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FACULDADE DE MÚSICA DO ESPÍRITO SANTO

“MAURÍCIO DE OLIVEIRA”
BACHARELADO EM MÚSICA – HABILITAÇÃO EM CLARINETA

FABRÍCIO COSTA PINTO

CONTANDO ESTRELAS: CONTRIBUIÇÕES DO VIOLONISTA E


COMPOSITOR MAURÍCIO DE OLIVEIRA PARA O CHORO CAPIXABA

VITÓRIA
2017
FABRÍCIO COSTA PINTO

CONTANDO ESTRELAS: CONTRIBUIÇÕES DO VIOLONISTA E


COMPOSITOR MAURÍCIO DE OLIVEIRA PARA O CHORO CAPIXABA

Projeto apresentado à disciplina Projeto


Final Concerto II como exigência parcial
para obtenção do Título de Bacharel em
Música – Clarineta – pela Faculdade de
Música do Espírito Santo “Maurício de
Oliveira”.
Orientador: Prof. Dr. Eduardo Gonçalves dos
Santos

VITÓRIA
2017
iii

FABRÍCIO COSTA PINTO

CONTANDO ESTRELAS: CONTRIBUIÇÕES DO VIOLONISTA E


COMPOSITOR MAURÍCIO DE OLIVEIRA PARA O CHORO CAPIXABA

Projeto apresentado à disciplina Projeto Final Concerto II como exigência parcial


para obtenção do Título de Bacharel em Música – Clarineta – pela Faculdade de
Música do Espírito Santo “Maurício de Oliveira”.

Orientador: Prof. Dr. Eduardo Gonçalves dos Santos

Aprovado em 05 de agosto de 2017

BANCA EXAMINADORA:
______________________________________________
Prof. Dr. Eduardo Gonçalves dos Santos
Faculdade de Música do Espírito Santo
Orientador
______________________________________________
Prof. Me. Marcelo Trevisan Gonçalves
Faculdade de Música do Espírito Santo
______________________________________________
Prof. Me. Ricardo Lepre
Faculdade de Música do Espírito Santo
iv

DEDICATÓRIA

Aos meus pais pelo carisma e compreensão que tornou sonhos em realidade.

Aos meus colegas de jornada pelo entusiasmo e dedicação, ao Deus pai.


v

AGRADECIMENTOS

Ao Deus todo poderoso por me fazer passar por provações e me oferecer


oportunidades que tanto desejo alcançar ainda em vida.

Ao Professor Eduardo Gonçalves, meu orientador, por estabelecer o caminho do


saber e desejar o meu sucesso sempre.

Ao Ensino Musical Karla que contribuiu a todo instante para a conquista desta
produção.

A todos que incentivaram a realização deste trabalho, buscando alcançar metas, os


meus mais sinceros votos de felicidade.
vi

“Nossa mente está mergulhada na Mente


Divina que sustenta os universos infinitos.
Nossa força mental permanece impregnada
da Força Mental Divina, que está em toda a
parte ao mesmo tempo. Procure manter-se
unido a esta Força Infinita, e jamais será
derrotado. Você tem esse Poder: confie!
Você vencerá em toda a linha, se o quiser”.
Carlos Torres Pastorino -
vii

SUMÁRIO

DEDICATÓRIA iv
AGRADECIMENTOS v
SUMÁRIO vii
1 INDRODUÇÃO 8
2 QUEM FOI MAURÍCIO DE OLIVEIRA? 11
2.1 NA RÁDIO ESPÍRITO SANTO - PRI-9 16
2.2 VARSÓVIA, POLÔNIA 17
2.3 A VIDA PROFISSIONAL DO MÚSICO MAURÍCIO DE OLIVEIRA 18
3 O CHORO CANÇÃO CONTANDO ESTRELAS 21
3.1 A HISTÓRIA DA COMPOSIÇÃO DE CONTANDO ESTRELAS 22
3.1.1 O FILHO TIÃO DE OLIVEIRA 23
3.1.2 O ENCONTRO COM WALDIR AZEVEDO 23
3.2 COMPARAÇÃO ENTRE CONTANDO ESTRELAS E PEDACINHOS DO CÉU 25
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS 28
5 REFERÊNCIAS 30
ANEXOS 31
ANEXO A – Manuscrito Contando Estrelas 32
ANEXO B – Contando Estrelas (partitura do Songbook) 33
ANEXO C – Pedacinhos do Céu 35
8

1 INDRODUÇÃO

Com o passar dos anos e, principalmente nas últimas décadas, o interesse da


comunidade musical acadêmica pela música popular brasileira vem crescendo
exponencialmente. Com vistas a este fato propomos, através da presente pesquisa,
aprofundar o conhecimento existente em relação à música popular brasileira
produzida no Estado do Espírito Santo utilizando como objeto de nosso trabalho o
violonista e compositor capixaba Maurício de Oliveira, bem como sua obra no âmbito
do choro e, em específico, o choro Contando Estrelas.

Figura 1 - Foto de Maurício de Oliveira. Fonte: REVISTA CAPIXABA (1969).

Maurício de Oliveira foi músico muito ativo não apenas no cenário musical
capixaba, mas também se tornou conhecido em âmbito nacional e com passagem
relevante pelo exterior. Ele está sendo reconhecido através de importante premiação
na década de 1950 - o segundo lugar no 5º Festival Mundial da Juventude
(CALIXTE, 2001, p. 56-57).
Baseado na vida e na obra de Maurício de Oliveira e sua relação entre o
choro e a composição, o presente trabalho tem como objetivo principal explicitar, em
9

linhas gerais, um pouco da relação existente entre o choro Contando Estrelas, de


Maurício de Oliveira, e o choro Pedacinhos do Céu, de Waldir Azevedo.
Formulando os objetivos secundários que formarão um paralelo com o
objetivo principal, buscamos discorrer sobre as participações de Maurício de Oliveira
no gênero choro do Espírito Santo, dentro das rodas de choro, nos programas de
rádio e no ensino musical, levantar e divulgar o repertório de choro composto por
Maurício de Oliveira, identificar, na medida do possível, algum tipo de influência
sofrida por Maurício de Oliveira principalmente em seus choros e, por fim, abordar a
história que envolve a composição do choro Contando Estrelas de Maurício de
Oliveira.
A realização desta pesquisa é justificada tendo em vista a importância da vida
e da obra desse reconhecido músico capixaba para a produção musical do choro no
Espírito Santo que o transforma em uma referência no mesmo Estado, desde 2009 -
o ano de falecimento. Outra importante justificativa para a realização desta pesquisa
é a necessidade de se ampliar a produção acadêmica que versa sobre a música
popular executada por músicos capixabas cada vez mais visível em âmbito nacional
além de fomentar o surgimento de novas pesquisas dentro da mesma temática, uma
vez que muito da riqueza musical do Espírito Santo ainda não foi documentada em
padrões acadêmicos.
Quanto às ferramentas necessárias para a elaboração desse trabalho de
conclusão de curso, apoiamos em abordagens históricas por meio de pesquisas em
documentos variados. Foi realizada uma pesquisa documental através de
fragmentos de jornais e revistas, livros com partituras de Maurício de Oliveira, fotos
dentre outros. Foram realizadas também entrevistas com amigos músicos e
familiares do referido músico onde pudemos coletar fatos inéditos para o público em
geral que contribuirão para o enriquecimento da história de vida do Mestre Maurício
de Oliveira.
Como fonte primária e com o papel de desvelar as principais passagens da
vida de Maurício de Oliveira até o ano de 2001, o livro de Marie Calixte, Maurício de
Oliveira: O Pescador de Sons conta a história detalhada da vida do personagem
principal de nosso trabalho, do período de nascimento até quando o pai de Maurício
sonhou em ter um filho ao seu lado exercitando os muitos afazeres de pescador,
uma tradição de família. O referido livro aborda toda a trajetória do pai, o senhor
Sebastião Rodrigues de Oliveira, pescador, e da mãe, a senhora Maria Porto de
10

Oliveira, trabalhadora doméstica. No discorrer das histórias que foram encontradas


no livro de Calixte, nota-se o interesse de Maurício pela música do irmão José
Oliveira e do tio José Inácio Oliveira. O mesmo livro também relata a fase
profissional do violonista depois que realizou trabalhos relevantes na coordenação e
atuação junto ao conjunto regional da Rádio Espírito Santo (PRI-9), onde pôde se
apresentar ao lado de grandes ícones da música no auge da era do rádio no Brasil.
Utilizamos também como referência a obra Música Popular Capixaba: 1900 –
1980 do repórter Osmar Silva (1986), o qual fez reportagens e críticas da música
popular brasileira para o jornal A Gazeta desde 1973. O referido livro encontra-se
disponível no Arquivo Público do Estado do Espírito Santo e descreve algumas
passagens acontecidas durante oitenta anos de história musical nesse Estado ainda
no século passado. Este livro aborda assuntos diversos das terras capixabas, em
destaque: os compositores, as cidades, os festivais, os estilos musicais, os ritmos,
os discos representativos da música capixaba, os clubes e outras mais. Além disso,
este exemplar trouxe os momentos dos músicos na tradicional festa de São Pedro, o
encontro de Maurício de Oliveira com Clóvis Gomes1 e o ensaio da primeira
formação do regional da Rádio Espírito Santo na antiga Rua Velha de Jucutuquara.
Destacamos também, como fonte bibliográfica, um livro no formato Songbook
encomendado pela família de Maurício de Oliveira após sua morte. Essa obra reúne,
além de um texto reeditado do já citado livro Maurício de Oliveira: O Pescador de
Sons, de Marien Calixte (2001), vários documentos e registros fotográficos de
Maurício em família, com amigos, grupos e outros, um CD com áudios de gravações
do próprio Maurício, depoimentos de amigos sobre sua vida artística além de uma
coleção de partituras editadas com obras de Maurício de Oliveira tal qual revisadas
por seu filho Sebastião de Oliveira. A tiragem foi limitada aos familiares e algumas
instituições e bibliotecas capixabas. Um desses exemplares está disponível na
biblioteca da Faculdade de Música do Espírito Santo “Maurício de Oliveira”.
Focalizando apenas nos choros compostos por Maurício de Oliveira, escopo
de nossa pesquisa, constatamos partituras editadas de nove composições
registradas no referido Songbook - 2015. E, no CD anexo ao livro, estes choros
estão localizados nas seguintes faixas: 4 - Chorando no Teatro Carlos Gomes, 11 -

1
Clóvis Gomes – diretor artístico da Rádio Espírito Santo a ingressar na emissora. Clóvis Gomes foi
quem levou Maurício de Oliveira e seu irmão José Oliveira para conhecer a Rádio. Clóvis Gomes que
Tião de Oliveira conheceu era irmão de Rubens Gomes (nota do aluno).
11

Contando estrelas, 13 - Esplanada, 14 - Eu sei, 16 - Maluquinho, 17 - Maxiando, 18 -


O choro é livre, 19 - Reminiscências e 20 - Um choro na UFES.
Face à importância do compositor e violonista Maurício de Oliveira para a
música espírito-santense, este trabalho propõe um levantamento das obras do
gênero choro bem como aprofundar numa linguagem história que envolve a
composição Contando Estrelas, peça representativa para a comunidade capixaba do
choro e, mais que uma análise, comparar os choros Pedacinhos do Céu (Waldir
Azevedo) e o já citado Contado Estrelas (Maurício de Oliveira) dos pontos de vista
melódico e harmônico.

2 QUEM FOI MAURÍCIO DE OLIVEIRA?

Uma história de vida dedicada à música, consta na biografia do músico


Maurício de Oliveira no livro Maurício de Oliveira: o pescador de sons, de Marien
Calixte2 (2001), o qual inicia o primeiro capítulo imaginando uma determinada cena.
Seu modo prosaico3, diz na página 17:
O pescador Sebastião sonha com Maurício, o oitavo filho, navegando ao
seu lado na baleeira Flor da Penha, os dois ao mar, ao sol e vento
recolhendo a rede cheia de peixes, contando histórias de pescadores. O
menino já decidira, em cauteloso silêncio, a direção do seu futuro. Certo dia,
o momento de decisão:
– Que você quer ser na vida? – Perguntou Sebastião.
– Pescador de sons – respondeu Maurício (CALIXTE, 2001, p. 17).

Maurício de Oliveira foi o oitavo filho do pescador Sebastião Rodrigues de


Oliveira e de Maria Porto de Oliveira, nascido em 19 de julho do ano de 1925 - na
localidade de Porto das Pedreiras. Este nome se originou da extinta Rua das
Pedreiras - hoje Rua Barão de Monjardim. Nos dias atuais, o antigo Porto das
Pedreiras é um aterro que circunda o Forte São João (CALIXTE, 2001, p. 25-26).
Este forte está localizado em Vitória (na Curva do Saldanha) próximo à Faculdade
de Música do Espírito Santo “Maurício de Oliveira”.

2
Jornalista e escritor capixaba, durante mais de cinco décadas se dedicou ao jornalismo, rádio,
literatura, pintura e música. Foi produtor cultural, diretor de teatro e também diretor de redação do
jornal A Gazeta. Publicou duas dezenas de livros entre biografias ficções e Haicais, além de ter
comandado desde 1958 o programa “O Som do Jazz”. Disponível em <http://g1.globo.com/espirito-
santo/noticia/2013/12/morre-aos-78-anos-o-jornalista-e-escritor-marien-calixte-no-es.html>. Acesso
em: 01 de dez de 2016.
3
Prosaico adj. 1. Da, ou semelhante ou relativo à prosa. 2. Trivial, vulgar. (AURÉLIO, 1989, p. 413).
12

Ainda bebê, nesse mesmo lugar, o pescador Sebastião projetava o futuro de


seu filho seguindo seus ensinamentos. No pronunciar de Calixte (2001, p. 26) o
pescador Sebastião admirava “os braços e as pernas longas de seu bebê” e
esperava que fossem “fortes e ágeis para conduzir a baleeira nas pescarias em alto
mar”.
Ao longo dos anos, os lugares por onde viveu Maurício de Oliveira passaram
por diversas modificações do ponto de vista físico e demográfico. Estes lugares
tomaram formas e dimensões diferentes. Mesmo assim, Maurício nunca sentiu
desejo de partir para outros lugares do país e declarou, certa vez, seu amor à terra
natal.
O Porto das Pedreiras, a Praia do Suá.... Esses lugares são minha história,
eu me orgulho disso. Tenho a impressão que Deus me sussurrou ao ouvido:
Fique onde está, porque eu também estou aqui – diz Maurício,
contemplando 76 anos depois o lugar onde nasceu (OLIVEIRA apud
CALIXTE, 2001, p. 31).

Ainda na página 31 do livro de Marien Calixte, Maurício retrata a alegria sem


igual que se fazia presente com o ambiente musical de sua casa.

Nossa casa era alegre, sempre tínhamos música. Foi à casa do meu avô e
do meu pai, ali nasceram e viveram. Meu tio José Inácio e meu irmão José
tocavam violão. Meu pai gostava de música, de dançar, e chegamos a ter
um xenofone, um aparelho para tocar discos. Às vezes, aparecia gente
importante, o Adelpho Monjardim, o Wilson Freitas. O Porto das Pedreiras
fez história na história da cidade (OLIVEIRA apud CALIXTE, 2001, p. 31).

Em seu depoimento a Calixte (2001, p. 31) e reforçando o rico ambiente de


cultura musical que Maurício estava em constante contato, ele descreve a existência
de comunidades religiosas, ora se defrontando de maneira ordeira, ora se
confrontando de forma alegre através de músicas nas igrejas circunvizinhas ao Porto
das Pedreiras.

Era ali, perto da nossa casa, que os peroás e os caramurus encerravam a


regata, a maior festa da cidade, em louvor de São Benedito. O grupo
vitorioso ganhava o direito de ficar ao lado da embarcação que carregava a
imagem do santo, durante a procissão marítima. Depois da competição
havia missa, feira, leilões, foguetório, quermesse, fincada de mastro. As
festas anuais dos peroás e caramurus era uma competição de dois grupos
religiosos devotos de São Benedito. Os peroás vestiam-se de azul e, os
caramurus, de verde. Uma curiosidade da disputa era a picardia das
mulheres que usavam sandálias com a cor do outro grupo, só para mostrar
que estavam pisando no “inimigo”. Mas era tudo feito de maneira bem-
humorada e sempre acabava em festa (CALIXTE, 2001, p. 31).
13

Em busca de melhores oportunidades em sua profissão de pescador e


visando o bem-estar de sua família, no ano de 1930, e Maurício tendo completado
cinco anos de idade, seu pai, Tião Oliveira, decidiu mudar-se com sua família para a
praia Enseada do Suá. A escolha do novo local para viver com sua família baseou-
se no fato de lá situar a sede da Cooperativa de Pescadores (Z5) e estarem mais
próximos da organização a qual faziam parte os trabalhadores do mar e comércio
pesqueiro já que poderiam resultar maiores e melhores oportunidades de trabalho
para a família de pescadores (CALIXTE, 2001, p. 31). Ainda sobre o novo lar,
Calixte (2001) destaca que:

A casa nova da família do pescador Tião de Oliveira, de dona Maria e seus


filhos, era um pouco maior que a anterior; havia um bom espaço externo
para guardar a baleeira, a canoa e todo o material que Sebastião precisava
para pescar. A casa localizava-se na Rua Tamandaré (CALIXTE, 2001, p.
31).

Apesar dos desejos do pai de ver seu filho Maurício um homem do mar, o
menino não demonstrava muita desenvoltura no manuseio dos remos em seus
passeios na baleeira “Flor da Penha” e seguia firme com pensamentos voltados para
a música (CALIXTE, 2001, p. 32).

Maurício compreendeu, logo cedo, que era difícil a vida dependente do bom
humor do mar e dos peixes. A música estava na sua alma e também no
sonho de sua realização pessoal. Ao contrário dos peixes, a música só
dependeria dele mesmo (CALIXTE, 2001, p. 32).

O jovem aprendiz de música também experimentou os esportes como, por


exemplo, o futebol, jogando no Recreio Futebol Clube, um time de seu bairro.
Entretanto, sua vida teimava em seguir criando raízes cada vez mais profunda com
a música e, ainda bem criança já arriscava-se na música e decidiu dedicar-se ao
aprendizado dela através de seus familiares (CALIXTE, 2001, p. 32).

Com tanta música a minha volta, resolvi aos seis anos aprender a tocar um
instrumento. E o primeiro foi o cavaquinho que era tocado muito bem pelo
meu primo Alfredo, também um bom bandolinista. A partir dessa decisão,
passei a chatear o Alfredo, acordando-o todos os dias bem cedo para me
ensinar a tocar o instrumento. [...] resolvi seguir o conselho do meu irmão, o
também violonista José de Oliveira, trocando o cavaquinho pelo violão,
instrumento que ele achava ia me dar maior futuro (SILVA, 1986, p. 29).
14

Figura 2 - Foto da casa de Maurício. Fonte: Livro O Pescador de Sons de Marien Calixte (p. 37,
2001).

Conforme já dito no decorrer dos parágrafos acima, a tendência natural


naquele tempo era que o filho seguisse a vocação de família ou se tornasse um
pescador, porém, se dependesse da vontade do pai pescador, Maurício de Oliveira
não se tornaria “um tocador de violão” - relembrando a fala de seu pai (OLIVEIRA
apud CALIXTE, 2001, p. 35). Tal medo do pai era justificável uma vez que Maurício
perdera um tio-avô de quem a morte tinha sido causada pelo excesso de álcool
consumido na vida de boemia e, apoiava-se no fato do artista ou “alguém que
carrega um violão debaixo do braço” era visto com restrições pela sociedade
(CALIXTE, 2001, p. 35).
Com o passar do tempo, Maurício e o irmão José formaram a dupla Os
Irmãos Oliveira, passando a se apresentar em diversas festas populares da região
de Vitória e ganhando seus primeiros cachês. Tamanho foi o empenho em se tornar
um profissional da música, não utilizando-a como diversão descompromissada ou
muito menos pela boemia, que começou provocar uma diminuição da resistência
com a qual seu pai, Sebastião, encarava a profissão de músico, apesar de sempre
repetir o conselho: “não beba e nem fume! ” (CALIXTE, 2001, p. 35).
Ao longo de sua carreira e mesmo depois de seu falecimento, Maurício de
Oliveira obteve bastante reconhecimento de seus feitos frente à realidade musical do
15

Espírito Santo, o que podemos confirmar através de depoimentos do Prefeito


Municipal de Vitória/ES no ano de 2001, Luiz Paulo Vellozo Lucas, que disse:

Entre os sons que constroem a trilha sonora da alma capixaba, a música de


Maurício de Oliveira está entre as partituras mais importantes. Reunindo, na
sua música, influências dos mais variados matizes, Maurício de Oliveira
constrói a orquestração da cultura capixaba e faz de suas melodias, uma
canção de paz no falso dilema entre erudita e popular (LUCAS apud
CALIXTE, 2001, p. 11).

Junto ao livro de origem documental, encontramos nas palavras de José


Armando de Figueiredo Campos, Diretor Presidente da Companhia Siderúrgica de
Tubarão que diz:

O violonista Maurício de Oliveira simboliza o mais autêntico talento musical


capixaba e, ao mesmo tempo, personifica o espírito que move os
verdadeiros cidadãos, que, com seu trabalho e dedicação, engrandecem
toda uma sociedade (CAMPOS apud CALIXTE, 2001, p. 13).

O Songbook que contém as peças de Maurício de Oliveira, também traz


algumas palavras direcionadas ao personagem principal de nosso trabalho. O
professor Fabiano Mayer4 (2015, p. 24) diz que:

Maurício de Oliveira é, juntamente com Tom Jobim, Pixinguinha e Villa-


Lobos, um dos maiores nomes da música do Brasil de todos os tempos. [...]
Grande instrumentista que foi, teve programa de rádio, tocou pelo país e
mundo afora com grandes músicos, cantores e grupos, denominado
Regional Maurício de Oliveira. [...]. No chorinho, tem composições de alto
nível e, por fim, o fascínio pelo folclore local o fez escrever obras como
‘Dança do Chico Prego’ e ‘O Violeiro do Cricaré, deixando-nos uma herança
ampla de músicas a serem tocadas pelas próximas gerações (2015, p. 24).

Talvez a maior constatação do reconhecimento e da importância de Maurício


de Oliveira para a música no Estado do Espírito Santo seja a sanção, em setembro
do ano de 2009 (ano de morte do violonista capixaba) da Lei n° 9.334, que sugere
por indicação da Deputada Luzia Toledo, a mudança do nome da Faculdade de
Música do Espírito Santo para Faculdade de Música do Espírito Santo “Maurício de
Oliveira” (ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO, 2017).

A lei foi promulgada pela Assembleia Legislativa (Ales) e publicada no


Diário do Poder Legislativo (DPL) desta quinta-feira (19). Violonista, o
maestro Maurício de Oliveira ultrapassou as divisas do Estado e as
fronteiras do Brasil, ganhando notoriedade internacional (ASSEMBLÉIA
LEGISLATIVA DO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO, 2017).

4
Fabiano Mayer é violonista, pós-graduado em Educação e professor de Performance no Violão da
Faculdade de Música do Espírito Santo Maurício de Oliveira (OLIVEIRA, 2015).
16

2.1 NA RÁDIO ESPÍRITO SANTO - PRI-9

Aos dez anos de idade Maurício já apresentava-se com bastante frequência


na tradicional Festa de São Pedro, no bairro Enseada do Suá, um local onde era
muito comum a reunião de vários dos melhores e mais conhecidos violonistas de
Vitória. A partir de então, o jovem violonista começou a estreitar seus contatos com
esses músicos procurando sempre aprender o máximo que podia (CALIXTE, 2001,
p. 39).
Maurício, em seu depoimento encontrado no livro "Música Popular Capixaba
– 1900 – 1980" (SILVA, 1986, p. 30), conta que numa dessas oportunidades, nos
idos do ano de 1936, foi abordado pelo músico Clóvis Gomes,5 que falou naquela
oportunidade com os irmãos Oliveira sobre a fundação de uma emissora de rádio
em Vitória a qual, depois, viria a ser a Rádio Clube do Espírito Santo (PRI-9), a Voz
de Canaã. possibilidade da fundação de uma emissora de rádio em Vitória.
A partir da oportunidade de ingressar o grupo de música da futura rádio, os
irmãos Oliveira passaram a ensaiar juntamente com Luiz Noronha, Cícero do
Cavaquinho, Sucupira, Nelson do Pandeiro, Claudionor do Bandolim e Gefa da
Flauta.

Fomos ensaiar com o primeiro regional da futura Rádio Clube do Espírito


Santo (...) Ensaiamos de graça até 1939, só recebendo da emissora uma
carteira de passes de bonde, porque a Rádio ainda não dispunha de
dinheiro (CALIXTE, 2001, p. 40).

Os anos se passaram e aos 15 de janeiro de 1940 a Rádio Clube do Espírito


Santo (PRI-9, a Voz de Canaã) foi inaugurada passando a funcionar no andar
superior do Mercado Capixaba, no centro de Vitória, mais precisamente à Rua
Araribóia, número 48, com seu primeiro regional oficial composto por: Luis Noronha
e José de Oliveira nos violões, Maurício de Oliveira ao Cavaquinho, Claudionor ao
Bandolim, Nelson ao Padeiro, Gefa com sua Flauta e Gentil ao Clarinete (SILVA,
1986, p. 30).
Já na segunda formação do Regional, Rádio Clube do Espírito Santo, a Rádio
contava com:

5
Clóvis Gomes – diretor artístico da Rádio Espírito Santo a ingressar na emissora. Clóvis Gomes foi
quem levou Maurício de Oliveira e seu irmão José Oliveira para conhecer a Rádio. Clóvis Gomes que
Tião de Oliveira conheceu era irmão de Rubens Gomes (nota do aluno).
17

José de Oliveira, Ormy e Falcão, aos violões, eu [Maurício] de cavaquinho


ou guitarra elétrica, que começava a aparecer na época, Carlos Poyares na
flauta, Duca no contrabaixo (ele é o pai do Edílio, que toca esse instrumento
no meu grupo de agora) e Dário no pandeiro (MAURÍCIO apud SILVA,
1986, p. 31).

Ao lado de seu irmão José, Maurício se apresentou com nomes da maior


relevância para a música nacional, destacando-se os cantores: Nelson Gonçalves,
Sirenusa Paiva, Cauby Peixoto, Carmélia Alves, a fadista portuguesa Ester de
Abreu, Linda Batista, Emilinha Borba, Linda Naglis, Dalva Oliveira, Dolores Duran,
Marlene, Nora Ney, Sílvio Caldas, Grande Otelo, o clarinetista Abel Ferreira, e o
flautista Altamiro Carrilho, com o qual voltou a se apresentar em 1999 no Festival de
Inverno de Domingos Martins (CALIXTE, 2001).
Ainda trabalhando na Rádio Clube do Espírito Santo, Maurício conhece o
cantor Altemar Dutra, que o aguardara nas escadas da rádio para uma audição.
Altemar, vindo da cidade de Aimorés, Minas Gerais, é convidado a mostrar o que
sabia no auditório da rádio para o diretor musical Mundico e Maurício. Na ocasião,
todos na rádio ficaram surpreendidos com a voz daquele rapaz de aparência
humilde deixando ali seus afazeres para observá-lo. Pouco tempo depois, Altemar
desembarca na cidade do Rio de Janeiro levando um bilhete de indicação de
Maurício de Oliveira para o prestigiado compositor e locutor Jair Amorim, autor de
sucessos como: Que queres tu de mim, Brigas, Sentimental demais, Tudo de mim,
O Trovador, Bloco da Solidão e Somos iguais. Daí em diante, Altemar passa a
construir uma carreira de muito sucesso no Brasil (CALIXTE, 2001, p. 63).

2.2 VARSÓVIA, POLÔNIA

Uma passagem bastante importante na vida de Maurício de Oliveira e que


sempre é relembrada por familiares, amigos e músicos de Vitória, se deu pela
ocasião da premiação recebida por Maurício de Oliveira na cidade de Varsóvia,
capital da Polônia, no ano de 1955. Naquela oportunidade, Maurício viajara para
apresentar-se pela primeira vez naquele país representando o Brasil no concurso do
5º Festival Mundial da Juventude concorrendo com jovens músicos do mundo todo.
Quando chamado ao palco do Palácio da Cultura e da Ciência, Maurício apresenta
seu repertório por peças de variados estilos e compositores como Chopin, Bach e
18

sua Canção da Paz, aplaudida calorosamente pela plateia presente (CALIXTE,


2001, p. 56).
Ao final da apresentação com os demais participantes e, depois de muita
espera, os vencedores foram anunciados colocando em segundo lugar o violonista
brasileiro Maurício de Oliveira que, novamente no palco e com o calor da plateia,
recebeu seu prêmio com grande emoção. No dia seguinte, Maurício ainda foi
convidado a mostrar um pouco mais da música brasileira de forma descontraída,
cercado por admiradores na própria calçada do hotel onde se hospedara. Em seu
regresso a Vitória, o violonista é recebido no aeroporto por personalidades políticas
e amigos, além de sua esposa e filhos (CALIXTE, 2001, p. 56-57).

Figura 3 - O deputado Clóvis Stenzel saúda Maurício no aeroporto. Duarte Júnior e Djalma Juarez
Magalhães à esquerda. Fonte: O Pescador de Sons (2001).

2.3 A VIDA PROFISSIONAL DO MÚSICO MAURÍCIO DE OLIVEIRA

Além da vida profissional no comando do Regional da Rádio Clube do Espírito


Santo, Maurício de Oliveira foi um músico bastante atuante nas orquestras de baile
dos Clubes da grande Vitória bem como em diversos outros eventos. Com o passar
do tempo foi tornando-se cada vez mais conhecido e respeitado pelos capixabas
passando a figurar nos principais grupos, como as orquestras comandadas por Hélio
Mendes. Hélio foi um ícone da música popular no Espírito Santo atuando com
19

pioneirismo nas orquestras de baile tanto como pianista, arranjador e organizador


(CALIXTE, 2001, p. 65). Conforme depoimento de Maurício a Calixte (2001, p. 65):

Hélio Mendes fez nos anos 50, 60 e 70 o que não se consegue fazer hoje
[início dos anos 2000]. Ele organizou um trio e, depois, o conjunto, com oito
músicos e cantores, deixou um extraordinário legado de sete discos long-
playings gravados no Rio de Janeiro, além de um compacto duplo. Fazer
isso seria hoje, puro heroísmo – afirma Maurício de Oliveira ao lembrar os
anos durante os quais ele tocou com Hélio Mendes (MAURÍCIO apud
CALIXTE, 2001, p. 65).

Calixte (2001, p. 65) ainda afirma que Maurício e Hélio Mendes “foram os
mais influentes músicos em todo cenário da música popular produzida no Espírito
Santo”.
Integrando o Conjunto Hélio Mendes, Maurício venceu vários prêmios
dedicados à música popular no Brasil, dentre eles, é importante citar, o Prêmio6
Estácio de Sá7, como “conjunto revelação em disco elepê”, que foi entregue no ano
de 1963 no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Nesse mesmo ano surgiam grandes
revelações da música brasileira que foram agraciadas com o mesmo Prêmio como:
Hebe Camargo, Os Cariocas (arranjos vocais), Jorge Ben (cantor revelação) e Elis
Regina (cantora revelação) (CALIXTE, 2001, p. 65).
Conforme Calixte (2001, p. 65), as histórias de Maurício e Hélio Mendes se
convergem em vários momentos, desde o ano de nascimento em 1925 (com
separação de apenas quatro dias), a vida dele dedicada à música, e o grande amor
pelas terras e costumes capixabas. Certamente teriam grande sucesso, caso
tivessem aceitado os diversos convites recebidos para atuarem em centros de
referência musical no Brasil como Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo.
Entretanto, Maurício dizia que:

Os amigos, os admiradores do nosso trabalho, diziam ao Hélio e a mim que


estávamos sacrificando nossas carreiras por causa de um sentimento
regional. Posso afirmar que Hélio nunca se arrependeu de haver se fixado
em Vitória, da mesma forma que eu (MAURÍCIO apud CALIXTE, 2001, p.
65).

Maurício de Oliveira foi sempre um estudioso e, apesar de sua formação


musical autodidata ao violão, buscava sempre arriscar e começar algo novo.
Segundo Calixte (2001, p. 77), no início dos anos de 1970, o nome de Maurício foi

6
Criado pelo jornalista Claribalde Passos, do jornal “Correio da Manhã” (CALIXTE, 2001, p. 65).
7
Fundador da cidade do Rio de Janeiro (CALIXTE, 2001, p. 65).
20

indicado pelo então governador para assumir a coordenação da Orquestra Sinfônica


que seria criada no Espírito Santo. Com este trabalho de sua responsabilidade, o
violonista procurou aperfeiçoar-se fazendo um curso de regência com o renomado
maestro, musicólogo e compositor José Siqueira, na cidade do Rio de Janeiro. Lá,
ele estuda harmonia, contraponto, fuga e regência orquestral recebendo bastantes
elogios de Siqueira junto à Fundação Cultural do Espírito Santo.
Com todo reconhecimento pelo seu talento, conhecimento musical e
importância para a música, principalmente para o estado do Espírito Santo, Maurício
recebeu convites para ministrar aulas de violão nos Estados Unidos, em West
Virginia, e também, na Escola de Música do Espírito Santo - atual Faculdade de
Música do Espírito Santo. Contudo, e pelo fato de não possuir formação acadêmica,
Maurício não poderia atuar como professor de escolas de nível, o que foi mais tarde
superado por meio da obtenção do “Notório Saber”, concedido por intermédio de
personalidades políticas do Estado do Espírito Santo (CALIXTE, 2001, p. 96).
Maurício de Oliveira foi bastante atuante também em estúdios de gravação,
tendo as duas primeiras obras gravadas, o choro Explanada e o baião Ardiloso,
graças ao intermédio do governador do Estado do Espírito Santo, Jones dos Santos
Neves, que garante a ida de Maurício e um regional aos estúdios da gravadora
Continental, na cidade do Rio de Janeiro (SILVA, 1986, p. 33).
Maurício de Oliveira, citado por Osmar Silva (1986, p. 32) diz que:

Por volta de 1950 eu me lembro de que compus uma música que, ao ser
tocado num programa de rádio, atraiu a atenção do então Governador do
Estado, Jones dos Santos Neves. Esse governo, que segundo minha
opinião movimentou realmente a capital e o Estado, estavam fazendo o
aterro da Esplanada da Capixaba. Achei isso muito bom e compus um
choro que se chamou Esplanada.

A obra de Maurício de Oliveira enquanto intérprete e compositor pode ser


apreciada nos dias de hoje através de gravações contidas em sua vasta discografia
que transita entre a música erudita, ou música de concerto, e a música popular.
Alguns desses álbuns merecem destaque, por exemplo, o disco Dilermando Reis8
do ano de 1971, o disco Maurício de Oliveira interpreta Ernesto Nazareth, de 1980, e
o disco Maurício de Oliveira, de 1986 - este último dedicado apenas a obras de
Maurício. Certamente a obra mais representativa e que projetou o nome do

8
Dilermando Reis foi violonista e compositor brasileiro. Nasceu em Guaratinguetá no dia 22 de
setembro de 1916 no Rio de Janeiro e faleceu no dia 2 de janeiro de 1977. (Nota do aluno).
21

violonista capixaba para todo o país foi à gravação, em dois LP’s, da obra completa
para violão de Heitor Villa-Lobos, proeza esta inédita para a época e que tornou-se
possível através de um convite da gravadora Odeon, do selo London (CALIXTE,
2001, p. 95). A gravação desses dois últimos discos lhe rendeu o prêmio “mais
importante de sua vida profissional [...] o título de melhor intérprete de músicas de
Villa-Lobos” (REVISTA CAPIXABA, 1969, p. 50).
Depois de uma vida inteira dedicada à música, diabético e passando por
tratamento contra o Mal de Alzheimer, Maurício de Oliveira não resistiu a problemas
cardíaco e faleceu aos 84 anos de idade no dia 01 de setembro de 2009, às 15h30
minutos na cidade de Vitória/ES (GAZETA ON LINE, 2009).
Nos dias atuais, Maurício é bastante lembrado pela sua importância para a
música capixaba, o que pode ser observada em álbuns de grandes músicos
capixabas como no disco Alma Capixaba, gravado em 2013 pelo pianista e
compositor Pedro Alcântara e que conta com obras como o baião Ardiloso e a
premiada Canção da Paz, “melodia que melhor representa a tradição musical do
Espírito Santo” (NEVES, 2015, p. 115).

3 O CHORO CANÇÃO CONTANDO ESTRELAS

O choro canção Contando Estrelas como objeto de estudo dessa pesquisa


veio em discussão com o orientador deste trabalho após ser apresentado a uma
partitura manuscrita do referido choro. Na ocasião, conversamos acerca dos motivos
que levaram à confecção do manuscrito, que tratava apenas de uma transposição
para clarinete (Bb) da melodia de Contando Estrelas. Entretanto, no manuscrito
consta uma assinatura do próprio compositor, um autógrafo, fato esse que despertou
diversas questões. Desse momento em diante consideramos este chorinho como
objeto principal cuja peça desenvolvemos um Trabalho de Conclusão de Curso.
Relembrando a história que permeia o manuscrito citado no parágrafo
anterior, somos levados direto ao ano de 2002, precisamente quando a então EMES
(Escola de Música do Espírito Santo) disponibilizou bolsas de estudo, com
alimentação e alojamento, em parceria com o IX Festival de Inverno, que aconteceu
na cidade de Domingos Martins/ES em julho do mesmo ano. Nesse ocasião,
22

Maurício de Oliveira, compositor do choro Contando Estrelas, participara como


professor voluntário da Oficina de Choro. A partir daquele momento, surge um
grande interesse por parte do autor desta pesquisa em participar das aulas junto aos
demais alunos praticantes de choro.
Com os objetivos e os repertórios planejados, ensaiamos um regional
formado por alunos e professores músicos da EMES, dentre eles, o professor de
cavaquinho Raimundo Machado9. A grande preocupação naquele momento era
conseguir tocar o choro de Maurício com alguma desenvoltura e destreza. O
cavaquinho, o violão e a clarineta soaram nos corredores da atual FAMES durante
várias semanas de ensaio.
Durante as aulas da Oficina de Choro, ministradas por Maurício, foi possível
uma maior proximidade com o compositor, onde foi possível conhecer a forma de
ensinar e aprender bastante sobre interpretação de choro com o Mestre Maurício,
principalmente quando tocava os choros que mais gostava. Em meio aos outros
instrumentos presentes na Oficina de Choro, tocamos o Contando Estrelas e resolvi
apresentá-lo a partitura manuscrita da transposição para clarineta (Bb), elaborada
por minha pessoa, ao compositor, a qual foi prontamente rubricada com grande
entusiasmo pelo próprio Maurício de Oliveira.
Dando continuidade às atividades da oficina do IX Festival de Inverno de
Domingos Martins, ao final de todos os dias de aprendizado, o grupo referente à
Oficina de Choro, ministrado e acompanhado pelo Mestre Maurício de Oliveira pôde
apresentar-se no coreto da praça de Domingos Martins - ES.

3.1 A HISTÓRIA DA COMPOSIÇÃO DE CONTANDO ESTRELAS

Para desvelarmos com um pouco mais de propriedade, grande parte da


história que cerca a composição do choro Contando Estrelas se fez necessário a
busca por pessoas com grande proximidade pessoal e artística com o compositor
Maurício de Oliveira. Daí a importante participação do violonista Tião de Oliveira,

9
Raimundo Machado nascido em Minas Gerais em 1961, ele vive no Espírito Santo desde os 10
anos de idade. Formado em economia, mas apaixonado pela música, já se apresentou ao lado de
importantes músicos como: Henrique Cazes, Raphael Rabello, Paulo Sérgio Santos, Joel
Nascimento, Altamiro Carrilho, Yamandú Costa, entre outros (SANTOS, 2014, p. 20).
23

único dos quatro filhos de Maurício (três deles chegaram a aprender música com o
pai) que tomou a música como profissão e seguiu a carreira do pai músico.

3.1.1 O FILHO TIÃO DE OLIVEIRA

Tião de Oliveira conta que pretendia mesmo era seguir a carreira de jogador
de futebol, até o momento em que se viu envolvido na nova atividade assim como se
identificou com a arte e os dogmas do pai Maurício. Tião conta que começou a
estudar música aos doze anos de idade sob orientação do pai e se arrepende por
começar a estudar música tão tarde:

Comecei na realidade com 12 anos quando tive chances de começar aos


sete ou oito anos de idade (...) eu mesmo quem perdi tempo. Foi quando ele
(Maurício de Oliveira) me ensinou a primeira música que jamais a gente
esquece (...). Era um samba de Noel Rosa (OLIVEIRA, 2017).

Com o passar dos anos até o momento, chega o amadurecimento musical e,


dos quatorze para os quinze anos, Tião de Oliveira se envolve com a música de seu
pai educador e começa a tocar em grupos musicais.

Eu passei a tocar ao lado dele [Maurício] mais tarde. [...]. Comecei a tocar
em alguns grupos musicais de dança de Matinê porque eu era muito garoto
e não podia ficar até tarde da noite [...]. Então eu comecei a tocar com
esses grupos até mais tarde, pegando um pouquinho de “manha”, de
cancha, para depois ele [Maurício] mesmo me convidar para tocar
(OLIVEIRA, 2017).

Tião chegou a mudar-se para a cidade do Rio de Janeiro a fim de estudar


música. Entretanto, as atividades profissionais noturnas como músico não foram
compatíveis com as aulas que aconteciam pelas manhãs, com isso, acabou
desistindo do sonho de estudar música e resolve voltar à cidade natal, Vitória/ES,
onde continuou atuando profissionalmente como músico (OLIVEIRA, 2017).

3.1.2 O ENCONTRO COM WALDIR AZEVEDO


24

Como conta Tião de Oliveira, o pai Maurício era um admirador do trabalho do


nacionalmente conhecido Waldir Azevedo10. Certa vez, em uma apresentação de
Waldir Azevedo na cidade de Vitória, mais precisamente no Teatro Carlos Gomes, o
violonista Maurício de Oliveira, como fã de Waldir, se fez presente na plateia quando
foi surpreendido com o convite do próprio Waldir para buscar um instrumento na
coxia e subir ao palco a fim de tocarem músicas juntos (OLIVEIRA, 2017). Maurício
conhecia todo o repertório do principal solista da noite e aceitou prontamente o
convite, pois "gostava tanto de Waldir Azevedo que (...) só não tocaria com Waldir
se ele tivesse feito uma composição recente" (OLIVEIRA, 2017).
A essa altura da vida profissional, Maurício era conhecido no meio musical
também fora do estado do Espírito Santo, nos estados visinhos, principalmente em
capitais como, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo (OLIVEIRA, 2017). Em
seguida, após tocarem juntos várias músicas do repertório de Waldir, entre elas, o
mundialmente famoso Brasileirinho (com direito a uma execução em duas vozes)
eles saíram abraçados rumo à coxia do Teatro Carlos Gomes (OLIVEIRA, 2017).
Já na coxia, Maurício sacou novamente o violão e resolveu mostrar a Waldir
uma de suas composições. Ao ouvir aquela melodia, Waldir Azevedo percebeu
alguma semelhança com uma de suas composições e disse: "Maurício, olha! Eu
acho que isso lembra o caminho que segue Pedacinhos do céu” (OLIVEIRA, 2017).
Em seguida, Maurício revelou que a peça tocada chamava-se Contando Estrelas, e
que tinha sido composta por ele em resposta ao choro Pedacinhos do Céu, de
Waldir Azevedo (OLIVEIRA, 2017). Esta afirmação confirma a sensação de Waldir e
está registrada, com palavras do próprio Maurício Oliveira, na página 97 do
Songbook com as suas obras.

10
O mestre Waldir Azevedo (1923 - 1980) foi um músico e compositor carioca com presença
internacional, foi uma personalidade que expandiu o gênero choro além de transformar o cavaquinho
num instrumento solista de roda de choro. Ele divulgou o cavaquinho em rodas de choro
principalmente tocando peças de sua autoria. (Nota do autor)
25

Figura 4 - Dizeres da página 97 do Songbook com a obra de Maurício de Oliveira.

Tião de Oliveira conta que Waldir gostou tanto da música de Maurício que
pediu a partitura de Contando Estrelas e disse que gostaria de gravá-la em seu
próximo disco. Infelizmente, ao regressar para casa (em Brasília), Waldir acabou
falecendo e não pôde realizar o sonho de Maurício em ver seu choro gravado pelo
seu maior ídolo no choro, Waldir Azevedo (OLIVEIRA, 2017).

3.2 COMPARAÇÃO ENTRE CONTANDO ESTRELAS E PEDACINHOS DO CÉU

Considerando a história que originou a composição do choro canção


Contando Estrelas, reforçada pelo registro deixado pelo seu compositor, Maurício de
Oliveira, e confirmada pelo testemunho do seu filho, Tião de Oliveira, o choro
Pedacinhos do Céu, de autoria de Waldir Azevedo, serviu de inspiração para que
Maurício compusesse o seu choro. A fim de observarmos de forma prática alguns
pontos semelhantes entre os choros acima citados a partir das partituras das duas
obras, reservamos os parágrafos seguintes para pequenas comparações do ponto
de vista das formas e das construções rítmico-melódicas.
Inialmente, optamos por compararmos as formas de construção entre os
choros estudados e, já nesse primeiro momento, podemos perceber que ambos,
Pedacinhos do Céu e Contando Estrelas, partem da forma “ABA”, ou, forma ternária.
Procedendo com a contagem do número de compassos em cada uma de suas
partes, constatamos que o choro Contando Estrelas é dotado de duas partes, “A” e
“B”, com 32 compassos cada e que somam 64 compassos. Ao final da edição
adotada para esse estudo são adicionados mais três compassos de coda final.
Ainda relacionado a essa edição de Contando Estrelas, é importante salientar que
26

não cosideraremos a contagem de compassos nela explicitada, e sim


consideraremos como primeiro compasso o compasso subsequente à anacruse
inicial.
Enquanto isso, o choro Pedacinhos do Céu possui duas partes, “A” e “B”,
também com 32 compassos cada uma, somando os meus 64 compassos.
Entretanto, diferentemente do choro Contando Estrelas, Pedacinhos do Céu não
possui compassos de coda final na edição por nós utilizada. Sua contagem de
compassos também começará a partir do compasso subsequente à anacruse inicial.
Seguindo as obsvações aos dois choros procuramos semelhanças quanto às
tonalidades escolhidas por seus respectivos compositores, tanto para a tonalidade
principal, referente a parte “A”, quanto para a parte “B” onde, geralmente os choros
procedem com uma modulação para um tom vizinho. Quanto a esse aspecto
pudemos constatar outra semelhança entre o choro Pedacinhos do Céu e Contando
Estrelas. Ambos os choros começam com a tonalidade de Sol maior, representada
pelo sutenido colocado na armadura de clave e que podemos conferir nas figuras
abaixo.

Figura 5 - Armadura de um sustenido, Contando Estrelas.

Figura 6 - Armadura de um sustenido, Pedacinhos do céu.

A tonalidade de Sol Maior é confirmada pela cadência perfeita encontrada no


choro Pedacinhos do Céu nos compassos 30 e 31, representada pelos acordes D7 e
G, enquanto que no choro Contando Estrelas observamos a cadência perfeita
também nos compassos 30 e 31, represetada pelos também pelos acordes D7 e G.
A segunda parte (“B”) dos referidos choros está na tonalidade de Mi Menor,
tonalidade que representa o tom relativo menor do tom de Sol Maior, portanto, com a
mesma armadura de clave. Essa nova tonalidade é confirmada, em Pedacinhos do
Céu, pela cadência perfeita, representada pelos acordes B7 e Em é encontrada nos
27

compassos 62 e 63, enquanto que no choro Contando Estrelas a cadência perfeita,


identificada através dos acordes B7 e Em, pode ser vista nos compassos 61, 62 e
63.
Como próximo momento, passamos para a análise da contrução melódica e
nota-se logo ao iniciar do tema Contando Estrelas, um salto de oitava ascendente,
entre as notas ré 3 e ré 4, enquanto que na partitura do choro Pedacinhos do Céu,
existe um salto de sexta ascendente, entre as notas ré 3 e si 4. Ambos os choros
são iniciados em anacruse de uma nota de parte fraca de tempo para o primeiro
tempo do compasso seguinte. Apesar de em Contando Estrelas a edição constar de
uma uma semicolcheia como anacruse e em Pedacinhos do Céu observarmos uma
colcheia, isso não representa diferença significativa do ponto de vista auditivo.

Figura 7 - Salto de oitava, Contando Estrelas.

Figura 8 - Salto de sexta, Pedacinhos do céu.

Ao observamos a contrução rítmica dos compassos que se seguem,


constatamos o uso das síncopes como recurso escolhido tanto por Waldir
Azevedo quanto por Maurício de Oliveira em seus respectivos choros. Como
podemos visualizar nos exemplos a seguir, tal construção rítmica, aliada aos demais
aspectos até aqui mencionados, provocam em quem escuta o choro Contando
Estrelas a sensação de estar ouvindo uma espécie de variação da melodia inicial do
choro Pedacinhos do Céu.

Figura 9 - Sincopes, Contando Estrelas.


28

Figura 10 - Sincopes, Pedacinhos do céu.

As partes “B”, tanto de Pedacinhos do Céu quanto de Contando Estrelas,


conforme já clarificado anteriormente no decorrer do presente tópico, encontram-se
na tonalidade de Mi Menor, relativa menor de Sol Maior, tonalidade principal de
ambos os choros. Apesar disso, a construção melódica dessa parte nos dois choros
não guarda grandes semelhanças motívicas entre si, deixando as similaridades
restritas às conduções harmônicas que os levam de volta à parte “A” para, em
seguida, partirem para seus respectivos finais.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

No decorrer do presente texto, pudemos conhecer um pouco mais da história


e da importância do papel exercido por Maurício de Oliveira no cenário da música no
estado do Espírito Santo. Discutimos sua vida e destacamos os principais momentos
artísticos, como a premiação recebida em Varsóvia, a gravação da obra de Villa-
Lobos para violão e seu contato com Waldir Azevedo. Apurou-se que, dada a
importância de Maurício para a música capixaba, faz-se necessários que esse
personagem seja alvo de estudos e registros documentais formais, principalmente
no âmbito acadêmico.
Dissolvendo-se título a título, num binômio Maurício de Oliveira e Contando
Estrelas, após desvelarmos quem foi Maurício de Oliveira, numa síntese histórica
reforçada por seu filho músico, violonista, compositor e arranjador, Tião de Oliveira,
partimos convergimos nossos olhares para o Contando Estrelas.
Nesse ponto da pesquisa buscamos esclarecer com fatos verdadeiros e
corroborados pelo seu filho Tião, o significado das palavras gravadas na página 97
do SongBook com os choros compostos por Maurício, onde está o choro Contando
Estrelas, e que diz: resposta ao choro Pedacinhos do Céu, de Waldir Azevedo.
Conseguimos esclarecer que Maurício realmente buscou compor o seu choro
inspirado no choro de Waldir e que, na ocasião do encontro entre os dois
29

compositores, o próprio Waldir notou a semelhança e teceu comentários a esse


respeito.
Por fim, elaboramos uma comparação simples, do ponto de vista da
construção composicional de ambos os choros, onde pudemos notar diversos
aspectos semelhantes além da sensação auditiva descrita por Waldir Azevedo e
facilmente notada por outras pessoas que tenham a oportunidade de ouví-los.
Além da forma “ABA”, que também é comum a diversos outros choros,
destacamos as tonalidades escolhidas por ambos os compositores, a citar, Sol Maior
na parte “A” e Mi Menor na parte “B”. Seus caminhos harmônicos também são
semelhantes, potencializando a sensação de proximidade entre as peças estudadas.
Em seguida, observando aspectos melódicos, foi possível reconhecer o salto
inicial das melodias, uma oitava ascendente, que compreende as notas ré 3 e ré 4
(Contando Estrelas), e um salto de sexta ascendente, entre as notas ré 3 e si
(Pedacinhos do Céu). Nos dois casos, isso acontece em forma de anacruses que
são precedidas por uma pequena nota de chegada que logo é abandonada para a
construção de melodias baseadas ritmicamente em síncopas.
As constatações históricas, bem como as semellhanças do ponto de vista
composicional, aliadas a um andamento próximo, faz das duas canções, o que
poderíamos chamar de canções “irmãs”, uma vez que partilham de caracteristicas
similares, causando-nos uma sensação de continuidade entre as duas músicas.
Portanto, com a realização dessa pesquisa, buscamos contribuir para a
divulgação e preservação da memória e da obra, em especial do choro Contando
Estrelas, de um dos mais importantes e influentes músicos capixabas, elucidando e
apontando fatos importantes, até então, desconhecidos por grande parte do público
capixaba e, consequentemente, para o restante do país. Como propostas para
pesquisas futuras, esperamos uma maior conscientização e valorização dos
músicos, pesquisadores e compositores do estado do Espírito Santo para com a
música produzida nesse Estado, a fim de descobrir, apresentar e preservar a
memória musical do povo capixaba.
30

5 REFERÊNCIAS

BENNET, Roy. Forma e Estrutura na Música. Tradutor Luiz Carlos Cseko. 2. Ed.
Rio de Janeiro: Zahar, 2010. 80 p., il.
CALIXTE, M. Maurício de Oliveira: o pescador de sons. Vitória: Cidade Alta, 2001.
14 p., il.
DINIZ, André. Almanaque do Choro: a história do chorinho, o que ouvir, o que ler,
onde curtir. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. 24 p., il.
FIUSA, V. S. Harmonia Vocal: 1º ano. 1980. 34 p., il.
GAZETA ON LINE. Luto no Espírito Santo: morre Maurício de Oliveira. Vitória,
2009. Disponível em: <http://gazetaonline.globo.com/_conteudo/2009/09/124854-
luto+no+espirito+santo+morre+mauricio+de+oliveira.html>. Acesso em: 03 ago
2018.
MED, Bohumil. Teoria da Música. 4. Ed. Brasília: Musimed, 1996. 420 p., il.
OLIVEIRA, M. Songbook Maurício de Oliveira: Clássico e popular. Revisão Tião
de Oliveira e Evandro Marendaz. Vitória, Gráfica e Editora GSA, 2015. 222 p., il.
PAIVA, M. Gramática em Exercícios. Brasília: Alumnus, 2012. 24 p., il.
PINTO, A. G. O Choro. Rio de Janeiro: Funarte, 2009. 212 p., il.
RAUTA, M. Reminiscências do Choros nº 10 de Heitor Villa-Lobos na
Sinfonietta nº 4 de Marcelo Rauta: um estudo comparativo. Vitória: Fames, 2012.
75 p., il.
REVISTA CAPIXABA. Vitória: Artenova, ano 3, n. 27, maio 1969. Ver. mensal. 67 p.
SANTOS, E. G. A Vida e a Obra do Maestro Antônio Paulo: edição, revisão e
análise de gravações da valsa Clarinete Vaiando e do choro Bigode na Farra.
Vitória: FAMES, 2014. 10 p., il.
SILVA, O. Música Popular Capixaba, 1900 – 1980. Vitória: Dec-Sedu, 1986. 64 p.
SILVA, S. G. Manual de Normas para Produção de Trabalhos Acadêmicos na
Graduação e Pós-Graduação. Rio de Janeiro: SENAI, 2005. 50 p., il.
TERSARIOL, A. Língua e comunicação. São Paulo: Li-bra, 1979. 299 p., il.
31

ANEXOS
32

ANEXO A – Manuscrito Contando Estrelas


33

ANEXO B – Contando Estrelas (partitura do Songbook)


34
35

ANEXO C – Pedacinhos do Céu