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ma das dificuldades enfrentadas algum subsunçor,1 enquanto na segunda,
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Wilson Leandro Krummenauer , por professores no ensino médio não há nenhuma interação entre a nova
Terrimar Ignácio Pasqualetto2 e é o desinteresse demonstrado pe- informação e os conceitos ou proposições
Sayonara Salvador Cabral da Costa3 los alunos quando abordamos tópicos de preexistentes na estrutura cognitiva do
1
Colégio Luterano Arthur Konrath, física. Frequentemente a física é apresen- aluno. Nossa experiência docente combi-
Estância Velha, RS, Brasil tada como uma série de “fórmulas” pron- nada com a pesquisa em sala de aula [2]
E-mail: wilson@clak.com.br tas, com as quais o aluno opera sem lhes tem reforçado a importância de conhecer-
2
Colégio Adventista Marechal Rondon, dar sentido ou fazer qualquer relação com mos os subsunçores com os quais nossos
Porto Alegre, RS, Brasil o seu cotidiano. Sem efetuar a relação en- alunos vêm para as aulas de física. Um
E-mail: terrimar@gmail.com tre teoria e fenômeno o aluno acaba por exemplo de aprendizagem mecânica é a
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Pontifícia Universidade Católica do considerar o assunto apresentado como memorização de um conteúdo sem qual-
Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, algo totalmente novo e sem sentido. quer fundamentação que lhe dê signi-
Brasil Segundo David Ausubel, para que ficado.
E-mail: sayonara@pucrs.br ocorra uma aprendi- A prática docente
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zagem significativa é Elaborou-se uma proposta que mostra, em geral,
necessária a interação usou os conhecimentos que em uma turma
entre o conhecimento musicais dos alunos como de ensino médio a
novo e o conhecimen- ponto de partida, buscando maioria dos alunos
to prévio existente na gerar uma relação entre o possui noções musi-
estrutura cognitiva do conhecimento científico e o do cais. A Fig. 1 apresen-
aprendiz, além de uma cotidiano, além de criar uma ta o resultado da con-
predisposição para predisposição para a sulta feita a um gru-
aprender (apud [1]). aprendizagem po de 35 alunos,
Defende a ideia de que especificamente se
“A nova informação se vincula a aspectos possuíam algum conhecimento musical
relevantes preexistentes na estrutura cogni- de algum instrumento específico. Estes
tiva e nesse processo se modificam tanto a alunos frequentavam a 3ª série do ensino
informação recém adquirida como a es- médio de uma escola privada de Estância
trutura cognitiva preexistente” [1, p. 159]. Velha, RS. Verificou-se que, apesar de
Existem algumas condições necessárias alguns termos utilizados cotidianamente
para que a aprendizagem significativa seja não serem os termos científicos, eles
alcançada, “o novo conhecimento deve ser conseguiam distinguir a diferença entre
relacionável de modo não-arbitrário e um som “fino e grosso” (agudo e grave),
Este artigo relata as atividades desenvolvidas substantivo com o conhecimento prévio entre “alto e baixo” (forte e fraco), por
em uma turma de ensino médio do Colégio Lu-
do aprendiz e este deve adotar uma atitude exemplo.
terano Arthur Konrath, Estância Velha, RS. A
proposta de trabalho aqui apresentada visa
de predisposição em aprender de forma A partir dessas noções de acústica,
abordar conteúdos de física através de conceitos significativa” (ibid). Nesse sentido, elabo- propusemos atividades que utilizassem
prévios dos educandos. Foram utilizados os ramos uma proposta que usou os conhe- instrumentos musicais já conhecidos dos
instrumentos musicais como motivação para cimentos musicais dos alunos como ponto educandos, para abordar o tema. Nossa
o estudo da acústica, pois percebemos que a de partida, buscando gerar uma relação hipótese era de que o uso dos conhecimen-
grande maioria dos educandos tinha contato entre o conhecimento científico e o do coti- tos prévios, neste caso, favoreceria a moti-
com algum tipo de instrumento. Foi realizado diano, além de criar uma predisposição vação e, consequentemente, a predisposi-
ainda um comparativo entre o artigo aqui apre-
para a aprendizagem. ção para aprender. Além disso, esta pro-
sentado e outros artigos e dissertações sobre o
mesmo tema. O projeto se baseia na teoria da
A aprendizagem significativa con- posta usou as noções musicais dos apren-
aprendizagem significativa de Ausubel, utili- trasta, fundamentalmente, com a apren- dizes como subsunçores para os conceitos
zando, sobretudo, os subsunçores presentes na dizagem mecânica, na medida em que, na científicos abordados na acústica.
estrutura cognitiva dos aprendizes. primeira, a nova informação interage com A existência de noções musicais nos

22 O uso de instrumentos musicais para o ensino de acústica Física na Escola, v. 10, n. 2, 2009
alunos tem sido usada como estratégia de
ensino por diversos professores da edu-
cação básica. Encontram-se textos que
abordam desde a física de um único ins-
trumento musical [3] até dissertações de
mestrado que apresentam propostas didá-
ticas utilizando instrumentos musicais
para ensinar física [4].
Estudar a física presente no funcio-
namento de um instrumento específico é
um assunto tão vasto quanto a diversi-
dade de instrumentos. Cada instrumento
se apresenta como uma fonte de aborda-
gens físicas diferindo desde a maneira co-
mo se gera o som até o processo para emi-
tir as diferentes notas musicais. Encon-
tramos artigos que abordam a física de
instrumentos clássicos como a flauta Figura 1 – Gráfico da distribuição do conhecimento musical dos alunos.
transversal [5]. O autor utiliza este instru-
mento para estudar a dependência entre De maneira informal e usando um guida eles foram desafiados a ordenar os
a frequência, a posição dos nodos e o com- brinquedo chamado “mola maluca” (ver componentes da voz mais “fina” (aguda)
primento de onda da onda estacionária Fig. 2) e um violão, trabalhamos os dife- até a mais “grossa” (grave). A partir dos
formada dentro da flauta. Usando uma rentes tipos de ondas mecânicas (longitu- comentários dos alunos definimos a
abordagem semelhante, encontramos o dinais e transversais) e o conceito de som. relação entre o som ouvido e a frequência,
estudo da física de um instrumento típico Usando ainda o violão e um dispositivo caracterizando assim, um som grave ou
da Bahia, o Berimbau. Neste texto é discu- gerador de ondas es- agudo. Após esta dis-
tida a propagação ao longo de cordas e no tacionárias discuti- Estudar a física presente no cussão abordamos as
ar usando como motivação o estudo desse mos o significado de funcionamento de um características fisioló-
instrumento vastamente encontrado nas alguns conceitos im- instrumento específico é um gicas do som: altura,
rodas de capoeira. Nesses textos os autores portantes como fre- assunto tão vasto quanto a intensidade e timbre.
procuram contextualizar os assuntos da quência, período, diversidade de instrumentos. Na aula seguinte
física usando os mais variados instru- comprimento de onda Cada instrumento se apresenta solicitamos que os
mentos musicais. e velocidade de propa- como uma fonte de abordagens alunos trouxessem
Nesse sentido foi também desenvol- gação. físicas diferindo desde a diversos instrumentos
vida uma proposta em escolas da rede Convidamos maneira como se gera o som musicais; foram tra-
pública na cidade de Juiz de Fora, MG [6]. quatro componentes até o processo para emitir as zidos: flauta, violão,
Nesse estudo foi aplicado um pré-teste que do coral da escola, diferentes notas musicais violino e guitarra. Pe-
visava verificar o conhecimento prévio dos sendo um contralto, dimos, então, para o
alunos. Em seguida, os autores ministra- um barítono, um tenor e uma soprano aluno que trouxe o violão que emitisse
ram uma palestra abordando a física pre- para que apresentassem uma música aos uma nota “lá” (440 Hz). Com auxílio do
sente em diversos instrumentos musicais. alunos. Separamos os alunos em grupos programa analisador de espectro Visual
Organizaram também uma visita ao de quatro componentes e pedimos que Analyser (ver Fig. 3) aferimos o valor da
Museu Dinâmico de Ciência e Tecnologia observassem as diferentes vozes. Em se- frequência que estava sendo emitida pelo
da Universidade Federal de Juiz de Fora,
onde relacionaram informalmente o
conhecimento científico com as peças do
museu e as músicas ouvidas pelos alunos
no dia a dia. Os resultados apresentados
pelos autores confirmam a ideia de que
os alunos são motivados por tal tema.
Metodologia
A proposta apresentada aqui difere
das citadas acima no que tange ao tempo
de desenvolvimento e metodologia utili-
zada. Foi aplicado um questionário que
verificou se os alunos tinham algum
conhecimento musical, bem como se
tocavam algum tipo de instrumento. A
partir do levantamento realizado foi cons-
tatado que a grande maioria dos alunos
possuía algum conhecimento sobre notas
musicais ou algum tipo de instrumento Figura 2 – Uma “mola maluca” (disponível em flickr.com/photos/mineirasuai/
musical. 360059807/, acessado em 20/12/2008).

Física na Escola, v. 10, n. 2, 2009 O uso de instrumentos musicais para o ensino de acústica 23
aprendizes tornou a aprendizagem signifi-
cativa [7], apud [1], pois os alunos perce-
beram a proposta como significativa e
relevante. Demonstraram predisposição à
aprendizagem bem como interesse e par-
ticipação em todas as atividades desenvol-
vidas.
Este projeto foi desenvolvido experi-
mentalmente em apenas uma turma de
ensino médio, mas pelos bons resultados
constatados no item anterior percebemos
a importância e a validade de desenvol-
vermos o mesmo método em outras
turmas da escola.
A partir dos resultados dos questio-
nários de opiniões ficou evidenciado que
a proposta alcançou os objetivos, pois
percebemos nas respostas que a grande
maioria dos alunos aprendeu com prazer,
acharam as aulas atrativas e comentaram
que gostariam que mais conteúdos fos-
Figura 3 – Tela do programa analisador de espectro.
sem abordados da mesma maneira.
violão. Em seguida, solicitamos ao aluno período, frequência, comprimento de on- Notas
que trouxe a flauta que também tocasse da, altura, intensidade, timbre, ressonân- 1
Um conhecimento específico, com
a nota lá e, novamente, aferimos a fre- cia e harmônicos. Uma segunda turma pelo menos alguma clareza, estabilidade
quência (440 Hz). (turma de controle) também respondeu e diferenciação é o que se chama de
Questionamos os alunos sobre os dois aos mesmos testes da turma estudada. Ao subsunçor [1].
sons que foram produzidos. Foi fácil per- final das apresentações os alunos res- 2
Para tanto, o aluno manteve a sexta
ceberem a diferença entre o som do violão ponderam também a um questionário de corda presa na quinta casa e tocou a nota
e o som da flauta, mesmo quando pro- opiniões que avaliou a motivação e inte- musical, abafando-a logo em seguida, isso
duzindo a mesma nota musical. Neste resse gerado pela proposta. fez com que a quinta corda vibrasse sem
momento introduzimos o conceito de tim- ser tocada.
bre; novamente, com o programa anali- Resultados
sador de espectro, mostramos aos alunos Ao calcular a média entre os resulta-
a diferença nas intensidades dos harmô- dos dos pré-testes verificamos a existência
nicos da onda emitida pelo violão e da de pequenas diferenças entre os resultados
onda emitida pela flauta. das duas turmas. Consideramos que esta Referências
A partir da flauta também estudamos diferença é desprezível do ponto de vista
[1] M.A. Moreira, Teorias de aprendizagem
como variar a frequência (nota musical) estatístico. Usamos o mesmo tratamento
(E.P.U., São Paulo, 1999), 195 p.
mudando apenas o estatístico com os pós-
[2] W.L. Krummenauer, O Movimento Cir-
comprimento do tubo Ficou evidenciado que a testes e verificamos cular Uniforme Para Alunos da EJA que
(flauta). A partir daí, proposta alcançou os objetivos, que a diferença entre Trabalham no Processo de Produção do
introduzimos o con- pois a grande maioria dos as médias aumentou, Couro. Dissertação de Mestrado, Ins-
ceito de ressonância, e alunos aprendeu com prazer, bem como a média de tituto de Física, Universidade Federal
retomamos a ideia de achou as aulas atrativas e cada turma. A turma do Rio Grande do Sul, 2009.
harmônico, tema esse comentou que gostaria que que participou da no- [3] A. Kandus, Revista Brasileira de Ensino
que foi ensinado por mais conteúdos fossem va abordagem obteve de Física 28
28, 427 (2006).
meio da afinação do um aumento na sua [4] E. Trentin, Os Instrumentos Musicais como
abordados da mesma maneira
violão.2 Ao final da média 15% maior que Recurso Didático no Ensino de Acústica.
aula os alunos responderam a um ques- a melhora da turma de controle. Dissertação de Mestrado, Instituto de
tionário sobre acústica. As respostas apresentadas nos ques- Física, Unversidade de São Paulo,
Como atividade prática foi proposto tionários demonstraram uma apreciação 2006.
[5] C. Lemmi y J. Mazaferri, Física de la
que cada grupo construísse um instru- maior pelo novo método. 88% concordam
Flauta Traversa (Universidad de Bue-
mento musical rústico e explicasse o seu plenamente que este método é mais inte-
nos Aires, Buenos Aires, 2003).
funcionamento, além de usá-lo para ressante que a forma tradicional de [6] F. Lopes e J.R. Tagliati, in: Resumos e Pro-
apresentar uma música para a turma. ensinar física. grama do XVI Simpósio Nacional de
Tabulamos os escores dos testes e ana- Ensino de Física (Zit Editora, Rio de
lisamos os resultados de cada aluno, além Conclusão
Janeiro, 2005).
de comparar a evolução da turma com Após a aplicação da proposta e análise [7] D.P. Ausubel, School Learning, An Intro-
outra onde abordamos o conteúdo da ma- do seu resultado, constatou-se que partir duction to Educational Psychology
neira tradicional. Os testes objetivaram de um tema conhecido dos alunos serve (Holt, Rinehart and Winston, Nova
verificar a aprendizagem dos principais como motivação para o ensino da acústi- York, 1969) 1. ed., 691 p.
conceitos trabalhados durante o projeto: ca. Partir de conhecimentos prévios dos

24 O uso de instrumentos musicais para o ensino de acústica Física na Escola, v. 10, n. 2, 2009