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NOVO TESTAMENTO 2

W a r r e n W . W ie r s b e
C omentário B íblico
Expositivo

Novo Testamento
Volume II

W arren W . W iersbe
S u m á r io

E f é s i o s ....................................................................................................................... 0 7

F il i p e n s e s ...................................................................................................................8 0

C O L O S S E N S E S ...................................................................................................... 1 3 2

1 T e s s a l o n i c e n s e s ..............................................................................................2 0 1

2 T e s s a l o n i c e n s e s .............................................................................................2 4 8

'1 T i m ó t e o .............................................................................................................2 7 2

2 T i m ó t e o ..............................................................................................................3 1 1

T i t o .......................................................................................................................... 3 3 6

F i l e m o m ................................................................................................................. 3 4 9

H e b r e u s ..................................................................................................................3 5 5

T i a g o ...................................................................................................................... 4 2 9

1 P e d r o ................................................................................................................. 4 9 9

2 P e d r o ..................................................................................................................5 6 2

1 J o ã o .................................................................................................. 6 0 8

2 J o ã o .................................................................................................................... 6 8 4

3 J o ã o .................................... .............................................................6 9 2

Ju d as .....................................................................................................................6 9 9

A p o c a l i p s e ..........................................................................................................7 2 0
1 T im ó teo

ESBOÇO C. Um ministro em crescimento - progri­


Tema-chave: Como administrar o ministério de na Palavra - 4:13-16
da igreja local *
Versículo-chave: 1 Timóteo 3:15 IV. A IGREJA E SEU MINISTÉRIO -
CAPÍTULOS 5, 6
1. A IGREJA E SUA MENSAGEM - A. Aos membros mais velhos - 5:1, 2
CAPÍTULO 1 B. Às viúvas mais velhas - 5:3-10
A. Ensinar a sã doutrina - 1:1-11 C. Às viúvas mais jovens - 5:11-16
B. Proclamar o evangelho - 1:12-17 D. Aos líderes da igreja - 5:17-25
C. Defender a fé - 1:18-20 E. Aos servos (escravos) - 6:1, 2
F. Aos falsos mestres - 6:3-10
11. A IGREJA E SEUS MEMBROS - G. Ao pastor - 6:11-16, 20, 21
CAPÍTULOS 2, 3 H. Aos ricos - 6:17-19
A. Homens de oração - 2:1-8
B. Esposas submissas - 2:9-15 CONTEÚDO
C. Pastores qualificados - 3:1-7 1. Continue trabalhando
D. Diáconos qualificados - (1 Tm 1)............................................ 273
3:8-13 2. Culto... ou circo?
E. Cristãos comportados - (1 Tm 2)............................................ 279
3:14-16 3. Sigam os líderes
(1 Tm 3)............................................ 285
III. A IGREJA E SEU MINISTRO - 4. Como ser um homem de Deus
CAPÍTULO 4 (1 Tm 4)............................................ 292
A. Um bom ministro - prega a Palavra - 5. Ordem na igreja!
4:1-6 (1 Tm 5)............................................ 298
B. Um ministro piedoso - pratica a Pala­ 6. Ordens do quartel-general
vra - 4:7-12 (1 Tm 6)............................................ 304
1 por que Paulo o chama de "verdadeiro filho
na fé" (1 Tm 1:2).
Timóteo vinha de uma família mista: sua
mãe era judia e seu pai era grego. Tamanha
C o n t in u e T r a b a lh a n d o era a devoção do rapaz a Cristo que os líde­

1 TiMÓTEO 1 res de sua congregação local o recomenda­


ram para Paulo, e o apóstolo o aceitou em
sua "equipe missionária" (At 16:1-5). Em vá­
rias ocasiões, Paulo lembra Timóteo de que
ele foi escolhido para esse ministério (1 Tm
1:18; 4:14). Timóteo era fiel ao Senhor (1 C o
4:17) e se preocupava profundamente com

P
rocuram-se homens para viagem perigo­ o povo de Deus (Fp 2:20-22).
sa, salário baixo, frio intenso, longos me­ Mas, apesar de seu cham ado, de seu
ses de escuridão total, perigo constante, relacionam ento próxim o com Paulo e de
regresso em segurança duvidoso. Honra e seus dons espirituais, Tim óteo desanimava
reconhecimento em caso de sucesso. com facilidade. Da última vez que havia es­
Esse anúncio apareceu em um jornal de tado com Timóteo, Paulo o havia encoraja­
Londres, e milhares de homens responderam! do a permanecer em Éfeso e a terminar seu
Era assinado pelo conhecido explorador do trabalho (1 Tm 1:3). Ao que parece, Timó­
Ártico Sir Ernest Shackleton, um detalhe que teo sofria de problemas de saúde (1 Tm 5:23)
fazia toda a diferença. e passava por fases de desânimo. Também
Se Jesus tivesse colocado um anúncio temos a impressão de que alguns membros
p rocu ran d o obreiros, o texto seria algo da igreja não dedicavam a seu pastor o res­
assim: peito que lhe era devido com o servo de
Procuram-se homens e mulheres para a Deus (1 Tm 4:12; 2 Tm 2:6-8).
difícil tarefa de ajudar a edificar minha Igre­ Éfeso não era um lugar fácil para pasto­
ja. Serão malcompreendidos com freqüên­ rear uma igreja (aliás, duvido que existam
cia, até mesmo pelos colegas de trabalho. lugares onde seja "fácil" pastorear...). A ci­
Enfrentarão ataques de um inimigo invisível. dade era dedicada à adoração de Diana,
Possivelmente, não verão os resultados de deusa dos instintos sexuais. Sua imagem las­
seus esforços e só receberão a recompensa civa ajudava a promover os mais variados
com pleta depois da conclusão de todo o tipos de imoralidade sexual (ver At 19). Pau­
trabalho. Pode lhes custar seu lar, suas ambi­ lo havia feito um excelente trabalho em Éfeso
ções e até mesmo sua vida. durante seus três anos de ministério nessa
Apesar das exigências, muitos cristãos cidade, de modo que "todos os habitantes
dispostos a abrir mão de tudo por Jesus Cris­ da Ásia ouvissem a palavra do Senhor" (At
to respondem a seu anúncio. Cristo é, sem 19:10). Não era fácil para Timóteo ser o su­
dúvida, o mais excelente Senhor a quem al­ cessor de um homem com o Paulo! É evi­
guém poderia servir, e a tarefa de edificar dente que Satanás tinha seus assistentes na
sua Igreja é, certamente, o maior desafio ao cidade, pois em todo lugar onde há oportu­
qual o cristão poderia dedicar sua vida. nidades espirituais, também há obstáculos
Timóteo foi um dos rapazes que aceita­ satânicos (1 C o 16:8, 9).
ram o cham ado de Cristo para ajudar a Paulo escreveu a carta que chamamos
edificar sua Igreja. Era um dos colaborado­ de 1 Timóteo para encorajar Timóteo, expli­
res de Paulo e, ao lado de Tito, cumpriu al­ car de que maneira a igreja local deve ser
gumas das missões mais difíceis nas igrejas adm inistrada e asseverar sua autoridade
fundadas pelo apóstolo. Timóteo foi criado com o servo de Deus. Em 1 Timóteo 1, Pau­
em um lar religioso (2 Tm 1:5) e foi levado à lo explica as três responsabilidades de um
fé em Cristo pelo próprio Paulo. Isso explica pastor e do povo de uma congregação local.
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1 . E n sin ar a d o u tr in a (1 Tm 1:1-1 1) A ordem principal era: "Não ensinem


Desde a saudação da carta, Paulo afirma sua doutrinas diferentes das que Paulo ensinou!"
autoridade como servo de Jesus Cristo. Os No texto original das três epístolas pastorais,
que causavam problemas a Timóteo deve­ encontramos 32 referências a "doutrina",
riam lembrar que seu pastor estava lã porque "ensinar", "mestre" e "ensinamentos". Na
Deus o havia colocado ali, pois a autorida­ Igreja primitiva, os cristão aprendiam o con­
de de Paulo era proveniente de Deus. Paulo teúdo da Palavra de Deus e as doutrinas fun­
era um "apóstolo", um homem enviado por damentais da fé cristã. Em muitas igrejas de
Deus com uma comissão especial. Seu hoje, o púlpito e a galeria do coral torna­
apostolado decorria de um "mandato" de ram-se lugares de entretenimento, não de
Jesus Cristo. Esse termo refere-se a uma "co­ esclarecimento e enriquecimento.
missão recebida do rei". Tanto Paulo quan­ Deus havia confiado a verdade da Palavra
to Timóteo haviam sido enviados pelo Rei a Paulo (1 Tm 1:11), e Paulo a havia confiado
dos reis! a Timóteo (1 Tm 6:20). Era responsabilidade
Jesus Cristo não é apenas Senhor; ele de Timóteo guardar a fé (2 Tm 1:14) e passá-
também é "Salvador", título usado dez ve­ la adiante a pessoas fiéis (2 Tm 2:2).
zes nas epístolas pastorais (1 Tm 1:1; 2:3; O apóstolo descreve os falsos ensina­
4:10; 2 Tm 1:10; Tt 1:3, 4; 2:10, 13; 3:4, 6). mentos como "fábulas e genealogias sem
Para Timóteo, que se encontrava desanima­ fim" (1 Tm 1:4). Tito enfrentou um problema
do, o título "nossa esperança" (1 Tm 1:1) semelhante na igreja em Creta (Tt 1:14; 3:9).
era um grande estímulo. Paulo escreveu pa­ Os falsos mestres usavam a Lei do Antigo
lavras semelhantes de encorajamento a Tito Testamento, especialmente as genealogias,
(Tt 1:2; 2:13; 3:7). Saber que Jesus Cristo para criar inovações doutrinárias de todo
está voltando para nos buscar deve ser um tipo, que faziam as pessoas se desviarem.
estímulo para lhe servir fielmente. Esses mestres também levantavam questões
Um dos motivos pelos quais os obreiros sem lhes responder. Não promoviam o "pla­
cristãos devem continuar trabalhando é a pre­ no salvador de Deus" ("o serviço de Deus,
sença de falsos mestres, sempre ocupados na fé"; 1 Tm 1:4), mas afastavam as pessoas
tentando granjear convertidos. Como no da verdade. Em vez de gerar amor, pureza,
tempo de Paulo, hoje também existem mes­ uma consciência limpa e fé sincera, essas
tres ensinando doutrinas falsas, e não deve­ doutrinas inovadoras causavam divisão, hi­
mos ignorá-los. Esses falsos mestres não têm pocrisia e problemas de todo tipo.
boa-nova alguma para os pecadores perdi­ Paulo usa o termo "consciência" vinte
dos. Antes, procuram fazer os cristãos se des­ vezes no texto original de suas cartas, e seis
viarem, tornando-os adeptos de suas causas. dessas referências encontram-se em suas
Paulo usa termos militares para ajudar epístolas pastorais (1 Tm 1:5, 19; 3:9; 4:2;
Timóteo e sua congregação a entender a 2 Tm 1:3; Tt 1:15). A palavra "consciência"
gravidade do problema (1 Tm 1:3). O verbo significa "saber com". A consciência é o árbi­
rogar também pode ser traduzido por "en­ tro interior que acusa quando fazemos o que
carregar, dar ordens rigorosas de um oficial é errado e aprova quando fazemos o que é
superior". Paulo usa essa palavra (traduzida certo (Rm 2:14, 15). É possível pecar contra
por "admoestar", "encarregar", "ordenar", a consciência a ponto de torná-la "corrom­
"prescrever", "exortar" ou "conjurar") oito pida" (Tt 1:15). O pecado repetido endure­
vezes nas duas epístolas a Timóteo (1 Tm ce a consciência, fazendo com que fique
1:3, 5, 18; 4:11; 5:7; 6:13, 17; 2 Tm 4:1). "cauterizada" como uma escara (1 Tm 4:2).
Com isso, dizia a Timóteo: "Você não ape­ É triste quando cristãos professos perdem
nas é pastor de uma igreja em uma cidade o rumo por recusar a "sã doutrina" (1 Tm
difícil, mas também um soldado sob as or­ 1:10; 2 Tm 4:3; Tt 1:9; 2:1). Paulo também
dens do Rei. Passe as ordens adiante aos se refere a ela como "doutrina [...] segundo
soldados de sua igreja!" a piedade" (1 Tm 6:3), "sãs palavras" (2 Tm
1 T IM Ó T E O 1 275

1:13), "[estar] sadios na fé" (Tt 1:13; 2:2) e O sétimo mandamento - "Não adultera­
"linguagem sadia" (Tt 2:8). Muitos, porém, rás" - "impuros, sodomitas".
preferem a "loquacidade frívola" (1 Tm 1:6) O oitavo mandamento - "Não furtarás"
dos que ensinam novidades em vez da Pala­ - "raptores de homens".
vra pura de Deus que produz santidade na O nono mandamento - "Não dirás falso
vida das pessoas. Infelizmente, hoje, encon­ testemunho" - "mentirosos, perjuros".
tramos essa "loquacidade frívola" não apenas
no ensino e nas pregações, mas também na É o "evangelho da glória" que salva o pe­
música. Além das muitas canções despro­ cador perdido. Paulo havia experimentado
vidas de doutrinas, há outras tantas que ensi­ o poder do evangelho (Rm 1:16), e Deus
nam falsas doutrinas. Assim com o um mestre lhe havia confiado o ministério do evange­
não tem direito de ensinar uma mentira, um lho (1 Ts 2:4). A Lei e o evangelho andam
cantor também não tem direito de cantar juntos, pois a Lei sem o evangelho é com o
algo que não é verdadeiro. um diagnóstico sem remédio; mas o evan­
Essa falsa doutrina à qual Paulo se refere gelho sem a Lei é com o boas-novas de sal­
era decorrente do uso indevido da Lei do vação para pessoas que não acreditam que
Antigo Testamento. O s falsos mestres não precisam ser salvas, pois nunca ouviram as
compreendiam o conteúdo nem o propósi­ más notícias do julgamento. A Lei não é o
to da Lei de Deus. Tiravam os cristãos da evangelho, mas o evangelho não é despro­
liberdade da graça (Gl 5:1 ss) e os levavam à vido de lei (Rm 3:20-31).
escravidão do legalismo, uma tragédia que
continua a repetir-se em nossos dias. A car­ 2. P r o c la m a r o e v a n g e lh o
ne (nossa vefha natureza) agrada-se do (1 T m 1:12-17)
legalismo religioso, pois suas regras e nor­ A referência ao "evangelho da glória do Deus
mas permitem que a pessoa pareça santa bendito" (1 Tm 1:11) leva Paulo a comparti­
sem ter de fazer qualquer mudança em seu lhar seu testemunho pessoal. Ele é a "primeira
coração. prova oficial" de que o evangelho da graça
Paulo relaciona catorze tipos de pessoas de Deus é, verdadeiramente, eficaz. Ao ler
condenadas pela Lei (1 Tm 1:9, 10). Trata-se o testemunho de Paulo (ver também At 9:1­
de uma dentre várias listas desse tipo en­ 22; 22:1-21; 26:9-18), com eçam os a com ­
contradas no N ovo Testam ento (ver M c preender a maravilha da graça de Deus e
7:20-23; Rm 1:18-32; G l 5:19-21). A Lei é seu poder salvador.
usada devidamente para expor, conter e con­ Q uem e/e era (v. 13a). Paulo era blasfe­
denar os ímpios. No entanto, não tem po­ mo, pois negava a divindade de Jesus Cristo
der de salvar os pecadores perdidos (Gl 2:21; e obrigava outros a fazerem o mesmo. Era
3:21-29); pode apenas revelar sua necessi­ um perseguidor, que usava a força física para
dade de um Salvador. Quando um pecador tentar destruir a Igreja. Respirava "ameaças
crê em Jesus Cristo, é liberto da maldição e morte" (At 9:1) e perseguia a igreja (1 C o
da Lei (Gl 3:10-14), e os preceitos justos da 15:9) até descobrir que estava perseguindo
Lei são cumpridos pelo Espírito Santo, o qual o próprio Jesus Cristo, o Messias! (At 9:4).
habita no cristão que se entrega a Deus (Rm Durante esse período de sua vida, Paulo
8:1-4). consentiu com o apedrejamento de Estêvão
Em 1 Timóteo 1:9, 10, Paulo concentra- e assolou a Igreja (At 8:1-4).
se em cin co dos D e z M andam entos de Paulo era insolente, ou seja, "orgulhoso
Êxodo 20: e atrevido". Um equivalente moderno seria
"um valentão". O termo dá a idéia de um
O quinto mandamento - "Honra teu pai homem arrogante que impõe sua vontade
e tua mãe" - "parricidas e matricidas". pela violência. Mas a causa fundamental de
O sexto mandamento - "Não matarás" seu comportamento ímpio era a ignorância
- "parricidas e matricidas, homicidas". e a incredulidade. Apesar de Saulo de Tarso
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ser um homem brilhante e extremamente Paulo deixa claro que essa salvação não
cuito (At 22:3; Gl 1:13, 14), sua mente esta­ é apenas para ele, mas para todos os que
va cega para a verdade (1 Co 2:14; 2 Co recebem a Jesus Cristo (1 Tm 1:1 5). Se Jesus
4:3, 4). Era religioso, mas não se encontrava pôde salvar Saulo de Tarso, "o principal" dos
a caminho do céu! Foi somente quando creu pecadores, pode também salvar qualquer
em Jesus Cristo que recebeu salvação (Fp pessoa! Admiramos a humildade de Paulo,
3:1-11). que se considerava "o menor dos apósto­
Com o fo i salvo (vv. 13b-15). Com o um los" (1 C o 15:9) e "o menor de todos os
Deus santo poderia perdoar um pecador santos" (Ef 3:8). Podemos observar que Pau­
tão arrogante? As palavras-chave são mise­ lo não diz "dos quais eu era o principal",
ricórdia e graça. Em sua misericórdia, Deus mas sim "dos quais eu sou o principal".
não deu a Paulo o que ele merecia; em vez Quem ele se tomou (vv. 12, 16). A gra­
disso, Deus lhe deu o que ele não merecia. ça de Deus transformou um perseguidor em
A graça e a misericórdia são o amor de um pregador, um homicida em ministro e
Deus em ação. Deus salva os pecadores missionário! A mudança na vida de Paulo
por meio do amor que paga um preço. O foi tão dramática que a igreja de Jerusalém
amor de Deus, por si só, não nos salva, pois suspeitou que se tratava de um artifício e
Deus ama o mundo inteiro (Jo 3:16). So­ teve dificuldade em aceitar o apóstolo (At
mos salvos pela graça (Ef 2:8, 9), porque 9:26-31). Paulo recebeu seu ministério de
Deus é rico em misericórdia (Ef 2:4) e gra­ Deus, não de Pedro ou dos demais apósto­
ça (Ef 2:7). los (Gl 1:11-24). Foi chamado e comissiona­
Qual é a relação entre a "ignorância" de do pelo Cristo ressurreto que está no céu.
Paulo e sua salvação? A ignorância é uma Deus viu que Paulo era fiel e, portanto,
desculpa diante de Deus? Claro que não! confiou-lhe o evangelho. Mesmo como lí­
Sua ignorância é relacionada a uma lei ju­ der judeu, ignorante do evangelho, Paulo
daica específica (Lv 5:15-19; Nm 15:22-31). mantivera a consciência limpa e vivera de
Se uma pessoa pecava de modo deliberado acordo com o que sabia. É comum alguém
e arrogante em Israel, era expulso do meio que vive de modo extremamente errado
do povo. Mas se pecava por ignorância, quando pecador perdido se tornar extrema­
podia oferecer os sacrifícios apropriados mente correto ao se converter e ser usado
como expiação por seus pecados, Jesus re­ grandemente por Deus para ganhar almas.
conheceu esse princípio ao orar na cruz: Deus não apenas confiou o evangelho a
"Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que Paulo, como também capacitou o apóstolo
fazem" (Lc 23:34). Nem a ignorância des­ a ministrar esse evangelho (1 C o 15:10; Fp
ses homens nem a oração de Cristo por eles 4:13). Quando uma pessoa obedece ao cha­
os salvou; mas a combinação das duas coi­ mado de Deus para lhe servir, o Senhor sem­
sas adiou o julgamento de Deus dando-lhes pre a capacita e provê todo o necessário.
uma oportunidade de serem salvos. Além de se tornar um ministro do evan­
Paulo afirma que foi preciso uma graça gelho, Paulo também se transformou em um
"transbordante" para salvá-lo. O apóstolo exemplo (1 Tm 1:16). Em que sentido Pau­
gostava de usar o prefixo grego huper- (que lo é um exemplo para os pecadores que
significa "uma quantia excessivamente abun­ crêem em Cristo? Nenhum de nós passou
dante") e o associava com freqüência às pela mesma experiência que ele no cami­
palavras de suas cartas. Alguns desses termos nho para Damasco (At 9). Não vimos uma
podem ser traduzidos por "supercrescimento luz, nem caímos por terra, nem ouvimos do
de fé" (2 Ts 1:3); "poder superabundante" céu a voz de Jesus. Mas Paulo é um modelo
(Ef 1:19); "supervencedores" (Rm 8:37). Esse ("tipo") para todos os pecadores perdidos,
mesmo prefixo aparece em nossa língua pois ele era o "principal dos pecadores". Ele
como hiper. Falamos de crianças "hipera- é prova de que a graça de Deus pode trans­
tivas" e de pessoas "hipersensíveis". formar qualquer pecador!
1 T IM Ó T E O 1 277

N o entanto, essa verdade tem uma apli­ apegar-se firmemente à "fé e boa consciên­
cação especial hoje para o povo de Israel cia". Não basta proclamar a fé com os lábios;
de nossos dias, os compatriotas de Paulo deve-se praticá-la na vida diária. Um homem
pelos quais ele sentia grande responsabili­ comentou sobre seu pastor hipócrita:
dade (Rm 9:1-5; 10:1-3). Da mesma forma - Ele é tão bom com o pregador que não
que Saulo de Tarso antes de se converter, o deveria deixar o púlpito; mas é tão lamentá­
povo de Israel é religioso, farisaico, cego para vel com o cristão que não deveria chegar
a própria Lei e para a mensagem do Mes­ perto do púlpito!
sias e incrédulo. Um dia, Israel verá Jesus A boa co nsciência é im portante para
Cristo com o Paulo o viu, e a nação será sal­ combater um bom combate e exercer urji
va. "Olharão para aquele a quem traspassa­ bom ministério. O editor de revistas H. L.
ram" (Z c 12:10). É possível que esse seja Mencken definiu a consciência com o "a voz
um dos motivos pelos quais Paulo se consi­ interior que nos avisa que alguém pode es­
derou "um nascido fora de tempo" (1 C o tar nos observando". Mas a pessoa que tem
15:8), pois sua experiência ao ver o Cristo uma boa consciência faz a vontade de Deus
ressurreto ocorreu no início da era da Igre­ sem pensar em quem está observando ou
ja, não no fim (Mt 24:29ss). no que as pessoas dirão. Com o Martinho
Paulo apresenta uma terceira responsa­ Lutero, ela dirá: "Eis-me aqui; não posso agir
bilidade da igreja local além de ensinar a sã de outra maneira; que Deus me ajude!"
doutrina e proclamar o evangelho. O s cristãos professos que "naufragam"
na fé pecam contra sua consciência. As dou­
3. D e fe n d e r a fé (1 T m 1:18-20) trinas perniciosas normalmente com eçam
O apóstolo volta a usar a linguagem militar com a má conduta e com pecados ocultos.
para dar ênfase a sua declaração, pois a ex­ Himeneu e Alexandre rejeitaram deliberada­
pressão "dever de que te encarrego" (1 Tm mente a boa consciência, a fim de defender
1:18) tem o sentido de "uma ordem urgen­ sua vida ímpia. Paulo não diz exatamente o
te recebida de um oficial superior" (1 Tm que fizeram, mencionando apenas que seu
1:3). Paulo também lembra Timóteo de que pecado envolveu a blasfêmia. Himeneu afir­
Deus o escolheu para o ministério. Ao que mou que a ressurreição já se realizara (2 Tm
parece, alguns dos profetas das congrega­ 2:16-18). Alexandre era um nome comum
ções locais haviam sido dirigidos pelo Espírito naquele tempo, de m odo que não temos
a escolher Timóteo para o ministério (At 13:1­ com o saber, ao certo, se é o mesmo homem
3 traz um exemplo desse procedimento). citado na carta seguinte de Paulo a Timóteo
N ão era fácil servir a Deus na cidade (2 Tm 4:14); mas, caso seja, fica claro que
pagã de Éfeso, mas Timóteo estava sob or­ resistiu a Paulo e continuou ensinado dou­
dens e deveria obedecer. A incumbência do trinas falsas.
soldado é "satisfazer àquele que o arregimen­ A expressão "os quais entreguei a Sata­
tou" (2 Tm 2:4), não agradar a si mesmo. nás" (1 Tm 1:20) deixa implícita a disciplina
Além disso, Timóteo estava lá por indicação apostólica (ver 1 C o 5:5) e a expulsão da
divina: Deus o havia escolhido e enviado. igreja local. "Ser castigado" (1 Tm 1:20) sig­
Em dias difíceis, esse fato lhe daria seguran­ nifica "aprender por meio da disciplina".
ça. Se somos servos de Deus, fomos chama­ Quando um cristão recusa-se a arrepender-
dos pelo Espírito e obedecem os à vontade se, a congregação local deve discipliná-lo,
de Deus, podemos perseverar e terminar o excluindo-o da comunhão protetora dos san­
trabalho. Essas garantias davam a Timóteo tos, tornando-o vulnerável aos ataques de
tudo de que ele precisava para com bater Satanás. A com unhão da igreja local, em
o bom combate. obediência à vontade de Deus, dá ao cris­
Paulo muda a ilustração do exército para tão proteção espiritual. Satanás precisa da
a marinha (1 Tm 1:19). Adverte Timóteo de permissão de Deus para atacar um cristão
que a única maneira de ser bem-sucedido é (ver Jó 1 - 2; Lc 22:31-34).
278 1 T IM Ó T E O 1

Cada congregação local encontra-se cons­ doutrinas e com uma vida ímpia. É uma ba­
tantemente em batalha contra as forças do talha constante, a ser combatida com per­
mal. Existem falsos profetas e falsos mestres. severança.
É Satanás quem dá origem às falsas doutri­ Timóteo deve ter sido grandemente aju­
nas, pois, desde o princípio, foi mentiroso dado e estimulado ao ler a primeira seção
(Jo 8:44). Não basta a igreja local ensinar a da carta de Paulo. Deus o havia chamado,
sã doutrina e proclamar o evangelho. Tam­ preparado e colocado em seu lugar de mi­
bém deve defender a fé ao desmascarar as nistério. O trabalho de Timóteo não era cor­
mentiras e se opor às doutrinas de demô­ rer por toda parte em Éfeso e realizar uma
nios (1 Tm 4:1). infinidade de tarefas. Antes, sua responsa­
É importante que o ministério seja equi­ bilidade era cuidar da igreja, ganhando os
librado. Algumas igrejas apenas pregam o perdidos, ensinando os salvos e defenden­
evangelho e raramente ensinam a seus con­ do a fé. Qualquer tarefa que não fosse re­
vertidos as verdades da vida cristã. Outras lacionada a esses ministérios teria de ser
igrejas apenas se opõem às falsas doutrinas, colocada de lado. Um dos motivos pelos
sem exercer qualquer ministério positivo. É quais as congregações locais enfrentam vá­
preciso ensinar a "sã doutrina" (1 Tm 1:10), rios problemas é que os pastores e líderes
pois, de outro modo, os cristãos não cres­ espirituais envolvem-se com uma série de
cerão. Deve-se pregar o evangelho e conti­ atividades "extracurriculares" e não se dedi­
nuar ganhando os perdidos para Cristo. E é cam ao trabalho para o qual foram chama­
necessário defender a fé dos ataques dos dos. Talvez seja uma boa idéia as igrejas
que desejam corromper a igreja com falsas fazerem um balanço espiritual!
2 - Se eu avisar que vamos ter um jantar
especial - disse um pastor as pessoas com­
parecem. Mas se eu avisar que vamos ter
uma reunião de oração, fico feliz se os diá­
C u lto... ou C ?
ir c o conos vierem!
Não apenas as reuniões de oração per­
1 T im ó teo 2 deram espaço na maioria das igrejas locais,
como também a oração nos cultos públicos
tem sido deixada, cada vez mais, em segun­
do plano. Muitos pastores passam mais tem­
po dando avisos do que orando!
O falecido Peter Deyneka, um grande
/ / " T " udo, porém, seja feito com decência amigo meu e fundador da organização Slavic
I e ordem" (1 C o 14:40). Esse é um prin­ Cospel Association, costumava me lembrar:
cípio básico para a gestão do ministério na "Muita oração, muito poder! Nenhuma ora­
igreja. Ao que parece, o jovem Timóteo es­ ção, nenhum poder!" No ministério apostó­
tava tendo dificuldade em aplicar esse prin­ lico, a oração era uma parte tão essencial
cípio às congregações em Éfeso. O s cultos quanto a pregação da Palavra (At 6:4). E, no
públicos perdiam a disciplina e a eficácia, entanto, alguns pastores passam horas pre­
pois tanto os homens quanto as mulheres parando seus sermões, mas nunca preparam
que faziam parte dessas igrejas desobede­ as orações que farão em público. Em decor­
ciam à vontade de Deus. rência disso, suas orações são rotineiras, en­
- A igreja é um organismo - disse-me fadonhas e repetitivas. Não estou sugerindo
um pastor de modo que não devemos que o pastor deve escrever cada palavra da
enfatizar demais o aspecto organizacional. oração e depois lê-la, mas sim que deve pen­
Devemos dar liberdade ao Espírito. sar seriamente sobre o que vai orar. Isso evi­
- Mas quando um organismo não tem ta que a "oração pastoral" torne-se apenas
ordem - respondi ele morre. Concordo uma repetição tediosa do que foi "orado"
plenamente que devemos dar espaço para na semana anterior.
o Espírito Santo operar. Mas nem mesmo o Mas os membros da igreja também preci­
Espírito tem liberdade de desobedecer á sam estar preparados para orar. Nosso cora­
Palavra de Deus. ção deve estar em ordem com Deus e uns
Muitas vezes, aquilo que chamamos de com os outros. Devemos ter um desejo au­
"liberdade do Espírito" não passa de uma têntico de orar, não apenas para agradar as
série de idéias carnais de alguns cristãos que pessoas (como era o caso dos fariseus, Mt 6:5)
não andam no Espírito. Essa "liberdade" logo ou para cumprir um dever religioso. Quando
se transforma em anarquia, e o Espírito se uma congregação deixa de depender da ora­
entristece ao ver a igreja afastando-se dos ção, Deus deixa de abençoar seu ministério.
princípios da Palavra de Deus. As várias formas de oração (v. 1b). Exis­
Para com pensar essa tendência, Paulo tem pelo menos sete substantivos gregos para
exorta os homens e as mulheres da igreja "oração", e quatro deles são usados nesta
e os lembra de suas responsabilidades es­ passagem. As súplicas dão a idéia de "apre­
pirituais. sentar um pedido por uma necessidade que
sentimos".
1. O s HOMENS - o r a ç ã o (1 T m 2:1-8) Orações é o termo mais comum usado
A prim azia da oração (v. Ia). A expressão para essa atividade e enfatiza seu caráter sa­
"Antes de tudo" indica que a oração é prio­ grado. Estamos orando para Deus; a oração
ritária no culto público da igreja. É triste ver é um ato de adoração, não apenas a expres­
com o a oração tem perdido a importância são de desejos e necessidades. Devemos nos
em muitas igrejas. dirigir a Deus com um coração reverente.
280 1 T IM Ó T E O 2

Uma tradução mais adequada para in­ deve-se respeitar o cargo que ocupam e orar
tercessões é "petições". Esse mesmo termo por tais pessoas. Na verdade, fazemos isso
é traduzido por "oração" em 1 Timóteo 4:5, para nosso bem, "para que vivamos vida tran­
versículo em que se refere a abençoar os qüila e mansa, com toda piedade e respei­
alimentos que ingerimos (é evidente que não to" (1 Tm 2:2b). A Igreja primitiva era alvo
intercedemos pelo alimento no sentido ha­ constante de oposição e perseguição, de
bitual desse verbo). O significado básico é modo que era sábio orarem pelas autorida­
"aproximar-se de uma pessoa e conversar des. A vida "mansa" refere-se às circunstân­
com ela confiantemente". Sugere que des­ cias, enquanto a "tranqüilidade" diz respeito
frutamos comunhão com Deus e, portanto, a uma atitude interior de calma. O resultado
confiamos nele ao orar. deve ser uma vida piedosa e honrada.
Por certo, as ações de graças fazem par­ É claro que Paulo não cita todas as pes­
te da adoração e da oração. Não damos soas pelas quais podemos e devemos orar,
graças apenas pelas respostas às orações, pois "todos os homens" é suficientemente
mas também por quem Deus é e por aquilo abrangente. Não é possível orar por todas
que ele faz por nós em sua graça. Não se as pessoas do mundo mencionando-as pelo
deve apenas acrescentar agradecimentos ao nome, mas, sem dúvida, devemos orar pelos
final de uma oração egoísta! As ações de conhecidos e pelos que não conhecemos
graças são um ingrediente importante em pessoalmente, mas que sabemos necessitar
todas as orações. Na verdade, há ocasiões de oração. Por quê? Pois é algo bom e por­
em que devemos imitar Davi e apresentar a que agrada a Deus.
Deus somente ações de graças sem quais­ Os motivos para orar (vv. 3, 4). O adje­
quer pedidos! (ver SI 103). tivo "bom" é uma palavra-chave nas epísto­
As "petições, pela oração e pela súplica, las pastorais de Paulo (1 Tm 1:8, 18; 2:3;
com ações de graças" (Fp 4:6) fazem parte 3:1, 7, 13; 4:4, 6; 5:4, 10, 25; 6:12, 13, 18,
da fórmula de Paulo para ter a paz de Deus 19; 2 Tm 1:14; 2:3; 4:7; Tt 2:7, 14; 3:8, 14).
no coração. Convém observar que Daniel, O termo grego enfatiza a idéia de algo in­
o grande guerreiro de oração, orava dessa trinsecamente bom, não apenas bom em
forma (Dn 6:10, 11). seus efeitos. "Aceitável" e "excelente" são
Os assuntos de oração (vv. 1c, 2). A ex­ sinônimos desse adjetivo. Sem dúvida, a ora­
pressão "todos os homens" deixa claro que ção é uma prática piedosa e acarreta diver­
nenhuma pessoa na Terra está fora da esfe­ sos benefícios.
ra de influência da oração feita com fé. (Em Mas a oração também é agradável a
momento algum, a Bíblia exorta a orar pe­ Deus. O Pai agrada-se de ver os filhos oran­
los mortos. Se fosse o caso, esta seção da do conforme lhes ordenou. Os fariseus ora­
carta a Timóteo seria ideal para Paulo indi­ vam a fim de ser louvados pelos homens (Mt
car tal necessidade.) Isso significa que deve­ 6:5) ou para impressionar outros adoradores
mos orar tanto pelos salvos quanto pelos não (Lc 18:9-14). Os verdadeiros cristãos oram a
salvos: pelas pessoas próximas e também fim de agradar a Deus. Isso indica que deve­
pelas que estão mais distantes de nós; pelos mos orar segundo a vontade de Deus, pois
amigos e pelos inimigos. Infelizmente, os certamente não agrada ao Pai orar de ma­
fariseus não tinham essa visão universal da neira egoísta (Tg 4:1-10; 1 Jo 5:14, 15). Cos­
oração, pois concentravam toda sua aten­ tuma-se dizer que o propósito da oração não
ção em Israel. é conseguir que a vontade do homem seja
Paulo insta a igreja a orar especificamen­ feita no céu, mas sim que a vontade de Deus
te pelas autoridades. Na época, o perverso seja feita na Terra.
imperador Nero ocupava o trono, e, no en­ Qual é a vontade de Deus? Dentre ou­
tanto, os cristãos deveriam orar por ele! tras coisas, a salvação dos perdidos. Pode­
Mesmo quando não é possível respeitar ho­ mos orar por "todos os homens", pois Deus
mens e mulheres em posições de autoridade, deseja que "todos" sejam salvos por meio
1 T IM Ó T E O 2 281

da fé em Jesus Cristo. Deus amou o mundo morte de Cristo ser eficaz apenas para os
inteiro (Jo 3:16), e Cristo morreu pelo mun­ que crêem nele, é suficiente para os peca­
do inteiro (1 Jo 2:2; 4:14). Jesus morreu na dos do mundo inteiro. Jesus Cristo disse que
cruz para "[atrair] todos a [si] mesmo" (Jo veio para "dar a sua vida em resgate por
12:32). Não se trata de uma referência a muitos" (Mt 20:28).
todas as pessoas sem exceção, pois é certo Cristo morreu por "todos os homens", e
que nem todo mundo será salvo. Antes, se Deus deseja que "todos os homens sejam
refere a todas as pessoas sem distinção - salvos". De que maneira essa boa-nova pode
judeus, gentios, ricos, pobres, religiosos e chegar ao mundo pecador? Deus chama e
pagãos. ordena mensageiros para levar o evangelho
Se Deus não deseja que pessoa alguma aos pecadores perdidos. Paulo era um des­
pereça, por que há tantos perdidos? Deus ses mensageiros: era pregador (arauto do
é longânimo com os pecadores, a ponto de Rei), apóstolo (enviado com uma comissão
adiar seu julgam ento para que acertem a especial) e mestre. O mesmo Deus que de­
Cristo (2 Pe 3:9). Mas a salvação depende termina o fim (a salvação dos perdidos), tam­
do "pleno conhecimento da verdade" (1 Tm bém determina os meios para alcançar esse
2:4). Nem todos já ouviram a verdade do fim: a oração e a pregação da Palavra. Essa
evangelho, e muitos a ouviram e a rejeita­ boa-nova não é apenas para os judeus, mas
ram. Não é possível explicar o mistério da também para os gentios.
soberania de D eus e da responsabilidade Se a base para a oração é a obra sacrificial
hum ana (ver Jo 6:37), mas sabem os que de Jesus Cristo na cruz, a oração é uma ati­
ambas são ensinadas na Bíblia e estão de vidade extremamente importante na igreja.
acordo com o plano maravilhoso de Deus Deixar de orar é o mesmo que desprezar a
para a salvação. Sabemos, ainda, que a ora­ cruz! Orar apenas por si mesmo é negar o
ção é parte importante do plano de Deus alcance mundial da cruz. Ignorar as almas
para alcançar o m undo perdido. Temos a perdidas é ignorar a cruz. "Todos os homens
responsabilidade de orar pelas almas perdi­ [pessoas]": esse é o conceito-chave do pará­
das (Rm 10:1) e de nos colocar à disposição grafo: oramos por "todos", pois Cristo mor­
para compartilhar o evangelho com outros. reu por "todos" e Deus deseja que "todos"
A base para a oração (w. 5-7). Muitos sejam salvos. Devemos nos entregar a Deus
cristãos percebem que a oração fundamen­ a fim de ser parte desse plano mundial para
ta-se na obra de Jesus Cristo com o Salvador alcançar os perdidos antes que seja tarde
e Mediador. Com o Deus homem, Jesus Cris­ demais.
to é o Mediador perfeito entre o Deus santo A atitude na oração (v. 8). Paulo afirma
e seus filhos imperfeitos. Uma das queixas claramente que os "homens" devem orar na
de Jó era a falta de um mediador que levas­ congregação local. Na Igreja primitiva, tan­
se sua mensagem ao trono de Deus. "Não to homens quanto mulheres oravam (1 C o
há entre nós árbitro que ponha a mão sobre 11:4, 5), mas a ênfase, aqui, é sobre os ho­
nós ambos" (Jó 9:33). mens. É comum haver reuniões de oração de
Um a vez que existe somente um Deus, mulheres, mas é raro ouvir falar de reuniões
precisamos apenas de um Mediador: Jesus de oração de homens. Se os homens não
Cristo. Nenhuma outra pessoa é qualificada. orarem, a igreja local não terá líderes consa­
Jesus Cristo é tanto Deus quanto homem e, grados para supervisionar seu ministério.
portanto, pode ser o "árbitro" entre Deus Era costume os homens judeus orarem
e os homens. Por meio de sua vida perfeita com os braços estendidos e as mãos aber­
e de sua morte substitutiva, ele cumpriu as tas voltadas para o céu. A postura tradicional
exigências justas da lei santa de Deus. Ele de curvar a cabeça, unir as mãos e fechar os
foi o "resgate por todos". O termo "resgate" olhos não é encontrada nem ordenada em
significa "preço pago para libertar um escra­ parte alguma das Escrituras. Na verdade, é
vo". Cristo morreu "por todos". Apesar de a possível observar várias posturas diferentes
282 1 T IM Ó T E O 2

de oração ao longo da Bíblia: em pé e com e na autoridade da Palavra de Deus sabem


as mãos estendidas {1 Rs 8:22); ajoelhado que os ensinamentos de Paulo vêm de Deus,
(Dn 6:10); em pé (Lc 18:11); assentado não do próprio apóstolo. Se não gostamos
(2 Sm 7:18); com a cabeça curvada (Gn do que a Bíblia diz sobre as mulheres na igre­
24:26); com os olhos voltados para o céu ja, nosso problema não é com Paulo (nem
{Jo 17:1); prostrado com o rosto em terra com Pedro - ver 1 Pe 3:1-7), mas sim com o
(Gn 17:3). O mais importante não é a postu­ Senhor que deu a Palavra (2 Tm 3:16, 17).
ra do corpo, mas sim a atitude do coração. O termo traduzido por "submissão", em
Paulo fala de três elementos essenciais à 1 Timóteo 2:11, é traduzido por "sujeitan­
oração eficaz, e o primeiro é "mãos santas". do-vos" em Efésios 5:21. Significa, literalmen­
É evidente que se trata de uma referência à te, "estar uma posição abaixo dentro de uma
santidade de vida. As "mãos limpas" simbo­ hierarquia". Quem prestou serviço militar
lizam uma vida irrepreensível (2 Sm 22:21; sabe que a hierarquia refere-se às ordens e
SI 24:4). Quem tem pecado na vida não à autoridade, não ao valor ou à capacidade.
pode orar esperando que Deus responda (SI Um coronel ocupa um posto mais elevado
66:18). que um soldado raso, mas isso não signifi­
Em segundo lugar, é essencial que a ora­ ca, necessariamente, que ele seja um ho­
ção seja feita "sem ira", sendo necessário, mem mais digno que o soldado. Significa,
portanto, estar com os relacionamentos em apenas, que o coronel ocupa uma posição
ordem. Uma tradução melhor pode ser "sem mais elevada dentro da hierarquia e, portan­
raiva". O indivíduo que sempre tem proble­ to, tem mais autoridade.
mas com outros cristãos e que, em vez de "Tudo, porém, seja feito com decência
ser pacificador, é agitador, não pode orar e e ordem" (1 Co 14:40): esse é o princípio
receber respostas de Deus. que Deus segue em sua criação, Da mesma
"Sem animosidade" indica que não deve forma que haveria confusão no exército,
haver contendas em nosso meio. E fácil de­ caso não existissem níveis de autoridade,
sentender-se com outros quando nosso cora­ também a sociedade seria caótica, se não
ção está cheio de raiva. Os cristãos devem houvesse submissão. Os filhos devem sujei­
aprender a discordar uns dos outros sem ser tar-se aos pais, pois Deus deu autoridade
desagradáveis. Devemos "[fazer] tudo sem aos pais para educar e disciplinar os filhos
murmurações nem contendas" (Fp 2:14). em amor. Os funcionários devem sujeitar-se
Assim, a oração eficaz exige que nosso aos patrões e obedecer a eles (Ef 6:5-8, em
coração esteja em ordem com Deus ("mãos que a referência imediata é a servos domés­
santas") e com nossos irmãos e irmãs em ticos, mas cujo princípio também se aplica
Cristo ("sem murmuração nem contendas"). a empregados em geral hoje). Os cidadãos
Jesus ensinou essa mesma verdade (Mc devem sujeitar-se às autoridades gover­
1 1:24-26). Se passarmos mais tempo nos nantes, mesmo que elas não sejam cristãs
preparando para orar e colocando o coração (Rm 13; 1 Pe 2:13-20).
em ordem diante de Deus, nossas orações Submissão não é o mesmo que subjuga­
serão mais eficazes. ção. Submissão significa reconhecer a ordem
de Deus no lar e na igreja e seguir essa or­
2. AS MULHERES - SUBMISSÃO dem com alegria. A esposa cristã que se
(1 T m 2:9-15) submete de bom grado ao Senhor e ao ma­
Em nossos tempos de emancipação da mu­ rido pode desenvolver o que há de melhor
lher e de movimentos feministas, o termo em si. (Para que isso aconteça, o marido deve
"submissão" faz o sangue de muita gente amar a esposa e usar a ordem de Deus como
ferver. Alguns autores bem-intencionados instrumento para edificar, não como arma
chegam até a acusar Paulo de ser um "velho para lutar - Ef 5:18-33.) A submissão é a cha­
solteirão rabugento" que se opunha às mu­ ve para o crescimento espiritual e para o mi­
lheres. Todavia, os que crêem na inspiração nistério; o marido deve sujeitar-se ao Senhor;
1 T IM Ó T E O 2 283

os cristãos devem sujeitar-se uns aos outros senhora de nossa igreja comentou comigo.
(Ef 5:21), e a esposa deve sujeitar-se ao - Recuso-me a usar os maiôs que vejo nas
marido. lojas hoje em dia! Prefiro não entrar na água.
A ênfase desta seção (1 Tm 2:9-15) é so­ O que aconteceu com a decência de anti­
bre o lugar da mulher na congregação local. gamente?
Paulo adm oesta essas mulheres cristãs a Boas obras (v. 10). Paulo não sugere que
demonstrar submissão de diversas maneiras. as boas obras substituem as roupas! Antes,
Trajes decentes (v. 9). Vemos aqui um faz um contraste ao mostrar a mediocrida­
contraste entre o glamour artificial do mun­ de de roupas e jóias caras em relação aos
do e a verdadeira beleza da vida piedosa. verdadeiros valores do caráter piedoso e do
Paulo não proíbe o uso de jóias ou de roupas serviço cristão. A "piedade" é outro termo
bonitas, mas sim os excessos como substi­ importante nas epístolas pastorais de Pau­
tutos para a verdadeira beleza de um "espírito lo (1 Tm 2:2, 10; 3:16; 4:7, 8; 6:3, 5, 6, 11;
manso e tranqüilo" (ver 1 Pe 3:1-6). A mulher 2 Tm 3:5; Tt 1:1). O glam our só pode ser
que depende apenas de adornos externos aplicado parcialmente à parte exterior, en­
logo fica sem recursos! Pode atrair a aten­ quanto a piedade deve vir do ser interior.
ção, mas não conquista qualquer afeição Não devemos jam ais subestimar a im­
duradoura. É possível que a última moda e portância de mulheres piedosas no minis­
as tendências da época estivessem tentan­ tério da igreja. A mensagem do evangelho
do as mulheres da igreja de Éfeso, e Paulo teve grande impacto sobre elas e asseve­
teve de lembrar Timóteo de advertir as mu­ rou seu valor diante de Deus e sua igualda­
lheres a não cair nessa armadilha. de dentro do corpo de Cristo (Gl 3:28). No
O termo traduzido por "decente" (1 Tm império romano, as mulheres eram consi­
2:9) significa, simplesmente, "com decoro e deradas inferiores, mas o evangelho mudou
ordem". É relacionado à palavra grega da esse conceito.
qual se origina o termo "cosmético". O s tra­ Mulheres consagradas ministraram a Cris­
jes de uma mulher devem ser decentes, bem- to enquanto ele estava aqui na Terra (Lc 8:1­
arrumados e de bom gosto. A "modéstia" 3). Estavam presentes em sua crucificação e
indica que ela evita os exageros. A mulher sepultamento, e uma mulher foi a primeira
modesta tem vergonha de ultrapassar os mensageira a proclamar as boas-novas da
limites do que é decente e apropriado. A ressurreição de Cristo. No Livro de Atos, en­
palavra grega traduzida por "bom senso" sig­ contram os D orcas (At 9:36ss), Lídia (At
nifica "ter uma mente sóbria e discernente". 16:14ss), Priscila (At 18:1-3) e as mulheres
Descreve o domínio-próprio interior: um "ra­ piedosas das igrejas de Beréia e Tessalônica
dar" espiritual que mostra à pessoa o que é (At 17:4, 12). Paulo saúda pelo menos oito
bom e apropriado. mulheres em Romanos 16, e Febe, que le­
Éfeso era uma cidade rica que vivia do vou essa epístola aos cristãos de Roma, era
comércio, e algumas mulheres competiam diaconisa de uma das congregações (Rm
entre si por atenção e popularidade. Naquele 16:1). Muitas mulheres cristãs ganharam o
tempo, os penteados caros e decorados com marido para Cristo e abriram seu lar para
jóias faziam parte do processo de ascensão o ministério cristão.
social. Paulo admoesta as mulheres cristãs a Aprendizado em silêncio (v. 11). O ter­
se dedicarem ao "ser interior", à verdadeira mo "silêncio" é uma tradução infeliz, pois
beleza que somente Cristo pode dar. Não dá a impressão de que as mulheres cristãs
proíbe o uso de roupas bonitas nem enfei­ não devem jamais abrir a boca dentro da
tes. Antes, pede que tenham equilíbrio e igreja. Trata-se do mesmo termo traduzido
decoro, enfatizando a modéstia e a santida­ por "manso" em 1 Timóteo 2:2. Algumas das
de de caráter. mulheres estavam abusando da liberdade
- Está cada vez mais difícil uma mulher que haviam encontrado recentemente em
cristã encontrar roupas apropriadas! - uma Cristo e tumultuando os cultos com suas
284 1 T IM Ó T E O 2

interrupções. É a esse problema que Paulo com mais facilidade, pois a experiência mos­
se refere em sua admoestação. Ao que tra que tanto homens quanto mulheres foram
parece, essas mulheres corriam o risco de enganados por Satanás. Em certa ocasião,
perturbar a ordem da igreja ao tentar "des­ Abraão ouviu o conselho da esposa e se
frutar" sua liberdade. O apóstolo escreve colocou numa situação difícil (Gn 16). Pos­
uma admoestação semelhante à igreja de teriormente, ela o aconselhou, e Deus orde­
Corinto (1 Co 14:34), mas é possível que essa nou que ele obedecesse (Gn 21). Em meu
advertência aplique-se, principalmente, ao ministério pastoral, sou grandemente be­
falar em línguas. neficiado pelo encorajamento e conselho
Respeito pelas autoridades (w. 12-15). de mulheres piedosas, mas procuro não dei­
As mulheres podem ensinar. As mulheres xar que usurpem a autoridade na igreja. Na
mais velhas devem ensinar as mais jovens verdade, as mulheres piedosas que conhe­
(Tt 2:3, 4). Timóteo foi ensinado em casa ço não têm qualquer desejo de "mandar"
por sua mãe e avó (2 Tm 1:5; 3:15). Mas, na igreja.
em seu ministério de ensino, as mulheres Tanto a criação dos seres humanos quan­
não devem "mandar" nos homens. Não há to a queda em pecado parecem colocar a
nada de errado em uma mulher piedosa ins­ mulher em posição inferior, mas ela tem um
truir um homem em particular (At 18:24-28), ministério recebido de Deus (1 Tm 2:15). É
mas não deve assumir a autoridade na igre­ provável que, na mente de Paulo, houvesse
ja e tentar tomar o lugar de um homem. An­ uma relação próxima entre o que ele escre­
tes, deve exercitar a "mansidão" e ajudar a ve aqui e as palavras de Moisés em Gênesis
promover a ordem na igreja. 3:16 - a promessa de que o Salvador seria
Paulo apresenta vários argumentos que "nascido de mulher" (Gl 4:4). Foi por meio
apóiam a admoestação de que os homens de uma mulher que o Salvador veio ao mun­
cristãos da igreja devem ser os líderes espiri­ do (é importante lembrar que Jesus teve uma
tuais. O primeiro argumento refere-se à cria­ mãe humana, mas não um pai humano -
ção: primeiro Adão foi formado, depois, Eva Mt 1:18ss; Lc 1:34, 35).
(1 Tm 2:12, 13). {Paulo usa esse mesmo ar­ No entanto, Paulo ensina uma lição prá­
gumento em 1 Co 11:1-10.) Devemos sem­ tica (1 Tm 2:15). Promete que a mulher "será
pre lembrar de que prioridade não significa preservada por meio de sua missão de mãe",
superioridade. Homens e mulheres foram se ela (e o marido) permanecerem consa­
criados por Deus e à imagem de Deus. A grados ao Senhor de coração.
questão diz respeito apenas à autoridade: o Essa declaração significa que mães cris­
homem foi criado primeiro. tãs não morrem no parto? A história e a ex­
O segundo argumento é relacionado à periência mostram que isso acontece. Deus
queda do homem em pecado. Satanás en­ tem propósitos e caminhos muito mais ele­
ganou a mulher e a levou a pecar (Gn 3:1 ss; vados que os nossos (Is 55:8, 9). Paulo apre­
2 Co 11:3); o homem pecou deliberada e senta um princípio geral para estimular as
conscientemente. Ao rejeitar a ordem que mulheres cristãs de sua época. Seu ministé­
Deus havia determinado e dar ouvidos à rio não é "mandar" na igreja, mas cuidar do
proposta de Eva, Adão desobedeceu a Deus lar e ter filhos para glória de Deus (1 Tm
e trouxe o pecado e a morte ao mundo. A 5:14). Sua congregação no lar lhes dá opor­
submissão da esposa ao marido faz parte da tunidades de sobra para ensinar a Palavra e
criação original. A desordem que temos na para ministrar aos santos (ver Rm 16:1-6).
sociedade hoje em dia é resultado do des­ As mulheres piedosas têm um ministério
respeito a essa ordem estabelecida por Deus. importante na igreja local, apesar de não
Não creio que Paulo esteja sugerindo que serem chamadas a ensinar a Palavra em sen­
as mulheres são mais ingênuas que os ho­ tido pastoral. Se tudo for feito com "decên­
mens e que, portanto, podem ser enganadas cia e ordem", Deus abençoará.
3 com aquelas apresentadas para os pres­
bíteros em Tito 1:5-9, vemos que, na verda­
de, todas se referem ao mesmo cargo. N o
período apostólico, a organização da igreja
S ig a m os L íd e r e s era bastante simples: havia os pastores (bis­
pos, presbíteros) e os diáconos (Fp 1:1). Ao
1 T ím ó teo 3 que parece, vários presbíteros supervisio­
navam o trabalho de cada igreja, alguns de­
les encarregados de "presidir" (trabalhar
com a organização e o governo), outros, de
ensinar (1 Tm 5:1 7).
Mas era necessário que esses homens
ascensão e a queda de todas as coisas fossem qualificados. É bom um cristão que
A dependem da liderança, quer se trate
de uma família, quer de uma congregação
está crescendo na fé aspirar ao cargo de
presbítero, mas a melhor maneira de alcan­
local. O Espírito Santo concede dons aos cris­ çá-lo e de desenvolver o caráter cristão é
tãos para o ministério na igreja local, den­ preencher os requisitos discutidos a seguir.
tre eles os de "pastores e mestres" (Ef 4:11) Tornar-se presbítero/bispo é uma decisão
bem com o os de "socorros" e de "governos" séria, que não era tratada levianamente na
(1 C o 12:28). Conform e observamos ante­ Igreja primitiva. Paulo apresenta dezesseis
riormente, apesar de a igreja ser um orga­ qualificações que deveriam estar presentes
nismo, é importante que seja organizada, no homem que desejava servir com o pres­
pois> de outro modo, não sobreviverá. A li­ bítero/bispo/pastor.
derança faz parte da organização espiritual. Irrepreensível (v. 2a). Esse termo signifi­
Nesta seção, Paulo descreve o bispo, o ca, literalmente, "sem ter por onde pegar",
diácono e a igreja em si. Ao compreender ou seja, não deve haver em sua vida qual­
essas três descrições, poderemos liderar com quer coisa que Satanás ou um incrédulo
mais excelência no ministério da igreja. possa usar com o um motivo para criticar ou
atacar a igreja. Nenhum homem é impecá­
1 . 0 p a sto r (1 T m 3:1-7) vel, mas devemos nos esforçar para ser irre­
D e acordo com o Novo Testamento, os ter­ preensíveis e não merecer qualquer censura.
mos "bispo", "pastor" e "presbítero" são Esposo de uma só m ulher (v. 2b). Todos
sinônimos. A palavra bispo significa "super­ as qualificações desta passagem são mas­
visor", e os presbíteros têm a responsabili­ culinas. Apesar de haver amplo espaço para
dade de supervisionar o trabalho da igreja 0 ministério feminino na congregação local, o
(At 20:17, 28; 1 Pe 5:1-3). "Presbítero" é a cargo de presbítero não está aberto a mu­
tradução do termo grego presbutes, que sig­ lheres. No entanto, a vida do pastor em casa
nifica "um ancião". Paulo usa o termo pres­ é importante, especialmente no que diz res­
bitério em 1 Timóteo 4:14, referindo-se não peito a sua situação conjugal (o mesmo re­
a uma denom inação, mas ao conjunto de quisito aplica-se aos diáconos, de acordo
presbíteros da assem bléia que ordenaram com 1 Tm 3:12). Significa que um pastor não
Timóteo. O s presbíteros e bispos (dois no­ deve ser divorciado e casado pela segunda
mes para o mesmo cargo, Tt 1:5, 7) eram vez. Sem dúvida, Paulo não está se referin­
pessoas maduras, com sabedoria espiritual do à poligamia, pois nenhum membro da
e experiência espiritual. Por fim, o termo igreja, muito menos um pastor, seria aceito
"pastor" também tem o sentido de "pastor se tivesse mais de uma esposa. Também não
de ovelhas", aquele que conduz e cuida do está se referindo ao segundo casamento de
rebanho de Deus. viúvos, pois, tendo em vista Gênesis 2:18 e
Q u ando com param os as qualificações 1 Timóteo 4:3, por que um pastor nessa situa­
apresentadas nesta passagem para os bispos ção seria proibido de se casar novamente?
286 1 T IM Ó T E O 3

Por certo, os membros da igreja que haviam ministérios do presbítero. Na verdade, mui­
perdido o cônjuge poderiam se casar de tos estudiosos acreditam que "pastores e
novo, então por que impor tal exigência ao mestres", em Efésios 4:11, se refere a uma
pastor? só pessoa com duas funções. Um pastor é,
É evidente que a capacidade de um ho­ automaticamente, um mestre (2 Tm 2:2, 24).
mem em conduzir o próprio casamento e Phillips Brooks, famoso bispo norte-america­
lar indica sua capacidade de administrar a no do século xix, disse: "A aptidão para ensi­
igreja local (1 Tm 3:4, 5). O pastor que se nar não é algo que se obtém por acidente
divorcia expõe a si mesmo e à igreja às nem por um irrompimento de zelo arden­
críticas de pessoas de fora e, dificilmente, te". O pastor deve ser um estudioso dedica­
membros da congregação que passam por do da Palavra de Deus e de tudo o que o
problemas no casamento se aconselharão ajude a conhecer e a ensinar a Palavra. O
com um pastor que não conseguiu manter pastor que tem preguiça de estudar é uma
a integridade do próprio casamento. Não calamidade no púlpito.
vejo motivo algum que impeça cristãos con­ Não dado ao vinho (v. 3a). O termo no
sagrados que tenham se divorciado e casa­ original descreve uma pessoa que passa um
do novamente de servir em outros cargos longo tempo com uma taça de vinho na mão
da igreja, mas são desqualificados para os e, portanto, bebe em excesso. O fato de Pau­
cargos de presbítero e de diácono. lo aconselhar Timóteo a usar vinho com fins
Temperante (v. 2c). Significa "sóbrio". medicinais (1 Tm 5:23) indica que não se
"Que demonstra temperança em todas as exigia a abstinência total dos cristãos. Infe­
coisas" (2 Tm 4:5, tradução literal) ou "que lizmente, alguns dos membros da igreja de
mantém a cabeça no lugar em todas as situa­ Corinto embebedavam-se até nas refeições
ções". O pastor precisa exercitar o julgamen­ de comunhão que acompanhavam a Ceia
to sóbrio e sensato em todas as coisas. do Senhor (1 Co 11:21). Os judeus diluíam
Sóbrio (v. 2d). Deve ter seriedade em sua o vinho com água para que não ficasse for­
atitude e em seu trabalho. Isso não significa te demais. Naquele tempo, sabia-se que a
que não possa ter senso de humor ou que água não era pura, de modo que seria mais
deva ser sempre taciturno e solene. Antes, saudável beber com moderação o vinho
indica que ele sabe o valor das coisas e não diluído.
vulgariza o ministério nem a mensagem do Existem, porém, diferenças enormes en­
evangelho com um comportamento tolo. tre o uso cultural do vinho nos tempos bíbli­
Modesto (v. 2e). Uma boa tradução para cos e o subsídio da indústria do álcool hoje.
esse termo é "ordeiro". O pastor deve ser A admoestação e exemplo de Paulo, em
organizado em sua forma de pensar e de Romanos 14 (especialmente Rm 14:21), se
viver, bem como no ensino e na pregação. aplica, de modo especial, a nosso tempo.
Trata-se do mesmo termo grego usado em Um pastor piedoso certamente deseja dar
1 Timóteo 2:9 ("modéstia") com referência o melhor exemplo possível e não ser uma
aos trajes das mulheres. desculpa para o pecado na vida de alguns
Hospitaleiro (v, 2f). Literalmente, "que irmãos mais fracos.
ama o forasteiro". Esse era um ministério im­ Não violento (v. 3b). "Que não seja
portante da Igreja primitiva, quando os cris­ contencioso nem procure briga." Charles
tãos que viajavam precisavam de um lugar Spurgeon dizia aos alunos do seminário:
para se hospedar (Rm 12:13; Hb 13:2; 3 Jo "Não andem pelo mundo afora com os pu­
5-8). Mas mesmo nos dias de hoje, o pastor nhos fechados, prontos para lutar e carre­
e a esposa que demonstram hospitalidade gando um revolver teológico na perna das
são de grande ajuda para a comunhão da calças".
igreja local. Cordato (v. 3c). Uma tradução mais apro­
Apto para ensinar (v. 2g). O ensinamen­ priada seria "amável". O pastor deve ouvir
to da Palavra de Deus é um dos principais as pessoas e ser capaz de aceitar críticas
1 T IM Ó T E O 3 287

sem reagir. Deve permitir que outros sirvam Não seja neófito (v. 6). Neófito signifi­
a Deus na igreja sem fazer imposições. ca, literalmente, recém-plantado e se refere
Inim igo de contendas (v. 3d). O s pasto­ aos cristãos novos na fé. Idade não é ga­
res devem sempre ser pacificadores, não rantia de maturidade, mas é bom um ho­
agitadores. Isso não significa fazer conces­ mem dar a si mesmo tempo para estudar e
sões indevidas em questões de fé, mas dis­ crescer antes de aceitar uma igreja. Alguns
cordar sem ser desagradáveis. Quem tem homens amadurecem mais rapidamente do
pavio curto, normalmente, não tem um mi­ que outros. Satanás gosta de ver o pastor
nistério longo. jovem ser bem-sucedido e se orgulhar; de­
Não avarento (v. 3e). Paulo fala mais so­ pois, tem prazer em destruir tudo o que foi
bre o dinheiro em 1 Timóteo 6:3ss. O s que construído.
não têm consciência nem integridade po­ Bom testemunho dos de fora (v. 7). Ele
dem usar o ministério com o um modo fácil paga as contas? Tem boa reputação no meio
de ganhar dinheiro. (O que não significa que dos incrédulos com os quais faz negócio?
os pastores ganhem tão bem na maioria das (ver Cl 4:5 e 1 Ts 4:12).
igrejas!) O s pastores cobiçosos sempre têm Nenhum pastor chega a um ponto em
"negócios" paralelos, e tais atividades cor­ que acredita haver alcançado a plenitude de
rompem seu caráter e servem de empecilho seu potencial; assim, precisa sempre das ora­
a seu ministério. O s pastores não devem ções dos membros de sua congregação. Não
trabalhar "por sórdida ganância" (1 Pe 5:2). é fácil servir com o pastor/presbítero, mas é
É possível cobiçar muitas coisas além de muito mais fácil exercer esse cargo, se nos­
dinheiro: popularidade, um ministério gran­ so caráter estiver de acordo com o ideal
dioso que lhe dê projeção, cargos mais ele­ de Deus.
vados dentro da dominação.
Uma família temente a Deus (w . 4, 5). 2 .0 (1 T 3:8-13)
d iá c o n o m
Isso não significa que o pastor deva ser ca­ O termo diácono é uma transliteração da
sado ou, se for casado, que deva ter filhos. palavra grega diakonos, que significa, sim­
No entanto, é provável que o casamento e plesmente, "servo". É provável que a origem
a família façam parte da vontade de Deus dos diáconos encontre-se registrada em Atos
para a maioria dos pastores. Se os próprios 6. O s primeiros diáconos foram nomeados
filhos de um indivíduo não lhe obedecem assistentes dos apóstolos. Nas igrejas de hoje,
nem o respeitam, dificilmente sua igreja lhe os diáconos aliviam os pastores/presbíteros
obedecerá e respeitará sua liderança. Para de outras tarefas para que estes possam se
os cristãos, a igreja e o lar são uma coisa só. concentrar no ministério da Palavra, da ora­
Devemos administrar ambos com amor, ver­ ção e da supervisão espiritual.
dade e disciplina. O pastor não pode ser uma Apesar de os diáconos não receberem a
pessoa em casa e outra na igreja. Se isso mesma autoridade que os presbíteros, de­
acontecer, seus filhos perceberão, e haverá vem possuir certas qualificações. Muitos
problemas. O s termos "governe" e "gover­ diáconos fiéis são eleitos presbíteros depois
nar", em 1 Timóteo 3:4, 5, significam "presi­ de se mostrarem aptos.
dir sobre algo, dirigir", e indicam que é o Respeitáveis (v. 8a). Um diácono deve ser
pastor quem dirige os negócios da igreja digno de respeito, um homem de caráter
(não com o um ditador, obviamente, mas cristão digno de ser imitado. Deve levar as
com o um pastor amoroso cuidando de seu responsabilidades a sério e usar o cargo, não
rebanho - 1 Pe 5:3). O termo traduzido por apenas ocupá-lo.
"cuidar", em 1 Timóteo 3:5, indica um mi­ D e uma só palavra (v. 8b). Não sai con­
nistério pessoal às necessidades da igreja. É tando histórias de casa em casa; não é fo­
usado na parábola do bom samaritano para foqueiro. Não diz uma coisa a um membro
descrever o cuidado deste para com o ho­ e exatamente o oposto a outro. Pode-se
mem ferido (Lc 10:34, 35). confiar no que ele diz.
288 1 T IM Ó T E O 3

Não inclinado a muito vinho (v. 8c). Con­ Meu amigo levantou sua Bíblia e per­
forme discutimos em nossos comentários guntou:
sobre 1 Timóteo 3:3. - Nós vamos obedecer à Palavra de Deus
Não cobiçoso de sórdida ganância (v. ou a um livro verde escrito por homens?
8d). Os diáconos lidam com as ofertas e dis­ A partir desse momento crítico na igre­
tribuem recursos aos necessitados da igre­ ja, Deus os abençoou maravilhosamente
ja. Podem ser tentados a roubar ou a usar com crescimento e poder.
tais fundos em benefício próprio. As comis­ Um diácono que não conhece a Palavra
sões da igreja que lidam com a parte finan­ de Deus não pode administrar os assuntos
ceira devem ter uma atitude espiritual em da Igreja de Deus. Um diácono que não vive
relação ao dinheiro. de acordo com a Palavra de Deus, mas que
Doutrinariamente íntegro (v. 9). O termo tem uma "consciência corrompida", não
mistério significa "verdades outrora ocultas, pode administrar a Igreja de Deus. Só por­
mas agora reveladas por Deus". As grandes que um membro da igreja é benquisto por
doutrinas da fé são ocultas para os de fora todos, tem sucesso nos negócios ou é um
da fé, mas podem ser compreendidas pelos contribuinte generoso não significa que seja
que crêem no Senhor. Os diáconos devem qualificado para servir como diácono.
compreender a doutrina cristã e lhe obede­ Provado e experimentado (v. 10). Para
cer de boa consciência. Não basta participar constatar a presença de tais qualificações, é
das reuniões e decidir como "administrar a preciso observar a vida e a conduta dos in­
igreja". Devem basear suas decisões na Pa­ divíduos. Na maioria das igrejas, um novo
lavra de Deus e corroborar essas decisões membro ou recém-convertido pode come­
com uma vida piedosa. çar a servir a Deus trabalhando no minis­
Tenho observado que alguns líderes da tério de visitação, recepção, ajudando na
igreja conhecem os estatutos de sua denomi­ escola dominical e de muitas outras manei­
nação melhor do que conhecem a Bíblia. Ape­ ras, Esse é o princípio de Mateus 25:21: "fos­
sar de ser bom ter estatutos e regulamentos te fiel no pouco, sobre o muito te colocarei".
que ajudem a manter a ordem, é importante Convém notar que vários líderes men­
administrar os assuntos da igreja de acordo cionados nas Escrituras foram provados
com a Palavra de Deus. As Escrituras eram a antes como servos. José foi um servo no
"constituição" da Igreja primitiva! Um diácono Egito durante treze anos antes de se tornar
que não conhece a Bíblia é um obstáculo o segundo no poder sobre aquela terra.
para o progresso da congregação local. Moisés cuidou de ovelhas durante quaren­
Um pastor amigo meu, que agora está ta anos antes de ser chamado por Deus.
com o Senhor, assumiu o ministério em uma Josué foi servo de Moisés antes de se tor­
congregação resultante da separação de nar seu sucessor. Davi cuidava das ovelhas
outra igreja e que sempre sofria conflitos in­ de seu pai quando Samuel o ungiu rei de
ternos. De acordo com seus relatos, as reu­ Israel. Até mesmo Jesus veio como servo e
niões do conselho eram inacreditáveis! Os trabalhou como carpinteiro; e o apóstolo
estatutos eram quase tão reverenciados Paulo fazia tendas. Primeiro um servo; de­
quanto a Bíblia. Os membros chamavam o pois um líder.
livro de estatutos de "o livro verde". Meu Quando um membro não provado é
amigo começou a ensinar a essas pessoas a colocado em um cargo de liderança na igre­
Palavra de Deus, e o Espírito começou rea­ ja, acaba enfraquecendo o testemunho da
lizar transformações na vida delas. Mas o congregação. Comentários do tipo: "Talvez
inimigo continuou trabalhando e incitou al­ o Jim venha com mais freqüência aos cultos
guns líderes a desafiarem o pastor durante se o elegermos diácono" demonstram igno­
uma reunião do conselho. rância com respeito ao Jim e à Palavra de
- O senhor não está seguindo o livro Deus. Um cristão que não foi provado é
verde! - disseram. um cristão despreparado. Se esse indivíduo
1 T IM Ó T E O 3 289

receber um cargo de liderança na igreja, é integral. (Devemos lembrar que, nas igrejas
bem possível que faça mais mal do que bem. do Novo Testamento, os presbíteros eram
Lares piedosos (vv. 7 7, 12). A esposa cham ados de sua própria congregação lo­
do diácono faz parte de seu ministério, pois cal. Normalmente, não eram "importados"
a piedade deve com eçar em casa. O s diá­ de outros lugares.)
conos não devem ser divorciados e casa­ É algo extremamente sério servir na igre­
dos novam ente. A esposa deve ser uma ja local. Cada um deve examinar o próprio
mulher cristã, que leva o ministério a sério, coração e estar certo de ser qualificado pela
não m aldizente (literalmente, "que não seja graça de Deus.
diabo", pois o termo diabo quer dizer "calu­
niador, aquele que acusa falsamente") e fiel 3. O s c r is t ã o s (1 T m 3:14-16)
em tudo o que faz. É triste ver os estragos Presbíteros, diáconos e membros da igreja
que esposas m aldizentes e fofoqueiras de precisam ser lembrados do que vem a ser a
presbíteros e diáconos podem fazer na igre­ igreja local. Neste parágrafo curto, Paulo
ja local. apresenta três retratos da igreja.
Alguns estudiosos acreditam que 1 Ti­ A casa de Deus (v. 15a). A igreja de Deus
móteo 3:11 refere-se não às esposas dos é uma família, de m odo que "lar" talvez seja
diáconos, mas a outro tipo de ministério, o a tradução mais apropriada. Um a das pa­
das diaconisas. Muitas igrejas têm diaconisas lavras prediletas de Paulo é "irm ãos" (ver
que ajudam no trabalho junto às mulheres, 1 Tm 4:6). Q uando um pecador crê em Je­
nos batism os, nas confraternizações etc. sus Cristo com o Salvador, imediatamente
Febe era uma diaconisa da igreja de Cen- nasce de novo na família de D eus (Jo 1:11­
créia (Rm 16:1, em que o termo usado é 13; 1 Pe 1:22-25). Paulo aconselha o jovem
diakonon). É possível que, em algumas des­ Timóteo a tratar os membros da igreja local
sas igrejas, as esposas dos diáconos servis­ com o trataria os membros da própria famí­
sem com o diaconisas. Agradecem os a Deus lia (1 Tm 5:1, 2).
o ministério das mulheres piedosas nas igre­ Um a vez que a igreja local é uma famí­
jas locais, quer ocupem cargos, quer não! lia, precisa ser alimentada; e a única dieta
Não é necessário ter um cargo para ter um que pode nutrir verdadeiramente seus mem­
ministério e exercitar um dom. bros é a Palavra de Deus. Ela é nosso pão
Disposição para trabalhar (v. 13). O diá­ (Mt 4:4), leite e carne (1 C o 3:1, 2; H b 5:12­
cono deve usar o cargo, não apenas ocupá-lo. 14) e mel (SI 119:103). O pastor deve ter
O termo grego traduzido por "preeminên­ tempo para se alimentar, a fim de poder ali­
cia" é relacionado à idéia de "posto (militar), mentar a outros (1 Tm 4:6). Um a igreja não
base, degrau de uma escada". Um estímulo cresce por adição, mas sim por nutrição (Ef
e tanto para o diaconato fiel! Deus o "pro­ 4:11-16). É triste ver a maneira com o alguns
moverá" espiritualmente e lhe dará cada vez pastores desperdiçam seu tempo (e o tem­
mais respeito no meio dos santos, o que re­ po da igreja) a semana inteira e, depois, não
presenta mais oportunidades para ministrar. têm coisa alguma nutritiva para oferecer ao
Um diácono fiel tem uma boa reputação dian­ povo no dia do Senhor.
te de Deus e dos homens e pode ser usado Com o uma família, uma igreja precisa de
por Deus para edificar a igreja. Também tem disciplina em amor. Filhos não disciplinados
ousadia espiritual que lhe permite ministrar tornam-se tiranos e rebeldes. O s líderes es­
com eficácia. pirituais da congregação devem exercitar a
Sem dúvida, uma parte dessa bênção disciplina (1 C o 4:18 - 5:13; 2 C o 2:6-11).
pode incluir a possibilidade de "promoção Por vezes, os filhos precisam ser repreen­
espiritual". É uma grande alegria para o pas­ didos; em outras ocasiões, a disciplina pre­
tor ver diáconos tornarem-se presbíteros e cisa ser mais severa.
ver alguns desses presbíteros serem cha­ O s filhos também precisam de estímu­
mados para o ministério pastoral em tempo lo e de exem plo (1 Ts 2:7-12). O s líderes
290 1 T IM Ó T E O 3

espirituais devem ter a ternura da mãe que em si também é uma coluna e baluarte para
amamenta e a força do pai amoroso. a verdade.
A congregação (v. 15b). O termo "igre­ É bem provável que o ministério da igre­
ja" é uma tradução da palavra grega ekklesia, ja como coluna refira-se, principalmente, à
que significa "assembléia". Era usado para exposição da Palavra, como uma estátua é
as assembléias políticas das cidades gregas colocada sobre um pedestal para que todos
(At 19:29, 32), em que se realizavam transa­ possam admirá-la. Devemos expor a "pala­
ções entre cidadãos qualificados. No entan­ vra da vida" para que o mundo seja capaz
to, esse termo é empregado mais de cem de vê-la (Fp 2:16). A igreja local apresenta
vezes no Novo Testamento para se referir às Jesus Cristo publicamente por meio da vida
igrejas locais, as congregações de cristãos. de seus membros fiéis.
A palavra grega significa "os que foram cha­ Como baluarte, a igreja protege a ver­
mados para fora" (é usado em At 7:38 para dade e sustenta a verdade (pois, em outros
descrever a nação de Israel, chamada pa- lugares, "a verdade anda tropeçando pelas
ra fora do Egito; mas Israel não era uma "igre­ praças, e a retidão não pode entrar" - Is
ja" no sentido do Novo Testamento). 59:14). Quando as congregações abando­
Paulo deseja que o jovem Timóteo saiba nam a verdade (1 Tm 4:1 ss) e fazem conces­
qual deve ser seu comportamento como sões indevidas em seu ministério, o inimigo
líder da congregação local. As epístolas avança. Por vezes, os líderes da igreja de­
pastorais são "manuais de instrução" para a vem assumir uma posição militante contra o
liderança da igreja local. Inúmeros livros pu­ pecado e a apostasia. Isso não os torna ben­
blicados nos últimos anos afirmam explicar quistos por todos, mas agrada ao Senhor.
como começar, edificar e expandir uma igre­ A principal verdade sobre a qual uma
ja local, e alguns deles trazem bons conse­ igreja deve dar testemunho é a pessoa e obra
lhos. No entanto, os melhores conselhos para de Jesus Cristo (1 Tm 3:16 - é provável que
administrar uma congregação encontram-se esse versículo seja uma citação de um hino
nessas três cartas inspiradas. Tanto o jovem cristão da Igreja primitiva). Jesus Cristo é
pastor em sua primeira igreja quanto o pas­ Deus manifestado na carne, não apenas em
tor veterano e experiente no ministério seu nascimento, mas ao longo de todo seu
devem embeber-se dos ensinamentos que ministério aqui na Terra (Jo 14:1-9). Apesar
Paulo compartilha com Timóteo e Tito. de seu próprio povo, como nação, tê-lo re­
Existem vários tipos de "congregação", jeitado, Jesus Cristo foi justificado em espíri­
mas a igreja é congregação de Deus. Uma to (ou "no Espírito"), pois o Espírito lhe deu
vez que ela pertence ao Deus vivo, ele tem poder para fazer milagres e até ressuscitar
o direito de dizer como ela deve ser gover­ dentre os mortos (Rm 1:4). A presença do
nada. A igreja foi comprada com o sangue Espírito no mundo é, em si mesma, um jul­
do Filho de Deus (At 20:28); portanto, de­ gamento do mundo (Jo 16:7-11).
vemos cuidar com o modo como nos por­ A expressão "contemplado por anjos"
tamos. Os líderes da igreja não devem ser sugere que anjos escolhidos foram associa­
ditadores religiosos que abusam do povo dos à vida e ao ministério de Cristo. (O ter­
a fim de alcançar seus próprios objetivos mo angelos, traduzido por "anjos", também
egoístas (1 Pe 5:3-5; 3 Jo 9-12). significa "mensageiros" - ver Tg 2:25. Talvez
A coluna e baluarte da verdade (vv. Paulo estivesse se referindo aos mensagei­
15c, 16). Trata-se de uma imagem arquite­ ros escolhidos que davam testemunho do
tônica bastante significativa para Timóteo Cristo ressurreto.) Cristo, porém, não mor­
em Efeso, pois o grande templo de Diana reu pelos anjos, mas sim pelos pecadores
possuía 127 colunas. O termo baluarte re­ perdidos, de modo que foi pregado entre os
fere-se a um "suporte" ou "apoio". A igreja gentios. Isso nos traz à memória a comissão
local é construída sobre Jesus Cristo, a Verda­ que o Senhor deixou para sua Igreja de le­
de (Jo 14:6; 1 Co 3:9-15); mas a igreja local var o evangelho até os confins da Terra, onde
4 doutrina religiosa é o que ela diz a respeito
de Jesus Cristo (1 Jo 4:1-6).
Alguns ficam surpresos ao saber que
Satanás usa cristãos professos dentro da igre­
C o m o S er um H om em ja para realizar sua obra. Mas, certa ocasião,
de D eus Satanás usou Pedro para tentar Jesus a to­
mar o caminho errado (Mt 16:21-23), e usou
1 T imóteo 4 Ananias e Safira com a intenção de enganar
a igreja de Jerusalém (At 5). Paulo advertiu
que falsos mestres surgiriam dentro da igre­
ja (At 20:30).
Fazem as pessoas se desviar (v. 1b). Seu
e você tivesse de fazer uma descrição objetivo é seduzir os indivíduos e os afastar
S do cargo de pastor, o que incluiria? Em
que aspectos seria semelhante ou diferente
da fé. A palavra apostasia corresponde a essa
idéia e significa "abandono deliberado da
de uma descrição feita pelo próprio pastor? verdade da fé cristã". Esses falsos mestres
Um ministro prega com regularidade, reali­ não tentavam edificar a igreja nem levar as
za casamentos e outros cultos afins, visita pessoas a se relacionar com o Senhor de
os enfermos e aconselha os aflitos. Mas qual maneira mais profunda. Antes, desejavam
é seu ministério e que tipo de pessoa ele granjear discípulos para avolumar seus gru­
precisa ser para realizar o trabalho que Deus pos e promover seus preceitos. Essa é uma
lhe confiou? das diferenças entre a verdadeira igreja e
Nesta seção de sua carta a Timóteo, Pau­ uma seita religiosa: uma igreja autêntica pro­
lo enfatiza o caráter e a obra do próprio mi­ cura ganhar convertidos para Jesus Cristo e
nistro e relaciona três qualidades que deve edificá-los espiritualmente; uma seita, no
possuir, a fim de ser bem-sucedido em seu entanto, procura reunir prosélitos, roubar
serviço a Deus. convertidos de outros e os transformar em
servos (ou mesmo escravos!) de líderes da
1. U m bom m inistro prega a P ala vra seita. Todavia, nem todos os apóstatas en-
de Deus (1 T m 4:1-6) contram-se nas seitas; alguns estão nas igre­
Paulo havia advertido os presbíteros de Éfeso jas e nos púlpitos, ensinando doutrinas falsas
de que falsos mestres invadiriam a igreja (At e fazendo o povo desviar-se da verdade.
20:28-31), e, de fato, eles haviam chegado. São hipócritas (v. 2) "Assim, pois, pelos
O Espírito Santo falara em termos específi­ seus frutos os conhecereis" (Mt 7:15-20).
cos sobre esses falsos mestres, e a profecia Esses falsos mestres pregam uma coisa mas
começava a se cumprir ainda no tempo de praticam outra. Dizem a seus discípulos o
Paulo. Por certo, já se cumpriu em nosso que fazer, mas eles próprios não o fazem.
tempo! Podemos reconhecer os falsos mes­ Satanás trabalha "pela hipocrisia dos que
tres pela descrição que Paulo apresenta de­ falam mentiras" (1 Tm 4:2). Uma das carac­
les neste parágrafo. terísticas do verdadeiro servo de Deus é sua
São impelidos por Satanás (v. Ia). Essa honestidade e integridade; ele pratica o que
é a única passagem das epístolas pastorais prega. Isso não significa que seja absoluta­
em que se faz menção a demônios. Assim mente perfeito, mas que procura sinceramen­
como há o "mistério da piedade" (1 Tm te obedecer à Palavra de Deus. Procura
3:16), também há o "mistério da iniqüida­ manter uma boa consciência (ver 1 Tm 1:5,
de" que cerca Satanás e suas obras (2 Ts 19; 3:9).
2:7). Satanás é um imitador (2 Co 11:13-15); Assim como a carne pode ser "cauteri­
tem os próprios ministros e doutrinas e pro­ zada", tornando-se dura e insensível, tam­
cura enganar os cristãos e fazê-los desviar bém a consciência pode ser amortecida.
(2 Co 11:3). O primeiro teste para qualquer Sempre que alguém afirma com os lábios o
1 T IM Ó T E O 4 293

que nega com a vida (quer as pessoas sai­ (Mc 7:14-23). Ensinou essa lição novamente
bam disso quer não), a consciência é amor­ a Pedro (At 10), e a reafirmou por meio de
tecida um pouco mais. Jesus deixou claro Paulo (1 C o 10:23-33). Talvez uma pessoa
que não são as palavras religiosas nem mes­ não seja capaz de ingerir certos alimentos
mo as operações de milagres que qualificam por motivos físicos (uma alergia, por exem­
uma pessoa para o céu, mas sim o fazer a von­ plo), mas alimento algum deve ser rejeitado
tade de Deus na vida diária (Mt 7:21-29). por motivos espirituais. Não se deve, porém,
Um apóstata não está errado apenas em usar a liberdade de comer e de beber para
termos doutrinários; tam bém está errado abalar a fé dos cristãos mais fracos (Rm
em termos morais. Antes de suas doutrinas 14:13-23). O alimento que ingerimos é san­
mudarem, sua vida pessoal já se havia cor­ tificado (separado, dedicado a Deus) quan­
rompido. Na verdade, é bem provável que do oramos e damos graças; assim, a Palavra
efe tenha mudado seus ensinamentos a fim de Deus e a oração transformam até mes­
de continuar vivendo em pecado e de calar mo uma refeição comum em um culto para
sua consciência. As convicções e o compor­ a glória de Deus (1 C o 10:31).
tamento sempre andam juntos. A tônica da vida do ministro deve ser
Negam a Palavra de D eus (w. 3-5). O s "[a] palavra de Deus e [a] oração" (1 Tm 4:5).
falso s m estres de Éfeso co m binavam o É triste quando uma igreja ocupa seus pas­
legalismo judaico e o asceticism o oriental. tores com tantas atividades secundárias que
Vem os Paulo tratando dessa mesma falsa mal lhes sobra tempo para a Palavra de Deus
doutrina em sua Epístola aos Colossenses e a oração (At 6:1-7). Paulo lembra o jovem
(especialm ente Cl 2:8-23). Dentre outras Tim óteo de sua grande responsabilidade
coisas, os falsos mestres ensinavam que de estudar, ensinar e pregar as Escrituras e
viver solteiro era mais espiritual do que ser de dedicar tempo à oração. Com o "bom mi­
casado, o que é contrário às Escrituras. "Não nistro", deve ser "alimentado com as pala­
é bom que o homem esteja só" (Gn 2:18). vras da fé" (1 Tm 4:6). Diante dessa apostasia
Jesus colocou seu selo de aprovação so­ crescente, cabia a Tim óteo cumprir certas
bre o casamento (Mt 19:1-9), apesar de ter responsabilidades.
deixado claro que nem todos devem casar- Ensinara verdade à igreja (v. 6a). O povo
se (Mt 19:10-12). Paulo também afirma a de Deus precisa ser advertido sobre as fal­
base bíblica para o casamento (1 C o 7:1­ sas doutrinas e a apostasia religiosa. Um
24), ensinando que, no tocante a essa ques­ ministro não deve concentrar-se somente
tão, cada pessoa deve seguir a vontade nesses temas, pois lhe cabe ensinar "todo o
de Deus. desígnio de Deus" (At 20:27); mas também
Devem os ter cuidado com qualquer reli­ não deve deixá-los de lado. Ao andar por
gião que mexa com a instituição divina do ruas e estradas, há dois tipos de placas: as
casam ento e com qualquer ensinam ento que dizem para onde estamos indo ("Boston
que mexa com a criação de Deus. O s falsos a 72 km") e as que avisam sobre perigos
mestres que contaminavam a igreja de Éfeso ("Cuidado! Ponte interditada"). O pastor
ensinavam que certos alimentos eram proi­ deve ensinar a doutrina positiva, a fim de
bidos, dizendo que quem os ingeria não era que as pessoas saibam para onde estão indo.
espiritual. O fato de Deus declarar sua cria­ No entanto, também precisa desmascarar as
ção "boa" (Gn 1:10, 12, 18, 21, 25) não in­ falsas doutrinas, a fim de que ninguém seja
teressava a esses mestres. Sua autoridade seduzido nem desencaminhado.
para determinar as dietas dava-lhes poder Alimentar-se da Palavra (v. 6b). É claro
sobre os convertidos. que todo cristão deve nutrir-se diariamente
O s que "conhecem plenamente a ver­ das Escrituras (Jr 15:16; Mt 4:4; 1 Pe 2:2);
dade" não se im pressionam com deter­ mas é especialmente importante para o pas­
m inações e proibições do legalismo. Jesus tor crescer na Palavra. Ao estudar a "sã dou­
afirmou que todos os alimentos são puros trina" cada dia e meditar sobre a Palavra,
294 1 T IM Ó T E O 4

ele cresce no Senhor e é capaz de liderar O corpo é templo de Deus, que deve ser
a igreja. usado para sua glória (1 C o 6:19, 20), e tam­
O "bom ministro" prega a Palavra da qual bém é um instrumento para seu serviço (Rm
ele próprio se alimenta diariamente. Não 12:1, 2). Contudo, os exercícios beneficiam
basta, porém, pregar a Palavra; eie também o corpo somente nesta vida, ao passo que
deve praticá-la. o exercício da piedade é proveitoso hoje e
na eternidade, Paulo não pede que Timóteo
2. U m m in istro piedoso p ra tica a escolha entre um e outro; creio que Deus
P a la v ra (1 Tm 4:7-12) espera que pratiquemos ambos. Um corpo
Nesta parte de sua carta, Paulo passa saudável pode ser usado por Deus, mas de­
para uma ilustração esportiva. Da mesma vemos nos concentrar na santidade.
forma que um atleta grego ou romano pre­ O eterno: *piedade" (w. 7-12). Nas pa­
cisava recusar certas coisas, ingerir alimen­ lavras de Phillips Brooks: "O grande propó­
tos corretos e fazer exercícios apropriados, sito da vida é a formação do caráter pela
também o cristão deve praticar "exercícios verdade". O caráter e a conduta piedosos
espirituais". Se um cristão dedicar tanta ener­ são muito mais importantes do que troféus
gia e disciplina à vida espiritual quanto um e recordes esportivos, apesar de ser possí­
atleta dedica a seu esporte, crescerá cada vel ter tanto uma coisa quanto outra. Paulo
vez mais rapidamente e realizará mais coi­ desafia Timóteo a se dedicar à piedade com
sas para Deus. Nesta seção, Paulo trata de o mesmo afinco que um atleta dedica-se a
três níveis de vida. seu esporte. Vivem os e trabalhamos para
O inferior: Mfábulas profanas e de ve- a eternidade.
Ibas caducas" (v. 7a). Trata-se, evidentemen­ Ao escrever aos coríntios, Paulo usa duas
te, de falsos ensinamentos e de tradições dos imagens semelhantes (1 Co 9:24-27), enfa­
apóstatas. Essas doutrinas não têm qualquer tizando a disciplina necessária para a vida
base bíblica; na verdade, contradizem a Pa­ piedosa. Assim como um atleta deve con­
lavra de Deus. São o tipo de ensinamento trolar o corpo e obedecer às regras, para o
discutido por pessoas tolas, não por mu­ cristão, o corpo deve ser seu servo, não seu
lheres e homens dedicados à Palavra! Sem mestre. Quando vejo times de futebol e de
dúvida, esses ensinamentos envolviam as basquete treinando em colégios e se exerci­
falsas doutrinas mencionadas acima (1 Tm tando sob o sol quente, lembro-me de que
4:2, 3). Paulo também acautelou Tito acerca devo fazer certos exercícios espirituais (Hb
das "fábulas judaicas" (Tt 1:14). Em sua se­ 5:14). O ração, meditação, introspecção,
gunda carta, o apóstolo adverte Timóteo comunhão, serviço, sacrifício, sujeição à
sobre essas mesmas "fábulas" (2 Tm 4:4). vontade de outros, testemunho... todas essas
É impossível um cristão redescobrir no­ coisas podem me ajudar, por meio do Espí­
vas doutrinas. Paulo admoesta Timóteo a rito, a me tornar uma pessoa mais piedosa.
permanecer fiel à "boa doutrina que [tem] O exercício espiritual não é fácil: "labu­
seguido" rigorosamente (1 Tm 4:6b). Acau- tamos e nos esforçamos sobremodo" (1 Tm
tela-o a não dar ouvidos a "fábulas e genea­ 4:10a). A palavra traduzida por "esforçamos
logias sem fim" (1 Tm 1:4). Por certo, o pastor sobremodo" é um termo esportivo, que dá
deve saber o que o inimigo está pregando, origem à palavra agonizar. É a imagem de
mas não deve ser influenciado por tais ensi­ um atleta esticando e contraindo os mús­
namentos. Um farmacêutico pode manusear culos ao máximo e dando o melhor de si pa­
e estudar substâncias venenosas, mas não ra vencer. O cristão que deseja alcançar a
permite que afetem seu corpo. excelência deve esforçar-se para isso, pela
O temporário: "o exercício físico" (w. 7 graça de Deus e para a glória de Deus.
8). Mais uma vez, se trata de uma imagem Mas esse exercício na vida de piedade
atlética. Por certo, precisamos cuidar do cor­ não é proveitoso apenas para o próprio cris­
po, e o exercício faz parte desse cuidado. tão; também traz benefícios a outros (1 Tm
1 T IM Ó T E O 4 295

4:11, 12). Ele nos capacita a ser bons exem­ "deseja que todos os homens sejam salvos"
plos e a estimular a outros. Paulo cita diversas (1 Tm 2:4), e uma vez que Cristo "a si mes­
áreas da vida em que devemos ser exemplos. mo se deu em resgate por todos" (1 Tm 2:6),
"N a palavra" (1 Tm 4:12): sugere que qualquer pecador pode crer em Cristo e ser
nosso discurso deve ser sempre honesto e salvo. Cristo é o "Salvador de todos os ho­
amoroso, dizendo "a verdade em amor" (Ef mens", de m odo que ninguém precisa de­
4:15). sesperar-se.
"N o procedim ento": indica que nossa Timóteo não deveria ter medo de pra­
vida deve ser controlada pela Palavra de ticar a Palavra de Deus nem de aplicá-la à
Deus. Não devemos ser com o os hipócritas vida da igreja, pois "fiel é esta palavra e dig­
que Paulo descreve a Tito (Tt 1:16): "No to­ na de inteira aceitação" (1 Tm 4:9). Essas
cante a Deus, professam conhecê-lo; entre­ palavras fiéis eram um resumo da verdade à
tanto, o negam por suas obras". Igreja primitiva (ver 1 Tm 1:15; 3:1; 2 Tm
"N o amor": aponta para a motivação de 2:11; Tt 3:8). O fato de Tim óteo ser jovem
nossa vida. Não obedecem os a Deus a fim (naquela época, esse termo era usado para
de receber o aplauso de homens (Mt 6:1 ss), pessoas desde a m ocidade até os 40 anos
mas sim porque amamos a Deus e ao seu de idade) não deveria servir de empecilho a
povo. que praticasse a Palavra. Antes, deveria "or­
("N o espírito": não aparece em vários denar" essas coisas (mais uma vez, o termo
m anuscritos, mas descreve o entusiasm o militar também usado em 1 Tm 1:3). A igreja
interior e o ardor de um filho de Deus.) local é uma unidade do exército espiritual
"N a fé": significa confiar em Deus e ser de Deus, e seus líderes devem ter autorida­
fiel a ele. A fé e o amor costumam andar de e convicção ao transmitir as ordens de
juntos (1 Tm 1:14; 2:15; 6:11; 2 Tm 1:13; Deus ao povo.
2:22). A fé sempre conduz à fidelidade.
"N a pureza": trata-se de algo importante 3. Um m in is t r o em c r e s c im e n t o
ao viver neste mundo perverso. Éfeso era um P a l a v r a (1 Tm 4 : 1 3 - 1 6 )
p r o g r id e n a
centro de impureza sexual, e o jovem Tim ó­ A chave para esta seção é "para que o teu
teo enfrentava muitas tentações. Seu relacio­ progresso a todos seja manifesto" (1 Tm
namento com as mulheres da igreja deveria 4:15). "Progresso" é um termo militar grego
ser puro (1 Tm 5:2), de modo a conservar a e significa "avanço pioneiro". Descreve os
pureza da mente, do coração e do corpo. soldados que vão adiante das tropas, remo­
Mas a vida piedosa não beneficia ape­ vendo os obstáculos do caminho, preparan­
nas o próprio cristão e outros cristãos de seu do-o para os que vêm atrás. Com o pastor
convívio: também exerce influência sobre piedoso, Timóteo deveria crescer espiritual­
os incrédulos. Paulo lembra o pastor Tim ó­ mente, a fim de que a igreja toda pudesse
teo de que Jesus Cristo é o Salvador (1 Tm ver e imitar seu progresso espiritual.
4:10), e cabe ao cristão compartilhar as boas­ Nenhum pastor é capaz de conduzir seu
novas com os perdidos. Na verdade, ele povo por um caminho que ele próprio não
escreve: "Nós, cristãos, colocam os nossa es­ trilhou. "Mas o que tenho, isso te dou" é um
perança no Deus vivo, mas os perdidos não princípio básico da vida e do ministério (At
têm esperança alguma e não conhecem o 3:6). O pastor (ou membro da igreja) que
D eu s vivo. M uitos só conhecem deuses não cresce, na verdade, está regredindo,
mortos que jamais poderão salvá-los". pois, na vida cristã, é impossível ficar para­
O título "Salvador de todos os homens" do. O ministro deve demonstrar crescimen­
não dá a entender que todos serão salvos to espiritual em sua vida, ensino, pregação
(universalismo) nem que Deus salva as pes­ e liderança. Mas quais são os fatores que
soas mesmo que não queiram, pois Paulo possibilitam o progresso espiritual?
acrescenta: "especialmente dos fiéis". A alma A ênfase sobre a Palavra de D eus (v. 13).
é salva pela fé (Ef 2:8-10). Uma vez que Deus "Aplica-te" significa "dedica-te, concentra-te".
296 1 T IM Ó T E O 4

Ministrar a Palavra não devia ser uma ativi­ Significa, simplesmente, "uma dádiva gra­
dade secundária para Timóteo, mas sim sua ciosa de Deus". (O mundo usa a palavra
maior prioridade. A leitura refere-se à leitu­ carisma para descrever uma pessoa com
ra pública das Escrituras na congregação uma personalidade atraente e aparência im­
local. O povo judeu estava habituado a ponente.) Todo cristão tem o dom do Espí­
ouvir a leitura da Lei e dos Profetas em suas rito (Rm 8:9) e pelo menos um dos dons do
sinagogas, e essa prática foi levada às igrejas Espírito (1 Co 12:1-11). O dom do Espírito
cristãs. Jesus leu as Escrituras na sinagoga e os dons do Espírito Santo são concedi­
em Nazaré (Lc 4:16ss), e Paulo costumava dos por Deus no momento da conversão
ler passagens das Escrituras quando visita­ (ver 1 Co 12:13ss).
va uma sinagoga {At 13:15). Todavia, quando Deus chama um cris­
Em meu ministério itinerante, fico decep­ tão para um ministério especial, pode con­
cionado ao observar como muitas igrejas ceder (e, com freqüência, concede) um
colocaram de lado a leitura da Palavra de dom espiritual para essa tarefa. Quando
Deus. Têm tempo para "músicas especiais" Timóteo foi ordenado pelos presbíteros
e inúmeros avisos, mas não têm tempo para ("presbitério") e estes lhe impuseram as
ler a Bíblia. É possível que o pastor leia uma mãos, recebeu de Deus um dom que o
passagem antes de começar a pregar, mas capacitava ao ministério. Mas, por algum
se trata de outro tipo de leitura. As Escritu­ motivo, Timóteo havia deixado de cultivar
ras ordenam que leiamos a Palavra de Deus esse dom tão necessário a seu progresso
nas reuniões públicas (convém acrescen­ espiritual e a seu ministério. Na verdade,
tar que os que lêem a Palavra em público Paulo teve de admoestá-lo em sua segun­
precisam estar previamente preparados. da carta: "[reaviva] o dom de Deus que
Não se deve pedir para alguém ler as Escritu­ há em ti pela imposição das minhas mãos"
ras publicamente "de última hora". A Bíblia (2 Tm 1:6).
merece o melhor que temos a oferecer.) É um grande estímulo saber que Deus
O termo "exortação" (1 Tm 4:13) signi­ não apenas nos chama, mas também nos ca­
fica, literalmente, "encorajamento" e sugere pacita para sua obra. Não temos em nós
a aplicação da Palavra à vida das pessoas. mesmos coisa alguma que nos capacite lhe
O pastor deveria ler a Palavra, explicá-la e servir; o ministério deve vir inteiramente
aplicá-la. "Ensino" é o mesmo que "doutri­ de Deus (1 Co 15:9, 10; Fp 4:13; 1 Tm 1:12).
na" e é uma das ênfases mais importantes Não devemos, porém, ser passivos, mas sim
das epístolas pastorais. Há pelo menos 22 cultivar os dons de Deus, usá-los e desen­
referências ao "ensino" ou à "doutrina" nes­ volvê-los no ministério da igreja local e onde
ses 13 capítulos. quer que Deus nos coloque.
Uma das qualificações do ministro é ser Dedicação total a Cristo (v. 15). "Me­
"apto para ensinar" (1 Tm 3:2); alguém dis­ ditar" dá a idéia de "examinar em profun­
se bem que "ser apto para ensinar implica didade, dedicar-se inteiramente a algo". A
ser apto para aprender". Um ministro (ou vida espiritual e o ministério de Timóteo
membro) da igreja que está crescendo na deveriam absorver suas energias e esforços
Palavra deve dedicar-se ao estudo das Es­ e controlar sua vida, não apenas ser ocupa­
crituras. Antes de ensinar a outros, deve en­ ções secundárias e ocasionais. Não pode
sinar a si mesmo (Rm 2:21). Seu progresso haver avanço pioneiro e real no ministério
espiritual é um exemplo para seu rebanho se não houver dedicação total à obra. "Nin­
e um estímulo a outros. guém pode servir a dois senhores" (Mt
O uso dos dons espirituais (v. 14). Nos 6:24).
últimos anos, tanta coisa tem sido escrito Não quero parecer crítico, mas devo
sobre os dons espirituais que quase esque­ confessar que me perturba ver muitos obrei­
cemos das graças do Espírito (Gl 5:22, 23). ros cristãos dividirem seu tempo e interes­
O termo "dom" é a palavra grega charisma. se entre a igreja e alguma outra atividade.
1 TIMÓTEO 4 297

Pode ser compra e venda de imóveis, via­ Charles Finney, o grande evangelista nor­
gens para a terra santa, política, deveres te-americano do século xix, costumava pre­
cívicos e até mesmo trabalho para a deno­ gar sobre esse texto. O título do sermão
minação. Sua vida espiritual e sua igreja são era "Pregador, salva-te a ti mesmo!" Trata-
prejudicadas, pois esses homens não se se de um sermão necessário hoje, pois ve­
dedicam inteiramente ao ministério. "Uma mos pessoas obrigadas a deixar o ministério
coisa faço" - essa era a motivação central porque sua vida pessoal não acompanhou
de Paulo e também deve ser a nossa (Fp sua profissão. Problemas morais, divórcios
3:13). "[Um] homem de ânimo dobre [é] e outros tipos de conduta vergonhosa já
inconstante em todos os seus caminhos" destruíram muitos servos de Deus. "Aque­
(Tg1:8). < le, pois, que pensa estar em pé veja que
Um balanço espiritual (v, 16). É preci­ não caia" (1 Co 10:12).
so examinar o coração à luz da Palavra de Edificar os salvos e ganhar os perdidos
Deus. Pode-se observar que Paulo coloca para Cristo são os objetivos de nosso mi­
"de ti mesmo" antes de "da doutrina". Paulo nistério para a glória de Deus. Mas Deus
dera a mesma advertência aos presbíteros deve operar em nós antes de poder operar
efésios em sua mensagem de despedida: por meio de nós (Fp 2:12,13), Como bons
"Atendei por vós" (At 20:28). Um servo de ministros, pregamos a Palavra; como mi­
Deus pode ocupar-se tanto ajudando a ou­ nistros piedosos, praticamos a Palavra; co­
tros que se esquece de cuidar de si mesmo mo ministros em crescimento, progredimos
e de sua vida espiritual. na Palavra.
5 No entanto, a igreja deve ter o cuidado
de não desperdiçar recursos com quem não
é, verdadeiramente, necessitado. Quer
gostemos de admitir isso quer não, há indi­
O rdem n a Ig r e ja ! víduos e famílias inteiras que "exploram"
congregações locais, enquanto eles pró­
1 T ímóteo 5 prios se recusam a trabalhar ou a usar seus
recursos com sabedoria. Enquanto recebem
ofertas da igreja, não vêem motivo para pro­
curar trabalho.
Paulo relaciona as qualificações que uma
viúva deve ter a fim de ser sustentada pela
primeiro problema que a Igreja primi­ igreja.
O tiva enfrentou é bastante conhecido
hoje: um grupo de membros da igreja esta­
"Não tem amparo" (w. 5a, 8). Se uma
viúva tinha parentes, eles deveriam cuidar
va sendo preterido pela equipe de ministros dela, a fim de que a igreja usasse o dinheiro
(At 6). Certa vez, ouvi alguém descrever de­ para ajudar os verdadeiramente necessita­
terminado pastor como "um homem invisí­ dos. Caso seus filhos houvessem falecido,
vel durante a semana e incompreensível no seus netos deveriam aceitar essa responsa­
domingo". Aiguém na congregação sentia- bilidade. Quando lembramos que a socieda­
se negligenciado. de daquela época não possuía as mesmas
Assim, Paulo instrui Timóteo sobre como organizações que existem hoje - previdência
ministrar a grupos específicos de sua igreja. pública e privada, lares para idosos etc.
vemos como o cuidado da família era im­
1. Os m em bros m ais v elh o s portante. E evidente que a existência de
(1 T m 5:1, 2 ) tais instituições hoje não exime a família
Paulo admoesta Timóteo a ministrar aos de sua responsabilidade de prover atenção
vários tipos de pessoas da igreja sem de­ e afeto. A injunção "honra teu pai e tua mãe"
monstrar qualquer predileção (1 Tm 5:21). continua fazendo parte da Bíblia (Êx 20:12;
Uma vez que Timóteo era jovem, poderia Ef 6:1-3).
ser tentado a ignorar os membros mais ve­ E se um parente não estiver disposto a
lhos, de modo que Paulo insta-o a amar e a ajudar esse membro necessitado da família?
servir a pessoas de todas as idades na con­ Ele "é pior do que o descrente" (1 Tm 5:8;
gregação. A igreja é uma família: os mem­ ver também v. 16). Uma missionária amiga
bros mais velhos devem ser tratados como minha, hoje falecida, deixou a obra onde tra­
pais e mães, e os mais novos, como irmãos balhava e voltou para casa, a fim de cuidar
e irmãs. dos pais idosos e enfermos. Alguns de seus
colegas a criticaram com severidade ("deve­
2. As viúvas idosas (1 T m 5:3-10) mos amar a Deus mais do que ao pai e à
Desde o início de seu ministério, a igreja mãe!"), mas ela permaneceu fiel até o fim.
demonstrou preocupação pelas viúvas cris­ Em seguida, voltou para o campo missioná­
tãs (At 6:1; 9:39). É evidente que Israel como rio, onde trabalhou e deu frutos por vários
nação havia sempre procurado cuidar das anos, sabendo que havia obedecido ao Se­
viúvas, e Deus dera leis específicas para nhor. Afinal, amamos a Deus ao amar as
protegê-las (Dt 10:18; 24:17; Is 1:1 7). O cui­ pessoas, e ele se preocupa de maneira es­
dado especial de Deus para com as viúvas é pecial com os idosos, as viúvas e os órfãos.
um tema que se repete ao longo das Escritu­ Uma cristã irrepreensível (w. 5b-7). A
ras (Dt 14:29; SI 94:6; Ml 3:5). Nada mais igreja não deve cuidar de todas as viúvas da
certo do que a igreja local demonstrar com­ cidade, mas deve amparar as que fazem
paixão a essas mulheres necessitadas. parte da congregação. Devemos "[fazer] o
1 T IM Ó T E O 5 299

bem a todos, mas principalm ente aos da depois da morte do primeiro marido. A fide­
família da fé" (Gl 6:10). Uma viúva que re­ lidade aos votos matrimoniais é extremamen­
cebe a ajuda da igreja não deve ser uma te importante aos olhos de Deus.
mulher acomodada, que só busca o próprio Recomendada pelo testemunho de boas
prazer, mas sim piedosa, que espera em obras (v. 10). Se uma pessoa estiver servin­
Deus e tem um ministério de intercessão e do a Deus fielmente, sua luz brilhará e ou­
de oração. Para um exempto de uma viúva tros a verão e glorificarão a Deus (Mt 5:16).
piedosa, ver Lucas 2:36, 37. A expressão "tenha criado filhos" pode se
Depois de pastorear três igrejas, minha referir aos próprios filhos da viúva ou, tal­
experiência mostra que as viúvas piedosas vez, a órfãos que precisavam de um lar. Caso
são a "casa de força" da igreja. São a espi­ se refira aos próprios filhos, estes haviam fa­
nha dorsal das reuniões de oração, dedicam- lecido, pois, de outro modo, a igreja não
se à visitação e contribuem grandemente sustentaria essa mulher. No entanto, é prová­
com o professoras da escola dominical. Tam­ vel que se trate de uma referência à prática
bém tenho observado que, se uma viúva não de amparar crianças abandonadas, criando-
é piedosa, pode causar uma série de pro­ as nos caminhos do Senhor.
blemas para a igreja. Exigirá atenção, se quei­ A hospitalidade é outro fator, pois cons­
xará do que os mais jovens fazem e passará tituía um ministério importante naquele tem­
longas horas no telefone levando e trazen­ po, quando as viagens eram perigosas e
do fofocas. (Claro que, na verdade, não são havia poucos lugares seguros para passar
fofocas, mas sim inform ações passadas a a noite. A lavagem dos pés não é relaciona­
am igas para que estas possam "orar mais da a algum ritual especial, mas sim à prática
especificamente" pelos outros!) Paulo deixa comum de lavar os pés de um convidado
claro (1 Tm 5:7) que as viúvas amparadas quando ele chegava na casa (Lc 7:44). Uma
pela igreja devem ser "irrepreensíveis". m ulher piedosa não considerava indigno
Tem peio m enos 60 anos de idade (v. assumir a posição de serva humilde.
9a). Hoje em dia, uma senhora de 60 anos O socorro aos "atribulados" pode abran­
não é considerada "velha", mas naquele tem­ ger diversas áreas de ministério aos neces­
po, dificilmente uma mulher dessa idade se sitados: alimentar os famintos, cuidar dos
casava de novo. Talvez o verbo "inscrever" enfermos, encorajar os aflitos etc. Todo pas­
ajude a entender melhor a situação. Essa pa­ tor é grato pelas mulheres piedosas que mi­
lavra significa "arrolar, incluir em uma lista" nistram às necessidades materiais e físicas
e era usada para o alistamento militar. A Igre­ da igreja. Essas viúvas eram amparadas pela
ja primitiva possuía uma lista oficial com o igreja, mas, ao mesmo tempo, ajudavam a
nome das viúvas qualificadas e, ao que pare­ cuidar da congregação.
ce, essas mulheres "alistadas" ministravam à
congregação de várias maneiras (podemos 3. As VIÚVAS M AIS JO VENS
lembrar o exemplo de Dorcas e de suas ami­ (1 T m 5:11-16)
gas viúvas, relatado em At 9:36-43). Caso fos­ Tecnicamente, essas viúvas mais jovens eram
sem diaconisas ordenadas, é bem provável mulheres de menos de 60 anos, mas, sem
que Paulo tivesse especificado esse fato. dúvida, Paulo se referia a mulheres bem mais
Um bom histórico matrimonia/ (v. 9b). jovens. Dificilmente, uma mulher de 59 anos
Vim os esse requisito anteriormente aplicado de idade teria filhos em um segundo ca­
aos bispos (1 Tm 3:2) e aos diáconos (1 Tm samento! (ver 1 Tm 5:14, "criem filhos").
3:12). Conclui-se, com isso, que a viúva não O s perigos das viagens, as doenças devas­
era uma mulher divorciada. Um a vez que as tadoras, guerras e várias outras situações
viúvas mais jovens eram aconselhadas a se poderiam privar a jovem esposa do marido.
casar novamente (1 Tm 5:14), essa estipula­ Mas Paulo proíbe Timóteo de incluir as viú­
ção não pode referir-se a uma mulher que vas mais jovens na lista oficial e de colocá-
teve um segundo casam ento tem porário las sob os cuidados da igreja.
300 1 T IM Ó T E O 5

Os motivos para não incluí-las (vv. 11- há oportunidade de ter um marido e uma
14a). Por causa de sua idade, as viúvas mais família? É claro que tudo isso deveria ser
jovens sentem-se, naturalmente, atraídas pe­ "somente no Senhor" (1 Co 7:39).
los homens e desejam se casar novamente. "Sede fecundos, multiplicai-vos" (Gn 1:28).
O que há de errado nisso? Paulo parece Essa foi a ordem de Deus a nossos primei­
deixar implícito (1 Tm 5:12) que as viúvas ros antepassados, de modo que o resultado
inscritas na lista oficial se comprometiam a natural do casamento é uma família. Os que
permanecer viúvas e servir ao Senhor na se recusam a ter filhos hoje em dia por cau­
igreja. Esse compromisso não deveria ser in­ sa da situação do mundo devem lembrar
terpretado como um "voto de celibato", em que pé as coisas estavam no tempo de
como também não se deve considerar esse Paulo! Se os cristãos não desejam ter filhos
grupo de viúvas que ministravam como uma e educá-los a fim de viver para Deus, quem
"ordem monástica especial". Ao que parece, o fará?
havia um acordo entre as viúvas e a igreja A oração "sejam boas donas de casa"
de que elas permaneceriam viúvas e servi­ (1 Tm 5:14) significa, literalmente, "gover­
riam ao Senhor. nem o lar". A esposa deve administrar os
Há outra interpretação possível: se es­ assuntos da casa, e o marido deve confiar
sas viúvas mais jovens fossem sustentadas que ela fará sua parte (Pv 31:10-31). É evi­
pela igreja, poderiam acabar vivendo como dente que o casamento é uma parceria, mas
bem entendessem e encontrando outro cada cônjuge tem uma esfera específica de
marido, provavelmente um incrédulo. Ao se responsabilidades. São poucos os homens
casar com um não cristão, estariam abrindo que conseguem fazer em uma casa o que
mão de sua fé. No entanto, prefiro a primei­ as mulheres fazem. Quando minha esposa
ra explicação. adoecia ou estava cuidando de nossos be­
Mas Paulo deixa claro (1 Tm 5:13) que, bês, eu tinha de administrar algumas coisas
se as viúvas mais jovens fossem amparadas da casa e descobri, rapidamente, que essas
pela igreja, teriam tempo de sobra nas mãos atividades ficavam fora de minha esfera de
e se envolveriam com atividades pecamino­ ministério!
sas. Poderiam adquirir o hábito de perma­ O resultado de tudo isso é um bom tes­
necer ociosas em vez de ser úteis. Iriam de temunho capaz de calar os acusadores. Sa­
casa em casa, fazendo fofocas e se introme­ tanás (o adversário) está sempre alerta, em
tendo na vida alheia. Existe uma ligação níti­ busca de uma oportunidade para invadir e
da entre o ócio e o pecado. destruir um lar cristão. O termo "ocasião"
Paulo adverte Timóteo a não usar o di­ é de cunho militar e significa "uma base de
nheiro da "caridade" de modo a incentivar operações". A esposa cristã que não faz seu
o ócio. Sem dúvida, a igreja deve ajudar os trabalho em casa cria uma base para as ope­
verdadeiramente necessitados, mas não deve rações de Satanás, e os resultados são trá­
subsidiar o pecado. Como pastor, preciso gicos. Apesar de haver ocasiões em que a
tomar decisões quanto a essas questões e, esposa e mãe cristã precisam trabalhar fora,
às vezes, não é fácil. isso não deveria destruir seu ministério no
Requisitos para as viúvas mais jovens lar. A esposa que trabalha simplesmente para
(w. 14b-16). Paulo deixa o aspecto negati­ obter certos luxos pode descobrir, tarde de­
vo e apresenta as atitudes positivas que gos­ mais, que perdeu algumas das coisas mais
taria de ver nas viúvas mais jovens, a fim de fundamentais. Não é necessariamente erra­
serem aceitas e aprovadas pela igreja. As do ter as coisas que o dinheiro pode com­
viúvas mais jovens deveriam se casar e cons­ prar desde que não se perca as coisas que o
tituir família. Nem todos devem se casar, mas dinheiro não pode comprar.
o casamento é algo natural para a maioria A forma de esposas e mães cristãs admi­
das pessoas que já foram casadas antes. Por nistrarem o íar pode ser um testemunho para
que ficar sozinha na viuvez, quando ainda os de fora. Assim como um pastor deve ter
1 T IM Ó T E O 5 301

boa reputação junto aos incrédulos (1 Tm de Éfeso. Timóteo era jovem e ainda tinha
3:7), e os servos não devem trazer desonra muito a aprender, e Éfeso não era um lugar
à Palavra de Deus (1 Tm 6:1), também as fácil de exercer o ministério. Além disso, Ti­
esposas devem ter bom testemunho. Mesmo móteo era o sucessor de Paulo com o pastor
que não possam exercer o cargo de presbí­ da igreja, um desafio e tanto! O discurso de
tero na igreja, as mulheres podem ministrar despedida de Paulo aos presbíteros efésios
ao Senhor no próprio lar (para maior ênfase (At 20) mostra que ele havia trabalhado com
nesse ministério essencial, ver Tt 2:4, 5). afinco e que tinha sido fiel, sendo muito
Em seguida, Paulo resume o princípio de amado pelos presbíteros (At 20:36-38). A pe­
cada fam ília cuidar das necessidades dos sar de Paulo ter enviado Timóteo pessoal­
próprios membros (1 Tm 5:16). Paulo não mente a Éfeso, o rapaz enfrentava uma série
diz com o essas viúvas devem ser ampara­ de dificuldades.
das: por meio de ofertas regulares, sendo Essa situação pode ser o motivo pelo qual
recebidas em seus lares, dando-lhes alguma Paulo o instrui a respeito do vinho (1 Tm
atividade para se sustentar etc. Cada con­ 5:23). Timóteo teve problemas de estôma­
gregação local deveria decidir essa questão go? Ficou doente por causa de suas muitas
de acordo com as necessidades dos casos responsabilidades e conflitos? O u tentou
individuais. seguir as idéias de alguns ascetas (1 Tm 4:1­
D e que maneira esse princípio aplica-se 5), só para descobrir que sua dieta piorava a
aos cristãos hoje? Sem dúvida, é preciso situação ao invés de melhorá-la? Não sabe­
honrar aos pais e aos avós e procurar aju­ mos as respostas a todas essas perguntas, e
dá-los, caso tenham algum a necessidade. só nos resta ler nas entrelinhas. Convém
Nem toda família cristã tem condições de observar que, ao mencionar o vinho nesta
sustentar mais um membro, e nem toda viú­ passagem, Paulo não defende a indústria de
va deseja viver com os filhos. Nos casos de bebidas alcoólicas. O uso do vinho para fins
enfermidade ou de deficiência física, pode medicinais não é um incentivo ao hábito de
ser necessário haver certos cuidados que não beber socialm ente. C o m o vim os anterior­
se encontram disponíveis em uma casa co­ mente, apesar de a Bíblia não exigir a absti­
mum. C ad a fam ília deve decidir qual é a nência, condena claramente a embriaguez.
vontade de Deus com respeito a essa ques­ Paulo aconselha Tim óteo em seu rela­
tão, e nenhum a decisão é fácil. O impor­ cionamento com os presbíteros ao tratar de
tante é que os cristãos demonstrem amor e três tópicos:
preocupação e façam todo o possível para O pagamento dos presbíteros (vv. 17,
ajudar uns aos outros. 18). Na Igreja primitiva, a congregação não
era ministrada por um único pastor, mas sim
4. OS LÍDERES D A IG REJA por vários presbíteros. Esses homens dedica­
(1 T m 5:17-25) vam-se à obra do Senhor em tempo integral
As instruções desta seção referem-se, princi­ e mereciam algum tipo de remuneração. Na
palmente, aos presbíteros, mas os princípios maioria das igrejas de hoje, os presbíteros
também se aplicam ao relacionamento do são leigos que exercem outras ocupações,
pastor com qualquer um dos líderes de sua mas que ajudam no trabalho da igreja. Nor­
igreja. É m aravilho so que presbíteros e malmente, os membros da equipe pastoral
diáconos (e outros líderes) trabalhem juntos são os únicos obreiros em tempo integral
em harmonia e amor. No entanto, é triste na igreja (é evidente que muitas igrejas tam­
quando um pastor tenta se tornar um dita­ bém têm secretárias, zeladores etc., mas
dor espiritual (1 Pe 5:3), ou quando um líder Paulo não está escrevendo a essas pessoas).
tenta impor-se com o "dono da igreja" (3 Jo Havia dois tipos de presbíteros na igre­
9-10). ja: os que governavam, supervisionando o
A o que parece, Tim óteo enfrentava al­ trabalho da co ngregação, e os que ensi­
guns problemas com os presbíteros da igreja navam a Palavra de Deus. Esses presbíteros
302 1 T IM Ó T E O 5

eram escolhidos dentre os membros da con­ ele abençoará as igrejas fiéis a seus servos.
gregação com base no chamado de Deus, A igreja que não é fiel e que não supre as
na capacitação do Espírito e no testemunho necessidades de seu pastor dá um péssimo
e obra dos próprios homens. Depois de es­ testemunho, e Deus pode lidar com tal situa­
colhidos, eram ordenados e separados para ção de diferentes maneiras: provendo a seu
o ministério (At 14:23; 20:17, 28; Tt 1:5). servo por outros meios sem que a igreja seja
A igreja local precisa tanto de governo abençoada ou colocando-o em outro lugar.
quanto de ensino. O Espírito concede os O outro lado da moeda é que o pastor
dons de "socorros" e de "governos" à igreja não deve, em momento algum, ministrar
(1 Co 12:28). Se uma igreja não for organi­ apenas para ganhar dinheiro (ver 1 Tm 3:3).
zada, ocorrerá um desperdício de esforços, "Negociar" com as igrejas ou sair à procura
dinheiro e oportunidades. Se não houver lí­ de um lugar que pague um salário melhor
deres com mentalidade espiritual para su­ não faz parte da vontade de Deus. Não é
pervisionar os diversos ministérios da igreja certo o pastor mencionar de púlpito suas
local, o resultado será o caos ao invés da necessidades financeiras na esperança de
ordem. Contudo, sua supervisão não deve obter apoio da tesouraria!
ser ditatorial. O trabalho da igreja local não A disciplina dos presbíteros (w. 19-21).
deve ser administrado da mesma forma que A disciplina dentro da igreja costuma cair
um supermercado ou uma fábrica são ge­ em um de dois extremos. Ou não há discipli­
renciados. Apesar de ser importante a igreja na alguma e a igreja perece em função da
seguir certos princípios da boa administração, desobediência e do pecado, ou os líderes
ela não é um negócio. A maneira implacá­ da igreja assumem a função de policiais que
vel de certos líderes humilharem as pessoas julgam e condenam ilegalmente, transgredin­
desonra o evangelho. do vários princípios espirituais da Bíblia.
Mas não há muito proveito em governar A disciplina de membros da igreja é
sem ensinar. A igreja iocal deve crescer pelo explicada em Mateus 18:15-18; Romanos
ministério da Palavra de Deus (Ef 4:11 ss). 16:17, 18; 1 Coríntios 5; 2 Coríntios 2:6-11;
Não se pode governar um grupo de bebês! Gálatas 6:1-3; 2 Tessalonicenses 3:6-16;
Cristãos que não estão sendo alimentados, 2 Timóteo 2:23-26; Tito 3:10 e 2 João 9-11.
purificados e fortalecidos pela Palavra são Nesta passagem (1 Tm 5:19-21), Paulo
fracos e inúteis e só causam problemas. trata da disciplina dos líderes da igreja. É tris­
Paulo diz a Timóteo para se certificar de te quando um membro da igreja precisa ser
que os líderes sejam devidamente remune­ disciplinado, mas é ainda mais triste quando
rados com base em seus ministérios. Funda­ um líder espiritual cai e precisa ser submeti­
menta sua argumentação na Lei do Antigo do à disciplina eclesiástica, pois a queda de
Testamento (Dt 25:4) (o melhor comentário um líder afeta outros.
sobre esta questão encontra-se em 1 Co 9:7- O propósito da disciplina é a restaura­
14). Em seguida, Paulo acrescenta uma de­ ção. O objetivo deve ser salvar o transgressor,
claração do Senhor Jesus Cristo: "porque não expulsá-lo. A atitude em relação a ele
digno é o trabalhador do seu salário" (Lc deve ser de amor e de mansidão (Gl 6:1-3).
10:7). Esse era um ditado comum naquele Na verdade, o verbo "corrigir", que Paulo
tempo, mas Paulo equipara as palavras de usa em Gálatas 6:1, tem o sentido de "colo­
Cristo às Escrituras do Antigo Testamento! car um osso fraturado no lugar". Pense na
Se os pastores são fiéis em alimentar e paciência e delicadeza necessárias nesse
em conduzir o povo, a igreja deve ser fiel procedimento!
em lhes pagar adequadamente. "Dobrados A primeira advertência de Paulo a Ti­
honorários" (1 Tm 5:17) pode ser traduzi­ móteo é ter certeza dos fatos, o que é fei­
do por "pagamento generoso". Faz parte do to por meio de testemunhas (1 Tm 5:19).
plano de Deus que as necessidades de seus Esse princípio também pode ser encontra­
servos sejam supridas pelas igrejas locais, e do em Deuteronômio 19:15; Mateus 18:16
1 TIM Ó T EO 5 303

e 2 Coríntios 13:1. Creio que, nesta pas­ independentemente de seus sentimentos.


sagem, vemos uma aplicação dupla de tal Deve agir sem preconceito contra e sem
preceito. Em primeiro lugar, os que fazem favoritismo pelo líder acusado. Dentro da
qualquer acusação contra o pastor devem ter igreja, não há direitos adquiridos por tem­
como prová-la por meio de testemunhas. po de serviço; todos os membros são iguais
Boatos e suspeitas não constituem uma base diante de Deus e de sua Palavra. Demons­
adequada para a disciplina. Em segundo lu­ trar preconceito ou favoritismo só piora a
gar, quando se faz uma acusação, as teste­ situação.
munhas devem estar presentes. Em outras A seleção e ordenação dos presbíteros
palavras, o acusado tem o direito de encarar (vv. 22-25). Somente Deus conhece o co­
seu acusador na presença de testemunhas. ração de todos (At 1:24). A igreja precisa
Uma senhora da nossa congregação veio de sabedoria e de orientação espiritual
me procurar durante um jantar da igreja; tra­ para escolher seus líderes. É perigoso agir
zia uma porção de acusações e de fofocas de modo impulsivo e colocar um recém-
contra mim, todas elas sem fundamento. Pedi convertido em um cargo de responsabili­
a dois líderes da igreja que estavam por per­ dade espiritual. É possível ver claramente
to que servissem de testemunha para o que o pecado na vida de algumas pessoas, mas
ela dizia. É evidente que, no mesmo instante, outras, apesar de levarem suas transgres­
ela parou de falar e foi embora contrariada. sões consigo de um lugar para outro, con­
É triste quando as igrejas desobedecem seguem encobri-las (1 Tm 5:24). As boas
à Palavra e dão ouvidos a boatos, mentiras obras dos cristãos consagrados devem ser
e fofocas. Muitos pastores piedosos foram evidentes, ainda que não estejam servin­
frustrados em sua vida e ministério dessa do com o propósito de obter notoriedade
forma, e muitos até deixaram o ministério. (1 Tm 5:25).
"Onde há fumaça, há fogo" pode ser um Em outras palavras, a igreja deve inves­
bom lema para o corpo de bombeiros, mas tigar com todo o cuidado a vida dos candi­
não se aplica às igrejas. "Onde há fumaça, datos a cargos de liderança, a fim de se
há fogo" pode significar que a língua de al­ certificar de que não há nada mais sério
guém foi "posta ela mesma em chamas pelo fora de ordem. Ordenar presbíteros com
inferno" (Tg 3:6). pecados na vida é o mesmo que ter parte
A segunda advertência de Paulo a Timó­ nesses pecados! Se o simples ato de dar
teo é para que faça tudo de modo franco e boas-vindas a um herege nos torna partici­
honesto. A política "por debaixo dos panos" pantes de seus atos perversos (2 Jo 10, 11),
do governo secular não tem lugar em uma somos muito mais culpados se ordenamos
igreja. Jesus afirmou: "Nada disse em ocul­ pessoas cuja vida não está em ordem dian­
to" (Jo 18:20). Se um líder for culpado, de­ te de Deus.
verá ser repreendido diante de todos os Nenhum pastor ou membro da igreja é
outros líderes (1 Tm 5:20). Deverá ter a opor­ perfeito, mas isso não deve ser um empe­
tunidade de se arrepender e, se o fizer, de­ cilho a que nos esforcemos em busca da
verá ser perdoado (2 Co 2:6-11). Uma vez perfeição. A ascensão e a queda do minis­
perdoado, a questão é encerrada e nunca tério local devem-se a sua liderança. Uma
mais deve ser trazida à baila. liderança piedosa representa a bênção de
A terceira advertência de Paulo (1 Tm Deus; é isso o que desejamos e é disso que
5:21) é para que Timóteo obedeça à Palavra, necessitamos.
6 significa "escravo"). Quando os servos con­
seguiam uma folga de seus afazeres domés­
ticos, participavam das congregações locais,
em que sua posição social não era relevante
O rden s d o Q uartel - (Gl 3:28).
G eneral No entanto, alguns servos usavam sua
liberdade recém-descoberta em Cristo co­
1 T ímóteo 6 mo desculpa para desobedecer ou mesmo
para afrontar seus senhores. Precisavam
aprender que, apesar de serem inteiramen­
te aceitos na comunhão da igreja, sua liber­
dade espiritual em Cristo não alterava sua
este capítulo, Paulo continua a acon­ posição social.
N selhar Timóteo acerca do ministério a
diferentes tipos de cristãos na igreja. O tom
Servos de senhores incrédulos (v. 1).
Nenhum senhor cristão pensaria em seu
é militar, pois Paulo usa termos referentes servo como estando "debaixo de jugo"; an­
ao exército: "Combate o bom combate da tes, o trataria com amor e respeito (Cl 4:1;
fé" (1 Tm 6:12). "Exorto-te [Ordeno-te]" (1 Tm Fm 16). Ao rebelar-se contra seu senhor in­
6:13, que é o mesmo termo militar usado crédulo, o escravo estaria desonrando o
em 1:3). "Exorta [Ordena] aos ricos" (1 Tm evangelho. "O nome de Deus" e a doutrina
6:1 7). "E tu, ó Timóteo, guarda o que te foi seriam blasfemados (Rm 2:24). Esse é um
confiado" (1 Tm 6:20). Em outras palavras, dos motivos pelos quais Paulo e os primei­
podemos dizer que Paulo é o general, trans­ ros missionários não tentaram pregar contra
mitindo a Timóteo ordens do Senhor, o Co­ a escravidão, por mais que fosse uma insti­
mandante Supremo. tuição pecaminosa. Tal ativismo teria carac­
D. L. Moody não queria que seu solista, terizado a igreja como um grupo militante e
Ira Sankey, usasse o hino "Avante, Soldados constituído um grande empecilho para o
Cristãos" em suas campanhas evangelísti- avanço do evangelho.
cas. Para Moody, a igreja que ele via era Servos de senhores cristãos (v. 2). O pe­
muito diferente de um exército. Se, na Se­ rigo, nesse caso, era o de um servo cristão
gunda Guerra Mundial, um soldado qualquer aproveitar-se de seu senhor pelo fato de am­
dos Aliados tivesse para com seus superio­ bos serem salvos. "Meu senhor é meu irmão!",
res e suas ordens a mesma atitude que os poderia argumentar. "Uma vez que somos
cristãos têm para com o Senhor, provavel­ iguais, ele não tem direito algum de me dar
mente teríamos perdido! ordens!" Essa atitude criaria problemas sérios,
Paulo instrui Timóteo a ministrar a ou­ tanto nos lares quanto nas congregações.
tros quatro grupos da igreja e também a Paulo dá três motivos pelos quais o ser­
manter a própria vida dentro da vontade vo cristão deve demonstrar respeito por seu
de Deus. senhor cristão e não se aproveitar dele. O
motivo mais óbvio é: o senhor é cristão ("fiel"
1. Os SERVOS CRISTÃOS (1 Tm 6:1, 2) = cristão). Como um cristão poderia apro­
Alguns historiadores calculam que metade veitar-se de outro? Em segundo lugar, o se­
da população do império romano era cons­ nhor é amado. O amor não se rebela nem
tituída de escravos. Muitos deles eram cul­ procura oportunidades de fugir de suas res­
tos, instruídos, mas, para fins legais, não eram ponsabilidades. Por fim, tanto o senhor quan­
considerados seres humanos. A mensagem to o servo são beneficiados pela obediência
do evangelho de salvação e de liberdade ("partilha do seu bom serviço" pode se apli­
em Cristo era atraente aos escravos, e mui­ car a ambos). Há bênçãos mútuas quando
tos se converteram (o termo traduzido por os cristãos servem uns aos outros de acordo
"servo", no Novo Testamento, normalmente com a vontade de Deus.
1 T IM Ó T E O 6 305

Lembro-me de aconselhar uma moça que (Lc 24:32; e ver Dn 9:1-20). Essa atitude
havia pedido demissão de um emprego se­ "enfatuada" leva o mestre a discutir ques­
cular a fim de trabalhar para uma organiza­ tões secundárias com respeito a "palavras".
ção cristã. Estava no novo emprego havia Em vez de alimentar-se das "sãs palavras de
mais ou menos um mês e se sentia comple­ nosso Senhor Jesus Cristo" (1 Tm 6:3), cria
tamente desiludida. um ambiente doentio com todas as suas
- Pensei que seria o céu na Terra - disse perguntas. O termo traduzido por "enfa­
ela. - Em vez disso, só há problemas. tuado" (1 Tm 6:4) significa "cheio de desejo
- Você está trabalhando para seu chefe mórbido, doente". O resultado desse tipo
cristão com o mesmo afinco que trabalhava de ensinamento não espiritual é "inveja, pro­
para seu outro patrão? - perguntei. A expres­ vocação, difam ações, suspeitas m alignas,
são no rosto dela me deu a resposta. - Pro­ altercações sem fim" (1 Tm 6:4b-5a).
cure empenhar-se mais - aconselhei - "e O mais triste de tudo isso é que os cris­
demonstrar verdadeiro respeito. Só porque tãos são "privados da verdade" (1 Tm 6:5)
todos no escritório são salvos não significa que enquanto acreditam estar descob rin d o a
podem dar menos do que o melhor de si. verdade! Pensam que as discussões em seus
Ela seguiu meu conselho, e seus proble­ encontros semanais, durante os quais com ­
mas se resolveram. partilham sua ignorância, é uma forma de
crescer na graça, quando, na verdade, o
2 . F a l s o s mestres (1 Tm 6 :3 - 1 0 ) resultado é perda de caráter, não aperfei­
Paulo iniciou a carta com advertências so­ çoam ento.
bre os falsos mestres (1 Tm 1:3ss) e chegou O motivo de seus ensinamentos (w . 5b-
a refutar alguns de seus ensinamentos per­ 10). Esses falsos mestres imaginavam que a
niciosos (1 Tm 4:1 ss). O s líderes espirituais "piedade é fonte de lucro". Aqui (1 Tm 6:5),
da igreja locai devem manter-se sempre aten­ o termo "piedade" refere-se à "profissão da
tos para o que está sendo ensinado, pois é fé cristã" e não à vida autêntica de santida­
fácil falsas doutrinas se infiltrarem (At 20:28­ de pelo poder do Espírito. Usavam sua pro­
32). Um pastor conhecido meu descobriu fissão religiosa com o um meio de ganhar
um professor de escola dominical que com­ dinheiro. O que faziam não era um ministé­
partilhava suas "visões" com os alunos em rio real, mas apenas um negócio religioso.
vez de ensinar a Palavra de Deus! Paulo sempre tinha o cuidado de não
A s características desses falsos mestres usar seu cham ado e ministério com o um
(w . 3-5a). A primeira característica era sua meio de ganhar dinheiro. Chegou até a re­
recusa em manter-se fiéis às "sãs palavras cusar o sustento da igreja de Corinto para
de nosso Senhor Jesus Cristo e [ao] ensino que ninguém o acusasse de ganância (1 C o
segundo a piedade" (1 Tm 6:3). Esse ensi­ 9:15-19). Em momento algum usou sua pre­
no é piedoso e produz piedade. O primeiro gação com "intuitos gananciosos" (1 Ts 2:5).
teste de Isaías a qualquer mestre era: "À lei Com o é triste ver os charlatães religiosos de
e ao testemunho! Se eles não falarem desta hoje se aproveitarem de pessoas ingênuas,
maneira [de acordo com esta palavra], ja­ prom etendo-lhes ajuda enquanto tom am
mais verão a alva" (ls 8:20). É importante seu dinheiro.
que a igreja "[mantenha] o padrão das sãs A fim de advertir Tim óteo - e de nos
palavras" (2 Tm 1:13). advertir - sobre os perigos da ganância, Pau­
Outra característica é a atitude do mes­ lo apresenta quatro fatos:
tre. Em vez de ser humilde, o falso mestre é A riqueza não traz contentamento (v. 6).
orgulhoso; e, no entanto, seu orgulho é infun­ O termo "contentam ento" significa "um a
dado, pois ele não sabe coisa alguma (1 Tm suficiência interior que nos mantém em paz
6:4; ver também 1:7). apesar das circunstâncias exteriores". Paulo
Um cristão que com preende a Palavra usa a mesma palavra quando diz: "Porque
tem um coração ardente, não um ego inflado aprendi a viver contente em toda e qualquer
306 1 T IM Ó T E O 6

situação" (Fp 4:11). O verdadeiro contenta­ O desejo de riqueza conduz ao pecado


mento vem da piedade no coração, não do (w . 9, 10). A tradução exata é: "os que fica­
dinheiro na mão. A pessoa que depende de rão ricos" e descreve pessoas que precisam
bens materiais para ter paz e segurança nun­ de cada vez mais coisas para ser felizes e se
ca ficará satisfeita, pois as coisas sempre sentirem bem-sucedidas. Mas as riquezas são
acabam perdendo seu atrativo. São os ricos, uma armadilha; conduzem à escravidão, não
não os pobres, que consultam os psiquia­ à liberdade. Em vez de saciar, as riquezas
tras e que se mostram mais propensos a criam outras concupiscências (desejos) a se­
cometer suicídio. rem satisfeitas. Paulo dá uma descrição vívi­
A riqueza não é duradoura (v. 7). Gosto da dos resultados: "muitas concupiscências
de traduzir esse versículo com as palavras insensatas e perniciosas [...] afogam os ho­
de Jó: "Porque nada temos trazido para o mens na ruína e perdição" (1 Tm 6:9). Vemos
mundo, nem coisa alguma podemos levar aqui a imagem de um homem se afogando!
dele" (ver Jó 1:21). Quando uma pessoa Ele confiava em suas riquezas e navegava
morre e o espírito deixa o corpo, não pode tranqüilamente pela vida, quando veio a tem­
levar coisa alguma consigo, pois ao vir ao pestade e o afundou.
mundo não trouxe coisa alguma. Todos os É perigoso usar a religião como fachada
seus bens vão para o governo, para seus her­ para obter riquezas. Por certo, o obreiro de
deiros ou, talvez, para organizações filantró­ Deus é digno de seu salário (1 Tm 5:1 7, 18),
picas e para a igreja. A resposta à pergunta: mas sua motivação para trabalhar não é o
"quanto ele deixou?" é de conhecimento dinheiro. Se fosse, ele seria apenas um "mer­
geral: tudo! cenário", não um verdadeiro pastor (Jo
Nossas necessidades físicas podem ser 10:11-14). Não devemos perguntar: "Quan­
supridas com facilidade (v. 8). O alimento e to vou ganhar com isso?", mas sim: "Quanto
a "cobertura" (roupas e abrigo) são neces­ posso dar?"
sidades básicas; se as perdemos, ficamos
desprovidos da capacidade de obter outras 3. O pastor (1 T m 6:11-16, 20, 21)
coisas. Um avarento sem comida pode mor­ Enquanto cuidava das necessidades de seu
rer de fome contando seu dinheiro. Isso me rebanho, Timóteo também deveria cuidar
lembra a história de um quacre que levava de si mesmo. Uma das admoestações de
uma vida muito simples observando seu vi­ Paulo é: "Tem cuidado de ti mesmo" (1 Tm
zinho novo se mudar com todos os ape­ 4:1 6). As palavras: "Tu, porém" (1 Tm 6:11)
trechos e "brinquedos" que as "pessoas de indicam um contraste entre Timóteo e os
sucesso" acumulam. Por fim, o quacre foi falsos mestres. Eram homens do mundo, en­
até a casa do vizinho e disse: quanto Timóteo era um "homem de Deus".
- Senhor, se precisares de alguma coisa, Essa designação especial também é usada
avisa-me, e eu te direi como poderás viver para Moisés (Dt 33:1), para Samuel (1 Sm
sem ela. 9:6), para Elias (1 Rs 17:18) e para Davi (Ne
Henry David Thoreau, naturalista do sé­ 12:24), de modo que Timóteo estava em
culo xix, dizia que a riqueza de um homem boa companhia.
é diretamente proporcional ao número de Paulo dá a Timóteo quatro admoestações
coisas sem as quais ele é capaz de viver. que, se fossem obedecidas, garantiriam o seu
As crises que o mundo enfrenta na eco­ sucesso no ministério e a continuidade de
nomia e energia provavelmente serão usa­ seu testemunho como "homem de Deus".
das por Deus para estimular as pessoas a Foge (v. 11a). Há ocasiões em que fugir
simplificar seu modo de viver. Muita gente é sinal de covardia. "Homem como eu fugi­
"sabe o preço de tudo, mas não sabe o va­ ria?", perguntou Neemias (Ne 6:11). Mas,
lor de coisa alguma". Estamos tão saturados em outras ocasiões, fugir é sinal de sabedo­
de luxos que nos esquecemos de como ria e um meio de alcançar a vitória. José fu­
desfrutar as coisas mais essenciais. giu quando foi tentado pela esposa do seu
1 T IM Ó T E O 6 307

senhor (Gn 39:12), e Davi fugiu quando o Esse "combate", porém, não é entre os
rei Saul tentou matá-lo (1 Sm 19:10). O ver­ cristãos, mas sim entre uma pessoa de Deus
bo "fugir" que Paulo usa aqui não se refere e os inimigos a seu redor. A luta é para de­
ao ato literal de correr, mas sim ao ato de fender a fé, o conjunto de verdades confia­
Timóteo separar-se dos pecados dos falsos das à igreja (ver 1 Tm 6:20). Com o Neemias
mestres. Trata-se de uma repetição da ad­ na Antiguidade, os cristãos de hoje precisam
moestação em 2 Timóteo 3:5: "Foge tam­ ter seu instrumento de trabalho em uma das
bém destes". mãos e a espada na outra (Ne 4:17). É triste
Nem toda união é boa e nem toda divi­ quando alguns cristãos dedicam-se de tal
são é ruim. Há ocasiões em que o servo de modo a lutar contra o inimigo que não lhes
Deus deve posicionar-se com respeito a fal­ sobra tempo para fazer seu trabalho e edi­
sas doutrinas e práticas ímpias e se separar ficar a igreja. Entretanto, se não nos man­
de tais coisas. Deve certificar-se, porém, de tivermos vigilantes e não fizermos frente ao
estar agindo com base em uma convicção inimigo, tudo o que edificam os pode ser
bíblica, não em função de preconceitos pes­ tirado de nós.
soais ou de um espírito carnal de partidarismo. O que nos encoraja na batalha? Temos
Segue (v. 11b). Separação sem cresci­ a "vida eterna", e é preciso tomar posse dela
mento positivo transforma-se em isolamen­ e deixar que atue em nossas experiências.
to. É preciso cultivar essas graças do Espírito Fomos chamados por Deus, e isso nos ga­
em nossa vida, pois, de outro modo, seremos rante a vitória. Professamos publicamente
conhecidos por aquilo a que nos opomos, nossa fé em Cristo, e os outros cristãos da
não por aquilo que propomos. igreja estão a nosso lado.
"Justiça" significa "integridade pessoal". Outro encorajamento na batalha é o tes­
"Piedade" quer dizer "devoção prática". A temunho de Jesus Cristo, nosso Salvador. Ele
primeira é relacionada ao caráter; a segun­ "fez a boa confissão" (1 Tm 6:13) diante de
da, à conduta. Pôncio Pilatos e não cedeu ao inimigo. Sa­
A palavra "fé" pode ser traduzida por "fi­ bia que Deus Pai estava com ele, cuidando
delidade". Alguém disse bem que a maior dele, e que seria ressuscitado dentre os
habilidade é a confiabilidade. mortos. É Deus "quem dá vida a todas as
O "amor" é o amor ágape, que se sacri­ coisas" (tradução literal), e ele cuida de nós,
fica pelos outros. Procura dar, não receber. de modo que não precisamos ter medo. A
A "constância" dá a idéia de "perseve­ timidez natural de Timóteo talvez o tentasse
rança", de permanecer firme, mesmo quan­ a fugir da batalha. Mas tudo o que ele preci­
do as dificuldades vêm. N ão se trata de sava fazer para ser encorajado era lembrar
comodismo, mas sim de uma coragem que de Jesus Cristo e de sua confissão ousada.
prossegue em meio à adversidade. Paulo dá ordens militares a Tim óteo:
"M ansidão" não é o m esmo que fra­ "Exorto-te [Ordeno-te]" (1 Tm 6:13, e tam­
queza; antes, é "poder sob controle". A per­ bém 1:3). Timóteo deveria atentar para esse
severança corajosa sem mansidão torna o mandato e obedecer, pois, um dia, teria de
indivíduo um tirano. Talvez o termo "bran­ prestar contas de sua missão ao Com andan­
dura" expresse melhor seu significado. te! A única maneira de estar preparado era
Com bate (vv. 12-16). O verbo significa obedecer às ordens e se guardar "imaculado,
"continua com batendo!" A palavra grega irrepreensível" (1 Tm 6:14).
dá origem a nosso verbo agonizar e se apli­ O termo grego traduzido por "manifes­
ca tanto a atletas quanto a soldados. Descre­ tação" (1 Tm 6:14) dá origem a nossa pa­
via uma pessoa esforçando-se ao máximo e lavra epifania, que significa "manifestação
dando o melhor de si a fim de conquistar gloriosa". No tempo de Paulo, esse termo
um prêmio ou de vencer uma batalha. Perto era usado na m itologia para descrever a
do fim da própria vida, Paulo escreveu: aparição de um deus, especialmente para
"Combati o bom combate" (2 Tm 4:7). livrar alguém de suas dificuldades. Paulo
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emprega essa palavra para se referir à pri­ de Deus que ilumina a cidade (Ap 21:11,
meira vinda de Jesus Cristo (2 Tm 1:10) e a 23, 24; 22:5). É evidente que a luz simboliza
sua volta (2 Tm 4:1, 8). Não sabemos quan­ a santidade (1 Jo 1:5-7). Deus permanece
do Cristo voltará, mas será "em suas épocas separado do pecado, e Deus é glorioso em
determinadas" (1 Tm 6:15), e Deus conhe­ sua santidade.
ce o cronograma. Nossa incumbência é ser É impossível um homem pecaminoso
fiel a ele a cada dia e permanecer nele (1 Jo aproximar-se de Deus. Somente por meio
2:28). de Jesus Cristo é que podemos ser aceitos
O sujeito de 1 Timóteo 6:16 é Deus, o na presença do Senhor. No Antigo Testamen­
Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Ele to (Gn 32:30), Jacó viu Deus em uma de
é o único Soberano, ainda que outros usem suas aparições na Terra, e Deus permitiu que
esse título. A designação "Soberano" (1 Tm Moisés visse parte de sua glória (Êx 33:18-
6:15) vem de uma palavra que significa "po­ 23). A declaração "ninguém jamais viu a
der" e que dá origem a nosso termo "poten­ Deus" (Jo 1:18) refere-se a ver a Deus em
tado". Os reis e governantes da Terra talvez sua essência, em sua natureza espiritual. É
imaginem ter poder e autoridade, mas Deus possível apenas ver manifestações de sua
é soberano sobre todos eles (ver SI 2). essência, como na Pessoa de Jesus Cristo.
O título "Rei dos reis e Senhor dos se­ Por que Paulo escreve tanto sobre a Pes­
nhores" (1 Tm 6:15) nos lembra de Jesus soa e a glória de Deus? Provavelmente, como
Cristo (Ap 17:14; 19:16); mas, aqui, ele é uma advertência sobre o "culto ao impera­
usado para Deus o Pai. É evidente que Jesus dor" que existia no império romano. Cos­
Cristo nos revela o Pai, de modo que tam­ tumava-se dizer, com freqüência: "César é
bém lhe é de direito usar esse título. Senhor!" É evidente que os cristãos diziam
"Imortalidade" (1 Tm 6:16) significa "não "Jesus Cristo é Senhor!" Somente Deus tem
estar sujeito à morte". O homem está sujei­ "honra e poder eterno" (1 Tm 6:16b). A
to à morte, mas Deus não. Somente Deus fim de combater o bom combate, Timóteo
possui a imortalidade como parte essencial deveria estar certo de que somente Jesus Cris­
e inerente de seu ser. Ele é "imortal, invisí­ to era digno de adoração e de devoção total.
vel, Deus único" (1 Tm 1:17). Uma vez que Sê fiel (w. 20, 21). Deus havia confiado
Deus não está sujeito à morte, ele é Vida a verdade a Paulo (1 Tm 1:11), e Paulo con­
e é o Doador da vida. Ele é incorruptível e fiou-a a Timóteo. Era responsabilidade de
não está sujeito à corrupção e mudança. Timóteo guardar o que lhe havia sido trans­
Nesta vida, os cristãos se encontram num mitido e passar adiante a outros, que fariam
corpo mortal, mas quando Jesus Cristo vol­ o mesmo, guardando e comunicando a ver­
tar, compartilharão da sua imortalidade (1 Co dade (2 Tm 2:2). Essa é a maneira de Deus
15:50-58). proteger a verdade e de propagá-la por todo
É importante lembrar que Paulo explica o mundo. Somos despenseiros das doutri­
todas essas verdades acerca de Deus a fim nas da fé, e Deus espera que sejamos fiéis
de estimular Timóteo a "combater o bom ao compartilhar suas boas-novas.
combate" e não desistir. Não precisamos O saber (1 Tm 6:20) não é a tecnologia
temer o que nos acontece em vida, pois que consideramos hoje como ciência. Uma
Deus é Soberano sobre tudo; não precisa­ tradução mais apropriada seria "o conheci­
mos temer a morte, pois ele compartilha sua mento, assim chamado equivocadamente".
imortalidade conosco. Aqui, Paulo refere-se aos ensinamentos do
Timóteo vivia na cidade ímpia de Éfeso, grupo herético dos "gnósticos", que afirmam
mas Deus habita em luz gloriosa. "O aspec­ possuir um "conhecimento espiritual espe­
to da glória do S e n h o r era como um fogo cial". (O termo grego para "conhecimento"
consumidor" (Êx 24:17). "Coberto de luz é gnosis. Um "agnóstico" é alguém que não
como de um manto" (SI 104:2). A descrição sabe. Um gnóstico é alguém que afirma sa­
que João apresenta do céu enfatiza a glória ber muitas coisas.)
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N ão há necessidade de entrar em deta­ proprietários, apenas despenseiros. Se te­


lhes quanto às asserções heréticas dos gnós- mos riquezas, é pela bondade de Deus, não
ticos. A Epístola de Paulo aos Colossenses por algum mérito especial de nossa parte. A
foi escrita para combater tais ensinamentos. posse de bens materiais deve tornar a pes­
Esses indivíduos afirmavam ter "conhecimen­ soa humilde e levá-la a glorificar a Deus, não
to espiritual especial" adquirido por meio de a si mesma.
visões e de outras experiências. Também É possível ser rico "[no] presente século
afirmavam saber de "verdades ocultas" nas [mundo]" (1 Tm 6:1 7) e pobre no mundo
Escrituras do Antigo Testamento, especial­ por vir. Também é possível ser pobre neste
mente nas genealogias. Para eles, a matéria mundo e rico no mundo por vir. Jesus falou
era má, e ensinavam que uma série de "ema­ sobre am bos os casos (Lc 16:19-31). N o en­
nações" ligava Deus ao homem. D e acordo tanto, um cristão também pode ser rico nes­
com eles, Jesus Cristo era apenas a maior te m undo e no outro, se usar o que tem
dessas emanações. para honrar a Deus (Mt 6:19-34). Na verda­
Na verdade, a doutrina dos gnósticos era de, uma pessoa pobre neste mundo pode
uma mistura estranha de cristianismo, misti­ usar até seus limitados recursos para glorifi­
cism o orientai, filosofia grega e legalismo car a Deus e ser grandemente recompensa­
judaico. C o m o muitas seitas orientais que da no mundo por vir.
vem os hoje em dia, ofereciam "algo para Confiem em Deus, não nas riquezas (v.
todos os gostos". Mas Paulo resume tudo o 17b). O fazendeiro rico da parábola de Je­
que ensinavam em uma única frase arrasa­ sus (Lc 12:13-21) pensou que sua riqueza
dora: "falatórios inúteis e profanos". Phillips representava segurança, quando na realida­
traduz essa expressão por "mistura ímpia de de, era evidência de sua insegurança. Ele não
conceitos contraditórios". estava confiando em Deus de coração. As
Por que Timóteo deveria evitar esses en­ riquezas são incertas, não apenas em seu
sinamentos? Porque alguns que se envolve­ valor (que muda constantemente), mas tam­
ram com eles "se desviaram da fé" (1 Tm bém em sua durabilidade. O s ladrões po­
6:21). Não são apenas motivações erradas dem roubar os bens, os investimentos podem
(com o o desejo de ganhar dinheiro) que le­ desvalorizar e o tempo pode corroer casas
vam as pessoas a se desviarem da fé (1 Tm e carros. Se Deus nos der riquezas, devemos
6:10); ensinamentos errados também podem confiar nele, o Doador, não nas dádivas.
desencaminhá-las. Essas mentiras infiltram-se Desfrutem o que D eus lhes der (v. 17c).
gradativamente na mente e no coração da Sim, a palavra "desfrutar" está na Bíblia! N a
pessoa, e, antes que se dê conta, já está an­ verdade, um dos temas que se repetem ao
dando fora do caminho da verdade. longo de Eclesiastes é "desfrutar as bênçãos
hoje, pois, um dia, esta vida chegará ao fim"
4. O s r ic o s (1 T m 6:17-19) (ver Ec 2:24; 3:12-15, 22; 5:18-20; 9:7-10;
Paulo escreveu sobre o perigo do amor ao 11:9, 10). Não se trata de "hedonismo" pe­
dinheiro, mas acrescenta uma "ordem" es­ caminoso nem de viver em função dos pra-
pecial para Timóteo transmitir aos ricos. Ao zeres da vida, mas sim de aproveitar o que
contrário do que se pode imaginar, essa or­ Deus nos dá para sua glória.
dem aplica-se a nós. Afinal, nosso padrão de Usem o que D eus lhes der (w. 18, 19).
vida hoje certamente nos faz "ricos" em com ­ Devemos usar as riquezas para fazer o bem
paração com a congregação de Timóteo! a outros; devemos compartilhar e também
Sejam hum ildes (v. 17a). S e a riqueza aplicar nosso dinheiro. Desse modo, enrique­
torna alguém orgulhoso, isso mostra que cem os a nós mesmos espiritualmente e fa­
não com preende a si mesmo nem sua ri­ zem os investimentos para o futuro (ver Lc
queza. "Antes, te lembrarás do S e n h o r , teu 16:1-13). "A fim de se apoderarem da verda­
Deus, porque é ele o que te dá força para deira vida" (1 Tm 6:19) não significa que
adquirires riquezas" (Dt 8:18). Não somos essas pessoas não eram salvas. Um modo
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mais adequado de expressar isso seria: "a graça seja convosco". Paulo pensava na
fim de tomarem posse da vida que é real". igreja toda quando escreveu essa carta e,
As riquezas podem atrair as pessoas a um sem dúvida, se dirigiu a todos os presbíteros,
mundo de fantasia, repleto de prazeres su­ não apenas a Timóteo. Como líder da igre­
perficiais. Mas as riquezas somadas à von­ ja, Timóteo deveria atentar para as pala­
tade de Deus podem conduzir a uma vida vras do apóstolo; mas todos os membros da
real e a um ministério duradouro. igreja tinham a responsabilidade de ouvir e
A última frase de Paulo não é para Ti­ obedecer. Temos a mesma responsabilida­
móteo, pois o pronome está no plural: "A de hoje.