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BLOCO 2: O que sabemos sobre Jesus

UNIDADE 4: As fontes sobre Jesus

OBJETIVOS

As informações sobre a pessoa de Jesus foram transmitidas através de


documentos escritos. Nesta unidade veremos as principais fontes dis-
poníveis para o estudo sobre Jesus de Nazaré. Você conhecerá uma
teoria sobre o surgimento dos evangelhos e as fontes extrabíblicas
sobre Jesus.

Os evangelhos

O primeiro lugar para estudar algo sobre Jesus de Nazaré é a Bíblia, especial-
mente os evangelhos. Mas precisamos considerar pelo menos duas questões:

Os evangelhos não caíram prontos dos céus. Essa constatação vale tam-
bém para toda a Bíblia. O que torna a Bíblia diferente de um livro qual-
quer é o fato dela testemunhar os feitos de Deus. A Bíblia é palavra de
Deus, escrita por pessoas.

Os evangelhos não foram escritos como registro histórico da atividade


de Jesus. Eles surgiram para fortalecer a fé das comunidades e auxiliar
no anúncio de Jesus, seja na pregação, no ensino ou em momentos de
conflito com outros grupos religiosos. Evangelho não é ata ou biogra-
fia, mas testemunho.

Inicialmente, os relatos sobre Jesus foram transmitidos boca a boca ou em


pequenos fragmentos escritos. Somente depois de muito tempo após a morte de
Jesus é que os evangelistas começaram a juntar as peças, ouvindo relatos de
testemunhas ou coletando tradições orais e escritas.

Não sabemos exatamente onde e quando foram escritos os evangelhos. Acre-


dita-se que o Evangelho de Marcos tenha sido o primeiro a ser escrito, possivel-
mente por volta do ano 70 d.C. Mateus e Lucas provavelmente escreveram entre
os anos 80 e 90 d.C. Assim como em relação às datas, não há informações precisas
sobre as pessoas que escreveram e sobre o local de redação dos evangelhos.

Os evangelhos têm a mesma intenção: testemunhar a respeito de Jesus. Se


você já leu os evangelhos atentamente, percebeu que Mateus, Marcos e Lucas

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UNIDADE 4: As fontes sobre Jesus

têm muitas semelhanças, mas também algumas diferenças. O Evangelho de


Mateus, por exemplo, é bem maior que o Evangelho de Marcos. Já o Evangelho
de João é bastante diferente dos três primeiros.

De acordo com uma teoria muito difundida, Mateus e Lucas usaram o Evan-
gelho de Marcos como base para seus evangelhos. Isso explicaria os textos co-
muns. Por causa das semelhanças, os três primeiros evangelhos são chamados
de sinóticos. O termo sinótico (ou sinóptico) indica que é possível colocar os
três evangelhos lado a lado e, de uma só vez (sinopse = vista de conjunto),
verificar concordâncias e divergências entre eles.

Vejamos um exemplo de comparação sinótica dos evangelhos:

Mt 19.30 Mc 10.31 Lc 13.30

Porém muitos primeiros Porém muitos primeiros Contudo, há últimos que


serão últimos; e os serão últimos; e os virão a ser primeiros, e
últimos, primeiros. últimos, primeiros. primeiros que serão últimos.

Se Mateus e Lucas usaram Marcos como base, como explicar os trechos


que estão em Mateus e em Lucas, mas não estão em Marcos? A história da tenta-
ção de Jesus, por exemplo, encontra-se apenas em Mt 4.1-11 e Lc 4.1-12. A expli-
cação para isso é que Mateus e Lucas teriam usado outra fonte, além do Evange-
lho de Marcos. Essa fonte, comum a Mateus e a Lucas, é chamada de fonte Q.

E se você leu os evangelhos com muita atenção mesmo, certamente tam-


bém percebeu que há relatos que estão somente em Mateus ou somente em Lucas.
Vários trechos do sermão do monte estão apenas em Mateus. Por outro lado, o
anúncio do nascimento de Jesus a Maria é relatado unicamente por Lucas. Isso
indica que esses dois evangelistas também usaram um material exclusivo (ME),
além de Marcos e da fonte Q. Em outras palavras: Mateus usou tradições que
Lucas e Marcos não tinham e Lucas teve acesso a histórias que Marcos e Mateus
possivelmente não conheceram. Graficamente podemos ilustrar a teoria das fontes
da seguinte maneira:

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BLOCO 2: O que sabemos sobre Jesus

O Evangelho de João é bastante diferente dos três primeiros evangelhos,


mas apresenta também algum material semelhante. As narrativas em João têm
uma reflexão teológica mais elaborada, com muitos aspectos simbólicos. É pos-
sível que João tenha escrito seu evangelho a partir de tradições independentes
dos sinóticos.

O que foi exposto acima é apenas uma teoria para tentar explicar as dife-
renças e semelhanças entre os evangelhos. Não sabemos se foi exatamente as-
sim que os evangelhos surgiram.

Você também pode ter percebido diferenças na apresentação de um mes-


mo relato pelos evangelistas. Mc 10.46-52 e Mt 20.29-34 contam que a cura do
cego de Jericó aconteceu quando Jesus estava saindo de Jericó. Em Lc 18.35-43,
isso acontece quando Jesus estava chegando em Jericó. Esse é um exemplo de
como os relatos poderiam se modificar no decorrer dos anos.

Jesus atuou por volta do ano 30 d.C. e o primeiro evangelho surgiu em


torno do ano 70 d.C. Entre a atividade pública de Jesus e a redação do primeiro
evangelho passaram-se, portanto, pelo menos quarenta anos. Apesar da preocu-
pação em manter a fidelidade das tradições, é natural que haja diferença entre
os evangelistas na forma de apresentar a atividade de Jesus. Não é necessário
nem recomendável tentar conciliar as diferenças. Elas não tiram a confiabilidade
dos evangelhos como palavra de Deus.

Saiba mais
Saber escrever, na época de Jesus, não era algo corriqueiro. Além
disso, não havia papel e caneta como hoje. Alguns manuscritos
eram escritos sobre material feito de papiro, uma espécie de
junco. Outros eram escritos sobre pergaminho, um material feito
com pele de cabra ou gado.
Os manuscritos dos evangelhos foram sucessivamente copiados
ao longo dos séculos. Os manuscritos originais perderam-se e
hoje temos apenas pedaços de cópias. Os fragmentos mais antigos
provêm do século II.

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UNIDADE 4: As fontes sobre Jesus

Outros escritos do Novo Testamento

Fora dos evangelhos, temos poucas informações sobre Jesus. Nas cartas de
Paulo, há algumas alusões a palavras de Jesus, como em 1Co 11.23-26, mas não
há referências às atividades de Jesus. A mesma situação repete-se nos demais
escritos do Novo Testamento.

Flávio Josefo

O escritor judeu Flávio Josefo, nascido em Jerusalém por volta do ano 38


d.C., foi um comandante militar que liderou a revolta dos judeus da Galiléia
contra Roma. Feito prisioneiro de guerra, colaborou com os romanos, tornando-
se intérprete das tropas romanas. Mais tarde, como escritor apadrinhado pelo
Império Romano, escreveu uma série de obras de grande valor para o estudo do
contexto histórico da Palestina ao tempo de Jesus. Seu nome judeu era José ben
Matthias, mas assumiu o nome de Flávio Josefo em homenagem aos seus patronos,
os imperadores romanos.

Josefo não era cristão, mas encontramos referências a Jesus em seus escri-
tos. Em alguns casos, as referências a Jesus foram adicionadas mais tarde ao
texto de Josefo. Mas é bem provável que alguma referência básica a Jesus venha
de fato de Josefo, de forma que podemos dizer que a existência de Jesus é teste-
munhada em um escrito extrabíblico do século 1 d.C.

Referências a Jesus em escritores romanos

Embora raras, podemos encontrar algumas referências a Cristo em escritos


romanos do início do século II. O historiador Tácito escreveu uma obra chama-
da “Anais”, contando a história de Roma no período de 14 a 68 d.C. Quando
retrata o incêndio de Roma no tempo do imperador Nero, Tácito faz uma breve
retrospectiva histórica, dizendo que Cristo foi executado pelo procurador Pôncio
Pilatos. Nesse caso, teríamos uma confirmação da execução de Jesus por um
escritor romano.

Em escritos de Suetônio e Plínio, o Jovem, também há breves referências a


Cristo. Essas referências não são diretas, mas surgem no contexto de questões
relacionadas ao movimento cristão no Império Romano.

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Conclusão

A existência histórica de Jesus é testemunhada em escritos bíblicos e


extrabíblicos. Mas as informações mais detalhadas sobre ações e ditos de Jesus
são encontradas apenas nos evangelhos. Os evangelhos são palavra de Deus,
mas foram escritos por pessoas a partir das histórias sobre Jesus, contadas em
rodas de conversas, celebrações e momentos de ensino.

A palavra evangelho significa “boa-nova” ou “boa notícia”.


A grande boa notícia é certamente Jesus.
A partir do seu conhecimento dos evangelhos,
procure descrever – bem concretamente – as boas
notícias que eles trazem.
Faça isso pensando na situação do povo na época
em que os evangelhos foram escritos
e na sua situação pessoal hoje.

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