuro?”


- “E o que maih, Luiz?”
- “O senhor disse que eu era um tocadozim de meia-tigela?”
- “E o que maih, Luiz?”
- “Que eu num prestava pra casá com a sua filha?”
- “E o que maih, Luiz? Mintira, Luiz. Isso é invenção desse POVO! Tu? Meu coração? Fi de
Januário e Santana?”... Há!...
O home era muito vivo!... Eu saí dali e fui... uh!... contá vantage, no mei dos amigo:
- “Taí, diz que o home era brabo? Fui lá, escorei ele no mei da feira... Disse-lhe o diabo! Disse
as ... Eu disse as do fim! E ele se acovardô!”
Nessa hora mesma, ele tava conversando com mãe, lá na fera das corda!
- “Santana, foge daqui com Luiz, pra evitá uma desgraça. Me insultô. Só não dei-lhe umas
tapa porque é teu filho!”
Na mesma hora mã/ nós voltamu pra casa. Cheguemu em casa assim, todo mundo se admirou:
- “Mas Santana, a essa hora? Já voltou da fera? Num vendeu nem as corda? O que é que houve?”
Daí a pouco, menino, foi um São João de rei... Lá dento da camarinha:
- “Tá, tá... tu queria matá o home? Toma, toma... Valente!... Tá, tá!...”
Meu pai, na porta. Quando eu fugi, que eu fui passando perto de meu pai... Meu pai nunca tinha
me batido, aproveitou e imendô!...
Ah, menino!... Só voltei dezesseis ano depois! Ninguém se lembrava mais de mim. Aí, eu
comecei a especulá. Quando cheguei de lon/distante de casa assim umas... umas seis léguas:
- “Boa tarde!...”
- “Boas tarde.”
- “Vosmicê tem uma aguinha dormida aí?”
- “Se arruma!”
Lá hem o home, caneco d’água.
- “Aguinha saloba, essa daqui, hem?”
- “É, esse pé-de-serra é tudo assim.”
- “O povo por aqui ainda dança?”
- “Nas quato festa do ano.”
- “Tem tocadô bom por aqui?”
- “Só Januário véi!”
- “Ele é bom mesmo?”
- “Nunca encontrou quem lhe butasse a cangaia, no fole de oito baxo!”
338

- “Ele tem uns fi que toca, né?”


- “É... Maih foram embora pro Su. Não vem aqui maih não, que eles num são besta.”
Me chamou de besta!
- “Daqui ao Exu, ainda é muito longe?”
- “É umas seis légua. Aqui pra nóis. Agora, nesse carro aí, num dá nem quato!...”
Aí, eu arquitetei um plano: vou chegá em casa de madrugada. Quero pregá uma peça no Véi
Januário. Ele não me conhece maih. Vou pregar o maió susto nele. Num tenho medo não, que
ele tem o coração bom.
Há, há cheguei em casa meia-nooite. Aquele silêncio. Cachorro latiu de cá, oto latiu de lá.
Cheguei mesmo na nossa casa véia:
- “Ô de casa?”
Ninguém!
- “Ô de casa!”
Ninguém!
Aí, eu me lembrei do Prefixo Sertanejo:
- “Lohado seja Nosso Sinhô Jesus Cristo!”
- “Para sempre seja Deus lovado!”
- “É seu Januário?”
- “Sim, sinhô!”
- “Tenho um recado pro sinhô, que seu fio mandou... Luiz! Mais, quando vié daí, Seu Januário,
traga um coco d’água pra eu, que eu tô morrendo de sede!”
Aí, vi o velho acendê o candiero lá dento. Daí, mais uma coisinha, escutei foi o
tibungado do caneco no pote:
-“Tibum!...”
Aí, olhei pela brecha da janela, o véi vem, com o candiero na mão, caneco d’água na ota,
marquei qual era a janela que ele ia abri. Aí, eu butei minha cara mesmo na janela, assim.
Quando ele abriu, tava de cara com cara. Ele se incandiô no candiero, e dixi:
- “Quem é o sinhô?..”
Eu dixi, na cara dele:
- “Luiz Gonzaga, seu filho!”
- “Isso é hora de você chegá em casa, corno semvergonha?”
(aplausos da platéia)
Quando eu voltei lá no... Peraí... Então eu sô chamado de corno e vocês aplaude?
(risos)
339

Quando eu voltei lá no sertão


Eu quis mangá de Januário
Com meu fole prateado
Só de baixo, cento e vinte, butão preto bem juntinho
Como nêgo empareado
Mas antes de fazer bunito de passage por Granito
Foram logo me dizendo:
"De Taboca à Rancharia, de Salgueiro à Bodocó, Januário é o maió!"
E foi aí que me falou meio zangado o véi Jacó:
"Luí" respeita Januário
"Luí" respeita Januário
"Luí", tu pode sê famoso, mais teu pai é mais tinhoso
E com ele ninguém vai, "Luí"
Luí, Respeita os oito baixo do teu pai!
É, com o véio macho ninguém vai
É, Luí, tu tá muito importante, hahá... mas tu tem que respeitá os oito baxo do teu, pai, Luí
Januário é Januário, Luí
E tome xote,
E tome samba,
E tome dança em sala de reboco.

Transcrição do causo “casamento do caboclo” (C03) - (2:29)


(Cantando)
Todo tempo quanto houver pra mim é poco
Pra dançá com eu benzinho numa sala de rebôco
(...)
(Falando)
É tão bonzim um samba numa sala de reboco... Há... inda mais quando a gente tá dançando com
uma danada qui a gente gosta dela
Ô negócio é assim: o cabôco vai casá...então ele resolve convidá os cumpanhêro... pra ajudá a
fazê a casinha dele... e lá na fera... ele... se desocupa mais cedo e vem esperá os cumpanhêro
cá: na ponta da rua... naquela budega onde ele costuma guardá a faca dele... os cumpanheiro
vão aparecendo ele... vai fazendo os convite:
340

“- pois é, colega, vou dá uma casada...já falei com o padê... vai sê de hoje a oito dia...vô fazê
minha casinha amanhã...tô convidano os amigo pra me ajudá...já encostei os matéria...cipó,
caibo... as vara... o barreiro já tá encaminhado...vô matá um bode...fazê um pirão pra gente
armuçá...se a gente fizê a casa.. amanhã se ela ficá pronta...de noite mesmo a gente dança nela
que é prá i incaicando o chão da sala”.
- Prático, né?
Há, e de noite tá todo mundo lá... e eu a minha cooperação foi tocá...Mas eu fui
recompensado...qui na hora da dança...tô veno uma mulher diferente lá no mei das ota...
Mulhé alta, lazarina, moREna, duas fulô no cabelo... quem será aquela, será Karolina?
Aí, pedi a meu primo Ansermo pra tocá uma coisinha... cheguei perto dessa mulé... e meti o
pisilone nela:
“-Vosmicê é que é Karolina? Sabe o que ela fez?
“- Acho que sô.”
- Qué dançá mais eu?”
(cantando)
Karolina, (pelo cheiro que ela tem)
Gente que nunca dançou (Karolina)
Nesse dia foi dançá (Karolina)
Só por causa do cherinho
Hum, hum,. hum
Todo mundo tava lá (Karolina)
Foi chegando o Delegado
Pra oiá os que dançava (Karolina)
O xerife entrou na dança (Karolina)
E no fim também cherava
Karolina, hum, hum, hum, Karolina, hum, hum, hum
Karolina, hum, hum, hum, Karolina
E no fim também cherava, Karolina

Transcrição do causo “Karolina com K” (C04) - (06:44)

Karolina...
Karolina foi o maió estrupiço que encontrei na minha vida!
Ah! Mulé baguncera da mulésta, mulé cangacera
Conheci Karolina num forró que eu tava tocando
341

Quando eu avistei aquela mulezona diferente no mei do salão, sem dançá com ninguém, só
mangando dos matuto
Eu pensei comigo: “aquilo deve sê um grande pedaço de mar caminho”
Mulé bonita, morena triguera, cabelo cumprido, boa linha de lombo...há, há!
Aí, eu comecei a caprichá no fole véio, pra ver se ela dava fé de mim, mais ela nem fé deu!
E eu pensei comigo.
- Destá! Danada... Se aparecê um colega pra me dá uma ajuda, eu vô aí pra
tu vê o que é bom pra tosse!
Aí, apareceu Ansermo.
- Ô, Ansermo, pega essa sanfona aqui!
Ansermo pegou a sanfoninha, aí eu fui na banca de Samarica.
- Samarica, tem celveja?
- Bote um cálice!
- Cerrejinha é essa, Samarica? Só tem escuma!
- Oxente! Celveja quente é assim mermo!
- Apoi, bote duas encangada aí no fundo do pote, que eu vorto mais tarde!
Aí, me butei pro salão com mai de mil. Cheguei perto dela e dixi:
- Que mal pergunta, vosmicê que é a Carolina?
Ela escorou na perna esquerda, descansou a direita, botou as mão nos quarto, balançou e dixi:
- Pergunta bem! Karolina com "K"!
- Há, qué dançá mais eu?
Ela disse:
- Só se fô agora!
Abufelei... e saí com essa mulé.
Joguei ela pras dereita, ela veio, joguei pra esquerda, ela tava aí. Mulé era adivinhona!
Chamei a mulé no voo do carcará
Sabe como é o carcará, né? Ele voa na vertical, para no ar e fica penerando.
Aí, eu vim descendo com ela bem divagarzim nos meus braço... Quando ela triscou os pé no
chão, ela deu uma gaitada!
- Hahaiii! É hooje!
- Eu digo é hoje mermo!
Aí, saímu fazendo aqueles, aqueles fuxico todo, a mulé pegou o cabelão, enrolou na mão
Assim como o vaqueiro quando vai derrubá boi
Pendeu a cabeça pro lado e saiu rodando e eu rodando mais ela e dando chero no cangote
dela!
Nessa altura nóis já tava fazeno era triatro, era o maió burburim da mundo!
Aí, eu dixi pra ela:
- Karolina, vamu aculá?
Ela respondeu: - Boora!
Chegamu na banca de Samarica
- Samarica, cerrejinha
Ela butô uma, nóis bebemu.
- Bote mah uma.
Ela butô a outra, nóis bebemu
Eu dixi:
- Samarica, bote mais duas encangada no fundo do pote
Que nois vamu vortá mais tarde!
Aí, vortemu pro salão.
Aí, já num tava fazendo aquelas mizera toda mais não
Aí, nóis já tava sereno, nois já tava daquele jeito... há... maió felicidade
342

Aí, Zé de Baía chegô bateu a mão no meu ombro e dixi:


- Gonzaga, acabô a festa
Eu digo: - oxente? Acabô a festa?
- Acabô pra você! Você agora vai tocá. Você é que é o tocadô.
Você tá aqui fazendo arte, tá fazendo até triatro.
E vá tocá!
- Apois, tá certu!
Aí, cheguei perto do Ansermo e disse:
- Ansermo, passa a sanfona pra cá, e vá dançá com Karolina.
- Mais não vão pra longe não, viu? Fica dançano aqui em vorta de mim.
Aí, Ansermo achou foi bom!
Aí, eu caprichei.
De vez em quando, Ansermo passava por perto de mim, assim
Karolina dava uma rabanada de vestido pra riba d'eu
Cubria a sanfona! E eu sentia só aquele cherim de fulô de amô. Hahá!
Maió felicidade!
Aí, Zé de Baía gritou de lá.
- É 5 mi réi, tá na hora da cota!
- É 5 mi réi, quem num pagá num dança.
- É 5 mi ré.
- Nãão! Tá conversando, home
- Oxente!
- Num quero cocoré nem choro baxo!
- É 5 mi réi, 5 mi réi, 5 mi réi.
Também foi ligeiro. Fez a cota, chegou perto d'eu e dixi:
- O teu tá aqui!
Eu dixi:
- Ansermo, passa a sanfona aí pra Pedo Meia Garrafa.
- Sanfona na mão de Pedo Meia Garrafa!
Aí, eu saí. Zé do Baía me deu os quarenta.
Aí, eu saí com Karolina e Ansermo!
- Vamu contá o dinhêro, Ansermo! É 20 pra tu e 20 pra eu!
- Eu vô contá, prontu!
- Um pra eu, um pra tu, um pra eu. Um pra eu, um pra tu, um pra eu.
Ansermo besta, com as butuca em cima de Karolina.
Nem prestava atenção a minha contage e eu tô lá!
- Um pra eu, um pra tu, um pra eu.
- Um pra eu, um pra tu, um pra eu.
- Pronto, Ansermo!
- Aqui tá o teu, aqui tá o meu.
- Agora tu vai vortá a tocá até de manhã, guarda minha sanfona que amanhã eu vô buscá hem
e eu já vô com Karolina, Hahai!
Chegamu na banca de Samarica.
- Samarica, cerrejinha, cerrejinha.
Samarica passou a cerrejinha pra eu
Nóis bebemu
Ota cerrejinha, bebemu a ota!
Aí, já tava ali perto mermu do pé de sumbrião
Onde minha eguinha tava amarrada.
Cheguei perto da eguinha, acochei a cia, passei a perna,
343

Joguei Karolina na garupa e saímu escondido pelos fundos e fumo simbora.


Aí, Karolina disse pra mim:
- Oia, Gonzaga, ah, puxa mermu que a cabruera vem aí atrás
Parece que eles tão querendo butá gosto ruim no nosso amô.
- Não diga isso, Karolina!
Sapequei a espora do suvaco no vazi dessa égua.
Aí, a eguinha se abaxou, saiu danada, chega saiu baxiiinha!
- Piriri..piriri..piriri..piriri..piriri..piriri..piriri.
- Êpa!
Escoremo mermu na beira do rio. O riacho tava cheio, rapaiz!
Aí, a égua rifugou água.
- E agora, Karolina?
- Vamu se escondê dentro das moita! Aí, por dentro dos mato
Aí, nos entremo nos mato, a negrada vinha atrás, riscou também na beira do rio.
Aí, nóis escutamos foi o cunverseiro deles:

- É, sumiro, se encantaro, se escafedero.


- Vamu caçá eles?
- Hoomi, vamu vortá pro samba que ainda tem umas 2 horas de forró.
-É mermo, vamu vortá.
A cabruera vortô e nóis 3, ali, dentro das moita.
Eu, Karolina e minha égua.
E, ali, nóis 3 escutando a cantiga das água.
Tirei a sela e ... lavei a ééégua! Hahai!

ARQUIVO DE VÍDEO CONSTANTE NO GLOSSÁRIO ELETRÔNICO

REMBOLD, Denise. Rancheira. [S.l.: s.n.]. Disponível em:<https://www.youtube.com/


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LISTA DE FIGURAS CONSTANTES NO GLOSSÁRIO ELETRÔNICO

Abelha-mandasaia.jpg. Disponível em:<https://http2.mlstatic.com/caixas-com-enxame-de-


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