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UNIDADE 14: Uma nova sociedade

UNIDADE 14: Uma nova sociedade

OBJETIVOS

Nesta unidade vamos tratar das mudanças que o domínio de Deus


traz para a pessoa e para a sociedade. Serão abordadas as relações
econômicas e de poder e também a questão da renúncia à violência.

A atividade de Jesus inaugurou o estabelecimento do domínio de Deus,


que vai crescendo como uma planta ou como o fermento na massa. O domínio
de Deus traz conseqüências para todas as dimensões da vida. As pessoas que
vivem sob o domínio de Deus procuram transformar a sociedade através de novos
princípios e ações. Vejamos agora algumas dessas mudanças.

O serviço e as relações de poder

A chegada do reino de Deus tem implicações nas relações políticas e de


poder. Quando Deus estabelecer seu domínio, essas relações serão totalmente
transformadas. Deus mesmo assumirá o domínio e governará os povos com justiça
e paz. Enquanto esse dia não chega, as pessoas que já vivem sob o domínio de
Deus são chamadas a exercitar novas relações de poder.

Jesus alertou seus discípulos para terem cuidado com o fermento de Herodes
(Mc 8.15). Isso significa: cuidado com a má influência. Além de desrespeitar as
leis e as tradições judaicas, Herodes governava com tirania. Esse exemplo não
deve ser seguido. Herodes procurou matar Jesus (Lc 13.31-33) porque a atividade
dele contradizia sua forma de fazer política. Diante da ameaça, Jesus não se
intimidou e não se desviou de sua missão.

Sob o domínio de Deus, as relações de poder têm outras características.


Em vez do poder como dominação, o domínio de Deus apresenta o poder como
serviço. O texto de Mc 10.42-44 fala de duas situações de poder. A primeira (v.
42) é o poder exercido na sociedade em geral. Os governantes abusam do poder
e o utilizam contra seus subordinados. A segunda situação (v. 43s) indica a
maneira de exercer o poder entre seguidores de Jesus. Há um contraste entre o
poder exercido pelos “grandes” e o poder que pode ser exercido no seguimento
de Jesus, ou seja: sob o domínio de Deus.

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BLOCO 5: O reino de Deus

Enquanto os “maiorais” abusam do poder e dele fazem uso para benefício


pessoal, no reino de Deus o poder só existe como serviço às pessoas. Os seguidores
de Jesus não devem se espelhar na conduta dos governantes, mas começar a
viver de acordo com outros princípios. Há uma inversão de valores e da ordem:
poder significa serviço, e não privilégio e dominação. Esse poder não deve ser
exercido apenas entre os seguidores de Jesus (e nas comunidades cristãs), mas
irradiado para fora.

No próprio círculo de Jesus havia disputa por poder e honra. Os discípulos


discutiam sobre quem era o maior (Mc 9.34) e quem poderia ficar mais próximo
de Jesus (Mc 10.37). Ser grande ou maior, sentar-se à direita ou à esquerda indicam
poder, influência, honra. Essa disputa era comum na sociedade e era isso que os
discípulos também estavam querendo. Jesus responde nas duas ocasiões: acima
de qualquer coisa está o servir. Servir é algo digno, ser grande significa servir.
Também nas relações de grupo, de família, de comunidade é necessário viver
essa nova proposta.

Jesus deu o exemplo. Ele considerou o “servir” como elemento central da


sua atividade: “porque até o Filho do Homem não veio para ser servido, mas
para servir e dar a sua vida para salvar muita gente” (Mc 10.45).

Saiba mais
A palavra grega para serviço é diakonia. Daí vem o termo diaconia
que usamos para falar do serviço prestado ao próximo. A palavra
diakonia pode descrever tanto o serviço à mesa como serviços
gerais feitos por escravos, servos, mulheres. Os antigos gregos e
romanos, principalmente aqueles das classes sociais elevadas,
desprezavam o trabalho corporal. Para eles, quem serve não tem
poder, nem é livre. A partir dessa visão, servir não era
considerado algo digno e diakonia tinha uma conotação negativa.
No judaísmo, o mandamento do amor ao próximo incluía o
serviço. Jesus cresceu nessa tradição e a colocou em prática.
Curar doentes, expelir demônios, visitar e acolher pessoas, ser
solidário com marginalizados e pobres, esses são alguns
exemplos de amor transformado em serviço.

Novas relações econômicas

Enquanto a economia dominante estava baseada na ganância e no acúmulo


de dinheiro e bens (Lc 12.13-21), Jesus prega o perdão das dívidas (Mt 18.23ss)
e a liberdade frente ao dinheiro. Essa liberdade consiste em confiar no sustento
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que vem de Deus (Mt 6.25ss). A renúncia ao dinheiro e às posses tem a intenção
de eliminar poderes estranhos e reconstruir valores baseados na igualdade. Essa
proposta já estava sendo colocada em prática por algumas pessoas, como mostra
a história da viúva pobre:

Assentado diante do gazofilácio, observava Jesus como o povo lançava ali o


dinheiro. Ora, muitos ricos depositavam grandes quantias. Vindo, porém,
uma viúva pobre, depositou duas pequenas moedas correspondentes a um
quadrante. E, chamando os seus discípulos, disse-lhes: Em verdade vos digo
que esta viúva pobre depositou no gazofilácio mais do que o fizeram todos
os ofertantes. Porque todos eles ofertaram do que lhes sobrava; ela, porém,
da sua pobreza deu tudo quanto possuía, todo o seu sustento (Mc 12.41-44).

Em vez de acumular, a viúva deu tudo. Ela já pratica aquilo que Jesus anun-
cia! Jesus usou a viúva como exemplo porque ela estava agindo de acordo com
os princípios do reino. Se a viúva pobre já vive de acordo com os princípios do
domínio de Deus, o mesmo não pode ser dito das pessoas que buscam riquezas:
“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e
amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a
Deus e às riquezas” (Mt 6.24).

Para Jesus, a riqueza é um poder estranho e oposto a Deus. Por isso ele
anuncia que dificilmente um rico entrará no reino dos céus: “E ainda vos digo
que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um
rico no reino de Deus” (Mt 19.24). A crítica dirigida aos ricos não é apenas um
ataque à confiança excessiva na riqueza, em lugar da confiança em Deus. Jesus
questiona a própria riqueza, que produz injustamente o bem-estar de poucos e
causa o empobrecimento de muitos.

Os evangelhos também falam de pessoas ricas que tinham relações com


Jesus (Lc 8.3; Mc 15.43). Isso é um sinal que o reino de Deus está aberto a qual-
quer pessoa, independente da sua posição social e econômica. Certamente essas
pessoas foram tocadas pela mensagem de Jesus e estavam vivendo de acordo
com sua proposta. Esse é o fator decisivo.

A proposta econômica de Jesus está baseada na partilha mútua, como acon-


teceu no caso da alimentação das multidões (Mc 6.30-44; Jo 6.1-15). A multidão
que estava ouvindo Jesus estava com fome. A necessidade espiritual – ouvir a
mensagem do reino – estava sendo saciada. E as necessidades materiais? Os
discípulos sugeriram que Jesus despedisse a multidão para que cada qual com-
prasse seu pão. Jesus era da opinião de que ele e os discípulos eram responsá-

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BLOCO 5: O reino de Deus

veis por aquelas pessoas. Reino de Deus e falta de pão não combinam. Como
falar do reino da abundância e deixar as pessoas famintas?

Quando os discípulos falam para Jesus despedir as pessoas a fim de que


comprem alimentos, pensam numa economia baseada no acúmulo e em rela-
ções individuais. Quem tiver dinheiro que compre o seu próprio pão! Jesus pro-
põe uma mudança de pensamento e de relações. Essa mudança troca o acúmulo
e o egoísmo pela solidariedade, partilha e o igualitarismo.

A renúncia da violência e o amor ao inimigo

O domínio de Deus manifesta-se na renúncia e na superação da violência.


Uma agressão não será respondida com outra agressão: “Eu, porém, vos digo:
não resistais ao perverso; mas, a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe
também a outra; e, ao que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe
também a capa. Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas” (Mt
5.39-41).

Quem vive sob o domínio de Deus não deve responder à violência com vio-
lência, mas desistir de qualquer retaliação. A recusa à violência não significa acei-
tar tudo passivamente. Quando é cometida uma injustiça, responde-se com ações
que reflitam justiça e bondade! Essa maneira de reação serve para realçar o absur-
do da injustiça, romper com o círculo da violência e convidar à solidariedade.

Jesus não chama para um suportar passivo, nem para uma atitude mera-
mente interior. A reação daquela pessoa que sofre injustiça deve levar a uma
mudança de atitude da pessoa que agride. Jesus anuncia uma estratégia de não-
violência, cujo pressuposto está no amor, inclusive ao inimigo. Em vez de reação
violenta e do ódio, Jesus prega o amor ao inimigo: “amai os vossos inimigos e
orai pelos que vos perseguem” (Mt 5.44).

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UNIDADE 14: Uma nova sociedade

Pertencer a uma comunidade ou igreja


por causa da proposta do reino de Deus
não é a mesma coisa que pertencer a uma igreja
simplesmente por ter sido batizado nela.
Quais são os aspectos comuns que reúnem
as pessoas numa comunidade?
E o que marca a diferença entre participantes
e não-participantes de comunidades cristãs?
De que maneira podemos anunciar
os valores do reino e praticar a diaconia hoje?

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