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Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Fluminense

Curso Superior de Tecnologia em Design Gráfico

O Design de Baralho
e a Criação de um Produto

José Jorge Lirio Junior | Philipe Marques Ravaglia


José Jorge Lirio Jr
Philipe Marques Ravaglia

O design de baralho e a criação de um produto.


Trabalho de conclusão de curso apresentado ao Instituto Federal de
Educação, Ciência e Tecnologia Fluminense, como requisito parcial
para conclusão do Curso Superior de Tecnologia em Design Gráfico.

Orientador: Prof. Hugo Reis Rocha

Campos dos Goytacazes


2012
JOSÉ JORGE LIRIO JUNIOR
PHILIPE MARQUES RAVAGLI A

O Design de Baralho e a Criação de um Produto

Trabalho de conclusão de curso apresentado ao


Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia

Aprovado em 13 de novembro de 2012.

Banca Avaliadora:

Hugo Reis Rocha (orietador)


MBA em marketing empresarial/UFF
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Fluminense

Dr. Marcos Antonio Esquef Maciel (IFF)


D. Sc. em Educação/UFF
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Fluminense

Leonardo de Vasconcelos Silva (IFF)


Bacharel em Desenho Industrial/PUC-RJ
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Fluminense
Agradecimentos:

Aos amigos e familiares

Ao orientador
Prof. Hugo Reis Rocha

E aos professores

Prof. Dr. Marcos Antonio Esquef Maciel


Prof. Leonardo de Vasconcelos Silva
SUMÁRIO
10 Introdução
12 Breve história do baralho
13 A origem
14 A evolução
16 Produção gráfica no design de baralho
20 O baralho no Brasil
22 Análise visual: linha do tempo
32 Design
34 Conceituação do produto
35 Estratégia
35 Painel semântico
38 Projeto gráfico
39 O logotipo
41 Os Naipes
43 As cores
44 A face neutra
46 A tipografia
47 As cartas númericas
48 O ás
50 As cartas da corte
58 O joker
60 Produção do baralho Diamond
66 Apêndice
72 Considerações finais
74 Referências bibliográficas
LISTA DE FIGURAS
Fig.1 Baralho impresso no século XIX em cromolitografia 17 Fig.37 Simbologia dos naipes 39
Fig.2 Baralho estilo dominó Chinês 21 Fig.38 Naipes do baralho Diamond 40
Fig.3 Ás de copas do primeiro baralho Mouro 22 Fig.39 Rough naipes 40
Fig.4 Baralho Mouro 22 Fig.40 Cores 41
Fig.5 Cartas de baralho italiano 23 Fig.41 Rough grafismo 42
Fig.6 Baralho Mameluco 23 Fig.42 Definição do grafismo 42
Fig.7 Cartas produzidas na França ou Borgonha 23 Fig.43 Faces neutras do baralho Diamond 43
Fig.8 Baralho inglês 24 Fig.44 Família tipográfica Din1451 44
Fig.9 Baralho alemão 24 Fig.45 Tipografia adaptada 44
Fig.10 Baralho espanhol 25 Fig.46 Cartas numéricas do baralho Diamond 45
Fig.11 Baralho de Tarô 25 Fig.47 Ases do baralho Diamond 47
Fig.48 Rough personagem reis 49
Fig.12 Baralho inglês séc. XVIII 26
Fig.49 Rough personagem damas 49
Fig.13 Cartas da corte de baralho inglês 26
Fig.50 Rough personagem valetes 49
Fig.14 Baralho italiano 26
Fig.51 Rei de paus 50
Fig.15 Cartas da corte de baralho italiano 27
Fig.52 Rei de espadas 50
Fig.16 Cartas da corte de baralho francês 27
Fig.53 Rei de copas 51
Fig.17 Baralho inglês moderno 28
Fig.54 Rei de ouros 51
Fig.18 Cartas da corte de baralho inglês 28
Fig.55 Dama de paus 52
Fig.19 Baralho translúcido 29
Fig.56 Dama de espadas 52
Fig.20 Baralho de pôquer moderno 29
Fig.57 Dama de copas 53
Fig.21 Baralho de fundo preto 29
Fig.58 Dama de ouros 53
Fig.22 “Lizard” de M. C. Escher, 1942 34 Fig.59 Valete de paus 54
Fig.23 “Reliefstructure” de Gerard Caris, 2000 34 Fig.60 Valete de espadas 54
Fig.24 “Gif arte”de Rick Silva, 2011 34 Fig.61 Valete de copas 55
Fig.25 “With the Egg” de Paul Klee, 1917 34 Fig.62 Valete de ouros 55
Fig.26 Abstracionismo geométrico de Jessica Eaton 2011 34 Fig.63 Joker do baralho Diamond 56
Fig.27 “Sem título” de Max Bill, 1970 34 Fig.64 Kit completo produzido do baralho Diamond 59
Fig.28 “Sem título”de Richard Blanco, 2012 35 Fig.65 Baralho e ases 60
Fig.29 Postêr olimpiada de Munique de Max Bill , 1972 35 Fig.66 Detalhe caixa do baralho Diamond 60
Fig.30 “Rose Garden”, de Paul Klee, 1920 35 Fig.67 Detalhe faces neutras 60
Fig.31 “White Pyramid” de James Turrel, 1968 35 Fig.68 Detalhe kit completo 61
Fig.32 “Tri-Colour Angles de Jessica Eaton 2011 35 Fig.69 Detalhe caixas 61
Fig.33 “Ciclo” de M. C Escher, 1938 35 Fig.70 Detalhe reis 61
Fig.34 Criação do ambigrama Diamond 37 Fig.71 Detalhe baralho aberto 62
Fig.35 Rough logotipo Diamond 37 Fig.72 Cartas do baralho Diamond 62
Fig.36 Logotipo Diamond 38 Fig.73 Baralho sobre a mesa 63
INTRODUÇÃO
11

O presente trabalho consiste na elaboração de


um produto, levando-se em consideração aspectos
dos aspectos gráficos que compõem um baralho.
A partir dessa análise será criado um produ-
evolutivos do design de baralhos desde sua con- to que agregue, portanto, as características da evo-
cepção em diferentes culturas até os dias atuais. lução do baralho como um produto e que reflita as
O foco deste projeto está no estudo comparativo características atuais do design.
da evolução do design de baralhos e no desenvol- O desenvolvimento deste projeto gráfico
vimento de um produto final: duas família de ba- traz consigo a importância de demonstrar através
ralhos com 52 cartas. deste estudo as vertentes desta área do conheci-
Neste trabalho serão abordadas as eta- mento humano, e abrangerá diversas especialidades
pas do projeto gráfico de uma família de baralhos interdisciplinares do campo de atuação do designer
através da evolução do design em conjunto com a gráfico, a saber: ilustração; tipografia; editorial; pla-
sociedade e os meios de produção gráfica. Nesse nejamento visual de identidade e embalagem; pro-
sentido, procurar-se-á a elucidação e diferenciação dução gráfica.
BREVE HISTÓRIA
DO BARALHO
13

A Origem

É sabido que o baralho teve sua difusão pela Eu-


ropa a partir da segunda metade do século XIV,
estilos, em cada cultura a qual se afixou.
A autora inglesa Catherine Perry Hargra-
mas sua origem ainda é imprecisa. Sugere-se que ve, em seu livro A History of Playing Cards and a
os árabes¹ – os “mouros” e os “sarracenos” – foram Bibliography of Cards and Gaming³ afirma que por
os responsáveis por introduzir as cartas no conti- volta do século XIV, soldados sarracenos introdu-
nente europeu e de certo modo é correto afirmar ziram no sul da Itália um jogo de cartas chamado
que o avanço da economia mercantilista e da troca “nayb”, que em árabe significa guerreiro ou cava-
de mercadorias entre Ocidente e Oriente, a partir lheiro, e que está na etimologia da palavra “naipe”
do século XIII, trouxe à Europa os jogos de cartas. em português e espanhol. Esta hipótese sugere
Assim como ocorre com a história da ori- que as cartas foram introduzidas na Europa a par-
gem do papel e da imprensa, as referências mais tir da península ibérica pelos próprios muçulma-
antigas aos jogos de cartas vêm da China. Por vol- nos, e do contato dos europeus com estes em visi-
ta do século VII, período da dinastia Tang, tem-se tas à África e Ásia, durante e após a Reconquista
o registro do que seriam as primeiras cartas de ba- (que durou cerca de oito séculos, do VIII ao XIV).
ralho, semelhante aos dominós, porém feitas com Neste período se impôs a invasão islâmica da pe-
tiras de papel. No livro The Invention of Printing in nínsula ibérica, e que contribuiu inevitavelmente
China², o autor inglês Thomas Francis Carter faz para a difusão da cultura árabe pela Europa4.
referência ao uso dos jogos de cartas já no ano de Os jogos de cartas se estabeleceram na
969 para prever o futuro. Era atribuído assim, sig- maioria dos países europeus ocidentais por volta
nificado místico ou religioso às cartas de baralho de 13755, e tão logo surgiram, acabaram sendo
desde sua origem antiga. As cartas chinesas eram proibidos pelas autoridades e condenados pela
estreitas, e isso acontecia porque na China não se Igreja – fato que sugere uma rápida expansão de
abre o baralho como um leque, mas como um pu- sua popularidade. Foram introduzidos a princípio
nho cerrado. Ainda assim, as coincidências entre na Espanha e na Itália, porém, apesar das origens
os baralhos históricos, europeu e chinês, são mui- comuns, uma gradativa diferença de estilo come-
tas, como o exemplo dos naipes observados nas çava a ser notada nos baralhos encontrados até
cartas chinesas e das cartas figurativas – já que então nestes dois países.
em ambos existem cartas que não são numéricas. Segundo o filôsofo inglês e fundador da
É certo que com o passar do tempo o bara- Sociedade Internacional dos Jogos de Cartas
lho foi imigrando para além das fronteiras da China (IPCS)6 Michael Dummet, foi na Itália que surgira
e se espalhando pela Ásia, alterando suas formas e o primeiro baralho genuinamente europeu: o ba-

¹ “A cluster of early literary references refer to the game being introduced by ‘a Saracen’, ‘the Moorish Game’ etc. Etymological evidence also suggests
that the Arabs introduced playing cards into Europe in the second half of the fourteenth century [...].” In <www.wopc.co.uk/history/1.html>
² Carter, Thomas (1955). The Invention of Printing in China. pp. 102–111.
³ Hargrave, Catherine Perry. A History of Playing Cards and a Bibliography of Cards and Gaming. p.227
4
“This coincided with the Nasrid Kingdom of Granada in Andalusia (13th - 15th century), the last Islamic stronghold in the Iberian Peninsula.” In
<www.wopc.co.uk/egypt/mamluk/index.html>
5
Cf. <www.wopc.co.uk/egypt/mamluk/index.html>
6
Cf. <www.i-p-c-s.org/>
14

ralho de Tarô7. O tarô, desde sua criação, exerceu


forte impacto imagético na cultura do design de- O desenvolvimento dos jogos de cartas na Eu-
ropa coincide com importantes mudanças nos há-
cartas de baralho na Europa, porém, sua evolução
tomou rumos distintos do baralho usual de jogos bitos de vida da população na Baixa Idade Média.
de azar, e permanece praticamente mente intacto O florescer de uma nova classe urbana, impulsio-
até os dias atuais. Isso se deve ao fato do bara- nado pelas crescentes políticas mercantilistas e
lho de tarô ter gradualmente assumido um caráter a formação dos primeiros Estados nacionais fazia
adivinhatório e místico durante a Idade Média e com que muitos pintores, artesãos, escultores, ou-
ser posteriormente condenado pela Igreja Católica rives, carpinteiros e pessoas ligadas à arte em ge-
como uma forma de bruxaria. O nome “tarô” deri- ral iniciassem sua pequena produção nas cidades
va da palavra árabe “turuq”, que significa quatro que se tornavam centro de trocas e de comércio.
estações. O baralho de tarô possuía vinte e duas Em seus dias de alvorada, o baralho era
cartas, ainda como hoje, chamadas de Arcanjo distração de poucos. Eram caríssimos, pois con-
maior e mais cinquenta e seis, similares aos bara- sistiam, sobretudo, em obras de arte elaboradas e
lhos mais usuais. Dentre as primeiras vinte e duas pintadas à mão, decorados muitas vezes com ouro
cartas citadas, a vigésima segunda era chamada e feitos sob a encomenda das classes mais altas ou
“Il matto” (O Louco), representava a liberdade de dos comerciantes mais ricos9. As cartas não possu-
expressão e não tinha número, ao que alguns his- íam nome nem números (que só seriam adotados
toriadores modernos atrelam o seu arquétipo à nos séculos XVIII/XIX), porém, já no século XV,
origem do Curinga nos baralhos modernos8. com o advento da Revolução da Imprensa, inicia-
O baralho espanhol evoluiu à parte do da por Johannes Guttenberg e os tipos móveis, as
baralho utilizado por grande parte da Europa, por facilidades de reprodução mecânica aumentariam,
conter quarenta e oito cartas – uma característica e muitos xilógrafos começariam a se dar conta do
que permanece até hoje. Um dos primeiros bara- grande mercado que havia na impressão e venda
lhos fabricados na Europa, é conhecido atualmen- de baralhos. Este fato acabou por baratear a produ-
te como baralho de truco ou escopa. ção das cartas de baralho e contribuiu para a sua
Seja como for, quando o baralho chegou rápida popularização pelo continente.
à Europa, entre os séculos XIV e XV, os jogos de Apesar de seu inventário ser bem conhe-
apostas e de dados já existiam e os jogos de cartas cido, registros visuais são imprecisos, principal-
vieram rapidamente se somar a esse repertório. mente das versões mais populares de baralhos da
época. Há uma grande dificuldade de obtenção
desses registros, devido ao primeiro surto de peste
A Evolução

7
Dummett, Michael (1980). The Game of Tarot. p.67
8
Cf. <copag.com.br/port/baralho_no_mundo.asp>
9
“More expensive cards were produced from engravings in copper using the skills of the goldsmith and engraver and illuminated with many colours
including gold and silver. These cards have greater detail and a more naturalistic use of line. Such packs were given as wedding gifts, bequeathed as
heirlooms and regarded as valuable items. They were often produced for collectors or as curios for princely display cabinets.” In <http://www.wopc.
co.uk/history/1/2/3/4/5/6/7.html>
15

bubônica (a “Peste Negra”) ter assolado a Europa padronizados como uma importante característica
em meados do século XIV; fato que coincide com das cartas produzidas na França, Itália, Espanha e
o surgimento das cartas de baralho no Ocidente10. Portugal, com diferenças em sua simbologia e no-
Os objetos, roupas e outros pertences das vítimas menclatura, mas basicamente com os mesmos sig-
eram queimados, na tentativa de se evitar conta- nificados. Foi a partir do século XVIII que o padrão
minações, o que justifica o fato de muitas evidên- francês de naipes – espadas, ouros, copas e paus
cias de baralhos da época não terem sobrevivido11. –, passara a predominar na produção de baralhos
Não obstante, diferentemente de outros na Europa, devido a sua facilidade de reprodução e
jogos da época, tão logo os jogos de cartas se tor- padronização das cartas, o que, por sua vez, ajuda-
navam cada vez mais populares, mais seus joga- ria a evitar trapaças, aumentando sua audiência.
dores eram mal vistos pelas autoridades12, e assim Orientados por essas questões que os fa-
as cartas eram então censuradas, pois acreditava- bricantes a partir de então, no temor de perder
se já naquela época que o baralho era responsável seus clientes, procuravam cada vez menos por
por comportamentos antissociais e motivo de de- inovações em demasia. Ao buscarem uma padro-
sonestidade alheia. Isto inevitavelmente acabou nização constante, mantinham-se extremamente
levando à sua proibição e à interdição dos locais conservadores em suas cartas figurativas de reis,
onde aconteciam os jogos, com a Igreja e prega- damas e valetes (as “cartas da corte”) e nos nai-
pes. Isso talvez tenha impedido uma evolução
dores exorcizando a sua prática e as autoridades
maior no design de baralhos.
buscando formas de regulamentar a novo vício.
Este fato corrobora para a afirmação de que os
baralhos já eram muito populares no século XV
ao passar de itens colecionáveis da nobreza e da
pequena burguesia emergente, a passatempo das
classes mais baixas. De qualquer forma, o baralho
estava se tornando um bom negócio até para as
autoridades, que tentaram durante algum tempo
coibir, sem sucesso, o surgimento de um dos pri-
meiros nichos de mercado gráfico da história.
Com o passar do tempo, do século XVI ao
XVII os naipes dos baralhos europeus foram sendo

10
“It is of possible relevance as background knowledge that the date of the last outbreak of Bubonic plague (Black Death) wich afflicted the west in
the middle of the fourteent century coincides with the earliest dates relating to the appearance of playing cards in Europe.” (Wintle, Simon. A “Moorish”
Sheet of Playing Cards.) In <wopc.co.uk/assets/files/moorish.pdf>
11 “
It is to be supposed that any clothes, bedding, papers or other personal effects belonging to plague victims would have been burnt, and so it is hardly
surprising that no evidence to do with cards has survived from prior to these dates, even if there was any.” Ibid. Cf. <wopc.co.uk/assets/files/moorish.pdf>
12
“It was on 22nd October 1628 that Charles I granted the charter to the Company of the Mistery of Makers of Playing Cards of the City of London, and
from 1st December that year all future importation of playing cards was forbidden. In return, a duty on playing-cards was demanded, and the subsequent
history of attempts to extract that duty makes an unedifying and contradictory story [...].” In <http://i-p-c-s.org/history.html>
PRODUÇÃO GRÁFICA
NO DESIGN DE BARALHO
17

D esde o seu surgimento até as primeiras ino- sabia ler nem escrever.
vações nos processos de impressão, as cartas de O primeiro método a ser adotado com a fi-
baralho eram produzidas e fabricadas de forma nalidade específica de produzir baralhos foi a xilo-
artesanal, de maneiras distintas e não havia uma gravura4. Daí em diante cada nova técnica de produ-
padronização de cores, formatos ou materiais – ção surgida no meio gráfico era, mais cedo ou mais
que dependiam do estilo de determinado artis- tarde, adaptada à fabricação de cartas de baralho,
ta ou artesão1. Pode-se dizer que as cartas foram devido a sua popularidade3 cada vez mais elevada.
por muito tempo veículos de expressão artística e Além da xilogravura, o uso do estêncil5 foi
cultural, pois carregavam em si características de se tornando cada vez mais comum. As primeiras
autênticas obras de arte e, só posteriormente, na cartas, ainda no século XIV, eram produzidas de for-
era industrial, passariam a constituir objeto e pura ma artesanal, em papelões, sob várias camadas de
expressão do Design. papel. Entretanto, para baratear a produção, ago-
Do entalhamento em madeira2 até as ra também voltada às classes mais populares e se
pinturas sob o papelão, e dos acabamentos mais adequar ao novo método xilográfico, os papéis utili-
rebuscados, obtinha-se essa exclusividade das zados como suporte direto das matrizes passaram a
cartas, o que tornava o baralho um item de arte ser menos densos. Por volta do século XVI, as cartas
colecionável em sua origem e que somente as clas- eram produzidas da combinação de vários métodos
ses mais altas podiam possuir. Entretanto, com o de impressão, entre xilogravura, estêncil, pintura à
aumento crescente de sua popularidade, e conse- mão e mesmo os tipos móveis, apesar de ser raro a
quentemente das demandas de fabricação, e dos utilização da Tipografia nas cartas dessa época, que
amantes dos jogos de cartas, o aperfeiçoamento de ainda possuía um caráter secundário ou decorativo
novos métodos de produção mais rápidos e mais nos baralhos.
baratos para esta finalidade era iminente. Dessa Com o limiar da era industrial no século
forma, com a invenção da Imprensa no século XIV, XVIII, alguns novos processos de impressão foram
o baralho foi sem dúvida um dos primeiros nichos importantes para um aumento na qualidade e pa-
de mercado gráfico, de produção em massa, já que dronização das cartas, o qual era uma preocupa-
os livros, os principais beneficiados dessa revolu- ção recorrente dos fabricantes de baralhos. Entre
ção, continuariam como um privilégio de poucos, eles a litografia, processo que utiliza a pedra como
pois como sabe-se, a maior parte da população não matriz, inventado em 1798 por Alois Senefelder, e

1
“Early packs involved artisan methods of card production which was time-consuming but the resulting cards were very sturdy. [...] Luxury hand
-painted packs were only available to a few, who enjoyed them privately or with elite company as objects of fashionable esteem.” In <www.wopc.
co.uk/history/1/2/3/4/5/6/7.html>
2“
Wood engraving and traditional woodcuts, despite the modern developments of chemical, mechanical or electronic processes, still remain the most
expressive forms of illustration, adding a sense of vibrancy, old world chivalry and romance.” Cf. <wopc.co.uk/history/1/2/3/4/5/6/7.html>
3“
As card-playing became more popular production was accelerated by these alternative processes, including hand-made cards, cards printed from
woodblocks or using stencils, or other improvised techniques.”
4
Técnica de gravura que utiliza a madeira como matriz e que possibilitou a passagem do pergaminho ao papel durante a Idade Média, para a obtenção
de cópias impressas, processo semelhante a um carimbo.
5
O estêncil consiste num processo onde um molde vazado é utilizado como matriz.
18

a cromolitografia (em cores), surgida no início do dependendo do fabricante e do processo utilizado.


século XIX, idealizada por Senefelder mas paten- As cores passaram cada vez mais a ser utilizadas
teada por um artista francês em 1837. A cromoli- de modo simples e menos detalhado, geralmente
tografia5 viria a se tornar o processo de impressão seguindo a tradição do vermelho, azul, amarelo e
em cores mais bem-sucedido do século XIX. Era um preto, ou as cores do fabricante.
método relativamente barato e simples e produzia Atualmente, são muitos os métodos de im-
impressões em alta qualidade, podendo até mesmo pressão utilizados para a fabricação de baralhos,
reproduzir de forma aproximada uma pintura da com a inovação constante das tintas e suportes,
época. A cromolitografia foi extensamente utiliza- capazes de produzir baralhos mais resistentes, em
da para a fabricação de baralhos durante o século plástico ou papel revestido, e totalmente confiá-
XIX6 – e mesmo o século XX, antes do advento da veis, seguros contra a luz e fáceis de manusear.
impressão offset.
Do século XIX até os dias atuais a produ-
ção gráfica cresceu abundantemente e as preocu-
pações com os métodos de produção e acabamen-
to das peças aumentavam, na medida em que o
design surgia como uma necessidade de se proje-
tar um produto destinado à reprodução mecânica
de forma rápida e homogênea. As primeiras indús-
trias gráficas que passaram a produzir baralhos no
século XIX tinham como principal preocupação
a padronização das cartas de forma a se evitar
trapaças entre os usuários, uma preocupação an-
tiga entre os consumidores de baralho desde os
primeiros tempos. Dessa forma, as indústrias ge-
ralmente se focavam em cinco etapas do processo
de fabricação das cartas, que eram divididas por:
escolha de papel; modo de arranjar as matrizes;
modo de nivelamento (registro); a impressão; e
como cortá-las e dar acabamento. Assim, havia
formatos e materiais que eram definidos como Página seguinte: baralho impresso no
padrão por determinadas fábricas, com variações século XIX em cromolitografia (Fig. 1)

5
A litografia e a cromolitografia consistem no fundamento de que água e óleo não se misturam; o desenho era feito sobre a pedra polida e utilizava-se
pigmentos gordurosos; e um ácido era aplicado nas áreas incolores deixando as áreas pintadas intactas , sendo assim utilizada como uma matriz. As
gradações de cores eram obtidas através de pequenos pontos para cada cor em cada matriz.
6
[It] “was one of the more popular methods of printing playing cards during the 19th century and at its height produced very high quality colour
prints. It continued to be used until the late 1930s to produce inexpensive, “cheap and cheerful” colour images and zinc sheets eventually replaced
the heavier and more expensive limestones. The B. Dondorf factory in Germany was especially famous for its beautiful chromolithography playing
cards, and Spanish, French, Belgian, Swiss, British and American firms also used this process for playing card production.” In <www.wopc.co.uk/cards/
chromolithography.html>
O BARALHO
NO BRASIL
21

N o Brasil colonial, o acesso a imprensa privada


era proibido até a transferência da corte portu-
mescla de influências e características dos bara-
lhos tradicionais espanhóis e portugueses, como
guesa para o Brasil em 1808, quando Dom João o nome dos naipes, que permanece o mesmo, e
VI, rei do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algar- deriva do espanhol oros, copas, espadas e bastos
ves, decretou o estabelecimento da “Real Fábrica (atualmente esta nomenclatura só é usada na Es-
de Cartas de Jogar” no Brasil no mesmo modelo panha para o baralho de quarenta e oito cartas).
existente em Portugal, e em 1811, esta se fundiria É impossível falar sobre a história do ba-
à Impressão Régia no Rio de Janeiro. Antes disso, ralho no Brasil sem mencionar a Copag (Compa-
os baralhos eram produzidos no Brasil sob o jul- nhia Paulista de Artes Graphicas). Atualmente é
go de um alvará régio do fim do século XVIII, que a maior produtora de baralhos da América Latina,
determinava privilégios e isenções fiscais para os fundada em 1908 por Albino Dias Gonçalves. Ti-
fabricantes de baralhos na Bahia, em Pernambuco nha como foco inicial a papelaria e é hoje a fá-
e no Rio de Janeiro1. Este fato ilustra o reconheci- brica de baralhos mais antiga ainda em atividade
mento da manufatura de baralhos para o Estado no país. Começou a produzir cartas de baralho a
como uma importante fonte de arrecadação de partir de 1918 com a técnica da cromolitografia,
impostos, pelo seu apelo às massas como forma mas só ganharia destaque no mercado brasileiro
de entretenimento. em 1930, ao produzir o primeiro baralho impresso
Referente à etimologia da palavra “ba- em offset no Brasil, tornando-se a partir daí, uma
ralho”, esta está relacionada ao termo “baralha”, líder de mercado. Mesmo com a proibição aos jo-
acepção arcaica para briga, luta. Os baralhos cria- gos de azar no país em 1946 – que fez sucumbir
dos e popularizados no Brasil ao longo da história muitas companhias do segmento na época – a Co-
acabaram por ganhar terminologias próprias. Ape- pag manteve-se focada no mercado de baralhos e
sar de seguirem o padrão anglo-francês de naipes, passou exclusivamente a produzir apenas cartas a
nos baralhos comercializados atualmente há uma partir de 19542.

1
“Printing in Brazil was controlled by the Portuguese government, although some unauthorised printing did take place. Playing card production in
Brazil was officially sanctioned when a royal alvará (charter or document granting certain rights and privileges) of August 8 1770 gave “privileges and
tax exemptions to people occupied in making playing cards” in Bahia. A royal decree in 1808 established in Brazil the Real Fábrica de Cartas de Jogar
as a part of the Impressão Régia, a similar arrangement as that in Lisbon, for the printing of playing cards.” In <www.wopc.co.uk/brazil/?=header>
2
Denis, Rafael Cardoso. Design brasileiro antes do design. pp. 272–273
ANÁLISE VISUAL:
LINHA DO TEMPO
23

Século VII
O s primeiros registros de baralhos da história datam
do século VII e vem da China. As cartas eram estreitas,
feitas de tiras de papel e se pareciam muito com os
dominós modernos que vemos hoje, numeradas de 2
à 9. Era utilizada somente a cor preta e representava
elementos da cultura chinesa.

(Fig.1)

Baralho estilo dominó Chinês (Fig. 2)


24

Século XIV
O s primeiros baralhos encontrados na Europa são
de origem Moura – os conquistadores muçulmanos
da península Ibérica – e carregam as características
da cultura árabe. Os traços eram simples, com
cartas feitas de papelão e maiores em sua altura.
Suas ilustrações e elementos gráficos eram feitos
de maneira bem simples, sem preenchimento, pois
eram produzidos manual e artesanalmente, sem
recursos de impressão. Lembravam a arquitetura e
a arte islâmica em sua origem e sua face neutra
(verso das cartas) era lisa, utilizando-se somente
de tinta preta, na parte frontal.

Ás de copas do primeiro baralho Mouro (Fig.3)

Baralho Mouro (Fig. 4)


25

Século XV
N o século XV os baralhos já floresciam na Europa
e podia-se observar uma notável mudança de
estilos, i. e. fig. 5, onde observa-se uma folha ainda
sem corte com oito cartas, contendo ilustrações ao
estilo italiano mais detalhistas de artistas da Baixa
Idade Média do século XV. É possível observar os
valores de cada carta pela quantidade de taças (ou
cálices), ainda em preto.
Na fig. 7 é possível observar cartas de um
baralho Mameluco (árabe), desenhadas e pintadas
à mão, o que agregava bastante valor às cartas, que
Cartas de baralho italiano (Fig. 5)
eram grandes, medindo cerca de 25 x 9 cm. Neste
baralho a divisão por naipes já pode ser notada e a
arquiterua e a arte islâmica (arabescos) ainda são
uma influência predominante para as ilustrações.
A figura 6 mostra um baralho bastante
colorido e com ilustrações das cartas da corte (as
cartas figurativas), ao estilo europeu e já reproduzia
a sociedade feudal, sendo provavelmente produzido
na França. Nestas cartas é possível observar dois
diferentes naipes e o aparecimento de uma borda
interna, e eram produzidas por uma espécie de Cartas produzidas na França ou Borgonha (Fig. 6)
papelão mais fino e trabalhado.

Baralho Mameluco (Fig. 7)


26

Século XVI
N o século XVI os jogos de cartas estão disseminados
pela Europa e os baralhos, mais padronizados em
formatos, são menores na altura, afastando-se assim
de sua origem árabe, de cartas altas e estreitas. As
cores predominantes passam a ser o vermelho, o azul,
o amarelo e o preto, e as cartas da corte começam a
ter ilustrações mais detalhadas e estilizadas. O padrão
de naipes anglo-franceses, como observados na fig. 8,
começa a se sobrepor a outros baralhos encontrados
pela Europa, como o baralho alemão (fig. 9).

Baralho inglês (Fig. 8)

Baralho alemão (Fig. 9)


27

Século XVII
O s baralhos espanhóis ganham popularidade a
partir do século XVII; seus naipes eram bastante
característicos, e se baseavam nos naipes das
cartas de Tarô surgidas na Itália, que se tornaram
bastante populares e difundidas. As figuras da
corte também mostravam figuras classificadas
por diferentes classes sociais; as cores passam a
assumir um padrão e a face neutra, antes lisa, passa
a adotar grafismos com repetições de símbolos,
como triângulos e círculos, tomando futuramente
um caráter definitivamente decorativo.

Baralho espanhol (Fig. 10)

Baralho de Tarô (Fig. 11)


28

Século XVIII
C om o século XVIII e a ascensão da classe burguesa
e do advento da Revolução Industrial, sobretudo na
Inglaterra, os padrões tradicionais inglês e francês
de baralhos começam a predominar, principalmente
quanto aos naipes. Algumas inovações podem ser
observadas, como na fig. 14 onde as personagens
das cartas da corte são vistas inteiras. A qualidade
da impressão melhora e as cores se padronizam,
bem próximas do que se conhece hoje – com as cores
primárias da serigrafia da época: azul, vermelho,
amarelo e preto (fig. 13).
Baralho inglês séc. XVIII (Fig. 12)

Cartas da corte de baralho inglês (Fig. 13) Baralho italiano (Fig. 14)
29

Século XIX
O fato mais marcante no design de baralhos no
século XIX é a popularização das cartas com figuras
espelhadas, possibilitando ao jogador identificar
a carta de maneira mais rápida, i. e., fig. 16. A
tipografia agora é um elemento gráfico fucional e
não apenas de caráter decorativo, pois ela também
identifica as cartas (fig. 15).
Há o aparecimento de várias inovações no
campo da produção gráfica, como a cromolitografia
e o início da impressão offset.

Cartas da corte de baralho italiano (Fig. 15)

Cartas da corte de baralho francês (Fig. 16)


30

Século XX a XXI
A partir do século XX até os dias atuais as
mudanças são constantes e baralhos de diversos
estilos surgem; as ilustrações e a diagramação das
cartas tornam-se bastante geométricas, simétricas,
como um impacto do Modernismo nas Artes e no
Design. (fig. 18).
Os jogos mais populares em todo o mundo
se consolidam como aqueles praticados com os
baralhos francês e inglês, sobretudo com o baralho
inglês e sua disseminação na cultura americana.
Baralho inglês moderno(Fig. 17)
Hoje há baralhos das mais diferentes
formas de produção e de estilização; há os baralhos
produzidos em 100% plástico, mais duráveis;
baralhos em hotstamping, translúcidos, com tintas
especiais ou com acabamento UV.

Cartas da corte de baralho inglês (Fig. 18)


31

Baralho translúcido (Fig. 19) Baralho de pôquer moderno (Fig. 20)

Baralho de fundo preto (Fig. 21)


DESIGN
33

A palavra “design”, de origem inglesa, não possui


tradução literal em português, mas em sua etimo-
desenvolvimento de projeto de sistemas de
uso e nos sistemas de informação. A partir
logia, denota o sentido de projeto, plano, forma, de então, não basta algo ser formalmente
traçado, e é uma atividade criativa “cujo propósito agradável, ser funcional, prover uma boa in-
é estabelecer um conjunto multi-facetado de qua- terface. É mister também o produto portar
lidades nos objetos, processos, serviços e sistemas a mensagem adequada, “dizer” o que se pre-
na totalidade do seu ciclo de vida. Deste modo, o tende para quem interessa. O produto carre-
design é o fator central da inovação e da huma- ga expressões das instâncias de elaboração
nização das tecnologias e um fator crucial do in- e de produção: cultura e tecnologia. Quando
tercâmbio econômico e cultural”. (International ele entra em circulação, além de portar es-
Council of Industrial Design.) sas expressões, para si próprio e para outros.
Portanto, o design surge da necessidade de Ou seja, ele “diz” àquele que o usa, ao que o
se produzir em escala industrial com eficácia e qua- contempla - e também por meio dele os in-
lidade, adequando-se o produto ou serviço ao seu divíduos se articulam. É o caso que se fala:
ciclo de vida, ou seja, a toda a sua cadeia produtiva. “diga me o que usas que eu te direi quem és”.
O fator principal para o reconhecimento do design Assim, o produto, além das funções prática,
como área de atuação do conhecimento humano estética e de uso, tem função significativa.
é a passagem dos meios de produção artesanal O produto difunde valores e características
para o meio industrial, da produção em massa. Tal culturais no âmbito que atinge.” (NIEMEYER,
fato é consequência das transformações políticas 2003, p.18)
e sociais, econômicas e tecnológicas decorrentes O design se mostra, assim, capaz de dina-
da Revolução Industrial, no século XIX. A Europa mizar e aperfeiçoar o processo de produção, como
urgia de uma forma de produtividade mais rápida uma ferramenta capaz de transmitir ao produto
e quantitativa para atender à crescente demanda atributos e qualidades que se refletem no consu-
consumidora, e é nesse contexto que surge o de- midor, que, em contrapartida, se identifica com o
signer, responsável por alinhar conceito e função, seu lugar de origem, aumentando assim o seu re-
à criação de um produto. Sobre a adequação do de- conhecimento.
sign ao usuário, Niemeyer enfatiza que: O baralho é uma importante expressão do
“Após a II Guerra Mundial, com a consoli- design gráfico, pois contempla, historicamente,
dação da ergonomia, um outro paradigma do muitas áreas de atuação do designer, já que para
design veio se somar ao funcionalismo: a ade- o seu desenvolvimento e funcionalidade têm-se o
quação do produto ao usuário. Já nas últimas estudo de formas; cores; tipografia; ilustração;
décadas do século passado, a importância da programação visual de embalagem e identidade;
significação ganha crescente relevância no semiótica e produção gráfica.
CONCEITUAÇÃO
DO PRODUTO
35

A proposta de produto para este projeto de


graduação traz à prática as especificidades de
se as características visuais da presente época, tal
como os baralhos antigos eram expressões de seu
uma peça do design moderno que é tão tradicional tempo; sendo esta a estratégia que orientou todo
quanto pouco explorada como objeto de estudo o projeto.
acadêmico – o baralho. Tal estudo preliminar serviu As influências diretas que deram origem
de embasamento teórico para a criação de dois ao conceito principal do projeto, e algumas refe-
baralhos completos, com cinquenta e duas cartas.
rências visuais são os trabalhos de artistas como
O conceito principal para o desenvolvi- Max Bill, Paul Klee, M. C. Escher; o design da Es-
mento do projeto gráfico deste produto é norteado cola de Ulm; e o abstracionismo geométrico con-
pelo abstracionismo geométrico. Entende-se por temporâneo.
abstracionismo geométrico a vertente do abstra-
cionismo que se utiliza de formas, cores e linhas Partindo deste conceito fez-se necessária
de maneira que a composição resultante seja a ex- a criação de uma identidade para o baralho, que
pressão de uma concepção geométrica. Este movi- se iniciou pelo processo de naming do produto.
mento foi por sua vez influenciado pelo cubismo e As nuances de um diamante – ao mesmo tempo
pelo futurismo. geométrico e abstrato, surgiram para representar
a estética pós-moderna no design contemporâneo,
e dele, o nome do baralho: “Diamond”. O nome
Estratégia foi selecionado em língua inglesa como um
reflexo da economia de mercado globalizado no

A
intuito de se comunicar com o maior número de
partir daí procurou-se desenvolver uma lin- pessoas possível, já que a língua inglesa é hoje
guagem que buscasse apresentar ao mesmo tem- internacionalmente reconhecida. Além disso, outro
po todas as características de um baralho conven- fator que impulsionou sua escolha foi a sonoridade
cional, bem como transmitir o conceito proposto, da palavra em inglês que é mais pregnante.
como uma reflexão acerca do design contemporâ-
neo. Não sob a forma de um baralho “conceitual”
– feito por designers para designers – ao contrário,
Painel Semântico

A
como os antigos produtores de baralho, que este
tivesse apelo às massas. Após uma reflexão cro- través dessas ideias foi desenvolvido um painel
nológica sobre o design de baralhos, surgira um semântico, com imagens que representam pictori-
forte desejo de criação de um produto que reunis- camente o conceito do projeto gráfico do produto.
36

“Lizard” de M. C. Escher, 1942 (Fig. 22)

“Reliefstructure” de Gerard Caris, 2000 (Fig. 23) “Gif arte”de Rick Silva, 2011 (Fig. 24)

“With the Egg” de Paul Klee, 1917 Abstracionismo geométrico de Jessica Eaton “Sem título” de Max Bill, 1970 (Fig. 27)
(Fig. 25) 2011, (Fig. 26)
37

“Sem título”de Richard Blanco, 2012 (Fig. 28)

Postêr olimpiada de Munique de Max Bill , 1972 (Fig. 29) “Rose Garden”, de Paul Klee, 1920 (Fig. 30)

“White Pyramid” de James Turrel, 1968 (Fig. 31) “Tri-Colour Angles de Jessica Eaton “Ciclo” de M. C Escher, 1938
2011, (Fig. 32) (Fig. 33)
PROJETO GRÁFICO
39

O Logotipo

L ogotipo é segundo Peón “a forma particular e


diferenciada com a qual o nome da instituição é re-
embalagens e aos grafismos desenvolvidos em cada
situação. Geralmente são bastante desenhados e
mesclam influências góticas em sua composição,
gistrado nas aplicações.” (PEÓN, 2003, p. 28). refletindo suas heranças medievais.
Assim, o logotipo é sempre formado por Iniciamente o logotipo do baralho Dia-
letras, para representar a marca a qual foi desig- mond foi pensado como um ambigrama (logotipo
nado. Como observa Torquato: com leitura reversa) pois sua intenção original era
“Os logotipos e as marcas, em ge- compor a face neutra das cartas. No decorrer do
ral, exercem a importante função de chamar a processo criativo, percebeu-se que não haveria fun-
atenção dos consumidores e públicos-alvo para cionalidade em sua aplicação no verso das cartas e
produtos, idéias e valores defendidos pelas or- sua legibilidade seria prejudicada e esta ideia então
ganizações. (TORQUATO, 1992, p. 261). foi abolida posteriormente.
Ao pesquisar as marcas de baralho foi pos- A construção de uma tipografia modular foi
sível perceber que os seus logotipos se adequam concebida para se adequar ao padrão de identidade
ao projeto gráfico de maneira a se integrar às suas visual proposto na conceituação do projeto, por ser
linear e geométrica.

Rough logotipo Diamond (Fig. 35)

Criação do ambigrama Diamond (Fig. 34)


40

Logotipo Diamond (Fig. 36)


41

Os Naipes

N aipe é o nome dado ao símbolo que representa


uma família ou o tipo da carta. O naipe é utilizado
provêm os sinais para a visualização dos
quatro elementos. Certamente não existe
em todos os números de 2 a 10, além do ás (que nenhuma razão para tentarmos descobrir
representa o número 1 ou 14 dependendo do tipo de nesses sinais qualquer imitação de repre-
jogo), do valete, da dama e do rei. sentações figurativas. Devem ser entendi-
Os naipes exibidos nos baralhos atuais dos como elementos puramente abstratos,
apareceram pela primeira vez em cartas na Fran- pois na prática mística seu significado
ça no século XV, produzidas em xilogravura, sendo recebia uma interpretação mais ampla: o
logo adotados por outras nações da Europa ociden- signo do fogo também significa “furioso”; o
tal, por sua facilidade de reprodução. da água, “indolente”, lento; o do ar foi inter-
A nomenclatura original dos naipes france- pretado como “leviano” e o da terra como
ses é usada na França para designar: carreaux (“lo- “melancólico.” (FRUTIGER, 1999, p.264)
sangos”, que equivale a “ouros”); piques (“espadas”); Na representação dos quatro elementos
coeurs (“corações”, o “copas”) e trèfles (“trevos”, o clássicos criada pelos alquimistas medievais, o
“paus”). Em língua inglesa, são conhecidos respecti- vértice apontado para cima representa o mascu-
vamente por diamonds; spades ; hearts e clubs. lino, e o feminino tem o vértice apontado para
Em termos de simbologia dos naipes, tal baixo. Antes da sintetização gráfica dos naipes
como a história do baralho, há margem para vá- nas cartas do baralho francês, a representação
rias interpretações, com destaque para duas hipó- destes em outros baralhos pela Europa seguia
teses populares. um padrão em comum, procedente dos baralhos
A primeira delas diz q ue os naipes simbo- mamelucos do século XIV. Assim, os bastões
lizavam as classes sociais, onde ouros era a repre- (paus, trèfles) representariam o fogo, pois ser-
sentação da nobreza; espadas a representação dos viam como suporte para as tochas; as espadas
exércitos militares medievais; copas como um sím- (piques), representariam o ar por sua caracterís-
bolo do clero e paus a representação da plebe. tica penetrante; os cálices (copas, coeurs) sim-
bolizariam a água, e as moedas (ouros, carreaux),
Outra hipótese, mais associada ao seu as-
representariam a terra, as riquezas naturais.
pecto gráfico, diz que os naipes tomaram forma
através de uma interpretação dos signos da Alqui-
mia (prática antiga, hoje mencionada como pseu-
do-ciência, que combinava elementos de várias
disciplinas científicas, religião e misticismo) para
os quatro elementos clássicos – fogo, terra, água e
ar – os quais eram representados sob a forma de
triângulos ou círculos.
A respeito dos símbolos e signos na Idade
Média, Frutiger diz que:
“O uso de signos não-alfabéticos
tornou-se cada vez mais frequente na prática
secreta das ciências obscuras. Dessa época Simbologia dos naipes (Fig. 37)
42

Naipes do baralho Diamond (Fig. 38)

O design dos naipes foi baseado no desenho


dos vértices de um diamante lapidado. Preocupando-se
com o simbologismo dessas figuras, evitou-se a quebra
de entendimento das formas tradicionais dos naipes
anglo-franceses.
Assim, suas formas deveriam manter-se sim-
ples e pregnantes, preservando sua legibilidade.
Levando-se em conta as leis básicas de per-
cepção visual da Gestalt, este conceito está baseado na
afirmação de que:
“um objeto com alta pregnância é um objeto
que tende espontaneamente para uma estrutu-
ra mais simples, mais equilibrada, mais homo-
gênea e mais regular. Apresenta o máximo de
harmonia, unificação, clareza formal e o mínimo
de complicação visual na organização de suas
partes ou unidades compositivas.” (GOMES FI-
LHO, 2009, p.36).

Rough naipes (Fig. 39)


43

As cores

A forma como a cor era utilizada na concepção


das cartas de baralho ao longo da história pode ser
contraste. Essa divisão dos naipes em quatro cores
acabou sendo adotada na maioria dos países que
compreendida levando-se em conta a evolução dos logo adeririam ao baralho francês.
processos de impressão das cartas, ou seja, da tec- Quanto às cores nas cartas figurativas
nologia empregada. (cartas da corte), seu uso tornou-se menos sele-
Os primeiros baralhos europeus, por seu tivo a partir do século XVI, e o uso da técnica do
caráter artístico, eram pintados, com o uso de uma estêncil nas cartas permitia uma variedade maior
gama bastante variada de pigmentos coloridos, fa- de cores. Ainda assim, é possível observar uma
zendo com que apenas nobres e burgueses pudes- predominância das cores vermelha, preta, azul e
sem possuí-los. Eram geralmente encomendados a amarela – comum nos baralhos, desde essa época,
artistas da época ou como uma forma de presentear. e isso pode ser explicado pelo fato dessas cores
Com a popularização do baralho em fins serem as cores primárias na produção gráfica do
do século XIV, as cartas passariam a ser produzi- período. A partir daí, mesmo com o surgimento de
das com a técnica da xilogravura e o uso de apenas processos mais sofisticados de impressão, como a
uma cor era fundamental para baratear o processo. cromolitografia no século XIX, que permitia uma
A princípio os baralhos eram impressos em somen- ampla variação de cor, as cores primárias tradicio-
te uma cor, o preto, por ser a opção mais acessível, nais ainda eram preservadas.
e assim o seu uso não possuía nenhuma acepção As cores do baralho Diamond foram sele-
conceitual. Porém, havia uma justificativa clara cionadas seguindo a tradição de baralhos impres-
para isso: o uso do preto era devido a sua função sos em quadricromia, apesar do padrão de cores
de alto contraste com os papelões os quais as car- primárias da indústria, hoje, seguir a escala CMYK.
tas de baralho eram produzidas. E por meio dessa Assim, não era uma preocupação o uso de cores pu-
mesma função surgira o uso da cor vermelha, na ras, mas antes, estas seriam aplicadas como uma
França, para diferenciar os naipes, pois o verme- forma de gerar maior identidade ao projeto.
lho também era facilmente reproduzível em alto

CMYK CMYK CMYK CMYK


6 | 0 | 93 | 0 97 | 66 | 36 | 19 31 | 100 | 100 | 45 0 | 0 | 0 | 100
PANTONE® 3945C PANTONE® 7477C PANTONE® 1815C PANTONE® BLACK 6C
Cores do baralho Diamond (Fig. 40)
44

A face neutra

F ace neutra foi o termo técnico adotado para o


verso adornado das cartas de baralho, em oposi-
marcação das cartas antes ou durante o jogo; fatos
que contribuiriam para a ocorrência de trapaças.
ção à face útil, já que a principal preocupação para Como não eram todos que podiam adqui-
esta propriedade do baralho é a sua não interven- rir baralhos novos, uma solução fácil para o pro-
ção no jogo. blema era a aplicação de desenhos ou grafismos
Os primeiros baralhos não eram projeta- para esconder as marcações. Dessa forma, alguns
dos com a preocupação de sua funcionalidade, em fabricantes de cartas começaram a imprimir repe-
lugar disso, eram extensivamente decorados, sen- tições de padrões geométricos, ou símbolos como
do produzidos artesanalmente como peças únicas, estrelas, no verso das cartas, iniciando-se assim
objetos de arte. Todavia, a partir de sua produção uma tradição.
em xilogravura, uma de suas faces passaria a não Hoje em dia a face neutra de uma carta
ser impressa, para economia de recursos. Assim, confere ao baralho identidade e distinção, – tor-
até meados do século XVIII, a parte de trás das nando-se uma marca registrada de seus fabrican-
cartas dos baralhos era lisa, não sendo impressa, tes em muitas ocasiões.
o que acabaria se tornando uma oportunidade de

Rough grafismo (Fig. 41)

Definição do grafismo (Fig. 42)


45

A face neutra foi pensada, mais do que ape- Sobre a composição decorativa, Frutiger diz que:
nas como um grafismo, de forma integrante a todo o “o sinal disposto de forma a compor um or-
projeto visual, já que suas formas estão na gênese do namento esconde-se como unidade e torna-se
conceito desenvolvido. Seguindo a tradição de orna- parte integrante de uma estrutura. Frequente-
mentos nos versos das cartas de baralho, o grafismo mente, quase não é possível reconhecê-lo em
foi criado a partir da concepção de um diamante detalhes, mas sua presença misteriosa reforça
que se desdobra em muitas composições de forma a a busca por seu significado, por sua expressão.
constituir um padrão geométrico, com a função de (FRUTIGER, 1999, p. 47).
ornamentar o verso e ao mesmo tempo preservar a
não identificação das cartas durante o jogo.

Faces neutras do baralho Diamond (Fig. 43 )


46

Tipografia

A té antes do surgimento da Imprensa com Johan-


nes Gutenberg no século XV, a totalidade da tipo-
proporcionar uma rápida identificação das cartas.
A família tipográfica “Din 1451” foi escolhida
grafia observada nos primeiros baralhos seguia como fonte padrão por ser linear, e mais condensada,
padrões da escrita manual medieval Carolíngia. Era adequando-se ao projeto gráfico. Os tipos “K”, “Q”, “J”,
de caráter artístico e decorativo e não tinha função “A”, “O”, “E” e “R” e os numerais de 0 a 9 foram redese-
prática, sendo raramente utilizada nos primeiros nhados para conferir mais arrojo e movimento ao seu
baralhos europeus. desenho. Nas letras estas adaptações são realizadas
A partir do surgimento da Imprensa e dos através de um corte superior de 55º, da esquerda
tipos móveis, os pioneiros das tipografia moderna para a direita, nas partes superiores das hastes, como
Nicholas Jenson, Francesco Griffo e Aldus Manutius nos tipos “K” e “J”, bem como no ápice do A; e de
trouxeram para a imprensa medieval os tipos Roma- 325º, da direita para a esquerda, nos braços do tipo
nos, e esta mudança teve também seu impacto na “E”. A cauda do tipo “Q” também foi modificada para
fabricação das cartas de baralho que passaria gra- se adequar ao novo desenho.
dativamente a ser menos artesanal. Nos numerais as mudanças seguem as letras,
Entretanto, a tipografia só seria de fato incor- com o corte em suas ascendentes, mas preservando
porada ao design de baralhos a partir do século XIX, suas bases e mantendo as suas estruturas.
juntamente com o espelhamento das figuras, afim de

Din 1451
ABCDEFGHIJKLMNOPQRSTUWXYZ
abcdefghijklmnopqrstuwxyz
01234567890 Família tipográfica Din 1451 (Fig. 44)

Tipografia adaptada (Fig. 45)


47

As cartas numeradas

A simetria observada nos baralhos ao longo do


tempo, na forma de dispor os números ou naipes,
sem fáceis de se reproduzir, com a popularização
do baralho a partir do século XV contribuiu, junta-
ou ainda no grafismo de sua face neutra, deve sua mente com o surgimento da Imprensa e do apri-
herança visual aos primeiros baralhos trazidos à moramento dos processos de impressão, para que
Europa pelos árabes, que seguiam os arabescos e o baralho tivesse a cara que tem hoje: essencial-
padrões decorativos da arte islâmica. mente simétrico em sua composição.
Além disso, o desejo de que as cartas fos-

Cartas numéricas do baralho Diamond (Fig. 46)


48

O Ás

A palavra “Ás” vem do francês antigo “as” (do A elevação do ás à proeminência tem seu
começo já no século XIV. Nos primeiros jogos, os
latim “as”), significando “uma unidade” e provém
do nome de uma pequena moeda romana. Original- reis eram sempre as maiores cartas, mas a partir do
mente, designava o lado de um dado com o menor final do século XIV, um significado especial come-
valor, antes de tornar-se um termo associado aos çou a ser atribuído à carta de menor valor do bara-
jogos de cartas. Por ter servido como referência ao lho, chamada “a Carta” ou “o Ás”. Este costume foi
menor lado do dado, tradicionalmente o ás conota- mais tarde amplamente difundido durante o fervor
va “má sorte” na Inglaterra medieval, mas ao passo republicano da Revolução Francesa (1789-1799),
que o ás era em muitos jogos ingleses a carta mais onde muitos jogos começaram a ser jogados com o
elevada, seu significado mudou para então desig- ás no topo das cartas, em oposição à figura do rei1.
nar “alta-qualidade, excelência”. Essa conotação Tradicionalmente, o ás de espadas é con-
tem sido, até hoje, ampliada, até mesmo no campo siderado como a carta símbolo de um baralho e é
dos esportes, como no tênis, onde “ace” significa usado como uma insígnia para representar o lo-
uma jogada em que o adversário não tem a chance gotipo ou o nome da marca do fabricante, como
de defendê-la. um atestado de qualidade e distinção. Este hábito
teve início no século XIX, na Inglaterra, onde um
Assim, historicamente, e ainda em alguns jo-
imposto começou a ser cobrado para os fabrican-
gos populares na Europa, o às representa a carta de
tes locais de baralho. No às de espadas era intro-
menor valor do baralho. Tendo como referência o ba-
duzida a insígnia da Casa onde era impresso, e
ralho tradicional francês, como exemplo, em que o “A” dessa forma esta podia ser identificada, além de
de uma carta ás é substituído pelo número “1”. servir como um selo de qualidade, prova do im-
Entretanto, com a popularização do ba- posto pago2. Apesar do imposto ter sido abolido, a
ralho inglês pelo mundo e sobretudo a partir dos prática de inserir o símbolo da marca no ás de es-
EUA, o às passou a constituir a carta de maior valor padas permanece ainda hoje em alguns baralhos.
do baralho em muitos jogos.

1
Cf. <www.i-p-c-s.org/faq/history_7.php>
2
Schott, Ben (2004). Card Tax & The Ace of Spades. Schott’s Sporting, Gaming & Idling Miscellany. p. 62
49

Tanto por se tratar como a carta de maior uma unidade, lhe confere distinção. Nesse sentido,
valor em muitos jogos, como a de menor valor em o grafismo empregado ao símbolo agrega valor à sua
outros, o símbolo dos naipes tradicionalmente ga- função básica de identificar os naipes, ao associar o
nha destaque nos ases da maioria dos baralhos desenho dos naipes a uma espécie de gema preciosa
modernos. Ao mesmo tempo que o identifica como ou diamante lapidado, reforçando o seu conceito.

Ases do baralho Diamond (Fig. 47)


50

As cartas da corte

U ma preocupação dos primeiros ilustradores de


cartas de baralho – que na realidade eram artistas
em português, provém do baralho francês, “Dam-
me”) e “Jack”, (o “Valete”, do francês “Valet”, é um
e artesãos, era quanto à distinção entre uma carta pajem, um servidor real, originalmente conhecido
figurativa e outra, o que acabou dando origem às di- por “Knave” no baralho inglês, e que teve no seu uso
versas peculiaridades dos personagens nos baralhos, corrente a assimilação da letra J à carta).
que passariam a ser nomeados a partir de figuras As cartas da corte foram desenvolvidas se-
festejadas na Idade Média, entre nobres, heróis, ca- gundo a tradição inglesa de ilustração dos baralhos
valheiros, figuras bíblicas e figuras da cultura grega3. – a mais usual atualmente –, levando-se em conta
Como as cartas eram produzidas em escala todas as peculiaridades de suas figuras e respeitan-
artesanal, a princípio, muitas delas representavam do as suas personalidades. Após essas delimitações
o estilo de seu criador, que poderia ser um pintor, ou teve início a concepção dos personagens.
até um escultor, e variava de acordo com os movi- Na maioria dos baralhos pesquisados, os
mentos artísticos pelos quais passava a Europa. A personagens possuem diferenças sutis em seu tra-
principal evolução gráfica observada nos baralhos çado, mas mantém suas idiossincrasias, como for-
se dá notadamente em decorrência das mudanças mato de nariz, barba e bigode, além de carregarem
estéticas trazidas pelo Renascimento no século XVI. consigo objetos característicos. Obter esta sutileza
Assim, à medida que as inovações no campo de detalhes orientou todo o projeto das ilustrações.
das artes e das ciências avançavam, é possível ob- Os traços foram concebidos retos, sem o
servar mudanças significativas nos estilos de ilustra- uso de curvas, afim de sintetizar os conceitos do
ção dos baralhos, como na era do Barroco, no século abstracionismo geométrico que norteia a identida-
XVIII; ou a influência do Modernismo nas cartas pro- de visual do baralho Diamond.
duzidas no século XX por grandes empresas. Para o formato do corpo e a criação da indu-
Atualmente há uma profusão de estilos e mentária foram levados em consideração os naipes
tendências em ilustração que se reflete no design e suas respectivas cores. Para copas e ouro têm-se
de baralhos, em decorrência do Pós-Modernismo destaque para o vermelho como cor de fundo, e o
na cultura contemporânea. uso de marca d’água mostrando os naipes compõe
As cartas figurativas do baralho são co- os detalhes do figurino. À frente, o uso do grafismo
nhecidas em geral por não conterem números, por na cor auxiliar gera um padrão para as três ilustra-
serem cartas maiores no baralho, identificadas por ções de cada naipe, assim como o formato do corpo.
figuras reais, e pelas letras A, K, Q e J nos baralhos Para espadas e paus as cores estão invertidas.
atuais. Oriundas do baralho inglês, significam res- Ainda sobre as cores utilizadas nas ilustra-
pectivamente “Ace” (“Ás”, significando “uma unida- ções, estas remetem a tradição das antigas cartas
de” em latim); “King”, rei; “Queen”, rainha (a “Dama” da corte, em azul, vermelho, amarelo e preto.

3
Cf. <www.i-p-c-s.org/faq/history_14.php>
51

Rough personagem reis (Fig. 48) Rough personagem damas (Fig. 49)

Rough personagem valetes (Fig. 50)


52

Rei de Paus Rei de Espadas


Conhecido como “Alexandre” no baralho É chamado de “Davi” no baralho francês,
francês, em referência a Alexandre, O Grande. É provavelmente por causa do personagem bíbli-
visto segurando um cetro em uma das mãos, com co. Segura um cetro em uma mão, e uma harpa
um escudo logo abaixo. Tem a face voltada para o pode ser encontrada logo abaixo (confirmando a
lado direito. No baralho inglês, segura uma espa- atribuição bíblica). No baralho inglês, ele segura
da na mão, e um orbe ao lado, parecendo flutuar uma espada. Tem a cabeça ligeiramente inclina-
no ar). Tem a face voltada para o lado esquerdo. da para o lado direito, comum na versão inglesa e
mais usual dos baralhos atuais, ou voltada para o
lado esquerdo, como pode ser visto nos baralhos
franceses tradicionais.

Rei de paus (Fig. 51) Rei de espadas (Fig. 52)


53

Rei de Copas Rei de Ouros


Chamado de “Carlos” no baralho francês, No baralho francês, é conhecido como
provavelmente em referência a Carlos Magno, ou “César”, em referência a Júlio César. Não possui
talvez a Carlos VII da França. Segura uma espada. nenhum atributo que o distinga, assim como não
Tem a cabeça voltada para a direita. No baralho tem as duas mãos visíveis. A cabeça está total-
inglês, também segura uma espada, acima da ca- mente inclinada para a direita, e ele pode ser visto
beça, esta voltada então para o lado esquerdo, e de perfil. No baralho inglês, possui um machado
ambas as mãos estão visíveis. Diferentemente dos atrás de si e uma de suas mãos está levantada na
outros Reis, ele não tem bigode. altura do ombro, à sua frente. Inclinado para a es-
querda, também é visto de perfil.

Rei de copas (Fig. 53) Rei de ouros (Fig. 54)


54

Dama de Paus Dama de Espadas


É conhecida por “Argine” no baralho fran- É chamada “Palas” no baralho francês, por
cês, um anagrama do nome latino “Regina” (rainha, causa da deusa grega Atenas. Tem a cabeça incli-
que reina); alguns sugerem que o nome também nada para a esquerda e é vista de perfil. No baralho
pode ser uma referência à palavra grega Argos, de inglês, é a única Dama que pode ser vista com um
múltiplos usos. É a única dama a não segurar uma cetro e tem a cabeça ligeiramente inclinada para a
flor, na versão francesa. Tem a face voltada ligeira- direita.
mente para a direita. No baralho inglês, também
segura uma flor, como as demais damas, e tem a
cabeça um pouco inclinada para a esquerda.

Dama de paus (Fig. 55) Dama de espadas (Fig. 56)


55

Dama de Copas Dama de Ouros


É conhecida por “Judite” no baralho fran- Chamada de “Raquel” no baralho francês, pro-
cês, provavelmente em referência à personagem vavelmente por causa da personagem bíblica. Tem
bíblica (ou à Judite da Baviera). Tem a face volta- a face ligeiramente voltada para a direita, na versão
da um pouco para a esquerda. No baralho inglês, francesa, e para a esquerda, na versão inglesa.
também tem a cabeça ligeiramente voltada para
a esquerda, sendo a única dama que mantém esta
equivalência nos dois baralhos.

Dama de copas (Fig. 57) Dama de ouros (Fig. 58)


56

Valete de Paus Valete de Espadas


É conhecido como “Lancelote”, no baralho É conhecido como “Hogier” no baralho
francês, provavelmente por causa do herói da época francês, sua origem é um pouco incerta, mas acre-
do Rei Arthur. Segura um escudo amarrado a uma dita-se ser em referência a Holger Danske, um
corda. Tem a face ligeiramente voltada para a es- herói lendário da Dinamarca, que possuía ligação
querda. No baralho inglês, segura um objeto difícil com Carlos Magno. Possui uma pena em seu cha-
de ser definido, mas acredita-se que inicialmente péu. Tem a cabeça ligeiramente inclinada para a
era uma flecha. Há uma pena caindo de seu chapéu direita. No baralho inglês, segura um objeto inde-
e tem a cabeça um pouco voltada para a direita. finido, que inicialmente era uma adaga. Possui bi-
gode e tem a cabeça voltada para a direita, sendo
visto de perfil.

Valete de paus (Fig. 59) Valete de espadas (Fig. 60)


57

Valete de Copas Valete de Ouros


Conhecido como “Lahire”, no baralho fran- É conhecido por “Heitor”, no baralho fran-
cês, de origem também incerta, mas acredita-se cês, possivelmente não pelo guerreiro troiano, mas
que seja em referência a Étienne “La Hire” de Vig- talvez por causa de um companheiro ou irmão de
nolles, soldado célebre do exército comandado por Lancelote. Tem a cabeça voltada para a direita e
Joana D’Arc. Tem a face voltada para a esquerda e pode ser visto de perfil. No baralho inglês, segura
sua cabeça está ligeiramente deitada na direção uma espada. Possui a cabeça ligeiramente inclina-
do ombro esquerdo. No baralho inglês, segura uma da para a esquerda.
folha e possui um machado atrás da cabeça. Pos-
sui bigode e é visto de perfil, com a cabeça tam-
bém voltada para a esquerda.

Valete de copas (Fig. 61) Valete de ouros (Fig. 62)


58

O Joker

O joker (curinga) é uma carta moderna, intro-


duzida a partir da segunda metade do século XIX,
Nenhum joker (ou qualquer carta equi-
valente) pertencia à antiga tradição árabe de jo-
nos Estados Unidos. Sua invenção é creditada aos gos de cartas, ou de algum outro sistema arcaico,
jogadores de euchre, um jogo de cartas americano como as cartas do Dominó Chinês. Mas uma carta
muito popular na época, onde o objetivo era mar- extra mostrando um demônio é tradicionalmente
car pontos lançando mão de trapaças. Em dado encontrado em muitos padrões de cartas japone-
momento da década de 1860, os jogadores de eu- ses, e mesmo em um baralho chinês. Apesar de
chre decidiram que era necessário a adição de um sua função não ser a mesma do joker, seu estilo
trunfo extra ao jogo, e assim surgira o joker. Logo gráfico não difere muito do das cartas ocidentais.
a partir de 1863 em diante, a carta passaria a ser Uma tendência contemporânea do design
manufaturada em praticamente todos os baralhos de baralhos substitui a figura do joker por uma re-
americanos, mas ele só seria incorporado ao tradi- presentação simbólica de sua identidade visual;
cional baralho inglês a partir da década de 1880. carta que nos baralhos antigos era sempre ilustrada
Alguns historiadores acreditam que o por um personagem bastante figurativo.
joker moderno é um descendente do “Louco”, das A escolha do desenho de um diamante
cartas do tarô italiano, e de fato, em alguma parte para representar a figura do joker no baralho Dia-
do século XIX o joker passou a ser retratado como mond reitera e sintetiza, dessa forma, todo o con-
um arlequim ou um bobo da corte. ceito aplicado ao projeto gráfico.

Jokers do baralho Diamond (Fig. 63)


PRODUÇÃO DO
BARALHO DIAMOND
61

O baralho Diamond foi produzido em formato 6,35 gens. Uma caixa em madeira reciclada de dimensões
20, 3 x 25 x 8 cm (LxAxP); acompanhada por uma
x 8,89 cm (LxA), conhecido como poker size, um for-
mato típico para jogos de pôquer, por ser mais largo toalha de feltro; fichas de pôquer e quatro suportes
do que os baralhos usuais. Este tamanho foi delimi- de cartas. Duas caixas para conter os baralhos – azul
tado pela gráfica. O baralho foi impresso na China, e vermelho –, também foram produzidas, em papel
cartão e couché, de dimensões 6,5 x 9,4 cm x 2 cm
por questões de custo-benefício. O suporte utilizado
(LxAxP).
foi couché 280g com revestimento fosco.
Além disso, foram desenvolvidas embala-

Kit completo produzido do baralho Diamond (Fig. 64)


Baralho e ases (Fig. 65)

Detalhe caixa do baralho Diamond (Fig. 66) Detalhe faces neutras (Fig. 67)
Detalhe kit completo (Fig. 68) Detalhe caixas (Fig. 69)

Detalhe reis (Fig. 70)


Detalhe baralho aberto (Fig. 71)

Cartas do baralho Diamond (Fig. 72)


Baralho sobre a mesa (Fig. 73)
APÊNDICE
67
Cartas numéricas
68
69

Ases

Joker Face Neutra


70
Cartas da corte
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
73

O propósito deste Trabalho de Conclusão de Curso to que através deste conjunto de informações, um
produto deveria ser criado afim de se compreender
foi o de elaborar um estudo preliminar, que compre-
endesse um levantamento histórico, e o de demons- melhor os fundamentos do design no século XXI.
trar, através das áreas de abrangência do design Constatou-se a dificuldade de fontes bi-
gráfico, um produto final – duas famílias completas bliográficas e, devido a este fato, a análise de ar-
de baralhos –, pondo-se em prática os ensinamen- tigos, e sites de referência em baralho, mostrou-se
tos da Academia, e constituindo dessa forma, um fundamental para o desenvolvimento deste proje-
projeto teórico-prático. to gráfico ao prover o embasamento teórico e as
Buscou-se o aprofundamento na evolução referências necessárias à criação de um b aralho
visual e nos processos de produção de baralhos e que fosse assimilável.
em como este produto da memória cultural do Oci- Por fim, conclui-se que o design é uma ativi-
dente serviu como espelho do desenvolvimento das dade que se apresenta alinhada à evolução humana
artes gráficas ao longo da história, até a urgência do como uma ferramenta capaz de promover o diálogo
design no mundo moderno. Partiu-se do pressupos- e a troca de experiências entre diferentes culturas.
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75

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