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BLOCO 1: O contexto histórico

UNIDADE 1: Informações gerais

OBJETIVOS

Nesta unidade serão apresentados alguns aspectos da geografia da


Palestina no tempo de Jesus: dimensões geográficas, clima, povoa-
mento. Durante a leitura, procure refletir sobre como esses aspectos
estavam relacionados com a atuação de Jesus.

A terra de Israel: distâncias e viagens

Apesar da importância para o judaísmo


e o cristianismo, a terra de Israel tinha di-
mensões geográficas bem reduzidas. Ao tem-
po de Jesus, a área era mais ou menos seme-
lhante ao tamanho de Sergipe, o menor esta-
do brasileiro. No sentido norte-sul, a exten-
são era de aproximadamente 240 km e, no
sentido leste-oeste, variava de 50 km a 80 km.

Essas distâncias reduzidas não devem


ser vistas a partir da realidade moderna, com
estradas asfaltadas e carros velozes. Na épo-
ca, viajava-se quase que exclusivamente a
pé. Em dias muito quentes, era possível ca-
minhar apenas na primeira parte da manhã
e à tardezinha, o que permitia um percurso
de mais ou menos 15 km. Em dias com tem-
peraturas mais amenas, caminhava-se em
torno de 25 a 30 km. Em dias frescos, podia-
se caminhar o dobro disso. Há relatos de jornadas diárias de até 60 km! O ju-
mento era um meio de locomoção e de transporte muito utilizado, mas também
eram usados camelos, mulas e carroças. O transporte por barco era muito co-
mum na região costeira e no lago Genesaré.

Havia três rotas principais no sentido norte-sul, cortadas por estradas no


sentido leste-oeste e interligadas a pequenas estradas regionais. Ao longo das prin-
cipais estradas havia hospedarias e cisternas para proporcionar água aos viajan-

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tes. As condições de viagem não eram boas e principalmente a ação de ladrões e


bandidos tornava a viagem perigosa. Outros problemas e perigos que os viajantes
enfrentavam eram os animais selvagens e as altas temperaturas.

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Os perigos na estrada são retratados na parábola do bom
samaritano (Lc 10.25-37): um homem, que ia de Jerusalém para
Jericó, foi assaltado no caminho. Os ladrões tiraram a sua rou-
pa, bateram nele e o deixaram quase morto.
Jesus era um pregador itinerante. Com seus discípulos, ele an-
dava por cidades e povoados. Nessas andanças, passou por pri-
vações, teve fome e sede e nem sempre encontrou acolhida ou
um local para dormir (Leia Mc 5.17; Lc 9.51-56; 9.58; Jo 4.6ss).
Há vários relatos que retratam Jesus e seus discípulos viajando
de barco. O texto de Mc 4.36ss mostra que também as viagens
de barco eram perigosas.
Jesus e as pessoas que o seguiam enfrentavam situações difíceis
e perigosas. Por isso não podemos “romantizar” a vida de Jesus
como pregador itinerante. Sua atividade e suas viagens eram
marcadas por muito esforço e também por sofrimento.

Clima

O ano na Palestina é marcado praticamente por duas estações: um verão


seco e quente (abril a setembro) e um inverno frio e chuvoso (outubro a março). A
temperatura e a quantidade de chuvas variam de acordo com a localização geo-
gráfica. No litoral, a temperatura varia entre 10 a 15°C no inverno e 27 a 32°C no
verão. Nas regiões montanhosas, é cerca de 5°C mais baixa. No inverno, pode
nevar nas regiões altas, como em Belém, Jerusalém ou Hebrom.

As chuvas caem com mais abundância nas regiões próximas ao Mar Medi-
terrâneo e com menos intensidade na encosta oriental da Cisjordânia e no vale
do rio Jordão. Isso acontece porque as montanhas da Cisjordânia, que atraves-
sam o território de norte a sul, atuam como barreiras e detêm os ventos úmidos
provenientes do mar.

Por causa da estação seca, era preciso cavar poços ou armazenar água em
cisternas. Algumas cidades dispunham de mananciais permanentes de água, como
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a fonte de Giom em Jerusalém. Aquedutos eram usados para transportar água. Um


deles, construído durante o reinado de Herodes Magno, transportava água do monte
Carmelo até a cidade de Cesaréia Marítima. O aqueduto tinha extensão de quase
10 km e suas ruínas podem ser vistas até hoje.

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Em suas viagens, Jesus e seus discípulos enfrentavam as dife-
rentes condições climáticas: sol, chuva, frio e calor. O Evange-
lho de João revela que Jesus visitou Jerusalém durante o inver-
no (Jo 10.22).

Jesus utilizou exemplos do clima e das estações do ano em sua


mensagem:
“Aprendei, pois, a parábola da figueira: quando já os seus ra-
mos se renovam e as folhas brotam, sabeis que está próximo
o verão” (Mt 24.32).
“Disse também às multidões: Quando vedes aparecer uma
nuvem no poente, logo dizeis que vem chuva, e assim aconte-
ce” (Lc 12.54).
“E caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e
deram com ímpeto contra aquela casa, que não caiu, porque
fora edificada sobre a rocha” (Mt 7.25).

Povoamento

Na época de Jesus, a Palestina deveria ter em torno de um milhão de habi-


tantes. A maioria da população vivia em pequenas cidades e aldeias, que ti-
nham entre 500 e 2.000 habitantes. As principais cidades e aldeias citadas nos
evangelhos são: Cafarnaum (Mt 4.13), Nazaré (Lc 4.16), Naim (Lc 7.11), Corazim
(Lc 10.13), Caná (Jo 2.1), Tiberíades (Jo 6.23). A vida cultural, política e econô-
mica estava concentrada nas grandes cidades, que exerciam controle adminis-
trativo e econômico sobre as aldeias e cidades pequenas.

O centro da atividade de Jesus era a pequena região da Galiléia, governada


na época por Herodes Antipas, filho de Herodes Magno. O Evangelho de Mateus
relata que Jesus andou por toda a Galiléia ensinando nas sinagogas, anunciando
a boa notícia do reino e curando enfermidades e doenças (Mt 4.23). E o Evange-
lho de Marcos afirma que a fama de Jesus se espalhou rapidamente por toda a
região (Mc 1.28).
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Até o ano 4 a.C., a capital da Galiléia era Séforis. Depois foi mudada para
Tiberíades, junto ao lago Genesaré, também conhecido como mar da Galiléia ou
lago de Tiberíades. A Galiléia é descrita pelo escritor Flávio Josefo como uma
região de terra fértil e densamente povoada. Na época de Jesus, estima-se que a
Galiléia tinha em torno de 200.000 habitantes. A maioria dos povoados da Galiléia
deveria ter em torno de 1.000 habitantes ou até menos.

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É comum lermos que multidões se reuniam em torno de Jesus.
O que caracteriza uma multidão? Tanto na Antigüidade como
hoje, o conceito de multidão é muito relativo. Para uma cidade
grande como São Paulo, mil pessoas não chegam a formar uma
multidão. Mas para uma cidade pequena do interior, isso já é
considerado muita gente. A palavra “multidão”, que aparece nos
evangelhos, significa um agrupamento de pessoas. Não dá para
quantificar ou dizer exatamente quantas pessoas compõem uma
multidão. Nem sempre eram milhares de pessoas que estavam
ao redor de Jesus. Em alguns casos, a aglomeração de cinqüenta
ou cem pessoas já era considerada uma multidão.

A Galiléia era dividida em três


regiões: baixa Galiléia, alta Galiléia e
a região do lago Genesaré. A baixa
Galiléia era composta por vales, pla-
nícies e pequenos morros. Essa região
apresentava boas condições para po-
voamento e transporte. Já a alta Gali-
léia era uma região de montanhas al-
tas, o que tornava o transporte e a co-
municação mais difícil. A região do
lago Genesaré era caracterizada pelo
bom solo, riqueza de peixes e boas
condições de transporte. Por isso era
uma região bastante povoada. O lago
situa-se a 208 m abaixo do nível do
mar. Tem comprimento de 20 km e
largura máxima de 11 km em alguns
pontos. A maior parte da água vem
do rio Jordão.
Mapa da Galiléia com indicação de cidades onde Jesus andou.
Baseado em: BÖSEN, W. Galiläa. Lebenslauf und Wirkungsfeld
Jesu. Freiburg/Basel/Wien: Herder, 1998.

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A partir dos evangelhos, os dois lugares da Galiléia normalmente
mais conhecidos são Nazaré e Cafarnaum.
Nazaré. Embora seja chamada de cidade nos evangelhos (Mt
2.23), Nazaré era uma pequena vila com cerca de 1.000 habitantes
ou possivelmente menos ainda. Alguns estudiosos chegam a
dizer que, na época de Jesus, Nazaré tinha no máximo 400
habitantes. Nazaré ficava a cerca de seis quilômetros de Séforis.
Jesus certamente teve contato com cidades grandes como Séforis,
mas os evangelhos indicam que ele preferia povoados pequenos
e que neles encontrava maior acolhida.
Cafarnaum. Cafarnaum é mencionada 16 vezes nos evangelhos,
o que mostra a importância dessa cidade para Jesus. Durante
sua atividade pública, Jesus possivelmente permaneceu a maior
parte do tempo nessa cidade. É até possível que Jesus morasse
com a família de Pedro (Mt 4.13; 8.5; Mc 1.21). Sobre o número
de moradores não há muito consenso. As estimativas vão de
1.000 a 15.000 habitantes.

Jesus pretendia alcançar todo o Israel com sua


mensagem (Mt 15.24). Em que medida a geografia,
as condições climáticas e de viagem poderiam
influenciar a missão de Jesus de alcançar Israel?
O contexto histórico certamente influenciava a atividade de Jesus.
Mas a atividade dele poderia também influenciar o contexto?
De que forma isso poderia acontecer?
De que maneira a vivência da nossa fé
é influenciada pelo nosso contexto?

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