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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO

Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT);


Instituto de Ciências Humanas e Sociais (ICHS)
Departamento de Filosofia
Curso de Filosofia - Bacharelado – 8.o Semestre
Disciplina: Tópicos Especiais em Filosofia da Mente
Docente: Beatriz Sorrentino Marques
Discente: Fábio Lázaro Oliveira Queiroz

Com base na discussão da última aula (05/02/2019) e no texto abordado,


responda as questões abaixo:

1. Explique qual o problema da akrasia segundo Davidson?


O agir acrático consiste em: (a) ter um juízo acerca da melhor forma de
agir, (b) poder agir conforme esse juízo e (c) não agir segundo esse juízo. A partir
dessa definição, podemos dar o seguinte exemplo. Alguém sabe que precisa
fazer exercícios senão terá problemas de saúde futuramente, no entanto, ainda
sabendo disso e sendo uma pessoa saudável (por enquanto!), essa pessoa não
pratica exercícios regularmente.
Para Davidson, o problema com essas ações denominadas “acráticas”
está justamente em explicar a possibilidade de agirmos contrariamente aos
nossos melhores juízos. O problema com explicar essa possibilidade é que,
sendo nós, seres humanos, seres racionais (em contrapartida a muitos animais),
deveríamos, em tese, agir segundo nosso melhor juízo, senão não teríamos
muita utilidade para essa nossa faculdade racional.
A solução de Davidson repousa em uma distinção no tipo de juízo que
baseia a ação acrática. Assim, há um tipo de juízo que leva em conta tudo que
seja relevante para a ação em questão; e há um tipo de juízo que leva em conta
apenas parcialmente o que seja relevante para a ação em questão. O primeiro
juízo é denominado “incondicional”; o segundo, “parcial”. Na teoria proposta por
Davidson, o agente que age acraticamente agiria em conformidade apenas com
o seu juízo parcial. Dessa forma, Davidson pode afirmar que o agente que age
acraticamente não age irracionalmente, uma vez que os dois tipos distintos de
juízo não estariam em contradição um com o outro, uma vez que cada um partiria
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de considerações distintas. No agir acrático o agente age segundo uma razão


acrática (juízo parcial).
Aqui, a situação passa a ficar mais complicada. Isso porque, para
Davidson, são as razões que causam e explicam (racionalmente) as ações de
qualquer agente. Assim, quando se explica a ação de um agente, ao mesmo
tempo se aponta as razões, que permitem compreender a razão, e se diz que as
razões são a causa do comportamento do agente. No entanto, quando dizemos
que alguém age segundo uma razão acrática, estamos apenas a explicar que a
ação é causada pelo juízo parcial, mas não compreendemos qual a razão que
faz com que o agente abandone o princípio racional de agir segundo o seu
melhor juízo. Para que esse fosse o caso, o juízo parcial do agente acrático
deveria ao mesmo tempo causar a ação e causar o abandono desse princípio
racional.
Para esse problema corolário, a solução de Davidson é dizer que o
agente, na acrasia, sofre como que uma cisão de sua mente, que passa a
funcionar como se fossem mentes distintas, assim permitindo que o agente aja
segundo sua razão acrática e abandone o princípio racional segundo o qual
deveria agir conforme o seu melhor juízo. O problema, no entanto, parece
permanecer, porque a explicação satisfatória do agir acrático deveria dizer,
nesse caso, como é possível que o agente racional aja segundo um juízo parcial
e deixe de levar em conta o seu melhor juízo.

2. Explique qual é o problema da akrasia segundo


Aristóteles.
A posição de Aristóteles acerca da acrasia é dada como uma resposta à
tese socrática de que não seria possível o agir acrático. Para Aristóteles, a
acrasia seria o oposto da continência. Enquanto que um agente continente
controlaria seus “apetites excessivos”, o agente acrático, não. Dessa forma, a
acrasia, em Aristóteles, se daria pela falta de autocontrole do agente.
Para Aristóteles, os apetites excessivos do agente causariam uma falha
cognitiva no agente, uma espécie de ignorância. Esta, por sua vez, depende da

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distinção entre conhecimento potencial e conhecimento atual, ou poderíamos


denominar “ocorrente”. A falha cognitiva, causada pelos desejos do agente, faz
com que o melhor juízo do agente fique em um estado potencial, que é
semelhante, no exemplo dado por Aristóteles, a um estudante que enuncia
corretamente uma matéria que ainda não aprendeu. Assim, na acrasia para
Aristóteles, os desejos como que ofuscam a plena capacidade cognitiva do
agente e permitem que ele pratique ações contrárias ao que crê ser a melhor
forma de agir.
Por fim, cabe enunciar a distinção entre a concepção de Aristóteles e a
de Davidson, no sentido de que o primeiro explica a acrasia de uma forma mais
racionalista e, o segundo, explica que a acrasia se deve mais a um conflito entre
razão e desejo.

3. Crenças do agente podem influenciar desejos do


agente? E desejos podem influenciar crenças?
A concepção de que as crenças de um agente podem influenciar os seus
desejos é plausível, porque parece se sustentar no fato de que quando
acreditamos que algo é o melhor a ser feito, sentimo-nos, em certo grau,
motivados a fazer esse algo. Além disso, também parece que quando
acreditamos e fazemos o que achamos ser melhor, por exemplo, praticar
exercícios, com o tempo – ainda que no começo não tenhamos nos sentido
assim –, passamos a sentir uma motivação espontânea a praticar exercícios, o
que, coloquialmente, dizemos por meio da expressão “força do hábito”.
Por outro lado, parece até mais plausível (e trivial) a via oposta. Nessa, o
agente seria levado a crer algo, porque deseja, como alguém que deseja comer
e, por ter esse desejo, passa a crer que deseja comer. É, assim, mais próxima
do nosso cotidiano a ideia segundo a qual podemos influenciar nossas crenças
por meio dos nossos desejos.
Casos mais complexos surgem, no entanto, quando consideramos, casos
em que um agente sabe que precisa tomar tal atitude, ainda que possua um
desejo contrário, e pratica essa atitude. O mesmo vale para a via oposta – e que

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consiste na ação acrática -, em que um agente, apesar de saber que precisa


tomar tal atitude, pratica outra, em função de um desejo excessivo. Essa,
inclusive, é a forma que Aristóteles se utiliza para explicar a ação acrática, como
visto.

4. Qual teoria você considera que explica melhor qual é o


problema da akrasia?
A teoria aristotélica, ainda que de certo modo falha, parece superior à de
Davidson, pelo simples fato de que a tese davidsoniana aparentemente exclui o
papel dos desejos como motivação das ações de um agente. Davidson, nesse
sentido, parece exagerar o papel racional atribuído aos seres humanos e, com
isso, deixa de explicar as ações de crianças muito pequenas, que não são seres
racionais ideais. De outro modo, como Davidson explicaria que são causadas as
ações dos bebês? Por ainda não disporem de razões, os bebês não poderiam
causar suas ações, o que não parece incomodar Davidson.
Por sua vez, ainda que mais completa, a tese de Aristóteles, ao meu ver,
parece ter dificuldades em explicar o que realmente causa as nossas ações se
somos capazes de nos entregar aos nossos “apetites excessivos”. Se,
realmente, os apetites são capazes de suplantar as nossas razões para agir de
um certo modo, que papel causal poderíamos atribuir, de fato, a nossa
capacidade racional? Ficamos com dificuldade de explicar esse fenômeno ainda
com o recurso à interpretação de Santos de Aristóteles (vista anteriormente),
quando aquele diz que, na acrasia, há uma espécie de distorção da percepção
em que “as falsas aparências ganham credibilidade”, influenciando o nosso
desejo, que, por sua vez, nos faz crer “que aquelas coisas são realmente boas,
tornando assim o desejo por elas mais forte e decisivo”. De acordo com essa
explicação, se a crença que contraria o nosso melhor juízo foi causada pelo
desejo que, por sua vez, foi causado por uma distorção da percepção,
estaríamos de certa forma fadados a praticar ações acráticas, sem que a nossa
faculdade racional possa fazer algo a respeito. Assim, ao fazer parecer que, na
ação acrática, deixamos de ser agentes efetivamente racionais, a teoria

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aristotélica também passa a apresentar dificuldades em explicar a continência,


pois parece que só somos continentes quando o desejo não foi de fato forte o
suficiente, e que, caso fosse, nada poderíamos fazer ao seu respeito, a não ser
atendê-lo.