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UNIDADE 11: Origem das doenças e possibilidades de terapia

UNIDADE 11: Origem das doenças e possibilidades de terapia

OBJETIVOS

Nesta unidade veremos algumas explicações para a origem das doen-


ças na época de Jesus e conheceremos as principais possibilidades de
terapia.

Como as pessoas explicavam a origem das doenças?

Hoje temos uma medicina bastante avançada. Pesquisas científicas permi-


tem descobrir a origem e a cura para muitas doenças. A partir de estudos e de
exames, é possível dizer se a causa de uma doença é genética, se é ação de vírus
ou bactéria, se houve influência de condições higiênicas ou de trabalho, e assim
por diante.

A realidade era bem diferente no tempo de Jesus. Doenças que hoje atribuí-
mos à influência de vírus e bactérias eram vistas como resultado da ação de
deuses, demônios ou feiticeiros. Havia também explicações acadêmicas, limita-
das ao desenvolvimento da medicina da época. Vejamos agora algumas explica-
ções para a origem de doenças na época de Jesus.

1) Doença como ação de Deus ou de deuses


Na Bíblia, encontramos várias passagens indicando que a doença podia ser
compreendida como castigo de Deus pela incredulidade, pecado ou não obser-
vância de mandamentos (Lv 26.15s; Sl 38.1ss; Jr 14.12; Am 4.10; Jo 9.2; At 13.11).
Aqui percebemos uma compreensão de doença como conseqüência da culpa do
ser humano diante de Deus.

Em outros casos, a doença não estava ligada a culpa ou castigo, mas a um


plano divino, que nem sempre era compreendido pelas pessoas. A história de Jó
é um exemplo. Jó era um homem temente a Deus e, mesmo assim, foi atacado
por várias enfermidades (Jó 2.1ss). Da mesma forma, o apóstolo Paulo fala de
sua doença como plano divino (2Co 12.7-9).

2) Ação de demônios
A crença em demônios como causadores de doenças era muito comum na
Antigüidade, tanto em Israel como nos povos vizinhos. No Antigo Testamento
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BLOCO 4: Doença e cura

não há muitas referências, mas em outros escritos judaicos percebe-se que essa
compreensão era corriqueira. Várias indicações nos evangelhos também mos-
tram que a crença em demônios como causadores de doenças era comum (Mc
1.23-28; 5.1-20; 7.24-30; Mt 9.32-34; 12.43-45).

Na compreensão da época, os demônios estão a serviço de Satanás. Eles


entram no corpo de uma pessoa para dominá-la, provocar sofrimento, doenças
diversas e até a morte. O demônio assume o lugar da pessoa, transformando sua
personalidade. O relato de Mc 5.1-15 é um exemplo dessa transformação. Possuí-
do por uma legião de demônios, o homem vivia nos sepulcros e nem com cor-
rentes era possível segurá-lo. Após a expulsão do demônio, o homem voltou ao
estado normal.

3) Magia
Magia pode ser entendida como a utilização de técnicas e invocação de
forças sobrenaturais para obter um objetivo. Embora as ciências sociais procu-
rem tratar a “magia” em sentido neutro, na Antigüidade ela tinha normalmente
um sentido negativo. Apesar de proibida no Antigo Testamento (Dt 18.9ss), ha-
via indicações de prática da magia em Israel (Jr 8.17). Para algumas pessoas, a
doença poderia ser conseqüência de magia.

4) Explicações médicas
Já no antigo Egito e na Mesopotâmia existiam pesquisas e atividades médi-
cas. O texto de Jr 8.22 pressupõe a existência de médicos também no antigo
Israel. Naturalmente os conhecimentos médicos da época eram bastante limita-
dos. Em alguns casos, era possível explicar a origem das doenças a partir da
constatação de um desequilíbrio orgânico, da má alimentação ou contágio.

Saiba mais
As explicações para doenças que encontramos na Bíblia e a crença
em demônios como causadores de enfermidades eram determi-
nadas pelo nível de conhecimento e pela compreensão de mun-
do reinantes na época. Quando lemos a Bíblia, precisamos con-
siderar a diferença temporal e cultural que nos separa. Não po-
demos impor nossa maneira de pensar aos textos bíblicos e nem
transportar a visão de mundo da Bíblia para os dias de hoje sem
refletir sobre as diferenças e mudanças ocorridas ao longo do
tempo.

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UNIDADE 11: Origem das doenças e possibilidades de terapia

Possibilidades de terapia

O que fazer quando surge a doença? Quais eram as possibilidades de terapia?


A escolha de uma terapia considerava o tipo de doença, a disponibilidade de
médico ou curandeiro, os custos, entre outros fatores. A terapia iniciava
normalmente com procedimentos simples e baratos e ia se tornando mais
complexa, caso não surtisse os resultados esperados. Dentre as possibilidades
de terapia, destacam-se:

Auto-ajuda. O primeiro passo da busca pela cura de uma doença é a solução


caseira, que pode envolver a utilização de plantas medicinais, medicamentos
simples, repouso, controle da alimentação.

Pedido a Deus. No antigo Israel, havia a compreensão de que Deus é a


primeira ajuda no momento da doença: “pois eu sou o Senhor, que te sara” (Êx
15.26). Orar, jejuar, confessar os pecados e oferecer sacrifícios eram algumas
formas de pedir cura a Deus:

Moisés clamou ao Senhor, dizendo: Ó Deus, rogo-te que a cures (Nm


12.13).

Buscou Davi a Deus pela criança; jejuou Davi e, vindo, passou a noite
prostrado em terra (2Sm 12.16).

Disse eu: compadece-te de mim, Senhor; sara a minha alma, porque


pequei contra ti (Sl 41.4).

Locais sagrados. Entre os gregos e romanos, era comum acreditar que certos
locais sagrados, como templos ou fontes de água, proporcionavam cura. Também
na Bíblia há indicativos de lugares que eram procurados por pessoas doentes.
Sobre o tanque de Betesda lemos no Evangelho de João: “Ora, existe ali, junto à
Porta das Ovelhas, um tanque, chamado em hebraico Betesda, o qual tem cinco
pavilhões. Nestes, jazia uma multidão de enfermos, cegos, coxos, paralíticos
[esperando que se movesse a água. Porquanto um anjo descia em certo tempo,
agitando-a; e o primeiro que entrava no tanque, uma vez agitada a água, sarava
de qualquer doença que tivesse]”.

Amuletos, ervas, óleos. Era muito comum a utilização de amuletos, óleos e


ervas para prevenir ou tratar doenças. Amuletos eram utilizados principalmente
como proteção contra doenças causadas por demônios. Certos tipos de ervas,
raízes, bálsamo e óleo eram utilizados para curar enfermidades. Até a saliva era
considerada uma substância medicinal. Vejamos alguns textos:

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BLOCO 4: Doença e cura

tomai bálsamo para a sua ferida; porventura, sarará (Jr 51.8).

e curavam numerosos enfermos, ungindo-os com óleo (Mc 6.13).

e estes façam oração sobre ele, ungindo-o com óleo (Tg 5.14).

e lhe tocou a língua com saliva (Mc 7.33).

e, tendo feito lodo com a saliva, aplicou-o aos olhos do cego (Jo 9.6).

Medicina científica. Algumas cidades tinham serviços médicos, mas o


serviço não era gratuito. Entre os romanos, havia centros de tratamento com
águas medicinais. Em termos gerais, os serviços médicos estavam disponíveis
apenas a uma pequena parcela da população. Mc 5.25-34 retrata o caso de alguém
que gastou todos os seus pertences com médicos. As recomendações médicas
podiam incluir controle de alimentação, exercícios corporais, medicamentos ou
até cirurgias.

Curandeiros. Curandeiros exerciam seu ofício através de rituais, do uso de


plantas, pedras, poções, palavras ou orações. Os curandeiros podiam aprender
o ofício de alguém ou se sentiam capacitados por um dom divino.

Exorcismos. Quando a doença era vista como ação de demônios, os exorcistas


eram procurados. Os exorcistas afastavam os demônios ou maus espíritos através
do uso de amuletos, palavras ou fórmulas misteriosas. Muito utilizadas eram as
fórmulas mágicas pronunciadas em linguagem incompreensível ou em língua
estrangeira. Também era comum a invocação de um nome ou palavra para
esconjurar demônios. A invocação de um nome poderoso servia para tornar o
demônio obediente ao comando do exorcista. Com isso o exorcista poderia
mandar o demônio embora, torná-lo inofensivo e inclusive colocá-lo a serviço
das pessoas.

Saiba Mais
O nome poderoso por excelência na luta contra os demônios era
o nome de Deus (Javé). Como o nome de Deus não podia ser
pronunciado, tornou-se comum usar o nome de Salomão,
considerado senhor sobre os demônios e patrono de todos os
exorcistas. Não há relatos que Jesus tivesse invocado algum nome
em seus exorcismos. Mas, em Mc 9.38, encontramos um relato
de um exorcista que usava o nome de Jesus para esconjurar
demônios. Também o apóstolo Paulo utilizou o nome de Jesus
para expulsar um mau espírito (At 16.18).

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UNIDADE 11: Origem das doenças e possibilidades de terapia

A Constituição brasileira assegura que a saúde


é direito de todos e dever do Estado.
Como é o acesso ao tratamento médico em sua cidade?
Um comportamento diferente pode
ser considerado possessão demoníaca,
mas não ter relação com demônios.
Nos evangelhos, percebemos tentativas
de desacreditar uma pessoa,
acusando-a de estar possessa (Lc 7.33).
Nos dias de hoje também pode acontecer
que demônios sejam colocados onde não existem.
É preciso cuidar com diagnósticos equivocados
e buscar diferentes avaliações.
Como uma comunidade poderia acolher
e acompanhar pessoas com algum desvio de comportamento?

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