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BLOCO 5: O reino de Deus

UNIDADE 15: Vida em comunidade

OBJETIVOS

A vida em comunidade é o tema que abordaremos nesta unidade.


Dentre os diferentes aspectos e dimensões, trataremos da questão
da espiritualidade, do perdão, da aceitação e dos pequenos gestos
que fazem a diferença.

A vivência da espiritualidade

Espiritualidade é mais do que oração, contemplação e leitura das Escritu-


ras. A espiritualidade é a vivência concreta da fé e envolve três dimensões: pes-
soal, comunitária (no sentido de um grupo religioso) e social (abrange toda a
sociedade). Toda a atividade de Jesus – pregação, curas, perdão, comunhão com
pecadores – é uma concretização da sua espiritualidade. Ao refletirmos agora
sobre as três dimensões da espiritualidade, teremos como foco a oração. Mas
sabemos que a oração é apenas uma das expressões da espiritualidade.

a) A dimensão pessoal
A oração era um elemento essencial na atividade de Jesus. Algumas vezes,
Jesus deixou seus discípulos e a multidão para orar sozinho: “E, despedidas as
multidões, subiu ao monte, a fim de orar sozinho. Em caindo a tarde, lá estava
ele, só” (Mt 14.23). Os momentos de oração eram espaços especiais para interce-
der, louvar, recuperar ânimo, expressar angústia, aprofundar a intimidade com
Deus.

Há várias orações de intercessão, principalmente no capítulo 17 do Evan-


gelho de João (Jo 17.9,11,15,20s,24; Lc 23.34). Oração de agradecimento e lou-
vor encontramos em Mt 11.25 (“Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra...”)
e em Jo 11.41s. Jesus também sentiu angústia e clamou a Deus: “Meu Pai, se
possível, passe de mim este cálice! Todavia, não seja como eu quero, e sim como
tu queres” (Mt 26.39). Essa oração é uma expressão de sofrimento e, ao mesmo
tempo, de completa obediência a Deus. No sofrimento da cruz, Jesus ainda cla-
mou: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mc 15.34). Essa quei-
xa, baseada no Salmo 22, mostra que Jesus ainda se dirige a Deus e a ele entrega
sua vida mesmo em um momento de aparente abandono.

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b) A dimensão comunitária
O grupo de seguidores e seguidoras de Jesus era um espaço para a vivência
da espiritualidade. Junto com seu grupo, Jesus participava da vida religiosa em
Israel. Nas casas, em sinagogas e no templo; através da leitura, orações e cantos,
o grupo buscava o convívio e o fortalecimento da fé. Essas pessoas tiveram a
vida transformada pela mensagem de Jesus e, a partir delas, deveria acontecer a
transformação da sociedade. Os discípulos têm uma missão especial: “Vocês são
a luz do mundo...” (Mt 5.14). Ser luz para o mundo é um dos objetivos da espiri-
tualidade vivenciada em grupo.

c) A dimensão social
A espiritualidade não se limita à comunhão pessoal com Deus, nem à co-
munhão com um grupo específico. Uma espiritualidade apenas pessoal leva ao
individualismo. Uma espiritualidade presa a um grupo determinado pode levar
à fuga da sociedade ou à rejeição daqueles que não são iguais. Os fariseus procu-
ravam viver a fé de modo sincero, mas criavam barreiras, estabeleciam limites e
condições para a convivência com outras pessoas. Facilmente cometiam o erro
de julgar e rejeitar quem não tinha a mesma vivência.

Na história da transfiguração (Mc 9.2-8) temos um exemplo de como as


três dimensões da espiritualidade são inseparáveis. Jesus subiu com alguns dis-
cípulos ao monte para orar. Ali o grupo teve uma experiência singular: a mani-
festação de Moisés e Elias. Pedro logo quis construir tendas (Mc 9.5). A expe-
riência foi tão boa, que os discípulos queriam permanecer lá, eternizar aquele
momento de profunda comunhão com Deus.

Jesus, contudo, alerta que a espiritualidade não se esgota em tais momen-


tos. A experiência no monte pode impedir de enxergar o mundo ao redor. Ele
convida os discípulos a descer o monte e enfrentar a realidade no vale. Lá em-
baixo estão os problemas e as possibilidades de se viver a espiritualidade con-
creta. Assim como o reino de Deus abrange todas as dimensões da vida e se
manifesta neste mundo, assim também a espiritualidade deve se manifestar em
ações concretas no dia-a-dia.

O perdão

A parábola do credor incompassivo em Mt 18.23-35 compara o reino de


Deus a um rei que resolveu ajustar contas com os seus servos. Um deles devia ao
rei uma enorme quantia: dez mil talentos. O rei ameaçou vender tudo o que o
servo possuía, inclusive sua família. O servo pediu paciência e prometeu pagar
tudo. O rei fez mais do que esperar: ele perdoou toda a dívida.
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Se não fosse pela misericórdia do rei, o servo seria castigado. Além de não
ser castigado, ele foi perdoado e está livre. Mas então acontece algo inesperado.
O servo encontra outra pessoa, que lhe deve uma quantia incomparavelmente
menor do que a dívida que lhe fora perdoada. Esse devedor também pede cle-
mência. Mas, em vez de agir conforme o rei, o servo que teve a dívida perdoada
não perdoou o seu conservo. Fez ainda pior: lançou-o na prisão.

Sabendo do ocorrido, o rei mandou chamar o servo mau e aplicou-lhe o


devido castigo. O servo chamou para si o juízo porque, apesar de ter recebido
misericórdia, tratou seu conservo sem piedade: “não devias tu, igualmente, com-
padecer-te do teu conservo, como também eu me compadeci de ti?”. A chegada
do domínio de Deus traz o perdão, mas requer também uma mudança de atitu-
de. O exemplo deve ser seguido. Viver sob o domínio de Deus é ter disposição
para perdoar, da mesma forma como Deus perdoa. A ação de Deus deve determi-
nar a ação das pessoas.

Saiba mais
Para se ter uma idéia de quanto dinheiro significava dez mil
talentos, basta dizer que a soma anual dos impostos da Galiléia
e da Peréia juntas era de duzentos talentos. A quantia de dez
mil talentos significava em torno de sessenta milhões de
denários. Um denário era o que uma pessoa ganhava, em média,
por dia de trabalho. Ou seja, não existia uma dívida nessas
proporções. O número quer apontar para a impossibilidade de
pagar a dívida e para a grande misericórdia do rei. Por outro
lado, a quantia também revela o contraste com aquilo que o
devedor tinha a receber de outra pessoa.

A aceitação de todas as pessoas

Jesus reconhecia o pecado e a fraqueza das pessoas, mas não se afastava


dos pecadores. Pelo contrário, ele os procurava e não colocava condições para
ter comunhão com eles. Por esse motivo foi taxado de “amigo de publicanos e
pecadores” (Mt 11.19; Lc 7.34). Jesus não exigia uma mudança ética antes de ter
comunhão com as pessoas. Mas depois do contato com ele, as pessoas eram
motivadas a viver de acordo com os princípios do reino de Deus. Foi isso que
aconteceu com Zaqueu, por exemplo (Lc 19.1ss).

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Quando Jesus procura os pecadores, acontece a reabilitação. Essa procura


está baseada na própria ação de Deus. Duas parábolas falam especialmente dessa
atitude divina:

Qual, dentre vós, é o homem que, possuindo cem ovelhas e perdendo


uma delas, não deixa no deserto as noventa e nove e vai em busca da
que se perdeu, até encontrá-la? (...)

Ou qual é a mulher que, tendo dez dracmas, se perder uma, não acende
a candeia, varre a casa e a procura diligentemente até encontrá-la? (...)
[Abra sua Bíblia em Lc 15.4-10 e leia as parábolas]

As parábolas falam da procura pelo perdido e da alegria pelo achado. Assim


como a mulher que procura o seu dinheiro, Deus procura as pessoas. O domínio
de Deus é marcado pela misericórdia divina, que vai atrás do seu povo e se
alegra quando o encontra. Essa procura de Deus é concretizada na comunhão de
mesa de Jesus com pecadores e excluídos. Nessa comunhão, as pessoas sentem-
se aceitas e começam a perceber a chegada do domínio de Deus.

Começar com pequenos e concretos gestos

A comunidade de seguidoras e seguidores de Jesus é o local da vivência do


domínio de Deus. Aqui será colocada em prática uma nova forma de agir, que irá
contagiar toda a sociedade. Como isso acontecerá? De que forma a sociedade
poderá ser transformada apenas pelo exemplo vivido por pessoas que aceitam o
domínio de Deus? Jesus não pensa em ações mirabolantes, mas em pequenas
ações que fazem diferença:

O reino dos céus é semelhante a um grão de mostarda, que um homem


tomou e plantou no seu campo; o qual é, na verdade, a menor de todas
as sementes, e, crescida, é maior do que as hortaliças, e se faz árvore,
de modo que as aves do céu vêm aninhar-se nos seus ramos (Mt 13.31s).

O reino dos céus é semelhante ao fermento que uma mulher tomou e


escondeu em três medidas de farinha, até ficar tudo levedado (Mt 13.33).

Assim como a semente de mostarda se transforma em uma planta capaz de


abrigar pássaros e o fermento consegue fazer crescer a massa, as pequenas ações
das pessoas que vivem sob o domínio de Deus também são capazes de promover
transformações. À medida que a mensagem de Jesus é colocada em prática, essas
transformações vão aparecendo.

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A maioria das pessoas à época de Jesus não compreendeu a proposta do


domínio de Deus. Em nome dessa proposta, Jesus encarou até a morte. A sua
ressurreição é a comprovação de que Jesus falava e agia como enviado de Deus.
A formação das comunidades cristãs após a ressurreição mostra que essa proposta
ainda pode ser concretizada.

No monte da transfiguração, Pedro disse:


“Mestre, bom é estarmos aqui” (Mc 9.5)
e propôs que ficassem no monte. Muitas vezes,
experimentamos bons momentos na comunidade,
seja em uma reunião ou em um momento de celebração.
É fácil e também cômodo estar com pessoas semelhantes.
Mas precisamos descer do monte. Onde estão os problemas
e em que situações concretas a nossa espiritualidade pode se manifestar?
Quando a nossa busca por espiritualidade reforça
o individualismo ou leva ao julgamento de outras pessoas?

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Sugestão de leitura

CROSSAN, John Dominic. O Jesus Histórico: a vida de um camponês judeu do


Mediterrâneo. Rio de Janeiro: Imago, 1994.

FREYNE, Sean. A Galiléia, Jesus e os Evangelhos. Enfoques literários e


investigações históricas. São Paulo: Loyola, 1996.

KOESTER, Helmut. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 2005.

LOHFINK, Gerhard. Como Jesus queria as comunidades?: a dimensão social da


fé cristã. São Paulo: Paulinas, 1987.

LOHSE, Eduard. Contexto e ambiente do Novo Testamento. São Paulo: Paulinas,


2000.

MALINA, Bruce J. O Evangelho social de Deus: O Reino de Deus em perspectiva


mediterrânea. São Paulo: Paulus, 2004.

MEIER, John P. Um Judeu marginal: repensando o Jesus Histórico. Rio de Janeiro:


Imago.

REICKE, Bo. História do tempo do Novo Testamento: o mundo bíblico de 500 a.C.
até 100 d.C. São Paulo: Paulus, 1996.

STEGEMANN, Ekkehard W.; STEGEMANN, Wolfgang. História social do


protocristianismo: os primórdios no judaísmo e as comunidades de Cristo no
mundo mediterrâneo. São Leopoldo: Sinodal; São Paulo: Paulus, 2004.

THEISSEN, Gerd; Merz, Annette. O Jesus histórico: um manual. São Paulo: Loyola,
2002.

WEISER, Alfons. O que é milagre na Bíblia. Para você entender os relatos dos
Evangelhos. São Paulo: Paulinas.
Curso “Jesus de Nazaré” pela internet

O presente manual de estudos é a base para o curso “Jesus de Nazaré” que


a Faculdades EST oferece via internet. O curso não é confessional e é aberto a
qualquer pessoa, independente da denominação religiosa.

Como funciona o curso pela internet?


O curso é realizado através de um ambiente virtual de aprendizagem. An-
tes do início do curso, as pessoas inscritas recebem instruções e uma senha para
acessar o ambiente virtual. A cada semana são disponibilizados materiais e ati-
vidades. Com acompanhamento da monitoria, os(as) participantes realizam as
atividades previstas, podendo tirar dúvidas, comentar conteúdos, compartilhar
idéias, trocar experiências. As atividades não estão ligadas a um horário especí-
fico. Cada pessoa acessa o ambiente virtual no horário que lhe for conveniente.

Quais os requisitos para fazer o curso?


Para participar é preciso ter acesso à internet e conta de e-mail, saber nave-
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bilidade de tempo e disposição para aprender e compartilhar experiências são
fundamentais.

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O curso pela internet tem materiais adicionais, como textos complementa-
res, imagens e mapas. Além disso, é possível tirar dúvidas em relação aos con-
teúdos, ter contato e trocar experiências com outras pessoas. Não ocorre sim-
plesmente transmissão de conteúdos, mas construção conjunta de conhecimen-
tos. O curso também oferece a possibilidade de certificado de extensão.

Como fazer a inscrição?


No site www.ead.est.edu.br são divulgadas as datas do curso e as instru-
ções para inscrição. Informações podem ser solicitadas pelo e-mail
ead@est.edu.br.
Sobre a série “Educação Cristã Contínua”

A série “Educação Cristã Contínua” é organizada pela Faculdades EST e


tem o apoio da Federação Luterana Mundial e da Igreja Evangélica de Confissão
Luterana no Brasil (IECLB). Os diferentes volumes abordam temas relevantes
para o conhecimento e a vivência da fé.

A série é inspirada no “Plano de Educação Cristã Contínua” da IECLB, que


vê a educação cristã como um processo pessoal e comunitário de aprendizagem
dos conteúdos da fé. Ela acontece na família e na comunidade e se reflete nas
ações e atitudes do dia-a-dia, que é a vivência cristã no mundo. A educação
cristã não acontece de uma só vez, mas vai sendo construída e compreendida
conforme as perguntas e as preocupações do contexto e de cada fase da vida.

A tarefa de educar é mandamento que provém de Deus: “Estas palavras


que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas
falarás assentado em tua casa, andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levan-
tar-te” (Dt 6.6-7). Também Jesus, ao despedir-se de seus discípulos, deu-lhes a
tarefa de educar: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-
os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas
as coisas que vos tenho ordenado” (Mt 28.19-20).

A educação cristã é inspirada na ação de Deus entre nós e experimentada


no testemunho concreto da fé. O amor e a graça de Deus desafiam o educar para
a aceitação, a abertura e o diálogo. Educação cristã anuncia a misericórdia e o
perdão de Deus, promove reconciliação, semeia a esperança. A busca pela dig-
nidade individual e comunitária, a vivência da paz e da justiça, o zelo pela
integridade de toda criação são conseqüências de educação que se espelha na
ação divina.

Neste sentido, a série “Educação Cristã Contínua” ajuda a capacitar pessoas


para o testemunho da fé, preparando-as para a vivência familiar e comunitária e
para a construção de uma sociedade mais solidária e justa. Não se trata, portan-
to, apenas de repasse de conteúdos, mas de um chamado à reflexão e à ação.
Conheça a Faculdades EST
A Faculdades EST foi criada em 1946 como Faculdade de Teologia. É vinculada
à Rede Sinodal de Educação e identificada com a IECLB (Igreja Evangélica de
Confissão Luterana no Brasil).

Além do bacharelado em Teologia, possui o bacharelado em Musicoterapia.


Atua também na educação profissional, com a oferta de cursos técnicos, e em
cursos de extensão em diversas áreas do saber. Sua pós-graduação em Teologia
é distinguida com a nota máxima na Capes.

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