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As questões provocadas pela adoção comparecem fr<•q111 1111 111 11 na atualidade social: nas associações para a adoção de crianç.,.,, 11,1 •. 111<, internacionais das estrelas, nos julgamentos relativos às cri, n~,1·, 11,1• 1 111 mães de aluguel, nos pedidos de adoção dos casais homo•, ,1• 11 11 O campo da adoção constitui efetivamente uma observ aç; o p1 lvili•HI 111 1 evolução de nossa civilização e particularmente da f rnlll.i 1111 ocidental. Ultrapassando as posturas tradicionais muitas v z ., , xpI

especialistas, o autor propõe uma abordagem

mutações na família. Suas contribuições sobre a adoção S<-' l>,1•,Pl,1111 111 11 larga experiência clínica, em numerosos testemunhos d f,111111I,1· 1d111Ili de suas crianças e em trabalhos recentes, especialment cl1· pc •.q11I 1 1 anglo-saxões. De modo muito vivo, ele não vacila em m scl,11 11 te 1111111 J filmes e recortes clínicos. Em Adoção e parenta/idada, 1 111 11111.1 11111111 11 acessível e direta, o autor percorre as questões que as f,11nfll,1•. • 11111 1111 qualquer que seja sua configuração, sejam famílias adotiv,1~ m111, 11 1 ,, 1I, 1

de seu trajeto de vida.

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Nazir Hamad é doutor em psicologia clínica, p<,I1 ,111,ill l,I , 11111

de um Centro Médico Psicop{'(l.1w1 :h 11 1 111

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clínica em Paris, diretor

Ele trabalhou com Françoise Dolto, com a qual publi ou nc

(Gallimard, 1995). Ele é membro da Association Lac niC'IHH l11t1 111,11li111 lc

ISBN

978-85-88640-25-2

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Adoção e parentalidade:

questões atuais

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É claro que só a experiência clínica e o trabalho de pesquisa nos permitem sair de posições não fundamentadas e ter uma abordagem mais pragmática da adoção e da evolução familiar tal como a encontramos hoje em dia, para grande escândalo de uns e felicidade daqueles que a desfrutam plenamente. Este trabalho contém em princípio a contribuição da clínica . Ao longo de meus numerosos debates com as famílias adotivas e suas crianças, coletei múltiplos testemunhos. Vem a seguir meu trabalho de clínico. Além disso, consultei muitos trabalhos anglo -saxões conhecidos ou menos conhecidos e devo admitir que essas publicações levaram -me a reconsiderar minhas posições sobre algumas questões- chave.

A família clássica com os dois pais genitores corresponde cada vez menos à realidade. A estrutura patriarcal da sociedade encontra -se assim seriamente abalada .

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sociedade encontra -se assim seriamente abalada . NazirHamad Nazir Hamad Adoção e parentalidade: questões atuais
sociedade encontra -se assim seriamente abalada . NazirHamad Nazir Hamad Adoção e parentalidade: questões atuais

Nazir Hamad

Adoção e parentalidade:

questões atuais

Prefácio de Charles Melman

Tradução:

Maria Nestrovsky F'olberg Maria Fleig Jasson Martins

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Livraria do Psicanalista
Livraria do
Psicanalista

Porto Alegre, 201 O

Maria Nestrovsky F'olberg Maria Fleig Jasson Martins ,M7 fDITORfl Livraria do Psicanalista Porto Alegre, 201 O
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©Érés 2006

Título no original:

Adoption et parenté: questions actue/les

A presente obra faz parte da coleção Psychana/yse et clinique fundada por Jean Bergés, dirigida por Marika Bergés-

Bounes e Jean-Marie Forget.

Sumário

Editor: Caio Beltrão Schasiepen

H198a Hamad, Nazir Adoção e parentalidade : questões atuais/ Nazir Hamad ; tradução, Maria Nestrovsky Folberg, Mario Fleig, Jasson Martins. - Porto Alegre : CMC, 2010.

152p.

Prefácio

Crianças na estante - Charles Melman

.7

Introdução

 

9

1.

A adoção à imagem da

evolução familiar

13

ISBN 978-85-88640-25-2

1. Psicanálise. 2. Adoção . 3. Criança.

4 . Família . 1. Folberg , Maria Nestrovsky .

li. Fleig , Mario. Ili. Martins , Jasson . IV. Título.

CDU 159.964.2

Catalogação elaborada por: Evelin Stahlhoefer Coita - CRB 10/1563

- A ideia de uma sociedade culturalmente homogênea não

se sustenta mais -A adoção é muitas vezes internacional

- Dois tipos de procedimentos para adotar no exterior -A imigração é seletiva?

-A adoção não garante mais viver em uma família clássica -As demandas de pessoas sozinhas são cada vez mais numerosas

- Como se consegue a aprovação

Capa: Henrique Oliveira

Goya (1746-1828), Duquesa d 'A/ba com criança

negra - desenho do álbum Sanlúcar; acervo do Museu do Prado,

Motivo da capa:

2.

A criança e suas famílias

23

- O caso de Woody Allen

- Branca de Neve

Quando a adolescente lembra a mãe jovem a seu pai -A carne fresca

-

Édipo e Cronos, uma história geracional -A adoção e o incesto

-

-

Quando as posições se embaralham

3.

Meu coração entre dois

31

- A palavra a mais

- Reconhecida por toda vida

- "Eu não pedi nada, eu não devo nada"

- Demasiado ou não suficiente

- "Eu tenho o direito de dizer sim ou não" -A dívida não é a que se crê

Madri.

Revisão de língua portuguesa : Lia Cremonese

Reservados todos os direitos de publicação em

língua portuguesa para:

CMC Editora Praça Marechal Deodoro, 130/802 CEP: 90010-300 - Porto Alegre - RS (51) 3062.0522 cmceditora@cmceditora.com.br www.cmceditora.com.br

Proibida a reprodução total ou parcial Depósito legal

Impresso no Brasil - Printed in Brazil

www.cmceditora.com.br Proibida a reprodução total ou parcial Depósito legal Impresso no Brasil - Printed in Brazil
www.cmceditora.com.br Proibida a reprodução total ou parcial Depósito legal Impresso no Brasil - Printed in Brazil

4. Construir suas ficções individuais

- O verdadeiro destino

- O particular é um enigma

- "Eu sou uma criança adotada"

- Falar de sua adoção para uma criança sem lhe impor um estatuto

- O dizer não deverá ir contra sua intimidade

- Quando a criança quer entrar na normalidade

39

5.

A busca da origem

49

-A função da marca

- Os três índices

- Só a genitora abandona

- O que legitima uma família?

- Como conceber a natureza da busca da origem?

6.

O encontro entre pais e filho,

um mal-entendido permanente

55

- O narcisismo ferido

- Meu pai, este herói

- O fantasma de salvamento

- Como saber que é seu filho?

Salvar a honra -A falha dos outros

-

7.

A clínica da criança adotiva

.61

Como considerar essas dificuldades na adoção? -O dejeto

-

-

"Eu não os quero"

Saber a verdade sobre a verdade -A verdade é um significante

-

8.

As crianças adotivas são crianças em risco?

69

- O menosprezo de si

- O beijinho de Chloé

"Você não é como as outras" -A agressividade

-

-

Partir sem poder se separar

9.

Quando os males se tornam a linguagem do corpo

.77

-A criança separada e seu estado depressivo

- O desejo humano é o apelo à comunicação

- A noção de castração no bebê

-A separação precoce e suas consequências

- O perigo é quando o bebê deixa de fazer demais

10.

O caso de Karine

.83

-Identificação e objeto libidinal -O luto da perda do primeiro objeto de amor

11.

A adoção e o trabalho escolar

.89

-

O fracasso escolar é uma realidade?

-A criança adota a voz e a língua materna inicialmente -A língua materna

-A adoção não significa fracasso escolar

- As pesquisas anglo-saxônicas

- Tendências gerais

- O ideal em adoção nem sempre é seguro

- Os trabalhos franceses

- Um caso de fracasso escolar, ou fracasso face ao ideal

12.

A escolaridade entre saber e verdade

99

-

O caso de Tânia

-Algumas dificuldades correntes

- A queda da letra ou a queda do anjo

- A letra em todas as suas formas

-A leitura é uma responsabilidade do sujeito

-

A criança caligráfica

-A letra não é uma aprendizagem como as outras

- O saber da mãe faz barragem

- Se mudássemos o sistema de nota escolar

13.

Há consequências em criar

sozinho(a) uma criança?

107

- A realidade da adoção por um só dos pais

- Quais são os inconvenientes?

- Um peso econômico

- O isolamento social -O estresse -A incógnita

- Um caso exemplar

-Algumas consequências já assinaladas

- Quando a presença física se torna insuportável

incógnita - Um caso exemplar -Algumas consequências já assinaladas - Quando a presença física se torna
incógnita - Um caso exemplar -Algumas consequências já assinaladas - Quando a presença física se torna

14.

Adoção e homossexualidade

117

- O mal já está feito?

 

- Uma homossexualidade cultural latente

 

- Quando o homossexual convém às normas sociais

- Nada de educação nova, antes conservadorismo

- Uma "população marginal", uma adoção marginal

- Há lésbica e lésbica

- Reconsiderar as candidaturas

15.

O sujeito é

a hipótese de um Outro materno

127

-A trindade não é uma família humana - É preciso que a cria humana encontre uma mãe

-

O sexo é a alteridade

-A história familiar

 

- A responsabilidade do sujeito

 

- O amor não constitui a família

- A família como conhecemos tende a se marginalizar

- Permaneçamos zen, o impossível se imporá sempre

16.

Ninguém é inocente quanto à sua vida

137

Conclusão

 

143

Prefácio Crianças na estante

Existe atualmente na França uma considerável demanda de adoção - dezenas de milhares de casais à espera - , que o mercado não chega a fornecer.

Tal formulação parecerá, espero, aberrante. Entretanto, ela descreve muito bem a realidade, a qual nos instiga a descobrir, entre outros traços, o notável estudo de Nazir Hamad. Com efeito, os numerosos casos que ele relata com a fineza de análise que lhe é própria não perfazem simplesmente catálogo. Os casos testemunham, graças a ele, uma modificação profunda do relacionamento ocidental com a procriação e permitem prever uma era próxima em que a criança em casa será um produto de importação. A velha brincadeira segundo a qual papai e mamãe foram à loja buscar

o irmãozinho ou a irmãzinha presta-se cada vez menos ao

sorriso cúmplice. E a cor do recém-chegado justificar-se-á tanto pela ambição mantida de um paternalismo planetário

quanto pelas obrigações da caridade. É evidente que uma criança nascida da caridade não

é o produto do desejo. Também não nos admiremos de que,

quando crescido, o pequeno adotado venha a contestar um serviço que ele não pediu mais do que se dispôs a prestá-lo. Porque ser a criança de uma esmola que se sabe forçosamente conveniente dispõe mal às identificações, de modo que, na idade da ingratidão, esta se expressará habitualmente pela busca desesperada, tão frequente quanto desastrosa pelas consequências, da mãe biológica. Por que tantos casais no mundo ocidental estão em falta de criança, quando as condições se prestam à sua

concepção, compreendidos aí os meios de assistência médica

falta de criança, quando as condições se prestam à sua concepção, compreendidos aí os meios de
falta de criança, quando as condições se prestam à sua concepção, compreendidos aí os meios de

8

Adoção e parentalidade: questões atuais

quando são necessários? Certo, sabemos que a natalidade baixa com a elevação do nível de vida. Mas pode-se suspeitar que o investimento profissional também não suscita uma verdadeira delegação de encargos, como aliás será o caso a seguir com a

criação do pequeno, confiada

Este surpreendente deslocamento se observa enquanto cerca de 230 mil nascimentos são voluntariamente interrompidos em nosso país. O que suscitam, no sociólogo, vetores tão opostos? Um psicanalista estaria tentado a ver aí uma ruptura entre o simbólico da filiação e o real da fecundação, tornada assim veterinária, ao passo que a concepção seria enfim puramente espiritual. A aspiração de ter uma criança penderia assim para o lado de uma demanda cuja nova legitimidade gostaria que não pudesse ficar sem resposta. Os movimentos contraditórios que evocamos manifestarão assim a tendência contemporânea de tratar o desejo como uma necessidade e o objeto de satisfação como simplesmente material. O brilhante estudo de Nazir Hamad nos mostra como esse objeto se revoltará assim que o espírito o tiver atingido.

muitas vezes a uma imigrante .

Charles Melman

Introdução

Desde a publicação de meu livro A criança adotiva e suas familia s 1, o campo da adoção transformou-se com uma rapidez inesperada.Na época, eu havia destacado alguns sinais precursores das modificações a vir. Apenas dez anos passados, esses sinais tornaram-se uma realidade incontornável que mistura nossas referências habituais. A adoção se aplicava então principalmente a casais casados, em torno dos trinta anos de idade e sem filhos. Este privilégio correspondia à concepção que tínhamos da família clássica e obtinha um amplo consenso entre os profissionais, mesmo se demandas marginais viessem às vezes suscitar o debate.

A adoção, dados médicos, psicológicos e sociais 2

era há muito tempo o livro de referência das equipes especializadas em adoção. Nele era dito explicitamente que a adoção se destinava prioritariamente aos casais estéreis e que almejassem de comum acordo adotar uma criança pequena. Aos poucos, o termo "casado" foi descartado, posto que o concubinato se impôs como um fato social frequente. Em troca, a adoção por uma pessoa sozinha ou por um casal homossexual suscitava - e ainda suscita - reticências de ordem moral, religiosa ou psicanalítica. Em todo caso, essas categorias de demandas eram pouco frequentes e raramente obtinham satisfação.

Quando eu comecei a reunir os documentos tendo em vista a redação deste livro, o debate se tornara agitado.

1 HAMAD, N . L 'enfanl adoptif et sesfamilles. Paris : Denoel, 2001.

2 LAUNAY, C.; SOULÉ, M. ; VEIL , S. L 'adoption, donn ées médicales, psycholog iques et sociales. Paris : E SF, 1978.

C.; SOULÉ, M. ; VEIL , S. L 'adoption, donn ées médicales, psycholog iques et sociales.
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10

Adoção e parentalidade: questões atuais

Entre os que estavam a favor e os que denunciavam tais diligências, a adoção atravessou um período agitado. Para a reflexão, o desencadeamento no discurso era inevitável.

A adoção era o domínio sensível em que a evolução social e a

mudança de costumes que a acompanhava produziram um

debate crucial. O livro de Charles Melman O homem sem

Lebrun) é um exemplo típico

do tom que esse debate assumiu com o tempo. Em todo caso,

as questões que se levantam no campo da adoção fazem desta

última um observatório da evolução da civilização atual e, sobretudo, da mutação que conhece a família no mundo ocidental. As demandas de criança dirigidas aos serviços de adoção muitas vezes detém os primeiros elementos das mudanças em gestação, pois a adoção é aí confrontada em primeiro lugar.

No momento em que me interessei por essas modificações, os serviços de adoção discutiam sobre essas candidaturas que se tornaram numerosas. As equipes não chegavam a encontrar uma posição comum porque, como a própria sociedade, elas estavam mais ou menos sensibilizadas, mais ou menos receptivas a tal ou qual demanda, estando completamente fechadas para outras.

A partir daí, a adoção internacional veio despojar o

lado quente deste debate. Procurar a criança no estrangeiro externou o problema e o tornou menos tributário dos especialistas. As candidaturas de pessoas sozinhas representam hoje em dia 40% dos casos tratados e acordados em Paris. A maioria desses candidatos volta-se para a adoção internacional pelo viés dos organismos especializados. As pessoas sozinhas contam com os homossexuais entre elas. Por esse fato, é dificil avaliar com exatidão o número '\ de acordos concedidos a esses candidatos. O debate na França, como aliás no Ocidente, interessa-se por dois problemas essenciais:

- o sucesso da integração de crianças adotadas em

sua família e na sociedade de acolhimento. É um problema

gravidade 3 (entrevistas com J.-P.

3 Paris: Denoel, 2002.

Introdução

11

I

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ainda mais difícil quando concerne à estrutura da família em sua mutação atual: pode-se tratar de uma pessoa sozinha, muitas vezes uma mulher, ou de uma pessoa homossexual sozinha ou vivendo em casal, que cria urna criança; - o segundo problema concerne à inquietação geral no tocante à evolução familiar. A adoção não garante mais à criança um casal parental, e mesmo quando a solicitação é feita por um casal, este não será forçosamente mais duradouro.

A família está mais e mais frágil, ela se rompe, se recompõe e

às vezes em tal recomposição não se sabe mais como denominar o elo que une as crianças entre si, e, às vezes, aos adultos. A adoção não escapa mais a essa realidade. Ela tem mesmo a tendência a tomar ainda mais complexas situações

frágeis.

Na França, os especialistas se posicionam muitas vezes em petições de princípio, sem tornar a distância necessária para julgar a adoção pelos homossexuais ou pelas mulheres sozinhas. Outros países, corno os Estados Unidos, o Canadá, a Inglaterra e os países escandinavos, precederam-nos nessa via, e devemos prestar atenção ao que lá acontece. É claro que só a experiência clínica e o trabalho de pesquisa nos permitem sair de posições não fundamentadas e ter urna abordagem mais pragmática da adoção e da evolução familiar tal como a encontramos hoje em dia, para grande escândalo de uns e felicidade daqueles que a desfrutam plenamente. Este trabalho vem completar A criança adotiva e suas famílias. Contém em princípio a contribuição da clínica. Ao longo de meus numerosos debates com as famílias adotivas e suas crianças, coletei múltiplos testemunhos. Vem a seguir meu trabalho de clínico. Além disso, consultei muitos trabalhos anglo-saxões conhecidos ou menos conhecidos e devo admitir que essas publicações levaram-me a reconsiderar minhas posições sobre algumas questões-chave. A família clássica com os dois pais genitores corresponde cada vez menos à realidade. A estrutura patriarcal

da sociedade encontra-se assim seriamente abalada.

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corresponde cada vez menos à realidade. A estrutura patriarcal da sociedade encontra-se assim seriamente abalada.

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A adoção à imaaem da evolução familiar

A segunda metade do século XX conheceu uma evolução rápida no plano tecnológico, bem como mudanças por vezes radicais nas normas sociais e culturais que presidiam

a educação das crianças. A estrutura familiar em si perdeu os

arcos perpetuados ao longo dos séculos. A endocentricidade que foi sempre a pedra angular de nossas referências culturais está em más condições, e ninguém pode prever as consequências para o futuro da família como entidade de base

na estrutura social. Essas mudanças fragilizam nossas sociedades e deixam a família em um estado de confusão quanto às escolhas

a fazer. Devemos aceitar os valores que começam a desenhar

novas tramas no tecido social ou é preciso defender os antigos?

A ideia de uma sociedade culturalmente homogênea não se sustenta mais

É evidente que o nosso mundo está cada vez mais

múltiplo no plano étnico, cultural e religioso. O mito da sociedade culturalmente homogênea foi atacado vivamente.

A miscigenação dos povos, devida essencialmente aos

movimentos de população, e a mestiçagem que acarreta impõem

a cada cultura o desafio de assumir suas mutações. Essa transformação é acelerada pela clivagem cada vez mais evidente entre a economia e o social, que tende a empobrecer qualquer discurso e a romper o laço de solidariedade entre as classes e entre as gerações. A instabilidade econômica e a incerteza que ela deixa planar sobre o futuro de cada um se traduzem por uma espécie de pânico geral que

1 4 Adoção e parentalidade: questões atuais transforma a sociedade em grupos de indivíduos prestes

14

Adoção e parentalidade: questões atuais

transforma a sociedade em grupos de indivíduos prestes a assumir o que preferiam repudiar enquanto membros de uma classe social ou de um corpo profissional constituído. Procurar sua salvação fora é cada vez mais tentador para milhões de pessoas ao redor do mundo. Que se abram as fronteiras , como no seio da União Europeia, ou que elas se fechem para os que emigram dos países pobres, isso não muda nada o fato de que muitas categorias sociais tendem a migrar, a mudar de lugar ou de país em busca de melhores oportunidades de trabalho e de promoção social. As grandes cidades, como Londres, Nova York, Paris, e outras não tão grandes, como Dubai, são verdadeiras torres de Babel. E se nada vem corrigir a distribuição de riqueza que cavou perigosamente a distância entre os países ricos e os países pobres, o movimento das populações corre o risco de se tornar o verdadeiro drama dos decênios futuros. A adoção internacional participa em parte dessa mestiçagem das populações. Nos países ocidentais, a adoção interna se marginaliza devido ao pequeno número de crianças que precisam ser alocadas. Os candidatos à adoção se voltam para o estrangeiro, para os flªÍses gue não dese-J1Yolveram um sistema de proteção social capaz de vir em socorro da criança e d~ família. Milhões de crianças ao redor do mundo não se beneficiam da menor atenção por parte das autoridades de seu país e de outras estruturas sociais privadas. Segue-se que numerosas•crianças crescidas ou jovens adolescentes são perseguidos, exatamente como se perseguem espécies nocivas, nas ruas das grandes cidades ou nos bairros pobres. (Uma amiga psiquiatra de um país da América do Sul, que trabalhava em um lugar de acolhimento a jovens delinquentes, trouxe-nos este testemunho terrível: ela tinha conhecido uma dúzia de adolescentes com quem ela havia começado um trabalho com vistas à sua reinserção social. Esse trabalho durou algum tempo, e esses jovens mostraram sinais mais ou menos tranquilizadores quanto à sua evolução. Tendo deixado seu trabalho, ela perdera esses adolescentes de vista durante um ano. Quando, de passagem pelo lugar, ela entrou para pedir notícias deles, ficou sabendo que apenas um tinha sobrevivido. Os outros tinham sido liquidados pela polícia local.)

1 - A adoção à imagem da evolução familiar

15

A adoção é muitas vezes internacional

Só em Paris, estima-se que em2005 o número de

~s à espera d~ uma adoção seja de 1.620, casais e solteiros _ misturados. Esse numero quase dobrou em dez anos. O número

) fie crianças a serem colocadas sofreu uma curva inversa: elas - eram 87 em 1994, e não são mais que 46 em 2005. 1 _ Essa tendência se confirma em todo território francês, bem como nos outros países ocidentais.

No plano nacional, estima-se que os DDASS 2 aceitam

8

mil casos por ano. fu!! 2003, 5 mil crianças foram adotadas,

4

mil dentre elas vinham da adoção internacional. Eram 2.971

c rianças em 2000 e 4.136 em 2005. No ano de 2006, ocorreu ~ uqia pequena baixa, 3.977 crianças, mas isso se explica 1 n~ meu ponto de vista, pela vontade de diversos países implicados na adoção de pôr ordem em certas práticas que tinham saído do controle. Os continentes de origem são a Europa (1.073 crianças), a África (1.083 crianças), a América (1.062 crianças), a Ásia (861 crianças). Isso representa 77 países pelo mundo, um número que também aumenta rapidamente. No que se refere à idade, J4% dessas crianças foram adotadas com menos de um ano, 22!¾ tinham entre um e dois anos de idade, J9% tinham entre dois e cinco anos e 18% tinham cinco anos ou mais. (Esses números me foram fornecidos pela EFA (associação "Infância e famílias de adoção".) Atualmente, segundo as informações da EFA, haveria cerca de 25 mil casos (27 mil segundo uma petição publicada em Le Monde, de 4 de abril de 2007) de famílias e pessoas sozinhas que esperam encontrar uma criança por intermédio da adoção internacional. Então é fácil imaginar que a adoção participa de certa maneira da mestiçagem da sociedade francesa. Mas essa mestiçagem é, em princípio, fenotípica. Ela não é nada cultural. As crianças adotivas em geral são introduzidas na língua e na

1 Documento da Direção da ação social da infância e da saúde, "A adoção em Paris", 2005.

2 Direction Départamentale des Atraires Sanitaires et Sociales. N.T.

e da saúde, "A adoção em Paris", 2005. 2 Direction Départamentale des Atraires Sanitaires et Sociales.

16

Adoção e parentalidade: questões atuais

cultura de seu país de acolhimento desde sua mais tenra idade. São criadas e educadas como toda criança francesa e se beneficiam de um acolhimento familiar e de uma abertura cultural que lhes permite adaptar-se rapidamente ao modo de vida de sua nova família. Assim, a família adotiva é a imagem de nossas sociedades, ela é múltipla. Em nossos dias, é frequente ver pais brancos criando uma criança de fenótipo diferente. Além disso, essa diferença não desperta mais a curiosidade das pessoas, como era o caso antigamente. A adoção torna-se tão frequente que é raro discutir essa questão com qualquer um sem descobrir que ele conhece uma criança adotiva na família ou em seu ambiente.

Dois tipos de procedimentos para adotar no exterior

O procedimento individual é o mais frequente.

Os candidatos a adotarem preenchem um formulário na Agência Francesa de Adoção. A agência trabalha com os países signatários da convenção de Haia e com outros países que tenham assinado uma convenção bilateral com a França.

Se os candidatos se orientam para os países não-signatários, eles se dirigem às autoridades competentes nesses países ou aos orfanatos, diretamente ou por intermédio de pessoas competentes, advogados por exemplo.

O segundo procedimento passa pelos organismos

autorizados para a adoção. Eles se encarregam dos procedimentos que geralmente resultam na adoção de uma cnança.

A imigração é seletiva?

O debate sobre a imigração nunca é tranquilo.

Talvez seja preciso acreditar que jamais o será. Haverá sempre

em jogo duas correntes de pensamento e de sensibilidade diferentes; entre esses que se alarmam e que se investem como defensores da identidade e da cultura nacional e aqueles que nos anunciam que o Ocidente, por manter o ritmo de seu desenvolvimento, tem necessidade de reforçar sua capacidade demográfica fazendo apelo aos homens e mulheres desejosos

1 - A adoção à imagem da evolução familiar

17

de se expatriar. Essas duas correntes nunca chegarão a um acordo, e o problema é tanto econômico como psicológico e narcísico. Não enxergamos transformação na aparência de nossas cidades e de nossos bairros sem nos sentirmos preocupados pela interferência em nossas bases familiares. Não assistimos indiferentemente às incisões em nosso ideal identitário pelo que a imigração impõe como novos costumes e como novos traços fisicos. A ideia de um limiar de tolerância em relação ao outro diferente foi invocada inúmeras vezes para explicar o sentimento de rejeição em relação ao estrangeiro. Ainda que essa ideia mereça atenção, sua exploração conhece, e conhecerá sem dúvida, um deslizamento ideológico. Não entraremos aqui nos detalhes desse debate, mas mesmo assim é interessante notar que cada lugar de adoção é, à sua maneira, partidário da segunda corrente. Uma família adotiva não está diretamente implicada nas preocupações econômicas; por outro lado, ela responde de maneira humana aos problemas da tenra infância no mundo, ainda mais que ela é motivada por seu desejo de criança. Os que se candidatam a adotar estão como pais potenciais de uma criança nascida em qualquer lugar e vivendo em condições precárias, abandonada por seus pais biológicos.

A adoção não conhece fronteiras geográficas e menos

ainda culturais, e, por esse fato, ela se mostra de alguma maneira como fazendo parte de uma sociedade utópica na qual os

homens são animados pelo cuidado em se abrir ao outro e em acolhê-lo como um dos seus. Essa visão idílica é verdadeiramente possível? Examinaremos isso por meio da experiência clínica que tivemos oportunidade de adquirir neste domínio.

A adoção não garante mais viver em uma família clássica

A instabilidade dos casais, a taxa elevada de divórcios,

o grande número de famílias recompostas, a normalização dos laços entre homossexuais e seu direito a ter crianças fazem que uma criança criada por seus dois pais biológicos vivendo juntos não seja mais a norma nos países desenvolvidos.

que uma criança criada por seus dois pais biológicos vivendo juntos não seja mais a norma
1 8 Adoção e parentalidade: questões atuais A adoção não escapa a essa realidade. Ela

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Adoção e parentalidade: questões atuais

A adoção não escapa a essa realidade. Ela não garante

mais à criança viver numa família composta por um casal

parental heterossexual, nem muito menos em um ambiente estável. Antes eram consideradas duas condições como incontornáveis para qualquer colocação de uma criança

abandonada. A ideia subjacente a essa prática vinha de uma hipótese simples: não se submete a uma segunda separação uma criança que já sofreu o traumatismo de uma separação

precoce. Muitos clínicos ainda se apoiam na concepção tradicional de família. Alguns tendem a resistir frente ao que

eles consideram uma derivação perigosa que ameaça o futuro da família e da sociedade em geral.

o direito dos homossexuais

de adotar uma criança fez correr muita tinta e desencadeou paixões. Muitos psicanalistas foram tratados como homófobos e retrógrados porque consideram a diferença entre os sexos como uma referência incontornável no que constitui uma família para um sujeito humano. Eu participei deste debate no meu livro A criança adotiva e suas famílias e coloquei as coisas em termos de respeito a cada um dos pais, a cada tutor, para a sensibilidade da criança quanto ao outro sexo e quanto à sua identidade sexual. Para mim, uma mulher que não tem filhos em razão de sua preferência sexual não apresenta necessariamente problemas como poderia apresentar outra mulher que se diz heterossexual, mas "passeia com um saco de pimenta moída em sua bolsa, com o objetivo de atirar seu conteúdo na cara do homem que ousar abordá-la com outras ideias na cabeça". A homossexualidade não é uma contraindicação maior para a adoção, pois ela não é a invenção de um casal homossexual. Por outro lado, um casal heterossexual não induz seus filhos necessariamente a um devir heterossexual.

O debate sobre o PACS 3 e

3 PACS (Pacte civil de solidarité), pacto civil de solidariedade é, na França, uma forma de união civil entre duas pessoas maiores (os parceiros), independente do sexo, tendo como objetivo organizar a vida em comum, com direitos e deveres em termos de herança, descontos em impostos, direitos de habitação e segurança social, assim como responsabilidade mútua no tocante a dívidas e contratos. A lei do PACS não dá direitos de adoção ou custódia. Alguns dos direitos previstos na lei são válidos apenas três anos após o registo. N.T.

1 - A adoção à imagem da evolução familiar

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Em troca, o que me parece condenável é a adesão de muitos ao discurso que faz da sexualidade uma preferência,

como se se tratasse no fundo, de uma escolha consciente. Eu me lembro de uma discussão com um grupo de famílias residentes nos Estados Unidos que defendia a ideia, já posta em prática, de reagrupar os pré-adolescentes e adolescentes que manifestassem sensibilidades julgadas femininas nas escolas que os preparam para sua futura vida de homossexual. Quando eu tentava lhes explicar que não é homossexual quem quer e que nem toda "sensibilidade feminina" em um pré-adolescente é obrigatoriamente sinal de uma evolução homossexual, suscitei certa hostilidade de sua parte.

A ambiguidade sexual nos pré-adolescentes ou adolescentes

não é a homossexualidade propriamente dita. Essa posição,

no fim das contas banal, valeu-me ser tratado como homófobo por alguns exaltados. No que concerne a essa diligência

assombrosa de segregação de crianças pretensamente diferentes, é evidente que um desejo de homossexualidade nos pais se aloja atrás dos argumentos que se pretendem compreensivos e tolerantes. O perigo ligado à homossexualidade é a militância,

a impossibilidade para a criança de tomar a distância necessária que lhe permita evoluir com toda segurança em seu meio natural, sua família. A experiência clínica nos ensina que a homossexualidade de uma criança pode estar intrinsecamente ligada ao desejo contrariado dos pais, ou de um dos pais,

a respeito do sexo de seu filho. Quando tal é o caso, é possível

ver os pais funcionarem em uma espécie de recusa da identidade

sexual de seu filho e orientarem, sem sabê-lo, suas opções. Eis um pequeno exemplo banal, mas suficientemente eloquente para apoiar nossa afirmação: o de uma jovem mulher que era

a terceira filha de um casal frustrado por não ter um menino.

A terceira e última criança foi sua última chance de ver

realizado esse desejo, mas, para sua infelicidade, foi uma menina. Os pais, decepcionados, encontraram uma fórmula consoladora que fazia rir todo mundo, menos ela. O pai se habituara a apresentar suas duas primeiras crianças como "suas duas filhas" e a terceira se via qualificada de "aquela que não é um menino". Essa história, felizmente muito mais

e a terceira se via qualificada de "aquela que não é um menino". Essa história, felizmente
2 0 Adoção e parentalidade: questões atuais anedótica do que dramática, aborreceu muito essa jovem

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Adoção e parentalidade: questões atuais

anedótica do que dramática, aborreceu muito essa jovem mulher. Ela não conseguia rir dela até poder fazer uma leitura pessoal do desejo de seus pais: "Eu tenho um desejo de ter um menino, mas minha filha não pode sê-lo".

As demandas de pessoas sozinhas são cada vez mais numerosas

Em Paris, em 2005, a comissão julgadora entregou quinhentas decisões distribuídas da seguinte maneira:

- casais casados ou não: 338 positivos, três recusados;

- pessoas sozinhas: 151 positivos, oito recusados.

31 % das decisões favoráveis foram, então, para

pessoas sozinhas, cuja grande maioria se dirige para a adoção internacional. Algumas dessas pessoas sozinhas já tinham um filho e procuravam um outro.

É evidentemente dificil pintar o quadro psicológico

dessas pessoas e situar a razão de sua pretensa vida de solteiro; sempre ocorre que inúmeras pessoas homossexuais, mesmo quando vivem em casal, têm a tendência de se apresentar como uma "pessoa sozinha". Por outro lado, a adoção se faz por

uma pessoa sozinha quando o casal vive fora do vínculo de casamento.

Como se consegue a aprovação

Os postulantes devem em princípio fazer sua solicitação por escrito ao Departamento de adoções. Após a recepção

dessa carta, os postulantes são convocados para uma reunião de informação ao fim da qual lhes é entregue um formulário que eles devem preencher e entregar ao serviço respectivo.

É na volta desses documentos que a demanda é

oficialmente registrada e que começa o procedimento propriamente dito, durante o qual a administração deve se certificar que os solicitantes apresentam condições suficientes de acolhimento no plano familiar, educativo e psicológico.

1 - A adoção à imagem da evolução familiar

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Para fazê-lo, os postulantes são convidados a encontrar mediadores pertencentes aos campos psicológico e socioeducativo. A aprovação é liberada ou recusada pelo presidente do conselho geral, após o parecer da comissão de aprovação. 4

4 Documento divulgado pela Direção da ação social da infância da saúde, "A adoção em Paris", 2005.

4 4 Documento divulgado pela Direção da ação social da infância da saúde, "A adoção em

2

A criança e suas famílias

A questão da adoção nos confronta permanentemente

com a da família, no que a instaura para um homem, para uma mulher e para uma criança. Por que é preciso para nós crer que o fato de que dar uma criança a uma pessoa sozinha ou a um casal constituirá necessariamente uma família? Será suficiente pôr duas gerações juntas para que cada uma

se reconheça na outra e a apoie, apesar das dificuldades que a

vida em conjunto lhes apresenta, como acontece muitas vezes?

Viver junto constitui a melhor condição para construir uma família? Se sim, o que torna essa vida possível?

A experiência nos ensina que a chegada de uma criança

adotiva, ou simplesmente a chegada de uma criança na vida

de um casal, submete cada um dos parceiros a uma série de

abalos afetivos e psicológicos, cujas consequências são difíceis

de prever. Elas são muito delicadas para avaliar por estarem

intimamente ligadas à história familiar do indivíduo e à singularidade de sua estrutura psíquica. Essa chegada sempre tende a cruzar elementos vivos da história de cada indivíduo com sua problemática inconsciente, produzindo nele uma espécie de mutação que determina para ele a particularidade da função parental. É justamente isso que Lacan chama "os complexos familiares". 1 Não é preciso confundir complexo e conflito, como se diz, por exemplo, o "conflito edipiano".

O conflito deve ser considerado como um resto quando o

complexo, por uma razão ou por outra, apresenta algumas falhas. O complexo representa o núcleo de base de um processo que Freud denomina "processos de normatização". Trata-se

1 LACAN, J. Les complexes familiaux Paris: Navarin, 1984.

dans la formation de l 'individu.

Trata-se 1 LACAN, J. Les complexes familiaux Paris: Navarin, 1984. dans la formation de l 'individu.
2 4 Adoção e parentalidade: questões atuais de um processo que ordena as relações entre
2 4 Adoção e parentalidade: questões atuais de um processo que ordena as relações entre

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Adoção e parentalidade: questões atuais

de um processo que ordena as relações entre as gerações e permite a cada um se identificar a seu sexo e estar, em princípio, de acordo com seu desejo de homem ou de mulher para o outro sexo. A família não se constrói sem o desenrolar de um conjunto de complexos que designam a cada um de seus membros um lugar e uma função que constituem o suporte do que está em jogo no édipo.

O caso de Woody Allen

Interrogar-se assim sobre o que constitui a família levanta outra questão: o que acontece em primeiro lugar? É a lei da proibição do incesto que funda a família ou é a família que instaura essa proibição? A história de Woody Allen é eloquente e pode nos servir de exemplo. O ator casou-se com sua filha adotiva. As opiniões sobre esse caso foram inúmeras e contraditórias. Alguns o julgaram severamente: "um pai incestuoso". Outros encontraram escusas para ele, afirmando que a filha tinha sido adotada por sua companheira e que isso não fazia necessariamente dele um pai adotivo. Para nós, não se trata aqui de julgar o caso do cineasta, mas antes de afirmar que a adoção, que nos institui pai ou mãe de uma criança, é em princípio uma questão de desejo que marca um casal de adultos com seu selo e que faz que se seja pai/mãe, pouco importa que a paternidade seja adotiva ou biológica. Dito de outra maneira, se não somos incestuosos, isso não depende de um comportamento intencional. Respeitar a proibição não requer um esforço cotidiano destinado a observar a lei como uma parada diante de um semáforo vermelho, por exemplo. A proibição rege, sem nos darmos conta, as relações entre as gerações, e isso faz com que ela seja o núcleo de base da estrutura familiar. Ora, a chegada dessa filha no casal de Woody Allen não gerou o que deveria inscrevê-la em uma relação baseada obre a proibição do incesto. Para Woody Allen, Branca de Neve destronou uma mãe que esqueceu de desconfiar de sua filha. Branca de Neve revelou-se uma rival poderosa.

2 - A criança e suas famílias

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Branca de Neve

Tudo leva a supor que Woody Allen não desejou adotar esta filha por meio de uma solicitação a dois, em que cada um

se reconhece no desejo do outro parceiro. A adoção deve ser

feita a dois, bem antes da chegada da criança. Trata-se de

uma posição inconsciente em que ter uma criança em comum ocupa o lugar de fazer uma criança junto. Fazer e

ter terão assim o mesmo impacto sobre a disposição de cada

um de acolher e reconhecer a criança como a criança do desejo.

O ator amou essa filha, certamente, mas a proibição não

desempenhou seu papel para retirar desse amor seu caráter sexual. A proibição é inerente ao desejo da criança. Precede

portanto a chegada da criança e opera para sua inscrição no laço familiar.

Nós fomos muitas vezes convocados a testemunhar pais tomados de inveja por seus filhos adotivos quando estes atingem a idade da maturidade sexual. As mães, como no conto

da Branca de Neve, sentiram-se destronadas pelas filhas

tornadas núbeis, negligenciadas por seu parceiro que se torna

de repente mais próximo da jovem ninfeta. Eu escutei até

mesmo algumas me dizerem: "Isto seria desleal de parte de nossa filha, ainda mais que ela tem a vantagem da juventude."

Eu não acredito que essas mulheres falassem do incesto propriamente dito. Mas, tal como a rainha, elas sabiam que não eram mais "as mais belas", e que a geração jovem, sua filha no caso, atrai o olhar dos homens - o mesmo olhar de admiração ou desejo que lhe era reservado até há pouco. Trata-se de um ferimento narcísico que todo pai e toda mãe conhecem em um momento ou outro de sua vida. Mas, se não

se sente uma inveja destrutiva como a da madrasta no conto,

é porque nos identificamos com nossos filhos e nos sentimos orgulhosos ao vê-los lindos e inteligentes. É justamente o sentido que atribuímos ao elogio quase ridículo que fazemos aos novos pais quando se lhes diz que a criança é "lindo ou linda como sua mãe e inteligente como seu pai".

aos novos pais quando se lhes diz que a criança é "lindo ou linda como sua
aos novos pais quando se lhes diz que a criança é "lindo ou linda como sua
26 Adoção e parentalidade: questões atuais Quando a adolescente lembra a mãe jovem a seu

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Adoção e parentalidade: questões atuais

Quando a adolescente lembra a mãe jovem a seu pai

Esta identificação é possível pelo fato que aceitamos

o golpe que a geração jovem inflige ao nosso narcisismo de

homem e de mulher. Nós ganhamos de qualquer maneira no plano do nosso narcisismo de pais o que perdemos enquanto homem e mulher em declínio. Mas isso não acontece sem mal-entendido e sem dor. Aconteceu de Françoise Dolto aconselhar as jovens adolescentes a deixar a casa de seus pais para ir morar com os avós ou outro membro da família, quando seu pai tinha se tornado inexplicavelmente agressivo a seu respeito. Dolto explicava que essas meninas, tornando-se jovens mulheres, despertavam em seu pai as primeiras excitações

amorosas que ele tinha vivido com sua mulher no início de sua vida juntos. As jovens adolescentes tornam-se de repente perigosamente invasivas para pais que não suportavam mais vê-las deixar suas calcinhas jogadas em seu quarto ou ainda

se mostrarem um pouco impudicas em casa. Sob considerações

educativas diversas, os pais tinham dificuldades em esconder

o embaraço que a nudez e os atributos sexuais de sua filha

provocavam neles. A agressividade inexplicável desses pais era o reflexo de seu constrangimento.

A carne fresca

Por que contamos histórias de ogros e ogras a nossas crianças? Que mensagem lhes transmitimos quando mobiliamos suas noites com fadas, lobos e ogros eternamente ávidos de carne fresca? 2 O ogro sente a presença de uma criança antes mesmo de enxergá-la. Basta que ponha o em casa para sentir o odor particular da carne fresca, à qual nenhum ogro é capaz de resistir. Isso desperta seu apetite, que não cessa enquanto ele não devorar a criança ou as crianças que, para infelicidade delas, cruzarem seu caminho. Só sua mulher consegue às vezes retardar seus prazos. Ele está então condenado: os ogros que as esposas conseguem frustrar um

2 Todos os pais e mães brincam de morder a barriguinha de seu bebê ou os pezinhos quando lhe trocam as fraldas.

2 - A criança e suas famílias

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pouco estão destinados à sua perda. A mulher mãe aparece na mitologia ou nos contos ora meio disfarçada, executando a ordem de seu parceiro sexual, ora cúmplice com uma das crianças, obrando para destronar o pai.

Édipo e Cronos, uma história geracional

A mitologia grega nos familiarizou com tais roteiros. Entre Reia e Édipo, a história da sucessão entre as gerações não faz mais que renovar o mal-entendido funesto. Cronos castrou seu pai, Urano, com a cumplicidade de sua mãe. Cronos, advertido por seus pais que seria por sua vez destronado por um de seus filhos, engolia os filhos que sua mulher/irmã Reia lhe dava. Esta perdeu a paciência e salvou o último, Zeus. Aconselhada por sua mãe Gaia, enrolou uma pedra nas fraldas de seu bebê e deu ao pai. Este se apossou dele e o engoliu sem mastigar. Depois, com o estômago um pouco pesado, foi dormir. Zeus cresceu e, mais tarde, venceu seu pai

e obrigou-o a vomitar seus irmãos e irmãs. Mas por que ela não imaginou isso antes? Por que ela entregou todo o tempo seus bebês a seu marido ogro sem reclamar? O mito não nos diz em termos claros. Somente que um Cronos que não diferencia entre uma pedra e a carne fresca deixa todo espaço à sua parceira para salvar suas crianças. Reia descobriu finalmente que seu voraz marido engolia tudo que ela lhe oferecia com o mesmo apetite. Reia se tomou a mãe para seus filhos no momento em que ela aceitou o risco de seu desejo de criança para sua descendência. Com essa pedra, ela não funda uma igreja, como fez Jesus, ela faz mais, ela nascimento a uma nova raça: os deuses do Olimpo. Não somente Zeus, contrariamente a Édipo, não matou seu pai, mas Cronos, segundo o mito, toma-se o pai de uma nova idade de ouro. Entre Zeus e Cronos houve uma história de mãe. A mãe de Urano, Gaia, convida seu filho a castrar seu pai. Ela mesma organiza o roteiro dessa castração horrível.

É justamente no momento em que o pai, Urano, vai penetrá-la

que seu filho, Cronos, lhe corta o sexo com uma foice. A mãe de Zeus, Reia, queria somente dar a seu filho uma oportunidade de sobreviver, e não tinha nenhuma intenção de castrar o pai.

queria somente dar a seu filho uma oportunidade de sobreviver, e não tinha nenhuma intenção de

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Adoção e parentalidade: questões atuais

Ela salvou um filho, e este filho não matou seu pai, ele o destronou enquanto todo-poderoso. Destronar assim seu genitor o torna pai. Trata-se então de uma castração simb_ólica, e não real, como fez Cronos com seu pai Urano, ou Edipo com seu genitor. Édipo seria então o equivalente de Cronos no sentido em que cada um aparece como destinado a destituir o pai para tomar seu lugar com a cumplicidade mais ou menos tácita da mãe. A mãe biológica de Édipo, segundo Sófocles, não deixava ~e saber que se tratava de seu filho. Pior ainda, cada vez que Edipo lhe fazia perguntas que deixavam a descoberto suas dúvidas a seu respeito ou a respeito de sua história, ela se organizava para escamoteá-las.

A adoção e o incesto

Nós não pensamos que a adoção aumente o risco do laço incestuoso. De qualquer forma, nenhuma estatística séria nos permite validar tal ideia. Os autores que se interessaram por esse problema raramente o consideram como espinhoso. Eis um exemplo de caso como encontramos em nossa experiência clínica: um homem de seus trinta anos, que sempre tivera problemas de impotência com as mulheres, atribuía isto a seu estatuto de criança adotiva. Homem jovem, tinha dificuldades em se defender de uma mãe intrusiva, que queria saber sobre sua sexualidade e sobretudo sobre suas relações com as mulheres. Quanto mais ele se defendia dela, mais suscitava sua cólera. Ele terminava por lhe contar histórias que inventava de propósito, e isso parecia acalmá-la, e até mesmo satisfazê-la. Um dia, comenta ele, sarcástico:

"Felizmente ela estava mal! Isso me salvou dela." Conhecemos outras histórias mais dramáticas, mas elas não podem ser qualificadas de específicas da adoção. Elas poderiam também atingir o seio de uma família biológica. Entretanto, é possível afirmar que a adoção poderia favorecer certa confusão entre os lugares que cada um dos pais se atribui junto à criança ou em sua educação.

2 - A criança e suas famílias

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Quando as posições se embaralham

É difícil qualificar como incestuosa a confusão de posições, mas é certo que isso não ajuda a criança a fixar suas referências em sua identificação com seu sexo ou na construção de seus ideais. Eis um caso que eu considero exemplar e que nos uma ideia clara das dificuldades que um casal adotivo se arrisca a encontrar quando um dos dois parceiros não leva em conta a ausência de desejo de criawnça no outro. A senhorita F. e o senhor K. viviam juntos há cerca de dez anos antes que esta decidisse tomar uma providência para adotar uma criança. O senhor K. nunca quisera filhos. Cada vez que ela lhe expressava o desejo de ter um filho dele, ele respondia ora que não era o momento, ora que ele não estava pronto para assumir uma criança com a história familiar que acarretava. Magoava a senhorita F. ver que seu parceiro lhe negava um filho que ela desejava tanto dele, mas, fazendo contra a má sorte bom coração, ela aceitava sua opção resignadamente. Um dia, seguindo o conselho de uma amiga, ela fez um pedido de adoção como mulher sozinha e, finalmente, ela adota uma criança através de um organismo especializado na adoção internacional. Inútil dizer que durante todo tempo de encaminhamento do pedido de sua companheira, o senhor K. fazia de tudo para desencorajá-la, até mesmo sabotar seu projeto, mas sem sucesso. Finalmente, a criança chega, uma menininha linda de um ano e meio. O senhor K., que ficara no aeroporto para recebê-las e levá-las para casa, se apaixona rápido pela filhota. Dia após dia, ele se revela ciumento e possessivo a ponto de não mais ter a menor confiança na sua companheira. Cada vez que a mãe fazia ou dizia qualquer coisa, ele estava lá para repreendê-la e corrigir o que julga errado ou perigoso para a evolução da criança. Quanto mais ele interfere dessa maneira, mais a mãe reage para se defender e defender seu lugar junto à filha pequena. O tempo passa, e nenhum tem mais confiança no outro e menos ainda nesse algo que os distingue enquanto homem e mulher e, mais precisamente, enquanto pai e mãe.

no outro e menos ainda nesse algo que os distingue enquanto homem e mulher e, mais

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Adoção e parentalidade: questões atuais

3 0 Adoção e parentalidade: questões atuais O senhor K., de sua posição de homem e

O senhor K., de sua posição de homem e de pai, acredita conhecer tudo sobre as necessidades de sua filha, a ponto de negar qualquer iniciativa válida por parte da mulher

e

Nesse contexto, logo não existe mais lugar para o que poderia ser a intuição feminina ou masculina, paterna ou materna. Tanto um como outro dos pais pensam estar fazendo

o que devem, e a diferença entre os sexos, para eles, não tem papel algum a desempenhar na educação de crianças ou no

estabelecimento de limites para o papel de cada um. Pouco a pouco cada um perdeu a especificidade de sua função junto à criança. Eles se tornaram pedagogos, educadores, em síntese, tudo menos pai e mãe. Eles assumiram muitas funções, menos aquelas que mais precisavam, as funções paterna e materna. Esse caso não é raro. Além disso, não se encontra só em adoção. Mas quando o roteiro se apresenta dessa maneira,

é evidente que o que está em jogo implica cada um naquilo que

tem de mais íntimo. Representar o papel de pai ou de mãe não faz a função paterna ou materna. Pois se é o desejo do outro sexo que faz o heterossexual, é o desejo de criança de nosso parceiro sexual que estabelece nossos limites de homem

mãe.

ou de mulher.

3

Meu coração entre dois

Essa questão do lugar e da função dos pais remete-nos àquela que se colocam muitos homens e mulheres adotivas: se existem duas espécies de pais, os biológicos e os adotantes, quais são os verdadeiros? Quais presidem a inscrição da criança no laço social e em seu surgimento como sujeito humano capaz de se questionar e de questionar sua história? Se essa interrogação adquire um ar grave, ela é no fundo supérflua. Porque se alguém, de seu lugar de sujeito, arriscou-se a se apoiar sobre o ambiente que lhe foi oferecido para crescer e viver, é porque teve uma família para si. Teve pelo menos um homem, uma mulher, que lhe assegurou uma função protetora. Teve pessoas que o apoiaram e amaram. Talvez até tenha crescido perto de irmãos e irmãs com os quais rivalizou e com quem foi ao mesmo tempo feliz e infeliz. Se a questão se coloca mesmo assim, é porque há alguma coisa que interessa a toda criança adotiva privada de seus genitores e de sua história original. Muitos querem saber o porquê e o como de seu abandono. Querem rever seus genitores e situá-los fisicamente, no espaço e no tempo de um grupo humano que os tinha contado, e que talvez ainda os conte entre seus membros.

A palavra a mais

Eis o testemunho da senhora F., uma mulher jovem de trinta e sete anos de idade, nascida em Paris, abandonada com dezoito meses e adotada aos vinte e seis meses de idade:

trinta e sete anos de idade, nascida em Paris, abandonada com dezoito meses e adotada aos

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Adoção e parentalidade: questões atuais

3 - Meu coração entre dois

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As palavras podem colocar problemas quando se foi

adotado, a começar por essa palavra mágica que é o nome. Depois , essas outras palavras mágicas, "papai",

" mamãe"

confusa de uma mentira, de uma artificialidade, e mesmo

de uma fraude quando estou encolerizada, e eu ainda o

estou frequentemente . Não que me tenham escondido minha adoção , desde os quatro ou cinco anos de idade que eu fui informada disso, certamente no momento em que se coloca a questão crucial: "De onde vêm os bebês?", " De onde eu vim ?" . É aí que isso se complica. Entra-se na idade do "fazer como se", porque acontece, e este foi o meu caso, que não se acredita mais verdadeiramente na adoção, na substituição. Acontece como se esta segunda vida estivesse contaminada por uma dúvida permanente. Acontece que a gente escuta dizer "eu te amo como minha filha". Nessa frase, algumas palavras são demais.

"Eu não pedi nada, eu não devo nada"

O senhor R. foi adotado na África com um ano e meio de idade por um casal que teve uma filha biológica logo em seguida. O senhor R. tinha a pele negra. Na pequena cidade do interior onde ele foi criado e educado, durante muito tempo ele foi a única criança negra de sua escola e o único de seu bairro.

Eu desempenhei perfeitamente meu papel de criança africana dificil. Eu sempre me perguntava como a criança que eu era podia ser o filho de uma mulher e de um homem brancos. Eu me habituei a me olhar longamente no espelho em busca de um traço, de alguma coisa que pudesse nos ligar e pudesse me convencer que eu era em alguma parte seu filho , mas no conjunto eu não me sentia em minha casa. Eu não os queria. Eu os fiz pagar caro o gesto de me terem adotado. Eu sentia que não lhes devia nada. Principalmente, não precisava agradá-los e dar-lhes a impressão de terem sido bem-sucedidos comigo.

Esses três testemunhos ilustram o lado aleatório da adoção. Nenhuma dessas três pessoas se posiciona da mesma maneira com respeito à sua família adotiva. Cada uma apresenta argumentos e emite julgamentos que estão em contradição com os dos outros. Que relação existe entre aquele que não se reconhece em dívida frente a seus pais e aquela que se considera em dívida por toda vida para com eles? Como cada um de nós se inscreve na relação com seu meio, e como se envolve com a responsabilidade sobre a própria vida? Não está aí o mistério da vida de cada um no que ela tem de mais íntimo e de mais complexo?

Demasiado ou não suficiente

Talvez algumas palavras sejam sempre demais! O que dizemos justamente quando se emprega a expressão:

"como meu filho"? É este meu "verdadeiro" filho ou não? O que se entende quando se apresenta seu filho com o adjetivo

: que

designam elas especificamente? Sensação

Reconhecida por toda vida

A senhora L. foi adotada na América Latina com um ano de idade por um casal sem filhos:

A gente pode se sentir estranha na família adotiva.

Com efeito, eu penso que meus pais, já que eu era sua filha, rapidamente apagaram a palavra "adotada". Consciente ou inconscientemente, eu não sei, eles sempre agiram comigo ocultando minha identidade, minhas raízes, minha história, minha cultura de origem. A relação que se instalou, e que durou muitos anos, era uma relação muito ambígua. Para eles, que vieram me procurar, me socorrer, pois eu ia morrer, eu era então uma privilegiada. Eu tive a oportunidade de tê-los e por isso eu deveria ser-lhes grata durante toda a vida, sem jamais me queixar e, sobretudo, sem nunca fazer perguntas.

e por isso eu deveria ser-lhes grata durante toda a vida, sem jamais me queixar e,
e por isso eu deveria ser-lhes grata durante toda a vida, sem jamais me queixar e,
3 4 Adoção e parentalidade: questões atuais "adotado"? O que preocupa o espírito dos pais

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Adoção e parentalidade: questões atuais

"adotado"? O que preocupa o espírito dos pais quando eles nos perguntam se é preciso dizer a escola que seu filho é adotado? "Quando se tem um filho de outro fenótipo, há sempre alguém que vem nos perguntar se ele é uma criança adotada. Isso suscita muitas vezes a curiosidade das pessoas, e essa curiosidade às vezes nos constrange, e às vezes nos irrita." ''Na escola, quando nos veem chegar com nosso filho, sabe-se de imediato que somos pais adotivos." "Nós informamos aos professores que a criança é adotada, porque ela corre o risco de encontrar algumas dificuldades escolares." Quando a criança se distingue por uma língua de origem diferente da nossa, parece-me bem justificado informar às professoras que a criança é adotada, à medida q~e ~la coi:re o risco de encontrar dificuldades escolares. Isso se Justifica amda mais quando a criança chega à idade escolar e não fala o

francês. Além desse caso, em

apresentar a criança com o adjetivo "adotada" testemunha certo mal-estar. Dizer à criança que ela é adotiva e contar-lhe sua história faz parte de nosso dever de pais. Mas, à força de

dizer: nossa filha adotada", corre-se o risco de promover este significante como para advertir de um estado particular. Os efeitos de tal comportamento são difíceis de calcular. Entre eles, acontece que um homem ou uma mulher de certa idade continue a se apresentar como sendo "uma criança adotada". Essa criança está sempre lá, congelada no significante.

que a informação se impõe,

"Eu tenho o direito de dizer sim ou não"

É a frase que o senhor R. me disse quando soube que seus pais adotivos tinham a intenção de lhe fazer uma doaç~o, como tinham feito para sua irmã biológica. Ele não quena. Ele considerava que não estava inscrito na história dessa família, o que queria dizer para ele que não tinha nada a dar ou a receber dela. Eis nosso diálogo:

Eu: Isto supõe que você não recebeu nada dela em todo este tempo?

3 - Meu coração entre dois

35

Sr. R.: Sim, mas isto se inscreve na vida de muitos.

Não há nada para dizer disto. Ao contrário, lá eu tinha o direito

de dizer não à herança.

Eu: Tomar tal posição implica uma outra questão que você não formula: "O que é que você pediu a seus genitores para nascer?" Sr. R.: Sobre isso, somos todos iguais. Mas no momento

de minha adoção eu estava lá, presente. Eu: Não há a menor dúvida sobre isso, mas não há

sombra de dúvida de que você estava presente para eles,

e que eles estavam presentes para você.

Se eu me refiro a esse pequeno diálogo, é para propor

uma leitura dessa posição que antes ressalta uma confusão entre lugar e função. Existem dois lugares: o lugar destes que

nos deram a vida, digamos os genitores, e o lugar daqueles que nos educaram, ou seja, os pais adotivos. Mas há uma função que só os pais adotivos garantiram, a função de pai ou de mãe

no cotidiano que é nossa vida com eles.

A confusão vem do que senhor R. não chega a

formular: ele tem duas posições certamente, mas enquanto

essas duas posições permanecem fechadas, é a função que anda errante sem jamais encontrar endereçamento.

Os genitores não fizeram o que era necessário, criar seu filho,

e os pais adotivos fizeram talvez o que era necessário

criando-o, mas não foram eles que o conceberam. A confusão

é inerente a essa fórmula, que se reduz a duas partes.

A abertura não é possível senão à medida que um terceiro

elemento entre em jogo no que se poderia resumir como segue:

se eu estou lá é porque existem dois que fizeram seu trabalho

por mim. Dito de outra maneira, o endereço não é mais nem o endereço dos genitores, nem aquele dos pais adotivos, mas são seus papéis consecutivos que dão à função parental seu valor simbólico. Nessa fórmula, uns e outros são pais, com a condição de autorizarem a criança a levar a vida que é a sua, naquilo que ela tem de mais singular. Compete à criança encontrar essa abertura. É o valor simbólico desse endereçamento que vem em terceiro lugar e que lhe permite propor questões sobre o

abertura. É o valor simbólico desse endereçamento que vem em terceiro lugar e que lhe permite
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li 1 1 1. 1 3 6 Adoção e parentalidade: questões atuais sentido de sua vida.

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Adoção e parentalidade: questões atuais

sentido de sua vida. E se ela está à altura de fazê-lo é porque foi ajudada e porque essa ajuda a fez crescer e ainda a interroga.

A dívida não é a que se crê

A senhora L. e o senhor R. não estão tão distantes

disso em suas interrogações. Não se sentir em dívida, ou sentir-se

em dívida por toda vida, volta a propor a mesma questão:

o que se deve e a quem se deve?

Deve a vida apenas aos pais biológicos, ou aos seus

"salvadores", seus pais adotivos. Os genitores não se referiram

à

sua onipotência para conceber à "sua imagem" ou "homem

e

mulher", como nos mitos bíblicos da criação do mundo e da

espécie humana. Deus é onipotente. Ele não tem de prestar contas senão a ele mesmo. Ele criou e se encontrou satisfeito com sua criação. Nenhum pai possuindo um mínimo de bom senso pode dizer isso. Fazer uma criança requer um homem e uma mulher unidos no ato de amor, mas a chegada de uma criança ao mundo é tudo menos um caso de vontade ou de poder. Quantos casais dizem que farão uma criança quando tiverem encontrado um trabalho estável ou uma casa grande, para descobrir que a

criança não chega apesar da realização de seus objetivos materiais? Outros terão filhos porque a mulher esqueceu uma pílula, embora seu companheiro ainda não tenha encontrado um trabalho. Na adoção aparece uma queixa permanente. "Quando

se

pensa que há aqueles que fazem filhos com tanta facilidade

e

que os rejeitam!" "Algumas pessoas legais, pessoas como

se deve ser, não conseguem fazer uma criança e ainda precisam aguentar toda essa gente e todos seus formulários. Não há justiça!"

A clínica nos confronta também com discursos

amargos: "Com tudo o que se faz, com nossa disponibilidade, a

para fazer o quê?"

Não há justiça. Não se tem jamais o que se merece.

A educação é do domínio do impossível. Freud não

despesa que se faz por ele

Tudo isso

cessou de nos dizer que quase nunca, para não dizer nunca, se tem o que se quer. Pais e filhos estão sempre condenados a

3 - Meu coração entre dois

37

se e~tender mais ou menos mal. Nós veremos no capítulo segumte que a família é a terra de paixões contraditórias que isso não está para mudar.

Brevemente, existe algo que nos escapa, algo que

Jamais poderá depender de um poder ou de uma vontade e que faz co~ que a família seja ao mesmo tempo suportável e decepc10nante. Devemos alguma coisa a nossos velhos? Certamente. Mas como fazer para que essa dívida nos tome responsáveis por nossa vida e nos inscreva como transmissores à nossa maneira para as gerações futuras? Trata-se de uma dívida, mas essa dívida é simbólica. Com essa dívida é possível responder a um pai que nos diz: "com tudo O que eu fiz por vo_cê"; "Você fez o necessário para que eu esteja onde estou. Nao tenho nada para te reprovar, nem para me gabar. Certamente poderíamos ter feito melhor, mas, por ora, estou aí."

e

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para te reprovar, nem para me gabar. Certamente poderíamos ter feito melhor, mas, por ora, estou
para te reprovar, nem para me gabar. Certamente poderíamos ter feito melhor, mas, por ora, estou

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11

4

Construir suas ficções individuais

Para construir suas ficções, cada um tem necessidade de alguns pontos de referência simbólicos, tais como uma data, um nome e um endereço, para designar um grupo de pertinência ou simplesmente um grupo social. Uma montagem ficcional que tem por objetivo manter uma relação com a verdade . A verdade, nos diz Lacan, tem a estrutura de uma ficção.

Entretanto , às vezes isso não funciona . Os jovens adotivos não chegam a construir sua ficção individual a partir do que eles encontram. Eles têm a tendência a se interessar mais pela origem suposta em seu enlace com o corpo, com o corpo da mãe genitora por exemplo, pensando que, se alguma coisa lhes falta, é deste lado. É justamente isso que defende Christian Demortier em seu último livro, A adoção e sua face oculta. 1 Ele diz claramente: "Eu acredito na impregnação nas células de meu corpo, do meu espírito, da minha alma, de minha mãe biológica e dos meus ancestrais; agora é minha alma que escolhe os dominantes do caráter, as sensações, as tendências

e as escolhas importantes

O interesse desse discurso está em uma espécie de sacralização do objeto perdido, a genitora. Esta está situada como o paraíso perdido dos homens, e nada vem preencher

essa perda. As dificuldades residem na confusão entre uma necessidade imperiosa para cada um construir seus mitos individuais e aquilo que inevitavelmente se disjunta deles.

de minha existência". 2

'DEMORTIER, C. L'adoption et saface caché. Paris: Jubilée, 2007. 2 Ibid., p. 189.

existência". 2 'DEMORTIER, C. L'adoption et saface caché. Paris: Jubilée, 2007. 2 Ibid., p. 189.
existência". 2 'DEMORTIER, C. L'adoption et saface caché. Paris: Jubilée, 2007. 2 Ibid., p. 189.
existência". 2 'DEMORTIER, C. L'adoption et saface caché. Paris: Jubilée, 2007. 2 Ibid., p. 189.

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Adoção e parentalidade: questões atuais

4 - Construir suas ficções individuais

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Cada um põe seus mitos como marcos de referência que lhe permitem viver como Um no grupo a que pertence, no seio do qual aprende a construir seu lugar próprio por perdas e ganhos. Mas nenhum grupo, nenhum mito é capaz de garantir o seu estatuto de sujeito. Como suprir esta perda fundamental que é

o "paraíso perdido"? Existe alguém ou alguma coisa que

poderia nos devolver o que foi a mãe de nossa primeira

infància? Christian Demortier nos diz que a encontrou no espírito

e nas células. Pobre consolo. Se espírito e células representam as condições necessárias para nos inscrever enquanto seres vivos, elas não são, em compensação, suficientes para definir

o que é específico à nossa humanidade, à nossa escala de

sujeito humano único entre todos semelhantes. O sujeito,

o homem como pessoa única, se constitui, por um lado, de um

saber e de urn patrimônio comuns partilhados com.os membros de seu grupo, e mesmo além de seu grupo; por outro lado, de urn outro saber que opera nele antes de ser sabido. E é este

Christian Dernortier, sempre no seu livro, sugere que

a adoção se faça no próprio seio do grupo de origem de urna

cnança:

Uma criança adotada por pais da mesma origem se sentirá menos estrangeira por causa da semelhança física. Ela não recalcaria mais sua personalidade profunda para viver sob uma "falsa identidade", mas desenvolveria sem vergonha seus reflexos, sua sensualidade, sua sensibilidade em um contexto familiar e cultural que valorizaria seu direito à semelhança. 3

A experiência clínica nos ensina que uma criança branca nascida na França e adotada por franceses brancos como ela, não escapa a esse mal-estar. É muito provável que ela ponha a mesma questão quanto ao estatuto da verdadeira ou da falsa mãe, ou dos verdadeiros e dos falsos pais. Quer seja branca ou não, ela não escapa ao sentimento de perda inerente ao ato de seu abandono.

O resto é cultural, adquirido junto da mãe, dos pais e de seu grupo familiar e cultural. Urna criança hindu nascida na Índia e adotada por uma família francesa branca é convocada

a

gostar do queijo camernbert, talvez mesmo das rãs,

e

tornar-se assim alvo da chacota dos ingleses. Ela se

comportaria corno a criança Dupont, mesmo se não tiver seu fenótipo. Mas não deixa de ser verdade que urna criança negra criada em urn meio branco pode, ao descobrir sua diferença, integrá-la de maneira desfavorável, pois é vão negar o racismo que grassa em toda sociedade. Meu amigo Christian Demortier sabe certamente do que eu falo. Conhecendo seu humor, penso que ele me perdoará relatar esta anedota que nos aconteceu em junho de 2001, por ocasião das jornadas da UNESCO sobre adoção em Paris. Christian Demortier acabara de publicar seu livro Adotado no vazio e figurava no programa como participante. Alguém na sala, querendo lhe falar, tinha rne pedido para apresentá-lo. Neste exato momento, Christian estava sobre o estrado, e eu disse a meu interlocutor que ele poderia se aproximar para lhe

3 Ibid. , p. 203 .

1 saber que constitui sua verdade de sujeito, urna verdade que pode ser acessível somente no desvio de urna fala que só ele emite, e muitas vezes sem saber. O mal-estar da criança adotiva, seu mal-estar na cultura, é projetado para o exterior. Conhecer sua história junto de sua mãe biológica, em seu odor, na prosódia de sua língua e na atmosfera de um meio ern urn lugar dado, permanece uma reivindicação. E à medida que a reivindicação da origem

mobiliza toda sua energia, é possível que a criança adotiva permaneça fechada à sua própria verdade de sujeito. O mal- estar na cultura, corno Freud diz, representa uma escolha impossível para todo hornern. Nosso estatuto de ser falante só se faz ao preço de urna perda fundamental, a de urn saber inato que guiaria nossos atos e garantiria nossa sobrevivência, em uma palavra, o instinto. A linguagem articulada abole o instinto, e nada mais poderá preencher essa perda. As células,

o espírito ou a alma são inconcebíveis fora dos significantes

que os designam. Igualmente, toda demanda é inconcebível sem a possibilidade de articulá-la. Mas, uma vez formulada, toda demanda é condenada a perder seu objeto. E é nesse plano que a questão sobre o estatuto da verdadeira mãe

permanece insolúvel.

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a perder seu objeto. E é nesse plano que a questão sobre o estatuto da verdadeira
a perder seu objeto. E é nesse plano que a questão sobre o estatuto da verdadeira
a perder seu objeto. E é nesse plano que a questão sobre o estatuto da verdadeira
a perder seu objeto. E é nesse plano que a questão sobre o estatuto da verdadeira

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Adoção e parentalidade: questões atuais

falar. Esse homem, examinando o estrado, não o enxergava. Eu mostrei então Christian Demorier. O homem, surpreso, comentou, sem se dar conta do que dizia: "Mas ele é negro!" Longe de mim considerar esse homem racista. Mas entre a conotação branca do nome Demortier e o fenótipo preto do homem que o encarnava, as referências desse homem ficaram um pouco embaralhadas. Tem-se a tendência a reduzir a adoção à experiência feliz de uns ou infeliz de outros e procurar extrair conclusões, algumas às vezes prematuras. Não há nada que garanta uma vida feliz, nem a vida na família biológica, nem muito menos na família adotiva. É verdade que na adoção, os candidatos são selecionados, mas será suficiente para pôr toda adoção ao abrigo de uma má surpresa? Não. Uma adoção que acaba mal, isto existe e existirá, não importa o que se faça. Mas será preciso renunciar a ela? Os que pensam assim estão presos no fantasma particular que eles têm da adoção. Para el~s, a adoção rima com a grandeza e a nobreza de um ato que é destinado a ter sucesso. Em decorrência disso, eles são em princípio vítimas de seu próprio fantasma.

O verdadeiro destino

Existe alguma coisa que nos destina a ocupar um lugar designado para nós? Há sempre alguém para acreditar nisso, um outro para escarnecer. Entretanto, e pouco importa a reação que se possa ter, todo mundo se comporta como se tivesse uma força indeterminada que exercesse certa influência sobre seu destino. O exemplo típico é o gesto tão corriqueiro de consultar o horóscopo. Acredita-se no que se lê? Se não, por que o fazemos? "Por curiosidade", ouvimos dizer frequentemente. Políticos que exercem postos importantes e que consultam videntes, isso acontece. Espíritos que se dizem cartesianos e que recorrem ao que existe de mais irracional para se tranquilizar em sua vida e na gestão de sua função, isso também acontece. É preciso se alarmar e gritar como louco por causa disso?

4 - Construir suas ficções individuais

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Nós todos somos trabalhados pela questão do destino. Se eu não sou o mestre de meu destino, haveria alguém que cuida de mim e que determina minha vida? Sim, Deus, poderia me responder o crente. Mas quando não é Deus, quem poderia ocupar esse lugar para mim? Talvez seja nesse lugar indefinido que o vidente encontra um fundamento que dá crédito à sua palavra quando se o consulta. Por parte da criança adotiva, a questão poderia ser formulada da seguinte maneira: "Este que vos fala da boca do adulto que eu sou é essa criança que nasceu na África e que estava destinado a viver em sua cidadezinha com seus semelhantes? Ou pode-se acreditar que meu verdadeiro destino

é um outro destino?" Assim como essas interrogações são legítimas, assim

a resposta continua impossível. Perguntar-se, por exemplo, qual

teria podido ser sua vida se tivesse ficado em sua cidadezinha, no seu país de nascimento , faz parte há muito tempo (talvez toda a vida) das preocupações da pessoa. Pode-se imaginar a

resposta inspirando-se no futuro dos membros de sua geração no lugar de seu nascimento, e considerando que a pessoa em questão teria podido ser um pouco mais isto ou um pouco menos aquilo. Estatisticamente, a resposta continua passível de ser considerada. Mas o destino não é um elemento de estatística. E se partimos da ideia que seu destino está na imagem dos outros de seu grupo, com mais ou menos desvio possível, se desemboca em uma pista falsa. Descartar-se-ia desde já o elemento essencial, seu afastamento ou sua adoção, que faz indiscutivelmente parte do destino individual.

O particular é um enigma

Não existe outra vida senão a que vivemos no dia a dia. Não há outro destino senão aquele que se constrói elemento por elemento de maneira consciente ou inconsciente. E então existe a incógnita, como sua adoção por exemplo. Há uma perda certamente, mas como avaliar seu alcance na vida de homem ou de mulher? Considerando o que alguém se tomou neste ínterim, como saber se é ganhador ou perdedor?

vida de homem ou de mulher? Considerando o que alguém se tomou neste ínterim, como saber

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Adoção e parentalidade: questões atuais

4 - Construir suas ficções individuais

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atuais 4 - Construir suas ficções individuais 4 5 1 1 Qualquer resposta a tais interrogações

Qualquer resposta a tais interrogações será demais. Sem dúvida, é preciso aceitar a ideia de que a resposta é impossível. Não deixa de ser verdade que o questionamento a respeito da particularidade de seu destino próprio é legítimo. Um homem que afirma que "nada mais é como antes desde meu acidente" é tão digno de crédito quanto outro que sustenta que "minha partida de meu país foi um fator decisivo no meu sucesso". Expressão de lástima ou de satisfação, uma e outra afirmativa colocam a ideia de uma ruptura com o itinerário suposto ser o caminho natural de sua descendência. O senhor L. considera que não tem do que se queixar das condições materiais de vida com seus pais adotivos. Ele até mesmo crê que recebeu deles mais que muitas outras crianças vivendo com seus pais de nascimento. Ele não pode negar esta oportunidade. Por outro lado, ele não pode dizer a mesma coisa sobre o plano afetivo. Sua mãe não é muito amorosa, e seu pai estava frequentemente ausente. Ele teria preferido ter um pai menos rico, mas bem mais presente. Ele está mais ou menos feliz do que se tivesse ficado no seu país de nascença com seus genitores? Ele se arriscou a passar algumas semanas na cidade em que nasceu e descobriu que a vida era dura para muita gente. Ele se sentiu próximo das

pessoas, mas teve dificuldades de se identificar com elas.

Ainda que pobres, mostravam-se simpáticos, às vezes generosos de certa maneira, e no entanto ele se sentia

estrangeiro entre eles. Partilhar de seus traços físicos não constituía necessariamente uma ligação com eles. Acreditavam-no

o emigrado X que voltava ao blecf para passar as férias, como

fazem outros emigrados. Escutar reduzir a busca de suas origens a um procedimento banal partilhada por milhares de pessoas tendo voluntariamente deixado seu país lhe fez mal.

O cúmulo foi atingido quando ele acreditou necessário desfazer

o mal-entendido a respeito de seu retorno ao país. É justamente quando revelou a alguns sua adoção por uma família francesa que descobriu que muitos teriam amado estar no seu lugar. Ele aprendeu a relativizar as coisas? Talvez! A conclusão à

4 Termo africano que significa o interior do país. N. T.

qual ele chegou resume-se em uma frase: "O país não é o mesmo se o deixamos por escolha pessoal ou se você é obrigado a partir". Eu diria a mesma coisa quanto à família de nascença. Não é a mesma coisa deixá-la por escolha ou sofrer a separação.

"Eu sou uma criança adotada"

Eu sempre me fiz a pergunta sobre qual sentido dar ao ato de um homem ou de uma mulher adultos de se apresentar como sendo "uma criança adotada". Por que um homem e uma mulher maduros acham ainda necessário se apresentarem desse modo? Dão a entender que não são mais que isso? Outra hipótese: o "eu sou uma criança adotada" seria o que circula no tempo da história de um sujeito sem encontrar seu tempo para se escrever? Trata-se de um acontecimento do passado que se anuncia no presente e que suscita uma dor sempre atual? Uma reivindicação que seria quase identitária, reclamando-se de uma perda, a perda do objeto materno, e que se caracteriza pela busca de um gozo que se pretende especifico? É justamente esse gozo que a criança exige de sua mãe adotiva, e é por isso, creio, que esta última se encontra muitas vezes em dificuldade pelo que eu qualificaria de "busca do Santo Graal" na criança adotiva. As queixas de mães adotivas fundam um pensamento assim. Quando nos encontramos frente a um casal e que ouvimos a mãe adotiva expressar suas dificuldades com a criança enquanto o pai afirma não conhecer tais problemas, compreendemos que a criança reatualiza na sua relação com a mãe adotiva coisas antigas que estão em jogo.

Falar de sua adoção para uma criança sem lhe impor um estatuto

Uma outra constatação merece ser evocada aqui. Dizer-se ou apresentar-se como uma "criança adotada" cola-se a uma realidade cotidiana de muitas crianças e de suas

ou apresentar-se como uma "criança adotada" cola-se a uma realidade cotidiana de muitas crianças e de
ou apresentar-se como uma "criança adotada" cola-se a uma realidade cotidiana de muitas crianças e de

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Adoção e parentalidade: questões atuais

4 - Construir suas ficções individuais

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familias adotivas. Desde que os especialistas em adoção admitiram a necessidade de dizer a verdade às crianças e de restituir-lhes os elementos de sua história, esta recomendação parece tomar às vezes a feição de um mandamento em que dizer toma-se um imperativo de salvação. "Senhor, nosso filho vai entrar na escola este ano, e nós gostaríamos de saber se é preciso informar a professora "

que ele é adotado

Nada lhes obriga a revelá-lo, sobretudo se seu filho

1 1 não o deseja. Chega um momento em que é preciso dar mais atenção à sensibilidade de nossa criança que a qualquer outra consideração. Contudo, se seu questionamento reflete a preocupação de fazê-lo para seu bem, saiba que não é seguro que o bem esteja onde se pensa. Colocar sua adoção como uma particularidade arrisca fazer de seu filho um caso particular. Uma criança que descobre os beneficios secundários de seu estado de criança adotada corre o risco de querer ser adotada por todos que ocupam para ela um lugar importante. Qual o propósito da revelação para sua professora ou para outras pessoas que não fazem parte do círculo familiar? Trata-se para você de antecipar eventuais dificuldades de inserção ou de aprendizagem? Se sim, a atenção que se vai prestar em um primeiro momento não corre o risco de voltar-se contra ele como argumento de base de sua orientação escolar a seguir? Beneficiar-se da boa vontade da equipe escolar no momento de entrada não o protege entretanto da rejeição se sua integração apresenta dificuldades em classe. Em todo caso, dizer ou não é uma decisão que se toma com a própria criança. Ela mesma pode dizer se assim o quiser.

O dizer não deverá ir contra sua intimidade

Essa questão revela o sentimento de obrigação de muitos pais de dizer que seu filho é adotado. Alguns até apresentam seus filhos dizendo, por exemplo: "Nós temos três filhos, dois biológicos e um adotado". Fazendo isso, os pais dizem a verdade, seguramente, e nesse ponto eles concordam com os especialistas. Mas o que diz mesmo um casal quando

insiste e repete sempre, dia após dia, e ano após ano? Termina seguramente por dizer outra verdade: "Há duas categorias de filhos, os biológicos e o adotado". Persistindo em lembrar à criança que ela é adotada, os pais, acreditamos, não cessam de remetê-la em seu estatuto particular. Ser adotado toma-se, no fim das contas, um elemento de sua identidade no seio de sua família. Estamos de acordo em reconhecer que é preciso dizer a verdade às crianças, mas é preciso também saber esquecer que uma criança é adotiva para inscrevê-la como um membro pleno na família. Uma criança que nos pede para lhe contar sua história não está na mesma disposição de escuta da verdade que uma criança que não pede. Além disso, responder ao pedido da criança e dizer-lhe continuamente não implica nem o sujeito nem a verdade do mesmo jeito.

Quando a criança quer entrar na normalidade

A experiência das alocações familiares nos ensinam que, em um momento ou em outro, a criança procura ser como todo mundo e vai chamar o casal de acolhimento "papai e mamãe" para grande escândalo dos pais biológicos ou dos trabalhadores sociais. Acontece até de ela pedir para ser chamada por seu sobrenome e que ela afirme a seus colegas que a senhora que a acompanha é sua mãe. Isso não é uma mentira. É antes a verdade de seu desejo de normalizar sua situação. A criança adotiva está na mesma configuração. Há um momento em que ela não quer mais ouvir falar de sua adoção. Ela é a criança dessa história familiar que se constrói no dia a dia. Enquanto ela se encontra como sujeito, ela está na verdade de seus sentimentos e de sua relação estruturante com seu ambiente imediato.

como sujeito, ela está na verdade de seus sentimentos e de sua relação estruturante com seu
como sujeito, ela está na verdade de seus sentimentos e de sua relação estruturante com seu
como sujeito, ela está na verdade de seus sentimentos e de sua relação estruturante com seu
como sujeito, ela está na verdade de seus sentimentos e de sua relação estruturante com seu
1 1 5 A busca da origem Adão tem uma origem? Se sim, o que

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A busca da origem

Adão tem uma origem? Se sim, o que o comprova?

Ele tinha um traço de que ficou a cicatriz, um umbigo por exemplo? Se não, a partir de que geração o umbigo tomou lugar no meio da barriga do homem? O umbigo é um sinal de pertencimento humano. Quando, diante do espelho, você olha sua imagem e o vê ali, diante de você, você compreende sem nenhuma dúvida que você não foi modelado como Adão, nem

Você sabe que

nasceu de uma mulher que um homem, salvo exceção, conheceu. Assim se tranquilizava uma menininha filha adotiva de seis anos de idade, feliz de admirar seu umbigo no espelho, pois que ele sozinho significava para ela, para além de tudo o que lhe tinham dito de sua história, que ela tinha tido uma mãe geradora e que ela tinha sido carregada como todas crianças do mundo. Isso parece evidente para você, seguramente. Mas esse não é o caso de todo mundo. Quando você se encontra sozinho desde o nascimento, e inúmeras mãos, às vezes calorosas, às vezes anônimas, se ocupam de seu pequeno corpo, você não pode saber quem é quem, nem por que cada um tomou este lugar ao seu lado, mas você de repente se conscientiza de relance que a vida continuou para você e que você está aí, o rapaz grande ou a moça grande que se põe essa questão inteligente.

talhado como Pinocchio, nem clonado como

aí, o rapaz grande ou a moça grande que se põe essa questão inteligente. talhado como
aí, o rapaz grande ou a moça grande que se põe essa questão inteligente. talhado como

Adoção e parentalidade: questões atuais

5 - A busca da origem

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50

~u qualificaria de " captura da origem". Isso lhes permite balizar

o espaço-tempo de sua história e dá ao relato familiar uma trama, uma direção, e mesmo um fim. Esse saber os inscreve como mortais, assim como seus genitores. Basta às vezes que um desses índices falte ou apresente uma particularidade inesperada para desencadear reações também imprevistas.

Só a genitora abandona

O segundo elemento que motiva sua pesquisa me

parece de um grande interesse para o trabalho clínico.

Os testemunhos das crianças adotivas revelam que pai e mãe

genitores não parecem carregar a mesma responsabilidade no

ato de abandono da criança. Só a mãe genitora abandona.

O pai genitor só aparece em segundo lugar. Ele é

acessoriamente abandonador e, de toda maneira, seu ato concerne em princípio à mulher. "Ele a seduziu e a abandonou", "Era um rabo de saia". Ouvem-se muitos comentários dessa ordem, destinados não a desculpar o genitor, mas a relativizar seu lugar na trama familiar da criança adotiva.

Essa posição me parece de acordo com a hipótese lacaniana sobre o lugar do pai na economia psíquica da criança.

O pai é introduzido como terceiro à medida que o desejo de

uma mulher, de uma mãe no caso, dirige-se para ele. Pode-se franquear um passo suplementar e supor consequentemente

que só a mãe adota e se faz adotar? A questão é talvez precipitada, mas começamos a discerni-la subjacente ao aumento significativo da adoção internacional por mulheres sozinhas. Dito de outra maneira, os elementos teóricos nos chegam com um efeito de retorno. Se Lacan tem razão uma

mulher poderia então adotar sozinha, e o pai se introd~ziria posteriormente como terceiro, significante do desejo da mãe

na vida de sua criança. Brevemente, o pai pode esperar que uma mulher aceite introduzi-lo em sua vida.

O que legitima uma família?

Esta é a questão que a senhora C. me propõe em sua primeira visita. À época, a senhora C. tinha 55 anos de idade e era mãe de um jovem adolescente adotado com a idade de

A função da marca

Trata-se então de uma marca que demarca seu corpo e que, apesar do corte que separou você de sua mãe de nascença, funciona sempre para alguns como que um cordão fantasma que nada veio romper. O testemunho desta menininha é um exemplo eloquente da maneira como se coloca a questão sobre a origem. Essa marca representa a motivação de base que impele os jovens adotivos a buscar suas origens. É suficiente alguns casos anódinos para compreender o que está em jogo no que sua história inicial representa para estes jovens. Basta, por exemplo, que um médico pergunte, por ocasião de uma consulta médica, se os pais tiveram alguma doença particular para deixar um jovem constrangido. Ouvi alguns afirmarem que eles trapaceavam, mencionando as doenças ou a ausência de doença de seus pais adotivos. Outros se sentem um pouco em dificuldade quando seus colegas de classe lhe perguntam se eles se parecem com seu pai ou com sua mãe Essas certamente são anedotas banais, mas elas podem assombrar a vida de uma pessoa adotada. É ainda mais grave quando estes homens e estas mulheres fazem como_ se seu vivido não fosse sua verdadeira vida e que seu destmo fosse obrigatoriamente outro. Conhecer sua história lhes é necessário a fim de tomá-la possível de contar. Mas quanto mais levam adiante sua pesquisa, tanto mais seu objeto lhes escapa. Alguma coisa fica fora do alcance, impossível de dizer ou de localizar.

Os três índices

No contato com estes homens e estas mulheres que eu tive inúmeras ocasiões de escutar, eu aprendi que três elementos aparecem frequentemente, além do aspecto fisico. Eles procuram uma data, sua data de nascimento, por exemplo, um lugar, uma comunidade que os tenha contado como membro, e um endereço, o que implica um lugar e um nome. Para reflexão, esses três índices são menos banais, pois não aparecem na primeira abordagem. O fato de reuni-los representa para esses jovens uma liberação do que

banais, pois não aparecem na primeira abordagem. O fato de reuni-los representa para esses jovens uma
banais, pois não aparecem na primeira abordagem. O fato de reuni-los representa para esses jovens uma
banais, pois não aparecem na primeira abordagem. O fato de reuni-los representa para esses jovens uma
banais, pois não aparecem na primeira abordagem. O fato de reuni-los representa para esses jovens uma

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Adoção e parentalidade: questões atuais

5 - A busca da origem

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alguns dias na Tailândia. Ela não tivera filho biológico com seu marido e somente tinha pensado em adotar após sua separação.

O rapaz apresentava-lhe muitas dificuldades e,

de tempos em tempos, ela se sentia completamente

transtornada pela violência de seu filho e por suas explosões imprevisíveis. Ele era grande e fisicamente forte, e ela, frente

a

um jovem encolerizado capaz de quebrar tudo, sentia-se fraca

e

indefesa, sobretudo tinha medo. O rapaz rejeitava qualquer limite e, quando tinha uma

Como conceber a natureza da busca da origem?

.

. Como explicar essa diligência nas crianças adotivas e

quais são as implicações na estruturação da família humana ou ainda de um grupo social?

'

Uma primeira resposta me foi inspirada pela leitura do quadro de Ambrogio Lorenzetti, Os efeitos do bom governo. 1 O quadro se lê da esquerda para a direita. Ele começa pela figura da sabedoria, que segura a Bíblia. De lá, desce ur:ia corda ~ue _vai à justiça. Em seguida, a corda passa pela mao_da concord1a, apresentada com uma plaina sobre os joelhos, ?esti~ada a aplainar as disputas. Depois, a mesma corda chega as m~os d: v_mte e quatro cidadãos, que simbolizam o governo de S1ena a epoca. Enfim, a corda termina nas mãos de um v_elho :estido de ~reto e branco, as cores da cidade, e que simboliza a comunrdade. A seus pés, encontram-se os gêmeos e a loba que lembram a origem romana da cidade. Eis o ideal de um dispositivo sólido que une o grupo e assegura a cada um dos membros um sentimento de perten_cim~nto. A corda está presa em suas duas pontas pelo que_ ~a ongem. Essa origem é ao mesmo tempo biológica e espmtual. Entre ~s duas, o cidadão segura alguma coisa que para ele faz elo, digamos elo social. Pode-se dizer que o desejo de conhecer a origem encontra aí seus limites? De que corda se trata quando os homens e as mulheres empreendem buscas a fim de encontrar seus pais de nascença ou traços deles? Será que somente a cord_a real, o elo de sangue por exemplo, lhes devolve um sentimento de pertença? Ou então se trata de outra coisa a nostalgia do corpo da mãe no momento em que ela ocupav~

o lugar do Outro materno para a criança? Veremos adiante

demanda para satisfazer, ele não parava de insistir até sua mãe submeter-se. Ele era invasivo no espaço de sua residência,

a ponto que a senhora C. achava-se acossada a se refugiar no

seu pequeno quartinho e só sair quando seu filho dignava-se a aceitá-la na sala. Apesar de tudo ela continuava a ter, contra a má sorte, bom coração; mas o fato de ver seu filho enfurnar-se em seu quarto sem avisar e jogar-se sobre sua cama tinha definitivamente tornado insuportável sua vida a dois. "Cada vez que ele faz isto, eu me sinto violada". Essa senhora responde à questão que ela mesma me fizera. O que legitima uma família é o sentimento de segurança que experimentamos em presença de nossos filhos, mesmo quando o parceiro sexual está ausente. Esse sentimento depende de nossa aptidão para respeitar os limites que separam as gerações e para integrar o interdito, que tem por função principal levar a aceitar a ideia de que uma demanda

endereçada aos pais só tem resposta parcialmente suficiente, às vezes frustrante. A "mãe da realidade" é a única mãe,

à medida que ela destitui a mãe todo-poderosa da primeira infância. A mãe da realidade só é mãe pelo próprio fato de sua inscrição naquilo que impõe os limites.

A violência dos adolescentes em relação à sua mãe

adotiva aparece algumas vezes como uma manifestação de exasperação; sempre com demandas voltadas para a mãe genitora, cujo abandono lhes dá ainda o sentimento de serem privados de seu amor; eles se ressentem de tudo o que vem da

111 mãe adotiva como forçosamente insatisfatório. De onde decorre uma maré de demandas intermináveis.

q~e essa hipótese tem de ser mantida, pois ela poderia nos onentar na escuta dos "loucos da origem" (como se diz, por exemplo, o "louco de Elsa" deAragon ou "os doidos de Deus").

Uma segunda resposta nos é fornecida pelo trabalho

de luto das crianças adotivas. Como o luto da história original

acontece para elas?

1 Esta pintura se encontra no Museu Cívico em Siena.

1

Como o luto da história original acontece para elas? 1 Esta pintura se encontra no Museu
Como o luto da história original acontece para elas? 1 Esta pintura se encontra no Museu

Adoção e parentalidade: questões atuais

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Nos seus testemunhos eu creio ter ouvido ~lguma coisa que merece nossa atenção. O luto a~o?tece à medida que uma

. Eis a explicação interessante que a senhonta K., dezoito anos de idade, de origem ucraniana, me deu:

história se torna subjetiva e transm1ss1Vel.

.

O senhor sabe por que existem sempre furos nas p~liçadas dos canteiros de obra? Não? Os furos constituem a resposta para os curiosos que se interrogam acerca do conteúdo de um canteiro. A gente sempre se pergunta o que acontece atrás, o que se constrói. Dá-se ui~a olhada e se vê alguma coisa. E muitas vezes é suficiente para

. É a mesma coisa para mim. Há uma espécie de paltçada

que me separa de minha história

sobre meu passado permitir-me-ta contar-me h1stonas e inscrever-me numa continuidade. Não saber nada sobre minhas origens é como se eu estivesse sempre prestes a ficar de fora de meu próprio canteiro. Quando eu ouço meus amigos cont~rem m_ontes de histórias sobre sua família, eu tenho a impressao de que nasci depois do dilúvio e que eu sou a sobrevivente sem

acalmar a curiosidade dos passantes.

Nada mais qu~ u~ _furo

memória. Em resumo, pouco importa o que me aconteceu , o mais importante é ter conhecimento disso e saber como eram os atores dessa história.

A senhorita K. ilustra perfeitamente o que se cha11:a

É a descoberta de relance que nao

" de luto"

processo

. existe história boa ou má história, mas uma

. E toda história é singular à medida que ~e chega a torna-la suportável. Ela se toma suportável ~_partlf do momento em que o equívoco, como nos ditos espmtuosos, vem _de~fazer_o domínio dos significantes que se congelam em ~a s1gmficaç~? que nos causa vergonha, como "eu sou uma cnança adotada ,

um

h.

lar

,

.

.

tstona smgu_

por exemplo.

6

O encontro entre pais e filho, um mal-entendido permanente

Se, por acaso, o leitor se recorda do filme Capitão Bill Jr, com Buster Keaton, ele se lembra do famoso encontro entre pai e filho sobre o cais do porto de uma pequena cidade no estado de Mississipi. Eles tinham se perdido de vista quando

o filho era uma criança pequena. O pai, capitão de um velho

navio a vapor, navegava no Mississipi e tinha dificuldades para enfrentar um temível concorrente que procurava se outorgar

o monopólio da navegação no rio. O pai era durão. A confrontação não o assustava. Seu aspecto fisico impressionava. Alto, robusto e temível, ele imaginava ver chegar um jovem de sua têmpera. Tinha pedido ao marujo que o tinha acompanhado para ajudá-lo a encontrar

o jovem que poderia se assemelhar a ele, a fim de não se

enganar de filho. Ele deveria estar usando um cravo branco sobre o avesso de sua capa como sinal de reconhecimento. Mas, falta de sorte, o encontro caiu no dia da festa das mães e todo mundo no cais do porto usava um cravo branco. O pai e

seu companheiro chegavam para os jovens que eles julgavam dignos de ser seu filho e perguntavam se eles estavam procurando um pai. Uns e outros os despediam, sem dar atenção, surpresos pela pergunta e impressionados por seu aspecto fisico.

O narcisismo ferido

Do outro lado do cais, um jovem fraco e encolhido, de um jeito engraçado, andava também em busca de homens que ele julgava serem da idade de seu pai. Ele parava diante de homens bem-vestidos e lhes mostrava o avesso de sua capa

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Adoção e parentalidade: questões atuais

5 6 Adoção e parentalidade: questões atuais enfeitada com um cravo. Sua busca se revelou um
5 6 Adoção e parentalidade: questões atuais enfeitada com um cravo. Sua busca se revelou um
5 6 Adoção e parentalidade: questões atuais enfeitada com um cravo. Sua busca se revelou um

enfeitada com um cravo. Sua busca se revelou um fracasso total. Pai e filho desistiram e se dirigiram para a saída, cada um de seu lado. Willy, o filho , largou sua mala para esperar em frente à estação. Uma etiqueta com seu nome pendia da mala. O olhar de Bill, o pai, caiu-lhe em cima, e ele descobriu que este magricela era o filho esperado. Ficou chocado, mas não ousou confessá-lo diante do velho marujo. Quis ir embora, depois voltou sobre seus passos. Assumindo-se, caminhou até seu filho e se apresentou. Pegou a mala e fez com que o marujo a carregasse. Deu a mão a seu filho exatamente como se segura uma criança e o arrastou atrás de si de forma brutal. O filho o seguiu um pouco impressionado, mas deixou-se levar sem contestação.

Meu pai, este herói

No caminho, o pai levou o filho ao barbeiro e, dando urna moeda a este último, pediu-lhe para raspar o bigode de Willy que, segundo seus critérios pessoais lhe davam um ar ridículo. O bigode desapareceu, mas as coisas não pararam por aí. Bill não aceitava também a boina que seu filho usava. Ele o arrastou, sempre da mesma maneira, até a chapelaria e se pôs a lhe colocar chapéus sobre a cabeça até que escolhesse um que agradasse. A terceira etapa foi a loja de roupas. O pai queria comprar uma roupa de trabalho para seu filho para mantê-lo com ele. Ele optou por um uniforme comum de trabalho. Mas o acaso se intrometeu. Willy encontra sua namorada, uma colega de classe, a filha de King, o temível concorrente de seu pai; eles estavam apaixonados para infelicidade dos dois pais. É ela que escolhe a roupa de seu namorado. E quando esse aparece com uma roupa de oficial da marinha, o marujo estende uma pistola ao pai e lhe diz:

"Nenhum júri o condenará se o matar. É suficiente vê-lo neste estado para desculpar teu gesto". O pai joga a pistola no chão e trata severamente o marujo. Este não compreende o que lhe acontecia. No fundo , ele só fizera expressar os sentimentos do pai! Só que ele não sabia que se o pai tem o direito de ficar decepcionado com seu filho , ele não permitiria que alguém lhe faltasse com o respeito.

ele não permitiria que alguém lhe faltasse com o respeito. 6 - O encontro entre pais
ele não permitiria que alguém lhe faltasse com o respeito. 6 - O encontro entre pais

6

- O encontro entre pais e filho , um mal-entendido permanente

57

O

marujo, inconscientemente, tinha reprovado o pai por seu

filho , dando- lhe a oportunidade de se defender. Em síntese, o filme, nas idas e vindas que se seguem,

dá a cada um a oportunidade de vir em socorro do outro, e, para encerrar, no último momento faz triunfar o filho que salva

o pai, sua namorada e seu futuro sogro.

O fantasma de salvamento

O sucesso desse filme se prende ao fato de que ele

relata com muito humor um fantasma muito conhecido, que é

o

fantasma do salvamento . A adoção nos leva a tais coisas.

O

desejo de encontrar suas origens se explica às vezes pelo

fantasma da criança adotiva de salvar seus pais biológicos.

Trata-se de um fantasma de "pequeno Polegar". O pequeno

indefeso, abandonado por seus pais pobres, termina por superar todas suas dificuldades e volta para salvar estes últimos.

O amor triunfa e faz esquecer a infelicidade que foi origem da

separação. Mas o reencontro nem sempre é fácil. Na Antiguidade,

se expunham as crianças e, muitas vezes, dissimulava-se um

objeto entre suas vestes ou se bordavam aí suas iniciais às

vezes se colocava uma carta que fornecia alguns elementos da história da criança. Esta prática durou muito tempo, ela realmente nunca desapareceu. Ela é encontrada em certas culturas, em países diversos. Jean-Jacques Rousseau

permanece para mim o melhor exemplo. Ele nos revela em suas Confissões ter confiado seus filhos ao Estado, não porque não os amasse, mas porque ele sabia não ser o bom pai de que eles precisavam. Entregando-os à educação pública, ele os destinava a serem bons cidadãos e bons trabalhadores

- fazendo isso ele se tomou um membro da república de Platão.

Este arranjo, diz ele, parece-lhe tão sensato e tão bom que ele poderia se gabar dele. Se não o fizesse, seria por consideração

à mãe. No fundo, ele sabia que tinha razão em confiar seus

filhos, pensando que eles teriam gostado de serem educados e alimentados corno foram. 1 Nós sabemos ainda que Madame

'

1 Rousseau , J .-J . Confissões . Pari s: H . Beziat, v. 2, p. 14-15 .

58

Adoção e parentalidade: questões atuais

6 - O encontro entre pais e filho, um mal-entendido permanente

59

de Luxemburgo se propôs um dia ajudá-lo a encontrar um de seus filhos. Ela sabia que ele tinha posto um número nas fraldas do mais velho e confiou a busca a seu criado de quarto. Este se atrelou a consultar os registros de crianças encontradas, mas em vão. Jean-Jacques Rousseau ficou aliviado. Como poderia estar seguro, se lhe apresentassem uma criança, que se tratava de uma das suas? E como ele poderia estar seguro de poder ter por ela sentimentos verdadeiros, quando não tivera oportunidade de "degustar em todo seu encanto o

verdadeiro sentimento da natureza"? 2

do sarcasmo dos outros e de seu colaborador mais próximo para ele reencontrar seu reflexo de defesa. Precisaria pô-lo assim à prova para que ele adotasse seu filho, ou, pelo menos, que ele adotasse urna estratégia de proteção a seu respeito?

Salvar a honra

O filme é engraçado e terno ao mesmo tempo. Fala de nós, pais e criança, nas situações mais corriqueiras. Tomemos um caso banal, o encontro com os professores na escola. Quando um professor observa a vocês, em presença de dezenas de outros pais, que seu filho não trabalha, ou, pior ainda, quando ele se pergunta o que seu filho faz na escola, vocês perdem sua soberba de pais. Quaisquer pais, maus perdedores, reagem criticando a pedagogia do professor em questão, e mesmo da escola. Tal reação não tem nada de maldoso, trata-se somente de uma luta de honra de um homem ou de uma mulher ferido(a). Sua criança faz igual. Ela tem vergonha de vocês quando vocês falam muito na reunião. Tem vergonha quando vocês falam com o sotaque de origem estrangeira ou ainda quando vocês tentam bancar os originais. Brevemente, entre criança e pais, os encontros são muitas vezes marcados pelo mal-entendido. Isto não tem nada de grave, pois basta um pouco de humor, um mínimo de recuo e seu narcisismo de homem ferido cicatriza rapidamente. Mas o que acontece quando o recuo não é possível? Você fica inconsolável. Seu narcisismo de homem ou de mulher permanece marcado por uma ferida que lhe causa dor e preocupação. Você termina assim mesmo por se recuperar, dizendo que somente os estudos contam.

A falha dos outros

Essa tese é verdadeira com seu filho biológico como com seu filho adotivo. Só que, com este último, é possível dar um passo a mais, com suas vantagens e seus inconvenientes. A vantagem é em princípio narcísica. Se a criança não trabalha, não é sua a falha. A adoção oferece a você uma margem de

1

1

li Como saber que é seu filho?

Jean-Jacques Rousseau não se arriscou, como o velho Bill, reencontrando seu filho. Digamos que aquilo foi mais choque que reencontro. O reencontro se faz no dia a d!a e não para de se renovar em nossa vivência cotidiana. E nesse reencontro no cotidiano que pais e filhos encontram o tempo de combater as figuras do filho ideal e dos pais ideais. A realidade nos ensina a ser modestos e a fazer concessões. Dizer a seu filho que não rende na escola: "Nós não te pedimos para ser o primeiro da classe, mas te pedimos de estar na média" é um exemplo típico de concessão, feito pelos pais no domínio da escolaridade quando suas crianças trabalham mal. Se essa modéstia tem um sentido, é porque ela implica que os pais aceitem destituir a criança narcísica, sem entretanto rejeitar a criança real, apesar das decepções que ela lhes inflige. O velho Bill, de sua parte, sofreu a prova da realidade em toda sua dureza. Isso foi mais duro porque ele não teve o tempo de se habituar e de fazer aos poucos o luto da criança rei. Seu olhar ia para os outros jovens, os que apresentavam traços de natureza que acariciavam seu narcisismo de pai no sentido do pelo. Ele não via aquele que não correspondia a nenhum de seus valores de homem rude habituado a rixas contra os indivíduos e contra os elementos da natureza. Entretanto, se seu narcisismo foi atingido, ele conservou seu amor-próprio de homem. Foi preciso que seu filho fosse motivo

2 Ibid.

seu narcisismo foi atingido, ele conservou seu amor-próprio de homem. Foi preciso que seu filho fosse

I!

1

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Adoção e parentalidade: questões atuais

1

1

li

manobra confortável, permitindo rejeitar a falha sobre os pais biológicos, dito de outra maneira, sobre o desconhecido.

"Se ele é assim é porque

a honra. Acontece até de você retrucar ao professor:

"Com tudo o que essa criança já passou, seu desinteresse pela

escola só pode ser normal". Respondendo desse modo, você defende sua criança,

e você se parece com a imagem do velho Bill. Infelizmente,

nem todos os pais adotivos reagem desse modo. Nós temos encontrado pais adotivos que reagem mal, desinvestindo a criança. Eles fazem como se tivessem sido enganados com a mercadoria e merecessem melhor. A adoção é efetiva quando não há mais álibi desculpando um comportamento ou sublinhando um outro. Enquanto os pais afirmarem que "é porque é uma criança adotiva", a adoção permanece problemática. Quando a criança sofre, é como sujeito que lida com sua história, tão singular quanto possa ser. Uma história não se reduz a um ato ou a um fato. Que um ato venha dar uma nova orientação à vida de alguém, isso não quer dizer que a vida não é mais que isso. A função do álibi é de confundir o traço de uma história particular com a estrutura. Pode-se sofrer por ter sido abandonado ou ter sido adotado, mas isso não quer dizer em caso algum que não se é responsável pela própria vida, como

qualquer pessoa, seja homem ou mulher.

". Você tem a resposta, e isso salva

7

A clínica da criança adotiva

Em meu livro A criança adotiva e suas famílias,

eu escrevi que a criança adotiva não é uma criança com dificuldades específicas. A adoção, enquanto ato, não tem por natureza fragilizar uma criança. Entretanto, para ser adotada, uma criança deve passar por uma perda, a de seus pais biológicos. Mas atrás da perda coexistem situações diversas que não se assemelham necessariamente. À diversidade das histórias familiares se junta a das histórias singulares; uma criança separada não se assemelha a outra criança a não ser no ato que visa a inscrevê-la em um novo laço familiar. A problemática da adoção, ou melhor, do que a tomou

possível, fica para toda criança como uma questão sem resposta

e não é por falta de respostas. Todos especialistas estão de

acordo sobre uma ideia básica: é preciso dizer a verdade de sua adoção à criança adotiva. Em nossos dias, muito raramente se encontram situações em que os pais fazem cara feia para

revelar o segredo da adoção de sua criança. Mas contar a verdade sobre a verdade da adoção permanece uma missão

impossível pela simples razão de que a perda, a separação ou

o abandono, é uma história que se subjetiva, por mais que ela

seja contada de uma vez por todas. O exemplo típico é a história que você conta a seu filho. Ele lhe pede sempre a mesma. Você lhe conta noite após noite, semana após semana e, ainda que ele conheça de cor, até as vírgulas, ele continua a exigir de

você a mesma história, não tolerando qualquer desvio. E depois, um dia, isto tudo cai. Inútil tentar contar de novo. Ele não se interessa mais. É tudo. É justamente isso que eu chamo de subjetivação de uma história, ou melhor, a subjetivação do que essa história representa para ele e que escapa completamente aos pais.

uma história, ou melhor, a subjetivação do que essa história representa para ele e que escapa
uma história, ou melhor, a subjetivação do que essa história representa para ele e que escapa
uma história, ou melhor, a subjetivação do que essa história representa para ele e que escapa

62

Adoção e parentalidade: questões atuais

Contar toma-se assim o suporte de qualquer coisa que se constrói, e que constrói ao mesmo tempo o sujeito que escuta você e que surpreende pela necessidade imperiosa de sempre ouvir a mesma coisa, o mesmo relato.

Como considerar essas dificuldades na adoção?

A adoção serve às vezes de álibi para justificar toda espécie de dificuldades que surgem em uma família adotiva. Um adolescente que causa problemas à sua família encontra desculpas naquilo que sua família denomina muitas vezes crise de adolescência. O adolescente adotivo é ao mesmo tempo este adolescente e aquele, cujas crises querem sempre dizer mais do que as dos outros. Um simples mal-entendido pode suscitar às vezes angústias injustificadas. Tivemos muitas vezes a ocasião de encontrar adolescentes e sua família muito alertados pelo saber que granjearam nos livros e junto a especialistas. Eles liam signos e interpretavam em lugar de inventar como sua cumplicidade os autorizava fazer. Esse estado de alerta provém, na minha opinião, deste sentimento de ser devedor ao corpo social e às autoridades que lhes confiam crianças. Fazem como se não tivessem o direito de errar, e todo conflito aparece assim como o sinal de que eles não estão à altura da missão que lhes foi confiada. A opinião pública reforça esta tendência. Comentários do tipo "eles são corajosos", para designar um casal que decidiu adotar, são frequentes. Que se diz exatamente quando se qualifica seus vizinhos adotivos de corajosos? Trata-se de sublinhar sua inconsciência das dificuldades de seu ato, ou se quer dizer que eles são corajosos por realizar o que eles não se autorizam a si mesmos? Difícil de dizer. Pouco importa a resposta pela qual se opte, em todo caso se faz da adoção um ato pouco comum.

O dejeto

Em seguida a uma de minhas conferências no quadro das atividades da Associação Infância e Famílias de Adoção, um senhor se levanta e me faz a seguinte observação: lindo

7 - A clínica da criança adotiva

63

acreditar que essas crianças são para serem consideradas como todo mundo, mas como lhes tirar a ideia de que elas são os dejetos e impedi-las de viver como dejetos?" É sempre difícil tirar alguma coisa da cabeça de alguém, mais ainda quando esse alguém se julga com tamanha severidade. Por que um homem jovem ou uma mulher jovem que foi bem-sucedido em ultrapassar mais ou menos as dificuldades de sua vida no seio de uma família que o adota e o mantém continua a se julgar assim? A resposta, se existe uma resposta, é para se ver com a pessoa em questão. Isso não impede de formular hipóteses construídas a partir de diversos testemunhos. "Se me rejeitaram quando bebê é porque havia algo em mim que devia desgostar minha mãe." Este segundo testemunho ainda é mais direto: "Eu imagino, com tudo que acontece na América do Sul com as pobres mulheres, que minha genitora tenha conhecido homens e que me carregou talvez sem jamais ter consciência de sua gravidez nem da minha vinda ao mundo". Será necessário multiplicar os testemunhos para compreender que não é o ato de abandono que é o mais duro para os abandonados, mas antes o roteiro que acompanha e que dá a esse abandono seu caráter insuportável? Há uma espécie de precariedade narcísica que permanece viva e que os coloca como seres nascidos do lado mau do que constitui valor comum entre os homens. Françoise Dolto teria qualificado seu estado de fragilidade do narcisismo fundamental, responsável pela instauração da segurança de base de toda criança bem pequena rodeada e envolvida numa troca estruturante com seu Outro materno. Esse narcisismo é, de qualquer maneira, o fruto da educação do desejo da criança para a comunicação e para sua inscrição no registro do simbólico. É a este preço que ele sai do anonimato e se faz reconhecer, reconhecendo por sua vez seu primeiro Outro, sua mãe ou sua babá. Na falta desse reconhecimento, a criança se arrisca a soçobrar no anonimato e ficar ausente de seu desejo de sujeito. Essa precariedade narcísica rejeita às vezes o amor dos pais adotivos. Pior ainda: quanto mais esse amor se faz

Essa precariedade narcísica rejeita às vezes o amor dos pais adotivos. Pior ainda: quanto mais esse
Essa precariedade narcísica rejeita às vezes o amor dos pais adotivos. Pior ainda: quanto mais esse
6 4 Adoção e parentalidade: questões atuais ouvir, mais ele remete estes jovens a seu

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Adoção e parentalidade: questões atuais

ouvir, mais ele remete estes jovens a seu abandono. Quando são amados, ou quando não são amados, isto tem muitas vezes a tendência a confortá-los em seu sentimento de desprezo que têm por si próprios. Quando são amados, eles se perguntam por que o merecem, e, se descobrem que são mal-amados, fazem como se isso fosse normal. Felizmente, isso não é frequente. Como fazer quando se é pai ou mãe de um jovem assim? É preciso ir ao seu encontro e crer no seu estado de "criança-dejeto"? Não, o mais importante é ensinar a nossos filhos, quer sejam adotivos ou biológicos, a serem responsáveis por sua vida. Podemos sustentá-los, certamente, mas ninguém pode substituí-los para sustentar seu próprio desejo.

"Eu não os quero"

A senhorita M. é uma jovem mulher de 33 anos de idade, nascida na Etiópia e adotada com a idade de seis meses. É uma linda mulher que foi bem-sucedida na escola e profissionalmente. Ela deixou seus pais adotivos e ~e ins~alou perto, desejando adquirir sua autonomia e se assumir sozmba. Ela trabalha e ganha bem sua vida, mas ela não presta atenção nas despesas. Ela está sempre endividada e frequentemente tem dificuldades com o banco.

Eu não compreendo o que acontece comigo. É impossível para mim controlar minhas contas. Isto já dura anos, e cada mês eu tenho a mesma surpresa com o banco. Escrevem-me ou me telefonam para me comunicar que eu ultrapassei o limite autorizado . Isso me deixa seriamente aborrecida, mas é mais forte do que eu, reproduzo o mesmo roteiro mês após mês. Isso se acalmou há algum tempo, porque meu pai decidiu gerir minha conta em meu lugar. Eu lhe envio todos os documentos , os saldos bancários, as faturas e os canhotos dos cheques, e ele me põe regularmente a par do estado da minha conta. Meu pai é formidável. Ele toma conta dessa tarefa brilhantemente, e eu fico protegida das más surpresas.

brilhantemente, e eu fico protegida das más surpresas. 7 - A clínica da criança adotiva 6

7 - A clínica da criança adotiva

65

Quanto ao desejo de encontrar suas origens, a senhorita M. me diz que isso jamais a preocupou, porque ela considera que só tem uma família, e que essa família foi sempre, para ela, a boa. Depois ela encadeia: "A única má surpresa que poderia me acontecer é encontrar meus genitores. Eu ficaria muito constrangida se eu cruzasse com eles no quadro de uma ação para me retomar". Eu: Que idade você tem? Srta. M.: Trinta e três anos, por quê? Eu: Porque eu me pergunto como seus genitores fariam para retomar uma filha de trinta e três anos? Srta. M.: Sim, de fato, eu poderia lhes dizer não. Eu: A mulher de trinta e três anos certamente poderia lhes dizer não, mas será que a filhinha pequena seria capaz de lhes resistir? Srta. M.: De que filhinha pequena você fala? Eu: Daquela que pensa que seus pais podem vir retomá-la. Essa é uma linda história. No fundo, a senhorita M. não tem uma posição radicalmente diferente da dos outros, apesar de sua primeira afirmativa com respeito à sua escolha definitiva por sua família adotiva. Seus genitores continuam a estar presentes, por vezes ameaçadores, à medida que são ainda capazes de retomar a filhinha pequena que abandonaram há trinta e três anos. Se esse fosse o caso, poderia ela repeli-los? Porque, no fundo, está aí seu verdadeiro dilema. A filhinha pequena se esconde ainda por trás da jovem mulher. E, nessa breve troca, interessante, a senhorita M. fala a duas vozes e mantém dois discursos quase contraditórios. Sua relação com seu pai embasa essa hipótese. Ela quer se tornar autônoma, mas não muito. Ela quer gerir sua vida, mas o piloto não é ela. O todo é uma questão de cálculo, calcular suas contas, contar consigo mesma, quer dizer, reconhecer-se com seus próprios olhos ou manter a demanda inconsciente em relação a seu pai de sempre fazê-lo, nem que fosse em seu desejo de pai por ela. Como manter a corda, para retomar a metáfora de "bom governo", estendida entre o antes, o depois e o cotidiano? Não é uma questão menor. Como se organiza uma origem

11

1

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Adoção e parentalidade: questões atuais

para uma criança adotiva a fim de fazer a ligação entre a mãe de origem, a mãe afetiva e o cotidiano da adoção no seio de uma família que ela interroga permanentemente para saber a verdade sobre a verdade de sua história?

Saber a verdade sobre a verdade

Saber a verdade sobre a verdade é esta cenoura que faz andar. Pode-se apostar que nenhum relato, nenhuma resposta, tão pertinente quanto possa ser, poderá desviar a criança adotiva de sua busca. Contar sua história a alguém e subjetivar sua história pode ser confundido, mas a verdade não está onde se acredita. Meu amigo Cyril Veken, no seu

artigo "Meu pai é alfaiate" 1 ,

ilustra nossa formulação com um

testemunho-chave que nos ajuda a compreender como um relato se transmuta em verdade subjetiva. Sobrevivente da Shoah, ele foi criado por um pai adotivo, alfaiate de profissão.

Depois de muito tempo, quando criança, ter repetido a frase ("Meu pai é alfaiate") ao pensar em falar da profissão de meu pai, eu me dei conta um dia de que o que eu dizia podia-se ouvir de outra maneira: "Meu pai está longe" 2 Ela abria assim o espaço entre o alfaiate, o homem que eu sempre considerei como meu pai (meu tutor, pois rapidamente deixei de usar o sobrenome, pois eu já tinha um) e este outro pai que não era alfaiate, mas professor (o homem de quem carrego o sobrenome). 3

A verdade é um significante

Esse testemunho é ainda mais pertinente porque nos diz simplesmente que a verdade de nossa história se encontra nos significantes, no equívoco e por aquilo que termina por ser um chiste. E essa verdade ninguém pode encontrá-la em nosso lugar, simplesmente porque ninguém pode viver nossa vida em nosso lugar. Cyril Veken não para por aí, pois seu testemunho

7 - A clínica da criança adotiva

67

abre um horizonte novo. Ele nos diz que, se existe uma dívida com respeito a alguém, é em princípio com respeito à língua, aquela na qual nós somos recebidos e criados. E ele acrescenta:

Atualmente me parece, considerando o que aconteceu com tantas outras crianças judias de minha geração, que se tratava deste encargo de ter de quitar uma dívida simbólica para com a língua e as instituições republicanas que nos ofereceram o lugar do Outro que nos permitiu existir como sujeitos. 4

Nós nos inscrevemos como sujeito à medida que o Outro se revela a nós como um lugar, o lugar da linguagem,

e

não mais como uma garantia, aquela que sabe qualquer coisa,

o

verdadeiro sobre minha verdade por exemplo. Este Outro,

colocado enquanto lugar, introduz a falta como alguma coisa de estrutural no sujeito humano, e, nesse sentido, pais adotivos e pais de origem estão alojados na mesma insígnia. Pouco importa o lugar que ocupem no fantasma da criança, eles só podem responder por sua falta. E é muitas vezes a

verdade incontornável a que certas crianças adotivas permanecem surdas durante um certo tempo.

1 VEKEN, C . "Mon pere est tailleur" , Clinique lacanienne, n. 7. 2 O autor se refere à homofonia em francês entre "mon pere est tailleur" (meu pai é alfaiate) e "mon pere est ailleurs" (meu pai está longe). N.T. 3 Ibid., p. 57-58.

é alfaiate) e "mon pere est ailleurs" (meu pai está longe). N.T. 3 Ibid., p. 57-58.

4 lbid. , p. 58.

é alfaiate) e "mon pere est ailleurs" (meu pai está longe). N.T. 3 Ibid., p. 57-58.
8 As crianças adotivas são crianças em risco? Bernard Penot, em seu artigo intitulado "Quando

8

As crianças adotivas são crianças em risco?

Bernard Penot, em seu artigo intitulado "Quando a adoção é uma armadilha", nos revela que quando o fantasma dos pais adotivos vem dar, de uma maneira ou de outra, um fundamento à representação que as crianças fazem de sua história de origem, isso pode acarretar um efeito desastroso sobre seu narcisismo, sobretudo no momento de sua passagem para a adolescência. Ele nos diz:

Eu tinha assim frequentemente podido me dar conta até que ponto tais representações são capazes de prescrever, de uma parte, a imagem que a criança adotiva pode fazer de si mesma - e tão inteiramente que esses fantasmas permanecerão inconscientes nos adotantes. 1

O autor, diretor do hospital dia para adolescentes do CEREP-Montsouris 2 em Paris, constata com admiração que os jovens adotivos representam por vezes um décimo dos adolescentes hospitalizados. Uma porcentagem relativamente importante em relação àquela das crianças adotivas no conjunto das crianças que vivem com a família. Segundo ele, a patologia desses adolescentes remete frequentemente a "sintomatologias comportamentais". Ele as classifica como "com problemas de caráter, personalidades limitadas com despersonalização" e alguns são julgados "como entrando na esquizofrenia". 3

1 PENOT, B. Clinique lacanienne, n. 7, p. 111-112. 2 Centre de Readaptation Psychothérapique, Hôpital de Jour pour Adolescents du Pare Montsouris. N.T. 3 Ibid., p. 112.

Centre de Readaptation Psychothérapique, Hôpital de Jour pour Adolescents du Pare Montsouris. N.T. 3 Ibid., p.

70

Adoção e parentalidade: questões atuais

8 - As crianças adotivas são crianças em risco?

71

Essa constatação de Bernard Penot relança a questão colocada no início deste capítulo: a adoção comporta um fator de risco particular? Para responder com conhecimento necessário, eu consultei estudos anglo-saxões a esse respeito e fiquei surpreso por constatar que esses estudos comparativos entre a Inglaterra, os Estados Unidos e a Suécia nos abrem horizontes interessantes.

na folha e, por vezes , viram para continuar no outro lado. Inútil comentar a inutilidade desse esforço, visto que a criança vai descobrir pessoalmente que, se a expressão "eu te amo" não garante sua função a seus olhos, nada mais pode fazê-lo suficientemente. O que é verdade para a criança é igualmente para o adulto. Eis um exemplo que me parece tão enternecedor quanto divertido.

O menosprezo de si

O beijinho de Chloé

Chloé é uma moça de origem vietnamita que foi adotada muito cedo. Os pais se separaram alguns anos após sua chegada, e Chloé foi criada por sua mãe na sequência. Eu a vi com catorze anos de idade. Uma moça alta, que era muito sociável, trabalhava bem na escola, mas tinha tendência a ser muito agressiva com sua mãe. Esta última sofria com seu repúdio de beijar ou se deixar beijar, ao passo que ela o fazia sem a menor dificuldade com seus amigos e os amigos de sua mãe.

Enquanto a mãe lamentava a incapacidade da sua filha em manifestar sinais de afeto por ela, Chloé comentou:

"Eu não gosto dos beijinhos, e depois isso não quer dizer nada".

A mãe: Mas você dá beijinhos em todo mundo, exceto

emm1m.

Chloé: Não é a mesma coisa. Você é minha mãe.

A

mãe: E por que eu não teria direito a eles tanto quanto

os outros?

Chloé: Porque você sabe que eu te amo.

A mãe: E isso exclui os beijinhos na nossa relação de

mãe e filha?

Chloé: Se eu desse uns beijinhos em você, isso provaria que eu te amo mais?

A mãe: A questão não é essa. Minha questão é antes:

por que os beijinhos entre nós não podem ser consentidos

normalmente, e sem segundas intenções? Eu: Senhora, eu lhe aconselho a ler para ela a história da princesa e do sapo. Chloé: Por quê?

O sentimento de "menosprezo de si" aparece de maneira frequente em numerosos estudos que consultei. Esse sentimento está diretamente ligado ao ato de abandono sentido duplamente pelas crianças adotadas por estrangeiros. Elas são inicialmente abandonadas por seus genitores e em seguida pelo seu país de origem, que consente lhes dar em adoção a pessoas que venham de outro lugar. Elas têm a impressão de terem sido abandonadas coletivamente e de que ninguém se levantará para manifestar qualquer interesse por elas. "Eu era amado e desejado antes de ser dado em adoção?" é uma questão que retoma na boca de muitas crianças. 4 Tanto "Eu fui desejado e amado?" é uma questão recorrente, quanto o fato de desafiar seu meio social a responder permanece uma coisa totalmente específica da criança adotiva. Que garantia pode-se dar àquele ou àquela que quer uma prova? Quando se pergunta a uma criança o quanto ela ama seus pais, ela tem a tendência de abrir os braços e responder "tanto assim". Mas quando os braços não se abrem o tanto suficiente para dizer o amor que ela tem por eles, ela acrescenta "muito, muito". Todavia, "muito, muito" pode igualmente se revelar aquém do sentimento de amor. Então, é a própria garantia que se torna problemática. O trabalho analítico com as crianças nos coloca diante desse impossível de resolver. Quando a criança nos diz que quer fazer um desenho para sua mãe e acrescenta um coração para expressar seu amor por ela, em geral não demora a descobrir que um único coração não é o suficiente. Existem aquelas que vão justamente encher todo o espaço que existe

4 TRlSELIOTIS , J.; SHIREMAN, J.; HUNDLEBY, M. Adoption: theory, policy and pratice. Londres : Cassei, 1997, p. 40-41.

, J.; SHIREMAN, J.; HUNDLEBY, M. Adoption: theory, policy and pratice. Londres : Cassei, 1997, p.
, J.; SHIREMAN, J.; HUNDLEBY, M. Adoption: theory, policy and pratice. Londres : Cassei, 1997, p.
, J.; SHIREMAN, J.; HUNDLEBY, M. Adoption: theory, policy and pratice. Londres : Cassei, 1997, p.
, J.; SHIREMAN, J.; HUNDLEBY, M. Adoption: theory, policy and pratice. Londres : Cassei, 1997, p.
 

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Adoção e parentalidade: questões atuais

8 - As crianças adotivas são crianças em risco?

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Eu: Com isso Chloé comprenderá porque o beijar devolve ao sapo seu estatuto de príncipe charmoso. Dirigi-me a Chloé para lhe dizer: "Você vê, Chloé,

A agressividade

Mede-se a profundidade desse sentimento pela agressividade que essas crianças têm tendência a manifestar para com sua mãe adotiva. Ora, quanto mais esse sentimento

o

beijar devolveu ao sapo o seu estatuto de homem. O beijar é

o

amor. Os humanos se beijam quando se amam. Eles se beijam

quanto estão apaixonados, como fazem todos os homens e mulheres do mundo, e eles se beijam para manifestar ternura àqueles que lhes são próximos e caros. O sapo é aquele que está privado de amor. Seria preciso que alguém o beijasse, porque havia um beijo a lhe dar. E lhe dar um beijo como esse, sem condição, lhe devolveu seu estatuto de homem. Pois bem, é isso que sua mãe tenta lhe dizer, e você tem tendência a ouvir que ela reclama de você algo devido." Então, Chloé se dirige à sua mãe e lhe diz com certo

humor: "Mamãe, vamos transformar nossos sapos em boa mãe

e em boa filha". E ela se inclinou em direção a mãe para lhe dar um beijinho caloroso.

"Você não é como as outras"

Quando Chloé diz à sua mãe "você não é como as outras", ela quer dizer "os beijinhos dados em você não são como os outros beijinhos. Eles são verdadeiros, e é isso que os toma difíceis. Os beijinhos dados nos outros são fáceis e sem consequências. Eles são convencionais." "Você é minha mãe, eu sei, e é isso que me inquieta. Adotá-la desse modo, sem ambiguidade, requer o abandono total daquela que estava lá antes de você, minha progenitora." É só a mãe de nascimento que abandona, escrevi mais acima, e é justamente porque uma outra mulher, a mãe adotiva ou simplesmente a protetora, ocupa seu lugar, que esta mulher

e a criança têm de lidar com um mal-entendido que por vezes

é duradouro. O beijinho destinado à mãe é importante porque

é diferente. Ele legitima, de algum modo, sua mãe adotiva nesse lugar. Ora, o sentimento de perda, de amputação de uma parte de si e, por vezes, de vazio, está ligado à experiência de separação precoce que não cessa de se manifestar naquilo que os autores chamam "menosprezo de si" 5 ou ainda "desvalorização".

é forte, maior é a necessidade de se defender do sofrimento

psíquico. A agressividade contra aquela ou aqueles que encarnam o primeiro objeto de amor é uma realidade incontornável. O lugar vazio deixado pelo primeiro objeto de amor se revela desconfortável para qualquer recém-nascido,

quando a criança não fez o trabalho de luto. Querer ocupar esse lugar sem tomar as precauções necessárias para ajudar

a criança a se apoiar em seus novos pais para iniciar um trabalho que ela sempre recusou fazer corre o risco de atualizar a angústia e a dor que a criança sentiu quando da separação,

e cuja lembrança perdura. No texto Inibição, sintoma e angústia 6 , Freud lembra que a ausência da mãe desencadeia no bebê uma reação na qual angústia e dor estão intimamente ligadas e se separam somente mais tarde. Como eujá havia dito, um bebê não sabe distinguir a ausência temporária da ausência duradoura. Cada vez que a mãe se ausenta, a criança reage como se ela tivesse verdadeiramente desaparecido e como se jamais fosse voltar a revê-la. A criança assimila essa diferença unicamente graças à experiência que ele tira dessa repetição das fases presença/ausência e sobretudo pela segurança que o saber prático da mãe faz reinar em sua relação com ela. Freud nos explica como angústia e dor se intrincam num estado complexo que torna o trabalho de todo luto igualmente completo. Ele escreve: "A dor é uma reação própria

5 Annemarie Hamad, voltando ao significante Arbeit (trabalho), diz que ele significa "pena", "tormento", portanto aquilo que alguém sofre passivamente. A raiz germânica é o verbo arbejo, que significa "eu sou uma criança órfã , e esse fato obriga ao trabalho penoso". Em "Luto e melancolia", Freud atrela na melancolia uma grande variedade de combates individuais em tomo do objeto, nos quais ódio e amor lutam , um para liberar a libido do objeto, o outro para defender essa posição libidinal contra o assalto. Daí esta hesitação entre a revolta contra a origem e o sentimento de menosprezo como uma tentativa de conservar o objeto.

6 FREUD, S. Jnhibition, symptôme et angoisse. Paris: PUF, 1926 , p. 100.

uma tentativa de conservar o objeto. 6 FREUD, S. Jnhibition, symptôme et angoisse. Paris: PUF, 1926
uma tentativa de conservar o objeto. 6 FREUD, S. Jnhibition, symptôme et angoisse. Paris: PUF, 1926

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Adoção e parentalidade: questões atuais

8 - As crianças adotivas são crianças em risco?

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à perda do objeto; a angústia, a reação ao perigo que comporta essa perda e, ao termo de um deslocamento complementar,

reação ao perigo da própria perda" . Esse perigo da perda é uma realidade cotidiana para muitos homens e mulheres adotivos quando atingem a idade da experiência amorosa. Eles não sabem se separar de alguém, mesmo quando essa relação é nefasta. A ideia de se separar de alguém se confunde neles com a dor do abandono . Em decorrência disso, um sentimento de angústia, por vezes terrível, coloca para eles no mesmo nível o fato de romper com alguém que não se ama mais e o fato de ser abandonado pelo parceiro. A clínica nos ensinou alguma coisa sobre o impasse afetivo no qual se encontram muitos desses jovens. Eles não sabem escolher, porque não sabem se separar. Eles não sabem se proteger dos outros, porque uma história de amor não tem fim para eles. Testemunhos como este, da moça que sabe perfeitamente que vários de seus antigos namorados não retomavam para vê-la a não ser para uma aventura sexual, são numerosos.

a

Ao partir, eu sei uma coisa ao menos : ninguém me espera

e ninguém me conhece. Eu entro nessa cultura totalmente

nova, sem bagagem linguística e sem expectativa particular da parte de alguém. Trata-se para mim de ir ao encontro de

meu destino sem esse sentimento de dever alguma coisa

a esses pais que atravessaram mares e montanhas para

vir em meu socorro. Eu quero atravessar essas fronteiras

sozinha, para ir ao meu encontro sabendo que eu sou meu único socorro.

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A senhorita C. , trinta anos, de origem ucraniana, decide abandonar tudo para ir se instalar nos Estados Unidos sem outro projeto a não ser aprender a língua, no começo, e depois ver

Eu: O que teria para ver nos Estados Unidos uma mulher como você que concluiu seus estudos, que trabalha e que ganha bem sua vida na França?

Sra. C.: O imprevisível. A ideia de ir aprender uma nova língua representa a meus olhos um continente totalmente

Marco

Polo em mim já está no mar. Eu: Ellis Island é receptiva à chegada de novos migrantes. Sra. C.: Eujá visitei o museu da Imigração nesta ilha e fiquei admirada com a quantidade de objetos quase inúteis que esses imigrantes tinham de levar com eles. Você sabe, depois que decidi partir, constato todos os dias que isso não interessa a ninguém e que posso desaparecer sem que isso comova alguém. As pessoas que vêm me ver, sem que eu chegue a

fazer a diferença entre os namorados e os aproveitadores, os colegas de trabalho e as demais pessoas que eu encontro ao longo de minhas diversas viagens , me passam a impressão que são capazes de me esquecer ao cabo de uma semana. A ideia de partir sem deixar vestígios me persegue. Somos verdadeiramente tão pouca coisa? Eis minha questão. Talvez você tenha uma resposta para me dar antes de minha partida? Eu: Sim, tenho uma resposta, mas para uma questão que você não formulou. Como acontece que os pais possam

novo a ser descoberto. Preciso romper as amarras . O

Eu sei que quando tal ou tal homem me telefona para me ver, é que ele não tem mulher e que ele sabe que eu não posso dizer não. Ele vem me ver. Passamos uma noite ou um fim de semana juntos, e depois ele desaparece . Eu me odeio quanto faço isso, mas sei que recomeçarei no próximo toque do fone.

Partir sem poder se separar

Essa queixa, que se assemelha a uma confissão de incapacidade de escolher ou de romper os laços considerados nefastos para sua saúde psíquica e afetiva, leva alguém a partir, a deixar seu país de adoção para ir se instalar em outro lugar, em um outro país e uma outra língua. Uma maneira para eles de se abandonarem a fim de melhor se reencontrarem.

7 Ibid ., p. 100.

país e uma outra língua. Uma maneira para eles de se abandonarem a fim de melhor
país e uma outra língua. Uma maneira para eles de se abandonarem a fim de melhor
7 6 Adoção e parentalidade: questões atuais nos abandonar e nos esquecer em seguida? Somos

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Adoção e parentalidade: questões atuais

nos abandonar e nos esquecer em seguida? Somos realmente tão pouca coisa? Você colocou em ato o efeito de uma questão que não se formula. Você parte, se abandona, e constata que pode desaparecer da vida das pessoas que conhece sem que esse ato comova alguém, como você disse. Talvez seja necessário você ir ao encontro de você sob outros céus!

Em todo caso, é isso que você está me dizendo

e fazendo .

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Quando os males se tornam a linguagem do corpo

A criança separada e seu estado depressivo

A experiência clínica com crianças separadas muito cedo de seus pais nos ensina como essas crianças fazem para abrandar a ausência e para superar as perdas sobrevindas em uma idade precoce. Eu retomo aqui um certo número de casos que eu acompanhei há alguns anos, precisamente na época em que eu estava junto de Françoise Dolto. Esses casos são muito interessantes do ponto de vista clínico, pelo fato de que essas crianças tinham adquirido uma postura particular que merece que nos detenhamos neles. Trata-se de vinte crianças, meninos e meninas que haviam sido colocados em berçários antes da idade de um ano. Ali eles haviam vivido alguns anos antes de serem orientados para famílias de acolhimento ou para adoção. Essas crianças tinham conseguido mobilizar suas cuidadoras, estando frequentemente doentes, necessitando por vezes uma hospitalização e o recurso à intervenção cirúrgica na esfera oral ou visceral, como apendicectomia. Isso estava frequentemente associado a perturbações esfincterianas (enurese), a retardos de linguagem ou ainda a uma inibição maciça.

Trabalhando com Françoise Dolto, chegamos à conclusão que esses sintomas constituíam a mensagem que continuava a se exprimir no endereçamento à mãe como Outro encarnado para a criança pequena, e que o retorno dessa mensagem não se articulava enquanto significante, mas em

Outro encarnado para a criança pequena, e que o retorno dessa mensagem não se articulava enquanto
Outro encarnado para a criança pequena, e que o retorno dessa mensagem não se articulava enquanto

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Adoção e parentalidade: questões atuais

uma excitação pulsional demasiada que colocava as zonas erógenas em estado de sobrecarga crítica.

O desejo humano é o apelo à comunicação

Nisso Dolto era fiel à sua teoria: "O desejo é o apelo à comunicação inter-humana. A organização de uma resposta adequada ao apelo que conjuga dois seres vivos é linguagem. Essa organização é devida à função simbólica." 1 Esse apelo à comunicação inter-humana estrutura a criança muito antes que ela aceda à linguagem falada e a seu narcisismo fundamental ou, se quisermos, a uma imagem inconsciente do corpo. Para Dolto, a imagem inconsciente é simbólica. Ela se funda no discurso do Outro materno. O Outro

materno deve ser ouvido aqui como sendo qualquer pessoa capaz de sustentar a aposta do sujeito na criança pequena e antecipar seu desejo à medida que a pessoa protetora esteja também implicada por seu desejo que é

comunicação. (É o que faz Dolto dizer que o bebê é humano por cooptação da mãe que lhe fala como humano. Ela acrescenta que, se o estágio do espelho é a primeira experiência de unificação do corpo, o que substitui o espelho na criança cega de nascença é o espelho do sujeito em qualquer um que a ame, que sustente seu desejo e que a refira ao outro da cena primitiva.

'

É um espelho vivo. 2 )

outro da cena primitiva. ' É um espelho vivo. 2 ) A noção de castração no

A noção de castração no bebê

Essa posição nos ajudará a compreender a noção de castração segundo Dolto. Ela explica que a imagem inconsciente do corpo se estrutura graças à castração, que opõe o interdito ao gozo direto e imediato que ocasiona o corpo a corpo como a mãe. A castração é o que coloca limite ao gozo da criança em sua relação com a mãe ou com qualquer outra protetora que se ocupa dela. A mãe que nutre é também aquela que fala. Nutrir passa ao mesmo tempo pelo leite e pela fala, o seio e a prosódia da língua materna, a coisa e o

1 DOLTO, F. Aujeu du désir. Paris: Seuil, 1981, p. 272. 2 DOLTO, F. L'image insconcient du corps. Paris: Seuil, 1984, cap . 2.

9 - Quando os males se tornam a linguagem do corpo

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significante materno que introduzem a criança na comunicação

e na troca. Uma vez que a criança acede à fala e se engaja

nela, perde a mãe onipotente, aquela que sabia por ela, e não

há mais que a linguagem para se dizer e descobrir que dizer

fracassa sempre a todo dizer. O exemplo típico desse estado