Você está na página 1de 5

BLOCO 2: O que sabemos sobre Jesus

UNIDADE 6: O ministério de Jesus

OBJETIVOS

Os evangelhos retratam apenas uma pequena parcela da vida e da


atividade de Jesus. Nesta unidade veremos um esboço do ministério
de Jesus, as indicações sobre o período da sua atuação pública e os
motivos que levaram à crucificação.

Esboço da atividade de Jesus

Na Unidade 4, constatamos que as informações disponíveis sobre a vida


de Jesus estão praticamente limitadas aos evangelhos. Sabemos também que os
evangelhos não tinham a intenção de fazer um registro histórico das atividades
de Jesus. A partir das informações dos evangelhos, podemos fazer o seguinte
esboço da atividade de Jesus:

Jesus nasceu por volta do ano 6 a.C., pouco tempo antes da morte do rei
Herodes, o Grande (Mt 2.1ss).

Ele passou a infância e a juventude em Nazaré, na Galiléia. Como era


costume na época, aprendeu a profissão do pai: carpinteiro (Mc 6.3).

Jesus foi batizado por João Batista (Mc 1.9-11) e iniciou seu ministério
público quando tinha em torno de trinta anos (Lc 3.21-23).

Com um grupo de pessoas, andava por aldeias e pequenas cidades da


Galiléia, anunciando a vinda próxima do reino de Deus (Mt 4.23; 9.35;
Mc 6.56).

Jesus ficou bastante conhecido por suas curas e exorcismos (Mc 1.28).

Seus ensinamentos causavam admiração entre o povo (Mc 6.2).

Apesar de procurar alcançar todo o povo de Israel, Jesus tinha relação


mais intensa com grupos excluídos e marginalizados. Por isso também
ficou conhecido como amigo de publicanos e pecadores (Mt 11.19).

Jesus foi com seus discípulos para Jerusalém participar da festa da


páscoa. Nessa ocasião, esteve no templo e causou tumulto ao repudiar
a ação de vendedores e cambistas (Mc 11.15).

38
UNIDADE 6: O ministério de Jesus

Em Jerusalém, teve uma última ceia com seus discípulos (Mc 14.18-26).

Jesus foi preso a mando de autoridades judaicas (Mc 14.43) e condena-


do à morte pelo procurador romano Pôncio Pilatos (Mc 15.15).

Com a prisão e execução de Jesus, muitos dos seus discípulos fugiram


e se dispersaram (Mc 14.50).

Jesus apareceu aos seus discípulos após sua morte. Os discípulos agru-
param-se novamente, criando uma comunidade que esperava o retor-
no do Messias (Mc 16.9-20).

Veremos agora alguns detalhes sobre a atividade pública de Jesus.

O batismo por João Batista

A atividade de Jesus não pode ser vista separada da atuação de João Batis-
ta. João vivia no deserto e chamava o povo de Israel ao arrependimento e ao
batismo. Seu anúncio era uma ameaça para quem não estivesse preparado: “Já
está posto o machado à raiz das árvores; toda árvore, pois, que não produz bom
fruto é cortada e lançada ao fogo” (Mt 3.10). O arrependimento e o batismo deve-
riam levar as pessoas a uma nova atitude: “Produzi, pois, frutos dignos de arre-
pendimento” (Mt 3.8).

Jesus também se deixou batizar (Mc 1.9-11), e é possível que tivesse passa-
do algum tempo com João Batista. João tinha discípulos (Mt 9.14), mas não sabe-
mos qual era o tamanho do seu grupo e como estava organizado. Jesus assumiu
alguns aspectos do discurso de João Batista. Como João, Jesus falava sobre arre-
pendimento e mudança de atitude e anunciava que o reino de Deus estava mui-
to próximo. Mas, enquanto João apontava para o juízo, Jesus acentuava a graça
de Deus, manifesta no perdão e na reconciliação. Em sua atividade, Jesus man-
teve grande apreço por João Batista. Todas as referências dele ao Batista são
positivas (Mt 11.7-19; Mt 21.32).

39
BLOCO 2: O que sabemos sobre Jesus

Saiba mais
João Batista atuava possivelmente na região leste do rio Jordão,
no deserto da Peréia. Como sabemos da primeira unidade, a
Peréia era uma região governada por Herodes Antipas. “Deserto”
não significa necessariamente uma região seca e sem planta
alguma, mas uma região pouco cultivada.
De acordo com Josefo, Herodes Antipas mandou prender João
Batista porque tinha medo que a sua influência sobre o povo
pudesse levar a uma revolta ou prejudicar seu governo. O texto
de Mc 6.17ss fala que a prisão foi motivada pela crítica ao
casamento de Antipas e Herodias. Também essa história tem
conotação política. Herodes era casado com uma princesa
nabatéia e se divorciou para casar com Herodias. A princesa
rejeitada fugiu para a casa do pai, que entrou em conflito armado
com Antipas. Nessa situação, uma crítica de João podia ser
entendida como desrespeito em relação a Antipas ou como apoio
aos nabateus.

O período e a duração da atividade pública

Não é possível determinar com exatidão o período e a duração da atividade


pública de Jesus como pregador do reino de Deus. As possibilidades vão de
alguns meses a alguns anos. O mais provável é que Jesus tenha atuado publica-
mente entre um e, no máximo, três anos. Vejamos algumas informações sobre o
início e sobre o fim do seu ministério público:

a) O início. Lucas 3.1ss informa que João Batista começou a pregar no deserto
“no décimo quinto ano do reinado de Tibério César, sendo Pôncio Pilatos governa-
dor da Judéia”. Dependendo se Lucas considerou ou não o período de co-regência
de Tibério, João Batista iniciou sua atividade entre os anos de 27 e 29 d.C. Jesus deve
ter iniciado sua atividade nessa mesma época. Lucas também informa que Jesus
tinha cerca de trinta anos ao começar seu ministério (Lc 3.21-23). Essa informação
pode ser entendida como um pouco mais ou um pouco menos que 30 anos.

b) A crucificação. Jesus foi crucificado entre os anos 26 e 37 d.C., período


em que Pôncio Pilatos exercia o cargo de procurador romano na Palestina. Mas
em que ano exatamente aconteceu a crucificação? Sabemos que ela aconteceu
numa sexta-feira (Mc 15.42). Essa informação é confirmada em todos os evange-
lhos. Vários cálculos foram feitos para saber quando a páscoa judaica aconteceu
numa sexta-feira, mas ainda não se chegou a um consenso sobre o ano da morte
40
UNIDADE 6: O ministério de Jesus

de Jesus. É provável que tenha sido por volta do ano 30 d.C. Mais do que isso
não podemos afirmar.

Saiba mais
O povo cristão celebra a Páscoa para rememorar a ressurreição
de Jesus. Mas, na época de Jesus, já havia uma festa da páscoa,
que ainda hoje é comemorada pelos judeus. A páscoa judaica
celebra a libertação do povo de Israel da escravidão do Egito.
Essa festa é a mais importante do judaísmo e dura uma semana.
Nesse período só se come pão sem fermento, lembrando a saída
do Egito. Os pães são comidos com ervas amargas para lembrar
a amargura da escravidão.

Quem matou Jesus?

No processo contra Jesus aparecem três grupos: os romanos, as autorida-


des judaicas e o povo. Qual o papel desses grupos e que interesses tinham na
morte de Jesus?

Os romanos dominavam a Palestina na época de Jesus. Conforme vimos na


Unidade 3, Pôncio Pilatos era o procurador romano na Judéia. Era ele quem
tinha o poder e a autoridade para mandar soltar ou executar Jesus. Pilatos optou
pela morte de Jesus. Para os romanos, Jesus cometeu um crime político. Ele
pode ter sido visto como um revoltoso ou sua pregação sobre o reino de Deus
poderia ter sinalizado que ele tinha pretensões de poder.

Durante sua atividade pública, Jesus entrou em conflito com autoridades


judaicas por causa da sua interpretação da Lei, da crítica ao templo e ao sábado. A
crítica ao templo e a pretensão de ser o messias são motivos apontados em Mc
14.55ss. Mas possivelmente as autoridades religiosas de Jerusalém também con-
sideraram o fator político. Elas procuravam manter a ordem e as boas relações
com os romanos. Se Jesus causa tumulto e as autoridades religiosas não intervêm,
certamente as relações com os romanos seriam afetadas.

E qual seria a participação do povo na crucificação de Jesus? Por um lado,


sabemos que o povo saudou Jesus na entrada de Jerusalém (Mc 11.8-10) e que as
autoridades tinham medo de prender Jesus por causa do povo (Mc 14.1-2). Por
outro lado, lemos sobre uma multidão que gritava para crucificar Jesus e soltar
Barrabás (Lc 23.18ss). Certamente não eram as mesmas pessoas. O grupo que pediu

41
BLOCO 2: O que sabemos sobre Jesus

a crucificação de Jesus possivelmente era constituído por moradores de Jerusalém,


influenciados por autoridades locais. Esses moradores não devem ter gostado das
palavras de Jesus sobre o templo (Mc 13.1-2). Muitas pessoas dependiam do templo
para viver, e essas palavras soavam como ameaça à sua sobrevivência.

Em resumo: vários motivos podem ter levado à condenação de Jesus. De


forma alguma podemos acusar o povo judeu pela morte de Jesus. Uma parcela
do povo e das autoridades judaicas esteve envolvida, mas não se pode colocar a
responsabilidade sobre todo o povo. Além disso, a palavra final foi do Império
Romano.

O batismo de João Batista estava ligado


ao arrependimento e a uma nova conduta de vida.
O que significa o compromisso
de uma pessoa batizada em
uma comunidade cristã
e na sociedade nos dias de hoje?

42