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HIPÓCRITAS

GLADIADORES
(1934-2009)

ALFREDO CORTEZ
Personagens:

1- PRIMEIRO HOMEM - (Sushy) Bispo

2- SEGUNDOHOMEM/REDACTOR/SATANÁS/COMERCIANTE/

COSTUREIRO/AGENTE FUNERÁRIO - (Mário) Cavalo

3- BELO-BRUTO - (Miguel) Rei

4- DESGRAÇADO/ REPÓRTER - (?) Peão

5- GIRAÇO/BONECO - (Lego?) Torre

6- MENINO- (Richie)

7- AJUDANTE – (?)Peão

8- ADVOGADA - (Filipa) Cavalo

9-AMIGA/PRESIDENTE -(?) Bispo

10- PROTAGONISTA-(Sheila) Rainha

11-AMIGA/CONVIVA/DIPLOMADA - 1 –(Mafalda) Torre

12- AMIGAS/CONVIVAS- 2, 3, 4(Podem ser duas ou quatro pessoas) Torres

13- INGÉNUA (Ana) Peão

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“Ainda que a peça Gladiadores seja uma caricatura da época mundial que
atravessamos. Deve ser interpretada com atitudes e movimentos maquinais, transmitindo
ao máximo a irrealidade.” Quando assumimos um jogo de xadrez como ponto de partida
(apontamento) para movimentação cénica, ganhamos uma directriz para a
movimentação e o trabalho de corpo dos actores. Os “personagens/peça” terão que
levar em consideração sua relevância no jogo para se movimentarem em cena.
Ex: Protagonista-Rainha…Move-se por todo o tabuleiro ou palco.
Cavalos…Movem-se em “L”.
Rei…Move-se por todo o tabuleiro.
Bispos… Movem-se em diagonais.
Torres…Movem-se em linha recta.
Peões… Uma casa de cada vez.

(Todos os homens estão no palco e aguardam que as pessoas se sentem nos seus lugares.
Andam de um lado para o outro pelo cenário todo escuro, ainda não identificado como
um tabuleiro de xadrez falam uns com os outros, estão indignados. Apontam para o
público que está a chegar. Vestem smoking ultramoderno e sintético.)

Primeiro Homem: (Caminha lentamente até à boca de cena. Foco nele. Sorri sem
vontade para o público.) -Minhas senhoras... (Transição. Sisudo e informal, para o
publico.) e meus senhores!!! Tiveram os Hipócritas dúvidas em aceitar esta peça, ou
melhor, tivemos nós, artistas masculinos do Grupo, a maior relutância em consentir
que ela se representasse esta noite. As razões, essas, vão vocês compreender de
imediato. Vão compreendê-las no decorrer da primeira cena. Quando digo vocês,
refiro-me… (Esboça um sorriso maior.) às senhoras (Novamente sisudo.), porque os
homens, estão nesta sala ludibriados! O cartaz que anuncia “Gladiadores” oculta
intencionalmente que se trata de uma peça... desculpem a classificação! De uma peça
“só para mulheres”. (Transição, outra vez severo.) É sobre isso que os quero prevenir.
“Gladiadores” é uma insolência desprimorosa para o sexo forte! Com um ar singelo e
sem intenções, atinge e deixa mal ferido o prestígio do homem, precisamente no seio
da família! Coloca-nos numa antipática situação de inferioridade. Todos os artistas
homens/machos da companhia, do último ao primeiro, que sou eu… (Murmúrio de
protestos dos outros. Ele, depois de os observar, engole em seco.) do último ao
primeiro, que somos todos… (Movimento de concordância geral.) recusaram os
papéis que lhes cabiam. A peça, aliás banal e sem espírito, como a critica amanhã
demonstrará, vai portanto ser representada exclusivamente por mulheres. Só por
elas… e é só para elas. (Dando conta da inconveniência, fica instantaneamente sério.)

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Nós, meus senhores, abandonaremos a sala logo que vossas excelências o fizerem…
(Noutro tom.) se entenderem que o devem fazer é claro. (Longa pausa.) Não
entendem? Não sai ninguém? (E depois duma ligeira reflexão.) compreendo.
Compreendo, mas….

Segundo Homem: (Avança da escuridão e corta-lhe a palavra.) -…mas eu


coloco a questão com mais clareza. (Pausa. Foco.) Num velho livro, empoeirado
bafiento, encontrou o autor a história vivida duma matrona que, tendo casado
dezanove vezes, dezanove vezes se viu salva do ousado esposo! Dezanove
mártires, queimados, um a um, no mesmo forno!.. Pois é esta Padeira de
Aljubarrota da nova espécie, a heroína de “Gladiadores”! Com ela se teceu uma
intriga mesquinha e amesquinhante para todos nós. (Surge o som de tic-tac. Para o
público.) Ouvem? Ouvem?

(Som nº1-Forte - Sintético.) Tic-tac…


(Entram as mulheres que se posicionam para o jogo. O som do Tic-tac vai
diminuindo…, o jogo será montado, o tabuleiro já tem as peças todas ainda que
dispersas.)

Segundo Homem: - Uma homenagem. Uma inevitável homenagem à


Protagonista e plurivindista, que neste momento afia os dentes no gin-tônico, para
o seu vigésimo casamento. Quer alguém candidatar-se? Um vigésimozinho barato!
Querem habilitar-se? (Transição.) Pois fiquemos, é talvez mais divertido!

Belo-Bruto: (Carrancudo e brusco. Saltando como um puro sangue!)- Sou


da mesma opinião. (Aos outros.) Homens às vossas posições.

(O palco transforma-se, através de efeitos especiais: som e luz, numa discoteca


mundana. Cenário sintético. As mulheres dançam e falam uma com as outras, todas
em volta da protagonista, pachorrentamente indiferente ás aclamações com que as
demais convivas/amigas que festejam. Vão ganhando as suas posições. E será neste
momento que o tabuleiro é revelado.)

(Música)
Advogada/amiga: (Elevando o tom.) -Posso falar? (Como as amigas não se calam
por causa da música alta, repete em tom mais forte.) Mas será que eu… posso…
falar??!!! (Gritando.)

Várias vozes: -Deixem-na falar. Shiu! Shiu! Deixem-na falar. (O volume da música
é reduzido e o tic-tac também, até o silêncio total.)

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Advogada/amiga: (Empolgada.)- Mulheres portuguesas! Digo-vos eu que…
(Pausa enfática. Depois num arranco.) não devemos ver na alta personalidade da
“senhora Fénix” dezanove vezes renascida das suas próprias cinzas! (Foco na
protagonista.) Não!... (nova pausa enfática) os dezanove cadáveres que ruíram a seus
pés - “mirabile dictum” - são simples pedras de pedestal que a ergue a muito maior
altura! Ver nela a sobrevivente de dezanove lutas, dezanove batalhas travadas por esse
sentimento monstruoso que é o amor e nada mais. Vê-la apenas como uma viúva de
19 maridos, seria reduzi-la à condição de uma mera “serial-killer” de saias! Seria
igualá-la a um ser masculino! Seria volvê-la em monstro. (Salta sobre um peão, em
“L”)

Conviva/Amiga 1: (Em frenéticos aplausos.) – Bravo! Bravo!


Conviva/Amiga 2: -Apoiado! Bravo!
Conviva/Amiga 3: -Bravo

Advogada/amiga: (Dominando o ruído dos aplausos com voz poderosa.) -Mas


não, repito… Não! (Pausa.) Não foi apenas a soberba de dezanove déspotas que o
contacto desta mulher reduziu a cinzas. Nos altos fornos da nossa heroína ardeu toda a
tirania dos homens, todo o despotismo dum sexo que a si próprio se chama forte, que
se vangloria por se considerar nobre, e que nos subjuga, e escraviza, e oprime, desde o
primeiro alvorecer do Sol!...(Novas palmas. Novo entusiasmo. A oradora inflamada).
Ora, é por essa “mulher símbolo” que eu levanto o meu copo! Que eu saúdo com o
mais frenético grito de Hip! Hip! Hurra!...

Todas as Mulheres: (De taça erguida, saudando a Protagonista.) Hurra!

Ingénua/amiga: (Sem o menor entusiasmo.)- Arriba!!

Advogada/amiga: – “Arriba! Arriba! Arriba!..”

Primeiro Homem: (Arrancando numa forte atitude.) – Abaixo!!...

Todas as Mulheres: (Indignadas.) – Arriba!!!

Todos os Homens: (Solidários com o primeiro.) – Abaixo!...

Todas as Mulheres: (Avançando agressivas.) – Arriba!...

Presidente/amiga: (Enérgica!) – Silêncio! Silêncio! Silêncio!...( Faz-se um


profundo silêncio. Ela, com grande calma, mas também com muita firmeza.) –Devo

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prevenir os homens aqui presentes de que não nos incomodam nada assistindo à nossa
festa: mas que não lhes permito que nela tenham a menor intromissão, sob pena de
mandar evacuar a pista.

Protagonista: – O quê?! Evacuar a pista?! (Dá um grande gole no gin, limpa a


boca, e com decisão.) – Lá isso não consinto eu.

Ingénua/amiga: (Que acompanhou a cena sobressaltada, respirando agora


satisfeita.) – Ah!!...(Sorri para os homens.)

Presidente/amiga: - Não posso permitir que eles se intrometam na festa que EU


organizei. Expulsarei quem o fizer. (Cara confrangida da ingénua. Aplausos das
outras. Risos e escarninhos dos homens. A presidente ergue-se e encarando-os.) –
Quem o fizer vai para a rua, tenho dito!

Protagonista: -E eu digo, que não consinto, e não consinto, e acabou.

Convivas 1,2,3 (juntas): (Frouxamente.) – Não consente?!

Conviva 1: (Hesita, depois, com fúria súbita.) –Fora com esses desordeiros! Fora os
intrusos!

Conviva 2: - Fora! Fora! Não têm nada que “cheirar” aqui.

Conviva 3: –Fora! Fora!...

Advogada/amiga: (Com voz poderosa.) – Amiga! (Para presidente.) Amigas!


(Para todas.)

Convivas 1,2,3: (Umas com as outras.) - Muito bem! Deixem ouvir. - Schiu!
Schiu!... (Silêncio geral.) -Deixem ouvir.

Advogada/amiga: - Ainda quero vos falar para lavrar o mais enérgico protesto
contra a impertinência de que acabamos de ser vítimas. A ninguém é lícito, ninguém,
perturbar por maneira tão insólita uma festa de confraternização feminista de aspecto
social e politico… como dizer?

Primeiro Homem: (Irónico!) – Incomensuráveis. (Avança um peão


no tabuleiro.)

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Advogada/amiga: - Incomensuráveis, sim senhor! Incomensuráveis. (Os homens
riem. Ela afrontando-os.) – Estamos no uso de um direito e estamos dentro da lei!..

(As convivas frenéticas.)


Convivas 1:– Muito bem!

Conviva 2: - Muito bem!

Conviva 3: Muito bem!

(Palmas e risos dos homens.)

Protagonista: (Irónica, para a oradora.) – Pois muito bem, amiga advogada! Mas
guarde Vossa Excelência o direito e a lei lá para os tribunais, onde esses espantalhos
metem medo e têm valor. Aqui, quem fala de papo sou eu. E falo de papo cheio. Já cá
cantam dezanove. (Avança no tabuleiro.)

Convivas 1: - Que se expulsem os perturbadores da ordem! (Avança no jogo.)

Conviva 2: - Fora os homens! Fora os homens! (Avança.)

Conviva 3: - Fora os homens! (Avança.)

Ingénua/amiga: - Mas porquê? Que mal lhes fizeram eles?

Convivas 1,2,3 (juntas): - São homens! Fora!

Presidente/amiga: – Silêncio! (Mais forte.) Silêncio! (Faz-se instantâneo silêncio.)


Mas então quem é aqui a organizadora?

Protagonista: (Para a advogada.) – Ora toma!..

Presidente/amiga: - Eu organizei esta alta concentração de forças intelectuais


feministas, e isto parece uma feira!

Protagonista: - É como diz, Senhora Presidente! (Em tom de gozo.)

Presidente/amiga: (Enérgica)- Silêncio!

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Advogada/amiga: (Dirige-se à protagonista.) –Ora toma e embrulha! (A
protagonista afasta-se, desdenhosa, Fica próxima da Ingénua.)

Presidente/amiga: (Passado algum tempo, agora num tom diferente.) – É


verdadeiramente lamentável, muito mesmo, e sou eu a primeira a lamentar, que me
tenham obrigado a impor, por forma tão imperiosa o meu prestígio e a minha posição
de presidente, cargo ao qual considero estar à altura e para o qual trabalhei
arduamente… enfim! Espero que o caso não se repita, que não torne a ser necessário.
(Toca o telemóvel. Ela o atende.) Só um minuto.

Protagonista: (Vendo o galã/Lego a olhar para a ingénua, a meio tom, para esta.)
– Olha. Olha…

Ingénua/amiga: (Também a meio tom.) – O Que é?

Protagonista: (Apontando discretamente com o polegar por sobre o ombro.) – o


último, lá ao fundo.

Presidente: (Desliga o telemóvel.) – Continuemos.

Ingénua/amiga: (Intrigada, e sempre a meio tom.) – Mas o que é? Não percebo.

Protagonista: - O de lá. O giraço…

Presidente/amiga: - Nesta festa de confraternização mental… (Suspende ao ver


que as duas conversam.)

Protagonista: (Á ingénua.) – O giraço. O giraço da ponta, lá da ponta…(Bate no


dedo dela.) –Não se aponta.

Presidente/amiga: (Dá com o anel umas leves pancadas no copo e, impondo-lhes,


por esta forma discreta, o silêncio.., recomeça.) – Nesta festa de confraternização
mental feminista está esgotada a lista das oradoras inscritas, e é justo acrescentar que
todas elas se excederam a si próprias. Foi brilhante a série de discursos proferidos.
Alguém mais deseja a palavra?

Ingénua/amiga: (Á protagonista.) – Mas o que tem o giraço?

Protagonista: (Sacudida.) – Estás louca!

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Presidente/amiga: (Intervindo.) – Isto é demais! Não sei quantas vezes mais lhes
terei de pedir para se calarem.

Protagonista: Mas Senhora Presidente! Eu não estou a falar. (E logo a seguir em


voz baixa, á ingénua.) – Não vês como ele está a olhar para ti?

Ingénua/amiga: (Muito Ingénua.) – Ideias suas.

Presidente/amiga: - Ninguém mais deseja a palavra? (Silêncio geral.) Vou então


concede-la à mulher a quem esta festa foi oferecida, que deseja, decerto, agradecer os
brindes que lhe foram dirigidos.

Protagonista: (Á ingénua, vendo que o Boneco volta a olhá-la.) – Olha, olha,


olha…

Ingénua/amiga: (Remexendo-se.) – Ai! Se fosse verdade…

Presidente/amiga: Tenha a palavra a homenageada. (Frouxas palmas gerais. A


Protagonista, alheia ao que se passa, dá palmas também.)

Protagonista: (Vendo o giraço sorrir para a Ingénua.) -Aí tens. Que mais queres?

Presidente/amiga: Então, minha amiga?!

Protagonista: (Enfadada.) - Eu não estou a falar.

Presidente/amiga: Mas fale, faça favor.

Todas as mulheres: Fale, fale!

Protagonista: (Num pasmo.) – Então, falo ou estou calada?!

Convivas 1: Fale!

Conviva 2: Fale! (Noutro registro.)

Conviva 3: Fale!

Protagonista: (Aos homens.) – Mulheres, ninguém as entende! Agora querem que


eu fale? (Transição.) Pois aí vai.

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Ingénua/amiga: - Ai! Se fosse verdade!... (Remexe-se de novo e fica a olhar o
Boneco.)

Protagonista: (Principiando.) – Amiga organizadora e meus senhores!...

Presidente/amiga: Perdão, perdão! Quer talvez dizer, minhas senhoras?

Protagonista: Eu digo sempre o que quero e o que não quero é que me


interrompam. (Recomeçando.) Amiga presidente e meus senhores! (Movimento de
desagrado nas convivas.) – Mulheres. Ninguém as entende! E, se é certo que nada vos
revelei de novo e original, certo é também que só as grandes banalidades são eternas,
e que esta, não sendo original, como coisa nova, é original, flagrantemente original,
como coisa que vem da origem, do começo, do princípio, quase do verbo.

Conviva 1: (Em exclamações de surpresa.) - Ah!...

Conviva 2: - Ah!...

Conviva 3: - Ah!

Homens todos: - Oh!...


(Cochicham umas com as outras. Os Homens riem.)

Protagonista: - Disse-a, a primeira vez, Adão, assombrado e entupido.


(Levando o dedo à garganta.) duplamente entupido, ao ver Eva, sorriso
que Deus lhe dera para tornar o Paraíso mais paraíso, conluiada, com uma
serpente…- uma serpente para o estontear, ludibriar e precipitar na pena
eterna! Mulheres, ninguém as entende!...(Mulheres cochicham.)

Primeiro Homem: (Discreto)- Muito bem! (Os homens dão palmas


surdas.)

Presidente/amiga: (Indignada com as palmas, faz um enérgico)


Schiuu!... (Faz-se silêncio com calma forçada.) Fica dito duma vez para
sempre. Eu não consinto que elementos extra se intrometam nesta festa,
nem mesmo para aplaudir. E aproveito a interrupção para advertir a
oradora de que só pode dirigir-se à presidência, que sou eu.

Protagonista: (Com um olhar expressivo, aos Homens.) – Só posso


dirigir-me á presidência. Mas ainda posso continuar. (E continuando.) -
Pois dizia eu, Senhora Presidente... (Com desdém.) Que mulheres,

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ninguém as entende! Bicho raro! Ser estranho! Dizem e desdizem! Querem
e não querem!

Advogada/amiga: (Sem se conter.) – E onde quer a senhora chegar com


isso?!

Conviva 1: - Está desvairada! Corte-lhe a palavra.

Conviva 2: - Senhora Presidente! Corte-lhe a palavra!

Conviva 3: - Corte-lhe a palavra!

Protagonista: (Piscando os olhos aos Homens) – Já não querem.

Presidente/amiga: - Calma! Calma!

Advogada/amiga: - Esta festa está fora de si, fora de controlo!

Presidente/amiga: - Calma.

Advogada/amiga: - …A especular com lugares-comuns subversivos!


Está alcoolizada! (Presidente impõe-lhe silêncio num gesto.)

Convivas todas: - Está louca.

Ingénua/amiga: (Tocando de mansinho no ombro da Protagonista.)–


Está…Está...

Protagonista: (Irritada.) – Também tu?! Estou o quê ?! O Que é que eu


estou?!.. (Aponta-lhe timidamente o giraço.)

Giraço/Boneco: (Quando a Protagonista o olha) – Esta a tapar-nos a


vista.

Protagonista: (Avançando para ele, e trazendo-o por um braço.) – Oh


criatura!... Peço desculpa! (Os dois ficam a se olhar apaixonados.)

Convivas juntas: - Huuu!-Huuu! (Vaiam.)

Advogada/amiga: - Amiga Presidente! Peço providências!

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Presidente/amiga: (De pé, indignada.) – Isto é de mais! Levante-se!
Levante-se!

Ingénua/amiga: (Erguendo-se atarantada.) – Eu?!

Giraço/Boneco: (Arregalando o olho.) – Eu?!

Presidente/amiga: (Sufocada de raiva) –Isto excede todos os limites!


Vamos embora, mas antes, convido as mulheres que se mantiverem dentro
da ordem e dos bons princípios a reunir comigo no lounge.

Ingénua/amiga: (mal elas saíram a abanar-se muito) –Uff!!...Ainda


bem! (ergue-se) Já não se podia mais…(Dá um passeio sufocada,
regressando) – Que fumo fazem as mulheres fumadoras!

Protagonista: -Oh filha! O remédio é fácil. Venham cá. ( vai ao fundo,


abre de par em par a porta de vidro que comunica com o terraço, encosta-
se á ombreira e, ultra-romântica) Oh! Noite de maravilha! Que noite
prodigiosa!.. o ar está fresco como bocas frescas! (a Ingénua e o
Giraç/Boneco principiam a caminhar para a porta, como atraídos).
Coalha o luar nos ramos preguiçosos... E além... Vejam além! Parece
vidro, a estilhaçar-se no vaivém das ondas!

Ingénua/amiga: (Enlevada.)-Que noite prodigiosa!.. (Caminha e


direcção ao Giraço.)

Giraço/Boneco: -O ar está fresco… como bocas fresca…

Ingénua/amiga: -E além, além!... (Saem muito estreitados).

Protagonista: (segue-os um momento com a vista e, numa transição


rápida, correndo aos Homens, muito animada) –Enfim!... Sós!... (De
braços abertos, a meio da cena).

Primeiro Homem: (aos outros) –Rapazes! Protejam-se!

Protagonista: (surpreendida) –Proteger?! Que é que ele disse? ( e


dirigindo-se ao segundo homem) Não foi – protejam-se – que ele disse?

Segundo Homem: (seco) –Não sei. Não ouvi. (afasta-se)

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Protagonista: (muito intrigada) – Não sabe e foge? Não ouviu? E
foge!... Julgam que eu mordo? (Um tempo) Espera ai. (caminha lentamente
até o Desgraçado. Este treme, mas fica. Ela surpreendida por ele ficar)
Então não foge?

Desgraçado: (com o beiço trémulo) –Não posso! Parece que estou


pregado. (Em grande lástima.) Eu fui sempre muito infeliz!...

Protagonista: -Nem precisa de fugir, criatura! Esteja tranquilo! Não


trema. (transição) Não são minha especialidade os homens tímidos. Mas
ele reanima-se já. Tragam café e whisky para este homem.

Desgraçado: -Ai! Whisky!...Estou perdido.

Primeiro Homem: (passando junto dele) –Desgraçado! Lembra-te da


tua mulher e dos teus filhos.

Protagonista: -Filhos!... (Ao criado.) -Espera, espera. (E vindo junto do


Desgraçado.) O senhor é casado?

Desgraçado: -Desde miúdo. Eu fui sempre muito infeliz!

Protagonista: -Não tragam nada.

Desgraçado: –Pronto, já sabia…Que raio de sorte a minha! (Vai sentar-


se ao fundo.)

Protagonista: (Seguindo-o com a vista.) –Esta malta dos casados devia


acabar de vez. Ou que usassem um sinal exterior, uma marca de fogo…
Um aviso às desprevenidas, para não perder tempo. (Depara com o
segundo homem, que veio colocar-se-lhe propositadamente no caminho, a
cortar a ponta de um charuto. Olha-o e, num julgamento rápido) Solteiro.
Solteirão Professional, un “playboy” bastante usado e “démodè”. Não
gosto. (Segue para a direita).

Segundo Homem: -Olha a parva! Não gosta… (Atira-lhe o fósforo


apagado, guarda o charuto, como mal empregue nela, e põe-se a passear,
cheio de indignação.)

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Protagonista: (Já direita, fitando o, Belo-Bruto.) -Belo tipo! Belo
Bruto! (Belo-Bruto mete as mãos nos bolsos e olha-a de revés) Belo tipo,
sim senhor.

Belo-Bruto: -Você comigo não se meta, que eu não ando de dieta e roo-
lhe algum pedaço.

Protagonista: - Não me enganei. Belo-Bruto!

Belo-Bruto: (Ao Primeiro Homem, que se aproximou.) –Está com


saudades dos mortos. Tem saudades dos maridos. Apetece-lhe ir fazer-lhes
uma visitinha piedosa, e vai… (Sente-se-lhe a vontade de executar a
ameaça.)

Protagonista: -Belo tipo!

Belo-Bruto: (Tenta agarrá-la, o que o Primeiro Homem impede.) – Se


eu lhe deito a mão, vai mesmo. Não volta a enviuvar de mais
ninguém.

Protagonista: (Enternecida.) -Menino, torrão de açúcar! Ias p´ra cova


dum dente.

Segundo Homem: – Que mania de os meter todos na cova!...

Protagonista: (Reparando que o segundo homem volta a parar junto dela.) –Com
que então, não pretende?!(Ele volta as costas, sacudido. Protagonista, em tom
declamatório.) Pois, amigos! Vou contar-lhes uma história. A minha história.
(Aproximam-se todos um pouco. Ela senta-se). Quando casei pela primeira vez. Tinha
quinze anos! Era uma flor! Um botãozinho vermelho a desabrochar, curioso para
descobrir a vida,! (Pausa.) O meu marido…Como hei-de descrevê-lo? Era um
espargo; - franzininho, debilzinho, muito loiro… (Pausa. Voz cava.) Tinha vinte anos!
(pausa comovida) Já não lhes festejei os vinte e um. (Limpa uma lágrima. Transição
rápida. Alegre.) Viuvinha, aos dezasseis, foi minha, então, a ânsia de casar. Queria
um homem sadio, vigoroso. E encontrei. E casei. Um calmeirão! Cem quilos!...
(Pausa. Comovida) Tombou ao quarto dia, como um touro! (Os homens recuam. Ela
chora. Limpa os olhos) Congestão fulminante. (E erguendo-se irada.) Oh! Que
desespero!...Ao vê-lo inerte, no chão, desfazendo-se em sangue, apavorei-me. E corri
à janela, desvairada. (Gritando!) Pedi socorro. (Gritando mais.) Socorro! Chamem o
INEM! -Voltei para dentro. Debrucei-me, ansiosa, sobre aquela montanha inerte!
Sacudi-o. Beijei-o. Revolvi-o. Quis incutir-lhe vida, soprar-lhe o meu próprio

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alento!... (Numa revolta!) Mas a nada o bruto se movia! (Engole a custo o nó da
garganta.) No auge do desespero, enchi-o de pontapés e bofetadas! Cuspi-lhe na cara
roxa!
Protagonista: (A afastar-se prudentemente.) – Belo-Bruto!(Esbarra com o segundo
homem e, enfadada.) Oh! Homem! Saia-me da frente. Não lucra nada com isso.

Segundo Homem: -Nem pretendo. (Regressa ao fundo.)

Protagonista: -Não pretende!...(Ri.) Como se eu os não conhecesse bem... Dá-me


essa cadeira, faz favor? (Ele executa, chegando-lha muito longe.) Coitadinho! Tem
medo. Tem medo. Tem medo de me tocar; não tem, menino?...

Todos os Homens: (Arrepiados.) –Oh!...

Todas as Mulheres: (Radiantes.) –Ah!...

Protagonista: (Aos Homens, humilde.) –Compreendo a vossa indignação. Mas eu


tinha diante de mim o descrédito. Aquela morte, em noventa e seis horas
incompletas... era uma desgraça tremenda, uma mancha na minha reputação, a pesar-
me sobre os ombros com todo o peso bruto daquele bruto! (Chorosa.) Uma carreira
arruinada! Quem mais me quereria? (Chora. Os Homens, Já comovidos, dizem que
sim com a cabeça. Transição rápida.) Aos gritos de socorro acudiu gente. Viram-me
bater no morto! Fui presa como assassina! Pairou sobre mim, sinistro…(Tétrica.) – o
“erro judiciário”!...(Contente.) Mas…( Ri.) Casei com o meu advogado, um amor de
velhinho, uma alma generosa e condoída, que me dotou com um milhão! (Intencional,
aos Homens) Um milhão!...moeda antiga!... (E sentando-se repousadamente.) Nunca
mais tive dificuldades para casar.

Todos os Homens: (Em coro, entreolhando-se.) –Um milhão!...

Belo-Bruto: (Consigo mesmo.) -moeda antiga…

Protagonista: -E todos os outros maridos, mais ou menos, me têm deixado alguma


coisa.( Os Homens foram-se aproximando. Formam agora um círculo em volta dela.
A Protagonista pressente-os, sorri-lhes e pousando os olhos no chão.) Hoje estou
benzinho! Sim. Estou mesmo muito benzinho…

Desgraçado: (Aos outros.) -E algum dia há-de chegar quem lhe sobreviva.

Protagonista: -Evidentemente.

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Desgraçado: -Quem não se aventurou, nem perdeu, nem ganhou. Eu, não podia.

Protagonista: -O senhor?!...

Desgraçado: -É verdade. Sou casado. Que raio de sorte a minha! Sou casado,
casadinho da silva.

Segundo Homem: (Dengoso.) –Mas não sou eu…

Protagonista: (Arremendando-o.) -O senhor não pretende…

Segundo Homem: -Pretendo sim, o milhão.

Protagonista: (Sorri a todos, faz uma festa ao segundo homem, agita a cabeça num
gesto negativo, levantando-se e, apontando a Belo-Bruto.) – Prefiro aquele.

Belo-Bruto: (Que se conservou sempre á direita baixa, de mãos nos bolsos,


coçando a cabeça, tentado.) -Mau! Mau! Mau!

Protagonista: -Aquele! Aquele! (Provocadora.) Prefiro aquele, mas quê?!... É um


cobarde, tímido, maricas….

Belo-Bruto: -Maricas?!...(Fecha os punhos como para a agredir.)

Protagonista: -Maricas, sim! Um maricas, que se arma em valentão para ameaçar


mulheres, e que não se casa por medo… (Vindo, ás outras.) Tem medo de morrer!...
(Riem todas).

Desgraçado: -Ai! Se fosse comigo!... raios de sorte!

Segundo homem: -Ou comigo.

Primeiro Homem: -Deixa-os lá. Não faças caso.

Segundo Homem: -Porquê? Se ele quiser casar, que case.

Belo-Bruto: (Recua uns passos, puxa o cós das calças e decidido.) –Pois é para já.
Mande arranjar os papéis.

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Protagonista: (A rir muito.) –Os papéis?! Esses tenho eu sempre prontos, desde o
dia em que vocês morrem.

Belo-Bruto: -Os meus ficam prontos amanhã.

Segundo Homem: -Tire também a certidão de óbito.

Desgraçado: -Eu cá tirava.

Belo-bruto: -E condições?

Protagonista: -Ponho só uma.

Belo-Bruto: -Também eu. Não há escritura. Tudo ali. Comunhão geral de bens.

Protagonista: -Ai que o malandro que não tem dez euros! (Sorrindo.) Pois a minha
é mais espiritual. Quero o primeiro beijo. (Surpresa de todos. Ela, naturalíssima.)
Quero ser eu a dar o primeiro beijo. Fiz com todos. Dá-me sorte.

Belo-Bruto: (Espertalhão.) –Ah!... (Transição.) Recuso!

Protagonista: -O primeiro beijo é meu.

Belo-Bruto: (Mais brusco ainda.) –Recuso (E como a si mesmo.) –Dá-lhe sorte,


hã!? Dá-lhe sorte…

Protagonista: - Pois tem de aceder ao meu desejo. (Aproxima-se.)

Belo-Bruto: (Empurrando-a.) – Isso vê-se depois.

Protagonista: (Enérgica!) –E porque não há-de ser já? (Recua uns passos e,
desafiando-o para meio da cena.) –O primeiro beijo é de quem o der. Salte pr´aqui.

Belo-Bruto: - Este diabo dá cabo de mim antes de tempo. Então não quer disputar o
primeiro beijo à bofetada, aqui, diante de todos!...

Protagonista: - Que foi?! Não somos noivos?

Segundo Homem: - Fila-a e beija-a tu primeiro, e acabou. (Empurra-o. Ele recua.)


– Avança, avança… (Entre ambos, acirrando-os como se fossem cães.) – Kiss!
Kisss!...

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Som Nº2 – (Grande algazarra,Circence,grupal,tribal,primitiva!)
(Os dois avançam finalmente, curvados e cautelosos como dois gladiadores. As
Mulheres, que estão á esquerda, e os Homens, que estão da direita, avançam também
num natural movimento de curiosidade e formam um circulo em volta dos lutadores,
que os oculta das vistas do público. Movimentos de ansiedade que marcam várias
fases da luta e que terminam por uma exclamação de regozijo. A seguir as Mulheres e
os Homens recuam á posição primitiva).

Todas as Mulheres: (Da esquerda e em uníssono.) – Foi ela!

Todos os Homens: (Da direita e em uníssono.) – Foi ele.

Todas: - Ela.

Todos: - Ele. (E a teima prossegue, num crescente sucessivo de andamento e som.)

Belo-Bruto: (Subindo ao estrado do fundo e em voz poderosa.) – Fui eu...

Protagonista: (Imitando-lhe os movimentos e atitude.) – Fui eu!...

Segundo Homem: (Ao público, numa grande gargalhada de troça.) –Ah! Ah! Ah!

Frize (todos)
(Em casa da Protagonista, já no decorrer do seu vigésimo matrimónio. Estamos no
escritório do marido. Todas as personagens se conservam quietas e suspensas, como se
uma petrificação súbita e colectiva lhes tivesse paralisado instantaneamente os
movimentos. Decorrem uns segundos e logo surge do fundo o “Primeiro Homem”, que
desce até à ribalta. Ninguém se move nem pestaneja enquanto ele fala.)

Primeiro Homem: (Saudando o público.) -Senhoras e senhores! O quadro estático


que tendes diante dos vossos olhos surpreendidos carece de explicação. Vejam, meus
senhores, antes de mais nada, o notável exemplo de disciplina e honra artística com que
todos os varões da companhia cumprem o seu dever. Sem pestanejar, sequer, na aliás
difícil e delongada postura, tal como quem espera o sinal de partida para o quilómetro de
arranque, aguardam as pancadas de Molière para atacar a acção. Assim temos: Belo-
Bruto, estagnado.(Belo bruto movimenta-se e começa a arrumar o cenário. Como se

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estivesse em casa.) Um homem casado, consorte da Protagonista, em transe da viúvez
pelo nascimento dum filho-fenómeno, dum filho inconcebível, diria eu, se os factos
provassem o contrário, dum filho recém-chegado de Paris constrangido na estreita
embalagem!...Há! (Belo bruto contrói a dita embalagem com o cenário.)....Grande filho!
O caso ocorreu há instantes, mas espalhou-se rapidamente pela cidade. Apaixonou a
imprensa, sempre pronta a cair de amores pelos assuntos que o merecem. E assim a
tendes aqui, na pessoa do Redactor Principal do jornal de maior tiragem do País. (Move-
se e vai ajudar o Belo-bruto com o cenário, Leva uma fita métrica.) Também o principal
Repórter de uma grande emissora internacional a desenhar “rabiscos” e a tirar
apontamentos sobre tudo, sobre todas as minúcias deste grande lar em festa, pelo
nascimento dum robusto menino! (O repórter também vai ajudar com o cenário e o
ajudante o segue.) Exemplar da mesma espécie, mas com características diferentes,
tende-lo aqui: o “Ajudante”. Propõe-se a ajudar! Está a fotografar o Menino em tamanho
natural com sua máquina digital, claro(Uma lambe-lambe.) Virá em números sucessivos.
Não é bem em fascículos …como dizer? Vem em doses…Enfim, às postas. (transcrição
muito viva) O Repórter pretende reconstituir desde o inicio, nas passagens mais intimas,
nas suas fases mais lancinantes, o fenómeno nunca visto, o primeiro choro do nosso
baby-maravilha e quiçá, o suspiro derradeiro da heroína que o gerou! Assim estamos
dentro da acção. A destreza deste conjunto, como impelido por mola oculta, se porá em
movimento, às pancadas de Molière. (Bate as pancadas de Moliére. À terceira a luz
modifica-se. A acção irrompe, instantânea. Ruídos fora de martelos e tábuas Grande
actividade. O”Ajudante” monta o seu respectivo material digital. O Primeiro Homem
desaparece ao principiar a acção.)

Belo-Bruto: (Num rompante.) - Não, não e não! (Abre a carta.) Abre!

Redactor: -Mas… (Belo-Bruto, a ler, não o atende. Ele, aproximando-se, tímido.)


Eram apenas 2 minutos…

Belo-Bruto: (Com um forte murro na mesa e erguendo-se, irritado.) -Já disse que não.
(Todos em cena suspendem os seus movimentos e ficam a olhá-los. Belo-bruto passando
á esquerda.) Tudo o que cheirar a imprensa, aqui dentro, está a perder tempo. (Continua
a passear.) Não deixo tirar fotografias, não forneço a menor notícia.

Redactor: -E porquê, faça favor?

Belo-Bruto: -Porque não quero, estou na minha casa. Estou no meu direito. Não quero
e pronto. Não foi o que os senhores me responderam quando eu lá fui por causa do
casamento?

Redactor: - Que sei eu disso?...

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Belo-Bruto: - Pois fique a saber. Essa é boa!...Para gozarem não lhes faltou espaço. E
se eu lhes queria desmentir as falsidades, que desmentisse mas que pagasse. Pois aqui,
nem pagando. Perdem o tempo. Adeus. (dirige-se para o Repórter, de forma agressiva).
O senhor é dos jornais?

Repórter: - Eu sou de uma grande Emissora Internacional.

Belo-Bruto: (Amável.) – Ah! Muito bem! Sente-se aqui.

Repórter: - Eu sou do cinema, da televisão, da Internet e da rádio, sou tudo isto!

Belo-Bruto:– Gosto de cinema. Passe para este lado, por favor. (Transição. Novamente
agressivo.) Existe mais alguém da imprensa? (Para a plateia.) E hoje não recebo mais
ninguém. (Avança para a galeria e como quem lhes indica a saída.) Hoje não recebo
mais ninguém, já disse. (Depois, fala para os bastidores.) Olha, olha!...Que é aquilo? O
que é que o senhor anda a fazer aí dentro?

Redactor: (Surgindo da direita.) – Muito interessante! Muito interessante! Faz-se um


artigo estupendo só com isto.

Belo-Bruto: - Isto é espantoso!…

Redactor: – Não tenha a menor dúvida. Estão aqui todos, não é verdade? Estão aqui
todos os seus antecessores?

Belo-Bruto: (Surpreendido com o descaramento.) – Sim, senhor! Como isto nunca vi.

Redactor: - Nem eu. Uma mulher que consegue uma galeria de maridos desta extensão
e volume honra o sexo a que pertence. E a colecção vai prosseguir, tenho a certeza. Ela
não morre. Qual morrer! É imortal. (Ruído de telemóveis começa por toda sala, com
violência. E ele, enervado.). Irra!... É demais! Não se pode trabalhar. Parem-me lá com
isso. (Um tempo.) Parem com esse barulho. Não se pode conversar, não há condições. (O
Ajudante e Repórter desligam seus “telemóveis”.)

Belo-Bruto: (Estupefacto.) – Mas que é isto! Ele devassa-me a casa, e suspende tudo.

Ajudante: (Para o Repórter.) – Descanse, patrão. Está tudo pronto. Aqui dentro já
não há novidade.

Belo-Bruto: - Como, não há novidade?

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Ajudante: - Está tudo pronto. Aqui já não se faz mais nada.

Belo-Bruto: (Louco e delirante.) - E o que é que isso tem? Eu creio que a casa é minha,
os operários são meus, tudo isto é meu. Quero os móveis cobertos, vocês vêm e
descobrem-nos, e depois dizem que não há novidades! Como é que não há novidade!...

Redactor: - Pois crê mal. Tudo isto era seu, ontem.

Belo-Bruto: - Como?!...(Ao repórter.) O quê?? O que é que ele quis dizer com aquilo?

Redactor: (Imperturbável.) – Tudo isto era seu ontem, porque a vida se arrastava aqui
dentro, duma forma banal e estúpida, que não interessava ninguém. Mas passou uma
noite. E com ela, factos anormais surgiram. O interesse da cidade recaiu sobre eles.
Amanhã recairá sobre eles o interesse do País. A opinião pública quer saber, esmiuçar,
discutir! Quer fazer-lhe frente, amigo? A opinião pública é soberana. Perante ela o senhor
ficou automaticamente expropriado. Nada disto é seu, nem meu…É nosso. É de toda a
gente que o queira desvendar, analisar, e publicar. Enfim! A sua casa passou a ser notícia.
Um furo jornalístico, e acabou.

Belo-Bruto: (Olhando em volta.) – Não, ainda há-de haver pr´aí um sarrafeiro que me
pertença, e se eu lhe ponho as unhas em cima, e desato a estalada, é a correr tudo para a
rua…

Redactor: - Santa ilusão. Não adiantava nada com isso. A curiosidade pública é um
polvo monstruoso, do qual vitima alguma jamais conseguiu desembaraçar-se. Desde que
ele o envolveu nos seus tentáculos, que somos nós, os jornalistas, o senhor é nosso. Passo
até a tratá-lo com mais confiança. Tu, a tua mulher, o teu filho...

Belo-Bruto: - Tu?!..

Redactor: - …a tua casa, os teus criados, os teus haveres, tudo isso vai ser sugadinho
por nós até á ultima gota de interesse que conseguirmos descobrir-lhe, ou inventar-lhe. O
melhor é renderes-te já ou enveredo por caminhos mais complicados… O que não posso
é perder tempo, vou entrar no quarto! Vou fotografar a mãe e filho, na situação em que os
encontrar. Quanto pior, melhor, entendes?

Belo-Bruto: (Colocando-se entre eles e a porta.) – Pois entre. Atreva-se a passar, se


for capaz.

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Repórter: (Tomando partido de Belo-Bruto.) – Muito bem! E eu sou o primeiro a
colocar-me a seu lado, contra tamanha prepotência! (Aos colegas.) A sua atitude é
inqualificável!

Redactor: – Ai o malandro!...

Repórter: – Malandro não! Bati-me sempre, todos o sabem, pela liberdade da imprensa,
que exijo seja respeitada em todas as justas prerrogativas da sua alta missão. Sou
suficientemente constitucionalista para colocar acima de tudo o princípio da
inviolabilidade do lar. O que vocês estão a fazer é indigno, repito. Indigno da…

Primeiro Redactor: (Irónico.) - …da nobre profissão do jornalismo, bem sei. O que
queres é ficar sozinho em campo. Pois vou fazer-te a vontade. Tenho melhor caminho.

Repórter: – Hei-de levar a questão ao sindicato.

Redactor: – Sim, filho! Está entendido. (A Belo-Bruto.) A questão, vista do lado dos
seus inimigos, ainda tem maior interesse. E o senhor verá o que fez, e a quem o fez.

Belo-Bruto: – Nunca temi ameaças.

Redactor: – Pois há-de pedir batatinhas.

Belo-Bruto: – Batatinhas, eu?! Batatinhas!... (Ao Director da Empresa


Cinematográfica.) Ai! Que eu mato um, querem ver? (Apalpa o bolso da pistola; vai
depois à secretária e a revolver as gavetas.) Querem ver?

Repórter: – Perdão! Perdão!... Dê-me ao menos dois minutos. (E logo o Ajudante trás
um espelho para o Repórter que se olhar.) Vamos filmar esta cena. Os projectores
daquele lado. Aqui um “platonnier”! O cabo na tomada, por aqui, depressa.

Belo-Bruto: (Ainda a remexer as gavetas.) Querem ver, querem ver?... (Vê de relance
que pretendem arrancar o lustre, e correndo ao meio da cena.) O que é isso?! Que diabo
vai você fazer?!...

Repórter: – Não se aflija. Fica tudo como estava. Vou pôr aqui um “platonnier”.

Belo-Bruto: – Um quê?

Repórter: (Que já puxou o cabo, vindo a ele.) –Lâmpadas suspensas que dão a luz
ambiente. Projecta-se dali luz concentrada. O senhor dispara deste lado, sobre aquele.

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(Indica a direita alta, onde o Primeiro Redactor está tranquilo a guardar papéis na
pasta). A câmara fica daqui…

Belo-Bruto: – Mas para que é tudo isso?

Repórter: – Para o senhor matar o homem.

Belo-Bruto: – Qual homem?

Repórter: – Aquele, não é? (Aponta o Primeiro Redactor.)

Repórter: – A mim?!... Não vale a pena. Eu retiro-me já. Vou-me embora. (A Belo-
Bruto.) E há-de ter notícias minhas. Verá com quem se meteu. (Saem.)

Belo-Bruto: – Quero lá saber. (Fica a vê-los sair. Depois leva a mão ao queixo,
reflecte, e como a si mesmo.) Quero lá saber, não! Este jornal foi o que mais ridicularizou
o meu casamento. Afligiu-me bem. Roubou-me muitas noites de sono! Agora vai
importunar-me! (Desce, consumidíssimo, ao primeiro plano, senta-se no sofá e de mãos
na cabeça.) Oh! Senhores!... Mas como me foi cair esta escumalha em casa?! Que lhes
fiz eu?! (Exaltadíssimo.) Que mal fiz eu a estes abutres para que não me larguem?!... (As
figuras de cena vão-no rodeando.) E lixam-me a vida! (Lacrimoso.) Agora que ia tudo a
correr tão bem!... Eu ficava com o pequeno, com a casa, com os rendimentos, … (Crise
de choro. Limpa as lágrimas. Assoa-se.) Pois vão lixar-me. Hão-de arranjar qualquer
sarilho que me lixe! (Novo desespero). E para isto não há censura!

Repórter: - Lagarto! Lagarto! Lagarto! (Atravessa para a secretaria, onde se senta a


escrever.)

Belo-Bruto: (Apruma-se, puxa as calças e num desespero.) – Se aqui entrasse uma


dúzia de desgraçados, perdidos de fome, a exigir pão, eu chamava a polícia, e era uma
maravilha. Tudo prá prisão! (Passeio agitado.) Entram estes piratas, mexem, remexem,
põem, tiram, estragam, partem, e de cara alegre! Bico calado, ou tenho que pedir
batatinhas!... (Novo passeio.) Batatinhas!...(Mais alto.) Batatinhas!... Tiram tudo e saem,
um bando de abutres. Aí que eu não respondo por mim!...

Repórter: – Então não vamos filmar???

Belo-Bruto: (Fora de si.) – Vamos filmar o raio que os parta!

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Diplomada (conviva 1): (Entre abre a porta da direita, mete a cabeça e nem gesto
de silêncio.) –Chiu!.. O menino está a tentar dormir. (Fecha de novo a porta, com
cuidado.)

Belo-Bruto: (Mais baixo, para o repórter, que se recostou comodamente no sofá.) –


Intervenha o senhor, pela sua rica saúde! Quero tudo como estava. Eu sempre gostei
muito de cinema, mas veja bem… Ali dentro está uma moribunda! Uma pobre mãe que
resiste ao abalo formidável que sofreu! E então se sabe que lhe andam a mexer nas suas
coisas!... Que horror! Que horror! Que horrível agonia!...

Repórter: (Indiferente.) – Nós temos que filmar isso tudo…

Belo-bruto: – Pela sua rica saudinha!... (O telefone retine. Ele estremece, olha-o com
pavor, e em voz tétrica.) Mas quem é que será agora?... (Novo toque. Ergue-se
lentamente e aproxima-se receoso.)

Repórter: (Quando Belo-Bruto chega perto do telefone.) – Deve ser para mim.

Belo-bruto: –Consigo para aqui?!…

Repórter: –Para mim aqui sim. Pois não é aqui que eu estou? (Ao telefone.) Diga.
(Pausa.) Quem fala? (Um tempo. Depois, muito risonho.) Sou eu mesmo. ( Pausa.) Estou
sim, Afastei a concorrência. Isto é um caso formidável!... O «Estractoferropyrhorcite»
vai ser estrondosamente lançado!... ( Ligeira pausa.) Trouxe. Trouxe uma amostra
( Procura nos bolsos. Tira uma pequena lata e pousa-a secretária.) O caso é
anormalíssimo. Muito mais extraordinário do que se dizia. Nasceu esta noite com oitenta
e sete quilos de peso!... Não é uma criança é um cavalo!...Uma besta insaciável!... Já lhe
trouxeram três amas. Fogem espavoridas. A mãe está voltada do avesso! Esgotadíssima.
Coitada! Não resiste duas horas. (Pausa.) Vai ser um golpe publicitário inédito! Um
vampiro que suga a própria mãe logo a nascença, que põe as amas em debandada, que
tresmalharia uma manada de vacas, se a encontrasse, e que, com duas colheres de
«Estractoferropyrhorcite», tomba redondo, cheio como um abade! Há!... Isto bem
arranjadinho, é a sorte grande que lhe caiu em casa, e na minha… (Olhando em volta) e
na de uns amigos que aqui estão e que é preciso interessar no negócio, tenha paciência.
(Pausa.) Representantes duma empresa cinematográfica querem fazer um guião e ainda
uma empresa emissora – uma estação de rádio. (Pausa.) Pois convém, é claro. Então eu
sou parvo? (Pausa.) Bem. Não diga mais nada. Eu cá me desenrasco. Adeus. (Pousa o
auscultador e noutro tom, para os que escutam.) – Depois disto, meus senhores, creio
que também não preciso de lhes dizer mais nada. (Faz-lhes sinal de que se sente. Sentam-
se, satisfeitos. Ele, de pé lata na mão e em tom e modos de prestigiador de feira.) O
«Extractoferropyrhorcite» é um produto de fórmula encontrada, mas de efeitos
surpreendentes –Produtos de maravilha, que é preciso lançar no mercado nesta

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oportunidade. (Arregaça a manga e erguendo a lata.) Aqui está ele!... (Depois aponta o
rótulo.) Extracto de ferro… Extracto de ferro. Não é, é claro, extracto de um ferro vulgar.
É de um outro ferro, muitíssimo mais ferro, e de muito maior alimento!... Daqui lhe
provém a rigidez, a força que transmite ao organismo por assimilação, não lenta e
deficiente, como a dos produtos congéneres, mas de acção revulsiva, poderosa,
combativa, digamos…(Apontando o rótulo.) ferro pyro! Ferro e fogo! (Belo bruto
confrangido como se tivesse ingerido o produto.) Extractoferropyr-horcite. Horcite é o
que torna este alimento…

Belo-Bruto: -Cavalar…

Repórter: (Sorri desdenhoso e com grande pose.) —Horcite… marca a energia. Cada
lata, cada latinha destas, tem a força de cinquenta cavalos! (Arregaça de novo a manga e
exibindo o produto.) Aqui, meus senhores, não há composição de espécie alguma... além
das que o próprio nome indica. Isto é o que rigorosamente podemos chamar alimento
dinâmico, pólvora alimentícia!... Duas colheres a cada refeição, e o efeito produz-se num
relâmpago - evidente e instantâneo!

Belo-Bruto: -E eu entro no negócio?

Repórter: (Confidencial.) —O senhor entra com a criança, nós com a publicidade e os


produtores com o produto... e com o dinheiro.

Belo-Bruto: -E lucros? A partilha dos lucros?...

Repórter: -Divide-se igualmente o que render.

Belo-Bruto (Depois duma reflexão ergue-se e, em voz de comando ao Ajudante.) -Mas


o que é que os senhores estão a fazer aí parados? Vamos já começar a filmar!

Repórter: -Perdão, perdão! Quem comanda o barco sou eu. (Ao ajudante.) Recolha
todo o material.

Belo-Bruto: (Aflito.) —Para quê? Para quê?... Pra´ aqui vem a tal coisa da luz. Que mal
faz? Ora essa!...

Repórter: (Calando-o num gesto.) —Recolham todo o material à carrinha. Como


sabem o cinema e a tv são elementos prodigiosos, porque se vê. (Apontando os olhos.)
Vê-se!... E então, no caso presente, quando a criança começar a comer e a crescer, e a
comer e a crescer, ali, nas barbas do público, hã?!... (Transição.) Exige, porém, uma

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preparação lenta e cuidadosa. Só em “estúdio” se filma em perfeitas condições.
Reproduziremos lá estas salas. Quantas serão precisas?

Ajudante: (Olhando em volta.) —Esta!

Belo-Bruto: (Comovido.) —Esta… chamava-lhe a minha defunta mulher — armazém do


material em trânsito. Compreendem... É nesta sala que está sempre o retrato do marido
vigente. (Aponta o seu próprio retrato.) Daqui somos trasladados, um a um, para a
galeria. Esta galeria. (Novamente comovido.) A galeria dos nunca assaz suficientemente
chorados, como ela lhe chamava, coitadinha! Agora vinha eu. (Limpa uma lágrima.)
Nestas duas divisões e naquele quarto... (Indica o da direita.) passávamos quase todo o
nosso tempo.

Repórter —Reproduzem-se as três divisões. Dinheiro não falta, e trabalha-se lá melhor.


(Ao ajudante.) Agora nós. O nosso caso é mais urgente. É preciso que enviemos as
primeiras imagens do grande acontecimento. Claro que nada se diz por enquanto do
produto. O produtinho vem depois. Aparece metido aqui e ali, chucha caladamente.

Ajudante: —Já temos o sinal do satélite.

Repórter: —Eu encarrego-me de tudo, escrevo um texto bem condimentado. (A Belo-


Bruto.) Para o senhor declamar ao vivo.

Ajudante: —O que era preciso era virem comigo agora, o pessoal transmite, e pronto.
(A Belo - Bruto.) Mas poderá o senhor sair, estando a sua mulher assim tão mal?

Belo-Bruto: (Apalpando-se todo.) —Eu?!... Eu posso. Ela, coitadinha, é que não pode.
Mas eu estou bom. (Olhando em volta.) O meu chapéu? Vamos, vamos. Venham por
aqui.

(Som - Nº 3 Tic – tac) - Ruídos destorcidos… grande ressonar.

(Logo que a cena fica vazia, abre-se a porta da direita e a Conviva espreita. Verifica
que não está ninguém e regressa, trazendo consigo, quase pendurada pelo pescoço, a
Protagonista. Esta vem irreconhecível de magreza.)

Conviva/Amiga 1: (Amparando a doente.) — Segure-se a mim. Vá. Devagarinho.


(Chegam ao sofá.) Aqui conseguirá dormir. Lá dentro era impossível. Raios, que nunca
ouvi ressonar assim! Que bruto!... (O ruído aumenta.) Olhem pr'aquilo!... (Deitou-a e
aconchegando-a.) Está bem? (A Protagonista deixou cair a cabeça como uma pedra, e

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não responde. Os roncos dentro aumentam muito.) Olhem pr'aquilo!... (Principia a
ressonar a Protagonista, profundamente adormecida. Ela, com grande surpresa.) Ai!
Isto é à vez?... Pois também vai chegar a minha, que bem preciso. (Desaparece depois
pelo fundo para a direita)

PROTAGONISTA: (Passando um tempo e num grande estremeção.) Hum!... (Deixa de


ressonar e permanece uns segundos muito quieta. Novamente agitada.) Não! Não!
(Encolhe-se, sempre a dormir, e logo surge a Advogada, atrás aparecem todas as
Amigas da festa menos a Ingénua. Vêm envoltas em mantos negros e põem na situação o
máximo de mistério, cómico e pesadelo. Logo que aparecem as Mulheres a cena
ilumina-se com uma luz vermelha que vem do alto. A Presidente, que foi a que surgiu por
trás da secretária, vem ao centro e comanda as outras em gestos de sinaleiro macabro.
Assim as reúne num círculo, ao fundo, o que aumenta a agitação da Protagonista. A
Protagonista contorcendo-se.) Não! Não!... (Todas se curvam, cerrando o círculo, e
irrompe do chão, no meio delas, com um ruído mágica, a figura do Primeiro Redactor,
agora vestido de Satanás. As Mulheres recuam saudando-o de braço erguido. Ele vem
ao sofá e examina a doente.)

(Som - Nº4 ) – Ritualista e macabro.


SATANÁS: (Às Mulheres que o seguiram.) — Já tencionava aparecer-vos hoje, mesmo
que não me tivésseis evocado. Que quereis? Falai.

ADVOGADA: (Passado um tempo.) —Eu falo. (Dirige-se à secretária, pousa a pasta, e


resoluta.) Excelentíssimo aliado nosso! Sabeis quão dedicadas vos temos sido sempre,
desde que o mundo é mundo!

TODAS: (Em coro soturno.) — Sempre!... (Aqui a sincronização com a música e


importante.)

ADVOGADA: —Sabeis quanto a vossa obra destruidora deve aos nossos sortilégios, à
magia das nossas seduções, ao veneno das nossas bocas!... (Gestos confirmativos de
todas.) Para vos servir temos feito tudo, inventámos tudo, descobrimos tudo . . .

TODAS: — Tudo!... (Na musica…)

ADVOGADA: (Emendando.) —Tudo, é claro, o que se podia descobrir. (Novos gestos


confirmativos de todas. Ela, indignada.) E os cegos que nada vêem!

TODAS: (Em coro soturno.) — Estão em período glaciário!... (Na musica…)

ADVOGADA: (Numa revolta.) —Ah!... Entrámos na ofensiva. Ocupámos posições.


Abandonamos-lhes o lar. Assaltamos-lhes o emprego. Reclamámos a primazia!... Mas o

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mundo é dos homens! (Tirando um livro da pasta e abrindo-o.) Só o homem é
susceptível de direitos e obrigações. Artigo primeiro do Código Civil.

TODAS: (Em coro cadenciado.) —É uma infâmia! Uma vergonha! (Em tom mais cavo.)
É revoltante!...

ADVOGADA: -Demais no abandono a que nos trazeis votadas. (Ele ri escarninho. Ela,
num repto firme.) Belzebu! Belzebu! O vosso riso não nos tranquiliza. Enfrentamos um
momento perigosamente decisivo. Esta mulher vai morrer. Será sepultada com os últimos
farrapos do nosso prestígio. Porque a erguemos como um símbolo! Proclamámo-la
heroína! Fizemo-la tremular como bandeira, na batalha decisiva que travámos!...

SATANÁS: (Seco.) —Não morrerá. (A musica sai.)

ADVOGADA: (Suplicante.) —Belzebu!...

SATANÁS: — Silêncio! Ousais duvidar de mim!...

PRESIDENTE: — Mas, bem vedes...

SATANÁS: — Silêncio! Não morrerá, já disse. Ide.

ADVOGADA: — E que faremos?

SATANÁS: — O que tendes feito sempre. Guerra de feras, sem tréguas, ao inimigo
comum. Ide. Ide. (Recuam na frente dele e desaparecem, de costas, pelos dois lados da
galeria. Ele, depois de elas saírem, vem junto do sofá, olha a Protagonista, olha em
volta, corre ao fundo, bate três pancadas espaçadas na porta da direita, e abre a porta
desaparecendo por trás dela. Logo a luz vermelha desaparece também, ficando a cena
totalmente escura. O Menino, que vem de gatinhas, entra assim sem que ninguém o veja,
e só quando chega junto da secretária é que um foco de luz branca lhe ilumina a cara,
enquanto outro foco de luz verde ilumina a cara da mãe.)

MENINO: (Depois de olhar em volta, vê a mãe no sofá e desolado.) — A dormir!...


(Fica a fazer beicinho; depois sorri com garotice, trepa à secretária, tira um pisa-papéis
e bate com ele no chão com grande estrondo.)

PROTAGONISTA: (Acordando sobressaltada.) – Vade retro! Cruzes! Figas! Some-te,


Canhoto!... (Entretanto o menino, sem que o foco o ilumine, atravessa de gatinhas até
junto da mãe e só volta a ser iluminado quando lá chega. A mãe, vendo-o, desolada.) Ai!
És tu? Antes fosse o Demónio…

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MENINO: (Sentado de novo.) — Oh! Sagrado amor das mães!...

PROTAGONISTA: (Coça a cabeça, e comovida.) — Filho!...

MENINO: (Irónico, numa toada muito prolongada.) — Mãe!...

PROTAGONISTA: (A sentar-se no sofá.) – Vem mais pr´aqui. Vem cá, meu menino.

MENINO: (Aproxima-se desconfiado, senta-se-lhe aos pés, e na mesma toada


plangente.) — Mãe!...

PROTAGONISTA: (Pega-lhe no queixo, olha-o, ajeita-lhe os caracóis.) — Sim. Tu és


bonito, meu filho!... (Transição. Desolada.) Mas . . . (Comove-se, tapa os olhos e chora.)

MENINO: (Também comovido e num tom ainda mais plangente.) — Mãe!...

PROTAGONISTA: (Cortando rápido.) — Filho! Pareces um bezerro! Não digas —


mãe!... — assim.

MENINO: (Olha-a ofendido, afasta-se e, num tom brusco.) — Pois não. Nem preciso de
dizer nada. Não vim aqui para conversar.

PROTAGONISTA: (Debruça-se outra vez carinhosa e como quem ensina um bebé.) —


Olha. Diz como eu: — mamã.

MENINO: (A olhá-la de revés.) — Mamã?... (Ligeira pausa.) Mamã, mamã, é o que eu


digo e é o que eu quero.

PROTAGONISTA: — Filho!... Estou sequinha como uma tábua!...

MENINO: (A arremedá-la.) — Estou sequinha como uma tábua!...

PROTAGONISTA: — Ah! Seu maroto! Isso é que são modos de tratar a mãe? Aqui já.
(E puxando-lhe os caracóis.) Tu não julgues, por me ver aqui amarrada, que me pões o
pé no pescoço, ouviste!... Muito respeito (Ameaçando-o de punho cerrado.) - ou ainda é
hoje o último dia da tua vida.

MENINO: — O último! Será para mim é o primeiro.

PROTAGONISTA: — Ai eu mato este patife!... (Arremesso do Menino. Ela, vendo-o a


mexer no nariz e batendo-lhe no braço.) Tira a mão do nariz, porcalhão!

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MENINO: (Afastando-se.) — Você veja lá a quem bate, hã!... Olhe que eu não sou
aquele... (Aponta uma das caveiras na galeria.) Aquele, sim, que você matou à bofetada.

PROTAGONISTA: — Eu?!. . .

MENINO: — Ai! Não!... Até estivemos presos. Não se lembra?...

PROTAGONISTA: — Presos?!... Tu também?!...

MENINO: — Também, sim senhora! Não se lembra?

PROTAGONISTA: (Fica uns instantes pasmada e chamando-o carinhosamente.)


— Anda cá. Anda cá, meu filho!...

MENINO: (Arregalando-lhe o olho.) — Olhe!...

PROTAGONISTA: — Não, não te faço mal. Vem cá, meu anjo!

MENINO: (Sacudido.) — Oh!...

PROTAGONISTA: — Ordeno-te que venhas!

MENINO: — Há-de ralar-me muito que ordene.

PROTAGONISTA: (Tenta inutilmente erguer-se e desanimada.) — Se aqui estivesse


o teu pai ...

MENINO: — Qual deles? (E vendo-a tomada do maior espanto.) — Foram tantos.

PROTAGONISTA: - Mas o que é que estás para aí a dizer?!... (Apontando a parede da


direita.) — Olha para aí. Então o teu pai não é esse, o do retrato?

MENINO: (Apontando a galeria.) — E aqueles?

PROTAGONISTA: — Os mortos?!... (Leva as mãos à cabeça e como quem percebe


tudo.) Bem me queria a mim parecer!... (Pausa. Depois num desabafo.) Ó filho de vinte
pais!... (espanto.)

MENINO: — Antes fossem vinte mães. Não andava pr'aqui cheio de fome ... (Comove-
se, dirige-se de gatas para ela e em tom plangente.) Mãe!...

PROTAGONISTA: (Irritada.) — Não te ponhas a borregar ...

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MENINO: — Quero chucha e hei-de arranjá-la. (Transição.) Que raio de mundo onde
não se pode contar com ninguém senão connosco próprios! (Tenta erguer-se.) Upa!...
(Erguendo-se.) Upa!...

PROTAGONISTA: — Olha... Olha! (E quando ele consegue levantar-se.) Olha, já faz


tem-tem!...

MENINO: — Tem, tem, uma gaita, que é o que eu tenho. (Vacila nas pernas em arco,
cerra os punhos, e fazendo esforços para se firmar nos pés.) Mas hei-de ter! (Bate os pés
no chão, dirige-se à esquerda. Abre a janela, o que ilumina toda a cena. Menino, a
passear de mãos nos bolsos.) Hei-de ser gente! Hei-de arranjar-me! (Parando.) Hei-de
ser qualquer coisa grande! Qualquer coisa muito tesa!... Comunista, fascista!... Não sei.
(E desatando a passear.) Eu hei-de mamar! Eu hei-de mamar!... (Dirige-se à secretária.
Acende um cigarro. Toca neste momento o telefone. Menino atendendo-o, muito
importante.) Estou. (Pausa.) Estou, sim. Quem fala? (Pausa.) Saiu. Mas que era? (Longa
pausa. E sacudido.) Já ouvi. Venham, toda gente me quer ver.(Longa pausa.
Entusiasmado.) Mas que venham!...

PROTAGONISTA: — O quê!... Quem é?... Eu não quero aqui barulho.

MENINO: (Sem a atender.) — Estou eu aqui, que sou o filho (Pausa.) O que nasceu esta
noite, sim. Ele não tem outro. (Pausa.) Pois falo, é claro — falo e ando e fumo e tudo.
Tudo, menos mamar. (Pausa.) Que notícia? A de que ando, e falo, e fumo e tudo?
(Pausa.) Pode, pode emiti-la, pois então! E a manif que venha. Eu cá a recebo... e até
discurso (Pausa.) Discurso, sim, da janela. (Pausa.) Está bem. Que não demorem. Adeus.
(Pousa o auscultador e caminhando muito importante para o fundo.) Eu hei-de ser
qualquer coisa muito tesa!...

PROTAGONISTA — Filho! Mas tu mandaste-os vir aqui?...

MENINO: — Aqui mesmo. É uma manifestação estupenda! Vêm saudar-me, Proclamar-


me! A hora é dos novos! A hora é dos jovens!...

PROTAGONISTA: (Consumida.) — Ai, minha pobre cabeça!... Querem matar-me, sim.


Já não tenho a menor dúvida.

MENINO: (Num grande berro, ao ouvido da mãe.) — A hora é dos novos!...

PROTAGONISTA: (Encolhendo-se toda.) — Matam-me! Matam-me!...

MENINO: (Já ao pé da secretária.) — O que eu não sei é o que hei-de dizer-lhes.


(Acendeu outro cigarro.) Ora! O que hei-de dizer-lhes!... É falar, falar! (Sacode a cinza,

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vê o «Extracto», pega na lata e lendo.) «Extractoferropyrhorcite» ... Que diabo é isto?
(Vai junto da mãe.)

PROTAGONISTA: — Sei lá o que é isso! Quero lá saber!... (Transição.) Matam-me!


Estes dois pulhas hão-de dar cabo de mim!

MENINO: (Lendo.) — «Couraça de ferro que blinda o organismo, tornando-o capaz de


resistir ao esmagamento dum cilindro! Excitante a fogo de todas as energias!...» (A mãe
principia a interessar-se. Ele, passando-lhe a lata.) Que é isto? De quem é isto?

PROTAGONISTA: (Continuando a leitura.) — «Prodigioso alimento para crianças


recém-nascidas . . .» (Furiosa.) É o teu pai! O teu pai a fornecer-se de alimentos para ti!
Já contam com a minha morte, os desgraçados!... Mas está bem. Pronto. Aí tens. Já não
precisas do meu leite. Acabou.

MENINO: (Recusando a lata.) — Nem do seu leite, nem de farinhas. Então eu ...
(Principia a ouvir-se ao longe a multidão. Ele, dando pelo ruído.) Eu, com manifestações
à porta, sou lá menino da mamã, ou do papá, que tome papinhas dessas?! Tome-a você.
(Corre à janela.) São eles, não há dúvida! (Falando para dentro.) Já aí vêm! Já aí vêm!...
(Torna a debruçar-se.)

PROTAGONISTA: (Tentada pelo rótulo.) – Ai tomo, tomo ...

MENINO: (Numa inquietação crescente.) — Mas não percebo que ruído é aquele!...

PROTAGONISTA: (Lendo.) — «Excitante a fogo de todas as energias perdidas, que


restitui centuplicadas!...»

MENINO: — Parecem alto-falantes? (Um tempo.) São mesmo! Estão a falar sobre mim!
(O ruído aumenta.)

PROTAGONISTA: - Ai! tomo mesmo ... (Principia a abrir a lata.)

(Som – Nº5) – Som de Manifestação/ Grandioso/Momento épico.


MENINO: (Entusiasmado.) — Já vêm a dobrar a esquina!... (O ruído cresce. A
Protagonista consegue fazer saltar a tampa da lata e principia a tomar farinha, fazendo
expressões trágicas, quando engole, como se sentisse uma revolução no estômago, logo
seguidas de expressões radiantes, que denunciam o bom efeito da droga. A manifestação
ouve-se mais alto. O Menino está agora no centro do palco sob foco de luz, o que
provoca estrondosas palmas e vivas.)

32
PROTAGONISTA: (Com o peito em arco, correndo ao filho e mostrando-lhe.) —
Filho! Filho!... Olha o meu peito!

MENINO: — Quero lá saber disso. (Empurra-a e falando para a platéia.) Meus


senhores! Camaradas! Companheiros! Meus amigos!... Grato a todos por esta espontânea
manifestação, quero em todo o caso destacar dentre os manifestantes os que pertencem às
classes trabalhadoras... (Mais alto.) os operários! pois é deles, quero que seja para eles a
primeira saudação da minha vida!.. - (Vibrantíssimos aplausos fora. A Mãe, ao fundo,
arqueia o peito e exercita os músculos, que sente poderosíssimos.)

AUTO-FALANTE: (O «Extractoferropyrhorcite», produto maravilha, é o que


rigorosamente podemos chamar alimento dinâmico, pólvora alimentícia! Duas colheres
a cada refeição. . .)

MENINO (Conseguindo dominar os aplausos.) — Proletários!... (Com as mãos ao alto o


menino congela e o som sai bruscamente e sai o foco. Palco escuro.)

(Da direita, o “Primeiro Homem”. Vem preocupado. Pouco a pouco e à medida que vai
falando, atravessa toda a frente da ribalta, de modo a concluir na extrema-esquerda.)

Primeiro Homem: (Depois dum gesto de silêncio e em tom confidencial) – Como


sabem a Protagonista já não morre. Está sã como um pêro, valente como as armas. Isto
alterou profundamente o rumo dos acontecimentos. Mas há pior. Há um facto que a altera
muito mais. A Dama-Central – a mãe do Menino – apresentou queixa ao Centro-Cómico-
contra o marido. Acusa-o de ter tencionado assassiná-la. É um disparate sem nome, mas
Belo-Bruto, interrogado, meteu os pés… pelas mãos, contradisse-se e confessou! Agora
chora, desesperado, caiu em profundo desânimo. Até já quis suicidar-se! (Chegou ao
outro lado do proscénio.) Para nos homens, é trágico. (Já a desaparecer.) O bruto deixa-
nos mal. (Sai. Um tempo. Sobe o pano.)

(Estamos na mesma sala. Vê-se no chão uma caixa com fatos novos e calçado de
criança, de várias dimensões. Em cena o “Menino” e todos as convivas do 1º acto,
menos a Ingénua, a Advogada e a Protagonista. O “Menino” está sentado no “maple”
da parte superior do sofá. A mulheres vestem-no. Já tem calções de rapaz e uma camisa
azul bordada e arrendada. As mulheres ajoelhadas diante dele, calçando-lhes uns
sapatinhos novos. A “Presidente” penteia-o. A “Conviva” arranja-lhe as unhas da mão
esquerda, e direita. Há em todas grandes azáfamas e solicitude. O “Menino” segura
com a mão direita um jornal que lê.)

Menino: (passados uns segundos.) – Outro. (Atira o jornal, por sobre o ombro, para
chão.)

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Presidente: (Excitada.) –Outro jornal.

Conviva 1: -Outro jornal.

Presidente: –Depressa.

Conviva 2: –Depressa.

Conviva 3: -Pronto!

Presidente: – Pronto. (Passa o jornal para as mãos da Presidente.) – Eu abro.

Menino: (Interrompendo a leitura, indignado.) – O quê?!... Oh! Senhores! Mas isto é


uma infâmia! (Ergue-se.) Estes jornais mentem com quantos dentes tem na boca. Mas
comigo dão-se mal! Comigo dão-se mal!

Presidente: (Tentando acalmá-lo.) – Os sapatinhos é que estão muito bem, não estão?
(Cercam-no e debruçam-se todos sobre os sapatos.)

Conviva 1: –Parecem de encomenda.

Conviva 2: -Não podiam ficar melhor.

Conviva 3: -Espectáculo.

Presidente: – Que lindos!...

Menino: (Mal-humorado.) –Fazem-me um pé pequeno. Queria umas patorras que, onde


assentassem, ficassem.

Presidente: – E então os calções!...

Conviva 1/Amiga: – Estão muito bem, muito bem, muito bem. (O Menino
espreguiça-se e abre a boca com grande ruído.)

Presidente: – Está cheio de sono…

Menino: –Claro! Até às quatro da manhã a discursar, a receber gente, a fazer o possível
por agradar a todos..

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Presidente: – Portou-se como um homem. Nascido ontem e parecia um homem.

Conviva 1: -E que homem!..

Conviva 2: -Há-os, nascidos no século passado,

Conviva 3: -Bem mais insignificantes.

Menino: (Vendo a embalagem na galeria.) – Que diabo é aquilo? Então aquela


embalagem ainda ali está! Que desapareça imediatamente. (Olha em volta e sempre
irritado.) Não há um espelho, não há nada nesta casa…

Presidente: – Tem um muito bom e muito grande ali no quarto. (O Menino dirige-se
ao quarto. Mal ele desaparece, a Presidente reúne a conviva/amiga e em tom
confidencial.) Eu não quero que o Menino se desgoste com coisíssima nenhuma.
Precisamos dele, entendes? (Gesto afirmativo.) Bem. Leva isso. (A Conviva/Amiga
dirige-se para levar a embalagem. Ouve-se no quarto um grande ruído de vidros que se
estilhaçam.)

Menino: (No quarto, em berros destemperados.) – Ah! Esta gente não sabe com quem
se mete! (A Presidente corre à porta e apanha logo com a camisa azul na cara.) Isto é
camisa que se vista a um homem?!...

Presidente: (Tapando os olhos, ofendida.) – Oh!... (Fecha precipitadamente a porta.


Novo estilhaçar de vidros dentro. A Conviva/Amiga1, na galeria, foge com o cesto para
a direita. Ela, descendo ao primeiro plano.) Vai lá tu. Vai lá tu, tem paciência. É preciso
acalmá-lo.

Conviva 1: –Mas despiu-se, rasgou-se, está nu?... Que foi, diga. (Ela faz-lhe sinal de
que vá lá, o que a Conviva 1 executa e, a abrir a porta.) Ora! Foi só a camisa.
(Desaparece.)

Conviva 2: -Esta mania que os homens têm de ser homens, irrita-me. (Vai sentar-se no
sofá.) E logo de pequeninos!...

Presidente: – Oh! Querida! Calma, calma. Bem vês… Precisamos dele.

Conviva 2: –Para quê?

Presidente: – Ora, para quê!

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Conviva 2: –Para quê? Não percebo. (Ergue-se.) Nunca percebi esta resolução da Liga.
E note que eu sou das mais ligadas. Nunca tive um gesto de insubordinação, uma
indisciplina… Mas também sou coerente. É homem, é homem. Para que havemos de
fazer-lhe as vontadinhas todas?

Conviva 1: (Que veio buscar a caixa dos fatos.) – Esteve agora para apanhar duas
bofetadas. (Gesto de terror da Presidente.) E apanha-as. Se insiste, apanha-as.

Presidente: – Estás doida ou quê?! Então, num momento tão delicado, em que basta
um pequeno deslize para cairmos em pleno descalabro, vocês protestam e discutem!

Conviva 1: – Eu não discuto nada. Só digo isto. (Afasta-se.)

Presidente: – É espantoso… Demais, nem se trata dum homem, trata-se de um menino.


(Sorriso irónico, da Conviva/Amiga. Ela, aproximando-se.) Mas dum menino que é,
acima de tudo, uma força! Um ídolo! O assombro da cidade! Manda já na multidão como
rei absoluto! Aquele discurso, ontem, de improviso… (Imitando-o.) – Proletários!...
(Transição rápida.) Improviso de que não pode duvidar-se. Onde teve ele tempo para o
preparar? Neste mundo, não (Noutro tom.) Por isso mesmo precisamos dele do nosso
lado contra o pai, entendes? Porque esse, sim, esse é que é necessário e urgente liquidar.
A acusação vigorosa daquele bruto, feita pelo próprio filho – pela voz da inocência! – em
pleno tribunal, seria uma vitória irrefutável?!

Conviva 2: – Mas é um homem…

Presidente: – Qual homem, qual carapuça! É um projecto de homem, um menino.

Conviva 2: – Cheira a homem que tresanda. (Estoiram duas bofetadas na cara do


Menino. Ela, como quem vê as suas palavras confirmadas.) Olhe. (Soam duas novas
bofetadas.)

Conviva 1: (Furiosa.) – Atrevido!...

Presidente: – Que foi?

Menino: (A rir forçadamente.) – Não foi nada. (Bate as palmas como para aquecer as
mãos.) Está frio. Eu tenho este costume. É para aquecer as mãos. (Traz vestida uma blusa
russa, dum vermelho muito garrido.) Jeitos com que se nasce.

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Presidente: – Claro. E que mal faz? Numa criança até tem graça. (Baixo, à
Conviva/Amiga.) Vocês sujeitem-se. Precisamos dele. (O Menino aproximou-se,
dengoso, Conviva/Amiga)

Conviva 1: – Faça-se criança comigo e verá como os dentes lhe saltam pela boca fora...

Menino: (Baboso.) – Não faz mal. Eles são para mudar… (Vai persegui-la.)

Presidente: (Cortando-lhe a passagem.) – Pois são, coitadinhos! Venha cá. (Leva-o


para a esquerda.) Sente-se aqui. O Menino sabe que o seu paizinho está preso?

Menino: – Sei. E é bem feito. Malandro! Alugou-me. (Olham-no todas surpreendidas.)


Alugou-me para fazer publicidade a essa mixórdia do «Pirhorcite».

Presidente: – Ai! Essa não sabíamos ainda!...

Menino: – Alugou, alugou. Mas eu é que não fui na história. Disse que não tomava, e
que não tomava, e não tomei.

Presidente: – Que grande patife!...

Advogada: (Entrando como uma fúria, pela esquerda, olha para todos, à procura, e
dirige-se ao Menino.) – Onde está a sua mãe?

Menino: (Olhando-a dos pés à cabeça, e a esfregar as mãos, cobiçoso) – Ai, esta! Ai,
esta! Ai, esta!...

Advogada: (Sem o entender, e subindo os degraus da galeria.) – Onde está a minha


constituinte, que não a encontro aqui, ansiosa, à minha espera!...

Protagonista: (Surgindo da direita.) – Que foi!...

Advogada: – Tudo perdido! (Desce ao primeiro plano, senta-se à secretária e fica


encostada à mão. Longa pausa.)

Presidente: (A medo.) – Mas que foi? Diga.

Advogada: – Vão pô-lo em liberdade.

Presidente: – Isso não pode acontecer!

37
Conviva 1: – Protesto!

Protagonista: – Recorro!
Advogada: – Vão pô-lo em liberdade com este fundamento assombroso: que, sendo o
Código Penal violento na repressão do homicídio e suas tentativas, se refere
exclusivamente a homicídio. Assassínio de homem; não de mulher!

Todas: – Oh!...

Menino: – Lá nisso têm razão.

Advogada: (Erguendo-se.) – Como?!...

Menino: – «Ubi lex non distinguit, nec nos distinguere debemus.» A lei tem de aplicar-
se no sentido restritivo. (De dedo em riste.) «Nunquam ampliandi.» Homicídio não é
mulhericídio.

Advogada: (Num pasmo.) – Ai! Que ele é licenciado em Direito!...

Todas: (De mãos na cabeça.) – Ih! Com seiscentos diabos!...

Advogada: (Vindo junto dele.) – Quem ensinou isso ao meu menino?

Menino: (Filosofo.) – Sabe-se lá! Sabe-se lá quem ensina os meninos... Genes de tudo o
que o passado tem de mal e vem em nós. Agora sinto mesmo cá dentro um velho
advogado, um corrupto, aos coices… (Transição. À mãe.) O que lhe deixou o milhão.

Protagonista: – O teu terceiro pai?!...

Advogada: (Tétrica.) – Atrozes geradores do criminoso nato! Pré-destinações atávicas!


Antecedentes hereditários!... (Transição rápida. À Protagonista.) Algum dos seus
maridos era doido?

Protagonista: (Aparvalhada.) – Eles casaram comigo...

Advogada: – Apaixonam-me estes casos anormais. Deixem-nos a sós. Quero estudá-lo.

Menino: (Erguendo-se radiante.) – Deixem-nos a sós. Depressa, depressa! Deixem-nos


a sós. (Empurra-as. Desaparecem todas, a recuar, pela galeria.)

38
Advogada: (Observa os movimentos do Menino, vem junto da secretária, tira da pasta
papel e lápis, e escrevendo.) – Bem predisposto. Espontâneo. Sincero. Caminha
ousadamente para o confronto. (Está encostada à secretária, de costas para o fundo.
Escreve e pinta-se alternadamente.)

Menino: (Da galeria, olha-a radiante. Vai arrancar, mas, sentindo-se subitamente
tímido.) – Então, que é isso, Menino? Ânimo. (Encoraja-se, desce um degrau, vacila de
novo, e buscando o socorro dos retratos.) Maiores! Sede comigo! Ressuscitem em mim!
A hora é grande! A hora é grave!...

Advogada: (Pousando os «batons» e escrevendo.) – Evoca forças do passado.


Concentra todas as suas energias de estirpe. Preparação galharda para a lide, cheia de
vivacidade. (O Menino desce os degraus num arranco, mas desfalece de novo a meio da
cena. Ela, escrevendo.) quer dizer… vivaz, mas um pouco lento (Um tempo.) Demasiado
lento. (E a enervar-se.) Especula! Excita! (Um tempo.) Ai! Angústia!...

Menino: (Absolutamente desanimado, vindo sentar-se amuado, no primeiro plano.) –


Que é? Que deseja de mim? Vá diga?

Advogada: (Radiante.) – Coitado, ele até arranca! (E vendo-o deixar cair o braço e
afastar-se.) Arranca, mas desanima. (O Menino descreve um pequeno círculo e vem cair
de joelhos, junto dela, pela direita, debruçando-se-lhe sobre o regaço a chorar. Ela
acarinhando-o.) Inocentinho! Pomba sem fel! Bezerrito da mamã a resfolegar como um
touro! Vem cá, meu menino, meu tonto! Deita-te aqui no meu ombro. (A embalá-lo.) Vá,
durma, durma. (Acaba por o beijar, como se beija uma criança.)

Menino: (Transformado pelo beijo, ergue-se ergue-a, e sofregamente.) – Abrace-me,


beije-me... (Num desvario.) Dá-me a tua boca, minha tonta!... (Longo estreitamento.)

Belo-Bruto: (Surge pelo fundo, pára a olhá-los, avança depois até à secretária, e
enfadado.) – Quando acabarem, digam, que eu preciso de ficar sozinho. (Os dois
desprendem-se num sobressalto.)

Advogada: (Numa falsa atitude.) – A sua insinuação é repugnante e não me atinge,


entende?

Belo-Bruto: – Pois não.

Menino: – Claro que não.

39
Advogada: – Isto é assombroso! Já não se pode acarinhar uma criança! (Afasta-se para
a esquerda.)

Menino: – Queria talvez que o acarinhassem a ele. (Passeia irritado. Depois parando-
lhe na frente.) Olhem para aquilo! Que falhado!... Aí está o que eu sentia cá dentro a
corroer-me e a impedir-me de crescer! Aí está o que veio intrometer-se, agora que ía tudo
tão bem! (Novo passeio.) E foi este morto-vivo o único que acorreu à chamada!
(Parando em frente da galeria.) Mais ninguém se dignou. (Aos retratos.) Palhaços,
fantoches, palermas!...

Advogada: (A Belo-Bruto, tirando a pasta da secretária.) –Impertinente! Inoportuno!


Indiscreto!

Belo-Bruto: (Confrangido com dores de cabeça.) – Preciso de descansar. (A Advogada


sai irritadíssima, pela galeria, para a direita. O Menino continua a passear.)

Menino: (Suspende o passeio e encaminhando-se para a secretária.) – E agora


pergunta a minha curiosidade: que vem o senhor aqui fazer?

Belo-Bruto: (Olhando as paredes, surpreendido.) – Não entraria eu na minha casa!

Menino: – Sua?!... (Vai buscar a cadeira da frente, encosta-a à secretária e senta-se de


perna cruzada. Transição. Depois, rindo.) Pai! Era o que mais faltava. Então tu tentas
matar a criatura, confessas, e instalas-te de novo cá dentro, a afrontá-la com a tua
presença, e a esmoer à custa dela!...

Belo-Bruto: – Perdão! Perdão! Isso não é bem assim.

Menino: (Dando um forte murro na mesa.) – Não negues!

Belo-Bruto: (Apertando as fontes.) – Não batas.

Menino: (Saltando para a secretária.) – Tu já confessaste. Não negues.

Belo-Bruto: – Não é nada disso, já disse. Eu não fiz nada para a matar. Cruzei os
braços. Deixava-a morrer, mais nada.

Menino: – Ah!... É isso o que consideras diferente!

Belo-Bruro: – Ó menino!... É o que combinámos. Eu não casei com ela para lhe pôr
emplastros, nem ela a mim. Casamos a ver quem morria primeiro.

40
Menino: (Irónico.) – Está bem. Se foi um desafio, aposta é aposta. Ela que não se
deixasse morrer. E se morresse…?

Belo-Bruto: – Herdava eu os bens. Era tudo para mim.

Menino: – E para mim? Para o menino?

Belo-Bruto: – O menino não fazia parte do acordo.

Menino: – Ah!... Sou um intruso! Eu era um indesejável.

Belo-Bruto: – O menino é o que é. Não tem nada que fazer perguntas.

Menino: (Como a si mesmo.) – Meus ricos paizinhos! (Salta da secretária.) Pois vê


como são as coisas deste mundo! Hoje, o indesejável és tu e tens que te pôr a mexer. Vais
como vieste – com uma mão atrás e outra à frente.

Belo-Bruto: – Eu?!... (Levanta-se. Depois irónico.) Talvez. Mas primeiro sempre me


deixarão descansar um bocadinho. (Dirige-se ao quarto. Quando vai abrir a porta, soa
uma sineta no jardim. O Menino corre à janela. Belo-Bruto voltando-se rápido.) Se for
para mim, não estou. Pschiu! Pschiu! Não estou, hã!

Menino: (Falando para fora.) – Quem? (Pausa.) O pai Bruto? Está, sim senhor. Suba.

Belo-Bruto: – Não estou nada.

Menino: – Eu cá não sei mentir.

Belo-Bruto: – Pois não estou. Não recebo. Recebe tu. (Caminha para o quarto.)

Menino: – Eu digo logo que fugiste. Eu digo logo onde estás…

Belo-Bruto: (Coçando a cabeça.) – Mas também, quem será? Que mais quererão de
mim? Virão prender-me outra vez?...

Menino: (Já na galeria, falando para os bastidores.) – Entre, faça favor. Está aqui.
(Um tempo. Surge depois, da esquerda, o Redactor, que no 2º acto se revelou Satanás, e
agora encarna a figura de um Comerciante, conhecendo-se sempre ser o mesmo. Pára
no alto da galeria.)

41
Comerciante: (Muito seco.) – Gerente da casa Salomão Absalão.

(Som – Nº6) Árabe/Turco/Citáras.


Belo-Bruto: (Ultra-amável.) – Ah! Faça favor. Entre. Sente-se. (Mostrando o filho.) O
menino, o menino. O que nasceu ontem, coitadinho!

Comerciante: – O que não quis tomar o Extracto...

Belo-Bruto: (Cortando rápido.) – Tomou. Ora se tomou!... Encheu-se de tanto tomar.

Menino: – É mentira. (Foge a um beliscão do pai.)

Belo-Bruto: – Deixe falar. É um inocente. Até vem no jornal que ele tomou.

Menino: (De longe.) – É mentira, já disse. Não tomei, nem tomo. Eu ingeria lá uma
droga dessas…

Belo-Bruto: – O menino ingere tudo o que eu mandar, ouviu?!

Menino: (Rindo.) – Oh! Oh! Oh!...

Comerciante: – Confirma-se a informação colhida pela nossa casa, e em nome dela


venho preveni-lo de que, não tendo V. Ex.ª honrado o compromisso tomado connosco,
implicitamente nos desligou de qualquer acordo consigo.

Belo-Bruto: (Alarmado.) – O quê?! Isso quer dizer que não pagam a percentagem?

Comerciante: – Em que baseia V. Ex.ª o direito de a pedir?

Belo-Bruto: – Então eu não entrei com a criança?

Menino: – É falso! Comigo ninguém entra. E nunca tomei essa mistela, nem tomo, nem
tomarei, já disse.

Belo-Bruto: (Entre dentes.) – Ah! Cão! (Vindo ao comerciante.) Tenho a certeza de


que uma casa séria como a sua não fará fé pelo que diz uma criança, um recém-nascido,
ainda ontem no rol dos impossíveis.

42
Comerciante: – Temos a informação da sua esposa, que, além de tudo, é um caso
surpreendente de cura instantânea pelo nosso já bem acreditado produto. E para o
anúncio, basta-nos ela.

Belo-Bruto: – Mas pagam, pagam-me a mim…

Comerciante: – Pagar o quê! Justifique V. Ex.ª qualquer débito nosso, e saberemos


honrá-lo. (Sai, sem um cumprimento.)

Belo-Bruto: – Ai! Que eu estou arruinado por causa deste malandro! (Persegue o
Menino, que foge.) Ai! Que eu deixei de ser rico por causa daquele patife! (Leva a mão
ao coração. Um tempo.) E agora… Agora quer que me ponha a andar, com uma mão
atrás, outra à frente. (Leva de novo a mão ao coração, falta-lhe o ar e volta a sentar-se,
visivelmente incomodado.)

Menino: (Vindo espreitá-lo de perto.) – Pai! Tu não estás bom. Tu vais morrer… (Mais
perto.) Tu estás a fazer-te roxo e vais morrer!... Também que visita do diabo, que espetou
contigo na cova! (Toca a sineta do jardim. Ele, correndo à janela.) Talvez seja outra
mais agradável que te salve.

Belo-Bruto: – Não, não! Não quero!

Menino: (Falando para fora.) – Está, sim. Suba depressa. Muito depressa. (Corre à
galeria e falando para os bastidores.) Entre. Corra. Acuda. (Entra a mesma figura de há
momentos, transformada agora em Costureiro dengoso e amável.)

(Som- Nº7) Som fashion e sexy!!!


Costureiro: – Que foi? (Vindo a Belo-Bruto.) Que foi?

Menino: – Está a morrer. Vai morrer.

Costureiro: (Aproximando-se e tirando um papel da carteira.) – Então, tenha


paciência. Pague-me primeiro esta continha.

Belo-Bruto: (Melhorando subitamente.) – Conta?

Costureiro: – É do guarda-roupa do cortejo.

Menino: – Que cortejo?

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Belo-Bruto: – Nada. Tu não tens nada que ver com isso. (Depois ao Costureiro.) Já
não é preciso. Tenho pena, mas não façam. Já não é preciso.

Costureiro: – Está feito. Os senhores encomendaram… (E voltando-se para o


Menino.) Um cortejo romano à antiga…

Belo-Bruto: – Homem! Cale-se, faça favor.

Costureiro: – O seu pai ia de túnica branca…

Belo-Bruto: – E ele a dar-lhe!

Costureiro: – … de manto púrpura, coroado de loiros! E, segurando as rédeas de


quatro irrequietos cavalos resfolegantes, subiria a Avenida, num carro triunfal, para ser
proclamado na Rotunda o vencedor, entre milhares e milhares de palmas que se
agitavam, e ao clamor vibrante da multidão entusiasmada!

Menino: (Ao pai.) – Salve! Gladiador romano...!

Costureiro: – Ora!... O que eu queria era que me pagassem. (Estende de novo a conta
a Belo-Bruto.)

Belo-Bruto: – E o que eu quero é que me deixem. (Empurra-o.) Vá-se embora.


(Empurra-o mais violentamente.) Vá-se embora, vá para os tribunais, vá para o demónio!
(Projecta-o pela saída da galeria e vindo sentar-se.) Estou melhor! É curioso! Fez-me
bem. (Respira fundo.)

Menino: (Torcendo o nariz.) – Hum!... Isso, no fim, acontece sempre.

Belo-Bruto: (Erguendo-se.) – Respiro, o coração está tranquilo! Estou melhor, não há


dúvida.

Menino: – Parece. Mas tu não tardas estás ali estendido ao comprido.

Belo-Bruto: – Porquê, coruja? Porquê, mocho? (Tenta agarrá-lo.) Por que hei-de estar
ali ao comprido, se me sinto melhor?...

Menino: (Fugindo e falando de longe.) – Porque é costume. Isso repete.

Belo-Bruto: – Não digas isso. (Sente-se de novo aflito, apoia-se à secretária, e vendo
um vulto na galeria, apavorado.) Quem está ali! (Vai cambaleate sentar-se no sofá. O

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Menino corre à galeria, onde depara com a figura que acabou de sair, agora sob
aparência de proprietário duma agência funerária.)

(Som- Nº8) Som pesado e moribundo vozes do além…


Agente Funerário: – Desculpe, menino. Eu ando aqui na rua, há dois dias. A
mãezinha do menino estava a morrer e … eu tenho uma agência funerária. Eu vivo dos
mortos. Vivo disto.

Menino: (Ao pai, com a maior naturalidade.) – É o cangalheiro.

Agente Funerário: – Ora ela parece que esteve mesmo a marchar. Mas disseram-me
que já está boa, e que quem morre agora é o seu pai.

Menino: – Está por um fio.

Agente Funerário: – Óptimo. Então, se me dá licença, deixo um cartãozinho. Se for


necessário… (Sai.)

Menino: (Desce, a ler o cartão até ao sofá e vendo o pai de olhos fechados.) –
Morreu!... (Corre ao fundo.) Mãe!... Ó mãe! Venham todas. (Noutro tom.) Eu tinha a
certeza disto. (Sai, a gritar para a direita.) Venham, venham…

Belo-Bruto: (Desanimado.) – E morro mesmo. Ai!... Faltam-me as forças, Ai!...


(Deixa cair os braços.) Ai!... (Pende-lhe a cabeça.) Ai!... (Resvala lentamente, ficando
sentado no chão.)

Menino: (Surgindo da galeria, com a mãe pela mão e seguido por todas as Mulheres.)
– Venham, venham. O pai morreu.

Advogada: (Que lhes tomou a dianteira, chega ao sofá, vê Belo-Bruto caído, torna ao
fundo, e dando palmas à Protagonista.) – Viva! Viva!...

Todas: (Tentando erguê-la.) – Viva! Viva! Viva!...

Protagonista: – Larguem-me. Deixem-me. (Executam. Ela vem junto do marido, olha-


o compungida, vai à direita e apeando o retrato do Belo-Bruto.) Quem me ajuda?

Todas: (Correndo alegres.) – Eu! Eu! Eu!

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Protagonista: – Silêncio! Respeitem a solenidade do acto. (Entrega-lhes o retrato e
muito comovida.) Para a galeria… (A chorar.) dos nunca assaz suficientemente chorados.
(A marcha inicia-se silenciosa e cadenciada com a Protagonista atrás, em choro mudo.)

Menino: (Junto do pai.) – Tenho pena de não lhe ter dito uma coisa. (Toca o telefone.)
Tenho pena. (Vai atender o telefone.) Está? (Pausa.) Sim. (Pausa.) Impossível. Não pode
vir. Morreu. (Pausa.) Morreu, morreu. Já está a ser trasladado. (Pousa o auscultador. O
cortejo dobrou a galeria para a direita. Ele volta para junto do pai e, tentado.) Ainda lhe
digo. Ainda lhe digo. (Debruça-se, arregala-lhe a orelha, e como quem fala ao telefone.)
Ó tu, que já lá estás! Estás lá? (Pausa.) Vê o que valem, e o que são as mentiras e as
combinações deste mundo. O teu retrato já está na galeria. O dela lá irá ter. E os
benzinhos que tu tanto ambicionavas serão para o intruso, o indesejável, o que não entrou
na combinação para nada. Adeus. Até um dia. (Dirige-se ao fundo e desaparece na
direcção do cortejo.)

Belo-Bruto: (Abre os olhos, fecha-os, torna a abrir, franze o sobrolho e como quem
não sabe donde aquela ideia lhe vem.) – Os bens?... (Passa a mão nos olhos.) Eu sonhei
isto, ou quê?... Não são para mim?... (Olha em volta e dando pela falta do retrato.) O
meu retrato? (Ergue-se rapidamente.) Onde está o meu retrato?... (Dirige-se à galeria.
Dá de cara com o grupo das Mulheres que regressam ainda compungidas, ergue uns
braços desmedidos, dando a impressão dum fantasma.) Ah!... (Foge tudo espavorido.)
Compreendo. Julgaram-me morto!... Mataram-me!..

(Som- Nº9) Grande confusão, Violinos, Guitarrras, Animais etc…


(Desaparece em perseguição delas, sempre a berrar. Na rua principiam a ouvir-se
buzinas de automóveis. Ele, dentro.) Corja!...Canalhas!... Quero esta malta na rua!... (E
sempre mais longe.) Rua!... (Segue-se o ruído de pratos partidos. Pela esquerda entram
os Homens, todos vestidos de preto e chapéus na mão.)

Primeiro Homem: – Onde está o corpo?

Desgraçado: (Ouvindo o ruído de loiça partida lá dentro.) – Que é aquilo? A viúva


com algum ataque. (Surge da galeria a Advogada, que foge, indo esconder-se atrás da
secretária.)

Primeiro Homem: (Intrigado.) – Que quer isto dizer?! (Surgem outras Mulheres.
Vem a Protagonista e, em perseguição dela, Belo-Bruto.)

Belo-Bruto: (Do alto dos degraus, aos Homens que estão na esquerda, e apontando as
Mulheres que se reuniram em grupo à direita.) – Mataram-me as vadias!... Mataram-
me!!!Apontando.) Vejam o meu retrato abatido ao efectivo.

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Primeiro Homem: – Tu não morreste, de facto?!

Desgraçado: – A notícia já está nos jornais!

Belo-Bruto: – Obra delas! Obra dessa corja! Telefonaram lorgo à imprensa!...

Primeiro Homem: – Seja como for, felicito-te. Olha que, à falta de tempo, até
trouxemos a coroa que tu tinhas encomendado para a campa da tua mulher. (Avança o
Segundo Homem, com a coroa.)

Protagonista: (Irrompendo da direita.) – O quê?! Ele tinha encomendado uma coroa


para a minha campa?!

Todas: (Proferindo cada uma a sua exclamação.) – Bandalho!... Miserável!... Patife!...

Segundo Homem – Tão patife como ela que o queria enterrar vivo.

Advogada: (Tomando cena e falando à Presidente.) – Senhora Presidente! Tendo isto


de liquidar-se de qualquer forma, e não havendo outra melhor, proponho que
aproveitemos os benefícios do «Extractoferropyrhorcite», e os liquidemos a soco! A
eles!...

Todas: (A arregaçar as mangas.) – Apoiado! Apoiado! A eles!...

Belo-Bruto: – Muito bem! (Aos Homens, a arregaçar também as mangas.) A elas!

Todos: (Mesmo jogo.) – Apoiado! Apoiado! A elas!...

(Som – Nº10) Transição do caos ao sublime.


Menino: (Surgindo a correr na galeria.) – Suspendam! Suspendam! (E olhando,
encantado, para os bastidores, da esquerda.) Venham ver que par tão bonito que ali
vem!...

Protagonista: (Subindo à galeria.) – Olha a ingénua! Nunca mais me lembrei dela!...

Belo-Bruto: (Mesmo jogo.) – E o Giraço!... Abraçados ainda!... (Recuam e descem à


medida que o casal se aproxima. A Ingénua e o Galã vêm muito abraçados, muito
enlevados, transbordantes de felicidade. A sua aparição ilumina a cena duma luz mais
bela. Todos recuam a dar-lhes passagem. Eles descem ao primeiro plano, olhos nos

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olhos, muito arroubados. Forma-se um círculo de Mulheres em terno deles. Outro
círculo de Homens por trás das Mulheres. Um foco intenso de luz destaca o casal dos
namorados, ficando todas as outras figuras, como sombras, na penumbra.)

Ingénua: (Num murmúrio doce, o Galã.) – Meu amor!...

Giraço /Boneco: (Muito carinhoso.) – Schiu!... Mais baixinho…

Ingénua: (Deixando adivinhar as palavras.) – Meu amor!...

Giraço /Boneco: – Mais baixo ainda...

Ingénua: (Num simples mover de lábios.) – Meu... (Termina num beijo.)

Giraço/Boneco: (Radiante.) – Assim! Assim!... (Unem as bocas demoradamente.


Todos em volta se foram insensivelmente acasalando.)

Os Homens: (Cada um à mulher que tem nos braços.) – Meu amor!...

Ingénua: (Voltando-se.) – Schiu!... Mais baixinho!...

Os Homens: (Num murmúrio.) – Meu amor!...

Giraço/Boneco: – Mais baixo ainda!...

Todos: (Num simples mover de lábios.) – Meu.... (Beijam-se.)

Giraço/Boneco e Ingénua: – Assim, assim... (Beijo cinematográfico geral,


interminável. O palco começa a escurecer-se….

Robô Off: – Amor… numa pequena aldeia, dois velhinhos, muito velhinhos, que
passaram a vida a amar-se como dois noivos, acabam de falecer, no mesmo dia e quase à
mesma hora, por nenhum deles saber viver sem o outro. Soube desta notícia despercebida
navegando na minha programação e ocorre-me esta ideia… o nosso amor vai ser assim…
no dia em que partires eu vou desligar tudo… meu amor!

Sobe o som!!!!

UM FINAL FELIZ!

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