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MANTRACARIAS E TANTRAS BOBAGENS...

Todos os Grimoires ou 'Livros Negros' da magia insistem que você deve conhecer o
verdadeiro nome dos demônios ou anjos com quem está lidando. Alguns deles, tais
como o Legemeton, ou 'Livro dos Espíritos', nada mais são que grandes listas
telefônicas combinadas com o Quem É Quem do mundo dos espíritos. Estes livros dão
os nomes, poderes, localização hierárquica, aparência e assinaturas de todos os mais
importantes anjos e demônios, assim como coleções de receitas para encantos e rituais.
Exceto ao analista literário e ao teãrico taumaturgo, são totalmente inúteis.

Quando estamos desenhando um pentáculo (círculo mágico de invocações - n.t.) é


importante que tenhamos colocado nele pelo menos meia dúzia de nomes sagrados,
preferencialmente em hebraico, ao redor do perímetro dos círculos. De fato, um
encantamento não poderia ser feito sem algumas corrupções, erros de pronúncia e de
soletragem dos vários nomes dos vários deuses. Cerca de metade das palavras em
qualquer ritual pseudo-cabalístico irão ser nomes de Deus. Já que o ocultismo ocidental
era monoteísta, todos os nome eram de YHVH, de seus amigos ou inimigos. Mesmo nos
dias de hoje, os cultos das ditas feiticeiras-brancas entopem seus serviços com as
mesmas corrupções cansadas e monótonas desses velhos nomes.

No Tantra as coisas são um pouco mais flexíveis. Você pode usar o nome dos deuses
maiores em rituais, mas você dispõe também de mais espaço. Entre outras coisas, isto
acontece devido ao princípio de varna, que diz que o som é eterno e que cada letra do
alfabeto é um deus! As palavras então, são coleções de deuses e seus significados reais
não são conferidos pelos seres humanos, mas são uma função das próprias letras. O
ocultismo judaico aproxima-se deste conceito, e os Celtas e Teutões pagãos
aproximaram-se ainda mais, com seus conceitos de jogar as runas, mas nenhum deles
foi mais longe. No Tantra, entretanto, cada palavra pode ser uma Palavra de Poder.
Mesmo lixo é uma palavra sagrada, porque é uma coleção dos deuses l, i. x e o. Você
pode ver que isto pode conduzir facilmente para coisas muito divertidas e jogos na
religião e meditação, especialmente quando consideramos quantas pessoas adoram este
grande deus acima mencionado.

Um parente próximo disto é a teoria do germe do som no Tantra. Cada entidade possui
um germe sonoro, no sentido de germinação e não de infecção - embora este último
sentido conduz a algumas idéias não-tântricas. Ao repetir este germe sonoro, podemos
criar a entidade a partir do nada - ele não existia necessariamente antes que a tivéssemos
CRIADO. Muitos poucos outros grupos clamaram este poder em criar deuses; entre os
poucos que posso pensar no momento, temos os sacerdotes egípcios e os antigos
Theurges gregos. (Entretanto, esta técnica não foi perdida e existem grupos trabalhando
nela de maneira eficiente na atualidade, n.t.)

Por exemplo, o famoso mantra OM, na realidade é o ditongo AUM. Algumas seitas
afirmam que o A significa Vishnu, o U, Shiva e o M, Brahma. Outras dizem que o A
significa Agni, ou o fogo; o U, Varuna, a água e o M, para Marut, o ar. De qualquer
maneira, temos a combinação dos sons germinais AUM invocando uma trindade ou
soma de deidades na forma de uma trindade.

A pronúncia solene de uma grande Verdade é chamada de isatya-vacana, e se imagina


que seja um ato muito poderoso (assim como a emissão por parte do Sumo-Sacerdote
judeu do Nome Impronunciável, numa única vez por ano, por sobre a comunidade,
acompanhada do gesto ritual- mudra? - n.t.). Dharanis são credos compostos de uma
única frase e muito comuns como mantras; freqüentemente são abreviações ou resumos
de longos sutras (livros); não importa se são Orientais ou Ocidentais. Dizeres tais como
'Jesus Cristo morreu por nossos pecados' era um método comum de expulsão de
demônios na Idade Média; atualmente dizemos, 'o seu id não gosta do seu ego' (ou 'a
sua persona não consegue suportar a sombra' - n.t.) para obter o mesmo resultado. 'Em
Nome do Pai, Filho e Espírito Santo' nos diz bastante sobre a religião católica; numa
única frase temos o credo da Trindade, uma Verdade Solene e a invocação do deus
(deuses?). Mas, logicamente todos nós sabemos que o Catolicismo nada tem a ver com
uma superstição tal como a do Tantrismo. Pergunte a qualquer teólogo cristão.

Uma religião oriental fazendo rápidos progressos no Ocidente, faz uso do mantra Nam-
myo-ho-renge-kyo (dê voz à sua devoção para a maravilhosa lei da vida: causa e efeito).
O grupo, chamado de Nicheren Shoshu é, basicamente, o Budismo Mahayana,
misturado com um forte chauvinismo e militarismo japonês. A associação leiga,
chamada de Soka Gakkai, na realidade controla a religião com mão de ferro. Os fundos
e donativos, constantemente requisitados, são afunilados diretamente aos cofres do
Partido Komeito, que agora é o terceiro maior partido do Japão. Dizer que as atitudes
neo-fascistas do Komeito estão causando preocupação mundial seria colocar a coisa de
forma suave. De fato, o Soka Gakkai inteiro está listado oficialmente pelo governo dos
Estados Unidos como uma organização subversiva e fascista.

O grupo foi fundado no final do século treze por um monge budista bastante irritadiço
chamado Nicheren, que estava completamente convencido que todas as outras religiões
(especialmente os grupos budistas competidores), eram compostos de traidores e
demônios. Ele mesmo se achava uma reencarnação do Buda Gautama e morreu aos
sessenta anos de diarréia crônica (A Vingança de Daruma). O culto que fundou tornou-
se uma das poucas seitas budistas na história a imitar os métodos ocidentais de
conversão: sangue, dor e morte. Nos dias de hoje os seus seguidores fazem uso de um
método evangélico altamente agressivo, conhecido como Shakabuku (quebrar e
dominar). Fui atraído para este grupo há vários anos atrás e posto fora a pontapés três
meses depois por heresias - por fazer perguntas impróprias. O grupo fez mais de onze
milhões de conversos, incluindo duzentos mil nos Estados Unidos pelo uso de tais
métodos de atirar-se sobre a presa, fazer ameaças e lavagens cerebrais naquilo que o
governo japonês descreveu como uma forma quase gangsteriana, com uso de
organização militar. Naturalmente, a maioria dos membros ocidentais ingressam
honestamente, nunca imaginando onde estão colocando os pés. E o grupo proclama
ideais nobres - um fim para a guerra, racismo, pobreza, e assim por diante. Este é um
dos melhores exemplos de como devemos aprender a separar o valor de um mantra dos
objetivos daqueles que fazem uso deste - porque o mantra é muito poderoso.

Um outro mantra que está se tornando famoso no ocidente é o do Movimento para a


Consciência de Krishna. É muito fácil de aprender, aqui vai: Hare Krishna, Hare
Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare; Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare.
Ora, hare significa salve e Krishna e Rama são cerca de meia dúzia de herãis misturados
e deuses no panteão Hindu, de forma que o mantra é facilmente destrinchável. O grupo
atuando agora no ocidente afirma datar de 1486 na Índia, quando supostamente, Krishna
reencarnou-se para poder apresentar este mantra ao mundo. Embora existam vários
sabores de Krishna e mesmo de Rama no Hinduísmo (tal como sorvete de chocolate
krishna, legumes Rama...), este grupo diz que eles são todos o mesmo deus. Uma vez
que estamos todos, logicamente vivendo no pior de todos os mundos e tempos (o Kali
Yuga), somos incapazes de fazer nada mais que os esforços mais simplistas em direção
à obtenção da iluminação, daí o uso de mantras.

Temos um bom contingente de praticantes deste movimento na Bay Area (São


Francisco-Califórnia) e a observação mostra que, contrariamente ao que se afirma, seus
praticantes estão longe de serem santos instantâneos. Até agora o movimento é
composto de pessoas da rua e de hippies com suas mentes derretidas, buscando por uma
nova muleta; assim, vestem-se em lençóis alaranjados e tênis, raspam a cabeça e
mendigam nas ruas enquanto cantam o mantra ao som do hino nacional. Neste intervalo,
vendem incenso de péssima qualidade a preços inflacionados. Todo o dinheiro coletado
não paga impostos e, em teoria, vai para a casa e alimenta os membros do grupo e os
pobres. Na realidade, parece que a maior parte deste serve também para fazer com que
os líderes locais fiquem ricos e confortáveis.

Antes que você comece a pensar que este tipo de predação feita sobre os pobres é algo
limitado a religiões 'pagãs', posso também mencionar um grupo em Berkeley, chamado
de Frente de Liberação do Mundo Cristão. Na realidade é uma ponta de lança de um
outro grupo de extrema direita, chamado 'Cru$ada do Campu$ Para Cri$to' e faz
exatamente a mesma coisa que o grupo anteriormente mencionado. Aqui, o mantra
utilizado é Jesus Salva, e da mesma maneira, é feita a troca de uma muleta por outra, já
que nenhum de seus convertidos tem poder mental suficiente para compreender
qualquer teologia que porventura esteja ali sendo apresentada. Uma vez que o grupo
dispõe de muito dinheiro, sua ênfase é colocada na conversão de drogados e estudantes,
transformando-os em evangélicos. Não tiveram muito sucesso com os estudantes, que
ressentem-se de qualquer forma de coopção de sua retórica revolucionária, mas a FLMC
converteu muitos viciados e pessoas de rua. Ao invés de queimar ou injetar uma porção
de droga qualquer, eles arrancam uma página da Bíblia e a queimam, derretem e injetam
(texto literal - n.t.). Os evangelistas-drogados horrorizam os ministros locais mais do
que os pseudo-grupos Budistas e Hindus.

Ainda um outro grupo fazendo uso de mantras na América são os nossos


revolucionários amadores locais. Seus mantras incluem peças raras tais como 'Poder ao
Povo' e 'Fora com os Corruptos'. Novamente se concentram no recrutamento de mentes
derretidas por drogas que desejam ser manipuladas 'para o seu próprio bem' pelos
políticos. Em todos os momentos que passei em Berkeley, encontrei apenas dois
Comunistas verdadeiros (acima de 60 anos de idade), duzentos "Marxistas", "Maoístas",
"Trotskistas" e "Castroístas" auto-assumidos, e assim por diante. Ainda assim muitos
poucos, se que é algum, haviam lido o Das Kapital ou as vidas e obras de seus heróis.
Mais uma vez temos um grupo que acredita que a mera repetição de seus slogans irá
mudar o mundo (como realmente mudaria, caso soubessem como fazer uso apropriado
de seus mantras).

Poucas pessoas percebem que na América, todos fomos treinados a apresentar um


reflexo condicionado a slogans, as versões americanas dos mantras. A maior parte das
pessoas saudáveis são capazes de apresentar alguma resistência e aprendem a
discriminar entre dizeres e slogans, mas não aquelas que fizeram ou fazem uso do álcool
ou qualquer outra droga potencialmente destruidora de suas mentes. E aqui em
Berkeley, temos uma grande cultura fundamentada em drogas pesadas, debaixo do
controle exercido com mão de ferro por uma das mais organizadas redes do crime no
país. Todos os tipos de drogas capazes de fornecer paz foram banidas e a única coisa
que as pessoas tem à disposição agora são drogas como heroína e metanfetamina
(diluída na metade das vezes com veneno de rato). O resultado é um grande número de
pessoas vivendo num gueto apinhado, que são tão violentas e paranóicas que irão
participar de qualquer levante social e movimento de violência ao simples mencionar de
qualquer slogan. Tal é o poder dos mantras sobre as mentes não treinadas ou
perturbadas, que a Universidade de Berkeley adquiriu uma péssima reputação; tudo por
causa dos levantes sociais causados não pelos políticos, mas pelo Sindicato. Mas então,
tanto os políticos de extrema esquerda, como da direita, gostam que as coisas estejam
desta maneira (e não, não estou querendo implicar que nunca existam causas justas para
algum tipo de demonstração). Apenas me pergunto se poderia haver algum tipo de
conexão entre este estado de assuntos políticos e o fato de que o crime organizado em
Berkeley recebe total aceitação seja pelas autoridades locais, estaduais e federais. Ainda
tenho de encontrar um político com coragem suficiente para mergulhar nesta lata de
minhocas em particular.

Afortunadamente, os Budistas, Hindus, 'Os Desvairados de Jesus' e outros grupos de


extrema direita parecem estar embarcando numa Guerra Santa de larga escala e com
sorte, acabarão exterminando uns aos outros.

Phillip Emmons Isaac Bonewits, Real Magic, Open Gate Books, 1971, p.79-84

Publicado no Tentáculo

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