Você está na página 1de 7

LABSAN – UFES

Águas de Abastecimento

Alcalinidade Total
A alcalinidade total de uma água é dada pelo somatório das diferentes formas de alcalinidade
existentes, ou seja, é a concentração de hidróxidos, carbonatos e bicarbonatos, expressa em
termos de Carbonato de Cálcio. Pode-se dizer que a alcalinidade mede a capacidade da água
em neutralizar os ácidos, pois todos os íons causadores da alcalinidade têm característica
básica. A medida da alcalinidade é de fundamental importância durante o processo de
tratamento de água, pois, é em função do seu teor que se estabelece a dosagem dos produtos
químicos utilizados/agentes floculantes. As concentrações dos íons também informam sobre
as características corrosivas ou incrustantes da água analisada.

A alcalinidade pode existir de três formas (apenas uma de cada vez), segundo as seguintes
condições:

pH > 9,4 → hidróxidos e carbonatos


8,3 < pH < 9,4 → carbonatos e bicarbonatos
4,4 < pH < 8,3 → apenas bicarbonatos

Só existe uma das formas acima por vez devido à reação química do íon bicarbonato com o íon
hidróxido. O íon bicarbonato age como se fosse um ácido fraco na presença de uma base forte:

HCO3- + OH- → H2O + CO32-

Para quantificar os íons OH- e CO32-, o indicador mais utilizado é a fenolftaleína, com faixa de
pH de atuação de 8,3 a 9,8:

Fenolftaleína:
o pH < 8,3 → sem coloração / incolor
o pH > 8,3 → cor rosa

Para quantificar os íons HCO3-, é possível utilizar os seguintes indicadores:

Metilorange:
o pH de atuação varia de 3,1 a 4,6
 pH > 3,1 → coloração vermelha
 pH < 3,1 → cor laranja
Vermelho de metila:
o pH de atuação varia de 4,4 a 6,2
 pH > 4,4 → coloração amarela
 pH < 4,4 → cor vermelha
Indicador misto:
o Constituído de vermelho de metila e de verde de bromocresol, solubilizados
em álcool etílico ou isopropílico, que passa da cor azul para a cor salmão.

Se houver traços de cloro na água a coloração dos indicadores será influenciada. Como forma
de inativação do cloro residual é necessário utilizar uma solução de tiossulfato de sódio.

Os indicadores adicionados à amostra podem indicar a presença ou não de um ou mais tipos


de alcalinidade.

Alcalinidade à Fenolftaleína (F):

Ao adicionarmos fenolftaleína à amostra, uma coloração rosa (ou seja, pH > 8,3) pode significar
a presença de hidróxido ou de carbonato ou hidróxido/carbonato simultaneamente na
LABSAN – UFES
Águas de Abastecimento
amostra. A alcalinidade à fenolftaleína pode ser quantificada através da adição quantitativa de
um ácido de concentração conhecida à amostra até a neutralização da alcalinidade, quando
ocorrerá a mudança da cor rosa para incolor. No caso específico da fenolftaleína, caso a
amostra se mantenha incolor após a adição do indicador, pode-se dizer que a alcalinidade à
fenolftaleína é igual a zero.

Alcalinidade ao Metilorange (M):

A alcalinidade ao Metilorange deve ser verificada se a amostra com o indicador apresentar


uma coloração amarela (indicadora de pH acima de 4,4) através de titulação com o mesmo
ácido usado na alcalinidade à Fenolftaleína. Caso a coloração apresentada seja alaranjada ou
avermelhada, a alcalinidade ao Metilorange será zero.

Volume Total (T):

T = Volume total = F + M

A adição do ácido irá ocasionar primeiramente reações com os íons mais básicos e em seguida
com os mais fracos, ou seja, primeiro reagirá o hidróxido, depois o carbonato e logo após o
bicarbonato. As reações serão:

H2SO4 + 2 OH ↔ 2 H2O + SO42-


H2SO4 + 2 CO32- ↔ 2 HCO3- + SO42-
H2SO4 + 2 HCO3- ↔ 2 H2O + SO42- + 2 CO2

Como o carbonato não se neutraliza de imediato, ele passa para a forma de bicarbonato
(HCO3-) para depois chegar a CO2. Metade da concentração do carbonato é titulada com a
Fenolftaleína, sendo a outra metade titulada com Metilorange.

A alcalinidade em função dos íons pode ser obtida através das relações abaixo:

F = 0:
o Hidróxidos → 0
o Carbonato → 0
o Bicarbonato → T
F < ½ . T:
o Hidróxidos → 0
o Carbonato → 2 . F
o Bicarbonato → T – 2 . F
F = ½ . T:
o Hidróxidos → 0
o Carbonato → 2 . F
o Bicarbonato → 0
F > ½ . T:
o Hidróxidos → 2F - T
o Carbonato → 2 (T – F)
o Bicarbonato → 0
F=T
o Hidróxidos → T
o Carbonato → 0
o Bicarbonato → 0
LABSAN – UFES
Águas de Abastecimento
Normalmente as águas superficiais possuem alcalinidade natural em concentração suficiente
para reagir com o sulfato de alumínio nos processos de tratamento. Quando a alcalinidade é
muito baixa ou inexistente há a necessidade de se provocar uma alcalinidade artificial com
aplicação de substâncias alcalinas tal como cal hidratada ou Barrilha (carbonato de sódio) para
que o objetivo seja alcançado. Quando a alcalinidade é muito elevada, procede-se ao
contrário, acidificando-se a água até que se obtenha um teor de alcalinidade suficiente para
reagir com o sulfato de alumínio ou outro produto utilizado no tratamento da água.

Método de Determinação
Titulação com Ácido Sulfúrico

Material necessário:

a) pipeta volumétrica de 50 ml;


b) frasco Erlenmeyer de 250 ml;
c) bureta de 50 ml;
d) fenolftaleína;
e) indicador metilorange;
f) mistura Indicadora de Verde de Bromocresol/Vermelho de Metila;
g) solução de Ácido Sulfúrico 0,02 N;
h) solução de Tiossulfato de Sódio 0,1 N.

Técnica

a) tomar 50 ml da amostra e colocar no Erlenmeyer;


b) adicionar 3 gotas da solução indicadora de verde de bromocresol/vermelho de metila;
c) titular com a Solução de Ácido Sulfúrico 0,02 N até a mudança da cor azul-esverdeada para
róseo;
d) anotar o volume total de H2SO4 gasto (V) em ml.

Cálculo

Alcalinidade total em mg/L de CaCO3 = V x 20

Notas

1. Usar 0,05 ml (1 gota) da solução de Tiossulfato de Sódio 0,1 N, caso a amostra apresente
cloro residual livre;
2. Utilizar esta técnica na ausência de alcalinidade à fenolftaleína;
3. Caso haja alcalinidade à Fenolftaleína, adicionar, antes da mistura indicadora de verde de
bromocresol/vermelho de metila 3 gotas de Fenolftaleína e titule com H2SO4 0,02N até
desaparecer a cor rósea formada. Em seguida continuar no passo b da técnica;
4. A alcalinidade à Fenolftaleína só poderá ocorrer se o pH da amostra for maior que 8,2;
5. Na impossibilidade de conseguir a mistura indicadora de verde de bromocresol/vermelho de
metila, usar o indicador de metilorange. Nesse caso o ponto de viragem no passo 3 da técnica
será de amarelo para alaranjado;
6. O ponto de viragem quando se usa o indicador verde de bromocresol/vermelho de metila é
mais nítido do que quando se usa metilorange;
LABSAN – UFES
Águas de Abastecimento
7. A fórmula acima é para ser utilizada quando se usa uma amostra de 50 ml. Quando for
usado 100 ml de amostra, o volume (V) passará a ser multiplicado por 10;
8. Fc – Fator de correção da solução titulante.

Fluxograma da Análise

Reagentes para Alcalinidade

Solução de ácido sulfúrico 0,02 N

Para preparar esta solução, faz-se primeiro uma solução 0,1N do seguinte modo:

a) transferir, com pipeta, lentamente, 2,8mL de ácido sulfúrico concentrado (96% d=1,84) para
um balão volumétrico de 1000mL contendo cerca de 500mL de água destilada;
b) completar o volume, até a marca, com água destilada e agitar;
c) desta solução, medir, com pipeta volumétrica, 200mL e transferir para um balão
volumétrico de 1000mL e completar o volume com água destilada. Esta solução é
aproximadamente 0,02 N.

Solução de carbonato de sódio 0,02 N

Para preparar a solução de carbonato de sódio 0,02 N secar 1,5 a 2,0 gramas de Na 2CO3 grau
padrão primário, a 250ºC por quatro horas. Esfriar em dessecador. Em seguida, pesar 1,060g e
dissolver em 250mL de água destilada e completar o volume para 1000 mL com água destilada
em balão volumétrico.

Padronização da solução

Colocar 50mL de uma solução de carbonato de Sódio 0,02N em um frasco Erlenmeyer de


250mL e adicionar 4 gotas do indicador metilorange. Titular com H 2SO4 0,02N até a viragem do
indicador para leve coloração avermelhada. Anotar o volume do ácido gasto.
LABSAN – UFES
Águas de Abastecimento
Para calcular a normalidade correta, use a seguinte fórmula:
N = N’.V’ / V

onde:
N = normalidade do H2SO4 desejada;
V = volume do ácido gasto na titulação;
N’ = normalidade do carbonato de sódio;
V’ = volume do carbonato de sódio usado.
1 mL de H2SO4 0,02 N = 1,0mg de CaCO3.

Solução de tiossulfato de sódio 0,1 N

Pesar exatamente 25,0 gramas de Na2S2O3.5H2O e dissolver em um pouco de água destilada e


completar o volume para 1000mL em balão volumétrico.

Indicador metilorange

Pesar 0,100 gramas de metilorange e dissolver em 200mL de água destilada.

Fenolftaleina

a) dissolver 1 grama de fenolftaleína em um pouco de água destilada e diluir a 200 mL.


b) adicionar gotas de NaOH 0,02 N até o aparecimento de leve coloração cor-de-rosa.

Mistura indicadora de verde de bromocresol/vermelho de metila

Pesar 20 mg de vermelho de metila e 100 mg de verde de bromocresol e dissolver em 100 mL


de água destilada ou álcool etílico a 95%.

Método de Determinação
Potenciométrico

Unidade de medida

A alcalinidade é expressa em termos de CaCO3.

Sobre o método de titulação potenciométrica

A titulação potenciométrica pode ser utilizada para a análise de alcalinidade para


concentrações a partir de 1,0mg CaCO3/L.

Preparação da amostra:

Caso a amostra seja clorada, é necessário inativar o cloro residual com a adição de 0,10mL
(duas gotas) de solução de tiossulfato de sódio 0,1M para cada 100mL de amostra.

Possíveis interferências:

A análise de alcalinidade pode sofrer interferências devido a:


LABSAN – UFES
Águas de Abastecimento

sabões, materiais oleosos, sólidos suspensos e precipitados podem retardar a resposta


do eletrodo;
amostras muito saturadas de CaCO3 podem apresentar precipitação, o que altera o
resultado da análise.

Titulação potenciométrica:
Para amostras com alcalinidade > 20mg CaCO3/L:

1 - colocar 100mL de amostra (ou um volume adequado para não se gastar mais que 50mL do
ácido titulante) em um Becker de 250mL. Para preservar a amostra, somente retirá-la do
frasco de coleta no momento da análise. A amostra não deve ser filtrada, diluída, concentrada,
agitada ou alterada;
2 - esperar a amostra chegar à temperatura ambiente e registrar o pH;
3 - realizar a titulação da amostra (utilizando uma bureta) com ácido sulfúrico ou ácido
clorídrico 0,02N até baixar o pH para 8,3. A amostra deve ser agitada com uma barra
magnética no agitador magnético. O titulante deve ser adicionado aos poucos, para a leitura
do pH ser estável. Como o pH 8,3 é o pH de viragem da Fenolftaleína, o volume de titulante
gasto até a amostra atingir o pH 8,3 deve ser anotado como VF. Caso a amostra tenha pH < 8,3
deve-se pular o registro do VF, visto que a alcalinidade da amostra à Fenolftaleína é igual a
zero;
4 - a titulação potenciométrica deve prosseguir até que o pH esteja entre 4,3 e 4,9, conforme a
indicação abaixo:
Alcalinidade total:
o 30mg CaCO3/L → pH = 4,9
o 150 mg CaCO3/L → pH = 4,6
o 500 mg CaCO3/L → pH = 4,3
o Silicatos, fosfatos, existentes ou esperados, análises de rotina ou automáticas,
despejos → pH = 4,5
5 - registrar o volume total de titulante gasto (VT).

Caso a alcalinidade encontrada seja menor que 20mg CaCO3/L, a alcalinidade deverá ser
determinada conforme o próximo tópico.

Para amostras com alcalinidade < 20mg CaCO3/L:

1 – seguir os passos 1, 2 e 3 descritos no item anterior;


2 – prosseguir a titulação até que o pH fique no intervalo 4,3 < pH < 4,7. Anotar o volume de
ácido titulante gasto (V1).
3 – baixar o pH em 0,3 unidade com o ácido titulante e registrar o volume gasto (V2).

Resultados
Alcalinidadeà Fenolftaleína ou total superior a 20mg de CaCO3/L:

mg CaCO3/L = (V . N . 50000) / Vam

Onde:
V = volume do ácido titulante gasto até o pH predeterminado (mL)
VF = volume para alcalinidade a Fenolftaleína
VT = Volume para alcalinidade total
LABSAN – UFES
Águas de Abastecimento
N = normalidade do ácido titulante
Vam = volume da amostra (em mL)

Alcalinidade total inferior a 20mg de CaCO3/L:

mg CaCO3/L = [(2V1 – V2) . N . 50000] / Vam

Onde:
V1 = volume (mL) do ácido titulante gasto até o pH atingir a faixa de 4,3 a 4,7
V2 = volume (mL) do ácido titulante gasto até o pH reduzir mais 0,3 unidade
N = normalidade do ácido titulante
Vam = volume da amostra (em mL)

Observação: o pH e a temperatura devem ser registrados.

Referências:
Manual Prático de Análise de Água - FUNASA - Manual de Bolso
o Disponível em formato PDF em:
http://www.funasa.gov.br/Web%20Funasa/pub/pdf/Mnl%20analise%20agua.
pdf

MACÊDO, Jorge Antonio Barros de. Métodos Laboratoriais de Análises Físico-


Químicas e Microbiológicas. 3. ed. Belo Horizonte: CRQ-MG, 2005. 601 p.
NBR 13736 – Água – Determinação de alcalinidade – Métodos potenciométrico e
titulométrico. ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas. Rio de Janeiro, RJ.
Nov. 1996. 4p.