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246 [PA R T E 3] A DOUTRINA DE DEUS

Estudo apologético
Nosso estudo sistemático mostrou o significado da paternidade de Deus, que distingue
a pessoa do Pai das pessoas do Filho e do Espírito Santo. Não é de admirar, portanto, que
a negação ou deturpação da paternidade do Pai faça parte da agenda das seitas e de outras
heresias. A razão não é difícil de entender, pois qualquer ataque contra a pessoa do Filho é
também um ataque contra o Pai. As seitas e as religiões não-cristãs atacam a divindade de
Cristo, e isso necessariamente implica atacar também a paternidade de Deus.

A s religiões e seitas
As religiões que entendem Deus como uma mônada negam ou que Deus seja Pai, ou
que Deus Pai seja uma pessoa eterna. As testemunhas de Jeová, e outros que defendem o
arianismo, afirmam que houve um tempo quando Deus não era Pai. Ele se tomou Pai quando
criou o Filho. Deve-se notar que essa é uma dupla negação. Além de negar que o Pai seja
Deus junto com o Filho desde a eternidade, também nega que Deus seja Pai, no sentido de ter
um Filho que compartilhe sua natureza divina. Então, Deus Pai não seria Pai, no sentido de
qualquer outro pai, uma vez que não tem o Filho compartilhando da mesma natureza divina.
Ele é Pai apenas em um sentido metafórico.
Uma observação interessante é que as testemunhas de Jeová fazem questão de chamar
Deus por seu nome, “Jeová”.67 Qualquer outro vocativo seria somente um título impessoal,
indigno de Deus. Embora não exista uma afirmação de que Deus não deva ser chamado de
Pai, a literatura das testemunhas de Jeová deixa a impressão de que isto seja, no mínimo,
algo incomum. De qualquer forma, a negação da paternidade eterna de Deus é consistente
com a negação da Trindade, e também com o legalismo e a postura autoritária que a Torre de
Vigia impõe aos adeptos desta seita. O resultado prático é a falta de qualquer noção de um
relacionamento pessoal e íntimo com Deus.
Para o islamismo, Deus, não sendo Pai de Jesus, também não entra em relações paternais
com as pessoas. Portanto, o relacionamento entre o homem e Deus é formal e legalista ou,
às vezes, marcado por misticismo. De fato, dificilmente esse relacionamento pode ser visto
como um relacionamento entre duas pessoas, uma com a outra, no sentido que a Bíblia ensina.
Alá exige obediência absoluta, mas, mesmo assim, reserva-se o direito de dispor do homem
como bem quiser. Ele pode ser misericordioso e bom, e é sempre justo, segundo o islamismo.
Entretanto, o que se destaca é o atributo de absoluto poder. A Surate 5.17-18 diz:

São blasfemos aqueles que dizem: Deus é o Messias, filho de Maria. Dize-lhes: Quem
possuiria o mínimo poder para impedir que Deus, assim querendo, aniquilasse o Messias,
filho de Maria, sua mãe e todos os que estão na terra? Só a Deus pertence o reino dos céus
e da terra, e tudo quanto há entre ambos. Ele cria o que Lhe apraz, porque é Onipotente.
Os judeus e os cristãos dizem: Somos os filhos de Deus e os Seus prediletos. Dize-lhes:
Por que, então, Ele vos castiga por vossos pecados? Qual! Sois tão-somente seres humanos
como os outros! Ele perdoa a quem Lhe apraz e castiga quem quer. Só a Deus pertence o
reino dos céus e da terra e tudo quanto há entre ambos, e para Ele será o retomo.

Assim, a negação da relação filial entre Deus e o ser humano é decorrente da rejeição total
de qualquer relacionamento filial entre Deus e Jesus. Deus não é Pai, em nenhum sentido. A

67Cf. Cesário Lange, Poderá viver p ara sempre no paraíso na terra, p. 41.
Surate 5.72 ensina que quem crê em Jesus como Filho de Deus será condenado ao inferno.
Por outro lado, o Deus da Bíblia, o Pai de Jesus Cristo, manifesta supremamente o atributo de
amor. Isto se conforma perfeitamente com a sua paternidade.
Deve-se entender, além de tudo, que a redução de Deus a uma espécie de mônada implica,
logicamente, a negação da sua pessoalidade. Ser pessoa significa estar em um relacionamento
com outras pessoas — ou ser incompleto. Uma divindade que não revele paternidade, como
Alá ou mesmo como o Jeová das Testemunhas de Jeová, existia em solidão antes da criação
das demais pessoas. Ora, se ele precisasse de outras pessoas para se completar, seria menos do
que divino, pois seria dependente de sua criação. Por outro lado, se não precisasse da criação,
então, ele não seria pessoal.
Esta mesma visão poderia explicar, também, a distância entre os adeptos das religiões
afro-brasileiras e o seu deus supremo, Olorum. Os orixás funcionam na lacuna deixada na vida
espiritual pela ausência de qualquer Deus Pai que seja pessoal. No candomblé e na umbanda,
os adeptos não são filhos de Deus, mas sim “cavalos” dos orixás, que os controlam durante
ritos de possessão. Os adeptos não experimentam a paternidade de Deus, tampouco o seu
amor. Olorum é indiferente à situação e à vida das pessoas. Ele é intocável, permanecendo
completamente afastado do cotidiano das criaturas. Ele não pode ter um Filho divino, muito
menos filhos humanos.
Falta a todas essas religiões a riqueza da experiência espiritual que é o cerne da fé cristã,
o conhecimento pessoal e profundo de Deus como pessoa. Ser crente em Jesus Cristo quer
dizer mergulhar no carinho e amor de nosso Pai e de seu Filho. É ser conhecido de modo
transparente, por um Pai que nos ama e que ofereceu tudo para que essa relação seja possível.
É conhecer este Pai cada vez mais. Crer na paternidade do Pai é a única maneira de afirmar:
“Deus me ama — isto eu sei”. É por causa da sua natureza paternal, que flui do mistério da
santa Trindade, que nós nos encontramos circundados pelo amor intenso de nosso Pai.
O oposto da redução de Deus a uma mônada é a divisão do Deus único em muitos deuses,
como no sistema politeísta dos mórmons. O antropomorfismo extremo dos mórmons faz uma
separação ontológica entre o Pai e o Filho, o que faz com que a paternidade do Pai em relação
a Jesus não seja diferente da paternidade dele quanto aos demais seres humanos. De fato,
mesmo Lúcifer, que é agora Satanás, é igualmente filho do Pai, segundo essa doutrina. Além
disso, a paternidade de Deus se torna uma forma de blasfêmia contra o Pai, ao dizer que ele
teve relações sexuais com Maria, a mãe de Jesus. É claro que essas idéias, e também a noção
de uma mãe celestial, não têm respaldo, nem nas Escrituras e nem na lógica. O pai de carne e
osso, que é a divindade mórmon, é um ser finito. Para que ele gerasse os bilhões de pessoas que
fazem parte da raça humana, relacionando-se com muitas esposas, implicaria uma doutrina
absurda e grosseira de relações sexuais quase que ininterruptas. E esta é uma noção indigna
do Deus eterno, que faz com que ele seja escravo das paixões humanas. O cristão consciente
rejeita este ensinamento repulsivo, não só por ser contrário às Escrituras, mas por ser também
ilógico e blasfemo.

0 liberalism o teológico
Ao contrário do que afirma o ensino clássico do liberalismo, a paternidade de Deus não
revela a unidade fraternal de todas as pessoas e nem apóia uma soteriologia inclusivista.
Aprendemos no estudo bíblico que nem todas as pessoas são filhos de Deus. Jesus disse que o
diabo tem os seus filhos também (Jo 8.44). Estes são todas as pessoas que não crêem no Filho.
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Na verdade, podemos dizer que aquele que não reconhece o Filho não acredita no Pai, ainda
que diga que creia. Os liberais afirmam a paternidade de Deus, mais tipicamente reduzem o
Filho a apenas um homem mortal, um mero professor de moral. A ironia é que a única porta
através da qual eles poderiam se tomar filhos seria crendo no unigénito, que eles negam.
Esta é a postura que as pessoas assumem diante deste Filho que lhes revela quem é seu pai
verdadeiro. A paternidade de Deus é uma realidade exclusivamente reservada para os eleitos
de Deus: todos os que crêem em Jesus Cristo como Salvador e Senhor.
Como vimos anteriormente, as feministas liberais acreditam que as imagens masculinas de
Deus são opressivas. Portanto, teólogas como Rosemary Radford Ruether propõem a substi
tuição do Deus Pai da Bíblia por uma deusa, muitas vezes segundo o modelo das religiões
pagãs da Antigüidade.

Deus/a é a Matriz primitiva, o fundamento do ser do novo-ser, que nem é imanência


sufocante nem transcendência sem alicerce. Espírito e matéria não são dicotomizados,
mas são o lado interno e externo da mesma coisa.68

Segundo Reuther, Fiorenza e outras, imagens masculinas, como a de Deus Pai, devem ser
abandonadas, para que se ponha um fim aos valores patriarcais. De fato, essa teologia exige
uma nova imagem de Deus, que, no final, dificilmente poderia ser reconhecida como o Deus
confessado pela fé evangélica e ortodoxa.
Ao responder às feministas, notamos que tanto o Antigo Testamento quanto o Novo
Testamento usam o gênero masculino quando se referem a Deus. Uma das analogias usadas é a
analogia paterna.69 Isto seria um indício de que Deus é do gênero masculino? Alister McGrath
escreve:

Falar em Deus como pai é dizer que o papel do pai no antigo Israel permite compreendermos
melhor a natureza de Deus. Isso não significa dizer que Deus seja do gênero masculino.
Nem a sexualidade masculina, nem a sexualidade feminina devem ser atribuídas a Deus.
Pois a sexualidade é um atributo que pertence à ordem da criação, sendo inadmissível
aceitar uma correspondência direta entre esse tipo de polaridade (homem/mulher),
conforme se observa na criação, e o Deus criador.
Na verdade, o Antigo Testamento evita atribuir funções sexuais a Deus, devido à
ocorrência de fortes traços pagãos nesses tipos de associações. Os cultos à fertilidade dos
cananeus davam ênfase às funções sexuais tanto dos deuses quanto das deusas; portanto,
o Antigo Testamento recusa-se a endossar a idéia de que o gênero ou a sexualidade de
Deus seja uma questão importante.

Assim, para McGrath, qualquer tentativa de atribuir sexualidade a Deus representa uma
volta ao paganismo. Ele contínua: “Não há a menor necessidade de trazer de volta as idéias
pagãs dos deuses e deusas para resgatar a noção de que Deus não é nem masculino nem
feminino; essas idéias já estão potencialmente presentes, se não forem negligenciadas, na
teologia cristã”.70

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mSexism and God Talk, p. 61.


®Cf. o capítulo 2, onde analisamos a natureza analógica da linguagem teológica.
70Teologia sistemática, histórica e filosófica, p. 315-316. Vale a pena ler toda a argumentação de McGrath nesta
obra, com especial atenção para a citação final da mística medieval Juliana de Norwich.
Na verdade, existem imagens maternais de Deus na Escritura. Deus é revelado como uma
mãe-pássaro (Rt 2.12; SI 17.8; Mt. 23.37), uma mãe-ursa que luta para proteger seus ursinhos
(Os 13.8) e como uma mãe que consola seus filhos (Is 66.13). A presença de imagens paternais
e maternais é evidência que apóia a conclusão de McGrath. Deus transcende as categorias do
gênero humano. Não obstante, em lugar nenhum a Bíblia chama Deus de “mãe”. Portanto
o título “mãe” não deve ser próprio para se falar da pessoa de Deus. Podemos reconhecer a
plenitude da riqueza das imagens bíblicas de Deus, sem ir além da linguagem que a própria
Bíblia emprega ao descrevê-lo.
Nosso resumo dos problemas das seitas e religiões mostra como a doutrina da paternidade
é um elemento central na teologia cristã. Ela determina a natureza de nossa experiência de
Deus. Sem ela, as demais doutrinas essenciais para nossa salvação não podem ser mantidas. A
defesa desta doutrina é a afirmação da realidade da nossa experiência de intimidade com Deus.
Assim, crescer cada vez mais no conhecimento pessoal de nosso Deus é a melhor maneira de
refutar as doutrinas falsas. Como crentes em Jesus Cristo nos é revelado um Deus que é Pai,
que nos ama. Não devemos nos contentar com nada menos do que isto.

Aplicação prática
O Deus que se revela nas Escrituras, e que é adorado pelos cristãos, diferentemente de
outras divindades pagãs, é pessoal, amoroso e poderoso. Em suma, o Deus que se revela nas
Escrituras é o Pai de seu eterno Filho Jesus Cristo, e o pai adotivo dos cristãos. Só podemos ter
Deus como Pai se recebermos a Jesus como seu Filho. Com isto, precisamos perguntar: como
somos afetados por esta doutrina?71
Em primeiro lugar, reconhecendo que a doutrina da paternidade de Deus é a base da
conduta cristã (cf. Mt 5.16; 6.4, 6, 18). Como diz Hammett, “devemos glorificar o Pai através
do amor incondicional e até da perfeição (Mt 5.44-48), e agradar o Pai, fazendo nossas ofertas
e orações e jejuns somente para ele (Mt 6.4, 6, 18). Se vivermos somente para glorificar e
imitar e agradar ao nosso Pai, nossa conduta se torna exemplar”.72
Em segundo lugar, reconhecendo que a doutrina da paternidade de Deus é a base da oração
cristã. Então, ao nos aproximarmos de Deus, devemos lembrar quem ele é. Quando oramos,
estamos falando com o nosso Pai. Duas questões decorrem desse fato:

Primeira, a oração não deve ser mecânica nem impessoal, como se fosse uma técnica para
pressionar alguém que de outro modo não lhe dará atenção... (...) Segunda, a oração deve
ser livre e ousada. Não devemos hesitar em imitar o sublime “descaramento” da criança,
que não tem medo de pedir qualquer coisa a seus pais porque sabe que pode contar
completamente com o amor deles. Nosso Pai no céu, na verdade, nem sempre responde às
orações de seus filhos nos moldes em que são oferecidas. Às vezes pedimos coisas erradas!
É prerrogativa divina dar o que é bom, coisas das quais temos necessidade. Se, em nossa
ignorância, pedimos o que não tem essa prioridade, Deus, como qualquer bom pai, reserva-
se o direito de dizer: “Não, isso não! Não seria bom para você; receba isto que é melhor!”
(...) Não raro, ele nos dá o que deveríamos ter pedido em lugar do que pedimos de fato.73

71Seguimos aqui as percepções presentes em J. I. Packer, O conhecimento de Deus, p. 250-277.


72John S. Hammett, Apostila p ara os alunos de teologia sistemática, p. 49.
73J. I. Packer, O conhecimento de Deus, p. 255-256.
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Quando isto acontece, nossas prioridades na oração serão radicalmente afetadas. Os


interesses de Deus serão prioridade, seguidos de nossas necessidades em segundo plano.
Devemos lembrar que:

A oração é uma conversa entre pessoas, não vãs repetições (Mt 6.7). A oração é uma
questão de confiança. Não precisamos tentar forçar Deus a nos abençoar, porque Ele sabe
das nossas necessidades e vai prover tudo que precisamos (Mt 6.8). Às vezes, ele não vai
responder os nossos pedidos, porque às vezes pedimos coisas que não são boas, e Ele é
um bom pai, que dá somente boas coisas para seus filhos (Mt 7.7-11).74

Em terceiro lugar, reconhecendo que a doutrina da paternidade de Deus é a base da


confiança de que Deus irá prover as necessidades materiais quando se busca o seu reino e sua
justiça. Somos exortados a confiar em Deus, porque ele é nosso Pai. Se Deus cuida das aves do
céu e dos lírios do campo, com muito mais cuidado Deus cuidará de seus filhos (Mt 6.25-34).
E, por fim, reconhecendo que a doutrina da paternidade de Deus mostra a grandeza de seu
amor (lJo 3.1-2) por seu povo. Somos não apenas perdoados, mas adotados na família de Deus,
como resultado da maravilhosa graça de Deus. E o próprio Espírito de Deus nos dá testemunho
interior de que somos filhos adotivos de Deus (Rm 8.16). Somos lembrados de que o céu é
nossa herança, onde desfrutaremos de uma reunião familiar (Rm 8.17-18), e também somos
motivados a responder a Deus com gratidão e alegria com uma vida de santidade (Ef 1.3-4).

Bibliografia para aprofundamento


João. As instituías ou Tratado da religião cristã. Ed. latina de 1559, 4 volumes. São
C a lv in o ,
Paulo, Cultura Cristã, 2006. 1.13.
Hermisten Maia Pereira da. Eu creio no Pai, no Filho e no Espírito Santo. São Paulo,
C o sta ,
Parakletos, 2002.
C o sta , Hermisten Maia Pereira da. O Pai nosso. São Paulo, Cultura Cristã, 2001.
H o rto n , Michael. A face de Deus. São Paulo, Cultura Cristã, 1999.
M achen, J. Gresham. Cristianismo e liberalismo. São Paulo, Os Puritanos, 2001.
M c G r a th ,Alister. Teologia sistemática, histórica e filosófica; uma introdução à teologia
cristã. São Paulo, Shedd Publicações, 2005. p. 303-306, 315-317.
P acker, J. I. O conhecimento de Deus. São Paulo, Mundo Cristão, 2005. p. 241-277.
R. C. Verdades essenciais da f é cristã; doutrinas básicas em linguagem simples e
S p r o u l,
prática, v. 1. São Paulo, Cultura Cristã, 1999. p. 35-38.

74John S. Hammett, Apostila p a ra os alunos de teologia sistemática, p. 49.

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