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HUMANIVERSIDADE HOLÍSTICA

Yoga

“Faça yoga antes que você precise, faça yoga para uma vida esplêndida”
História do Yoga
Pedro Kupfer

É árdua tarefa acompanhar o Yoga ao longo do tempo, já que é


certamente muito mais antigo que todos os registros que dele se conhecem.
Falar sobre as suas origens, é tão difícil quanto tentar explicar a origem do
próprio homem. Muitos são os obstáculos encontrados no caminho,
considerando a escassez de recursos para a pesquisa: importantes textos
foram perdidos para sempre, o perfil de algumas tradições orais é muito
difuso e temos uma enorme dificuldade para localizar cronologicamente as
grandes personalidades históricas, vinculadas ao Yoga. Não sabemos quase
nada, até mesmo do próprio Pátañjali, fora os escassos registros escritos, que
beiram a mitificação, e o prestígio que lhe deu a sua obra.
Mas isso não é tudo. A história do Yoga está indissoluvelmente ligada à
história da Índia, que foi o berço da civilização urbana e é a mãe criadora de
um vasto universo de ciências e elementos que integram a vida cotidiana de
todos nós, humanos, às portas do III milênio. Para contar a história do Yoga, devemos considerar antes de
mais nada que ele é praxis. E, se formos imaginar os sábios ascetas da antiguidade e sabemos que eles
existem desde a mais profunda noite das idades forçosamente vamos pensar em algum tipo de tecnologia
espiritual concreta. O Yoga é inerente ao ser humano e esteve sempre vivo na memória da Humanidade.
Sabemos que as crianças fazem espontaneamente técnicas de Yoga, sempre de brincadeira, sempre de
forma instintiva. Isto, porque ele faz parte da nossa essência. O Yoga nasce a partir da compreensão das
manifestações externas da Natureza e suas influências subjetivas sobre a consciência humana.
In illio tempore, os primeiros yogis não fizeram mais do que escutar e conhecer a própria natureza. No
momento em que surgem condições favoráveis, o indivíduo consegue desenvolver o Yoga de maneira
sistemática. Podemos imaginar estes proto-yogis renunciando à segurança que oferecia a vida em aldeias e
cidades, internando-se nas profundezas de florestas e montanhas, onde existiam perigos reais como o frio
extremo das regiões setentrionais da Índia, avalanches de neve ou a presença de animais selvagens. A sede
de conhecer-se, no mais profundo e absoluto sentido da palavra, transcendia qualquer perigo. A
recompensa, o estado de não condicionamento (samádhi), bem valia o risco. Esta praxis nasce do
inconformismo, da sede de transcender a miséria existencial inerente a todo ser humano, e de eliminar os
intermediários entre si próprios e o sagrado.
Diz-se que o ócio é a mãe da filosofia. O Yoga pode ter surgido a partir de certas perguntas essenciais:
é o homem quem determina seu próprio destino? Pode ele guiar ou transformar esse destino, tornando a
própria existência um ato de criatividade? A introspecção decorrente destas reflexões levou os primeiros
ascetas a descobrir as forças latentes em si próprios, Purusha e Prakriti, o Ser e a Natureza. Purusha
representa a força cognitiva. Prakriti, a energia manifestada. Yoga significa união, é a prática que nos
permite desvendar o estado interior em que estas duas forças, também chamadas Shiva e Shaktí, se
unificam. Como método, o Yoga se baseia no autodescobrimento e na autosuperação, o que tem, por sua
vez, repercussões sociais.
Vemos surgir o Yoga bastante antes das filosofias especulativas que se utilizaram para fundamentá-lo.
Primeiramente existiu o Yoga; depois, seus apoios filosóficos. Porque, quando o rishi parte para a floresta
e renuncia à vida profana, faz uma série de descobertas sobre si próprio, mas o essencial continua sendo a
prática. Houve no início, alguém que fez isto por intuição, karma ou simples necessidade.
A filosofia especulativa surge no momento em que este primeiro yogi precisa transmitir a sua
experiência àqueles que vieram depois. A fundamentação do Yoga aparece junto com a necessidade que
este macro yogin teve de explicar a sua vivência ao seu primeiro discípulo. Nesse mesmo instante, surge
também o sistema de transmissão do conhecimento ou sucessão discipular, chamado parámpará. E foi
assim que o Yoga, originalmente uma técnica de ascese (tapas = “tornar-se irradiante”) e contemplação,
que pode não ter incluído técnicas fisiológicas sofisticadas, começou a atravessar o tempo.
Durante esse processo foram acrescentando-se novas técnicas, experiências e constatações das
sucessivas gerações de rishis, que por momentos o enriquecem e refinam com novos achados, mas às
vezes o rebaixam quando, por exemplo, passam a incorporar a pequena magia popular.
Entretanto, por mais que mudem alguns dos seus conteúdos durante essa travessia, a essência do Yoga
continua sempre a mesma: mágica, imutável e atemporal. A mensagem do primeiro yogin foi válida para
seus discípulos e os discípulos dos seus discípulos e, atravessando as gerações, continua válida para nós,
homens do século XXI. Devemos vincular os fios condutores tendidos ao longo do tempo dos quais
falamos no início, com as correntes discipulares. Existe uma linha que se remonta a partir de qualquer
praticante conectado com a tradição, ascendendo de discípulo a mestre e recuando no tempo diretamente

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até o primeiro yogi. Mesmo que desde a nossa perspectiva atual não consigamos ver claramente o início
desta sucessão, podemos inferí-la.
Olhando à distância, podemos distinguir algumas linhas bem definidas que nascem do Yoga pré-
histórico dos tempos vêdicos (c. 6500 a.C.): um Yoga marcado pelas técnicas ascéticas, um Yoga
devocional, uma forma de Yoga do conhecimento, e outro que se caracterizou pelo aspecto mágico.
Veda significa aquilo que foi visto. Os Vedas são a forma de literatura mais antiga da Índia e da
Humanidade: são textos sânscritos revelados que constituem o embasamento da tradição hindu. Os Vedas
são quatro: Rig, Yajur, Sama e Atharva. Foram compostos mais de 4000 anos antes da nossa era. Estes
mantras aparecem escritos na forma da mais fina poesia e mostram, entre outras coisas, as crenças,
costumes e formas de vida deste povo, incluindo fórmulas mágicas, encantamentos e orações dirigidas às
forças da Natureza. Constituem uma excepcional obra literária de inusitada profundidade, que contêm em
forma embrionária todas as formas de pensamento que abalizaram a Índia ao longo da História, dando
origem ao brahmanismo e, posteriormente, ao hinduísmo, incluindo o Yoga. Como todas as religiões, a do
povo vêdico originou-se como um culto animista em que os fenômenos naturais adquiriam uma
personalidade própria, a quem se podia invocar. Porém, os Vedas são muito mais do que isso: constituem
uma impressionante estrutura cosmogônica que finca profundamente suas raízes na astronomia e no
cálculo matemático.
Referências às técnicas do Yoga são feitas ao longo do Rig Veda, obra que nos mostra uma refinada
cultura que se remonta ao alvorecer da Humanidade. Nela, encontramos muitos níveis de
correspondências, entre os quais achamos inclusive uma descrição cifrada do corpo sutil, kundaliní e os
sete chakras, sobre a qual se baseiam os diferentes Yogas tântricos. O próprio sacrifício vêdico possui um
nível simbólico sutil (adhyátmik) que reflete a prática do Yoga. O Rig Veda respira Yoga em toda sua
extensão, sendo Agni a representação da kundaliní e Soma a personificação do licor sagrado, o néctar
(amrita) do sahásrara chakra. Os quatro principais deuses vêdicos se identificam com diferentes tipos de
Yoga: Agni, deus do fogo, relaciona-se ao Jñána Yoga, o Yoga do conhecimento. Soma vincula-se ao
Bhakti Yoga, o Yoga devocional. Indra simboliza o prána, a força vital, relacionando-se portanto com
todos os Yogas que se servem do pránáyáma e a respiração. Súrya, o sol, associa-se à realização por meio
de autodisciplina, estudo e sabedoria.
No período das Upanishads (c. 1900 a.C.) começa a se perfilar a sistematização do Yoga. Upanishad
significa sentar aos pés do mestre [para ouvir seus ensinamentos]. Porém, segundo Monier-Williams, o
termo significa igualmente derrotar a ignorância através da revelação do conhecimento do Supremo
Espírito, e define uma doutrina secreta que revela o mistério que jaz sob a aparência das coisas. As
Upanishads analisam o aspecto hermético dos Vedas e constituem o embasamento teórico das escolas
filosóficas Sámkhya e Vedánta.
São uma coleção de estudos filosófico-religiosos de extensão variável, alguns dos quais falam sobre o
Yoga, compostos pelos rishis, pensadores-poetas e filósofos, ao redor de 1900 a.C., mas que só foram
fixados por escrito entre os séculos II a.C. e II d.C. As primeiras Upanishads formam parte do Shruti, a
literatura revelada do hinduísmo. Novos textos são acrescentados tardiamente, aumentando o número dos
treze originais até cento e doze no século XV. As Upanishads mais recentes repetem as idéias das mais
antigas, de acordo com as idéias de determinadas escolas de pensamento. As mais extensas e antigas são
Isá, Kena, Brihad Áranyaka, Chandogya, Svetáshvatara, Maitrí, Yogatattwa e Katha, sendo que as quatro
últimas tratam do Yoga.
Eliminando as barreiras do ritualismo mecânico, os yogis upanishádicos mergulham dentro deles
mesmos sem outras ferramentas que a concentração e a meditação. O que marca a diferença essencial
entre o Yoga mágico dos Vedas e o Yoga especulativo das Upanishads é justamente o caráter prático que
este assume desde então. A partir das Upanishads, o termo Yoga passa a ter a conotação técnica que o
caracterizará no futuro. Essa “acepção técnica encontra-se por primeira vez na Taittriya, II:4 (Yoga átmá)
e na Katha Upanishad, II:12 (adhyátmá Yoga), VI,II (o texto mais próximo do sentido clássico), mas
revela-se a presença das práticas yogis nas Upanishads mais antigas. Assim, uma passagem da Chandogya
Upanishad, VIII:15 (“concentrando em si próprio todos os sentidos”), permite inferir a prática de
pratyáhára; da mesma forma, achamos com frequência alusões ao pránáyáma na Brihadáranyaka
Upanishad (por exemplo, I:5,23).
Nenhuma definição destas escrituras pode ser mais exata do que as que se encontram nelas próprias:
“Segure o arco das escrituras, coloque nele a grande flecha da devoção; tensione a corda da meditação e
acerte o alvo, o Ser. O mantra é o arco, o aspirante a flecha, o Ser o objetivo. Estique agora a corda da
meditação, e atingindo o alvo, seja uno com ele.” A ‘grande flecha‘, que é a nossa própria alma: assim
estão concebidos estes textos, dentro de uma síntese simbólica em que cada elemento cumpre sua função
alegórica. Todo o Yoga está contido nestes inspirados versos, muito felizes porque recolhem toda sua
radicalidade: apontar ao mais alto objetivo e fazê-lo com entrega, para efetivar a união (Yoga) com o
Purusha.

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Eis um exemplo da sutileza do estilo em que estes textos foram compostos, que combinam doses
equilibradas de sabedoria, lirismo e transmissão de conhecimento: “Há algo para além da consciência e
que habita em silêncio nela. É o supremo mistério que ultrapassa o pensamento. Apoiai a vossa
consciência e o vosso corpo sutil nesse algo e não o apoieis em nenhuma outra coisa.”
As Upanishads constituem interessantes testemunhos de sábios que preferiram manter-se à margem do
brahmanismo ortodoxo e da própria existência profana para se recolher na vida contemplativa. Toda uma
galeria de personagens adquire vida nestas páginas: no meio da jornada pela conquista da reintegração e
da imortalidade surge quase inadvertidamente o cotidiando de seus protagonistas. O jovem Nachiketas,
comovido pela modéstia das oferendas de seu pai, decide oferecer a sua própria vida. Seu pai destina-o a
Yama, o deus da morte. “E Nachiketas aprendeu a suprema sabedoria ensinada pelo deus da vida do além,
e aprendeu todos os ensinamentos da união interior, o Yoga. Então alcançou Brahman, o Eu Superior, e
tornou-se imortal e puro.”
De berço muito mais humilde que Nachiketas, o jovem Satyakáma deseja conhecer a sua origem. A
sinceridade da sua mãe, longe de desconcertá-lo, é assumida por ele ao responder ao seu mestre: “Não sei
a que família pertenço. Perguntei à minha mãe e ela respondeu: não sei, meu filho, a que família
pertences. Na minha juventude eu era pobre e servi, como serva, a muitos senhores, e foi então que
nasceste: por isso não sei a que família pertences.” Mas o que nos surpreende é o final da história. “E o
mestre Gautama disse-lhe: Tu és um brâhmane, pois não te afastaste da verdade. Vem, meu filho, tomar-
te-ei como estudante.”
Junto a estes seres de carne e osso, as Upanishads revelam-se pertencentes à tradição vêdica nas
abundantíssimas referências aos Vedas, dos qual se citam estrofes inteiras. Consolida-se assim a urdidura
sutil desta cultura, sempre presente em suas criações, ainda naquelas em que a inquietude metafísica e
contemplativa pareceria poder prescindir da linguagem da poesia.
Outro aspecto muito interessante destes textos é o de contemplar a atitude radical de quem busca o
Absoluto para além do ritualismo ortodoxo. Porque planteia-se aqui a adoção de uma decisão extrema que
estremece a vida civil e social: a instituição da renúncia (sannyasa), presente até hoje na Índia. Estes
mestres afastam-se da sociedade e expõem seus achados numa linguagem às vezes, clara, às vezes,
carregada de símbolos. Mas nem todos aqueles que possuem inquietudes desta ordem podem seguí-los: os
que têm família ou responsabilidades, ou os que ainda sentem-se vinculados ao ritualismo brahmânico
ficam à margem desta experiência.
Grande deve ter sido a pressão que estes “homens de ação” fizeram, beirando a marginalidade do
brahmanismo, pois a resposta às suas inquietudes é uma síntese de elementos quase antagônicos que se
recolherão muito posteriormente, na Bhagavad Gítá (IV: 20): a renúncia ao fruto dos seus próprios atos.
As mais antigas Upanishads que mencionam o Yoga, Taittriya e Katha, apresentam uma linguagem
metafórica densa, porém, permeável. Nesta última, que tem como protagonista ao já mencionado
Nachiketas, o homem é visto como o cocheiro que precisa controlar uma carruagem puxada por cinco
cavalos. Esta imagem aparece como um símbolo múltiplo: o corpo humano é a carruagem, a consciência é
o condutor, a mente representa as rédeas, os cavalos os sentidos, e os caminhos que eles trilham seus
objetos. Se as rédeas estiverem frouxas ou o cocheiro desatento, não chegará a seu destino. Chama a
atenção esta linguagem alegórica, se lembrarmos que a raiz da palavra Yoga é jug, que significa
precisamente ungir, manter amarrado. Yoga é assumir o controle do seu próprio destino, ser senhor de si
mesmo.
Os textos da Katha Upanishad não revelam detalhes sobre as técnicas do Yoga, mas a sua descrição,
apesar disso, não deixa de ser completa, posto que indique que o Yoga “vem e vai” (VI): “Quando os
cinco sentidos e a mente estão parados, e a própria razão descansa em silêncio, então começa o caminho
supremo. Esta firmeza calma dos sentidos chama-se Yoga. Mas deve-se estar atento, pois o Yoga vem e
vai.”
A Svetáshvatara Upanishad menciona na parte I “o Yoga da meditação e da contemplação” e também o
Sámkhya: os “cinqüenta raios da Roda do Poder de Brahman” são os cinqüenta estados de consciência
ensinados. Um elemento que chama a atenção nesta Upanishad (III) é a substituição de Vishnu por Shiva
como deus supremo. Este texto contém uma descrição completíssima dos benefícios que a prática de Yoga
produz, tanto no corpo quanto na transformação da consciência: ”Quando o praticante de Yoga tem
completo domínio sobre o seu corpo, que é composto pelos elementos da terra, água, fogo, ar e espaço,
obtém um novo corpo de fogo sutil, que é superior à doença, à velhice e à morte. “Os primeiros frutos da
prática do Yoga são: saúde, pouco desperdício e boa tez; leveza do corpo, cheiro agradável e voz suave, e
ausência de desejos vorazes.”
O último texto deste grupo, Maitrí, possui apenas doze estrofes, mas se concentra na sílaba Om e
descreve os quatro estados de consciência contidos em cada uma das letras do pranava: “Este átman é o
mantra eterno Om, os seus três sons, a, u e m são os três primeiros estados de consciência, e estes três
estados são os três sons.” (VIII).

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O segundo grupo de Upanishads caracteriza-se por dar mais detalhes sobre as técnicas do Yoga. Muitas
das Upanishads, como é o caso da Maitrí ou da Katha, remetem a um conhecimento seguramente muito
anterior a elas mesmas, pois repete-se com freqüência o preceito “porque foi dito em outra parte...” As
instruções para praticar dháraná que encontramos na Maitrí Upanishad (VI: 20) possuem detalhes
conhecidos por qualquer praticante de Yoga: “quem comprime a ponta da língua contra o palato e domina
sua voz, sua consciência e sua respiração, vê o Brahman por meio do tarká.”
Apesar do seu quase explícito hermetismo, as sugestivas instruções para praticar dhyána estão
formuladas com lirismo e precisão. Neste texto (VI: 29), como em outros muito anteriores a ele, insiste-se
no caráter iniciático do Yoga:
Este conhecimento não deve comunicar-se aos filhos ou discípulos, a menos que estes estejam aptos
para recebê-lo.
Entre as Upanishads tardias, chama a atenção a Yogatattwa, por sua tendência para o concreto e o
experimental. É um verdadeiro manual de instruções para yogis, descrevendo em detalhes diversas
técnicas, como ásana, mudrá e pránáyáma, assim como quatro tipos de Yoga: Mantra, Láyá, Hatha e Rája.
Fora estes shastras, há outros, posteriores, que também descrevem o Yoga: o Rámáyána e o
Mahabhárata (2000-1500 a.C.), que falam basicamente de Bhakti, Jñána e Karma Yoga, o Yoga do
conhecimento e o Yoga da ação, o Yoga Vashishta e o Yoga Sútra (200 a.C.), que recolhem e
sistematizam as técnicas de concentração e meditação (Rája Yoga), e outros textos tântricos mais recentes,
entre os quais se destacam o Hatha Yoga Pradípiká, o Gorakshashataka, o Shiva Samhitá e o Gheranda
Samhitá (c. s. XII-XV), que descrevem as técnicas fisiológicas do Hatha Yoga. Este Yoga busca a
realização através do esforço físico extremo. É um verdadeiro atalho através do mais violento esforço que
o corpo possa suportar. Dá muita importância à prática de ásana, as posições físicas, ao pránáyáma, os
respiratórios, e ao shat karma, as purificações corporais.
A partir da “descoberta” do corpo, elabora-se uma série de tecnologias que se apoiam nele para
alcançar o estado de transcendência:
O corpo construído pouco a pouco pelos hathayogis, os tântricos e os alquimistas correspondia, de
certo modo, ao corpo de um “homem-deus”. (...) A teandria tântrica não era mais que uma variante nova
da macrantropia vêdica. O ponto de partida de todas estas fórmulas era naturalmente a transformação do
corpo humano em um microcosmo, teoria e prática arcaicas, que se observam aqui e acolá no mundo e
que na Índia ariana achavam-se estruturadas desde os tempos vêdicos.
Mircéa Éliade, El Yoga. Inmortalidad y Libertad, p. 175.
O Yoga surge então paralelamente ao hinduísmo e se faz hoje dentro desse contexto, mas o que é
exatamente hinduísmo? Hinduísmo é o termo usado para designar as instituições culturais, religiosas e
sociais da grande maioria da população indiana. O hinduísmo faz a sua aparição durante o alvorecer da
civilização vêdica. Embora não exista uma data precisa a partir da qual possa se dizer que surge a
civilização hindu, poderíamos localizá-la entre o ocaso da civilização vêdico-harappiana (2200-1900 a.C.)
e o século VI a.C., a partir do qual possuímos registros escritos. Não temos evidências históricas para o
milênio anterior à época clássica na Índia, mas temos sim abundante material nos planos filosófico e
religioso. As primeiras escrituras do hinduísmo não têm uma data precisa: foram compostas e transmitidas
oralmente (parampará) durante um lapso de tempo incerto antes de serem transcritas. O termo hinduísmo
não se restringe ao âmbito religioso, pois em verdade ele não seria unicamente uma religião tal como se
concebe no Ocidente: não possui um fundador, nem profetas, nem hierarquia, liturgia, ou dogmas
definidos. Aliás, nem sequer existe uma palavra para dizer religião em sânscrito. A que mais se
aproximaria é dharma, que se traduz mais precisamente como justiça ou lei.

Extraído do site: http://www.yoga.pro.br

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Origens do Yoga e Cidade Grande

Iniciemos com a tradução literal da palavra hatha que é ha-sol e tha–lua, que unidas formam a fusão dos
"aparentemente" opostos, das polaridades energéticas, do masculino e feminino, do quente e frio; no
entanto, pode também significar força / forte, o que nos leva a definição de Hatha, como uma disciplina
altamente competente de aperfeiçoamento do ser humano, que há milhares de anos desperta vários de
nossos potenciais. Exemplificando alguns deles, a disciplina, a compaixão, a saúde, a capacidade de
dominar-se, o controle racional sobre as emoções e desejos,etc, que são apenas presentes que se pode
receber no processo de auto descoberta. Resumindo, Hatha yoga pode ser chamado de "yoga da fortaleza
interior".

É ainda uma pratica muito bem elaborado por sábios (rishis) do passado e do presente que envolve
diversas técnicas de purificações corporais como limpeza das fossas nasais, do sistema digestivo e dos
ouvidos (shatkarmas); posturas psicofísicas (ásanas),chamadas dessa forma por atuar em vários
níveis,como físico, energético ou prânico e emocional; contrações de grupos musculares específicos, com a
intenção de formar uma "fechadura energética" (bandhas); posturas / posições ou ásanas que incluem essas
travas ou fechaduras (mudras) ; técnicas de controle respiratório (pranayamas); controle dos sentidos
(prathyahara) que são fundamentais para se viver na paz nos dias atuais; concentração em vários níveis
(dhárana); meditação (dhyana ) que permita a consciência do Si Mesmo e êxtase (samadhi), ou como é
chamado por Georg Feuerstein, um dos maiores yogis da atualidade, de êntase por conduzir o praticante a
experiência última transcendental ao encontro do seu interior.

É necessário também definir Yoga, o que farei de forma sucinta por ser uma tarefa um tanto complexa.
Yoga é traduzido como união. Ele junta o que jamais foi separado, o que somente encontra-se encoberto
por nossas ilusões e pela maneira de como nos identificamos com o mundo. É uma disciplina espiritual
hinduísta com o objetivo de trazer a real consciência do que não somos - seres isolados, com pensamentos
e atitudes que não interferem nas pessoas e no mundo - yoga cria a união da verdadeira irmandade e da
responsabilidade com todos os seres exisitentes. Responde, também, as mais profundas questões da
existência humana – quem somos? Porque existimos?-yoga une o homem ao seu intelecto superior e
sabedoria além das crenças. Liberta o ser humano do sofrimento das causalidades, das dualidades e ata o
ser humano a sua essência divina.

O Yoga , existe muito antes do surgimento do Hatha e outras linhas. O Hatha yoga é bastante atual,
surgiu no período pós-clássico na história da Índia, século IX e X dC, e foi atribuído ao surgimento dos
grandes sábios visionários como os mestres Matsyendranatha e Gorakshanatha e mantém-se até os dias de
hoje, com o surgimento dos textos clássicos preservados como Hatha Yoga Pradipika (tratado sobre Hatha)
e Gheranda Samhita (tratado de Hatha ensinado pelo sábio Gheranda) do século XV. Isso é o que nos diz a
história, só que é muito difícil definir com certeza as datas das obras literárias e também o seu surgimento,
pois o Yoga sempre esteve vinculado à tradição védica e existem textos que se referem a essas práticas que
aparecem muito tempo antes dessas datas aqui citadas.

Busco ajuda no Hatha Yoga Pradipika de Svatmarana, onde diz que ‘a meta do Hatha é chegar ao Raja
Yoga’, o Yoga do controle da mente e da realização de Si através de disciplinas morais que são:

Yamas:
- não violência respeitando toda forma de vida planetaria(ahimsa);
- verdade em todos os sentidos ,verdade a suas buscas e caminhos(satya);
- não roubar absolutamente nada (asteya);
- a castidade e respeito a sexualidade como forma de evolução e maturidade (brahmacharya);
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- não cobiçar aquilo que lhe tire a paz para ser conquistado ou que não seja seu e ainda o que seja
instrumento para alimentar o Ego (aparigraha);

Nyamas:
- pureza corporal, mental, emocional (saucha);
- contentamento que é o contentun, gratidão ao seu conteúdo e as bênçãos da vida, aceitar aquilo pelo
que se está passando com equanimidade, seja alegria ou tristeza (samtosha);
- a disciplina, persistir, não desistir de suas utopias e praticas (tapas);
- o estudo de Si- Mesmo, o autoconhecimento e o constante aperfeiçoamento (svadyaya);
- e a devoção (Ishvara pranidana);

Sendo estas disciplinas a base do controle e do autoconhecimento e os próximos passos são ásana,
pranayama, prathyahara, dhárana, dhyana, samadhi.

O hatha se baseia na filosofia Tântrica que vê o corpo humano como divino e percebe a possibilidade de
transcendência neste corpo. Apesar de aparentemente estar vinculado ao Raja Yoga ele é uma caminho
autônomo de libertação. Sua característica principal é que podemos fortalecer o corpo de tal forma que
possamos cultivar realizações maiores como o samadhi, essas práticas purificam os canais sutis do corpo
(nadis) pelos quais circula a força vital (prana).

O Yoga foi descoberto no Ocidente, Estados Unidos e Europa, através grandes mestres como
Yogananda, Sivananda e chegou ao Brasil por volta de 1947 e com a ajuda do professor e pioneiro Caio
Miranda começou a ser difundido. O professor Jean Pierre Bastiou, foi um dos primeiros a ter uma escola
que ensinasse Yoga em 1957,e assim fomos nos familiarizando com a profundidade dessa filosofia milenar
que se manteve até hoje pelas mãos dos grandes professores-sábios como Hermógenes e o Shimada.

Com o passar dos anos, a Índia já não é tão impossível e alguns professores começaram a buscar o
conhecimento na fonte, trazendo-nos novos estilos e assim, novos nomes respeitados e famosos começaram
a surgir, como o professor Marcos Rojo e Gerson D’Addio formados no Instituto Kaivalyadhama;
professor Pedro Kupfer, que faz um lindo trabalho em Santa Catarina; o professor Marcos Schultz, que
desenvolve um trabalho belíssimo (do qual foi produzido um cd) de mantras (sons meditativos que podem
ser cantados em grupo) e ambos viajam constantemente a Índia, levando alunos e turistas para iniciar ou se
aprofundar na prática espiritual; o Yoga entra nas academias, clínicas, institutos e as formações começam a
ser muito procuradas. Hoje, escolas e professores internacionais vêm ao Brasil com muita freqüência, como
a escola Sivananda Yoga Vedanta Centre, uma das mais tradicionais que oferece uma formação intensiva
em ‘regime monástico’.

Não quero deixar de fora nenhum colaborador importante para a tradição, como o professor André De
Rose, a filósofa Araci Negreiros, a professora Sônia Novaes, Glória Arieira, Márcia de Lucca, mas são
vários os nomes que posso citar, dos que fizeram e fazem permanecer intacto o conhecimento e transmiti-lo
da forma correta e fiel.

Fico bastante feliz de observar que apesar de algumas ondas passageiras de modismo, ainda existem
pessoas que realmente procuram essa tradição com a intenção verdadeira de transforma-se e transformar o
mundo.
Encontros, revistas, seminários, cursos de graduação universitária, hoje, são muito comuns e procurados
por alunos, curiosos, pessoas que curtem uma moda hippie ou alternativa.
Humaniversidade Holística 6
O Yoga faz muito sucesso no mundo todo por possuir inúmeros benefícios para a saúde física, mental e
espiritual. Só que tudo isso não é tão simples de se obter.

No mundo atual de internet, fast food, onde todos querem tudo pra ontem, onde o tempo, que é o mais
precioso dos mestres é considerado dinheiro, são poucas as pessoas que procuram o Yoga pelo seu objetivo
final, pois isso necessita muito tempo, amadurecimento e dedicação. É necessária e essencial uma grande
dose de disciplina e regularidade, ou seja, reservar um tempo diariamente para praticar os ásanas e
pranayamas, a meditação e durante todo tempo, ou seja a cada ação, a cada momento, exercitar os yamas e
nyamas. Este é o ideal dos praticantes, viver nesta disciplina até o momento em que simplesmente oYoga
não seja só parte da sua rotina, e sim sua vida.

Só para ressaltar todas essas regras que nos parece imposição, não passam de nossa obrigação, pois
nesta vida o nosso principal objetivo se não é chegar à transcendência, é no mínino tornar-se um ser
humano ético, digno, que consegue pensar, sentir e agir em retidão, que é a maneira mais garantida de
manter-se em paz.

Esta é a proposta e a meta a ser alcançada nos parece muito distante. Pra que possamos saber, temos que
seguir determinados e ir curtindo todas as bênçãos que recebemos pelo caminho, não esquentando tanto a
cabeça com a meta. E como descrito no Sarvavedanta Siddhanta Sarasamgraha, “sem fé não há esforço.
Sem esforço não há realização”.

Texto de Juliana Araujo (Krishna Priyah), yoguini com o desafio de viver em uma grande metrópole
sem perder a paz!!

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Ahimsá, a meta ética do Yoga de Pátañjali
José Hermógenes

Não obstante parecer repetitivo, trato aqui com maior


profundidade do pré-requisito ético do Yoga de Pátañjali.
Ahimsá é colocado à frente de todos os yamas e niyamas, não só
como sendo o mais importante, mas por ser o objetivo de todas as
abstinências e preceitos éticos estabelecidos por Pátañjali. Todas
as virtudes conduzem a ahimsá.

Vejamos:
Satya
A segunda abstinência, ou yama, é "abstenha-se de mentir".
Satya é não somente a Verdade, mas a veracidade. Quando o
yogin se abstém de iludir, de mentir, de comunicar aquilo que ele
sabe que não é, está agindo em nome do amor que tem pelo outro.
Quando, ao contrário, hipocritamente, explora a credulidade do
interlocutor, comete uma violência, um desrespeito, está ferindo,
embora de maneira sutil, alguém que precisa da Verdade. Viver,
pensar, querer e dizer a verdade é ahimsá; é contribuir para o bem.
Há, no entanto, certas verdades que, se forem ditas de maneira
crua, chegam a ferir, a desgostar, a machucar o próximo. Há
verdades que, expressas sem caridade, embora sendo verdade, valem por himsá. Quando tivermos de optar
entre uma verdade que machuque e o evitar machucar, ensinam os Mestres, que se sacrifique a verdade ao
amor, isto é, que se pratique ahimsá mesmo em detrimento de satya. Há um exemplo clássico para
ressaltar esse preceito: se um homem em fúria assassina, um assaltante feroz, lhe perguntar onde se
encontra aquele que ele procura matar e você mentir indicando-lhe uma direção falsa ou omitir o que sabe,
você está sacrificando a verdade, mas está entronizando o amor.
A verdade sempre deve servir ao amor. Satya deve conduzir a ahimsá.

Asteya
A terceira abstinência é "não se aproprie do que não é seu". Asteya, o não furtar (roubar), é um
mandamento em proveito do amor. Qualquer furto é himsá, é violência, pois causa dano patrimonial e,
indiretamente, outros danos à vítima. Não é preciso que o roubo seja de objeto material (dinheiro, jóia,
utilidade...). Devemos evitar igualmente roubar idéias, prestígio... Tudo isso, que tanto se vê em nossa
Humanidade infeliz, é himsá. Se não chega a ser ódio, é falta de amor, falta de caridade. Os lucros
excessivos são agressões, e constituem violência. A Humanidade viveria em paz se cada um evitasse se
apropriar indevidamente de qualquer valor, tirando-o, desonesta e cruelmente, dos demais. Haveria para
todos o bastante para viver. Em proveito do amor (ahimsá), devemos respeitar asteya.

Brahmacharya
A quarta abstinência é em relação ao sexo. "Abstenha-se do sexo" seria sua formulação literal. Mas tal
conceito de castidade carece de um esclarecimento. Não se refere a "castração" psíquica. Não implica
repressão. Não significa um anátema à união sexual. Nada disso. Uma vida casta é aquela que conduz
(acharya) para Deus (Brahman). Brahmacharya é o caminho para Deus. E nisso, sexo não é pecado.
Pecado, erro e desvio desse caminho é o abuso, a aberração, a degradação, a poluição sexual. O sexo é tão
divino como o pensar, o respirar... A atividade sexual perpetua a vida e é uma função a serviço de Deus. A
energia sexual, tanto quanto a espiritual, são expressões de Shaktí (a Mãe Divina). Como sexo, com
pureza e castidade, pode ser condenado como pecado? O anátema não é sobre o sexo, mas sobre a
exploração e o abastardamento do que é divino. Explorar sexualmente outrem, corromper sexualmente
outrem, é agressão, é violência, é falta de amor. Pátañjali nos diria: tendo ahimsá (o amor) por objetivo,
não abastarde o sexo, não fira a dignidade de seu companheiro ou companheira, mas ame-o com Amor
divinizante. Diria também Pátañjali: não use a Shaktí tão exagerada e obsessivamente para a atividade
sexual, mas seja sóbrio, e economize a energia para canalizá-la no sentido vertical da espiritualização. Em
outras palavras: economize no sexo e, assim, acumule ojas shaktí, energia espiritual.

Humaniversidade Holística 8
Aparigraha

A quinta abstenção é "não cobice". A cobiça produz himsá, isto é, desamor, descaridade, violência,
crueldade e ódio, e se manifesta como variados crimes contra os outros. A cobiça é uma ansiedade por ter
mais, conquistar mais, reter e multiplicar o que já se tem e desfruta... E tudo isso só é possível sacrificando
os outros. Na concorrência - "eu devo ter mais e ganhar mais..." - o ambicioso não vê irmãos diante de si,
e muito menos a Unidade Essencial; vê somente vítimas a serem exploradas, dilapidadas, empobrecidas e
esmagadas... Que é isso senão himsá? Os que se abstêm de cobiçar estão concorrendo para o amor, para a
caridade e para a justiça. Isso não é ahimsá?

Vimos até aqui como os yamas os abstinências contribuem para ahimsá. Agora veremos como os
preceitos ou niyamas também o fazem.

Shauchan

O primeiro preceito diz: "seja puro". O praticante de Yoga deve cultivar pureza em seus diversos
aspectos: internos, externos, físicos e psíquicos.
Parece difícil encontrar correlação entre pureza interior e ahimsá. Um interior impuro é um organismo
intoxicado. Ora, uma pessoa intoxicada, digamos no caso de uma vítima de prisão de ventre e
simultaneamente um comedor de carnes (alimentos rajásicos, próprios para as feras, as quais precisam ser
violentas), sua predisposição é muito mais para reações bruscas, agressivas e descontroladas do que o
contrário.

A limpeza externa, mesmo numa pessoa de escassa beleza, lhe dá uma aparência agradável e amena.
Ao contrário, caracteriza-se como falta de caridade uma aparência suja, desalinhada e fétida. Em
homenagem ao amor e benevolência, cuide de sua pureza externa.

Santocha

O segundo preceito é "cultive contentamento". Uma pessoa contente é um violento a menos na


sociedade. O descontente, ao contrário, é um perigo solto. O descontente, sujeito à inveja, à insegurança e
à intemperança é potencialmente um agressor. Em silêncio rumina planos, em seu coração deseja algo,
mesmo que seja contra alguém. Isso já é himsá. O homem contente, humilde e satisfeito, por que vai
atirar-se contra quem quer que seja contra o que quer que seja? O contentamento o faz equânime e feliz.
Não se sente ameaçado. Não se sente desafiado. Nem ofendido. Nem intranquilo. É uma pessoa pacífica,
paciente e contente. Isso lhe assegura conviver em paz, em ahimsá.

Tapas

O terceiro preceito é difícil de sintetizar, como os outros, em apenas uma sentença, pois o termo
sânscrito tapas tem múltiplos significados. Conforme o significado que lhe atribuamos, o preceito muda,
mas todos eles concorrem para reduzir a violência no mundo.

Vejamos:

a) "pratique austeridades", isto é, discipline seus desejos de conforto, de mordomia, de gozo e de


sensualidade, não precisando chegar às mortificações patogênicas e masoquistas;
b) "melhore a têmpera, a endurance, a condição espartana no corpo e na mente, tanto que o corpo
venha a se tornar um instrumento domado, afinado, resistente à enfermidade, à fadiga fácil, ao ataque do
tempo e das intempéries";
c) "deixe queimar as impurezas, as incrustações adversas ao caminho e os vestígios de condições
impróprias à realização maior";
d) "não se deixe amolecer no conforto, na segurança, no ócio, no luxo, na luxúria...", o que equivale
dizer: fortaleça sua vontade e seu caráter.

Em qualquer dessas interpretações para a palavra tapas (literalmente, queimar), o preceito nos vacinará
contra o rancor, o ódio, a violência e a ira, isto é, contra himsá. E não é exatamente isso que se entende por
ahimsá? A evidência mostra que só os fracos e medrosos atacam. Assim, um sereno praticante de tapas,
que nada teme e tem o dom de suportar tudo com equanimidade, um sereno praticante de tapas, que é
essencialmente um forte e destemido, jamais produzirá sofrimento no mundo.

Humaniversidade Holística 9
Swádhyáya

O quarto preceito recomenda: "estude-se e estude o Ser". Como pudemos ver nas páginas 17 a 24 de
Convite à Não-violência, desde que alguém, por uma autoanálise isenta e corajosa, constatou ser uma
pessoa violenta, tem a condição básica para tornar-se não-violenta. É a partir de uma autognose, ou
melhor, de um diagnóstico de si mesmo, que o indivíduo pode se tratar de um traço ou outro de seu
caráter, temperamento ou comportamento. Enquanto iludido, acredito que seu uma pessoa pacífica, não
tendo como me curar de minha violência intrínseca e inapercebida. Nas páginas 46 a 58 do mesmo livro,
vimos como só aquele que começa a sentir o Ser, e consegue sentir o mesmo Ser nos seres dos outros,
perde definitivamente sua possibilidade de ferir, e, ao mesmo tempo, não pode mais deixar de muito amar.

Se uma autognose não revela a alguém que ele é agressivo e violento, mentiroso, desonesto, vítima de
sexualidade mórbida em quantidade e qualidade, ambicioso, impuro, descontente, comodista e frágil...
como a correção de tantos defeitos? Swádhyáya , como o estudo do Ser de todos os seres, é o preceito
mais eficiente para trazer paz entre os homens e para implantar o amor.

Íshvara pranidhána

O quinto niyama seria expresso assim: "se entregue total e irrestritamente a Íshvara, Deus pessoal,
Aquele, sem a Graça do Qual, é impossível a realização do Yoga, ou União". Quem vive entregue a Deus
não tem problemas. Não tem reivindicações a fazer. Não tem combates a travar. Já tem tudo, e é tudo. Seu
estado de entrega dispensa-o de ansiedades, fobias, receios, revoltas, indignações, inseguranças,
finalmente, de todos esses e outros estados aflitivos da mente, que tornam o homem explosivo, mau, e
mesmo feroz, quando ameaçado ou contrariado. O devoto que se entregou está acima de qualquer ofensa
ou queixa; vive em ahimsá tão natural como um regato que corre e uma flor que abre. Seu euzinho, que
era reivindicante, ranzinza, ciumento, invejoso, ofendível... está gozando a quietude plena.
Do exposto, podemos concluir, sem dúvida, que, se a maioria dos homens praticasse a ética do Yoga,
que em nada é legalista, repressiva, obsessiva, fanática e mórbida, reinaria a Paz na Humanidade.
Viveríamos gostosa e gloriosamente em ahimsá.

Extraído do livro Convite à Não-violência


e do site: http://www.yoga.pro.br

Humaniversidade Holística 10
O que o Yoga não é.
Maria Alice Figueiredo

O que é o Yoga? Essa é uma pergunta que aprendi a temer, porque é


impossível respondê-la em poucas palavras. Dizer, por exemplo, que o Yoga
é a ciência do ser e a arte do existir é uma resposta precisa e poética.
Todavia, para que venha a ser compreendida por um leigo, será necessário
acrescentar um longo comentário.
O objetivo primordial do Yoga é levar-nos, através de técnicas tanto
físicas quanto psíquicas, a vivenciar estados do ser que se situam além da
atividade mental que opera com palavras e idéias: além dos pensamentos,
enfim.
E, logo aqui, nos deparamos com uma grande dificuldade em relação aos
conceitos, pois, para o ocidental, o que se situa além da atividade mental pensante é o inconsciente,
enquanto que, para o Yoga, o que fica além dos pensamentos é o reino da consciência pura, do qual a
mente ordinária deveria ser apenas um canal de expressão.
Essa divergência radical encontra eco nas diferentes versões de Freud e Jung sobre o inconsciente.
Freud descreveu um inconsciente conflituoso e problemático que, subliminarmente, controla nossos atos à
nossa revelia. Um sabotador. Muitas vezes, um inimigo. Jung descreveu um inconsciente vasto e sábio,
que chamou de Si Mesmo (no original alemão Selbst; no inglês, geralmente adotado o termo Self). Para
Jung, o inconsciente age como um guia, enviando-nos mensagens esclarecedoras e orientadoras.
Para o Yoga ambos estão certos, mas falam de coisas diferentes. Jung fala de um inconsciente que sabe
mais do que o consciente, um inconsciente que não apenas está além da consciência ordinária, mas que se
situa acima dela, embora ele não fizesse essa distinção. O Yoga afirma que essa é a verdadeira
consciência, da qual a outra, a pensante, é o sistema de operacionalização. Vamos chamá-la de
consciência espiritual.
O inconsciente de Freud é realmente o subconsciente, como ele inicialmente o denominou. A função
legítima do subconsciente é funcionar como um arquivo e poupar-nos da necessidade de manter a atenção
nos processos repetitivos e rotineiros, como dirigir um carro ou datilografar. Tudo aquilo que está
arquivado no subconsciente deveria poder ser trazido ao consciente, sem dificuldade. O subconsciente
problemático é constituído por experiências e percepções que implicariam em conflito, e que banimos da
consciência porque não nos sentíamos preparados para encará-los e resolvê-los. Como afastá-lo da
consciência não significa eliminá-lo, o problema continua existindo, embora fora do nosso alcance.
O Yoga diz que o subconsciente é a morada dos samskáras e das vásanás, as impressões e tendências
subconscientes que modelam o nosso caráter. Purificar nossa mente dos conflitos porventura existentes
entre o subconsciente, a mente racional e a consciência espiritual é o papel do Kriyá Yoga, tal como
descrito por Pátañjali, codificador do Yoga mental, o Rája Yoga.
Esse processo de purificação é indispensável para que não façamos confusão entre as intuições que
vêm do supramental e os conteúdos que vêm do subconsciente. Para que não confundamos aquilo que é
fruto de uma sabedoria superior com aquilo que é irracional.
O objetivo desse Yoga é colocar-nos em contato com as raízes do nosso ser que, diferentemente das
raízes vegetais, ficam acima e não abaixo da copa. Essa árvore mítica tem, em sânscrito, o nome de
ashvattha. Suas raízes são supramentais e constituem uma forma de consciência superior à consciência
ordinária. Trata-se de uma consciência espiritual capaz de discernir o sentido evolutivo da vida e decidir
sobre valores: o que é bem, o que é mal e porque. É profundamente diferente da consciência mental, cuja
lógica racional pode apenas detectar incoerências e operacionalizar ações.
Toda ação depende de decisões prévias, e toda decisão é tomada a partir de um sistema de valores.
Quando esse esquema de valores não é providenciado pela consciência espiritual, será formulado sob a
influência dos desejos emocionais e instintivos que provêm de níveis do ser hierarquicamente inferiores à
razão. Essa inversão é responsável pelo estado dividido e conflituoso de nosso ser.
Para atingir a grande meta do Yoga e vivenciar a consciência supramental, é necessário realizar
previamente uma ampla tarefa, clareando a consciência nos diversos níveis do ser, compatibilizando e
hierarquizando sua expressão, de modo que ela possa desempenhar suas funções sem repressão e sem
abuso.
Yoga significa união: a união entre instinto, emoção e razão; união da consciência mental com a
consciência espiritual. Usando uma linguagem ocidental, a união do ego com o Si Mesmo (ou Self), no
que Jung chamou de processo de individuação ou realização da função transcendente, conforme sua
terminologia.

Humaniversidade Holística 11
Yoga também significa jugo, ou seja, a manifestação organizada e hierarquizada do ser, sem inversões
de comando, para que a razão governe sobre a emoção e o instinto, e para que os objetivos concretos não
se sobreponham aos valores abstratos de uma verdadeira ética espiritual.

Yoga significa também um estado transcendente além dos vrittis (ondas mentais, pensamentos);
significa a dimensão infinita do ser, o eterno agora onde o silêncio é a única resposta de uma presença
inexprimível.
Como vemos, não é fácil encontrar uma definição que abranja tudo aquilo que o Yoga é, porque o Yoga
é uma prática e um objetivo que engloba o ser do homem em toda a sua complexidade orgânica, psíquica e
espiritual.
Enquanto técnica, o Yoga é também globalizante, porque trabalha com todos os níveis da consciência
humana: o corpo, a energia vital, as emoções, o pensamento cotidiano, o pensamento abstrato e a intuição.
Existem diversos ramos de Yoga, porque existem pessoas com aptidões diferenciadas e temperamentos
diversos. Cada um desses ramos trabalha com um nível do ser, aquele com a qual a pessoa tem mais
afinidade e com aquilo que representa a linha de menor resistência para ela. Essa característica, que
representa uma grande vantagem prática, e é fruto de uma sabedoria que reconhece a diversidade dos seres
humanos e de suas necessidades específicas, tem contribuído para confundir as pessoas que adotam uma
abordagem superficial a respeito do Yoga.
Encontramos muito frequentemente sistemas filosóficos ou religiosos que pretendem uma abordagem
única e uniformizante, o que conduz à exclusão ou perseguição daqueles cuja própria maneira de ser torna
difícil, ou até mesmo impossível, a aceitação daquele caminho. O Yoga compreende que podemos atingir
a mesma meta vindo por caminhos que parecem diametralmente opostos, mas que, na verdade, são
compatíveis e complementares, vistos a partir de uma perspectiva mais ampla e menos sectária.
Não é fácil para os ocidentais compreender aquilo que o Yoga é. Está muito distante de sua cultura.
Assim, confundem o Yoga com ginástica, quando vêem o Hatha Yoga, e confundem-no com religião
quando vêem o Bhakti Yoga. Fazem essas analogias porque se lembram de algo que já conhecem
pertencente ao seu universo mental. Assim, é oportuno esclarecer alguns dos lugares-comuns sobre o
Yoga, já que muitas pessoas têm dele uma impressão completamente falsa.

Yoga não é uma ginástica


Pelo fato de existirem muitas academias de Hatha Yoga - a linha do Yoga que lida com o corpo físico -,
pensa-se que o Yoga seja uma modalidade esportiva com sabor oriental. Isso é uma grande distorção,
favorecida pelo fato de a maioria das academias - que deveriam chamar-se escolas - praticarem apenas
ásanas (posturas), em vez do Hatha Yoga completo, que compreende também kriyás, bandhas e ásanas,
de que falaremos a seguir.

O Hatha Yoga trata, basicamente, da circulação da energia vital (prána) em nosso corpo. Sua
finalidade é limpar e desimpedir os "canais" sutis de circulação dessa energia (nádís), de modo a
facilitar a comunicação entre a mente e o corpo, tornando-o um veículo adequado às energias
mentais mais delicadas, abstratas e espirituais. Paralelamente, o Hatha Yoga procura favorecer o bom
funcionamento orgânico, para que o corpo goze de um bom estado de saúde e conserve a vitalidade por
mais tempo. É por isso que, na Índia, a parte do Hatha Yoga considerada mais importante não são os
ásanas, mas os kriyás, que são técnicas de purificação e limpeza dos órgãos internos, principalmente
daqueles que compõem o sistema de eliminação de toxinas, impurezas e resíduos de nosso corpo. A
prática dos kriyás, pelo Hatha Yoga, não deve ser confundida com o Kriyá Yoga, que trata da purificação
da mente.
A partir de uma determinada idade, passamos a acumular mais impurezas do que conseguimos
eliminar. Elas deixam o corpo intoxicado e a mente entorpecida para a percepção dos estados sutis,
dificultando a prática da meditação. Essa também é uma das causas do desgaste orgânico, envelhecimento
e morte.
O estado de pureza do corpo depende do que ingerimos: ar, água, alimentos, bebidas, remédios e
substâncias químicas não naturais, e da maneira pela qual processamos e eliminamos os resíduos: através
da respiração, pela pele, fígado, rins e intestinos. Daí a importância dos hábitos alimentares e respiratórios
e dos métodos curativos que empregamos, bem como da prática dos kriyas, técnicas de limpeza das vias
respiratórias, do estômago, dos intestinos, etc. A prática de ásanas sem a mudança dos hábitos alimentares
e sem a prática simultânea de kriyás não pode ser considerada uma prática completa de Hatha Yoga,
embora, mesmo assim, traga benefícios.
Ásanas são posições estáticas que atuam sobre a circulação da energia vital, estimulando áreas
específicas do corpo, principalmente órgãos e glândulas. Seu objetivo é o bom funcionamento orgânico

Humaniversidade Holística 12
dos sistemas respiratório, digestivo, circulatório, nervoso, reprodutor e eliminador de resíduos. Promove a
flexibilidade das articulações e o alongamento muscular, proporcionando uma boa postura da coluna
vertebral, importante para a livre circulação do prána, a energia sutil.
As nádís, que são os canais por onde circula o prána, têm uma afinidade com as células nervosas que,
de todas as células do corpo, são aquelas naturalmente equipadas para captá-lo e servir-lhe de suporte
físico. Daí a importância da coluna e da medula espinhal, suporte das nádís principais: idá, o circuito
negativo, receptivo, pingalá, o circuito ativante, positivo, e sushumná, a nádí central, que representa o
equilíbrio entre os opostos e o psico-físico, a perfeita integração da consciência e da fisiologia. A prática
dos ásanas mobiliza os músculos, mas seu objetivo não é o desempenho muscular.
Bandhas são compressões profundas que atuam como massagem interna em órgãos e glândulas, mas
cujo verdadeiro papel é o de bloquear a passagem da energia, de modo que esta se acumule em
determinados centros, com o objetivo de estimulá-los, ou fazer com que a energia se redirecione, passando
por circuitos diferentes dos habituais.
O Yoga, com certeza, não é uma espécie de ginástica. É um sistema concebido para desenvolver a
consciência do homem em todos os seus níveis.

Esses níveis, em número de sete, são os seguintes:


1) físico, ou corporal;
2) instintivo, vital, energético;
3) emocional;
4) mental subconsciente: chitta;
5) mental cotidiano: manas, ahamkára;
6) mental superior intuitivo/discriminativo: buddhi;
7) espiritual: átman.

Chitta é a memória. Constitui o arquivo de nossas memórias e impressões passadas, inclusive de vidas
anteriores. Em sua grande maioria, essas impressões permanecem subconscientes, mas nem por isso
deixam de influenciar o funcionamento de manas.
Manas é a unidade que processa informações sensoriais, as quais muitas vezes evocam antigas
impressões do passado. É a parte da mente que recolhe as impressões sensoriais e organiza as respostas
motoras convenientes. Seu funcionamento pode ser consciente, mas atua grande parte do tempo de forma
quase automática.
Ahamkára é a consciência do ego. Quando as percepções de manas são apresentadas ao ahamkára é
essa função da mente que reconhece que "isso está ocorrendo comigo; sou eu que vejo; sou eu o agente da
ação ou aquele que sofre os efeitos da ação". Ahamkára confere um sentido de singularidade aos fatos em
função da identidade pessoal. Também é a origem da separatividade.
Buddhi é a função que avalia e decide o curso da ação. No caso dos animais, essa decisão é
automatizada e deflagrada pelos impulsos instintivos e emocionais ligados à circunstância identificada
pelas impressões sensoriais. Mas, no caso da mente humana, essa decisão envolve o livre arbítrio. A
atuação de buddhi envolve a discriminação sobre os valores abstratos envolvidos nos acontecimentos.
Envolve uma delicada interligação do uso dos poderes superiores da mente: a razão e a intuição espiritual.
Envolve a compreensão do que é certo e errado, do que é bem e do que é mal.
Buddhi, como vimos, é a capacidade discriminativa, habilitada a realizar julgamentos de valor e
destinada a tornar-se o veículo de uma sabedoria superior. É através da utilização de buddhi que
desenvolvemos viveka, o discernimento. No entanto, essa sabedoria superior que é viveka, essa jóia
sublime da consciência, existe apenas como uma potencialidade a ser desenvolvida na maioria das
pessoas.
Átman é o núcleo espiritual do ser, cuja característica é a consciência de Si Mesmo e da Unidade do
Todo. Em átman não há separatividade. Os hinduístas cumprimentam-se dizendo "namastê", que significa
"Deus em mim saúda Deus em ti". Jesus declarou explicitamente a união d'Ele com o Pai quando disse:
"Eu e o Pai somos um" (Mt, 10:30), e a possibilidade da nossa união com Ele quando declarou: "Quem
está em Mim, e Eu nele, esse dá muito fruto" (Jo, 15:57) e "Assim como o Pai, que vive, Me enviou, e Eu
vivo pelo Pai, assim quem de Mim se alimenta, também viverá por mim" (Jo, 6:57).
Quando não temos uma visão intuitiva da experiência de união ao nível espiritual, essas afirmações
soam absurdas, e os judeus enfureceram-se como nunca quando Jesus as fez. Hoje não temos dificuldade
em aceitar a união entre Jesus e o Pai, mas como é difícil acreditar que também nós tenhamos sido
convidados a partilhar dessa unidade que, embora impossível ao nível da personalidade, representa a meta
suprema da vida espiritual.

Humaniversidade Holística 13
O corpo físico alimenta-se de matéria orgânica, a alma alimenta-se de energia sutil modelada sob a
forma de emoções, sentimentos e pensamentos, e o espírito alimenta-se da presença divina vivenciada no
único lugar onde isso é possível: nele mesmo.
Yoga não é relaxamento por sugestão
Muitas pessoas buscam o Yoga pela necessidade de relaxar, porque estão tensas e nervosas e isso já
começa a afetar-lhes a saúde. No entanto, o Yoga não é relaxamento por sugestão, embora exista uma
técnica, chamada yoganidrá, que emprega o relaxamento consciente e a autosugestão.
Tensão é uma contração involuntária, inconsciente e contínua da musculatura; é a contrapartida física
da repressão psíquica. Ao afastarmos algo da consciência, mantendo-o no subconsciente, bloqueamos a
passagem da energia sutil, contraindo nossos músculos, sem percebê-lo. Relaxar essas tensões profundas
significa liberar, simultaneamente, a passagem da energia psíquica, permitindo que o consciente inteire-se
do que havia sido escondido. Isso significa desvelar e encarar algo que havíamos considerado,
anteriormente, estar além de nossas forças suportar.
Mas aquilo que estava além da capacidade de uma criança não constitui dificuldade para um adulto. No
entanto, como foi colocado no arquivo morto com o rótulo de "Perigo", nunca mais examinamos o
conteúdo dessa pasta que ficou selada, por assim dizer, pelos nossos músculos empedrados. Na medida em
que conseguirmos relaxar essas tensões musculares inconscientes iremos, também aos poucos,
examinando essas pastas sepultadas no subconsciente, descobrindo que seu conteúdo não é tão terrível
assim, e que a própria vida já nos trouxe condições para compreender e solucionar problemas antes
amedrontadores que nos pareciam insolúveis.
Os problemas que continuam desafiando a nossa capacidade no momento presente, aqueles que
continuamos incapazes de enfrentar, na atualidade, permanecerão ainda escondidos. Da mesma forma,
permaneceremos incapazes de relaxar as tensões a eles relacionadas.
O verdadeiro relaxamento é um encontro verdadeiro com nossa realidade interior; é o fruto da solução
de nossos conflitos íntimos. O Yoga emprega duas imagens para representar esse tipo de situação. A
primeira é: entramos em um quarto e, na penumbra, vemos uma enorme cobra enrolada, pronta para o bote
fatal. Instantaneamente nosso cabelo arrepia-se, nosso coração dispara, as pupilas dilatam-se, a respiração
torna-se arquejante e a mente é tomada pela idéia da morte iminente do corpo, que se paralisa de terror.
Mas, à medida em que os olhos acostumam-se à semiescuridão, vemos que a imensa cobra é apenas um
inofensivo rolo de corda.
A outra imagem, que tem o mesmo significado, é a de um tigre vividamente pintado em papel, que
pensamos tratar-se de um tigre de verdade.
Com esses dois exemplos, o Yoga nos diz que o problema não está na realidade mesma, mas em nossa
avaliação equivocada da realidade, em nossa reação inadequada aos fatos da vida por uma interpretação
errônea do que eles realmente são.
Situações assim podem implicar em sofrimento, mas não constituirão problema existencial nem
precisarão ficar ocultas em nosso subconsciente, desde que saibamos encará-las a partir de uma nova
perspectiva. Esse novo ponto de vista origina-se em uma mudança de avaliação: uma mudança de natureza
filosófica. Por isso, a prática do Yoga não poderá esgotar-se em um trabalho exclusivamente corporal. A
verdadeira prática do Yoga será sempre, necessariamente, um trabalho realizado em vários níveis.
Existem apenas duas maneiras de relaxar - parcialmente, e de modo não duradouro - sem passar pelo
processo de reaver a plenitude da consciência. São elas: o uso de medicamentos relaxantes ou drogas
psicotrópicas e o emprego da sugestão num processo hipnótico ou semi-hipnótico, onde nossa mente cede
à influência e ao domínio da mente de outra pessoa. Ou seja, o relaxamento é obtido momentaneamente às
custas de um maior alheamento de si mesmo, de um adormecimento químico ou embalado pela voz do
professor, pela música e pelo ambiente propícios ao sugestionamento.
Trata-se de um alívio temporário, às vezes até necessário, mas que agrega um novo problema ao
anterior. Todo relaxamento e todo emprego dos processos sugestivos que não forem autônomos geram
dependência e aumentam a dificuldade em resolver efetivamente o problema, porque o torna ainda mais
nebuloso e mais distante dos processos mentais conscientes. Na parábola do quarto com a cobra
imaginária, seria o mesmo que apagar a luz de uma vez, de modo a deixarmos de enxergar o que nos
amedronta. Equivaleria a fazer-nos pensar em outra coisa, para não nos lembrarmos da cobra que está ali
está. Medidas assim são formas de escapismo. Não equacionam, não solucionam, mas apenas confundem
ainda mais.
Yoga é uma terapia integral do ser humano que promove a harmonização entre os diferentes níveis da
consciência. Mas não substitui a terapia psicológica, quando ela é necessária, do mesmo modo que não
substitui o tratamento médico, nos casos de doença. A prática do Yoga conduz a um despertar progressivo
da atenção e da concentração da mente voltada para si mesma, onde as contradições interiores vão sendo
percebidas e resolvidas.

Humaniversidade Holística 14
O Yoga não é uma técnica que nos ensina a evitar os nossos conflitos íntimos, ou a adormecer mais
facilmente, fugindo de nós mesmos de modo mais "eficiente". O relaxamento yogi é fruto de um
treinamento da atenção interior, da construção de uma nova perspectiva, através da qual contemplamos a
vida por outra ótica, a da consciência supramental e espiritual. O estado de ausência de tensões é gerado
por uma consciência lúcida, alerta e tranqüila, que é desenvolvida paralelamente a uma profunda
transformação promovida por nós mesmos em nossa maneira de ser, de dentro para fora, à medida que
entramos em contato com nossa própria verdade interior.

Yoga não é religião


A palavra religião vem do latim religare, ou reunir, que tem o mesmo significado da palavra Yoga. No
entanto, o Yoga não é um sistema de crenças, e sim um trabalho objetivo, sistemático, de caráter
científico/experimental, que, por ativar a consciência nos níveis superiores de nosso ser, capacita-nos a
vivenciar estados espirituais de modo direto e autêntico, independente de qualquer sistema interpretativo
particular, como o Zen Budismo, mais do que todos os demais caminhos de autorealização, tem o cuidado
de enfatizar.
Por isso, o Yoga não é proselitista, nem dogmático ou sectário. O Yoga terá discípulos, mas não
seguidores, porque nele tudo é uma questão de experiência pessoal direta, onde a crença é dispensável.
Confundir o Yoga com religião, e com o hinduísmo em particular, é desconhecer sua verdadeira natureza.
Como existem pessoas cujo temperamento é naturalmente devocional, há um ramo de Yoga chamado
Bhakti Yoga, que mostra como transformar a devoção em um trabalho sistemático de Yoga. Isso pode ser
feito por devotos de qualquer religião, e o Yoga não determina que o bhakta seja hinduísta, nem sugere a
escolha de qualquer forma particular de devoção. É claro que bhaktas indianos serão, provavelmente,
hinduístas, e bhaktas tibetanos, chineses ou japoneses serão provavelmente budistas, mas um bhakta
ocidental será, provavelmente, um cristão e um bhakta do mundo árabe certamente será um muçulmano.
O Yoga afirma que a mais alta vivência espiritual que o homem pode ter, a partir de qualquer religião
ou filosofia, é a consciência da unidade do todo, que é experimentada como sat-chit-ananda (1), e que
tudo o mais, teologias, crenças, dogmas e mandamentos não passam de tentativas de explicar o
inexplicável, usando instrumentos tão inadequados quanto são as palavras.
Afirma o Yoga que todas as divergências religiosas acontecem porque uma mesma verdade abstrata
tem tomado formas concretas diferentes, dependendo da época e da cultura em que foram expressas.
Enquanto nos deixarmos hipnotizar por essas formas, as religiões permanecerão como um fator de
fanatismo e separatividade, quando seu objetivo maior deveria ser, e (pelo menos em seus livros sagrados)
declaradamente é, a união de todos os homens pelo amor espiritual. Enquanto pensarmos que vida
espiritual é manter uma crença, em lugar de experimentar e vivenciar estados supramentais, não haverá
como dois praticantes de diferentes religiões entenderem que o Deus de uma é o mesmo Deus da outra.
Personalizar a Divindade é um grande perigo para os devotos, porque isso os leva a atribuir a Deus uma
intolerância que é apenas deles, não Dele. O Ser Supremo é tão mais do que qualquer livro sagrado pode
transmitir, tão mais do que nossos conceitos podem abarcar, que o Yoga afirma ser desnecessária uma
crença prévia em sua existência, porque esta seria, certamente, limitada e imperfeita.
Uma pessoa pode descrer na existência do oceano, mas mesmo assim o encontrará, se navegar por um
rio até a sua foz. Não importa qual o idioma usado para denominá-lo. Não importa se o chamam Atlântico,
Pacífico, Índico ou Mediterrâneo. Ele é um só, e sua água é salgada. Mergulhemos nele e nenhuma
discussão fará mais o menor sentido.

Yoga não é mágica


Certa vez tivemos em nossa escola de Yoga um aluno de meia-idade, hipertenso, que estava com
gastrite, muitos quilos a mais e extremamente tensos. Seus músculos pareciam pedras, de tão duros. Numa
das primeiras aulas, um dos seus colegas perguntou à professora por que ela não comia carne. Ela
respondeu que deixara de comer carne por haver percebido que isso dificultava a prática da meditação. No
momento em que meditar tornou-se importante, não houve mais lugar para a carne. Além disso, disse ela,
sua saúde melhorara tão acentuadamente que ela não pretendia tornar a comer carne, suprimindo esse
hábito da sua vida.
Apesar de ela não haver sugerido que todos devessem adotar a dieta vegetariana, esse aluno ficou
realmente indignado com a resposta, e reclamou: "Não vim aqui para me tornar um guru. Não pretendo
modificar meus hábitos de vida. Não deixarei de tomar o meu uísque, de fumar o meu cigarro nem de
comer carne. “Vim aqui exclusivamente para relaxar”.
A professora tranqüilizou-o. Naturalmente, ele só faria o que quisesse fazer. Como poderia ser
diferente? Mas deixou de dizer-lhe o mais importante, porque ele não o entenderia, ainda:
"Existem apenas dois métodos para relaxar sem transformar seus hábitos de vida, suas reações
emocionais, seu modo de pensar, sua arrogância e sua impaciência. Aqui não empregamos nenhum deles.

Humaniversidade Holística 15
E, se você procurou essa escola, é porque também não deseja empregá-los. Um é a sedação através de
medicamentos, e o outro é através da hipnose.
"Sabemos que o método que utilizamos é eficaz unicamente quando empregado pelo próprio indivíduo,
voluntária e participativamente. Sabemos que não podemos ajudá-lo à sua revelia, e jamais tentaríamos
entrar em guerra com você. Não conhecemos o seu caminho, nem podemos avaliar a sua capacidade.
Temos indicações gerais, comuns a todos, que delineiam uma rota a seguir. Porém, o seu caminho só pode
ser trilhado por você.
"Isso nos tornas humildes e obriga-nos a sermos pacientes. Caso pretendamos realizar algum trabalho
útil, precisamos ser tolerantes e aceitá-lo exatamente como chegou aqui, e, aos poucos, levar sua
compreensão até a realidade, se você o permitir. Não podemos entregar-lhe o Yoga como se fosse uma
mercadoria. Você terá que praticá-lo por si mesmo. Caso pudéssemos fazê-lo por você, nós o faríamos,
porque sabemos que você está sofrendo, que sua vida é, em grande parte, um tormento, e que você precisa
realmente relaxar.
"Seu corpo está doente, e seus nervos agitados. Seu emocional está inquieto, agressivo e em guerra
constante.
"Seu mental sofre de separatividade e tem necessidade de afirmar sua superioridade sobre os demais.
Por isso, não tem um momento de descanso. Está exausto.
"Sua situação toca o nosso coração, porque também já experimentamos coisa semelhante, em nosso
passado.
"Desejamos ajudá-lo!
"Mas, como fazê-lo, se somente podemos ajudá-lo através de você mesmo, e você acaba de declarar
que não quer mudar a situação que é responsável, única e diretamente, pelo seu estado?"
Não é o uísque, ou o cigarro, ou a carne que, em si, devem ser responsabilizados. É o todo que precisa
ser transformado. É o contexto global da vida da pessoa que gera as conseqüências que criam situações
como a desse homem.
Não temos a doença. Nós somos o doente.
Para curarmo-nos, temos que mudar a nossa forma de viver para, só então, nos tornarmos pessoas
saudáveis. E isso é uma responsabilidade intransferível de cada um de nós.
O Yoga é um trabalho que atinge o próprio ser. Não é uma aspirina que tomamos para escapar
de um sintoma desagradável. O Yoga não atua por fora, mas por dentro. E a origem dessa atuação vem
do supramental, muito mais interior do que podemos supor com a mente totalmente exteriorizada que
usamos quotidianamente, confundido-a com o nosso próprio ser. O caminho que ensinamos e a rota que
seguimos não foram escolhidos por nós de acordo com preferências pessoais.
A natureza tem suas leis. Leis para o corpo, para o psíquico e do espírito. E todo o segredo consiste em
adequarmo-nos a elas. Jesus diz que devemos fazer a vontade do Pai e não a nossa. Mas temos feito o
contrário, e empregado o poderio da inteligência para contrariar a natureza, como se fosse possível
gratificar as predileções de nosso ego contra ela, impunemente. A saúde existe em seus próprios termos,
bem como o equilíbrio emocional e a paz mental.
O Yoga não pode ser dado de presente nem outorgado mediante pagamento. Depende de um
compromisso de transformação pessoal que o indivíduo faz consigo mesmo. E isso não pode ser
providenciado por terceiros. Além disso, não basta decidir mudar. Temos também que descobrir o
que deve ser mudado, por que e como mudar.
O Yoga ajuda a clarear a percepção que temos de nosso corpo e de nosso psiquismo, e cria condições
que facilitam as mudanças que nos levam ao encontro de nós mesmos. A prática do Yoga envolve a
utilização de técnicas precisas, com objetivos específicos.
Yoga não é mágica. É a ciência do ser e a arte do existir.

(1) Sat: puro ser ou vida eterna, como a chamou Jesus. Chit: pura consciência, ou a verdade que liberta
como Jesus a designou. Ananda: pura bem-aventurança, a sublime união dos sentimentos de amor
universal e paz celestial.
Extraído do site: http://www.yoga.pro.br

Humaniversidade Holística 16
(Alice Figueiredo; todos os direitos reservados) e digitado por Cristiano Bezerra, com a devida
autorização.

Maria Alice Figueiredo é natural de São Paulo. Graduou-se em Administração pela UFBA em 1969 e
trabalhou em Planejamento e Administração Municipal. Ao ter os seus filhos gêmeos em 1973 sofreu uma
eclampsia com azotenia renal e acidose metabólica que a levou a passar três dias em coma, no limiar da
morte. Ao retornar à consciência, viu-se portadora de diabetes e de insuficiência renal, além de severa
depressão. Passou então a praticar Yoga durante 3 horas por dia, todos os dias. Saudável há mais de vinte
anos, deixou sua antiga profissão passando por um estágio didático na conceituada Academia Hermógenes
de Yoga, no Rio de Janeiro, em 1977, fundando o Yoga Vidya em 1978. Juntamente com a psicóloga
argentina Marta Molinero, criou o Método de Auto-Integração do Ser, que trabalha com o corpo, o
psiquismo e a compreensão filosófica dos valores abstratos, tendo como base o Yoga e outros métodos
terapêuticos ocidentais de vanguarda. Essa orientação de unir o que de melhor têm o oriente e o ocidente
partiu de seu mestre na época, o Swámi Ráma, um grande mestre de Yoga, intelectual e autor de vários
livros, que considerava sua missão criar uma ponte entre o Yoga e a ciência ocidental. Fundador do
Himalayan Institute of Yoga Science and Philosophy, na Pennsylvania, e de um hospital na região dos
Himalaias, o Swámi Ráma faleceu em novembro de 1996.

Humaniversidade Holística 17
Yoga e Psicoterapia
José Hermógenes

Tratamento psicoterápico é o que procura sanear (tornar sã) a mente, fundamentando-


se na tese de que as condições de desequilíbrio, desarmonia, impureza e inquietude
mental são responsáveis pelos transtornos físicos. É tratamento comprovadamente eficaz.
Sua eficácia demonstra a solidez da tese.
As escolas de psicologia do inconsciente, principalmente a psicanálise e a autoanálise,
têm sido as que melhor atendem aos fins psicoterápicos. Têm sido as mais utilizadas
pelos especialistas de todo o mundo.
Segundo elas, somos o que somos, fazemos o que fazemos, reagimos como reagimos, sofremos ou
gozamos, temos nossas crises e nossos remansos e até mesmo pensamos e cremos, não de acordo com o
nível conhecido da mente, mas sim movidos, manobrados e determinados pelas camadas mais profundas,
das quais não temos conhecimento claro. Sendo a mente comparada a um iceberg, a parte aflorada, isto é,
a mente consciente, é mínima e relativamente incapaz, enquanto a parte submersa, o inconsciente, tem
poder incomparavelmente maior. A psicoterapia pela psicanálise e pela autoanálise? tão eficientes ?, em
linhas gerais, consiste em tornar conhecidos (passar para o consciente ou fazer aflorar) os conteúdos e
condições inconscientes e profundos. Tais conteúdos e condições resultam de esquecidas experiências
traumatizantes (predominantemente da infância), que, por sua natureza maléfica e poderosa, se expressam
através do anômalo comportamento dos nervos e das glândulas endócrinas. Dizem os psiquiatras que a
doença é a somatização? dos conflitos e traumas escondidos, isto é, sua expressão orgânica.
Feita uma faxina do inconsciente, isto é, expulsos de lá os conteúdos reconhecidos como deletérios, já
tendo esse perdido o anterior poder perturbador, concretiza-se a cura ou libertação do neurótico. Esse
processo de limpeza vale dizer de desmascaramento do adversário escondido, de alívio de carga, de
conscientização do ignoto, de extravasão, de elucidação e de catarse, muda a mente e, em consequência,
rearmoniza, corrige e normaliza os mecanismos autoreguladores do organismo, daí imediatamente
redimirem-se os sintomas. Assim, o neurótico se redime do inferno em que vivia. Diz-se, também, que se
corrige a desconfortante? Linguagem visceral? Em outras palavras, desfaz-se a somatização?.
Quem estuda o Yoga em seus veneráveis textos originais surpreende, em seu aspecto psicológico,
atualidade, riqueza e sutileza tão profundas que, não fora a linguagem velada, exótica e simbólica,
pareceria obra dos mais refinados e modernos entendidos nos aspectos inconscientes da alma humana.
Não tenho receio de concordar com autoridades no assunto e também afirmar que o Yoga é o ancestral
comum de todas as modernas escolas de psicologia profunda.
Segundo a psicanalista francesa Maryse Choisy, o próprio Freud fundou a psicanálise em princípios
yóguicos, que lhe teriam chegado através de A. Schopenhauer, o filósofo ocidental que mais se inspirou
nos clássicos do hinduísmo.
Não é diferente a opinião de Carl Gustav Jung, fundador de um dos mais importantes ramos da
psicanálise, que diz: ? A própria psicanálise, bem como as diretrizes de pensamento às quais deu origem e
que são, na verdade, um desenvolvimento ocidental, são uma tentativa de principiantes, comparados com
o que, no Oriente, constitui uma arte imortal?.
M. Bachelard considera o Yoga a psicologia da verticalidade?.
Realmente. Se a psicanálise, num mergulho, atinge o inconsciente e daí não passa, o Yoga, mediante
uma experiência transcendente, chamada samádhi, fim e essência do processo yóguico, diviniza o homem
no deslumbramento superconsciente.
O objetivo do processo psicanalítico é a cura de um enfermo. O do Yoga é a redenção humana ou
libertação (moksha) da alma individual (jíva).
A psicanálise tem por objeto de estudo a mente enferma. O Yoga estuda e considera o homem integral,
isto é, o homem potencialidade do Divino, germe e promessa da Alma Universal, expressão do Absoluto
em via de aperfeiçoamento e atualização.
Para o psicanalista ortodoxo, o inconsciente é um depósito de experiências dolorosas, um porão de
escória reprimida pela convivência com a sociedade que não a aceita. O Yoga considera o inconsciente
apenas uma zona da mente onde o consciente não chega, não sendo fatalmente de má qualidade, formado
exclusivamente de negatividades recalcadas. O inconsciente tem, em si, também luzes, tendências,
impressões, energias boas, potencialidade infinita e qualidades divinas.
Sendo uma psicologia do inconsciente, o Yoga explica a vida consciente, em parte, como conseqüência
do inconsciente. Todas as nossas experiências, fatal e fielmente, são gravadas numa espécie de ?fita de
gravação?, através de ininterrupta introjeção. O que introjetamos ou gravamos nos plásticos abismos do
inconsciente são: vásanás (tendências, inclinações, impulsos, motivações...) e samskáras (impressões,
representações, imagens, juízos...). Lá do fundo, esse conteúdo comanda o nosso comportamento dito
voluntário e consciente; comanda o que somos, queremos, sentimos, dizemos, fazemos e pensamos.
Humaniversidade Holística 18
Conforme as introjeções que fazemos no curso da vida, tal será nosso destino. Quem introjeta espinho,
conseqüentemente será espetado. Essas noções de vásanás e samskáras dão uma explicação psicanalítica à
conhecida Lei do Karma.
Assim esclarecidos, deveríamos, por interesse profilático, selecionar as impressões e tendências que
introjetamos, com o mesmo critério com que um dietista escolheria sua refeição num cardápio, visando a
que, nos dias de porvir, possam elas (as escolhidas) operar em proveito da saúde e não contra ela; em
direção à liberdade e não à servidão; em prol de nossa felicidade e não em seu prejuízo.
A indiscriminada, inconsciente e indisciplinada introjeção de vásanás e samskáras polui, adoece,
corrompe, perturba, vicia e infelicita a mente. O yogin, sabendo disso, procura acautelar-se. Evita
fisicamente as que pode e, mentalmente, aquelas que, fisicamente, lhe são impostas pelo ambiente.
Seu cuidado não é apenas na área da higiene mental, mas também na fase da cura.
Nesse particular, em que consiste a cura?
Em depurar, liberar, aclarar e aprimorar o mental. O Ashtánga Yoga ou Yoga dos oito componentes,
codificado pelo sábio Pátañjali, é uma forma técnica de sanear a mente, não a mente que costumamos
chamar de doente, mas a mente que costumamos chamar de normal e que, em verdade, é ? Normalmente?
incapaz para a felicidade e para o alcance da Verdade. Agitada como é, tecida de conflitivos desejos,
encabrestada pelo egoísmo, sacudida de paixão, obcecada pelo irreal e condicionada a fatores múltiplos, o
que chamamos de mente normal não deixa de ser, inclusive, um obstáculo para a percepção da Verdade.
Essa só é possível quando a mente impura cessa de manifestar-se, isto é, quando emudecem seus vrittis
(manifestações, fenômenos, movimentos, vacilações...). Levada a mente à plena quietude, ocorre a
comunhão com o Infinito; dá-se o samádhi. Tal é o objetivo da ascese de Pátañjali. Tal foi o caminho
seguido e ensinado por S. João da Cruz.As imperfeições mentais, que o método visa a remover, são:

a) mala (ou asuddha), isto é, impureza, luxúria, ódio, cobiça...;


b) vikshepa, ou seja, o estado de vacilação, agitação, insegurança, volubilidade...;
c) avarana, o véu de ignorância, que lhe dá miopia espiritual e limita o alcance e a percepção.

O yogin aprende com Pátañjali como purificar, aquietar e iluminar sua mente.
Segundo essa escola de Yoga, a cura mental liberta o homem das condições normais e enfermiças de
sua personalidade, que são:

1) avidyá (ignorância);
2) asmitá (egoísmo);
3) rága (concupiscência ou apego);
4) dvesha (aversão) e
5) abhinivesha (medo de morrer).

Tais defeitos de personalidade podem ser simultaneamente efeitos e causas das imperfeições do
psiquismo.
A psicoterapia comum visa a restituir à mente enferma e sofredora as condições caracterizadas como
normais. O Yoga ajuda a atingir tais resultados, mas vai mais além. Seu objetivo final é dar à mente:
pureza (suddha), transcendência (buddhi) e redenção total (mukti).
Uma forma bem interessante de entender a ação yogaterápica no tratamento do nervoso já foi exposta
nas páginas 79 a 82 do livro Yoga para Nervosos, quando expusemos a teoria dos gunas. Ali mostramos
que a prática do Yoga, numa ação neuroanaléptica, levanta as forças do abatido ou astênico. Em termos de
gunas, poderia ser dito que à mente tamásica a prática do Yoga acrescente rajas. Ao agitado indivíduo de
mente rajásica, o Yoga sativiza, isto é, dá-lhe o equilíbrio, a harmonia e a serenidade sattwa.
Até aqui estávamos vendo o Yoga como uma forma de psicanálise. No entanto, chegou o ponto em que
vamos concluir que é exatamente a antítese da psicanálise, isto é, uma psicossíntese.
Psicanálise, ao pé da letra, quer dizer análise, divisão, separação do todo em partes, da alma (psique). O
Yoga, em sua conceituação essencial e ao mesmo tempo etimológica, é exatamente a antítese disso. Yoga
vem da raiz sânscrita yuj, que quer dizer juntar, unir, reunir, unificar... Yoga une. Análise separa. Como
doutrina e técnica psicológica, seria literalmente uma psicossíntese.
Unificar a alma despedaçada é Yoga. Dar unidade e coerência à mente onde reina conflito é Yoga. É
Yoga harmonizar os antagonismos psíquicos. É Yoga dar coerência à vida mental. Se a mente está doente,
é porque vive como ?uma casa dividida contra si mesma?. Yogaterapia consiste em restaurar a paz interna.
Se, em seu estado comum, a mente é fraca, é porque a dispersão a domina, dispersão que a esparrama
estagnada como pântano ou a exaure em fluir multidirecional. O Yoga atua no sentido de dar-lhe a
concentração necessária, conseqüentemente gerando poder, segurança, penetração, eqüanimidade,
coerência, harmonia e bem-estar. Como psicossíntese, o Yoga reduz a fluidez e a dispersão.

Humaniversidade Holística 19
Em resumo, o Yoga é uma psicoterapia porque socorre o neurótico e o livra dos sofrimentos desde que:

a) harmoniza conflitos;
b) limpa o inconsciente de vásanás e samskáras nocivos, substituindo-os, através de introjeções -
positivas, condizentes com a libertação e a realização espiritual;
c) unifica a vida mental, mediante harmonizar os vários níveis e as expressões da personalidade;
d) acrescente sattwa à mente rajásica, e rajas, à tamásica, isto é, dá sabedoria e tranqüilidade ao
excitado e ânimo ao astênico;
e) orienta a mente para os rumos do Divino;
f) reduz o egoísmo, a concupiscência, o apego e o medo;
g) liberta de velhos e dominantes condicionamentos.

O prof. Oskar R. Schlag foi um dos discípulos diretos de Freud, condiscípulo do grande Jung e amigo
de E. Fromm. Com ele mantive amigável palestra, lastimavelmente curta demais. Ensina Yoga na
Universidade de Zurich (Institut fuer Angewandte Psychologie). Para ele, o Yoga é muito mais do que a
psicanálise como caminho redentor. Em conferência, em 1952, opinava: Yoga é algo essencialmente
prático para chegar-se a um fim (objetivo). Que fim é esse? A libertação. Libertação de quê? A libertação
de uma situação que Freud denominou? O encargo incômodo da nossa civilização?... Você mesmo é a
fonte de todo o incômodo da nossa civilização. Dentro de você se encontra tudo aquilo contra o quê você
protesta e do qual deseja se libertar?.
Aos estudiosos de Yoga como psicoterapia e em especial aos psicanalistas, indico principalmente dois
livros: Western Psychoterapy and Hindu-sádhana, de Jacobs, Hans (George Allen & Unwin Ltd.,
Londres) e Yogas et Psychanalyse, da eminente psicanalista católica Maryse Choisy (Collection Action et
Pensée aux Éditions du Mont-Blanc; Genève, Suíça). Para esta, ? O Rája Yoga é o mais admirável tratado
dos fatos interiores que o homem concebeu?.

Extraído do livro Yoga para Nervosos

Humaniversidade Holística 20
Ásanas:
01 - UTTHARA SHAVÁSANA –

( Shava = cadáver ) deitado em decúbito dorsal com as pernas afastadas ligeiramente, os braços ao
longo do corpo, palmas das mãos viradas para cima, olhos fechados, respiração lenta e suave.
Descanso profundo, muscular e nervoso. Proporciona bem estar físico e mental, equilibra a circulação,
diminui a hipertensão.

02 - PURANÁSANA –

(Ardha) sentado, pernas esticadas para frente, mãos apoiadas no chão atrás, cabeça tombada para
trás, respiração livre. É semirelaxante.

03 - SUKHÁSANA –

Sentado, pernas cruzadas à frente, mãos nos joelhos ou sobre as coxas.

04 - SVÁSTHIKÁSANA –

Sentado, coluna ereta. Pé direito na dobra interna da perna esquerda, pé esquerdo na dobra interna
da perna direita.

05 - SIDDHÁSANA –

Sentado, coluna ereta. Cruzar as pernas, colocar o calcanhar esquerdo pressionando o períneo, o pé
direito por cima da coxa esquerda. Boa posição para meditação, confere estabilidade mental, acalma o
sistema nervoso.

06 - ARDHA PADMÁSANA –

Sentado, coluna ereta; colocar um pé sobre a coxa oposta.

07 - RAJA PADMÁSANA –

Sentado, coluna ereta; colocar o pé direito sobre a coxa esquerda e o pé esquerdo por cima da coxa
direita. Para melhor execução, aproxime bem o pé do abdome. É a posição mais adequada para
meditação. Aumenta a harmonia, o equilíbrio das correntes positiva e negativa que percorrem o corpo,
dá estabilidade física e mental. ( Observação: a perna positiva deve ficar sobre a negativa. Para os
homens é a direita, para as mulheres a esquerda).

08 - RAJA VIRÁSANA –

Sentado, colocar a perna esquerda dobrada para dentro, joelho no chão; perna direita dobrada para
dentro, joelho direito por cima do esquerdo, mãos cruzadas segurando o joelho direito. Trocar, repetir
para o outro lado.

Humaniversidade Holística 21
09 - UTTHITA VIRÁSANA –

Variação da anterior. Sentado em cima da perna direita, a perna esquerda dobrada para dentro,
joelho esquerdo por cima do direito. Mãos cruzadas no joelho. Repetir para o outro lado.

10 - PADMA VAJRÁSANA –

Sentado. Perna direita dobrada para fora, pé esquerdo por cima da coxa direita. Repetir para o outro
lado.

11 - RAJA VAJRÁSANA –

Sentar no chão, sobre os calcanhares, joelhos juntos. Braços para frente, mãos sobre os joelhos.
Posição especial para depois da refeição, ajuda a digestão. (5 minutos). É altamente estimulante e
regenerador do sistema nervoso, retirando a tendência ao sono após as refeições.

12 - SUSHUMNÁSANA –

Sentado, os dois joelhos dobrados para cima e pressionados contra o corpo pelos dois braços
abraçados, cada mão pegando o cotovelo oposto.

13 - TAMAS ARDHA BHADRÁSANA –

Sentado, joelhos dobrados, pernas e coxas no chão. Segurar os pés juntos, pressionar para baixo,
mantendo a coluna ereta, cabeça erguida, respiração livre. Favorece a abertura pélvica e a articulação
dos joelhos. Excelente para gestantes.

14 - RAJA PADÁSANA –

De pé, mãos unidas em frente ao peito em Pronam Mudrá, olhos fechados.


Sentir o equilíbrio do corpo.

15 - RAJA PAKSÁNA VAMAH –

Igual ao anterior, abrir os olhos, pegar o pé direito com a mão direita e elevá-lo ao máximo para o
lado, mantendo o corpo vertical. Fixar um ponto em frente para manter o equilíbrio. Repetir com o pé
esquerdo.

16 - ARDHA VRIKSHÁSANA –

De pé; fixar um ponto à frente, colocar um pé sobre a coxa e as mãos em Pronam Mudrá no peito.
Mantenha a respiração livre. Repetir para o outro lado. Fortifica os órgãos digestivos e os rins, aumenta
o equilíbrio físico e mental.

Humaniversidade Holística 22
17 - RAJA VRIKSHÁSANA –

Na mesma posição que o 16; com uma inspiração erguer os braços acima da cabeça e, expirando,
baixar o tronco para a frente até tocar com as pontas dos dedos no solo, sem dobrar a perna esticada.
Manter os pulmões vazios. Voltar inspirando e repetir para o outro lado. Proporciona controle
nervoso, senso de equilíbrio, domínio mental; dá elasticidade à coluna

18 - EKAPADA ANGUSTHÁSANA –

Apoiado na ponta do pé direito, colocar o joelho no chão e o pé esquerdo por cima da coxa direita.
Erguer o joelho do chão e também as mãos, ficando em equilíbrio. Repetir para o outro lado.

19 - RAJA NATARAJÁSANA –

De pé; levantar um joelho, segurar o pé da perna erguida com a mão do mesmo lado, levar a perna
suavemente para trás, ajudada pela mão, o máximo que se conseguir. O outro braço levantado em
frente do tronco, respiração livre.

20 - ADYSANA e SHAVAJRÁSANA –

Em pé, pernas ligeiramente afastadas, pés paralelos, fazer rotação da cabeça, tombando-a; os
braços caídos, soltos. É o relaxamento raquidiano, fazendo circunvolução com a cabeça para cada
lado do pescoço. Descansa - relaxa.

21 - RAJA TRIKONÁSANA –

Em pé, com as pernas bem separadas, inspirar elevando os braços lateralmente até a altura dos
ombros, formando uma linha reta. Enquanto expira deve inclinar o tronco para esquerda até tocar a
palma da mão esquerda no solo, mantendo o braço direito verticalmente esticado para cima e virando o
rosto para o alto. Permanecer com os pulmões vazios e voltar à posição inicial. Repetir para o lado
contrário. Aumenta a elasticidade da coluna vertebral, trabalha os órgãos da digestão, elimina cãibras
das pernas, fortifica ossos e músculos dos quadris.

22 - ARDHA SIRANGUSTÁSANA –

Em pé, cruzar as mãos atrás das costas, inspirar. Flexionar um joelho, expirar baixando o tronco e a
cabeça sobre o joelho dobrado, conservar a outra perna esticada. Voltar inspirando e repetir para o
outro lado.

23 - RAJA HASTINÁSANA –

Em pé, pernas separadas ligeiramente. Braços soltos para baixo, relaxar


todos os músculos do corpo. Balançar os braços sempre na mesma direção sem cruzar, para um lado e
para o outro. É um bom relaxamento.

24 - PURNÁSANA –

Em pé, pés separados. Levantar os braços esticados à frente, à altura dos ombros,
dedos separados; inspirar e levar os braços para trás enquanto expira e fecha as mãos, flexionando o
tronco, sem virar os quadris. Voltar inspirando, abrindo as mãos e dedos à frente e repetir para o outro
lado.

Humaniversidade Holística 23
25 - TALÁSANA –

Pés separados ( um palmo ) inspirar, erguendo as mãos e os braços pela frente e também os
calcanhares, fazendo uma tração na coluna para cima. Voltar expirando, descendo os braços
lateralmente. Corrige males da coluna.

26 - ARDHA CHAKRÁSANA –

Em pé; mãos em pronam Mudrá, inspirar erguendo os braços verticalmente e levar o tórax e a
cabeça para trás, expirando. Volte inspirando até a vertical e expire descendo os braços.

27 - SUKHA PADAHASTÁSANA –

No.1- De pé, pernas unidas, inspirar, descer lentamente o corpo e braços, apoiando as mãos nos
joelhos, expirando. Manter e voltar.

28 - SUKHA PADAHASTÁSANA –

No. 2 - Igual ao 27, balançando os braços com o corpo relaxado.

29 - ARDHA PADAHASTÁSANA –

Variação das anteriores. Descer lentamente o corpo ao expirar, tocando as mãos no solo em frente
aos pés. O Ásana dura enquanto durar a respiração.

30 - RAJA PADAHASTÁSANA –

Igual aos anteriores, dando a flexão máxima, cabeça nos joelhos, mãos segurando atrás das pernas.

31- PADA UTKÁSANA –

Sentar nos calcanhares, lentamente, permanecer com as plantas dos pés no chão, os braços esticados
para frente, mãos tocando o chão.

32 - SUKHA PASCHIMOTANÁSANA –

Sentado com as pernas e pés juntos esticados, as mãos nos tornozelos. Inspirar e, ao expirar,
inclinar o tronco e a cabeça para frente, colocar as mãos sobre as pernas, permanecendo com respiração
livre.

33 - RAJA PASCHIMOTANÁSANA –

Igual ao 32 dando flexão máxima, tocando com o rosto nos joelhos, contraindo o ventre e as mãos
nos tornozelos. Excelente para os órgãos abdominais, desfaz adiposidade, combate distúrbios do
estômago, fígado, rins, intestino; a coluna vertebral toma-se flexível. Esse Ásana é chamado : “fonte de
energia vital”.

Humaniversidade Holística 24
34 - URDHVA UPAVISHTA KONÁSANA –

Sentado, pernas flexionadas, pegar os artelhos com o indicador e médio de cada mão. Erguer em
equilíbrio e ficar o tempo que puder. Confere muito equilíbrio, combate adiposidade nas coxas e
celulite.

35 - SUKHA MATSYENDRÁSANA –

Sentado em sukhásana, a mão direita no joelho esquerdo, a mão esquerda no chão atrás do quadril.
Inspirar, depois expirar virando o tronco e a cabeça para trás, para o lado esquerdo. Permanecer com os
pulmões vazios, confortavelmente, depois inspirar retomando. Repetir para o outro lado. Excelente
para fortalecer os órgãos abdominais, tonifica o sistema nervoso, outorga autoconfiança, segurança,
rejuvenesce todo o organismo, melhora desvios da coluna, evita velhice precoce.

36 - BADDHA PADMA MATSYENDRÁSANA –

Sentado em padmásana ( lotus ), mão direita no pé esquerdo, pelas costas. mão esquerda no joelho
direito. Fazer a torção uma vez para cada lado.

37 - ARDHA MATSYENDRÁSANA –

Sentado, perna esquerda esticada, colocar a perna direita por cima da coxa esquerda; o braço
esquerdo esticado à frente pressionando o joelho direito, manter a mão no tornozelo. O braço direito
atrás, mão no solo. Inspirar, depois expirar virando o tronco e a cabeça para trás, à direita. Permanecer
sem ar, desfazer e repetir para o outro lado.

38 - RAJA MATSYENDRÁSANA –

Mesmo exercício anterior 37, dobrando a perna esquerda para dentro, mão esquerda no pé oposto,
braço direito atrás das costas. Mesmos efeitos do 35, mais acentuados.

39 - PADMA YOGÁSANA -

Sentado em padma, segurar com a mão direita o pulso esquerdo às costas e, expirando flexionar
para frente, colocando a testa no chão. Permanecer com os pulmões vazios e voltar lentamente
inspirando. Desenvolve a musculatura abdominal, fortalece a região lombar. De grande efeito mental,
diminui o orgulho, ensinando a prostar nos humildes, diante da fonte divina que habita em nós.

40 - VAJRA YOGÁSANA –

Sentado em vajra sobre os calcanhares. Cruzar as mãos atrás das costas. Flexionar o tronco e a
cabeça, expirando, tocando a testa no chão - variações com os braços: levantá-los bem alto acima das
costas depois relaxar ligeiramente, com os braços para a frente, mãos em trimurti Mudrá perto da
cabeça.

41- RAJA BHUJANGÁSANA –

Deitado em decúbito frontal com as pernas e os pés unidos, calcanhares unidos, mãos apoiadas no
solo perto do rosto; inspirar erguendo a cabeça e o tronco levando o peito para trás, mantendo os braços
esticados, olhos fechados, cabeça bem tombada para trás ( não contrair a fisionomia ).
Permanecer em kumbhaka, voltar expirando, colocar a mão direita sobre a esquerda no chão, testa
sobre as mãos e separar as pernas. Vitaliza abdome, coluna, vértebras, tendões, nervos. Estimula a
tiróide, desenvolve autoconfiança e vence complexo de inferioridade.

Humaniversidade Holística 25
42 - UTTHITA DHANURÁSANA –

Ajoelhado, baixar o tronco, manter o braço esquerdo dobrado, o cotovelo no chão; a mão direita
segura o pé esquerdo, levando-o para trás, bem esticado. Erguer lentamente a cabeça, inspirando e
retendo. Desfazer expirando e repetir para o outro lado.

43 - RAJA KAKÁSANA –

Ajoelhado, mãos em pronam Mudrá no chão. Erguer os joelhos e colocá-los sobre os cotovelos,
estes bem separados para fora. Não precisa forçar, deve procurar equilíbrio. Subir os pés e sustentar o
corpo nos cotovelos.

44 - EKAPADA JANUSIRSH MERUDANDÁSANA –

Deitado, erguer uma perna ao inspirar dobrar o joelho pressionando-o com as mãos de encontro ao
peito, expirando. Trazer a cabeça ao joelho. Permanecer com os pulmões vazios. Desfazer inspirando.
Repetir para o outro lado, com a outra perna. A variação dvapada é igual, dobrando os dois joelhos ao
mesmo tempo.

45 - ARDHA SIRSHÁSANA –

Partindo de kurmásana, colocar a cabeça entre os braços, cotovelos no chão. Levantar bem o corpo,
subir o tronco, dobrar as pernas e elevá-las. As invertidas são posições de permanência, mantendo a
respiração livre, os olhos fechados e o mínimo de esforço muscular. Rejuvenesce, melhora o estado
geral, irriga intensamente o cérebro, favorecendo as faculdades intelectuais, a circulação, evita varizes,
etc. ...

46 - DHARANÁSANA –

Sentado em vajrásana, flexionar o tronco e a cabeça, colocar a testa sobre as mãos fechadas. Posição
de meditação.

47 - VIPARITA KARANI –

Sente-se e deslizando as pernas para frente, deite-se com os quadris acima da cabeça e os pés fora do
chão. Permaneça por tempo mais longo, respiração livre, olhos fechados. Atua principalmente na
circulação e rejuvenescimento físico, mental e emocional.

48 - ARDHA MATSYÁSANA –

Deitado, cotovelos no chão, flexionar o tronco para trás arqueando o tórax para cima. Colocar a
parte superior da cabeça no chão. Pernas esticadas. Dirigir a consciência para a tiróide. Se deseja
emagrecer, permaneça mais tempo respirando suavemente e mentalizando uma luz laranja na tiróide,
depois inspire e pratique o jiva bandha (a língua massageando o céu da boca) expire, desça o corpo e
relaxe. Seu efeito é excelente, combatendo disritmias, esquizofrenia, rigidez, fortalece a tiróide, as
amígdalas e adenóide. É um exercício indicado para os excepcionais.

Humaniversidade Holística 26
Exercícios de Respiração
Os Exercícios respiratórios aqui descritos foram retirados na sua maioria do Swástya Yoga, método
do Prof. De Rose, porém adaptados ao homem contemporâneo, sedentário e de articulações e músculos
mais rígidos.
Selecionamos dentre tantos exercícios, aqueles que congregam mais efeitos simultâneos ou um
importante efeito específico.
Na prática em casa, procure seguir a seqüência como apresentada aqui.
Alertemos também a terceiros que não tenham participado do treinamento que não devem aventurar-
se à prática destes exercícios sem a orientação de um instrutor.

Respiração Completa
A respiração começa a ser treinada tornando-se mais lenta e regular, proporcionando um inspirar e
expirar mais largo e profundo. Possuímos 3 tipos de respiração:

- Abdominal (Baixa)
- Intercostal (Média)
- Subclavicular (Alta)

Controlando os três tipos de respiração, obteremos uma respiração total e completa. Cabe a nós
obtermos o melhor para o nosso organismo.

Nádí Shodhana, a respiração alternada


Pedro Kupfer

Nádí shodhana significa purificação das nádís, os canais da energia. Este respiratório é
importantíssimo no Yoga, pois promove o bhúta shuddhi, a limpeza dos elementos do corpo sutil,
requisito preliminar e indispensável para as práticas mais avançadas. Para fazê-lo corretamente, siga
atentamente estas instruções. O nádí shodhana é silencioso e agradável. Se em algum momento você
sentir que está perdendo o fôlego, ou que está ficando ofegante, reduza proporcionalmente a duração de
cada fase até achar o tempo ideal para a sua capacidade pulmonar individual. Um detalhe: este
respiratório precisa fazer-se sem forçar absolutamente nada, sem fazer ruídos, sem ressoar, sem perder o
fôlego, sem cansar-se, sem mudar de posição, sem mover-se, sem coçar, sem oscilar, firme como uma
rocha. Deve praticar-se apenas pela manhã, antes das nove horas; preferentemente, entre as quatro e as
seis.

Quanto pránáyáma fazer? Vinte ciclos é uma ótima forma de se começar. Um ciclo completo de
respiração alternada significa que você inspira por uma narina, retém o ar, exala pela outra, e retém sem
ar.

Como levar a contagem sem perder-se nem distrair-se do exercício? Para contar, você deve usar o
japa málá de dez contas da sua própria mão. Use a esquerda, pois com a direita você irá obstruir as
narinas. Comece na segunda falange do dedo anular (1), e vá em sentido anti-horário, pela terceira
falange do mesmo dedo (2), depois descendo para a terceira (3), a segunda (4) e a primeira falange (5)
do mínimo, depois para a primeira falange do anular (6), a primeira falange do dedo médio (7), a
primeira (8), a segunda (9) e finalmente a terceira falange do indicador (10). Depois se faz o caminho
inverso, começando a segunda contagem no mesmo ponto em que a primeira terminou (de 11 a 20). Os
números ímpares correspondem à inspiração pela narina esquerda (idá nádí); os pares, à narina direita
(pingalá nádí).

Devem usar-se as contrações (bandhas), durante o kúmbhaka: jalándhara e múla, garganta e


esfíncteres. Para iniciantes, deve-se substituir o jalándhara pelo khecharí mudrá, contração da língua.
Durante o a retenção vazia se faz o bandha traya, a contração tríplice.

Humaniversidade Holística 27
Para alternar a respiração, se usa o vishnu mudrá, com a mão direita frente ao nariz, e os dedos
indicador e médio recolhidos na palma. A mão se movimenta o mínimo possível: apenas as pontas dos
dedos obstruem alternadamente a depressão acima das narinas, sem forçar nada. O braço fica colado na
caixa torácica, para não se cansar. Lembre que os yogis são mestres em economia. Tudo e qualquer
movimento deve fazer-se pela lei do mínimo esforço.

Nádí shodhana pránáyáma


Inicie sentando numa posição firme e agradável, com as costas bem eretas. A mão esquerda fica em
jñána mudrá sobre o joelho, com o polegar a o indicador se tocando, e a direita em vishnu mudrá.
Usaremos apenas o polegar e o anular: o polegar para fechar a narina direita, o anular para fechar a
narina esquerda. Não coloque demasiada pressão. Obstrua, não o orifício da narina, mas a depressão
logo acima dela. Para iniciar, feche a narina direita com o polegar e respire profunda e ritmicamente,
apenas pela esquerda. Inspire e expire pela narina esquerda. Não force nem segure a respiração.

Esvazie por completo os pulmões. Ao inspirar, encha primeiramente o abdômen, depois a região
intercostal e o peito. Concentre-se no processo da respiração. A inalação e a exalação devem ser iguais.
Conte mentalmente usando o mantra Om. O mesmo número de repetições para inspirar e expirar. Se
você inspira durante três repetições do mantra Om, expire também por três repetições do Om. Se você
inala em cinco Om, exale no mesmo número. Consciência total no processo respiratório. Respire de
forma completa: inspire enchendo o abdômen, a região intercostal e o tórax.

Exale de forma inversa: esvazie primeiramente o tórax, depois as costelas e finalmente o abdômen.
Respiração profunda. Você fará esta respiração por uns dez ciclos. Não precisa contar. Simplesmente
respire. Isto é chandra nádí pránáyáma. Refresca o corpo, é sedativo e é bom para controlar o sistema
nervoso. Respiração rítmica e profunda, apenas pela narina esquerda (2 minutos em silêncio). Seus
olhos devem estar fechados. Consciência total no processo respiratório (1/2 minuto em silêncio).

Agora, faça uma retenção vazia, exale e fique sem ar pelo tempo que lhe for confortável, sem forçar.
Se não for possível reter por mais tempo, inspire lenta e profundamente e faça uma retenção interna,
com os pulmões cheios, pelo tempo que lhe for confortável, sem forçar. Feche a narina esquerda com o
dedo anular e exale pela narina direita e passe a respirar de forma profunda e consciente, apenas pela
narina direita. Inalação e exalação lenta e profunda, somente pela narina direita. Lembre que o tempo da
inalação e da exalação devem ser iguais. Conte mentalmente o mantra Om para pautar o ritmo. Respire
de forma completa: inspire enchendo o abdômen, a região intercostal e o tórax.

Exale de forma inversa: esvazie primeiramente o tórax, depois as costelas e finalmente o abdômen.
Respiração profunda. Isto é súrya nádí pránáyáma. É muito bom para estimular a visão e a digestão e
revigorar o sistema nervoso. Dá poder físico e produz intenso calor. Você fará também esta respiração
por uns dez ciclos. Novamente, não precisa contar. Simplesmente respire. Respiração rítmica e
profunda, apenas pela narina direita (2 minutos em silêncio).

Agora exale e faça uma retenção vazia, pelo tempo que lhe for possível, sem forçar. Quando não for
mais possível reter, inspire lentamente ainda pela narina direita e retenha o ar com os pulmões cheios,
pelo máximo de tempo que puder, porém, sem forçar.

Depois, feche a narina direita com o polegar, exale pela esquerda e inspire em seguida por ela.
Troque de narina, exale pela direita e inspire por ela. Exale pela esquerda e inspire por ela. Exale pela
direita, inspire pela direita. Isto é nádí shodhána pránáyáma, a respiração alternada, que purifica os
canais do corpo energético.

Você inspira pela mesma narina pela que exalou. Somente depois, troca de narina, com os pulmões
cheios. Respiração rítmica e profunda, alternando as narinas. Lembre que os tempos de inspiração e
exalação devem ser iguais. Faça mentalmente o mantra Om para contar os tempos de inalação e
exalação. Se você inspira durante três repetições do mantra Om, expire também por três repetições do
Om. Se você inala durante cinco Om, exale no mesmo número. Consciência total no processo
respiratório (1/2 minuto em silêncio).

Este exercício revigora o sistema nervoso e o intelecto, purifica o corpo sutil e dá muita energia. O
processo completo de purificação do shúkshma sharíra e o sistema das nádís leva cerca de quatro meses,
e deve incluir ainda cuidados com alimentação, hábitos e emoções. Esta é uma prática essencial. Sem
ela, é impossível atingir estados de meditação profunda. Respiração rítmica e profunda, alternando as
Humaniversidade Holística 28
narinas. Esta respiração deve fazer-se igualmente por dez ciclos. Novamente, não precisa contar.
Simplesmente respire (2 minutos em silêncio).

A próxima vez que você expirar pela narina esquerda, faça uma retenção sem ar nos pulmões, pelo
tempo que lhe for confortável. Quando não for mais possível segurar sem ar confortavelmente, inspire
lentamente e retenha agora com os pulmões cheios. Depois, exale pela direita e faça mais uma retenção
vazia.

Se não for mais possível segurar sem ar confortavelmente, inspire muito lentamente e retenha agora
com os pulmões cheios. Exale por ambas narinas e faça respiração rítmica e profunda. Respire de forma
completa: inspire enchendo o abdômen, a região intercostal e o tórax. Exale de forma inversa: esvazie
primeiramente o tórax, depois as costelas e finalmente o abdômen. Respiração profunda.

Os tempos de inspiração e expiração devem ser iguais, pautados pelo mantra Om, feito mentalmente.
A atenção concentrada no processo da respiração. Respiração profunda e consciente por ambas narinas.
Isto melhora a digestão, purifica o sangue e irriga com maior intensidade o cérebro. Aproximadamente
30% do oxigênio é consumido pelo cérebro. Ao assimilar mais oxigênio, você estará alimentando
melhor o seu cérebro (1/2 minuto em silêncio).

Você poderá aplicar este exercício de respiração consciente a qualquer altura do dia ou quando você
estiver cansado, menos imediatamente após as refeições. Não se preocupe em contar. Apenas respire.
Agora expire e retenha pelo tempo que puder com conforto. Quando não conseguir mais reter, inspire
lentamente e retenha mais uma vez. Aqui se encerra o nádí shodhána.

Extraído do livro Yoga Prático.

O texto acima pode usar-se como modelo de elocução. Você estuda a técnica e grava a sua própria
voz, lendo pausadamente (uma frase a cada quatro segundos, aproximadamente) e respeitando os
tempos que aparecem sugeridos entre parêntesis (ou reduzindo-os proporcionalmente).

Outra opção é fazer pequenos grupos de meditação com seus amigos, onde cada um pode usar os
textos como orientação para dar a prática para os outros.

Se você for professor de Yoga, poderá igualmente usar essa prática nas suas aulas, tomando o
cuidado de escolher a técnica mais adequada para cada pessoa ou grupo.

Drishti, as fixações oculares


Pedro Kupfer

Drishti deriva da palavra drish, que significa literalmente olhar. Os drishtis são técnicas de fixação
ocular, muito úteis para auxiliar a prática de meditação ou respiratórios. Possuem efeito estimulante nos
músculos e nervos óticos e, através deles, no sistema nervoso central, auxiliando no processo de
estabilização da mente. São muito úteis contra depressão e ansiedade e melhoram a memória e a
concentração. No plano sutil, estimulam o ájña chakra e promovem a clarividência, a percepção das
manifestações sutis. No início você poderá sentir desconforto ou cansaço ao tentar imobilizar o olhar,
mas à medida que conseguir aquietar os pensamentos, os olhos se adaptarão naturalmente.

Embora possamos utilizar as técnicas de drishti como ponto de partida para fazer ekagratá, não
devemos confundir drishti, trátaka e ekágratá. O drishti é a fixação do olhar; já o trátaka é a
concentração num objeto exterior, e está relacionado apenas com a percepção visual; enquanto o
ekágratá é um processo que compreende a participação da consciência, que se concentra em um só
ponto.

Os três exercícios de fixação ocular mais importantes são naságra, a fixação na ponta do nariz;
bhrúmadhya, concentração no intercílio; e bhúcharí drishti, fixação ocular no vazio. Além deles, há
ainda vários outros, como agni drishti, firmar o olhar no fogo, que pode ser uma fogueira ou a chama de
uma vela; tára ou táraka drishti, fixação da visão na imagem de uma estrela; chandra drishti,
estabilização do olhar na Lua; súrya drishti, fixação no Sol na hora do alvorecer ou no ocaso; shakta ou
shaktí drishti, fixação nos olhos do parceiro ou parceira tântrica; e guru drishti, concentração na imagem
do guru.

Humaniversidade Holística 29
Esses exercícios podem fazer-se separadamente ou ainda combinados com outras práticas de
pránáyáma, ásana e bandha. É conveniente ressaltar que todos eles podem fazer-se tanto com os olhos
abertos (e aí recebem o nome de bahiranga drishti, externos) quanto com eles fechados (quando recebem
o nome de antaranga drishti, internos ou sutis).

Exercícios respiratórios básicos


Pedro Kupfer

As técnicas descritas a seguir servirão como treinamento básico para dominar e ampliar a mecânica
da respiração. Poderão fazer-se independentemente umas das outras ou obedecendo à seqüência
sugerida. Todas elas podem ser aplicadas durante a prática dos ásanas, o que irá potencializar os seus
efeitos. Siga cuidadosamente estas instruções e consulte o seu instrutor caso tenha dúvidas a respeito.

1 - Adhama pránana, a respiração abdominal


A primeira etapa na prática de pránáyáma é disciplinar a respiração baixa ou abdominal. Pode ser
feita deitado em decúbito dorsal ou sentado com as costas eretas. Procure fazê-la enquanto vamos
descrevendo.

Coloque as palmas das mãos no abdômen para perceber o movimento do diafragma. Respirando
pelas narinas, esvazie completamente os pulmões, contraindo o ventre. Permaneça por um instante sem
ar. Deixe-o agora entrar devagar, soltando e expandindo naturalmente a musculatura do baixo ventre e
depois a parede abdominal, conforme for enchendo a parte baixa dos pulmões.

Não retenha. Ao expirar, recolha os músculos abdominais. Continue respirando assim, relaxando o
abdômen ao inspirar e contraindo-o levemente ao exalar. Esta é a forma ideal de fazê-lo no dia a dia,
sendo aquela que surge espontaneamente ao dormir.

Após ter dominado o movimento anteriormente descrito, execute esta respiração no ritmo mais lento
que conseguir, prolongando ao máximo o tempo da inalação e da exalação.

Com a prática, você poderá desenvolvê-la de forma ideal, acrescentando retenções de alguns
segundos no final da inspiração e da expiração, o que irá aumentar a capacidade pulmonar e a vitalidade.
Posteriormente, aumentará gradativamente a retenção até chegar a quadruplicar ou ainda octuplicar o
tempo da inspiração. Depois, o ritmo começará a se encaixar naturalmente.

Efeitos:
Este exercício promove um massageamento nos órgãos abdominais, melhorando o seu
funcionamento. Elimina a ansiedade e aumenta a força de vontade, a concentração e a vivacidade
mental. Feita sem esforço, revitaliza e predispõe a pessoa a uma atitude aberta e receptiva, tendendo a
aceitar a realidade tal como é.

2 - Prána kriyá, a respiração completa


Agora vamos respirar com todo o potencial e a capacidade dos nossos pulmões. Isto nos
proporcionará uma sensação única de bem estar, leveza e vitalidade. São infinitas as sensações quando
respiramos de forma completa e consciente: as idéias ficam mais claras, a tristeza se transforma em
felicidade, a agitação em serenidade, a insegurança em autoconfiança, o desânimo em entusiasmo. Se
você achou exageradas estas afirmações, nosso convite é para que experimente este exercício.

Quando possível, procure fazer pránáyáma diante do mar, próximo de uma cachoeira ou perto da
natureza. A sensação do prána limpando e nutrindo as suas células lhe fará sentir revigorado em poucos
minutos.

Sente-se em qualquer posição na qual você possa manter a coluna ereta sem forçamento. Feche os
olhos e passe a acompanhar a respiração. Perceba o contato do ar com os condutos respiratórios, sinta o
prána acariciar o seu corpo por dentro. Descontraia-se.

Elimine agora todo o ar dos pulmões e recolha o abdômen. Comece a inalar expandindo o ventre e o
diafragma, deixando que o prána e o ar entram na parte baixa dos pulmões. Em seguida, deixe o ar

Humaniversidade Holística 30
entrar na área média, descontraindo a musculatura intercostal. Por fim, complete a inspiração enchendo
de ar o ápice dos pulmões, sentindo que os alvéolos se abrem.

Expire com suavidade, soltando primeiramente o ar da parte alta, depois da parte média, retraindo os
músculos intercostais, e, por fim, da parte baixa, contraindo o abdômen e fazendo com que o diafragma
se eleve.

Continue desenvolvendo a respiração completa, procurando prolongar o tempo das fases e permitindo
que o ar flua de forma cadenciada. Dessa maneira, você enche os pulmões de baixo para cima e os
esvazia de forma inversa, de cima para baixo.

Acrescente posteriormente kúmbhaka e shúnyaka, retenções com os pulmões cheios e vazios. Essas
paradas do fluxo respiratório não devem jamais ultrapassar a sua capacidade natural. A exalação deve
ser lenta e controlada. Ao acrescentar os bandhas, contrações de órgãos, músculos, plexos e nervos, o
nome do exercício passa a ser bandha pránáyáma ou prána bandha kriyá.

Efeitos:
Aumento considerável da capacidade pulmonar, da resistência e do tônus geral do organismo,
desintoxicação e oxigenação celular, revitalização, rejuvenescimento e tonificação. No aspecto psíquico,
outorga ao praticante receptividade, atitude aberta em relação ao mundo que o rodeia, expansão total de
si, concentração, entrega, felicidade. Aumentando a elasticidade da estrutura ósseo-muscular, o prána
kriyá dissolve tensões somatizadas na região abdominal, nos ombros e no pescoço.

Shirshasana
Pedro Kupfer

Tradução do nome desta postura:

Shirsha = cabeça; “postura sobre a cabeça”

1. Lembre: tudo o que vale para samasthiti / tadasana em termos de alinhamento, vale igualmente
para o shirshasana. Para tanto, clique aqui para rever e lembrar dessas instruções:
http://www.yoga.pro.br/artigos.php?cod=447&secao=3026.

Humaniversidade Holística 31
2. Proceda desta maneira: começe a partir do kurmásana, sobre os calcanhares, deitado sobre as
coxas.

3. Inspire, elevando os quadris, andando com as pontas dos pés em direção à cabeça.

4. Mantenha a firmeza na base da postura, formada pelo pescoço, a cabeça, os cotovelos e antebraços,
e as partes externas dos pulsos e mãos.

5. Alivie o peso no pescoço e a cabeça, mantendo bem ativos os antebraços, braços e ombros.

6. Para elevar as pernas, você tem três opções (em ordem de dificuldade crescente):

a) subir com as pernas juntas e flexionadas, para depois estendê-las;

b) subir com uma perna estendida primeiro e depois com a outra; e

c) subir com ambas as pernas unidas e estendidas ao mesmo tempo.

7. Observe se os bandhas estão ativos e perceba se a respiração não está sendo forçada.

8. Se ela ficar superficial, ou difícil, retorne da invertida.

Humaniversidade Holística 32
9. Exagerar na permanência pode forçar os ligamentos e discos cervicais. Tenha cuidado. Seja
responsável pela sua própria saúde e integridade corporal.

10. Observe os sinais da energia circulando na região do pescoço e a cabeça.

Atenção:
Estas dicas não substituem um professor de Yoga. São disponibilizadas apenas para que o praticante
possa aprimorar sua técnica e sua prática pessoal. No início, a prática sob a supervisão cuidadosa de um
instrutor preparado e competente é essencial para o sucesso na prática, bem como para evitar lesões. O
autor não se responsabiliza pelo mal uso que possa ser feito destes textos. Obrigado pela compreensão.

Namastê e boas práticas!

Como fazer o mula bandha


Pedro Kupfer

Às vezes, ouvimos dizer que mula bandha é a contração dos esfíncteres do ânus e da uretra. Porém, a
bem da verdade, este bandha vai muito além do que apenas contrair esses músculos. Mula bandha
significa “fecho da raiz”.

Mula bandha é a técnica de elevação e contração do assoalho pélvico. Contrai-se primeiramente a


musculatura dos esfíncteres do ânus e da uretra. Depois, eleva-se verticalmente o assoalho pélvico, em
direção ao plexo solar. Esta contração pode ser acompanhada pelo recolhimento dos músculos do baixo-
ventre e dos glúteos. Estimula-se assim o sistema nervoso central e o muladhara chakra, chakra básico.

Esta técnica é sumamente importante para manter-se a concentração e o foco na prática. Ensina a
Hatha Yoga Pradipika: “Praticando-se mula bandha, atinge-se a perfeição total. Não há dúvida sobre
isto.”

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Toda a área do períneo é ativada, contraída
e ligeiramente elevada durante o mula bandha

O ashvini mudra
Existe uma variação desta técnica, chamada ashvini mudra, que consiste em fazer sucessivas
contrações da musculatura anal e uretral. Este exercício de contração rítmica fortalece a musculatura da
base do tronco e é mais fácil que o mula bandha, pelo que recomendamos o seu uso para aqueles que
não tiverem ainda dominado esse exercício. Avshini significa “égua” em sânscrito. Como bons
observadores da natureza, os yogis viram que o movimento deste bandha reproduzia aquele que as éguas
fazem ao acabar de urinar. O nome provém dessa constatação.

Efeitos do mula bandha


O mula bandha aumenta a potência sexual e a irrigação sangüínea na região pélvica, ajuda
efetivamente no controle do orgasmo, evita a dispersão da energia sexual, mantém o equilíbrio hormonal
e estimula o metabolismo dos órgãos internos. O curso natural descendente do apana vayu é invertido,
forçando-o a elevar-se em direção ao prana vayu, na região do tórax.

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