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MANUELA CARNEIRO DA CUNHA (ORG.

)
FRANCISCO M. SALZANO
NIÉDE GUIDON
ANNA CURTENIUS ROOSEVELT
GREG URBAN
BERTA G. RIBEIRO
LÚCIA H. VAN VELTHEM
BEATRIZ PERRONE-MOISÉS
ANTÓNIO CARLOS DE SOUZA LIMA
ANTÓNIO PORRO
FRANCE-MARIE RENARD-CASEVITZ
ANNE CHRISTINE TAYLOR
PHILIPPE ERIKSON
ROBIN M. WRIGHT
NÁDIA FARAGE
PAULO SANTILLI
MIGUEL A. MENÉNDEZ
MARTA ROSA AMOROSO
TERENCE TURNER
BRUNA FRANCHETTO
ARACY LOPES DA SILVA
CARLOS FAUSTO
MARY KARASCH
MARIA HILDA B. PARAÍSO
BEATRIZ G. DANTAS
JOSÉ AUGUSTO L. SAMPAIO
MARIA ROSÁRIO G. DE CARVALHO
SILVIA M.SCHMUZIGER CARVALHO
JOHN MANUEL MONTEIRO
SÓNIA FERRARO DORTA

HISTÓRIA
DOS ÍNDIOS
NO BRASIL
2? edição

FaPESP
Fundação DE AMPARO Á Pesquisa
^fefe. _SMC
y, -T^ i i ltlUsicir«i o! Ti in s
DO ESTADO Dt SÃO PAuuí COMHAN H A DaS
I LiriRAS iD... JL1"l>.. 1 ..,
Biblioteca Digital Curt Nimuendajú
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C:op>rinht © 1992 hy os Autores

Projeto editorial:
NrCIS.O DF. HISTÓRIA INDÍGF^A E DO INDIGENISMO

Capa e projeto gráfico:


Motmd CMvakanti

Assistência editorial:
Mjrta Rosa Amoroso

Edição de texto:

Otanlío Fernando Nunes Jr.

Mapas:
Alíàa Roíla
Tuca Capelossi

Mapa das etnias:


Clame CA)hn

FJmundo Peggion

índices:
Beatriz Perrvne- Moisés
Clame C^hn
Edgar Theodoro da Cunha
Edmundo Peggion

Sandra Cristina da Silva

Pesquisa iconográfica:
Manuela Cimeiro da Cunha
Marta Rosa Amoroso
Oscar Cuilávia Saéz
Beatriz Calderari de Miranda

Revisão:
Cármen Simões da Costa
FJiana Antonioli

1^ edição 1992

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (iip)

(Câmara Brasileira do Lixro, sp. Brasil)

História dos índios no Brasil / organização Manuela Carneiro

da Cunha. —São Paulo Companhia das letras


:
Se-
AL BR
cretaria Municipal de Cultura f*pf.sp. 1992 :

Bibliografia
F2519
ISBN S5-7164-260-5
.H57
1998x
1. índios da América do Sul
— Brasil — História 1

Cunha. Manuela Carneiro da.

(Di>-980.41
921393

índices para catálogo sistemático


1 Brasil índios História 980 41

1998

Todos os direitos desta edição leservados à


KDl rC)R.\ St:H\\ARt J'. l.Tlí.V

Rua Bandeira Paulista. 702, cj. 72


04532-002 — São Paulo — SP

Telefone: (011) 86tU)801


Fiix: (011) 8t)tU)814
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DOIS SÉCULOS E MEIO DE HISTORIA XAVANTE

Aracij Lopes da Silva

história do povo Xavante (conhecido na Por ter estado sempre mudando, conforme
como Alcwe-Xavante em

A
hteratura ra- narra a história oral para o período mais anti-,
zão de sua autodenominação, Auice, e go e a documentação escrita atesta para o pe-
para diferenciá-lo dos Oti e Ofaié) tem ríodo mais recente (a partir do século XVIII),
algumas peculiaridades de interesse em um os Xavante não puderam inscrever seu domí-
volume como este, que busca oferecer um qua- nio sobre um permanente. Por ou-
território
dro geral da história indígena do Brasil, pon- tro lado, as constantes migrações (no sentido
do a claro suas constantes e a diversidade in- geral XE-SO) foram feitas mediante o confronto
terna dos processos, que se revelam quando freqiiente com outros grupos indígenas. A sua
são tomados desde a ótica dos povos consi- é, ao que tudo indica, uma história marcada
derados. por conquista atrás de conquista, atravessan-
De um lado, os Xavante estiveram sempre do territórios de grupos que, se não eram,
mudando de território, em migrações contí- tornaram-se inimigos; desalojando uns, fugin-
nuas, desde que se tem registro; de outro, ten- do de outros, as guerras parecem ter se suce-
do convivido com não-índios pelo menos a dido em escala significativa. Pelo menos, as-
partir do século X\'III, negaram-se ao contato sim o registram as narrativas orais a respeito
em fms do XIX, afastando-se das regiões colo- do passado e assim o ancora o ethos guerreiro
nizadas de Goiás e migrando em direção oes- que os caracteriza.
te. Iam em busca de refúgio seguro, que en- Negar-se ao contato com a sociedade bra-
contraram na região da serra do Roncador, pa- sileira não foi decisão unânime nem tomada
ra além do rio das Mortes. Ali, no coração do de uma só vez. As fontes indicam cisões in-
que é hoje o Mato Grosso, em região perten- ternas aos grupos xavante, determinando di-
cente à Amazónia Legal, foram alcançados no- ferentes destinos para diferentes subgrupos. A
vamente pelos brancos, já na década de 40 que abrange o período com-
história recente,
deste século. Dessa vez, porém, haviam se es- preendido entre meados do século passado e
gotado os refúgios nas terras em que lhes apraz os dias que correm, diz respeito aos grupos
viver: os campos cerrados. Por fim, em épo- que transpuseram os rios Tocantins, Araguaia
cas tão recentes como
décadas de 70 e 80,
as e das Mortes. Seus descendentes constituem
sofreram —
por parte do órgão governamen- os A'i/u;e-Xavante atuais.
tal encarregado das populações indígenas — Durante as duas primeiras décadas deste
interferências decisivas em seu destino, que século e em parte significativa da terceira, já
fizeram da história xavante contemporânea um situados em mais de uma aldeia na região do
caso exemplar para a descrição e análise da Roncador, os Xavante parecem ter sido pouco
política indigenista oficial brasileira. Examine- molestados nessas terras que coní^uistiu-am pa-
mos com mais vagar cada um desses pontos. ra si. Em seguida, porém, com a elaboração
358 UlSTOKl V DDS INOIOS NO BKASU

de projetos tío\ernamentais de ocupação do No seu lugar, armas mais eficientes na defesa


sertão niato-grossense sob a coordenação da de seus interesses, desenvolvidas a partir da
Fundação Brasil Central, tiveram início ações observação cuidadosa e atenta dos modos do
mais agressi\as no sentido de sua "pacifica- "branco". Tem início uma fase de reivindica-
ção ". Da ótica go\ernamental, então como ho- ções e denúncias. O personagem mais marcan-
je, a abertura da região dependia da liberação te e que sintetiza o período é DzuruVã, o "Ju-
do território indígena piua o "progresso" e sua runa", como ficou conhecido entre os não-
conquista aos índios foi tentada por vários ca- Xavante. Portando um gravador, registrava as
minhos, que receberam farta cobertura da im- promessas e os discursos das autoridades res-
prensa. ponsáveis pela ação do governo junto às po-
A imagem que, nos anos 40 e 50, a impren- pulações indígenas. Chegou a deputado fede-
sa apresenta dos Xavante ressalta o heroísmo ral pelo Rio de Janeiro e foi, depois, engolido
dos que desbra\avam o sertão: as notícias mos- pelas artimanhas da política, que se encarre-
tra\am seK agens que flechavam os aviões que garam de abalar profundamente seu prestígio
sobrevoavam suas aldeias, num misto de beli- como liderança indígena no país.
cosidade, barbárie e ingenuidade. Se eram di- A projeção de Dzuru'rã e seu gravador foi
vulgados episódios em que os índios, heróica possível, em grande parte, pelo que vinha rea-
e dramaticamente, tentavam resistir aos avan- lizando, no período, o seu pov o. As notícias do
ços da sociedade nacional por sobre seu ter- início a meados da década de 70, relativas aos
ritório e seu destino, tais artigos pareciam Xavante do Mato Grosso, mostram sua atua-
cumprir a função de ressaltar ainda mais a di- ção decidida no enfrentamento das dificulda-
ficuldade e o mérito da proeza que vinha sen- des que impediam o processo de demarcação
do realizada pelos que se aventuravam a en- de suas reservas, sua disputa por terras com
frentar os índios em prol do desenvolvimento posseiros e com as grandes empresas agrope-
do país. Nessa época, H. Baldus (1954) escre- cuárias. Eram empresas incentivadas e subsi-
ve o seu "É belicoso o Xavante?", um peque- diadas pelo governo federal responsável pelo
no artigo que recoloca a tão propalada "agres- "milagre" económico cujas conseqiiências o
sividade" dos Xavante em termos de uma ati- país e o mundo presenciam hoje.
tude de defesa, própria de uma população, ela Naquela época, as notícias faziam pensar
sim, agredida. nos Xavante como índios "conscientes", reivin-
A de meados da década de 40 che-
partir dicadores, sabedores do valor de seu próprio
gam às cidades informações sobre as primei- universo cultural e dispostos a defendè-lo; co-
ras "vitórias", em que se haviam empenhado nhecedores de seus direitos e prontos a pre-
agentes federais, grupos particulares de "neo- servá-los ou recuperá-los. As atitudes dos Xa-
bandeirantes" paulistas e missionários. A ren- vante chegavam a sugerir um padrão alterna-
dição de uma primeira aldeia, à margem do tivo de relacionamento entre povos indígenas
rio das Mortes, é celebrada como a "pacifica- e a sociedade nacional. Sugeriam tiunbém no-
ção dos Xavante": a região estava aberta, afi- vas perspectivas para a própria política indi-
nal, à colonização e ao "progresso"; os selva- genista na medida em que prov aviuii a possi-
gens destemidos, afinal, amansados. Abre-se bilidade de uma minoria fazer-se ouvir.
o campo de batalha: a década de 50 divulga Nessa altura, e não por acasa entra em ce-
notícias das expedições punitivas, dos massa- na um artifício decisivo piu-a a história poste-

de território, das epi-


cres, das transferências rior dos Xavante: aquele que torna o seu c;iso
demias que dizimaram mais da metade da po- exemplar dessa fase da política indigenista bra-
pulação xavante, segundo as estimativas pos- sileira, que Ciila sua v oz e abala de nuxio dnís-

síveis. Nos anos 60, cala-se a imprensa. Os tico a possibilidade de os Xiivante conduzirem
Xavante deixam de ser notícia. De seu lado, seu próprio destino. Em 1977, a Fundação Na-
os índios tentam sobreviver, buscando modos cional do Índios (Funai) elabora e inicia a im-

de se reorganizar na nova ordem, acomodan- plantação do "Plano de Desenvolvimento da


do-se, como se fosse possível, na perplexida- Nação Xavante" ou "Projeto Xavimte". nome
de da perda da autonomia. simplificado pelo quiú ficou conhecido.
Voltam às manchetes nos anos 70. Não mais Coordenado por um bacharel em ciènci;is
com as flechas e bordunas atiradas aos av iões. sociais que se apresentava aos índios ct>mo
DOIS SÉCULOS E MEIO DE HISTÓRIA XAVANTE 359

"antropólogo" (cargo criado na Funai sem exi-

gência de formação académica e profissional


correspondente), o projeto implicava a aplica-
ção de quantias vultosas para a finalidade pu-
blicamente declarada de dar aos índios auto-
nomia económica e garantir sua "autodeter-
minação", palavra de ordem do movimento
indígena que apenas se esboçava no país e do
movimento social que se desenvolvia nas ci-
dades em apoio aos direitos constitucionais
dos índios. Primeiro deputado
empreendimento combinava federal índio no
Na prática, o
Brasil, Mário
duas tendências dominantes da política indi- Dzuru'rà,
genista nacional no período: de um lado, a popularmente
preocupação desenvolvimentista, que queria conhecido por
Juruna, discursa
ver na Funai a coordenação de empresas ren- em um plenário
táveis, nas quais deveriam se transformar as re- vazio. Sua voz,

servas indígenas; de outro, a manipulação po- no entanto, fez-se


ouvir para além
lítica dos grupos indígenas, mediante o jogo
do Congresso
entre suas necessidades de sobrevivência, sua Nacional, como a
informação muitas vezes insuficiente sobre a de um personagem
que expressava a
sociedade, o governo e a economia nacionais vitalidade do
e os recursos financeiros e humanos que, de movimento
direito, lhes caberiam de qualquer modo. indígena, em
articulação no país
O resultado desse processo foi exatamente desde fins da
o inverso do prometido aos índios: aumento década de 70.
360 IIISTOKK nos INOIOS NO BHVSIl

Página seguinte. nuiito signiticatiNO do grau de dependência uma análise preliminar em Lopes da Silva
em cima:
Vista aérea de
dos XuNunte em relação ao governo federal, (1984).
1945 da aldeia de abandoi\o e falta de assistência, abalo de cer- O conjunto dos dados disponíveis nem sem-
rio das Mortes, que tos aspectos da \ ida tradicional que represen- pre mostra comtransparência as conexões en-
se renderia ao
contato no ano
ta\am autonomia económica e política, acir- tre os blocos de informação contidos em cada
seguinte. ramento das cisões internas, fragmentação das obra, não sendo sempre visível sua continui-
Construída em unidades políticas. dade exata em termos cronológicos. Tentar
região de cerrado,
a aldeia em
No quadro da política
nacional da segunda analisar as informações disponíveis no conjun-
semicírculo abre-se metade da década de 80, enquanto o movi- to dos trabalhos pertinentes (publicados ou
em direção à mata mento dos índios por seus direitos crescia a não) e explicitar a ordenação histórica entre
que acompanha as
margens dos todo \apor no país e começavam a surgir or- osmovimentos no tempo e no espaço que per-
córregos e rios. As ganizações propriamente indígenas no Brasil, mitam compreender a história dos Xavante,
casas abrigam os Xaxante \ ão desaparecendo desse cenário. tanto quanto possível em termos globais, é um
famílias extensas,
cujo tamanho pode A época da Assembleia Nacional Constituin- dos objetivos deste ensaio. Trata-se, assim, da
variar, te (1988-9), o lugar antes ocupado pelos Xa- elaboração de um guia para pesquisas futuras
aproximadamente, vante passa a ser identificado com outros gru- sistematizando informações contidas em uma
entre seis e dez
pessoas. pos.Hábeis na condução de suas relações po- bibliografia já bastante extensa e, na maior par-
com os brancos, os Xavante parecem ter
líticas tedos casos, pouco acessível, já que constitm'-
Embaixo:
perdido um round precioso com a aceitação da por trabalhos académicos não publicados.
Visão aérea da
aldeia Xavante do das roças mecanizadas para a rizicultura co- Isso feito, o ensaio pretende também abrir ca-
rio das Mortes, mercial do "Projeto Xavante", com seus trato- minho para pesquisas que possam lançar mão
obtida em 1945,
res e caminhões, seu combustível, suas colhei- de abordagens e metodologias mais atuais co-
cerca de um ano
antes da tadeiras, seus adubos e inseticidas, seus téc- mo, entre outras, as que buscam captar o lu-
"pacificação". nicos agrícolas, suas toyotas, pick-ups e toda gar da consciência histórica em sociedades
Observe-se a
essa parafernáliaque significou o "investimen- orais e de suas relações com as concepções mi-
reaçào dos
Xavante a este que to"do governo brasileiro nessa modalidade, di- tológicas de tempo e de universo.
terá sido, gamos, capitalista e "moderna" de dominação Vali-me extensamente de um texto funda-
provavelmente, um
de povos indígenas. mental: A experiência Xavante com o mundo
dos primeiros
sobrevoes rasantes dos brancos, de Osvvaldo Miirtins Ravagnani
de sua aldeia: FONTES BIBUOGRÁFICAS PARA (1977). Trata-se de um dos raros trabalhos aca-
homens atirando O CONHECIMENTO DA HISTÓRIA XAVANTE démicos voltados especificamente para a re-
flechas e bordunas
ao avião, num Dentre as publicações sobre os Xavante, não constituição da história do contato xavante e
de
pátio vazio há livros dedicados especificamente à histó- que se baseia em pesquisa de documentos de
mulheres e
crianças. Notam-se
ria. O tema é tratado como introdução às mo- época (mas não em história oral). Cobre o pe-
ainda os celeiros nografias consagradas ao estudo de sua socie- ríodo que transcorre entre os primeiros regis-
de grãos ao ar dade e cultura (Maybury-Lewis, 1967; Giac- tros escritos (século WIII) e a "paciticação"
livre, longe do

perigo dos
caria e Heide, 1972; Lopes da Silva, 1986) que pelo Serviço de Proteção aos índios (SPI). em
incêndios, cobrem, com maior detalhamento, períodos e 1946, e possibilita a compreensão das articu-
relativamente espaços um tanto diversos da história e dos lações entre o contexto político-econòmico dos
comuns nos
subgrupos xavante. Para os séculos XVIII e XIX, séculos XVIII e XIX no Brasil Central e as
períodos de seca,
nas aldeias o livro de Chaim (1983) sobre os aldeamentos orientações adotadas pela política indigenista
tradicionais: cestas oficiais em Goiás entre 1749 e 1811 é referên- oficial.
cobertas com
cia obrigatória, ainda que tome, na narrativa, Parte muito significativa dos dados e análi-
esteiras côncavas,
suspensas em a perspectiva dominante. A década de 70 des- ses relativos à história dos Xiivunte não está pu-
estacas, à frente te século é o objeto de um artigo de Menezes blicada: encontra-se em teses e dissertações
das casas,
evidência da
(1982), que examina o impacto da política de- académicas. De interesse m;us diretiunente li-

agricultura que já senvolvimentista e colonizadora do leste mato- gado ao tema da história há os trabalhos de
praticavam antes grossense sobre a estrutura regional e sobre Cláudia Menezes (1985) e de Marta Maria Lo-
do contato, que
aquela sociedade indígena. Na mesma direção, pes (1988). Menezes tem por objetiw a com-
a tornar-se
viria
cada vez mais vital Shelton H. Davis (1978:143-51) dedica alginnas preensão dos objetivos e pn.>cessos da açào
após a páginas a episódios da história recente do con- missionária junto a uma sociedade indigtMia.
sedentarização dos
tato envolvendo os Xavante. Relações entre mi- Para o caso de São Marcos, a autora demons-
grupos locais.
to e história na cultura xavante são o tema de tra como "a ideologia religiosa tem tido como
DOIS SÉCULOS E MEIO DE HISTÓRIA X.WANTE 361

função preparar o caminho para as mudanças


económicas" (1985:363). O trabalho contém
dados muito precisos sobre as inovações tra-
zidas, a partir de 1977, com a introdução da
rizicultura mecanizada em São Marcos. Lopes
(1988:2-3) tem por objetivo "mostrar como as
diretrizes económicas adotadas a partir de
1964 determinaram a política indigenista im-
plantada pela Funai". Para fazê-lo, toma o ca-
so Xavante como exemplar e o analisa sob dois
aspectos: o processo de demarcação de suas
terras e o "enquadramento deste grupo no mo-
delo de crescimento económico" por meio da
análise do Plano de Desenvolvimento da Na-
ção Xavante.
Diana Cléa Garcia da Motta (1979) elabo-
rou um texto que, embora constituído por um
discuríJo profundamente ideológico, identifi- As teses de Regina Miiller (1976) e Laura
cado acriticamente com a política indigenista Graham (1983 e 1990) trazem dados históri-
oficial que prega a inexorabilidade da "inte- cos nas respectivas "Introduções", considera-
gração" dos povos indígenas à sociedade na- dos complementares aos temas centrais de
cional, trazalgumas informações de detalhe seus trabalhos, que são de outra natureza (or-
sobre a condução do processo de atração dos namentação cor^joral e comunicação visuiil no
Xavante pelo sertanista Francisco Meireles na primeiro caso, discurso e análise lingiiística
década de 40 deste século (1979:139-55). contextualizada social, histórica e culturalinen-
3t^i: lllSTOKU IX>S índios NO BKASll.

te,nos outros dois). O trabiilho mais recente que buscavam capturar índios para po%oar suas
de Griíham interessa à pesquisa histórica por missões (Ravagnani, 1977:1).
trazer as informações mais atualizadas de que Ao final do século XVII, já haviam sido des-
ÍOTA'^N se dispõe sobre a situação presente dos Xiivan- cobertas pequenas quantidades de ouro de
->> te, inclusixe sobre as recentes transformações aluvião na região dos rios Tocantins e Araguaia
económicas e políticas. (idem). Para os Xavante, inicia-se uma histó-
O trabiilho mais recentemente apresenta- documentada, de fugas e submissões, mar-
ria,

do sobre os Xa\ante é a dissertação de Sérgio cada pela condição de transitoriedade em re-


Medeiros (1990), que contém uma análise dos lação aos territórios habitados. Deslocamen-
mitos e sonhos narrados a missionários sale- tos pela presença sempre mais
impostos
siiuios por Jerónimo Xii\ iuite feita de uma pers- próxima de colonizadores brancos marcaram
pectiva literária. Não traz, no entanto, infor- todo o período entre meados do século X\7II
"y^ mações atualizadas sobre a situação do gru- e meados do XX.
*v po. Sua contribuição se dá na interpretação da
\ isão xavante sobre as origens, as transforma-
O OURO E AS FUGAS
ções e os "brancos" tal como expressa nas nar- Com a descoberta de jazidas significativas em
rati\as que analisou. 1722, a mineração do ouro em Goiás marcou
Como se vê, o conhecimento acumulado a economia regional durante todo o século
até o momento deixa ainda amplo espaço pa- XVIII e propiciou o po\oamento e a prolifera-
ra pesquisas documentais bem como para in- ção de arraiais. A partir de 1725, muitas mi-
vestigações que busquem o registro oral e a nas foram descobertas em várias parcelas do
interpretação da vivência histórica pelos pró- território, inclusive nas regiões \Tzinlias aos
prios Xa\ante. Tais pesquisas são, também, se- rios Araguaia e Tocantins. Intensificam-se as
gundo minha avaliação, apreciadas e valoriza- bandeiras para a região central do país, me-
das por uma parcela significativa da popula- nos interessadas no apresamento de índios que
ção xavante de nossos dias. na procura de metais nobres e pedras precio-
sas, com grande deslocamento de populações
NO TEMPO DO ANTIGO": do Nordeste do país e de São Paulo. Os ata-
OS XAVANTE EM GOIÁS ques aos índios visavam a desimpedir os ca-
Segundo a tradição oral dos Xavante, seus pri- minhos de acesso às minas; seu aniquilamen-
meiros contatos com não-índios ocorreram em to ou expulsão significava, para os não-índios.
terras situadas "junto ao mar". Antes que se a liberação de novas áreas para a procura do
faça um levantamento específico sobre a his- ouro.
tória tal como registrada pelos próprios Xavan- Do período entre 1720 e 1740, diz Riivag-
te é,porém, difícil indicar com alguma preci- nani (1977:11): "os documentos são lacónicos
são a época e o local onde isso teria aconteci- quanto a atritos com os índios [...]. Pode-se su-
do. As informações disponíveis já sistemati- por que a afluência da grande população te-
camente coletadas são as da documentação de ria feito recuar as tribos". Dessa época não há

época. nenhuma referência aos Xaxunte na documen-


Os que mencionam
registros mais antigos tação conhecida, embora seu território tenha
os Xavante datam da segunda metade do sé- sido percorrido de ponta a ponta peUis ban-
culo XMII e situam-nos na então província de deiras: ocupa\am, entãa "a bacia do Ttx\u\tins,
Goiás, no Brasil Central. Essa região, a partir desde o sul de Goiás até o M;u-anhãa esten-
do fim do século XVI e durante todo o XVII, dendo-se do rio São Francisco ao Anigiuiia"
havia sido percorrida por entradas e bandei- (Ribeircx 1977:65). Ao que tudo indica, sua rea-
ras.Um primeiro momento, marcado por gian- ção foi bater em retirada ^^Ma^bur\-Le\vis,
de violência, corresponde à presença de ex- 1965:349).
pedições que \ isavam ao apresamento dos ín- A primeira notícia que fontes documentais
dios. Os capturados eram encaminhados para trazem da existência dos \a\ante esta em
os garimpos do estado de Minas Gerais e para mapa elaborado por Fnmcisco Tossi Colom-
a colonização do litoral do país no Rio, Bahia, bina, datado de 6 de abril de 1751 i^Cliaim,

Pernambuco e São Paulo. Nesse período, \ in- 1983:39-42), cjue assinala o "Sertão do (.í<mi-

dos do Pará, chegavam a Goiás missionários tio Xa\ante" como estando KH\ili/.;ido a leste
DOIS SÉCULOS E MEIO DE HISTÓRIA XAVANTE 363

e nordeste da ilha do Bananal ( denominada legislação pombalina, consulte-se Chaim,


no mapa "Ilha do Gentio Curumari"), na re- 1983:75-95; Carneiro da Cunha, 1987:58-63;
gião compreendida entre a margem direita do e os trabalhos de Perrone e Karasch, neste vo-
Araguaia e a margem esquerda do rio To- lume). O resultado mais importante dessa no-
cantins. va política para a região, do ponto de vista dos
Durante sua gestão (iniciada em 1749) co- colonizadores, foi a liberação do rio Araguaia
mo primeiro governador da nova capitania de à navegação. Para os povos indígenas, essa fa-
Goiás (desmembrada de São Paulo em 1735), se significou abrir mão de seus domínios e
d. Marcos de Noronha recebe, por intermé- render-se a amargas experiências de vida nos
dio de missionários, "notícias das hostilidades aldeamentos oficiais.

a que viviam sujeitas as povoações vizinhas do A mudança de orientação no tratamento


Tocantins, situadas na direção do habitat des- dos índios explica-se pela necessidade do de-
se silvícola (Xavante)" (Chaim, 1983:60). Em senvolvimento da agricultura, da pecuária e do
represália, são contratados, com fundos arre- comércio, ou da diversificação das ativi-
seja,

cadados entre os moradores do lugar, os ser- dades económicas em função do declínio da


viços de "sertanistas" (idem). produtividade das minas. Entre 1740 e 1750,
A terceira notícia conhecida data de 1762, os aldeamentos eram, em realidade, prisões in-
em carta do governador da província de Goiás, dígenas, para onde eram conduzidos os sobre-
d.João Manoel de Mello, que escreve de Vila viventes dos ataques dos bandeirantes (Ravag-
Boa de Goiás em 29 de dezembro daquele ano nani, 1977:39). Sua administração obedecia a
(Ravagnani, 1977:14-5; Chaim, 1983:60-1). um regime extremamente rígido, posto em
Localiza-os nas vizinhanças de Crixás e Tesou- prática pela presença de uma escolta militar
ras, na parte meridional de Goiás, entre os rios e um padre jesuíta.
Araguaia e Tocantins (Chaim, 1983:50), e re- A partir de 1774, a política dos aldeamen-
lata reação agressiva dos Xavante diante da in- tos atingiu milhares de índios Javaé, Karajá,
trusão de seu território (Chaim, 1983:90-1): ha- Acroá, Xacriabá, Kayapó e, finalmente, os Xa-
viam atacado vários arraiais em setembro do vante (Ravagnani, 1977:36 ss. e 1987; Chaim,
mesmo ano. A reação foi a organização de uma 1983:99-152). Nesse período, suas primeiras
bandeira de quinhentos homens (Ravagnani, notícias nos são dadas por Alencastre. Datam
1977:14-5). de 1775, quando foi fundado o aldeamento São
Nimuendaju (1942:6) menciona a fundação José de Mossâmedes, onde viveram Acroá, Ja-
de Pontal em 1738, em pleno território Acuen vaé, Carijó e, em menor número, Xavante.
(Xavante e Xerente), nos arredores da qual Localizava-se nas proximidades de Vila Boa,
encontravam-se as minas de Matanças, "cujos então sede da província (Souza, 1953:6-8;
habitantes foram quatro vezes destruídos pe- Chaim 1983:99). Ao norte, estava Pedro III, al-
los Xavante". Não indica, porém, datas preci- deamento que concentrou o número talvez
sas. O que se pode afirmar com certeza é a mais significativo de índios e que estava situa-
existência de vários outros ataques dos Xavante do no local conhecido como Carretão. Ali fo-
a partir de 1762. Em represália, foram organi- ram instalados, em 1788, os cerca de 2 mil Xa-
zadas pela população bandeiras de caça aos vante (referidos pelos cronistas como "de
Xavante (Chaim, 1983:61), com dupla finalida- Quá") após conflitos que culminaram na pri-
de: eram, ao mesmo tempo, punitivas e explo- são de alguns índios. Estes, levados à sede da
ratórias. Buscava-se desesperadamente desco- província, ouviram do governador proposta de
brir novas minas: a produção do ouro, em paz. Aceitaram-na, em troca de subsistência
Goiás, já entrava em declínio. garantida no Carretão. No mesmo ano, uma
epidemia de sarampo causa cento e tantas
ALDEAMENTOS OFICIAIS GOIANOS mortes (Freire, 1790).
A década de 1770 caracterizou-se pela orga- A esperança da economia regional assen-
nização de várias bandeiras, promovi-
oficial tava-se na possibilidade de comércio entre o
das pelo governo da província, com a finalida- Norte (Pará e Maranhão) e o Sul do país por
de da descoberta de novas jazidas e, de acor- meio dos dois rios (Ravagnani, 1977:66-75). A
do com as instruções do marquês de Pombal, sedentarização dos índios faria dos aldeamen-
da redução e pacificação dos índios (sobre a tos pousadas bem supridas para os navegan-
364 iiisixnuv nos ixnuvs \t) iíkvsii

tt\s que ta/.iaiu comércio e fornecciiani nião- económicos, políticos e demográlicos explicam
ile-ohra (renieiros e batedores) aos viajantes. essa verdadeira rebelião dos Xa\ ante fi^ente ao
\ curta estada dos Xavante nos aldeamentos convívio com os não-índios. Havia, na época,
e\plica-se pelo fato de entrarem "para o con- uma certa especialização regional das ativida-
io pacítico com o mundo dos brancos no
\ í\ des económicas, com uma maior concentra-
momento em que estes estão com sua econo- ção agrícola às margens do Araguaia e pecuá-
mia em pleno declínio" (idem:72). Há, em de- ria no Tocantins. Essa última atividade propi-
corrência da queda drástica da produção au- ciou a dispersão da população não-índia em
rífera, imia retração em termos demográficos vasta área de territórios indígenas. Conflitos
e o abandono completo de muitos iuraiais por eram inevitáveis entre os índios ex-aldeados,
seus habitantes (Chaim, 1983: 27). refugiados em territórios não totalmente con-
Outros aldeamentos onde a presença dos trolados pelos brancos, e os não-índios, entre-
Xa\ante foi documentada são os de Estiva, Sa- gues a atividades de comércio e agropecuária
linas/Boa \'ista e São Joaquim do Jamimbu, de que reuniam poucas famílias a enormes dis-
onde foram transferidos Xavante e Karajá pa- tâncias umas das outras.Com o declínio da mi-
ra São José do Araguaia. Há divergências quan- neração, houve uma diminuição drástica da
to à presença dos Xavante em Thereza Chris- população de Goiás, o que, dada a extensão do
tina/Piabanha: Nimuendaju (1942:6) aíirma es- território, a tornou rarefeita, mesmo nos ar-
tarem ali apenas os Xerente; outros autores, raiais, cuja população numericamente insigni-
inclusi\e cronistas como Taggia (ou Tuggia), ficante tornava-se alvo fácil (Ravagnani,
referem-se aos Xavante como estando entre os 1977:88 ss.).

moradores do lugar. A legislação veio em apoio aos não-índios:


A situação de abandono em que se encon- Carta Régia de setembro de 1811 autorizou a
travam os aldeamentos no início do século XIX guerra contra os Xavante, Karajá, Apina>"é e
pode, ainda que pelos preconceitos do cronis- Canoeiros. A "guerra ofensi\a" por bandeiras
ta, ser atestada pelas impressões de Cunha organizadas por particulares com incenti\o e
Mattos, que os visitou no Carretão em 1823 favores do governo (concessão de terras e ser-
(apud Souza, 1953:10): vos indígenas) era incentivada (Ra\agnani.
"Os índios que aqui habitam montam a 200, 1977:90). No contexto dessa política de agres-
em lugar dos 5000 que já estiveram neste lu- são aos povos indígenas, foi fundado o presí-
gar. Tem um capitão-mor indígena e quase to- dio de Santa Maria do Araguaia, cujo objetixo
dos os seus súditos pertencem à nação xavan- era colocar em isolamento índios Xa\"ante e
te e mui poucos caiapós [...]. Estes índios são Xerente. A resposta foi um ataque ao presidia
pacíficos, falam mal o português, são batiza- realizado no ano seguinte por uma coligação
dos, preguiçosos, embriagados e por hora inú- formada por Xavante, Xerente e Karajá, que o
teis a todo mundo". destruiu completamente.
Nem todos os Xavante aldearam-se, porém. As notícias seguintes indiciun que, após esse
Alguns grupos mantiveram-se arredios, e a eles período, os Xavante recuaram para o norte mas
foram juntar-se remanescentes dos aldeamen- foram barrados pelos Kraliò. O Mapa Etno-
tos (especialmente os do Carretão), a partir de Histórico de Nimuendaju indica sua presen-
1830-40, fugindo de maus-tratos e trabalhos ça junto a grupos Timbira (Kniiiò e Kanakate-
forçados, epidemias e completo abandono. Em yé), à margem direita do Tocantins, entre os
1842, os Xavante atacavam o norte da provín- rios Farinha e Manuel .\K es Grande, em 1S14.
cia e os ataques continuaram até o final do sé- Neste ano são expulsos (Ra\^ign;uii. 1977:91 ss.)

culo XIX. para o sul. Tudo indica que tenha ha\ ido uma
cisão interna aos Xa\ ante, já que, apenas qua-
CONFUTOS EXTERNOS, CISÕES INTERNAS: tro anos antes, uma facção procurara o go\ er-
CONQUIST\S E MIGRAÇÕES nador, pedindo para ser ;ildeada. As cisões te-
RUMO AO ISOLAMENTO riam ocorrido pora\ iiliações div ersas quanto

Ao longo do século XIX reiniciam-se, como \ i- à aceitação ou recusa do con\í\io com os


mos, os conflitos armados; ocorrem cisões in- "brancos": "Uma vez experimentado o cim\-
ternas aos grupos xavante; tem lugar a tra\'es- \ í\ io com os colonizadores, as opiniões dewTU
sia do rio Araguaia pelos índios áuwc. Fatores ter se polarizado" ^^l\a\agnani. 1977:105V
DOIS SÉCULOS E MEIO DE HISTÓRIA XAVANTE 365

Calcula-se que por volta de 1820 tenha tenha sido extinto, já que não há mais referên-
ocorrido a separação não violenta dos povos cia a eles nosdocumentos da época. Em seu
hoje conhecidos como "Xavante" e "Xerente". Mapa Nimuendaju localiza os
Etno-Histórico,
Maybury-Lewis (1967:2) estabelece uma data Xavante a leste do Araguaia até 1844, mas em
pouco posterior: "Ao que tudo indica, a sepa- 1862 já aparecem notícias de sua presença no
ração entre os dois ramos dos Auwe ocorreu leste mato-grossense. Para os Xavante atuais,

na década de 1840". Não se sabe, ao certo, se o episódio dos botos ocorreu em O Wawe, ter-

se tratava, à altura do início do século passa- mo comum com que designam tanto o Ara-
do, de um único povo ou se tinham identida- guaia quanto o rio das Mortes, ocasionando a
des próprias mas territórios contíguos ou mes- separação entre os Xavante e os Xerente, até
mo comuns, além de profundas semelhanças então um só povo (Lopes da Silva, 1984; Lo-
lingiiísticas e culturais e um grau significativo comunicações pessoais
pes, 1988:37, nota 21;
de inter-relações, visitas recíprocas e alianças de Orestes Abtsiré, 1991, Gustavo Pariõwa,
guerreiras contra inimigos comuns. Os Xeren- 1991 e Mário Dzuru'rã, 1978, entre outros).
te, hoje, ocupam a margem do rio To-
direita
AFINAL, LIBERDADE E PAZ
cantins, no estado de mesmo nome. Sua his-
(AINDA QUE RELATIVAS):
tória de contato contínuo tem mais de duzen-
tos anos.
OS XAVANTE NA SERRA DO RONCADOR
Os Xavante constituíam o grupo que rejei- Na região leste do atual estado do Mato Gros-
tara o convívio com os brancos e que parece so (na época ainda pertencente administrati-
ter sofrido nova cisão interna: um grupo mais vamente a Goiás) inicia-se para os Xavante sua
"ortodoxo" (Ravagnani, 1977:132) ter-se-ia des- história contemporânea. Durante as primeiras
ligado de outros que acatavam o contato e se décadas deste século, foram pouco molestados
dirigido à região do rio das Mortes, atraves- por não-índios, já que os interesses capitalis-
No percurso, esse grupo ter-se-ia cho-
sando-o. tas estavam concentrados na exploração do

cado com os Karajá. De fato, em 1844 é noti- mate na fronteira com o Paraguai, da borra-
ciada a presença dos Xavante na ilha do Ba- cha no vale do Guaporé e nas atividades de
nanal. A região que passaram a ocupar é pecuária no Pantanal (Lopes, 1988:31).
mencionada na bibliografia (Chaim, 1983:49) O grupo que atravessa o Araguaia é um
como tendo sido habitat dos índios Araé que, aglomerado de pequenas facções unidas mo-
no século XVIII, "habitavam as proximidades mentaneamente para aumentar as chances
do rio das Mortes". Não há, porém, menção de conquista do novo território (Ravagnani,
à sua presença na região quando da chegada 1977:132). Concentra-se na região do rio das
dos Xavante. Mortes onde, sem perder a unidade, vive su-
Seu líder era Butsé, de acordo com narra- cessivamente em três localidades, provavel-
tivas orais dos Xavante registradas por missio- mente nos primeiros dez ou quinze anos des-
nários salesianos: haviam fundado uma aldeia te século,"onde fizeram aldeias" (comunica-
às margens do rio Araguaia, já afastando-se dos ção pessoal de Gustavo Pariõwá Waaihõ, 1991,
brancos. Dada a insistência destes em forçar em cujas informações baseia-se esta descrição
a aproximação, os índios resolveram atraves- do percurso inicial dos Xavante na região da
sar o rio e fundar nova aldeia, próxima ao rio serra do Roncador). A primeira é conhecida
Cristalino. Tempos depois, um acampamento como Etetsiwató ("Pedra Distante"), onde foi
de "brancos" é encontrado e sua presença é estabelecida uma aldeia constituída exclusiva-
interpretada como possibilidade de ataque mente por Xavante e em número muito gran-
iminente. Aproveitando as noites chuvosas da de. A medida do tamanho não usual dessa al-
estação, os Auwe fogem e atingem o rio das deia é dada pela área (jue ocupava: correspon-
Mortes. Ali, no meio da travessia, a chegada dia ao espaço compreendido entre as cabe-
de botos assusta-os e os impede de cruzar o ceirasde dois rios. Situava-se rio abaixo em re-
rio (Ciaccaria e Heide, 1972:23); numa outra lação a Pimentel Barbosa (veja abaixo, ".\c()-
interpretação, Maybury-Lewis afirma que tal modação incómoda: os anos 60"), na cabeceira
divisão teria ocorrido durante a travessia do do Oprabaõ'á ("Agua Limpa"), conhecido pe-
Araguaia. Comunicação pessoal de Ravagna- los regionais como ribeirão .\gua Branca. E "lá
ni (1977:132) sugere que o grupo a leste do rio que começaram a briga. Mataram feiticeirt)
3bb IIISTOKIA IX)S INOK)S NO BKVSll

e todo niiiiuio mudou para fazer outra aldeia". do clã Õ Wawe e outro, do clã Poredzaono, que
Partiram rio aciuia,acompanhando a margem combinavam como iam fazer; depois, combi-
do rio das Mortes, até chegarem ao local que navam só com os velhos e todo mundo já ia
denominaram Duaaró ("Capim da Beirada do decidindo igual": uma imagem da harmonia
Nhito"), junto a uma área inundável no tempo que parece ser a característica mais forte com
das chuvas, que se chama Buru'rã, na região que os Xavante atuais descrevem a maior par-
do rio llõpiVirpâ ("Concha de Caramujo"). te do período vivido ali. Doenças e acusações
Nessa iildeia 'não brigaram" e "fizeram festa de feitiçaria parecem ter sido as causas que
wai'ara' (para descrição e análise desse ritual, levaram às cisões políticas responsáveis pela
veja-se Ma\bur\ -Lewis, 1967, Giaccaria e Hei- fragmentação do grupo original, pela forma-
de, 1972, e Múller, 1976). ção de novas iddeias com existência concomi-
Giaccaria e Heide (1972:37) referem-se à al- tante e pela ampliação do território ocupado.
deia de Wedeú como sendo a primeira a ser Isõrepré é a "aldeia-mãe", a mais antiga, si-

constituída na região (não mencionada, po-


foi tuada na região da serra do Roncador/rio das
rém, no depoimento de Gustavo Pariõwa). Se- Mortes. Com base nos dados disponíveis, e
gimdo aqueles autores, em Wede'ú todos os ve- provisoriamente, é possível datá-la como ten-
lhos ieram a falecer devido a epidemias, ra-
\ do existido desde fins do século passado até,
zão pela qual os Xavante abandonaram o local talvez, os anos finais da década de 20 deste sé-
e instalaram-se em um outro, Isõrepré, onde culo, ocupando sucessivamente sítios próxi-
viveram cerca de trinta anos. Segundo Gusta- mos, na mesma região. Dela partiram, em vá-
vo Pariõwá Waaihõ (comunicação pessoal, rios momentos, facções dissidentes que, for-

1991), Isõrepré ("Pedra Vermelha") é a deno- mando novas aldeias, cindindo-se por sua vez,
minação xavante para a serrado Roncador e migrando em direções diversas, voltando em
a aldeia ali construída "tinha dois chefes, um certos casos a reagrupar-se parcial ou comple-
DOIS SÉCULOS E MEIO DE IIISTÓKIA XAVANTE 367

tamente, expulsando e recebendo novos mem-


bros, constituíram novas unidades políticas e
territoriais, cujas relações com os não-índios
não apresentaram homogeneidade.
Como veremos no que se segue, esses mo-
vimentos são numerosos e rápidos; arranjos e
rearranjos políticos entre os próprios Xavante
e em seu relacionamento com os "brancos"
duram pouco, são quase efémeros em certos
casos, recompõem-se, reafírmam-se, tornam a
se cindir. O que se segue é uma tentativa ini-
cial de reconstituição da movimentação dos

Xavante no período que antecedeu ao conta-


to de 1946, a partir de uma pesquisa muito
As versões xavante da história dessa
preliminar.
época são certamente muitas e variadas e o
que se oferece aqui não corresponde a uma
interpretação única e consensual. Trata-se,
apenas, de um ponto de partida que permite
pos indígenas vizinhos, contra os quais os Xa- Fotos da época do
acompanhar a história xavante em seus aspec-
estabelecimento do
vante guerrearam na conquista e na defesa do
tos mais essenciais. contato definitivo
território: os Bororó, ao sul, e os Karajá, a
De Isõrepré parte uma facção, que funda (1946 e anos
nordeste. subsequentes) na
Eteraurã Wawe, mais a noroeste, provavel-
região do rio das
mente na região do rio Sete de Setembro. As CONVIVENDO COM EXPEDIÇÕES, Mortes, por meio
duas aldeias se enfrentam. Os dissidentes mu- de frente de
COLONIZAÇÃO E CATEQUESE: atração
dam-se mais para o na região hoje conhe-
sul, MEADOS DO SÉCULO XX comandada por
cida como Lagoa, às margens do rio Couto de Francisco
Magalhães (hoje. Área Indígena Parabubure). Já na década de 30 deste século, missionários Meirelles,
salesianos estabelecem uma base. Santa The- funcionário do SPI.
Fundam ali Wabdzerewapré, talvez durante o A atração fazia
rezinha, de onde partiam para insistentemen-
início da década de 30. Enquanto isso, nova ci- parte da política
te tentar a atração e a conversão dos Xavante
são ocorre em Isõrepré, de onde partem duas getulista da
(Duroure e Carletti, 1936). A essa insistência, "integração
facções: uma, que funda a aldeia de Arõbõni-
os A'uwe reagiram: a 1? de novembro de 1934 nacional" que
pó, na mesma região do rio das Mortes; outra, visava a
os padres Pedro Sacilotti e João Baptista Fuchs
a de Marãiwasede, na região do rio Suiá-Missu. colonização do
foram mortos pelos Xavante de Marãiwaseté, Brasil Central.
Tais movimentos parecem ter sido feitos em
na região do rio Suiá-Missu (Giaccaria e Hei-
liberdade, longe de pressões de colonizadores.
de, 1972:29). Mortos também foram todos os
Aliás, segundo Maybury-Lewis (1967:2), duran-
Xavante de uma aldeia (não identificada) em
te os últimos trinta anos do século passado os
1935, por uma expedição punitiva organizada
Xavante parecem não ter sido incomodados por Bento Costa como vingança pela morte de
com frequência, conseguindo o isolamento um menino de doze anos junto à colónia sale-
que procuravam na região do rio das Mortes siana do Meruri (Souza, 1953:22; Duroure e
e mesmo em outras (rios Sete de Setembro e Carletti, 1936:30-6). Dois anos depois e, de no-
Couto Magalhães). No Mato Grosso, defende- vo, em 1938, foram organizadas a "Bandeira
ram o território de colonizadores e intrusos: Anhangúera" e a "Bandeira Piratininga".
promoveram constantes ataques aos pioneiros Isso nos leva de volta à aldeia de Arõbõni-
e às expedições exploratórias ou "civilizató- pó, no rio das Mortes, então chefiada por Apõ-
rias" que penetraram em suas terras. Entre wê (que passou à história, entre os brancos, co-
aquelas, por exemplo, a comandada por frei mo "Apoena", personagem de relevo no livro
S. Taggia, em 1854 (Ravagnani, 1977:127); a de de Maybury-Lewis (1967) e nos da
registros
1887, chefiada pelo tenente-coronel António "pacificação"). F]m 1941, o Serviço de Prote-
Tupi Caldas (Ehrenreich apud Souza, 1953:17), ção ao índio (SPI) designa uma frente de atra-
ambas rechaçadas por conduta violenta dos ção, sob o comando de Genésio Pimentel Bar-
Xavante. O mesmo tratamento tiveram os gru- bosa. Seus componentes, penetrando de-
368 lHSTORI\ IX>S índios NO HUVSIl.

saruKulos no ttMiitório da aldeia, encontra- Xavante eram um empecilho ao sucesso des-


tam. todos, a morte, à exceção de uns poucos, sa empreitada. Dominá-los era, portanto, ta-

que se haviam momentaneamente afastado do refa imprescindível, e isso foi feito por uma in-
grupo. vestida que contou com amplos recursos. As
A no entanto, sentia, desde a déca-
região, aldeias eram localizadas por avióes cujos voos
da presença das frentes de expan-
anterior, a rasantes apavoravam os Xavante que, em vão,
são (pecuária e garimpo), \ indas do leste e do procuravam atingi-los com bordunas e flechas.
sul (Lopes, 1988:47). De acordo com a mes- O final da década de 30 encontra os Xavan-
ma fonte, na década de 40 a Expedição Ron- te "encurralados, sem possibilidades de novas
cador-Xingu inicia\ a a abertura dos primeiros migraçóes, cercados por criadores de gado,
caminhos. Posteriormente absorvida pela Fun- com o território invadido por todos os lados,
dação Brasil Central (FBC — criada pelo go- seus rios navegados por poderosas lanchas mo-
verno federal através do Decreto-Lei n?5878, torizadas, seus campos cortados por várias ex-
de 4/10/1943, cf Motta, 1979:138) instalava na pedições, as aldeias tomadas de surpresa e ata-
região um posto avançado: Xavantina. As ini- cadas com armas eficientes, suas casas vascu-
ciativas particulareseram escassas (idem) mas lhadas e roubadas, fazendas e povoados flores-
a ação do Estado foi suficiente para minar de- cendo em suas terras" (Ravagnani, 1977:162-3).
finitiv amente a capacidade de resistência dos O cenário estava pronto para a rendição.
Xavante de Arõbônipó. A colonização desse
território foi imia das frentes principais do pro- 1946:PRIMEIRA RENDIÇÃO
grama nacionalista de Getúlio, a Marcha para E SEUS DESDOBR.\MENTOS
o Oeste (Menezes, 1982:84). Na confluência do rio das Mortes com o Pin-
No futuro, a FBC viria a ser substituída pe- daíba, no local denominado São Domingos,
la criação da Superintendência do Plano de um primeiro contato com os Xavante de Arõ-
\'alorização da Amazónia, em 1953, cujos ob- bônipó foi estabelecido em 6 de junho de 1946
jetivos eram "o desenvolvimento da produção por frente de atração chefiada por Francisco
agrícola, recuperação de áreas inundáveis, pro- Meireles, instalada no "Posto de Atração dos
moção de pesquisas (geográficas, naturais, tec- Xavante" desde 1944. Este posto, depois de-
nológicas e sociais, entre outras). O Plano foi nominado "Posto Indígena de Atração Pimen-
parcialmente realizado" (Lopes, 1988:46 e 81). tel Barbosa", contava com infra-estrutura (que
Foto da época do
O objetivo da FBC, então presidida pelo mi- incluía áreas cultivadas e criação de gado) des-
estabelecimento do
contato definitivo
nistro João Alberto Lins de Barros, era a con- tinada à manutenção da equipe e dos índios
(1946 e anos quista do sertão mato-grossense através da se- que seriam Todo o processo de atra-
atraídos.
subsequentes) na nómade de
dentarização da população colo- ção fora orientado pessoalmente por Rondou,
região do rio das
Mortes. nizadores e da atração de novos habitantes. Os à testa do Conselho Nacional de Proteção aos
índios (para uma descrição detalhada do pro-
cesso e um elogio da atuação de Meireles, veja-
se Motta, 1979:139-55).
No ano seguinte, nov o contato amistoso toi
obtido, mas, durante todo esse tempcx mora-
dores da região ou de suas fronteiras foram ata-
cados pelos Xav ante e, no períoda as relações
dos índios com a equipe do posto de atração
também não foram sempre amistos;is (Motta,
1979:146-8). Em 1949, eles já visitavam o pos-
to mas continuav am a atacar São Félix e arre-
dores. Alg\un tempo depoi.s, v isitav^un cas;u> de

moradores sertanejos, pegavum o que queri;un


e deixavam, em troca, arcos e flechas ^^ct. Ra-
vagnani. 179-85). Em
segmido Mavlnuy-
1953,
Levvis (1967:5), "concordaram em mudar sua
aldeia para um local tão próximo de São Do-
mingos íjuo se podia ir a pe". Os Xavante de
DOIS SÉCULOS E MEIO DE HISTÓRIA XAVANTi; 369

Arõbõnipó permanecem até hoje nessa mes- lonizadores locais (Maybury-Lewis, 1967:18;
ma região. Giaccaria e Heide, 1972:26).
A "pacificação" dos Xavante consta na his- Se, no caso do primeiro momento desse
tória oficialdo indigenismo de Estado como processo, 1946, os Xavante mostravam-se ar-
fato único, ocorrido em 1946, em São Domin- redios e resistentes ao contato — a ponto de
gos. Na verdade, outras regiões do Mato Grosso ser montada uma infra-estrutura complexa e
estavam povoadas pelos Auwe desde o início destacadas várias equipes especialmente pa-
dos anos 30 e seu processo de estabelecimento ra vencê-los — , dez anos depois a situação se
de relações permanentes com os brancos tem invertia: as pressões sobre seu território e suas
outros momentos relevantes. Segundo depoi- aldeias haviam aumentado tanto que, sentindo-
mentos dos índios a Odenir Pinto de Oliveira se vencidos pelas conseqiiências do contato in-

(comunicação pessoal a Marta Maria Lopes, direto que os dizimava, não viram alternativa
1982), o grupo que atravessou o Araguaia, a não ser a procura deliberada do convívio pa-
negando-se ao contato, subdividiu-se: cífico com os brancos.
"Um grupo permaneceu naquela região de
INTENSA MOVIMENTAÇÃO:
São Domingos [...], um grupo seguiu direto pa-
FACCIOSISMO, MIGRAÇÕES E
ra o rio Batovi; o terceiro grupo, que seguiu
DIVERGÊNCIAS
para a região do [rio] Couto de Magalhães e
FRENTE AO CONTATO
[do rio] Kuluene foi posteriormente subdivi-
dido: parte foi para as missões, descendo em Nos anos 50, a abertura das primeiras estra-
direção ao sul, e parte foi mais para oeste, pa- das pelo governo federal faz crescer a presen-
ra a região de Simões Lopes [hoje Posto Indí- ça de posseiros e fazendeiros no leste do Ma-
gena Bakairi]". to Grosso. O território era considerado vazio
Tal subdivisão foi a estratégia elaborada pe- económico e demográfico e não havia uma ava-
los Xavante em vista dos ataques que vinham liação precisa de seu potencial mineral e agrí-
sofrendo de não-índios e da contaminação por cola mas o Estado se preocupava com a "anti-
gripe e sarampo que vinha agora se fazendo ga cobiça internacional pela Amazónia" (Lo-
por meio de roupas e brindes lançados de pes, 1988:47). Nesse "vazio" movimentavam-se
Francisco
avião em suas aldeias na região de Parabubu- já bastante intensamente os grupos Xavante. Meirelles, chefe da
re (rios Kuluene e Couto Magalhães). Tal sub- Sua subdivisão em três frentes reflete, cer- frente de atração
mesmo tempo, provavelmente,
divisão era, ao tamente, o facciosismo interno às aldeias. A so- responsável pelo
estabelecimento,
uma retomada do modo de vida anterior às ciedade xavante caracteriza-se por um inten-
em 1946, de
pressões do contato. O agrupamento maior, so dinamismo de
político vivenciado através relações pacíficas
disputas e alianças entre facções que têm por entre os Xavante e
que caracterizou o período das migrações des-
representantes da
de Goiás na história dos Xavante é que, segun- núcleo uma linhagem ou uma associação de sociedade
do Maybury-Lewis (comunicação pessoal), te- linhagens aparentadas. Trata-se de uma socie- nacional.
ria sido uma exceção. Divididos em vários sub-
grupos procurariam entrar em contato pacífico
com buscando "aprender os cos-
os brancos,
tumes, a língua e, principalmente, conhecer os
remédios que os brancos usavam para aquele
tipo de doença para o qual não tinham defe-
sa" (Oliveira, comunicação pessoal a Lopes,
1982). Esse contato se fez já nos anos 50, na
região do rio Paranatinga, em área sob juris-
dição do posto Simões Lopes, com funcioná-
rios daquele posto, especialmente Pedro Vani
de Oliveira (1953-6), pai do informante; dois
outros grupos se estabeleceram (1955-6) nas
missões salesianas Bororó de Sangradouro e
Meruri, após haverem tentado contato com o
governador em Cuiabá, sem resultados posi-
tivos. Estavam doentes e acuados pelos co-
370 mSTOKU OOS INOIOS \0 BK\S1I

dade diuil, que apresenta metades exogâmicas wederãpá ("Coco Preto do Mato", idem), no
constituídas por clãs patrilineares, cujas linha- conhecido como Areões, onde hoje se si-
local
gens niobilizani-se Nas al-
piu-a fins políticos. tua a Reserva Indígena de Areões (Giaccaria
deias xaxante, não há herança do cargo de che- e Heide, 1972:23 ss.).

fia, estando essa posição ao alcance de quid- O restante da população de Parawadza rad-
quer homem que se mostre prestigiado poli- zé recuou novamente para a região do rio Cou-
ticamente e que tenha o apoio de parte majo- to de Magalhães, onde ficaram até que, em
ritária dos grupos políticos ou dos habitantes 1956, adoeceram em conseqiiência de roupas
da aldeia. O cargo está constantemente, pois, contaminadas, ganhas de moradores da cida-
em disputa. Conflitos são solucionados pelo de de Xavantina, com quem já mantinham re-
conselho dos homens maduros de cada aldeia, lações. Do Couto Magalhães retiraram-se pa-
não havendo a figura de um líder supremo, ra o rio Noidore, afluente da margem esquer-
com autoridade ou reconhecimento no con- da do rio das Mortes, ao sul de Xa\antina. Eles
junto das aldeias. Cada aldeia é um universo iriam, mais tarde, constituir o núcleo de mo-
político em si mesmo. Conflitos não solucio- radores xavante das missões salesianas, junto
nados tendem a resultar em cisões da aldeia com uma facção dissidente de Òniudu que se
onde tiveram lugar e, tradicionalmente, leva- dirigiu primeiro ao rio Bato\i, e só depois às
\am, com fi-eqiiència, a embates fi'sicos (para missões. São os protagonistas, portanto, do que
maiores infomiações sobre a sociedade e a cul- chamo aqui de segundo momento do proces-
tura dos Xa\ante, ver Ma\'bur>-Le\\is, 1984, e so de estabelecimento de contato permanen-
Lopes da Silva, 1986). te A uive na socieda-
e inclusão definitiva dos
Os Xavante que terminaram por procurar de nacional.
os salesianos eram de Wabdzerewa-
originários Também pro\enientes de uma cisão ocor-
pré, aldeia já mencionada, localizada na região rida em Oniudu eram os Xa\ante que chega-
do rio Couto de Magalhães. Wabdzerewapré ram ao rio Paranatinga e procuraram contato
te\e a duração de dois anos, após os quais seus com o SPI no posto Simões Lopes. Informa-
moradores mudaram-se para uma nova aldeia, ção de mesmo teor foi dada a Lopes (1988:41)
Wedetede ("Pau de Aricá", segundo comuni- por Abrão Rumõri e Gabriel Waarinatsé, h'-
cação pessoal de Abrão RumõVi e Gabriel deres xavante de aldeias da Reserva Indígena
\\'a'arinatsé, 1977), onde foram vítimas de uma de Parabubure, em depoimento colhido em
epidemia que provocou várias mortes (Giac- 1984: "quando habitavam a região do rio Ku-
caria e Heide, 1972:23). Dessa aldeia saíram luene foram acometidos por epidemia de gri-
os grupos que se situaram, um em 'Rituwawe, pe e resolveram migrar para a região do rio
na região do rio Couto de Magalhães, e outro Batovi cujo local já era habitado por um gru-
na aldeia de Oniudu, no rio Kuluene (comu- po deles. Isto ocorreu entre 1954 e 1955. Per-
nicação pessoal de Mário Dzururã, 1978). maneceram nessa região durante dois anos e
Subgrupos voltam a cindir-se e novas compo- seguiram para o P. I. Simões Lopes".
sições entre os moradores dos três locais, em Os acontecimentos da segimda metade da
idas e \indas, resultaram na ocupação de no- década de 50 na região de Xa\antina ilustnuii,
vos sítios, entre os quais estão os que os Xa- de modo talvez ainda niiús intenso do que o
\ante chamaram de Parawadza'radzé ("Lenha visto até aqui, a efervescência que caracteri-
Seca", segundo comunicação pessoal de Abrão zou, no período, tanto as relações políticas in-
Rumãri e Gabriel Waarinatsé, 1977) e de Pa- ternas aos grupos \a\ante, como a nunimen-
rabubure ("Folha de Cará do Mato", idem). tação e a mobilização de várias instituições.
Nessa última aldeia, situada na cabeceira do go\ernamentiús e religiosiis, no sentido da actv
rio Couto de Magalhães, foram atacados por modação do novo fator que tnuia luna ebuli-
não-índios em junho de 1951, o que os fez ção sem precedentes: a proximidade dos ín-
deslocarem-se para Paraivadza 'radzé, reencon- dios e a com i\ ència interétnica naquela "sen-
trandouma unidade que haviam conhecido tinela avançada" da sociedade nacion.il.
quando formavam uma facção em Wedetede. Além do grupo já mencionada a cidade de
Ficaram juntos até o ano seguinte, quando no- Xavantina. sede de operações da Fundação
va cisão levouuma das facções de volta ao rio Brasil C^entnd. foi também v isitada por outra
das Mortes, onde foi formada a aldeia de Ari- facçãix pn>v^ivelmente s;uda da ;ildeia-mãe, /.<**-
DOIS SÉCULOS E MEIO DE HISTÓRIA XAVANTE 371

repré, a partir, aproximadamente, de 1950. nam e interagem com a situação histórica es-
Nessa época, o grupo, liderado por Oribiwe, pecífica que os Xavante experimentavam nes-
divergindo dos demais moradores daquela al- sa etapa específica de sua convivência com os
deia quanto à oportunidade do contato com brancos, é questão que exige uma pesquisa
os brancos, saiu deliberadamente à procura que ainda está por fazer
destes e aparece junto ao rio das Mortes, a ju- Em 1958, metade da comunidade de San-
sante da cidade. Nos anos seguintes, esse gru- ta Therezinha e toda a de Areões foram para

po vive nas proximidades de Xavantina, sen- Capitariquara. No mesmo ano, uma cisão le-
do considerado uma ameaça pela população vou parte de sua população de volta a Isõre-
não indígena do local, constituída por técni- pré. Nessa altura, também, um grupo saído de
cos e funcionários que não cultivavam alimen- Parawadzaradzé fundava uma aldeia mais ao
tos e recebiam os suprimentos por avião, dos sul, em São Marcos, na área das missões sale-

quais os Xavante se serviam à vontade. A Fun- sianas. Os conflitos violentos entre Santa The-

dação Brasil Central acabou por pedir ao SPI rezinha e Capitariquara prosseguiram, ampli-
que a socorresse e, em 1955, o SPI fundava o ando-se pela interferência ou incorporação de
posto indígena Capitariquara. No mesmo ano, grupos de Isõrepré e São Marcos. Três anos de-
um missionário fundamentalista americano pois, em 1961, os salesianos fechavam a mis-
convencia uma facção daquele grupo a ir vi- são de Santa Therezinha, abandonada pelos ín-
ver na missão, situada junto ao rio Areões dios, que haviam se refugiado na cidade de Xa-
(Maybury-Lewis, 1967:21-2). vantina. Na sede da antiga missão americana,
Em 1956, portanto, uma parte do grupo que ainda em 1961, o SPI fundava o posto Areões,
viviapróximo a Xavantina dividiu-se em dois: ainda hoje existente.
uma parte, na missão protestante; outra parte, Ao longo desse período. São Marcos acabou
no posto do SPI em Capitariquara, à qual por significar, cada vez mais, uma zona neu-
juntou-se outra facção dissidente da aldeia- tra em termos das relações faccionais, acolhen-
mãe e que havia vivido, imediatamente antes, do membros de vários desses grupos em con-
em Nõrõwedena'rada. A aldeia de Capitariqua- flito e ainda outros, como parte do de O tõ (dis-

ra era provavelmente chamada pelos Xavante sidência independente de Isõrepré) e um


de Õaa (Giaccaria e Heide, 1972:27). outro, proveniente de Marãiwaseté, cujo per-
Conflitos envolvendo Capitariquara e curso acompanhamos, acima, até a década de
Areões (Maybury-Lewis, 1967:25; Giaccaria e 30 (Maybury-Lewis, 1967:23-9; Giaccaria e
Heide 1972:27) resultaram no fechamento da Heide, 1972^27-8).
missão fundamentalista e na transferência dos Embora ainda se mantivessem arredios em
Xavante para a missão salesiana de Santa The- 1962 (Maybury-Lewis, 1967:29), é provável
rezinha. Esta havia sido fundada em 1954 pa- que no início daquela década suas terras co-
ra dois grupos: um que não se alinhara nem meçassem a ser ocupadas por não-índios. Há
com os do Roncador nem com Oribiwe (o que notícias positivas, nesse período, sobre a legis-
partira em busca do contato em Xavantina), e lação relativa às terras indígenas: pelo Decre-
outro que teria vindo dos rios Kuluene e Couto to Estadual n° 903, de 28/3/1950, foram reser-
Magalhães. vadas para uso dos Xavante as terras que ocu-
As causas estruturais desses conflitos, que pavam no município de Barra do Garças
permitiriam entender a dinâmica interna das (Lopes, 1988:31). Seis anos depois (Maybury-
relações políticas vivenciadas pelos Xavante na Lewis, 1984:43-6), a Assembleia Legislativa do
época, nos são, por ora, desconhecidas. Os da- Mato Grosso aprovava cessão de terras à mar-
dos disponíveis indicam razões de ordem con- gem esquerda do rio das Mortes ao SPI para
juntural. Por exemplo, a morte, por doença, de usufruto dos Xavante, sob a condição de que
uma mulher teria levantado, entre os seus con- fossem inspecionadas pelo órgão. Acabam aqui
sanguíneos, suspeita de feitiçaria que teria si- as boas notícias: dois anos depois, em 15 de
do praticada contra ela por seus afins. Proble- dezembro de 1958, não tendo o SPI cumpri-
mas desse tipo constituíam, no mundo xavante do o seu papel, as terras voltaram ao domínio
tradicional, o núcleo e o estopim de conflitos do estado. Apenas os grupos xavante localiza-
sérios, que podiam conduzir a cisões e con- dos ao norte de Xavantina detinham controle
frontos. Como tais motivos internos se relacio- sobre faixas de terra à margem esquerda e ao

ri
lllSrOKK DOS ÍNDIOS ND BKAMl

norte do rio das Mortes, onde os interesses de tes não havia nem mesmo terras possuídas por
ocupação por não-índios eram ainda inexis- terceiros em seu nome, fossem missões ou o
tentes. SPI".

Em 1966, os sobreviventes xavante do rio Do ponto de vista interno aos grupos xavan-
Suiá-Missu, aldeia de Maràiwaseté, foram te, o da década de 50 e toda a de 60 sig-
final

transferidos, doentes e muito desnutridos e nificou principalmente um momento de ab-


após constantes conflitos com os brancos, em sorção do impacto do contato. Foi o tempo da
a\ iões da Força Aérea Brasileira, em missão observação do mundo e dosmodos que agora
da qual participaram padres salesianos. Vi- os envolviam mas foi também o tempo dos
nham de suas terras, então consideradas co- grandes surtos epidêmicos que trouxeram a
mo pertencendo à fazenda Suiá-Missu Li- — perda de inúmeras vidas; foi o período da con-
quifarm Agropecuária Suiá-Missu, controlada vivência inicial com a ação catequética coti-
por giiipo económico italiiuio (Davis, 1978:148; diana nas missões e com os bens industriali-
Menezes, 1982:66; Lopes, 1988:42 e 67-8) — zados mas, acima de tudo, uma parada, um
e foram para a missão salesiana de São Mar- momento de busca de proteção junto às insti-
cos, próxima à de Sangradouro. Desocupada tuições governamentais e religiosas contra as
a fazenda, não mais recuperaram suas terras. pressões sistemáticas e crescentes que vinham
Em fins da década de 80, porém, parte da Itá- sofrendo havia, pelo menos, trinta anos.
lia a iniciativa de fazer justiça aos índios e ges- Nos anos 60, cisões e fusões de facções po-
tões são iniciadas no sentido de lhes possibi- líticas e aldeias ainda levavam a migrações, mas
litar a de\ olução futura de, ao menos, parte do estas se fizeram, a partir de então, em área li-

território que originalmente ocupavam e que mitada, disputada palmo a palmo com não-
lhes fora usurpado em um dos lances finais do índios.
processo de sua "pacificação" (comunicação Nos últimos anos da década, a localização
pessoal de Iara Ferraz). (que se tornaria praticamente definitiva a par-
O termo "pacificação", aliás, como os da- tir de então) dos v ários subgrupos xavante es-
dos aqui apresentados bem o ilustram, escon- tava já bastante definida e de modo muito
de toda a atuação dos Xavante no processo; semelhante ao atual: são bolsões de terra con-
coloca-os como receptores passivos da ação da trolados por subgrupos específicos que cons-
sociedade envolvente, tomada como não vio- tituem unidades políticas. Ocupam áreas des-
lenta. O termo oculta qualquer notícia de de- contínuas dentro de um território —o terri-

liberações e definição, por parte dos Xavante, tório xavante — que, então como agora,
de estratégias de enfrentamento ou aceitação abrangia da serra do Roncador, ao norte, ao rio
dos brancos ou da tomada da decisão de ren- Garças, ao sul, em terras antes ocupadas pe-
dição em função de avaliações cuidadosas das los Bororó; o limite oeste aproximado era o rio
condições em que se encontravam. A atuação Paranatinga, em pleno território B;ikairi; a les-
deliberada e discordâncias entre grupos com te limitava-o o vale do rio das Mortes.
avaliações e visões diversas a respeito de todo Nos intervalos entre um bolsão efetiviimen-
o processo de sua inserção à sociedade brasi- te ocupado pelos Xavante e outro, as ternis co-
leira, como vimos, existiram, mesmo dentro meçavam já a estar intensamente procuradas
dos estreitos limites de liberdade que a vio- e mesmo ocupadas pelos brancos: posseiros,
lência contra os índios lhes permitia. empresas de coloniziíçâo e .igu>-
latifundiários,
pecuárias, estradas, povoados e embriões de
ACOMODAÇÃO INCÓMODA: cidades que iriam florescer nas dêcadiís sub-
OS ANOS 60
sequentes. O reconhecimento leg;il da,s terras
Em 1962, a situação já estava alterada: segun- dos Xavante encontruia. entãa torte oposição
do Lopes (1988:32-3), "As margens do rio das de fazendeiros possuidores de títulos de pn.>-
Mortes, entre Xavantina e Areões, estavam priedade expedidos pelo Departamento de
pontilhadas por pequenas fazendas. Rio abai- Terras e Colonização ostadu.il. Importantes são
xo, depois de Areões, havia poucos colonos os dados cjue. a esse respeita uc^s tniz Lopes
mas comprada, em sua maior par-
a terra fora (1988:54):
te, por empresas sediadas em São Paulo. No "O estado do Mato C^rosso era mu estado
caso dos Akwe Xavante do baixo rio das Mor- pobre. O monopólio da terra coustituía-se im-
«

DOIS SÉCULOS E MEIO DE HISTÓRIA XAVANTF. 373

portante fonte de recursos para as administra-


ções estaduais. Serviam-se da terra como va- l££^. -

lorosa arma de manutenção do poder e de con-


quista de apoio político [...]. Tornou-se uma
constante a expedição indiscriminada de títu- ^^B^^^. k

^
1

los de terra. Duas ou mais propriedades po-


diam estar superpostas".
São as seguintes as grandes áreas controla-
•^ A época dos
das pelos Xavante no final dos anos 60 (ape- primeiros contatos
amistosos, um
sar da intrusão não indígena da década ante-
Xavante oferece a
rior, que se deu ao mesmo tempo que os gru- um componente da
pos indígenas vivenciavam o facciosismo frente de atração
um s'orebdzu,
intenso e as migrações constantes que marca-
ornamento de
ram o período): na porção nordeste do terri-
tório, a área do rio das Mortes (também co-
i^'.-» algodão e pena,
como sinal de

nhecida como São Domingos ou Pimentel Bar-


' amizade.

bosa); a oeste, Simões Lopes (em terras dos


Bakairi) e a região do rio Batovi; no centro, a mesmo supressão de certos rituais, principal-

Lagoa, junto aos rios Couto de Magalhães e mente de vinculação cosmológica ou que
os
Kuluene; ao sul, junto às missões salesianas, envolvessem práticas consideradas repreensí-
em Sangradouro e São Marcos. veis pelos não-índios; exposição às práticas e

Alterações significativas desse quadro, em crenças de religiões cristãs; exposição às vilas


termos da situação fundiária dos Xavante, vão e cidades; experiências eventuais com a ven-
ocorrer só nas duas décadas seguintes, prin- da da força de trabalho. Todas estas são ten-
cipalmente devido à reconquista de parcelas dências que se iniciaram já nos primeiros anos
do território do antigo lugar conhecido como do convívio permanente dos Xavante com a so-
Parabubu, no centro do território (Lagoa, rios ciedade regional e que, com o passar do tem-
Couto de Magalhães e Kuluene), com corres- po, acentuaram-se mais e mais.
pondente movimentação de grupos saídos As transformações experimentadas pelos
principalmente de Simões Lopes (que voltou, Xavante em sua história e em sua condição de
em meados da década de 70, a ser integral- vida desde fins dos anos 50 até o final do de-
mente área Bakairi) e parcelas da população cénio seguinte foram, portanto, significativas
do Batovi e das áreas das missões salesianas e profundas. De totalmente expostos ao mun-
(inclusive pessoas originárias da bacia do rio do exterior e ao contato de certo modo indis-
Suiá-Missu). criminado, fragmentado, esporádico e intermi-
Nesse cenário transformado, em que decor- tente com agências e populações da socieda-
rerá, daí por diante, a história xavante, estão, de nacional, os Xavante passam a experimentar
dentre as principais compulsões que lhes fo- uma vida de quase redoma. O panorama, an-
ram impostas e dentre os principais arranjos tes vasto, fecha-se. Os Xavante passam a viven-
e rearranjos que procederam em sua vida so- ciar, nos anos 60, a experiência de contato den-
cial: a redução dos limites de seu território; tro desses microuniversos que eram os postos
a perda de áreas ricas em produtos da coleta; e as missões, onde começavam a tomar forma,
o desequilíbrio demográfico; convívio diário criando raízes e padrões, as relações interét-
com os não-índios; a sedentarização do povo nicas que os envolveriam inexoravelmente de
até então seminômade que seria, a partir daí, aí em diante.
sempre mais intensa; a substituição gradual Enquanto isso, a realidade mato-grossense
mas sempre constante e cada vez maior das "extramuros" vai, aos poucos, se alterando. Ao
atividades económicas tradicionais (caça, co- lado da presença empresarial, incenti\ada pela
leta e agricultura incipiente complementar) política fiscal e creditícia dos governos milita-
pela lavoura, com reflexos correspondentes no res pós-64, a região começa a receber, ao lon-
padrão alimentar (menos proteínas e mais ami- go de todo o decénio, os primeiros e, até cer-
do); diminuição da fre(}iiência das atividades to ponto, ainda esporádicos contingentes de
rituais; controle, reformulação, compressão ou migrantes vindos principalmente dos estados
374 IIISTOKIA nos INOIOS NO BKASIl

do Sul do país. Truta-se, de fluxos "es-


por ora. ticada segurança nacional. Seus planos de de-
poutàneos", não proino\ idos pelo governo ou senvolvimento, voltados para o combate à in-
pela iniciatixa particular por intermédio de flação e o acertoda balança de pagamentos,
empresas de colonização, como seria visto al- buscavam, pela via da dinamização do setor
gmis anos mais tiude. No\as áreas começam agrícola, o aumento da produtividade agrope-
a ser ocupadas por esses pequenos produto- cuária com vistas ao abastecimento interno e
res, que nelas desem oKem uma agricultura de à exportação em unidades produtoras com es-
subsistência e iilguma pecuária. Os fatores e trutura empresarial. A política económica as-
aspersonagens de tensões e conflitos na dis- sociava o favorecimento à internacionalização
puta pela terra, que seria acirrada no decénio a uma forte concentração de renda (Lopes,
seguinte, já começam a se alinhar. 1988:47-49).
Em suma: enquanto o cenário a sua volta A conseqiiência imediata dessa política eco-
vai rapidamente se transformando em termos nómica sobre a região habitada pelos Xavante
fundiíirios, políticos e sociais, o mundo dos Xa- foi a intensificação significativa da migração

vante e sua história de contato fecham-se so- espontânea, resultando na instalação tanto de
bre si mesmos nesse período. Todas as acomo- cooperativas de assentamento de posseiros
dações, as pressões (catequéticas, "moralizan- quanto de empresários. O salto demográfico
controladoras da força de
tes", "civilizatórias", é visível: Mato Grosso passou de 330 610 ha-
trabalho, do da crença e do saber) se
sexo, bitantes em 1960 para 612 887 em 1970 e
exercem "intramuros". Nessas ilhas, vivem nu- 1 169 812 em 1980 (Lopes, 1988:50-2). Ilustra-
ma cápsjila os conflitos e as contradições, as tiva, a esse respeito, é a relação dos 64 proje-
alianças e as experiências de dominação que, tos de pecuária apro\ados pela Sudam em
em ponto pequeno, retratariam relações com 1970 nos municípios de Barra do Garças e Lu-
o mundo nacional e a posição na sociedade ciara, no Mato Grosso (Davis, 1978:145-7). In-
brasileira que viveriam em dimensões cada vez vestimentos governamentais muito significati-
mais amplas, intensas e reais no decénio se- vos foram feitos por intermédio do Proterra.
guinte. Segundo Menezes (1982:64), os empreendi-
mentos agropecuários e os projetos fundiários
OS .V\\:\NTE DLWTE DA na região, a partir do início da década de 70,
EXPANSÃO DA FRONTEIRA AGRÍCOLA transformam-na numa das maiores produtoras
E DA QUESTÃO FUNDIÁRIA de arroz do país.
NO MATO GROSSO DOS ANOS 70 E 80 Respondendo a esses fatores, proliferaram
rapidamente na região empresas particulares
A TERRA de colonização (Lopes, 1988:58-60 traz a re-
Com Getúlio, o território xavante viu chegar lação nominal dos 24 projetos de colonização
a ação planejada do Estado visando à ocupa- particular no município de Barra do Garças
ção dos "espaços vazios" e ao desenvolvimen- registrados no INCRA até 1980). Responsá\eis
fatores da integração nacional buscada pe-
to, por projetos fundiários deslocam-se para a re-

loEstado Novo. Em anos recentes, principal- gião e assentam contingentes populacionais


mente ao longo da década de 70, novo esforço significativos. Ao mesmo tempa as migrações
concentrado traz profundas alterações no pa- espontâneas têm prosseguimento mas não são
norama sócio-econômico regional e nas rela- totalmente absor\idas por aqueles projetos
ções entre índios e brancos no Mato Grosso. (Menezes, 1982:65-70).
Dessa vez, como da primeira, as alterações fo- Os de coloni/xiçãa implantados em
projetos
ram subsidiadas e implementadas segundo a terras adquiridas e loteadas por empresas,
política desenvolvimentista de uma ditadura. atraíram principalmente tralnilhadores sem
Cada vez mais a vida e a história dos Xavante terra expulsos de outras regiões do estado ou
vai sendo condicionada pela realidade de sua do Sul do país. Os lotes, os instrumentos de
inserção na sociedade brasileira e pela dinâ- trabalho e os insumos eram financiados pelo
mica do que acontece nela principalmente em Banco do Brasil (Lopes, 1988:60).
termos políticos e económicos. .\o mesmo tempa a política económica do

Os governos militares conceberam a ocu- go\eruo nos anos 70. (.juo ta/ ia amplo uso de
pação da Amazónia Legal segundo a geopolí- benefícios fiscais para inceuti\ar o desemx>l-
DOIS SÉCULOS E METO DE HISTÓRIA XAVANTE 375

vimento dessa região, acentuava a concentra-


ção fundiária. A especulação imobiliária tor-
nou-se praxe, o que explica a baixa produtivi-
dade dos empreendimentos (Menezes, 1982:66).
É nesse contexto definitivamente transfor-
mado que os Xavante vão reaparecer publica-
mente. Toda a década de 70 é marcada por sua
atuação decidida em favor da garantia das ter-

ras que então ocupavam e da recuperação de


parcelas do território tradicional no leste do
Mato Grosso. A ação abrange várias frentes:
desde o conflito aberto, localizado e direto com
posseiros, fazendeiros e empresas instaladas
em terras semeadas por antigos sítios de al-

deias xavante e seus cemitérios até a pressão


política e reivindicatória junto às autoridades
em Brasília, passando pelo estabelecimento de
alianças com indivíduos e com setores da so-
ciedade civil organizados, no fim do decénio,
em apoio aos direitos indígenas.
É nesse período que terras xavante são re-
conhecidas oficialmente, sendo decretadas
e/ou demarcadas as atuais reservas: 1) Reser-
va Indígena (RI) Marechal Rondon Decre- —
to Estadual 929, de 4/5/1965, demarcação fí-
sica pela Funai em 1972, 98 500 ha, municí-
pio de Paranatinga, população em 1987: 175;
2) RI Pimentel Barbosa — decretada em 1969; rou reações fortemente negativas por parte de Em janeiro de
demarcação aventada pela Funai nos anos 70, 1954, poucos anos
empresários e fazendeiros e, em alguns casos,
homologada pelo Decreto 93147, de 20/8/1986, após o contato, um
instalou-se um verdadeiro clima de guerra en- xavante na loja
328 966 ha, municípios de Agua Boa e Cana-
tre índios e brancos (para descrições mais por- da Ducal.
rana, população em 1987: 354; 3) RI Areões
menorizadas, consultem-se Lopes, 1988:71-9
— decretada em 1969; Portaria 1104, de
e 96-7; e Menezes, 1982:73).
19/9/1972 define e fixa limites da reserva,
A luta pela garantia do território e as vitó-
218 515 ha, município de Agua Boa, popula-
rias obtidas tiveram conseqiiências no plano
ção em 1987: 522; 4) Área Indígena Sangra-
douro/Volta Grande —
Decreto 71105, de
da política interna xavante. Certas lideranças
firmaram-se em decorrência de sua participa-
14/9/1972 declara a área reservada aos Xavan-
ção no processo; as exigências de domínio do
te; demarcação física em 1973, 100 280 ha,
municípios de General Gomes Carneiro e Po-
português e familiaridade com a sociedade en-
volvente abriram espaço para a projeção po-
xoréu, população em 1987: 1107; 5) RI São
Marcos — Decreto 71106, de 14/9/1972, decla- lítica de homens que teriam sido considera-
ra a área reservada aos Xavante; Decreto dos muito jovens para obtê-la segundo os mol-
76215, de 5/9/1975 fixa limites definitivos, des tradicionais. Outra consequência, indica-
188 478 ha, município de Barra do Garças, po- da por Menezes (1985:392), é que a área de
pulação em 1987: 1213; 6) RI Parabubure — atuação política de um chefe xavante ultrapas-
Decreto 64337, de 21/12/1979; demarcação sa, hoje, os limites da aldeia, redefinindo os

física pela Funai em 1981, 224 447 ha, muni- requisitos, as prerrogativas e as dimensões do
cípio de Barra do Garças, população em 1987: exercício daquela função. A mesma autora
1738 (fontes: CEDl/Museu Nacional, (idem:522) assinala conetamente que o caso
1987:43-80; Menezes, 1982:85; Motta, xavante é revelador do fato de que as socieda-
1979:231-2; Lopes, 1988:76). des em que "a prática política é vivida como
O processo foi marcado por mobilização in- um exercício contínuo de reflexão e (jue, so-
tensa de todas as personagens implicadas, ge- ciologicamente, são mais bem equipadas para

É
376 lUSTtiRlA DOS ÍNDIOS NO BRASU,

agir em estado de guerra, dispõem itíiuilmen- mas suas despesas de manutenção, liberando
te de mais recursos para enfrentar a domina- o orçamento do governo federal dessa incum-
ção que sobre elas é exercida". bência.
Resta saber qual o limite dessa capacidade O projeto foi arquitetado em Brasília, se-
de resistência e de enfrentamento e é este, jus- gundo essa concepção (veja-se em Lopes,
tamente, a meu ver, o desafio colocado aos Xa- 1988:103-105 a análise da articulação entre a
vante nos anos 80 e 90. ideologia dos governos militares de modo am-
Como estratégia que visava à garantia das plo e a política indigenista no período). A par-
terras e sua proteção contra invasões por não- ticipação dos índios foi incorporada realmen-
índios, os Xavante deliberadamente procede- te apenas no momento da concretização das
ram, a partir de 1976, aproximadamente, ao decisões tomadas de cima para baixo.
desmembramento de suas aldeias, fazendo-o Nos discursos correntes nos escritórios cen-
segundo as linhas divisórias entre as facções da Funai em Brasília, porém, predomi-
trais

políticas existentes: as novas aldeias foram lo- navam outras facetas do projeto: primeiro, sua
calizadas em pontos distantes dentro da área capacidade "modernizadora", resumida na uti-

de cada de modo a permitir a fiscali-


reserva, lização produtiva (porque integrada à econo-
zação constante de seus limites. Se até o iní- mia regional) das terras e da mão-de-obra xa-
cio dos anos 70 havia apenas uma aldeia por vante; depois, mas igualmente ou mais rele-
região ocupada pelos Xavante, no final da dé- vante, sua utilidade como meio de controle
cada já serão seis em Parabubure, duas em político dos Xavante, à época insistentemente
Sangradouro e cinco em São Marcos (Lopes presentes na sede da Funai, cuja cúpula \ia-
da Silva, 1986:50). se sob pressão constante e pública dos índios
Esse processo foi fortemente acentuado a que tinham acesso significativo aos meios de
partir dos últimos anos do decénio de que tra- comunicação. O plano, portanto, se constituía
tamos e, mais ainda, ao longo dos anos 80. Há, em mais que um expediente económico: ha-
para isso, fatores adicionais, que descrevo re- via no empreendimento uma clara dimensão
sumidamente a seguir, quanto às formas con- política.
cretas que assumiram, e examino quanto às Junto à imprensa, as denúncias e declara-
conseqiiências mais significativas que trouxe- ções dos índios denegriam a imagem do go-
ram para o modo de vida dos Xavante. verno militar junto à sociedade ci\il e, mais
importante, no exterior, onde o mesmo go\er-
POLÍTICA INDIGENISTA NOS no buscava financiamento para o projeto eco-
GOVERNOS MILITARES: OBJETIVOS, nómico que promoveria o "milagre". Dessa
REALIDADE E IMPLICAÇÕES HISTÓRICAS perspectiva, as duas \antagens principiús da
DO "PLANO INTEGRADO DE implantação do projeto justificavam plenamen-
DESEN\ OLVIMENTO DA NAÇÃO XAVANTE" te os altíssimos (se comparados ao que a Fun;ú

O plano da Funai significava utilizar a mão- gastava, até então, com a iissistència aos índios")
de-obra e as terras xavante para a implantação investimentos na área xavante: os recursos tra-
de rizicultura mecanizada em larga escala pa- riam, assim, di\idendos tanto económicos
ra produção de excedentes comercializáveis. quanto políticos, quer no plano lociU, micra
Tratava-se de tornar as terras indígenas "pro- das relações entre o governo e os índios, quer
dutivas" e "rentáveis", por meio da introdu- no plano macro, definido pela política econó-
ção da "tecnologia moderna", de "investimen- mica para o país e sua situação no cen;u-io
tos de capital", dos "conhecimentos científi- mundiiil.
cos" e do "desenvolvimento económico", tudo Os Xa\ante, nesse período, fiuiam face às
nos moldes mais perfeitamente capitalistas ao dificuldades tnizidas pela redução de seus ter-
gosto dos governos militares pós-64. O objeti- ritórios; àimpossibilidade de manter ci^m v">lt^
vo final, tal como formulado oficialmente, era no \ igor seu padrão tradicional de exploração
propiciar aos índios uma atenção especial à do meio ambiente e produção da subsistên-
saúde e à educação formal e, principalmente, cia, baseado no seminomadismo e em uma

d auto-suficiênciaeconómica, através da cria- economia de caça e coleta com ;\giicultvn-;i


ção de um capital de giro próprio com que as complementar incipiente; às necessidades do
"comunidades" indígenas cobririam elas mes- bens manutaturados ^^desde ivnu\ii».íií a níu^xis.
DOIS SÉCULOS E MEIO DE HISTÓRIA XA\ANTE 377

sabão, ferramentas etc), como consequência 1990:71) e da ênfase na agricultura monocul-


do contato. Para os índios, o projeto aparecia tora associada ao desmatamento (que diminuiu
como conquista sua. Conquista possível por- ainda mais as chances de caça e de coleta, fa-

que decorrente de sua vigilância, pressão e rei- zendo com que a carne e vários da dieta itens Ao final da década
de a maior
70,
vindicações constantes junto à Funai, cobran- tradicional fossem substituídos basicamente
parte das reservas
do às autoridades federais o respeito aos di- pelo arroz, ou seja, uma substituição de pro- Xavante já estava
reitos dos índios e o cumprimento das obri- teína animal ou vegetal por amido). O projeto delimitada e
demarcada. Além
gações constitucionais do Estado no sentido instituía "formas de organização do trabalho
de algumas
de prover assistência e proteção aos povos in- e da distribuição do produto nas lavouras co- questões relativas
dígenas para a garantia de sua sobrevivência munitárias' [do projeto] estranhas e desagre- a trechos de linhas

em demarcatórias em
com dignidade. Graham (1990:64), aliás, regis- gadoras relação aos padrões próprios aos
Sangradouro e rio
tra o entusiasmo inicial dos Xavante pelos pro- Xavante" (Menezes, 1982:84). Os propósitos de das Mortes, um
jetosde rizicultura em Pimentel Barbosa, o or- favorecimento à auto-suficiência e à autode- problema grave
permanecia: a
gulho pela posse e uso de equipamentos agrí- terminação tinham sido perdidos de vista, se
indefinição das
colas como tratores e caminhões no Kuluene, é que alguma vez existiram verdadeiramente. terras de ocupação

e a expectativa generalizada dos Xavante quan- A atuação da Funai entre os Xavante por Xavante imemorial
no vale do rio
to à possibilidade real de satisfação de suas ne- meio do projeto teve implicações devastado-
Couto Magalhães,
cessidades materiais. ras também em outros planos. Dentre as mais em sua maior
Os recursos para a implantação do projeto graves, está a exacerbação do facciosismo tí- parte ocupadas
pela Fazenda
foram provenientes de programas especiais in- pico do sistema político tradicional (Maybury-
Xavantina S/A.
ternos à Funai ou de outros setores do gover- Lewis, 1967:capítulo \'). A
de benefícios
oferta Celestino, líder
no, como o Fundo de Desenvolvimento das materiais (implementos e maquinário agríco- Xavante visto aqui
em Brasília,
Áreas Estratégicas (FDAE), o Plano de Integra- la, veículos, sementes etc.) atuou como estí-
destacou-se por
ção Nacional (PIN) e o Proterra (Menezes, mulo à fragmentação das aldeias: cada líder de gestões
1982:75; Lopes, 1988:U0-1). facção que constituía sua própria aldeia, por incansáveis junto
às autoridades
Apesar dos investimentos, os objetivos ofi- pequena que fosse, passava a reivindicá-los e,
federais pela
cialmente declarados do Plano de Desenvol- com eles, sua fatia de prestígio político. A es- demarcação da
vimento da Nação Xavante não foram de mo- se respeito, diz Graham (1990:65): "o número reserva de
Parabubure.
do algum atingidos. As dificuldades da agri- de aldeamentos xavante oficialmente reconhe-
Foi criada, afinal,
cultura mecanizada em larga escala em solos cidos pela Funai em dezembro de 1985, 35, em 1980.
do cerrado, assim como os insumos e cuida-
dos técnicos que exige, associadas à inoperân-
cia da Funai na formação de pessoal xavante
e na gestão de todo o processo acabou por con-
duzir à situação presente, já clara em meados
da década passada, de aumento da dependên-
cia dos Xavante em relação ao órgão federal.
Por volta de 1985, quando as conseqiiên-
cias nefastas do projeto em relação às condi-
ções sociais, económicas e políticas dos Xavan-
te já estavam claramente manifestas, a Funai
começa a se retirar do cenário, deixando de
bancar significativamente a produção agríco-
la das reservas xavante, ainda incapazes de se

auto-financiarem (para um relato referente à


área de Pimentel Barbosa, consulte-se Gra-
ham, 1990:72-5).
Foram graves as consequências sociais do
projeto: houve interferências na economia tra-
dicional e nas condições nutricionais ede saú-
de em função da introdução de novas rela-
ções de trabalho, inclusive assalariadas (Lopes
da Silva, 1986:51; Lopes, 1988:119; Graham,
I7S msTOKIX IX)S l\l>U>S NO BK\M1

era mais que o dobro em relação ao de 1980, mento da importância da política económica
dezesseis. Km de/embro de 1987, funcionários nacional sobre o destino dos Xavante, condi-
da Funai estimavam em cinquenta as aldeias cionando os rumos que trilharam, exigindo
xa\ante''. respostas e impondo limites.
Hoje, chegam perto de sessenta. Ao mes- A história dos Xavante deixa evidente sua
mo tempcx o ritmo do crescimento vegetativo grande capacidade de responder a esses fato-
da população xavante, embora significativo, res externos e, simultaneamente, proceder a
manteve-se estável em relação à década de 70. rearranjos que permitiram a preservação es-
.\ aldeias, além
fragmentação e.xcessiva das trutural de sua sociedade. Nesse embate, po-
de enfrac}uecer a capacidade de pressão dos rém, a resistência da organização social pare-
Xavante sobre o mundo exterior, notadamen- ce começar a dar sinais de cansaço, a partir
te sobre a agência governamental encarrega- da intervenção direta em sua economia e em
da da questão indígena no país, teve conse- seu sistema político interno, com o "Projeto
quências negativas também com relação a cer- Xavante".
tas práticas sociais próprias de sua cultura. A A proliferação exacerbada de nov as aldeias
respeito,Graliam (1990:71) lembra, acertada- até a sua fragmentação em pequenos aglome-
mente, que uma população muito reduzida im- rados, com população numericamente inferior
pede a operacionalização de certas instituições ao necessário para a realização de atividades
e práticas sociais. reprodução cultural des-
sociais básicas para a
Tanta efervescência, levando a perdas tão sa sociedade, parece indicar um processo já
significativas, terá, ao menos, sido compensa- vivenciado pelos Xerente (Farias, 1990) e que
da de alguma forma pelos beneficios de ordem leva à inviabilidade da manutenção de um
material e de autonomia política esperados pe- princípio tradicional e característico das cul-
los Xavante no início da aventura? Vejamos a turas Jê, segundo o qual a aldeia contém o uni-
avaliação final de Lopes (1988:145) a esse verso. Reconstituí-lo passa a ser tarefa artifi-
respeito: cialmente produzida, em momentos específi-
"Os resultados obtidos pelos governos mi- cos, ritualmente marcados, de reconstrução da
litares (1964-1985) na sua política indigenista unidade perdida pela aliança e pela ação con-
foram desastrosos, como ficou demonstrado, junta de moradores de pequenos núcleos re-
através do caso Akwe Xavante [...]. Os resulta- sidenciais.
dos positivos que os Akwe Xavante obtiveram Por outro lado, os Xavante vivenciam esse
para a demarcação de suas terras deveram-se processo em uma época de significativo ama-
mais à sua obstinação do que à ação do órgão durecimento do movimento indígena e da
destinado a protegê-los. Quanto à Funai, tri- consciência de sua inserção definitiva na so-
lhou os mesmos descaminhos do SPI, graças ciedade brasileira, a cujo destino o seu está
à incompetência de generais e coronéis des- inexoravelmente atrelado. O que nos reserva-
preparados para tratar com comunidades rá, a todos, o futuro?
tribais".
AGRADECIMENTOS
CONSIDEIL\ÇÓES FINAIS A Orestes Abtsiré Xavante e Gustavo Pariõwa
A história dos Xavante é, como se viu, a histó- Waaihò, por preciosas informações inéditas
ria do peso crescente da presença dos não- adicionais; a David Mayburv-Levvis, pelo in-
-índios sobre suas vidas e de sua tentativa por centivo e comentários críticos; a Osvvaldo ívi-
manter a autonomia, a liberdade e a dignida- vagnani, pela leitura de uma versão prelimi-
de. Ao longo do tempo, não só ampliou-se mas nar do presente ensaio; a Nhu-ta NUu-ia Lopes,
acelerou-se também o ritmo de sua inserção pela generosidade na cessão de seu material
na sociedade nacional, à medida mesma que de campo; a .\na \'era Lopes da Silva Mace-
esta se expandia territorialmente, invadindo e do, pela assessoria, e a Maiuiela G.uneiro da
conquistando aos índios terras de sua ocupa- Cunha pelo conv ite p;UM participou- desta obra.
ção imemorial. O que se viu, nas páginas pre- A pesquisa contou com financiamento do
cedentes, foi um processo constante de au- c:NPq e da kapesp.