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BLOCO 4: Doença e cura

UNIDADE 10: Doenças e suas conseqüências

OBJETIVOS

Nesta unidade teremos uma visão geral dos tipos de doenças que le-
vavam pessoas a procurar Jesus. Também veremos as conseqüências
que uma doença trazia para a pessoa e seu grupo social.

Doenças mais comuns

Os evangelhos não são escritos médicos e não servem de base para deter-
minar as doenças mais comuns na Palestina do primeiro século. Mas eles nos
permitem ter uma visão das enfermidades que atormentavam as pessoas e que
as levavam a procurar Jesus.

Alguns relatos falam de doenças e enfermidades em termos gerais, sem dar


detalhes sobre o tipo ou sobre os sintomas das doenças. Vejamos alguns exem-
plos de referências gerais:

E percorria Jesus todas as cidades e povoados, ensinando nas sinago-


gas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e
enfermidades (Mt 9.35).

E ele curou muitos doentes de toda sorte de enfermidades; também


expeliu muitos demônios... (Mc 1.34).

... para o ouvirem e serem curados de suas enfermidades; também os


atormentados por espíritos imundos eram curados (Lc 6.18).

Os textos deixam claro que as curas eram parte importante da atividade de


Jesus. Eles também indicam que as doenças eram variadas e que era grande o
número de pessoas que procuravam Jesus na expectativa de serem curadas. As
referências a demônios e a espíritos imundos fazem parte da visão de mundo da
época, que via os demônios como causadores de várias doenças. Falaremos so-
bre esse assunto na próxima unidade. Veremos agora alguns textos que apresen-
tam doenças de forma mais específica:

E eis que um leproso, tendo-se aproximado (Mt 8.2).

e lhe trouxeram um cego, rogando-lhe que o tocasse (Mc 8.22).

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foi-lhe trazido um mudo endemoninhado (Mt 9.32).

Então, lhe trouxeram um surdo e gago (Mc 7.32).

Alguns foram ter com ele, conduzindo um paralítico (Mc 2.3).

Vieram a ele, no templo, cegos e coxos, e ele os curou (Mt 21.14).

certa mulher, que, havia doze anos, vinha sofrendo de uma hemorragia
(Mc 5.25).

Nestes, jazia uma multidão de enfermos, cegos, coxos, paralíticos (Jo 5.3).

As enfermidades apresentadas nos textos são claramente perceptíveis. São


doenças de pele, dos sentidos (cegueira, mudez, surdez), de ossos ou articula-
ções (paralisia) e fluxo de sangue (hemorragia). Ou seja: qualquer pessoa pode-
ria constatar a doença – e também a cura.

O fato dessas doenças serem citadas com freqüência não significa que fos-
sem as únicas ou as mais comuns. É possível que outras doenças, como as do
aparelho digestivo, fossem tratadas com remédios caseiros. Se as pessoas podiam
tratar tais doenças com meios próprios, não havia necessidade de procurar au-
xílio fora de casa.

Saiba mais
A hanseníase, também conhecida como lepra, é causada por
uma bactéria (bacilo) chamada Mycobacterium leprae. Esta bac-
téria provavelmente não existia em Israel no tempo do Antigo
Testamento e no tempo de Jesus. O que a Bíblia chama da lepra
são doenças de pele caracterizadas por inflamações e desenvol-
vimento de escamas. Os sintomas poderiam ser semelhantes ao
da lepra, mas não eram causados pelo bacilo Mycobacterium
leprae.

Conseqüências da doença

A doença traz conseqüências para a pessoa doente e para aquelas que a


cercam. Também a forma como uma doença é entendida causa efeitos na vida
das pessoas envolvidas. Vejamos agora algumas possíveis conseqüências das
doenças no antigo Israel e na Palestina ao tempo de Jesus.

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a) Isolamento e exclusão do culto


Pessoas que tinham uma doença de pele ou fluxo de sangue (hemorragia)
podiam ser consideradas impuras. De acordo com as prescrições de pureza do
livro de Levítico (Lv 13-15), os leprosos deveriam ser isolados do grupo social:
“Será imundo durante os dias em que a praga estiver nele; é imundo, habitará
só; a sua habitação será fora do arraial” (Lv 13.46). Da mesma forma, pessoas
com algum tipo de fluxo eram consideradas impuras e precisavam passar por
rituais ou por um período de isolamento (Lv 15).

Além de sofrer com a doença, a pessoa considerada impura sofria com o


sentimento de desprezo e com o isolamento. Mas não sabemos se as regras de
isolamento do livro de Levítico eram seguidas com todo o rigor. Leprosos não
podiam entrar em Jerusalém, mas é possível que essa proibição não fosse colo-
cada em prática em todas as aldeias e vilas. Em Lc 17.12, os leprosos mantêm
certa distância de Jesus, mas aparentemente ainda viviam na aldeia. Mt 8.1-2 e
Mc 14.3 indicam certa interação entre leprosos e a sociedade. Também devemos
considerar que possivelmente os familiares e parentes nem sempre excluíam do
seu convívio pessoas com doenças de pele ou com fluxo de sangue.

Saiba mais
O isolamento poderia ser decorrência do medo de contágio. Mas
também é possível que certas doenças fossem consideradas uma
ameaça à sociedade. Doenças de pele ou deficiência física
evidenciariam a diferença entre as pessoas doentes e aquilo que
é considerado “normal”, mostrando a fragilidade ou a impureza
dentro do grupo social. Para manter a pureza, essas pessoas
seriam banidas do seu grupo, preservando-se nele apenas os
membros considerados “normais”.

b) Rebaixamento social e religioso


No antigo Israel, leprosa era a pessoa que foi formalmente declarada como
impura pelo sacerdote. Essa declaração significava um rebaixamento social, pois
a pessoa carregaria agora a marca da impureza. Era praticamente uma espécie
de “morte social”: a pessoa perdia seu status e sua honra.

Também havia uma compreensão de doença como conseqüência do peca-


do. Essa compreensão levava a uma desqualificação, pois a pessoa doente pode-
ria ser considerada pecadora, impura ou moralmente fraca. Pessoas doentes tam-
bém sofriam com o descaso ou a indiferença. A história do paralítico que não
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recebia ajuda para entrar no tanque de Betesda é um exemplo dessa indiferença


(Jo 5.1-9).

c) Peso para a família


A família carregava a responsabilidade pela pessoa doente: ela tinha que
assumir as despesas com o tratamento e acompanhar a terapia. Em alguns casos,
como as doenças do espírito (possessão demoníaca), a família ainda precisava
se preocupar com ações violentas da pessoa doente. Esse era o caso do ende-
moninhado geraseno: “porque, tendo sido muitas vezes preso com grilhões e ca-
deias, as cadeias foram quebradas por ele, e os grilhões, despedaçados. E nin-
guém podia subjugá-lo” (Mc 5.4).

A família era afetada em muitos sentidos com a doença de um de seus


membros. Quando a família não podia mais suportar o fardo, a pessoa doente
podia ser abandonada à própria sorte. As referências a cegos, paralíticos, aleija-
dos ou endemoninhados que perambulavam em torno das cidades ou dos cami-
nhos podem ser um indicativo de que foram abandonados pelas famílias.

d) Necessidade econômica
Doenças significavam um problema econômico. Além da incapacidade para
o trabalho, uma pessoa poderia perder todos os seus bens na tentativa de obter
cura. O texto de Mc 5.25-34 conta a história de uma mulher que perdeu todos os
seus bens por causa de uma doença.

Se um agricultor fica incapaz de trabalhar por um bom tempo, provavel-


mente ficará endividado, perderá sua terra e se tornará um diarista. Um diarista
que não pode mais trabalhar torna-se um mendigo. Uma doença da pele não torna
a pessoa improdutiva, mas se essa pessoa precisasse ser isolada, ela não teria
possibilidades de trabalhar e, em conseqüência, estaria destinada à pobreza.

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Vimos que, no Antigo Testamento


e na época de Jesus, algumas doenças podiam
levar ao isolamento ou à exclusão de uma pessoa.
Nos dias de hoje, doenças como hanseníase e AIDS
também podem causar sentimentos de exclusão.
Você presenciou ou conhece casos de exclusão
por causa de uma doença?
Como você avalia essa questão à luz do Evangelho?
Às vezes, uma doença não pode ser curada
em sua causa, mas em sua conseqüência.
Acolhimento, respeito, conforto, motivação são atitudes
que podem aliviar as conseqüências de uma doença.
De que forma podemos agir para diminuir as conseqüências
sociais e religiosas de uma doença?

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