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BLOCO 4: Doença e cura

UNIDADE 12: As pessoas doentes e Jesus

OBJETIVOS

Nesta unidade vamos examinar o sentido das curas e as reações das


pessoas diante delas. Veremos que a fé é um elemento fundamental
e que as curas não eram usadas como instrumento para promoção
pessoal.

Nas duas últimas unidades vimos que a doença representava uma situação
de crise para a pessoa doente, familiares e grupo social. Além das conseqüên-
cias diretas, havia os efeitos causados pela reação da sociedade diante da doen-
ça. As possibilidades de cura nem sempre eram eficientes ou não estavam ao
alcance das pessoas. Por isso a movimentação era grande quando surgia alguém
que tinha fama de curar.

Não há registros de uma tentativa fracassada de cura por parte de Jesus. De


acordo com os relatos, todos os doentes que vieram a ele foram curados. Assim,
a fama de Jesus se espalhava, e é fácil entender por que tantas pessoas procura-
vam por ele. Mas as pessoas iam a Jesus apenas porque queriam cura ou havia
também outras motivações? E como Jesus entendia suas curas?

Curas como sinal do reino de Deus

Jesus entendia as curas e os exorcismos como manifestações do reino de


Deus: “Se, porém, eu expulso os demônios pelo dedo de Deus, certamente, é
chegado o reino de Deus sobre vós” (Lc 11.20). Quando João Batista queria saber
se Jesus era aquele que estava para vir, Jesus respondeu: “Ide e anunciai a João o
que vistes e ouvistes: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purifica-
dos, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres, anuncia-se-
lhes o evangelho” (Lc 7.22).

Para Jesus, as curas e os exorcismos eram parte integrante do anúncio do


reino de Deus. Esses acontecimentos eram um sinal de que o mal estava sendo
vencido e que já era possível experimentar a presença do reino. Os exorcismos
significavam uma luta contra o mal, uma guerra contra Satanás e seus poderes.
Se uma pessoa possuída tem o seu próprio eu roubado pelo demônio, somente
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quando esse fosse expulso a pessoa retomaria sua própria identidade. A pessoa
que tem o demônio arrancado é liberta para si mesma e pode experimentar a
realidade do reino.

Embora Jesus tenha mandado dizer a João Batista que os milagres eram
sinais do reino, ele não utilizava as curas como propaganda da sua atividade.
Jesus inclusive alerta para falsos profetas, que usam milagres para enganar pes-
soas: “pois surgirão falsos cristos e falsos profetas, operando sinais e prodígios,
para enganar, se possível, os próprios eleitos” (Mc 13.22). Jesus não curava para
convencer pessoas ou forçá-las a crer nele. Também não obrigava ninguém a
segui-lo por causa de uma cura. Em muitos casos, até pede para a pessoa ir para
casa e não contar a ninguém (Mc 7.36; 8.26; Lc 14.4). As curas, portanto, não
eram usadas para benefício pessoal de Jesus.

Curas e fé

A fé aparece como um elemento fundamental nos relatos de cura:

Então, lhes tocou os olhos, dizendo: Faça-se-vos conforme a vossa fé


(Mt 9.29).

Então, lhe disse Jesus: Ó mulher, grande é a tua fé! Faça-se contigo como
queres. E, desde aquele momento, sua filha ficou sã (Mt 15.28).

E ele lhe disse: Filha, a tua fé te salvou; vai-te em paz e fica livre do teu
mal (Mc 5.34).

Então, Jesus lhe disse: Vai, a tua fé te salvou. E imediatamente tornou a


ver e seguia a Jesus estrada fora (Mc 10.52).

Nesses casos, fé significa a confiança na possibilidade de cura. A própria


ida de pessoas doentes ou de seus familiares a Jesus indica que elas confiavam
que ele tinha poder para curar. A fé como confiança indica também a aceitação
da pessoa que cura. Em Nazaré, Jesus não pôde realizar milagres porque não
encontrou ali aceitação ou fé (veja Mc 6.1-6). A fé não é algo que se espera ape-
nas da pessoa doente. Também a pessoa que cura deve ter fé (Mt 17.19-20). Ou
seja, a fé não é requisito apenas para um dos lados.

Nos relatos de cura nem sempre é dito algo sobre a fé das pessoas doentes.
Isso é indicativo de que Jesus curava as pessoas sem estabelecer condições e
sem querer algo em troca. As curas eram demonstração do amor divino e da
compaixão de Jesus: “Jesus, profundamente compadecido, estendeu a mão, to-
cou-o e disse-lhe: Quero, fica limpo!” (Mc 1.41).
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As pessoas diante das curas

Qual era a reação das pessoas diante das curas? Vejamos alguns textos:

Então, aproximando-se, tomou-a pela mão; e a febre a deixou, passando


ela a servi-los (Mc 1.31).

Mas, tendo ele saído, entrou a propalar muitas coisas e a divulgar a


notícia (Mc 1.45).

Maravilhavam-se sobremaneira, dizendo: Tudo ele tem feito esplendi-


damente bem; não somente faz ouvir os surdos, como falar os mudos
(Mc 7.37).

Um dos dez, vendo que fora curado, voltou, dando glória a Deus em alta
voz (Lc 17.15).

Todos se admiraram, a ponto de perguntarem entre si: Que vem a ser


isto? Uma nova doutrina! (Mc 1.27).

Então, ele se levantou e, no mesmo instante, tomando o leito, retirou-se


à vista de todos, a ponto de se admirarem todos e darem glória a Deus,
dizendo: Jamais vimos coisa assim! (Mc 2.12).

E imediatamente tornou a ver e seguia a Jesus estrada fora (Mc 10.52).

E entraram a rogar-lhe que se retirasse da terra deles (Mc 5.17).

Como podemos ver, as reações eram diversas: temor, espanto, fé, louvor,
serviço, seguimento, testemunho. As diferentes reações mostram que as curas
eram entendidas de maneira distinta. É interessante notar que muitos relatos de
cura não falam nada sobre uma reação das pessoas ou simplesmente dizem que
elas foram para casa (Mt 8.5-13; Jo 5.1-9; Mc 7.24-30; 9.14-29). Havia também
reações negativas, a maioria vinda da parte de autoridades religiosas:

Mas os fariseus murmuravam: Pelo maioral dos demônios é que expele


os demônios (Mt 9.34).

Retirando-se os fariseus, conspiravam logo com os herodianos, contra


ele, em como lhe tirariam a vida (Mc 3.6).

O chefe da sinagoga, indignado de ver que Jesus curava no sábado, dis-


se à multidão: Seis dias há em que se deve trabalhar; vinde, pois, nesses
dias para serdes curados e não no sábado (Lc 13.14).

As reações negativas podiam ser conseqüência da compreensão de cura


como trabalho, o que não era permitido em dia de sábado. Também podemos
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supor que as autoridades interpretassem as ações de Jesus como ameaça ao po-


der e, por isso, não faziam questão de aplaudir suas curas.

É possível que muitas pessoas vissem em Jesus apenas um grande curan-


deiro. Pessoas buscam um médico quando estão doentes. Algumas pessoas po-
dem ter ouvido falar apenas das curas de Jesus e o procuravam por esse motivo.
Em alguns casos, as curas permitiam um contato com a mensagem de Jesus.
Mesmo que Jesus não pretendesse usar suas curas para legitimar sua missão,
elas indicavam que ele era um enviado de Deus.

Alguns textos mostram que pessoas curadas seguiram a Jesus. Essas pessoas
reconheceram nele o enviado de Deus e quiseram compartilhar da sua missão.
Outras não seguiram diretamente a Jesus, mas seguiram seus ensinamentos em
suas casas e levaram adiante a sua mensagem. Em todo caso, Jesus não realizava
curas para conseguir adeptos. Ele curava para indicar que o domínio de Deus já
havia chegado e estava se manifestando concretamente na restauração da saúde
e do convívio social.

Hoje, curas milagrosas são oferecidas,


mas muitas vezes são impostas condições,
não raramente financeiras.
O que você acha de impor condições para oferecer cura?
As curas eram sinais do reino de Deus.
Mas Jesus não curou todos os doentes da Palestina.
Também hoje nem todas as doenças são curadas.
De forma alguma isso indica falta de fé
ou pecado da pessoa doente. Também na doença é possível
experimentar o reino de Deus. De que maneira podemos
transmitir a uma pessoa doente a presença do reino?

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