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SUGESTOES DE LEITUR, 1) Uma excelente introdugao a histéria e formagao do Brasil é 0 texto de Boris Fausto, Histéria do Brasil (1994). O leitor pode consultar também 0 clissico de Celso Furtado, A formagao econémica do Brasil (1959). 2) Sobre as linguas no Brasil, recomendamos A. Rodrigues, Linguas in- digenas: 500 anos de descobertas ¢ perdas (1993), sobre as linguas afti- canos ha o classico de R. Mendonga (1948), A influéncia africana no portugués do Brasil, eo texto de Lucchesi et al. (2009), O portugues afro- -brasileiro 3) Sobre a formagao linguistica de Sao Paulo, o diversos textos que tangenciam o tema, como Negros da terra: indios ¢ bandeirantes nas origens de Sao Paulo (1994) e Tupis, tapuias ¢ historia- dores (2001), de .M. Monteiro, Boa Ventura! (2011), de L. Figueiredo, e A capital da solidao (2003), de R. Toledo. 1 pode encontrar 250 O portugués brasileiro de 1801 em diante e a sua formagao INTRODUGAO século XIX foi um século no qual o Brasil viveu mudangas muito profundas: podemos citar a vinda da familia Real Portuguesa em 1808, a Independéncia em 1822, a Aboligao da Escravatura em 1888, ¢a Proclama- ao da Republica em 1889, apenas para lembrar os fatos mais importantes. século XX também foi extremamente dindmico, com o Brasil abragan- do cada vez mais sua vocagao industrial e urbana, chacoalhado por golpes politicos e militares, ditaduras, revolugdes culturais ete. Como nao podia deixar de ser, a lingua portuguesa falada no Brasil, ou o portugués brasilei- 10, ndo ficou imune a todas essas mudangas, seja como um reflexo de todo © dinamismo citado seja como um instrumento para marcar a identidade de um povo que se fez independente, numa repiiblica livre e laica, com uma cultura rica e propria. Nas segdes abaixo, olharemos para alguns momentos ¢ fatos que tiveram destaque na lingua ou que tiveram a lingua como destague. Assim como fi- zemos no capitulo anterior, neste olharemos para um caso particular:a for- magdo linguistica da Regido Amazonica. Na tt algumas das principais teorias sobre a formagao do portugués brasileiro € a segao, apresentaremos 6 problemas que elas enfrentam. 6.1 Fase de desenvolvimento da escrita e do ensino (1800 a 1950) Do ponto de vista da estrutura da lingua, os principais fendmenos en. contrados a partir de 1800 e exclusivos do portugues brasileiro sdo os se- guintes: + A queda do /r/ final, principalmente nos verbos, ocorre em todo 0 territério nacional, e também em alguns substantivos: “buscar” como Ibus'cal (grafada as veres como ), “receber” como /rece'be/ (), “calor” como /ca'lo/ () ete. +A monotongagao de [aj] antes de [J]: “baixo” como /"baxo/, “encaixo como /em'caxo/ etc. + A monotongagio de [ej] em [el: “manteiga” como /man'tega/; “beira” como /"bera/; “deixa” como /dexa/ etc. + Abreviagoes (aférese) como: “ta” por “esta’, “td” por “estou, “ce” ou ” por “voce” ete. + A epéntese de [i] antes de /s/ final: em portugués brasileiro, na maio- ria dos dialetos, é possivel rimar “pais” com “paz”, ambos pronunciados como /pais/; 0 mesmo vale para “seis” e “trés” que terminam como /eis/, “més” como /meis/ ete + Diferentemente do PE, que a reduz, 0 PB conserva a prontincia [e] para a vogal /e/ antes de consoantes palatais (/J7, [3/,/1/,/A/) A africagao de /t/ e /d/ antes de /i/ no portugués brasileiro — como na proniincia ['tfio} para “ti e [d3ie] para “dia” -, bastante generalizada, pa- rece ter se iniciado no comego do século XIX, e é mencionada por Jeronimo Soares Barbosa em sua gramética de 1822, Por volta da mesma época, do cumenta-se também a existéncia do chamado “erre caipira’, o -retr0- flexo, marca registrada do interior de Sdo Paulo, mas que ocorre também no Parana, em Santa Catarina (nas cidades colonizadas por paulistas), em regides de Minas Gerais e do Mato Grosso. A promiincia “chiante” de /s/ e Jal em fins de palavras ede silaba, caracteristico do Rio de Janeiro, de Belem € de varias cidades litoraneas, é também documentada desde as primeiras décadas do século XIX no Brasil, apesar de ter se desenvolvido muito antes em Portugal. Embarque da Familia Real Portuguesa em Lsboa, em 1808. ‘Autor Henry Ubveque Alids, a realizagao “chiante” de /s/ e /2/ foi muitas vezes ligada ~ talvez de modo direto demais —a vinda da Familia Real Portuguesa e sua corte a0 Brasil em 1808, fugindo de Napoleao e suas tropas. Entre os varios habitos ¢ exigéncias metropolitanas que essa vinda impos ao Rio de Janeiro, entao a capital brasileira, conta-se também a adogio da prontincia dos recém- -chegados. Nao é de se espantar que alguns pesquisadores tenham assu- iros viam vantagens em falar como a corte mido que os moradores bras portuguesa, afinal, deve haver muito prestigio em falar como o rei. E assim se constréi a hipétese de que a promincia chiante resultou justamente da imitagao da fala dos portugueses que chegaram ao Brasil em 1808. Como 235), contudo, nao é possivel fazer uma relagao mostra Noll (2008, p. tao direta entre a proniincia chiante ea vinda da corte portuguesa ao Brasil. Seus argumentos, muito resumidamente, sdo os seguintes: (a) Em fins do século XVIII e inicio do século XIX, a prontincia portuguesa chiante era criticada no Brasil evista com maus olhos. (b) Nao existe nenhuma outra caracteristica do portugués euro- peu que tenha p: ada ido a0 portugués brasileiro com a vin corte, ¢ seria no minimo surpreendente que apenas a prontincia chiante tenha tido esse privilégio. (©) O encontro grafado (“descer” /deJ'ser!, ele ¢ realizado como [s sc- € realizado como [J's] em Portugal ina” /pif"sina/), mas nao no Brasil, onde (d) Encontramos uma mesma prontincia chiante em Belém do Paré, por exemplo, ¢ em outras localidades litoraneas, sem a pre- senga de portugueses vindos com a Corte. Ahipétese entio avangada por Noll é a de que as prontincias chiantes no Brasil e em Portugal desenvolveram-se de modo independente e por isso nao coincidem. Essa é uma hip6tese bastante interessante, mas que ainda carece de mais estudos ¢ documentos para ser plenamente aceitavel. Outras duas caracteristicas importantes do portugués brasileiro, men- cionadas repetidamente por virios gramaticos sio (i) 0 uso no Brasil de formas como “mi’, “thi”, “fliz’,“minino’, no lugar de “me’, “Ihe’, “feliz” e “menino”, bem como: )) a promtincia /w/ para o final de palavras como “Brasil” e “vinil’, produzidas como /bra'ziw/ e /vi'niw/ e certa preferé e”;“Ihi contei” ete. por préclises como “ ‘A pronincia /w/ para o de fim de palavras pode ter uma intima relacdo com 2 formacéo do plural e com a famosa “confusao" entre fazer o plural em , como em “degraus: ou em , como em sais: Etimologicamente, como vimos anteriormente, 0 plural em ocorre em palavras que, na forma plural, resultavam num /V/intervocalico ‘que posteriormente caiu; assim, passamos de sol > soles > soes > s6is. Como os falantes rormalmente nao conhecem os processos histéricos por trés das palavras de sua lingua, ‘eles se ancoram na sua forma atual para a ela aplicarem os processos morfoldgicos pert nentes. Para o caso em tela, antes da prondincia do inal passar a/w/,havia uma nitida, dlferenca entre as prontincias do final de“degrau’/de'graw/) e”sal"(/'sal/, prondincia em vias de desaparecimento, mas ainda encontrada em algumas varlantes no Rio Grande do Sui, 0 que servia como um bom guia para a formacio do plural, equndo duas regras: ‘Regra (1): terminacao em /w/, plural em . Regra (2): terminagao em //, plural em . Como obviamente os falantes aprendem primelramente a lingua flada, na qual a distingdo grdfica entre e <> pura e simplesmente ndo existe, a pista sonora {que os guia. Porém, uma vez que o final passa a ser pronunciado como /w/, a proninciafinal dedegrau” e*sa” passa a sera mesma /de'graw/e 'saw/. Ora, como Saber com certeza qual € regra de plural a ser aplicada? Para palavras comuns, Que ‘ouvimos o tempo todo,como € 0 caso de degrau' sal resolver a questio simples porque apelamos para, entre outras coisas, nossa meméria do que jé ouvimos e da tscrita da lingua, mas quando topamos com palavras pouco conhecidas as vezes Gificl saber qual regra erapregar Pense em casos de palavrasraras ou recentes como Jabro'taw/, /parow!,/sabew/, imetw/ e /ar'gaw/; como sers o plural dessas pala- ‘ras? Sua dvida simplesmente evidencia um processo de mudanca no PB, de acor- {do com 0 qual provavelmente vencerd apenas uma forma de fazer 0 plural ~talvez ‘aquela que seja a mais comum ou mais produtiva ~ que entio se espalharé por todo 6 sistema. Se for assim, a escrita funciona como uma especie de freio da mudanga Tinguistica, porque congela certas formas; mas, se as criancas ~ © vocé,leitor — as ‘vezes se confundem com relacéo a qual regra usar, nem a escrita deters a incansével «© perpétua mudanca linguistca Entre as pessoas que falaram sobre 0 portugues brasileiro des- ta época nao podemos deixar de mencionar a figura de Domingos Borges de Barros, 0 Visconde de Pedra Branca, pois ele foi um dos primeiros a descrever 0 PB e suas peculiaridades como uma lingua autonoma, sem contrasté-la constantemente com 0 PE e sem encon- trar nas diferengas entre as duas “deficiéncias”, “equivocos” ou simples idiossincrasias do PB. Paraa fixacdo do portugues brasileiro como o conhecemos hoje, a vinda da Corte contribui de outras maneiras, um pouco menos diretas do ponto de vista estritamente linguistico, mas ndo menos importantes para a hist6- ria da lingua. Junto com a familia real, chegou ao Brasil a primeira prensa tipografica ¢ a partir de entao o pais contava com publicagoes feitas dire- tamente em seu territ6rio, sem ter de passar por Portugal ¢ sua censura. Com isso, o Brasil teve 0 seu primeiro jornal, fundado em 10 de setembro de 1808, a Gazeta do Rio de Janeiro.